sábado, julho 20, 2019

O CÓDIGO PENAL (The Criminal Code)

Saudade dos anos 2005-2008, que foi o período em que eu mais vi filmes do Howard Hawks, um dos cineastas mais queridos da casa. No primeiro ano, eu comecei a pegar pelo acervo da Distrivídeo, que tinha uma boa quantidade de filmes do diretor. Depois, tive a chance de conseguir por vias alternativas, o que foi uma maravilha. No entanto, alguns filmes até então continuavam inéditos para mim, por falta de legenda, principalmente. Três deles surgiram recentemente, devidamente legendados na rede: A PATRULHA DA MADRUGADA (1930), já resenhado neste espaço; FAIXA VERMELHA 7000 (1965), ainda a ser visto; e este O CÓDIGO PENAL (1930), segundo filme falado do mestre.

Trata-se do filme de prisão de Hawks. Os elementos tão presentes em seus filmes não se manifestam de maneira tão forte aqui, mas há o senso de camaradagem, o código ético que os presos têm, como, por exemplo, não se deve delatar o colega para os guardas ou para o diretor da penitenciária. Há também uma cena que é a cara do Hawks, que é quando o protagonista, Robert Graham, vivido por Phillips Holmes, recebe a notícia de que sua irmã falecera, enquanto está jogando damas com os colegas de cela.

Assim como acontece nos demais filmes do cineasta, a reação para esse tipo de situação triste é engolir o choro. E é impressionante como isso aumenta o potencial dramático. Isso seria muito melhor explorado em O PARAÍSO INFERNAL (1939), o grande filme de aviões do diretor. Em O CÓDIGO PENAL, o colega de cela o incentiva a continuar jogando.

Na trama, Graham é um rapaz que mata uma pessoa acidentalmente, mas que, por ter um advogado fraco, acaba sendo alvo fácil do procurador público Mark Brady, vivido com brilhantismo por Walter Huston. Lembremos que o bom ator faria um dos papéis mais memoráveis da velha Hollywood em O TESOURO DE SIERRA MADRE, 18 anos depois, dirigido pelo filho, John Huston.

Aqui ele investe seu personagem de uma nobreza que nos faz esquecer um pouco seu jeito durão e muitas vezes impiedoso com várias das pessoas que passaram por ele e foram parar na cadeia. A roda gira quando, anos depois, Brady é nomeado diretor da penitenciária e reencontra o jovem Graham, em frangalhos, precisando de ajuda. Ele o transfere para um lugar muito melhor de trabalhar, junto a ele, ajudando em diversas coisas da família, e tendo o prazer de conhecer a filha de Brady, a bela Mary, vivida por Constance Cummings.

E o que vemos então é uma habilidade incrível de Hawks em conseguir juntar tudo isso: filme de prisão com suspense, drama do presidiário e uma história de amor e conseguir ser bem-sucedido em tudo. O que dizer dos vinte minutos finais, tão cheios de apreensão? Curiosamente não é dos filmes mais queridos do diretor e nem é creditado a ele, conforme informação no IMDB. Se não é tão bom quanto o anterior, A PATRULHA DA MADRUGADA, serve de ótima escada para uma de suas obras mais famosas, SCARFACE - A VERGONHA DE UMA NAÇÃO (1932).

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OS MENINOS (¿Quién Puede Matar a un Niño?)

Foi preciso morrer Serrador para que eu finalmente visse este clássico do horror europeu. O que aconteceria se as crianças passassem a matar os adultos? Esse ponto de partida aterrorizante é o coração da trama deste filme, que estabelece uma ligação com os inúmeros genocídios ocorridos em diversas tragédias da humanidade, em que são as crianças as principais vítimas. Como uma espécie de vingança da parte delas. Destaque também para a bela fotografia solar de José Luis Alcaine. Direção: Narciso Ibáñez Serrador. Ano: 1976.

CYRANO (Cyrano de Bergerac)

Quando a gente não respeita ou simpatiza com o protagonista, fica muito difícil torcer por ele. Na verdade, além de ter ficado muito velho, a própria peça original já nasceu velha, com um romantismo que já havia acabado naquele final do século XIX. O personagem é tão chato que demora demais até para morrer, naquele seu monólogo final. Depardieu, gigante que é, podia ter deixado passar esse filme. Direção: Jean-Paul Rappeneau. Ano: 1990.

O PORTEIRO DA NOITE (Il Portiere di Notte / The Night Porter)

Um dos poderes das grandes obras é desafiar convenções e subverter regras, como trazer romantismo para uma história de sentimentos mistos. O filme conta o grande amor entre uma judia que passou pelo campo de concentração e seu torturador. Liliana Cavani trafega por caminhos que a gente não imaginaria trilhar a partir do começo, que mais parece uma história de vingança. A trama no presente é enriquecida pelas lembranças do tempo da guerra. Interessante ver Chatlotte Rampling tão jovem, eu que já a conheci idosa. Ela é linda, mas a imagem de seu rosto envelhecido não parava de vir à minha mente enquanto olhava para ela. Ano: 1974.

quarta-feira, julho 17, 2019

HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (Spider-Man - Far from Home)

Uma bela surpresa este HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (2019), segundo filme-solo do Aranha com o jovem e talentoso Tom Holland. Em sua primeira aparição, em CAPITÃO AMÉRICA - GUERRA CIVIL, pode não ter agradado a muitos, mas, ao que parece, neste novo filme, ele já conquistou a praticamente todo o seu público, causando admiração e maior aceitação. Não resta dúvida que incluir o herói adolescente é mais atraente para um público mais jovem, que pode se identificar bem mais com seus problemas e com suas preocupações do que com as de um adulto milionário e cínico como Tony Stark.

Aqui, a principal preocupação de nosso herói é conseguir se aproximar da garota por quem ele está apaixonado, a MJ (Zendaya). Aliás, a escalação de Zendaya como interesse amoroso tem dado o que falar: embora o nome da personagem seja Michelle, como dito no primeiro filme do Aranha, e não Mary Jane, como é conhecida a mais querida das namoradas de Peter Parker nos quadrinhos, o termo MJ costuma ser associado à belíssima ruiva dos quadrinhos, que até já foi personificada no cinema nos três filmes de Sam Raimi por Kirsten Dunst. Assim, a escalação de uma atriz negra não deixa de ser uma novidade.

Aliás, há várias mudanças poéticas no elenco deste filme em comparação com as HQs, mas é sempre bom respeitar os caminhos que o realizador e os roteiristas traçaram. Quadrinho é quadrinho, filme é filme. E aqui há mais liberdades do que a maioria dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel. Inclusive, não deixa de ser muito interessante ver uma Tia May tão jovem como a interpretada por Marisa Tomei.

Também é muito interessante como é introduzido Mysterio, que nas aventuras do amigão da vizinhança nos quadrinhos é um vilão de terceira categoria. Aqui se dá uma maior importância ao personagem, que não é apresentado exatamente como um vilão. Mas é também muito bom ver que o filme é muito mais do que o trailer dá a entender. Assim, todos aqueles monstros meio genéricos acabam ganhando algum sentido.

Mas o melhor do filme é mesmo o modo como ele dá mais destaque ao Peter Parker do que ao Homem-Aranha. É muito divertido vê-lo em um passeio com os colegas da escola por cidades da Europa. O melhor amigo dele, Ned (Jacob Batalon), é muito engraçado. Trata-se da influência da versão ultimate no personagem, com um amigo latino gordinho. Isso fez bem ao filme. Ah, e vale destacar a bem-vinda presença da jovem Angourie Rice, no papel de Betty Brant, colega de Peter na escola.

A questão "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades" até surge em algum momento, mas de maneira gradual, ao jovem Peter, que não queria, a princípio, dividir sua vida normal de adolescente para ser escalado para uma nova missão por Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Além de ser um filme muito bem-humorado e que consegue espantar a sombra da morte de Tony Stark nos grandes eventos dos filmes anteriores dos Vingadores, em comparação com HOMEM-ARANHA - DE VOLTA PRA CASA (2017), este segundo filme solo é melhor em diversos aspectos, embora não tenha cenas tão memoráveis como as das ameaças do vilão Abutre (Michael Keaton) ao herói. Aqui temos Jake Gyllenhaal como o Mysterio e não é bom dizer mais do que isso, a fim de não estragar as surpresas, mas podemos dizer que o ator se sai muito bem. As cenas de ação são ok, sem muitas novidades. Mas há que se dizer que a cena pós-créditos deste filme é a mais importante de todos os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, no sentido de não poder ser descartada do produto final.

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X-MEN - FÊNIX NEGRA (Dark Phoenix)

Um filme que parece todo errado desde o começo (desde escolhas de elenco, atuações, texto, criatividade para tecer uma trama minimamente interessante). Se eu já achava difícil engolir a J.Law como Mística, a ênfase à personagem da Sophie Turner só acentuou a fragilidade da escalação. Sem falar no menino Ciclope, com cara de bocó. O pior filme dos X-Men, que só não é tão chato quanto o primeiro Wolverine dentro da franquia da Fox, que aqui é morta e sepultada. Melhor sorte com a Marvel Studios aos nossos queridos mutantes. Direção: Simon Kinberg. Ano: 2019.

HELLBOY

Uma pena que este reboot de Hellboy só tenha servido para enterrar de vez o personagem nos cinemas. Se bem que parece que ele não foi feito para as telas. Não conheço os quadrinhos, mas é um trabalho muito querido o do Mike Mignola. Aqui Neil Marshall parece ter um bocado de ideias interessantes e quer brincar de fazer filme violento e chocante com rock no talo, mas no fim das contas com menos de meia hora a vontade que tudo acabe já chega. Imagina só ter que aturar as duas horas. Aliás, alguém lembra de quando o Neil Marshall era considerado um grande nome do novo horror no começo do novo milênio? Pois é.. Ano: 2019.

TURMA DA MÔNICA - LAÇOS

A direção de arte e fotografia são lindas, os meninos e meninas são uma boa escolha de elenco, mas confesso que eu lutei para segurar o sono. Os filmes infantis e animações mais tradicionais estão cada vez mais tendo esse tipo de efeito em mim. Não consegui ver com muita naturalidade e graça a atitude da Mônica com o coelho. Aliás, sobre certas características dos personagens, vemos que o cinema brasileiro pensa apenas no território nacional. A piada do sovaco do Cascão, por exemplo, não seria entendida pelo público estrangeiro, por mais que aos poucos a característica dele de não gostar de um banho seja explicitada. De todo modo, creio que atende o público infantil, que é o alvo principal. Ah, a cena com o Rodrigo Santoro eu achei um saco. Direção: Daniel Rezende. Ano: 2019.

domingo, julho 14, 2019

MEMÓRIAS DA DOR (La Douleur)

Impressionante como certos diretores têm uma carreira já relativamente longa, mas que são praticamente desconhecidos, até que certo filme chama a atenção de tal forma que passa-se a questionar a inabilidade das distribuidoras não darem o devido destaque aos trabalhos desse cineasta. É o caso de Emmanuel Finkiel, que teve seu longa-metragem de estreia, VIAGENS (1999), recebido com louvor, com premiação em Cannes e prêmio de melhor primeiro filme no César. Também alcançou prestígio internacional em diversos países, inclusive no circuito arthouse americano.

Além dos filmes como diretor e roteirista, Finkiel tem em seu currículo vários trabalhos como assistente de direção de cineastas de primeiro escalão, como Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski e Bernard Tavernier. Mas o que aconteceu é que os demais filmes de Finkiel como diretor meio que passaram batidos ao longo dos anos, por mais que cinéfilos atentos tenham visto seus trabalhos em mostras. NÃO SOU UM CANALHA (2015), seu filme anterior, ganhou algum destaque e já trazia Mélanie Thierry, que brilharia neste novo e magistral MEMÓRIAS DA DOR (2017).

Eis um filme que merece não só a atenção, mas uma especial reverência. O trabalho de construção da personagem, baseada na escritora Marguerite Duras, que faz uma espécie de bioficção ao contar da dor que foi o período em que ela passou esperando o marido voltar de um campo de concentração. E MEMÓRIAS DA DOR é basicamente sobre isso, embora seja rico o suficiente para ser também sobre culpa, desejo, e ser carregado de uma aura de desencantamento com a vida que só encontra paralelos em situações de terrível depressão.

Em determinado momento do filme, o amigo e amante vivido por Benjamin Biolay fala para que Marguerite tome banho; que ela está fedendo. Àquela altura, ela não estava mais conseguindo cuidar de si mesma. Na angústia de esperar, toma a decisão de falar com um perverso colaborador do nazismo na França ocupada. Como a história se passa entre os anos de 1944 e 1945, vemos a variação no comportamento e no grau de sentimento de segurança dessas pessoas que trabalhavam para os nazistas e que estavam acostumadas com tortura física e psicológica - isso, claro, na posição de torturadores.

Um dos aspectos que chama a atenção em MEMÓRIAS DA DOR é o modo como o diretor trabalha as sombras e também, com frequência, coloca a protagonista como único elemento não borrado, acentuando ainda mais seu sentimento de solidão e abandono naquele mundo de pesadelo. Há também destaque para a narração em voice-over de Marguerite. Uma narração pausada, que lembra e muito a narração usada em HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais, não por acaso uma obra roteirizada por Duras. Assim, os traços da obra literária da escritora estão explicitamente presentes, mas servindo não como muleta para a narração cinematográfica, mas para enriquecer ainda mais o trabalho visual.

Há algumas cenas que se destacam dentro de um conjunto que parece perfeito. E como a trilha sonora é usada apenas entre os espaços da cena, como para acentuar o clima de tristeza, os silêncios nas sequências dramáticas só enfatizam a grande performance de Mélanie Thierry. O que dizer das cenas finais de descoberta? Tanto da cena com a Mme. Katz quanto na cena mais arrepiante do filme? Ver MEMÓRIAS DA DOR é uma dessas experiências raras e recompensadoras, que só cresce na memória afetiva.

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MAYA

Depois de dois filmes que lidaram basicamente com a rotina de vida de personagens (EDEN e O QUE ESTÁ POR VIR), Mia Hansen-Løve volta novamente a usar esse recurso para contar a história de um repórter de guerra que tenta deixar sua vida nos eixos após uma traumática experiência. Para isso, ele viaja para a Índia e é lá que ele conhece a personagem-título. O nome, creio eu, também pode fazer referência à ilusão, mas não li nada a respeito - crítica ou entrevista da realizadora - que possa corroborar a minha suspeita. Gosto muito do andamento, de como é muito mais importante a construção dos personagens e sua profundidade do que uma história propriamente dita. Um belo filme. Ano: 2018.

MEU BEBÊ (Mon Bébé)

Este é o tipo de filme que eu não vejo sendo realizado por um homem, por mais que isso possa até soar sexista. E essa é uma das vantagens de se ter essas vozes múltiplas no cinema. Aqui a história é muito simples, mas importa menos a história e mais o sentimento. O sentimento da mãe em relação à filha mais nova, que está prestes a deixar o ninho e fazer faculdade no Canadá. Os pequenos flashbacks da infância dos filhos da protagonista também contribuem para enfatizar esse sentimento, que é recíproco pela filha, tão apegada à mãe, mas também tão consciente de que precisa aproveitar o momento de tomar o próprio rumo. Adorei a homenagem a O DESPREZO, de Godard. Direção: Lisa Azuelos. Ano: 2019.

CYRANO MON AMOUR (Edmond)

O lado positivo de ver o CYRANO de 1990 foi poder fazer uma dobradinha com este novo trabalho e saber exatamente do que se está falando. O filme foca na concepção de Cyrano de Bergerac até a noite de estreia. Passei a conhecer muita coisa sobre a obra que nem imaginava. E a impressão inicial de que a peça já nasceu velha se confirmou, por mais bem-sucedida que tenha sido ao longo dos anos. Direção: Alexis Michlik. Ano: 2018

quarta-feira, julho 10, 2019

SAMPA 2019

Sou um pouco preguiçoso e esse é talvez um dos motivos de eu não viajar mais vezes. Mas não há como negar o quanto as viagens me fazem bem. Ainda não experimentei viajar sozinho para o exterior, mas está na minha to do list. Deve ser uma experiência fascinante. Mas, por enquanto, quis voltar a São Paulo. A última vez em que lá estive foi em 2016, para o casamento de meu amigo Michel Simões, que mais uma vez me acolheu em seu lar. A ele e à Cris, sua esposa, deixo meu muito obrigado. E a vontade de poder retribuir quando for possível.

O blog, como vocês puderam notar, anda meio parado, por uma série de motivos. Mas esse é um mal que vem assolando todos os blogs que eu conheço. Por isso é bom quando um amigo incentiva a continuidade, como é o caso de Bruno de Alcântara, que lembra até mais do que eu de muitos eventos ocorridos em viagens passadas, devidamente contadas neste espaço.

Quinta-feira

A dormida no voo das 3h40 da manhã da Azul não foi das mais confortáveis. Esses aviões não nasceram para ser confortáveis, anyway. Ao chegar, São Paulo já estava carregada por um chuva constante, mas ainda suave. Fui de ônibus até uma estação de metrô e de lá cheguei à estação mais próxima da casa do Michel, a estação Ana Rosa. O problema é que logo foi se formando uma tempestade. Mesmo assim, achei que bastaria eu chamar um uber que ficaria tudo certo. Chamei o primeiro, que foi parar em um lugar que eu não sabia onde era. Com o segundo aconteceu a mesma coisa. Com o terceiro também. Já estava disposto a pegar um táxi e por isso atravessei a rua, sem guarda-chuva. Em vão: o táxi não estava à disposição. Sorte que o motorista do último uber, ao me ver naquela situação, todo encharcado e carregando uma mala, gritou pelo meu nome. Parou no acostamento e me explicou que em São Paulo o uber não funciona direito se você não colocar exatamente o local de partida. Parecia que eu estava vivendo uma cena de SUSPIRIA, o filme do Dario Argento.

Enfim, cheguei encharcado no prédio do Michel e ainda tive que verificar o número do apartamento na chuva, para que o pessoal da portaria pudesse liberar minha entrada. Mesmo assim, claro que foi bom poder chegar. A Cris ainda estava em casa, mas já apressada para ir trabalhar. Me conseguiu um guarda-chuva cor-de-rosa que me quebrou um galhão nos dias chuvosos.

No mais, consegui tirar um cochilo para ir ao combinado almoço com o amigo Eduardo Aguilar. Combinamos de nos encontrar na Estação Luz para em seguida partir para o restaurante que ele sugeriu. Muito bom, aliás. Comemos um bife à parmegiana excelente. Mas bom mesmo foi o papo, que durou cerca de quatro horas. Papo de muito cinema e de vida real. Com o Aguilar, nem dá tempo para pausas entre uma conversa e outra. Muito bom.

Em seguida, fui atrás de comprar um outro sapato, pois o que eu usava estava um tanto molhado. A intenção seria aproveitar para ficar um pouco mais sequinho e ver algum filme em uma sessão próxima. Mas a chuva não deixou. O sapato novo logo ficou mais encharcado que o velho. Então, a ideia de ver um filme àquela hora foi para o brejo. Tentei novamente pegar um uber e foi novamente frustrante. Acabei pegando um taxi para voltar para a casa do Michel, que estaria voltando do trabalho. Quando ele chegou, saímos para comer uns espetinhos no Boni. Muito bom. Especialmente o kafta.

Sexta-feira

A sexta-feira deveria ser o dia de ir a Jundiaí, para visitar os amigos Bia e Primati, mas achei melhor deixar para o sábado, devido a complicações nos horários de trabalho da Bia. Foi bom assim, já que a sexta-feira também foi um dia de muita chuva. Ainda que não tão tanto quanto a quinta. Depois de um café da manhã caprichado fiz um passeio pela Rua Augusta principalmente para visitar aquela loja de discos bacana, a Augusta Discos. Saí de lá todo feliz com quatro CDs: Radiohead: Amnesiac; Cat Power: What Would You Think the Community Think; mundo livro s/a: guentando a ôia; e Marina Lima, o disco homônimo de 1991. Queria mais, claro, mas não estava num desses dias em que me sentia rico, não.

Depois de um almoço ruim no Shopping Center 3 (escolhi mal, devido à pressa para pegar a sessão, talvez), fui ao Petra Belas Artes para comprar ingresso para o novo Almodóvar, o maravilhoso DOR E GLÓRIA, e o novo do Paulo Sacramento, A FACA E O OLHO. O do Almodóvar me tocou com força. Espero poder escrever sobre ele aqui em breve. O do Sacramento é um pouco cheio de falhas, mas tem sua força em causar angústia. De volta para casa, o Michel já estava por lá. Havia uma possibilidade de ir a um show da banda Del Rey, mas acabou não rolando. Como tínhamos mesmo que ver HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA, parecia uma boa oportunidade. A Cris também foi, um pouco cansada do trabalho. O novo filme do Aranha, aliás, é bem divertido.

Sábado

Felizmente o dia amanheceu sem chuva. Em compensação, foi um desses dias de muito frio. O termômetro chegou a marcar 7º C. Depois de um café da manhã rápido, que serviu para esquentar a barriga, peguei o metrô para em seguida pegar o ônibus para Jundiaí. Estava feliz em poder ir em direção a uma cidade do interior de São Paulo. A única vez que tinha saído da capital foi para ir a Campinas, mas não conta muito, pois dormi o caminho inteiro e o espaço em que fomos foi um mega shopping center. Chegando na casa do Primati e da Bia fui recebido calorosamente pelos dois. Conheci os vários gatos assustados, belos e simpáticos da casa, a estante admiravelmente cheia de livros interessantes - mesmo com a conversa boa, de vez em quando eu olhava para a estante, sou meio que fascinado por estantes. A Bia ainda não tinha feito o almoço, e fui com ela comprar uns ingredientes. Gostei bastante de um espaço onde se compra quase de tudo de ingredientes. Que eu saiba, não tem nada do tipo aqui em Fortaleza.

De volta para a casa, almoço e bate-papo. Curiosamente, o papo que mais se desenvolveu, além de coisas da vida real, Seinfeld, filmes e gatos, foi sobre música. Ouvimos muita música e falamos bastante de música. Senti-me à vontade com pessoas que também não se sentiam muito felizes com os caminhos da música pop do novo milênio. A Juliana também veio para me ver na hora do almoço e foi muito divertido o papo. Creio que a minha amizade com eles se solidificou ainda mais com essa visita. Até me arrependi de não ter ficado para dormir e ir no dia seguinte (é que eu achava que estaria abusando da hospitalidade se ficasse muito tempo). Como eles disseram, daria para aproveitar mais. Fica para a próxima oportunidade.

Muito do meu interesse para voltar para São Paulo veio da possibilidade de ver uma peça com a Alessandra Negrini em um teatro ali na Vila Mariana. Acabou dando certo a ida ao teatro, embora a peça não tenha nos agradado muito. Chama-se Uísque e Vergonha, com direção de Nelson Baskerville, baseado em um livro de Juliana Franck, escrito em 2016. O que mais me incomodou na peça foi o quanto o humor não serviu para fazer rir. Os palavrões acabaram parecendo gratuitos e apenas feitos para incomodar. A peça terminou com uma homenagem a João Gilberto, falecido naquele sábado. Antes disso, o jantar havia sido um hambúrguer caprichado na Jazz. Que lugar bacana, hein. E o sanduíche é ótimo. Para mim, que evito comer porco, é perfeito, então, já que o dono é adventista do sétimo dia.

Domingo

Dia de comemorar o aniversário fora de casa. Havia convidado outros amigos, entre os que estavam em Sampa (vários viajaram ou se mudaram para outros lugares do mundo), mas por motivos diversos eles não puderam ir. Estiveram presentes no restaurante Sujinho, além de Michel e Cris, Chico, Gustavo e o casal que eu conheço desde os primórdios do blog, Tiago e Denise, que trouxeram seu baby, o Benjamin. Na TV passava a final da Copa do Mundo feminina de futebol. A comida era boa - experimentei o salmão - e o papo fluiu bem. Depois do almoço, eu, Michel e Gustavo fomos caminhar um pouco pela Paulista, que estava fechada para os carros. Muito agradável poder sentir o prazer do calor do sol em dias frios. Até o sorvete pareceu mais gostoso. Se bem que o Michel falou que aquele é o melhor (ou um dos melhores) da cidade.

Depois de uma descansada em casa, Michel e eu fomos ver MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel. Que baita filme, meus amigos. E que performance arrasadora de Mélanie Thierry! É outro filme que eu preciso parar com calma para escrever e poder ampliar a experiência do cinema. Sem dúvida, um dos melhores títulos que eu vi neste ano. Já estava quase saindo de cartaz em São Paulo. Portanto, quem ainda não viu, corra para ver. Aqui em Fortaleza não chegou e eu nem sei se um dia vai chegar. Em seguida, fomos jantar em outro lugar excelente, o Prainha da Paulista. Impressionante a quantidade de comida boa que São Paulo oferece.

Segunda-feira

O dia amanheceu com a emoção de estar junto com a turma para o podcast Cinema na Varanda. Tiago não estava; viajou. Uma honra estar ao lado de Michel, Chico e Cris nesta segunda vez ao vivo com eles fazendo este programa, que eu gosto tanto e não perdi nenhum episódio até hoje. Os filmes em debate foram HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA, DIVINO AMOR e DEMOCRACIA EM VERTIGEM. Além disso, no Puxadinho da Varanda, ainda trouxemos à tona os filmes FORA DE SÉRIE, DESLEMBRO, MEMÓRIAS DA DOR e TURMA DA MÔNICA - LAÇOS. Quem quiser ouvir o episódio, ele já está disponível AQUI.

Depois do podcast, saímos para almoçar (aliás, anotem aí: Go Fresh; que comida gostosa a desse restaurante!) e encontrar o fella de Natal, Marcos Aurélio Felipe, outro cara fantástico que conheço já faz um longo tempo. Ele estava passando uns dias com a família em Sampa e foi ótimo ter essa possibilidade de encontrá-lo. Depois de conversar e almoçar, nós três saímos para ver SANTIAGO, ITÁLIA, o novo filme de Nanni Moretti. Não é um dos melhores do Moretti, com certeza, mas, nos dias de hoje, acaba sendo necessário. Após uma ida para trocar uma camiseta em uma loja que usa estampas bacanas de cinema e música, fomos ao café do Espaço Itaú conversar mais um pouco. Era o tempo de ir para a terceira parte da programação do dia, o karaokê na Liberdade.

Só não foi melhor do que a outra vez pois estava lotado e todo mundo queria cantar. Só consegui cantar duas músicas ("Never there", do Cake, e "The KKK took my baby away", dos Ramones) e nem acho que fui bem. Havia um grupo de especialistas, quase profissionais em karaokê, tanto na voz quanto nas coreografias. Outra coisa que percebi e que fez eu me sentir mais velho: a quantidade de canções novas no repertório que eu não conhecia. Mas fiquei feliz que o grande momento da noite veio da nossa turma: Cris e Chico cantaram "Shallow", a original de Bradley Cooper e Lady Gaga, não a horrível versão brasileira, claro. Cris mandou bem demais emulando a Gaga.

Ah, e o momento também foi muito importante para finalmente conhecer pessoalmente a Paula Ferraz, dessas pessoas que a gente já gosta mesmo de longe. Ela havia viajado para Jericoacoara e retornou naquele dia. Me presenteou com dois DVDs (O AMANTE DUPLO e EU, TONYA) e me deu aquele abraço acolhedor. Fiquei feliz demais de encontrá-la.

Terça-feira

Dia de voltar para casa. Mas antes Cris e Michel foram tão legais comigo que, além de me darem carona de volta até o aeroporto, ainda me levaram a um lugar muito interessante, uma espécie de cafeteria hipster com cadeiras de praia e um café-da-manhã gourmetizado. Chama-se Beth Bakery. Gostei de conhecer o lugar. O dia foi curto e a viagem até que foi rápida, embora tenha chegado bem cansado. De todo modo, foram cinco dias que valeram demais. Novamente, deixo novamente meu muito obrigado à acolhida dos amigos todos citados aqui, em especial, claro, Michel e Cris. Até a próxima, my friends!

sábado, junho 22, 2019

DESLEMBRO

É possível notar, mesmo sem saber nada de DESLEMBRO (2018), que se trata de um filme muito pessoal de sua diretora, Flavia Castro. Ao sabermos que ela conta novamente a história de seu pai desaparecido durante a ditadura, história contada no documentário DIÁRIO DE UMA BUSCA (2010), percebemos que ela é movida por uma necessidade de recontar essa história. O que impressiona é o quanto ela consegue ser tão bem-sucedida estreando no registro de ficção. A sensibilidade com que ela conta a história de uma jovem adolescente que é trazida da França para o Brasil na virada dos anos 70 para os 80, quando começou o processo de anistia política, é feita com uma vivacidade impressionante.

Nos primeiros minutos de DESLEMBRO vemos uma família dialogando em francês. A menina Joana (Jeanne Boudier, ótima) não quer sair da França e ir para um país em que se torturam e matam pessoas. Mas a mãe (Sara Antunes) prefere que a filha e seus outros dois filhos (na verdade, um deles é filho do seu companheiro com outra mulher) venham com ela para o Rio de Janeiro. O impacto da chegada ao novo país começa a trazer memórias fortes de um momento traumático na vida da pequena Joana. Lembranças escondidas em um canto seguro de sua memória.

Assim, essas lembranças - ou possíveis lembranças, já que não se sabe ao certo o que é verdade ou o que é construído como uma espécia de sonho - vão surgindo em flashbacks bem fragmentados. Às vezes, a diretora usa um recurso plasticamente muito bonito de nos mostrar uma imagem tão aproximada a ponto de não sabermos o que estamos vendo, como em um quadro de pintura abstrata com textura em alto relevo.

A inclusão de canções é também um acerto do filme. Lou Reed, Caetano Veloso, The Doors, Nelson Gonçalves (em uma canção de Noel Rosa que também aparece no maravilhoso ARÁBIA, de João Dumas e Affonso Uchôa, ainda que com um intérprete diferente), citações a David Bowie e Pink Floyd; além disso, o amor pelos livros por parte de Joana e a recitação de um poema de Fernando Pessoa, tudo isso faz com que o gosto pela vida, embora dolorosa pela falta trágica do pai, esteja o tempo todo presente.

E há também o amor no seio familiar. A família como mostrada no filme, tão fragmentada quanto as memórias da menina, é de encher o coração (o que são aquelas cenas no carro, meu Deus?). As questões de afetividade envolvendo a mãe, o padrasto chileno e os dois irmãos pequenos somam-se à avó da menina que mora no Rio, vivida com brilho por Eliane Giardini, A cena mais tocante do filme, aliás, talvez seja uma muito sutil, em que a avó e a menina estão sozinhas e a avó olha com lágrimas nos olhos para o rosto daquela garota que lembra o seu filho assassinado pela ditadura. Um exemplo de sensibilidade ímpar por parte da diretora e de seu belo elenco.

E já que estamos falando de amor, eis que o amor romântico também surge em DESLEMBRO de maneira muito bonita. Há, inclusive, uma cena de sexo muito discreta e muito elegante entre ela e o seu interesse amoroso, um rapaz que também é filho de exilados. Inclusive, esse aspecto romântico e a quantidade generosa de canções pop faz com que o filme dialogue com o ótimo CALIFÓRNIA, de Marina Person.

No que se refere às questões políticas, há diálogo com o momento atual, embora o filme tenha sido finalizado antes das últimas eleições presidenciais. O que não deixa de torná-lo ainda mais forte e mais urgente nos dias de hoje. Aliás, o que não parece urgente nos dias de hoje, quando o assunto é direitos humanos?

Assim, no mesmo fim de semana, temos dois filmes de duas cineastas mulheres que estão entre as melhores realizações brasileiras lançadas em circuito. O outro é DEMOCRACIA EM VERTIGEM, de Petra Costa, lançado diretamente na Netflix, e que por isso já tem alcançado um público bem maior. DESLEMBRO, por sua vez, restrito ao circuito alternativo, ganhará um público pequeno. Por isso, é importante que o boca a boca seja positivo e que atraia o público, a fim de que mais pessoas tenham a honra de ver esta pequena obra-prima no cinema, em toda sua glória.

+ TRÊS FILMES

LOS SILENCIOS

Muito bonito este segundo filme de Beatriz Seigner. Gosto especialmente da primeira metade do filme, com momentos em que os sons da natureza desempenham um papel muito forte na ambientação daquele lugar: uma ilha que fica na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Na história, Amparo é uma mulher que vai com os filhos para a tal ilha, fugindo de possíveis ataques dos inimigos da guerrilha de que o marido fazia parte. Mais um filme que vale ver também para nos aproximarmos dos nossos vizinhos sul-americanos. Ano: 2018.

MORMAÇO

Um quê de AQUARIUS com elementos cronenberguianos (também lembrei de Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra). Além de um importante trabalho sobre a destruição imposta pelo Estado (o Rio de Janeiro nas vésperas das Olimpíadas de 2016), é também um filme sobre uma doença misteriosa que aflige a protagonista. Os elementos realistas se harmonizam bem com uma linha mais fantástica. Ótima a Marina Provenzzano (tinha visto a moça em O GRANDE CIRCO MÍSTICO, mas não lembrava). Direção: Marina Meliande. Ano: 2018.

A SOMBRA DO PAI

Um filme que me trouxe sentimentos mistos. Ora achei bonito toda a homenagem aos filmes de terror que a diretora faz, ora curti a cara de filme de horror B de locadora dos anos 80, ora fiquei incomodado com o drama inquietante do pai e da filha, que vivem à mercê de situações extremamente desafiadoras, cada um lidando à sua maneira com o que lhes perturba. A menina tem um gosto por feitiços e coisas do tipo; o pai se fecha demais em sua vida desgraçada. Muito bom ver a evolução da diretora nesses longas. Direção: Gabriela Amaral Almeida. Ano: 2018.

sábado, junho 15, 2019

FORA DE SÉRIE (Booksmart)
























"Ser jovem é a experiência mais dolorosa e mais hilária", disse Olivia Wilde em entrevista para o jornal The Guardian. E de fato, por mais que FORA DE SÉRIE (2019), sua estreia na direção de longas-metragens, seja um filme para rir bastante, há uma profundidade e uma compreensão do que é ser jovem que falta na grande maioria dos filmes sobre jovens produzidos nos últimos vinte anos. E como vivemos em um momento em que tudo que fazemos tem um viés político, nem precisaríamos saber que Wilde é uma democrata entusiasmada que trabalhou duro durante as campanhas de Obama e cuja mãe é congressista.

Assim, FORA DE SÉRIE trata de situações em pauta nos dias de hoje, como a orientação sexual e a sororidade. O filme conta a história de duas garotas que são melhores amigas. Elas estão no último ano do ensino médio e prestes a ingressar em uma nova fase de suas vidas. Acreditam que deram o melhor de si, ralando muito nos estudos, diferente da grande maioria de seus colegas, que passaram o ano brincando, indo a festas etc.

Na verdade, a visão que temos da escola é quase caótica, mas muito divertida de ver. Em determinado momento parece a Escolinha do Professor Raimundo. Por isso, uma delas fica horrorizada ao saber que vários de seus colegas também vão para universidades conceituadas, mesmo não estudando tanto quanto ela. Daí a necessidade de, no último dia do ano, antes da entrega do diploma, elas resolverem ir a uma das festas malucas da turma. Isso se torna algo de fundamental importância, então.

Desde o começo o filme é um convite ao riso, ao mesmo tempo em que acompanhamos o aprofundamento no drama daquelas personagens - e até dos coadjuvantes que aparecem pouco e que seriam apenas funcionais na trama. Assim, a transição do riso para a dor pode ser sentida com mais força.

O que dizer da cena da piscina, uma das cenas mais belas do cinema recente? Ao mostrar a cena para Will Ferrell em um corte inicial do filme, o ator e comediante disse, em lágrimas: "essa é uma das mais belas cenas que eu vi na vida". E dá para imaginar que Olivia Wilde tenha fica emocionada com o apoio do amigo, e disse que muita gente queria cortar a cena. Dá para imaginar?

Um dos grandes méritos do filme é nos fazer sentirmos mais vivos ao nos levar de volta para esse momento de transição da vida. É semelhante ao que sentimos com LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig, só que com muito mais experimentação e estranheza, o que é muito bom. Assim, o que vemos é uma produção com um grau de frescor pouco visto no cinema independente recente. Afinal, o que é a cena das duas bonecas? E que maravilha que é a liberdade com que vemos os diálogos íntimos das duas amigas, como na revelação de um brinquedo de pelúcia para auxiliar na masturbação de uma delas.

As duas meninas, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), se amam e se apoiam mutuamente. Molly sofre por ser gordinha e acreditar que não tem chance com os garotos da escola; Amy, por outro lado, é gay e tem muita dificuldade em chegar perto de uma garota por quem ela se sente atraída.

O filme, ao mostrar tanto o doce e o amargo desses momentos da vida, encanta. A primeira experiência sexual de Amy, o baque de ver a pessoa amada beijando outra pessoa, a alegria com o sucesso da colega, a aproximação com colegas distantes através de pequenos diálogos que revelam mais aprofundadamente quem são aquelas pessoas, tudo isso é muito bonito. Uma das melhores surpresas do cinema em 2019, FORA DE SÉRIE é também um filme sobre ser jovem em 2019, o que o torna também uma espécie de documentário de uma época.

+ TRÊS FILMES

OITAVA SÉRIE (Eighth Grade)

O primeiro filme que vi em 2019 foi este trabalho bem sensível sobre a vida de uma adolescente tímida que se esforça muito para poder se socializar e se sentir pertencente em seu mundo. Me identifiquei com esta jovem e, como professor, visualizo também muitos que passam por essa fase complicada da vida. O legal do filme é que, mesmo insegura, ela faz uns vídeos de dicas de como enfrentar certos problemas da vida como adolescente. Um misto de sabedoria escondida em um corpo cheio de inseguranças. Direção: Bo Burnham. Ano: 2018.

O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST (The Miseducation of Cameron Post)

Serve como uma boa dobradinha para BOY ERASED. E diria que é menos intenso, até porque a figura dos disciplinadores da cura gay é menos odiosa e perversa. Mas o curioso é que o outro é baseado em uma história real e este parece que não. Mais do que um filme sobre a intervenção cruel à personalidade de pessoas, é um filme sobre amizade, uma amizade que a protagonista constrói com tipos marginais na instituição: uma jovem negra sem uma perna e um rapaz índio. Adoro a hora que toca "What's up", do 4 Non Blondes. E olha que eu nem gostava da música. Direção: Desiree Akhavan. Ano: 2018.

A CINCO PASSOS DE VOCÊ (Five Feet Apart)

Belo melodrama juvenil que deve falar bastante às novas gerações. Fiquei especialmente impressionado com o tanto de jovens chorando durante a sessão. Uma menina que estava perto de mim estava aos prantos ao final do filme, chorando no colo de quem parecia ser sua mãe. O filme pode ter seus problemas de seguir uma fórmula gasta, mas os protagonistas têm muito carisma e o drama deles é muito fácil de comprar. Afinal, quem não precisa de um abraço? Além do mais, é um filme que não tem medo de ser pesado no drama. Direção: Justin Baldoni. Ano: 2019.

quinta-feira, junho 13, 2019

CINCO SÉRIES E DUAS MINISSÉRIES

Em outros tempos eu teria falado com calma de cada uma dessas séries. Até porque todas merecem a nossa atenção. Mesmo aquela que patinou em sua conclusão. Infelizmente, por uma série de motivos que não valem a pena explicar aqui, não estou conseguindo seguir com a mesma regularidade que o blog estava tendo de 2002 a 2017. Assim, para não passar em branco, vamos logo tecer breves comentários sobre séries marcantes vistas recentemente. A primeira delas, pra vocês terem uma ideia, eu terminei de ver no final do ano passado.

THE MARVELOUS MRS. MAISEL – SEGUNDA TEMPORADA (The Marvelous Mrs. Maisel – Season Two)

Esta segunda temporada foi um pouco mais desafiadora que a primeira, que tinha sido só alegria. Nesta, há o desafio (bom) de ver uma série que se interessa ainda mais por questões formais, não só de emular o cinema dos anos 50 e as screwball comedies, mas também de brincar com o cenário de maneira inventiva. Sem falar nas cores vivas e lindas. Mas o que pega mesmo é o drama dos personagens, que se intensifica. O drama prevalece sobre a comédia agora, e os personagens coadjuvantes ganham mais espaço já no começo. Caso dos pais de Midge (Rachel Brosnahan), na série de episódios que se passam em Paris. Mas o que me fez gostar mesmo desta nova temporada foi a questão da dor dos personagens, cada um deles com um problemão pra enfrentar. A cena final é lindíssima, de tão tocante. É ver o que vem por aí na próxima. Episódio de destaque: “We’re Going to Catskills!” que mostra Midge e sua família indo para uma espécie de colônia de férias para famílias. No mínimo, curioso. Ano: 2018. Criadora: Amy Sherman-Palladino. Canal: Amazon.

BONECA RUSSA – PRIMEIRA TEMPORADA (Russian Doll – Season One)

Gosto muito da série a partir da metade, quando aparece um personagem importante. Até então, demorei a simpatizar com a heroína, mais parecida com uma versão feminina de Joe Pesci em OS BONS COMPANHEIROS. Mas os momentos brilhantes compensam e quase tornam a série ótima. Uma pena que eu não tenha me entusiasmado tanto, a não ser nos momentos em que as brincadeiras de paradoxo temporal o tornam diferente das cópias de FEITIÇO DO TEMPO. No mais, a história melhora quando muda de ponto de vista e surge certo personagem masculino. Curioso o fato de a temporada ser tão redondinha. Não consigo imaginar uma segunda temporada. Episódio de destaque: “Alan’s Routine”, justamente o que muda o foco da ação de Nadia para Alan. Ano: 2019. Criadoras: Lesley Headland, Natasha Lyonne e Amy Poehler. Canal: Netflix.

TRUE DETECTIVE – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (True Detective – The Complete Third Season)

A terceira temporada de TRUE DETECTIVE começa um tanto morna, mas vai melhorando a partir do terceiro episódio, quando as três linhas temporais passam a ser brilhantemente trabalhadas e ganham força, principalmente quando a série parece estar mais interessada na psicologia de seus personagens do que na trama de mistério, que desde o começo parece pouco envolvente, até por contar apenas com o caso de um garoto morto e uma garota desaparecida. Isso não deixa de ser uma tragédia, mas para uma série o que conta é o fato de isso se estender por tanto tempo (1979-1990-dias atuais). Incomoda um pouco certas coisas serem tão óbvias que os detetives deixaram passar. Curiosamente, os episódios mais fracos são os dirigidos por Daniel Sackheim, que dirigiu os primeiros e os últimos. Os dirigidos pelo criador da série são os melhores. Não sei se depois desta temporada a franquia vai contar com um quarto ano. Episódio que se destaca: “Now Am Found”, que lida mais dramaticamente com a situação de perda de memória na velhice de Wayne (Mahershala Ali). Ano: 2019. Criador: Nic Pizzolatto. Canal: HBO.

GAME OF THRONES - A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones – The Complete Eighth Season)

Não há como negar a influência e a força de GAME OF THRONES ao longo desta década. Foi a série mais popular e mais querida, mas aos poucos foi se tornando a mais frustrante, devido aos rumos que foi tomando à medida que se aproximava de sua conclusão. A sétima temporada já apontava para algo mais desleixado e embora o final da série tenha trazido algumas surpresas (não necessariamente boas, mas ao menos são surpresas), o final é desapontador, ficando um gosto azedo e a falta de vontade de nunca mais voltar à série. Até a Peter Dinklage foi dado um monólogo ruim no episódio final. Perderam a chance de criar um clássico. Ainda assim, são de Dinklage os melhores momentos da temporada, como quando ele sofre com a possibilidade de trair sua rainha; ou quando ele abraça o irmão Jaime, dizendo que ele foi o único na família que não o considerou um monstro. Episódio de destaque: “The Last of the Starks”, uma espécie de episódio de respiro e em quatro paredes, dando espaço para conversas à fogueira dos personagens sobreviventes à batalha da noite anterior. Canal: HBO. Ano: 2019. Criadores: David Benioff e D.B. Weiss. Canal: HBO.

FLEABAG – PRIMEIRA TEMPORADA (Fleabag – Season One)

Depois do hype dentro do círculo de críticos e apreciadores mais exigentes de séries, fui lá conferir a primeira temporada de FLEABAG, que nem sabia que existia até um dia desses. Sempre bom ter a oportunidade de conhecer novos talentos criativos, como é o caso de Phoebe Waller-Bridge, que cria, escreve e atua como protagonista desta série que se esconde como uma comédia com frequência, quando no fundo o que se sente mesmo é muita dor, arrependimento e uma dose de depressão. Em breve vejo a nova temporada. Episódio de destaque: o sexto e último episódio, que traz a revelação do que realmente aconteceu com a querida amiga de Fleabag. Ano: 2016. Criadora: Phoebe Waller-Bridge. Canal: Amazon.

CHERNOBYL

Dessas histórias tão aterradoras e arrepiantes que ficam com a gente até a hora de dormir. Impressionante o quanto a irresponsabilidade pode causar tanto prejuízo (mortes, doenças, perdas de animais, flora, uma cidade inteira). Um dos grandes méritos de CHERNOBYL é nos colocar de cara com a noite da explosão, para depois ver o horror só aumentando, e ao final ter aquela sensação de que ao menos algumas pessoas fizeram algo de bom para que aquilo não se repetisse. Episódio marcante: “Open Wide, O Earth”, que mostra os planos de Valery (Jared Harris) para descontaminar Chernobyl. Perturbador é pouco! Ano: 2019. Criador: Craig Mazin. Canal: HBO.

A VERY ENGLISH SCANDAL

Uma das coisas bacanas do Globo de Ouro é fazer com que eu me interesse por certas produções televisivas. No caso desta aqui, só em ter a presença de Hugh Grant, um de meus astros favoritos, já era motivo mais do que suficiente. Saber que se trata de uma ótima minissérie, então, melhor ainda. O formato em três episódios, característica das minisséries britânicas, funciona bem e a história é de fato fascinante. No campo das atuações, nunca vi Grant tão bem. Pena não ter levado o prêmio de melhor ator. A cena dele tentando desconversar sobre sua vida dupla com a segunda esposa é de dar dó. Mesmo sendo uma espécie de vilão, por assim dizer. Talvez seja o melhor trabalho de Frears na direção desde CHÉRI (2009). No mais, lembremos que seus primeiros sucessos para cinema abordavam a questão da homossexualidade, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA (1985) e O AMOR NÃO TEM SEXO (1987). Ano: 2018. Direção: Stephen Frears. Canal: Amazon.