Tem sido quase surreal ver estes relançamentos dos anos 2000 e eu, com a ilusão de pensar que não faz tanto tempo assim, me vejo praticamente vendo um filme inédito. O fato é que 25 anos de intervalo entre a primeira e a segunda vez que vemos um filme é, sim, um longo intervalo. Preciso admitir que os anos 2000 já estão um bocado distantes. Além do mais, a remasterização de várias produções lançadas em película nessa época se faz cada vez mais necessária. Dito isso, tive a sorte de ver A PROFESSORA DE PIANO (2001) no Cinema do Dragão ontem numa sala quase lotada, principalmente de jovens cinéfilos, que já veem Michael Haneke como um mestre do cinema, por mais polêmico que ele continue sendo. Mas na época de A PROFESSORA DE PIANO, Haneke não era ainda o cara que havia ganhado duas palmas de ouro em Cannes – com A FITA BRANCA (2009) e com AMOR (2012).
A PROFESSORA DE PIANO é muito mais do que um filme ousado com sequências espinhosas de sexo e violência que levam sua classificação indicativa para 18 anos. O desnudamento espiritual da personagem de Isabelle Huppert se mostra muito mais importante do que as tais cenas de sexo, sejam as vistas por ela numa cabine de locadora de vídeos pornôs, sejam as cenas de sexo nos banheiros, com o personagem de Benoît Magimel. Huppert, como atriz gigante que é, faz aqui uma personagem complexa, com um misto de maldade em seus atos, mas também de vulnerabilidade, ao falar de suas fantasias sexuais de cunho sadomasoquista.
Costumo dizer que a primeira cena do filme costuma ser muitas vezes definidora do que veremos a seguir e às vezes até uma síntese ou mesmo uma alegoria da obra. E a primeira cena do filme nos apresenta a uma relação de dependência emocional e de abuso psicológico doméstico: Erika, a personagem de Huppert, uma mulher já madura, tendo que se justificar quanto ao fato de estar chegando mais tarde a sua mãe idosa (Annie Girardot) e também sobre o valor do vestido que comprara. E depois uma briga entre as duas que chega às vias de agressão física. Ou seja, já temos aqui um caso claro de duas personagens que criaram um tipo de relação tóxica que faz com que o sentimento entre as duas se apresente complexo.
Enquanto isso, os créditos do filme prosseguem, como que cortando com silêncios, aquele momento, como a gilete que cortará a coxa da protagonista, como num sinal de necessidade de sentir, nem que seja a dor. Em determinado momento, quando Walter, o personagem de Magimel, se declara para Erika, ela diz que não tem sentimentos, que ele teria que aceitar as condições dela, condições que seriam explicitadas na longa carta, que mais parece um relatório seco de fantasias sexuais de cunho fetichista e masoquista, em que ela expõe sua vontade de se colocar não apenas como a pessoa passiva e também passível de violência física, como também deixa claro o desejo de ignorar e de se desprender da figura materna.
Haneke faz aqui uma espécie de destruição de um conto de fadas já em formato transgressor. Ou seja, Walter seria esse príncipe encantado que finalmente aparece na vida de Erika, para que suas fantasias finalmente se materializassem. Por mais que essas fantasias se apresentem doentias para Walter. Porém, uma vez que essas fantasias ganhem alguma materialidade ela percebe que talvez não seja exatamente aquilo que ela deseja. E percebe também que seus sentimentos existem, e que eles podem doer tanto que sua última ação no filme se apresente como justificável, compreensível.
Haneke é o cineasta da negação da alegria ou do final feliz. Seja mostrando um suicídio coletivo em família (O SÉTIMO CONTINENTE, 1989), a negação da ajuda espiritual nos últimos instantes de vida de um casal idoso (AMOR), ou a imensa crueldade de um grupo de jovens frente a uma família (VIOLÊNCIA GRATUITA, 1997). E em A PROFESSORA DE PIANO essa crueldade é muitas vezes mostrada em close-ups ou planos muito próximos, como na última cena de intimidade, por assim dizer, entre Erika e Walter. Aquilo é feito para incomodar mesmo, assim como a preferência por um plano geral, no fim, para enfatizar o sentimento imenso de dor e de abandono de Erika.
+ TRÊS FILMES
O SEGUNDO ATO (Le Deuxième Acte)
Vários filmes franceses exibidos no ex-Festival Varilux são tão bijuteria que acabei não dando atenção a alguns trabalhos de Quentin Dupieux, que foram exibidos nesse festival. Na Mubi, três filmes do realizador, de 2023-2025, estão presentes e deu vontade de ver este O SEGUNDO ATO (2024), que, além de contar com uma trinca de astros maravilhosos (Louis Garrel, Léa Seydoux e Vincent Lindon), funciona como uma espécie de antídoto para quem estiver cansado de filmes que seguem a mesma fórmula narrativa. O SEGUNDO ATO já começa apostando em dois planos longos que vão definir a quebra da quarta parede e depois a certeza de que aqueles personagens são atores vivendo personagens. Ou o contrário. Ou, como diz o personagem de Garrel em determinado momento: a ficção é a realidade e a realidade é a ficção. Como o filme tem apenas 80 minutos, essa estrutura de brincadeira metalinguística funciona até que bem, embora não seja tão genial quanto gostaríamos, e começa a cansar a partir do momento em que o quarteto entra no restaurante. O SEGUNDO ATO é garantia de risadas e de ótimas performances dos quatros atores principais, muito à vontade nessa brincadeira de Dupieux.
SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (If I Had Legs I'd Kick You)
Uma das coisas que mais tem me fascinado atualmente é a safra de produções dirigidas por mulheres e que abordam o universo feminino com uma sensibilidade muito própria. Exemplares recentes, como HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET, A CRONOLOGIA DA ÁGUA e A MEIA-IRMÃ FEIA são títulos que não temem adentrar os aspectos sombrios de suas heroínas. SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025), apenas o segundo longa-metragem de Mary Bronstein, nos aproxima tanto de sua protagonista que a câmera está quase que o tempo inteiro em close-up, muitas vezes em super-close up do rosto de Rose Byrne, aqui em sua melhor atuação. Em alguns momentos, o filme nos oferece alguns respiros, quando se afasta fisicamente da personagem, mas esses momentos são os instantes de fuga dela. Byrne interpreta Linda, uma psicóloga que lida com uns pacientes bem estranhos, mas é sua vida pessoal que a está enlouquecendo, principalmente a sua filha, cujo rosto a câmera faz questão de não nos mostrar. É quase como uma inversão das animações do Charlie Brown, em que os adultos não são mostrados: aqui a mãe é mostrada e a criança é o "objeto" que faz com que ela se sinta incapaz como mãe e sempre preocupada por causa da saúde frágil da menina. O prólogo já é impressionante, com a cena do buraco no teto e de toda aquela água. E aqui vemos o elemento água, assim como em HAMNET, como um elemento tipicamente feminino, assim como o próprio buraco, que às vezes faz lembrar obras de David Cronenberg. A propósito, o fato de o filme não ter uma chave totalmente realista é muito positivo para o espectador. Assim, por mais intenso que seja todo o drama por que a heroína passa, esses momentos mais próximos do fantástico nos levam para um outro tipo de sentimento. Em nenhum momento o filme quer adotar uma chave de melodrama, inclusive. Se eu já gostava da Rose Byrne antes, agora, então... E que bom que tive a chance de ver no cinema: o som do filme é essencial para uma apreciação completa.
FILHOS (Vogter)
Se o filme anterior de Gustav Möller, CULPA (2018), se passa num único espaço, este aspecto é abraçado ainda mais neste novo filme, FILHOS (2024), a ponto de termos um sentimento de claustrofobia, ajudado pela janela clássica de 1,37:1, que, dependendo do uso, pode, sim, causar esse tipo de impressão na experiência do espectador. Isso se potencializa ainda mais pela trama, toda (ou quase toda) dentro de uma penitenciária dinamarquesa. Por mais limpa que seja, o espaço parece ainda mais desumano do que nas penitenciárias sujas brasileiras, já que o preso fica dentro de uma salinha fechada, sem espaço para fazer suas necessidades, inclusive. E é dentro desse lugar que trabalha a protagonista, Eva (a ótima atriz Sidse Babett Knudsen, de DEPOIS DO CASAMENTO). E já chama a atenção ter uma mulher convivendo com vários detentos, de forma destemida. Até que um dia surge um novo presidiário que vai trazer um novo sentido para sua vida. Dizer mais que isso pode atrapalhar um pouco as surpresas. Mas posso adiantar que esse sim é o tipo de filme de terror pra mim: e não o terror sobrenatural: esse é realidade na veia; realidade e brutalidade. A opção do diretor por uma fotografia menos limpa, apesar do local um pouco mais asséptico, contribui para esse realismo que o filme busca. Mas um realismo que está a serviço de uma tensão tão grande que chega a dar até certo mal-estar. Mas falo isso como um elogio.





