domingo, dezembro 08, 2019

A VIDA INVISÍVEL

A reflexão sobre o machismo e a condição opressora vivida pelas mulheres de gerações passadas - nossas mães, nossas avós etc - já era um tema caro a Karim Aïnouz desde seu primeiro filme, o curta-metragem SEAMS (1993), realizado quando o cineasta morava nos Estados Unidos, e que poderia muito bem servir como extra de alguma edição especial em DVD ou BluRay de A VIDA INVISÍVEL (2019), o novo e premiado filme do diretor cearense.

Em SEAMS, Aïnouz entrevista sua mãe, suas tias e sua avó, a fim de saber como era o casamento, como era o relacionamento com os homens no passado. E a presença masculina, na grande maioria dos relatos, se mostrava, para usar um termo atual, tóxica. Em A VIDA INVISÍVEL, o diretor adapta o romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da jornalista pernambucana Martha Batalha, que conta a história de duas irmãs vivendo no Rio de Janeiro dos anos 1950, e que são separadas pelo destino, que aqui recebe o impulso de pessoas masculinas capazes de oprimir, mentir e maltratar essas mulheres. No caso, o patriarca da família de Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) é essa principal mão poderosa e opressora.

Mas, como um filme que abraça o melodrama com todas as forças, A VIDA INVISÍVEL brinca bastante com as ironias perversas da vida, com a forma como tudo parece conspirar para que aquelas duas irmãs não se vejam. A separação das duas ocorre pela primeira vez quando Guida foge com um marinheiro grego e volta para casa grávida e frustrada - o jovem que parecia ser o seu príncipe encantado era na verdade um canalha.

Guida vê como opção voltar para a casa dos pais, mas é expulsa pelo pai, que ainda conta que a irmã Eurídice está na Europa. Mal sabia Guida que sua irmã havia se casado com um homem patético, vivido por Gregório Duvivier, e que morava ali mesmo, no Rio de Janeiro. A cena do casamento e a noite de núpcias do novo casal passa toda a sensação de desconforto extremo da mulher. Na verdade, ela é praticamente estuprada na primeira noite. A imagem dos dois se olhando no espelho, após o sexo nada bom para a jovem, é memorável.

Enquanto Guida se esforça para viver uma vida de mãe solteira, Eurídice tenta não engravidar, a fim de conseguir sua tão sonhada vaga em um conservatório. Ela é pianista e gostaria muito de estudar piano, se aprofundar naquilo que mais ama. As duas, porém, vão vivendo uma vida de frustrações - Guida não consegue novos relacionamentos estáveis com os homens e Eurídice acaba engravidando sem sua vontade. O filme também afasta uma visão romântica da maternidade.

É importante destacar que nossas duas protagonistas não são mulheres conformadas com suas condições no mundo do patriarcado. Guida é independente e tenta ser alegre, ir a festas e ter aventuras passageiras com alguns homens; Eurídice, por sua vez, tenta, à sua maneira, mesmo grávida, a vaga no conservatório. Enquanto isso, o filme vai entrecortando a narrativa com as cartas que Guida envia para a irmã, com o endereço de seus pais, sonhando que um dia elas seja respondidas. Infelizmente, passam-se anos e as cartas não chegam a Eurídice.

É uma situação bastante triste, mas A VIDA INVISÍVEL, se abraça o melodrama, está mais perto de um tipo de melodrama mais duro, como o do alemão Rainer Werner Fassbinder, do que de algum exemplar hollywoodiano, como os filmes de Leo McCarey, que provocam o choro com mais facilidade. Aqui o choro fica preso na garganta, pelo menos em boa parte da metragem. Há uma busca pelas cores saturadas na fotografia de Hélène Louvart, responsável pela direção de fotografia de HAPPY AS LAZZARO, de Alice Rohrwacher, e o uso do vermelho com certa constância, além da umidade do verde das árvores. O filme foi gravado em película com uma câmera intacta de 1960, o que passa uma impressão de obra saída de tempos atrás, embora haja um diálogo direto com o momento atual.

E, há, claro, a presença maravilhosa de Fernanda Montenegro como a versão idosa de Eurídice, para fechar com chave de ouro este trabalho, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes, e um dos favoritos ao Oscar de filme internacional. Karim Aïnouz e toda a equipe, incluindo o produtor Rodrigo Teixeira, merecem todo o sucesso que a obra anda conquistando mundo afora. E isso em um momento necessário para o cinema brasileiro, que ao mesmo tempo que chegou a um ponto de excelência e de visibilidade mundial em festivais, segue sendo atacado por um governo estúpido. Estúpido, burro e perverso, como o pai de Eurídice e Guida.

+ TRÊS FILMES

CARCEREIROS - O FILME

Acredito que qualquer episódio da série televisiva seja melhor do que este longa para cinema, que se propõe centrar mais na ação e menos nos dramas dos personagens. Se fosse um bom filme de ação, os problemas de roteiro e de construção de personagens seriam perdoados. Mas infelizmente o que vemos é uma edição picotada para disfarçar a incompetência na construção de cenas de ação, muito tiro no escuro para deixar o espectador desnorteado, mas que, no fim, acaba deixando-nos desinteressados do produto. Uma pena que tanta gente boa tenha sido chamada para algo que não vingou. E é melhor o José Eduardo Belmonte voltar a fazer filmes pequenos. Para provar que ele ainda é relevante. Ano: 2019.

DIZ A ELA QUE ME VIU CHORAR

O filme de Maíra Bühler lembra CORPO DELITO e BARONESA, tanto por traçar histórias de pessoas com uma câmera quase sempre parada e que parece tentar não se intrometer no drama dos personagens. Aqui vemos um grupo de pessoas, a maioria delas usuárias de crack, que moram em uma espécie de hotel, feito na época do governo do Haddad. Vemos as paixões dessas pessoas (seja por alguém, seja por causa da violência), o quanto estão deficientes de ter um pensamento mais lúcido devido ao vício na droga, mas também muito sentimento de amor entre as pessoas. O fato de a câmera não mostrar direito o ambiente do quarto em que vivem e mais enquadramentos nos rostos faz com que fiquemos um tanto desconfortáveis. Mas isso imagina-se ser a proposta do filme. Ah, a canção do repertório de Tim Maia que dá título ao filme ("Pede a ela") é cantada por um dos morados e é de arrepiar. Direção: Maíra Bühler. Ano: 2019.

O JUÍZO

Importante lembrar que o primeiro longa de Andrucha Waddington foi um filme de gênero: o bom GÊMEAS (1999). Passadas algumas décadas, o diretor aproveita a onda do terror nacional para contar esta história de uma família atormentada pelo pecado de um patriarca, na época da escravidão. É um filme bem estranho (o que é o lado positivo) e com uma aparência feia (a única coisa bonita é a Carol Castro, quase um contraponto a tudo), fotografia sem a menor preocupação em parecer bela e uma câmera na mão que lembra alguns exemplares do terror contemporâneo vindos dos Estados Unidos. O garoto que faz o filho do casal é interpretado pelo filho de Fernanda Torres (aqui como roteirista) com o diretor. No mais, como história, vale pensar sobre possíveis aproximações de espíritos em momentos ébrios. Ano: 2019.

domingo, dezembro 01, 2019

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York)

Chegará o dia em que os filmes dos anos 2010 de Woody Allen serão revalorizados. Claro que isso só o tempo dirá, mas, a impressão que dá, vendo UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (2019), é que o tom do filme lembra bastante o de algumas obras de Éric Rohmer ou de Hong Sang-soo. Não há um compromisso com o naturalismo nas interpretações, no ritmo das falas. No caso do filme de Allen, a velocidade dos acontecimentos é coerente com a agilidade dos diálogos.

Há, como sempre a projeção da própria persona de Woody Allen em seus personagens, e isso se vê em ambos os protagonistas. Enquanto Timothée Chalamet simboliza aquele aspecto mais amargo e pouco entusiasmado com a vida, ainda que não tanto quanto o protagonista de HOMEM IRRACIONAL (2015), que chegava ao niilismo; temos a personagem entusiasmada, vivida com encanto por Elle Fanning.

Ele vem de uma família abastada de Manhattan, embora não fique nada à vontade com suas origens e viva fugindo dos familiares e de uma festa que deveria estar presente; ela também vem de família rica, seu pai é um banqueiro em Tucson, Arizona, mas é alvo de chacota, por causa do lugar de origem pelos amigos nova-yorquinos de Gatsby (personagem de Chalamet), que a consideram uma caipira.

O filme começa com uma narração em voice-over por Gatsby, que confessa estar apaixonado por Ashleigh (Fanning), e isso lhe traz mais prazer de viver. Ela precisa ir a Nova York para entrevistar um famoso diretor de cinema para seu trabalho na faculdade e os dois partem para um par de dias em Manhattan. Gatsby tinha seus planos para o dia com Ashleigh: visitar museus, comer em bons restaurantes, passear bastante.

Mas aí surgem alguns empecilhos, já que o diretor (Liev Schreiber), muito provavelmente por parecer atraído pela jovem estudante, decide dar-lhe um furo de reportagem, dizer o quanto está desgostoso com o projeto e ainda por cima mostrar uma prévia do novo filme, ainda em fase de produção. Uma oportunidade dessas Ashleigh não ia perder. E por isso vai adiando o encontro com o namorado, que vai sendo cada vez mais deixado de lado.

As trajetórias de Gatsby e Ashleigh vão seguindo por caminhos opostos com relação ao encaminhamento de como ver a vida: enquanto ela parece uma criança em uma loja de doces à frente daquele universo hollywoodiano, com homens mais velhos da indústria bastante interessados sexualmente naquela jovem bela e com um figurino que lembra uma colegial, ela parecia totalmente dona da situação, tanto por ser desejada até mesmo por um ator símbolo sexual (personagem de Diego Luna).

Enquanto isso, sentindo uma falta enorme da namorada, Gatsby visita um set de filmagens de um amigo estudante de cinema e dá de cara com a irmã de uma ex-namorada, Chan (Selena Gomez), uma personagem atraente. A cena do beijo dos dois no carro na filmagem de um dos takes é um dos pontos altos da temperatura erótica do filme. A outra cena boa, sensualmente falando, envolve a chegada de Ashleigh à casa do personagem de Diego Luna. Há quem veja a situação de Ahsleigh, ao final dessa situação, como sendo humilhante, e talvez seja mesmo, mas há também algo de belamente erótico e perverso.

Paralelamente, enquanto Ashleigh, recebe uma bofetada ao ser exposta ao doce e ao amargo do showbizz hollywoodiano, Gatsby, ao ter uma conversa com a mãe, passa a ter uma ideia melhor de sua vida e de suas origens. Assim, UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK é um filme que apresenta uma visão agridoce da vida, misturando tanto o romantismo de uma obra como MAGIA AO LUAR (2014), quanto a amargura e a certeza de que a vida é que dá as cartas de CAFÉ SOCIETY (2016).

Completando tudo isso, a fotografia linda do mestre Vittorio Storaro, que trabalhou com Allen no anterior RODA GIGANTE (2017), apresenta uma luz tão bela e tão própria do trabalho do fotógrafo, que só é um pouco suavizada pela presença da chuva, símbolo das situações emocionalmente instáveis da vida de todos os personagens.

Além do mais, não deixa de ser um alívio adentrar mais uma vez o universo familiar e delicioso dos filmes de Allen no cinema, depois de tanta confusão causada pelas acusações de sua filha adotiva, que puseram novamente um dedo na ferida de algo que repercutiu na década de 1990 e que prejudicou a reputação do cineasta nesse momento de caça às bruxas, atrapalhando sua rotina anual de produções. Mesmo agora, depois de ter entrado em um acordo com a Amazon, UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK segue inédito em seu país de origem. Felizmente, Allen já tem um novo filme em fase de pós-produção, rodado na Espanha.

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CADÊ VOCÊ, BERNADETTE? (Where'd You Go, Bernadette)

Muitas vezes a gente se pergunta o motivo que faz certos cineastas abraçarem certos projetos. A história de uma arquiteta que tem problemas de sociabilidade teria provocado alguma identificação ou algo parecido por parte de Richard Linklater? De todo modo, por mais que tenhamos um filme com problemas de ritmo, mesmo querendo ser rapidinho nos diálogos e tal, o que mais conta é a presença sempre radiante de Cate Blanchett, e de um punhado de cenas memoráveis. Ela cantando com a filha "Time after time", da Cindy Lauper, é emocionante. Assim como são todas as cenas que envolvem a relação dela com a filha. A impressão que fica é que o filme poderia ter saído melhor do que saiu, mas nem sempre se pode acertar em tudo. Ano: 2019.

ENCONTROS (Deux Moi)

É o tipo de cinema fofo, com direito até a um gatinho filhote adotado e que rouba a cena algumas vezes. O filme lembra o argentino MEDIANERAS - BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL, e mostra a rotina de solidão de um rapaz e uma moça que moram vizinhos, mas que seguem em busca de alguém que sirva para eles. Divertido o paralelismo do que acontece na vida deles, como o fato de ambos frequentarem psicanalistas, entre outras coisas. François Civil está se especializando em boas comédias românticas. Bom pra ele. Ana Girardot também é uma moça que além de bonita é muito carismática, como já tínhamos podido ver na série LES REVENANTS. Direção: Cédric Klapsch. Ano: 2019.

A TABACARIA (Der Trafikant)

Um filme um tanto morno, mas que tem as suas qualidades, especialmente a presença de Bruno Ganz como um simpático Sigmund Freud, aqui dando conselhos a um jovem que quer conquistar uma moça. Aliás, que moça! Uma pena que o filme dê pouco espaço para a presença da garota, já que ela rouba a cena sempre que aparece. Trata-se da russa Emma Drogunova. A história se passa momentos antes do início da Segunda Guerra Mundial, quando a Áustria já estava quase toda ocupada por oficiais nazistas. Aos poucos, o filme vai perdendo sua razão de ser. Direção: Nikolaus Leytner. Ano: 2018.

domingo, novembro 24, 2019

CORPO DELITO

O trabalho de encenação em documentários tem sido bastante comum no cinema contemporâneo. CORPO DELITO (2017), o longa-metragem de estreia de Pedro Rocha, vem engrossar essa categoria de filmes.Mas, por mais que se trabalhe com a encenação, a observação da vida faz com que o efeito do acaso gere situações obviamente inesperadas.

A escolha do protagonista, Ivan Silva, um rapaz que, depois de cumprir oito anos de prisão, está em regime de semiliberdade, usando uma tornozeleira eletrônica que lhe oferece um espaço bastante restrito para locomoção, é problemática no sentido de que não se trata de um personagem carismático - embora não tivesse a obrigação de ser, já que o que vemos ali é a representação de si mesmo, de um homem inquieto, fechado e pouco disposto a disciplinas.

Em nenhum momento o filme diz qual crime Ivan cometeu para ter cumprido esse tempo na prisão e ainda estar cumprindo o restante em semiliberdade. Mesmo assim, é difícil não escapar de fazer algum julgamento a Ivan, que, ainda por cima, se mostra incomodado com a tornozeleira (que ele chama de pulseira), afirmando que ela tem atrapalhado sua vida, tornando-a quase tão incômoda quanto a vida na prisão. Atormenta-lhe a rotina de ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa; de não poder largar a família ou o trabalho, como se essa também não fosse a rotina de pessoas que vivem sem tornozeleiras. Se a intenção do diretor é tornar Ivan e também José Neto, seu amigo, personagens fáceis de despertar empatia, talvez essa intenção tenha sido um tanto frustrada.

Aos poucos o filme passa a trazer mais forte a presença de José Neto, o amigo de Ivan que está em liberdade e vai aonde deseja ir. É de certa forma libertador para o espectador sair um pouco dos ambientes fechados (casa de Ivan, local das entrevistas com as autoridades para reavaliar seu comportamento), mas é também incômodo no sentido de que percebemos que a passagem de José Neto por ambientes de pessoas abastadas parece dissonante, como na cena em que ele vai comprar um par de tênis em um shopping center e sua figura parece suspeita, quase perigosa, para um segurança.

O fato de as gravações na Favela dos Índios terem sido feitas entre 2014 e 2016 faz com que muitos hiatos temporais sejam sentidos ao longo da narrativa. Pela escolha em não utilizar depoimentos, a trama é entendida a partir dos diálogos, e certas situações não ficam muito claras, como, por exemplo, o que houve para que Ivan fosse retirado do trabalho na Fábrica-Escola, que poderia ajudá-lo a diminuir seu tempo com a "pulseira" e ser visto com bons olhos pelas autoridades que estavam acompanhando seu processo.

Uma das imagens mais surpreendentes do filme é a de Ivan colocando papel alumínio para burlar o serviço de monitoramento da tornozeleira eletrônica. Trata-se de um momento de certa forma transgressor, como se o diretor estivesse sendo cúmplice daquele crime. No entanto, o fato é que Ivan já estava fazendo aquilo há alguns dias e esta cena foi encenada, a pedido do diretor, para que sua história fosse contada.

Como uma obra de tensões, elas transparecem nos mais simples diálogos ao longo da narrativa. É o caso da conversa na praia entre José Neto e um amigo. Nota-se que há silêncios incômodos. À frente de uma câmera muitas coisas não são ditas, mas é possível perceber que a cena em que Ivan e José Neto cantam "V.L. (Parte 1)", dos Racionais Mc's, é um momento não só de maior espontaneidade, mas um momento também em que aqueles jovens marginalizados encontram em uma forma de arte um instrumento de grata identificação e certa alegria.

Talvez tenha faltado ao filme mais momentos assim, em que o público passe a entender ou lembrar que a realidade dessas pessoas e as consequências violentas de seus atos são principalmente frutos de um sistema social e político perverso. Por isso a cena final no terraço, com dois personagens olhando os prédios ricos em contraste com a favela, tenha sido uma escolha das mais felizes de CORPO DELITO.

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ESTRADA PARA YTHACA

É aparentemente um filme em que nada acontece. Quatro amigos saem em estrada, param, fazem comida, comem, dormem, andam, dirigem, não há muitos diálogos. O filme foi construído à medida que a viagem foi acontecendo, em homenagem a um amigo que partiu prematuramente. O sofrimento e o luto deles talvez coincida um pouco com nossa inquietação espiritual, ou talvez eles tenham conseguido passar esse mal estar, essa tristeza nas imagens feitas como que em câmera amadora. Direção: Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Ano: 2010.

OS MONSTROS

Uma ode à liberdade, mesmo que a liberdade signifique incomodar e fazer com que poucos gostem do trabalho artístico. Os personagens são pessoas que se sentem deslocadas no mundo, com características de artistas de vanguarda que ninguém ou quase ninguém se importa. A parte final é até um pouco difícil de ver, com a extensão da proposta de mostrar aquilo em um intervalo de tempo considerável aquilo que seria descartado ou simplesmente mostrado rapidamente em um filme comum. É filme para ver com o espírito calmo, mas ainda assim sair da experiência com inquietação. É possível que eu tenha gostado mais desse do que de ESTRADA PARA YTHACA (2010). Direção: Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Ano: 2011.

BATE CORAÇÃO

É um filme cheio de problemas, mas dá para se divertir em alguns momentos. Há até momentos em que a emoção parece contagiar. Aqui temos um misto de filme espírita com filme LGBT e filme de mensagem (sobre doação de órgãos). O que mais incomoda é a própria ideia do filme de fazer com que o personagem mulherengo garanhão tenha ficado com raiva de ter recebido um transplante de um homem gay. De todo modo, como vivemos num mundo absurdo, é possível que isso de fato aconteça. Direção: Glauber Filho. Ano: 2019.

quarta-feira, novembro 20, 2019

O IRLANDÊS (The Irishman)

Cineastas católicos costumam lidar com a culpa de maneira muito intensa. Alfred Hitchcock, Abel Ferrara, Clint Eastwood, Robert Bresson, Éric Rohmer são alguns desses exemplos. Basta citar seus nomes para lembrar da temática da culpa em alguns de seus trabalhos mais marcantes. Mas Martin Scorsese, que vem tratando do peso dos próprios atos de seus personagens, e possivelmente dele mesmo, como espelho desses alter-egos, conseguiu chegar a um desses exemplares definitivos em que o remorso acompanha também o espectador, até pela duração e pelo andamento mais pausado e de certa forma pesado de O IRLANDÊS (2019).

Se em alguns filmes de máfia do diretor havia alguns momentos de euforia e alegria dentro daquele universo em que havia também muitas mortes, Scorsese também era mestre em nos mostrar o fundo do poço, a descida aos infernos de seus personagens. Isso acontece tanto em OS BONS COMPANHEIROS (1990) quanto em O LOBO DE WALL STREET (2013), uma espécie de atualização dos filmes de máfia. Porém, o que temos em O IRLANDÊS é algo de natureza distinta, feita com carta branca da Netflix, que investiu os 159 milhões de dólares necessários para a realização deste projeto de mais de dez anos.

O projeto nasceu quando Robert De Niro leu o livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, e ficou fascinado. Comentou com Scorsese, que percebeu o entusiasmo do amigo. Isso aconteceu na época em que De Niro dirigiu O BOM PASTOR (2006). Importante lembrar que Scorsese não se reunia com De Niro e Joe Pesci desde CASSINO (1995). Logo, a expectativa de ver a reunião dos três e mais Al Pacino era grande.

O livro de Brandt conta a história de Frank Sheeran, um hitman da máfia que foi guarda-costas do líder sindical Jimmy Hoffa, e que contou sua própria versão dos fatos envolvendo a misteriosa morte do sindicalista, desaparecido em 30 de julho de 1975, e declarado morto 10 anos depois. É importante não saber detalhes disso para não estragar as surpresas e principalmente o impacto que o filme provoca.

Para viver os personagens na fase mais jovem da vida, agora que todos estão na casa dos 70 anos, Scorsese recorreu a uma tecnologia de rejuvenescimento digital. Até o momento, trata-se do mais bem-sucedido uso dessa tecnologia, embora algumas pessoas reclamem que os rostos ficam jovens, mas o corpo continua se movimentando como o de um velho. No entanto, uma vez que você aceita a brincadeira, é fácil ficar não apenas envolvido, mas também muito impressionado com a interpretação daquelas versões mais jovens de De Niro, Pesci e Pacino.

Especialmente De Niro e Pesci estão sublimes. E pensar que Pesci só aceitou sair da aposentadoria depois de muita insistência de Scorsese e De Niro... Aqui ele faz um papel distinto do que estamos acostumados a vê-lo fazer, geralmente muito elétrico. Em O IRLANDÊS ele é um chefão da máfia gentil, doce até. E com uma fala mais mansa e pacificadora, mesmo lidando com situações em que matar uma pessoa é só parte do jogo.

A narrativa atravessa seis décadas, e isso era um problema difícil de contornar para Scorsese. Ele acreditava que colocar atores jovens para interpretar De Niro e Pesci seria algo inconcebível, levando em consideração o fato de esses atores conhecerem a Nova York da época como a palma da mão e este fato ser importantíssimo para seu filme. E a utilização de próteses e maquiagem nem sempre funciona muito bem. O próprio De Niro fez isso em ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de Sergio Leone, quando teve que envelhecer na base da maquiagem.

Interessante notar que estamos em um ano em que dois cineastas veteranos estão trazendo filmes que denotam um estado de espírito mais reflexivo em torno da velhice. Por isso alguns críticos têm feito comparações de O IRLANDÊS com DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar. Ambos os filmes são trabalhos que lidam com o envelhecer, com a dor, com os arrependimentos, com as mudanças provocadas pelo tempo em seu modo de ver a vida.

Outra coisa que não deixa de ser impressionante no filme de Scorsese é o quanto o diretor tinha em mãos atores do porte de Harvey Keitel e Bobby Cannavale e se dá ao luxo de utilizá-los tão pouco. O mesmo poderia ser dito da personagem de Anna Paquim, que vive um das filhas de Frank Sheeran, mas sua interpretação com uma ausência de falas bem explícita é compensada com o olhar e com uma espécie de confronto que ela faz com o pai. Aquilo é forte o suficiente para magoar o coração de um homem velho cheio de pesos do passado nos ombros.

Um peso que o personagem leva como uma cruz. Velhinho, ele precisa de muletas, cai em uma cena. O filme mostra sua decadência física, seu desaparecimento. Como se ele precisasse daquela trajetória toda para que compensasse, de algum modo, o mal que fez no passado. Saímos do cinema diferentes de quando entramos. E não apenas por termos acabado de ver uma obra-prima.

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ALMA EM SOMBRAS (The Clay Pigeon)

Um dos primeiros longas de Richard Fleischer foi um film noir curtinho, de 63 minutos, e bem movimentado. Conta a história de um ex-soldado da marinha que acorda de um coma desmemoriado e descobre que está prestes a ir à corte marcial por ter matado um colega. Ele foge do hospital em busca de provar a própria inocência e acaba encontrando uma série de obstáculos. Interessante que há várias cenas diurnas. A mais movimentada, a da perseguição dos capangas ao protagonista acontece à luz do dia, o que foge um pouco ao que geralmente se vê nos filmes desse período. Ano: 1949.

AMOR ATÉ AS CINZAS (Jiang Hu Er Nü)

Provavelmente é o filme que menos gostei do Jia Zhangke, mas ainda assim é admirável em muitos aspectos. Gosto especialmente quando ele foca na solidão da personagem feminina, e menos quando está em cena a sua contraparte. É sempre bom viajar no tempo e espaço para uma cultura tão diferente com a chinesa e é assim que nos sentimos a maior parte do tempo, embora eu ache que tenha faltado mais força na maneira como nós nos importamos com os personagens.

MONSIEUR & MADAME ADELMAN

Gosto muito da primeira metade do filme, quando os personagens estão jovens. A coisa vai ficando meio chata com a velhice. Se a intenção for mostrar que a velhice é chata para um casal, deu certo. Mas não creio que foi isso. Adorei o sorriso lindo de Doria Tillier. Na trama, no funeral do marido, após uma união de 45 anos, a esposa passa a contar a um jornalista a história de sua relação com o renomado escritor que foi seu marido incluindo segredos bastante íntimos e capazes de destruir a memória do morto. Direção: Nicolas Beldos. Ano: 2017.

quarta-feira, novembro 13, 2019

TÓKIO EM DECADÊNCIA (Topâzu)

Na década de 1990, no auge dos meus twenties, a minha sede por filmes eróticos, com temas abordando a sexualidade e certas fantasias sexuais era bem forte. É fácil entender pela idade, com os hormônios transbordando, mas sei que esse tipo de interesse em erotismo/pornografia não é algo comum a todos. Pra mim continua sendo, aliás, ainda que de maneira um pouco mais suave.

Embora não seja uma novidade da década em si o erotismo no cinema (sempre existiu, em menor ou maior grau, dependendo da censura e da cultura de cada país), podemos dizer que INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, foi um divisor de águas e trouxe uma chuva de softcores nas locadoras, no cinema e na programação das TVs.

TÓKIO EM DECADÊNCIA (1992), mesmo sendo do mesmo ano do filme estrelado por Sharon Stone, chegou ao Brasil apenas três anos depois. Não lembro se chegou a passar em alguma sala de cinema na cidade – talvez não – e o vi pela primeira vez em VHS. Como se trata de um filme japonês, já se espera algo um pouco mais bizarro e incomum de nossos irmãos nipônicos.

Abordando o universo S&M, o filme de Ryû Murakami, romancista autor de AUDIÇÃO (1999), de Takashi Miike, foi adaptado da obra do próprio Murakami. Pelo que eu li pela internet ele adaptou cinco histórias e a transformou na narrativa de Ai, uma jovem pura e inocente, vivida por Miho Nikaido, uma atriz que fez eu me lembrar de uma personagem de um filme recente de Kiyoshi Kurosawa, O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO.

A cena que minha memória tratou de tornar mais forte é uma das primeiras. Ai é contratada por um gângster da Yakuza para satisfazer os seus desejos sádicos. Ela deve ficar na janela de um grande edifício seminua, dançando sensualmente, se contorcendo, até que aquela situação de humilhação se torne tão excitante que ela fique bem molhada. E passam-se horas, a noite chega, e aquela pobre menina ficou de fato muito excitada. O gângster a apalpa para verificar.

Como fantasia erótica S&M, achei isso fabuloso. E nem foi a única coisa que Ai fez durante aquele período de prestação de serviços com esse homem. Mais situações aparecerão durante a longa noite, principalmente quando chega a esposa do sujeito. Mas foi aquela cena da janela que me pegou que não saiu da minha memória e me fez querer ver o filme de novo, desta vez em uma ótima cópia.

E uma coisa que eu reparei nesta revisão é que o filme ganha ainda mais força no aspecto humano, no quanto a obra aprofunda os dramas existenciais de Ai, sua vontade de encontrar um grande amor, mesmo tendo que trabalhar para esse tipo de cliente. Se o filme fosse apenas uma sucessão de cenas excitantes e exploratórias já seria muito bom. Consegue transcender esse aspecto, com suas cenas mais longas e contemplativas.

A primeira cena, da injeção, passa uma sensação de impotência, de uma impossibilidade de sair do jogo, uma vez entrando e já dá o tom de algo sombrio. E também vale destacar a cena da dominatrix humilhando o seu cliente, que age feito um cachorrinho e é obrigado a beber urina. Não é bem obrigado, na verdade. Ele estava curtindo aquilo, foi para isso que ele contratou os serviços dessa outra moça, que enricou com esse negócio. Por tabela, o filme também acaba falando do vazio existencial desses homens, sejam eles sádicos ou masoquistas. E o Japão talvez seja um misto de sociedade doente, mas ao mesmo tempo em que tem conseguido se libertar de certos tabus através da arte (cinema, mangás, literatura etc.).

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LÁMEN SHOP (Ramen Teh)

Que filme bonito, hein! Além de tratar da comida de maneira quase espiritual (como é comum de ver em algumas obras japonesas), tem toda uma questão familiar que acaba falando mais forte e traz muita emoção. Fui ver o filme achando apenas ser ok e acabei me comovendo bastante. Há uma questão política envolvendo a relação Japão/Singapura também e que pode passar batido por quem não conhece nada dos países. Mas o forte é mesmo a relação familiar e a questão da comida. Por mais filmes do Eric Khoo no circuito! Ano: 2018.

AFTER

É melhor do que eu esperava. Muito por causa da atriz, uma graça chamada Josephine Langford. Ela lembra tanto a Sarah Michelle Gellar quanto uma versão teen de Cybill Shepherd. E por isso muito do interesse do filme jaz em sua personagem e no modo como ela vê a vida como algo muito excitante, já que ainda é virgem e está bem apaixonada pelo rapaz que conhece na faculdade. Não há cenas de nudez, mas as cenas de amor/sexo são bem sensuais e bonitas. Interessante ver Peter Gallagher, que eu conheci em SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, fazendo um papel pequeno em um filme como esse, que lembra tanto CREPÚSCULO quanto CINQUENTA TONS DE CINZA em diversos aspectos. Direção: Jenny Gage. Ano: 2019.

RAINHA DE COPAS (Dronningen)

É um filme interessante para causar reflexões sobre o caso apresentado: mulher passa a fazer sexo com o enteado de 17 anos. Confesso que fiquei sem entender se o filme é moralista, ou se pensar que é moralista já denota alguém com problema. De todo modo, é um drama tenso e envolvente, com uma ótima atriz dinamarquesa fazendo um papel forte em uma história controversa, com direito a uma cena de sexo bastante ousada (ainda que curta) para os dias de hoje. Direção: May el-Toukhy. Ano: 2019.

segunda-feira, novembro 11, 2019

IMPÉRIO DO CRIME (The Big Combo)

Recentemente fiz uma farra de compras com os descontos nos boxes da Versátil na Livraria Cultura. Acabei comprando cinco caixas da série Filme Noir, talvez a que apresente mais títulos. O filme que escolhi para inaugurar os boxes foi este O IMPÉRIO DO CRIME (1955), de Joseph H. Lewis, que já estava nos meus planos de ver um tempo atrás, mas por alguns motivos que nem me lembro mais, acabei deixando para outro dia.

Uma das coisas que me encantam no gênero é o quanto aquele universo parece irreal, mas muito representativo da realidade. As ruas e as casas mal iluminadas, os tons um tanto acima dos diálogos, o fato de termos personagens que borram a fronteira entre o bem e o mal, como o charmoso vilão, vivido por Richard Conte, ou sua namorada, a loira platinada vivida por Jean Wallace, que não resiste à lascívia do amante, mesmo sabendo que ele é um gângster. E há a figura do herói capaz de peitar o chefão, vivido por Cornel Wilde. Ele é o policial obcecado em prender o mais poderoso gângster da cidade.

Em entrevista a Peter Bogdanovich, o diretor Joseph H. Lewis afirmou que gosta do filme, embora não tanto quanto de MORTALMENTE PERIGOSA (1950). E de fato concordo com ele. Mas IMPÉRIO DO CRIME não ganhou título de clássico por acaso. Ele foi o primeiro filme americano a "mostrar" uma cena de sexo oral (para desespero de Cornel Wilde, marido de Jean Wallace) e foi muito inventivo, para dizer o mínimo, na hora de mostrar a morte de um dos bandidos. E o que dizer da cena da tortura?

O filme também brinca muito com o roteiro intrincado, envolvendo uma mulher misteriosa (só o seu nome é inicialmente citado), suspeitas fortes de assassinato que serviriam de prova para finalmente incriminar o Mr. Brown (Conte), um capitão de um navio que tem algo a esconder, entre outras coisas que vão surgindo, como se luzes fossem sendo acendidas na escuridão. Mais ou menos como faz a personagem de Jean Wallace, apontando um dos faróis de um carro para o grande vilão.

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O ASSASSINO MORA NO 21 (L'Assassin Habite... au 21)

Primeiro filme de Henri-Georges Clouzot, feito durante a ocupação alemã por uma empresa dos nazistas. A fotografia lembra um bocado o expressionismo alemão e se não fosse tão exagerado na quantidade de diálogos seria um filme melhor, com mais tempo para respirar. Ainda assim, funciona em muitos aspectos, principalmente no quesito humor. É uma espécie de whodunit em que um detetive de polícia tenta descobrir quem é o assassino serial dentro de uma pensão cheia de tipos exóticos. Ano: 1942.

TARTUFO (Tartüff)

Não é todo dia que se tem a chance de ver um F.W. Murnau no cinema. O Cine São Luiz está com um projeto de filmes mudos. Vi que são exibições em DVD, mas a qualidade de projeção não deixa nada a desejar. Ainda mais para filmes em preto e branco dessa época. E é impressionante como TARTUFO se mantém atual nesses dias de hoje, em que impera a hipocrisia e a intenção de ganhar dinheiro com a ingenuidade e a fé dos outros. O filme é bem compacto, curto, ainda mais que carrega uma estrutura de filme dentro do filme, mas funciona que é uma beleza. É o menos inspirado dentro os trabalhos do genial diretor que eu vi até o momento, mas ainda assim é uma beleza. Depois deste filme, ele faria FAUSTO (1926) e depois sua obra-prima máxima, AURORA (1927). Ano: 1925.

ELEGIA DE OSAKA (Naniwa Erejî)

Dizem que foi a primeira obra de mestre de Kenji Mizoguchi. Não sei se é verdade. Há tantas outras feitas anteriores a esta. De todo modo, além de mais uma história sobre a mulher sofrendo em um mundo injusto e preconceituoso, é também um filme que tem algo de inventivo no campo formal, como as cenas que mostram a ação do lado de fora da casa. Ainda assim, dos Mizoguchis que eu vi até agora foi o menos brilhante. Ano: 1936.

domingo, novembro 03, 2019

SEGREDOS OFICIAIS (Official Secrets)

Uma beleza este thriller político na tradição dos melhores produzidos pela Nova Hollywood nos anos 70, mas com aquele toque de maior realismo das produções britânicas. Em SEGREDOS OFICIAIS (2019), temos o caso real de uma jovem mulher, Katharine Gun, vivida com brilhantismo por Keira Knightley, que trabalhou em uma agência de inteligência da Inglaterra e que obteve um memorando bombástico que mostrava uma tentativa dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido de pressionar demais países a aderir à guerra contra o Iraque em 2003, tendo como principal desculpa a existência das famosas armas de destruição.

O filme é narrado com uma maestria impressionante, ainda que de maneira bem clássica. Talvez o maior mérito seja do roteiro do que da direção (o diretor Gavin Hood é um dos roteiristas), que consegue amarrar tão bem todos os personagens, que são apresentados nos momentos certos e a trama se costura de uma forma envolvente.

É interessante como certos filmes, mesmo tratando de eventos ocorridos com uma distância temporal relativamente grande, ainda fala ao momento atual. Afinal, estamos vivendo um momento em que vazamentos de informações estão cada vez mais nas manchetes dos jornais. Na Inglaterra, pelo que o filme mostra, o sistema é muito mais seguro e opressivo do que nos Estados Unidos, havendo, possivelmente por isso, muito menos casos de pessoas que têm a coragem de vazar informações.

SEGREDOS OFICIAIS não mostra Gun como uma heroína, mas como uma pessoa comum que sente a necessidade de impedir uma guerra (infelizmente os Estados Unidos iniciam o ataque, mesmo sem o apoio da ONU) e que tem sua vida virada de cabeça para baixo. Seu marido, inclusive, por ser imigrante, corre o risco de ser deportado, e ela corre o perigo de ser presa.

O enredo vai sendo tecido com cuidado e esmero. Após a apresentação da personagem de Keira Knightley e as ações fundamentais para que o memorando ganhe o mundo, somos apresentados aos jornalistas do The Observer, principalmente àquele que escreveria a história, Martin Bright (Matt Smith). Depois entra em cena o advogado Ben Emmerson, vivido por Ralph Fiennes, que será responsável pela defesa da jovem.

O excelente trabalho dos atores e o modo como o filme lida de forma realista o mundo da redação dos jornais e da mídia e todo o drama de ordem kafkiana de Gun, tudo isso contribui para que SEGREDOS OFICIAIS não fique atrás de obras como SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy; CONSPIRAÇÃO E PODER, de James Vanderbilt, ou THE POST - A GUERRA SECRETA, de Steven Spielberg. E para quem não conhece a história real de Katharine Gun, melhor não ler nada, pois o final é surpreendente.

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DOWNTON ABBEY

Pena não ter visto a série para ter podido aproveitar melhor este filme. Não que não dê para entender, mas o segredo, percebe-se, está nas entrelinhas. E há uma vasta quantidade de personagens. Ao menos a trama envolvendo a chegada do rei e da rainha à mansão é divertida, ajuda a manter a agitação pelo lugar e a trazer sentimentos contraditórios: para muitos, há a nostalgia de uma Inglaterra aristocrática e extremamente elitista; para outros a imagem de um bando de pessoas que se fartam da miséria humana para viverem no luxo. Não que isso seja mostrado, mas achei difícil não pensar. Direção: Michael Engler. Ano: 2019.

GUERRA FRIA (Zimna Wojna)

Mais um belo filme de Pawel Pawlikowski. Depois de IDA (2013), a gente fica um pouco mais familiarizado com seu estilo visual, mas não exatamente preparado para tanta beleza nas imagens. O que é isso, meu Deus? Não estou conseguindo me lembrar de outro filme em preto e branco tão bonito visualmente. Quanto à parte dramática, queria ter me apaixonado pela personagem feminina tanto quanto o protagonista. Um pouco menos de frieza ajudaria a nos aproximar. Mas é tudo muito bom e de dar gosto. O céu mais uma vez é destaque. Ano: 2018.

A FESTA (The Party)

O elenco em si já chama a atenção. Onde podemos ver um baita elenco desses em um filme pequeno? E por mais que a diretora Sally Potter não tenha conseguido ser engraçada em cada momento, ela consegue em vários momentos. E todo mundo ali parece estar se divertindo muito. Um barato o personagem do Bruno Ganz. Já a Patricia Clarkson parece estar fazendo o mesmo papel da minissérie SHARP OBJECTS, só que com mais senso de humor (negro). Ano: 2017.