domingo, julho 12, 2026

O CORPO ARDENTE

 
A Gênese de Marcelo Rondi em Noite Vazia e O Corpo Ardente, de Walter Hugo Khouri

(Texto originalmente publicado na revista Cinese nº 1, disponível no site da Aceccine)

Minhas lembranças de quando comecei a ver os filmes de Walter Hugo Khouri se misturam. Não sei dizer ao certo se comecei a vê-los quando nem sabia quem era o realizador, apenas atraído pela beleza das atrizes em cenas sensuais, em filmes como O CONVITE AO PRAZER (1980) ou EU (1987), na época que foram exibidos na TV aberta; se foi com NOITE VAZIA (1964), numa exibição na TV Cultura, quando já era um cinéfilo iniciante e leitor da melhor fase da revista SET, e o filme era considerado um clássico até por críticos que não tinham por hábito exaltar a obra do realizador; ou se aconteceu nas várias vezes que entrava na locadora do centro da cidade e saía, feliz da vida, com o VHS de EROS – O DEUS DO AMOR (1981) debaixo do braço. Eros viria a ser o trabalho de Khouri que eu mais veria e que se tornaria o mais querido por mim.

Há um diálogo num filme pouco lembrado de Khouri, PAIXÃO E SOMBRAS (1977), em que o protagonista, interpretado por Fernando Amaral, vivendo um cineasta chamado Marcelo Rondi (nome recorrente e para muitos estudiosos e críticos, o alter-ego do realizador), ao ser perguntando se as pessoas vão compreender a relação entre cenário e pintura em seu filme, diz que, se o público não compreender, ele poderá sentir. E aqui podemos destacar o verbo “sentir”.

Eis o motivo de a obra do cineasta ter essa força que prevalece ao longo dos anos: se alguém busca seus filmes pelo erotismo, poderá sentir e receber algo em troca, sejam citações filosóficas ou artísticas, um cuidado plástico impressionante da obra cinematográfica em si ou simplesmente algo de misterioso que não saberão muito bem explicar.

Ou seja, é possível que muitos que adentram o universo khouriano acabem ficando apaixonados por ele por diversos motivos, acontecendo, portanto, uma espécie de sintonia, como se algo quase sobrenatural tivesse acontecido durante a apreciação da obra. Ter essa sensação é o que geralmente mantém vivo e entusiasmado o apreciador de arte, seja ela qual for.

Recentemente, ao adquirir o livro Walter Hugo Khouri – O Ensaio Singular (2023), de Andrea Ormond, recebi da autora uma dedicatória que diz “para o irmão em Khouri Ailton Monteiro”. Ou seja, ter essa relação de afeição e paixão pelo cinema do diretor paulistano faz com que nos sintamos membros de uma espécie de confraria. E hoje o aumento do número de espectadores que veem o cinema de Khouri com olhos mais generosos se deve principalmente a essas pessoas apaixonadas por seu trabalho que fazem questão de verbalizar essa paixão, de levar a palavra. Ormond, aliás, foi uma das responsáveis por esse enriquecimento da fortuna crítica de qualidade sobre o cineasta, em seu hoje lendário blog Estranho Encontro.

Hoje, aliás, existe uma oferta considerável de livros sobre o realizador. O mais recente lançamento é o ótimo O Cinema de Walter Hugo Khouri (2025), de Donny Correia. Mas nem sempre foi assim. Khouri foi uma espécie de lobo solitário, de alguém que não queria e nem fazia muita questão de fazer parte daquele clube que significava prestígio para a crítica e para a intelectualidade, o clube do Cinema Novo. Tanto que chegou a ser criticado por Glauber Rocha por fazer um suposto “cinema burguês” ou “alienado”.

Até hoje, do ponto de vista da crítica, se pegarmos, por exemplo, o livro 100 Melhores Filmes Brasileiros, criado pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, já nos anos 2010, teremos apenas um filme de Khouri presente na lista dos 100, NOITE VAZIA, enquanto um diretor considerado “maldito” como José Mojica Marins aparece com vários títulos. Ainda há, sim, uma preferência pelos filmes do Cinema Novo, ou até do cinema marginal, com Mojica correndo por fora, tendo ganhado um prestígio que ultrapassa a fronteira de nosso país.

Para este ensaio gostaria de destacar dois filmes anteriores ao surgimento oficial de Marcelo Rondi, o referido personagem recorrente dos filmes de Khouri, surgido pela primeira vez em AS AMOROSAS (1968) e pela última vez em PAIXÃO PERDIDA (1998). Os títulos em questão são NOITE VAZIA e O CORPO ARDENTE (1966), filmes que ajudariam a tornar mais perceptível o estilo de Khouri, sua assinatura, e que ajudam a pensar a gênese de Marcelo. Essas duas obras representaram um salto de qualidade, ou melhor dizendo, de autoralidade, em comparação com o que o diretor havia feito até então.

Renato Luiz Pucci Jr., em seu livro O Equilíbrio das Estrelas - Filosofia e Imagens no Cinema de Walter Hugo Khouri (2001), apresenta a teoria de que Marcelo seria a síntese de Luís e Nelson. Ou, ao contrário, Luís e Nelson, de NOITE VAZIA, representariam uma espécie de gênese de Marcelo. Ou seja, a persona mais cínica e mulherenga de Marcelo estaria em Luís, enquanto Nelson apresenta o Marcelo mais sensível e mais claramente angustiado, desde sua primeira aparição, com um close-up bastante expressivo do rosto do ator italiano Gabriele Tinti.

Também podemos ver Márcia, a protagonista de O CORPO ARDENTE, como uma espécie de versão feminina de Marcelo, em sua angústia, em sua busca por sentido na vida, em seu tédio, em sua ânsia por liberdade, especialmente quando visualiza o corcel negro fugido de seu dono e que aparece como símbolo de liberdade. Uma liberdade que ela inveja. Sente-se maravilhada ao olhar para o animal, e por isso tenta protegê-lo dos capatazes.

Para aqueles não familiarizados com o cinema de Khouri, Marcelo Rondi é este homem amaldiçoado por um vazio que o destrói por dentro, por mais que ele busque meios de atenuar a angústia a partir, principalmente, do sexo, das relações entre as várias mulheres que habitam sua existência, entre elas sua esposa e sua filha. Ou seja, por mais que o espectador incauto não perceba, Khouri estava mais interessado em tratar menos do desejo e mais do desassossego.

Assim, em NOITE VAZIA, dois homens burgueses ou de classe média saem em busca de mulheres numa São Paulo habitada por pessoas tristes. Luís é o que toma a iniciativa, o que tem dinheiro para pagar as prostitutas, enquanto Nelson se sente desconfortável, mas não deixa de participar, de usufruir da noitada regada a sexo e bebidas, por mais que demore a alcançar satisfação. Porém, diferente do amigo, consegue fechar a noite abraçado à personagem de Norma Bengell, a prostituta mais romântica, por assim dizer.

Já em O CORPO ARDENTE, acompanhamos a inquietação de Márcia (Barbara Laage) na festa em sua casa, enquanto ela e o marido esperam um tal conde. Na festa, estão lá seus dois amantes. Márcia se sente atraída também por mulheres na festa. Ou seja, não é tão diferente assim do que se veria nas obras em que Marcelo Rondi apareceria já em meia-idade, como O PRISIONEIRO DO SEXO (1978) ou O CONVITE AO PRAZER.

Ambos os filmes contam com momentos elevadores, próximos do sobrenatural: o carro de Luís e Nelson passando por dentro de um túnel escuro em Noite Vazia e o “reencontro” com o corcel negro através da filmagem em super-8, apresentada pelo filho de Márcia, em O CORPO ARDENTE. São duas cenas perto do final do filme que tanto encerram uma jornada quanto trazem momentos próximos do transcendental, para usar uma palavra recorrente nos filmes de Khouri, o cineasta que ousou fazer cinema claramente autoral durante cinco décadas num país que não tratava muito bem seus cineastas.

+ TRÊS FILMES

DOUVINA

Uma meditação sobre a importância da memória, seja a memória que se ausentou da mente de Dona Douvina, quanto a memória do acervo de seu marido, Cristiano Câmara, detentor de uma das maiores coleções de discos e filmes em diferentes mídias de Fortaleza. Seu acervo contém música datadas dos anos 1930 em diante, e seu amor pelo cinema clássico hollywoodiano se explicita nos quadros e cartazes que preenchem o espaço de sua casa. Uma vez que não está mais entre nós o casal, a filha Zuleika é a principal responsável pela manutenção e cuidado do material presente na casa, situada próxima à Catedral Metropolitana e ao Mercado Central. São do Mercado, aliás, as primeiras imagens de DOUVINA (2026), imagens que mostram um centro da cidade ainda muito vivo. Essa efervescência popular se contrapõe, ou se completa, ao silêncio da casa de Douvina, em especial em seus dias de maior fragilidade física, sob os cuidados da filha e de uma equipe de enfermagem, que transforma a casa numa espécie de hospital. O diretor Márcio Câmara (RUA DA ESCADINHA 162, 2003) mistura ficção com documentário neste filme que tem uma função mais de nos fazer sentir do que de informar, o que faz com que seu trabalho ganhe em força espiritual. Em alguns momentos, sente-se a proximidade da morte, nas cenas de Douvina, mas também da tempestade. As cenas dramatizadas trazem também uma atmosfera onírica que enriquece a obra. Ao final, até posso ter sentido mais falta da história de amor de Christiano e Douvina, mas o pouco que é mostrado é suficiente para que procuremos completar as lacunas, e nos emocionarmos com o relacionamento do casal. Tive a oportunidade de ver DOUVINA numa sessão fechada, mas já anseio pela primeira exibição oficial. Que seja em breve.

PARA VIGO ME VOY

Quando PARA VIGO ME VOY (2025), documentário sobre Cacá Diegues dirigido por Lírio Ferreira e Karen Harley, começou, confesso que fiquei assustado com a cena em que o vemos já muito velhinho e debilitado levando um tombo no set do ainda inédito DEUS AINDA É BRASILEIRO, continuação de seu filme de 2003. Fiquei pensando se o documentário não estaria expondo em demasia o estado físico do cineasta. Mas, depois, percebi que essa cena, junto com outras que apontam seu estado de saúde nos últimos meses de vida, serviram para contrastar com sua longa e militante vida. Diegues foi um dos primeiros cineastas brasileiros a colocar um ator negro, Antonio Pitanga em GANGA ZUMBA (1963), como protagonista. E depois seguiria fazendo questão de valorizar o negro em outros filmes importantes, como A GRANDE CIDADE (1966), XICA DA SILVA (1976) e QUILOMBO (1984). Suas passadas por Cannes o fizeram querido do festival e da França, tanto que até fez um filme com Jeanne Moureau, JOANNA FRANCESA (1973). Seu posicionamento político foi corajoso, atacando o autoritarismo em tempos de ditadura - chegou a ficar exilado por alguns anos. É bom ver este doc e passear pela filmografia de Diegues. Mesmo não se gostando de todos os seus filmes, é difícil não simpatizar com o cineasta, é difícil não admirar sua postura e sua visão da brasilidade e também sua sensibilidade para com pessoas excluídas, como idosos (CHUVAS DE VERÃO, 1978), artistas pobres de circo (BYE BYE BRASIL, 1980) e escravizados, como nos filmes anteriormente citados. O documentário tem um quê de incompleto, mas é muito prazeroso para os cinéfilos.

VANDO VULGO VEDITA

Ver na telona este filme da dupla Leonardo Mouramateus e Andréia Pires faz toda a diferença. Muito bom ter tido esta oportunidade, graças a uma mostra especial promovida pela Aceccine no Cinema do Dragão. O trabalho de Mouramateus já era conhecido por mim desde MAURO EM CAIENA (2012), e desde então tenho acompanhado seu trabalho. Quanto a Andréia Pires, não consta outro crédito de direção seu no IMDB. De todo modo, VANDO VULGO VEDITA (2017), é um dos trabalhos mais solares e mais cheios de alegria com o nome de Mouramateus nos créditos. Adoro aqueles jovens pintando seus cabelos de loiro e se dirigindo à Barra do Ceará para se divertir, conversar, cantar, falar bobagem. É um filme muito mais preocupado com a atmosfera do que com diálogos, embora não se deva menosprezar o que é dito pelos vários personagens. Há um momento de tensão, lá perto do final, que faz com que o filme tome um outro sentido, mas, até isso, que acaba provocando certo mal-estar, é bem-vindo, levando em consideração a força das imagens e o quanto ele é cheio de vida, de juventude, de sensualidade, mas também de maldade juvenil.

sábado, julho 11, 2026

A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (Evil Dead Burn)

 
Acho interessante que a marca Evil Dead tenha virado uma espécie de cinessérie que homenageia o trabalho de Sam Raimi, com a diferença que diminui o humor e aumenta a violência gráfica e o tom de tragédia. O que não é algo ruim. É a tendência do cinema de horror do século XXI. Tanto que fica muito claro vendo tanto A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023) quanto este A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (2026) que há uma preocupação em trazer o horror para os temas contemporâneos. No novo filme, o tema é a violência doméstica, a masculinidade tóxica.

A suíça Souheila Yacoub (que está nos ótimos CLIMAX, de Gaspar Noé, e O SAL DAS LÁGRIMAS, de Philippe Garrel), interpreta a francesa Alice, uma jovem mulher que amargou violências terríveis de um cara que era visto pela família (dele) como um homem de bem e tal. Depois da morte do sujeito, num acidente de carro aterrorizante, ela encara o horror de ir para a casa dos pais do morto. Essa é talvez a principal história do filme, já que a trama que segue a partir de quando Evil Dead entra é uma variação dos outros filmes, especialmente do anterior, de Lee Cronin, quando pessoas da família são possuídas por entidades malignas que matam os vivos para possuírem seus corpos.

Um dos aspectos mais interessantes de Evil Dead, e em especial deste filme, é o quanto me fez pensar no conceito de “horror”, que tem mais relação com repulsa, nojo e choque do que com medo, atmosfera, mistério ou suspense. Ou seja, os fãs de gore e de filmes que destacam mais esses elementos podem se sentir comtemplados, embora eu perceba, principalmente no prólogo, um pouco de desleixo na direção, na montagem, no roteiro: o prólogo não tem impacto e a história dos dois amigos pescadores tem uma ligação muito pobre com a trama principal, da família Price e das mulheres (a namorada, a esposa, a sogra e a velha matriarca).

Também senti que há uma barriga ali pelo meio, ou na terça parte, quando o filme perde um pouco da força, embora siga chamando a atenção e mantendo o interesse nas cenas de maior choque, como a da caneta no ouvido ou a do beijo “romântico” de marido e mulher. A adaga, por exemplo, é um mcguffin. Mas um mcguffin que ajuda a empurrar a história para frente, na trajetória difícil da heroína/final girl.

Por outro lado, o trabalho de câmera de Sébastien Vanicek (INFESTAÇÃO, 2023) é quase sempre muito inventivo, emulando a capacidade que os corpos endemoniados têm de subir as paredes ou de pularem em cima de suas vítimas, não importando a altura ou o estrago que uma queda fará no corpo adotado pelos demônios. Cena mais clara disso é a do pai da família dando tiros na própria cabeça na frente de seus familiares.

Ou seja, considero MALDIÇÃO DA MÚMIA um Evil Dead melhor que este novo Evil Dead. Lee Cronin pode ter tentado passar a perna em seu colega francês, além de saber construir obras plasticamente mais bonitas.

+ TRÊS FILMES

MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (Mario Bava – Maestro of the Macabre)

Aproveitando que vi O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA (1970) recentemente, aproveitei para ver este documentário feito para a televisão britânica de cerca de uma hora de duração que busca enaltecer o legado de Mario Bava, um dos mais importantes cineastas italianos. E talvez o mais influente: sua obra influenciou gente diversa como Fellini, Argento, Lynch, Scorsese, Tim Burton, entre outros, além de influências diretas em obras como ALIEN, O 8º PASSAGEIRO e SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 2. Bava foi um cineasta que fez obras geniais com orçamentos mínimos, e este documentário cobre quase tudo de sua filmografia, de forma muito rápida, provavelmente para caber nos 60 minutos. E está tudo bem. Outros livros e documentários podem dar conta de seus filmes individualmente, ou mais aprofundadamente. Inclusive o autor do mais importante livro sobre Bava, Tim Lucas, está presente entre os entrevistados. MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (2000) começa destacando os primeiros filmes de horror de Bava, A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO (1960) e AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963), e se percebe que há uma divisão em blocos de assunto: o terror, o giallo, o pré-slasher, os outros gêneros pelos quais ele se aventurou, como o western, a ficção cinética e o peplum. Sobre o western, conta-se que ele não ficava à vontade com o gênero, por preferir trabalhar em estúdios e poder controlar melhor as cores, os cenários, algo que acabou se tornando uma de suas maiores marcas, seu enfoque visual, o quanto ele se importava mais com a imagem e menos com os atores e os diálogos. É bom ver este documentário para dar vontade de voltar a seus filmes e, se for o caso, ver aqueles que ainda não foram vistos.

ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (Oddity)

Comecei a ver este segundo filme de Damian MCarthy com a expectativa de ver no mesmo dia o novo HOKUM – O PESADELO DA BRUXA (2026). E até baixei há pouco seu primeiro longa, O ALERTA (2020). O fato é que gostei bastante de ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (2024). Antes tarde do que nunca tê-lo visto. A gente percebe que há um cineasta que trabalha com rigor formal por trás das câmeras e que a estranheza, o medo e o bom desenvolvimento da história vêm junto com a elegância. O prólogo nos apresenta a uma mulher que enfrenta um dilema: seu marido está trabalhando numa clínica de psiquiatria e ela está sozinha numa casa na floresta. Eis que um sujeito com um olho de vidro bizarro que pede pra entrar dizendo que havia um homem perigoso dentro da casa. A mulher fica nervosa e em dúvida sobre que atitude tomar, uma vez que havia deixado seu telefone no carro. Essa tensão e o resultado do que acontece nesta noite é só o começo dessa história que envolve psicopatia, mas principalmente eventos sobrenaturais, principalmente graças à presença de uma vidente cega (Carolyn Bracken, aqui em dois papéis) e de objetos que têm tanto valor quanto maldição. Um filme para não se esquecer.

LINK – O ANIMAL ASSASSINO (Link)

O fato de eu ter gostado tanto de O PRIMATA, de Johannes Roberts, me deixou curioso para conferir este ancestral dos anos 1980 dirigido pelo talentoso Richard Franklin, que vinha de ótimos filmes no currículo, como ENIGMA NA ESTRADA (1981) e PSICOSE II (1983). A opção de usar animais de verdade e não pessoas vestidas de macaco foi bastante arriscada, embora, para a época tenha sido o melhor a fazer. Ainda assim, senti que o orangotango Link me pareceu demasiado simpático para o vermos como um animal perigoso e assustador. Na trama de LINK – O ANIMAL ASSASSINO (1986), Elizabeth Shue é uma jovem estudante de zoologia que se oferece para ser assistente de um professor da universidade que trabalha com primatas, mais especificamente estudando a inteligência desses animais. Quando a moça se vê sozinha naquela casa enorme, distante da cidade, tendo que lidar com o perigo de uma fera, ela passa a exercitar seu instinto de sobrevivência se não quiser ter o mesmo destino de outros. Visto no box Obras-Primas do Terror – Animais em Fúria.

domingo, julho 05, 2026

O CONVITE (The Invite)

 
Assistir a O CONVITE (2026) é garantia de quase duas horas de sorriso no rosto, ainda que nem tudo sejam risos neste terceiro longa-metragem de Olivia Wilde, nascido após a repercussão de fofocas e do contexto de sua separação conjugal durante as filmagens de NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (2022), uma obra mais ambiciosa do ponto de vista da produção.

Para O CONVITE, Wilde opta por fazer uma obra menos complexa no que se refere a locações e maior quantidade de atores, o que não quer dizer que seja menos sofisticada em condução narrativa num espaço fechado: o filme se passa quase que inteiramente num apartamento em San Francisco. E a diretora (e aqui um dos quatro protagonistas também) sabe transformar em cinema aquilo que poderia parecer teatro filmado nas mãos de alguém sem talento. O espaço do apartamento é muito bem aproveitado, além dos close-ups da expressão nos rostos dos atores. Logo no início do filme, com a cena no conservatório, há um interesse em fugir do uso convencional da imagem e uma intenção de fazer algo pensado para o cinema – a opção pelo 35 mm e uma fotografia um pouco esmaecida também é deliberado.

Na revista Time, Olivia Wilde comenta em entrevista uma frase de Phoebe Waller-Bridge, a genial criadora da série FLEABAG: a atriz e roteirista afirma que nós nunca estamos tão vulneráveis quando estamos rindo, uma frase que achei interessante, principalmente se pensarmos no impacto dos dramas dos personagens de O CONVITE, no quanto esses dramas são transformados em humor; e depois no quanto eles se apresentam sérios, dramáticos e tocantes. Há quem diga que Wilde transformou sua dor (de sua vida privada) em algo cômico, mas também catártico.

Não à toa o filme foi tão bem avaliado e chegou a ter várias ofertas de compra até parar nas mãos da A24. Houve uma guerra de lances e o filme chegou a ser objeto de desejo também da Netflix, da Neon, da Sony e da Searchlight Pictures. Muita gente interessada e hoje há até rumores de uma possível indicação ao Oscar, principalmente de Penélope Cruz, que é quem, de longe, brilha mais no filme, no papel de uma psicoterapeuta e sexóloga que, junto com o marido, um ex-bombeiro (Edward Norton), recebe o convite dos vizinhos de baixo (Olivia Wilde e Seth Rogen) para um jantar.

Na verdade, a ideia do jantar vem da personagem de Wilde, que arruma a casa toda, comprando um tapete caríssimo, para receber esse casal, que tem atrapalhado suas noites de sono com o barulho dos gritos de orgasmo da espanhola. Para o casal de baixo, esses gritos de prazer também funcionam como mais um lembrete do quanto estão distantes daquela realidade de gozo de vida sexual, já que há muitos meses não fazem sexo e passam o tempo todo discutindo.

Seth Rogen está ótimo, ainda que fazendo mais uma vez o papel de sujeito engraçado e desengonçado; Olivia Wilde está perfeita como a mulher desesperada por uma mudança de vida (a atriz e diretora estava muito insegura como atriz e a princípio queria outra atriz para o papel); Edward Norton está ótimo como esse sujeito seguro de si e que não se importa em falar de detalhes da vida sexual do casal e de suas próprias preferências sexuais. Mas Penélope, que atriz, que papel. Talvez seu melhor no cinema internacional. Só na Espanha, com Bigas Luna e Pedro Almodóvar, chegou a se apresentar tão brilhante.

Uma alegria poder ver O CONVITE e sentir algo parecido com o que sentíamos no auge da carreira de Woody Allen. Além disso, o filme fala a um público 40+, que hoje é também um frequentador assíduo das salas de cinema.

+ TRÊS FILMES

VELHOS BANDIDOS

Fernanda Montenegro escolheu trabalhar com seus familiares em seus últimos projetos de atriz. Basta lembrar de sua pequena participação em AINDA ESTOU AQUI, estrelado pela filha Fernanda Torres, de VITÓRIA, dirigido pelo genro Andrucha Waddington, e agora é a vez de ser dirigida pelo filho, Claudio Torres, que não é o mais talentoso da Conspiração Filmes, mas que me faz lembrar um bom trabalho seu, REDENTOR (2004). Sua especialidade é filmes mais leves, como A MULHER INVISÍVEL (2009) e O HOMEM DO FUTURO (2011). Em VELHOS BANDIDOS (2026), agora com 96 anos, contracena com outros atores veteranos, como Ary Fontoura, Vera Fischer, Reginaldo Faria e Tony Tornado. No campo dos atores jovens, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta são dois ladrões de casas que planejam fazer um roubo para mudar de vida, irem para Bora Bora. Eis que acabam assaltando os velhos errados, já que o casal de nonagenários tem planos mais ambiciosos e os colocam no devido lugar. Achei que faltou um melhor acerto na comédia. Foram poucas as vezes que fui fisgado pelo humor. Me pareceu um filme muito travado.

SEX

Eu adoro filmes falados, muito falados. Principalmente quando o texto é muito bem escrito. E podemos dizer isso do texto dos filmes de Dag Johan Haugerud, diretor da trilogia SEX, LOVE e DREAMS, todos de 2024, a chamada trilogia de Oslo. É de dar gosto acompanhar os dilemas de seus personagens, e o modo como o diretor não passa a impressão de estar se repetindo ao falar do mesmo assunto. Até porque o que temos em SEX, o primeiro dos três filmes da trilogia, é um aprofundamento gradual de uma questão que é apresentada já nos primeiros minutos na conversa entre dois amigos que trabalham como limpadores de chaminés: um deles teve, pela primeira vez na vida, uma experiência homossexual com um cliente. Aquilo chocou o amigo e passou a fazer um estrago grande para a família desse homem, que, afinal, fez questão de contar o ocorrido para a esposa, que não reagiu de maneira simpática a essa aventura de seu cônjuge. Enquanto isso, o outro amigo também vai percebendo, principalmente depois de sonhos recorrentes com David Bowie, que há algo preso em sua vida, algo que ele não sabe muito bem explicar. Gosto de como o filme se mantém muito envolvente até o fim de suas mais de duas horas de longas DRs e conversas que vão fundo em questões sobre desejo, ação, sexo e traição. Haviam dito que SEX era inferior a DREAMS, e de fato é; mas não fica tão distante assim, até por terem um tom diferente, sendo um mais masculino e outro mais feminino, mas ambos dispostos a explorar as inquietações de seus personagens.

NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS

Numa dessas zapeadas pelo cardápio dos streamings que tenho disponíveis junto com a Giselle, damos de cara com esta comédia inspirada em contos de Nelson Rodrigues que eu havia visto e curtido em 2015. NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS (2015) pareceu uma boa e leve pedida para um fim de noite. E de fato o filme passa rapidinho e todas as histórias são interessantes e atraentes, trazendo um pouco de volta o tom das adaptações do querido dramaturgo que tanto fizeram a festa nas décadas de 1970 e 80. E com direito a uma boa dose de sensualidade e humor, além da crítica social ácida e muito própria de Nelson. O diretor Clovis Mello tem uma filmografia muito curta. Além deste longa, ele só faria mais um outro (espírita). Quem quiser ler meu texto publicado em novembro de 2015, só clicar AQUI.

domingo, junho 21, 2026

DIA D (Disclosure Day)

 
Pela primeira vez, em minha vida adulta, deixei de ver um jogo do Brasil na Copa e fui ao cinema (o jogo contra o time do Marrocos). Por mais que não seja entusiasta de futebol, toda essa movimentação do maior campeonato de seleções futebolísticas em escala global acaba respingando em mim. Mas comecei a ficar desinteressado por esse evento a partir da Copa de 2002 e depois nem me lembro mais das outras copas (a não ser a do 7x1), embora tenha visto pelo menos os jogos do Brasil, em casa ou em outro lugar.

Até estava chateado, achando que o fato de os jogos acontecerem à noite atrapalharia o meu cinema. Para minha surpresa, os cinemas de shopping estavam abertos no dia do primeiro jogo e até tinha muita gente na sessão de DIA D (2026), o novo trabalho de Steven Spielberg. E era uma sala IMAX, que costuma caber mais gente. A daqui, do UCI Iguatemi, tem a capacidade de 424 lugares e havia mais ou menos a metade dos acentos ocupados.

Aliás, tenho percebido um entusiasmo maior por parte do público das salas de cinema ultimamente. Pelo menos, nas de cinema de shopping. Vejo pessoas entusiasmadas com vários filmes de apelo popular, como a cinebiografia de Michael Jackson, a continuação de O DIABO VESTE PRADA ou o filme do He-Man, ou produções de terror mais sofisticadas, que têm ficado mais tempo em cartaz, como OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR. Um filme novo de Steven Spielberg, confesso que não esperava que fosse ser tão bem recebido como este foi, pelo menos na primeira semana. Isso porque não vejo mais Spielberg como aquele cara que chamava multidões ao cinema, como foi até os anos 2000. Ainda assim, é um grande autor, sabe dominar as emoções, tem uma assinatura, merece nosso respeito e nossa atenção.

Uma coisa que vai deixar muita gente frustrada é como o filme se apresenta como algo diferente do que se poderia pensar a partir dos trailers veiculados. Por outro lado, se pensarmos bem, Spielberg tem um olhar muito mais ligado à fantasia do que à ficção científica (vide, principalmente, E.T. – O EXTRATERRESTRE) e é justamente isso que ele faz em DIA D. A própria aparência dos alienígenas na forma de animais bonitinhos e feitos em CGI é algo que puxa o filme para um tom mais fantasioso e menos realista, por mais que a trama geral lide com imagens vazadas de ETs sendo maltratados (há uma cena, vale destacar, que a imagem dessa maldade dos homens frente aos ETs faz lembrar o holocausto dos judeus) e explorados pelos militares, principalmente no mitológico acidente de Roswell, no Novo México, em 1947.

Inclusive, isso nem parece ser mais novidade. E esse é um dos pontos fracos do filme, parecendo um roteiro antigo que não contou com muitas atualizações. Assim como considero desnecessária toda aquela parte em que a personagem de Eve Hewson (FLORA E FILHO – MÚSICA EM FAMÍLIA) fica desesperada ao ter sua fé abalada ao saber da verdade sobre a existência de outras criaturas inteligentes habitando o universo. Aquela conversa dela com a freira vivida por Elizabeth Marvel chega a ser constrangedora.

DIA D se divide em duas tramas principais interligadas. Temos a subtrama de Josh O’Connor e Eve Hewson, casal que foge de uma organização de dentro do governo americano, chefiado pelo personagem de Colin Firth (aqui num papel bem caricato, mas interessante como o vilão do filme). Sua função é evitar que esse rapaz, o personagem de O’Connor, divulgue as imagens dos ETs para o mundo. Colman Domingo (sempre muito bom) está também no grupo da divulgação da verdade, nos bastidores.

A outra trama, eu diria que é mais interessante: é a trama da jornalista vivida por Emily Blunt, aqui em seu melhor papel em muito tempo. Ela, assim com o personagem de O’Connor, tem a capacidade de compreender a linguagem dos alienígenas e isso acaba rendendo momentos muito bons, que tanto funcionam para mostrar a grandeza da atriz como para trazer elementos mais intrigantes para a trama. A cena dela falando a língua dos extra-terrestres em rede nacional já é um clássico.

Há uma cena muito boa de ação no filme, que traz aquele Spielberg dono da tradição dos blockbusters de ação desde os anos 1970, que é a cena com Blunt e O’Connor dentro de um carro sendo empurrando para um trem em movimento. Ótima a cena, mas que parece um enxerto, uma concessão num filme cuja ação mais se parece com a de thrillers de espionagem da década de 1970. Aliás, ver o filme é mais uma maneira de ver Spielberg como um dos grandes herdeiros dessa geração incrível.

No mais, há uns problemas de roteiro e dá a impressão de que algumas cenas ficaram na mesa de edição, levando em consideração que há muita coisa confusa naquele começo. As cenas das pessoas apavoradas e fugindo nas estradas ficam mal explicadas e são a maior evidência dessa possibilidade. Sendo um filme de cerca de 2h30, é possível que exista uma “versão do diretor” por aí. De todo modo, é sempre um privilégio ter um filme novo do Spielberg em cartaz. Nem havia me dado conta que seu anterior, OS FABELMANS, é de 2022. Foi o maior espaço de tempo entre um filme e outro do realizador. Ainda mais levando em consideração que teve ano que ele conseguiu nos presentear com duas obras-primas, como foram os casos de JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993) com A LISTA DE SCHINDLER (1993) e de GUERRA DOS MUNDOS (2005) e MUNIQUE (2005).

+ TRÊS FILMES

AVATAR – FOGO E CINZAS (Avatar – Fire and Ash)

Pelo tanto que odiei o segundo filme (2022), até que me surpreendi positivamente com este terceiro título da franquia, por mais que muita coisa continuasse me incomodando. O que houve de novo aqui neste AVATAR – FOGO E CINZAS (2025) foi o acréscimo do vermelho nos tons, graças ao novo povo do fogo apresentado. Inclusive, gostei muito da líder, uma espécie de vilã, que se une ao grande vilão, o Coronel Miles Quarich (Stephen Lang), que agora só aparece no corpo de um na'vi, ou seja, do mesmo tamanho do povo a quem ele deseja atacar. James Cameron continua cafona pra caramba, até na utilização da música, mas principalmente no modo como ele lida com as questões ecológicas, em especial nas cenas dos garotos contracenando com os seres aquáticos apresentados no segundo filme. Gostei de algumas soluções que ele deu para a conclusão: cresce na terça parte final e é admirável também como o diretor consegue lidar com tantos elementos dentro do quadro, principalmente quando são pássaros voando no céu junto com outros objetos da geografia do lugar. Há uma maior participação do "menino macaco", também conhecido como "Spider", bem como dos filhos de Jake (Sam Worthington), o grande herói da cinessérie, junto com sua esposa Neytiri (Zoe Saldaña). Não dá para reclamar de qualquer coisa no que se refere a aspectos técnicos, mas esse tipo de filme continua fazendo eu querer ver filme de gente comum assim que saio da sessão. Aliás, não conheço nenhuma pessoa que se declara um megafã de Avatar. Portanto, não entendo como pode ter feito tanto sucesso de bilheteria. Não creio que se deva ao fator TITANIC (1997).

PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (Predator – Badlands)

Não sou tão entusiasta da franquia Predador. Mesmo o primeiro filme, de 1987, que é muito bom, não vejo como justificativa para terem feito tantos filmes assim com a criatura alienígena. Tanto que depois do segundo, de 1990, que é diferente por ser ambientado na selva de pedra, não cheguei a acompanhar tudo que saía de novidade. O anterior, O PREDADOR – A CAÇADA (2022), havia recebido boas críticas, e é do mesmo realizador, Dan Trachtenberg, que chega essa bela surpresa que ainda conta com a presença luminosa de Elle Fanning, como uma androide muito simpática que se oferece como parceira bastante improvável do carrancudo jovem predador que saiu traumatizado de seu planeta natal, mas disposto a cumprir sua missão, apesar do bullying pra lá de agressivo da família. PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (2025) tem um ótimo senso de humor, ótimas cenas de ação e um final que deixa a gente com um sorriso no rosto, com vontade de ver mais filmes com aquele trio de amigos em altas aventuras por planetas distantes e selvagens. No fim das contas, o real motivo de eu ter ido ver o filme foi a Fanning mesmo. Que menina linda e talentosa, hein.

DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (Dracula - A Love Tale / Dracula)

Luc Besson, o cineasta francês que consegue fazer as produções mais caras com o dinheiro de seu país, como produto para exportação em língua inglesa, voltou aos holofotes neste ano com duas histórias de amor: a primeira delas foi um filme noir às avessas, JUNE E JOHN (2025), que muito me agradou, e o segundo é esta nova adaptação do romance de Bram Stoker, com bem mais liberdades e uma interessante maneira de preencher lacunas da história, especialmente quando a gente pensa nela a partir da lembrança de NOSFERATU, ainda mais porque ainda estão frescas na memória as imagens e as opções estéticas de Robert Eggers para o seu DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (2025). Neste trabalho de Besson, a história começa no tempo das cruzadas, quando um príncipe do século XV é enviado para lutar ("por Deus", segundo a igreja) contra os muçulmanos. Mas ele amaldiçoa a Deus pois sua amada é morta pelos inimigos e passa a vagar sem conseguir morrer, tornando-se o Conde Drácula. Sua missão passa a ser encontrar a encarnação de sua amada Elizabeta. Besson tem em mãos um elenco muito bom: tanto o jovem Caleb Landry Jones (melhor ator em Cannes por NITRAN) quanto o duas vezes vencedor do Oscar Christophe Waltz como o padre especializado em vampiros. Do elenco feminino, duas moças se destacam: a americana Zoë Bleu, como Mina Harker, e a italiana Matilda De Angelis, como Maria. Há mais romance do que terror nesta versão de Besson, mas ele também não poupa cenas sangrentas. Há algo de humor, e às vezes parece involuntário, às vezes parece rir de si mesmo, como nas cenas de Drácula em sua peregrinação pelos diversos países da Europa, mas diria que isso é até bem-vindo: tira um pouco de um peso que o próprio diretor parece que não queria mesmo executar para essa história. Não gostei tanto assim do final, mas tem sua beleza. A trilha sonora (animadinha) é de Danny Elfman e isso acaba fazendo muita diferença no tom do filme. Além do mais, seu Drácula se assemelha muito, de forma até bem descarada, ao DRÁCULA DE BRAM STOKER, do Coppola. Mas ele faz o bom e velho "copia, mas faz diferente".

quarta-feira, junho 17, 2026

O BEIJO AMARGO (The Naked Kiss)

 
Quando comecei a escrever sobre os filmes de Samuel Fuller, tomei como base principal o livro Samuel Fuller, de Phil Hardy. Não é o livro que eu gostaria de ter sobre o mais querido dos cineastas marginais americanos – queria um livro que tivesse textos sobre todos os seus filmes em ordem cronológica –, mas é um livro bem interessante em sua proposta de dividir a obra do autor em cinco categorias: 1) um sonho americano, 2) jornalismo e estilo, 3) uma realidade americana, 4) Ásia e 5) a violência do amor. Acredito que esses temas não são exclusivos dos filmes a eles relacionados, que eles se interrelacionam, mas gosto da divisão. O BEIJO AMARGO (1964) se situa no grupo “a violência do amor”, junto com EU MATEI JESSE JAMES (1949), O BARÃO AVENTUREIRO (1950) e DRAGÕES DA VIOLÊNCIA (1957).

É um bocado diferente dos três filmes relacionados, dado ser um Fuller mais apartado de seu tempo, uma espécie de noir tardio, um neo-noir, como diriam depois, além de ter uma atmosfera típica do cinema americano da primeira metade dos anos 1960, com uma música que interfere de forma muito interessante no drama da personagem de Constance Towers, sendo totalmente compreensível que tenha sido colocado junto com filmes que lidam com a crueldade, com o amor e aqui com um certo tipo de maldade que habita a sociedade dos Estados Unidos. Se antes Fuller já havia criticado seu país das mais diversas formas, não apenas quando faz filmes de guerra, em O BEIJO AMARGO, ele mostra uma visão ainda mais pessimista dessa sociedade.

Além do mais, não é o primeiro filme de Fuller que aponta a mulher como grande vítima das ações do homem. Podemos ver isso pelo menos em dois dos meus favoritos do realizador: CASA DE BAMBU (1955) e NO UMBRAL DA CHINA (1957), filmes visualmente distintos em suas propostas, mas que apresentam mulheres que enfrentam situações extremamente difíceis, especialmente no que se refere ao olhar da sociedade. No caso de O BEIJO AMARGO, a protagonista Kelly (Towers) carrega uma espécie de marca consigo: a de ter sido prostituta. Por mais que esteja disposta a se livrar desse passado e ter uma nova vida como enfermeira numa clínica para crianças deficientes, o passado parece vir à tona com frequência. Até porque um homem que cruzou a sua vida, o policial vivido por Anthony Eisly, é uma espécie de dono das casas de prostituição do lugar, e não perdoou Kelly quando ela preferiu escolher um outro caminho, quando acaba sendo objeto do desejo de um homem muito rico da cidade, Grant, vivido por Michael Dante. O problema ocorre quando ela descobre algo sobre Dante e o filme, que já havia me ganhado desde o começo, me deixa sem chão, de olhos marejados, especialmente a partir da sequência musical das crianças. É como se Fuller usasse o musical já um pouco ultrapassado do cinema daquela época e revirasse do avesso.

E o curioso é que eu já havia visto o filme em DVD em 2005, ou seja, há mais de vinte anos, mas na época não havia gostado tanto. No texto daquele ano, se não me engano destaquei minha estranheza com a montagem no início do filme, que de fato nos engana um pouco, quando parece querer ir para um flashback e não vai. Além do mais, há certos saltos temporais que também nos convidam a uma maior atenção a tudo que está acontecendo. Não que seja tão vanguardista, não é nenhum Resnais, mas é muito moderno, sim, em sua proposta, além de ser um filme com muita vontade de enfatizar a falsidade que é o American way of life, chegando ao ponto de tratar de um tema tão espinhoso e tão grave como a pedofilia. 

Ao mesmo tempo, a estranheza que o filme provoca já antecipa a vontade de Fuller de fazer uma obra autoconsciente. Tão autoconsciente quanto os filmes mais arthouse da França ou da Itália. Aqui, Fuller faz referência direta a seu filme anterior, PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963), cujo título aparece na fachada de um cinema da cidade; além de fazer também referência a seu próprio livro The Dark Page, que seria adaptado para o cinema por Phil Karlson, e aqui se chamou ESCÂNDALO (1952). O livro seria novamente referenciado em AGONIA E GLÓRIA (1980), um dos últimos grandes filmes do realizador. Mesmo assim, confesso que “entrei” no filme como se ele fosse o mais naturalista dos melodramas hollywoodianos. E talvez por isso o tenha colocado tão alto em meu ranking dos títulos do realizador, até o momento. No mínimo ganhou uma vaga no top 5 Fuller. 

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PAI MÃE FILHA FILHO (Father Mother Sister Brother)

É como se Jim Jarmusch quisesse emular ou prestar tributo a Hong Sangsoo neste PAI MÃE FILHA FILHO (2025). Há a repetição, os diálogos simples, as relações familiares, o constrangimento, os elogios. Isso se dá principalmente nos dois primeiros segmentos, “Pai” e “Mãe”, em que se escancaram os gestos de certos personagens que mentem e se aproveitam de familiares. O terceiro segmento, “Irmã Irmão”, já gera certa ruptura, ao parecer mais terno e respeitoso com a ausência dos pais. Se bem que vejo ainda espaço para alguma desconfiança por parte desses irmãos gêmeos. Jarmusch continua tendo muito prestígio em Hollywood e consegue trazer para o elenco de seu filme pesos pesados como Cate Blanchett, Tom Waits, Adam Driver, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, entre outros. E ainda vencer o Leão de Ouro por um filme tão pequeno. Se bem que seus demais trabalhos são todos assim, menores, independentes, ainda que muitas vezes grandiosos no que inovam na forma. Vemos duas repetições em parcerias: Tom Waits já trabalhou com o diretor em DAUNBAILÓ (1986) e depois em SOBRE CAFÉS E CIGARROS (2003); Adam Driver esteve em PATERSON (2016) e OS MORTOS NÃO MORREM (2019). Quanto ao aspecto visual, acho interessante o uso do digital tão escancarado, como se fosse uma produção do início dos anos 2000, ainda em fase de experimentação, embora haja cores bem vivas e imagens geralmente muito nítidas. Mas talvez o que mais conte seja a capacidade do realizador de nos fazer prestar atenção nos detalhes, nos enquadramentos, na passagem do tempo, nos olhares e opções de montagem. É um filme autoconsciente e com um tom que mistura o enigmático com o terno.

O TESTAMENTO DE ANN LEE (The Testament of Ann Lee)

O que me deixou mais intrigado com O TESTAMENTO DE ANN LEE (2025) talvez até seja uma qualidade: o fato de a diretora Mona Fastvold (e seu marido, e aqui corroteirista Brady Corbet) não julgar a personagem, uma vez que seria fácil destacar de forma mais explícita sua visão, seu pensamento sobre o sexo como pecado (mesmo depois do casamento) como talvez o elemento que mais se destaca. Seria fácil pintá-la pura e simplesmente como uma fanática religiosa. No pouco que vemos da infância da personagem já é mostrado o seu asco com o sexo, quando vê os pais na intimidade. Há uma narração em voice-over no início que é largada em pouco tempo, quando entra em cena a heroína na idade adulta. Fastvold faz mais uma vez um filme de época sobre intolerância, sendo o anterior UM FASCINANTE NOVO MUNDO (2020), ótimo drama sobre o amor proibido entre duas mulheres nos Estados Unidos do século XIX. Aqui há um interessante retrato de um momento e de um lugar (que depois muda para os Estados Unidos pouco antes da independência), e desse povo, os shakers. Eles eram chamados assim pois, durante os cultos, ficavam tremendo, dançando, se balançando, um elemento que foi importado no Brasil por algumas igrejas pentecostais. As cenas musicais e de dança são boas e a fotografia é deliberadamente escura, que depois de um tempo a gente se acostuma.

A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (The Long Walk)

E no finalzinho do ano passado vi um dos filmes que mais me impressionou, em muitos aspectos. A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (2025), de Francis Lawrence, baseado em romance de Stephen King e com roteiro adaptado por JT Mollner, o cara responsável pela direção do excelente DESCONHECIDOS. E o roteiro é bem escrito, com ótimos diálogos, que funcionam harmoniosamente bem na boca daqueles rapazes que conseguem até fazer amizade naquela trajetória que só contará com um único homem vivo, num jogo cruel que está mais para BATALHA REAL do que para JOGOS VORAZES, uma vez que a violência é mais brutal. No entanto, há um tom solene e trágico que muito me agrada, que me faz solidário daqueles rapazes. Mesmo aquele que tem uma tendência de ser o mais perverso do grupo. O coração do filme está no personagem de David Jonsson, um jovem negro que diz palavras de sabedoria para o outro protagonista (Cooper Hoffman, filho de Philip Seymour Hoffman, que aqui foge do registro de LICORICE PIZZA). Assim, a narrativa se apresenta tanto como um filme sobre amizade como um filme sobre a violência de um estado autoritário. Impressiona e me agrada o quanto o aspecto poético se une com harmonia com o horror mais físico.

domingo, junho 14, 2026

ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise)

 
A reexibição nos cinemas de ANTES DO AMANHECER (1995) me trouxe um pouco de desapontamento no que se refere à qualidade da imagem. Custo a crer que aquela cópia seja a da remasterização de 2017 em 2K, que depois resultaria em lançamento do BD da Criterion. De todo modo, estava animado para rever no cinema depois de mais de 30 anos da primeira vez que o vi, em gloriosa película 35mm, numa das duas (saudosas) salas do Art Iguatemi. Na época, então na faixa dos 20 anos de idade, tinha a idade aproximada dos personagens, o que resultou em maior identificação. Hoje, quase um idoso, é natural que me identifique mais com o drama dos personagens de AS PONTES DE MADISON, de Clint Eastwood, revisto há pouco tempo em boa cópia em 1080p.

O que acontece é que, à medida que o tempo passa, meu distanciamento com aqueles personagens se acentua um pouco. Mas lembro que numa das vezes que o vi, em 2013, acho que me preparando para ver ANTES DA MEIA-NOITE (2013), o terceiro da trilogia, chorei copiosamente durante boa parte do filme. Em parte, chorei por ter deixado passar minha Celine, por não ter sido feliz em minha vida sentimental. Depois, noutra ocasião, em 2021, na pandemia, já vi o filme um pouco menos à flor da pele. Agora, cinco anos depois, com a Giselle (minha Celine do meu lado, enfim), ver o filme traz mais contentamento pela minha vida presente, mas um distanciamento maior pela ingenuidade daqueles dois jovens.

Mas também penso que a juventude tem uma qualidade que a maturidade não tem, mesmo fazendo suas escolhas erradas, dando suas cabeçadas na vida por falta de experiência. Essa qualidade está em ter a ousadia de pensar aprofundadamente em várias questões existenciais, e esses pensamentos surgem de maneira muito entusiasmada, intensa e apaixonada. E não precisamos lembrar que é na casa dos 20 que os mais importantes cantores e bandas se estabelecem. É na casa dos 20 que a mente está mais porosa, mais parecida com uma antena sintonizada ao zeitgeist.

Então, ver Ethan Hawke e Julie Delpy transmitindo a paixão de Jesse e Celine naquelas horas que passam no trem e nas ruas e lugares de Viena continua sendo muito gostoso, muito emocionante de ver. Para eles, nada mais é importante: nem os rapazes da peça de teatro, ou a mulher que supostamente lê as mãos ou o suposto poeta de rua. Aliás, essas pessoas parecem ter esse ponto em comum: eles não parecem exatamente profissionais, embora os artistas já se apresentem como amadores. Pode-se tanto desgostar dos momentos de cinismo (ou visão realista?) de Jesse ou da ingenuidade (ou visão romântica, mas não menos real) frente a esses personagens passageiros, mas o que a gente percebe é isso: essas pessoas não importam muito. O que importa para Jesse e Celine é somente o tempo que estão passando juntos.

A cena da “ligação” no restaurante continua sendo uma das mais bonitas, pois revela a percepção deles em relação ao outro: a percepção de Celine do beijo de adolescente de Jesse; a percepção de Jesse do sentimento que Celine estava tendo por ele. A cena na grama, dos dois deitados enquanto tomam vinho, com a fotografia que captura a escuridão da noite os emoldurando, é cheia de muita excitação. Não pelo sexo em si – Linklater, apesar de ser chamado de “o Rohmer texano”, está longe de conseguir passar o erotismo dos filmes do cineasta francês –, mas pela dúvida que os aflige no que se refere ao dilema: vão ou não se ver novamente depois do amanhecer?

Daí vem a semelhança novamente com AS PONTES DE MADISON e no quanto o pensar demais pode atrapalhar o futuro de uma relação. No caso do romance do homem e da mulher maduros, há a preocupação com os filhos e o marido, numa sociedade mais tradicional e cheia de preconceitos com mulheres separadas; no caso dos jovens, há a burrice de não terem trocado números de telefone. Mas aí é que está: a estupidez também faz parte da juventude. É nela que se vive mais intensamente, mas é nela também que se comete muitos erros, que podem nunca ser desfeitos. 

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NATAL AMARGO (Amarga Navidad)

É interessante notar que Almodóvar parece fazer aqui justamente aquilo que seu alter-ego, vivido por Leonardo Sbaraglia, faz: busca desesperadamente por inspiração para seu filme. Em NATAL AMARGO (2026), cineasta trabalha em torno de uma história, que se passa em 2004, envolvendo uma diretora de comerciais que já teve sucesso como cineasta no passado, ainda que um sucesso para poucos apreciadores. Essa mulher está sofrendo de uma forte enxaqueca (o que faz lembrar imediatamente o protagonista de DOR E GLÓRIA (2019)). Enquanto isso, ela tem o apoio do marido, o bombeiro e stripper nos fins de semana. É um filme que fala sobre o processo criativo e sobre a questão ética envolvendo a obtenção de inspiração de histórias reais dolorosas para compensar a falta de criatividade. Achei curiosa a trilha sonora de Alberto Iglesias parece feita para um filme mais frenético de suspense do que para uma obra mais pausada sobre culpa. Em certos momentos deu impressão de que era a trilha para um outro filme, remetendo aos melodramas clássicos hollywoodianos. Eu confesso que preciso ver de novo o filme para falar melhor a respeito, devido a problemas envolvendo sonolência em horários inconvenientes. Até porque eu gostei de praticamente todos os longos do cineasta dos últimos quinze anos. A impressão que tenho é que se trata do filme de que menos gostei dele desde ABRAÇOS PARTIDOS (2009). Mas tudo pode mudar numa revisão.

TERAPIA DO SEXO (Thanks for Sharing)

É interessante ver um filme sobre viciados em sexo buscando ajuda numa espécie de AA para esse problema, ainda mais sendo mostrados de forma leve. Não que os problemas não surjam e os dramas desses personagens não mostrem o quanto é difícil viver com esse vício. O caso do jovem médico (Josh Gad) já de cara apresenta o quanto esse seu apetite voraz por pornografia e qualquer coisa relacionada a ela prejudicou sua vida profissional, além de tornar nula uma vida afetiva. TERAPIA DO SEXO (2012), de Stuart Blumberg, se beneficia de dois grandes atores, Tim Robbins, o mais velho dos três homens, é casado e tem vários anos de distância do vício, o que o torna padrinho do personagem de outro grande ator, Mark Ruffalo, um homem solteiro com dificuldade de manter justamente aquilo que seria sua salvação: um relacionamento estável e tranquilo, monogâmico, algo que para ele talvez pudesse ser próximo do tedioso. Eis que aparece a personagem de Gwyneth Paltrow, mas há algo na química dos dois que não funciona muito. Fico pensando se a escalação de Paltrow não foi o problema, mas talvez não. O filme é franco ao mostrar abertamente os problemas, apresenta as quedas (ou quase quedas) de seus personagens e o quanto também se tornam mais fortes tendo o grupo como ajuda nos momentos de crise. É um bom (ou quase bom) filme de amizade em situações de crise.

A GRAÇA (La Grazia)

A palavra "graça" tem uma porção de significados. Neste novo filme de Paolo Sorrentino, ela tem pelo menos dois sentidos: há o sentido de perdão, que tem a ver com a ação do personagem de Toni Servillo, como presidente da Itália (e também com o perdão à própria esposa falecida e que segue sendo amada), e o perdão oficial a pessoas que estão presas, o chamado indulto. Os dois casos de indulto a serem pensados pelo presidente são de pessoas que provavelmente tiveram suas razões para ter matado: uma mulher que sofria com muita frequência a violência do marido e que muito provavelmente seria assassinada; e um homem que matou a própria esposa com Alzheimer. Mas Sorrentino vai muito além desses dois casos, embora ambos sejam muito interessantes e importantes para a trama. Isso porque, mais importante do que a trama é o modo como ele a apresenta, a elegância com que é apresentado cada quadro, além da sensibilidade com que o protagonista é tratado em sua solidão e sua dificuldade em sair da paralisia, dentro de um cargo que requer o mínimo de ação para que seja reconhecido. A GRAÇA (2025) é provavelmente o filme de que mais gostei de Sorrentino, este diretor que ainda vejo com um pé atrás, mas que começa a me ganhar aos poucos. Até então, havia gostado de A GRANDE BELEZA (2013) e de A JUVENTUDE (2015), principalmente por ambos tratarem da velhice. Sorrentino alia tanto o moderno quanto o clássico em sua visão de um país que também precisa conviver com esses dois aspectos de sua personalidade. Há uma cena que me tocou profundamente: a conversa do personagem de Servillo com uma redatora da revista Vogue. Que lindo!

segunda-feira, junho 08, 2026

OBSESSÃO (Obsession)

 
Já faz um tempinho que vi OBSESSÃO (2025) e eu até posso culpar a falta de tempo, o excesso de afazeres, pelo fato de eu não ter escrito nada - até agora - sobre este que é um dos filmes mais importantes do ano (da década, eu diria), principalmente por estar, junto com outras produções de terror de baixo orçamento, ditando tendências, já que grandes produções têm naufragado nas bilheterias enquanto produções baratas (e muito boas) têm causado um rebuliço imenso. Vi o filme numa sessão lotada, por exemplo. E deixo uma dica aos exibidores: coloquem mais salas legendadas, pois essas são as que lotam primeiro. Não apenas deste filme, mas de outros recentes também.

OBSESSÃO é um sucesso: até mesmo no trabalho vejo colegas entusiasmados para ver ou porque viram o filme. Claro que esse sucesso de público (e também de crítica) do filme não significaria tanto assim se este conto moral do jovem Curry Barker não fosse tudo isso. Trata-se de uma espécie de inversão de uma comédia romântica, como se esse subgênero fosse colocado numa espécie de espelho amaldiçoado, uma vez que nas histórias de amor mais convencionais, conseguir o amor desejado é algo que é deixado para o final (feliz).

Na trama, rapaz tímido, Bear (Michael Jonhston) não consegue sair da friendzone, estando ele apaixonado por sua amiga de longa data Nikki (a incrível Inde Navarrette). Eis que, passando numa lojinha de conveniência, vê um pauzinho supostamente mágico que, uma vez quebrado, e feito um pedido, esse único desejo seria cumprido. Bear, que já estava sofrendo do luto do seu gato morto, resolve experimentar. Seu desejo: que ela o ame mais do que a qualquer pessoa no mundo. Para sua surpresa, o comportamento de Nikki é imediato: ela passa a se mostrar obcecada por ele, e também começa a agir de maneira muito estranha e muitas vezes assustadora. É quando o filme adentra o território do terror, mas não sem deixar espaço para a comédia, embora esse humor seja tão sutil quanto perverso. E peço licença para entrar em alguns spoilers mais pesados a partir daqui.

Há algo de muito cruel e muito perturbador neste feitiço imposto a Nikki, e isso é apresentado principalmente nas cenas em que a verdadeira Nikki busca se comunicar naquele corpo que um dia foi seu. A cena mais arrepiante acontece quando Bear, tentando escapar à noite para se encontrar com uma amiga, sem que a Nikki enfeitiçada perceba, ouve a voz da verdadeira Nikki pedindo que ele a mate. Em vez de atendê-la ou encarar com empatia, ele fala: "é tão ruim estar comigo assim?".

E é aí que vemos que OBSESSÃO é também um filme sobre um relacionamento abusivo, uma vez que Bear permanece num relacionamento em que o amor é fake e também abusivo. Seu caminho para a tragédia me fez lembrar o final de CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch, e não sei o quanto Curry se inspirou nessa obra-prima para compor seu roteiro. Os destinos finais dos personagens são bem semelhantes, embora em OBSESSÃO o que é visto não seja um sonho.

Enfim, que bom que temos este belíssimo filme de um diretor que promete e que até tem algumas obras pequenas para serem apreciadas enquanto seu novo trabalho não chega às telas. Inclusive, o próximo filme, segundo Barker, se passará no mesmo universo de OBSESSÃO e que saberemos mais sobre o destino de Nikki.

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MALDIÇÃO DA MÚMIA (Lee Cronin’s The Mummy)

Esse Lee Cronin não deve ter problema de baixa autoestima, uma vez que, já em seu terceiro longa-metragem, coloca o próprio nome no título (original), como se fosse um Fellini ou um John Carpenter. De todo modo, ele ganhou sim meu respeito, não apenas por fazer uma obra semelhante a seu A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023), mas principalmente por conseguir acabar com a maldição dos filmes de múmia, que nos últimos anos ficaram fadados a serem mais aventuras para a sessão da tarde do que filmes de terror. Não só um terror que respeita os ciclos clássicos da Universal ou da Hammer. O terror em MALDIÇÃO DA MÚMIA (2026) é mais gráfico, mais corporal, e a história é cheia de surpresas e bastante original. Envolve uma garotinha que é sequestrada e fica desaparecida por vários anos, até aparecer viva num sarcófago egípcio de 3.000 anos, toda enfaixada e cheia de problemas que toda pessoa que fica enterrada por muitos anos costuma ter. O filme passa de uma obra sobre o luto para uma obra sobre doença, sendo que mais ao estilo A MOSCA, com cenas de causar aflição, como a das unhas. Eis que Lee Cronin começa a pegar ainda mais pesado e as semelhanças com O EXORCISTA (e com EVIL DEAD) passam a vir à tona. O realizador não tem medo dos excessos, de parecer de mau gosto, de convidar parte do público a soltar sons ou até mesmo a ir embora (não foi o caso da minha sessão, e eu acho que os espectadores do cinema de horror estão cada vez mais dispostos a experiências diferentes). Não sou muito fã do epílogo, mas até chegar lá MALDIÇÃO DA MÚMIA é um dos exemplares do gênero mais bem-vindos dos últimos anos.

O PRIMATA (Primate)


Fiquei absolutamente impressionado com O PRIMATA (2025). Até custo a acreditar que exista outro filme na linha “animais em fúria” tão cheio de terror, tão intenso e violento, tão capaz de nos dar um frio na espinha. É também difícil acreditar que é do mesmo diretor de MEDO PROFUNDO (2017), que, pelo que me lembro, é só mais um filme genérico de tubarão. O PRIMATA me fez recordar de um terror classe A: NÃO! NÃO OLHE!, de Jordan Peele, e sua breve e aterrorizante cena de um chimpanzé enlouquecido. Eis que aqui o inglês Johannes Roberts investe pesado na ideia e faz também uma celebração do splatter, da violência gráfica explícita, sem medo de chocar. Aliás, um dos aspectos mais fortes do filme é mesmo o choque. E quando somos apresentados ao jovem elenco, em sua maioria de garotas, o filme sabe como nos colocar um pouco no lugar de cada uma delas, com o horror que é estar diante de um chimpanzé babando de raiva. Algumas cenas são geniais, como a chegada do pai das meninas; outras são extremamente cruéis, como a da mandíbula; outras são dotadas de muito suspense e medo, como a cena no carro. Um dos melhores filmes de terror do ano, que infelizmente só chegou em cópias dubladas nos cinemas de minha cidade, mas que agora pode ser conferido por meios alternativos, ouvindo as vozes e os gritos originais do elenco. No mais, agora é tentar dormir depois do tanto de adrenalina que O PRIMATA injeta em nosso sangue.

OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (The Strangers – Pray at Night)

Fiquei tão positivamente surpreso com O PRIMATA (2025), definitivamente um dos melhores filmes de terror com animais em fúria já feitos, que me vi curioso com a filmografia de Johannes Roberts, de quem já tinha visto o bom filme de tubarão MEDO PROFUNDO (2017). No mais, vale destacar que este OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (2018) é uma obra que não tem tanta relação assim (creio eu) com a trilogia recente, espinafrada pela crítica, e dirigida por Renny Harlin. O trabalho de Roberts é primoroso, embora não procure inventar a roda, nem criar nada original. Ele amplia o cenário do terror de casa invadida para um bairro ou cidadezinha meio fantasma por que uma família passa. A primeira meia hora do filme nos apresenta ao drama dessa família, formada por mãe, pai, filho e filha adolescentes. A menina aprontou algo e será mandada para um outro lugar, se sentindo rejeitada. Enquanto isso, a casa onde eles se instalam está sendo vigiada por três pessoas usando máscaras sinistras. A primeira delas é uma jovem, que aparece à porta sem máscara, mas a sombra da noite não nos permite ver seu rosto. A violência brutal logo se inicia quando a família se separa e a nossa familiaridade com os slashers nos faz crer que a menina será a final girl, ou seja a sobrevivente do massacre. Há cenas muito impactantes, como a da piscina, ao som de “Total Eclipse of the Heart”, ou a do embate entre dois carros. O filme traz um ar de desesperança e incompreensão sobre o que está acontecendo que nos aflige também, embora o entusiasmo de estar vendo uma obra tão bem acabada nos deixe mais felizes do que tristes pelos destinos de alguns personagens. Com 15 longas-metragens no currículo, e provavelmente nem todos sejam bons, talvez seja a hora de prestar atenção em Roberts, em seu trabalho que vai além da competência na direção e no amor pelo gênero terror.