terça-feira, março 02, 2021

LA FLOR



Foi então que eu percebi que eu não queria um filme: eu queria fazer centenas de filmes com elas! Eu queria que "filmes com elas" se tornasse um gênero próprio. Foi então que tive a ideia de fazer um filme que seria todos os filmes.
(Mariano Llamás, em entrevista à revista CinemaScope)

Achei linda essa declaração de Llamás acima, ao falar não apenas da razão de ser de sua obra-prima LA FLOR (2018), mas do quanto ele queria trabalhar com as quatro atrizes, que não eram muito famosas na época do início das filmagens, em 2008. Sim, o filme demorou cerca de 10 anos para ficar pronto. Mas isso é apenas mais um dos fatos extraordinários acerca deste trabalho. E voltando à paixão por suas atrizes, sim, isso é sentido do lado de cá da tela, até porque nos apaixonamos por elas também.

Llamás havia visto as quatro no teatro e simplesmente quis fazer algo com elas. Só que um filme só não era o bastante. Havia muitas ideias, muitos desejos, muitas imagens em sua mente. Por isso LA FLOR se tornou esse objeto estranho e singular, em que temos seis filmes em um ao longo de quase 14 horas. E são filmes com durações bem distintas, sendo que um deles tem cerca de seis horas, outros de duração mais “comercial” e os últimos são algo próximos de curtas-metragens. E são todos eles exercícios com diferentes gêneros cinematográficos.

Quanto às atrizes, são elas: Laura Paredes, que eu havia visto em LA PRINCESA DE FRANCIA, de Matías Piñero, mas em papel pequeno, nem lembrava mais dela; Elisa Carricajo, que também esteve no referido filme de Piñero, e que vi recentemente nos cinemas em UM CRIME EM COMUM, de Francisco Márquez - fiquei impressionado com sua performance; Pilar Gamboa, que havia visto em O FUTURO ADIANTE, de Constanza Novick, também nos cinemas, há um par de anos; e Valeria Correa, cujo trabalho me era até então completamente desconhecido. Nem preciso dizer que surgiu um interesse grande em vê-las mais vezes, assim como surgiu um interesse maior pelo cinema argentino, que tão pouco chega a nosso circuito.

Depois de uma espirituosa explicação e apresentação do filme pelo próprio Llamás logo no início, adentramos o primeiro episódio, que é um filme de horror B sobre uma múmia que aterroriza um grupo de arqueólogos. O episódio em si não tem aquele clima de susto, passa sempre aquela impressão de que "estamos vendo um filme" ou de uma brincadeira que não se leva muito a sério. Mas isso marcou o início de uma das mais bonitas parcerias entre cineasta e elenco que eu já vi.

Esse primeiro filme/episódio não me empolgou tanto assim, mas o segundo foi uma experiência extraordinária. Trata-se de um musical com toques de suspense hitchcockiano. Mas não foi nem o suspense que me deixou em êxtase - embora tenha achado esse aspecto de uma elegância impressionante. O que mais me ganhou foram as canções belíssimas e como elas e a história trazem para o filme um melodrama de cores bem latinas. Foi quando percebi que também estava me apaixonando pela sonoridade da língua espanhola, seja nas canções, seja na voz off que se faz bastante presente nessa história de corações feridos e construções de lendas e narrativas.

Aliás, é impressionante como o cineasta tem um apreço por narrativas clássicas, por mais que seu filme se aproxime de algo mais moderno ou de vanguarda. No fundo, o que vemos e ouvimos é herdeiro do cinema dos mestres. O próprio diretor citou na já citada entrevista sua paixão por diretores como Jean Renoir, Alfred Hitchcock e Roberto Rossellini. Ou seja, LA FLOR é uma ode à narrativa clássica, muitas vezes uma narrativa que muito se assemelha à do romance, seja pela trajetória mais longa, seja pelo prazer com que a palavra em si é usada.

Por mais que em alguns momentos o uso da narração em voice-over pareça uma opção criativa para disfarçar um orçamento modesto, ela funciona também para dar um ar mais amoroso ao filme, principalmente no terceiro episódio, o thriller de espionagem na guerra fria, em que as quatro mulheres são espiãs prestes a encontrar um grupo inimigo em uma área rural da América do Sul, enquanto carregam um homem como refém. Esse terceiro episódio, até pela sua maior metragem, é o que mais explora a força das quatro atrizes. Os flashbacks das histórias de vida de cada uma das quatro engrandecem e muito o filme, ao acentuar suas histórias sofridas, passadas em diferentes partes do globo. Esse terceiro episódio, falado em várias línguas, levou quase seis anos para ficar pronto.

Daí a solução para o quarto episódio ser ainda mais inventiva. O diretor não sabia de fato o que iria fazer, as ideias foram surgindo à medida que ele ia trabalhando com sua equipe filmando árvores. Curiosamente, ele teve uma ideia de um filme que já havia sido feito, FIM DOS TEMPOS, de M. Night Shyamalan, sobre as árvores se voltando contra a raça humana. Seus amigos avisaram que essa ideia já havia sido usada e ele então desistiu. E que bom que desistiu, pois esse quarto episódio tem tanta invenção e surpresas que é difícil não se pegar sorrindo enquanto se assiste. Seja pelos jogos de metalinguagem, seja pela ideia genial de fazer um filme de bruxas.

Nesse quarto episódio as quatro atrizes aparecem pouco, mas aquele final com elas sendo filmadas de maneira íntima e amorosa é tão bonito que a declaração de amor se torna cada vez mais tocante e explícita. Sem falar que, mesmo estando ausentes, nesse filme de quase quatro horas, elas meio que têm seus espíritos sempre presentes e rondando toda parte, como se fossem de fato forças sobrenaturais.

Terminar o projeto com uma homenagem (ou um roubo, como o diretor prefere dizer) a UM DIA NO CAMPO, de Jean Renoir, e depois, com o sexto episódio, fazendo uma espécie de filme mudo emulando pinturas impressionistas, me deixou sentindo falta das vozes, principalmente das vozes das atrizes. Mas foi muito fácil aceitar as opções do cineasta e terminar essa jornada com um forte sentimento de gratidão.

Agradecimentos à Paula por acompanhar comigo essa obra tão desafiadora quanto deliciosa.

segunda-feira, março 01, 2021

GLOBO DE OURO 2021



O Globo de Ouro é uma festa que se justifica, pelo menos pra mim, não exatamente por seus prêmios. É gostoso ver as celebridades do cinema e da televisão juntas para uma festa descontraída e com direito a mesas para cada equipe de filme ou série. Há também o tapete vermelho esplendoroso onde as mais belas mulheres desfilam com seus vestidos cuidadosamente pensados para a ocasião. Mas em tempos de Covid não há isso. O tapete vermelho com as poucas pessoas nem foi televisionado pela TNT (deve ter passado no E!). Nada de mesas com bebidas com os astros e estrelas. As mesas estavam com pessoas que trabalharam nos serviços essenciais. 

A solução dada para a direção do prêmio foi até criativa, levando em consideração a situação. Achei que várias coisas dariam muito errado, inclusive por causa dos escândalos recentes da associação de críticos estrangeiros de Los Angeles. Eles conseguiram fazer uma bela festa, prometeram resolver a questão da representatividade e acredito que o prêmio sobreviverá por vários anos.

Quanto à solução, de trazer Amy Poehler e Tina Fey apresentando a festa distantes fisicamente, uma em Los Angeles, outra em Nova York, e os candidatos "recebendo os prêmios" de suas casas, tudo funcionou bem. No começo, com o primeiro prêmio para Daniel Kaluuya, o microfone ficou mudo e achei que os problemas técnicos seriam a tônica da noite. Felizmente não foi. O próprio Kaluuya conseguiu falar, enfatizando a necessidade da continuidade da militância. De todo modo, podemos destacar pelo menos uma situação esquisita: o prêmio de filme em língua estrangeira para MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE, justamente a produção americana que estava concorrendo. São regras que a organização precisa rever.

Os grandes vencedores da categoria cinema na noite foram NOMADLAND, que ainda ganhou o prêmio de direção para Chloé Zhao, e BORAT - FITA DE CINEMA SEGUINTE, que conquistou o prêmio de ator para Sasha Baron Cohen, que fez piada nas duas vezes que recebeu o prêmio, a primeira agradecendo a Rudy Giuliani e a segunda dizendo que Donald Trump já estava contestando os resultados.

O momento mais emocionante da noite foi a premiação póstuma para Chadwick Boseman, por A VOZ SUPREMA DO BLUES. Quem "recebeu o prêmio" foi a viúva do ator, que, muito emocionada, imaginou as possibilidades de pessoas a quem ele agradeceria em seu discurso, mas disse com tristeza, "eu não tenho as palavras dele, mas temos que usar cada momento para celebrar aqueles que amamos".

Quanto aos prêmios de televisão, é sempre curioso como os indicados funcionam para mim como um meio de me deixar interessado nas séries, minisséries e telefilmes indicados. Alguns indicados já estão na minha listinha. Só não vou dizer quais são, pois posso acabar não vendo.

Os grandes vencedores da noite foram THE CROWN, com quatro prêmios (sendo que havia atrizes que competiam entre si); SCHITT'S CREEK, com dois prêmios, e O GAMBITO DA RAINHA, com dois prêmios, sendo que Anya Taylor-Joy também concorria na categoria de cinema por EMMA..

Agora é torcer/orar para que no próximo ano estejamos vivos e possamos estar de volta à normalidade. Aqui no Brasil não sei se ainda será possível, mas imagino que os americanos terão mais sorte.



Cinema

Filme (Drama): NOMADLAND
Filme (Comédia/Musical): BORAT - FITA DE CINEMA SEGUINTE
Direção: Chloé Zhao (NOMADLAND)
Ator (Drama): Chadwick Boseman (A VOZ SUPREMA DO BLUES)
Ator (Comédia/Musical): Sasha Baron Cohen (BORAT - FITA DE CINEMA SEGUINTE)
Atriz (Drama): Andra Day (ESTADOS UNIDOS VS BILLIE HOLIDAY)
Atriz (Comédia/Musical): Rosamund Pike (EU ME IMPORTO)
Ator Coadjuvante: Daniel Kaluuya (JUDAS E O MESSIAS NEGRO)
Atriz Coadjuvante: Jodie Foster (THE MAURITANIAN)
Roteiro: OS 7 DE CHICAGO
Trilha Sonora: SOUL
Canção Original: "Io Sì (Seen)" (ROSA E MOMO)
Animação: SOUL
Filme em Língua Estrangeira: MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE (EUA)

Televisão

Série (Drama): THE CROWN
Série (Comédia/Musical): SCHITT'S CREEK
Minissérie ou Telefilme: O GAMBITO DA RAINHA
Ator de Série (Drama): Josh O'Connor (THE CROWN)
Ator de Série (Comédia): Jason Sudeikis (TED LASSO)
Ator em Minissérie ou Telefilme: Mark Ruffalo (I KNOW THIS MUCH IS TRUE)
Atriz de Série (Drama): Emma Corrin (THE CROWN)
Atriz de Série (Comédia): Catherine O'Hara (SCHITT'S CREEK)
Atriz em Minissérie ou Telefilme: Anya Taylor-Joy (O GAMBITO DA RAINHA)
Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: John Boyega (SMALL AXE)
Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Gillian Anderson (THE CROWN)



domingo, fevereiro 28, 2021

DEPOIS A LOUCA SOU EU



A primeira vez que senti um ataque de pânico acho que foi quando eu voltava de uma viagem, lá pelo início de 2007. Nem lembro que viagem foi, na verdade. Mas lembro de outra ocasião, no início do mesmo ano, dessa vez dentro de uma sala de cinema, quando via DIAMANTE DE SANGUE. Forte taquicardia e provável queda de pressão, que só não foi pior pelo fato de eu me sentir mais ou menos seguro, dentro de uma sala escura. O dia mais crítico, porém, aconteceu dentro de uma sala de aula, no meio de uma explicação que eu dava aos alunos do turno da noite. Acho difícil explicar o que senti, além da aceleração dos batimentos cardíacos, da queda de pressão e da sensação de que ia morrer. Pedi licença à turma e me dirigi à sala da diretora. Ela notou que eu estava não estava nada bem, e falou para eu ir ao posto de saúde que ficava ali vizinho à escola. 

O médico foi atencioso e deixou claro que se tratava de transtorno de ansiedade, que aquilo que eu tinha experienciado se tratava de um ataque de pânico. Deu-me um atestado de 15 dias, falou pra eu fazer caminhadas todos os dias pela manhã por uma hora e recomendou uma ida a um especialista o quanto antes. As caminhadas foram boas e me ajudaram bastante, mas os dias seguintes não foram fáceis. O antidepressivo que um psiquiatra prescreveu não foi nada positivo e até chegou a ocasionar uma convulsão. O tal remédio (Clo) parecia que ia explodir o meu cérebro. Ainda assim cheguei a passar meses usando. 

Depois do ocorrido, fui a um outro médico, dessa vez um neurologista, que me receitou o Rivotril. Os primeiros dias com esse remédio são como o paraíso na Terra para quem sofre de ansiedade. A paz de espírito que ele traz não tem igual. Até tive uma mudança positiva no meu modo de socializar, senti-me menos tímido, mais corajoso, e por causa disso até tive uma certa crise de identidade. Fiquei me perguntando quem eu era: seria eu o cara tímido e antissocial ou novo sujeito, um pouco mais tranquilo e à vontade com a vida? Percebi também que o problema já vinha de muito tempo. Isso justificava as fugas frequentes de ambientes sociais com muita gente, a sudorese quando dirigia, as preocupações extremamente antecipadas de como eu ia voltar para casa etc.

Ao ver DEPOIS A LOUCA SOU EU (2019), de Julia Rezende, me senti tão bem ao ver que não estou sozinho e que é possível, inclusive, rir de muita coisa desagradável que até tive coragem de escrever esses parágrafos acima, de natureza tão pessoal. Apesar de tudo, nunca me faltou senso de humor e valorizo muito os tipos peculiares de senso de humor, algo que, certamente, Tati Bernardi, a autora do livro que deu origem ao filme, tem, além da coragem de expressar suas desventuras publicamente em crônicas e livros. Além do mais, é sempre um prazer ver um novo filme de Julia Rezende. Ela me chamou a atenção principalmente com PONTE AÉREA (2015), mas depois vi que seus timing para a comédia em MEU PASSADO ME CONDENA - O FILME (2013), sua continuação (2015) e outros trabalhos de humor mais incomum como COMO É CRUEL VIVER ASSIM (2018) e este novo filme, são uma prova viva de que estamos diante de um de nossos cineastas mais talentosos.

No caso de DEPOIS A LOUCA SOU EU, Julia tem, além do próprio talento na direção, a presença brilhante de Débora Falabella como a protagonista. Débora é uma das melhores e mais subestimadas atrizes em atividade no Brasil. Uma pena que este filme, tão fácil de ser compreendido e abraçado por muitos que sofrem de transtorno de ansiedade (ou que conhecem amigos e familiares com o problema), esteja chegando em tempos pandêmicos. E também sabemos que a pandemia vai fazer crescer ainda mais o que já é um problema gigante no mundo inteiro.

No filme, Débora interpreta uma espécie de alter-ego mais exagerada de Tati Bernardi, Dani, uma mulher que desde criança já tem problemas. Na história, ela é levada para uma benzedeira e depois para um ritual um tanto assustador. E há algo de fundamental importância para o filme, que é a relação de Dani com sua mãe, Silvia (Yara de Novaes). A relação entre as duas, a hiper-proteção que ela sofre, assim como os próprios problemas de ansiedade da mãe, são motivos tanto de riso quanto de choro, em diferentes momentos. Essa relação problemática mas também afetuosa entre as duas é um elemento de grande força do filme.

Tanto que chega a ser mais importante do que a relação de Dani com seus namorados (destaque para a relação com o psicanalista Gilberto, vivido por Gustavo Vaz), bem como a sua carreira profissional. O encontro com o Rivotril e depois com outras drogas (depois de experimentar outras alternativas) é essencial para que compreendamos sua necessidade de se sentir mais forte diante do mundo. Também somos apresentados aos efeitos colaterais da droga (não são nada legais) e ao posterior uso descontrolado para aguentar principalmente as situações que envolvem o trato social - imagina só uma pessoa que tem problema de ansiedade tendo que lidar com a ida a um talk show visto por milhões de pessoas!

Diante do cenário de pandemia, em que as pessoas têm, com toda razão, motivo mais do que compreensível para não ir ao cinema, DEPOIS A LOUCA SOU EU deve encontrar um público muito maior quando puder ser visto nos streamings. Além de ser um filme que traz luz para um problema de muitos, é daquelas obras que aquecem o coração, pois seu senso de humor é muito bem mixado com a melancolia, com as situações difíceis da protagonista. Rir é o melhor remédio, mas rir com um sentimento de solidariedade é melhor ainda.

+ TRÊS FILMES

EU ME IMPORTO (I Care a Lot)

Difícil não fazer uma comparação deste filme com GAROTA EXEMPLAR, de David Fincher, tanto pelo suspense meio Supercine (que em Fincher é muito mais sofisticado, claro), quanto pela presença novamente de Rosamund Pike como uma mulher capaz de coisas inacreditáveis. Logo no começo de EU ME IMPORTO (2020), de J Blakeson, senti uma raiva imensa da personagem. De deixar o sangue intoxicado. Afinal, aprisionar velhinhos em asilos contra a vontade deles e tomar suas fortunas é algo que não estamos acostumados a ver nem nos piores vilões. Por isso qualquer antagonista para a personagem de Pike seria bem-vindo, por pior que fosse do ponto de vista moral. E assim damos as boas vindas ao personagem de Peter Dinklage. Gosto de como o filme desafia uma moral mais comumente esperada nos filmes convencionais de Hollywood. Afinal, pouco sabemos da maldade que rola nas grandes fortunas e no modo como elas são construídas. Indicado ao Globo de Ouro na categoria melhor atriz em comédia ou musical.

MONSTER HUNTER

Não sou exatamente um fã de Paul W.S. Anderson, mas este filme me surpreendeu positivamente. MONSTER HUNTER (2020) é simpático e simples no modo como une os personagens de Milla Jovovich e Tony Jaa para enfrentar os monstros. Mais uma vez inspirado em um videogame, tudo leva a crer que se transformará em uma nova franquia do diretor com sua esposa/musa. Aliás, ela continua magnífica como heroína de ação. Mas confesso que me dá um pouco de preguiça de imaginar continuações deste filme, por mais que tenha me agradado seu estilo básico e uma postura "nem aí" com o uso de CGI pouco caprichado por todos os lados. Em determinado momento, quis lembrar de TROPAS ESTELARES, mas vi que não tinha motivo eu fazer esse tipo de comparação. O trabalho de W.S. Anderson é mais herdeiro de produções B. E por mais que isso faça com que os monstros não assustem, não prejudica o clima de sessão da tarde.

MALCOLM & MARIE

Zendaya está ótima neste filme, embora, assim como sua personagem carrega um background pesado de experiências com vício em drogas, a atriz vem de uma série em que também interpreta uma personagem parecida. Junte-se ao fato de estar trabalhando com o mesmo Sam Levinson, o criador de EUPHORIA (2019-?), temos aqui certo grau de semelhança, embora no filme tenhamos uma mulher mais inteligente e com raciocínio agudo, com suas inseguranças também, mas quem não as tem? O filme é geralmente descrito como uma grande D.R. de quase duas horas de duração e é mais ou menos isso mesmo, embora outras discussões interessantes (inclusive sobre cinema) apareçam. Na trama, John David Washington é um cineasta que volta com a namorada (Zendaya) de uma pré-estreia aparentemente bem-sucedida de seu filme. MALCOLM & MARIE (2021) mal nos dá trégua com tanta briga dos dois, mas é tudo feito com tanta elegância que é bonito de ver. Para o bem e para o mal, já que eu costumo gostar mais de filmes mais intensos e dolorosos no que se refere às rachaduras de um relacionamento. A propósito, fico me perguntando se o filme existiria se não fosse a pandemia, com a necessidade de lidar com uma equipe limitada e apenas dois atores em cena. A experiência é interessante, o filme é elegante (o preto e branco é lindo!) e tem muito a dizer.

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

O SÓCIO DO SILÊNCIO / PARCEIRO DO SILÊNCIO (The Silent Partner)



No dia 5 de fevereiro, morreu aos 91 anos Christopher Plummer, ator querido por muitos, vencedor do Oscar por TODA FORMA DE AMOR e bastante lembrado por seu papel no clássico A NOVIÇA REBELDE. E lá fui eu fazer uma listinha dos meus dez favoritos filmes do ator no Facebook, dentre os que eu havia visto (ele tem mais de 200 títulos!). E eis que apareceram alguns filmes indicados por amigos. Entre eles, estava este O SÓCIO DO SILÊNCIO (1978), dirigido por Daryl Duke, diretor que tem mais trabalhos para a televisão em seu currículo.

E de fato O SÓCIO DO SILÊNCIO, lançado em VHS como PARCEIRO DO SILÊNCIO, e disponível atualmente em DVD no box Cinema Policial Vol. 5, da Versátil, é um filmaço. Desses acertos que acontecem com diretores que não chegam a ser autores e não têm um nome famoso, mas que é muito fácil de acontecer. Certamente, se fosse dirigido por um cineasta famoso seria uma obra bem mais lembrada. Mas de uma coisa tenho certeza: quem viu este filme não se esquece.

Eu confesso que já vi a fita nas locadoras algumas vezes, mas a figura daquele Papai Noel com um revólver na capa não me atraiu. Erro meu, claro. Até porque as cenas do personagem de Plummer vestido de Papai Noel e a fim de roubar o banco do shopping, estão entre as mais tensas do cinema de crime dos anos 1970. Também fiquei bastante impressionado com o grau de violência do filme e de como o personagem de Plummer é terrivelmente assustador.

O filme tem um quê de PACTO SINISTRO, do Hitchcock, já que o bandido coloca o bancário como seu "sócio". Com a diferença que o bancário, vivido por Elliot Gould, o verdadeiro protagonista, foi esperto o suficiente para ficar com o dinheiro supostamente roubado durante a confusão envolvendo o assalto, seguido do alarme e da caça ao criminoso. Ou seja, na verdade, temos dois criminosos. Só que um deles é o herói, por assim dizer. O personagem de Gould passa a ser perseguido pelo criminoso profissional - depois também vemos que é um homem extremamente violento e capaz de matar.

Miles, o personagem de Gould, por sua vez, é fascinante no modo frio como arquiteta seus planos e não se mostra apavorado com os ataques do criminoso. Ele é um sujeito que nem sempre é bem-sucedido com as mulheres. Costuma receber fora da colega de trabalho vivida por Susannah York, que prefere manter uma relação com um homem casado, também do banco. As coisas passam a mudar depois do incidente com o Papai Noel assaltante e quando a imprensa passa a ver Miles como uma espécie de herói. A partir desse ponto, a bancária começa a vê-lo com outros olhos. Mais adiante, surge uma outra personagem feminina bem atraente para seduzi-lo, vivida pela bela Céline Lomez. O jogo de gato e rato passa a se tornar cada vez mais interessante, tanto por ganhar força em sensualidade, quanto em tensão e violência.

É interessante pegar algumas curiosidades sobre O SÓCIO DO SILÊNCIO. Uma delas é o roteiro, que ficou a cargo de Curtis Hanson, que faria o oscarizado LOS ANGELES - CIDADE PROIBIDA (1997) e tem outros filmes interessantes como diretor, como o thriller UMA JANELA SUSPEITA (1987). Outra curiosidade é que O SÓCIO DO SILÊNCIO é remake do dinamarquês PENSE EM UM NÚMERO (1969), de Palle Kjærulff-Schmidt. No mais, há um fato que também me chamou a atenção, já que citei Hitchcock: Elliot Gould chegou a levar uma cópia do filme para o mestre do suspense assistir. Hitch deve ter ficado bem feliz.

+ TRÊS FILMES

TRÁGICO DESTINO (Where Danger Lives)

A busca de filmes de curta duração e a foto bonita de Faith Domergue, então namorada e protegida do magnata Howard Hughes, foram os dois principais elementos para que eu escolhesse ver este filme noir pequeno, mas que contava com o carisma de Robert Mitchum (meio no piloto automático e com a vantagem de interpretar um homem com dor de cabeça) e a bem cuidada direção de John Farrow, que conta no elenco com a esposa Maureen O'Sullivan, que nos anos 1930 fez o papel da Jane nos filmes do Tarzan. Na trama de TRÁGICO DESTINO (1950), Mitchum é um médico que se interessa por uma paciente e foge com ela depois de um incidente envolvendo a morte do marido dela. Há vários momentos de tensão e outros até de humor, como no festival onde todo mundo deve estar de barba.

LEGADO EXPLOSIVO (Honest Thief)

E Liam Neeson segue sua jornada de herói de ação de filmes de baixo orçamento, com todo o carisma e talento que lhe é próprio. Claro que nem sempre ele tem a chance de trabalhar com um diretor como Jaume Collet-Serra, mas mesmo com diretores menores e tramas muito simples, é ele que tem feito os filmes de ação mais bacanas em Hollywood atualmente. Neste LEGADO EXPLOSIVO (2020), de Mark Williams, ele até lembra um pouco Charles Bronson na época das continuações de DESEJO DE MATAR, mas com a diferença de ser um bom ladrão, ex-marine, um homem prestes a se entregar para a polícia, a fim de viver uma vida em paz no futuro com a mulher amada. Boa diversão popular com alguns momentos empolgantes.

INCÊNDIOS (Incendies)

Revendo este filmaço de Denis Villeneuve depois de 10 anos, gostei ainda mais. Até porque estava com a mente mais alerta e por conta disso ficou muito mais fácil apreciar este que talvez seja o primeiro grande filme do cineasta. Em tons de investigação misteriosa a mãe morta delega ao casal de filhos gêmeos tarefas de encontrar o pai e o irmão. Adoro o desenrolar da trama de INCÊNDIOS (2010) e de como o diretor costura a narrativa com as linhas do tempo da mãe e dos filhos, de modo que aos poucos vamos percebendo o que ocorreu. A peça original parece pegar emprestado muito da tragédia grega e traz um ar suave ao conseguir juntar o horror com o amor. Sensacional.

domingo, fevereiro 21, 2021

CONTO DE VERÃO (Conte d'Eté)



Para usar de eufemismo, não me considero um sucesso no que se refere a relacionamentos amorosos. Por outro lado, ou talvez por causa disso, tenho uma atração forte por filmes que lidam de maneira inteligente e delicada com o assunto. E nisso Éric Rohmer é mestre. CONTO DE VERÃO (1996) me deixou sorrindo de orelha a orelha em toda sua metragem, mesmo lidando com algo que poderia me deixar bastante incomodado, que é a incapacidade ou dificuldade de um rapaz de escolher entre três garotas. E por mais que possamos considerar isso um privilégio de poucos, acompanhar a confusão que isso se acumula na vida do rapaz, de maneira descontraída, é uma operação de mestre desse que é um dos cineastas mais queridos do mundo. De certa maneira, é possível fazer uma comparação justa entre este filme e as comédias de Shakespeare, no modo como se tece com inteligência o enredo.

Foi a segunda vez que vi CONTO DE VERÃO e novamente no cinema. Olha que sorte a minha. A primeira vez foi em uma pequena mostra exibida no Cinema de Arte no Iguatemi no início dos anos 2000, que trazia todos os quatro contos das estações e mais A INGLESA E O DUQUE (2001). Ou seja, para mim foi uma descoberta fenomenal. Considero CONTO DE VERÃO um dos meus favoritos dos quatro contos, embora costume ter uma queda talvez maior por CONTO DE INVERNO (1992), por sua natureza mais romântica e filosófica.

CONTO DE VERÃO já tem um ar um pouco mais pragmático no modo como apresenta as relações. Sem falar que mostrar pessoas bem jovens é também um modo de celebrar a existência nessa época da vida, ainda mais se lembrarmos que Rohmer já era um septuagenário na época da realização desses filmes.

Na trama, o jovem e belo Gaspard é vivido por Melvil Poupaud (que aparece em papel menor em VERÃO DE 85, clara homenagem de François Ozon ao filme de Rohmer). Ele está tirando férias em Dinard, bela cidade litorânea na região da Bretanha, e no primeiro dia conhece Margot (Amanda Langlet), uma simpática garçonete. Margot claramente se mostra interessada no rapaz, a julgar pelo modo como o aborda na praia. Ele, por sua vez se mostra um pouco intimidado. Gaspard havia marcado um encontro com sua namorada (ou quase) Léna (Aurelia Nolin), e por isso talvez houvesse um medo da parte dele de se envolver com outra pessoa.

Enquanto Léna demora a chegar, a amizade entre Margot e Gaspard vai se tornando cada dia mais próxima, embora Gaspard prefira muitas vezes a companhia de seu violão, especialmente à noite. As conversas e os passeios na área da praia são envolventes e agradáveis e o elo entre os dois cresce. Nós, do lado de cá da tela, ficamos encantados com Margot, com sua naturalidade e também com sua beleza comum. Acontece que aparece outra garota na jogada, Solène (Gwenaëlle Simon), que por ter uma natureza mais prática, além de uma poderosa presença sexual, se aproxima mais rapidamente de Gaspard, não ficando no platonismo. Os dois viajam para a casa de um tio dela e encontram mais coisas em comum do que esperavam - como o gosto pela música, por exemplo. Naturalmente, a cabeça de Gaspard já devia estar bastante balanceada à essa altura. E isso cresce ainda mais com a chegada afinal de Léna, que se mostra, logo de cara, a menos interessante das três.

Como os outros filmes de Rohmer, CONTO DE VERÃO lida com assuntos caros ao cineasta, como liberdade, fidelidade e controle, muitas vezes dentro de um contexto em que o acaso também exerce uma poderosa influência. Assim como a maioria de seus outros filmes, este também tem uma linguagem visual elegante, uma preferência pela luz natural suave e um cuidado no roteiro impressionante. No caso de CONTO DE VERÃO, há tantos diálogos que sua verborragia pode incomodar alguns espectadores. Não é o meu caso e nem o de tantos apreciadores de seu estilo. Ao contrário: é admirável como alguém cuja palavra é tão importante não deixa nunca de expressar as imagens de maneira tão rica.

+ TRÊS FILMES

ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise)

Não me lembro se vi este filme de Richard Linklater pela quinta ou sexta vez. Na verdade, eu evito rever muitas vezes, até para poder aproveitar mais de sua magia em cada nova experiência, como se ela pudesse se dissipar. Da última vez, em 2013, eu estava bem mais emotivo, acho eu. E por algum motivo acreditei que não precisava de um novo texto a respeito (o que tenho de registro é de 2004). Rever ANTES DO AMANHECER (1995) no ano passado foi também especial, embora tenha me parecido mais rápido em sua conclusão, muito ágil na montagem das cenas. Foi bom notar coisas que eu não tinha notado. E me arrepiar de novo em partes dos diálogos dos dois, como na cena em que ela diz acreditar que Deus está no espaço entre eles. Ainda acho isso fantástico. As discussões filosóficas são menos importantes hoje, eu diria. São importantes como reflexo da empolgação da juventude, mas o mais importante são os olhares, a atração e a admiração que os dois vão criando um pelo outro. Percebi algo de mais lascivo desta vez, nos beijos. Acho que antes só percebia algo mais romântico, algo extra físico. Essa é uma das tantas vantagens da revisão.

A FESTA DE FORMATURA (The Prom)

Pior do que um filme ruim é um filme ruim de uma duração longa. E em se tratando deste musical de Ryan Murphy, 2h10 demora a passar sim. De todo modo, ainda gostei de algumas canções cantadas pela Joe Ellen Pellman, que talvez seja a alma de A FESTA DE FORMATURA (2020), embora não apareça com seu nome no cartaz principal. Ela é a garota lésbica de uma cidadezinha retrógrada que sonha em ver sua namorada se declarando publicamente na festa de formatura. As coisas não acontecem como ela quer, mesmo com a intervenção de uma trupe de artistas do teatro que a buscam como um meio de se redimirem de um fracasso de crítica, como uma causa nobre. Impressionante como Meryl Streel gosta de fazer musical ruim. Ela esteve no tenebroso CAMINHOS DA FLORESTA. E tem o James Corden, que esteve no inacreditável CATS. Esse, então, parece que está querendo pagar algum karma pesado ou coisa do tipo. De todo modo, o filme tem uma mensagem nobre, sobre aceitação das diferenças e o “sair do armário”. Mas o pior de tudo é que para um musical ser bom não precisa de uma boa história. Mas boas canções são essenciais. Aqui não há. O que sobra é um filme colorido, chato e que eu só vi por estar na lista de indicados do Globo de Ouro. A FESTA DE FORMATURA foi indicado nas categorias de melhor filme (comédia ou musical) e melhor ator em comédia ou musical (James Corden).

RELATOS DO MUNDO (News of the World)

No IMDB o único filme em que aparece "directed by" Paul Greengrass é este RELATOS DO MUNDO (2020). Seria um filme menos pessoal, menos autoral por causa disso? Não sei se a escolha do "directed by" no lugar de "a film by" representa uma força menor do autor na obra. De todo modo, este é um dos trabalhos mais bonitos do diretor inglês, que tinha ganhado a fama de filmar com a câmera tremida. Aqui ele escolha outra maneira, talvez pelo filme se passar no século XIX e também ter momentos mais serenos, ainda que haja também outras cenas bem próprias dos westerns, como ameaças física e psicológica e tiroteio. Na trama, Tom Hanks é um sujeito que ganha a vida lendo notícias em cidades do sul dos Estados Unidos, lugares ainda com um sentimento de derrota forte pós-guerra civil. São pessoas analfabetas e simples. A vida do protagonista muda de rumo quando ele encontra uma menina alemã que foi capturada e criada por índios durante anos. E agora ele se vê na missão de buscar um lar para a garotinha. A atriz mirim é ótima, Helena Zengel, de TRANSTORNO EXPLOSIVO. Um grande acerto terem-na trazido para um filme americano. RELATOS DO MUNDO foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias de melhor atriz coadjuvante (Helena Zengel) e melhor trilha sonora (James Newton Howard).

sábado, fevereiro 20, 2021

O ESPELHO DA BRUXA (El Espejo de la Bruja)



Conhecer certos filmes e certas particularidades de determinadas cinematografias requer, na maioria das vezes, um empurrãozinho. É por isso que é tão importante uma revista de cinema, uma aproximação com um grupo de cinéfilos e também uma curadoria. Foi graças à curadoria de Fernando Brito para a Versátil que eu pude conhecer o incrível O ESPELHO DA BRUXA (1962), de Chano Urueta, presente no box Obras-Primas do Terror - Horror Mexicano. E pra mim foi uma surpresa e tanto entrar em contato com esse filme em particular.

Lembremos que aqui no Brasil, foi em 1964 que José Mojica Marins lançou o seu À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, o filme que é considerado o ponto de partida para o horror no cinema brasileiro, pelo menos declaradamente horror. Ou seja, dois anos antes o gênero parecia já estar bem estabelecido no México. Tanto é que no mesmo box tem um filme de 1959 (MISTÉRIOS DO ALÉM-TÚMULO, de Fernando Méndez, ainda a ver). Como não sou estudioso do gênero no país que acolheu Luis Buñuel por um bom tempo, não sei desde quando ele existe por lá.

Mas o que importa agora é falar um pouco deste O ESPELHO DA BRUXA, sobre o quanto ele é inacreditável em sua proposta de ser ao mesmo tempo um filme sobre um espírito vingativo com ajuda de uma bruxa e um filme sobre um cientista maluco, aos moldes de Frankenstein, mas com uma clara influência da obra-prima OS OLHOS SEM ROSTO, de Georges Franju, lançado dois anos antes na França.

Na trama, uma mulher descobre, através do espelho mágico de sua governanta, uma senhora com contato com entidades ocultas, que seu marido pretende matá-la. Desesperada, ela não sabe o que fazer, pede ajuda à governanta, que procura auxílio das entidades, mas as criaturas do além afirmam que morrer é o destino da jovem mulher, que nada poderia ser feito. A mulher, então, aceita o copo de leite envenenado do marido - clara alusão a SUSPEITA, de Alfred Hitchcock.

Depois de sua morte, a governanta promete à falecida que ela será vingada. E logo sabemos o motivo de o sujeito querer se livrar da esposa: ele queria trazer para casa sua amante, que logo se torna a nova esposa. Acontece que não será fácil para essa nova esposa viver naquela casa assombrada pelo fantasma da falecida e situações incríveis acontecerão e trarão tragédia para si. E isso é só o começo de um filme que segue por caminhos inacreditáveis e cheios de invenção e ainda tem uma força narrativa admirável. A casa onde se passa a trama também traz um ar gótico todo próprio e herdeiro do cinema de horror clássico americano e britânico, mas com aquele tempero todo particular da cultura mexicana e seus arroubos melodramáticos.

Também me agrada a dublagem não ser do tipo "para o mercado internacional", como a Itália costumava fazer. Ao que parece o filme foi feito pensando principalmente no mercado local e de países de língua espanhola. Que já é, aliás, um baita mercado. Agora é me deliciar com os demais filmes presentes no box. Tenho certeza que novas e agradáveis surpresas me esperam.

+ TRÊS FILMES

O MENINO E O VENTO

O diretor argentino Carlos Hugo Christensen não era do clube do Cinema Novo e faz aqui uma obra deliciosamente anacrônica, com um pé na literatura herdeira do conto de Aníbal Machado. Dois anos antes, o diretor havia adaptado outro conto famoso de Machado, "Viagem aos Seios de Duília". O MENINO E O VENTO (1967) tem um quê de fantástico muito interessante. Talvez no cinema brasileiro o vento tenha sido novamente destacado com tanta força apenas por Walter Lima Jr., em seu A OSTRA E O VENTO (1997). Na trama, acompanhamos a história de um engenheiro que é chamado para depor em uma pequena cidade de Minas Geras sobre o desaparecimento de um menino. Ele é réu e considerado responsável pelo ocorrido pela população. O filme fica ainda melhor a partir de uma hora de duração, quando começamos a ouvir o relato do personagem de Ênio Gonçalves sobre os mágicos dias ao lado do garoto e sua fixação pelo vento. Há algo que me lembrou certo cinema produzido na Itália na mesma época - os diálogos, o mistério, as relações entre os personagens. Pena que a cópia existente do filme não seja lá essas coisas.

A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (Village of the Damned)

Com a notícia da morte de Barbara Shelley, fui procurar um filme que tivesse a atriz no elenco em meu acervo. Tinha em um dos boxes da Versátil (Obras-primas do Terror 1) este A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (1960), de Wolf Rilla, horror britânico com um pé na sci-fi dos anos 50 que eu me devia ver há algum tempo. Acho que não vi nem a refilmagem do John Carpenter. O filme já começa de maneira muito intrigante, com uma cidade inteira parada por horas, com seus moradores desmaiados. E aí surge uma nova surpresa, na forma de um grupo de criancinhas loiras e de olhar ameaçador. Senti falta de um maior impacto na conclusão do filme (embora nunca vá esquecer da "parede de tijolos”), mas gosto do sabor de produção barata e da boa condução narrativa. O papel de Barbara Shelley é até pequeno. Ela é a esposa do professor vivido por George Sanders.

HALLOWEEN 4 - O RETORNO DE MICHAEL MYERS (Halloween 4 - The Return of Michael Myers)

Michael Myers, o psicopata que nunca morre, sobrevive ao incêndio que o deixou em coma por 10 anos no segundo filme (1981) e volta para aterrorizar a pequena cidade. O elenco não conta com Jamie Lee Curtis, mas traz mais uma vez Donald Pleasance no papel do Dr. Loomis, o especialista no assassino. O alvo da vez do assassino é a garotinha que esteve com a personagem de Lee Curtis no primeiro filme (1979). HALLOWEEN 4 - O RETORNO DE MICHAEL MYERS (1988), de Dwight H. Little, tem alguns bons momentos, mas não sei o quanto os clichês já não estavam gastos no ano da realização do filme. De todo modo, as cenas que se passam dentro de uma casa, quando Michael está, são eficientes. E há um final até que bastante surpreendente.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

UM NOVO DUETO (Une Autre Vie)



Quando, no final do ano passado, soube que o mais recente filme de Emmanuel Mouret, LOVE AFFAIR(S) (2020), esteve presente no top 10 da Cahiers du Cinéma, fiquei bastante feliz. E minha alegria aumentou quando soube que esse mesmo filme foi o recordista de indicações ao César, o Oscar francês. Ou seja, o cineasta cuja obra passei a acompanhar com mais carinho e maior aproximação a partir do ano passado, embora já conhecesse um pouco em outras ocasiões, agora é um dos queridos da crítica.

Minhas visitas aos filmes de Mouret têm me mostrado também surpresas muito agradáveis, especialmente quando entrei em contato com algo próximo de um melodrama com toques satíricos, MADEMOISELLE VINGANÇA (2018), e uma comédia amarga, ROMANCE À FRANCESA (2015). Até então, a experiência que eu tinha com o cinema de Mouret era de diversão bem leve, acima de tudo, com influências óbvias (Allen, Rohmer) e outras não tão óbvias (Hawks, McCarey, Lubitsch).

Essa mudança na carreira ao abraçar agora o melodrama se deu a partir de UM NOVO DUETO (2013), filme com ares de Douglas Sirk, tanto no tom quanto no tema das diferenças de classe como um elemento de forte obstáculo para a prosperidade de um romance. No caso, a diferença aqui se dá entre uma pianista famosa dentro dos círculos de música erudita, Aurore (a italiana Jasmine Trinca), e um eletricista, Jean (o ex-rapper JoeyStarr). Ou seja, apesar de surgir uma atração mútua entre os dois, eles têm pouco em comum no que se refere a educação cultural.

Além do mais, Jean é casado com a vendedora de loja Dolorès (Virginie Ledoyen, de SÓ UM BEIJO POR FAVOR, 2007). Dolorès vai se mostrar não apenas um empecilho para a relação entre Jean e Aurore, mas também uma personagem não só dona da própria vida, mas dona da narrativa do filme. Aliás, é muito bonito e também bem curioso o modo como Mouret nos faz abraçar certas personagens que parecem, a princípio, figuras pouco dignas de nosso afeto. Acontece com a mulher cheia de rancor de MADEMOISELLE VINGANÇA e a jovem ligeiramente irritante de ROMANCE À FRANCESA. Esse aspecto de humanidade e de aprofundamento de seus personagens começou a se manifestar com mais força justamente a partir deste UM NOVO DUETO.

Os elementos do melodrama comparecem tanto no tom solene da linda trilha sonora de Grégoire Hetzel (o mesmo de INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve), quanto na gravidade com que os sentimentos dos personagens se apresentam e inclusive em uma situação que ocorre com uma importante personagem. Mais uma vez Mouret lida com um triângulo amoroso como elemento de tensão e culpa em seus personagens, em geral pessoas que parecem carregar o mundo em seus ombros. É o caso dos dois amantes, embora aqui se perceba isso com mais força na personagem de Jasmine Trinca.

Curiosamente, o filme teve críticas bem divididas na época de seu lançamento. Na verdade, pelo pouco que pude ler, as críticas em geral não foram muito favoráveis. Agora talvez seja a chance de ver o filme à luz da obra autoral de Mouret, de uma poética que vai mudando, se aperfeiçoando e se tornando cada vez mais sofisticada.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES

PEQUENA GAROTA (Petite File)

Eis um filme que daria uma excelente sessão dupla com o brasileiro LIMIAR, de Coraci Ruiz. Ambos nos apresentam mães lidando com a difícil situação de seus filhos/filhas em um momento de transição de gênero. No caso da menina de PEQUENA GAROTA (2020), de Sébastian Lifshitz, há um tratamento com uma psiquiatra que dá nome ao caso. A situação, mesmo assim, não deixa de ser angustiante, pois a mãe já prevê com frequência o futuro de agressão que a filha irá sofrer da sociedade. Até porque já sofre o bastante na escola. Há uma cena em especial que é muito comovente: a primeira consulta com a especialista e a garotinha, com lágrimas nos olhos, ainda não se sentindo à vontade para expor todas as suas angústias. A câmera, na altura da criança, acessa nosso sentimento de empatia.

O DINHEIRO (L'Argent)

Uma beleza esta cópia nova de O DINHEIRO (1983), de Robert Bresson. E uma honra poder vê-lo no cinema. A primeira vez que vi este filme não tinha me envolvido. Agora, prestando atenção na trama, nos vários personagens afetados pela nota falsa e no estilo singular da dramaturgia do diretor, tudo foi muito prazeroso. O aspecto do sacrifício, da culpa e da provação que seus personagens costumam passar está presente especialmente no personagem Yvon Targe, que se revela o mais importante. Por mais que pareça um conto moral - talvez o seja -, Bresson faz parecer algo ainda mais complexo, devido ao seu estilo de ausência de emoção explícita no comportamento de seus heróis. O que não quer dizer que seus filmes são desprovidos de paixão: ao contrário, eles esbanjam. Lindo e cruel filme de despedida de um mestre.

PERFIL DE UMA MULHER (Yokogao)

Primeiro de sete longas do diretor Kôji Fukada a estrear em circuito brasileiro. Acompanhamos em PERFIL DE UMA MULHER (2019), em duas linhas temporais, a história de uma mulher que trabalha/trabalhou como enfermeira particular, servindo há anos a uma mesma família, a idosa matriarca. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando acontece algo grave envolvendo seu sobrinho e uma garota. O que temos é um enredo fácil de envolver, até por centrar sempre na protagonista e na mudança radical que se aplica na segunda linha do tempo. Em momento de cancelamentos constantes, não é difícil se solidarizar com a personagem.