domingo, junho 23, 2024

JARDIM DOS DESEJOS (Master Gardener)



De FÉ CORROMPIDA (2017) para cá, Paul Schrader parece querer provar ser um dos maiores da Nova Hollywood, já que não recebeu a mesma consideração e o mesmo louvor que seus colegas, em especial aquele que mais se aproxima dele, até por terem trabalhado juntos, Martin Scorsese. O que, aliás, é compreensível, já que Schrader, mesmo sendo roteirista de TAXI DRIVER – MOTORISTA DE TÁXI (1976), TOURO INDOMÁVEL (1980) e A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988), três filmes muito queridos de Scorsese, fica naquela posição de bastidores, como se não fosse tão autor desses trabalhos quanto o próprio diretor. (Eu mesmo tenho um monte de lacunas de Schrader para preencher e espero encontrar tempo para resolver essa pendência.)

TAXI DRIVER, em especial, ao ser colocado perto dessa nova trilogia, por assim dizer, formada por FÉ CORROMPIDA, O CONTADOR DE CARTAS (2021) e o objeto de nossa discussão de hoje, JARDIM DOS DESEJOS (2022), tem se mostrado presente nos textos a respeito da autoria de Schrader, no que ele tem chamado de filmes de profissão, filmes de ofício. Assim como nos dois filmes anteriores, o protagonista escreve e mantém um diário, o que é outra marca que novamente remete a DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, de Bresson. Mas o personagem escreve mais sobre sua especialidade. Seu passado neonazista surge em flashes rápidos, como que para assombrá-lo.

Esses novos trabalhos, que trazem uma homenagem mais explícita ao mestre francês Robert Bresson, acabaram por trazer mais luz para seu cinema, que nunca deixou de ser brilhante, mas que ficou um pouco mais apagado nas décadas de 1990-2000. JARDIM DOS DESEJOS é outro em que o personagem é definido pela profissão. Não mais um padre, não mais um especialista em jogos de azar (e não mais um motorista de táxi), mas um jardineiro, alguém que tem como uma de suas qualidades a paciência de ver as flores nascerem, crescerem e adornarem os espaços, como é o caso da mansão da personagem de Sigourney Weaver, uma mulher que acredita que está no fim da vida e tem como eventual amante e profissional talentoso seu próprio jardineiro, vivido por Joel Edgerton.

Logo no começo do filme, ela apresenta uma situação para ele resolver, alguém que virá (uma sobrinha-neta) e a quem ele, o jardineiro-mestre, deverá ensinar seus conhecimentos. Logo também saberemos do passado desse homem, um passado nada tranquilo, um passado que está literalmente marcado em sua pele. E esse passado é incômodo também a nossos olhos: as marcas mais assustadoras trazem suásticas e louvores à supremacia branca. Ou seja, herói do filme é esse homem que tem essas marcas abjetas na pele, que costuma esconder por debaixo das roupas.

Do ponto de vista visual, adoro como Schrader faz da tela uma pintura colorida, cheia de flores, desde os créditos iniciais, de como ele, pacientemente, vai construindo a relação de aproximação entre Edgerton e a jovem Quintessa Swindell, de como, perto do final, mais uma vez ele apresenta uma experiência transcendental do amor e do sexo usando simbolismos. 

Mas eu diria que a grande beleza de JARDIM DOS DESEJOS (acabei gostando bastante do título brasileiro) está no modo como se trata também de um filme sobre perdão, sobre redenção, ainda que torto à maneira do diretor. Como aquela moça negra (ou mestiça) que se apaixona por ele poderia perdoá-lo ou aceitá-lo com aquelas imagens tatuadas em sua pele? O contato com a natureza parece uma espécie de tentativa de remissão de pecados do personagem: depois de matar pessoas movido ao ódio no passado, hoje ele busca o contato com a terra, que ele cheira com gosto, busca embelezar o jardim de uma mulher mais velha, que também nutre fortes sentimentos de atração por ele, embora prefira mantê-lo na posição de subalterno.

Já a garota mais jovem, ao namorar um traficante bem violento e ser dependente química, também encontra na figura daquele homem uma salvação. Certamente não é um filme que agrada a todos os públicos pela complexidade desses personagens ou pelo fato de que não é todo mundo que perdoa neonazista. Mas Schrader ama esses personagens cheios de falhas e pecados, como amou figuras violentas como o motorista de táxi e o boxeador dos filmes de Scorsese. Além do mais, assim como em FÉ CORROMPIDA, o modo como o diretor e roteirista apresenta a glória do sexo com amor como uma espécie de experiência de iluminação, é coisa linda de Deus. Schrader segue se mostrando um gigante da Nova Hollywood que já foi subestimado. Mas não mais. Pelo menos não deveria ser. 

P.S.: A revista Sight and Sound de junho de 2023 traz cinco listas de votos de Schrader para sua tradicional votação de melhores filmes de todos os tempos. Deixo aqui o ranking dele de 2022 (na revista, consta também seus votos em 1972, 1992, 2002 e 2012). 

PICKPOCKET (Bresson, 1959)
ERA UMA VEZ EM TÓQUIO (Ozu, 1953)
PERSONA (Bergman, 1966)
A REGRA DO JOGO (Renoir, 1939)
O CONFORMISTA (Bertolucci, 1970)
UM CORPO QUE CAI (Hitchcock, 1958)
MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (Peckinpah, 1969)
METRÓPOLIS (Lang, 1927)
O PODEROSO CHEFÃO (Coppola, 1972)
AS TRÊS NOITES DE EVA (Sturges, 1941)

+ TRÊS FILMES

A MUSA DE BONNARD (Bonnard – Pierre et Marthe)

Martin Provost não é um cineasta dos mais prestigiados, mas tem feito filmes que têm alcançado os circuitos internacionais e sempre com um elenco classe A, como foram os casos de O REENCONTRO (2017) e A BOA ESPOSA (2020). Este seu mais novo trabalho, A MUSA DE BONNARD (2023), conta com um dos melhores atores do cinema francês contemporâneo, Vincent Macaigne, que interpreta o pintor Pierre Bonnard. Cécile De France (que já tem no currículo trabalhos com os irmãos Dardenne, Clint Eastwood, Catherine Corsini, Emmanuel Mouret e até Wes Anderson) interpreta sua companheira e também sua musa em diversos trabalhos importantes. O que me deixou pouco empolgado com o filme, digamos assim, foi o modo como ele pintou a personagem, de uma maneira que não a torna tão querida da audiência. As próprias falas para a personagem não são as melhores e acabam estereotipando a mulher dentro do relacionamento. Gosto quando entra em cena Stacy Martin, como o pivô de uma traição, mas depois isso não é muito bem desenvolvido e acaba por se mostrar apenas necessária para o enredo. É como se faltasse ao filme mais coração. De todo modo, gosto muito de como a fotografia valoriza a natureza e os ambientes interiores. Isso ajuda um bocado em nossa relação de prazer com o filme. A propósito, gostei da projeção e do som da sala 2 do Cine Del Paseo.

MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ

Muito legal ter a oportunidade de registrar uma história de amor tão bonita e tantas vezes contada pelo próprio Sidney Magal, agora em formato de ficção para os cinemas. Pena que o resultado em MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ (2023) tenha sido um tanto insatisfatório, embora em nenhum momento deixe de ser um filme interessante em suas imperfeições. Inclusive, a coisa que mais funciona no filme é a relação que se estabelece entre dois personagens coadjuvantes. Sempre que eles se encontram sozinhos o filme ganha, em parte porque há química no casal, em parte porque o diretor Paulo Machline e os roteiristas parece saírem um pouco das amarras da história principal, que conta da paixão que o cantor tem por uma jovem de Salvador, em sua passagem pela cidade. Na época, 1979, Sidney Magal era um dos cantores mais populares do país e, por mais que alguns taxassem sua música de brega, há algo de muito especial em sua interpretação e em algumas canções memoráveis, em especial, a que dá título ao filme, que tantas vezes fez minha alegria na infância. Só hoje soube se tratar de uma versão brasileira de uma canção argentina de 1971. O filme perde a chance de brilhar justamente na execução dessa canção, assim como vai perdendo várias chances ao longo da narrativa, talvez por inexperiência do casal de protagonistas, ou talvez pela falta de um roteiro melhor elaborado. Não deixem de ver nos créditos finais uma participação muito especial de Emanuelle Araújo (AOS VENTOS QUE VIRÃO), que no filme faz o papel da mãe de Magali, o grande amor da vida de Magal. O interesse do filme por criar uma espécie de musical inspirado nos clássicos de Hollywood é boa e às vezes funciona, como na cena em que Caco Ciocler canta (e dança) uma certa canção de Johnny Hooker.

TUDO OU NADA (Rien à Perdre)

Um filme que deve muito à interpretação intensa de Virginie Efira, grande atriz que tem se dedicado a uma carreira de papéis bem diferentes uns dos outros e demonstrado o quanto sua versatilidade eleva as obras em que protagoniza. TUDO OU NADA (2023), primeiro trabalho de ficção no cinema de Delphine Deloget, carrega elementos do documentário que ajudam a passar mais realismo e crueza ao drama da mãe que tem seu filho mais novo tirado de si e que se vê num pesadelo kafkiano que vai ganhando proporções maiores ao longo da trama. É impressão minha ou o cinema francês tem dado espaço a obras que retratam a rotina de pessoas de classes menos desfavorecidas da sociedade? Gosto bastante do final.

domingo, junho 16, 2024

QUATRO NOITES DE UM SONHADOR (Quatre Nuits d'un Rêveur)



Robert Bresson é fascinante. O período que mais vi filmes do realizador foi entre os anos de 2004 e 2007. Ou seja, preciso rever tudo que vi. Por mais que o ideal seja rever seus filmes numa bela sala de cinema em cópias remasterizadas digitalmente, como foi o caso de O DINHEIRO (1983), revisto em 2021, o lançamento do box O Cinema de Robert Bresson pela Versátil é um verdadeiro presente para os cinéfilos, especialmente os fãs do cineasta. Como o próprio curador Fernando Brito bem disse, o próprio box é uma obra-prima. E há filmes que ainda não havia visto/não vi nenhuma vez ainda, como foi o caso de QUATRO NOITES DE UM SONHADOR (1971), que está em uma cópia tão linda que parece BluRay. 

Ainda que traga alguns elementos que se destacam de outras obras do realizador, esta adaptação da novela Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, como o inusitado de ouvirmos música brasileira, ou haver um protagonista-pintor (Bresson queria ser pintor quando jovem), a assinatura e as marcas do cineasta estão presentes de maneira muito forte. Para começar, temos mais uma vez um herói aprisionado. Não literalmente aprisionado, como em UM CONDENANDO À MORTE ESCAPOU (1956) ou O PROCESSO DE JOANA D’ARC (1962), mas alguém que é escravo de seu próprio destino pouco generoso.

Jacques (Guillaume des Forêts) é um jovem pintor que vive uma vida de desânimo e muita solidão e que tem por hábito usar um gravador portátil para lhe auxiliar na criação de suas pinturas feitas a partir de seus sentimentos mais profundos. Um dia, ele encontra uma jovem, Marthe (Isabelle Weingarten, de O ESTADO DAS COISAS), que está prestes a se suicidar, pulando da Ponte Neuf. Ele a impede e os dois passam a conversar sobre seus próprios problemas e Jacques se mostra disposto a ajudá-la.

No flashback de Marthe, ficamos sabendo seus motivos, assim como também é o momento em que o filme mais explora a sensualidade e a carnalidade: o belo corpo nu da atriz, em delicadas luz e cor, é algo que o cineasta faz para tornar a imagem da jovem atraente para os espectadores, de modo que fique muito mais fácil nos identificarmos com o sentimento de paixão crescente de Jacques por ela. Ele grava seu nome, "Marthe", repetidamente numa fitinha cassete. Ele vê o nome dela em todos os lugares. Mas ele sabe, no fundo, que, dada sua experiência de vida, dada sua falta de sorte com relacionamentos amorosos, raramente terá chance naquele jogo de entregar cartas para o homem por quem Marthe é apaixonada e esperar pela não-vinda dele, esperar por um possível sentimento que a jovem possa criar por ele nessas quatro noites do título.

Uma das cenas finais é tão perfurante no peito quanto o final de JOANA D’ARC ou as palavras finais do casal de PICKPOCKET (1959). Talvez tenha sido o filme de Bresson que mais me causou identificação com o protagonista – por mais que seja uma identificação mais com meu passado do que com meu presente. O pessimismo do realizador tem a ver com sua crença no jansenismo, uma doutrina de um pensador católico que atribui a salvação da alma ao juízo prévio de Deus e não às boas obras, não à caridade. Ou seja, se o destino de cada pessoa já está escrito, não há muito sentido em lutar tanto pela salvação, ou pelo que essa salvação possa simbolizar de bom na vida material.

Na obra de Breson, a prisão é uma metáfora para o aprisionamento espiritual. E Jacques é uma pessoa presa àquilo que o destino supostamente o transformou, ou a sua própria sorte. Assim, as composições do diretor, em sua austeridade, são ao mesmo tempo duras e carinhosas com seus personagens. É como se o ato do diretor de mostrar o movimento de seus olhos, enfatizando suas tristezas e falta de esperança no próprio destino, fosse uma maneira de ele se solidarizar com eles, dizer que os compreende. Ele, que depois de ter sido prisioneiro de guerra, fora resgatado por uma ordem de freiras. Nada dessas circunstâncias pessoais parece em vão nas obras do realizador .

+ TRÊS FILMES

O ANDARILHO NA CHUVA (Vagabundo en la Lluvia)

Muito bom o trabalho que a Versátil vem fazendo de trazer em mídia física obras que muito provavelmente passariam batidas em nosso mercado, como é o caso de certos filmes de terror mexicanos, que eu só conheci graças a eles. O ANDARILHO NA CHUVA (1968) já é o quinto filme de Carlos Enrique Taboada trazido na coleção Obras-Primas do Terror - Horror Mexicano (este no volume 3) e, mesmo sendo inferior aos outros quatro títulos, é um claro exemplo de um mestre trabalhando com poucos recursos, construindo toda uma atmosfera de suspense numa casa de campo com apenas três atrizes e um ator que faz o personagem-título, não sem antes deixar bem claro o zeitgeist de 1968, na cena inicial de uma festa. Na trama, uma mulher que espera alguém na casa traz sem querer em seu carro uma outra que estava dormindo bêbada no banco de trás. E há a figura pouco confiável de um homem que aparece com um sino amarrado na perna (o aspecto mais interessante do personagem). Achei que faltou mais intensidade, de modo que compartilhássemos o medo daquelas mulheres desse homem e talvez esse seja o principal problema do filme. Mesmo assim, são pouco mais de 80 minutos que passam voando e que até poderia ser uma peça de teatro, de tão caprichado que está o texto. Se tiver mais Taboada disponível, Versátil, pode mandar.

A HORA DA ESTRELA

Jurava que havia visto A HORA DA ESTRELA (1985), de Suzana Amaral, nos anos 1990 ou 2000, mas, pelas minhas anotações no blog, tive a certeza (?) de que o vi pela primeira vez só em 2011. A reestreia nos cinemas está sendo um sucesso, com as salas lotadas para ver as desventuras de Macabéa, uma jovem mulher semianalfabeta que veio do Nordeste para ganhar a vida em São Paulo e acaba sofrendo humilhações de vários tipos. E nem sempre ela percebe que está sendo humilhada, de tão ingênua que é. Primeiro dos três (belos) filmes de Suzana Amaral, A HORA DA ESTRELA é sua obra mais popular. Faz rir ao longo da sessão, tem cenas e falas memoráveis, e esse riso de nós, o público, vejo como de certa forma problemático, já que é como se estivéssemos também rindo dela, como se fôssemos tão cruéis quanto os demais personagens que passam por sua vida. Não sei o quanto isso "trai" a obra de Clarice Lispector, no sentido de ser mais ou menos empático com Macabéa, mas certamente oferece uma experiência própria. Sem falar que não é porque somos espectadores de cinema que somos isentos da crueldade.

ISTO É PELÉ

Lançado quatro anos após a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, ISTO É PELÉ (1974), de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto, parece mais um filme institucional. A narração de Sérgio Chapelin torna essa impressão ainda mais evidente (a produção é da Rede Globo). Mas não há como negar a força das imagens de Pelé em campo. Seus passes, seus gols, o culto criado em torno dele, algo que as pessoas que não viveram a época ou não se interessam por documentários sobre futebol e sobre o jogador não têm ideia. A boa montagem de Eduardo Escorel une imagens do presente, com Pelé ensinando futebol para adolescentes, e imagens das copas vencidas por ele (embora a de 1962 tenha sido basicamente sem ele, que saiu mais cedo, machucado). Até o fato de as imagens não serem tão boas contribui para o predomínio da construção da mitologia em torno do jogador. E o curioso é que, em nenhum momento, o filme busca o homem Pelé, com detalhes sobre sua intimidade: há apenas o jogador. E para o personagem basta. Já para o filme, não sei se é suficiente.

domingo, junho 09, 2024

OS OBSERVADORES (The Watchers)



“Try not to die.”
(Darwin) 

Em outras circunstâncias eu estaria aqui escrevendo um relato do show a que fui ontem com minha amada, de Anavitória e Nando Reis, no Iguatemi Hall. São artistas de que gosto muito, embora não seja fã o suficiente para conhecer a maior parte de suas canções. Esse quesito não quer dizer que o show vá ser mais ou menos interessante para o espectador. É possível ir a um show musical sem conhecer nada de um artista e ficar encantado com seu trabalho. Pois bem. O problema maior do show de ontem foi técnico. Os artistas falavam em seus microfones crentes que estavam sendo ouvidos, mas não era isso que acontecia. Eu e a Giselle estávamos nas cadeiras lá do fundão, mas mesmo quando fomos ficar de pé lá no meio, mais próximo do palco, não era ainda possível compreender bem frases inteiras ditas por Nando e as meninas.

Na minha vida toda de ida a shows em vários espaços, nunca vi nada parecido. E ainda por cima, como podem cobrar tão caro dentro de um espaço tão luxuoso para oferecerem um som tão aquém (para não dizer tão cocô)? Ainda cheguei a reclamar em algumas postagens do Iguatemi Hall no Instagram, mas apenas uma ou outra pessoa aparece concordando comigo (depois vi que mais pessoas reclamaram). Existe uma espécie de negação ou de falta de percepção da qualidade técnica nos espaços. Estou acostumado a ser o reclamão das projeções de cinema e não quero ser o sujeito que reclama dos shows. 

Uma possível explicação: aquela espécie de colchão que funciona como teto do espaço pode estar interferindo na reverberação sonora (já que às vezes o som dos instrumentos ficou bem alto, tão alto que incomodava e distorcia, o que aliás é outro problema). A segunda explicação é mesmo o aparato técnico dos artistas, mas acho pouco provável, não sei. Pois bem, na falta de um registro do show hoje e usando o “prefiro não opinar” da Glória Pires, vamos de filme.

Estava há pouco dando uma olhada na repercussão crítica de OS OBSERVADORES (2024) no Rotten Tomatoes e, para minha surpresa, o filme está cheio de críticas negativas. Pelo menos lá fora a recepção não foi boa, o que de fato me surpreendeu pela riqueza e elegância visual que enxerguei nesta estreia na direção de longas-metragens de Ishana Night Shyamalan, filha do nosso querido M. Night Shyamalan, que está com filme novo chegando, hein.

Quem viu a excelente série SERVANT (2021-2023) deve ter prestado atenção nos diferentes diretores que comandavam alguns episódios – Shyamalan e o criador Tony Basgallop convidaram jovens cineastas como Severin Fiala e Veronika Franz, de BOA NOITE, MAMÃE; Kitty Green, de A ASSISTENTE; Julia Docournau, de TITANE; Isabela Eklöf, de HOLIDAY; Carlo Mirabella-Davis, de DEVORAR. E havia também os episódios dirigidos pela filha. E eu notava que os episódios dirigidos por Ishana eram tão ou até mais caprichados e exuberantes na construção visual que os do próprio pai; sendo que ela que não havia dirigido sequer um curta-metragem antes. SERVANT acabou servindo de laboratório para ela começar seu ofício.

Por isso, quando fiquei sabendo do primeiro filme dirigido por ela, logo esperei algo no mínimo bom e digno. E fui ainda mais surpreendido, com um tipo de terror que procura trazer algo novo (e encontra), por mais que não consiga fugir de todos os clichês – o que é quase impossível e nem sei se gostaria disso. OS OBSERVADORES é o tipo de terror pagão, em contraponto ao terror católico de uma obra como A PRIMEIRA PROFECIA, para citar um bom exemplo recente.

E isso acaba por trazer coisas novas, trazidas da rica mitologia irlandesa – as locações são no interior da Irlanda (lindas!). Podemos dizer, sim, que é um conto de fadas, mas um dos mais sombrios. Dakota Fanning é uma jovem que fica presa numa floresta cuja saída é aparentemente impossível de encontrar. Até que ela encontra alguém em condições semelhantes, vivendo num lugar chamado de poleiro, no meio daquela floresta totalmente fechada.

Gosto muito das regras que ela recebe, impostas pela líder do grupo de sobreviventes da floresta, o que faz lembrar alguns filmes do Shyamalan pai (A VILA, A VISITA), mas há uma vivacidade na condução narrativa que nem o pai tem conseguido em certos filmes mais recentes. Ou seja, não há nenhum momento para ir ao banheiro, um momento menos importante. É sentar na cadeira e ficar interessado na trama, nos personagens, nos mistérios, e no quanto o filme muito elegantemente trata de trabalhar o medo, a escuridão e o desconhecido. Dakota está ótima, mas os outros três atores também estão, inclusive Georgina Campbell (vista no ótimo NOITES BRUTAIS). Não é um filme de grandes diálogos, o foco está mais na riqueza visual e em alguma possível metáfora sobre espelhos e espetáculos.

Filme visto numa projeção excelente da sala 10 do UCI Iguatemi. Algo me diz que é projetor novo, de dar gosto, e o som também estava excelente.

P.S.: Depois da sessão, eu e meu sobrinho experimentamos o horror da vida real. Estávamos voltando depois das 11 da noite de carro através de uma rua sinuosa que vai dar na Av. Pontes Vieira. Eu percebo que um homem corre e se aproxima do carro à nossa frente. Depois outro homem se aproxima. Falei para o Lucas: é um assalto que tá rolando. Como a rua é uma subida, gosto de deixar o meu carro 1.0 com o ar condicionado desligado e o freio de mão puxado e com uma distância razoável do carro à frente. Em seguida, outro homem sai de um muro, das sombras e se aproxima da gente. O Lucas grita: “vai!, vai!”, e eu contorno o carro e acelero, sem me importar se vou atropelar ou não o terceiro assaltante que se aproximava da gente, não sei se com uma arma na mão ou não. Meu sobrinho até faz um gesto de apontar uma arma (imaginária) para ele, gesto que não cheguei a ver, só depois ele me disse. Não olhei para o rosto desse homem – para mim, os três continuarão a ser sombras. Só queria sair dali, buscar uma saída aproveitando inclusive que o sinal estava verde. E saí cantando pneu.

Sempre usei essa rua de nome comprido (Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face) em muitas décadas e nunca vi tal coisa acontecendo antes. Não sei se isso é sinal de que nossa segurança está pior, pois não vimos um carro da polícia sequer no caminho de volta para casa, ainda com a adrenalina agindo no corpo. Mesmo assim, respirando fundo, consegui cantar uma canção no caminho de volta: “Long line of cars”, do Cake. Adoro essa música.

+ TRÊS FILMES

IMACULADA (Immaculate)

A primeira coisa que me incomodou em IMACULADA (2024), de Michael Mohan, foi a fotografia. E isso veio lá desde a projeção ruim do cinema que cheguei a abandonar, passando pela tentativa de ver em melhor qualidade numa cópia 4K (em vão, pois a TV deixa um brilho incômodo) e em seguida fechando numa cópia 1080p apenas razoável para o que se podia aproveitar das intenções das imagens, no terço final. E olha, chequei: a diretora de fotografia tem coisas bem legais no currículo, como COLUMBUS e A CASA SOMBRIA. Eis que tento prestar atenção na trama e também demoro a ver algo que não seja uma repetição de tantos outros filmes que seguem essa linha de terror dentro dos muros de um convento. Tem a tal freira se atirando lá de cima, o pombo que se atira na janela de vidro, as figuras soturnas no meio da noite, gente malvada cometendo atrocidades e contando seus planos diabólicos. Aliás, comecei a achar interessante no momento que o filme ganha mais em violência e sangue, mas não o suficiente para não torcer para que acabasse logo. Mesmo assim, tenho que reconhecer que a cena final de entrega na interpretação de Sydney Sweeney foi espetacular. Chega a se aproximar, pelo menos neste momento, da excelência que é Nel Tiger Free em A PRIMEIRA PROFECIA, o filme-irmão mais elegante. De todo modo, gosto do final de ambos, embora eu veja o de IMACULADA como tanto um ato de rebeldia muito bem justificado, quanto uma espécie de autodestruição de algo que talvez tenha falhado.

IMAGINÁRIO – BRINQUEDO DIABÓLICO (Imaginary)

Se visto como uma fábula, ou uma fantasia, e não como um filme de horror, talvez este novo trabalho de Jeff Wadlow possa ser melhor aceito. Mas só um pouco, pois quando começam a explicar demais (e há uma personagem que entra na história só para isso) IMAGINÁRIO – BRINQUEDO DIABÓLICO (2024) começa a ir ainda mais fundo em sua trajetória descendente. A princípio, pode-se pensar que é um filme estilo BRINQUEDO ASSASSINO, mas felizmente (ou não, na verdade) trata-se de algo totalmente diferente. Aliás, quando o filme se apresenta como algo diferente e parece enveredar por um caminho mais psicológico, por assim dizer, eu achei que fosse para o seu bem. Mas nada depois consegue funcionar. Talvez eu coloque um pouco mais de destaque à personagem da adolescente (Taegon Burns), pois ela parece estar levando um pouco mais a sério o filme. E eu até diria que, mesmo com um roteiro problemático como esse, uma boa direção conseguiria salvar algo. Lá por perto do final, o filme mais parece um teatrinho de escola, com uma referência visual a Coraline, do Neil Gaiman, mas isso acaba não fazendo muita diferença a seu favor.

MADAME TEIA (Madame Web)

Eu fico sem entender como gente que até tem uma reputação a zelar se arrisca a entrar num desses projetos da Sony/Marvel, mesmo sabendo que todos resultaram em fiascos vergonhosos. Como sei que vergonha é roubar e não poder carregar e que é preciso ter bom humor para quase tudo nessa vida, é justamente por isso que não acho que seja completa falta de tempo ver MADAME TEIA (2024), de S.J. Clarkson. Até porque você pode juntar os amigos só para rir das linhas de textos ruins, das ideias que só podem ter saído de alguém que estava chutando o balde. E quando a gente pensa que o filme não pode ficar mais ridículo, damos de cara com as cenas finais, que não acredito que possam ter sido criadas com seriedade por parte do time de roteiristas. As cenas da Dakota Johnson com as três atrizes que fazem as adolescentes são cheias de graça. E pelo menos é um filme de super-herói em que a heroína não tem poderes tão explícitos nem sai fantasiada o tempo todo, o que é algo diferente, mesmo que o vilão, Ezequiel, apareça com uma roupa muito similar à do Homem-Aranha. Na trama, Dakota Johnson é uma jovem que trabalha como paramédica numa ambulância, quando começa a prever o futuro.

domingo, junho 02, 2024

LADY BLUE SHANGHAI



Uma das grandes vantagens de ter David Lynch como um dos cineastas mais queridos é que sua obra é quase inesgotável. Isso porque, mesmo que você já tenha visto todos os seus filmes e séries, o que é difícil, pois ele fez muita coisa, há uma série de enigmas e mistérios que ainda seguem assombrando e encantando a cada nova revisão de suas obras. Sem falar no senso de humor e no amor que transborda de seu trabalho. Sua última grande obra foi TWIN PEAKS – O RETORNO (2017) e mesmo que ele não lance mais nenhum filme ou série, é sempre possível voltar a TWIN PEAKS. Sem falar que há uma série de novos cineastas que se inspiram em Lynch para construir obras quase lynchianas e há também a descoberta de filmes antigos que trazem relações surpreendentes com o cinema de Lynch, como, por exemplo, A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, ANJO OU DEMÔNIO?, de Otto Preminger, ou ESCRAVAS DO MEDO, de Blake Edwards. E há também curtas-metragens em caráter promocional para algumas marcas, como um suposto filme publicitário, mas que ele embebe de sua poética.

É o caso de LADY BLUE SHANGHAI (2010), que eu só fui descobrir a existência um dia desses. Trata-se de um curta de 16 minutos que o cineasta fez para a empresa de moda Dior, estrelado por Marion Cotillard. Imagina só: existe um filme de Lynch estrelado por Cotillard! O filme ficou disponível inicialmente no site da Dior até outubro de 2010 e hoje é possível encontrar no YouTube e em alguns sites de compartilhamento. O visual lembra muito aquele digital um pouco borrado de IMPÉRIO DOS SONHOS (2006) e contém inúmeras referências a obsessões do cineasta, como o mistério da cor azul. Inclusive, há uma rosa azul dentro da bolsa também azul; lembremos que a rosa azul aparece em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) como algo que vai além das interpretações, como algo quase proibido de ser interpretado. E isso é dito por um dos personagens, como uma espécie de brincadeira metalinguística de Lynch. Quanto à cor azul, ela aparece como destaque pelo menos desde VELUDO AZUL (1986) na filmografia do diretor, mas sei que se formos procurar direitinho, ela já aparece nos primeiros curtas. 

Na trama de LADY BLUE SHANGHAI, Cotillard adentra os corredores de um hotel, enquanto o som de um velho tango parece aumentar à medida que ela se aproxima de seu apartamento. Ao chegar ao apartamento, o som está quase ensurdecedor a ponto de distorcer as caixas de som. Ela tira a agulha da vitrola e imediatamente vê luzes surgirem como relâmpagos no quarto. E uma fumaça atravessa a bolsa azul que está no meio da sala. Ela sabe, de alguma maneira, que há algo dentro daquela bolsa. E quando os funcionários do hotel chegam ela conta que já esteve ali antes, como numa sensação de déjà vu. Aos poucos, ela lembra de algo importante, de um homem chinês que ela conhecera. 

É quando o filme consegue se tornar ainda mais onírico do que já estava e ganha mais cores, com efeitos de luzes coloridas que borram e pintam a noite dos amantes que correm pelas ruas de Shanghai. Uma das coisas mais bonitas é quando o homem diz que não deveria estar ali. Que ama aquela mulher, mas não deveria estar ali. Como se, de alguma maneira, ele tivesse entrado num sonho proibido. No final, quando Cotillard agarra com carinho a bolsa contendo a rosa azul, é como se estivesse abraçado aquele homem com quem trocou juras de amor. 

Lynch, quando fala de amor é também incrível, com uma carga dramática que é capaz de causar sentimentos que nenhum outro cineasta é capaz. Basta lembrar o drama trágico das amantes de CIDADE DOS SONHOS (2001) ou os anos de espera para ficarem juntos Big Ed e Norma em TWIN PEAKS – O RETORNO. 

Para a produção de LADY BLUE SHANGHAI, a Dior deu total liberdade criativa para Lynch, com a condição de que ele mostrasse a bolsa Lady Dior, a Torre Pérola Oriental e as antigas ruas de Shanghai. Condições bem fáceis para Lynch criar uma belezura que infelizmente está quase invisibilizada até para quem tem o costume de ver seus filmes.

+ TRÊS FILMES

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Ao saber que Luiz Fernando Carvalho adaptaria o livro de Clarice Lispector, comprei-o há algumas semanas (ou meses, nem sei), e de cara percebi que a leitura não seria das mais fáceis logo nas primeiras páginas. O tom nem sempre doce da prosa de Lispector se apresenta nesta obra, especificamente, ainda mais desafiador. E adaptar um livro como esse é duplamente desafiador. Não sei se fiquei incomodado com a interpretação de Maria Fernanda Cândido ou se a quase impenetrabilidade do texto acaba fazendo com que as mais de duas horas de projeção sejam difíceis, talvez para que nos cansemos tanto quanto a narradora/personagem G.H., que se multiplica em várias em sua via crúcis. Em alguns momentos, A PAIXÃO SEGUNDO G.H. (2023) só não vira teatro pois LFC é um homem de cinema, mas o texto é excessivo e fiquei me perguntando se ele chegou a cortar algo do texto original ou fez apenas recortes. Não me entendam mal: o texto é genial, mas é algo que eu leria devagarinho, ao longo de vários dias, como boa prosa poética que é, e não da maneira que ficou. Quem sabe um dia eu retorne ao filme e passe a gostar mais.

A MATÉRIA NOTURNA

Há um filme excelente dentro deste A MATÉRIA NOTURNA (2021), de Bernard Lessa. Trata-se da primeira meia-hora, ou primeira parte, antes do personagem de Welket Bungué entrar na trama. Antes disso, havia uma espécie de mistério quase lynchiano e uma personagem fascinante em sua tristeza, vivida com talento por Shirlene Paixão. O diretor sabe captar momentos em que um simples vento ou a movimentação de uma câmera para o lado fazem a diferença. Ou mesmo a captação do anoitecer quando a moça precisa passar por um portão fechado para voltar para a casa da amiga. Nos momentos com Bungué, destaco algumas cenas de intimidade dos dois, em que eles se agigantam como pessoas lindas no meio das dificuldades econômicas e um certo ar de incerteza e hostilidade que começa sutilmente a se manifestar. Uma pena que o filme tenha optado por essa mudança de rumo. Não sei o quanto isso foi deli

BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS

Divertida e inventiva, ainda que irregular, animação. A trama de BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS (2023), de Marão, é tão cheia de coisas fantasiosas que o meio é o ideal para se contar essa história sobre uma mulher em busca de algo. Para isso, essa mulher, que tem superpoderes bem estranhos (tipo, sua bunda vira um gorila gigante!) conta com a ajuda de uma pequena nuvem com incontinência pluviométrica e uma tartaruga com TOC. A tartaruga é o personagem mais legal e o diretor e roteirista soube muito bem criar trejeitos divertidos para ela, como o fato de ela passar a mão pela cabeça com frequência, especialmente quando está irritada. Há um momento em que a narrativa cansa um pouco, mas há outro momento de seriedade muito bonito. Gosto dos traços simples e das escolhas das cores, e também quando o mundo em preto e branco se torna predominante.

sábado, junho 01, 2024

A DAMA DE PRETO (Park Row)



Ainda estou lendo o capítulo “5. A Moral é uma questão de travellings – A crise fulleriana da cinefilia francesa (1953-1965)”, do livro Cinefilia, de Antoine de Baecque, e estou cada vez mais fascinado por Samuel Fuller, mesmo sabendo ainda tão pouco, mesmo apenas iniciando a minha peregrinação por sua obra e, por isso mesmo, não entendo muito bem a polêmica em torno de ele ser considerado fascista por parte da crítica francesa, uma parte hoje mais esquecida. Ao que parece, isso se apresentaria um pouco mais evidente na trama de ANJO DO MAL (1953), que é justamente o próximo trabalho que verei do realizador.

Por enquanto podemos nos concentrar em A DAMA DE PRETO (1952), que vejo como uma obra um pouco mais convencional na narrativa, mas até nesse sentido isso pode ser enganoso, pois há algo de estranho às vezes nas composições visuais e nas escolhas da montagem. Engraçado que no texto de Baecque, principalmente quando ele passa a fazer citações do crítico Luc Moullet, aparece uma referência à questão da feiura, que é algo que talvez tenha me incomodado a princípio no filme. A própria Mary Welch, a personagem feminina, não tem o mesmo ar de glamour de outras estrelas de Hollywood da época. Talvez por que estejamos diante de uma produção de baixo orçamento, mas deixo claro que não estou dizendo que a atriz é feia.

Vejamos o que diz o livro sobre esse aspecto:

É nesse instante que o crítico assinala a incongruência e a loucura do olhar em Fuller, essa maneira de mostrar com insistência o que outros descartam deliberadamente de seus filmes, a desordem, a sujeira, o inexplicável, a barba por fazer, “uma espécie de feiura fascinante do rosto do homem”. Ponto de vista que Moullet caracteriza como o do “primário”, mas um primário inteligente, dotado de olhar, para quem “o espetáculo do mundo físico, o espetáculo da terra, é a melhor testemunha de inspiração”. (p. 234-235)

(Eis o motivo de eu sentir dificuldade de encontrar imagens belas do filme para ilustrar a postagem que tivessem uma beleza mais clássica.)

A DAMA DE PRETO é um filme que faz um elogio ao jornalismo que busca a verdade e que luta por aquilo que considera correto. E também um elogio àquilo que é criado em circunstâncias precárias, como o próprio cinema de baixo custo de Fuller. O personagem de Gene Evans, anteriormente visto em CAPACETE DE AÇO (1951) e BAIONETAS CALADAS (1951), é um jornalista que logo no começo do filme se recente de sua patroa, a chefe do jornal The Star, que supostamente foi responsável pela morte condenação de um homem à morte. Por causa disso, ele é demitido ou se faz demitir do jornal e ganha o apoio de um homem que tem equipamento suficiente para fundar um outro jornal. A qualidade do papel teria que ser de qualidade bem inferior (de embrulho), a quantidade de páginas menor, mas o preço seria barato o suficiente, assim como o formato atraente para um público mais popular, com direito a um cartunista ilustrando a capa, algo novo naquela época, na década de 1880. 

Com a popularidade de seu jornal, chamado The Globe, o protagonista passa a ser atacado duramente por pessoas ligadas ao The Star, administrado pela personagem de Mary Welch, a tal dama de preto do título brasileiro (o título original se refere à rua onde se localizam os dois jornais). Em alguns momentos, o filme parece uma história de gângsteres, em outros, um melodrama bem carregado, em outros parece se perder quando a câmera corre violentamente pelas ruas e nos deixa atordoados em uma cena de violência confusa que acaba funcionando bem num filme de baixo orçamento como este.

Gostei muito de ver as dificuldades de botar um jornal no ar, naquela época em que teria que juntar os tipos um a um (o homem que trabalha com os tipos, inclusive, é analfabeto!). Há também uma questão envolvendo a Estátua da Liberdade, nos momentos em que ela estava prestes a ser erguida, mas o que mais gosto é do personagem de Evans, de sua nobreza, e do quanto, com frequência, a química entre ele e a dona do outro jornal se dá, de maneira explosiva, por mais que essa questão mais romântica entre eles possa parecer uma espécie de concessão para tornar o filme atraente para um número maior de espectadores.

+ TRÊS FILMES

DO LODO BROTOU UMA FLOR (Ride the Pink Horse)

Segunda incursão na direção de Robert Montgomery, depois do experimental e muito citado A DAMA NO LAGO (1946), que eu nunca vi até hoje, DO LODO BROTOU UMA FLOR (1947) também foge um bocado às convenções do noir daquele período, até por se passar numa cidadezinha da fronteira com o México, onde o herói um tanto amoral vivido pelo próprio Montgomery chega para fazer uma chantagem ao homem que matou seu melhor amigo e sair de lá com um bom dinheiro. Mas, logo que chega, ele encontra uma jovem com aparência meio indígena e também semelhante a uma santa. Ela tem uma visão da morte desse homem e faz questão de ser seu anjo da guarda, por mais que ele tente se afastar dela. O filme tem uma cena de violência tão brutal que eu jamais imaginaria ver numa produção dessa época: trata-se da brilhante cena do carrossel. O fato de a violência ser infligida a um personagem tão simpático e querido, o Pancho (Thomas Gomez), só a torna ainda mais dolorosa para o espectador. E ainda tem o olhar de pânico das crianças no carrossel. Foi nesta cena que eu percebi o quanto o filme havia me ganhado. Se bem que, logo que a narrativa começa, os movimentos de câmera de Montgomery olhando para o próprio protagonista já chamam a atenção para a direção. Já mostram que estamos diante de uma obra fora do comum. Filme visto no box Filme Noir Vol. 3.

ANJO OU DEMÔNIO? (Fallen Angel)

Recém-saído da obra-prima LAURA (1944), Otto Preminger adentra novamente o mundo das sombras, dos mistérios e dos desejos do film noir com esta história sobre homem trambiqueiro que se apaixona por uma mulher, mas que se casa com outra para obter dinheiro de modo a conquistar a primeira. Achei incrível essa ideia e me saltou aos olhos cada imagem e cada ação dos personagens, inclusive a de Alice Faye, como a mulher rica que se apaixona por Dana Andrews, mesmo sabendo de sua fama. Já Linda Darnell, ela é um exemplo de femme fatale que foge ao padrão, pois é uma mulher de certa forma inocente, embora consciente de sua beleza e sensualidade. E muito à frente de seu tempo, no modo como não se importa com as convenções sociais, fazendo o que deseja. O filme pode ser facilmente dividido em três partes e essas três partes trazem tramas quase distintas: o médium, a luta para conquistar a mulher e a morte, seguida de investigação, de uma personagem. Cheio de surpresas e reviravoltas, de imagens que valorizam as sombras e o movimento da câmera e a angústia dos personagens, ANJO OU DEMÔNIO? (1945) ainda tem créditos de abertura que podem ter inspirado David Lynch com seus créditos de ESTRADA PERDIDA. Além do mais, Preminger também lida com a presença de uma ausência, assim como faz em LAURA. Sensacional. Presente no box Filme Noir – Femme Fatale (primeiro volume).

O PRANTO DE UM ÍDOLO (This Sporting Life)

Assistir a filmes com uma ponta de angústia no peito pode funcionar quando damos de cara com obras que exploram as aflições ou o processo confuso de compreender a vida, como é o caso do personagem de Richard Harris, que aqui interpreta um jogador de rugby temperamental que tem com frequência explosões de fúria, mesmo com as pessoas que ama, como é o caso da personagem de Rachel Roberts, a mulher que aluga o quarto de sua casa para ele morar. Quando ele passa a ser um profissional bem-remunerado e pode trazer mais conforto para a mulher que ama, suas explosões de raiva até aumentam e o filme é tanto uma obra que denuncia a hoje chamada masculinidade tóxica, quanto nos convida a ter empatia por esse homem, apesar ou até por causa dos erros. Embora O PRANTO DE UM ÍDOLO (1963), de Lindsay Anderson, seja uma obra muito mais voltada ao protagonista e a sua relação de hostilidade com os mais ricos, há cenas bem realistas dos jogos. No mais, Richard Harris está brilhante. Filme visto no box Nouvelle Vague Britânica – Vol. 2.

sábado, maio 25, 2024

DOMINO



Se formos em busca de críticas sobre DOMINO (2019), o por enquanto último filme de Brian De Palma, vamos encontrar um apanhado de textos prontos para bater sem dó neste thriller da fase decadente de um dos maiores cineastas vivos. No The Guardian dizem que o diretor chega ao fundo do poço num suspense criminal com aparência amadora; o Indiewire diz que o filme é trashy e que ele prova que já passou de sua melhor fase (ao menos o texto diz que o filme foi montado sem a aprovação do diretor); The Globe and Mail diz que se trata do pior trabalho do cineasta e o Variety fala mal até da trilha sonora de Pino Donaggio. Mas até que há mais reviews positivas do que eu esperava.

Acredito que se o filme não tivesse o peso da assinatura do realizador seria um daqueles filmes lançados diretamente na telinha que estaria presente na lista de obras a serem descobertas com carinho, apesar do roteiro e da montagem problemáticos. O nome Brian De Palma é poderoso o suficiente para criar expectativa, por mais que o século XXI não tenha sido tão gentil com o cineasta. Se bem que ele não teve muita paz em sua carreira profissional, quase sempre atribulada pelos produtores ou mesmo por críticas negativas que incompreendiam suas obras, posteriormente alçadas a obras-primas.

Para quem demorou anos para ver este filme por causa da expectativa baixa e para não ver um diretor tão querido como o De Palma chegar a um estado de decadência tão lastimável, até que achei DOMINO bem decente. Todas as marcas da autoralidade do mestre estão lá, prejudicadas um bocado pelo orçamento precário (e talvez por um grau menor de inspiração), mas com o charme de produções de gênero europeias. Aliás, o próprio cinema do De Palma sempre foi muito influenciado pelo cinema europeu; italiano, principalmente, e aqui não é diferente – seu filme anterior, PAIXÃO (2012), é uma homenagem aos gialli.

E não poderia faltar homenagens a Hitchcock. Uma das primeiras grande cena de ação do filme, de uma perseguição no telhado, lembra UM CORPO QUE CAI. O fato de o herói estar desprovido de sua arma é uma espécie de indicação de castração, assim como é castrado também o personagem de James Stewart em JANELA INDISCRETA, outra obra também homenageada em DOMINO.

E há autorreferências, como a de OLHOS DE SERPENTE (1998), na cena da tourada, ainda que bem longe de ser tão bem orquestrada, por razões óbvias. A cena em que o mercenário está matando o colega de trabalho do protagonista lembra a cena de tortura de SCARFACE (1983) e a cena em que a colega do herói está perto do homem-bomba faz lembrar a trágica cena da morte do interesse amoroso de John Travolta em UM TIRO NA NOITE (1981). Todas essas lembranças podem parecer sombras ao vermos um filme tão menor como DOMINO, mas é o que temos para hoje.

Senti falta de uma maior força na vontade de vingança por parte do protagonista. Ele age como se não soubesse direito o que fazer, enquanto a mulher, ela sim, tem desejo de vingança e motivação para matar o sujeito que assassinou seu amado. O que acaba motivando mais o filme são as boas cenas de ação e suspense que contrastam um pouco com os momentos um pouco mais mortos.

O filme traz dois astros de GAME OF THRONES, o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau e a holandesa Carice van Houten, meio que tentando surfar um pouco no sucesso da série. Porém, infelizmente, DOMINO talvez seja o maior fracasso da carreira do realizador. Tanto que até agora, nenhum outro filme seu foi lançado e DOMINO ganhou essa pecha de maldito.

Dois excelentes colaboradores dão aquela força ao cineasta: o músico italiano Pino Donaggio, que faz sim um belíssimo trabalho, e o diretor de fotografia espanhol José Luis Alcaine, com suas cores quentes habituais.

+ DOIS FILMES

ESCRAVAS DO MEDO (Experiment in Terror)

É interessante perceber a mudança por que a sociedade americana atravessou na virada para a década de 1960, especialmente do ponto de vista comportamental. E é impressão minha ou a sociedade dessa primeira metade dos anos 1960 era menos durona e mais frágil do que a vista nas produções das décadas anteriores? De todo modo, ESCRAVAS DO MEDO (1962), de Blake Edwards, conta com um dos melhores inícios de filme que já vi, seja pelo suspense, seja pela belíssima construção visual em preto e branco, valorizando as brumas do bairro de Twin Peaks (a-há!), em São Francisco, mas principalmente por já estabelecer o tom, no momento em que o criminoso pega a personagem de Lee Remick por trás no escuro de sua garagem e traz-lhe a "proposta" de que ela, caixa de um banco, roube para ele 100 mil dólares, sob pena de ser morta e de ter sua irmã mais nova também assassinada. Sendo uma obra daquele período, o ritmo é um pouco mais lento do que eu gostaria (filmes do gênero de décadas passadas, especialmente noir, costumam ser mais dinâmicos), mas é importante também valorizarmos os momentos de respiro que o filme tem, inclusive para apresentar com carinho o personagem do agente do FBI vivido por Glenn Flord. Outros méritos de ESCRAVAS DO MEDO estão na excelente fotografia em preto e branco de Philip Lathrop e na ótima trilha de Henry Mancini, ambos parceiros de Blake Edwards vindos do sucesso de BONEQUINHA DE LUXO (1961). Filme visto no box Filme Noir – Neo-Noir Anos 60.

A MARCA DA BRUTALIDADE (Prime Cut)

Eis um filme incrível. E incrível no sentido de que quase não se pode acreditar no que se está vendo na tela. Dessas obras estranhas e únicas saídas de uma década igualmente única e cheia de liberdade. Em A MARCA DA BRUTALIDADE (1972), de Michael Ritchie, Lee Marvin é o matador profissional contratado para cobrar o dinheiro de um empresário do ramo de carnes vivido por Gene Hackman, ou matá-lo, se for preciso. Esse plot é muito simples; o que importa é o que vemos no meio de tudo, incluindo jovens mulheres escravizadas à venda em pequenos currais, os maiores vilões sendo matadores de animais que transformam seus inimigos em salsicha, e uma visão aterrorizante do Kansas, numa feira aparentemente ingênua, quase como uma antecipação do lado doentio da América profunda de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. Lee Marvin está fantástico como o homem de poucas palavras, muita ação e muita coragem e Hackman está mais uma vez perfeito como vilão. Sissy Spacek é a personagem feminina mais importante do filme, que representa a inocência, mas que também tem um estranho espírito de aceitação de seu destino como pessoa objetificada. As cenas de ação são de tirar o fôlego, principalmente uma que acontece num espaço aberto. Deixaria o Hitchcock de INTRIGA INTERNACIONAL orgulhoso. Filme visto no box Cinema Policial VII.

domingo, maio 19, 2024

BEBÊ RENA (Baby Reindeer)



Dias difíceis. Aliás, semanas. No mês de abril estive doente todos os dias. E passei poucos dias em casa descansando, de modo que não repousei o bastante para que ficasse curado e logo ficava doente novamente de outra virose ou coisa parecida. E, em maio, posso até estar melhor dessas gripes e alergias, mas a conta de não ter me tratado adequadamente chegou sob forma de aumento de irritabilidade, ansiedade e angústia. A quantidade de vezes em que estou tento acessos de raiva durante as aulas tem aumentado e isso tem me deixado preocupado. Porém, acredito que isso pode ser bom para que eu fique atento para me policiar, respirar fundo ou buscar mais ajuda profissional.

No meio desse cenário, opto por ver uma minissérie nada adequada para quem anda tendo (ou já teve) problemas de ansiedade, autoestima ou até algo mais grave, como é o caso da questão central da obra, criada, escrita e protagonizada por Richard Gadd. Ele interpreta a si mesmo, conta sua história dramática de assédio, abuso, profunda inquietação espiritual e insegurança. Enfim, ele se expõe, agora para todo o mundo, depois de se expor para o Reino Unido, tudo aquilo que o assombrou. E, para surpresa dele, e de muitos, BEBÊ RENA (2024) está sendo um sucesso estrondoso.

Graças ao burburinho, ao tanto de exposição e de debate nas redes, acabei não resistindo e finalmente vendo – tenho evitado ver séries, pois fico sempre achando que estou perdendo de ver os filmes. Não é das obras mais agradáveis de ver, do ponto de vista do bem-estar espiritual que traz, mas acho que é justamente por isso (e também por todo um trabalho bem desenhado de roteiro e atuações) que BEBÊ RENA deve ser visto.

Há tempos não vejo algo tão psicologicamente incômodo. E quando o rumo da história parece não trazer algo pior para o protagonista, eis que um poderoso flashback, no antológico quarto episódio, o joga no fundo do poço. Em alguns momentos fiquei pensando se o filme não estaria sendo um pouco gordofóbico ao pintar a personagem de Martha (Jessica Gunning) daquela maneira, mas imagino que não poderia ser diferente, levando em consideração o interesse em torná-la semelhante também fisicamente à verdadeira stalker.

Para quem não sabe, a série conta a história de um barman e aspirante a comediante (na verdade, um comediante fracassado) que começa a ser perseguido por uma mulher com antecedentes criminais por causa de situação semelhante. No começo, ele a vê como uma mulher triste no bar e oferece uma bebida para ela. Em troca, ela retribui com sorriso e muitos elogios àquele homem que se via como alguém desprovido de talento. Mas o mais assustador é o tanto que aquela mulher passou a enviar centenas de mensagens de e-mail para ele todos os dias. E o que poderia ser algo fácil de se encerrar, graças às ações dele, acaba tomando contornos gigantescos e assustadores. 

O que mais dói na minissérie é o quanto é uma obra sobre duas pessoas que têm uma autoestima muito baixa, a ponto de se perderem em suas vidas. Depois de terminar de ver, é preciso desintoxicar, buscar algo mais leve. Ou talvez parar para escrever sobre a série, pensando, talvez, até no quanto temos de comum com um daqueles dois personagens. E pensar isso não deixa de ser também perturbador e assunto para muitas sessões de terapia.

+ UMA MINISSÉRIE, UMA TEMPORADA DE SÉRIE E UM ESPECIAL

A QUEDA DA CASA DE USHER (The Fall of the House of Usher)

Uma tristeza para quem é fã do trabalho de Mike Flanagan ver esta minissérie que parece se arrastar sem fim enquanto a vemos (eu passei meses para conseguir acabar). O próprio último capítulo parece interminável. E olha que não é pelo fato de ter muitos diálogos, muito texto. Afinal, MISSA DA MEIA-NOITE (2021), a provável obra-prima maior de Flanagan, também tem. Desde os primeiros capítulos que comecei a achar que o problema de A QUEDA DA CASA DE USHER (2023) é a falta de algo que está muito presente na obra do diretor e roteirista: o amor. Esse sentimento que nutrimos por seus personagens é visto com muita força especialmente em A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), mas aqui ele resolve fazer uma obra com personagens odiosos. Até aí não vejo exatamente um problema, estamos acostumados com isso, em outras séries, ou outros filmes. Mas ele não consegue fazer algo bom disso, mesmo aproveitando as várias homenagens a Edgar Allan Poe, que aos poucos acabam ficando irritantes e prolongadas. No fim das contas, a melhor impressão que guardei da série foi a reinvenção de Mark Hammil, como o faz-tudo da família Usher. No mais, claro que desejo boa sorte a Flanagan, que está agora em nova casa, depois de encerrar seu contrato com a Netflix.

LOKI – SEGUNDA TEMPORADA (Loki – Season 2)

Um caso muito especial o de LOKI, uma série feita com tanto cuidado e com tanto carinho que pode até ser vista independente dos filmes e de conexões com os quadrinhos. Se pensarmos no quanto a Marvel tem pisado na bola, então, LOKI, em especial nesta segunda temporada (2023), acaba se destacando mais ainda. É tudo de alto nível. Os atores são incríveis (Tom Hiddleston, Owen Wilson, Sophia Di Martino, Wunmi Mosaku, Jonathan Majors, Gugu Mbatha-Raw), o roteiro é ótimo (inclusive os diálogos), a direção de arte e fotografia são lindas etc. A história é diferente de tudo que já vi: uma sci-fi com abertura para a fantasia sobre livre arbítrio, multiverso e redenção (sacrifício). E todo o carinho com os personagens e com o visual retrô se manifesta dos créditos à música. Confesso que não estou ligando muito para a relação da série com o futuro da Marvel. Mas vai que eles acertam. Até porque Michael Waldron, o criador, roteirista e showrunner de LOKI será roteirista também de alguns projetos importantes do estúdio.

INVENCÍVEL - ATOM EVE (Invicible – Atom Eve)

Nem sabia da existência deste episódio especial de INVENCÍVEL centrado em Samantha, a Eve Atômica, mais especificamente suas origens. E o interessante é que, pelo que pude ver nos primeiros episódios da segunda temporada, que ainda não terminei, a personagem começou a ganhar mais espaço. Apresentar suas origens é uma maneira de nos apresentar ao passado doloroso da personagem, que nasceu de um experimento científico e foi parar na casa de um casal normal. A história de INVENCÍVEL - ATOM EVE (2023) acontece antes de Mark Grayson descobrir seus poderes. Como sendo uma história de adolescente, a questão do sentimento de inadequação se mostra presente, ainda mais sendo Samantha alguém que se vê totalmente sozinha no início de sua jornada pessoal. O estilo do desenho é o mesmo da série, bem simplificado e sem tanto capricho. Não que isso faça tanta diferença. Gosto das cenas de luta perto do final e do quanto elas funcionam para enfatizar o teor dramático da história.