domingo, junho 07, 2026

MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe)

 
Na minha adolescência, eu tinha por hábito ver o desenho do He-Man todas as manhãs. Mas era aquele tipo de programa que eu via e achava ruim, tosco, e nem me perguntava por que via mesmo assim. Era excessivamente maniqueísta. Os bons eram muito bons e sem imperfeições; os maus eram feios (o vilão tinha o rosto de esqueleto), seus comparsas eram monstruosos e havia uma vilã chamada Maligna. Acho que nunca entendi direito a mitologia. É como se a criação de uma mitologia não fosse uma intenção, como se aquelas aventuras toscas tivessem só a intenção de vender mais bonecos da Mattel. Acho que nem cheguei a ver o primeiro live-action para o cinema, o MESTRES DO UNIVERSO de 1987, estrelado por Dolph Lundgren. Então, via a produção deste novo filme como um grande desafio por parte dos produtores, do realizador e dos roteiristas, que aqui são vários.

O espectador de hoje é um pouco mais exigente com desenvolvimento de roteiro e de personagens e nesse sentido acredito que foi um acerto e tanto transformar este novo MESTRES DO UNIVERSO (2026), dirigido por Travis Knight, numa espécie de aventura com muito humor, um pouco ao estilo dos filmes do MCU, mas com uma diferença: com a compreensão do ridículo da produção original, a primeira leva das animações, de 1983-85. E, nesse sentido, tirar onda da risada maquiavélica do Skeletor (não era Esqueleto mesmo o nome do vilão?) e de fazer troça de uma possível origem do mal do personagem, foi outro ponto positivo. Inclusive, quem faz a divertida voz (e interpretação) do vilão é Jared Leto. Ficou muito bom, assim como a movimentação de seu rosto sem carne.

Outro ponto positivo: o ator que faz o Príncipe Adam, Nicholas Galitzine, foi uma ótima escalação, conseguindo fazer essa expressão de bobão em praticamente toda a narrativa, o que serve tanto como motor para a comédia quanto como uma aproximação com o espectador, que se identifica mais com alguém desengonçado do que com um suposto “homem mais poderoso do universo”. A cena da tentativa dele de beijar Teela (Camila Mendes, da série RIVERDALE) é bem divertida. Aliás, Mendes é a atriz que mais se impõe como uma heroína de fato desde sua primeira aparição, lutando contra um monstro e resgatando Adam do planeta Terra.

Na trama, Skeletor domina o reino de Eternia, aprisionando o rei e a rainha. O menino Adam, porém, consegue escapar com a espada do poder, graças a um encanto da Feiticeira (Morena Baccarin), que lança o menino na Terra, e lá ele fica durante 15 anos, até a idade adulta. Nesse período, ele é visto por amigos e colegas de trabalho como um louco alucinado que inventa histórias sobre um planeta distante, um vilão com cara de esqueleto e uma espada mágica desaparecida, que é alvo de obsessão de sua parte. A espada aparecer numa loja de brinquedos, aliás, e se parecer com um brinquedo, é outro acerto do filme.

O que surpreende em MESTRES DO UNIVERSO é a relativa violência da ação. Muito maior do que eu esperava. E se He-Man na animação original não matava nem féria ninguém, aqui ele acaba por fazer isso. O que eu achei bem-vindo. Assim como é bem-vinda a trilha sonora rock retrô oitentista. Muito melhor do que uma trilha orquestrada e sonolenta, além de muito coerente com o espírito dos anos 1980, o período de lançamento e popularidade da série de TV. Popular principalmente no Brasil: nos Estados Unidos o filme está fracassando nas bilheterias, enquanto aqui está sendo um sucesso, com o público vibrando durante a sessão, e aplaudindo no final.

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DEVORADORES DE ESTRELAS (Project Hail Mary)

Eu já estava bem cismado com todo o hype que este DEVORADORES DE ESTRELAS (2026) vem recebendo por parte de alguns críticos e influenciadores. Também fiquei muito surpreso com as sessões lotadas na sala IMAX, e de certa forma me deu uma pontinha de alegria em ver mais gente contrariando a lógica do dono da Netflix. Além do mais, fiquei pensando se os diretores de TÁ CHOVENDO HAMBÚRGUER (2009) e UMA AVENTURA LEGO (2014) dariam conta de criar um drama de ficção científica épico aos moldes de INTERESTELAR, de Nolan. Infelizmente meus temores se confirmaram, ao menos para mim, já que todos os momentos de interação entre Grace e Rocky me pareceram sem força dramática, embora tenham, sim, seus momentos de graça, de diversão. Mas é um tipo de diversão mais “fofa”, com uma intenção de pegar o público mais juvenil, mesmo com a parte “científica” da história não sendo tão simples assim. Além do mais, me irritava aquela trilha sonora insistentemente “épica”, como se quisesse nos fazer crer que aquele filme era mais do que aparentava ser. De todo modo, o resultado positivo deve muito ao carisma de Ryan Gosling, que passa boa parte do tempo sozinho – nos flashbacks, destaque para a presença sempre boa de Sandra Hüller. Há também que se dar o devido crédito à apresentação de um herói sem tanto heroísmo assim, mas não creio que seja algo inédito.

PÂNICO 7 (Scream 7)

Mesmo sendo de longe o pior filme da franquia, é possível se divertir com este PÂNICO 7 (2026), que conta com o retorno de Neve Campbell como Sidney, depois da ausência sentida no filme anterior (2023). Percebe-se que Pânico, uma das poucas franquias de terror a manter uma boa regularidade, finalmente chega a esse momento de clara decadência e busca tirar leite de pedra com o que sobrou dos personagens originais e da nostalgia que ainda parece ser a aposta para a manutenção. Bem que a dupla Bettinelli-Olpin e Gillett tentou passar o bastão para uma nova geração, mas situações nos bastidores deste novo filme fizeram com que tudo mudasse. Primeiro, a dupla de diretores pulou fora, depois houve a polêmica de Melissa Barrera apoiar a causa palestina nas redes sociais, o que ocasionou sua demissão pela produtora Spyglass. Em solidariedade a Barrera, Jenna Ortega também pediu demissão. O novo diretor contratado, Christopher Landon, acabou saindo também, com tanta confusão envolvida. O resultado, com o roteirista Kevin Williamson assumindo a direção, é um filme frio, desinteressante, pobre no enredo e na forma, além de nos deixar sem o menor interesse de torcer pelos personagens. Até tem algumas cenas mais gráficas do ataque do vilão (ou vilões), mas nada que provoque horror. Aliás, o filme até ganha mais interesse quando parece uma novelona, com pouco espaço para o humor, chave para a graça da franquia. Do elenco, gostei de Anna Camp, a coadjuvante que rouba a cena. Quanto a Isabel May, que faz a filha da Sidney, lhe falta o carisma que Melissa Barrera tinha. E agora?

WICKED – PARTE II (Wicked – For Good)

Ainda continuo achando um saco, pelo menos na maior parte das vezes, as cenas musicais do filme, embora goste do último dueto entre Ariana Grande e Cynthia Erivo. Na verdade, estava curioso mesmo era para saber o desfecho com relação à amizade e posterior fim da amizade entre as heroínas. Pois, no fim das contas, Wicked é sobre isso: amizade, mais exatamente amizade feminina, muito mais do que uma história de bruxas ou um prequel de O MÁGICO DE OZ. Falando no filme de 1939, é nesta sequência que a trama do clássico invade a trama de WICKED II, e gosto muito de como isso é desenvolvido. A última cena das duas amigas/inimigas conversando a partir da resolução de Elphaba é de fato emocionante e o recurso da tela dividida foi uma sacada muito boa do realizador. Serve tanto para tornar uma delas mais protegida enquanto a outra está (bem) mais exposta. Wicked é uma bela história sobre sacrifícios, dor e crescimento emocional. Poderia até ter gostado mais, mas acredito que o gênero e a falta de boas canções me afastam um pouco. Ariana Grande passa muito bem a angústia e a complexidade de seu papel.

domingo, maio 24, 2026

PASSAGEIRO DO MAL (Passenger)

 
Ando desanimado por causa de uma virose tão forte que acredito que teve um efeito pior do que as vezes que peguei COVID. Isso porque veio junto também com infecção e sinusite. Dia desses, ainda um pouco doente, frustrado por estar sem ir ao cinema, fui parar no Cinema do Dragão para ver MAMBEMBE. Resultado: a sonolência me fez dormir a primeira hora inteira do filme. Ao acordar e ver o quão inútil seria eu tentar ver meia hora de filme, me levantei e fui embora frustrado, de volta pra casa. E o triste é que eu tenho consciência de que um filmaço estava sendo projetado em minha frente. Algumas imagens ficaram guardadas na memória e pretendo vê-lo um dia ainda, se possível.

Passados alguns dias, calhou a suposta oportunidade de ver um filme de terror de um cineasta invulgar num horário acessível e com menos chances de dormir na sessão, de minha parte. Até porque estava melhor da virose. O filme era HOKUM – O PESADELO DA BRUXA, de Damian McCarthy. Porém, eis que, como num passe de mágica, a sessão, que de manhã só constava alguns poucos pagantes, lota, de uma hora pra outra, no cinema do Cinépolis RioMar Fortaleza. Aliás, estranhamente eu chequei que várias sessões de outros filmes lotaram no sábado neste mesmo espaço. Foi bom eu ter checado no Ingresso.com, então. A segunda opção de bom filme de horror (legendado e em sala decente) que eu tinha era PASSAGEIRO DO MAL (2026), do cineasta norueguês André Øvredal, o mesmo de A AUTÓPSIA (2016). Felizmente deu certo, e embora seja um filme mais convencional, o resultado foi satisfatório.

Vejo o cinema hoje em dia como um dos espaços onde melhor consigo me desconectar das redes sociais, nem que seja por um período de apenas duas horas. E acho tão recompensador, tão necessário, para dizer o mínimo... Por isso acredito que o homem que estava inquieto e olhando o tempo todo da sessão de PASSAGEIRO DO MAL para seu celular não devia estar bem. Ele nem quis se permitir estar conectado ao filme. Levantava-se com sua garrafa de água, talvez esperando alguém que nunca veio, depois voltava, e ensaiou saída mais uma vez, infelizmente retornando. Até pensei em ir reclamar com alguém do cinema, mas em determinado momento fui olhar para os meus “colegas de sessão” e havia pelo menos mais duas pessoas que olhavam para o celular em vez de olhar para a tela, que aliás, estava com uma projeção de dar gosto (sala 4 do UCI Iguatemi). Esse cenário é preocupante, uma vez que cinema não é telenovela, em que é possível acompanhar enquanto se lava a louça ou se varre a casa. É algo pensado para ser apreciado por completo.

PASSAGEIRO DO MAL já começa com um prólogo intrigante e um baita jump scare. Logo depois, somos convidados a acompanhar o casal vivido por Maddie (Lou Llobel) e Jacob (Jacob Scipio). O rapaz é louco pela namorada, e a pede em noivado. Mas possui também uma outra paixão: o prazer de viver na estrada, morando num carro todo equipado para ser também seu espaço de moradia, além de participar de encontros com outras pessoas que optam por esse estilo de vida. Maddie não compartilha a mesma paixão que o namorado, mas tem por ele uma forte conexão. O problema “horrorífico” em questão (afinal, trata-se de um filme de horror e não só um drama sobre a dificuldade de um relacionamento) surge na figura de uma espécie de demônio das estradas, o tal “passageiro”

O filme de Øvredal tem alguns momentos de brilhantismo, embora também sofra com certas escolhas. Por exemplo: aproximar e mostrar muito de perto o tal “passageiro” tira muito de sua aura assustadora. Então, por mais que suas aparições sejam rápidas, a aparência de um Ozzy vestido de padre não ajuda muito. Por outro lado, há belíssimas utilizações de atmosferas de tensão e medo, especialmente quando se trabalha com movimentação de câmera (o uso da janela scope ajuda muito aqui) e com a escuridão. Então, como esse demônio aparece no escuro, quando chega a noite e eles ficam mais à mercê de seu ataque, o filme cresce, como na cena da projeção de A PRINCESA E O PLEBEU no meio da floresta (essa é uma baita cena) ou o último ato, quando o casal procura meios de vencer a assombração e sai em busca de uma igreja. Ao que parece, os filmes de terror católicos nunca sairão de moda. Mas aqui funciona bem e a cena do trajeto até a igreja é mesmo incrível.

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PRÉDIO VAZIO

Se não me engano, este é o primeiro filme de Rodrigo Aragão que chega ao circuito local. O que é uma pena, levando em consideração o fato de o diretor ser um dos principais nomes (senão o principal) de um cinema declaradamente de horror produzido no Brasil. E acabou chegando via circuito alternativo, já que começou sua carreira na Mostra de Tiradentes, de onde saiu já com uma distribuição garantida (pela Retrato Filmes). PRÉDIO VAZIO (2025) tem um quê de EVIL DEAD, mas também lembra os filmes do Mojica, só que com o aspecto artesanal também vinculado a uma direção de arte com uso de CGI. Mas é artesanal raiz nos efeitos de maquiagem para a violência gráfica e até na maquete usada para o prédio (segundo Aragão, muitos donos de prédios têm medo de entregar seus imóveis para produções de filmes de terror). Parafraseando o narrador de VINIL VERDE, esta é uma história de mãe e filha. A mãe está curtindo o último dia de Carnaval em Guarapari-ES, quando dá um grito no telefone com a filha, que sofre com pesadelos e vai parar na cidadezinha costeira com o namorado em busca da mãe. Gilda Nomacce está mais uma vez ótima, como uma mulher que cuida do tal prédio do título. Adoro os close-ups nela, quando a atriz está em modo berserk.

A MULHER NO JARDIM (The Woman in the Yard)

Eis um filme que não é recomendado que seja visto caso a uma pessoa esteja passando por momentos psicologicamente difíceis ou algum quadro de depressão. Está longe da linhagem do terror escapista e divertido, no caso. Aqui o talentoso Jaume Collet-Serra sai da seara dos thrillers de ação com o Liam Neeson e outros filmes de gênero que causam certa alegria, como A CASA DE CERA (2005), A ÓRFÃ (2009) ou ÁGUAS RASAS (2016) e abraça algo mais sério. Mas é bom vê-lo saindo de experiências de fundo do poço como ADÃO NEGRO (2022) e voltando para o terror com uma história perturbadora e claustrofóbica em que uma família vivendo um luto da morte do pai e marido se vê com a visita de uma estranha mulher que se instala sentada numa cadeira próxima a casa deles. A casa está sem energia elétrica, pois falta dinheiro para pagar, e há toda uma carga pesada nas relações entre as pessoas da família – há um momento que poderia ser simples, envolvendo uma bolinha, mas que acaba sendo quase tão perturbador quanto a ameaça fantasmagórica. O que mais me assustou em A MULHER NO JARDIM (2025) foi o quanto o terror que o filme traz não dá trégua: há a depressão dentro da casa e a ameaça externa, que na verdade é interna. Ou seja, se correr o bicho pega etc. e tal. Eu diria que se trata de um dos filmes sobre enfrentamento de demônios interiores que mais me pegou, que mais me trouxe sentimentos densos e intensos. Se a Blumhouse quer vender o filme como um novo M3GAN, como dá a entender pelo cartaz, vai pegar muita gente desprevenida com esse exemplar pra lá de sombrio e angustiante. Uma das cenas finais vai ficar grudada na minha retina durante um tempo e não sei se vou querer ficar com ela, não.

A HORA DO MAL (Weapons)

Demorou para que Zach Cregger lançasse outro filme nos cinemas, depois do ótimo NOITES BRUTAIS (2022), que não chegou aos cinemas, mas que foi um sucesso entre os lançamentos de streaming, em especial entre o público mais fã do cinema de horror. Cregger é um diretor que vem da comédia e achei muito legal estar numa sala enorme (a sala IMAX do Iguatemi Fortaleza) e quase lotada com muita gente rindo de várias sequências. Ou seja, existe, sim, um humor muito peculiar num filme que começa bastante solene, além de muito misterioso e até lírico e melancólico, em especial quando ouvimos "Beware of Darkness", do George Harrison. A trama de A HORA DO MAL (2025) em si já começa muito interessante: 17 crianças de uma mesma sala de aula desaparecem misteriosamente no meio da noite. Não se sabe onde foram parar e uma das pessoas consideradas responsáveis é a professora daquela turma, a personagem de Julia Garner, que está num ano perfeito, aliás, depois de ter aparecido no subestimado LOBISOMEM e ainda esteve em cartaz como a Surfista Prateada de QUARTETO FANTÁSTICO – PRIMEIROS PASSOS. Aqui ela é uma das várias personagens que terão seus pontos de vista apresentados, a fim de comporem uma história cheia de surpresas, tanto na trama quanto na montagem. Assim, mais à frente veremos os pontos de vista de um dos pais de uma criança desaparecida (Josh Brolin), de um policial (Alden Ehrenreich), do diretor da escola (Benedict Wong), entre outros. O filme termina e dá vontade de ver de novo. Bom perceber que o gênero está voltando a ter muito prestígio, mas isso acontece também quando as próprias distribuidoras apostam nesses filmes, como foi o caso aqui. Fiquei pensando: todas essas pessoas que estavam na sessão estavam lá por causa da boa repercussão do filme pela crítica ou simplesmente queriam ver um filme de terror qualquer? Não me pareceu ser a segunda opção, não.

sábado, maio 23, 2026

ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (Something Bad Is Going to Happen)

 
A noiva ensanguentada. Quando vi uma das imagens mais belas do cinema de horror deste ano (embora seja uma minissérie para streaming e não um filme para cinema), me veio à mente o título do filme de Vicente Aranda. Mas a imagem que fica grudada na retina é da belíssima Camila Morrone, alta e de sobrancelhas grossas e definidas, chegando a lembrar Dua Lipa, que interpreta aqui Rachel, uma jovem que está indo com o noivo, Nicky (Adam DiMarco), conhecer a casa na floresta dos pais dele, conhecer finalmente a família dele, depois de alguns anos de relacionamento. Essa casa, localizada numa região gelada e ao norte dos Estados Unidos, é enorme e luxuosa, e é lá que acontecerá o casamento, marcado para alguns dias dias após a chegada dos noivos.

O primeiro episódio de ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (2026), criação da jovem Haley Z. Boston, mostra o casal passando por situações tensas em temperaturas geladas até chegar à casa, como a tentativa de “salvar” um bebê aparentemente abandonado dentro de um carro. É também nesse trajeto que Rachel dá de cara com um estranho homem, que passa a segui-la. Mas é na casa de Nicky que ela ficará bem pouco à vontade, já que a família parece não gostar dela e inicia-se algo que tanto parece uma paranoia quanto de fato uma conspiração para matá-la. Como a série é vista principalmente pelo ponto de vista de Rachel, tendemos a ver a história por sua ótica. Até por que, quem em sã consciência, acharia que era só brincadeira alguém roubar o vestido de noiva para fazer uma espécie de imagem digna de um filme de horror folk? Então, há, sim, algumas coisas no roteiro que parecem um pouco forçadas, mas vejo tudo como algo que dê para relevar.

Assim como dá para relevar se falar tanto em alma gêmea, com tanta verdade que fica parecendo que os roteiristas, a maioria do sexo feminino, acreditam mesmo nessa ideia. Mas é importante acreditar, uma vez que a minissérie é sobre isso, sobre acreditar, sobre confiar, e isso vai ficar mais claro em sua conclusão, que tem algumas metáforas bem bonitas. Mas até chegar ao fim a série passa por caminhos tortuosos. Embora não tenha nenhum episódio que eu tenha desgostado, foi a partir do quarto episódio que a produção ganhou o meu respeito, ao nos levar para a história dos pais de Rachel a partir de uma imagem de VHS velha, onde muita coisa será revelada.

Acho interessante que a maior parte da equipe de diretoras (uma delas, Weronika Tofilska, dirigiu alguns episódios de BEBÊ RENA) e roteiristas seja formada por mulheres, o que passa uma maior verdade no que se refere aos sentimentos das personagens femininas. Não apenas de Rachel, mas também de Nell (Karla Crome), da matriarca Victoria (Jennifer Jason Lee) e de Portia (Gus Birney). Quando a série começa a nos fazer gostar da família, bateu até uma saudade de quando vi A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL, de Mike Flanagan, que era centrada mais no amor que nutrimos pelos personagens do que na história de terror.

O que não quer dizer que ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER não tenha seus momentos de horror bem gráfico, muito antes do banho de sangue digno do conto “A Máscara da Morte Rubra”, de Edgar Allan Poe, algumas vezes adaptados para o cinema e a TV. O sétimo e penúltimo episódio nos deixa em estado de aflição e o uso do plano-sequência para descrever o estado de ansiedade da heroína funciona muito bem. A câmera em alguns momentos lembra EVIL DEAD, noutros, lembra O ILUMINADO, embora os corredores aqui não sejam tão iluminados, o que, aliás, eu prefiro. Há um uso muito interessante da câmera atravessando os corredores do luxuoso espaço, que às vezes passa a impressão de ser um labirinto.

Vale destacar também os personagens masculinos, que se veem mais dependentes e até dizem isso em voz alta, como é o caso do patriarca, Boris (Ted Levine), que diz que depois que a esposa, com câncer em estágio avançado, morrer, não tem ideia de como será a vida dele e dos filhos, pois é ela a sustentação daquela família. Jules (Jeff Wilbusch) também está melancólico devido a seu casamento prestes a ruir. Eis um personagem tão fácil de odiar quanto de amar. É o que mais tem uma trajetória de mudança no enredo sob nossa perspectiva. E Nicky se vê como um homem não tão nobre assim para a noiva Rachel, além de ser vítima do excesso de cuidados dos pais, por ser o filho mais novo. Eles representam uma espécie de tradição de família, muito mais do que as mulheres.

Gosto da conclusão, com uma definição satisfatória envolvendo a tal maldição. Uma maldição, aliás, muito curiosa só de ter sido imaginada. Sendo o roteiro original e não adaptação de obra literária, sente-se uma maior liberdade na condução. Os diálogos são bons, assim como o trabalho de suspense e terror, que ganha força com o visual caprichado. se e terror, que ganha força com o visual caprichado.

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A NOIVA! (The Bride!)


O segundo longa dirigido por Maggie Gyllenhaal, como geralmente ocorre com filmes dirigidos por atores, privilegia mais a atuação do que a encenação. O que não chega a ser um grande problema. Mas A NOIVA! (2026) é um filme que parece perdido em suas intenções: joga no mesmo liquidificador uma história de amor, um thriller de gângsters inspirado em BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, uma história de monstros que homenageia os clássicos de James Whale, um tributo feminista a Mary Shelley, e é principalmente uma obra bastante militante. E ser militante nos dias de hoje, com tanto feminicídio por aí, em tempos de maior conscientização do papel da mulher na história e do cerceamento de sua voz, é obviamente bem-vindo. O problema é que Gyllenhaal se repete muito ao longo das pouco mais de duas horas de sua obra. Como se a própria protagonista, vivida por Jessie Buckley, quisesse também lembrar a si mesma do quanto deve ser independente. A NOIVA! também nos faz perceber o quanto o romance de Shelley segue vivo e interessando a diversos artistas - lembremos que mais recentemente tivemos outras duas obras inspiradas no clássico: POBRES CRIATURAS, de Yorgos Lanthimos, e FRANKENSTEIN, de Guilhermo del Toro, cada uma escolhendo caminhos próprios. Gyllenhaal também faz suas escolhas. E são escolhas ousadas, mas me perguntava se optar por explicitar Bartebly, de Herman Melville, inúmeras vezes não seria um exagero. Entre outras repetições. De todo modo, o importante é que a voz da artista seja mantida em sua totalidade.

A MEIA-IRMÃ FEIA (Den Stygge Stesøsteren)

Confesso que o fato de ser uma reimaginação de um conto de fadas foi algo que me deixou um pouco afastado do filme por um momento. Tanto que fiquei esperando logo que aparecesse o horror corporal. Mas quando aparece não desaponta (para quem gosta do gênero, claro, quem gosta de imagens chocantes e criativas). Essa reimaginação de contos de fadas pela perspectiva de um personagem não-protagonista não é novidade: basta lembrar de MALÉVOLA, da Disney. Mas A MEIA-IRMÃ FEIA (2025), de Emilie Blichfeldt, vai além, sem falar que carrega a estranheza mais típica do cinema de gênero europeu. A história de Cinderella é aqui contada pelo ponto de vista de uma das meia-irmãs da Gata Borralheira. A jovem Elvira (Lea Myren) sofre com a pressão da mãe, que logo depois de casar com o pai de Agnes, a Cinderella, fica viúva e estabelece prioridades para a filha: Elvira deve se casar com o príncipe, que dará um baile em que escolherá sua esposa. Só assim ela conseguirá dinheiro para a família. Os meios para Elvira ficar bonita são cruéis e existe até uma filosofia propagandeada: é preciso sofrer para ficar bela, ou algo do tipo. Algumas cenas ficam mais gravadas na memória: a cena dos cílios e do flagra no estábulo estão entre elas, mas nada nos prepara para uma das cenas finais.

ZUMBIS DO MAL (Messiah of Evil)

Vendo este ZUMBIS DO MAL (1974), de Willard Huyk e Gloria Katz, fiquei imaginando como seria vê-lo numa sessão no cinema, à noite, num espaço quase vazio, de modo a experimentar melhor o clima misterioso que o filme traz. Adoro as imagens noturnas, da praia ou das ruas desertas, assim como da casa-studio cheia de cores vivas. Gosto mais do filme quando há pouca ou nenhuma presença física dos zumbis do título brasileiro, pois passa algo de Lovecraft, além de esconder melhor as deficiências orçamentárias da produção. Na trama, jovem mulher vai em busca do pai numa pequena cidade costeira, quando descobre que o lugar virou uma espécie de cidade fantasma e as coisas que descobre são principalmente através do diário do pai desaparecido. O número de personagens aumenta com a entrada em cena de uma espécie de aristocrata rodeado de garotas e há alguns coadjuvantes expressivamente aterradores, como um homem que aparece no posto de gasolina com uma caminhonete cheia de corpos degolados. Os diretores disseram que, ao receberem a proposta de fazer o filme, não tinham tanta aproximação com o cinema de horror e por isso acreditam que uma das referências principais é Michelangelo Antonioni. Visto no box Zumbis no Cinema 4.

quinta-feira, maio 14, 2026

FUGA DO PASSADO (Out of the Past)



Fico às vezes pensando no quanto minha memória é falha em relação a filmes e livros. Se bem que talvez esse seja um problema que não afeta somente a mim. O que sei é que há filmes que me provocam certa atração e ao mesmo tempo vão embora nas sombras da memória, como se fosse um sonho, que, se não anotarmos ou não contarmos imediatamente para alguém, ele logo vai para o esquecimento eterno. E há filmes que têm mesmo esse teor de sonho, e o noir talvez se aplique bem a essa categoria. Nem faz tanto tempo assim que vi pela primeira vez FUGA DO PASSADO (1947), de Jacques Tourneur. Foi em 2009 e escrevi quatro pequenos parágrafos a respeito para este espaço. .

Só que esse filme vem me chamando a atenção para a revisão já faz um tempo. Primeiro quando a Versátil o colocou entre os 10 essenciais do subgênero do livro Filme Noir – Dez Filmes Essenciais da Coleção, da já saudosa “enciclopédia Versátil”, a série de livros de gêneros diversos publicados ao longo de mais de dois anos pelo selo. No livro, o texto escrito por Heitor Romero destaca o filme como parte dessa “antena coletiva” que fez com que praticamente todos os filmes policias e criminais da época possuíssem essa aura sombria, com mais sombras do que luzes em fotografias principalmente em preto e branco. Afinal, o mundo estava em guerra e depois da Segunda Guerra viria a guerra fria. Os artistas têm a sensibilidade de criar uma espécie de documento de sua época. E os diretores de filmes noir, em sua maioria, faziam produções B (de baratas), tendo, portanto, menos interferência dos produtores.

A vontade de rever FUGA DO PASSADO veio também com o podcast Filmes Clássicos, em que os três criadores do conteúdo discutem sobre o clássico. Ouvi duas vezes: uma antes de rever o filme, para aumentar a vontade, meses atrás, e outra de ontem para hoje, com a lembrança da história e dos personagens mais fresca. Outra pessoa que também escreveu sobre o filme recentemente foi Filipe Furtado, em seu Substack, o que foi aumentando ainda mais meu interesse e minha atração pela obra.

E de fato FUGA DO PASSADO é desses filmes que merecem revisões regulares. A tragédia do protagonista, vivido por Robert Mitchum, ao ter que adentrar o passado que tentou esquecer, fica mais clara (ou mais escura?) na revisão. O filme começa com uma imagem bem ensolarada, com um homem aparecendo durante o dia numa cidadezinha do interior em busca de Jeff Bailey, o personagem de Mitchum. Depois vemos Jeff com sua namorada, Ann (Virginia Huston), sonhando com um futuro tranquilo que quer ter com ela naquele lugar pacato. 

Acontece que ele é encontrado e chamado pelo antigo chefe (Kirk Douglas). E por isso ouvimos o longo flashback que nos deixará a par de seu passado. Eu até diria que o melhor do filme está nesse flashback, quando ele conhece Kathie (Jane Greer, vivendo uma das mais marcantes femme fatales da história do cinema). Kathie, supostamente, havia atirado no chefão e fugido com 40 mil dólares. E é claro que Jeff vai se apaixonar por Kathie, e esse interesse, esse tesão, essa sensação de querer viver uma aventura perigosa com aquela mulher atraente, reverbera na mente do espectador também. É uma pena que a carreira de Greer não tenha sido tão bem-sucedida, mas acabei de ver que ela aparece justamente no remake de FUGA DO PASSADO, o thriller PAIXÕES VIOLENTAS, de Taylor Hackford. Aliás, bateu vontade de ver esse filme, hein.

Voltando ao filme de Tourneur, é interessante notar como fica destacada a mudança da luz para a sombra, logo que o herói é enviado para conversar com o chefão do crime e deixa aquele ambiente idílico e aquela namorada carinhosa. Sem falar que toda a descrição de quando ele conhece Kathie, tem algo de fatalista e ao mesmo tempo muito atraente. Na primeira aparição de Kathie, inclusive, quando ela adentra o bar, ela sai da luz para as sombras, da luz do luar para a penumbra daquele ambiente, em Acapulco. Depois, nas cenas na praia, seremos presenteados com mais desse sentimento conflitante e excitante. O que é impressionante, levando em consideração as limitações que o Código Hays impunha aos cineastas, no que se referia às cenas sensuais.

Podemos dizer, inclusive, que a atmosfera do filme é devedora do estilo e da sensibilidade de Tourneur, que já havia reinventado o horror com SANGUE DE PANTERA (1942) e A MORTA-VIVA (1943) e aqui contribui para o ciclo noir com sua capacidade impressionante de registrar a noite como um personagem da trama. Em determinado momento, Jeff diz que havia trocado o dia pela noite, já que não encontrava Kathie de dia. Como se ela fosse de fato alguém das trevas. Como mais tarde isso se comprovará. 

Depois do flashback, eu sinto que o filme entra numa outra trama bastante confusa e intrincada, mas não chegamos a perder o interesse. Mesmo sem entender muito bem certas coisas do enredo, dos planos e contraplanos dos personagens, FUGA DO PASSADO permanece fascinante. Até porque teremos aparições diferentes de Kathie, sendo que a última dela, com uma vestimenta parecida com a de uma freira de roupa escura, a coloca numa posição de figura das trevas, logo após ter matado o personagem de Kirk Douglas. Ou seja, todas essas sutilezas e maneiras diferentes com que a personagem aparece enriquecem e muito a obra como um todo, colocando o clássico de Tourneur no alto de um ranking não apenas dos melhores filmes do ciclo, mas do cinema mundial como um todo.

+ TRÊS FILMES

PRECIPÍCIOS D'ALMA (Sudden Fear)

A iniciativa recente da Versátil Home Vídeo de publicar livros temáticos foi recebida com entusiasmo por mim. Nem sempre vou conseguir tempo para ver todos os filmes disponíveis em minha coleção de mídia física, e por isso alguns deles ficam invisibilizados por um longo tempo. Certos títulos aparecerem em destaque nos livros chama a atenção para que sejam vistos. Foi o caso de PRECIPÍCIOS D'ALMA (1952), de David Miller, que apareceu no livro Thrillers – Pérolas do Suspense, e que está presente no box Filme Noir Vol. 8, que inclusive traz um ótimo extra do curador Fernando Brito destacando a importância e a beleza do filme. Confesso que, por mais que já esperasse um grande filme, não imaginava quão maravilhoso e inventivo seria em sua junção de melodrama, suspense e até terror na história de uma dramaturga milionária (Joan Crawford) que se apaixona por um ator meio canastrão (Jack Palance). Depois da conquista, vem o casamento, e com meia hora de filme surge uma personagem-chave (Gloria Grahame) para a mudança de tom da narrativa. A cena em que a personagem de Crawford descobre numa gravação os planos do casal de picaretas é incrível, e até penso como uma cena que influenciou Brian De Palma em UM TIRO NA NOITE. Outra cena muito inventiva, talvez a melhor, é a sequência final, que começa com as imagens dos planos da heroína sinalizados por um grande relógio com os ponteiros rodando na tela. Absolute cinema!!

CÓDIGO PRETO (Black Bag)

Acompanho a carreira de Steven Soderbergh desde quando era tudo mato. Vi no cinema seu até agora insuperável SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) e fui acompanhando suas obras sem perder nenhum filme (com exceção de alguns inéditos no Brasil) até, acho, CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (2009). Depois começou a ficar difícil acompanhar, tanto pela rapidez com ele que lançava novos filmes, quanto por ele gostar de alternar filmes de produção mais cara com produções mais baratas, mais independentes. E sempre achei muito legal isso, embora nunca tenha encontrado uma assinatura em seus filmes. CÓDIGO PRETO (2025) seria parente de IRRESISTÍVEL PAIXÃO (1998), pela beleza de seus atores, pela classe com que ele os apresenta, pelo visual caprichado na fotografia, e também por abraçar um tipo de gênero específico. Aqui, no caso, o filme de espionagem. O que conta não é o que a gente entende especificamente, já que há um MacGuffin, mas o jogo de nervos que funciona como uma brincadeira perigosa e também gostosa de acompanhar. Um luxo poder trazer tanto Cate Blanchett quanto Michael Fassbender, dois baita atores que também têm grande presença de cena. Soderbergh capricha na edição, nos diálogos e na atmosfera, trazendo perigo quando o que mais vemos é mais conversa e menos violência.

CAMINHOS DO CRIME (Crime 101)

É impressionante como o capitalismo está tão enraizado na alma do estadunidense (tentando me acostumar a usar esse termo) que os desfechos felizes de certos personagens são associados muito mais ao ganho material do que a outro tipo de felicidade. (Aviso de spoiler leve.) É assim que acontece com a personagem de Halle Berry; é assim que acontece com o personagem de Mark Ruffalo. No caso de Ruffalo, eu nem acreditei no que estava vendo (até pelo posicionamento político de Ruffalo). De todo modo, CAMINHOS DO CRIME (2026), de Bart Laytton, não deixa de ser um bom drama criminal que traz histórias que se entrecruzam, sendo a principal delas a do ladrão vivido por Chris Hemsworth (cada vez melhor ator). O personagem, ao se interessar por uma bela mulher (Monica Barbaro), começa a repensar sua vida de ladrão profissional. Esse aspecto da trama, assim como o andamento mais cadenciado, faz lembrar um pouco FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann. E não duvido que Mann tenha sido uma de suas principais inspirações, embora também lembre tanto o polar (o policial francês dos anos 1950-70) quanto o cinema policial americano da Nova Hollywood, embora bem menos pessimista. Vale destacar também a breve participação de Nick Nolte, em estado físico claramente decadente. Já o personagem de Barry Keoghan, apesar de importante para a trama, me pareceu apagado para o talento do jovem ator.

segunda-feira, maio 11, 2026

JERICÓ (Jerichow)



Há uma meia dúzia de filmes de Christian Petzold dando sopa na Mubi, e outros tantos em meus HDs externos, cá entre nós. E eu tenho essa lacuna imensa na filmografia deste que talvez seja o mais querido cineasta alemão do novo século. E curiosamente JERICÓ (2008) é o filme imediatamente anterior ao meu primeiro contato com o cinema do realizador, BARBARA (2012), que corre o risco de ainda ser o meu favorito, talvez por ter visto numa noite misteriosa, sozinho, com uma plateia pequena, numa sala de cinema que já não existe mais (o Cine Aldeota).

JERICÓ me chamou a atenção, enquanto zapeava pelo conteúdo do streaming por sua relação com o romance de James M. Cain, que já deu origem a dois clássicos do cinema americano de mesmo nome, O DESTINO BATE À SUA PORTA, nas versões de Tay Garnett (1946) e de Bob Rafelson (1981). Aqui Petzold opta por utilizar o esqueleto da história: um homem mais jovem, uma mulher atraente insatisfeita com o casamento, um homem rico cuja morte talvez seja a opção mais viável para a libertação dessa mulher, sendo que ela continuará com dinheiro. O dinheiro como necessidade, mas também como raiz do mal. 

Há, portanto, essa forte conexão com o filme noir americano, embora não se fuja de um tom mais solar, com a traição acontecendo também à luz do dia. Se bem que é uma cena noturna que mais me encanta: Thomas (Benno Fürmann) se esconde pelo bosque, nos fundos da casa de Ali (Hilmi Sözer) e de Laura, vivida por Nina Hoss, a musa maior do diretor [até ele trocá-la por Paula Beer, a partir de EM TRÂNSITO (2018)] . O marido acredita ser um bicho que está fazendo barulho na vegetação, ele se aproxima dela, agarra sua mão e depois some na escuridão. Thomas é um personagem que parece disposto a tudo. Por mais que diga que está apaixonado por Laura, sente-se no ar menos um clima de romantismo e mais uma espécie de desespero por algo proibido. 

Talvez o problema do filme seja não dar tanta importância assim ao pobre marido doente, embora ele não fosse de todo vítima, levando em consideração sua crueldade e violência com a esposa e a pessoas com quem trabalha. Age como um gângster. Mas adoro quando ele some um pouco da história, fazendo com que sua presença seja quase fantasmagórica, meio que assombrando mais o espectador do que o casal, uma vez que nós, espectadores, sabemos de sua não ida para o destino dito para a esposa e para Thomas.

JERICÓ está para O DESTINO BATE À SUA PORTA (e aqui penso na versão de Rafelson) assim como PHOENIX (2014) está para UM CORPO QUE CAI, do Hitchcock, e essa relação de Petzold com o cinema americano muito me interessa, até por ele transgredir o gênero, de certa forma, com as surpresas da narrativa, com o estilo mais seco, No caso de PHOENIX há um namoro forte com o melodrama também. Não é o caso de JERICÓ, que é mais simples, mais contido. Mas essa contenção parece querer explodir o tempo inteiro. Não à toa a palavra “explosão” também ganhe um significado mais concreto no final da trama.

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PROPOSTA INDECENTE (Indecent Proposal)

Adrian Lyne tem uma queda por radiografar relacionamentos complexos, ou às vezes imorais, seja o relacionamento tóxico (9 ½ SEMANAS DE AMOR, 1986), as possíveis consequências de um adultério (ATRAÇÃO FATAL, 1987; INFIDELIDADE, 2002); a atração de um homem mais velho por uma adolescente (LOLITA, 1997); ou o ciúme como inferno na mente de um homem, como o abordado aqui em PROPOSTA INDECENTE (1993). Também podemos ver o filme como um conto moral que lembra o mito de Fausto ou até a tentação de Jesus no deserto. Afinal, quem resiste à tentação de ganhar um milhão de dólares apenas para passar a noite com um bilionário? Ainda tem o agravante que o casal está passando por uma situação financeira difícil, recorrendo ao jogo em Las Vegas como possível solução. Então, há esse bilionário vivido por um ainda charmoso Robert Redford que faz essa oferta, ao ficar encantado pela mulher. E, de fato, Demi Moore nos anos 1980-90 era uma das mais belas atrizes de Hollywood, tanto que na época que ela fez ASSÉDIO SEXUAL, de Barry Levinson, cheguei a achar inverossímil um homem fazer aquela acusação a ela (um filme, aliás, que talvez mereça um novo olhar hoje de minha parte). Woody Harrelson faz o marido carinhoso e que também se vê tentado pelo dinheiro, ainda que absolutamente arrasado com a ideia de a mulher ter ido pra cama com outro homem. E pior ainda: ter gostado. O estilo videoclipesco que era mais presente no cinema de Lyne nos anos 80 segue presente, mas de maneira mais contida. Ajuda a valorizar e dar suavidade às cenas de intimidade com a presença de Moore, três anos depois de GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA e três antes de STRIPTEASE. Os três filmes apresentam mulheres comuns em situações extraordinárias. Moore cai bem nesses papéis, parecendo despojada até mesmo quando está usando um vestido de luxo. O filme tem um final feliz bem-vindo, assim como também é bem-vindo o tom agridoce que fica no ar. Agridoce como a canção de Roy Orbison que sobe nos créditos finais, “A Love So Beautiful”.

8 DÉCADAS DE AMOR (8)

O que aconteceu com Julio Medem? Ou o que vi em OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR (1998) e LÚCIA E O SEXO (2001) foi uma espécie de delírio coletivo? Os demais filmes que vi do realizador foram também interessantes. UM QUARTO EM ROMA (2010) tem o seu charme e MA MA (2015) me fez chorar litros, segundo meu breve registro. Por isso fiquei tão inconformado e até mesmo constrangido com este 8 DÉCADAS DE AMOR (2025). Se eu fosse o diretor teria guardado esse filme numa gaveta com a chave perdida para que ninguém o visse. Ele começa até bem interessante, ambientado numa área rural da Espanha pré-franquista, alguns anos antes da guerra entre comunistas e fascistas (ou pelo menos é assim que é pintada essa guerra no filme). Os dois personagens principais, Adela e Octavio, são apresentados no dia de seus nascimentos (o mesmo dia) e confesso que gostei dessa sequência do parto. Das situações de duas mulheres parindo e passando por complicações, e a utilização do plano-sequência para levar o espectador junto para a ação. Mas na hora que ouvimos o rádio e ficamos a par da situação política da Espanha, já notamos que o modo como essas contextualizações históricas são colocadas são bem pouco sutis. Mas o filme piora muito ao longo de seus oito capítulos, com zero de química do casal principal, situações surreais que não são boas o bastante para provocarem risos e uma queda vertiginosa da qualidade dos diálogos à medida que o filme vai precisando mais deles. Ou seja, Medem, que já fez bom melodrama, entra numas de ser mais estilizado e acaba fazendo um dos filmes mais cafonas e de gosto duvidoso que já vi na vida. E o que é aquela última cena do casal com as duas famílias? É o tipo de filme que vai fundo no mau gosto de forma tão grande que parece até uma espécie de aposta feita ou algo do tipo.

"O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (“Wuthering Heights")

O trabalho mais ousado da inglesa Emerald Fennell acabou se tornando polêmico pelas liberdades criativas da diretora em relação ao romance original homônimo de Emily Brontë, um dos mais importantes do romantismo inglês. Já recebeu críticas negativas logo com a escolha de um ator branco para interpretar Heathcliff, o herói romântico e trágico que dá a volta por cima na vida social para conquistar a mulher de sua vida. Na verdade, não é bem conquistar, já que Cathy também é perdida apaixonada por ele. Mas há, sim, obstáculos a vencer. A história de "O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (2026) já é conhecida e por isso achei muito bem-vinda esta versão, com exageros visuais que muitas vezes fazem lembrar o estilo publicitário. As primeiras imagens já enchem os olhos, ao som da trilha sonora de Charli XCX, que acentua o tom pop adotado por Fennell. Há um cuidado em valorizar das mais diversas maneiras a beleza de Margot Robbie, que defende muito bem a heroína; assim como Jacob Elordi nos apresenta a um personagem carregado de sombras. Aliás, tanto Cathy quanto Heathcliff são heróis dotados também de certa perversidade, estão longe da pureza dos santos. O que os aproxima de certa santidade é a imensa paixão que sentem um pelo outro. E esta versão é certamente uma das mais sensuais e picantes. Adoro a cena de Heathcliff lambendo os dedos de Cathy, por exemplo; assim como são deliciosas todas as cenas dos encontros proibidos. Se não está recebendo o devido mérito, acredito que no futuro essa adaptação receberá uma melhor atenção e carinho de um público maior.

sábado, maio 09, 2026

O RISO E A FACA



Ao terminar de ver O RISO E A FACA (2025) compreendemos o porquê de o filme ter 3h31min de duração – considerada uma duração longa e muitas vezes um empecilho para alguns exibidores. O motivo é que é mesmo necessário que haja um maior contato do protagonista Sérgio (Sérgio Coragem), e por sua vez nossa, com aquele universo tão fascinante que é a Guiné-Bissau apresentada pelas lentes de Pedro Pinho (A FÁBRICA DE NADA, 2017). Aliás, ao ficar sabendo que existe uma versão do diretor de mais de cinco horas de duração, imagino que deva ser ainda melhor, podendo ajudar a unir certos pontos da estrutura narrativa, diminuir a quantidade de elipses, que são bem perceptíveis dentro da trama. Também é destaque no filme a fotografia quente do cearense Ivo Lopes Araújo, e um dos melhores diretores de fotografia do Brasil, aqui optando por filmar em película (16 mm e 35 mm).

O RISO E A FACA é encantador, assim como o mundo excitante que ele trata de mostrar, com muito mais do que miséria, algo que se costuma esperar das obras ambientadas em países africanos, com personagens inteligentes e muito conscientes de sua própria força, principalmente Cleo Diára, que faz Diára, uma mulher que faz a cabeça do engenheiro ambiental português e bissexual.

Existe uma tensão sexual que se apresenta a partir da resistência de Diára às investidas de Sérgio, até chegar à cena de sexo que já é uma das mais memoráveis do cinema recente. Os planos são geralmente longos e desapressados, com um registro por vezes documental (dos cinco longas de Pedro Pinho, dois são documentários, e imagino que isso deve influenciar no estilo do cineasta). O filme não é só excitação: há toda uma discussão política do papel explorador do povo europeu frente ao povo africano e ver esse tipo de discussão se apresentando é muito importante, levando em consideração que a realidade da África é tão pouco vista em nosso circuito. Assim como o cinema africano em si. E aqui nem é um cinema africano, mas um cinema europeu com um bocado de culpa. Ainda que seja uma culpa que ande de mãos dadas com certo orgulho.

Voltando a Cleo Diária, essa bela atriz ganhou o prêmio de melhor atuação na mostra Un Certain Regard de Cannes-2025. Além disso, o filme está presente no top 10 da Cahiers du Cinéma, junto a obras de realizadores mais badalados, como Paul Thomas Anderson, Kleber Mendonça Filho, Richard Linklater e Christian Petzold. Gostaria muito de ver o corte de mais de cinco horas do filme. Aliás, ao pensar nele, dá vontade de revê-lo como está sendo apresentado agora, num formato um pouco mais palatável para o mercado.

Li um texto muito bom no site À Pala de Walsh que liga o filme ao nosso Tom Zé, o autor da canção homônima que é cantada em determinado momento do filme, a Santo Agostinho e a Baudelaire. Vale procurar e ler.

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A SOMBRA DO MEU PAI (My Father’s Shadow)


Saber que A SOMBRA DO MEU PAI (2025) é uma obra semiautobiográfica do diretor Akinola Davies Jr ajuda a nos manter mais interessados em suas lembranças daquele 23.06.1993, quando ele e o outro irmão pequeno saíram de suas casas num vilarejo mais afastado da Nigéria para a capital Lagos. O pai buscava receber o salário quatro meses atrasado. O filme traz um misto desse olhar infantil, mais inocente, mas também bastante empolgado com aquela movimentação de cidade grande e o nosso olhar, de quem já no mínimo imagina que a situação política do país, que vive sob uma ditadura militar, não vai exatamente melhorar, agora que houve eleições democráticas. Sentimos a torcida daqueles homens por mudança, a admiração pela figura de esquerda que ganha aura de herói frente ao autoritarismo daqueles militares que passeiam pela cidade, com ar ameaçador. O povo brasileiro viveu algo parecido, mas o povo nigeriano enfrentava uma miséria anda mais explícita. É muito bom que estejam em cartaz dois filmes que destaquem dois diferentes países africanos com temáticas bastante políticas, mas também com certo ar fantasmagórico. A SOMBRA DO MEU PAI quase não oferece momentos de respiro ou de alegria, talvez apenas nas reuniões do pai com os amigos, que o viam como uma figura forte e importante.

SIRÂT

Eis um filme que me surpreendeu em muitos aspectos. Não tem aquele rigor formal que eu tanto gosto e nem busca a beleza nas imagens – embora o apego aos personagens nos faça enxergar a beleza, sim, sem falar naquele deserto e suas tempestades de areia. Tristemente bela a cena em que o personagem de Sergi López se deita no chão em plena tempestade de areia, como se não importasse mais com a própria vida, de tão devastado que estava. SIRÂT (2025), Oliver Laxe, faria uma ótima dobradinha com HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET, no que se refere à dor da perda de um filho, mas as intenções são distintas, os métodos são distintos, assim como o tipo de sentimentalidade adotada - em SIRÂT mais duro. Duro como o deserto, as pedras e a vida ali, no norte da África. Senti mais falta de um maior aprofundamento nos personagens, mas talvez não desse mesmo para ter, levando em consideração a duração de cerca de duas horas apenas. Na trama, um homem e seu filho buscam a filha desaparecida numa festa no deserto. Entre as pessoas que os recebem há pessoas amputadas e com um estilo de vida ligado às drogas e ao desapego material. E não há o interesse aqui em corpos perfeitos. Em determinado momento, percebemos que há uma guerra em andamento, o que faz com que a trama tome novos rumos. Em determinado momento, lembrei-me de O COMBOIO DO MEDO, de William Friedkin, que imagino que tenha sido uma inspiração do diretor. Só não digo que SIRÂT é um estouro porque seria maldade.

A QUEDA DO CÉU

Sigo com minha dificuldade de apreciar como gostaria os filmes indígenas ou que dão voz ao povo indígena. Creio que o único de que gostei de verdade foi EX-PAJÉ, de Luiz Bolognesi. Alguns outros me tocaram no sentido de lamentar o extermínio do povo indígena e de causar certo sentimento de impotência, como é o caso de MARTÍRIO, de Vincent Carelli. Agora o movimento é outro, com uma busca de dar cada vez mais voz aos indígenas. Em A QUEDA DO CÉU (2024), de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, vê-se algo de poético e ao mesmo tempo de semelhante ao apocalipse cristão, sobre o quanto o próprio planeta vai cobrar daqueles que seguem destruindo a natureza. Assim, a rotina de vida e os rituais do povo Yanomami se confundem com a luta contra a invasão dos garimpeiros e o agronegócio. Não se trata apenas de mostrar a cultura, a religiosidade e as diferenças com o modo de viver do homem branco, mas também, e principalmente, de mostrar o povo indígena, em especial o Yanomami, em um ato de resistência. Gosto de algumas cenas que apresentam a natureza, como a cena da chuva, e gosto da conversa entre os dois xamãs no escuro, mas, no mais, foi um tanto difícil de acompanhar, mesmo com certo distanciamento e um olhar quase antropológico. Um detalhe importante: havia até que bastante público durante a sessão, o que pra mim foi novidade.

sábado, abril 25, 2026

SUSPIRIA



Há uma cena em SUSPIRIA (1977) que muito me remeteu a David Lynch, mais especialmente a TWIN PEAKS. É a cena em que Suzy (Jessica Harper), a heroína do filme, adentra o covil das bruxas. E para passar para lá ela vira uma chave de cor azul e depois passa por uma cortina azul. O azul é, para Lynch, a cor do mistério profundo, como dito em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, mas Lynch usa cortinas de cor vermelha, no black lodge, lugar inspirado, creio eu, noutro trabalho de um mestre do cinema de horror italiano, Mario Bava, com seu maravilhoso O CICLO DO PAVOR. Ou seja, de vez em quando eu começo a achar que Lynch tinha, sim, usado muitos filmes como referências suas, embora ele não fosse um diretor famoso por isso, como um Leone ou um Tarantino.

É de Bava também a inspiração para Dario Argento usar as cores de maneira tão linda, e chegando a superar o mestre aqui com SUSPIRIA, muito provavelmente o mais belo filme de horror de todos os tempos, quando levamos em consideração o uso das cores, da luz, da direção de arte, dos figurinos e junta tudo isso com uma música também magnífica, composta pela banda Goblin, que emula o espírito onírico da década de 1970, que também foi uma década que se mostrou bastante interessada e curiosa em bruxaria. Ainda sobre as cores almejadas por Argento, ele conta que queria chegar a um tipo de cor usada no technicolor dos filmes hollywoodianos dos anos 1930 e 40, e por isso acabou conseguindo bem pouca película disponível. A sorte é que ele conseguiu rodar tudo com esse material.

Argento vinha de uma série de quatro gialli e adentra aqui o território do sobrenatural, de um medo menos ligado às coisas palpáveis e cortantes, a assassinos em série, embora não tenha deixado de lado os cortes na carne, a beleza da morte como espetáculo, como numa pintura em movimento. A moça que foge da escola de dança é a primeira vítima, e a cena em que ela se aproxima da janela com pavor, antes de ver dois olhos ameaçadores e de ser assassinada, é incrível.

A propósito, aquele início de SUSPIRIA sempre me deixou muito fascinado, e poder ver na telona (meu primeiro Argento na telona, inclusive) é muito gratificante. Jessica Harper entra naquele táxi e naquela chuva imensa junto com o mistério da noite e a música do Goblin, e as escolhas do diretor do que mostrar, e de como mostrar, tudo é muito mágico, muito inspirado. Acho uma pena que este filme tenha ficado durante muito tempo esquecido pelo grande público, talvez por não ser americano, embora haja uma dublagem em inglês, a usada na cópia remasterizada, e uma protagonista americana, vinda de O FANTASMA DO PARAÍSO, de Brian De Palma. Talvez a culpa de o filme não ter tido tanto sucesso comercial seja da sensibilidade totalmente distinta de Argento e do cinema italiano do gênero terror como um todo. Falo do terror pois o western spaghetti teve muito mais sucesso entre o grande público.

Há um crítico no documentário presente nos extras do box Argento Essencial, lançado pela Versátil Home Vídeo, que diz que o filme costuma agradar mais críticos, pois se enquadra no que se costuma chamar hoje em dia de cinema absoluto. E de fato ver e rever SUSPIRIA só atesta o ponto alto que o cineasta havia chegado naquele momento, com uso de muita criatividade para compor os quadros e as cenas de horror em si, mas também para nos encantar com seu visual deslumbrante. Além do mais, para gostar do filme é preciso abraçar os seus excessos, que, para olhos destreinados pode ser visto como atuação ruim ou até de mau gosto, muito por causa da dublagem na pós-produção, mas, novamente, isso é algo que nos acostumamos ao ver filmes italianos de gênero dessa época.

Um grande acerto de SUSPIRIA é se ater quase que inteiramente em personagens femininas. Os homens que surgem têm muito pouco a oferecer à trama. Nada mais justo, levando em consideração se tratar de uma obra sobre bruxaria, prática comumente associada ao feminino ao longo dos séculos. E não deixa de ser interessante que esse destaque tão feminino se apresente num filme que já foi tão acusado de ser misógino. 

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NINGUÉM A OUVIU GRITAR (Nadia Oyo Gritar)

Quem assiste à obra-prima A SEMANA DO ASSASSINO (1972) certamente quer ver mais da mesma fonte. Graças à Versátil Home Video, pude conferir também este trabalho seguinte de Eloy de la Iglesia, que é bem menos perturbador que o anterior, mas talvez por isso mesmo nos deixe tão desestabilizado. NINGUÉM A OUVIU GRITAR (1973) opta por ser mais discreto no uso da violência mais gráfica e prefere a tensão estabelecida entre os personagens, o homem (Vicente Parra, repetindo a parceria com o diretor) que é flagrado escondendo o corpo da esposa no fosso de um elevador e a mulher, uma garota de programa de luxo vivida por Carmen Sevilla (que já fez a Maria Madalena em REI DOS REIS, do Nicholas Ray). O que deixa a gente sem chão são as viradas do enredo, o comportamento pouco usual dos personagens, e o modo estranho e elegante e por isso mesmo bem-vindo com que Iglesia conta sua história, que hoje se beneficia do espírito daquela época mágica que foram os anos 1970 no mundo inteiro. É melhor não saber muito a respeito, para vivenciar o que o filme oferece. Visto no box Giallo Espanhol.

O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA (Il Rosso Segno della Follia)

Mario Bava retorna ao universo de seu giallo SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), mas com um diferencial. Aliás, dois. Não existe em O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA o tradicional whodunit, ou seja, não apenas já sabemos a identidade do assassino desde o início, como ele próprio é o narrador, com direito a voice-over, o que é fascinante. Outra coisa que o afasta do giallo tradicional é a aproximação com o sobrenatural, uma vez que, em determinado momento, uma das vítimas do assassino reaparece depois de ter sido assassinada e enterrada na estufa onde ele trabalha. Esse aspecto seria antecipado na curiosa cena da sessão espírita, que até faz lembrar o início de PRELÚDIO PARA MATAR, de Dario Argento. Do ponto de vista visual, não é dos trabalhos em que Bava usa muitas cores artificialmente, mas há estilização do início ao fim: zoom-in e zoom-out com muita frequência em momentos dramáticos, imagens distorcidas, uma montagem com cortes que entram em sintonia com os próprios cortes do cutelo usado pelo psicopata para dar fim a suas vítimas, geralmente vestidas de noiva. Inclusive, na cena em que ele está com um véu na cabeça, há ali uma homenagem explícita a PSICOSE, de tal modo que até chego a pensar que tenha influenciado Brian De Palma em seu VESTIDA PARA MATAR. Era Bava iniciando incansavelmente a década de 1970, sua última de serviços prestados aos amantes do cinema de gênero que apostam no visual.

SOCORRO! (Send Help)

Quando falamos o nome de Sam Raimi naturalmente lembramos de A MORTE DO DEMÔNIO (1981) e suas duas continuações. Não que o que Raimi fez em seguida tenha sido irrelevante – adoro o pouco lembrado O DOM DA PREMONIÇÃO (2000) –, mas seus últimos filmes como diretor não são de entusiasmar o fã de terror, por mais divertido que seja DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (2022). (Quase esqueço a trilogia de filmes do Homem-Aranha também.) Enfim, tem trabalho novo do Raimi com dedo no olho e facada no bucho e por mais que não seja um terror, há elementos do gênero nesta comédia de suspense sobre mulher (Rachel McAdams, deliberadamente enfeiada para o papel) que cai do avião numa ilha (supostamente) deserta com o chefe arrogante (Dylan O’Brien) cujos sentimentos que tinha por ela eram nojo e desprezo. O que ele não esperava era ter que depender dessa mulher, que sabe as manhas de sobreviver numa ilha deserta. O filme é cheio de surpresas e é o que se tem de melhor de um título com a cara de Raimi, com doses de humor e violência gráfica.