A Gênese de Marcelo Rondi em Noite Vazia e O Corpo Ardente, de Walter Hugo Khouri
(Texto originalmente publicado na revista Cinese nº 1, disponível no site da Aceccine)
Minhas lembranças de quando comecei a ver os filmes de Walter Hugo Khouri se misturam. Não sei dizer ao certo se comecei a vê-los quando nem sabia quem era o realizador, apenas atraído pela beleza das atrizes em cenas sensuais, em filmes como O CONVITE AO PRAZER (1980) ou EU (1987), na época que foram exibidos na TV aberta; se foi com NOITE VAZIA (1964), numa exibição na TV Cultura, quando já era um cinéfilo iniciante e leitor da melhor fase da revista SET, e o filme era considerado um clássico até por críticos que não tinham por hábito exaltar a obra do realizador; ou se aconteceu nas várias vezes que entrava na locadora do centro da cidade e saía, feliz da vida, com o VHS de EROS – O DEUS DO AMOR (1981) debaixo do braço. Eros viria a ser o trabalho de Khouri que eu mais veria e que se tornaria o mais querido por mim.
Há um diálogo num filme pouco lembrado de Khouri, PAIXÃO E SOMBRAS (1977), em que o protagonista, interpretado por Fernando Amaral, vivendo um cineasta chamado Marcelo Rondi (nome recorrente e para muitos estudiosos e críticos, o alter-ego do realizador), ao ser perguntando se as pessoas vão compreender a relação entre cenário e pintura em seu filme, diz que, se o público não compreender, ele poderá sentir. E aqui podemos destacar o verbo “sentir”.
Eis o motivo de a obra do cineasta ter essa força que prevalece ao longo dos anos: se alguém busca seus filmes pelo erotismo, poderá sentir e receber algo em troca, sejam citações filosóficas ou artísticas, um cuidado plástico impressionante da obra cinematográfica em si ou simplesmente algo de misterioso que não saberão muito bem explicar.
Ou seja, é possível que muitos que adentram o universo khouriano acabem ficando apaixonados por ele por diversos motivos, acontecendo, portanto, uma espécie de sintonia, como se algo quase sobrenatural tivesse acontecido durante a apreciação da obra. Ter essa sensação é o que geralmente mantém vivo e entusiasmado o apreciador de arte, seja ela qual for.
Recentemente, ao adquirir o livro Walter Hugo Khouri – O Ensaio Singular (2023), de Andrea Ormond, recebi da autora uma dedicatória que diz “para o irmão em Khouri Ailton Monteiro”. Ou seja, ter essa relação de afeição e paixão pelo cinema do diretor paulistano faz com que nos sintamos membros de uma espécie de confraria. E hoje o aumento do número de espectadores que veem o cinema de Khouri com olhos mais generosos se deve principalmente a essas pessoas apaixonadas por seu trabalho que fazem questão de verbalizar essa paixão, de levar a palavra. Ormond, aliás, foi uma das responsáveis por esse enriquecimento da fortuna crítica de qualidade sobre o cineasta, em seu hoje lendário blog Estranho Encontro.
Hoje, aliás, existe uma oferta considerável de livros sobre o realizador. O mais recente lançamento é o ótimo O Cinema de Walter Hugo Khouri (2025), de Donny Correia. Mas nem sempre foi assim. Khouri foi uma espécie de lobo solitário, de alguém que não queria e nem fazia muita questão de fazer parte daquele clube que significava prestígio para a crítica e para a intelectualidade, o clube do Cinema Novo. Tanto que chegou a ser criticado por Glauber Rocha por fazer um suposto “cinema burguês” ou “alienado”.
Até hoje, do ponto de vista da crítica, se pegarmos, por exemplo, o livro 100 Melhores Filmes Brasileiros, criado pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, já nos anos 2010, teremos apenas um filme de Khouri presente na lista dos 100, NOITE VAZIA, enquanto um diretor considerado “maldito” como José Mojica Marins aparece com vários títulos. Ainda há, sim, uma preferência pelos filmes do Cinema Novo, ou até do cinema marginal, com Mojica correndo por fora, tendo ganhado um prestígio que ultrapassa a fronteira de nosso país.
Para este ensaio gostaria de destacar dois filmes anteriores ao surgimento oficial de Marcelo Rondi, o referido personagem recorrente dos filmes de Khouri, surgido pela primeira vez em AS AMOROSAS (1968) e pela última vez em PAIXÃO PERDIDA (1998). Os títulos em questão são NOITE VAZIA e O CORPO ARDENTE (1966), filmes que ajudariam a tornar mais perceptível o estilo de Khouri, sua assinatura, e que ajudam a pensar a gênese de Marcelo. Essas duas obras representaram um salto de qualidade, ou melhor dizendo, de autoralidade, em comparação com o que o diretor havia feito até então.
Renato Luiz Pucci Jr., em seu livro O Equilíbrio das Estrelas - Filosofia e Imagens no Cinema de Walter Hugo Khouri (2001), apresenta a teoria de que Marcelo seria a síntese de Luís e Nelson. Ou, ao contrário, Luís e Nelson, de NOITE VAZIA, representariam uma espécie de gênese de Marcelo. Ou seja, a persona mais cínica e mulherenga de Marcelo estaria em Luís, enquanto Nelson apresenta o Marcelo mais sensível e mais claramente angustiado, desde sua primeira aparição, com um close-up bastante expressivo do rosto do ator italiano Gabriele Tinti.
Também podemos ver Márcia, a protagonista de O CORPO ARDENTE, como uma espécie de versão feminina de Marcelo, em sua angústia, em sua busca por sentido na vida, em seu tédio, em sua ânsia por liberdade, especialmente quando visualiza o corcel negro fugido de seu dono e que aparece como símbolo de liberdade. Uma liberdade que ela inveja. Sente-se maravilhada ao olhar para o animal, e por isso tenta protegê-lo dos capatazes.
Para aqueles não familiarizados com o cinema de Khouri, Marcelo Rondi é este homem amaldiçoado por um vazio que o destrói por dentro, por mais que ele busque meios de atenuar a angústia a partir, principalmente, do sexo, das relações entre as várias mulheres que habitam sua existência, entre elas sua esposa e sua filha. Ou seja, por mais que o espectador incauto não perceba, Khouri estava mais interessado em tratar menos do desejo e mais do desassossego.
Assim, em NOITE VAZIA, dois homens burgueses ou de classe média saem em busca de mulheres numa São Paulo habitada por pessoas tristes. Luís é o que toma a iniciativa, o que tem dinheiro para pagar as prostitutas, enquanto Nelson se sente desconfortável, mas não deixa de participar, de usufruir da noitada regada a sexo e bebidas, por mais que demore a alcançar satisfação. Porém, diferente do amigo, consegue fechar a noite abraçado à personagem de Norma Bengell, a prostituta mais romântica, por assim dizer.
Já em O CORPO ARDENTE, acompanhamos a inquietação de Márcia (Barbara Laage) na festa em sua casa, enquanto ela e o marido esperam um tal conde. Na festa, estão lá seus dois amantes. Márcia se sente atraída também por mulheres na festa. Ou seja, não é tão diferente assim do que se veria nas obras em que Marcelo Rondi apareceria já em meia-idade, como O PRISIONEIRO DO SEXO (1978) ou O CONVITE AO PRAZER.
Ambos os filmes contam com momentos elevadores, próximos do sobrenatural: o carro de Luís e Nelson passando por dentro de um túnel escuro em Noite Vazia e o “reencontro” com o corcel negro através da filmagem em super-8, apresentada pelo filho de Márcia, em O CORPO ARDENTE. São duas cenas perto do final do filme que tanto encerram uma jornada quanto trazem momentos próximos do transcendental, para usar uma palavra recorrente nos filmes de Khouri, o cineasta que ousou fazer cinema claramente autoral durante cinco décadas num país que não tratava muito bem seus cineastas.
+ TRÊS FILMES
DOUVINA
Uma meditação sobre a importância da memória, seja a memória que se ausentou da mente de Dona Douvina, quanto a memória do acervo de seu marido, Cristiano Câmara, detentor de uma das maiores coleções de discos e filmes em diferentes mídias de Fortaleza. Seu acervo contém música datadas dos anos 1930 em diante, e seu amor pelo cinema clássico hollywoodiano se explicita nos quadros e cartazes que preenchem o espaço de sua casa. Uma vez que não está mais entre nós o casal, a filha Zuleika é a principal responsável pela manutenção e cuidado do material presente na casa, situada próxima à Catedral Metropolitana e ao Mercado Central. São do Mercado, aliás, as primeiras imagens de DOUVINA (2026), imagens que mostram um centro da cidade ainda muito vivo. Essa efervescência popular se contrapõe, ou se completa, ao silêncio da casa de Douvina, em especial em seus dias de maior fragilidade física, sob os cuidados da filha e de uma equipe de enfermagem, que transforma a casa numa espécie de hospital. O diretor Márcio Câmara (RUA DA ESCADINHA 162, 2003) mistura ficção com documentário neste filme que tem uma função mais de nos fazer sentir do que de informar, o que faz com que seu trabalho ganhe em força espiritual. Em alguns momentos, sente-se a proximidade da morte, nas cenas de Douvina, mas também da tempestade. As cenas dramatizadas trazem também uma atmosfera onírica que enriquece a obra. Ao final, até posso ter sentido mais falta da história de amor de Christiano e Douvina, mas o pouco que é mostrado é suficiente para que procuremos completar as lacunas, e nos emocionarmos com o relacionamento do casal. Tive a oportunidade de ver DOUVINA numa sessão fechada, mas já anseio pela primeira exibição oficial. Que seja em breve.
PARA VIGO ME VOY
Quando PARA VIGO ME VOY (2025), documentário sobre Cacá Diegues dirigido por Lírio Ferreira e Karen Harley, começou, confesso que fiquei assustado com a cena em que o vemos já muito velhinho e debilitado levando um tombo no set do ainda inédito DEUS AINDA É BRASILEIRO, continuação de seu filme de 2003. Fiquei pensando se o documentário não estaria expondo em demasia o estado físico do cineasta. Mas, depois, percebi que essa cena, junto com outras que apontam seu estado de saúde nos últimos meses de vida, serviram para contrastar com sua longa e militante vida. Diegues foi um dos primeiros cineastas brasileiros a colocar um ator negro, Antonio Pitanga em GANGA ZUMBA (1963), como protagonista. E depois seguiria fazendo questão de valorizar o negro em outros filmes importantes, como A GRANDE CIDADE (1966), XICA DA SILVA (1976) e QUILOMBO (1984). Suas passadas por Cannes o fizeram querido do festival e da França, tanto que até fez um filme com Jeanne Moureau, JOANNA FRANCESA (1973). Seu posicionamento político foi corajoso, atacando o autoritarismo em tempos de ditadura - chegou a ficar exilado por alguns anos. É bom ver este doc e passear pela filmografia de Diegues. Mesmo não se gostando de todos os seus filmes, é difícil não simpatizar com o cineasta, é difícil não admirar sua postura e sua visão da brasilidade e também sua sensibilidade para com pessoas excluídas, como idosos (CHUVAS DE VERÃO, 1978), artistas pobres de circo (BYE BYE BRASIL, 1980) e escravizados, como nos filmes anteriormente citados. O documentário tem um quê de incompleto, mas é muito prazeroso para os cinéfilos.
VANDO VULGO VEDITA
Ver na telona este filme da dupla Leonardo Mouramateus e Andréia Pires faz toda a diferença. Muito bom ter tido esta oportunidade, graças a uma mostra especial promovida pela Aceccine no Cinema do Dragão. O trabalho de Mouramateus já era conhecido por mim desde MAURO EM CAIENA (2012), e desde então tenho acompanhado seu trabalho. Quanto a Andréia Pires, não consta outro crédito de direção seu no IMDB. De todo modo, VANDO VULGO VEDITA (2017), é um dos trabalhos mais solares e mais cheios de alegria com o nome de Mouramateus nos créditos. Adoro aqueles jovens pintando seus cabelos de loiro e se dirigindo à Barra do Ceará para se divertir, conversar, cantar, falar bobagem. É um filme muito mais preocupado com a atmosfera do que com diálogos, embora não se deva menosprezar o que é dito pelos vários personagens. Há um momento de tensão, lá perto do final, que faz com que o filme tome um outro sentido, mas, até isso, que acaba provocando certo mal-estar, é bem-vindo, levando em consideração a força das imagens e o quanto ele é cheio de vida, de juventude, de sensualidade, mas também de maldade juvenil.





