“Em algumas ocasiões temos vontade de ser outra pessoa, porque estamos cansados de ser nós mesmos.”
Abbas Kiarostami
Na época que estagiava no Banco do Nordeste conheci um rapaz que, com o tempo, foi sofrendo de um tipo de problema que às vezes me assustava, às vezes me aborrecia. Procurando pelo nome dessa condição, parece se chamar mitomania. Ele dizia, por exemplo, que havia se encontrado com a Norah Jones no café ou com outro cantor ou astro de Hollywood famoso, ou que estava com uma viagem agendada para Los Angeles, pois estava prestes a fazer um filme nos Estados Unidos etc. Uma vez, confesso que não estava psicologicamente bem para escutar com leveza essas coisas e me afastei dele, quando ele apareceu num festival de cinema para conversar comigo. Lembro também que ele teve, numa das visitas que me fazia na Cabec (a empresa onde trabalhei por 20 anos), num acesso de lucidez, ele comentou sobre a coisa que lhe afligia praticamente todos os dias: acordar de manhã e não saber se ia ter dinheiro para pagar a passagem de ônibus ou para comer alguma coisa.
Lembrei desse rapaz quando vi, emocionado, CLOSE-UP (1990), obra-prima do saudoso mestre Abbas Kiarostami. Trata-se de um de seus filmes mais diferentes, por parecer um documentário, ao mesmo tempo que tem sua assinatura muito visível. Digo diferente, pois comecei a escrever este texto antes de ter visto E VIDA CONTINUA (1992), que já faz essa confusão gostosa entre documentário e ficção. A própria sinopse de CLOSE-UP diz que se trata da história real de Hossain Sabzian, um cinéfilo, que finge ser o famoso cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf para enganar uma família. O filme já começa com um jornalista investigativo pegando um taxi junto a dois policiais a fim de flagrar o tal farsante, enquanto ele estava ainda na casa da família a quem estava enganando. Seria um furo de investigação. Essa cena é a que mais se parece com uma encenação, até por não termos a presença do diretor, mas uma câmera está dentro do carro, registrando a cena. Aliás, tanto Kiarostami quanto Jafar Panahi adoram filmar dentro de carros. Mais à frente, a cena será filmada de outra ponto de vista, quando Kiarostami borra mais uma vez as fronteiras daquilo que parece ser um documentário e um filme de ficção.
Logo depois, após a prisão de Sabzian, vemos o diretor entrevistando a família prejudicada pelas mentiras do rapaz, dando um ar de documentário mais tradicional, embora também pareça encenado, e também conversando com pessoas da lei, com o objetivo de filmar o julgamento de Sabzian, algo que não era muito comum ou permitido. A pergunta que mais Kiarostami fazia para o rapaz era por que ele havia feito aquilo. E por que ele continuou fazendo. O bonito de tudo isso é o quanto o diretor (e o filme em si) tem esse olhar carinhoso e até caridoso com esse homem que poderia muito bem ser demonizado.
Tenho lido o livro Caminhos de Kiarostami, de Jean-Claude Bernadet, aos poucos, enquanto retorno ou vejo filmes inéditos para mim do mestre iraniano. E há um trecho do livro em que Bernadet fala sobre o quanto as casas costumam ser espaços de hostilidade. Em ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987), a casa já era vista dessa forma em pelo menos duas ocasiões: quando o menino tenta conversar com a mãe e não é compreendido para devolver o caderno do seu colega; e quando ele finalmente chega a essa casa, mas algo misterioso faz com que ele não entre. O espaço que parece menos hostil é o espaço exterior, por mais agressivo que possa ser.
Em CLOSE-UP, quando o filme começa, não vemos, inicialmente, o momento em que Sabzian é preso pelos policiais. O carro fica esperando enquanto ele é trazido. Quando vemos a casa do ponto de vista do que aconteceu, é para ver o personagem ser preso. Os espaços fechados são apresentados como espaços de prisão, sendo o carro uma espécie de atenuante, já que é uma espécie de casa em movimento, de terapia (DEZ, 2002), de tentativa de fuga (GOSTO DE CEREJA, 1997), de busca (E A VIDA CONTINUA) e até de salvação (O VENTO NOS LEVARÁ, 1999).
Há um trecho no livro de Bernadet intitulado “Eliminação do Diretor”, em que alguém, conversando com Kiarostami sobre CLOSE-UP acreditava ser esse um filme sem diretor. E o cineasta, em vez de ficar chateado, acabou achando aquilo genial: um filme sem diretor. Disse: “Meu grande desejo é um dia poder fazer cinema sem câmera, sem microfone, sem equipe; ou então encontrar um meio definitivo de fazer o ator esquecer a onipresença desse instrumento constantemente apontado por ele.” É com se Kiarostami estivesse ao mesmo tempo pensando num cinema do futuro e pensando num cinema espiritual, por assim dizer. O filmar como gesto criativo vinculado a algum tipo de espiritualidade. Para um cineasta tão humanista e também tão crente no lado bom das pessoas, começo a ver essa sua declaração mais enigmática do que exatamente prática.
Outra coisa que merece ser mencionada sobre CLOSE-UP está na cena em que Sabzian e se encontra com o cineasta Mohsen Makhmalbaf, aquele que ele tanto admirava e que acabou por se fazer passar. Mas Makhmalbaf está ali para abraçar (do ponto de vista metafórico, principalmente) aquele homem que passou já pela humilhação da prisão, depois de ter vivido continuamente a humilhação de não ter o que dar de alimento para sua mulher e seu filho. E não importa se a cena foi encenada. Não importa também se a falha no microfone foi deliberada pelo próprio Kiarostami na pós-produção, de modo a obter um efeito dramático.
O que importa é que ele obteve e que as imagens com as falas cortadas são cheias de amor, assim como as imagens de Sabzian sentado na garupa da moto do diretor com flores para entregar à família a quem mentiu, como num gesto de desculpas, de pedido de perdão àquelas pessoas. E Kiarostami tem a mágica de não necessitar do close-up em cenas emocionantes, como na última cena de E VIDA CONTINUA, por exemplo. Aqui não é diferente e é até preferível que aquela distância da câmera de Kiarostami para a fachada da casa da família tenha sido a opção mais bonita e mais sábia para a criação de uma emoção transcendental, algo que o diretor iraniano consegue tão bem criar.
+ TRÊS FILMES
MÃE E FILHO (Zan va Bache)
Não sei se dá para generalizar, mas há algo na sensibilidade dos cineastas iranianos que muito me toca. Este MÃE E FILHO (2025) parece herdeiro dos melhores melodramas dos mais variados países com essa tradição (Itália, México, Estados Unidos, Espanha), mas com aquele tempero muito próprio da cultura iraniana, que sabe lidar muito bem com questões familiares e existenciais. Um dos atores principais, inclusive, Payman Maadi, é conhecido de quem viu PROCURANDO ELLY e A SEPARAÇÃO, ambos de Asghar Farhadi. O filme me surpreendeu positivamente, até porque eu esperava encontrar um filme que abordasse o universo do filho adolescente e o de sua mãe. Para minha alegria, o foco é maior no drama dos adultos, dessa personagem fascinante que é Mahnaz (Parinaz Izadyar), enfermeira, mãe solteira de um adolescente e uma criança menor. Enquanto isso, ela se prepara para casar com o colega de trabalho, Hamid (Maadi), um sujeito que não é exatamente um exemplo de honestidade. No meio disso tudo, dois outros eventos impactam a vida da protagonista e de todos, de tal modo que me peguei comovido com diversas situações. Até pela facilidade que tenho por me comover com as dores das mães. MÃE E FILHO pode até não ser tão carregado de denúncias políticas do estado iraniano, mas é político à sua maneira, além de extremamente humano. Uma das últimas, se não a última cena do filme, com a mãe, as duas filhas e o neto, é de um amor que transborda, que nos inunda. Até cheguei a pensar que Saeed Roustayi era o nome de uma diretora, de tão sensível que esse cineasta é com suas personagens femininas, além de crítico do papel do homem nas famílias. Um dos meus filmes favoritos do ano.
TÁXI TEERÃ (Taxi)
Jafar Panahi é uma simpatia. E por isso que eu dou preferência a seus filmes estrelados por ele mesmo, interpretando a si mesmo. Em determinado momento de TÁXI TEERÃ (2015), um estudante de cinema pergunta a ele como fazer para conseguir uma ideia para seu filme, e Panahi diz que ele deve sair para o mundo, sair de casa de modo a buscar suas próprias ideias, seu próprio olhar, pois os outros filmes já foram feitos por outros diretores. Não sei se a ideia de ambientar um filme num táxi com o próprio diretor propondo uma amostra da realidade de seu país, uma amostra proibida pelas regras do regime iraniano, mas certamente este é um filme singular pelas circunstâncias e pela própria assinatura de Panahi, alguém que consegue fazer das objeções e proibições obras de arte inventivas. Há ecos de FOI APENAS UM ACIDENTE, digo, há antecipações, em especial na cena em que Panahi encontra uma amiga que está prestes a encontrar um amigo na prisão, uma prisão política, como já aconteceu com ela e o próprio cineasta. Dos personagens surgidos no filme, se destaca um vendedor de CDs piratas, o que é genial para que o diretor destaque também a impossibilidade que os iranianos têm de ver filmes de várias outras nacionalidades, a não ser pelo meio pirata. Ou seja, o espírito corsário é ainda mais imperativo para quem deseja ter contato com o cinema mundial naquele país.
FOI APENAS UM ACIDENTE (Yek Tasadef Sadeh)
A lembrança de um filme incrível como 3 FACES (2018) mais uma vez não se repetiu com este novo e hypado FOI APENAS UM ACIDENTE (2025). Algo parecido havia acontecido com SEM URSOS (2022). O hype prejudica, mas aqui eu também senti falta do próprio Jafar Panahi atuando. De todo modo, o filme me ganhou especialmente quando conseguiu transformar um drama pesadíssimo e violento em uma comédia absurda que faz refletir sobre nossas próprias ações, sobre nossa humanidade. O que fazer quando encontramos o homem que foi o nosso torturador no passado dentro de um país que ainda mantém o mesmo regime e que você não pode ter a lei a seu favor? Inclusive, a cena dos dois homens da lei perguntando o que estava havendo, e também querendo algum dinheiro, mostrando a corrupção como também mostrado em O AGENTE SECRETO do KMF é exemplo desse sistema que não muda, o sistema que, inclusive, nos últimos dias, sentenciou novamente Panahi a prisão, ele que já foi preso outras vezes por insistir em expor o que há de podre no Irã pós-revolução islâmica. Aliás, eu acredito que a Palma de Ouro possa ter vindo para o filme mais por uma questão política, da situação de Panahi, e também pelo conjunto de sua obra (que é admirável, com mais de 30 anos encantando as plateias). De todo modo, um prazer poder ver este trabalho, que carrega o veneno e o amor em doses semelhantes. Que Panahi consiga vencer mais essa dura batalha em seu país e que volte com um novo filme no futuro.





