quinta-feira, fevereiro 12, 2026

VÉNUS ET FLEUR



“O escritor é o sofredor exemplar porque encontrou tanto o nível mais profundo do sofrimento quanto um meio profissional de sublimar (no sentido literal, não no freudiano) seu sofrimento. Como homem, sofre; como escritor, transforma seu sofrimento em arte. O escritor é o homem que descobre o uso do sofrimento na economia da arte – assim como os santos descobriam a utilidade e a necessidade do sofrimento na economia da salvação.”
Susan Sontag

Hoje não estava com muita disposição para escrever. Falar (no caso, escrever) sobre um filme requer muitas vezes algum tipo de necessidade (quando não trabalhamos exatamente com um tipo de disciplina ou uma obrigação contratual ou profissional). Como não ganho dinheiro escrevendo para o blog e meio que me acostumei com os longos períodos sem escrever para este espaço (o que acho uma coisa triste de se dizer), não me forço tanto assim, não me culpo mais ou fico aborrecido. Mas gosto quando surge algo que faz com que eu sinta vontade de escrever. E às vezes esse “algo” vem não necessariamente do filme em questão.

No caso, escolhi VÉNUS ET FLEUR (2004), de Emmanuel Mouret, menos pelo filme em si, embora eu já tivesse uma intenção de falar sobre ele em específico, até por ter feito isso com quase todos os trabalhos do realizador que vi – só não fiz com TRÊS AMIGAS (2024), seu mais recente longa-metragem, que mais me aborreceu do que me encantou, o que me leva a pensar na possibilidade de revê-lo, pois vivemos às vezes dias ruins, inapropriados para certas apreciações artísticas.

Pois bem. O que me deu vontade de escrever foi a leitura de um artigo escrito por Susan Sontag. Estou lendo Contra a Interpretação e Outros Ensaios (Companhia das Letras) e estou absolutamente apaixonado pela escrita dela. O texto que me deixou mais impressionado até agora (ainda estou no começo do livro) foi “O Artista como Sofredor Exemplar”, em que ela trata de como as sociedades pós-cristãs veem o amor, e trata especialmente da vida e da obra de um autor que eu até então desconhecia, o italiano Cesare Pavese (1908-1950). Sontag entrou em contato com os romances de Pavese, escritos nos anos 1940, mas o que mais a deixou impressionada foram seus diários, que mostram não só o artista, seu trabalho de prosa e poesia pensados para publicação, mas principalmente o homem desnudado, o Cesare sem as máscaras presentes em supostos heróis de seus romances, heróis que poderiam talvez ter personalidades parecidas com a sua.

Nos diários os temas do suicídio e da morte estão muito presentes – ele se mataria em 1950 –, assim como são presentes seu profundo desapontamento com sua imensa dificuldade de ter sucesso na vida amorosa, sua inadequação sexual. Ele comentava sobre o caráter predador e explorador das mulheres (era dessa maneira que ele as via), confessava sua incapacidade de proporcionar prazer sexual. As palavras “mulheres” e “morte” costumavam aparecer juntas em seus escritos. É dele a frase “é possível não pensar em mulheres, assim como não se pensa na morte”. Outro trecho forte que ele escreveu: “Você não se mata por amor a uma mulher, mas porque o amor – qualquer amor – o revela em sua nudez, sua miséria, sua vulnerabilidade, sua nulidade...”

Desse modo, acabei achando esse caráter trágico da existência e dos pensamentos e sentimentos de Pavese extremamente interessantes. Como se ele fosse uma espécie de romântico tardio. No mais, Pavese redescobre, com Stendhal, “que o amor é, em essência, uma ficção; não que o amor às vezes cometa erros, mas sim que ele é, essencialmente, um erro.” E daí surge uma teoria do amor, por mais que a citação de um romance como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, ou o filme OS AMANTES, de Louis Malle, para pegar os dois exemplos ditos por Sontag que ilustram finais felizes ou algo parecido, essa teoria de que o amor é sempre fadado ao fracasso. Mas o próprio Pavese considerava-o necessário. Dizia ele: “A vida é dor e o prazer do amor é um anestésico” ou “O amor é a mais barata das religiões”.

Sontag lembra que essa visão do amor que temos hoje está associada ao cristianismo, que essa visão não existia entre os gregos e os hebreus antigos e os povos orientais, e que o cristianismo é, desde sua fundação (com Paulo) a religião romântica. Sendo que o culto do amor seria um culto do sofrimento. E isso não havia dois mil anos atrás, o que corrobora com minha ideia de que a era de Peixes (e eu entro aqui com a astrologia) fez todo esse estrago nesses mais de dois mil anos. Mas também sentir é algo que é desejado. Há um outro pensador citado por Sontag, Denis de Rougemont, que menciona a preocupação da perda desse sentimento por cada um de nós, como se quiséssemos ser protagonistas de nossos próprios romances incríveis de nossas vidas reais.

Enfim, fiquei de fato fascinado com o texto saboroso de 12 páginas de Sontag, mas posso fazer um link agora com o filme de Mouret, ainda que eu saiba que sobrará pouco espaço para o trabalho do realizador (e por isso eu peço perdão a quem entrou aqui por acaso para ler só sobre o filme). Mouret nos apresenta a duas pessoas que veem a vida de maneira totalmente diferentes, ou pelo menos agem de maneira diferente, o que não quer dizer que a melancolia não possa surgir eventualmente em algum momento na personagem mais alegre, tanto quanto parece ser uma constante na personagem introspectiva.

VÉNUS ET FLEUR nos apresenta a duas jovens de personalidades distintas: enquanto Vénus é muito extrovertida e muito sedenta por viver, Fleur é muito fechada, tímida, vive num mundo mais interior de livros (ela aparece lendo O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa), e também de melancolia, sentindo-se como se não existisse para os outros (ela verbaliza isso em determinado momento em conversa com Vénus). Ela nem mesmo havia se dado ainda a chance de amar alguém.

Fleur é uma jovem russa que, depois de uma desilusão amorosa em Paris, passa a procurar enlouquecidamente por homens, junto com a recém-amiga Fleur. Só que Fleur, claro, quer fugir de certas roubadas, e morre de vergonha do que Vénus faz na cara dura, como entrar dentro do carro de um estranho. Já Fleur, é tão introspectiva que seus ombros estão quase sempre arqueados, como se ela estivesse sempre tensa. Seus seios mais volumosos acabam se tornando não necessariamente um elemento de vantagem para a moça, mas algo que a torna mais parecida com um caracol, por mais bela que seja. Ela é mais bonita que Vénus, inclusive, mas o próprio filme demora um pouco a mostrá-la dessa maneira, pois o sorriso aparece mais em Vénus, e quase nunca, ou de forma acanhada apenas, em Fleur.

Daí a força que o filme ganha em sua conclusão, quando Fleur começa a ser percebida pelos rapazes, quando sorri, se sente plena, e também quando começamos a ver uma maior complexidade também na figura de Vénus, ao se ver rejeitada e a encarar isso como uma espécie de quase negação, ou de uma “bola pra frente”. Há uma química interessante entre as duas personagens, a amizade que surge entre elas, num tipo de dependência e troca mútua. O erotismo é muito sutil e elegante e achei bem bonita a última cena, com as opções do diretor no que deseja mostrar em close-ups, muito coerente com o ponto de vista de Fleur, principalmente.

Diria que as duas moças, Vénus e Fleur, teriam um pouco da personalidade melancólica de Pavese, mas muito pouco, na verdade. Mouret, embora mais à frente, em sua carreira, tenha feito melodramas e filmes mais carregados, costuma optar em geral pela leveza, o que não quer dizer que a dor não seja sentida, que ela não esteja lá presente, mesmo nas comédias. Mouret, nesse momento de sua carreira, ainda era uma espécie de herdeiro do cinema de Éric Rohmer. Depois disso, evoluiu e hoje caminha com as próprias pernas, com uma personalidade muito própria.

+ TRÊS FILMES

MEMÓRIAS DE UM CARACOL (Memoir of a Snail)

Do mesmo diretor de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (2009), eu não esperava uma história tão triste, tão no estilo "desgraça pouca é bobagem" neste MEMÓRIAS DE UM CARACOL (2024), de Adam Elliot. A protagonista, Grace, começa a história criancinha, e depois chega à idade adulta, ainda sofrendo muito. Se na infância e na adolescência era o bullying, depois outras situações não muito agradáveis, como a morte de pessoas queridas, a solidão, a depressão, a exploração sofrida por um personagem masculino que seria supostamente o homem que a amava (foi a cena que mais me doeu, essa). E o mais curioso é que Grace nem era a mais depressiva da família: ela via a vida como um copo com água na metade; diferente do irmão, que via como um copo vazio, mas esse mesmo irmão era seu herói, aquele que a protegia e estava sempre do seu lado. Gosto das cenas em que os dois irmãos, junto ao pai paralítico, estão lendo clássicos da literatura, e o quanto isso muda quando ela é levada para outro lar. Eu dei os tradicionais cochilos, como acontece com frequência com animações, mas desta vez culpo mais o horário (17h) e principalmente minha crise alérgica (de novo!).

JUNTOS (Together)

O body horror está de volta e está na moda. Deve ter atingido a mais alta escala de popularidade com A SUBSTÂNCIA, mas um certo TITANE já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. O próprio mestre do subgênero também o fez com CRIMES OF THE FUTURE recentemente. E o grande barato do cinema de horror é o quanto ele pode usar temas políticos, sociais ou de relacionamento, como é o caso de JUNTOS (2025), de Michael Shanks, para revirar tudo do avesso (falando em revirar do avesso, difícil não lembrar de determinada cena de outro exemplar maravilhoso do gênero, A MOSCA). Neste filme que está dando o que falar, e que causa alguns momentos de aflição, Dave Franco e Alison Brie são um casal que ainda não se casou de fato, mas se mudou para uma casa no campo. Acontece que tanto ele quanto ela não estão muito bem. Ele, especialmente, nota-se estar muito incomodado com o relacionamento, ao mesmo tempo que não consegue se ver longe da namorada. As coisas começam a ficar sérias (ou divertidas) quando, depois de estarem numa caverna sinistra, os corpos dos dois passam a se comportar como se fossem se grudar. E de fato se grudam, e há algumas cenas muito boas, como a do sexo, a do cabelo e a do braço. Gosto menos do final do que do início e do desenvolvimento, mas de certa forma ele encerra bem o filme. Não de maneira tão gloriosa quanto poderia, mas o filme em nenhum momento se apresenta de fato genial. Seu principal mérito é trazer uma nova visão para a questão da dependência emocional.

A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (A Big Bold Beautiful Journey)

Talvez tenha me incomodado no filme a falta de uma química maior entre o casal vivido por Colin Farrell e Margot Robbie, mas o diretor Kogonada (COLUMBUS, 2017) mais uma vez dá destaque à direção de arte (aqui, remetendo aos musicais clássicos de Hollywood) e à melancolia, o que me atrai. Farrell, nesse sentido, está melhor do que sua parceira. Parece trazer consigo ainda um quê da tragédia dos personagens de OS BANSHEES DE INISHERIN e de O LAGOSTA. O espírito depressivo e derrotista de David, seu personagem no filme, se contrapõe em parte ao tom mais cínico de Sarah (Robbie), uma mulher bonita demais para estar sozinha num casamento de um amigo em comum com David. Ambos trazem traumas, medos, arrependimentos, nascidos de suas experiências no passado. Ele guarda lembranças de uma rejeição nos tempos da escola e que repercutiu na vida adulta; ela guarda o remorso de não estar presente quando sua mãe faleceu. Por isso a ideia de lar para cada um deles é diferente: enquanto ele foge para um futuro utópico e inexistente como pai de família, ela foge para a infância, para os braços da mãe. É um dos exemplares mais claros de filme-terapia, embora não veja como obra tão bem-sucedida no que tange ao tocar o espectador (se bem que só posso falar por mim). Ainda assim, é fácil ficar encantado com as cores muitas vezes artificiais de A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (2025), bem como é fácil também criar alguma identificação com um ou outro personagem, nessa jornada que, para que chegue a um fim satisfatório ou feliz, é preciso enfrentar os demônios do passado, exorcizar a culpa e começar a ter um posicionamento mais decisivo diante da vida. Uns vinte minutos a menos no corte final teriam ajudado? Não sei. Mas talvez o que tenha me incomodado mais tenha sido a opção pela fantasia como meio de ilustrar as angústias dos protagonistas. E quase sempre eu tenho dificuldade de me apegar à fantasia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (La Casa dalle Finestre Che Ridono)



Há 25 anos eu já ouvia falar (muito bem) deste filme de Pupi Avati, através da saudosa lista de discussão Cannibal Holocaust. E, apesar de geralmente ser classificado como um giallo (embora não um giallo tão tradicional), não havia sido lançado pela Versátil em sua linda coleção amarelinha até então. Eis que foi, mais recentemente, no volume 15. Essa demora se deu principalmente à falta de uma versão remasterizada do filme.

E que bom que agora existe, pois a fotografia de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (1976) é uma das mais lindas do gênero, a cargo de Pasquale Rachini, que passaria a ser colaborador habitual de Avati a partir de então. Também belíssima é a trilha sonora de Amedeo Tommasi (A LENDA DO PIANISTA DO MAR, SLEEPLESS), que tem um tema romântico do protagonista com uma jovem professora que ele conhece na pequena cidade rural que é muito tocante, chegando a, ao mesmo tempo, contrastar e completar o restante da música original, centrada mais no mistério e no horror. Ah, e falando em coisas lindas, impressionante a beleza de Francesca Marciano, que, ainda que tenha trabalhado com Avati novamente em seu trabalho seguinte, optou por seguir o caminho de roteirista, tendo feito o roteiro de filmes famosos, como EU E VOCÊ, de Bernardo Bertolucci, e O MELHOR ESTÁ POR VIR, de Nanni Moretti.

A trama de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES nos pega mais pela atmosfera de mistério e pela perfeita condução de Avati do que pela história em si, embora ela também seja muito boa, muito ousada e que faz com que fiquemos tão curiosos para descobrir os segredos daquela cidade, daquele pintor, daquela família, que até entendemos ele correr tantos riscos. O final é surpreendente e vai fazer muita gente lembrar de certo slasher oitentista.

Na trama, Lino Capolicchio é um restaurador de afrescos que é contratado para restaurar uma pintura muito estranha de uma cidade do interior da Itália. A figura mostrada na pintura é uma espécie de variação da imagem de São Sebastião, trocando as flechas por facas e compondo um visual ainda mais perturbador com outras imagens no quadro. Ao chegar ao hotel, o rapaz, de nome Stefano, logo recebe avisos anônimos por telefone que precisa sair da cidade o mais rápido possível, se não ia se arrepender.

O filme de Avati tem um interesse genuíno na trama, mas acredito que é um tipo de interesse não tão próximo assim dos tradicionais whodunits. Ou seja, o que mais conta é o que vem sendo trazido aos poucos para o quebra-cabeças, como a gravação do pintor morto e desaparecido, além de declarações de alguns moradores da cidade que ousam falar sobre o assunto, que parece ser um tabu. O tal pintor se especializava em pintar pessoas no momento de suas mortes. Havia esse encanto, essa obsessão pela expressão do moribundo.

A presença de Francesca Marciano, com uma personagem meiga e gentil, em determinado momento da história é essencial para que pensemos em algo ou alguém que é ótimo o bastante para que nos preocupemos, diante daquele cenário de mortes misteriosas e casas mórbidas. Gosto do final, apesar da estranheza que carrega, ou talvez por causa disso, mas o filme vale muito mais do que o final. É como uma cebola que vamos descascando e saboreando lentamente. Uma cebola doce, é bom dizer.

Quanto a Avati, cineasta prolífico e que conheço tão pouco ou quase nada, achei interessante o comentário que ele dá em seu depoimento presente no box da Versátil: ele conta que não assiste filmes de outros diretores e não procura se atualizar sobre o que está sendo feito. E por isso mesmo pode até estar fazendo algum filme com uma história já feita antes. Nesse caso, talvez seja o caso de cineasta que mais se abastecesse espiritualmente com o zeitgeist do que com referências cinematográficas, embora ele tenha citado um par de filmes, sendo um deles, O VAMPIRO, de Carl Th. Dreyer. O segundo, eu me esqueci.

+ TRÊS FILMES

DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni)

Talvez mais conhecido como o filho do genial Mario Bava, Lamberto Bava não alcançou nem metade da estatura do pai, o que também pode se dever ao fato de ele já ter iniciado sua carreira na última década em que o cinema de horror italiano estava em sua glória plena, os anos 1980. Eu, inclusive, até prefiro MACABRO (1980) a este muito mais celebrado DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (1985), que virou um clássico, principalmente por seu sucesso nas vídeolocadoras. Por isso mesmo, é um luxo poder ver o filme não numa cópia surrada em VHS ou num DVD comum, mas numa gloriosa cópia em BluRay, a ótima e caprichada edição lançada pela Obras-Primas do Cinema. Ver DEMONS é também entrar numa espécie de cápsula do tempo, tanto pelo gosto pelo splatter mais raiz típico do horror oitentista, quanto pela trilha-sonora de Claudio Simonetti, acrescida de canções de Mötley Crüe, Scorpions, Billy Idol e outros, que adicionam o hard rock e o heavy metal, gêneros associados ao horror, aos sintetizadores da trilha original, e que já estava em voga nos gialli de Dario Argento e de outros. Aliás, Argento foi produtor de DEMONS, e dizem que foi um produtor bastante presente durante as filmagens. Ou seja, deve ter dedo dele no resultado criativo. Na trama, um grupo de pessoas, a maioria jovens, entra num cinema da Alemanha para assistir a um filme misterioso. Enquanto isso, a maldição do filme dentro do filme começa a repercutir também nessa sala de cinema: uma das moças havia experimentado uma máscara que furou seu rosto (clara homenagem ao clássico A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Bava), assim como também fura o rosto do personagem do filme, que se transforma num demônio. Em determinado momento, o filme fica parecendo mais uma aventura de matinê, com as pessoas correndo dos monstros, do que do horror. O que não quer dizer que isso seja ruim. Apenas deixou de ser tão atraente pra mim. Ainda assim, é uma alegria ver DEMONS, pelo que traz de novo e criativo.

ALL THE COLORS OF GIALLO

O documentário ALL THE COLORS OF GIALLO (2019), de Federico Caddeo, pode não trazer muitas novidades para quem já conhece os principais filmes do gênero, mas ainda assim é uma delícia de ver. O formato escolhido é de certa forma óbvio, mas interessante: primeiro fala do giallo como literatura, para depois falar dos krimis, produzidos na Alemanha, da “invenção” do giallo por Mario Bava com seus principais filmes, e depois o momento em que o subgênero ganha filhotes, a partir, principalmente, de O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento. Em seguida, há um bom momento dedicado a Lucio Fulci, e depois aos cineastas menores, mas essenciais para a manutenção do estilo por mais de uma década. Dos meus gialli preferidos, senti falta de uma menção a O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano. Em compensação, há situações de trabalhos importantes de Sergio Martino, Umberto Lenzi, Luciano Ercoli, Aldo Lado, Duccio Tessari, entre outros. Além dos cineastas entrevistados, é bom ver atores e atrizes repensando suas experiências. Sei que terminei o doc com um gostinho de quero-mais e uma vontade enorme de ver um monte de giallo. Até já reservei dois boxes da minha querida coleção amarelinha aqui. 

VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (Valerie a Týden Divů)

Há anos sei o quanto VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (1970) é um filme cultuado, mas sempre adiava sua apreciação por algum motivo. Acho que me afastava um pouco o fato de ser um filme narrado do ponto de vista de uma criança e isso às vezes, por alguma razão que não sei bem explicar, me dá um pouco de sono - posso citar vários casos. Outro motivo talvez seja o fato de o classificarem mais como uma fantasia do que como terror. Na verdade, as duas informações são parcialmente corretas: a menina na verdade está numa fase de descoberta sexual aos 13 anos de idade e acaba passando tanto por diversos tipos de violência quanto por um sentimento de paixão romântica; e, sim: considero o filme mais uma fantasia do que terror, mas muitos códigos de terror estão lá, principalmente o fato de contar uma história de vampiros. Gostaria de ter me envolvido mais com a narrativa onírica e surreal do filme, mas isso não aconteceu, mesmo com toda a beleza visual – a cópia presente no box Obras-Primas do Cinema – Horror Internacional está linda. O diretor Jaromil Jireš costuma ser associado à nouvelle vague tcheca, um movimento interessante, que infelizmente conheço muito pouco.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

ONZE CURTAS BRASILEIROS



Ando sem tempo de escrever para o blog, mas não vou deixar de colocar registros dos curtas brasileiros vistos recentemente.

A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO

Este filme de Rodolpho de Barros (ao que parece é o seu quarto curta-metragem) já chama a atenção por sua beleza plástica: a fotografia em preto e branco em janela scope valoriza tanto as tomadas de perto, como a imagem da mosca lutando pela vida ou os close-ups dos dois únicos atores em cena, quanto a visão panorâmica do bar, onde aquele homem estudioso da vida das moscas e aquela mulher aparentemente deprimida estão. Excelente o trabalho de Luiz Carlos Vasconcelos, que é tanto o narrador quanto a pessoa que impulsiona a ação com palavras e gestos. Ele dizer, por exemplo, o detalhe de como as moscas acasalam não é algo gratuito para a conclusão da breve história kafiana que é A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO (2024).

AJUDE OS MENOR

A primeira imagem de AJUDE OS MENOR (2025), de Janderson Felipe e Lucas Litrento, da moto surgindo de uma paisagem desértica ao som de uma trilha que lembra western spaghetti ajuda a dar o tom de uma ambientação tão masculina quanto hostil. O rapaz da motocicleta é um entregador que traz o almoço para um grupo de rapazes que trabalham na construção civil. O ambiente se revela tóxico com a chegada do chefe que quer mostrar que manda na base da humilhação. A semelhança das primeiras imagens com o western acaba se confirmando com a presença de uma arma e de um espírito vingativo. Não me envolvi tanto com o andamento narrativo e com os personagens, mas é um bom filme sobre luta de classes, sim.

AMERICANA

São 20 minutos que passam voando. Muito divertida esta comédia de Agarb Braga que mostra uma situação de confusão entre duas mulheres trans e o pivô da briga seria o namorado de uma delas. O que começa parecendo algo que até lembra algo da comédia cearense (o filme é paraense) ganha força com a montagem muito esperta, que nos fazer ver diversos pontos de vista e conhecer as principais personagens, sendo a mais engraçada a personagem crente. O título do filme, AMERICANA (2025), se refere a uma delas, que gosta de ser chamada pelo apelido "americana" e suspeita que o namorado a está traindo. Destaque também para a fotografia bem colorida e solar.

BOI DE SALTO

Gosto de como BOI DE SALTO (2025), de Tássia Araújo, se inicia de um jeito (um marido tentando satisfazer o desejo de sua esposa grávida) e se transforma em algo totalmente diferente e igualmente interessante, sobre um rapaz que quer desfilar no Bumba-Meu-Boi usando saltos altos brilhosos e isso não é muito bem-visto pelo mestre. Mas talvez por isso mesmo eu tenha achado sua conclusão muito brusca, com impressão de incompletude. De todo modo, acredito que a diretora tenha mandado seu recado, sim, e faz isso com um cuidado visual muito bom, e com personagens bons o suficiente para que queiramos ver mais deles.

BOIUNA

Que bom que tem chegado, ainda que de maneira tímida, filmes ambientados (e produzidos) na região norte do Brasil. Assim como o sucesso MANAS, este curta BOIUNA (2025), de Adriana de Faria, também lida com dificuldades que as meninas encontram no mundo, e que precisam contar com elas mesmas para venceram (ou não) os obstáculos que surgem. Inclusive, não me lembro de nenhum personagem masculino que tenha surgido na trama (mas posso ter me enganado). Mas BOIUNA também tem algo de misterioso: há uma cobra gigante e há pessoas que aparecem e reaparecem depois de mortas para atazanar a vida das mulheres. Aliás, lembrei de um personagem masculino, o de um homem morto. Gosto do filme, mas imagino que se visto na telona o som funcionaria mais a seu favor.

CASULO

Eis um tipo de curta que funciona como curta em seus 20 minutos, mas que também dá vontade de acompanhar os personagens, como numa série de televisão. Acompanhamos Joana, uma mulher com um filho pequeno sofrendo o que parece ser um distúrbio pós-parto. Ela está preocupada com a visita de uma assistente social e somos convidados a viver um pouco desse seu inferno interior, ainda que saibamos bem pouco de sua história pregressa. Mas por isso mesmo CASULO (2024), de Aline Flores, é brilhante, pois aquilo que é mostrado, naquele universo pequeno que é um apartamento, aquilo parece bastar. Grande desempenho de Aline Flores, que é diretora e atriz principal. Grande talento!

COMO NASCE UM RIO

A animação é um ótimo meio para contar uma história de maneira mais poética, num estado mental próximo ao uso de um alucinógeno, quando é o caso. Em COMO NASCE UM RIO (2025), de Luma Flôres, acompanhamos uma jovem mulher descobrindo uma outra mulher, tão gigante que parece um monte. Um monte que jorra água, como um rio. Mas à frente, as metáforas ficarão mais óbvias e o final é bem bonito em sua representação do amor físico.

CANTO

Um filme que destaca o não-dito, mas que é representado na fala, na fragilidade, no sentimento de cuidado, este CANTO (2025), de Daniel Daher. Uma jovem mãe que se atribui solteira, um menino com o braço quebrado, uma vizinha que ajuda na cama molhada de xixi, o dono de um quartinho que precisa do aluguel, uma agente de empregos exercendo sua função burocrática e um mundo que parece não destinado a cuidar daqueles que mais precisam. O uso do close-up na cena das perguntas na agência de empregos é o ponto alto.

RÉQUIEM PARA MOÏSE

Susanna Lira é uma cineasta incansável. É impressionante o quanto ele tem produzido por ano. Se acham que estou exagerando, basta dar uma olhada em seu currículo no IMDB. Uma diretora que tem trabalhado tanto com a ficção quanto com o documentário. Inclusive sou fã de seu documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024), lindíssimo. Em RÉQUIEM PARA MOÏSE (2025), trabalhando em parceria com Caio Barretto Briso, estreando na direção, apresenta o revoltante caso do espancamento de Moïse Kabagambe, imigrante congolês de 24 anos, num quiosque na Barra da Tijuca em 2022. Infelizmente se trata de um daqueles casos revoltantes, mas que, com o surgimento de outros casos revoltantes neste país, acabou sendo um pouco esquecido. Ter um pequeno filme que traga este assunto novamente e dando voz aos amigos de Moïse se faz necessário.

SAMBA INFINITO

Fiquei encantado com este SAMBA INFINITO (2025, foto), de Leonardo Martinelli. Já começa mostrando o quanto é chique ao anunciar nos créditos a participação especial de Camila Pitanga e Gilberto Gil. Mas depois, quando se revela uma espécie de drama lynchiano, misterioso e cheio de afeto, aí me encantou de vez. Ainda mais quando brinca com a própria forma para alcançar o sublime, como que trazendo uma nova chance de vida para o gari que no passado se perdeu da mãe. A última fala da personagem de Camila Pitanga é muito comovente. Além do mais, que movimentação de câmera elegante e que fotografia linda, feita por João Atala, o mesmo de MEDUSA e NOSSO SONHO.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O formato adotado por este filme não é original. Até tem sido usado com frequência, principalmente em curtas, como uma forma de trazer para o espectador um olhar afetuoso causado principalmente pela narração, embora as imagens que passam por nossos olhos também complementem, muitas vezes por causa de um tipo de contraste, aquilo que estamos ouvindo. O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO (2025), de Felipe Casanova, só foi me ganhar já perto do final de seus 20 e poucos minutos. Foi quando o sentimento que eu geralmente carrego quando o assunto é a dor de uma mãe finalmente me pegou. Foi quando o contraste quase perverso do carnaval carioca com a morte de adolescentes e crianças pobres e pretas pelo estado passou a ter um impacto maior em mim.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

A CRONOLOGIA DA ÁGUA (The Chronology of Water)



É interessante perceber que, recentemente, são as cineastas mulheres que mais têm buscado lidar com os assuntos mais pesados, e com muita propriedade. Ou mais têm sentido a necessidade de criar obras sobre suas próprias dores e aflições.

Podemos pensar em alguns exemplos notáveis: Paola Cortellesi lida com a violência doméstica em AINDA TEMOS O AMANHÃ; Coralie Fargeat usa o body horror para falar do etarismo da mulher em A SUBSTÂNCIA; Audrey Diwan trata em tintas de terror e suspense o aborto em O ACONTECIMENTO; Marianna Brennand lida com o difícil combo abuso sexual infantil e a rede de prostituição no norte do Brasil em MANAS; Eva Victor trata com sensibilidade assuntos espinhosos como depressão, abuso e suicídio; Anne-Sophie Baily nos apresenta à dura tarefa de uma mãe-solo cuidando de um filho especial em PEDAÇO DE MIM; Chloé Zhao trata do luto de uma mãe diante da partida de um filho pequeno em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET; entre outros vários casos. Enfim, há inúmeros casos, no Brasil e no exterior.

Pensei nisso ao sair da sessão de A CRONOLOGIA DA ÁGUA (2025), primeiro longa-metragem como diretora da atriz Kristen Stewart. Ela havia dirigido curtas antes, mas apresentou seu desafiador trabalho em Cannes na mostra Un Certain Regard, a segunda mais importante do festival. O filme é baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, e busca usar um tipo de estética de filme caseiro, de modo a tornar a experiência mais próxima da realidade. Há também uma montagem bem fragmentada, que contribui para um sentimento de desconforto, mas também de empatia para com a personagem de Imogen Poots.

Poots é Lidia, uma mulher que cresceu num lar em que sofria o terror de ser abusada sexualmente pelo próprio pai, que antes dela já abusava da irmã mais velha. Enquanto isso, a mãe dela era conivente e alcoólatra. Ou alcoólatra pois conivente.

No elenco de A CRONOLOGIA DA ÁGUA, fiquei feliz de ver (ainda que a princípio não os tivesse reconhecido) Kim Gordon (mais conhecida como ex-baixista do Sonic Youth, e que aparece numa cena no mínimo estranha; e também feliz de ver Jim Belushi, como uma espécie de professor de redação criativa, alguém muito importante para o desenvolvimento da protagonista como escritora, detentora de um estilo agressivo e pouco palatável.

E se o filme de Stewart também é agressivo e pouco palatável, me parece ser por respeito à obra de Yuknavitch. Espero que a atriz siga experimentando mais seu lado diretora, embora torça ainda mais para vê-la como atriz em outros tantos projetos incríveis.

+ TRÊS FILMES

PEDAÇO DE MIM (Mon Inséparable)

A primeira vez que fiquei muito impressionado com a interpretação de Laure Calamy foi com o drama estressante CONTRATEMPOS (2021). Em PEDAÇO DE MIM (2024), ela tem também essa pegada, mas com um peso maior: o peso da dificuldade que é cuidar sozinha de um filho agora já adulto, mas neurodivergente. E chega outra bomba: o rapaz engravidou uma moça e agora está querendo ser independente e pai da criança que fez com a jovem por quem está apaixonado. É mais fácil nos solidarizarmos com o drama da personagem feminina, por ela estar mais próxima do espectador e também por ser a protagonista. Sem falar que o foco do filme está em suas angústias, em seu desejo de ter momentos de liberdade, como quando sai com um homem que conhece numa festa, ou quando reencontra esse mesmo homem na Bélgica, numa situação um tanto delicada. É bom vermos esses filmes dirigidos por mulheres e que a gente não imagina que seriam tão bem acertados se fossem dirigidos por um diretor homem, embora isso não seja uma regra, claro. Algumas cenas de PEDAÇO DE MIM são carregadas de uma poesia incrível, como na cena em que o rapaz (Charles Peccia Galletto) sai para viver sua vida adentrando uma bruma escura. Até achei que ali seria o final, mas o filme se aproxima de um ótimo epílogo, com outro corte brilhante para os créditos finais. Belíssimo.

AMORES MATERIALISTAS (Materialists)

Depois de VIDAS PASSADAS (2023), um filme bem bonito em sua sutileza, mas que não me "pegou" de fato, estava com um pé atrás para AMORES MATERIALISTAS (2025), o novo trabalho de Celine Song, desta vez com uma produção maior e um trio de astros de Hollywood que atrai a atenção de uma audiência maior. Na sessão em que estávamos, o público era majoritariamente feminino, o que me fez lembrar, guardadas as devidas diferenças, a primeira sessão de CINQUENTA TONS DE CINZA, também protagonizado por Dakota Johnson. E Dakota tem de fato carisma suficiente para chamar a atenção das audiências de ambos os gêneros. Ainda sobre o público, há que se pensar também no tema do filme: Dakota é uma "casamenteira" de elite, cujos clientes são pessoas com dinheiro suficiente para bancar os serviços da empresa onde ela trabalha. E como diria a música dos Titãs: "Todo mundo quer amor, todo mundo quer amor de verdade". Mas o casamento, como ela diz de forma tão cínica quanto realista, é um acordo social, estando mais próximo de um negócio do que de uma união de almas gêmeas. E ela mesma vive um dilema: casar-se com um milionário (Pedro Pascal) por quem ela não nutre nenhum sentimento ou procurar o seu ex (Chris Evans), que vive ainda com as mesmas dificuldades financeiras dos anos em que namoravam, dos anos em que ela o largou por não ser um "liso". Um dos aspectos que me fez gostar bem mais deste AMORES MATERIALISTAS do que de VIDAS PASSADAS foi o quanto ele se disfarça de produção mais comercial (e isso pode desagradar uma parcela grande do público), mas utiliza um andamento sem pressa e uma resolução emocionante, mas também muito sutil no que se refere à demonstração do amor mais desavergonhado. Não à toa, o fã de comédias românticas (e de melodramas) aqui se viu chorando em determinado momento crucial. O filme, apesar de parecer moderninho, não é tão distante dos romances de Jane Austen, que falam de amor, mas que também não se distanciam de tratar de questões materiais e econômicas.

GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (Put Your Soul on Your Hand and Walk)

De vez em quando a gente precisa desse choque de realidade para que saibamos como pessoas como a gente estão vivendo em diferentes lugares do mundo; e para perceber mais uma vez que este mundo é governado por criaturas diabólicas (e, aqui, no caso do drama dos palestinos, sabemos quem são os principais autores do genocídio). O que faz com que este filme singelo ganhe a força devida é a personagem, a jovem de 24 anos Fatma Hassona, que insiste em permanecer viva em uma Gaza completamente destruída. Falta água, eletricidade, comida, internet, mas eles acabam dando um jeito. A cena da comida, quando é perguntado a ela sobre o que tem pra comer, foi o momento que me fez chorar. Os demais momentos me encheram de uma tristeza imensa, de uma desesperança com a humanidade, principalmente com a situação do povo palestino, que talvez não encontre paralelos nem com o genocídio dos povos indígenas da América do Sul. Fatma quase sempre está sorrindo quando fala pelo celular com Sepideh, a diretora iraniana, afastada do próprio país por questões políticas e hoje vivendo uma vida que Fatma gostaria de ter: de viajar por vários países, conhecer tantos lugares. Infelizmente, a maldade humana fala mais alto e pessoas como Fatma seguem sendo brutalmente assassinadas no cotidiano de Gaza. GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (2025) funciona como uma boa dobradinha com SEM CHÃO.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET (Hamnet)



Como diz a canção dos Smiths, “But don't forget the songs that made you cry/And the songs that saved your life" (mas não se esqueça das canções que te fizeram chorar/ e das canções que salvaram a sua vida), eu tenho um profundo respeito e também uma profunda gratidão por filmes que não somente me fazem chorar, mas também me oferecem uma experiência próxima de algo espiritual, seja pela beleza da arte, seja pelo quanto o tema e principalmente o modo como ele é contado em formato audiovisual se manifesta. Sei o quanto isso é subjetivo, mas por isso mesmo é tão belo, pois vem daquilo que nos toca como humanos. Em tempos de ascensão da inteligência artificial, sentirmo-nos humanos e vulneráveis faz parte da graça.

E mais: uma das coisas que mais devemos ser gratos a esse aumento considerável do número de cineastas mulheres em atividade, e no caso aqui adaptando o trabalho de uma romancista, é o quanto podemos ter mais acesso à sensibilidade feminina. Afinal, durante séculos vivemos sob o ponto de vista masculino até para falar de personagens femininas. E não digo que caras como Pedro Almodóvar, Todd Haynes e George Cukor não tenham feito um belo trabalho em buscar apresentar a alma feminina (imagino que tenham), mas sei que não é a mesma coisa.

HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET (2025), quinto longa-metragem de Chloé Zhao, é um desses casos de filmes que ganham muito com o fato de ser dirigido por uma cineasta mulher. Embora deva muito de sua força à interpretação monstruosa de Jessie Buckley. Que atriz!! Buckley me chamou a atenção primeiramente em ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO. Depois vieram outros trabalhos em que ela se destacaria, como A FILHA PERDIDA, MEN – FACES DO MEDO e ENTRE MULHERES, mas foi com HAMNET que a atriz mostrou tudo.

Sua primeira aparição, em plano-geral que a mescla à natureza, já dá uma ideia do que virá, num plano incrível de movimento de câmera de cima para baixo que nos apresenta a uma árvore enorme que possui uma mesma raiz (e junto a essa árvore um buraco!). Uma primeira imagem que já antecipa simbolismos que a narrativa desenvolveria. Aquele buraco muito provavelmente trará o sentimento de luto, que é o principal tema do filme, mas que eu preferia não ter dito, pois o melhor é vê-lo sabendo o menos possível.

Mesmo com as primeiras cenas de Buckley (com o falcão, sua primeira conversa com o professor de latim), confesso que não estava preparado para a imensidão de sentimento, para o tanto que ela doa para a construção da personagem Agnes, esposa de William Shakespeare, vivido aqui por Paul Mescal, que, aliás, é um ator maiúsculo também (vide AFTERSUN, vide NORMAL PEOPLE), mas que aqui fica um pouco de lado pois importa menos Shakespeare e mais a esposa e mãe de três filhos que se doa pelo bem-estar das crianças, usando os conhecimentos de curandeirismo que aprendeu com a mãe, tida pelo vilarejo como uma bruxa.

Ou seja, o próprio combo maternidade, natureza e até bruxaria é um exemplo do arquétipo do feminino que o filme apresenta de maneira orgânica. Some-se a isso uma cena que também traz um simbolismo feminino imenso, além de ser um exemplo do que de melhor pode ser produzido em melodrama na atualidade: a cena do parto, que acontece no meio de uma tempestade.

Estava sentindo falta de um filme que entregasse tanto esse sentimento exacerbado sem medo de parecer excessivo. E Zhao faz isso com muita classe, e ainda exaltando a arte como cura e o mais próximo que se pode chegar da imortalidade, principalmente para um humanista como Shakespeare.

+ TRÊS FILMES

A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS

Um dos melhores longas-metragens de estreia do ano passado, A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS (2025) tem sua singularidade, mas em alguns momentos me lembrou o cinema de Apichatpong Weerasethakul, principalmente no quanto lida com o ambiente de hospital e a espiritualidade. Por mais que ache incrível o trabalho das crianças, o que mais me tocou foram duas cenas específicas de Camila Márdila, duas cenas cheias de sentimento: a cena em que a enfermeira (Laura Brandão) se oferece para ajudá-la na ida ao sítio com a avó hospitalizada; e a cena de Camila com a atriz que faz a avó, quando as duas conversam sobre demonstrar através de palavras o amor que uma sente pela outra. Aquilo ali é muito bonito e vejo a Camila como uma gigante entre os talentos deste novo século. Ou seja, ela nem era até então a protagonista do filme, mas depois que surge, rouba-o para si. De todo modo, há duas metades muito distintas; há uma mudança bem clara de tom quando a trama passa a se ambientar no sítio, com mais revelações e um aspecto mais mágico e misterioso no ar. Ah, e as crianças são ótimas também e seus dramas são muito bem trabalhados, assim como a conexão que se estabelece entre elas.

MORRA, AMOR (Die My Love)

Lynne Ramsay é uma cineasta cujas obras têm um espaçamento temporal grande entre si. De VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (2017) para este MORRA, AMOR foram oito anos. De PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011) para o seguinte foram seis. E mesmo assim, ela tem chamado atenção para si. E desta vez possivelmente entregou seu melhor trabalho, assim como temos aqui a melhor interpretação da carreira de Jennifer Lawrence, uma atriz que já começou oscarizada muito jovem, mas que não havia chegado ainda a ter o devido respeito da crítica, por mais que tenha encarado diferentes desafios, como o pirado MÃE! ou a comédia QUE HORAS EU TE PEGO?. MORRA, AMOR (2025) é um filme sobre depressão pós-parto que talvez pareça ir longe nos atos da heroína, mas faz isso com muita verdade. Grace, a personagem cujo nome parece uma ironia, é uma escritora que passa a sofrer muito após o nascimento de seu filho com Jackson (Robert Pattinson, também ótimo). Sofre ao sentir tesão e não receber a mesma atenção do marido, sofre ao morrer de tédio, sofre a preferir bater a cabeça no espelho ou rasgar as próprias unhas na parede do que viver daquele jeito. A heroína de Lawrence/Ramsay é herdeira, talvez, da Gena Rowlands de UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, mas com muito mais ousadia e selvageria do que fragilidade. E Ramsay deixa sua heroína voar, fazer suas loucuras em nome do fim da dor, do tédio e da vontade de não existir. A montagem é acertada, tanto ao trazer momentos do passado para a narrativa principal, quanto para apontar imagens futuras em pequenos flashes. Ela flerta com o cinema de horror mais do que com o melodrama. Seu filme é duro, embora não totalmente despido de sentimentalismo. Há uma cena que é banhada de ternura, quando vemos o casal cantar "In spite of ourselves", de John Prine e Iris DeMent. Linda!

#SALVEROSA

Basta dar uma olhada na filmografia de Susanna Lira para ficar impressionado com a quantidade gigante de produções que ela dirige. Algumas poucas chegam ao circuito, como foi o caso do ótimo documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024). #SALVEROSA (2025) é o retorno de Lira à ficção, e o resultado é no mínimo muito curioso. A começar pela performance de Klara Castanho no papel de uma menina que começa a descobrir coisas sobre si mesma e sobre a mãe. E são coisas bem pesadas. É impressionante como a atriz consegue comverncer como uma menina adolescente, já tendo passado dos 20 anos de idade. Em alguns momentos o filme pode incomodar um pouco na caracterização da personagem da mãe (Karine Teles), mas talvez para esse tipo de filme de teor mais de denúncia (embora se de ficção) seja importante deixar claras certas vilanias. Em alguns momentos parece um bom suspense barato estilo Supercine. Mas acho que isso faz parte do charme do filme.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

LAISSONS LUCIE FAIRE!



Foi amor à primeira vista (ou à primeira risada) na primeira vez que vi um filme de Emmanuel Mouret, FAÇA-ME FELIZ (2009), numa edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Mal sabia eu que, apesar de este trabalho ainda constar no rol de comédias que se tornariam a marca do cineasta até ele fazer uma virada de chave para o drama com UM NOVO DUETO (2013), mal sabia eu que ele já era um cineasta com alguns títulos já lançados anteriormente, sendo que apenas o anterior havia sido lançado no país comercialmente, o delicioso e divertidíssimo SÓ UM BEIJO, POR FAVOR (2007), que, creio eu, não chegou a ser lançado em Fortaleza. Foi um dos vários filmes do diretor que tratei de ir conhecendo por vias alternativas principalmente durante a pandemia.

E é graças a esses meios alternativos que tive o prazer de conhecer até mesmo os filmes inéditos no país, como foi o caso, recentemente, de LAISSONS LUCIE FAIRE! (2000), seu primeiro longa-metragem. Ou o segundo, se considerarmos o filme de 50 min de duração PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! (1999), como um longa. Atualmente se considera um longa quando se tem mais de 60 min, mas não é todo crítico que leva em consideração essa regra. De uma forma ou de outra, isso não importa muito.

Um dos dois filmes de Emmanuel Mouret que faltava eu ver, este aqui ainda tem aquele ar de quase amadorismo por parte de um diretor que viria a se tornar um dos mais interessantes deste século. LAISSONS LUCIE FAIRE! é mais irregular que o seu quase primeiro longa, PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! Sem falar que o anterior também é mais "safadinho", no bom sentido, ou seja, utiliza um pouco mais do erotismo presente em outros ótimos trabalhos de Mouret, como o próprio SÓ UM BEIJO, POR FAVOR ou o mais maduro AMORES INFIÉIS (2020).

E acredito que o problema de LAISSONS LUCIE FAIRE! esteja justamente na duração. Gosto muito da primeira metade. De rir e gargalhar, com muitas situações apresentadas quase em forma de esquetes, o que mais uma vez faz aproximar o realizador com Woody Allen, principalmente os primeiros trabalhos de Allen. Mas o cineasta que parece ser a sua principal referência é mesmo o francês Éric Rohmer. Há um quê de CONTO DE VERÃO ou PAULINE NA PRAIA, de Rohmer, nesta trama de jovens ambientada numa cidade litorânea francesa.

Pena que Mouret não apresente o mesmo brilho em sua conclusão. Na trama, o próprio Mouret é um rapaz de família abastada que faz concurso para ser policial, para desgosto do pai, que anda muito ocupado com a contratação de uma empregada doméstica. Porém, o protagonista acaba sendo contratado como agente secreto – algo que ele precisa fazer nessa nova profissão é não contar para ninguém a respeito.

Enquanto isso, sua doce namorada (Marie Gillain, de A ISCA, de Bertand Tavernier), que vive de vender biquínis e maiôs na praia usando o próprio corpo como modelo, cobra do namorado uma postura de completa franqueza com relação a tudo. Como se não bastasse o tal emprego que não deve ser contado a ninguém, o protagonista ainda se sente atraído por outra mulher, que se oferece a ele sexualmente. E é nesse jogo de traições (ou quase) que o filme se reveste de uma força maior. Até por saber tratar tudo com bastante leveza. Depois disso, a narrativa vai perdendo sua força, o que não quer dizer que não seja bem gostoso de ver. Essa brincadeira com triângulos (ou quadrados) amorosos seria posteriormente aperfeiçoada em outros trabalhos do realizador.

+ TRÊS FILMES

PERRENGUE FASHION

Vinda da televisão, e depois da experiência desafiadora de comandar, junto com Guel Arraes, O AUTO DA COMPADECIDA 2 (2024), Flávia Lacerda segue agora no território da comédia, mas num estilo mais usual de comédia brasileira do cinema pós-retomada, que carrega uma tendência de tratar de questões econômicas e sociais. Em PERRENGUE FASHION (2025), Ingrid Guimarães segue aproveitando sua boa verve cômica para interpretar uma influenciadora de moda que mora numa casa minúscula para conter tantos brindes recebidos de patrocinadores. Segundo seu secretário e único apoiador, vivido por um Rafa Chalub que parece aproveitar um pouco a lacuna deixada por Paulo Gustavo, ela precisa fazer de conta que já é milionária a cada vídeo que publica no Instagram ou TikTok. Um dia surge a oportunidade de ouro de ela fazer uma publicidade da Gucci, mas ela precisa ir em busca do filho (Filipe Bragança), que está na Amazônia, e agora lidando com ecologia e sustentabilidade e bastante resistente a ajudar a mãe. Assim como acontece em outras comédias que apresentam o choque cultural de alguém que veio de uma cidade cosmopolita para adentrar o Brasil profundo (lembro agora de BEM-VINDA A QUIXERAMOBIM, de Halder Gomes), a graça desta aqui está em ver como a personagem de Ingrid lida com aquilo que lhe parece estranho, como o estilo de vida daquele grupo em que o filho agora se insere e, mais engraçado, a questão da comida diferente da Amazônia. Como ouvi numa entrevista da diretora e do elenco no podcast Plano Geral, é bem provável que uma comédia como esta seja mais eficiente na conscientização de um modo de vida mais amigo do meio ambiente do que qualquer documentário mais caprichado.

MÃE FORA DA CAIXA

É importante trazer para um público maior, no caso, o público que frequenta o cinema e assiste às comédias brasileiras, o tema do puerpério, das dificuldades imensas por que a mulher passa assim que o bebê nasce. No cinema de ficção, por exemplo, eu só havia visto esse tema ser apresentado de maneira mais crua no americano TULLY, de Jason Reitman, com roteiro de Diablo Cody e atuação intensa de Charlize Theron. MÃE FORA DA CAIXA (2025) faz isso muito bem, ainda que de maneira suave, se comparado ao filme de Reitman, até porque as intenções de ambos os filmes são distintas. A diretora Manuh Fontes se sai muito bem, pelo menos até seu terço final, quando o filme por pouco põe a perder o que havia conquistado em seus 2/3. Muito da força do filme está no carisma de Miá Mello, mas também no quanto muitas situações servirão como identificação para quem já passou pela experiência de ser mãe, amamentar e acompanhar os primeiros passos de uma criaturinha totalmente dependente. Isso vale para os homens que estiveram presentes também, aqui representados por Danton Mello.

AGENTES MUITO ESPECIAIS

E Marcus Majella faz aqui um trabalho que ajuda a honrar a memória de Paulo Gustavo. AGENTES MUITO ESPECIAIS (2025), de Pedro Antônio, deveria ser um filme com os dois atores/comediantes e a ideia foi materializada num filme irregular, mas com alguns momentos muito divertidos, principalmente na primeira parte do filme, que vai do treinamento dos protagonistas até a temporada na prisão, na missão de se infiltrar numa gangue perigosa. Há toda uma brincadeira que mistura orgulho gay com uma tentativa, a princípio, de "falar grosso" na penitenciária. De um lado, temos um homem gay orgulhoso de sua orientação sexual (Majella); do outro, alguém que não se assume (Pedroca Monteiro), ou que diz ser um gay "não praticante", e essa brincadeira funciona bem na primeira metade do filme. Depois, há uma queda no interesse, por conta de uma trama burocrática que quebra o tom de brincadeira descompromissada que o filme até então adotara.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

GLOBO DE OURO 2026



Estava há pouco procurando meu texto sobre o Globo de Ouro do ano passado, o que contou com a vitória de Fernanda Torres por AINDA ESTOU AQUI, e vi que não escrevi o texto. Devia estar mais ocupado do que estou neste início de ano, então. De todo modo, acho importante deixar registrado um pouco da alegria que foi a noite do dia 11 de janeiro, especialmente para o Brasil, com os dois prêmios que O AGENTE SECRETO ganhou: melhor ator, para Wagner Moura, e melhor filme em língua estrangeira. Essa premiação é fundamental para que o clássico moderno de Kleber já ganhe força para chegar ao Oscar, pois é a partir de hoje que os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começam a votar.

Para mim, especialmente, foi muito gostoso ver a festa ao lado da Giselle, meu amor, agora que moramos juntos. Foi a primeira vez dela vendo uma premiação integralmente, e inclusive já tendo visto alguns dos filmes indicados junto comigo. E ter essa participação do Brasil, e ainda fazendo bonito, faz também uma diferença enorme no que às vezes é apenas uma sucessão de prêmios, um atrás dos outro, sem ter nenhuma apresentação além do discurso do host. Aliás, não sei se gostei da host deste ano, Nikki Glazer, que eu desconhecia. Deu saudade do Ricky Gervais e da dupla Tina Fey e Amy Poehler. Essa última, aliás, ganhou prêmio de melhor podcast (deve ser bem bacana o podcast dela).

De todo modo, até um ator meio sem graça que foi escolhido para apresentar os vencedores de melhor filme estrangeiro, Orlando Bloom (esse sim, um picolé de chuchu) junto com Minnie Driver, deram sorte e ganharam nossa simpatia. Principalmente Driver, por ter dito “parabéns” em português, antes de anunciar, em inglês, o nome do filme (“The Secret Agent”). Ela agora se converteu numa querida dos brasileiros, só por esse gesto.

E aí veio Wagner Moura, com todo seu charme, receber, lá do fundão, o seu prêmio, como se fosse uma espécie de intruso naquela cerimônia, já que as pessoas que estavam nas mesas da frente eram velhos figurões de Hollywood – estavam lá Spielberg, Julia Roberts, George Clooney, Leonardo DiCaprio, entre outros jovens atores e também realizadores dos Estados Unidos. Então, ver Wagner desbancando caras como Joel Edgerton, Michael B. Jordan e Oscar Isaac é de dar orgulho. Claro que se ele estivesse no grupo de melhor ator (comédia ou musical) seria muito mais difícil vencer nomes como Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet, Ethan Hawke e Jesse Plemons, mas vamos com calma. Baby steps. Foi bonito ver Colman Domingo recebendo Wagner com dancinha e tudo.

Destaquemos outros momentos muito bons da festa: a quantidade incrível de prêmios que a minissérie ADOLESCÊNCIA ganhou. Trata-se de fato de um dos trabalhos para a televisão mais incríveis deste século. Os prêmios de atuação e de melhor minissérie foram mais do que justos, servindo para coroar um trabalho feito fora de Hollywood. Fico pensando o quanto de ótimos trabalhos ingleses são feitos e não conseguem furar a bolha do Reino Unido.

Outro prêmio de destaque foi o de Rhea Seehorn, por PLURIBUS. Eu já era fã dessa mulher desde BETTER CALL SAUL e vê-la finalmente sendo reconhecida é muito bom. A série, só comecei a ver agora, e estou adorando. Também no campo das atrizes, gosto muito de Rose Byrne e Jessie Buckley, e, embora não tenha visto ainda seus respectivos filmes, tenho certeza de que são trabalhos incríveis. 

Falando em atrizes, que lindo foi o gesto de Julia Roberts quando, ao entregar o prêmio de melhor filme (comédia) para UMA BATALHA APÓS A OUTRA, um prêmio, aliás, já esperado, fez a gentileza de pedir para que as pessoas que ainda não viram SORRY, BABY que o vissem, o que deixou Eva Victor muito emocionada.

No mais, senti muita falta de um discurso mais politizado, ainda mais com a atual situação muito grave que os Estados Unidos estão vivendo. Ninguém teve a coragem nem a disposição de enfrentar Donald Trump. Acredito que enfrentam fazendo cinema, fazendo cinema humanista e muitas vezes progressista, abraçando cineastas como Kleber Mendonça Filho e Jafar Panahi. Só no tapete vermelho que vi Mark Ruffalo com um bottom em lembrança à morte de Renee Macklin Good pelos agentes da ICE de Trump. Quem sabe no Oscar haja mais coragem por parte dos artistas. Ou será que há alguma imposição por parte da organização ou das redes de televisão?



Prêmios da Noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET
Melhor Filme (Comédia/Musical): UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Melhor Direção: Paul Thomas Anderson (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Melhor Ator (Drama): Wagner Moura (O AGENTE SECRETO)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Timothée Chalamet (MARTY SUPREME)
Melhor Atriz (Drama): Jessie Buckley (HAMNET - A VIDA ANTES DE HAMLET)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Rose Byrne (SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA)
Melhor Ator Coadjuvante: Stellan Skarsgård (VALOR SENTIMENTAL)
Melhor Atriz Coadjuvante: Teyana Taylor (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Melhor Roteiro: Paul Thomas Anderson (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Melhor Trilha Sonora: PECADORES
Melhor Canção Original: "Golden" (GUERREIRAS DO K-POP)
Melhor Animação: GUERREIRAS DO K-POP
Melhor Filme em Língua Estrangeira: O AGENTE SECRETO (Brasil)
Melhor Realização Cinematográfica e em Bilheteria: PECADORES

Televisão

Melhor Série (Drama): THE PITT
Melhor Série (Comédia/Musical): O ESTÚDIO
Melhor Minissérie, Séria de Antologia ou Telefilme: ADOLESCÊNCIA
Melhor Ator de Série (Drama): Noah Wyle (THE PITT)
Melhor Ator de Série (Comédia/Musical): Seth Rogen (O ESTÚDIO)
Melhor Ator em Minissérie, Série de Antologia ou Telefilme: Stephen Graham (ADOLESCÊNCIA)
Melhor Atriz de Série (Drama): Rhea Seehorn (PLURIBUS)
Melhor Atriz de Série (Comédia/Musical): Jean Smarts (HACKS)
Melhor Atriz em Minissérie, Séria de Antologia ou Telefilme: Michelle Williams (MORRENDO POR SEXO)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Owen Cooper (ADOLESCÊNCIA)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Erin Doherty (ADOLESCÊNCIA)
Melhor Stand-up na TV – RICKY GERVAIS – MORTALITY
Melhor podcast – GOOD HANG WITH AMY POEHLER