Ando novamente encantado com o cinema de Abbas Kiarostami. Eu diria que nunca estive tão encantado. Ver CLOSE-UP (1990) pela primeira vez e depois rever ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987) foi muito revelador do quanto o mais célebre dos diretores iranianos traz de poesia, de humanidade (no sentido humanista da palavra) e de manifestação de beleza nas coisas simples da vida. Por mais que E A VIDA CONTINUA (1992) faça parte da trilogia formada pelo filme de 87 e ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS (1994), a chamada Trilogia Kocher, ter feito CLOSE-UP no meio pode ter feito com que o realizador quisesse mais uma vez fazer uma brincadeira metalinguística a partir da realidade.
E aqui a realidade é cruel: em 1990 um terremoto matou cerca de 50.000 pessoas no Irã. O terremoto aconteceu no mesmo dia (e hora?) do jogo Brasil x Escócia, durante a Copa do Mundo daquele ano. Essa informação pode parecer irrelevante diante da tragédia, mas não é, já que é parte importante do filme. Em meio aos escombros e ainda prateando os mortos, alguns iranianos de localidades mais rurais buscam fixar uma antena para assistirem a Brasil x Argentina, um dos jogos mais esperados do campeonato.
Antes de ver o filme, eu achava que era o próprio Kiarostami, como Jafar Panahi costuma fazer em seus filmes, que interpretava o protagonista, o cineasta. Aqui temos um ator interpretando o realizador de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? na localidade onde moram os pequenos heróis do filme. O cineasta temia que o protagonista de seu filme tivesse morrido. Pelo que li na sinopse de E A VIDA CONTINUA no IMDb, Kiarostami fez mesmo essa viagem com o filho pequeno em 1990 com essa mesma finalidade, e que alguém na Alemanha sugeriu que ele transformasse essa jornada num filme. Que bom que alguém deu essa sugestão a ele.
É incrível como o realizador tem a capacidade de transformar a geografia do lugar em poesia visual. Parecido com o zigue-zague da cena do filme da criança que busca o colega para devolver o caderno, aqui há uma imagem semelhante, e ainda mais bela, numa escala maior. Fiquei com o coração na mão na cena do carro subindo uma estrada muito íngreme, como se fosse alguém tentando escalar uma montanha. A imagem é distante, e imagino que ver o filme numa telona deve ser ainda mais incrível, mas na telinha aquela cena me ganhou, tanto pela beleza das imagens, que parecem pinturas, quanto pelo grau de apreensão que nos provoca.
No filme há um casal de recém-casados que serão muito importantes em ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS. No filme de 1992, eles são marcantes, ainda que o tempo de tela deles seja pequeno. Os jovens resolveram se casar no dia seguinte ao terremoto. Ou seja, por mais que possa parecer estranho, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Afinal, se a vida é um gás, que pode acabar para milhares de pessoas numa única noite, por que não materializar logo um sonho enquanto há vida?
Enquanto estou vendo esses filmes do diretor, tenho lido aos poucos o livro Caminhos de Kiarostami, de Jean-Claude Bernadet, que há tempos tenho e só agora resolvi lê-lo num misto de acompanhamento linear do texto ensaístico de Bernadet, quando indo diretamente para momentos pontuais sobre os filmes mais recentemente vistos.
Uma das coisas que eu mais achei interessante no livro é o amor de Kiarostami por carros, e de como eles estão muito presentes em seus filmes. Essa observação não é nenhuma novidade: o que eu achei novidade foi pensar o quanto ele prefere o interior dos carros e os interiores ao interior das casas. E aí há a lembrança de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO?, e de como a casa é principalmente vista como um ambiente hostil à criança, seja a sua própria casa, quanto a casa do seu amigo, em que ele desiste de entrar já pertinho do final do filme.
Em E A VIDA CONTINUA, não vemos as pessoas entrarem nas casas. Quando entram, são casas destroçadas, sem teto, em ruínas. Nos próprios relatos, como o de uma pessoa que sobrevive ao terremoto por ter acordado no meio da noite pela picada de mosquitos e assim conseguir sair da casa, o sair das quatro paredes representa salvação, ainda que uma salvação triste, diante de uma tragédia de tal magnitude. Enfim, há muito o que admirar, pensar e escrever sobre Kiarostami e desta vez paro por aqui, mas voltarei em breve a falar sobre o diretor e seus filmes
+ TRÊS FILMES
A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO
Uma coisa que se percebe neste terceiro longa-metragem de Eliza Capai é que, mesmo trabalhando muitas vezes com o acaso e com um espaço geográfico simples e que valoriza principalmente exteriores, a cidadezinha de Guaribas, no sertão do Piauí, há um rigor formal tão presente quanto em seu trabalho anterior, INCOMPATÍVEL COM A VIDA (2023). Em A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO (2026), Capai dependia muito da performance das crianças, meninas na faixa de 10-11 anos, contando, através de sua forma ainda inocente de ver a vida, coisas como a mudança da infância para a adolescência, a conversa com suas mães sobre o início do namoro com seus pais, o brincar como principal prazer, inclusive na escola. Confesso que esperava encontrar mais contrastes entre a realidade daquelas meninas e a de suas mães e avós, mas o filme acaba apenas tangenciando esse assunto. Não que seja uma obrigação e acredito que o que ficou é fluido e as meninas são uma simpatia.
A NOITE DE ALAÍDE
Não conhecia nada de Alaíde Costa até ver este filme. Certamente já ouvi falar no nome dela, no quanto foi uma das cantoras mais importantes do período pré-bossa nova. Mas também soube aqui que foi um dos maiores nomes da bossa nova, também, que teve certo grau de amizade com João Gilberto, Tom Jobim e aquela patota rica lá do Rio de Janeiro, sendo ela a única mulher negra do grupo. Um dos destaques de A NOITE DE ALAÍDE (2025), de Liliane Mutti, não é nem o que o filme traz de informação sobre a vida e a obra da cantora, mas o recurso narrativo de construir uma espécie de animação em cima de atores reais. Como Richard Linklater fez em WAKING LIFE, mas com outra finalidade e outro traço. Ainda assim, essa parte mais fictícia do longa se mistura com imagens de arquivo, e isso ajuda a enriquecer o que captamos de Alaíde. E o que captamos é especialmente uma alma muito triste. Claro que vendo tudo pelo que passou, é fácil compreender que ela tenha ficado amargurada e até desacreditada das amizades e da sociedade, mas vemos também que esse namoro com a melancolia já parecia fazer parte de seu espírito desde a infância. Tudo bem que aquelas canções tristes dos anos 1940 não ajudavam muito. Se bem que muitos artistas surgidos na efervescente segunda metade dos anos 1960 também cresceram ouvindo essas canções no rádio.
FUTURO FUTURO
Eis um filme que achei difícil de me conectar. Falo por mim, já que FUTURO FUTURO (2025), de Davi Pretto, foi o grande vendedor do Festival de Brasília, papando os prêmios de melhor longa-metragem, roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador, que faz o papel de um homem desmemoriado que “acorda” numa cidade (ou num lado da cidade) que vive dependendo de auxílios do governo, uma comida que chega via drones. Nesse lugar, há também uma espécie de escola em que imagens exibidas em alta velocidade substituem o conhecimento. Só essa ideia de Davi Pretto não deixa de ser uma crítica bem-vinda ao consumo terrível das redes sociais nos dias de hoje, que vem substituindo a leitura profunda e a própria busca por pesquisa e conhecimento de outrora. O protagonista por ter em seu corpo uma marca da letra K passa a ser chamado de K, fazendo com que lembremos de Kafka e de seus heróis kafkianos. Davi Pretto também usa bastante IA para criar imagens do lado rico da cidade. Segundo o diretor, isso veio tanto da interrupção das filmagens por causa das enchentes sem precedentes que assolaram o Rio Grande do Sul, quanto da falta de recursos financeiros para concluir sua obra de outra maneira. Não deixa de funcionar também como um retrato distópico não do nosso futuro, mas do presente mesmo. Não sou muito fã das ficções científicas produzidas no Brasil, mas talvez seja o caso de eu buscar mais exemplares. (Adoro AMOR VORAZ, do Khouri, por exemplo, mas o que eu não gosto do Khouri mesmo?) Dos quatro longas-metragens de Davi Pretto, o que eu sigo gostando muito é CASTANHA (2014), seu primeiro. Os demais são obras que têm algo de etéreos ou impenetráveis, o que pode até ser uma intenção do autor, mas se há a intenção também de fazer algo mais onírico e atraente pela estranheza, vejo que esse estranhamento poderia causar mais atração em mim, que tanto gosto desse tipo de filme menos interessado em trama e mais em atmosfera. Porém, entendo que tenha muito a ver com sintonia. E falando em CASTANHA, João Carlos Castanha está neste novo filme, interpretando um senhor que o abriga.





