domingo, junho 14, 2026

ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise)

 
A reexibição nos cinemas de ANTES DO AMANHECER (1995) me trouxe um pouco de desapontamento no que se refere à qualidade da imagem. Custo a crer que aquela cópia seja a da remasterização de 2017 em 2K, que depois resultaria em lançamento do BD da Criterion. De todo modo, estava animado para rever no cinema depois de mais de 30 anos da primeira vez que o vi, em gloriosa película 35mm, numa das duas (saudosas) salas do Art Iguatemi. Na época, então na faixa dos 20 anos de idade, tinha a idade aproximada dos personagens, o que resultou em maior identificação. Hoje, quase um idoso, é natural que me identifique mais com o drama dos personagens de AS PONTES DE MADISON, de Clint Eastwood, revisto há pouco tempo em boa cópia em 1080p.

O que acontece é que, à medida que o tempo passa, meu distanciamento com aqueles personagens se acentua um pouco. Mas lembro que numa das vezes que o vi, em 2013, acho que me preparando para ver ANTES DA MEIA-NOITE (2013), o terceiro da trilogia, chorei copiosamente durante boa parte do filme. Em parte, chorei por ter deixado passar minha Celine, por não ter sido feliz em minha vida sentimental. Depois, noutra ocasião, em 2021, na pandemia, já vi o filme um pouco menos à flor da pele. Agora, cinco anos depois, com a Giselle (minha Celine do meu lado, enfim), ver o filme traz mais contentamento pela minha vida presente, mas um distanciamento maior pela ingenuidade daqueles dois jovens.

Mas também penso que a juventude tem uma qualidade que a maturidade não tem, mesmo fazendo suas escolhas erradas, dando suas cabeçadas na vida por falta de experiência. Essa qualidade está em ter a ousadia de pensar aprofundadamente em várias questões existenciais, e esses pensamentos surgem de maneira muito entusiasmada, intensa e apaixonada. E não precisamos lembrar que é na casa dos 20 que os mais importantes cantores e bandas se estabelecem. É na casa dos 20 que a mente está mais porosa, mais parecida com uma antena sintonizada ao zeitgeist.

Então, ver Ethan Hawke e Julie Delpy transmitindo a paixão de Jesse e Celine naquelas horas que passam no trem e nas ruas e lugares de Viena continua sendo muito gostoso, muito emocionante de ver. Para eles, nada mais é importante: nem os rapazes da peça de teatro, ou a mulher que supostamente lê as mãos ou o suposto poeta de rua. Aliás, essas pessoas parecem ter esse ponto em comum: eles não parecem exatamente profissionais, embora os artistas já se apresentem como amadores. Pode-se tanto desgostar dos momentos de cinismo (ou visão realista?) de Jesse ou da ingenuidade (ou visão romântica, mas não menos real) frente a esses personagens passageiros, mas o que a gente percebe é isso: essas pessoas não importam muito. O que importa para Jesse e Celine é somente o tempo que estão passando juntos.

A cena da “ligação” no restaurante continua sendo uma das mais bonitas, pois revela a percepção deles em relação ao outro: a percepção de Celine do beijo de adolescente de Jesse; a percepção de Jesse do sentimento que Celine estava tendo por ele. A cena na grama, dos dois deitados enquanto tomam vinho, com a fotografia que captura a escuridão da noite os emoldurando, é cheia de muita excitação. Não pelo sexo em si – Linklater, apesar de ser chamado de “o Rohmer texano”, está longe de conseguir passar o erotismo dos filmes do cineasta francês –, mas pela dúvida que os aflige no que se refere ao dilema: vão ou não se ver novamente depois do amanhecer?

Daí vem a semelhança novamente com AS PONTES DE MADISON e no quanto o pensar demais pode atrapalhar o futuro de uma relação. No caso do romance do homem e da mulher maduros, há a preocupação com os filhos e o marido, numa sociedade mais tradicional e cheia de preconceitos com mulheres separadas; no caso dos jovens, há a burrice de não terem trocado números de telefone. Mas aí é que está: a estupidez também faz parte da juventude. É nela que se vive mais intensamente, mas é nela também que se comete muitos erros, que podem nunca ser desfeitos. 

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NATAL AMARGO (Amarga Navidad)

É interessante notar que Almodóvar parece fazer aqui justamente aquilo que seu alter-ego, vivido por Leonardo Sbaraglia, faz: busca desesperadamente por inspiração para seu filme. Em NATAL AMARGO (2026), cineasta trabalha em torno de uma história, que se passa em 2004, envolvendo uma diretora de comerciais que já teve sucesso como cineasta no passado, ainda que um sucesso para poucos apreciadores. Essa mulher está sofrendo de uma forte enxaqueca (o que faz lembrar imediatamente o protagonista de DOR E GLÓRIA (2019)). Enquanto isso, ela tem o apoio do marido, o bombeiro e stripper nos fins de semana. É um filme que fala sobre o processo criativo e sobre a questão ética envolvendo a obtenção de inspiração de histórias reais dolorosas para compensar a falta de criatividade. Achei curiosa a trilha sonora de Alberto Iglesias parece feita para um filme mais frenético de suspense do que para uma obra mais pausada sobre culpa. Em certos momentos deu impressão de que era a trilha para um outro filme, remetendo aos melodramas clássicos hollywoodianos. Eu confesso que preciso ver de novo o filme para falar melhor a respeito, devido a problemas envolvendo sonolência em horários inconvenientes. Até porque eu gostei de praticamente todos os longos do cineasta dos últimos quinze anos. A impressão que tenho é que se trata do filme de que menos gostei dele desde ABRAÇOS PARTIDOS (2009). Mas tudo pode mudar numa revisão.

TERAPIA DO SEXO (Thanks for Sharing)

É interessante ver um filme sobre viciados em sexo buscando ajuda numa espécie de AA para esse problema, ainda mais sendo mostrados de forma leve. Não que os problemas não surjam e os dramas desses personagens não mostrem o quanto é difícil viver com esse vício. O caso do jovem médico (Josh Gad) já de cara apresenta o quanto esse seu apetite voraz por pornografia e qualquer coisa relacionada a ela prejudicou sua vida profissional, além de tornar nula uma vida afetiva. TERAPIA DO SEXO (2012), de Stuart Blumberg, se beneficia de dois grandes atores, Tim Robbins, o mais velho dos três homens, é casado e tem vários anos de distância do vício, o que o torna padrinho do personagem de outro grande ator, Mark Ruffalo, um homem solteiro com dificuldade de manter justamente aquilo que seria sua salvação: um relacionamento estável e tranquilo, monogâmico, algo que para ele talvez pudesse ser próximo do tedioso. Eis que aparece a personagem de Gwyneth Paltrow, mas há algo na química dos dois que não funciona muito. Fico pensando se a escalação de Paltrow não foi o problema, mas talvez não. O filme é franco ao mostrar abertamente os problemas, apresenta as quedas (ou quase quedas) de seus personagens e o quanto também se tornam mais fortes tendo o grupo como ajuda nos momentos de crise. É um bom (ou quase bom) filme de amizade em situações de crise.

A GRAÇA (La Grazia)

A palavra "graça" tem uma porção de significados. Neste novo filme de Paolo Sorrentino, ela tem pelo menos dois sentidos: há o sentido de perdão, que tem a ver com a ação do personagem de Toni Servillo, como presidente da Itália (e também com o perdão à própria esposa falecida e que segue sendo amada), e o perdão oficial a pessoas que estão presas, o chamado indulto. Os dois casos de indulto a serem pensados pelo presidente são de pessoas que provavelmente tiveram suas razões para ter matado: uma mulher que sofria com muita frequência a violência do marido e que muito provavelmente seria assassinada; e um homem que matou a própria esposa com Alzheimer. Mas Sorrentino vai muito além desses dois casos, embora ambos sejam muito interessantes e importantes para a trama. Isso porque, mais importante do que a trama é o modo como ele a apresenta, a elegância com que é apresentado cada quadro, além da sensibilidade com que o protagonista é tratado em sua solidão e sua dificuldade em sair da paralisia, dentro de um cargo que requer o mínimo de ação para que seja reconhecido. A GRAÇA (2025) é provavelmente o filme de que mais gostei de Sorrentino, este diretor que ainda vejo com um pé atrás, mas que começa a me ganhar aos poucos. Até então, havia gostado de A GRANDE BELEZA (2013) e de A JUVENTUDE (2015), principalmente por ambos tratarem da velhice. Sorrentino alia tanto o moderno quanto o clássico em sua visão de um país que também precisa conviver com esses dois aspectos de sua personalidade. Há uma cena que me tocou profundamente: a conversa do personagem de Servillo com uma redatora da revista Vogue. Que lindo!

segunda-feira, junho 08, 2026

OBSESSÃO (Obsession)

 
Já faz um tempinho que vi OBSESSÃO (2025) e eu até posso culpar a falta de tempo, o excesso de afazeres, pelo fato de eu não ter escrito nada - até agora - sobre este que é um dos filmes mais importantes do ano (da década, eu diria), principalmente por estar, junto com outras produções de terror de baixo orçamento, ditando tendências, já que grandes produções têm naufragado nas bilheterias enquanto produções baratas (e muito boas) têm causado um rebuliço imenso. Vi o filme numa sessão lotada, por exemplo. E deixo uma dica aos exibidores: coloquem mais salas legendadas, pois essas são as que lotam primeiro. Não apenas deste filme, mas de outros recentes também.

OBSESSÃO é um sucesso: até mesmo no trabalho vejo colegas entusiasmados para ver ou porque viram o filme. Claro que esse sucesso de público (e também de crítica) do filme não significaria tanto assim se este conto moral do jovem Curry Barker não fosse tudo isso. Trata-se de uma espécie de inversão de uma comédia romântica, como se esse subgênero fosse colocado numa espécie de espelho amaldiçoado, uma vez que nas histórias de amor mais convencionais, conseguir o amor desejado é algo que é deixado para o final (feliz).

Na trama, rapaz tímido, Bear (Michael Jonhston) não consegue sair da friendzone, estando ele apaixonado por sua amiga de longa data Nikki (a incrível Inde Navarrette). Eis que, passando numa lojinha de conveniência, vê um pauzinho supostamente mágico que, uma vez quebrado, e feito um pedido, esse único desejo seria cumprido. Bear, que já estava sofrendo do luto do seu gato morto, resolve experimentar. Seu desejo: que ela o ame mais do que a qualquer pessoa no mundo. Para sua surpresa, o comportamento de Nikki é imediato: ela passa a se mostrar obcecada por ele, e também começa a agir de maneira muito estranha e muitas vezes assustadora. É quando o filme adentra o território do terror, mas não sem deixar espaço para a comédia, embora esse humor seja tão sutil quanto perverso. E peço licença para entrar em alguns spoilers mais pesados a partir daqui.

Há algo de muito cruel e muito perturbador neste feitiço imposto a Nikki, e isso é apresentado principalmente nas cenas em que a verdadeira Nikki busca se comunicar naquele corpo que um dia foi seu. A cena mais arrepiante acontece quando Bear, tentando escapar à noite para se encontrar com uma amiga, sem que a Nikki enfeitiçada perceba, ouve a voz da verdadeira Nikki pedindo que ele a mate. Em vez de atendê-la ou encarar com empatia, ele fala: "é tão ruim estar comigo assim?".

E é aí que vemos que OBSESSÃO é também um filme sobre um relacionamento abusivo, uma vez que Bear permanece num relacionamento em que o amor é fake e também abusivo. Seu caminho para a tragédia me fez lembrar o final de CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch, e não sei o quanto Curry se inspirou nessa obra-prima para compor seu roteiro. Os destinos finais dos personagens são bem semelhantes, embora em OBSESSÃO o que é visto não seja um sonho.

Enfim, que bom que temos este belíssimo filme de um diretor que promete e que até tem algumas obras pequenas para serem apreciadas enquanto seu novo trabalho não chega às telas. Inclusive, o próximo filme, segundo Barker, se passará no mesmo universo de OBSESSÃO e que saberemos mais sobre o destino de Nikki.

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MALDIÇÃO DA MÚMIA (Lee Cronin’s The Mummy)

Esse Lee Cronin não deve ter problema de baixa autoestima, uma vez que, já em seu terceiro longa-metragem, coloca o próprio nome no título (original), como se fosse um Fellini ou um John Carpenter. De todo modo, ele ganhou sim meu respeito, não apenas por fazer uma obra semelhante a seu A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023), mas principalmente por conseguir acabar com a maldição dos filmes de múmia, que nos últimos anos ficaram fadados a serem mais aventuras para a sessão da tarde do que filmes de terror. Não só um terror que respeita os ciclos clássicos da Universal ou da Hammer. O terror em MALDIÇÃO DA MÚMIA (2026) é mais gráfico, mais corporal, e a história é cheia de surpresas e bastante original. Envolve uma garotinha que é sequestrada e fica desaparecida por vários anos, até aparecer viva num sarcófago egípcio de 3.000 anos, toda enfaixada e cheia de problemas que toda pessoa que fica enterrada por muitos anos costuma ter. O filme passa de uma obra sobre o luto para uma obra sobre doença, sendo que mais ao estilo A MOSCA, com cenas de causar aflição, como a das unhas. Eis que Lee Cronin começa a pegar ainda mais pesado e as semelhanças com O EXORCISTA (e com EVIL DEAD) passam a vir à tona. O realizador não tem medo dos excessos, de parecer de mau gosto, de convidar parte do público a soltar sons ou até mesmo a ir embora (não foi o caso da minha sessão, e eu acho que os espectadores do cinema de horror estão cada vez mais dispostos a experiências diferentes). Não sou muito fã do epílogo, mas até chegar lá MALDIÇÃO DA MÚMIA é um dos exemplares do gênero mais bem-vindos dos últimos anos.

O PRIMATA (Primate)


Fiquei absolutamente impressionado com O PRIMATA (2025). Até custo a acreditar que exista outro filme na linha “animais em fúria” tão cheio de terror, tão intenso e violento, tão capaz de nos dar um frio na espinha. É também difícil acreditar que é do mesmo diretor de MEDO PROFUNDO (2017), que, pelo que me lembro, é só mais um filme genérico de tubarão. O PRIMATA me fez recordar de um terror classe A: NÃO! NÃO OLHE!, de Jordan Peele, e sua breve e aterrorizante cena de um chimpanzé enlouquecido. Eis que aqui o inglês Johannes Roberts investe pesado na ideia e faz também uma celebração do splatter, da violência gráfica explícita, sem medo de chocar. Aliás, um dos aspectos mais fortes do filme é mesmo o choque. E quando somos apresentados ao jovem elenco, em sua maioria de garotas, o filme sabe como nos colocar um pouco no lugar de cada uma delas, com o horror que é estar diante de um chimpanzé babando de raiva. Algumas cenas são geniais, como a chegada do pai das meninas; outras são extremamente cruéis, como a da mandíbula; outras são dotadas de muito suspense e medo, como a cena no carro. Um dos melhores filmes de terror do ano, que infelizmente só chegou em cópias dubladas nos cinemas de minha cidade, mas que agora pode ser conferido por meios alternativos, ouvindo as vozes e os gritos originais do elenco. No mais, agora é tentar dormir depois do tanto de adrenalina que O PRIMATA injeta em nosso sangue.

OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (The Strangers – Pray at Night)

Fiquei tão positivamente surpreso com O PRIMATA (2025), definitivamente um dos melhores filmes de terror com animais em fúria já feitos, que me vi curioso com a filmografia de Johannes Roberts, de quem já tinha visto o bom filme de tubarão MEDO PROFUNDO (2017). No mais, vale destacar que este OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (2018) é uma obra que não tem tanta relação assim (creio eu) com a trilogia recente, espinafrada pela crítica, e dirigida por Renny Harlin. O trabalho de Roberts é primoroso, embora não procure inventar a roda, nem criar nada original. Ele amplia o cenário do terror de casa invadida para um bairro ou cidadezinha meio fantasma por que uma família passa. A primeira meia hora do filme nos apresenta ao drama dessa família, formada por mãe, pai, filho e filha adolescentes. A menina aprontou algo e será mandada para um outro lugar, se sentindo rejeitada. Enquanto isso, a casa onde eles se instalam está sendo vigiada por três pessoas usando máscaras sinistras. A primeira delas é uma jovem, que aparece à porta sem máscara, mas a sombra da noite não nos permite ver seu rosto. A violência brutal logo se inicia quando a família se separa e a nossa familiaridade com os slashers nos faz crer que a menina será a final girl, ou seja a sobrevivente do massacre. Há cenas muito impactantes, como a da piscina, ao som de “Total Eclipse of the Heart”, ou a do embate entre dois carros. O filme traz um ar de desesperança e incompreensão sobre o que está acontecendo que nos aflige também, embora o entusiasmo de estar vendo uma obra tão bem acabada nos deixe mais felizes do que tristes pelos destinos de alguns personagens. Com 15 longas-metragens no currículo, e provavelmente nem todos sejam bons, talvez seja a hora de prestar atenção em Roberts, em seu trabalho que vai além da competência na direção e no amor pelo gênero terror.

domingo, junho 07, 2026

MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe)

 
Na minha adolescência, eu tinha por hábito ver o desenho do He-Man todas as manhãs. Mas era aquele tipo de programa que eu via e achava ruim, tosco, e nem me perguntava por que via mesmo assim. Era excessivamente maniqueísta. Os bons eram muito bons e sem imperfeições; os maus eram feios (o vilão tinha o rosto de esqueleto), seus comparsas eram monstruosos e havia uma vilã chamada Maligna. Acho que nunca entendi direito a mitologia. É como se a criação de uma mitologia não fosse uma intenção, como se aquelas aventuras toscas tivessem só a intenção de vender mais bonecos da Mattel. Acho que nem cheguei a ver o primeiro live-action para o cinema, o MESTRES DO UNIVERSO de 1987, estrelado por Dolph Lundgren. Então, via a produção deste novo filme como um grande desafio por parte dos produtores, do realizador e dos roteiristas, que aqui são vários.

O espectador de hoje é um pouco mais exigente com desenvolvimento de roteiro e de personagens e nesse sentido acredito que foi um acerto e tanto transformar este novo MESTRES DO UNIVERSO (2026), dirigido por Travis Knight, numa espécie de aventura com muito humor, um pouco ao estilo dos filmes do MCU, mas com uma diferença: com a compreensão do ridículo da produção original, a primeira leva das animações, de 1983-85. E, nesse sentido, tirar onda da risada maquiavélica do Skeletor (não era Esqueleto mesmo o nome do vilão?) e de fazer troça de uma possível origem do mal do personagem, foi outro ponto positivo. Inclusive, quem faz a divertida voz (e interpretação) do vilão é Jared Leto. Ficou muito bom, assim como a movimentação de seu rosto sem carne.

Outro ponto positivo: o ator que faz o Príncipe Adam, Nicholas Galitzine, foi uma ótima escalação, conseguindo fazer essa expressão de bobão em praticamente toda a narrativa, o que serve tanto como motor para a comédia quanto como uma aproximação com o espectador, que se identifica mais com alguém desengonçado do que com um suposto “homem mais poderoso do universo”. A cena da tentativa dele de beijar Teela (Camila Mendes, da série RIVERDALE) é bem divertida. Aliás, Mendes é a atriz que mais se impõe como uma heroína de fato desde sua primeira aparição, lutando contra um monstro e resgatando Adam do planeta Terra.

Na trama, Skeletor domina o reino de Eternia, aprisionando o rei e a rainha. O menino Adam, porém, consegue escapar com a espada do poder, graças a um encanto da Feiticeira (Morena Baccarin), que lança o menino na Terra, e lá ele fica durante 15 anos, até a idade adulta. Nesse período, ele é visto por amigos e colegas de trabalho como um louco alucinado que inventa histórias sobre um planeta distante, um vilão com cara de esqueleto e uma espada mágica desaparecida, que é alvo de obsessão de sua parte. A espada aparecer numa loja de brinquedos, aliás, e se parecer com um brinquedo, é outro acerto do filme.

O que surpreende em MESTRES DO UNIVERSO é a relativa violência da ação. Muito maior do que eu esperava. E se He-Man na animação original não matava nem féria ninguém, aqui ele acaba por fazer isso. O que eu achei bem-vindo. Assim como é bem-vinda a trilha sonora rock retrô oitentista. Muito melhor do que uma trilha orquestrada e sonolenta, além de muito coerente com o espírito dos anos 1980, o período de lançamento e popularidade da série de TV. Popular principalmente no Brasil: nos Estados Unidos o filme está fracassando nas bilheterias, enquanto aqui está sendo um sucesso, com o público vibrando durante a sessão, e aplaudindo no final.

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DEVORADORES DE ESTRELAS (Project Hail Mary)

Eu já estava bem cismado com todo o hype que este DEVORADORES DE ESTRELAS (2026) vem recebendo por parte de alguns críticos e influenciadores. Também fiquei muito surpreso com as sessões lotadas na sala IMAX, e de certa forma me deu uma pontinha de alegria em ver mais gente contrariando a lógica do dono da Netflix. Além do mais, fiquei pensando se os diretores de TÁ CHOVENDO HAMBÚRGUER (2009) e UMA AVENTURA LEGO (2014) dariam conta de criar um drama de ficção científica épico aos moldes de INTERESTELAR, de Nolan. Infelizmente meus temores se confirmaram, ao menos para mim, já que todos os momentos de interação entre Grace e Rocky me pareceram sem força dramática, embora tenham, sim, seus momentos de graça, de diversão. Mas é um tipo de diversão mais “fofa”, com uma intenção de pegar o público mais juvenil, mesmo com a parte “científica” da história não sendo tão simples assim. Além do mais, me irritava aquela trilha sonora insistentemente “épica”, como se quisesse nos fazer crer que aquele filme era mais do que aparentava ser. De todo modo, o resultado positivo deve muito ao carisma de Ryan Gosling, que passa boa parte do tempo sozinho – nos flashbacks, destaque para a presença sempre boa de Sandra Hüller. Há também que se dar o devido crédito à apresentação de um herói sem tanto heroísmo assim, mas não creio que seja algo inédito.

PÂNICO 7 (Scream 7)

Mesmo sendo de longe o pior filme da franquia, é possível se divertir com este PÂNICO 7 (2026), que conta com o retorno de Neve Campbell como Sidney, depois da ausência sentida no filme anterior (2023). Percebe-se que Pânico, uma das poucas franquias de terror a manter uma boa regularidade, finalmente chega a esse momento de clara decadência e busca tirar leite de pedra com o que sobrou dos personagens originais e da nostalgia que ainda parece ser a aposta para a manutenção. Bem que a dupla Bettinelli-Olpin e Gillett tentou passar o bastão para uma nova geração, mas situações nos bastidores deste novo filme fizeram com que tudo mudasse. Primeiro, a dupla de diretores pulou fora, depois houve a polêmica de Melissa Barrera apoiar a causa palestina nas redes sociais, o que ocasionou sua demissão pela produtora Spyglass. Em solidariedade a Barrera, Jenna Ortega também pediu demissão. O novo diretor contratado, Christopher Landon, acabou saindo também, com tanta confusão envolvida. O resultado, com o roteirista Kevin Williamson assumindo a direção, é um filme frio, desinteressante, pobre no enredo e na forma, além de nos deixar sem o menor interesse de torcer pelos personagens. Até tem algumas cenas mais gráficas do ataque do vilão (ou vilões), mas nada que provoque horror. Aliás, o filme até ganha mais interesse quando parece uma novelona, com pouco espaço para o humor, chave para a graça da franquia. Do elenco, gostei de Anna Camp, a coadjuvante que rouba a cena. Quanto a Isabel May, que faz a filha da Sidney, lhe falta o carisma que Melissa Barrera tinha. E agora?

WICKED – PARTE II (Wicked – For Good)

Ainda continuo achando um saco, pelo menos na maior parte das vezes, as cenas musicais do filme, embora goste do último dueto entre Ariana Grande e Cynthia Erivo. Na verdade, estava curioso mesmo era para saber o desfecho com relação à amizade e posterior fim da amizade entre as heroínas. Pois, no fim das contas, Wicked é sobre isso: amizade, mais exatamente amizade feminina, muito mais do que uma história de bruxas ou um prequel de O MÁGICO DE OZ. Falando no filme de 1939, é nesta sequência que a trama do clássico invade a trama de WICKED II, e gosto muito de como isso é desenvolvido. A última cena das duas amigas/inimigas conversando a partir da resolução de Elphaba é de fato emocionante e o recurso da tela dividida foi uma sacada muito boa do realizador. Serve tanto para tornar uma delas mais protegida enquanto a outra está (bem) mais exposta. Wicked é uma bela história sobre sacrifícios, dor e crescimento emocional. Poderia até ter gostado mais, mas acredito que o gênero e a falta de boas canções me afastam um pouco. Ariana Grande passa muito bem a angústia e a complexidade de seu papel.

domingo, maio 24, 2026

PASSAGEIRO DO MAL (Passenger)

 
Ando desanimado por causa de uma virose tão forte que acredito que teve um efeito pior do que as vezes que peguei COVID. Isso porque veio junto também com infecção e sinusite. Dia desses, ainda um pouco doente, frustrado por estar sem ir ao cinema, fui parar no Cinema do Dragão para ver MAMBEMBE. Resultado: a sonolência me fez dormir a primeira hora inteira do filme. Ao acordar e ver o quão inútil seria eu tentar ver meia hora de filme, me levantei e fui embora frustrado, de volta pra casa. E o triste é que eu tenho consciência de que um filmaço estava sendo projetado em minha frente. Algumas imagens ficaram guardadas na memória e pretendo vê-lo um dia ainda, se possível.

Passados alguns dias, calhou a suposta oportunidade de ver um filme de terror de um cineasta invulgar num horário acessível e com menos chances de dormir na sessão, de minha parte. Até porque estava melhor da virose. O filme era HOKUM – O PESADELO DA BRUXA, de Damian McCarthy. Porém, eis que, como num passe de mágica, a sessão, que de manhã só constava alguns poucos pagantes, lota, de uma hora pra outra, no cinema do Cinépolis RioMar Fortaleza. Aliás, estranhamente eu chequei que várias sessões de outros filmes lotaram no sábado neste mesmo espaço. Foi bom eu ter checado no Ingresso.com, então. A segunda opção de bom filme de horror (legendado e em sala decente) que eu tinha era PASSAGEIRO DO MAL (2026), do cineasta norueguês André Øvredal, o mesmo de A AUTÓPSIA (2016). Felizmente deu certo, e embora seja um filme mais convencional, o resultado foi satisfatório.

Vejo o cinema hoje em dia como um dos espaços onde melhor consigo me desconectar das redes sociais, nem que seja por um período de apenas duas horas. E acho tão recompensador, tão necessário, para dizer o mínimo... Por isso acredito que o homem que estava inquieto e olhando o tempo todo da sessão de PASSAGEIRO DO MAL para seu celular não devia estar bem. Ele nem quis se permitir estar conectado ao filme. Levantava-se com sua garrafa de água, talvez esperando alguém que nunca veio, depois voltava, e ensaiou saída mais uma vez, infelizmente retornando. Até pensei em ir reclamar com alguém do cinema, mas em determinado momento fui olhar para os meus “colegas de sessão” e havia pelo menos mais duas pessoas que olhavam para o celular em vez de olhar para a tela, que aliás, estava com uma projeção de dar gosto (sala 4 do UCI Iguatemi). Esse cenário é preocupante, uma vez que cinema não é telenovela, em que é possível acompanhar enquanto se lava a louça ou se varre a casa. É algo pensado para ser apreciado por completo.

PASSAGEIRO DO MAL já começa com um prólogo intrigante e um baita jump scare. Logo depois, somos convidados a acompanhar o casal vivido por Maddie (Lou Llobel) e Jacob (Jacob Scipio). O rapaz é louco pela namorada, e a pede em noivado. Mas possui também uma outra paixão: o prazer de viver na estrada, morando num carro todo equipado para ser também seu espaço de moradia, além de participar de encontros com outras pessoas que optam por esse estilo de vida. Maddie não compartilha a mesma paixão que o namorado, mas tem por ele uma forte conexão. O problema “horrorífico” em questão (afinal, trata-se de um filme de horror e não só um drama sobre a dificuldade de um relacionamento) surge na figura de uma espécie de demônio das estradas, o tal “passageiro”

O filme de Øvredal tem alguns momentos de brilhantismo, embora também sofra com certas escolhas. Por exemplo: aproximar e mostrar muito de perto o tal “passageiro” tira muito de sua aura assustadora. Então, por mais que suas aparições sejam rápidas, a aparência de um Ozzy vestido de padre não ajuda muito. Por outro lado, há belíssimas utilizações de atmosferas de tensão e medo, especialmente quando se trabalha com movimentação de câmera (o uso da janela scope ajuda muito aqui) e com a escuridão. Então, como esse demônio aparece no escuro, quando chega a noite e eles ficam mais à mercê de seu ataque, o filme cresce, como na cena da projeção de A PRINCESA E O PLEBEU no meio da floresta (essa é uma baita cena) ou o último ato, quando o casal procura meios de vencer a assombração e sai em busca de uma igreja. Ao que parece, os filmes de terror católicos nunca sairão de moda. Mas aqui funciona bem e a cena do trajeto até a igreja é mesmo incrível.

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PRÉDIO VAZIO

Se não me engano, este é o primeiro filme de Rodrigo Aragão que chega ao circuito local. O que é uma pena, levando em consideração o fato de o diretor ser um dos principais nomes (senão o principal) de um cinema declaradamente de horror produzido no Brasil. E acabou chegando via circuito alternativo, já que começou sua carreira na Mostra de Tiradentes, de onde saiu já com uma distribuição garantida (pela Retrato Filmes). PRÉDIO VAZIO (2025) tem um quê de EVIL DEAD, mas também lembra os filmes do Mojica, só que com o aspecto artesanal também vinculado a uma direção de arte com uso de CGI. Mas é artesanal raiz nos efeitos de maquiagem para a violência gráfica e até na maquete usada para o prédio (segundo Aragão, muitos donos de prédios têm medo de entregar seus imóveis para produções de filmes de terror). Parafraseando o narrador de VINIL VERDE, esta é uma história de mãe e filha. A mãe está curtindo o último dia de Carnaval em Guarapari-ES, quando dá um grito no telefone com a filha, que sofre com pesadelos e vai parar na cidadezinha costeira com o namorado em busca da mãe. Gilda Nomacce está mais uma vez ótima, como uma mulher que cuida do tal prédio do título. Adoro os close-ups nela, quando a atriz está em modo berserk.

A MULHER NO JARDIM (The Woman in the Yard)

Eis um filme que não é recomendado que seja visto caso a uma pessoa esteja passando por momentos psicologicamente difíceis ou algum quadro de depressão. Está longe da linhagem do terror escapista e divertido, no caso. Aqui o talentoso Jaume Collet-Serra sai da seara dos thrillers de ação com o Liam Neeson e outros filmes de gênero que causam certa alegria, como A CASA DE CERA (2005), A ÓRFÃ (2009) ou ÁGUAS RASAS (2016) e abraça algo mais sério. Mas é bom vê-lo saindo de experiências de fundo do poço como ADÃO NEGRO (2022) e voltando para o terror com uma história perturbadora e claustrofóbica em que uma família vivendo um luto da morte do pai e marido se vê com a visita de uma estranha mulher que se instala sentada numa cadeira próxima a casa deles. A casa está sem energia elétrica, pois falta dinheiro para pagar, e há toda uma carga pesada nas relações entre as pessoas da família – há um momento que poderia ser simples, envolvendo uma bolinha, mas que acaba sendo quase tão perturbador quanto a ameaça fantasmagórica. O que mais me assustou em A MULHER NO JARDIM (2025) foi o quanto o terror que o filme traz não dá trégua: há a depressão dentro da casa e a ameaça externa, que na verdade é interna. Ou seja, se correr o bicho pega etc. e tal. Eu diria que se trata de um dos filmes sobre enfrentamento de demônios interiores que mais me pegou, que mais me trouxe sentimentos densos e intensos. Se a Blumhouse quer vender o filme como um novo M3GAN, como dá a entender pelo cartaz, vai pegar muita gente desprevenida com esse exemplar pra lá de sombrio e angustiante. Uma das cenas finais vai ficar grudada na minha retina durante um tempo e não sei se vou querer ficar com ela, não.

A HORA DO MAL (Weapons)

Demorou para que Zach Cregger lançasse outro filme nos cinemas, depois do ótimo NOITES BRUTAIS (2022), que não chegou aos cinemas, mas que foi um sucesso entre os lançamentos de streaming, em especial entre o público mais fã do cinema de horror. Cregger é um diretor que vem da comédia e achei muito legal estar numa sala enorme (a sala IMAX do Iguatemi Fortaleza) e quase lotada com muita gente rindo de várias sequências. Ou seja, existe, sim, um humor muito peculiar num filme que começa bastante solene, além de muito misterioso e até lírico e melancólico, em especial quando ouvimos "Beware of Darkness", do George Harrison. A trama de A HORA DO MAL (2025) em si já começa muito interessante: 17 crianças de uma mesma sala de aula desaparecem misteriosamente no meio da noite. Não se sabe onde foram parar e uma das pessoas consideradas responsáveis é a professora daquela turma, a personagem de Julia Garner, que está num ano perfeito, aliás, depois de ter aparecido no subestimado LOBISOMEM e ainda esteve em cartaz como a Surfista Prateada de QUARTETO FANTÁSTICO – PRIMEIROS PASSOS. Aqui ela é uma das várias personagens que terão seus pontos de vista apresentados, a fim de comporem uma história cheia de surpresas, tanto na trama quanto na montagem. Assim, mais à frente veremos os pontos de vista de um dos pais de uma criança desaparecida (Josh Brolin), de um policial (Alden Ehrenreich), do diretor da escola (Benedict Wong), entre outros. O filme termina e dá vontade de ver de novo. Bom perceber que o gênero está voltando a ter muito prestígio, mas isso acontece também quando as próprias distribuidoras apostam nesses filmes, como foi o caso aqui. Fiquei pensando: todas essas pessoas que estavam na sessão estavam lá por causa da boa repercussão do filme pela crítica ou simplesmente queriam ver um filme de terror qualquer? Não me pareceu ser a segunda opção, não.

sábado, maio 23, 2026

ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (Something Bad Is Going to Happen)

 
A noiva ensanguentada. Quando vi uma das imagens mais belas do cinema de horror deste ano (embora seja uma minissérie para streaming e não um filme para cinema), me veio à mente o título do filme de Vicente Aranda. Mas a imagem que fica grudada na retina é da belíssima Camila Morrone, alta e de sobrancelhas grossas e definidas, chegando a lembrar Dua Lipa, que interpreta aqui Rachel, uma jovem que está indo com o noivo, Nicky (Adam DiMarco), conhecer a casa na floresta dos pais dele, conhecer finalmente a família dele, depois de alguns anos de relacionamento. Essa casa, localizada numa região gelada e ao norte dos Estados Unidos, é enorme e luxuosa, e é lá que acontecerá o casamento, marcado para alguns dias dias após a chegada dos noivos.

O primeiro episódio de ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (2026), criação da jovem Haley Z. Boston, mostra o casal passando por situações tensas em temperaturas geladas até chegar à casa, como a tentativa de “salvar” um bebê aparentemente abandonado dentro de um carro. É também nesse trajeto que Rachel dá de cara com um estranho homem, que passa a segui-la. Mas é na casa de Nicky que ela ficará bem pouco à vontade, já que a família parece não gostar dela e inicia-se algo que tanto parece uma paranoia quanto de fato uma conspiração para matá-la. Como a série é vista principalmente pelo ponto de vista de Rachel, tendemos a ver a história por sua ótica. Até por que, quem em sã consciência, acharia que era só brincadeira alguém roubar o vestido de noiva para fazer uma espécie de imagem digna de um filme de horror folk? Então, há, sim, algumas coisas no roteiro que parecem um pouco forçadas, mas vejo tudo como algo que dê para relevar.

Assim como dá para relevar se falar tanto em alma gêmea, com tanta verdade que fica parecendo que os roteiristas, a maioria do sexo feminino, acreditam mesmo nessa ideia. Mas é importante acreditar, uma vez que a minissérie é sobre isso, sobre acreditar, sobre confiar, e isso vai ficar mais claro em sua conclusão, que tem algumas metáforas bem bonitas. Mas até chegar ao fim a série passa por caminhos tortuosos. Embora não tenha nenhum episódio que eu tenha desgostado, foi a partir do quarto episódio que a produção ganhou o meu respeito, ao nos levar para a história dos pais de Rachel a partir de uma imagem de VHS velha, onde muita coisa será revelada.

Acho interessante que a maior parte da equipe de diretoras (uma delas, Weronika Tofilska, dirigiu alguns episódios de BEBÊ RENA) e roteiristas seja formada por mulheres, o que passa uma maior verdade no que se refere aos sentimentos das personagens femininas. Não apenas de Rachel, mas também de Nell (Karla Crome), da matriarca Victoria (Jennifer Jason Lee) e de Portia (Gus Birney). Quando a série começa a nos fazer gostar da família, bateu até uma saudade de quando vi A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL, de Mike Flanagan, que era centrada mais no amor que nutrimos pelos personagens do que na história de terror.

O que não quer dizer que ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER não tenha seus momentos de horror bem gráfico, muito antes do banho de sangue digno do conto “A Máscara da Morte Rubra”, de Edgar Allan Poe, algumas vezes adaptados para o cinema e a TV. O sétimo e penúltimo episódio nos deixa em estado de aflição e o uso do plano-sequência para descrever o estado de ansiedade da heroína funciona muito bem. A câmera em alguns momentos lembra EVIL DEAD, noutros, lembra O ILUMINADO, embora os corredores aqui não sejam tão iluminados, o que, aliás, eu prefiro. Há um uso muito interessante da câmera atravessando os corredores do luxuoso espaço, que às vezes passa a impressão de ser um labirinto.

Vale destacar também os personagens masculinos, que se veem mais dependentes e até dizem isso em voz alta, como é o caso do patriarca, Boris (Ted Levine), que diz que depois que a esposa, com câncer em estágio avançado, morrer, não tem ideia de como será a vida dele e dos filhos, pois é ela a sustentação daquela família. Jules (Jeff Wilbusch) também está melancólico devido a seu casamento prestes a ruir. Eis um personagem tão fácil de odiar quanto de amar. É o que mais tem uma trajetória de mudança no enredo sob nossa perspectiva. E Nicky se vê como um homem não tão nobre assim para a noiva Rachel, além de ser vítima do excesso de cuidados dos pais, por ser o filho mais novo. Eles representam uma espécie de tradição de família, muito mais do que as mulheres.

Gosto da conclusão, com uma definição satisfatória envolvendo a tal maldição. Uma maldição, aliás, muito curiosa só de ter sido imaginada. Sendo o roteiro original e não adaptação de obra literária, sente-se uma maior liberdade na condução. Os diálogos são bons, assim como o trabalho de suspense e terror, que ganha força com o visual caprichado. se e terror, que ganha força com o visual caprichado.

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A NOIVA! (The Bride!)


O segundo longa dirigido por Maggie Gyllenhaal, como geralmente ocorre com filmes dirigidos por atores, privilegia mais a atuação do que a encenação. O que não chega a ser um grande problema. Mas A NOIVA! (2026) é um filme que parece perdido em suas intenções: joga no mesmo liquidificador uma história de amor, um thriller de gângsters inspirado em BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, uma história de monstros que homenageia os clássicos de James Whale, um tributo feminista a Mary Shelley, e é principalmente uma obra bastante militante. E ser militante nos dias de hoje, com tanto feminicídio por aí, em tempos de maior conscientização do papel da mulher na história e do cerceamento de sua voz, é obviamente bem-vindo. O problema é que Gyllenhaal se repete muito ao longo das pouco mais de duas horas de sua obra. Como se a própria protagonista, vivida por Jessie Buckley, quisesse também lembrar a si mesma do quanto deve ser independente. A NOIVA! também nos faz perceber o quanto o romance de Shelley segue vivo e interessando a diversos artistas - lembremos que mais recentemente tivemos outras duas obras inspiradas no clássico: POBRES CRIATURAS, de Yorgos Lanthimos, e FRANKENSTEIN, de Guilhermo del Toro, cada uma escolhendo caminhos próprios. Gyllenhaal também faz suas escolhas. E são escolhas ousadas, mas me perguntava se optar por explicitar Bartebly, de Herman Melville, inúmeras vezes não seria um exagero. Entre outras repetições. De todo modo, o importante é que a voz da artista seja mantida em sua totalidade.

A MEIA-IRMÃ FEIA (Den Stygge Stesøsteren)

Confesso que o fato de ser uma reimaginação de um conto de fadas foi algo que me deixou um pouco afastado do filme por um momento. Tanto que fiquei esperando logo que aparecesse o horror corporal. Mas quando aparece não desaponta (para quem gosta do gênero, claro, quem gosta de imagens chocantes e criativas). Essa reimaginação de contos de fadas pela perspectiva de um personagem não-protagonista não é novidade: basta lembrar de MALÉVOLA, da Disney. Mas A MEIA-IRMÃ FEIA (2025), de Emilie Blichfeldt, vai além, sem falar que carrega a estranheza mais típica do cinema de gênero europeu. A história de Cinderella é aqui contada pelo ponto de vista de uma das meia-irmãs da Gata Borralheira. A jovem Elvira (Lea Myren) sofre com a pressão da mãe, que logo depois de casar com o pai de Agnes, a Cinderella, fica viúva e estabelece prioridades para a filha: Elvira deve se casar com o príncipe, que dará um baile em que escolherá sua esposa. Só assim ela conseguirá dinheiro para a família. Os meios para Elvira ficar bonita são cruéis e existe até uma filosofia propagandeada: é preciso sofrer para ficar bela, ou algo do tipo. Algumas cenas ficam mais gravadas na memória: a cena dos cílios e do flagra no estábulo estão entre elas, mas nada nos prepara para uma das cenas finais.

ZUMBIS DO MAL (Messiah of Evil)

Vendo este ZUMBIS DO MAL (1974), de Willard Huyk e Gloria Katz, fiquei imaginando como seria vê-lo numa sessão no cinema, à noite, num espaço quase vazio, de modo a experimentar melhor o clima misterioso que o filme traz. Adoro as imagens noturnas, da praia ou das ruas desertas, assim como da casa-studio cheia de cores vivas. Gosto mais do filme quando há pouca ou nenhuma presença física dos zumbis do título brasileiro, pois passa algo de Lovecraft, além de esconder melhor as deficiências orçamentárias da produção. Na trama, jovem mulher vai em busca do pai numa pequena cidade costeira, quando descobre que o lugar virou uma espécie de cidade fantasma e as coisas que descobre são principalmente através do diário do pai desaparecido. O número de personagens aumenta com a entrada em cena de uma espécie de aristocrata rodeado de garotas e há alguns coadjuvantes expressivamente aterradores, como um homem que aparece no posto de gasolina com uma caminhonete cheia de corpos degolados. Os diretores disseram que, ao receberem a proposta de fazer o filme, não tinham tanta aproximação com o cinema de horror e por isso acreditam que uma das referências principais é Michelangelo Antonioni. Visto no box Zumbis no Cinema 4.

quinta-feira, maio 14, 2026

FUGA DO PASSADO (Out of the Past)



Fico às vezes pensando no quanto minha memória é falha em relação a filmes e livros. Se bem que talvez esse seja um problema que não afeta somente a mim. O que sei é que há filmes que me provocam certa atração e ao mesmo tempo vão embora nas sombras da memória, como se fosse um sonho, que, se não anotarmos ou não contarmos imediatamente para alguém, ele logo vai para o esquecimento eterno. E há filmes que têm mesmo esse teor de sonho, e o noir talvez se aplique bem a essa categoria. Nem faz tanto tempo assim que vi pela primeira vez FUGA DO PASSADO (1947), de Jacques Tourneur. Foi em 2009 e escrevi quatro pequenos parágrafos a respeito para este espaço. .

Só que esse filme vem me chamando a atenção para a revisão já faz um tempo. Primeiro quando a Versátil o colocou entre os 10 essenciais do subgênero do livro Filme Noir – Dez Filmes Essenciais da Coleção, da já saudosa “enciclopédia Versátil”, a série de livros de gêneros diversos publicados ao longo de mais de dois anos pelo selo. No livro, o texto escrito por Heitor Romero destaca o filme como parte dessa “antena coletiva” que fez com que praticamente todos os filmes policias e criminais da época possuíssem essa aura sombria, com mais sombras do que luzes em fotografias principalmente em preto e branco. Afinal, o mundo estava em guerra e depois da Segunda Guerra viria a guerra fria. Os artistas têm a sensibilidade de criar uma espécie de documento de sua época. E os diretores de filmes noir, em sua maioria, faziam produções B (de baratas), tendo, portanto, menos interferência dos produtores.

A vontade de rever FUGA DO PASSADO veio também com o podcast Filmes Clássicos, em que os três criadores do conteúdo discutem sobre o clássico. Ouvi duas vezes: uma antes de rever o filme, para aumentar a vontade, meses atrás, e outra de ontem para hoje, com a lembrança da história e dos personagens mais fresca. Outra pessoa que também escreveu sobre o filme recentemente foi Filipe Furtado, em seu Substack, o que foi aumentando ainda mais meu interesse e minha atração pela obra.

E de fato FUGA DO PASSADO é desses filmes que merecem revisões regulares. A tragédia do protagonista, vivido por Robert Mitchum, ao ter que adentrar o passado que tentou esquecer, fica mais clara (ou mais escura?) na revisão. O filme começa com uma imagem bem ensolarada, com um homem aparecendo durante o dia numa cidadezinha do interior em busca de Jeff Bailey, o personagem de Mitchum. Depois vemos Jeff com sua namorada, Ann (Virginia Huston), sonhando com um futuro tranquilo que quer ter com ela naquele lugar pacato. 

Acontece que ele é encontrado e chamado pelo antigo chefe (Kirk Douglas). E por isso ouvimos o longo flashback que nos deixará a par de seu passado. Eu até diria que o melhor do filme está nesse flashback, quando ele conhece Kathie (Jane Greer, vivendo uma das mais marcantes femme fatales da história do cinema). Kathie, supostamente, havia atirado no chefão e fugido com 40 mil dólares. E é claro que Jeff vai se apaixonar por Kathie, e esse interesse, esse tesão, essa sensação de querer viver uma aventura perigosa com aquela mulher atraente, reverbera na mente do espectador também. É uma pena que a carreira de Greer não tenha sido tão bem-sucedida, mas acabei de ver que ela aparece justamente no remake de FUGA DO PASSADO, o thriller PAIXÕES VIOLENTAS, de Taylor Hackford. Aliás, bateu vontade de ver esse filme, hein.

Voltando ao filme de Tourneur, é interessante notar como fica destacada a mudança da luz para a sombra, logo que o herói é enviado para conversar com o chefão do crime e deixa aquele ambiente idílico e aquela namorada carinhosa. Sem falar que toda a descrição de quando ele conhece Kathie, tem algo de fatalista e ao mesmo tempo muito atraente. Na primeira aparição de Kathie, inclusive, quando ela adentra o bar, ela sai da luz para as sombras, da luz do luar para a penumbra daquele ambiente, em Acapulco. Depois, nas cenas na praia, seremos presenteados com mais desse sentimento conflitante e excitante. O que é impressionante, levando em consideração as limitações que o Código Hays impunha aos cineastas, no que se referia às cenas sensuais.

Podemos dizer, inclusive, que a atmosfera do filme é devedora do estilo e da sensibilidade de Tourneur, que já havia reinventado o horror com SANGUE DE PANTERA (1942) e A MORTA-VIVA (1943) e aqui contribui para o ciclo noir com sua capacidade impressionante de registrar a noite como um personagem da trama. Em determinado momento, Jeff diz que havia trocado o dia pela noite, já que não encontrava Kathie de dia. Como se ela fosse de fato alguém das trevas. Como mais tarde isso se comprovará. 

Depois do flashback, eu sinto que o filme entra numa outra trama bastante confusa e intrincada, mas não chegamos a perder o interesse. Mesmo sem entender muito bem certas coisas do enredo, dos planos e contraplanos dos personagens, FUGA DO PASSADO permanece fascinante. Até porque teremos aparições diferentes de Kathie, sendo que a última dela, com uma vestimenta parecida com a de uma freira de roupa escura, a coloca numa posição de figura das trevas, logo após ter matado o personagem de Kirk Douglas. Ou seja, todas essas sutilezas e maneiras diferentes com que a personagem aparece enriquecem e muito a obra como um todo, colocando o clássico de Tourneur no alto de um ranking não apenas dos melhores filmes do ciclo, mas do cinema mundial como um todo.

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PRECIPÍCIOS D'ALMA (Sudden Fear)

A iniciativa recente da Versátil Home Vídeo de publicar livros temáticos foi recebida com entusiasmo por mim. Nem sempre vou conseguir tempo para ver todos os filmes disponíveis em minha coleção de mídia física, e por isso alguns deles ficam invisibilizados por um longo tempo. Certos títulos aparecerem em destaque nos livros chama a atenção para que sejam vistos. Foi o caso de PRECIPÍCIOS D'ALMA (1952), de David Miller, que apareceu no livro Thrillers – Pérolas do Suspense, e que está presente no box Filme Noir Vol. 8, que inclusive traz um ótimo extra do curador Fernando Brito destacando a importância e a beleza do filme. Confesso que, por mais que já esperasse um grande filme, não imaginava quão maravilhoso e inventivo seria em sua junção de melodrama, suspense e até terror na história de uma dramaturga milionária (Joan Crawford) que se apaixona por um ator meio canastrão (Jack Palance). Depois da conquista, vem o casamento, e com meia hora de filme surge uma personagem-chave (Gloria Grahame) para a mudança de tom da narrativa. A cena em que a personagem de Crawford descobre numa gravação os planos do casal de picaretas é incrível, e até penso como uma cena que influenciou Brian De Palma em UM TIRO NA NOITE. Outra cena muito inventiva, talvez a melhor, é a sequência final, que começa com as imagens dos planos da heroína sinalizados por um grande relógio com os ponteiros rodando na tela. Absolute cinema!!

CÓDIGO PRETO (Black Bag)

Acompanho a carreira de Steven Soderbergh desde quando era tudo mato. Vi no cinema seu até agora insuperável SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) e fui acompanhando suas obras sem perder nenhum filme (com exceção de alguns inéditos no Brasil) até, acho, CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (2009). Depois começou a ficar difícil acompanhar, tanto pela rapidez com ele que lançava novos filmes, quanto por ele gostar de alternar filmes de produção mais cara com produções mais baratas, mais independentes. E sempre achei muito legal isso, embora nunca tenha encontrado uma assinatura em seus filmes. CÓDIGO PRETO (2025) seria parente de IRRESISTÍVEL PAIXÃO (1998), pela beleza de seus atores, pela classe com que ele os apresenta, pelo visual caprichado na fotografia, e também por abraçar um tipo de gênero específico. Aqui, no caso, o filme de espionagem. O que conta não é o que a gente entende especificamente, já que há um MacGuffin, mas o jogo de nervos que funciona como uma brincadeira perigosa e também gostosa de acompanhar. Um luxo poder trazer tanto Cate Blanchett quanto Michael Fassbender, dois baita atores que também têm grande presença de cena. Soderbergh capricha na edição, nos diálogos e na atmosfera, trazendo perigo quando o que mais vemos é mais conversa e menos violência.

CAMINHOS DO CRIME (Crime 101)

É impressionante como o capitalismo está tão enraizado na alma do estadunidense (tentando me acostumar a usar esse termo) que os desfechos felizes de certos personagens são associados muito mais ao ganho material do que a outro tipo de felicidade. (Aviso de spoiler leve.) É assim que acontece com a personagem de Halle Berry; é assim que acontece com o personagem de Mark Ruffalo. No caso de Ruffalo, eu nem acreditei no que estava vendo (até pelo posicionamento político de Ruffalo). De todo modo, CAMINHOS DO CRIME (2026), de Bart Laytton, não deixa de ser um bom drama criminal que traz histórias que se entrecruzam, sendo a principal delas a do ladrão vivido por Chris Hemsworth (cada vez melhor ator). O personagem, ao se interessar por uma bela mulher (Monica Barbaro), começa a repensar sua vida de ladrão profissional. Esse aspecto da trama, assim como o andamento mais cadenciado, faz lembrar um pouco FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann. E não duvido que Mann tenha sido uma de suas principais inspirações, embora também lembre tanto o polar (o policial francês dos anos 1950-70) quanto o cinema policial americano da Nova Hollywood, embora bem menos pessimista. Vale destacar também a breve participação de Nick Nolte, em estado físico claramente decadente. Já o personagem de Barry Keoghan, apesar de importante para a trama, me pareceu apagado para o talento do jovem ator.

segunda-feira, maio 11, 2026

JERICÓ (Jerichow)



Há uma meia dúzia de filmes de Christian Petzold dando sopa na Mubi, e outros tantos em meus HDs externos, cá entre nós. E eu tenho essa lacuna imensa na filmografia deste que talvez seja o mais querido cineasta alemão do novo século. E curiosamente JERICÓ (2008) é o filme imediatamente anterior ao meu primeiro contato com o cinema do realizador, BARBARA (2012), que corre o risco de ainda ser o meu favorito, talvez por ter visto numa noite misteriosa, sozinho, com uma plateia pequena, numa sala de cinema que já não existe mais (o Cine Aldeota).

JERICÓ me chamou a atenção, enquanto zapeava pelo conteúdo do streaming por sua relação com o romance de James M. Cain, que já deu origem a dois clássicos do cinema americano de mesmo nome, O DESTINO BATE À SUA PORTA, nas versões de Tay Garnett (1946) e de Bob Rafelson (1981). Aqui Petzold opta por utilizar o esqueleto da história: um homem mais jovem, uma mulher atraente insatisfeita com o casamento, um homem rico cuja morte talvez seja a opção mais viável para a libertação dessa mulher, sendo que ela continuará com dinheiro. O dinheiro como necessidade, mas também como raiz do mal. 

Há, portanto, essa forte conexão com o filme noir americano, embora não se fuja de um tom mais solar, com a traição acontecendo também à luz do dia. Se bem que é uma cena noturna que mais me encanta: Thomas (Benno Fürmann) se esconde pelo bosque, nos fundos da casa de Ali (Hilmi Sözer) e de Laura, vivida por Nina Hoss, a musa maior do diretor [até ele trocá-la por Paula Beer, a partir de EM TRÂNSITO (2018)] . O marido acredita ser um bicho que está fazendo barulho na vegetação, ele se aproxima dela, agarra sua mão e depois some na escuridão. Thomas é um personagem que parece disposto a tudo. Por mais que diga que está apaixonado por Laura, sente-se no ar menos um clima de romantismo e mais uma espécie de desespero por algo proibido. 

Talvez o problema do filme seja não dar tanta importância assim ao pobre marido doente, embora ele não fosse de todo vítima, levando em consideração sua crueldade e violência com a esposa e a pessoas com quem trabalha. Age como um gângster. Mas adoro quando ele some um pouco da história, fazendo com que sua presença seja quase fantasmagórica, meio que assombrando mais o espectador do que o casal, uma vez que nós, espectadores, sabemos de sua não ida para o destino dito para a esposa e para Thomas.

JERICÓ está para O DESTINO BATE À SUA PORTA (e aqui penso na versão de Rafelson) assim como PHOENIX (2014) está para UM CORPO QUE CAI, do Hitchcock, e essa relação de Petzold com o cinema americano muito me interessa, até por ele transgredir o gênero, de certa forma, com as surpresas da narrativa, com o estilo mais seco, No caso de PHOENIX há um namoro forte com o melodrama também. Não é o caso de JERICÓ, que é mais simples, mais contido. Mas essa contenção parece querer explodir o tempo inteiro. Não à toa a palavra “explosão” também ganhe um significado mais concreto no final da trama.

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PROPOSTA INDECENTE (Indecent Proposal)

Adrian Lyne tem uma queda por radiografar relacionamentos complexos, ou às vezes imorais, seja o relacionamento tóxico (9 ½ SEMANAS DE AMOR, 1986), as possíveis consequências de um adultério (ATRAÇÃO FATAL, 1987; INFIDELIDADE, 2002); a atração de um homem mais velho por uma adolescente (LOLITA, 1997); ou o ciúme como inferno na mente de um homem, como o abordado aqui em PROPOSTA INDECENTE (1993). Também podemos ver o filme como um conto moral que lembra o mito de Fausto ou até a tentação de Jesus no deserto. Afinal, quem resiste à tentação de ganhar um milhão de dólares apenas para passar a noite com um bilionário? Ainda tem o agravante que o casal está passando por uma situação financeira difícil, recorrendo ao jogo em Las Vegas como possível solução. Então, há esse bilionário vivido por um ainda charmoso Robert Redford que faz essa oferta, ao ficar encantado pela mulher. E, de fato, Demi Moore nos anos 1980-90 era uma das mais belas atrizes de Hollywood, tanto que na época que ela fez ASSÉDIO SEXUAL, de Barry Levinson, cheguei a achar inverossímil um homem fazer aquela acusação a ela (um filme, aliás, que talvez mereça um novo olhar hoje de minha parte). Woody Harrelson faz o marido carinhoso e que também se vê tentado pelo dinheiro, ainda que absolutamente arrasado com a ideia de a mulher ter ido pra cama com outro homem. E pior ainda: ter gostado. O estilo videoclipesco que era mais presente no cinema de Lyne nos anos 80 segue presente, mas de maneira mais contida. Ajuda a valorizar e dar suavidade às cenas de intimidade com a presença de Moore, três anos depois de GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA e três antes de STRIPTEASE. Os três filmes apresentam mulheres comuns em situações extraordinárias. Moore cai bem nesses papéis, parecendo despojada até mesmo quando está usando um vestido de luxo. O filme tem um final feliz bem-vindo, assim como também é bem-vindo o tom agridoce que fica no ar. Agridoce como a canção de Roy Orbison que sobe nos créditos finais, “A Love So Beautiful”.

8 DÉCADAS DE AMOR (8)

O que aconteceu com Julio Medem? Ou o que vi em OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR (1998) e LÚCIA E O SEXO (2001) foi uma espécie de delírio coletivo? Os demais filmes que vi do realizador foram também interessantes. UM QUARTO EM ROMA (2010) tem o seu charme e MA MA (2015) me fez chorar litros, segundo meu breve registro. Por isso fiquei tão inconformado e até mesmo constrangido com este 8 DÉCADAS DE AMOR (2025). Se eu fosse o diretor teria guardado esse filme numa gaveta com a chave perdida para que ninguém o visse. Ele começa até bem interessante, ambientado numa área rural da Espanha pré-franquista, alguns anos antes da guerra entre comunistas e fascistas (ou pelo menos é assim que é pintada essa guerra no filme). Os dois personagens principais, Adela e Octavio, são apresentados no dia de seus nascimentos (o mesmo dia) e confesso que gostei dessa sequência do parto. Das situações de duas mulheres parindo e passando por complicações, e a utilização do plano-sequência para levar o espectador junto para a ação. Mas na hora que ouvimos o rádio e ficamos a par da situação política da Espanha, já notamos que o modo como essas contextualizações históricas são colocadas são bem pouco sutis. Mas o filme piora muito ao longo de seus oito capítulos, com zero de química do casal principal, situações surreais que não são boas o bastante para provocarem risos e uma queda vertiginosa da qualidade dos diálogos à medida que o filme vai precisando mais deles. Ou seja, Medem, que já fez bom melodrama, entra numas de ser mais estilizado e acaba fazendo um dos filmes mais cafonas e de gosto duvidoso que já vi na vida. E o que é aquela última cena do casal com as duas famílias? É o tipo de filme que vai fundo no mau gosto de forma tão grande que parece até uma espécie de aposta feita ou algo do tipo.

"O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (“Wuthering Heights")

O trabalho mais ousado da inglesa Emerald Fennell acabou se tornando polêmico pelas liberdades criativas da diretora em relação ao romance original homônimo de Emily Brontë, um dos mais importantes do romantismo inglês. Já recebeu críticas negativas logo com a escolha de um ator branco para interpretar Heathcliff, o herói romântico e trágico que dá a volta por cima na vida social para conquistar a mulher de sua vida. Na verdade, não é bem conquistar, já que Cathy também é perdida apaixonada por ele. Mas há, sim, obstáculos a vencer. A história de "O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (2026) já é conhecida e por isso achei muito bem-vinda esta versão, com exageros visuais que muitas vezes fazem lembrar o estilo publicitário. As primeiras imagens já enchem os olhos, ao som da trilha sonora de Charli XCX, que acentua o tom pop adotado por Fennell. Há um cuidado em valorizar das mais diversas maneiras a beleza de Margot Robbie, que defende muito bem a heroína; assim como Jacob Elordi nos apresenta a um personagem carregado de sombras. Aliás, tanto Cathy quanto Heathcliff são heróis dotados também de certa perversidade, estão longe da pureza dos santos. O que os aproxima de certa santidade é a imensa paixão que sentem um pelo outro. E esta versão é certamente uma das mais sensuais e picantes. Adoro a cena de Heathcliff lambendo os dedos de Cathy, por exemplo; assim como são deliciosas todas as cenas dos encontros proibidos. Se não está recebendo o devido mérito, acredito que no futuro essa adaptação receberá uma melhor atenção e carinho de um público maior.