segunda-feira, janeiro 05, 2026

NOITE VAZIA



Gosto de começar o ano com um filme especial. Uma obra-prima, o trabalho de um diretor de renome ou a revisão de um título que há tempos eu devia a mim mesmo. Há tempos queria rever NOITE VAZIA (1964), mas ficava esperando uma cópia nova remasterizada, coisa que parece que não aconteceu ainda (a exibição em 2023 da filmografia completa de Khouri não trouxe o filme em DCP, mas em 35mm, pelo que consta no catálogo da Cinemateca Brasileira). 

Eis que resolvi revê-lo como está, e de certa forma gostei de ver assim, com o som dos ruídos de película bastante rodada captada pela telecinagem. O ruído funciona como um complemento involuntário à trilha sonora magistral de Rogério Duprat, que enfatiza a marca do realizador, acentuando a angústia e o vazio de seus personagens. NOITE VAZIA junta o filme masculino de homens à caça de mulheres, como O CONVITE AO PRAZER (1980) quanto o filme de mulheres profissionais do sexo, como seria o caso de O PALÁCIO DOS ANJOS (1970).

Ver NOITE VAZIA nesta cópia surrada para os padrões de hoje foi como ouvir música num vinil usado e com saltos. Foi também bom para acentuar ainda mais a escuridão daquela São Paulo triste representada nas ruas (mal se vê as pessoas, apenas suas sombras). E falando em sombras, que maravilha que é ver cada imagem dos rostos dos personagens, como se pinturas vivas, embora às vezes não tão vivas assim, como é o caso do personagem de Gabriele Tinti, um homem que sai à noite com o amigo mulherengo (Mário Benvenutti) mais para aplacar algum tipo de vazio que o atormenta. Quanto mais expressivos e depressivos são os personagens, mais Khouri privilegia suas expressões, mais trabalha com as sombras para dar forma àquelas almas.

O filme ganha ainda mais força com a entrada em cena das duas garotas de programa, uma mais cínica e prática, vivida por Odete Lara, e a outra mais tímida e sensível, vivida por Norma Bengell. A ida dos quatro para o garçonnière de Luisinho (Benvenutti) traz tanto enfrentamentos quanto tédio. Há uma relação de poder que existe entre eles, assim como há certo orgulho por parte de Regina (Lara), mesmo que na condição de não ter um futuro incerto, tendo a vida que levam.

Entre frustrações, tédio, atritos, desejos e até momentos de contentamento, como na cena da chuva, acompanhamos esses personagens como num misto de excitação e desassossego. Ao mesmo tempo, vemos com encantamento as escolhas de enquadramento de Khouri, seja através de close-ups, principalmente para capturar os olhos desses personagens, seja para explorar o apartamento e a própria São Paulo coberta de escuridão.

+ TRÊS FILMES

DE CERTA MANEIRA (De Cierta Manera)

É uma pena que a chance que se tem de ver obras como esta no cinema, e ainda em cópia nova remasterizada, não seja devidamente valorizada. Havia bem poucas pessoas na sala de cinema ontem, mas imagino que todas elas saíram pelo menos um pouco impressionadas com o que viram, com esse tipo de dramaturgia bem pouco contaminado com o estilo hollywoodiano, dado o distanciamento de Cuba com os Estados Unidos, naqueles anos pós-revolução, na década de 1970. Apesar de ser um filme que já apresenta o capitalismo como criador dos males, não evita de apresentar também as dificuldades por que Cuba estava passando, especialmente em certas cidades menores, como a mostrada (e por isso o filme foi liberado tão tarde, por causa da censura, e talvez com cortes). O que mais me tocou em DE CERTA MANEIRA (1975) foi o drama da professora ao ter que lidar com alunos rebeldes, interessados e encrenqueiros. Daí entra a performance de Yolanda Cuellar, como essa jovem mulher que havia migrado para aquela cidade menor e mais problemática. Há também um foco (crítico) no sistema educacional então adotado: as crianças só estudavam até o sexto ano e depois iam para o mercado de trabalho, o que certamente foi algo que mudou nos anos seguintes. Também chama a atenção o estilo de montagem. Sara Gómez muitas vezes sai de um campo-contracampo com close-ups ágeis (que lembram às vezes ACOSSADO, de Godard) para um plano geral. O filme une a ficção com o documental e isso já aparece anunciado já nos créditos, e o filme ganha muito em verdade quando vemos uma não-atriz, contando sobre seu filho para a professora, sobre o quanto o menino a ajuda, embora seja desinteressado para os estudos. Havia em casa ainda a pedagogia da chinelada, o que nem sempre ajudava, na verdade. Na trama principal, vemos o relacionamento entre essa professora e um operário de fábrica. Comparando com o cinema brasileiro, vejo algo de RIO, 40 GRAUS, de Nelson Pereira dos Santos, embora aqui tenhamos um cinema um pouco mais lírico. A invasão do mundo real na ficção também se mostra muito feliz na cena do cantor, que ainda por cima também ajuda a valorizar o cenário musical cubano. Acredito que Sara Gómez teria se tornado mais famosa se não tivesse morrido tão cedo, aos 31 anos de idade, em 1974, antes do lançamento de seu filme.

9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR (Nine 1/2 Weeks)

A lembrança que eu tinha de 9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR (1986) não era das melhores, mas sempre tive curiosidade de rever até para ver se ele melhorou com o tempo. Acaba valendo mais como um documento dos anos 1980, da Nova York multi-étnica da época, do ser yuppy após o fim definitivo do movimento hippie e também de um visual de videoclipe que muitos críticos torciam o nariz, mas que deixava o filme com a cara da época, inclusive com direito a canções como “Slave to Love” (Bryan Ferry) e “You Can Leave Your Hat on” (Joe Cocker), que toca na cena mais famosa, a do striptease da personagem de Kim Basinger, sob o sorriso de entusiasmo do personagem de Mickey Rourke. Aliás, as cenas do personagem gargalhando com as cenas supostamente mais picantes são um bocado constrangedoras. Como são várias outras, na verdade. O engraçado é que gosto dos filmes do Adrian Lyne dos anos 1990-2000: ALUCINAÇÕES DO PASSADO (1990), PROPOSTA INDECENTE (1993), LOLITA (1997), INFIDELIDADE (2002). Talvez ele tenha melhorado seu ofício, deixado de usar uma montagem tão incomodamente de videoclipe como é o caso de 9 1/2…. Outro problema que vejo no filme vem da carga erótica, que eu sei que é algo muito subjetivo, mas filme que pressupõe ativador da libido e não conseguir animar muito o espectador é mau sinal. Gosto da primeira cena dos olhos vendados, mas as demais, não apenas por mostrar os traços mais doentios (entre aspas, talvez?) do personagem masculino, mas todas as demais cenas são despidas de tesão. Ou talvez até tenha funcionado lá atrás, pra quem não estava acostumado com bom erotismo no cinema. Além do mais, eis mais um filme americano que mostra o sexo mais como algo doentio e preocupante do que algo saudável e necessário para a vida. Disponível na Mubi.

O DIABO VESTE PRADA (The Devil Wears Prada)

Algumas comédias leves revelam-se, com o tempo, pequenos clássicos. É o caso de UMA LINDA MULHER e é o caso também de O DIABO VESTE PRADA (2006), de David Frankel, que vai ganhar uma sequência quase 20 anos depois do original. Acabei revendo pois era um filme que a Giselle tinha interesse em ver, mas acabei me surpreendendo positivamente com a revisão. Gostei mais agora, com o passar do tempo. Há algo de contraditório no filme: ao mesmo tempo que parece interessado no mundo da moda, quer desprender-se dele. Mais ou menos como a personagem de Anne Hathaway, na época jovem demais para ser tida como um grande talento do cinema americano, como é hoje. Ainda assim teve que dividir o protagonismo logo com quem: Meryl Streep, no papel de Miranda, a chefe de uma agência de moda (ou algo parecido) cujo tratamento com seus subordinados é inclassificável. Mesmo assim, nota-se um respeito das duas protagonistas ao se encararem na última cena. O filme é tanto uma ida ao inferno do mundo das vaidades, quanto um aprendizado para a jovem jornalista. Ponto alto do filme: a puxada de tapete de Miranda no jogo de sobrevivência.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

TOP 20 2025 E O BALANÇO DO ANO





1. O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho
2. MISERICÓRDIA, de Alain Guiraudie
3. A ARTE DO CAOS, de Thomas Arslan
4. OESTE OUTRA VEZ, de Erico Rassi




5. DREAMS, de Dag Johan Haugerud
6. FAÇA ELA VOLTAR, de Danny e Michael Philippou
7. SONHOS DE TREM, de Clint Bentley
8. SORRY, BABY, de Eva Victor




9. FLOW, de Gints Zilbalodis
10. A HORA DO MAL, de Zach Cregger
11. TWINLESS – UM GÊMEOS A MENOS, de James Sweeney
12. ANORA, de Sean Baker




13. NOSFERATU, de Robert Eggers
14. THE MASTERMIND, de Kelly Reichardt
15. O QUE A NATUREZA TE CONTA, de Hong Sang-soo
16. UMA BATALHA APÓS A OUTRA, de Paul Thomas Anderson




17. A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA, de Francis Lawrence
18. A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA, de Vera Egito
19. BEATING HEARTS, de Gilles Lelouch
20. PECADORES, de Ryan Coogler

Menções Honrosas (em ordem alfabética)

CONCLAVE, de Edward Berger
DROP – AMEAÇA ANÔNIMA, de Christopher Landon
HOMEM COM H, de Esmir Filho
MANAS, de Marianna Brennand
MORRA, AMOR, de Lynne Ramsay
O BRILHO DO DIAMANTE SECRETO, de Hélène Catet e Bruno Forzani
O ÚLTIMO AZUL, de Gabriel Mascaro
PEDAÇO DE MIM, de Anne-Sophie Bailly
SOL DE INVERNO, de Hiroshi Okuyama
TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO, de Johan Grimonprez

O ano de 2025 não foi fácil. Talvez para ninguém. Vivemos “uma batalha após a outra” num ano que já começou estranho, com uma atmosfera pesada no ar. (Não acho uma coincidência a palavra “batalha” aparecer em dois dos títulos presentes, enquanto a palavra "sonhos/dreams" em mais dois e há também a palavra “misericórdia” ajudando a compensar um pouco.) Logo no mês de janeiro recebemos a triste notícia da partida de David Lynch. E isso me atingiu como a partida de um amigo querido. Foi como se, sem Lynch neste plano, o que havia de engraçado e até de leve nos aspectos mais densos da nossa vida passasse a não mais existir. Mas sei que isso foi só uma breve impressão negativa que tive. Afinal, a vida continua e Lynch segue vivo na arte, essa sim, tem prazo de validade quase eterno. Ou pelo menos enquanto este mundo ou a humanidade durar.

No campo pessoal, as coisas mudaram bastante para mim na rotina do lar, do meu lar de então, com minha mãe sendo hospitalizada e passando vários dias no hospital, e voltando para casa mais frágil e mais carente da atenção dos filhos. Com meu ensaio para sair de casa para morar com a Giselle, esse evento com minha mãe acabou por fazer com que eu visse a saída como uma necessidade imediata de mudança. Afinal, minha mãe tem quatro filhos e minhas irmãs deveriam passar a colaborar mais ativamente num esquema de revezamento.

Que tem dado certo, assim como tem dado certo demais a minha primeira experiência morando com alguém. Demorou, né? Mas tinha que ser com ela, sendo a Giselle alguém tão especial para mim, que considero o mais próximo de uma alma gêmea que possa haver em minha existência. Assim, fico feliz de ter conseguido transformar o “terrível ano de 2025” no “adorável ano de 2025”. Feliz de ter conseguido vencer os monstros interiores, principalmente uma “paralisia” parecida com a dos personagens de Dublinenses, do Joyce. Foi uma vitória e tanto. E por isso vejo esta virada de ano como a mais feliz de minha vida. Para isso agradeço a Giselle, mas também a meu analista, o Dr. Fabrício.

Como sabemos (e essa é a hora que começo a falar um pouco dos filmes), muitos monstros habitam dentro de nós. E esses tempos de ansiedade generalizada têm feito com que alguns realizadores busquem lidar com essas questões em seus trabalhos, como foram os casos de SORRY, BABY, ao tratar de depressão e suicídio de maneira delicada, enquanto SONHOS DE TREM lida com o que resta da vida de um homem após uma grande perda. TWINLESS – UM GÊMEO A MENOS também lida com uma perda e, paralelamente, com uma tentativa de aproximação, assim como DREAMS é um exemplar de como a perda e a posterior tristeza podem também funcionar como combustível para o crescimento de uma pessoa que passou por uma desilusão amorosa. Com exceção desse último, que é norueguês, os outros três vêm do cinema independente americano, que tem se mostrado espiritualmente rico, ao reverberar as angústias da sociedade contemporânea.

A figura do perdedor também se manifesta em pelo menos mais dois filmes desse top 20: o sul-coreano O QUE A NATUREZA TE CONTA e o americano THE MASTERMIND, de dois realizadores deste novo século. Um deles apresenta um homem que acredita ser um poeta, quando na verdade está abaixo da mediocridade; e o outro imagina ser uma grande mente criminosa capaz de efetuar um inteligente roubo num museu. O cinema brasileiro também toca na ferida de algo que aflige especialmente os homens: a solidão após ter sido deixado pela mulher amada, com OESTE OUTRA VEZ. Mas não apenas isso: convida a refletir sobre a incompetência e a brutalidade masculinas em embate com uma sensibilidade que existe, mas que nem sempre está de fácil acesso. Junto com o brasileiro, temos três filmes que lidam com certa fragilidade masculina, por mais que a poética dos realizadores seja completamente distinta.

O fracasso também surge em outras duas produções bastante aclamadas em premiações: o conto de fadas às avessas ANORA e o filme de ação com misto de comédia de erros UMA BATALHA APÓS A OUTRA. É interessante ver esse tipo de filme se destacando num momento em que os filmes de super-heróis estão em baixa, ou filmes com homens musculosos em missão. (Aliás, não vou falar deles, mas até os filmes de super-heróis deste ano também entraram nesta vibe.)

Entre os vinte filmes, até as histórias de amor ganharam um sabor agridoce, como é o caso de BEATING HEARTS, um mix de filme de gângster com história de amor. Já A ARTE DO CAOS, policial alemão com um ar de polar (francês) e grande cinema, tanto em seu aspecto plástico, quanto na condução da trama e da ênfase na solidão do herói, um ladrão profissional. Falando em crime e lembrando de Lynch e do surrealismo tão comumente relacionado a Lynch, este tipo de filme com ares de sonho segue presente em outros trabalhos de peso, como foi o caso do incrível MISERICÓRDIA, uma comédia de mistério à Buñuel, mas com a característica queer comumente presente nos trabalhos de seu realizador.

Quanto ao cinema brasileiro, que tem uma tradição mais realista, o fantasma da ditadura ainda segue assombrando, mas também servindo de combustível para a criatividade de grandes realizadores. E, nesse sentido, tivemos a honra de ver no cinema filmes de grande pujança como O AGENTE SECRETO e A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA, ambos sobre os anos de chumbo. Um deles está conquistando grande reconhecimento mundial; o outro precisa ser mais conhecido e é elaborado em planos-sequência incríveis. Inclusive, estreou perto de outra obra que pôs holofotes sobre o uso do plano-sequência, a minissérie ADOLESCÊNCIA, uma das poucas produções para a televisão que vi neste ano (por isso não haverá um top 5 séries e minisséries neste ano).

Quanto ao cinema de gênero, em especial o cinema de horror, que sempre terá um carinho especial neste blog, felizmente tivemos filmes de grande magnitude, que abordam tanto o roubo de valores espirituais e artísticos (PECADORES), quanto o luto e a culpa (FAÇA ELA VOLTAR), os medos sociais (A HORA DO MAL), o desejo e a obsessão (NOSFERATU) e a normalização da violência como mecanismo do estado (A GRANDE MARCHA - CAMINHE OU MORRA). Todos eles usam o horror físico ou sobrenatural como ferramentas para a construção de narrativas envolventes e arrepiantes.

O horror também aparece numa das melhores animações do novo século, FLOW, sobre um gatinho preto e seus amigos também animais tentando sobreviver a um mundo pós-apocalíptico. É o horror de ver os inocentes tendo que lidar com nossa irresponsabilidade.

Top 5 – Musas do Ano

Para não dizer que só falei de terror e de filmes depressivos, lembremos da beleza da mulher no cinema. E por mais que já tenham me dito para fazer um top 5 de “musos” também, não vai ser desta vez, não. Lembrando, claro, que minha grande musa de verdade é a Giselle, meu grande amor, mas não custa manter a brincadeira tradicional, até para destacar outros filmes não citados antes e que merecem a lembrança.



Monica Barbaro foi uma revelação deste ano, inclusive indicada a melhor atriz coadjuvante no Oscar 2025. Ela aparece em UM COMPLETO DESCONHECIDO interpretando a cantora Joan Baez. E encanta sempre que surge na tela.



A sempre linda Elle Fanning também está em UM COMPLETO DESCONHECIDO, como a namorada de Bob Dylan, mas ela também aparece em mais dois filmes de destaque, PREDADOR – TERRAS SELVAGENS e VALOR SENTIMENTAL. Fanning já é conhecida nossa deste muito jovenzinha e segue fazendo uma carreira notável.



Dakota Johnson teve um ano muito bom, com duas comédias ótimas: AMORES MATERIALISTAS e AMORES À PARTE. Ambas merecem ser vistas, principalmente a segunda, com uma pegada mais indie e adoravelmente estranha.



Luc Besson é um diretor famoso por revelar jovens e belas atrizes e neste ano ele mostrou pra gente Matilda Price, que encarnou uma espécie de femme fatale às avessas na gostosa aventura romântica JUNE & JOHN.



Inga Ibsdotter Lilleaas, essa moça de nome complicado de escrever, apareceu num dos filmes mais badalados do ano, VALOR SENTIMENTAL, e espero que ela alcance ainda mais sucesso. Sua beleza remete às heroínas de um quadrinista que sabe desenhar mulheres muito bonitas, Frank Cho. Sem falar na presença de cena da atriz, que também é incrível.

Clássicos Vistos ou Revistos na Telona

AS DUAS INGLESAS E O AMOR, de François Truffaut
CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch
DE CERTA MANEIRA, de Sara Gómez
IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna
JEANNE DIELMAN, de Chantal Akerman
NOTÍCIAS DE CASA, de Chantal Akerman
ONDA NOVA, de José Antonio Garcia e Ícaro Martins
PARIS, TEXAS, de Wim Wenders
PRINCESA MONONOKE, de Hayao Miyazaki
SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS, de David Fincher
TUBARÃO, de Steven Spielberg

Melhores Não-Lançamentos Vistos pela Primeira Vez na Telinha

A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA, de Roberto Santos
A SEMANA DO ASSASSINO, de Eloy de la Iglesia
CÉU E INFERNO, de Akira Kurosawa
COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA, de Jack Hill
CORAÇÕES LOUCOS, de Bertrand Blier
FILME DE AMOR, de Julio Bressane
FRANKENSTEIN TEM QUE SER DESTRUÍDO, de Terence Fisher
GAROTO, de Julio Bressane
MORTOS QUE CAMINHAM, de Samuel Fuller
NÃO SE DEVE PROFANAR O SONO DOS MORTOS, de Jorge Grau
NO UMBRAL DA CHINA, de Samuel Fuller
O COMBOIO DO MEDO, de William Friedkin
O SEGREDO DAS JOIAS, de John Huston
OS DESAJUSTADOS, de John Huston
OS IMPLACÁVEIS, de Sam Peckinpah
PREMONIÇÃO, de Lucio Fulci
RENEGANDO MEU SANGUE, de Samuel Fuller
SOMBRAS DO MAL, de Jules Dassin
TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, de Alan J. Pakula
VONTADE INDÔMITA, de King Vidor

Revisões na Telinha

9 E ½ SEMANAS DE AMOR, de Adrian Lyne
A ESPIÃ, de Paul Verhoeven
A ESTRADA PERDIDA, de David Lynch
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, de Frank Capra
ANTICRISTO, de Lars von Trier
DE OLHOS BEM FECHADOS, de Stanley Kubrick
HARRY E SALLY – FEITOS UM PARA O OUTRO, de Rob Reiner
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA, de Woody Allen
O DIABO VESTE PRADA, de David Frankel
O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, de Boaz Davidson

Feliz ano novo!!

Que 2026, ano regido por Júpiter, da sorte e da expansão, seja um ano generoso e que traga ventos de muito amor, paz, prosperidade, saúde, força para superar os desafios e bastante tempo para fazer aquilo que amamos. Abraços a todos os leitores deste blog.

domingo, dezembro 21, 2025

VALOR SENTIMENTAL (Affeksjonsverdi)



Senti um desapontamento bem considerável com este filme do Trier. Não tanto por admirar sua obra - só havia visto dele MAIS FORTE QUE BOMBAS (2016) e A PIOR PESSOA DO MUNDO (2021), que são filmes de que gostei, mas que não permaneceram fortes em minha memória afetiva -, mas por todo esse hype que está se tendo por VALOR SENTIMENTAL desde sua recepção em Cannes.

Não consegui me conectar emocionalmente com o filme e comecei a pensar nele como aquelas produções tediosas e esquecíveis que eram indicadas ao Oscar nos anos 80 e 90, sem muito brilhantismo, embora não faltasse certo luxo.

Neste aqui até temos uma atriz hollywoodiana muito querida, Elle Fanning, como se para validar para os americanos ou para chamar-lhes a atenção. No entanto, Fanning está bem apagada, e pelo menos em determinado momento da narrativa isso chega a ser funcional. Fanning é trazida como um enfeite bonito de um cineasta frustrado com sua própria carreira, mas também com seu fracasso como pai. Quando ela pinta o cabelo de preto, até lembramos de UM CORPO QUE CAI, tão referenciado por outros tantos cineastas, mas é só mais uma de outras referências de um cinema frágil. A referência a PERSONA, do Bergman, é tão explícita quanto desnecessária.

Se o filme é sobre controle, ou falta de controle de um cineasta, acaba chamando a atenção pela falta de um rigor formal que valorize a encenação. A crítica à Netflix é válida, mas bem menos válida do que quando sai da boca de um Nanni Moretti, que faz isso tão bem em O MELHOR ESTÁ POR VIR. 

As cenas com Stellan Skarsgård são estéreis, carecem de vigor (ou mesmo de melancolia genuína) e o próprio personagem é desinteressante. Já as duas irmãs têm uma dinâmica que quase salva o filme, principalmente graças à interpretação de Inga Ibsdotter Lilleaas, atriz que até então desconhecia, mas que me deixou atento em cada momento que entrava em cena.

Nem Renate Reinsve conseguiu, repetindo aqui a parceria que fez com Trier. Se em A PIOR PESSOA DO MUNDO ela se saiu muito bem como aquela mulher que machuca as pessoas não necessariamente por maldade, aqui ela, como alguém machucada pelo pai, não me pareceu tão eficiente em trazer empatia por sua personagem. De todo modo, gosto da cena inicial, do ataque de pânico nos bastidores de uma tragédia a ser encenada no teatro. Talvez isso queira representar algo sobre o que o filme pretendia, sobre sua paralisia diante da vida e das relações amorosas (a personagem tinha um potencial ótimo a ser explorado), mas não creio que tenha havido um resultado final satisfatório.

Ou seja, é como se houvesse dois filmes ali se debatendo: um interessante e cheio de potencial, sobre as duas irmãs que perderam a mãe e agora precisam lidar com a presença do pai, então ausente; e um desinteressante, sobre esse cineasta veterano em busca de um último trabalho muito pessoal.

+ TRÊS FILMES

SORRY, BABY


Tenho achado incrível o quanto tem surgido uma nova leva de jovens realizadores com a capacidade de lidar com dores profundas com humor e delicadeza. Mais recentemente vi obras de James Sweeney e Cooper Raif, e ver logo em seguida este SORRY, BABY (2025), estreia na direção de Eva Victor, foi muito enriquecedor. Não é que o filme de Victor fuja dos temas duros de estupr0, su1cídio e depressã0. Eles estão lá o tempo todo. Mas o modo como isso é tratado é de uma beleza incrível. O próprio cartaz, com a diretora/protagonista segurando um gatinho, surgido na rua num momento em que ela passa por uma situação difícil, é representativo dessa beleza que o filme quer mostrar, apesar das sombras. Inclusive, o momento do ocorrido que deixa a heroína traumatizada também é contado de modo inteligente, delicado e formalmente rico. O filme começa com uma conversa entre duas melhores amigas, Agnes (Victor) e Lydie (Naomie Ackie), sobre o quanto suas vidas na época da faculdade foram horríveis, para depois nos levar para aqueles anos. De vez em quando o filme toca no assunto do su1cídio, ainda que sutilmente, seja quando Agnes anda pelos corredores da universidade, seja na própria citação a Virginia Woolf, escritora célebre que tirou a própria vida. Então, é como se houvesse uma sombra pairando no ar. No entanto, Eva Victor, que faz lembrar em seus traços Phoebe Waller-Bridge, inclusive no senso de humor, faz com que a luz entre para cuidar com carinho desses seus personagens. Cada cena que poderia ser descrita como pouco importante tem uma carga poderosíssima: a conversa de Agnes com o homem que vende sanduíche, a conversa com o namorado na banheira, ela falando com o bebê da amiga etc. Lindo demais.

SONHOS DE TREM (Train Dreams) 

As primeiras imagens de SONHOS DE TREM (2025) já causam maravilhamento. A janela estreita em 1,46:1 valoriza a altura das árvores, a imensidão daquela natureza que parece ir até as nuvens, parece deixar cada ser humano ali muito pequeno. Então, o que sentimos é um misto de angústia pelo drama do protagonista e de alegria por tanta beleza visual - a direção de fotografia é do brasileiro Adolpho Veloso, de RODANTES, mas também do primeiro longa de Clint Bentley, o praticamente desconhecido JOCKEY (2021). E vendo essa maravilha que é SONHOS DE TREM, logo fica na cabeça a pergunta: quem é esse Clint Bentley? Por que ele faz um tipo de cinema parecido com Terrence Malick, mas melhor que o próprio Malick? Há também imagens que lembram a luz dos filmes de John Ford, e saber da luz natural captada pode trazer à mente BARRY LYNDON, do Kubrick. Na trama, Joel Edgerton é um operário ferroviário que se casa com uma mulher feliz e entusiasmada com a vida, interpretada por Felicity Jones. O romance dos dois, desde o começo, é enternecedor. Torcemos pelo sucesso do relacionamento e da vida dos dois, naquela cabana situada no meio da floresta e próxima a um rio. Parece o cenário de um sonho, mas há também um problema, nem tudo são flores para aquele espaço paradisíaco. Quando vemos SONHOS DE TREM, por maior que seja a TV, ficamos sempre pensando em como seria vê-lo na telona, mais ou menos como aconteceu quando vi TÁR na telinha, mas esse tive a chance/provilégio de ver na telona. Esse aqui, a Netflix faz um impedimento, o que é uma pena. Por outro lado, é um trabalho tão belo, que estar no serviço de streaming mais popular do mundo pode ser uma chance para que mais pessoas entrem em contato com essa obra, que deixa a gente vendo os créditos finais com os olhos brilhando. Vale destacar também a presença de atores coadjuvantes muito bons em cenas comoventes, como Paul Schneider, William H. Macy e Kerry Condon. Além do mais, ouvir a voz do narrador (Will Patton) é tão bom quanto ler alta literatura. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida.

TWINLESS - UM GÊMEO A MENOS (Twinless)

A indicação de TWINLESS - UM GÊMEO A MENOS (2025) ao Independent Spirit Awards 2026 chamou a atenção de parte da plateia para o (tímido) lançamento do filme no Brasil. Por sorte, este segundo longa de James Sweeney estreou numa sala de Fortaleza em duas sessões diárias. O ideal é ver o filme sabendo o mínimo possível a respeito da trama, já que, logo após o prólogo, já somos presenteados com uma surpresa relativa a um dos protagonistas, e que estabelecerá a dinâmica da narrativa a partir de então. Sobre a trama, o que posso dizer é que se trata da história de amizade de dois rapazes que se conhecem num grupo de apoio a pessoas enlutadas que perderam seus irmãos ou irmãs gêmeos. O aspecto trágico do filme remete aos melodramas clássicos, aos quais artistas tão distintos quanto Almodóvar e Fassbender beberam da fonte, mas há algo de mais contido e também de mais melancólico, típico dos dramas indies. Então, os arroubos melodramáticos do cinema clássico são substituídos pelo tom depressivo que permeia não apenas a história dos dois rapazes, mas também de uma terceira personagem que será fundamental para uma mudança de rumo do enredo. A história de amizade é improvável pois um dos personagens é gay (Sweeney) e o outro é um hétero agressivo e meio ignorante, embora muito gentil (Dylan O’Brien, de MAZE RUNNER). O que torna o personagem hétero mais próximo do personagem gay vem do fato de seu irmão falecido ser gay e ele havia estado distante do irmão por preconceito e revolta. Nesse sentido, o filme se apresenta muito sensível ao drama desses personagens, assim como muito simpático à personagem feminina de Aisling Franciosi. Já vejo TWINLESS como uma das melhores surpresas deste ano e torço para que mais pessoas possam conferi-lo.

sábado, novembro 29, 2025

OS IMPLACÁVEIS (The Getaway)



Estava na lavanderia botando umas roupas para secar quando terminei de ler o capítulo sobre OS IMPLACÁVEIS (1972), escrito por Quentin Tarantino para seu delicioso livro Especulações Cinematográficas. Fiquei arrepiado com o modo como Tarantino encerra seu texto em homenagem ao filme de Sam Peckinpah, enaltecendo-o como uma história de amor, mais do que como um thriller de assalto e fuga. E ele faz isso fazendo também comparações com o romance de Jim Thompson que serviu de base para a adaptação, a partir de roteiro escrito por Walter Hill. Isso porque, enquanto no romance o escritor busca separar o casal Doc e Carol, inclusive fazendo com que eles terminem sua jornada numa espécie de inferno, Peckinpah e Hill buscam o tempo todo uni-los, apesar de todos os obstáculos que se apresentam em seu caminho, sendo que um deles é extremamente doloroso para o ego de macho ferido do personagem de Steve McQueen. Ou seja, há um amor do realizador por seus anti-heróis, resultando numa conclusão que jamais seria possível na época da velha Hollywood, no tempo do Código Hays.

E falando em velha Hollywood, Tarantino também faz uma excelente alegoria entre o personagem Doc e os diretores do antigo sistema de estúdios, que eram obrigados a trabalharem com quem não gostavam. Segue texto de Tarantino:

Sam Peckinpah é Doc McCoy. Um diretor e roteirista dentro de uma cela da prisão do cinema, incapaz de conseguir um trabalho. Beynon, um executivo de estúdio que ele odeia, quer que Sam faça um filme. O executivo representa tudo que o diretor mais odeia, mas é o único que pode contratá-lo. O único capaz de abrir a porta da cela da prisão em que ele está. A esposa de Doc negocia um acordo para que o filme seja realizado. Doc escreve o roteiro do filme, Beynon o obriga a trabalhar com pessoas que ele não quer (Rudy e Jackson) e deixa bem explícito que o contratado não tem escolha. Devido a esses incompetentes inferiores, o filme acaba sendo um desastre, e o diretor é apontado como culpado pelo executivo, que o colocou, desde o começo, numa posição em que só poderia fracassar.

Havia um bom tempo que não via um filme de Sam Peckinpah– o último foi provavelmente PARCEIROS DA MORTE (1962), seu primeiro longa-metragem para cinema, visto em 2006 e comentado rapidamente aqui no blog. Quem me trouxe de volta para o cinema do realizador foi justamente Tarantino, ao dedicar capítulo especial a OS IMPLACÁVEIS, com os astros Steve McQueen e Ali McGraw. Eu até tentei ler o texto sobre o filme sem vê-lo, mas logo percebi que havia detalhes demais para passar pela leitura do capítulo sem ver a obra cinematográfica.

McQueen foi um de meus heróis da infância, já que no meu período pré-cinefilia adorava quando passava FUGINDO DO INFERNO na televisão. Já Ali McGraw vinha do sucesso de LOVE STORY – UMA HISTÓRIA DE AMOR, de Arthur Hiller, filme que eu lembro de ter uma lembrança vaga na minha adolescência, da experiência de ter chorado o vendo. A química entre os dois atores é tão boa que faz todo o sentido que eles tenham namorado durante as filmagens. E faz ainda mais sentido quando vemos o quanto a trajetória de McGraw se assemelha a de sua personagem, com a questão da traição envolvida. 

No caso do filme, nem chega a ser uma traição – teria sido mais um sacrifício, embora haja dubiedade. Lembremos que Peckinpah adora dubiedades em suas personagens femininas, ainda mais se pensarmos numa certa cena polêmica de SOB O DOMÍNIO DO MEDO (1971), seu incrível filme anterior. Mas, na vida real, McGraw estava traindo o chefão da Paramount, Robert Evans, então seu esposo. Foi Evans que desde o começo queria McGraw no elenco. E, curiosamente, McQueen não ia muito com a cara da atriz e não a via como a ideal para o papel.

Acho lindo quando Tarantino faz uma declaração de amor à atuação de McGraw, que é a alma do filme, mais que o próprio McQueen. Citando Tarantino novamente:

Ainda que não seja a personificação de uma ladra profissional à mão armada, o que ela representa, minuto a minuto, cena após cena, é a realidade emocional de uma mulher que tenta evitar que seu relacionamento se despedace. O casal atravessa uma série de provações físicas e emocionais, arrastando-se de uma catástrofe após a outra. Enquanto McQueen alterna entre manter e perder a calma, Carol sente, Carol sangra, Carol se machuca, Caron sente medo.

A história de OS IMPLACÁVEIS é bem simples e de certa forma semelhante a de muitos outros títulos de assalto a banco seguido de perseguição. Semelhante, mas com um molho muito especial. McQueen e McGraw são um casal que tem a missão de assaltar um banco e trazer o dinheiro para o contratante. Só que muita coisa dá errado, gente morre no local do crime e a maior parte do bando não sai exatamente vivo da missão.

Lendo o livro do Tarantino, achei muito engraçado o que ele contou sobre a decisão de McQueen não contratar Peter Bogdanovich para a direção do filme: que teria mais a ver com o total desconhecimento por parte de Bogdanovich de tipos de armas de fogo do que qualquer outra coisa. Ou seja, era McQueen disposto a conseguir um parceiro (um diretor) que tivesse ao menos um pouco de afinidade com sua virilidade. E conseguiu, com Peckinpah, que eu diria que é um diretor muito mais terno do que sua fama faz parecer. Basta ver o final de OS IMPLACÁVEIS, basta ver também o lindo e pouco lembrado A MORTE NÃO MANDA RECADO (1962).

+ TRÊS FILMES

MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (Morte Sospetta di una Minorenne)

Este misto de giallo com poliziottesco dirigido por Sergio Martino é cheio de surpresas. Começa como um giallo, com a perseguição e posterior assassinato da garota do título, para depois se transformar num filme policial com toques de comédia, em especial quando o protagonista, um policial que usa métodos diferentes, se alia a um ladrão de bolsas. Em MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (1975), há espaço para perseguições de carro que fazem lembrar Buster Keaton, e o fato de o herói andar com um carro caindo aos pedaços contribui para esse tom mais leve que passa a ser adotado, mas que é substituído por um tom tipicamente de giallo nas cenas em que o assassino de óculos escuros ataca. Há uma cena que me fez lembrar bastante DUBLÊ DE CORPO, um dos filmes do De Palma que mais parece devedor do giallo. Martino mais uma vez manda muito bem. Depois de cinco gialli essenciais entre os anos de 1971 e 1973, ele já podia fazer filmes medianos despreocupado. E nem é o caso deste aqui, não.

EDDINGTON

Depois de um filme longo, pretensioso e de difícil digestão como BEAU TEM MEDO (2023), Ari Aster faz o quê? Faz algo parecido, e novamente repetindo a parceria com Joaquin Phoenix. No entanto, seu novo trabalho, ainda que muitas vezes pareça delirante, é bastante calcado na realidade. Este mundo da pós-verdade é que virou um espaço de delírio. E Aster, ao colocar a ação em plena pandemia, numa pequena cidade do Novo México, em 2020, nos introduz a um universo habitado por negacionistas do coronavírus, pessoas habituadas a passar o dia vendo vídeos de teorias da conspiração e já há aqueles que rejeitam a vacina antes mesmo de sua chegada. Logo no começo de EDDINGTON (2025), Phoenix é esse xerife que se recusar a cumprir a ordem do governador, de ter que usar máscara estando fora de casa. Como se já não bastasse haver um cenário de embate entre progressistas e fascistas, havia também uma richa de etnias: brancos, negros e indígenas. Gosto mais da segunda parte do filme, já que o personagem de Phoenix demora a sair de algum tipo de paralisia, e começa a agir. Há quem diga que um dos problemas do filme seja tornar o personagem de Phoenix um tanto simpático ao público, sendo ele o que é, e fazendo o que faz; e fazendo isso o diretor estaria concordando em parte com seus posicionamentos. Mas acho pouco provável, embora os ativistas de esquerda também apareçam um tanto ridicularizados, em sua fala repetitiva. Mais ou menos como Paul Thomas Anderson faz em UMA BATALHA APÓS A OUTRA. O que mais assusta em EDDINGTON é o quanto ele me traz lembrança de amigos que entraram nessa de ouvir as vozes dos malucos de plantão e se tornaram outras pessoas.

O VESTIDO

Alguns filmes têm um significado tão pessoal que parece que dialogam conosco, que falam diretamente a nós. O VESTIDO (2003) é um pouco assim; não comigo, mas com a Giselle, que sempre o mencionava e acabamos encontrando para ver no YouTube, copiado do Canal Brasil. E só então eu entendi o significado, que não é apenas sobre ela, mas sobre nós dois, sobre nossa relação de décadas atrás também. Quanto ao filme de Paulo Thiago, se analisado em separado, vejo como uma espécie de fábula, quase uma versão da parábola do filho pródigo, só que com um problema de casting que prejudicou um pouco minha apreciação. Gabriela Duarte, não sei se ficou tão boa assim como femme fatale, mas por isso mesmo gosto de quando acontece uma mudança de narrador e podemos vê-la mais vulnerável, mais humana, e por isso mesmo mais passível de ganhar nossa solidariedade. Mais até do que o sujeito (Leonardo Vieira) que larga a esposa (Ana Beatriz Nogueira) para ficar com ela. O vestido do título funciona como uma espécie de objeto capaz de causar gatilhos nos envolvidos. Não como o espelho de ESPELHO DE CARNE, de Antonio Carlos da Fontoura. Não tão presente e não tão amaldiçoado, mas ainda assim o é, para a história daquele casal e daquela jovem mulher. Gosto muito de como Paulo Thiago utiliza duas obras-primas para dialogar com seu filme: o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, para falar de ciúme, e o filme O PAGADOR DE PROMESSAS, de Anselmo Duarte, para falar do sagrado e do profano. E para deixar claro o passado de atriz da personagem de Gabriela Duarte.

domingo, novembro 16, 2025

MORTOS QUE CAMINHAM (Merryl’s Marauders)



Estou tentando, nesta fase de adaptação da nova morada, enquanto também preciso comparecer para revezamento com minhas irmãs na casa de minha mãe, dar seguimento à peregrinação pelo cinema de Samuel Fuller, que comecei em 2023 e sei que é praticamente impossível eu terminar em 2025, uma vez que Fuller fez filmes até 1990. Até seria possível, se eu não quisesse ver mais nada que não fossem seus filmes. O importante é que o cineasta segue me surpreendendo. Embora muitos de seus elementos e obsessões passem a se tornar familiares, há sempre algo de novo no filme seguinte do realizador.

Dos filmes de guerra de Fuller, MORTOS QUE CAMINHAM (1962) foi o que mais me comoveu. Pode não ser tão plasticamente belo quanto NO UMBRAL DA CHINA (1957) e PROIBIDO! (1959), sendo que este é mais um pós-guerra, mas é impressionante a condução do diretor tanto nas cenas de batalha, envolvendo muitos soldados/atores/figurantes, quanto (e principalmente) nas cenas mais calmas, por assim dizer. Aliás, é justamente nessas cenas que Fuller demonstra seu imenso coração e sua capacidade de criticar a guerra de dentro do sistema ao usar recursos do próprio exército dos Estados Unidos para nos apresentar ao horror e ao absurdo do conflito, em especial da trajetória/tragédia de centenas de homens que atravessam longos quilômetros para chegar a determinada cidade invadida pelos japoneses, em Burma, sem que esses homens soubessem que chegariam até tal cidade – o general aceita a missão e, sabendo que seus homens estão extremamente exaustos, os engana, lhes omite essa informação.

Há uma cena em especial que Fuller trabalha tão bem o melodrama, que chega a se equiparar a momentos intensos de sua filmografia, como a morte de Moe em ANJO DO MAL (1953) e a cena de Stanwyck e Sullivan se beijando ao som do ruído dos pés do homem que havia acabado de se enforcar em DRAGÕES DA VIOLÊNCIA (1957). Essencial para quem quer um exemplo claro do absurdo da guerra, e que fica ainda mais explícito quando vemos o trailer com ares de filme institucional e de exaltação do heroísmo e sacrifício do exército. Ou seja, a Warner e o próprio Fuller estavam fazendo um jogo bastante interessante com o exército, uma vez que estavam supostamente exaltando a coragem e o sacrifício desses 3.000 homens que foram nessa missão, quando no final é contado o pequeno número de sobreviventes desse projeto assassino.

Os homens do general Merryll enfrentam tiroteio de japoneses nas florestas de Burma, sobem por montanhas íngremes, por rios perigosos, pântanos, num período de vários meses. Como o filme já nos apresenta a esses homens em estado de cansaço, mas já dando graças a Deus que fechariam seu serviço com a chegada dos britânicos, vê-los tendo que seguir lutando por longos quilômetros, é de dar dó. Entre as cenas de batalha, é incrível o momento em que Fuller vai fazendo sua câmera se distanciar da ação, de modo que vejamos mais, e em scope, o quanto de japoneses aqueles soldados americanos ainda enfrentam, muitos deles com ferimentos graves, malária e tifo. Em comparação com outros filmes de Fuller que parecem mais virtuosos nos movimentos de câmera, este parece ser mais sutil, mas ainda assim não deixa de ser incrível. A cada dia tiro mais meu chapéu para Fuller.

+ TRÊS FILMES

CÃO DANADO (Chien de la Casse)

Jean-Baptiste Durand tem um rosto conhecido no cinema francês em sua carreira de ator. Mais recentemente, por exemplo. pôde ser visto em MISERICÓRDIA, de Alain Guiraudie. Na direção, depois de alguns curtas, ela estreia em longa-metragem com CÃO DANADO (2023), uma história sobre a relação entre dois jovens amigos de infância. Um tipo de relação que mistura tanto afeto quanto um frequente bullying por parte de um deles ao outro. O personagem de Raphäel Quenard, Antoine, é falastrão e gosta de pegar no pé do amigo calado, Dog, vivido por Anthony Bajon. E por vezes essa maneira de chamar a atenção do amigo se manifesta de forma bastante violenta, como quando chama a atenção dele pelo ruído que faz ao comer, ou quando Dog deixa claro que não sabe onde fica Quebec. A relação dos dois toma um novo rumo quando Dog passa a namorar uma jovem que passa uma temporada pela cidadezinha. Isso revela tanto a inexperiência de Antoine no trato com as mulheres (até por nunca ter namorado) quanto a passividade de Dog ao não rebater à altura as agressões verbais do amigo. O andamento narrativo da história segue o aspecto modorrento de uma cidade tão pequena quanto carente de empolgação, ao mesmo tempo que os becos da cidade servem de palco para uma de suas sequências mais decisivas. Tanto para a história quanto para o destino dos personagens.

CORAÇÃO DE LUTADOR – THE SMASHING MACHINE (The Smashing Machine)

Eis um filme em que saímos do cinema com a dúvida quanto a ter ou não gostado. Talvez aquele epílogo tenha me surpreendido demais e eu depois fui procurar sinais ao longo do filme, coisas que não havia notado, até porque tanto o Mark Kerr de Dwayne Johnson quanto o Mark Coleman de Ryan Bader são personagens apresentados com um forte laço de amizade, mas também com muita disciplina e seriedade em seus trabalhos de lutadores de MMA. Além do mais, há muito foco na relação tensa entre Kerr e sua esposa, vivida por Emily Blunt. O que gosto muito em CORAÇÃO DE LUTADOR – THE SMASHING MACHINE (2025) é do quanto ele parece encapsular seus personagens em espaços em que só existem eles, quase como se eles estivessem presos numa espécie de limbo. As cenas na casa de Kerr com a esposa parecem saídas de uma produção televisiva dos anos 80, sendo que todas as vezes em que ele quebra as portas em acesso de raiva se percebe claramente que aquelas portas são feitas de algum material leve, e isso é deliberado, faz parte de uma intenção de mostrar um ar falso, de (des)ilusão. No começo, achei que o vício de Kerr em analgésicos seria algo ainda mais essencial para sua história, no sentido de que seria o seu fim. Ao trazer Dwayne Johnson para um papel mais desafiador e complexo, Benny Safdie repete o que fizera com Adam Sandler em JOIAS BRUTAS (2019), que aliás é um filme que também não me conquistou plenamente. Ou seja, ou eu preciso aprender a gostar dos filmes do diretor ou sempre me faltará afinidade com eles.

HOMEM COM H

Para uma cinebio que tem a ambição de cobrir uma parte considerável da vida de seu biografado – no caso, da infância até os anos 2000 – HOMEM COM H (2025), de Esmir Filho, é brilhante em tudo que se arrisca a fazer. Já começa em ter um Jesuíta Barbosa em estado de graça, mas a força maior está no próprio Ney Matogrosso e sua história de vida, no quanto o tratamento duro recebido pelo pai acabou forçando os rumos de sua vida, assim como sua própria capacidade de ser dono de seu destino. Na parte que trata dos Secos & Molhados, já se percebe isso e depois ainda mais. Há uma série de cenas engraçadas, como a visita da censura, mas há também as que destacam a erotização do corpo e a vida louca que o artista levou durante um bom tempo. O curioso é que, como Ney Matogrosso é um artista muito reservado, eu pouco sabia de muitos detalhes que o filme apresenta, inclusive coisas dos anos 1990. E como acabei me tornando uma pessoa que chora em filmes sobre relacionamentos entre pai e filho, há uma cena que me desidratou, ao som de um grande clássico da música brasileira. Que coisa linda! Aliás, ver HOMEM COM H é também passear por esse cancioneiro incrível ao longo de mais de três décadas e por uma voz singular de um artista que também sabia usar o corpo como um ator. Termina a sessão e as palmas da sala lotada são inevitáveis. Para o filme, mas principalmente para Ney Matogrosso.

segunda-feira, novembro 10, 2025

O AGENTE SECRETO



Acho difícil falar sobre O AGENTE SECRETO (2025). Não por não ter o que dizer, mas justamente o contrário: sobre ter tanto a se observar, tanta coisa que o filme traz, carrega, mostra e muitas vezes não mostra. Aliás, trata-se de um filme em que o não-dito tem uma força quase tão grande quanto aquilo que é dito. E isso tem absolutamente tudo a ver com aquele Brasil da ditadura militar, em que as verdades eram escondidas, ou deveriam ser lidas de outra maneira na imprensa, em que a perna cabeluda, lenda urbana absurda nascida no Recife, entrava no jornal na mesma seção policial de outras notícias, como se o choque entre o real e o surreal fosse algo que a elite e os poderosos assim preferissem. Não à toa, foi na América do Sul de regimes ditatoriais que o realismo mágico criou asas.

O novo filme de Kleber Mendonça Filho é talvez seu melhor trabalho, seu filme mais maduro, em que cada cena tem sua própria força, que tem um rigor formal aliado a um tipo de humor muito próprio, a certa suavidade na condução narrativa. Afinal, o Brasil é o país do carnaval. E nesse mesmo Brasil um deputado de polícia anticomunista e corrupto comemora a morte de quase 100 pessoas no Carnaval, momento em que se passa boa parte da história. Nesse mesmo Brasil, um policial rodoviário busca minuciosamente algum problema no carro do protagonista para extorqui-lo.

Wagner Moura vive outro grande papel da sua vida. Marcelo/Armando, dentre os personagens vividos pelo ator no cinema e na televisão, é tão (ou mais) importante quanto o Capitão Nascimento de TROPA DE ELITE e o Pablo Escobar de NARCOS. Aqui ele não é nem polícial (apesar de ter “uma pinta de policial”, como diz o delegado vivido por Robério Diógenes) nem traficante. E não é nem mesmo um agente secreto. Marcelo/Armando são duas faces da mesma moeda, como o gato de dois rostos que vive na pensão da Dona Sebastiana (Tânia Maria, uma simpatia de senhora). E o herói só se sente bem em determinado momento quando assume seu nome de batismo: o mesmo nome que poderia significar sua morte nas mãos de um matador barato de aluguel, na tensa cena no instituto de identificação.

Falando em tensão, é lindo como essa tensão é criada de maneira tão singular, tão longe do estilo hollywoodiano, e talvez um pouco mais próxima do adotado no cinema policial europeu (o italiano, o francês), com poucas mas brutais sequências de ação.

KMF também não consegue simplesmente contar uma história sem colocar muito de si naquele trabalho. Sua cinefilia aparece na citação a filmes populares da época, como TUBARÃO e A PROFECIA, e uma homenagem ao próprio cinema São Luiz do Recife, e nas citações menos óbvias, como a música de Ennio Morricone que já aparecia nos trailers, “Guerra e pace, pollo e brace”, do filme OBRIGADO, TIA, ou citações a O MAGNÍFICO, com Jean-Paul Belmondo.

Há também o desejo de Kleber de ser uma espécie de curador musical do cancioneiro popular brasileiro e internacional – até em RETRATOS FANTASMAS (2023) isso se vê. Algo que é muito digno de nota é que em O AGENTE SECRETO o cineasta consegue superar BACURAU (2019) na condução de um número considerável de personagens, sendo que cada um deles traz uma contribuição memorável, a ponto de não querermos nos despedir daquele universo, daquelas pessoas saídas da mente de Kleber.

Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone), a dupla de matadores contratados, são personagens incríveis. Inclusive, deixo registrada minha admiração por Villela, que em A MORTE HABITA À NOITE já havia me conquistado como um Bukowski dos trópicos num filme tão lindo quanto triste. O ator tem um quê de Paulo César Pereio no tipo físico, mas que bom que está sendo valorizado e em filmes imensos como esses dois.

Destaco também Alice Carvalho como Fátima, esposa de Armando, e que aparece apenas em flashbacks. Ela simboliza um tipo de força e indignação tipicamente nordestina, frente à canalhice de um empresário macomunado com a ditadura, que é não apenas anticiência, mas também entreguista. Qualquer semelhança com certos tipos da contemporaneidade brasileira não são mera coincidência, principalmente sabendo a militância política de Kleber desde pelo menos sua participação no Festival de Cannes com AQUARIUS (2016), quando denunciou para o mundo inteiro o golpe sofrido por Dilma Rousseff. E há Carlos Francisco. Que ator incrível. Ele é uma espécie de coração do filme. Ver seus olhos lacrimejando ao ouvir de Armando o que a filha dissera a seu respeito só não é tão emotiva quanto a cena da cadeira em MARTE UM pois Kleber prefere um registro menos sentimental.

O que deixa muitos espectadores surpresos, e às vezes pouco entusiasmados com o filme, são as escolhas narrativas do diretor e roteirista. Não apenas pelo embaralhamento dos fatos, mas principalmente pelo que não é contado, pelas peças que precisamos juntar sozinhos no quebra-cabeças da trama, que fica incompleta. Mas nada mais justo. Afinal, o período da ditadura no Brasil foi o período dos desaparecidos políticos, e lá fora quem viu AINDA ESTOU AQUI, de Walter Salles, terá outro filme sobre o assunto pra chamar de seu. Só que um filme menos clássico e mais moderno (ou pós-moderno), mais sujo e mais complexo em sua estrutura e aspecto visual, mais desconstruído como trama policial, mais borrado quando se pensa em gêneros cinematográficos – desde O SOM AO REDOR (2012), para citar só os longas de ficção, Kleber sempre gostou de trazer um pouco do cinema de gênero para seus dramas, como pesadelos que invadem a vida real, por assim dizer.

Aqui o terror está presente menos na perna cabeluda ou nos tubarões do Recife e mais no próprio Brasil, no estado-violência. Como diz a personagem de Maria Fernanda Cândido noutro momento memorável do filme sobre as intenções do grupo que apoia os perseguidos pela ditadura: é “pra te proteger do Brasil”.

+ TRÊS FILMES

A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA

Eis mais um desses filmes imprescindíveis, especialmente por fazer uma intersecção entre um momento histórico particular do Brasil, mas também pelas ousadias formais de Vera Egito, aqui mais uma vez trazendo o plano-sequência como recurso eficiente para colocar o espectador no olho do furacão. A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA (2023) retrata uma situação ocorrida entre alunos esquerdistas da Faculdade de Filosofia da USP e alunos fascistas do Mackenzie, pertencentes ao CCC, Comando de Caça aos Comunistas. A situação é representativa daquele momento em que o Brasil havia sofrido o Golpe, em 1968, ainda sem a assinatura do AI-5, mas é difícil não fazer paralelos com a situação social e político do Brasil de hoje. Assim como é difícil não ficar empolgado e preocupado com o drama desses alunos e professores que se armam e se defendem como podem num país que não se pode contar com a polícia - ao contrário: a polícia estava ali para aproveitar qualquer gesto desses militantes para agir com violência. Há dois atores de AINDA ESTOU AQUI no elenco, o que só reforça a ideia de que uma dobradinha com os dois filmes seria uma boa para retratar dois momentos tensos da ditadura no Brasil. O filme foi rodado em 16mm e com 21 planos-sequência, emulando um tom documental e urgente à história apresentada, uma história vista sob múltiplos pontos de vista, já que há vários personagens e alguns deles encontram, inclusive, espaço para o amor e o sexo no meio daquelas horas tensas. Filmaço.

O ÚLTIMO AZUL

Junto com BOI NEON (2015), este premiado O ÚLTIMO AZUL (2025) está entre os grandes filmes de Gabriel Mascaro. Desta vez o cineasta se aventura pela Amazônia e cria uma realidade distópica em que a pessoa que completar 75 anos de idade já deverá ser obrigatoriamente encaminhada a uma colônia, para que os filhos possam produzir sem prejuízo para o governo. E somos apresentados a Tereza, a ótima personagem de Denise Weinberg (A METADE DE NÓS), uma mulher que se recusa a aceitar as imposições desse governo e assim tenta escapar a todo custo desse destino, em busca de realizar coisas que ainda pretende fazer na vida, como andar de avião, por exemplo. Com isso, ela entra clandestinamente no barco do personagem de Rodrigo Santoro e depois na vida de outros personagens, sendo que o barco é o meio de transporte mais usado. Aqui, Mascaro transforma um road movie num boat movie, o que é outro diferencial muito bem-vindo. Sem falar que é muito fácil se solidarizar e torcer por Tereza, que vai conhecendo novas pessoas nessa sua trajetória e experienciando coisas que jamais imaginaria. Adoro a cena em que Tereza toma umas com uma mulher idosa que vende bíblias e sente uma alegria imensa de viver. Em certo momento, lembrei-me de HISTÓRIA REAL, de David Lynch, também sobre um idoso andando por um vasto trecho com um objetivo, só que num carrinho de cortar grama. É uma beleza ver o cinema brasileiro ganhando tanta força e ainda tendo uma ótima repercussão internacional: O ÚLTIMO AZUL ganhou o Urso de Prata em Berlim. Que sua trajetória pelo mundo seja igualmente gloriosa. Sem falar que Mascaro nos apresenta a lugares de beleza inimaginável. Dá vontade de comprar uma passagem para conhecer a Amazônia.

MALÊS

Certos filmes são necessários. Não por sua importância na forma, no que se refere à linguagem cinematográfica, mas no que tange à nossa história brasileira, mais especificamente à história do povo negro brasileiro. E é muito bom que este projeto tenha partido de um dos maiores atores negros brasileiros, Antônio Pitanga, aqui em seu segundo filme na direção, sendo que o primeiro foi em 1978, o quase invisível NA BOCA DO MUNDO. Sendo um filme de ator, MALÊS (2024) tem toda uma preocupação com as performances de seu elenco, que traz dois filhos de Pitanga, Camila e Rocco em papéis importantes. O filme trata de um levante citado de maneira tímida nos livros de história, a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, Bahia, em 1835, ainda primeiro reinado. O filme nos apresenta a homens letrados e sofisticados da religião islamita que foram capturados e levados para o Brasil e viverem como pessoas que não têm mais nação – “negro não tem nação”, diz em tom duro e perverso a personagem de Patricia Pillar a um de seus escravos. Falar de escravidão no cinema parece ter diminuído consideravelmente, e é compreensível que isso tenha acontecido, mas é importante que esse período seja trazido com a força que este filme de Pitanga impõe, fazendo com que não apenas nos solidarizemos com esse grupo de pessoas, mas como tomemos como nossas também a sua luta contra os brancos escravocratas. Além do mais, o retrato de um Brasil com três religiões distintas, islamismo, catolicismo e candomblé, apresenta um caldeirão cultural riquíssimo e complexo. E aqui há pouco espaço para os brancos na história, o que ajuda a enriquecer o ponto de vista dos negros em seus dramas cotidianos, em seus momentos de alegria na vida doméstica, na construção de seus sonhos de alcançarem a liberdade de professar suas fés. No fim das contas vemos um Brasil com um potencial de beleza incrível, mas que ainda demoraria a se tornar minimamente justo com quem tanto contribuiu e contribui para nossa riqueza cultural e nossa alegria.

sábado, novembro 08, 2025

FRANKENSTEIN – A SÉRIE DE FILMES DA HAMMER



Finalmente, depois de anos de quando comecei a (re)ver estes filmes da Hammer – talvez a mais bem-sucedida das franquias do estúdio inglês, maior que Drácula –, vi o título que faltava para fechar as sete produções. Entre altos e baixos, há muitos trabalhos bastante inventivos, especialmente os dirigidos por Terence Fisher, mas não só esses. Tive algumas boas surpresas com os filmes que Fisher não trabalhou. 

Uma das coisas mais legais dessa série de filmes é o quanto as histórias se desvencilham bastante do romance de Mary Shelley, o quanto os roteiristas pensam situações diferentes para o Barão Victor Frankenstein. Além do mais, deixo registrados meus agradecimentos à Versátil Home Video por ter trazido todos os filmes em dois boxes que ainda contêm outras produções sobre Frankenstein. São dois boxes imperdíveis e caprichados.

A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (The Curse of Frankenstein)

Depois de vinte anos, retorno a este clássico gigante da Hammer Films, graças ao destaque dado pela Versátil aos monstros clássicos do cinema de horror no livro Monstros no Cinema - Filmes Essenciais. E ao lançamento do box Frankenstein no Cinema, que contém este divisor de águas que trouxe o gótico de novo ao gosto do público, desta vez com fotografia em cores vivas e um aspecto mais sangrento até então inédito. Um dos grandes méritos de A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN (1957) é a ênfase a Victor Frankenstein e não à criatura (vivida por Christopher Lee), que aparece pouco, ainda que de maneira marcante. O que mais interessa aqui é apresentar a monstruosidade do cientista, capaz de tudo, até de matar pessoas, para conseguir o seu intento final, que é criar um homem a partir de pedaços de outros cadáveres, como se saísse quase do zero, de modo a se aproximar de Deus e se tornar essa figura herética, que, mesmo assim, é vista com aquela elegância característica de Peter Cushing. As ideias do Barão nem parecem tão absurdas assim quando ditas pela própria boca. Outro grande mérito do filme está em fugir completamente das semelhanças com o FRANKENSTEIN da Universal, de 1931, por imposição do próprio estúdio americano. Assim, Fisher e o roteirista Jimmy Sangster acabaram trazendo uma originalidade e um frescor muito bem-vindos ao filme. Eis uma obra que representa um dos momentos mais marcantes da história do cinema de horror.

A VINGANÇA DE FRANKENSTEIN (The Revenge of Frankenstein)

Esta continuação de A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN é tão boa ou até melhor que o primeiro filme, com Fisher e seu trio de roteiristas usando muita criatividade e elegância para levar para muito longe a história do romance de Mary Shelley as aventuras do Barão Victor Frankenstein, uma vez que ele consegue fugir da guilhotina e se instalar como médico noutra cidade. É interessante como Peter Cushing dá tanta nobreza ao personagem, que é muito difícil não torcer por ele, muito difícil não querer ver os resultados de seus experimentos científicos abomináveis. Em A VINGANÇA DE FRANKENSTEIN (1958), seu próprio ajudante corcunda se oferece como cobaia da mudança de corpo. Outra coisa que acho muito interessante nessa série de filmes é o quanto cada diálogo é vital e importante a ponto de não sentirmos falta de cenas de terror propriamente ditas. Tanto que a classificação como terror para o filme se dá mais pela amplitude e pelo tema. Filme visto no box Frankenstein no Cinema.

O MONSTRO DE FRANKENSTEIN (The Evil of Frankenstein)

Não achei que Terence Fisher iria fazer tanta falta assim (ele teve que ficar de fora das filmagens por causa de um acidente de automóvel). O terceiro filme da série Frankenstein sofre com sua ausência e o ótimo diretor de fotografia Freddie Francis assume a direção deste, que funciona como uma espécie de reinício para a história, praticamente ignorando a trama do ótimo segundo filme, A VINGANÇA DE FRANKENSTEIN, que mexia com a fascinante brincadeira de troca de corpos. Neste O MONSTRO DE FRANKENSTEIN (1964), a Universal permite que a maquiagem clássica de Boris Karloff nos filmes dos anos 1930 seja emulada. O problema é que essa tal maquiagem parece de papel (e deve ser mesmo) e o monstro desagradou a todo mundo. Ainda assim, gosto quando entra em cena o hipnólogo, levando a trama para algum lugar, mesmo que esse lugar se mostre meio perdido e pouco interessante. Salva-se Peter Cushing, mais uma vez incrível como o Barão Frankenstein. Faltou um pouco mais de maldade por parte dele, que parece mais aqui como vítima, mas isso é culpa também do roteiro, e não do ator, que dá sempre aquele ar de seriedade e respeito ao personagem clássico. Visto no box Frankenstein no Cinema Vol.2.

FRANKENSTEIN CRIOU A MULHER (Frankenstein Created Woman)

Terence Fisher volta à franquia Frankenstein e mostra o quanto um grande realizador faz a diferença. Este novo filme da série é um dos mais singulares, até porque não há a figura de um monstro gigante masculino. E por isso mesmo é o que mais imagino que tenha inspirado a criação de POBRES CRIATURAS, de Yorgos Lanthimos. A primeira cena de FRANKENSTEIN CRIOU A MULHER (1967) é de um impacto impressionante, com um homem sendo levado para a guilhotina e muito triste com o fato de seu filho pequeno estar próximo da execução para presenciar seu terrível fim. Em seguida, vemos o Barão Victor Frankenstein surgindo de uma experiência em que seu próprio corpo sai de uma morte de uma hora de duração. O roteiro é inteligente e as ações desembocam na criação da tal mulher do título. A sensualidade é apenas sugerida, mas já se percebe o que os anos 1960 traziam mais tempero para os ainda muito sólidos projetos da Hammer. Quanto a Susan Denberg, a moça foi modelo da Playboy em 1966, mas sua presença no filme vai além da sensualização necessária para sua personagem. Visto no box Frankenstein no Cinema Vol. 2.

FRANKENSTEIN TEM QUE SER DESTRUÍDO (Frankenstein Must Be Destroyed)

Sempre quando é Fisher no comando a série de filmes de Frankenstein da Hammer ganha uma força incrível. Este FRANKENSTEIN TEM QUE SER DESTRUÍDO (1969) é candidato a melhor da franquia, e não por estar cada vez mais distante do romance de Mary Shelley, enfatizando com originalidade novos caminhos trilhados pelo Barão obcecado por experimentos com corpos mortos e mudança de cérebros, mas também por ser o filme que começa a beber do zeitgeist. Acho que todo filme feito em 1968 ou 69 deve ter sido influenciado por uma nova energia, um novo espírito que passou a habitar o mundo. Neste quinto título, o Barão já começa o filme mais sangrento, já que ele próprio mata uma pessoa para levar a cabeça para seu experimento. Mas a trama começa mesmo quando ele chantageia um jovem casal para ficar na pensão e construir um novo laboratório para si lá. Adoro o final, um dos mais impactantes da Hammer Films. Visto no box Frankenstein no Cinema Vol. 2.

O HORROR DE FRANKENSTEIN (Horror of Frankenstein)

Este aqui é o único dos sete filmes que não traz Peter Cushing como o Barão Victor Frankenstein. E talvez O HORROR DE FRANKENSTEIN (1970) seja o que mais se parece com um produto típico de sua época, com direito a decotes bem generosos das atrizes e a um visual que remete mais à swinging London do que ao gótico, mais característico nos filmes dirigidos por Terence Fisher, principalmente. O resultado é interessante e divertido e é uma nova releitura da história clássica de Mary Shelley, com um tom mais satírico e imoderado, o que acaba sendo um atrativo a mais, um diferencial. E também uma compensação pela falta que faz um diretor como Fisher. Quem assume a direção desta produção que parece ser mais modesta que as anteriores do ciclo é Jimmy Sangster, roteirista do primeiro filme e da franquia, A MALDIÇÃO DE FRANKENSTEIN e de outros também. A falta de alguém como Peter Cushing, que faz um Victor Frankenstein com um requinte tal que chegamos a torcer por ele, é de certa forma compensada pelo ar debochado desse barão mais novo, vivido por Ralph Bates, que faria posteriormente o divertido O MÉDICO E A IRMÃ MONSTRO. Filme visto no box Frankenstein no Cinema Vol. 2.

FRANKENSTEIN E O MONSTRO DO INFERNO (Frankenstein and the Monster from Hell)

Este FRANKENSTEIN E O MONSTRO DO INFERNO (1974), se não é tão bom quanto FRANKENSTEIN TEM QUE SER DESTRUÍDO, talvez o ponto alto da franquia, tem uma dignidade toda própria, talvez por ser o último filme da série e também o último trabalho do melhor diretor da Hammer, Terence Fisher, que estava fisicamente doente, depois de acidentes seguidos que tivera nas pernas e que o manteve afastado dos filmes por alguns anos. Por isso, há certa melancolia no ar, e uma certeza de que o que havia de frescor no que o estúdio inglês estava trazendo naquele fim dos anos 1950, nos anos 70, o cinema de horror estava passando por um novo momento, o que fez com que a Hammer buscasse mais violência e até um pouco de nudez para suas produções – o próprio O HORROR DE FRANKENSTEIN já se encaminhava para essa tendência, talvez para compensar a falta de Fisher e de Peter Cushing. Neste último filme da cinessérie, um jovem cientista entusiasta dos trabalhos de Victor Frankenstein é preso por bruxaria (ele usava experimentos com cadáveres roubados) e enviado justamente para o hospício onde Frankenstein trabalha disfarçado em mais um experimento secreto. O monstro da vez é um ancestral do ser humano e Peter Cushing está particularmente magro. Conta-se que ele mal comia, pois estava de luto, fragilizado pela morte da esposa. Visto no box Frankenstein no Cinema