domingo, agosto 07, 2022

O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU (The Incredible Shrinking Man)



É impressão minha ou o gênero ficção científica sofre ainda mais preconceito por parte da cinefilia e do meio mais prestigiado da mídia do que o gênero horror? Confesso que eu mesmo não dava muita bola para o gênero, apesar de sempre responder quando me perguntavam qual o meu filme favorito com 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO. Mas aí estamos falando de uma obra-prima dirigida por um gênio, uma produção classe A requintada. Antes da obra de Kubrick, a maior parte das produções sci-fi eram filmes B produzidos na década de 1950 com o intuito maior de serem diversões escapistas, embora todas fossem reflexo do medo da bomba atômica durante a primeira fase da Guerra Fria. E há o caso de uma produção cara, como O PLANETA PROIBIDO, de Fred M. Wilcox, que hoje é visto como camp ou inferior por muitos.

Recentemente, ao adquirir alguns volumes da coleção Clássicos Sci-Fi, da Versátil Home Video, fui dando atenção maior a algumas dessas obras, principalmente as que não são assinadas por autores consagrados. E muitas delas são não apenas deliciosas de ver, mas muito inventivas e ricas em significado. O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU (1957), de Jack Arnold, está entre os melhores exemplares. Na trama, não há disco voador nem milagre da ciência ou robôs fantásticos e alienígenas, coisas que se costuma esperar do gênero. Mas temos algo que é bastante comum no ciclo de produções sci-fi da década de 1950, que é a interferência da radioatividade para a destruição da vida humana.

No caso, o herói do filme, Scott Carey (Grant Williams), está descansando em um barco com sua esposa Louise (Randy Stuart), quando uma nuvem misteriosa passa por ele. Dentro de poucos dias, ele começa a perceber que está ficando menor a cada dia. Primeiramente ele percebe nas roupas, que começam a parecer mais largas, e depois na altura, quando ele se percebe de estatura mais baixa que a esposa. Os médicos não conseguem entender o que está acontecendo com aquele homem, apenar percebem que, de fato, ele está encolhendo.

Interessante que eu jurava que já tinha visto este filme. Talvez algumas imagens tenham sido vistas por mim de alguma maneira ou talvez seja um exemplo do poder do inconsciente coletivo. O fato é que até um dia desses O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU era inédito para mim em sua versão integral. O curioso desta produção de Arnold é que ele vinha de dois westerns, gênero não muito associado ao diretor atualmente. O que marcou mesmo foi sua incursão na ficção científica e o quanto ele elevou o gênero naquele período, com este filme e com o ótimo A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO (1953).

O impressionante desta história sobre um homem que fica menor a cada dia é como a trama é criativa em colocá-lo em situações distintas e em nos deixar admirados com os efeitos visuais inventivos. Há as cenas envolvendo os móveis na casa, a cena em que ele sai e conversa com anões de circo, a cena do gato e as ainda mais dramáticas cenas no porão, quando o filme nos leva para a solidão imensa do herói, agora tido como morto pelo gato de sua casa e tendo que enfrentar aranhas e ameaças daquele novo mundo.

E se no filme de 1953 Arnold tinha a história de Ray Bradbury, neste ele tem Richard Matheson no roteiro. Dois gênios da literatura sci-fi juntos na década mais importante para o gênero no cinema. Além de tudo, há a questão envolvendo o sentimento de extrema vulnerabilidade e de impotência do personagem (inclusive no primeiro terço), que faz com que ele ganhe contornos psicológicos mais profundos. E o que é aquele desfecho emocionante e trazendo uma espécie de esperança que não parece coincidir com o gosto amargo que sentimos, próximo de uma profunda indignação pelo destino do herói?

Filme visto no box Clássicos Sci-Fi - Anos 50 (volume 1), que conta com quase uma hora de extras sobre a produção, incluindo uma gostosa conversa com Joe Dante.

+ DOIS FILMES

O MOINHO DAS MULHERES DE PEDRA (Il Mulino delle Donne di Pietra)

Eis um dos filmes que representa um momento definitivo para o horror italiano, tendo estreado próximo do lançamento de A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Mario Bava. Há quem diga que o clássico de Bava eclipsou este trabalho de Giorgio Ferroni, mas acho que foi mesmo o brilho de Bava e sua excelência no que fez durante toda sua carreira o "culpado". Ainda assim, O MOINHO DAS MULHERES DE PEDRA (1960) merece ser mais conhecido, por mais que eu ache a primeira metade do filme um pouco travada na situação envolvendo o jovem estudante (Pierre Brice) e a filha de um homem que ganha dinheiro exibindo bizarras estátuas de mulheres em cenários de morte. Acho que o filme demora um bocado a dizer o que está de fato se passando no castelo do velho, que parece bastante com o Dr. Mabuse de Fritz Lang - imagino que a referência tenha sido justamente essa. Aliás, vejo a figura desse homem meio louco (Wolfgang Preiss) como um dos pontos altos do filme. As cenas das transfusões de sangue, imagino que podem ter causado certo desconforto para as plateias da época. Filme presente no box Obras-Primas do Terror - Gótico Italiano.

CARRO REI

O longa-metragem anterior de Renata Pinheiro, AÇÚCAR (2017), usa os elementos do cinema de gênero (no caso, o horror) de maneira muito feliz. Senti o domínio da diretora na construção de uma atmosfera de medo e mistério, e o filme ainda consegue trazer uma crítica social muito eficiente. Em CARRO REI (2021), o brainstorming dos três roteiristas, que inclui também Pinheiro, aposta numa sci-fi distópica sobre garoto que tem a habilidade de falar com carros. O roteiro um tanto furado não seria problema se o filme fosse suficientemente bom na direção. O simbolismo com o Brasil do bolsonarismo que sequestrou os símbolos patrióticos e conquistou seu legado com robôs, em vez de tornar o filme urgente ou politicamente atraente, acaba desanimando. Além do mais, sente-se uma dúvida sobre como deveria ser a performance de Matheus Nachtergaele no filme. E que coincidência ter outra obra sobre uma mulher que transa com um carro no mesmo ano de TITANE.

quinta-feira, agosto 04, 2022

ROSA LA ROSE, GAROTA DE PROGRAMA (Rosa la Rose, Fille Publique)



“Se a paixão fosse realmente um bálsamo, o mundo não pareceria tão equivocado...”
(Renato Russo)


Eu sabia que quando voltasse às aulas minha energia ficaria cada vez mais limitada. Aliás, esse já é um problema meu há alguns anos, mas tenho notado que tem se tornado cada vez mais um lamento, tendo deixado de ser uma preocupação, pois a preocupação demanda também energia. E, por isso, uma coisa de que gosto muito de fazer, que é escrever para este espaço, tendo algo para falar e uma disposição física razoável ao menos, aliada a um tempo disponível, acabou se tornando artigo raro. Mas eis que aqui estou, tentando ver se consigo escrever sobre um filme que tanto me encantou, ROSA LA ROSE, GAROTA DE PROGRAMA (1986), de Paul Vecchiali, um cineasta tão brilhante quanto marginalizado pelo nosso circuito, cultuado por um pequeno círculo de cinéfilos que tiveram a alegria de entrar em contato com sua obra.

Até então, do cineasta, eu só tinha visto É O AMOR (2015), que fora exibido numa única sessão numa das valiosas mostras retrospectativas do Cinema do Dragão. Ou seja, nem chegou a ter uma semana de exibição comercial. E acredito que nenhum de seus filmes anteriores tenha ganhado espaço em nosso circuito. Seus filmes são pequenos no quesito produção e pelo que vi no IMDB trata-se de um cineasta incansável, já tendo no currículo 57 títulos na direção, entre longas, curtas e produções televisivas. Recentemente, dentro de uma bolha da cinefilia brasileira, Vecchiali voltou a chamar a atenção quando ROSA LA ROSE... e também UMA VEZ MAIS (1988) apareceram em diversas listas de melhores filmes dos anos 1980. Então, antes tarde do que nunca o reconhecimento maior de sua obra.

É muito bom conhecer poéticas estranhas, totalmente novas e não só por isso fascinantes. Ao ver ROSA LA ROSE, GAROTA DE PROGRAMA abracei sua estranheza com muita animação. E animação é a palavra certa no primeiro terço do filme, em que vemos o universo de garotas de programa como um espaço de riso, leveza, alegria e muita gentileza, especialmente da parte de Rosa (Marianne Basler, apaixonante), a protagonista cheia de vida e encanto, que de tão linda, simpática, sorridente e feliz, não lhe faltam clientes. E essa primeira parte do filme culmina com o aniversário de Rosa, que parece saído de um filme de Josef von Sternberg, pela estilização adotada. 

Essa primeira parte também lembra FRENCH CAN CAN, de Jean Renoir, tanto pela alegria quanto pelo quanto dá uma espetada no falso moralismo. Mesmo assim, nem tudo são flores, pois há algo de agridoce na situação das profissionais do sexo nessa primeira parte, especialmente aquelas que estão há mais tempo na profissão e que agora se sentem rejeitadas pelos clientes, ainda mais tendo uma jovem tão bela e requisitada quanto Rosa competindo.

Mas eis que surge algo para tirar os pés de Rosa do chão, um homem por quem ela se vê apaixonada. E notamos essa diferença logo no momento em que os dois entram no ambiente privado do quarto. O amor aqui (ou a paixão, na verdade, sua forma mais enlouquecida e mais ligada ao sofrimento) é um elemento trágico, febril, desnorteador. Tanto que em pouco tempo vemos o filme de tornar um melodrama, com direito a citação a TARDE DEMAIS PARA ESQUECER, de Leo McCarey, com a diferença no tipo de dramaturgia: sai o realismo romântico de Hollywood e entra um tipo de atuação mais próxima do teatro, talvez. 

Com o surgimento da paixão, os pensamentos ficam nublados, obscurecidos, e a luz do sol do raiar do dia parece apenas um alento. Especialmente na cena perto do final, em que a personagem-título está na cama e pede para que abram a janela do quarto. O sol tem essa representação da alegria de viver que o filme apresentou tão bem no início. No mais, há uma cena de carnaval de rua com samba brasileiro que é linda. No entanto, é uma cena que já chega em um momento emocionalmente instável para Rosa. Eis o motivo de tantos de nós não estarmos dispostos a nos apaixonarmos. O cair do fall in love na língua inglesa é especialmente feliz ao retratar essa condição. 

+ DOIS FILMES

DEITE COMIGO (Lie with Me)

Confesso que o que me chamou a atenção para este filme foi a informação (não sei se totalmente verídica) de que as cenas de sexo são todas reais, embora não sejam explícitas. O curioso de DEITE COMIGO (2005), de Clement Virgo, é que engana um pouco ao ser apresentado como a jornada de uma jovem mulher pelo sexo insaciável. Acaba sendo uma história de amor, com alguns detalhes curiosos. Por exemplo, há a opção de não se falar em outra coisa nos diálogos a não ser o estar com a pessoa, o desejo, a saudade, a necessidade, a vontade de estar para sempre com ela. Até mesmo na subtrama dos pais da personagem feminina isso também se limita ao estar ou não com alguém. Por outro lado, o filme ganha com diálogos simples mas espontâneos, ganha com momentos de intimidade que passam uma liberdade com o corpo muito interessante. E curiosamente eu diria que um dos momentos mais fortes do filme é quando os personagens enfrentam a própria insatisfação amorosa e sexual. Detalhe presente em um dos cartazes de divulgação: uma comparação com 9 CANÇÕES, o musical erótico de Michael Winterbottom que fez um leve sucesso no cinema alternativo na época. Nem sei se faz sentido a comparação, mas para chamar a atenção, está valendo.

O SEGREDO DE MADELEINE COLLINS (Madeleine Collins)

Caso raro de atriz que se tornou "quente" no cinema internacional depois dos 40, Virginie Efira é tão bela quanto impressionantemente talentosa. O SEGREDO DE MADELEINE COLLINS (2021), de Antoine Barraud, foi o filme que ela fez logo após o impacto de BENEDETTA e explora ainda mais sua versatilidade. A princípio, achei que se tratasse de uma versão feminina de MONSIEUR VERDOUX (do Chaplin), mas a trama vai além do mostrar uma pessoa com vida dupla. No caso, começamos o filme vendo a personagem de Efira fazendo viagens constantes entre França e Suíça para duas famílias diferentes e estilos de vida diferentes, e vendo seu mundo desmoronar quando começa a não ter mais controle da situação de ser secretamente mãe e esposa de duas famílias. Aliás, a situação é bem mais complexa do que se imagina a princípio e Efira em certo momento lembra a Gena Rowlands em UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, de John Cassavetes, tal a entrega física e mental aos abismos de sua personagem. Uma das melhores interpretações que vi recentemente

quinta-feira, julho 28, 2022

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The Postman Always Rings Twice)



Os cineastas da Nova Hollywood estão indo embora aos poucos. Não faz muito tempo que Peter Bogdanovich se foi. Monte Hellman partiu em abril do ano passado. E neste sábado, dia 23, foi a vez da partida de Bob Rafelson. Que bom que os cineastas mais ativos ainda estão muito vivos e atuantes (Spielberg, Scorsese, Eastwood, Coppola, De Palma, Malick, Lynch, Schrader, Polanski, Allen), mas há que se concordar que o tempo não poupa ninguém. Enfim, é melhor não pensar muito nisso. O momento é de celebrar a vida e a obra de um dos mais importantes cineastas desse movimento de renovação do cinema americano, ele que chegou chutando portas com OS MONKEES ESTÃO SOLTOS (1968) e CADA UM VIVE COMO QUER (1970).

Na verdade, Rafelson nem é dos meus diretores favoritos desse “movimento”. Mas é possível que a maneira que eu via os seus filmes é que não estava sendo a correta. Na época do VHS eu vi vários filmes que acabei não me envolvendo e coloquei na categoria injusta do “não gostei". Mas os clássicos, pelo menos os clássicos, merecem sempre uma segunda chance. Por isso, aproveitei a passagem de Bob Rafelson para ver, desta vez pra valer, O DESTINO BATE À SUA PORTA (1981), agora preparado para o andamento mais lento das obras do cineasta, tido por muitos como um mestre da Nova Hollywood que trouxe um tom europeu para o cinema americano. E de fato isso faz sentido, por mais que tenhamos um roteiro de David Mamet a partir de um romance de James M. Cain, e com um casal de protagonistas bem americanos.

Embora esse movimento para o neo noir tenha começado lá nos anos 1970 – lembramos logo de CHINATOWN, de Roman Polanski –, eu destacaria três exemplares da primeira metade dos anos 1980 como os que mais trazem características da fase áurea do subgênero (anos 1940 e 50) para o momento então presente. Falo de CORPOS ARDENTES, de Lawrence Kasdan, GOSTO DE SANGUE, dos irmãos Coen, e deste O DESTINO BATE À SUA PORTA, refilmagem de O DESTINO BATE À PORTA, de 1946, dirigido por Tay Garnett e estrelado por Lana Turner e John Garfield. Infelizmente não vi a versão de 46, isso fica para o futuro (próximo?), mas creio não ser preciso para apreciar esta atualização mais apimentada para uma época em que o cinema americano trazia mais cenas picantes. De certo modo, Hollywood estava ainda bem atrás do cinema europeu (e do brasileiro) nesse quesito, mas trata-se de um movimento bem-vindo e que certamente chamou a atenção de um público maior. Aliás, a presença de Jessica Lange, em si, pode ter sido um chamariz, levando em consideração que sua estreia no KING KONG de 1976 já trazia um teor apelativo para a sensualidade da atriz.

Na trama de O DESTINO BATE À SUA PORTA, Jack Nicholson é Frank, um homem que claramente não é dos mais honestos ou confiáveis. Sua chegada a um restaurante de beira de estrada já denota sua vontade de tirar vantagem. Ainda não sabemos de seu passado, mas podemos inquirir um pouco. Ele é bem recebido por Nick, o dono do restaurante, um grego vivido por John Colicos, e fica de olho na bela esposa do sujeito, Cora, vivida por Jessica Lange. Não demora muito para que Frank se aproxime de Cora, e isso surge de maneira até bastante agressiva (para os padrões de hoje). A primeira e famosa cena de sexo na mesa de cozinha cheia de massa de trigo, ganha força principalmente pela entrega e pela vontade de Cora. Um destaque da cena, do ponto de vista da evolução do sexo no cinema, é a maior ênfase (e tempo) na mão de Frank nas partes íntimas de Cora.

Ainda assim, eu diria que o forte do filme não é o sexo, embora ele seja fundamental para que certas coisas que eram impossíveis de ser mostradas no cinema da Velha Hollywood por causa do Código Hays passassem a ser possíveis, mas toda a situação que surge a partir do momento em que Cora deseja que o marido morra para que ela se livre de um relacionamento que ela atura com esforço e fique apenas com Frank. O que me deixa surpreso é que a primeira tentativa inicial de matarem Nick fica quase toda por conta de Cora. 

Por mais que Jack Nicholson seja brilhante, achei incrível o quanto Jessica Lange se agiganta a cada momento em cena. Como um exemplar do chamado neo-noir, este filme até que se distancia um pouco do que se espera dos destinos fatídicos desse subgênero, especialmente em seu terceiro ato. No fim das contas, trata-se de um filme de amor, por mais torto que seja esse amor. É impressionante o quanto torcemos pelo casal de criminosos e assassinos, pois o coitado do grego não era nenhuma presença maligna ou coisa do tipo.

Além do mais, vemos o quanto a vontade de Frank de agradar e de ficar com Cora até o fim é legítima e o mais próximo possível de um sentimento puro, por mais absurdo que isso seja. Por isso chega a ser doloroso o destino dos dois, que ocorre quase como se fosse uma obrigação do diretor e do roteirista para a sociedade. Afinal, seria amoral um final feliz para eles. Ainda assim, o casal foi feliz por um bom tempo, e isso é como uma espécie de prêmio para os anti-heróis.

Fechando o texto, não posso deixar de destacar a fotografia do lendário Sven Nykvist, também conhecido como o diretor de fotografia do Bergman, e que chegou a trabalhar com Woody Allen também em vários filmes.

P.S.: Uma quase coincidência: cerca de um ano atrás eu revi um outro filme de Rafelson, uma obra um pouco mais comercial mas que me agrada muito, o thriller O MISTÉRIO DA VIÚVA-NEGRA (1987).

+ DOIS FILMES

À MARGEM DA VIDA (Caged)

Quando a Warner vende o filme em seu trailer já levanta uma preocupação que ainda hoje é discutida: a situação das mulheres que entram na prisão como réus primárias e cujo novo ambiente funciona como uma verdadeira escola do crime. Não exatamente por serem persuadidas, mas às vezes por revolta com o sistema. É o que está prestes a acontecer com Marie Allen (Eleanor Parker), que entra na prisão como cúmplice de um assalto seguido de morte efetuado pelo marido. À MARGEM DA VIDA (1950), de John Cromwell, traz um contraponto forte à docilidade de Marie, que é a personagem de Hope Emerson, a mais cruel das responsáveis pela disciplina das detentas. Misto de film noir, melodrama prisional e filme de gângster, esta produção funciona tanto como uma obra a ser estudada para fins políticos e sociológicos, quanto como mais um exemplar do pessimismo de seu tempo e do ótimo duelo de personagens femininas. Título presente no box Filme Noir vol. 11.

PAIXÃO SELVAGEM (Canyon Passage)

Lindíssimo exemplar do western romântico, e que permanece encantando e impressionando, passados quase 80 anos de seu lançamento. Jacques Tourneur vinha do sucesso de seus filmes de horror para Val Lewton, mas já estava fazendo uma transição para outro tipo de cinema quando estreou em PAIXÃO SELVAGEM (1946), este western a cores que conta a história de um homem de negócios (Dana Andrews) dividido entre o amor de duas mulheres (Susan Hayward e Patricia Roc) e tentando livrar o amigo problemático e viciado em jogo (Brian Donlevy). Enquanto isso, ele é perseguido por um desafeto que tenta tirar sua vida algumas vezes e que rende uma das melhores cenas de briga em saloon que já vi. Fiquei impressionado como uma certa cena de beijo me deixou desconcertado, talvez por ser um filme dos anos 1940: trata-se da cena em que Susan Hayward permite ser beijada por Andrews na frente do namorado dela. Me pareceu tão "moderno". No mais, há toda aquela atmosfera que o filme apresenta muito bem do perigo de se estar próximo dos índios e do quanto a trégua pode acabar, bastando um gesto errado de uma das partes. Gosto muito do herói de Andrews, que carrega um sorriso de confiança o tempo todo, mas sem parecer desinteressado nas pessoas que lhe são caras. Grande filme! Título presente no box Cinema Faroeste (primeiro volume). 

domingo, julho 24, 2022

HARAKIRI (Seppuku)



Eu podia estar na praia pegando uma corzinha – esse aspecto de vampiro que não se alimenta de sangue há tempos já está me incomodando –, mas aqui estou eu, na sombra, tentando fazer algo que me dá muito prazer, que é deixar registradas minhas impressões sobre um filme de que gostuei muito. Atualmente estou fazendo um curso muito bom sobre cinema samurai, que está me dando um empurrãozinho para conhecer certos filmes que até então eu não havia me entusiasmado a ver, ou sequer tinha ouvido falar, na verdade. E mal sabia eu o quanto estava perdendo, especialmente quando vi o glorioso HARAKIRI (1962), de Masaki Kobayashi.

Ao ver esta obra imensa eu fiquei até um tanto revoltado com o fato de esse filme permanecer apenas dentro de um nicho ao invés de estar presente nos cânones mais populares, em todas as listas de melhores obras cinematográficas de todos os tempos. É possivelmente o melhor filme sobre samurais já realizado, assim como um primor na construção plástica, que impressiona logo de início, valorizando cada elemento de cena na janela scope em preto e branco, e muitas vezes parecendo uma verdadeira pintura em movimento, especialmente em uma das cenas de duelo de espada ao ar livre. Além do mais, há também um dos melhores usos de flashback da história do cinema, rivalizando com obras como CIDADÃO KANE, de Orson Welles, e ASSIM ESTAVA ESCRITO, de Vincente Minnelli.

E como a construção de flashback é um mérito tanto da direção, quanto do roteiro e da montagem, vale lembrar que o roteirista de HARAKIRI é Shinobu Hashimoto, que trabalhou com Akira Kurosawa em RASHOMON (1950), VIVER (1952), OS SETE SAMURAIS (1954), ANATOMIA DO MEDO (1955) e A FORTALEZA ESCONDIDA (1958). Inclusive, dois filmes roteirizados por ele estão no meu radar para ver ainda nesta semana: A ESPADA DA MALDIÇÃO (1966), de Kihachi Okamoto, e REBELIÃO (1967), novamente do mestre Masaki Kobayashi.

Acho interessante perceber que entre HARAKIRI e REBELIÃO, Kobayashi havia realizado um filme de horror bastante festejado, KWAIDAN – AS QUATRO FACES DO MEDO (1964), e vejo isso como uma ligação muito natural, se pensarmos no horror e no maravilhamento que HARAKIRI produz. Afinal, o seu revolucionário filme anti-samurai consegue ser também um filme de horror, especialmente quando conta a tragédia do jovem samurai empobrecido, que é obrigado a cometer seppuku com uma espada de bambu. Tal cena é de uma crueldade tão grande, que eu não consigo sequer lembrar de outro caso parecido em filme algum. Inclusive, há relatos de pessoas que saíram da sala de cinema por não aguentar ver tal cena. 

A história intrincada e muito envolvente começa quando o protagonista Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai) adentra aquele espaço luxuoso do clã que centraliza a riqueza da região com a proposta de administrar um seppuku. Dentro desse lugar, ele ouvirá a história de um jovem samurai pobre que também aparecera lá com a mesma proposta, e depois ele mesmo será o responsável por dominar a arte da narrativa, contando uma história que terá não apenas uma ligação com a anterior, mas que trará uma série de reviravoltas e surpresas para o espectador e para todos aqueles samurais de alto poder aquisitivo.

Além da própria linha da trama, que vai sendo tecida sem pressa e cheia de suspense, Tsugumo, o protagonista, e o próprio Kobayashi em sua proposta de revitalização e desconstrução das velhas tradições, derruba as máscaras da hipocrisia das tradições, chegando a dizer que o código de honra do bushido é uma farsa. Imagino que isso deve ter deixado certos grupos mais conservadores do Japão bem incomodados. Além disso, o filme ainda deixa escancarada a questão de que a história é contada pelos vencedores, que adulteram os fatos e trazem a glória para si mesmos.

Nada como os anos 1960, essa década fantástica que trouxe a contracultura para o nível mais elevado, para que filmes como HARAKIRI pudessem ser criados e vistos. Claro que nada disso seria possível se o Japão vencesse a guerra e o militarismo autoritário ainda imperasse no país e possivelmente no mundo. O pós-guerra, portanto, possibilitou que as artes alçassem voos inimagináveis, inclusive com o surgimento dos novos cinemas de tendência mais esquerdista em praticamente todo o globo.

+ DOIS FILMES

HUMANIDADE E BALÕES DE PAPEL (Ninjô Kami Fûsen)

O cinema japonês na década de 1930 já era um dos melhores do mundo. Basta lembrarmos que nesse período Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi já faziam grandes obras. Não conhecia nem de ouvir falar o trabalho de Sadao Yamanaka e estou entrando em contato por ocasião do curso sobre cinema samurai. Fiquei bem curioso para conhecer pelo menos um dos trabalhos desse que é conhecido como o Jean Vigo do Japão – por ser da década de 1930 e por ter morrido bem jovem (no caso dele, aos 28 anos de idade, na guerra contra a China). HUMANIDADE E BALÕES DE PAPEL (1937), de Sadao Yamanaka, traz uma história bem melancólica. Os dois personagens principais são um ronin precisando de trabalho e seu vizinho, um cabeleireiro que tenta a sorte em mesas de apostas. A história se passa num espaço bem pobre de Edo, que é como era chamada Tóquio nessa época (séc. XVIII). O filme já começa com a descoberta do corpo de um homem que cometera suicídio. Pela conversa dos vizinhos, ficamos sabendo que aquele não é um caso isolado. Pelo modo como termina o filme, passamos a compreender um pouco as questões envolvendo um tipo de honra muito particular da sociedade japonesa. O personagem do ronin é um dos mais honrados da história, mas justamente por causa dessa honra, ele mente para a esposa, provavelmente por sentir-se humilhado, já que não consegue ter uma conversa com o senhorio que fora o mestre de seu falecido pai. A situação do sequestro de uma moça, no terço final, torna a trama mais tensa e mais desesperançada. Filme presente no box Cinema Samurai 3.

OS HOMENS QUE PISARAM NA CAUDA DO TIGRE (Tora no O wo Fumu Otokotachi)

O fato de ter apenas 59 minutos de duração não deixa de ser um convite para que possamos ver este que é um dos primeiros filmes dirigidos por Akira Kurosawa, e que acabou demorando para ser lançado no Japão, pois os americanos suspeitavam se tratar de uma homenagem ao espírito de lealdade ao Japão feudal. De certa forma, pode ser mesmo, tanto que OS HOMENS QUE PISARAM NA CAUDA DO TIGRE (1945/1952) foi um filme de encomenda do governo japonês, mas há dúvidas que até hoje ficam no ar, como a figura do capitão do acampamento que estava ali para impedir que os samurais disfarçados de monges passassem. A cena mais lenta do filme é a mais interessante, que é a da tentativa do líder dos samurais de persuadir os seus inimigos de que eles seriam autênticos monges budistas. A figura do carregador desajeitado transforma o filme numa comédia, com frequência. Ele é como uma versão japonesa do Jerry Lewis. E também é talvez o que mais se aproxima do espectador médio. Gosto de imaginar que o "prêmio" que os samurais receberam veio mais de sua performance artística do que do fato de eles mentirem bem. Pode ser a mesma coisa: talento é para quem tem. Filme visto no box Cinema Samurai 3.

quinta-feira, julho 21, 2022

O ACONTECIMENTO (L'Événement)



Eu me lembro de quando, criança, estava com minha mãe na sala da minha casa. Na época, havia apenas um pequeno muro na fachada e um portão que se abria sem a necessidade de ter um cadeado ou algo parecido. Eram tempos mais seguros. Mas falo isso apenas para localizar o tempo e o momento, que me marcou bastante, a ponto de ficar em minha lembrança, mesmo tendo eu apenas sete ou oito anos de idade. Chegou uma pessoa da família para dar uma notícia. A notícia de que minha tia, uma das irmãs da minha mãe, havia morrido. Na época, eu não soube o motivo. Mas lembro de minha mãe correndo para a cozinha para chorar. 

Anos depois, já adulto, conversando com minha mãe, ela me contou que quando engravidou de minha irmã número dois, essa mesma tia também havia engravidado, mas que havia contado que tiraria o feto. Infelizmente, ela não sobreviveu ao procedimento. Na verdade, não sei qual foi o procedimento: se em um lugar onde se fazia o aborto de maneira clandestina ou se foi alguma outra técnica também desaconselhada. O fato é que o aborto é uma questão de saúde pública e minha tia não teria morrido se houvesse clínicas legalizadas, com médicos de verdade atendendo. Claro que alguém vai dizer que ela morreu pois optou pelo aborto, provavelmente sabendo dos riscos, mas há também a questão de poder ter o controle do próprio corpo.

Por incrível que pareça, mesmo estando em 2022, o tema do aborto voltou a ser ainda mais tabu do que há vinte anos. Nos Estados Unidos, com a Suprema Corte revogando o direito ao aborto conseguido em 1973, o caminho para que o mundo dito livre chegue novamente à criminalização volta a ser a tendência. Enquanto isso, grupos progressistas vêm lutando para que o direito das mulheres ao controle do próprio corpo seja conquistado. A Argentina, por exemplo, legalizou o aborto em até a semana 14 da gestação em 2020.

O ACONTECIMENTO (2021), vencedor do Leão de Ouro em Veneza, chega como uma obra que é muito bem-vinda para trazer à tona a discussão. Trata-se de mais um título a se juntar aos já ótimos exemplares sobre o assunto. Depois de sofrermos em filmes como 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, de Cristian Mungiu, e NUNCA, RARAMENTE, ÀS VEZES, SEMPRE, de Eliza Hittman, recebemos outra pedrada. E vemos que a premiação em Veneza não se deveu apenas à relevância do filme, mas principalmente às inúmeras qualidades dessa obra de impacto.

Optando por uma janela mais "apertada" para os padrões atuais (1,37:1), com uma trilha sonora bem discreta (o silêncio predomina) e frequente uso da câmera na mão, Audrey Diwan nos leva ao inferno da vida da jovem Anne (Anamaria Vartolomei, excelente), que descobre que está grávida e tem muita dificuldade em conseguir fazer o aborto, na França de 1963.

A história acontece dentro de um campus universitário. A princípio, não chegamos a conhecer o pai biológico da criança e isso é um detalhe importante. Ao descobrir que está grávida, Anne opta por não contar nada a ele. Afinal, o que eles tiveram foi uma noite de sexo sem compromisso. Por isso, ela primeiramente prefere procurar médicos que possam ajudá-la. Em vez disso, um dos médicos opta dificulta ainda mais a tentativa de um procedimento forçado.

Desesperada, e sem querer prejudicar sua carreira nos estudos e o seu futuro profissional – ela é estudante de letras –, Anne procura caminhos bem pouco recomendados para encerrar, dolorosamente, sua situação. Procurando em livros de medicina na biblioteca e tendo que se virar sozinha com um objeto pontiagudo perfurando seu útero, cada momento é um tormento também para o espectador. E quando achamos que a situação não pode piorar, o filme chega a querer nos fazer virar o rosto. Tensão, desespero, tristeza, indignação, muitos sentimentos surgem ao longo da metragem de O ACONTECIMENTO. 

Antes deste seu longa-metragem aclamado, a cineasta Audrey Diwan havia dirigido apenas um filme em sua curta carreira de diretora até o momento, o inédito no Brasil MAIS VOUS ÊTES FOUS (2019), que já fiquei bastante curioso para conferir. Quanto à França, mesmo com a fama de ser um país moderno e progressista, percebemos mais uma vez que quando o progresso é para ser em benefício da mulher, as coisas são bem mais difíceis de acontecer. 

+ DOIS FILMES

KOMPROMAT

Que beleza de surpresa este drama tenso e cheio de suspense sobre diretor da Aliança Francesa na Rússia que é preso, acusado de abusar da própria filha e de pornografia infantil na internet. KOMPROMAT (2022), de Jérôme Salle, tem uma bela estrutura de idas e vindas no tempo que funciona para não quebrar o ritmo da trama principal, já que os flashbacks são pontuais a fim de sabermos determinados motivos (mesmo que não sejam exatamente motivos) que possivelmente tenham levado a sua prisão. A história fica melhor ainda quando o protagonista (Gilles Lellouche) recebe liberdade condicional, o que só torna o filme ainda mais tenso. Há ótimas cenas de perseguição, diálogos certeiros e básicos para um thriller, produção caprichada e um herói construído a partir da luta pela sobrevivência. No mais, fiquei com aquela vontade de nunca pisar na Rússia, de tanto medo que o filme me fez ter daquele ambiente hostil (pessoas frias e pouco simpáticas, tempo gelado, alfabeto diferente). Até a moça que tem um papel de ajudar o protagonista, a gente demora a confiar. Aliás, ótima personagem, vivida por Joanna Kulig, lembrada pelo ótimo GUERRA FRIA, de Pawel Pawlikowski.

O MUNDO DE ONTEM (Le Monde d'Hier)

Não consegui me envolver com este drama político, apesar de trazer muitas conexões e preocupações com o momento atual, com vários países flertando com a extrema direita em um cenário global que cada vez lembra o dos anos 1930 na Europa. Em O MUNDO DE ONTEM (2022), de Diastème, temos a história de uma presidenta que, em seus últimos dias no cargo e prestes a passar o bastão para seu sucessor, se vê obrigada a tomar uma difícil decisão relativa ao destino da França. A opção de Diastème, homem de carreira mista, como jornalista, crítico de cinema, dramaturgo e músico, é de cenas que se passam sempre em espaços fechados. Mesmo quando ações mais intensas ocorrem, elas só nos são ditas através de mensagens, conversas etc. A atriz, Léa Drucker, é a mesma do ótimo e tenso CUSTÓDIA, de Xavier Legrand, presente em uma outra edição da Mostra Varilux de Cinema Francês. Aqui, de modo a manter o tom do cargo, ela faz uma personagem de emoções mais contidas.

terça-feira, julho 19, 2022

O TELEFONE PRETO (The Black Phone)



Um dos filmes mais interessantes e bem-vindos do ano, especialmente para quem gosta do gênero, é O TELEFONE PRETO (2021), muito provavelmente o melhor filme dirigido por Scott Derrickson – mais até do que O EXORCISMO DE EMILY ROSE (2005), um de seus trabalhos mais festejados. Um dos grandes méritos deste novo trabalho é conseguir unir o terror da vida real com o sobrenatural. São poucos os filmes que conseguem ou mesmo que procuram fazer essa união. Um dos que eu lembro com carinho é A ENTIDADE 2 – não o primeiro, curiosamente dirigido pelo Derrickson –, mas o segundo, que trata de violência doméstica de maneira forte, para em seguida ainda colocar a heroína sofrendo em uma casa amaldiçoada. Uma pena que este segundo filme, dirigido por Ciarán Foy, seja pouco lembrado.

Pois bem, voltando aO TELEFONE PRETO. O filme, já no início, nos mostra que o terror pode vir (e vem com muita frequência, infelizmente) de situações do cotidiano: seja o pai alcoólatra agressivo, seja o bullying e a violência dos meninos na escola. Tudo isso é violência física e psicológica. O filme trazer essa ambientação logo de cara, apresentando uma briga de crianças como algo sangrento e assustador, e crianças sendo desacreditadas e agredidas pelo pai, é um elemento que traz as bases para que a trama principal se torne forte o suficiente.

A direção de fotografia é um dos destaques, nos levando para o final dos anos 1970, com citações a O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e OPERAÇÃO DRAGÃO, sucessos da década. A bela fotografia granulada ficou a cargo de Brett Jutkiewicz, responsável pelos filmes CASAMENTO SANGRENTO e PÂNICO. Mas o que mais chama a atenção mesmo é a dupla de jovens personagens/atores, o garoto Finney (Mason Thames) e sua irmã caçula Gwen (Madeleine McGraw). O fato de o menino se sentir fragilizado diante de tudo que está a seu redor, inclusive o ataque dos meninos intimidadores, traz um elo de identificação com boa parte dos espectadores. Para o garoto, há algo de paralisante na violência. Ele não consegue, por exemplo, reagir quando o pai está batendo na irmã, em cena bastante incômoda.

Além de tudo, o medo começa a ficar mais intenso naquela pequena cidade comum americana, com aspecto que lembra HALLOWEEN – A NOITE DO TERROR quando crianças conhecidas de Finney desaparecem. E apenas a pequena Gwen talvez possa ajudar, já que ela vem tendo sonhos sobre esse sequestrador e suas vítimas. O dom da garota também aparece com sua fé e sua comunicação desesperada com Deus. Ela tem um pequeno altar, escondido do pai, onde faz suas orações. 

Baseado em um conto escrito por Joe Hill, o mesmo autor dos quadrinhos de sucesso que deram origem à série da Netflix LOCKE & KEY, percebe-se um elemento comum entre as duas obras, que é o carinho entre os dois irmãos. Ambas as obras também contém fortes elementos sobrenaturais, mas O TELEFONE PRETO prefere usar o sobrenatural como um auxílio para o jovem protagonista, e não como um horror a somar. Quando ele se encontra sozinho em um porão, depois de ter sido sequestrado pelo personagem de Ethan Hawke, a única ajuda que ele tem é vinda desse contato com os espíritos dos amigos mortos, e que àquela altura já estavam se esquecendo de suas identidades quando vivos.

Sobre o personagem de Hawke, ele aparece pouco, mas sua presença é forte o suficiente, trazendo certa ambiguidade no que se refere à maldade. Em certo momento ele parece simpatizar com o garoto, mas isso só torna a relação entre os dois ainda mais incomoda. Há uma máscara que ele usa e que é montável e que contribui com essas mudanças que o personagem demonstra. O fato de o filme não contar nada de suas origens é mais positivo do que negativo.

O que pode trazer também um sentimento ambíguo para o espectador é o quanto a violência, que até então era vista como algo odioso e ramificado na sociedade americana, se transforma na única arma possível para derrotar o inimigo. Por isso ela é abraçada, uma vez que essa mesma violência vem de um sentimento de catarse, de vontade de libertação, potencializada com o emotivo abraço final dos dois irmãos e o pedido de desculpas do pai, seguido de um perdão que pode ficar para depois. Bem depois.

+ DOIS FILMES

A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS (April Fool's Day)

O legal de A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS (1986) é que o filme traz a questão das pegadinhas do 1o. de abril para o próprio gênero. Por outro lado, pode frustrar as expectativas de quem quer ver um autêntico slasher, já que as supostas mortes que surgem não tem um mínimo de gore - o que é compreensível para a proposta. A diversão fica por conta, em boa parte da metragem, das brincadeiras e dos atritos que surgem entre a turma de colegas de escola que passam alguns dias em uma casa afastada, numa ilha. A anfitriã prepara uma série de pegadinhas logo de início, muito caprichadas, mas a coisa começa a ficar preocupante quando um deles desaparece. E depois outro. O filme é leve. Algo como um quase slasher para a família, com pouco sexo e pouca violência. O diretor, Fred Walton, havia feito um baita filme em 1979, QUANDO UM ESTRANHO CHAMA aka MENSAGEIRO DA MORTE, que acredito ser a melhor coisa que fez em sua carreira. Nos extras do box Slashers VII há uma entrevista dele de mais de 40 minutos.

A GAROTA DA FOTO (Girl in the Picture)

Não tenho o hábito de ver esses documentários de true crime e por isso não tenho como saber quais deles se distinguem pela excelência. Lembro de DEAR ZACHARY – UM CASO CHOCANTE, que é um troço pesado demais para rever, mas talvez esse seja um caso à parte. Este A GAROTA DA FOTO (2022), de Skye Borgman, tem chamado a atenção e tendo em vista o hype criado e os elogios dos amigos, lá fui eu ver. Até porque também gosto de histórias de mistério e crime - mais de mistério do que de crime. E o caso da jovem mulher de 20 anos que é encontrada à beira da morte na estrada se desenrola para situações tão bizarras que não há como não ficar impressionado com o quanto a vida real consegue ultrapassar a ficção. Li uma crítica comparando a curta vida da garota com a de Laura Palmer, de TWIN PEAKS, e acho sim que tem tudo a ver. E com um toque de realismo ainda mais pungente, sem termos o conforto de saber que a alma da moça será recebida em paz do outro lado. E é difícil também conter a raiva e a indignação dos atos terríveis do psicopata da história. Um filme para nos deixar refletindo sobre o quão terrível este mundo pode ser, principalmente para as mulheres.

domingo, julho 17, 2022

SCARFACE



No ano passado, comecei minha peregrinação pela obra de Brian De Palma. E estava indo tudo muito bem, quando começaram as aulas presenciais, meu tempo disponível diminuiu e o filme seguinte para revisão era SCARFACE (1983), que eu tinha visto dez anos atrás no DVD duplo da Universal. O último De Palma que havia visto, a obra-prima UM TIRO NA NOITE (1981), foi em outubro. Ou seja, eu cheguei a interromper o que estava indo muito bem, com direito à leitura do ótimo De Palma’s Split-Screen, de Douglas Keesey, por uma cisma com uma obra que é tida por muitos como um dos melhores trabalhos do realizador.

O filme mais cheio de excessos de Brian De Palma tem momentos brilhantes, mas segue sendo aquela obra que, ao contrário de tantas outras do realizador, não me deixa com um sorriso no rosto durante sua metragem. De todo modo, há razões para isso, já que o que temos é a tragédia de um homem com pinta de psicopata em sua escalada para um império do tráfico de cocaína em Miami, no início dos anos 1980. Há muito de Oliver Stone, o autor do roteiro, e talvez isso tenha prejudicado um pouco para mim, que senti falta da mão do De Palma mais virtuoso e maneirista.

O esqueleto do SCARFACE de 1932 está presente principalmente na relação de ciúme doentio de Tony Montana com a irmã mais nova. Al Pacino está vários tons acima em sua versão mais cheirada de um Michael Corleone. Falo isso reconhecendo a grandeza do ator, que se entrega ao personagem de tal forma que por vezes esquecemos que é o Pacino que está ali, mais bruto, mais inconsequente, mais sanguinário. Há uma cena que muito me lembrou um momento de DUBLÊ DE CORPO (1984), que é a cena da motoserra, já no começo do filme. No mais, a própria abundância da produção (inclusive em sua duração) é coerente com a imagem de seu anti-herói.

Um dos motivos para De Palma sair um pouco de suas obras mais pessoais foi estar cansado de mostrar tanto de si em seus filmes. Ele chegou a dizer em entrevista para a revista Mr. Showbizz: “Você fica cansado de suas próprias obsessões, das traições, do voyeurismo, da sexualidade distorcida. Eu fiz um monte de filmes como esses, então você fica feliz em sair disso com esses gângsteres cubanos. Te dá um pouco de alívio.” Mas havia um outro motivo para a mudança brusca de UM TIRO NA NOITE para SCARFACE: o fracasso comercial do anterior.

O que é uma pena, pois quando vemos os filmes em ordem (ou mesmo fora de ordem), sem saber se houve um sucesso ou fracasso comercial, o que mais importa é o sucesso artístico. E isso eu vejo muito mais em UM TIRO NA NOITE e nas obras mais hitchcockianas que tanta gente pegou no pé, chamando o diretor de plageador ou coisa parecida. Então, um tanto frustrado, De Palma estava disposto a fazer um filme pelo dinheiro. Tanto que ele quase chegou a dirigir FLASHDANCE!

Ainda assim, e apesar do roteiro ter sido escrito por Stone, há muito de Brian De Palma em SCARFACE. Inclusive há pano para manga para o chamarem novamente de misógino. Michelle Pfeiffer se sentiu muito mal durante as filmagens, pois, de propósito, De Palma a deixava de lado, para que ela construísse uma personagem fragilizada e hostilizada em um mundo de homens grosseiros. De certa forma, funcionou muito no resultado, embora hoje em dia esse tipo de recurso seja considerado desumano. A frieza do diretor diante da atriz era percebida por todos no set.

A relação de Tony Montana (Pacino) com Elvira (Pfeiffer) na trama, mesmo quando ele a toma para si, depois de matar o ex-chefe (Robert Loggia), é bastante dessexualizada. Mas isso é natural quando se tem um homem que só quer saber do dinheiro que ganha com as drogas, da cocaína que consome aos quilos, e dos inimigos que o cercam por todos os lados, sejam eles traficantes rivais, a polícia ou os colombianos. Por isso a cena em que Elvira reclama do marido na frente do amigo Manny (Steven Bauer) é bem representativa dessa situação. E também uma das melhores cenas de Pfeiffer, que se defende dos maus tratos cotidianos de maneira também agressiva.

Coincidência ou não, à medida que o casamento de Montana e Elvira se desintegrava, o casamento de Brian De Palma com Nancy Allen também desmoronava. Eles já estavam divorciados na época do lançamento de SCARFACE nos cinemas. O que é uma pena, pois adoro a Nancy nos quatro filmes que ela fez com o diretor.

Sobre relações De Palma/Hitchcock, uma cena que costuma trazer uma obra de Hitchcock à tona é a cena da bomba no carro. Ao contrário da bomba que explode em SABOTAGEM, do mestre do suspense, De Palma faz aquilo que Hitchcock se arrependeu de ter feito e traz um senso de moral para Montana, que impede que um carro com uma mulher e uma criança seja explodido. Em vez disso, ele prefere atirar no colombiano e prejudicar a si e a seus negócios.

No fim das contas, SCARFACE não foi o sucesso pretendido por De Palma e pelo estúdio. E nem pela crítica, durante um bom tempo. Até Pauline Kael, fã do De Palma, meio que massacrou o filme. SCARFACE começou a ter um sucesso maior nas videolocadoras e hoje em dia também é visto como uma obra de referência e culto. No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, SCARFACE é um dos três títulos do realizador que é incluído, junto com CARRIE, A ESTRANHA (1976) e OS INTOCÁVEIS (1987). 

+ DOIS FILMES

QUEM MATOU ROSEMARY? (The Prowler)

É interessante começar a ver um número maior de slashers e perceber qualidades que talvez não perceberíamos com olhos menos treinados. Este QUEM MATOU ROSEMARY?(1981) tem uma seriedade e uma atmosfera que o tornam mais interessante e mais valioso do que a maioria dos exemplares. Além do mais, os efeitos especiais super-realistas de Tom Savini fazem uma diferença enorme nas cenas das mortes, no seu caráter mais gráfico - a cena da piscina é impressionante. No mais, não me atraiu tanto a figura do assassino, a não ser pelo visual. A história dele me pareceu frouxa (a não ser que tenha algum simbolismo trazido da Guerra do Vietnã), sendo mais uma desculpa para a criação de maníaco desconhecido que vem atacando a cidadezinha durante a festa de graduação de uma turma de estudantes. O diretor, Joseph Zito, é mais conhecido por filmes como SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 4: O CAPÍTULO FINAL (1984), BRADDOCK – O SUPER-COMANDO (1984) e INVASÃO U.S.A. (1985). QUEM MATOU ROSEMARY? está presente no box Slashers VI.

SANGUE NA LUA (Blood on the Moon)

Com o meu interesse de ver mais westerns categorizados como noir, chego a este belo exemplar dirigido por um dos artesãos mais celebrados de Hollywood. Robert Wise, na época, fazia tanto filmes de terror, suspense, quanto westerns e policiais. SANGUE NA LUA (1948) pega um pouco desta salada de gênero que fazia parte do espírito da época, tem o charme de Robert Mitchum, uma mocinha encantadora (Barbara Bel Geddes), um antagonista muito bom (Robert Preston) e uma trama inicialmente complicada envolvendo uma rixa entre fazendeiros e rancheiros, sendo que o grupo dos rancheiros estava sendo chefiada por um sujeito inescrupuloso disposto a matar, roubar e até usar a filha do fazendeiro para trair o pai. Há uma cena em especial, da luta entre Mitchum e Preston no bar, que é bem sombria, mas o melhor momento fica no final, quando o vilão e mais dois homens cercam a casa do personagem de Walter Brennan. Aliás, difícil não ligar isso a ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks, não só pela presença de Brennan, mas também pelas circunstâncias. O "quentinho no coração" se dá pelo romance do casal principal. Outros dois momentos fortes do filme envolvem estouros de boiadas, justo no mesmo ano em que RIO VERMELHO, também do Hawks, foi lançado, trazendo o mais famoso estouro de boiada da história do cinema. Coincidência ou algo recorrente no gênero? Filme visto no box Filme Noir - Robert Mitchum.