“Nunca me passou pela cabeça que um dia eu tivesse coragem de ver vinte, trinta filmes do Jesús Franco, um cineasta horrível. Eu precisei ver trinta filmes do Jesús Franco pra ver duas obras-primas. O resto é muito ruim, muito ruim. Em todos os sentidos, ele era porco pra filmar. Bota porco nisso. Mas quando ele acerta, talvez pelo fato de ter trabalhado com todos os grandes… Succubus é uma obra-prima. Succubus acho que inclusive é Mulholland Drive antes de Mulholland Drive. Esse vale a pena. O outro é Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa. É uma beleza de filme. Um filme simples, ao mesmo tempo extremamente delicado…”
Carlos Reichenbach
Eu ando numa fase de acreditar que o nosso tempo não é o bastante. E não me refiro nem a nossa curta existência, pois sei que um dia estamos aqui e no outro já podemos não estar mais. Não tenho a quase certeza de que viverei até os meus oitenta e tantos anos. O que muitas vezes me deixa inquieto é sair para o trabalho e ver o tanto de boxes de DVDs e BluRays em minha estante, ver a pilha de livros e HQs, e saber que em meu tempo de descanso, o chamado terceiro turno, provavelmente não terei mais energia para ver um filme, embora às vezes, com sorte, até calhe de ter. E quanto à escolha dos filmes, muitas vezes não sou eu quem os escolhe; são eles que me escolhem.
Foi assim que, na dúvida entre se pegava algo dos vários boxes da Versátil ou fuçava meus HDs externos, vejo que havia baixado, não faz muito tempo, este filme de Jesús Franco que Carlão Reichenbach louvou em entrevista gravada em 2004 para uma equipe, se não me engano, da Contracampo, uma importante revista eletrônica de crítica de cinema dos anos 2000. Na entrevista perdida e resgatada nos últimos anos estavam Francisco Guarnieri, Guilherme Martins e Ruy Gardnier. Vale procurar o papo completo, disponível no ótimo site Multiplot!
Pois bem. Dou play em SUCCUBUS (1968) e percebo o quanto o filme é típico do espírito desse ano tão singular. O cinema produzido neste ano quase sempre tem algo de onírico, experimental, de transgressor, de buscador de novos caminhos para a linguagem cinematográfica, de antena para a ambientação pós-psicodélica desses tempos.
SUCCUBUS é também um filme recheado de erotismo (Fritz Lang chegou a dizer que foi o filme erótico que mais lhe agradou), mas um erotismo que também tem algo de cabeçudo, de godardiano, no sentido de fazer citações explícitas a autores. Numa das minhas cenas favoritas, Janine Reynaud, atriz presente no giallo A CAUDA DO ESCORPIÃO, de Sergio Martino, sai de casa com um vestido branco provocante, de costas nuas, sem mais nada por baixo, e conversa com um homem num bar. O barman tem como única vestimenta uma espécie de gravata. E o diálogo com o homem mais velho (este, vestido de terno) se dá como numa espécie de disputa, de embate intelectual. O homem (Howard Vernon, de O SILÊNCIO DO MAR, de Jean-Pierre Melville) diz o nome de um autor (da literatura, do cinema) e ela deve responder com uma palavra. Ele diz Godard, ela responde limão; Faulkner, touro; Henry Miller, doces pássaros etc. Então ele diz Robbe-Grillet e ela não consegue dizer palavra alguma, entregando a ele um de seus sapatos. Percebe-se, então, que se trata de uma espécie de strip poker. Ao nome de Justine, ela diz amor; ao nome amor, carne.
Enquanto isso, há a inventividade do uso de uma grande lupa para enfatizar/aumentar o tamanho na tela dos belos olhos e boca de Reynaud. As últimas respostas da mulher enfatizam seu desejo pela volúpia: religião, Gomorra; passado, Sade. A opção pela imagem dos dois dançando com a gaiola de um pássaro à frente e um tipo de janela de vidro que remete a uma prisão atrás é outro detalhe interessante. Assim como é interessante o grau de erotismo que o filme tão bem enfatiza, sem que precise apelar para o pornográfico. Vale destacar também outra das respostas de Reynaud: Hitchcock, olho.
O filme também explora a ambientação externa da cidade (as locações são em Portugal e na Alemanha), fazendo com que não nos importemos tanto com a trama. Embora haja uma trama de assassinato e possessão, embora haja um ambiente de um espaço que explora espetáculos de sadomasoquismo (a primeira cena do filme apresenta o que parece ser um misto de tortura sangrenta com desejo). Em determinado momento, a comparação que Reichenbach faz com CIDADE DOS SONHOS parece já fazer bastante sentido.
A ambientação daqueles tempos, de sexo, drogas e rock’n’roll, sendo que aqui o rock é trocado por jazz, dá espaço para que, no momento do uso do LSD em cubos de açúcar numa festa, os personagens se entreguem ao que suas mentes veem, ao que seus corpos sentem, como no momento que Reynaud rola pelo chão, convidando os demais para que ajam feito cães pelo chão. O mais interessante é pensar que o filme, a partir do roteiro, tenha sido gerado sob a influência desse alucinógeno. Por outro lado, Franco parece ter um cuidado tão grande com a imagem que a gente logo descarta essa hipótese. Ainda sobre o filmar o erotismo, há uma cena que achei linda e sofisticada: quando o casal principal transa no chão e a câmera os mostra desfocados atrás do aquário. Só depois que o foco muda para os dois. O sexo também é interessante quando se une à violência do jogo de poder do casal amarrado e indefeso diante de uma mulher cheia de desejo e com uma faca na mão. Não gosto tanto da conclusão, mas há tantos momentos brilhantes em SUCCUBUS que o que não me encantou merece ser relevado.
Eu ando numa fase de acreditar que o nosso tempo não é o bastante. E não me refiro nem a nossa curta existência, pois sei que um dia estamos aqui e no outro já podemos não estar mais. Não tenho a quase certeza de que viverei até os meus oitenta e tantos anos. O que muitas vezes me deixa inquieto é sair para o trabalho e ver o tanto de boxes de DVDs e BluRays em minha estante, ver a pilha de livros e HQs, e saber que em meu tempo de descanso, o chamado terceiro turno, provavelmente não terei mais energia para ver um filme, embora às vezes, com sorte, até calhe de ter. E quanto à escolha dos filmes, muitas vezes não sou eu quem os escolhe; são eles que me escolhem.
Foi assim que, na dúvida entre se pegava algo dos vários boxes da Versátil ou fuçava meus HDs externos, vejo que havia baixado, não faz muito tempo, este filme de Jesús Franco que Carlão Reichenbach louvou em entrevista gravada em 2004 para uma equipe, se não me engano, da Contracampo, uma importante revista eletrônica de crítica de cinema dos anos 2000. Na entrevista perdida e resgatada nos últimos anos estavam Francisco Guarnieri, Guilherme Martins e Ruy Gardnier. Vale procurar o papo completo, disponível no ótimo site Multiplot!
Pois bem. Dou play em SUCCUBUS (1968) e percebo o quanto o filme é típico do espírito desse ano tão singular. O cinema produzido neste ano quase sempre tem algo de onírico, experimental, de transgressor, de buscador de novos caminhos para a linguagem cinematográfica, de antena para a ambientação pós-psicodélica desses tempos.
SUCCUBUS é também um filme recheado de erotismo (Fritz Lang chegou a dizer que foi o filme erótico que mais lhe agradou), mas um erotismo que também tem algo de cabeçudo, de godardiano, no sentido de fazer citações explícitas a autores. Numa das minhas cenas favoritas, Janine Reynaud, atriz presente no giallo A CAUDA DO ESCORPIÃO, de Sergio Martino, sai de casa com um vestido branco provocante, de costas nuas, sem mais nada por baixo, e conversa com um homem num bar. O barman tem como única vestimenta uma espécie de gravata. E o diálogo com o homem mais velho (este, vestido de terno) se dá como numa espécie de disputa, de embate intelectual. O homem (Howard Vernon, de O SILÊNCIO DO MAR, de Jean-Pierre Melville) diz o nome de um autor (da literatura, do cinema) e ela deve responder com uma palavra. Ele diz Godard, ela responde limão; Faulkner, touro; Henry Miller, doces pássaros etc. Então ele diz Robbe-Grillet e ela não consegue dizer palavra alguma, entregando a ele um de seus sapatos. Percebe-se, então, que se trata de uma espécie de strip poker. Ao nome de Justine, ela diz amor; ao nome amor, carne.
Enquanto isso, há a inventividade do uso de uma grande lupa para enfatizar/aumentar o tamanho na tela dos belos olhos e boca de Reynaud. As últimas respostas da mulher enfatizam seu desejo pela volúpia: religião, Gomorra; passado, Sade. A opção pela imagem dos dois dançando com a gaiola de um pássaro à frente e um tipo de janela de vidro que remete a uma prisão atrás é outro detalhe interessante. Assim como é interessante o grau de erotismo que o filme tão bem enfatiza, sem que precise apelar para o pornográfico. Vale destacar também outra das respostas de Reynaud: Hitchcock, olho.
O filme também explora a ambientação externa da cidade (as locações são em Portugal e na Alemanha), fazendo com que não nos importemos tanto com a trama. Embora haja uma trama de assassinato e possessão, embora haja um ambiente de um espaço que explora espetáculos de sadomasoquismo (a primeira cena do filme apresenta o que parece ser um misto de tortura sangrenta com desejo). Em determinado momento, a comparação que Reichenbach faz com CIDADE DOS SONHOS parece já fazer bastante sentido.
A ambientação daqueles tempos, de sexo, drogas e rock’n’roll, sendo que aqui o rock é trocado por jazz, dá espaço para que, no momento do uso do LSD em cubos de açúcar numa festa, os personagens se entreguem ao que suas mentes veem, ao que seus corpos sentem, como no momento que Reynaud rola pelo chão, convidando os demais para que ajam feito cães pelo chão. O mais interessante é pensar que o filme, a partir do roteiro, tenha sido gerado sob a influência desse alucinógeno. Por outro lado, Franco parece ter um cuidado tão grande com a imagem que a gente logo descarta essa hipótese. Ainda sobre o filmar o erotismo, há uma cena que achei linda e sofisticada: quando o casal principal transa no chão e a câmera os mostra desfocados atrás do aquário. Só depois que o foco muda para os dois. O sexo também é interessante quando se une à violência do jogo de poder do casal amarrado e indefeso diante de uma mulher cheia de desejo e com uma faca na mão. Não gosto tanto da conclusão, mas há tantos momentos brilhantes em SUCCUBUS que o que não me encantou merece ser relevado.
Por enquanto, até onde sei não existe uma cópia remasterizada em alta definição de SUCCUBUS, embora já existam outros filmes do cineasta ganhando remasterização em 4K ou em excelente qualidade de imagem em BluRay. Inclusive, recentemente a Versátil Home Video incluiu SEM ROSTO (1988), a partir de uma remasterização 4K, no box Obras-Primas do Terror – Anos 80 3.
+ TRÊS FILMES
OS OLHOS DE LAURA MARS (Eyes of Laura Mars)
Cinco anos atrás eu vi no cinema a obra-prima de James Wan MALIGNO, e na época o cineasta dizia que uma de suas principais influências foi OS OLHOS DE LAURA MARS (1978), filme nascido por causa do sucesso dos gialli no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. John Carpenter é um dos roteiristas, mas um cineasta não-autor, Irvin Kershner, que dirigiria o ótimo O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (1980) num futuro próximo, é quem comanda este suspense com toques misteriosos e pouco realistas, sobre uma fotógrafa de moda (Faye Dunaway) que enxerga pelos olhos de um assassino serial enquanto o sujeito está executando alguém do círculo de amizades da fotógrafa. Tommy Lee Jones é o detetive de polícia responsável por investigar o caso. O final é horroroso, e o romance entre os dois personagens é bem ruim, mas o filme é um retrato muito interessante de sua época, dos tempos da discoteca e do hedonismo. Para um whodunit, OS OLHOS DE LAURA MARS não deixa de ser interessante e tem seu brilho próprio apesar de acabar sendo uma versão açucarada do que poderia ser um giallo made in USA. Há uma preocupação em não mostrar a violência gráfica e a música de Barbra Streisand se destaca no início e no fim do filme, como que para vender o produto como uma espécie de drama romântico e conquistar um público maior. No fim das contas, não é nem terror nem história de amor, embora queira ser ambas. Ou seja, enquanto o cinema europeu mostrava coragem, o cinema hollywoodiano mostrava certa covardia. Filme visto no box Obras-Primas do Cinema – Psicopatas.
O ESQUARTEJADOR / THE SLAYER – O ASSASSINO (The Slayer)
Meu interesse pelo slasher vem menos pelo entretenimento familiar sobre grupos de pessoas sendo mortas por um assassino à solta, geralmente numa embalagem pop, especialmente se foi realizará nos anos 1980, o auge do subgênero, e mais por encontrar, dentro dessas produções baratas qualidades muitas vezes surpreendentes, quando a gente sabe que a maioria dessas produções artesanais, mas feitas quase em ritmo industrial naquela primeira metade da década de 80. E de vez quando um desses filmes que não parece valer muita coisa traz algo de muito incentivo e mágico. Eu diria que muito da força de O ESQUARTEJADOR (1982), de J.S. Cardone, esteja na protagonista, aquela que a gente sabe que é a mais próxima de ser uma final girl. E ela meio que sumiu dos filmes depois dessa experiência como a heroína, uma mulher atormentada por pesadelos, que é convencida pelo marido e irmão a viajarem de férias para uma ilha deserta. Chegando lá, coisas misteriosas acontecem e há todo um clima em torno de uma tempestade. Ainda acho que o filme podia ser um pouco menor, mas adoro a textura, a interpretação de Sarah Keldall, que parece destoar da dos demais. Não comprei muito o final, mas isso é até um detalhe para um filme que não tinha um roteiro decente, dinheiro pata a produção, mas havia uma bela locação e uma atriz inspirada. Filme visto no box Slashers XVII.
MEDO EM CHERRY FALLS (Cherry Falls)
Acredito que, na virada do milênio, o subgênero slasher, que havia conseguido ser revitalizado a partir de PÂNICO, de Wes Craven, suas continuações e outros sucessos comerciais que vieram na esteira, começou a sair de moda novamente. E isso explica que uma produção relativamente cara como MEDO EM CHERRY FALLS (1999), que chegou a ser exibido em Cannes e comercializado para diversos países, foi lançado direto para a televisão nos Estados Unidos. A ideia para o filme me pareceu bem divertida: um serial killer que tem como modus operandi matar moças e rapazes virgens. E o mais legal é que, quando se descobre isso, os adolescentes virgens da escola preparam uma festa de fim da virgindade, uma grande orgia. E a palavra “orgia” foi bem pensada pelo roteirista do filme, mas, em se tratando de Hollywood, dá para imaginar que certas ousadias foram cortadas. Então, não deixa de ser ridículo que na hora da tal orgia todo mundo está com sua roupa de baixo. A melhor coisa do filme é Brittany Murphy, com sua doçura e vulnerabilidade. Ela é a filha do policial que namora um sujeito que há tempos quer transar com ela e ela hesita. A primeira cena do filme é um prólogo com o assassino (ou assassina) fazendo duas vítimas: um jovem casal que estava namorando no carro perto do rio. Depois, o filme vai ganhando mais leveza, à medida que as cenas na escola vão sendo mostradas. Não é um grande filme, mas prende a atenção, tem uma conclusão divertida e memorável e algumas boas ideias que certamente seriam melhor executadas com um diretor mais talentoso. Uma curiosidade: o roteiro do filme chegou a ser oferecido a David Lynch, que declinou gentilmente, dizendo já estar com um outro projeto. Filme visto no box Slashers XVII.





