Eis um exemplo de filme que muito dificilmente seria feito nos dias de hoje. Pra mim, é ousado do ponto de vista do grafismo, da nudez, do quanto explora o corpo feminino em toda sua volúpia já na década de 1960. Aqui no Brasil, se formos comparar, o movimento para um erotismo mais gráfico foi mais um processo mais gradual, só atingindo seu ápice na década de 1980. Embora a primeira nudez frontal feminina tenha sido em 1962, com OS CAFAJESTES, de Ruy Guerra, só a partir da década seguinte que a nudez se tornou mais presente de maneira mais constante. No cinema argentino, a primeira cena de nudez frontal aconteceu em 1957, num filme de Armando Bó, protagonizado por Isabel Sarli. O filme se chama TROVÃO ENTRE AS FOLHAS Trata-se da mesma dupla de CARNE (1968).
Hoje em dia muito se fala e se condena o chamado “male gaze”, e aqui vemos um exemplar muito típico desse olhar masculino, por mais que apresente a mulher como vítima do homem, apresentado em sua maioria como abusador e perverso, enquanto a mulher é uma especie de heroína da história, ainda que seja uma heroína um tanto passiva às ações dos criminosos. De certa maneira, ter essa consciência desse “male gaze” ao mostrar um filme sobre abuso sexual não deixa de causar sentimentos mistos, uma vez que há, sim, um interesse do espectador pela nudez e pelo erotismo.
CARNE é uma das várias parcerias do diretor Armando Bó com a atriz Isabel Sarli, Miss Argentina 1955, que ingressou no cinema exploitation graças principalmente a seu belíssimo corpo, que em CARNE já é apresentado logo de início, sem roupas, enquanto o personagem do namorado, vivido por Victor Bó, pinta seu corpo. Ele tem o desejo de ser um pintor reconhecido e a vê como sua musa. Uma curiosidade que compartilho: Victor Bó é filho de Armando Bó e pai de Armando Bó Jr., roteirista vencedor do Oscar por BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA).
Na trama de CARNE, Isabel Sarli é Delicia (olha só o nome da personagem!), uma mulher carinhosa e satisfeita com seu namorado. Ambos trabalham num frigorífico, um local onde grandes pedaços de carne bovina ficam expostos por todos os lados. Eles esperam estar melhores de vida, financeiramente, para se casar. O pai de Delicia, porém, acredita que ela deveria casar logo, não esperar tanto assim, pois é possível ser feliz com pouco.
Enquanto isso, Delicia é abordada por um colega de trabalho no caminho. Ela sofre estupro, mas teme contar para o namorado ou para qualquer pessoa. E isso acaba por acarretar novos ataques desse homem, culminando nas tenebrosas cenas envolvendo um caminhão com vários homens fazendo fila para se aproveitar do corpo da mulher, raptada. O filme funciona como documentário sobre a masculinidade agressiva e maldosa de uma época, além da maneira como apresenta um personagem homossexual. Há uma dificuldade em evitar uma caricatura que funcionaria como gag para o público hétero da época, embora haja também uma tentativa de compreender a situação daquele homem, que é obrigado a esconder suas preferências sexuais dentro daquela sociedade. Do ponto de vista formal, há a curiosidade de a fotografia em cores se revezar com fotografias em dois tons (às vezes azul, às vezes vermelho), que surgiam principalmente nos instantes de maior tensão.
Conta-se que Armando Bó e Isabel Sarli nunca se casaram, mas mantiveram um relacionamento longo e apaixonado, apesar de Bó ser formalmente casado com outra mulher e nunca ter se separado. No dia do velório do cineasta estavam presentes no caixão tanto a esposa quanto a atriz. Isabel é possivelmente o maior símbolo sexual do cinema argentino e a paixão de cineasta e atriz se tornou célebre, além de ter rendido cerca de 28 colaborações, entre elas filmes como FUEGO (1969) e FIEBRE (1971). Confesso que fiquei curioso para ver outras obras do realizador com sua musa.
+ TRÊS FILMES
VERITY
Depois de ter visto um filme tão pretensioso como DIGGER, não deixa de ser um alívio ver um suspense despretensioso estilo “Supercine”, por mais buracos que tenha em sua trama ou por mais clichês apresente, inclusive para assustar os espectadores. É também muito bom ver duas belas e carismáticas atrizes pela primeira vez juntas, Dakota Johnson e Anne Hathaway, esta última recebendo o prêmio trabalhador do ano pela quantidade de títulos seus em cartaz. VERITY (2026) faria uma bela sessão dupla com A EMPREGADA, outro thriller com algum apelo erótico que remete um pouco aos anos 1990. Na trama, Johnson é uma escritora pouco conhecida, mas com talento, que é convidada a finalizar o romance de uma escritora de best-sellers que se encontra imobilizada após um acidente (Hathaway). No meio disso tudo, surge um interesse amoroso com o marido da escritora famosa, vivido por Josh Hartnett. Ou seja, há aqui alguns elementos em comum deste filme de Michael Showalter e A EMPREGADA. Vale dizer que Showalter tem uma carreira de filmes água com açúcar. Seu trabalho mais famoso até então era OS OLHOS DE TAMMY FAYE (2021), que rendeu um Oscar a Jessica Chastain. Não deixa de ser algo digno de nota. Em VERITY ele parece querer que vejamos o filme com certa autoconsciência que o torna divertido para quem embarcar na proposta.
ROSEBUSH PRUNING
É até possível que se este filme fosse dirigido por Yorgos Lanthimos o resultado teria saído melhor. Não porque o cineasta grego seja melhor que o nosso Karim Aïnouz, mas porque o roteiro que ele topou dirigir, de autoria de Efthimis Filippou, colaborador habitual de Lanthimos, acabou resultando num vale tudo para chocar as plateias. Baseado (creio que muito pouco) em DE PUNHOS CERRADOS, de Marco Bellocchio, este ROSEBUSH PRUNING (2026) tem a vantagem de contar com um elenco de primeira grandeza. E acredito que isso pode ter seduzido Aïnouz. Na trama, família milionária que mora numa cidade litorânea da Espanha vai se apresentando como um tanto estranha. E eu não tenho problema nenhum com filmes apelativos (geralmente gosto deles), mas aqui a apelação não funciona. Não choca de fato. Talvez porque o diretor tenha preferido suavizar as imagens e até seus personagens, por mais canalhas ou malignos que sejam. A fotografia belíssima de Hélène Louvart (A VIDA INVISÍVEL, 2019) contribui para que essa beleza plástica seja um atrativo para os olhos, assim como a presença dos atores e atrizes jovens. O que eu achei uma pena foi ver um ator veterano do calibre de Tracy Letts topando participar desse projeto. De todo modo, não deixa de ser um filme que vale a espiada. Até porque tem sido divisivo. Ou seja, tem gente boa o defendendo.
O ANIVERSÁRIO (Anniversary)
A gente já vive numa distopia. Mas é sempre possível ver o quão longe podem chegar regimes totalitários sem precisar remeter tanto a George Orwell. O ANIVERSÁRIO (2025) é um filme que talvez não fosse tão interessante se apresentado 20 anos atrás, por exemplo. Vê-lo nos dias de hoje e não fazer associações imediatas a Donald Trump e outros líderes de extrema direita é uma tarefa quase impossível. O diretor polonês Jan Komasa (BOM GAROTO, 2025) conta a história de uma ideia perigosa, que vira um livro best-seller, que vira um projeto de governo antidemocrático. Mas faz isso a partir de tensões familiares, algo muito familiar, por assim dizer, nos dias atuais (neste momento que escrevo estamos nas tensões de um segundo turno para presidente da república). A história começa no aniversário de casamento do casal Ellen e Paul Taylor, vividos por Diane Lane e Kyle Chandler. Seus filhos já são adultos, mas jovens que seguem diferentes caminhos. Um dos filhos (Dylan O’Brien) está apreensivo em apresentar a nova namorada para a mãe. Depois veremos que essa namorada (Phoebe Dynevor) já foi aluna de Ellen, uma moça que havia apresentado ideias muito perigosas e antidemocráticas. O filme explora as relações familiares e tem o mérito de apresentar cada membro da família com cuidado e carinho. O personagem de O’Brien reúne qualidades do típico fascista, como a frustração por não ser suficientemente bom como escritor e por isso se vítima, ter intolerância à ambiguidade, especialmente quando está em situação de poder, deseja punir os “desviantes”, inclusive pessoas de outra etnia; e apresenta traços de agressividade e sadismo. Sua esposa, a idealizadora, por sua vez se esconde sob uma personalidade aparentemente delicada. O ANIVERSÁRIO é uma das boas surpresas do ano e chega num momento de urgência para o mundo.





