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É difícil às vezes acordar. Ultimamente tenho passado por situações em que o choque de realidade me faz reavaliar minha capacidade ou incapacidade de dirigir minha vida. E quando a gente não pode mais voltar ao passado para refazer certas coisas da maneira correta e vê que agora está mais difícil, a ponto de interferir na hora de abraçar oportunidades de ouro, aí é que dói mesmo. Há uma cena em CONCLAVE (2024) que exemplifica um pouco isso, que é aquela em que um dos cardeais, Adeyemi, percebe que seu sonho de ser papa vai por água abaixo por erros no passado. E ele esperneia como criança, revelando tanto um tipo de ambição pouco nobre quanto, talvez, uma dificuldade de aceitar a realidade.
O tempo é nosso bem mais valioso. E falo isso enquanto cinéfilo da classe trabalhadora também. Em outra circunstância, teria exercitado minha curiosidade sobre cineastas que surgem com obras brilhantes, mas que já tem uma filmografia pregressa. Vejo o caso de Edward Berger. Confesso que na época de NADA DE NOVO NO FRONT (2022) eu não havia ficado tão interessado assim no que ele havia dirigido antes, por mais que esse drama de guerra tenha me agradado bastante. Mas foi agora com CONCLAVE que eu fui pesquisar sobre sua filmografia, que, para minha surpresa, é muito maior do que eu imaginava.
Com larga experiência na televisão alemã, em séries, minisséries e telefilmes, Berger começou a chamar mais atenção no cinema com filmes como JACK (2014) e ALL MY LOVING (2019), títulos que não furaram a bolha e não chegaram a nosso circuito até onde eu sei, até porque o próprio cinema alemão anda um pouco sumido dos cinemas brasileiros já faz um bom tempo. Nada mais justo que, diante dessa realidade de pouca visibilidade atual do cinema da terra de Fritz Lang, um diretor alemão talentoso procure fazer filmes em língua inglesa em produções mais internacionais a fim de mostrar do que é capaz, ainda por cima em produções de orçamento bem maior, como foram os casos de NADA DE NOVO NO FRONT e agora de CONCLAVE, que conta com um elenco masculino incrível, sem falar na presença tão discreta quanto brilhante de Isabela Rossellini.
CONCLAVE já chama a nossa atenção ao mostrar os bastidores do Vaticano. Apesar de ser uma obra de ficção, vende muito bem como verdade o que vemos em tela: os rituais e os processos de eleição de um novo papa, dentro do contexto político atual, em que vivemos sob a ameaça de uma extrema direita e de um novo fascismo. Basta ver o quanto grupos trumpistas e bolsonaristas veem o Papa Francisco: como um exemplo de líder progressista que chega a ser chamado de comunista por esses grupos mais radicais.
O filme é envolvente do início ao fim. Edward Berger dá dinamismo e tensão ao contar a história de um cardeal (Ralph Fiennes) encarregado de organizar um conclave após a morte do Papa. Dentro das paredes daqueles muros se escondem muitos segredos e alguns deles começam a vir à tona. Embora tenhamos uma Rossellini ótima em poucas cenas e muitas delas calada, temos aqui um filme de homens, um filme de grandes interpretações masculinas, principalmente de Ralph Fiennes, que tem aqui o grande papel de sua carreira, como um homem que está passando por um conflito existencial, uma falta de fé, uma vontade de se afastar dali.
Destaque também para a direção de arte suntuosa e para a câmera que parece saber tanto quando olhar para os rostos daqueles homens maduros mais de perto, quanto para o palacete onde vivem e trabalham. Rever o filme, com a Giselle, só me fez perceber o quanto se aproxima da perfeição quando pensamos em narrativa clássica. Edward Berger faz um trabalho incrível de montagem, de construção dos personagens e de seus dramas particulares, da tensão e do suspense criados dentro de um ambiente eclesiástico.
O diretor sabe dar força e símbolo tanto para os cardeais e as freiras, quanto para os espaços no Vaticano, como as pinturas ou os ambientes dos quartos onde os cardeais se hospedam, que servem para enfatizar diferentes ideias. Há também momentos em que há a preferência para as sombras, quando os membros da atual gestão papal discutem os caminhos e os problemas diante de uma possibilidade de um papa fascista assumir o poder.
Além de um Ralph Finnes gigante, não ficam muito atrás Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellito e Isabella Rossellini, entre outros menos conhecidos. Na segunda vez gostei mais do final. Em especial do último plano, antes de o filme encerrar. Muito delicado e certeiro. Um filme sobre política e fé e sobre como essas duas coisas muitas vezes precisam andar juntas. A cena final, das três freiras saindo do prédio, também pode ser vista como uma representação muito bonita e esperançosa do futuro, de como ele pode se afastar, pelo menos aos poucos, do velho patriarcado e abraçar a sensibilidade feminina.
+ TRÊS FILMES
TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO (Soundtrack to a Coup d'Etat)
Candidato a melhor documentário no Oscar 2025, TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO (2024), de Johan Grimonprez, é esta vibrante obra de denúncia contra o que a Bélgica fez de criminoso durante o período em que colonizou (leia-se matou, roubou e estuprou) o Congo, país situado no coração da África. Para fugir do registro tradicional o diretor une as questões geopolíticas daquele período entre fim dos anos 50 e meados dos anos 1960, em que o Congo estava finalmente prestes a conquistar sua independência, com o rico e sofisticado jazz americano, que naquele período viajava pelo mundo, inclusive pela África. Essa música faz um contraste muito interessante, já que nos faz lembrar algo conseguido e conquistado com talento pelos negros americanos e a situação de extrema pobreza dos irmãos do Congo, como diz Malcolm X, figura das mais interessantes no doc, junto com o primeiro ministro da União Soviética, Kruschev, e o líder da conquista da liberdade e independência do Congo, Lumumba. O filme faz questão de mostrar a cara dos burocratas criminosos e até de alguns mercenários que foram responsáveis por centenas de mortes durante o período após golpe. É triste ver o quanto a África enfrenta tragédias imensas como essa e é invisibilidade nos principais noticiários e nos próprios livros de história.
O BASTARDO (Bastarden)
Quem curte um cinema de narrativa mais clássica certamente vai se envolver e se emocionar bastante com O BASTARDO (2023), de Nicolaj Arcel, que traz Mads Mikkelsen como um homem obstinado a explorar uma região considerada imprópria para cultivo na Dinamarca. Sua missão é a princípio muito solitária, mas logo ele encontra o apoio de um padre, um casal de foragidos e uma menina cigana. Não bastasse a dificuldade da própria natureza, o pior para ele é enfrentar um fazendeiro encrenqueiro e psicopata que se diz dono das tais terras. É um filme muito bonito, emocionante, violento como tem que ser, e com um visual incrível da paisagem local. Em alguns momentos lembra alguns westerns americanos e talvez por isso também traga uma sensação de agradável familiaridade. Arcel e Mikkelsen já havia trabalhado juntos em O AMANTE DA RAINHA (2012).
ROBÔ SELVAGEM (The Wild Robot)
Não sei por que não desisto de vez das animações dos grandes estúdios de Hollywood. Refiro-me mais a minha incrível capacidade de cochilar nesses filmes do que exatamente ao valor deles. Mas o pessoal (crítica especializada) estava falando tão bem deste, que acabei indo ver. E não dá pra dizer que não é bonito. De certa forma, funciona melhor que a a maior parte das animações recentes da Disney ou da Pixar, já que tem certa sofisticação e também se importa com o público infantil e o tema principal é o amor, em especial o amor de mãe. ROBÔ SELVAGEM (2024), de Chris Sanders, se passa numa espécie de futuro em que uma robô feminina com a missão de ajudar quem ela encontrar pela frente vai parar numa ilha habitada apenas por bichos. Depois de um acidente, ela guarda para si um ovo e dele nasce um filhote de ganso, que logo vê a robô como sua mãe. Quem acaba roubando a cena é uma raposa, que faz uma amizade inusitada com a robô e o jovem ganso. Do mesmo diretor de COMO TREINAR SEU DRAGÃO (2010). Atualização: revi na escola com meus alunos e gostei bem mais.
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