domingo, fevereiro 23, 2025

RENEGANDO MEU SANGUE (Run of the Arrow)



As primeiras imagens de RENEGANDO MEU SANGUE (1957) são bem impactantes e retratam de maneira compacta a violência de uma guerra em seus estágios finais, no caso a Guerra da Secessão. Um soldado nortista cansado e possivelmente ferido segue em seu cavalo, que trota devagar, igualmente cansado. De repente ele é atingido por uma bala. A bala que vem do protagonista, que estava à espreita, um combatente sulista, que aparece todo sujo. Seu rosto está impregnado de sangue alheio e terra. Ele parece um animal abandonado. Depois de atirar no homem, verifica seus bolsos, encontra um pedaço de pão e come ali mesmo, apoiando-se sobre o corpo desse homem atingido. Ele encontra também cigarro. Ele faz isso com muita naturalidade, como matar um homem e buscar algo em seus bolsos fosse algo corriqueiro. É neste momento que o título do filme surge na tela.

Uma das coisas mais fascinantes no cinema de Samuel Fuller é o quanto eles são ambíguos. E o quanto, muitas vezes, nos pegamos vendo defeitos neles, quase na mesma medida que vemos suas qualidades – como é o caso do citado prólogo. O personagem de Rod Steiger é um autêntico herói fulleriano. Uma pessoa marcada por uma angústia e um inconformismo que o dilaceram. Na conversa com sua mãe, mais à frente, isso se tornará bem explícito. 

Após lutar na Guerra da Secessão pelos Estados Confederados (e perder) recusa-se a aceitar os Estados Unidos como se tornou, sob o domínio do norte. E é interessante sua defesa, de como ele quer defender um lugar "livre, branco e cristão". Ou seja, é um pensamento muito parecido com o dos fascistas a que estamos, infelizmente, acostumados a ouvir. Não à toa que alguns dos fascistas de hoje têm por hábito colocar a bandeira dos estados confederados como símbolo: símbolo justamente dessa exaltação do branco, desse momento em que eles defendiam a escravidão. Afinal, ela era importante para a manutenção da boa economia.

No entanto, ao fugir de seu país, e passar por uma prova muito perigosa feita por um grupo de indígenas rebeldes e perversos, ele se junta a uma tribo Sioux, casa-se com uma indígena que o salva (vivida pela espanhola Sarita Montiel) e adota uma criança muda junto com ela. Chegando na tribo, o chefe, vivido por Charles Bronson, o aceita como um deles.

Quando encontra, aparentemente, uma vida de paz, é convidado a guiar os brancos do norte para a construção de um forte em terras ainda não invadidas pelo homem branco. Uma construção aceita, a princípio pelos líderes indígenas. Esse posicionamento politicamente dúbio de Fuller deixou muito crítico confuso, mas desde o começo de sua filmografia, com a obra-prima EU MATEI JESSE JAMES (1949), que ele faz questão de dar voz a figuras que normalmente são desvalorizadas ou mesmo odiadas.

Acho que me incomodou um pouco no filme o aspecto demasiado artesanal, por assim dizer (não queria dizer desleixado ou imperfeito), das interpretações, das cenas de combates e da própria condução narrativa em si. É como se ele antecipasse um tipo de narrativa menos naturalista, como alguns filmes modernos europeus, por exemplo, mais preocupados com o símbolo e a força das imagens do que num realismo. Ou seja, não é muito diferente do que já víamos em outros de seus filmes de orçamento menor, como CAPACETE DE AÇO (1951) e BAIONETAS CALADAS (1951), filmes de guerra que ousavam contar uma história em que normalmente seria necessário muito dinheiro envolvido para a produção. Não à toa, RENEGANDO MEU SANGUE parece mais um filme de guerra do que um western – diferentemente de seus dois primeiros filmes do gênero, EU MATEI JESSE JAMES e O BARÃO AVENTUREIRO (1950).

Assim é Fuller: quanto mais pensamos sobre seus filmes, maior a tendência de gostarmos deles. Acho também importante lermos textos apaixonados sobre seu cinema, como o do cineasta e crítico francês Luc Moullet. Sua defesa de RENEGANDO MEU SANGUE é muito bonita. Tem traduzida na Foco – Revista de Cinema.

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O BRUTALISTA (The Brutalist)

Talvez se o epílogo de O BRUTALISTA (2024) não fosse tão horroroso eu teria saído da sessão com uma impressão um pouco mais positiva deste terceiro longa-metragem de Brady Corbet (o primeiro dele que vejo). Gosto de quando o filme retorna do intervalo de 15 minutos (gostei da ideia e de ter saído para tomar outro expresso) e de como Felicity Jones o torna mais agradável quando entra em cena. Até então, todos os personagens ao redor do arquiteto vivido por Adrien Brody me pareciam sombras, apenas. Depois, dá até para entender o motivo e até são mesmo sombras, se pensarmos no quanto são terríveis, e não apenas por serem bilionários. Inclusive, uma das coisas que me agrada numa fala de Jones é aquela em que ela diz que aquele país é podre, se referindo aos Estados Unidos. Não deixa de ser interessante de ouvir de um diretor nascido no Arizona. Eu vejo O BRUTALISTA como o TÁR que não deu certo, no sentido de buscar criar uma espécie de cinebiografia de alguém que não existe, com uma diferença que Brody está a milhas e milhas de uma Cate Blanchett.

CAPITÃO AMÉRICA – ADMIRÁVEL MUNDO NOVO (Captain America – Brave New World)

Parece que já deu. A parada estratégica da Marvel para retomar o rumo e chamar novamente a atenção do público não funcionou. E este retorno, com um novo Capitão América sem carisma, uma história boba que tenta emular o clima de thrillers de espionagem sem sucesso e com o personagem do Hulk vermelho surgindo só para ter um momento de pancadaria no final, nada parece atraente aqui. A única personagem que me chamou a atenção em CAPITÃO AMÉRICA – ADMIRÁVEL MUNDO NOVO (2025), de Julius Onah, e que às vezes me tirava do sono intenso que o filme provoca foi a chefe de segurança do presidente Thaddeus Ross, vivida por Shira Haas (série BODIES), uma atriz de 1,5 m de altura e de rosto expressivo que está em surpreendentes cenas de ação. No mais, a vontade que dá ao final, com mais uma cena pós-créditos que convida o espectador a continuar vendo o que vem a seguir, é de desistir. Mas, como vem filme do Quarteto Fantástico por aí, vou me segurando. Pelo menos por enquanto.

DINHEIRO FÁCIL (Dumb Money)

É verdade que DINHEIRO FÁCIL (2023) lembra um pouco os filmes de Adam McKay, em especial A GRANDE APOSTA, mas é um bocado menos ambicioso. A intenção do diretor Craig Gillespie (CRUELLA, 2021), junto com as roteiristas, é contar essa história fascinante de um jovem de família simples e humilde (Paul Dano) que resolve investir na bolsa e apostar todas as suas fichas numa empresa com valor de mercado muito pequeno. Ele acaba ficando conhecido nacionalmente, até por ter um canal no YouTube, principalmente quando essa empresa tem o preço de suas ações crescido assustadoramente. Além de uma interessante história recente americana, trata-se também de um filme que fica marcado pela pandemia - uma história que se passa nos anos de 2020 e 2021 raramente conseguiria fugir desse fato. A comparação com os filmes de McKay também se dá pela presença de um elenco de rostos famosos (ainda que não tão milionários quanto os de McKay). Mas isso até ajuda a trazer o filme para aquilo que ele parece querer buscar: a torcida pelos pobres em detrimento dos milionários, os caras de Wall Street que estão acostumados a ganhar sempre. E muito. Do elenco de apoio, adoro Shailene Woodley (que faz a esposa do protagonista).

sábado, fevereiro 22, 2025

SOL DE INVERNO (Boku no Ohisama)



Uma das notícias mais legais do ano passado foi a criação de uma distribuidora brasileira chamada Michiko Filmes. Isso porque se trata de um empreendimento de dois grandes amigos, que conheço há mais de duas décadas e que agora, além de amigos, e ex-colegas do saudoso podcast Cinema na Varanda, são também sócios de uma pequena empresa que compra e apresenta filmes para o circuito brasileiro. Imagino que não deva ser uma tarefa fácil para Chico Fireman e Michel Simões, que fundaram a companhia depois de uma passagem pelo Festival de Cannes, onde o filme teve sua primeira exibição. Porém, lendo recentemente uma postagem do Chico, soube de uma premiação que SOL DE INVERNO (2024) recebeu no exterior, fiquei muito feliz. Transcrevo aqui suas palavras:

“Sol de Inverno”, filme de Hiroshi Okuyama, distribuído no Brasil pela Michiko Filmes, empresa criada por mim e pelo Michel Simões, foi o 4º colocado no respeitadíssimo Top 10 de melhores filmes japoneses do ano da tradicional revista Kinema Junpo. A publicação, surgida em 1919, é a mais antiga revista de cinema do país e uma das mais antigas em atividade no mundo.

“Sol de Inverno”, que chegou a sua sexta semana de exibição no Brasil, ficou à frente de longas renomados como “Cloud”, de Kiyoshi Kurosawa, indicado oficial do Japão ao Oscar, e a animação “Look Back”, um fenômeno no Japão.

O longa ainda ganhou três prêmios individuais: melhor ator coadjuvante (Sôsuke Ikematsu, que vive o treinador Arakawa), revelações masculina (Keitatsu Koshiyama, o Takuya) e feminina (Kiara Takanashi, a Sakura). Os três têm sido bastante indicados e premiados no país. Recentemente, Ikematsu e Koshiyama venceram também o Mainichi Film Award, prêmio que existe desde os anos 1940.


Chico finaliza sua postagem dizendo que ainda há praças muito importantes do Brasil que ainda não receberam o filme em seus circuitos, como é o caso de Salvador e Belo Horizonte, mas espero que esse belíssimo trabalho chegue a essas cidades logo. Quanto ao prestígio do filme citado pelo Chico, fiquei de fato impressionado, já que CLOUD e LOOK BACK estão entre os títulos japoneses mais aclamados do ano passado.

A história de SOL DE INVERNO é simples e até caberia num registro bem convencional de narrativa, mas o que Hiroshi Okuyama faz aqui é trabalhar com planos diferentes e inventivos, e com uma estranheza no próprio visual de cores esmaecidas (que faz lembrar os últimos trabalhos de Wes Anderson) e excesso de luz, inclusive nos interiores, com essa luz penetrando fortemente o ambiente. A trama se passa numa cidadezinha do interior do Japão de décadas atrás (anos 80 ou 90), em que um menino tímido e gago se mostra interessado na patinação artística ao ver as meninas rodopiando e aparentemente levitando sobre os patins. O treinador, ao vê-lo interessado no esporte, o incentiva a continuar, e também tem a ideia de inscrevê-lo, junto com uma das meninas, numa competição a acontecer em breve.

Até determinado momento, a história do filme até poderia se encaixar numa sessão da tarde, mas algo acontece em seu terço final que muda o rumo dos acontecimentos e traz um pouco de amargor para o enredo, tornando o filme ainda mais interessante e também mais doloroso. SOL DE INVERNO trata da intolerância, do silêncio e de uma terrível aceitação diante de um mundo conservador. Ver o filme num mundo ao mesmo tempo mais livre, mas também com uma onda conservadora mais feroz, torna-o um ótimo retrato de nossa época, embora se passe noutro tempo.

O diretor Okuyama é também o montador e o diretor de fotografia do filme, o que torna esse trabalho ainda mais artesanal e mais autoral. SOL DE INVERNO é seu segundo longa-metragem. O primeiro, BOKU WA IESU-SAMA GA KIRAI (2018), inédito no Brasil, também trata de uma história do ponto de vista de uma criança.

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KASA BRANCA

Luciano Vidigal já tem uma boa experiência na direção, por mais que KASA BRANCA (2024) seja sua estreia solo num longa-metragem. Falo isso não só por ter checado sua filmografia, mas por perceber sua segurança em contar a história dessas pessoas que vivem vidas bem difíceis, em áreas menos privilegiadas do Rio de Janeiro. O que carrega o maior fardo é Dé (Big Jaum), que cuida sozinho da avó com Alzeihmer e deve o aluguel atrasado da casa. O fato de ser um rapaz acima do peso o deixa também em situação de desvantagem em relação a seus dois melhores amigos, que têm mais sorte com as mulheres. Se bem que um deles está sofrendo de amor por uma ex que ele magoou no passado e agora é ele quem sofre de dor por ela. E é justamente desse rapaz a cena que mais me tocou: aquela em que sua mãe adentra seu quarto para trazer-lhe consolo com a sabedoria de alguém mais vivida. Gosto também de ser um filme que trata das mazelas sociais, da falta de dinheiro e também por não deixar barato para o governo. KASA BRANCA também dialoga com a juventude contemporânea, ao trazer um artista novo, o rapper L7NNON.

SAUDADE FEZ MORADA AQUI DENTRO

A câmera na mão e muitas vezes muito próxima dos personagens faz com que o sentimento de angústia de Bruno (Bruno Jefferson) nos contagie. Ele, por mais que jogue futebol com os colegas, brinque com o irmão e dance forró em festas de sua cidadezinha do interior da Bahia, está triste pois em breve estará completamente cego. SAUDADE FEZ MORADA AQUI DENTRO (2022) claramente pode ser dividido em duas partes. E a segunda parte é ainda mais dura, tanto para Bruno quanto para nós, espectadores. Haroldo Borges faz um registro realista, e com o ator que faz o protagonista entregando momentos de cortar o coração. O título em inglês do filme é "Bittersweet Rain" (chuva agridoce) e que remete à cena final. Em determinado momento, Bruno celebra a alegria de ter conseguido chegar a sua casa sozinho, e seu sucesso, ainda que junto com uma desgraça que lhe acometeu, é sim motivo de estar feliz. E com isso o filme diminui um pouco o tom trágico e acolhe algum contentamento, o primeiro de muitos, se espera, na vida de Bruno. Sendo este um filme sobre perda, é também um filme sobre aprender a lidar com essa perda. Não é assim, afinal, a vida?

CHICO BENTO E A GOIABEIRA MARAVIÓSA

Dá prazer ver uma produção assim, tão inteligente e tão respeitosa ao espírito dos personagens, tão artesanal, principalmente se compararmos com outras produções endereçadas ao público infantil, principalmente as americanas. O menino Isaac Amendoim é um achado! Que menino carismático, que estreia impressionante! Nos faz rir nas cenas que planeja suas presepadas e nas cenas que se mostra ingênuo quanto à "amizade" que tem com o dono do terreno onde fica a goiabeira (Luís Lobianco), e nos deixa emocionados quando a trama se encaminha para um lado mais dramático, que tem toda uma questão respeitosa com a natureza também, com um apego do menino com a goiabeira. A fotografia de CHICO BENTO E A GOIABEIRA MARAVIÓSA (2024), de Fernando Fraiha, carrega a cor viva que destaca as vestimentas do personagem, usada também nos outros dois longas da Turma da Mônica (2019, 2021), mas com uma intenção de fazer a natureza, o verde, se fazer tão personagem quanto as crianças e os adultos. Além do mais, é um filme que faz uma crítica ao capitalismo e exalta a vida simples. Não sei se vão fazer um segundo filme do Chico Bento (o filme não está sendo tão bem assim de bilheteria), mas deviam aproveitar e fazer, pois as crianças crescem rápido.

sexta-feira, fevereiro 21, 2025

CONCLAVE



É difícil às vezes acordar. Ultimamente tenho passado por situações em que o choque de realidade me faz reavaliar minha capacidade ou incapacidade de dirigir minha vida. E quando a gente não pode mais voltar ao passado para refazer certas coisas da maneira correta e vê que agora está mais difícil, a ponto de interferir na hora de abraçar oportunidades de ouro, aí é que dói mesmo. Há uma cena em CONCLAVE (2024) que exemplifica um pouco isso, que é aquela em que um dos cardeais, Adeyemi, percebe que seu sonho de ser papa vai por água abaixo por erros no passado. E ele esperneia como criança, revelando tanto um tipo de ambição pouco nobre quanto, talvez, uma dificuldade de aceitar a realidade.

O tempo é nosso bem mais valioso. E falo isso enquanto cinéfilo da classe trabalhadora também. Em outra circunstância, teria exercitado minha curiosidade sobre cineastas que surgem com obras brilhantes, mas que já tem uma filmografia pregressa. Vejo o caso de Edward Berger. Confesso que na época de NADA DE NOVO NO FRONT (2022) eu não havia ficado tão interessado assim no que ele havia dirigido antes, por mais que esse drama de guerra tenha me agradado bastante. Mas foi agora com CONCLAVE que eu fui pesquisar sobre sua filmografia, que, para minha surpresa, é muito maior do que eu imaginava.

Com larga experiência na televisão alemã, em séries, minisséries e telefilmes, Berger começou a chamar mais atenção no cinema com filmes como JACK (2014) e ALL MY LOVING (2019), títulos que não furaram a bolha e não chegaram a nosso circuito até onde eu sei, até porque o próprio cinema alemão anda um pouco sumido dos cinemas brasileiros já faz um bom tempo. Nada mais justo que, diante dessa realidade de pouca visibilidade atual do cinema da terra de Fritz Lang, um diretor alemão talentoso procure fazer filmes em língua inglesa em produções mais internacionais a fim de mostrar do que é capaz, ainda por cima em produções de orçamento bem maior, como foram os casos de NADA DE NOVO NO FRONT e agora de CONCLAVE, que conta com um elenco masculino incrível, sem falar na presença tão discreta quanto brilhante de Isabela Rossellini.

CONCLAVE já chama a nossa atenção ao mostrar os bastidores do Vaticano. Apesar de ser uma obra de ficção, vende muito bem como verdade o que vemos em tela: os rituais e os processos de eleição de um novo papa, dentro do contexto político atual, em que vivemos sob a ameaça de uma extrema direita e de um novo fascismo. Basta ver o quanto grupos trumpistas e bolsonaristas veem o Papa Francisco: como um exemplo de líder progressista que chega a ser chamado de comunista por esses grupos mais radicais.

O filme é envolvente do início ao fim. Edward Berger dá dinamismo e tensão ao contar a história de um cardeal (Ralph Fiennes) encarregado de organizar um conclave após a morte do Papa. Dentro das paredes daqueles muros se escondem muitos segredos e alguns deles começam a vir à tona. Embora tenhamos uma Rossellini ótima em poucas cenas e muitas delas calada, temos aqui um filme de homens, um filme de grandes interpretações masculinas, principalmente de Ralph Fiennes, que tem aqui o grande papel de sua carreira, como um homem que está passando por um conflito existencial, uma falta de fé, uma vontade de se afastar dali.

Destaque também para a direção de arte suntuosa e para a câmera que parece saber tanto quando olhar para os rostos daqueles homens maduros mais de perto, quanto para o palacete onde vivem e trabalham. Rever o filme, com a Giselle, só me fez perceber o quanto se aproxima da perfeição quando pensamos em narrativa clássica. Edward Berger faz um trabalho incrível de montagem, de construção dos personagens e de seus dramas particulares, da tensão e do suspense criados dentro de um ambiente eclesiástico.

O diretor sabe dar força e símbolo tanto para os cardeais e as freiras, quanto para os espaços no Vaticano, como as pinturas ou os ambientes dos quartos onde os cardeais se hospedam, que servem para enfatizar diferentes ideias. Há também momentos em que há a preferência para as sombras, quando os membros da atual gestão papal discutem os caminhos e os problemas diante de uma possibilidade de um papa fascista assumir o poder.

Além de um Ralph Finnes gigante, não ficam muito atrás Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellito e Isabella Rossellini, entre outros menos conhecidos. Na segunda vez gostei mais do final. Em especial do último plano, antes de o filme encerrar. Muito delicado e certeiro. Um filme sobre política e fé e sobre como essas duas coisas muitas vezes precisam andar juntas. A cena final, das três freiras saindo do prédio, também pode ser vista como uma representação muito bonita e esperançosa do futuro, de como ele pode se afastar, pelo menos aos poucos, do velho patriarcado e abraçar a sensibilidade feminina.

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TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO (Soundtrack to a Coup d'Etat)

Candidato a melhor documentário no Oscar 2025, TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO (2024), de Johan Grimonprez, é esta vibrante obra de denúncia contra o que a Bélgica fez de criminoso durante o período em que colonizou (leia-se matou, roubou e estuprou) o Congo, país situado no coração da África. Para fugir do registro tradicional o diretor une as questões geopolíticas daquele período entre fim dos anos 50 e meados dos anos 1960, em que o Congo estava finalmente prestes a conquistar sua independência, com o rico e sofisticado jazz americano, que naquele período viajava pelo mundo, inclusive pela África. Essa música faz um contraste muito interessante, já que nos faz lembrar algo conseguido e conquistado com talento pelos negros americanos e a situação de extrema pobreza dos irmãos do Congo, como diz Malcolm X, figura das mais interessantes no doc, junto com o primeiro ministro da União Soviética, Kruschev, e o líder da conquista da liberdade e independência do Congo, Lumumba. O filme faz questão de mostrar a cara dos burocratas criminosos e até de alguns mercenários que foram responsáveis por centenas de mortes durante o período após golpe. É triste ver o quanto a África enfrenta tragédias imensas como essa e é invisibilidade nos principais noticiários e nos próprios livros de história.

O BASTARDO (Bastarden)

Quem curte um cinema de narrativa mais clássica certamente vai se envolver e se emocionar bastante com O BASTARDO (2023), de Nicolaj Arcel, que traz Mads Mikkelsen como um homem obstinado a explorar uma região considerada imprópria para cultivo na Dinamarca. Sua missão é a princípio muito solitária, mas logo ele encontra o apoio de um padre, um casal de foragidos e uma menina cigana. Não bastasse a dificuldade da própria natureza, o pior para ele é enfrentar um fazendeiro encrenqueiro e psicopata que se diz dono das tais terras. É um filme muito bonito, emocionante, violento como tem que ser, e com um visual incrível da paisagem local. Em alguns momentos lembra alguns westerns americanos e talvez por isso também traga uma sensação de agradável familiaridade. Arcel e Mikkelsen já havia trabalhado juntos em O AMANTE DA RAINHA (2012).

ROBÔ SELVAGEM (The Wild Robot)

Não sei por que não desisto de vez das animações dos grandes estúdios de Hollywood. Refiro-me mais a minha incrível capacidade de cochilar nesses filmes do que exatamente ao valor deles. Mas o pessoal (crítica especializada) estava falando tão bem deste, que acabei indo ver. E não dá pra dizer que não é bonito. De certa forma, funciona melhor que a a maior parte das animações recentes da Disney ou da Pixar, já que tem certa sofisticação e também se importa com o público infantil e o tema principal é o amor, em especial o amor de mãe. ROBÔ SELVAGEM (2024), de Chris Sanders, se passa numa espécie de futuro em que uma robô feminina com a missão de ajudar quem ela encontrar pela frente vai parar numa ilha habitada apenas por bichos. Depois de um acidente, ela guarda para si um ovo e dele nasce um filhote de ganso, que logo vê a robô como sua mãe. Quem acaba roubando a cena é uma raposa, que faz uma amizade inusitada com a robô e o jovem ganso. Do mesmo diretor de COMO TREINAR SEU DRAGÃO (2010). Atualização: revi na escola com meus alunos e gostei bem mais.

domingo, fevereiro 16, 2025

IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA



Não podia deixar de escrever com um pouco mais de reflexão sobre este que foi um dos filmes que mais me pegou neste ano. Foi meu primeiro contato com este clássico moderno, relançado nos cinemas em cópia remasterizada. Posso lamentar não ter visto muito antes, já que é obra essencial de nosso cinema, mas também posso festejar o fato de ter visto nesta cópia linda, restaurada, e numa sala de cinema de projeção gloriosa, a sala 2 do Cinema do Dragão. 

IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA (1975), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é uma tijolada, um soco no estômago, um suco de realidade cruel, em que pessoas são vendidas como escravos, mulheres vendem seus corpos por uma mixaria e a crueldade dos poderosos é quase aceita por aqueles que não têm a quem recorrer. Dá para entender porque o governo do Brasil da época censurou a obra, que é incrível ter sido feita. Como foi filmada em 16 mm, talvez isso tenha trazido mais leveza no processo de realização.

Hoje funciona mais ainda como documentário, mas antes era um misto muito bem-sucedido de ficção e documentário, já que as pessoas que fazem parte da trama são as próprias habitantes das regiões amazônicas, inclusive a protagonista, Edna de Cássia, que não tem outro trabalho no currículo além deste marcante papel, de Iracema, em que contracena com Paulo César Pereio, brilhante como sempre, aqui vivendo Tião Brasil Grande, um caminhoneiro que ganha a vida carregando madeira da Amazônia, às vezes madeira que não pode ser vendida a não ser ilegalmente.

Era o Brasil do "ame-o ou deixe-o", o Brasil do "milagre econômico", e numa região que talvez fosse mais esquecida que o próprio Nordeste do país. Um filme inacreditável em vários aspectos. Tião dialoga muito bem hoje com essa classe da elite econômica neoliberal (e bolsonarista), que acredita no discurso individualista, na tal meritrocracia. Em determinada cena, ele, gaúcho, de óculos escuros e mais ou menos bem-arrumado para aquela área do Brasil, fala que só não vence na vida quem não tem cabeça, que a oportunidade existe igualmente para todos. Enquanto isso, as pessoas que carregam madeira para ele são quase todos pretos, quase todos pardos, e todos, certamente, muito pobres.

Quando ouvimos isso da voz de Paulo César Pereio é como se estivéssemos ouvindo num tom de ironia, mas sabemos, ou saberemos com muito mais certeza ao longo do filme, que seu personagem é tão cruel quanto os demais homens brancos que passam por aquela região. Enquanto isso, vemos Iracema como alguém que fica entre uma tentativa de sair daquele lugar, principalmente quando conhece Tião e tenta se segurar nele, e depois quando a vemos em estado de decadência, perto do final, desdentada, desgrenhada. Inclusive, Tião não a reconhece, diz que a conheceu diferente antes. Ela ali, perto da estrada numa casa pobre, junto a outras prostitutas, pedindo dinheiro e bebendo cachaça para talvez esquecer um pouco sua condição.

A Iracema de Bodanzky e Senna seria o oposto da Iracema de José de Alencar. Longe da personagem de aspecto glorioso e de força monumental, a Iracema apresentada aqui é a Iracema do Brasil real, do Brasil escondido dos veículos de comunicação da época, especialmente daqueles que queriam vender a imagem do país com o do crescimento econômico, do “pra frente Brasil”, do país do futuro. Iracema e Edna de Cássia se confundem, se misturam; diferente de Pereio, que faz o elo com a ficção, dada sua persona já estabelecida no cinema.

IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA apareceu na eleição da Abraccine – Associação Brasileira dos Críticos de Cinema na posição de número 22, tendo texto escrito para o livro 100 Melhores Filmes Brasileiros escrito por Cesar Zamberlan. Depois reapareceria na publicação seguinte da Abraccine, Documentário Brasileiro – 100 Filmes Essenciais, na posição de nº 50, com texto de Márcio Sallem. Ambos os textos enfatizam uma indignação com o que é visto na tela, com o que Bodanzky e Senna conseguem extrair dos entrevistados, com o quanto o projeto faraônico da rodovia Transamazônica foi também um projeto de destruição da vegetação e dos povos daquela região, além do roubo de terras, queimadas etc. Iracema seria a representação mais cruel dessa pessoa que, ao migrar para a cidade grande, no caso Belém, e começar uma vida de prostituição, ainda menor de idade, acaba como alguém totalmente à deriva, totalmente despida de dignidade.
 
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A TRANSFORMAÇÃO DE CANUTO

São poucos os filmes que contam histórias indígenas brasileiras que realmente me pegaram. Consigo lembrar de maneira mais forte de EX-PAJÉ, de Luis Bolognesi. Mas gosto de ver que os próprios indígenas estão cada vez mais contando suas histórias, dirigindo seus filmes, fazendo seus roteiros. E como as lendas de nossos povos originários têm um caráter bastante poético, alguns filmes conseguem trazer essa poesia de forma mais enfática, como foi o caso de A FLOR DO BURITI. Este A TRANSFORMAÇÃO DE CANUTO (2023), de Ernesto de Carvalho e Ariel Kuaray Ortega, também é um misto de documentário e ficção, e que faz isso tanto por uma falta de recursos para a construção de um filme inteiramente ficcional, como também para preservar o caráter misterioso da história que se deseja contar, de um homem, Canuto, que teria, segundo a lenda, virado bicho, se transformado numa espécie de onça, décadas atrás, na comunidade Mbyá-Guarani, na fronteira entre Brasil e Argentina. Mais do que a tentativa de se contar a história de Canuto, me chamou muito a atenção as poucas cenas com o avô do personagem de Ariel Kuaray Ortega. De todo modo, não deixa de ser também um alento ver um filme sobre o drama do povo indígena que não foque tanto no genocídio dessas pessoas e no sentimento de impotência que costuma provocar.

SALÃO DE BAILE

Eu não sou exatamente uma pessoa ligada à dança. Quando vou ao Cinema do Dragão e há um grupo de pessoas vendo performances de hip hop, por exemplo, não me animo muito a ver. Assim, quando começou SALÃO DE BAILE (2024), achei que não ia gostar, achei que seria desinteressante. Mas que nada: o que vemos é um universo tão próprio, tão diferente do que estou acostumado a ver, que Juru e Vitã, que assinam a direção, percebendo a necessidade de fazer um trabalho didático para um público maior, fazem isso com muita propriedade e muito amor. Fiquei sabendo com o filme sobre a cena Ballroom, sobre a dança voguing, que nasceu muito antes de Madonna criar seu hit, e do quanto essa cena tem crescido no Brasil nos últimos 10 anos (ou mais). O foco de SALÃO DE BAILE é o Rio de Janeiro e suas adjacências, em especial as comunidades mais pobres. Além do mais o Ballroom é um fenômeno mais ligado às pessoas pretas, e por isso duplamente um instrumento de resistência e de autoconfiança com o próprio corpo, já que é um espaço para as pessoas LGBTQIAPN+. Daí o uso de tratamentos enaltecedores para cada pessoa que se apresenta nas batalhas. Excelente montagem, personagens cativantes e que poderiam render spin-offs, por assim dizer. Enfim, um filme que merece ser mais visto.

PESSOAL DO CEARÁ – LADO A LADO B

A música cearense em seu auge, ocorrido na década de 1970, há tempos precisava de um longa-metragem que procurasse trazer à tona tanto sua glória quanto seus problemas. E o filme de Nirton Venancio nos apresenta a esse momento de efervescência cultural na capital cearense, que trouxe nomes como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Rodger Rogério, Fausto Nilo, Téti, entre outros. O filme tem uma estrutura tradicional de documentários, mas há detalhes em cada depoimento que chama a atenção, como o desforcar e em seguida o focar no LP do Pessoal do Ceará, na mesa de trabalho de Fausto Nilo, um dos principais narradores dessa história, bem costurada. Um dos méritos de Nirton foi o de conseguir trazer peso semelhante para cada pessoa do grupo, sem enfatizar tanto Belchior, que virou um mito antes mesmo de morrer, ou Fagner, que foi o que alcançou maior sucesso comercial. Ou seja, se for para saber mais sobre esses dois artistas, que se veja outro filme, ou leia mais a respeito deles em outras fontes. O filme tem a intenção de tratar do grupo, ou do não-grupo, já que não havia uma coesão entre os artistas. Até porque todos eles tiveram suas próprias histórias de vida difíceis. PESSOAL DO CEARÁ – LADO A LADO B (2024) foi exibido em caráter de teste de público, mas é bem possível que nada seja mudado quando de seu lançamento em circuito neste ano. O resultado final é um filme que tanto provoca interesse àqueles que não conhecem tanto os artistas, quanto traz alegria e saudosismo a quem os conheceu. Além do mais, certos depoimentos expõem o lado cruel da indústria fonográfica no Brasil, mas principalmente certo tom de desencanto da maior parte das pessoas que participaram desse momento tão especial da música popular brasileira.

sábado, fevereiro 15, 2025

ANORA



Um abraço é algo que nos traz conforto, bem-estar, mas muitas vezes, um abraço verdadeiro, quando nos pega mais frágeis, nos desarma. Escrevo isso, pensando ainda no final de ANORA (2024) e no quanto ele é uma mistura de desespero, frustração e até mesmo esperança, para quem preferir completar o final em aberto com uma nova história de amor, desta vez mais realista e mais sincera. O diretor Sean Baker disse que se inspirou em NOITES DE CABÍRIA, de Federico Fellini, para o seu final. Ambos os filmes tratam da vida dura de mulheres profissionais do sexo.

A trajetória de Anora, que gosta de ser chamada de Ani, a que somos apresentados nas pouco mais de duas horas de metragem, é suficiente para que compreendamos (no sentido maior do termo) seus sentimentos, que atravessam o cansaço, a alegria festiva e a frustração. Mais ou menos nessa ordem mesmo. E é muito fácil gostar de Ani, interpretada de maneira inspirada por Mikey Madison, uma das atrizes hoje celebradas que apareceram em papéis bem pequenos em uma cena de ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD, de Quentin Tarantino.

Sean Baker gosta de jogar os holofotes com muito carinho para pessoas marginalizadas, vide títulos como TANGERINE (2015) e PROJETO FLÓRIDA (2017). Em ANORA, seu trabalho mais ambicioso e o vencedor da Palma de Ouro em Cannes, somos apresentados a uma moça que trabalha como dançarina de clubes de strip-tease que se aproxima de Vanya/Ivan (Mark Eydelshteyn), filho de um milionário russo. Ele aparece no clube, gosta dela, adora o sexo e a simpatia da moça e pega seu contato para serviços fora daquele espaço.

Talvez o grande trunfo deste filme esteja em Mikey Madison, jovem atriz que até então não havia alcançado grande visibilidade. Que atriz incrível! O filme tem um quê de John Cassavetes, e me fez lembrar do mestre do cinema independente, não apenas pelo espaço do clube, de A MORTE DE UM BOOKMAKER CHINÊS, mas também pelas interpretações aparentemente mais livres, embora exista ali um roteiro que foi, acredito eu, muito bem ensaiado.

A beleza do filme está também no quanto ele abraça a personagem de Ani, no quanto ele compreende sua necessidade de sair da vida que vive e embarcar no que parece ser um conto de fadas. E nesse sentido o filme parece uma espécie de UMA LINDA MULHER, só que mais cruel, embora sem deixar de lado o humor. Ainda assim, eu ri pouco durante o filme, na primeira vez que o vi, talvez por antecipar algumas coisas ou pensar no efeito do dinheiro na vida das pessoas.

Na revisão, ANORA me pareceu ainda melhor, talvez por já estar preparado para tudo o que aconteceria, e poder, inclusive, rir mais dos momentos divertidos, bem como me emocionar e me solidarizar com a personagem, ao fim de sua jornada, no terceiro ato do filme. Quem também se destaca e conquista a todos é Yuri Borisov (COMPARTIMENTO Nº 6) como Igor, o capanga de bom coração e o único que de fato enxerga Anora. Inclusive, a cena dos dois conversando sozinhos, na última noite na mansão, traz um certo alento, depois de tudo.

ANORA foi indicado a seis Oscar: filme, direção, atriz, ator coadjuvante (Yuri Borisov), roteiro original e montagem, ambos a cargo do próprio Sean Baker. Atualmente, ANORA é um dos favoritos para vencer a categoria principal, depois de ter ganhado o DGA e o PGA.

+ TRÊS FILMES

EMILIA PÉREZ

Talvez não seja o desastre que eu esperava, mas EMILIA PÉREZ (2024), de Jacques Audiard, é, sem dúvida, um filme muito problemático. E nem falo das questões de representatividade do povo mexicano e das pessoas trans, pois não tenho lugar de fala para tal, mas de como funciona como narrativa visual mesmo. Quem acaba quase salvando o filme e garantindo bons momentos, inclusive uma ótima cena musical, é Zoe Saldaña, que tem uma presença de cena incrível. E a cena musical dela quase é estragada pela Karla Sofía Gascón. Ainda assim, também destacaria uma cena boa de Selena Gomez: aquela em que ela está dentro do quarto e depois entra numa sala escura. Quanto ao drama dos personagens, até que é envolvente, mas vai seguindo ladeira abaixo para sua conclusão. Isso depois de não conseguir emocionar a plateia ou mostrar química alguma entre suas personagens, nem mesmo na relação de amizade, por assim dizer, entre a advogada e a ex-narcotraficante. Há uma cena que parece uma coisa meio Dr. Jeckyl & Mr. Hyde, que é uma que envolve Gascón e Gomez na cama, discutindo sobre os filhos, o que pode chamar a atenção, de forma negativa, para a comunidade trans. O filme pode até não merecer tanto hate que tem recebido, mas talvez seja proporcional à quantidade de premiações (Cannes) e indicações ao Oscar (13). Ainda assim, torço por Zoe Saldaña no dia 2 de março.

A GAROTA DA AGULHA (Pigen Med Nålen)

O candidato da Dinamarca a melhor filme internacional no Oscar 2025 é A GAROTA DA AGULHA (2024), drama soturno, de mundo cão, em preto e branco e com imagens que fazem lembrar o expressionismo alemão. O diretor Magnus Von Horn sai do colorido e solar SWEAT (2020) para esta história terrível sobre mulher cujo esposo está desaparecido na Primeira Guerra Mundial e está prestes a ser despejada do apartamento onde mora. A desgraça não para por aí, pois se envolve com o chefe, engravida, e há mais uma série de situações que causam aflição e que tirariam a vontade de viver de muita gente. Sua vida ganha novo rumo quando conhece uma mulher mais velha (Trine Dyrholm, atriz conhecida dos filmes de Susanne Bier) que recebe bebês para adoção. Engraçado que a atriz principal, Vic Carmen Sonne, de HOLIDAY, de Isabella Eklöf, diferente do filme anterior, está bem despida de vaidade, até para compor essa personagem muito sofrida. Senti falta de mais experimentações visuais, que o diretor parece querer entregar no início, mas que depois vai deixando de lado em prol de uma narrativa um pouco mais convencional. Um dos pontos de destaque do filme, a fotografia, está a cargo de Michal Dymek, de EO e do também oscarizável A VERDADEIRA DOR.

MARIA CALLAS (Maria)

Não sou um fã de Pablo Larraín, mas amo seus dois primeiros filmes que abordam o inferno interior da vida de duas pessoas públicas, Jacqueline Kennedy, em JACKIE (2016), e Ladi Di, em SPENCER (2021). Se MARIA CALLAS (2024) fosse tão bom quanto os outros dois, eu ficaria muito satisfeito. Mas o cineasta chileno não estava tão inspirado, provavelmente, o que é natural. Acontece. Angelina Jolie está bem como uma Maria Callas solitária, viciada numa droga que a faz ter alucinações e triste por não ter mais a voz de seus tempos de glória. Alguns flashbacks nos fazem entender um pouco de sua trajetória de vida, mas diria que as melhores cenas são aquelas em que ela contracena com seus empregados, a governanta (Alba Rohrwacher) e o mordomo (Pierfrancesco Favino), dois dos melhores atores do cinema italiano contemporâneo. Indicado ao Oscar na categoria de fotografia.

sábado, fevereiro 08, 2025

A ESTRADA PERDIDA (Lost Highway)



Os significados de A ESTRADA PERDIDA (1997), ou pistas para o que veríamos a seguir, já começam nos empolgantes créditos de abertura, que mostram a imagem de uma estrada escura, um carro trafegando por essa estrada em que só é possível ver cerca de um metro adiante; todo o resto está envolto em escuridão. A canção que toca durante os créditos é “Deranged”, de David Bowie. As primeiras palavras da inspirada canção dizem: “Funny how secrets travel”, ou seja, “engraçado como os segredos viajam”. Mais à frente, o eu lírico diz que está “deranged”, louco.

Se a pessoa que sai da sessão do filme não sai louco, geralmente sai completamente desnorteado, mas também imensamente maravilhado com o salto que David Lynch dá em sua filmografia, por mais que só alguns episódios de TWIN PEAKS (1990-1991) ou de TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) já fossem imensos como cinema e como uma imersão em universos muito estranhos, mas não deslocados de sentimentos reais. E é por isso que eu amo tanto Lynch: ele é um cineasta que fala de paixões, de desejos, de falhas humanas, de tentativas de vencer, mesmo que através do esquecimento, os maiores pecados e as grandes desgraças das vidas de seus heróis.

Não me recordo se cheguei a rever por completo A ESTRADA PERDIDA depois da única vez que tive a honra (e o impacto gigantesco) de vê-lo no cinema, no dia 31.12.1997, numa mostra de melhores do ano organizada pelo Cinema de Arte, no hoje extinto Studio Beira-Mar. Não acreditei naquilo que estava vendo. Era Lynch sendo ainda mais Lynch, transgredindo mais e trazendo a noção de sonho para dentro de sua narrativa de maneira muito mais perturbadora e inquietante. 

A ESTRADA PERDIDA é uma espécie de filme de terror noir, talvez até mais angustiante que CIDADE DOS SONHOS (2001), sua obra-prima maior e filme-irmão, no sentido de que a nova vida que o protagonista (Bill Pullman) ganha após assassinar a esposa é tão confusa e atormentada quanto a que ele já levara, por mais que coisas aparentemente boas apareçam pelo caminho, como seu sucesso com as mulheres e o encontro com uma femme fatale extraordinária, uma loira vivida por Patricia Arquette, aqui em papel duplo.

Isso porque, diferente do filme de 2001, não temos o gostinho do novo amor nascendo. Além do mais, em CIDADE DOS SONHOS já começamos a história pela vida feliz da protagonista e de como ela conhece um grande amor. Já em A ESTRADA PERDIDA, quando uma Patricia Arquette loira diz "Você nunca me terá", depois da cena de sexo no deserto, aquilo representa bem mais do que apenas um fora: trata-se da realidade que fere como faca, da mulher da sua vida que foi morta e não mais voltará. Se CIDADE DOS SONHOS une o horror à tragédia, usando também o registro melodramático, aqui ele traz um tom mais seco para o destino de Fred Madison/Pete Dayton. Além do mais, A ESTRADA talvez seja mais enigmático, porque a vida de Pete Dayton parece mais real. Quando o saxofonista vivido por Bill Pullman sai de cena e se transforma no jovem mecânico de automóveis encarnado por Balthazar Getty, esse novo mundo é tão real quanto o anterior. Tanto que esses dois mundos se interconectam de forma mais concreta.

O uso de homenagens explícitas à obra-prima de Robert Aldrich A MORTE NUM BEIJO, é uma sacada e tanto. É como se Lynch pegasse emprestado o mundo criado por Aldrich e moldasse à sua poética, tornando tudo ainda mais sombrio. Lendo o texto de Heitor Romero para o livro Neo-Noir – Filmes Essenciais, da Versátil, foi que percebi o quanto o filme do Lynch também é devedor de uma dobradinha de clássicos de Fritz Lang, que vi em 2020: UM RETRATO DE MULHER e ALMAS PERVERSAS, filmes com o mesmo elenco principal, mas com uma distribuição de funções, por assim dizer.

Claramente também lembramos de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock, pela mudança da cor do cabelo da atriz: sai a morena do início, com seus segredos, mas aparentemente mais inocente, e entra em cena uma femme fatale quase típica. O próprio Lynch já havia usado essa homenagem a UM CORPO QUE CAI em atrizes interpretando personagens distintas em TWIN PEAKS, quando Sheryl Lee surge como a prima de Laura Palmer em determinado episódio. Outra comparação hitchcockiana que faço é com PSICOSE, já que aqui também temos a “morte” do protagonista com cerca de 30 minutos de projeção. E assim como aconteceu comigo durante muito tempo com PSICOSE, a lembrança das cenas de A ESTRADA PERDIDA era muito maior até o momento da transformação na penitenciária.

Quero destacar mais uma vez um fato, que eu já devo ter mencionado aqui antes: David Lynch é um dos poucos diretores que me faze sentir medo. Na revisão, já estava preparado, mas da primeira vez que vi o filme no cinema, a imagem de Robert Blake, com aquela maquiagem branca no rosto me deu muito medo. Ele é o chamado “homem misterioso”, o personagem mais enigmático da trama e que ainda utiliza uma câmera para filmar sua vítima. Na cena em que ele diz estar na casa de Madison, há uma cena em que o saxofonista adentra a escuridão da casa e depois dali ele sai modificado. Então, a princípio, é como se o homem misterioso fosse uma espécie de demônio, mas depois ele mais parece uma personificação do inconsciente.

Rever A ESTRADA PERDIDA foi importante também para que eu percebesse, mais uma vez, o quanto a revisão é importante. Sei que é muito bom nos apegarmos ao primeiro momento em que conhecemos a obra, sem falar que ver no cinema é outra coisa, e infelizmente ninguém de Fortaleza ainda quis trazer a cópia remasterizada para exibição local, mas é essencial rever e perceber mais detalhes, ter mais insights, notar mais obsessões do realizador do "fogo que caminha comigo", que infelizmente se foi mais cedo do que talvez iria, por causa justamente do fogo que tomou conta de Los Angeles no mês passado.

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SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS (Se7en)

Lembro que na época que vi SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS (1995), de David Fincher, pela primeira vez no cinema, cerca de 30 anos atrás (e como o tempo voa, hein), já havia me incomodado bastante com o filme, com o roteiro meio bobo desse assassino que mata as pessoas homenageando os pecados capitais, mas, agora alçado à categoria de clássico, e eu apreciando bem mais o cinema de Fincher, entendi que não gosto do roteiro, das falas, da tentativa de trazer emoção nos momentos mais tensos, da ênfase desnecessária às emoções quase infantis do personagem de Brad Pitt. Do que eu gosto é das imagens, de como Morgan Freeman é sempre ótimo, mesmo com roteiro mais ou menos, e daquela ótima cena de ação, de caça ao assassino no prédio e depois nas ruas, com aquela chuva que parece nunca parar de molhar a cidade. Felizmente Fincher evoluiu no gênero policial, vide seus ótimos episódios de MINDHUNTER (2017-19). Além do mais, o mais recente O ASSASSINO (2023) prova que ele manda bem demais com ação e personagens frios.

UM HOMEM DIFERENTE (A Different Man)

É facilmente perceptível uma divisão do filme em lado A e lado B. Gosto muito do lado A e era aquele tom de ficção científica retrô que havia me ganhado. Inclusive, havia ali uma espécie de paralelismo fácil com A SUBSTÂNCIA. Ambos os filmes oferecem soluções quase milagrosas para determinado problema (o envelhecimento ali, uma deformidade física aqui). Com a entrada em cena do personagem Oswald, UM HOMEM DIFERENTE (2024), de Aaron Schimberg, se transforma noutro filme, mais complexo, talvez, mais reflexivo, mas não necessariamente mais atraente. Não gostei tanto desse afastamento do filme de gênero, mas acho interessante o senso de humor tortuoso por que passa o personagem de Sebastian Stan, de como a narrativa envereda por um tipo de ironia curiosa.

TIPOS DE GENTILEZA (Kinds of Kindness)

Quando conheci o cinema de Yorgos Lanthimos, ficava ainda com o pé atrás em saber se aquilo que estava vendo era de bom gosto, se era grande cinema, ou, como muita gente costuma afirmar, é perda de tempo ou algo do tipo. Foi assim com DENTE CANINO (2009) e com O LAGOSTA (2015), mas, a partir de O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), com o quanto este filme me fez sentir medo e, consequentemente, respeito, seu cinema passou a ser visto por mim como um dos mais interessantes da atualidade. Tanto que festejei quando o exuberante POBRES CRIATURAS (2023) saiu com o Leão de Ouro em Veneza, mesmo sem ter visto o filme. Assim como festejei o Oscar para a incrível Emma Stone, que retorna como uma das intérpretes principais de TIPOS DE GENTILEZA (2024), que funciona como uma espécie de presente para os fãs do diretor, já que é como se fosse três filmes em um, em suas quase três horas de duração, que passam sem a gente sentir. Pode ser irregular, como praticamente todo filme em segmentos é, mas posso dizer que gostei das três histórias e do quanto cada uma delas é envolvente à sua maneira. O diretor soube, por exemplo, deixar a história menos fácil de acompanhar por último, uma escolha acertada. O elemento em comum das três é um homem chamado R.M.F. Na primeira história ele é a vítima de uma batida de trânsito. Jesse Plemons é "contratado" pelo seu chefe (Willem Dafoe, sem medo de parecer visualmente ridículo) e também uma espécie de amante dominador para matar aquele homem, simulando um acidente. As três histórias tratam de abuso. Na primeira, Plemons se deixa ser dominado por aquele homem mais velho, que manda até no que ele come e lê ou se ele deve ou não fazer sexo com a esposa. Esse é talvez o mais envolvente dos três segmentos. É uma história de amor doentia. Mas o segundo não fica muito atrás quanto à capacidade de nos envolver, lembrando até um episódio do ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Neste, Plemons sofre com o desaparecimento de sua esposa (Emma Stone), mas quando ela reaparece, ele começa a perceber certas coisas. Entre as coisas de que mais gostei no terceiro episódio foi o quanto ele é mais enigmático (e violento) e talvez o que mais se aproxima dos filmes gregos de Lanthimos. Aqui temos uma busca por uma espécie de santa capaz de operar milagres inimagináveis e há também uma seita chefiada pelo personagem de Dafoe. Este terceiro segmento foi o que mais me chamou a atenção para os aspectos formais do filme, do quanto o diretor tem cuidado para tornar cada imagem uma pintura, como no momento em que Stone está na casa do ex e toda a paleta de cores fica próxima do marrom. Foi aí que eu percebi que uma revisão de TIPOS DE GENTILEZA, prestando mais atenção na fotografia, também seja uma boa. Até porque este filme, assim como quase todos os trabalhos do diretor, possuem um tipo de humor muito próprio, muito bem-vindo e sombrio. No mais, além do trio Stone-Dafoe-Plemons, o filme ainda conta com a presença ótima de Margaret Qualley, que havia aparecido em POBRES CRIATURAS, mas num papel pequeno.