sábado, abril 20, 2019

VIDAS DUPLAS (Doubles Vies)

Os filmes anteriores de Olivier Assayas, ACIMA DAS NUVENS (2014) e PERSONAL SHOPPER (2016), são bastante ambiciosos na forma. Por isso a impressão de que VIDAS DUPLAS (2018) é um trabalho menor e menos desafiador, semelhante talvez a HORAS DE VERÃO (2008), que também é um filme sobre pessoas conversando sobre comportamento, mudanças no cenário político e social e sobre relacionamentos. É como se o cineasta estivesse descansando um pouco enquanto prepara outra obra-prima.

Mas engana-se quem subestima VIDAS DUPLAS (2018), que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos.

No caso das cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, elas se tornam grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem mais assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter.

Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem junto com discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em ACIMA DAS NUVENS, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para A FITA BRANCA e STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA.

Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de VIDAS DUPLAS envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: nos fazer cúmplices de seus personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.

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APRENDIZ DE ALFAIATE (Petit Tailleur)

Média-metragem cheio de paixão e de sentimentos de estar à deriva de seus personagens. Que baita diretor que o jovem Louis Garrel se tornou, seguindo os passos do pai e da Nouvelle Vague. Aqui temos um aprendiz de alfaiate que quer deixar a carreira quando conhece uma jovem atriz que também tem uma relação de amor e ódio com a profissão. Os dois se apaixonam, mas o destino parece não contribuir para a união dos dois, por mais que haja paixão. Aliás, como não ficar apaixonado por Léa Seydoux, pelo amor de Deus? Nunca ela esteve tão bela quanto aqui. Ano: 2010.

MEU ANJO (Gueule d'Ange)

Primeiro longa-metragem de Vanessa Filho e que já ganha um espaço no Festival de Cannes. Marion Cotillard faz mais uma personagem um tanto desestruturada emocionalmente. Não é uma personagem tão boa quanto a de UM INSTANTE DE AMOR, mas é bem interessante, inclusive por nos fazer julgar a personagem por seus atos irresponsáveis. Mas é a garotinha Ayline quem conquista a plateia. O grito dela de "não me deixe sozinha" é tocante. Ano: 2018.

DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Monde Debout)

Uma comédia bem divertida sobre homem que finge ser cadeirante para se dar bem em uma situação e acaba não sabendo desfazer a mentira. Ri a valer, por mais que reconheça que muitos acharão bobo ou coisa parecida. Estou começando a tomar gosto pelas comédias mais comerciais francesas. Direção: Franck Dubosc. Ano: 2018.

sexta-feira, abril 05, 2019

SHAZAM!

É interessante notar a guinada que a Warner/DC deu até chegar em SHAZAM! (2019), de David F. Sandberg, o filme mais voltado para a comédia do Universo Compartilhado DC até o momento. No entanto, embora a Warner tenha uma tradição de fazer produções mais sombrias desde suas origens com os filmes de gângster, lá pelos anos 1990, houve o trabalho de Joel Schumacher nos filmes do Homem-Morcego; além do mais, muita gente quer esquecer do fracasso que foi LANTERNA VERDE, de Martin Campbell, que também enveredava pelo terreno da comédia.

De todo modo, o caminho que MULHER-MARAVILHA começou de maneira suave, que LIGA DA JUSTIÇA tentou sem sucesso, e que AQUAMAN conquistou rindo de si mesmo, atinge o seu auge em SHAZAM!, que tem uma leveza muito bem-vinda ao contar a história de um garoto que, através de um encontro quase que casual com um mago, se transforma em um super-herói muito poderoso.

O que não deixa de ser uma ironia é o fato de que atualmente são super-heróis de segundo escalão da DC Comics que estão conseguindo sucesso entre os fãs. Primeiro Aquaman; agora o Capitão Marvel/Shazam. Ambos super-heróis que tiveram uma trajetória bastante tortuosa nos quadrinhos. No caso do Capitão Marvel, pode-se dizer que houve até mesmo uma auto-sabotagem por parte da DC, já que o personagem foi inspirado no Superman e, ainda por cima, tinha esse problema de ter o mesmo nome de um super-herói da Marvel. Tanto que no filme o herói não tem um codinome, e ainda brinca muito com isso.

SHAZAM! começa apresenta o arqui-inimigo do herói, na figura de um bem jovem Dr. Thadeus Silvana, quando ele tem o seu primeiro contato com o Mago Shazam (Djimon Hounsou) e é rejeitado por não ser considerado digno - ele é tentado pelos demônios dos sete pecados capitais. Só muitos anos depois, com o desespero do envelhecido e enfraquecido mago, que um adolescente assume, não exatamente com tanta vontade, a imagem e os poderes do Capitão Marvel, uma entidade que tem os poderes e as virtudes de figuras mitológicas como Hércules, Sansão, Zeus etc.

O bom humor do filme é contagiante, sabendo brincar com os estereótipos das falas de vilões e também do Mago. Há também um belo colorido que serve não apenas para destacar o uniforme do herói, mas também para dar ao filme um ar de produção feita para agradar também aos bem mais jovens, por mais que os atos do supervilão possam parecer bem violentos, se vistos por crianças pequenas.

O filme ainda tem o mérito de, em meio à comédia, lidar com questões delicadas, como o sentimento de abandono dos órfãos, como é o caso de Billy Batson (Asher Angel), o menino que viria a ser o Shazam, e de seu irmão nerd Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que é quem ajuda o inexperiente herói a lidar com seus novos e desconhecidos poderes. Ambos são acolhidos por uma família muito carinhosa que cuida de vários meninos e meninas adotados.

SHAZAM! tem tudo para ser um sucesso. Só não tem o selo Marvel, que é quem está com toda a força atualmente no que se refere à conquista dos corações de milhões de pessoas.

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HOMEM-FORMIGA E A VESPA (Ant-Man and the Wasp)

Sequência que só comprova a bela fase que a Marvel está passando, com uma pluralidade de filmes muito interessante. Este aqui, se não é tão divertido quanto o primeiro, tem algumas cenas quase que inacreditáveis, como a perseguição nas ruas envolvendo mini-carros. Mesmo sendo mais sério que o primeiro filme, fica muuito leve depois da porrada que foi VINGADORES - GUERRA INFINITA. Mas tudo bem. Era pra ser assim mesmo. Só achei que o filme é rápido demais e acaba ficando raso. Nem sobra espaço para o romance do casal de protagonistas. Direção: Peyton Reed. Ano: 2018.

OS INCRÍVEIS 2 (Incredibles 2)

Beleza de aventura, que deixa no chão um monte de outros filmes de super-heróis em sua homenagem não só ao Quarteto Fantástico, mas aos filmes de espionagem e de ação dos anos 60, com um sabor retrô muito bom. A música do Michael Giacchino é ótima e conduz muito bem o filme. Legal também focar na Mulher Elástica como protagonista da ação fora de casa, enquanto o marido fica cuidando da casa e das crianças. Direção: Brad Bird. Ano: 2018.

POWER RANGERS

Quase que o diretor Dean Israelite consegue fazer um belo filme. O problema é mesmo a fonte. Não tinha como se afastar muito do original, e acho que ele até tenta, fazendo em boa parte da metragem uma história sobre a autodescoberta e a amizade de um grupo de adolescentes. E dá liga. Fica chato quando entram os monstros, a vilã etc. e o diretor parece não se interessar em fazer algo legal com isso. Ano: 2017.

quinta-feira, abril 04, 2019

ELEGIA DE UM CRIME

Há quem diga que Cristiano Burman, diretor de ELEGIA DE UM CRIME (2018), construiu sua obra (ou boa parte dela) em torno da morte de três familiares seus. Para quem não sabe, este novo trabalho é o terceiro da chamada trilogia do luto, que começou com os filmes CONSTRUÇÃO (2007), sobre a morte do pai do diretor, e MATARAM MEU IRMÃO (2013), de título autoexplicativo.

Como não cheguei a ver ainda os dois anteriores, só posso falar de ELEGIA DE UM CRIME, que considero um trabalho bem impactante e diria que bastante respeitoso no que se refere à figura da mãe. Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental.

ELEGIA DE UM CRIME traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe.

E eis que no meio de tudo isso, uma revelação sobre o próprio diretor é feita: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez.

Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas sabemos que as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para o que ocorre com essa família.

Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava um parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu.

E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir. De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama daquela família.

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O SILÊNCIO DOS OUTROS (El Silencio de Otros)

Filme importante para estes tempos de ascensão da extrema direita no mundo. O caso da Espanha tem semelhanças com o que ocorreu na América Latina e em outros países, com ditaduras sendo levantadas e patrocinadas pelos Estados Unidos para bloquear o comunismo e levando à morte e à tortura de muitos. No caso da Espanha, a situação foi bem complicada, pois a Lei da Anistia também perdoou aqueles que torturaram. O filme começa em 2010 e vai até 2017, acompanhando o drama de pessoas que buscam justiça.O final é emocionante. Na minha sessão, houve gritos de "Lula livre". Direção: Almudena Carracedo e Robert Bahar. Ano: 2018.

SEXO NOS QUADRINHOS (Sex in the Comix)

Belo documentário exibido na GNT sobre quadrinhos eróticos. Contém depoimentos de mestres da nona arte, como Milo Manara, Robert Crumb, Zep, Bastien Vivès, que eu nem sabia que tinha escrito erótico... E ainda tem uma apresentadora-quadrinista gatíssima (Molly Crabapple). Deu vontade de ler mais obras do gênero. Atualmente tenho achado que diminuiu bastante a publicação. Até Manara está saindo pouco. Direção: Joëlle Oosterlinck. Ano: 2012.

BERGMAN 100 ANOS (Bergman – A Year in the Life)

Uma beleza este documentário comemorativo de um dos maiores gênios do cinema mundial. O que me assustou foi o tanto de coisas com que eu me identifiquei com o atormentado Bergman. Pena que não tenho o talento nem a sorte com as mulheres, só as dores e as angústias. O formato é bem tradicional, com entrevistados e cenas dos filmes e relatos mais ou menos em ordem cronológica, mas funciona muito bem. Direção: Jane Magnusson. Ano: 2018.

segunda-feira, abril 01, 2019

UMA CANTA, A OUTRA NÃO (L'une Chante l'Autre Pas)

Como o blog anda meio parado e a última em vez que escrevi aqui foi para homenagear o cineasta Domingos de Oliveira, falecido recentemente, e como agora a homenagem é para outro cineasta que se foi para um novo plano astral, fica essa impressão de que esse espaço se transformou em um local de despedida de pessoas queridas e, no caso desses, em especial, também de lamento pelo fato de não ter visto os filmes que deveria. No caso de Agnès Varda, a situação ainda é pior para mim, levando em consideração que ela tem mais de 50 títulos na direção.

Figura importante na história do cinema francês e contemporânea da turma da Nouvelle Vague, ainda que pertencente a outro grupo, junto com o então marido Jacques Demy, Varda foi vítima do machismo que impera em nossa sociedade e que o cinema naturalmente assimilou. É por isso que atualmente tem se buscado uma maneira de diminuir essa diferença de louvação de diretores homens e mulheres, através do reconhecimento e descoberta do trabalho das grandes cineastas da história do cinema. E não há dúvidas de que Agnès Varda está entre as mais importantes do mundo.

Atuando por sete décadas, a cineasta que faleceu aos 90 anos no último dia 29, experimentou bastante, fazendo tanto ficção quanto documentário e sendo uma das pioneiras de um cinema essencialmente feminista. UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), por exemplo, é um desses filmes em que esse tema se mostra poderoso.

Acompanhamos aqui a história da amizade entre duas mulheres de diferentes estilos de vida ao longo de quase duas décadas. Começando em 1962, a trama apresenta Pauline aka Pomme (Valérie Mairesse) e Suzanne (Thérèse Liotard) passando por pelo menos duas situações perturbadoras. Uma delas é o aborto da amiga mais velha, Suzanne, que, ao não ter condições financeiras de manter um terceiro filho, é encorajada pela jovem amiga de então 17 anos a fazer um aborto. A outra situação é ainda mais perturbadora, e embora seja algo que as una espiritualmente ainda mais, será o fator que as distanciará fisicamente.

Vivendo em cidades diferentes, Pomme e Suzanne se encontrarão novamente apenas 10 anos depois, durante uma manifestação a favor do aborto. A questão do direito de ter filhos quando desejar é tão importante na trama quanto a dádiva e a alegria de ser mãe. Assim, há momentos musicados no filme em que os dois temas são cantados. Inclusive, uma das cenas mais belas é a ida de um grupo de mulheres em um barco para uma clínica de aborto na Holanda.

É lá que Pomme passa a namorar um rapaz iraniano, Darius (Ali Rafie), que está passando alguns meses na Europa. Pomme gosta de cantar e participa de apresentações musicais. Quando a peça em que está participando não dá certo, ela aceita o convite de Darius de ir com ele até o Irã. Apaixonada, ela aceita a proposta. Enquanto isso, Suzanne se sente tentada a ter um relacionamento com mais um homem casado.

Um dos méritos do filme é contar a história dessas duas mulheres com idas e vindas no tempo de maneira muito hábil e estabelecendo uma proximidade com as personagens, através dos textos dos cartões postais usados para correspondência entre as duas. Assim, depois de um salto de 10 anos, o filme volta no tempo para contar o que aconteceu entre os anos de distância entre as duas protagonistas.

Embora tenha gostado mais de Suzanne , o filme dá mais destaque a Pomme , até por ela ter uma vida mais ativa, sem filhos para prendê-la ao lar durante mais tempo. Assim, enquanto Pomme é alegre e sempre disposta a aventuras, Suzanne tem um sorriso geralmente triste, talvez por carregar o trauma da morte do antigo companheiro, mas também por não ter muita sorte nos relacionamentos e na vida financeira.

Por mais que alguns cineastas homens tenham lidado muito bem com a alma feminina, como Bergman ou Cukor, ter uma cineasta mulher abordando assuntos da feminilidade com força e sensibilidade faz muita diferença. Além do mais, quem só conhece Varda do recente VISAGES, VILLAGES (2017), pode ver em ELA CANTA, A OUTRA NÃO um momento em que a diretora já gostava de filmar em viagens no interior não-atores participando das cenas. Não à toa, Varda é tão querida: ela expande o amor para além de suas personagens.

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IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image)

Não deixa de ser uma experiência bem interessante poder ver uma colagem de imagens do Jean-Luc Godard em pleno 2019. Pena que as imagens são mostradas de maneira tão rápida e com um ruído tão incômodo que fica muito difícil de estabelecer conexões e entender os elos, de modo a buscar uma aproximação maior com a obra. Sabemos que Godard dificilmente é fácil e o filme é pra ser incômodo mesmo, mas poderia ao menos ter saído da sessão com certos questionamentos. Acabei saindo com sono mesmo. Ano: 2018.

NORMANDIA NUA (Normandie Nue)

O curioso deste filme, que lembra bastante o inglês OU TUDO OU NADA pela temática (mas sem a mesma graça, claro), é o quanto ele consegue ser careta. Talvez a intenção seja aproximar-se das pessoas do vilarejo, que ficam em polvorosa com a história da fotografia com todos nus. Não deixa de ser um filme simpático (o diretor é o mesmo do ótimo A VIAGEM DE MEU PAI), mas isso não é suficiente. Quando eu penso em cinema francês, jamais vou querer pensar nesse tipo de cinema. Direção: Philippe Le Guay. Ano: 2018.

O PARQUE (Le Parc)

É um filme que cresce à medida que pensamos nele. Muitas imagens ficam fortes na lembrança. Ele se constrói de maneira realista, como uma espécie de romance tímido entre dois jovens, mas depois vai ficando mais misterioso. Na trama, dois jovens se encontram pela primeira vez em um parque. Seria um encontro amoroso, mas um deles não se interessa tanto a ponto de querer um relacionamento. Grande filme. Direção: Damien Manivel. Ano: 2016.

quinta-feira, março 28, 2019

PAIXÃO E ACASO

A vida de cinéfilo só não deve ser tão angustiante quanto a vida de um bibliófilo, ou seja lá como se chamam os amantes de livros de literatura. Afinal, ler um romance, um livro de contos ou algo de outra natureza costuma levar bem mais tempo do que ver um filme, que em geral tem menos de duas horas de duração. Ainda assim, um cinéfilo, ainda mais aquele que vive atarefado com um trabalho que consome muito de seu tempo e de sua energia, acaba ficando angustiado com o fato de não conseguir preencher lacunas fundamentais, como a obra de cineastas importantes, tanto do Brasil quanto de outros países.

Escrevo isso lamentando o fato de não ter visto a grande maioria dos filmes de um cineasta de quem gosto muito e que, infelizmente, foi para outro plano nessa semana, o carioca Domingos de Oliveira, autor de clássicos como TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) e EDU, CORAÇÃO DE OURO (1968). Uma pena que, mesmo com seu retorno às produções tão pessoais com AMORES (1998), seguindo a retomada do cinema brasileiro na década de 90, ele não tenha alcançado uma popularidade necessária para ter um reconhecimento de um público maior do que o pequeno círculo de cinéfilos que se importam com o cinema brasileiro de baixo orçamento. Em Fortaleza, por exemplo, o último filme dele que entrou em cartaz foi TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS (2008), e lá se vai uma década.

Assim, com a minha enorme lacuna, quis homenageá-lo vendo pelo menos um filme inédito seu. No caso, o que o destino reservou para mim foi PAIXÃO E ACASO (2012), o primeiro que completou o download, dentre os cinco que tentei pegar. Trata-se de um de seus trabalhos menores, com aquela cara de produção barata, mas feito com tanto carinho e esmero que fica difícil não se deliciar, até por ser do gênero comédia romântica intelectual.

No filme, Vanessa Gerbelli, luminosa, faz o papel de uma psicanalista que se apaixona primeiramente por um rapaz e depois pelo pai do rapaz. Isso depois de ter sido visitada pelo espírito de seu pai, que já lhe antecipara que seu período longe das paixões estaria prestes a ter um fim. De repente, ela se vê numa posição de não conseguir escolher apenas um dos homens e trata de organizar um horário de encontro com eles, adotando a mentira como rotina diária.

O filme começa com os créditos em tom apaixonado e um tanto exagerado e de cores fortes, lembrando um pouco Almodóvar, e trazendo a canção “A vida é confusão”, de Nico Nicolaiewsky, um belo exemplar de um romantismo que não tem medo de parecer cafona. A canção, aliás, retorna na narrativa em um dos momentos mais belos, que é o do beijo da protagonista com o rapaz, na livraria.

Se PAIXÃO E ACASO não tem o mesmo sabor de despedida ou de celebração à própria história do cineasta como o filme-testamento BR 716 (2016), traz uma ciranda de amores deliciosa e que é a cara de Oliveira, tão preocupado e interessado nas questões do coração. Viva Domingos de Oliveira e seu cinema do afeto!

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SUEÑO FLORIANÓPOLIS

Muito boa esta comédia alto astral sobre família argentina passando férias em Florianópolis. Ver o filme é como se estivéssemos passando férias com eles e nos divertindo, embora eu preferisse que outros sentimentos além da alegria também fossem mais explorados, já que há muitas emoções em jogo nas cirandas amorosas. Direção: Ana Katz. Ano: 2018.

UM AMOR INESPERADO (El Amor Menos Pensado)

Nós, brasileiros, estamos precisando de um filme tão bom como esse e que atinja um grande público, junto. E com um casal tão bom quanto Ricardo Darín e Mercedes Morán. UM AMOR INESPERADO não é um filme que recusa o cafona: ele abraça, inclusive nas cores bem vivas e nas canções (tem uma canção brasileira que me deixou surpreso e emocionado!). Talvez falte um pouco mais de emoção no modo como nos pega na torcida pelo casal retornar, mas do jeito que ficou, um tanto assim contido, ficou muito bonito. E mal sentimos a duração, de tão interessados que ficamos na trajetória dos dois. Sem falar que há várias cenas bem engraçadas. Direção: Juan Vera. Ano: 2018.

EMMA E AS CORES DA VIDA (Il Colore Nascosto delle Cose)

Muito gratificante ver o cinema italiano se reerguendo em filmes pequenos e bonitos como esse, que pouca gente viu. Quase não li crítica ou repercussão a respeito, mesmo sendo de um diretor relativamente conhecido. Valeria Golino está muito boa e o sujeito que faz o rapaz mulherengo também é ótimo. Criativo e sensível o jogo de enquadramentos usando janelas diferentes, a partir do sentimento geral do filme. Direção: Silvio Soldini. Ano: 2017.

sexta-feira, março 22, 2019

MALIGNO (The Prodigy)

Os filmes de horror que têm chegado ao nosso circuito não têm passado exatamente por uma curadoria, por assim dizer. As distribuidoras em geral querem apenas jogar o produto para os fãs que costumam prestigiar o gênero, por pior que seja o material. Isso, com o tempo, acaba gerando uma falta de interesse até pelos próprios fãs, que se vêem entristecidos pela falta de qualidade dos filmes que chegam, dando até a impressão de que não há mais bons exemplares atualmente. O que depois se confirma como uma mentira, quando vemos várias listas de filmes do gênero e muitos dos melhores não têm a chance de chegar ao nosso circuito, e muitas vezes nem mesmo aos serviços de streaming.

Felizmente, MALIGNO (2019), do cineasta americano Nicholas McCarthy, é dessas gratas surpresas que encontramos. Um filme que funciona sem necessariamente procurar ser inovador ou algo do tipo. Ao contrário, ao acompanhar a história do garoto Miles sentimos até um sentimento de familiaridade com os filmes de horror produzidos nas décadas de 1960 a 1980. O enredo em si traz elementos que lembram filmes tão distintos quanto BRINQUEDO ASSASSINO e A ÓRFÃ.

Na trama, Taylor Schilling (da série ORANGE IS THE NEW BLACK) é Sarah Blume, uma jovem mulher que dá à luz uma criança que aos poucos vai se revelando um prodígio: com poucos meses já começa a falar e logo cedo é enviado para uma escola de crianças superdotadas. Mas há algo de errado com o pequeno Miles (Jackson Robert Scott, de IT - A COISA): aos poucos ele passa a manifestar uma maldade pouco comum até para crianças perversas de sua idade.

Um dos méritos do filme é conseguir criar uma atmosfera de terror e medo crescente. Uma vez que se descobre que o corpo do garoto está coabitado pelo espírito de um homem muito perigoso, e experienciamos momentos de puro medo em certas cenas envolvendo imagens do tal homem, rapidamente nos vemos envolvidos pelo drama daquela mãe. O pai também é importante para a trama, mas ele a princípio não acredita na teoria de que o espírito do garoto está duelando com o espírito do psicopata.

Soltando alguns alguns spoilers aqui: o que dizer da cena em que Sarah está sozinha na cama e o pequeno Miles pede para dormir com ela? De arrepiar! E a cena da hipnose, da batalha entre o garoto e o homem que descobriu seu segredo? E a ida de Sarah até a casa da última vítima do assassino serial? São apenas algumas, mas talvez as mais marcantes desse filme tão bem conduzido e tão envolvente que é uma pena que não esteja recebendo o devido mérito.

Quem sabe no futuro MALIGNO seja lembrado como uma das melhores obras do gênero de nosso tempo. Mas isso só o futuro irá dizer. No mais, não custa dar uma espiada nos longas anteriores de McCarthy: PESADELOS DO PASSADO (2012) e NA PORTA DO DIABO (2014).

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NÃO OLHE (Look Away)

É um filme que se beneficiaria de um olhar mais crítico do próprio realizador para aproveitar melhor as boas ideias e não tropeçar no andamento. O que poderia ser um filme bem eficiente sobre a insegurança de uma adolescente, acaba ganhando contornos meio bobos quando se assume como filme de terror teen. Isso, depois de ganhar uma audiência de filmes menos convencionais, por causa de seu andamento mais lento e da elegância dos planos. Aí põe tudo a perder no final. Há uma cena de sexo que poderia ser ótima se o filme não insistisse em mostrar a personagem alterada como uma vilã qualquer com o uso de uma música de mistério. Se deixassem um tom mais dúbio seria tão melhor. Há também momentos em que os excessos nos distanciam do filme, como as maldades de um garoto da escola em relação à protagonista. Direção: Assaf Bernstein. Ano: 2018.

A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2 (Happy Death Day 2U)

Com essa onda de reciclagens de FEITIÇO DO TEMPO (a última foi a série BONECA RUSSA), perde até a graça ver essas novas produções que brincam com esse negócio de reviver o mesmo dia. A diferença deste aqui em relação ao primeiro é que agora entra a noção de multiverso, como em DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II. Alguns momentos engraçados e divertidos, mas, no geral, bem sem-graça. E a parte dramática, não sei se chega a comover alguém da audiência. Direção: Christopher Landon. Ano: 2019.

A MALDIÇÃO DA FREIRA (The Devil's Doorway)

O problema nem é os filmes de found footage já estarem fora de moda e terem se esgotado nas ideias. O problema é que mesmo se fosse novidade esse recurso, este A MALDIÇÃO DA FREIRA não tinha ser como ser considerado ao menos razoável. E que idiotice colocar trilha sonora em material supostamente encontrado nos anos 60? O filme piora ainda mais quando se aproxima do final, quando já não ligamos mais em saber as origens das estátuas chorando sangue ou coisa do tipo. Direção: Aislinn Clarke. Ano: 2018.

quinta-feira, março 21, 2019

15 CURTAS BRASILEIROS

O ÁTOMO BRINCALHÃO

Confesso que tenho dificuldade de falar sobre obras assim mais experimentais, que não tem exatamente um fio de narrativa ou algo próximo disso. No caso, o que conta mais para mim é a história do curta. O diretor desenhou no intervalo de três anos este curta de quatro minutos nos próprios fotogramas. Acredito que numa revisão abstrações possam vir à mente. Direção: Roberto Miller. Ano: 1964.

AMOR SÓ DE MÃE

Na revisão, AMOR SÓ DE MÃE se mostrou ainda mais intenso e perturbador. Talvez por ver em uma televisão maior, mas diria que é mérito do filme mesmo, que se mantém forte passados alguns anos de sua realização. Na trama, homem é desafiado por uma prostituta a deixar sua mãe e ir embora com ela do povoado. Acontece que as coisas são muito mais mórbidas e macabras do que isso. As cenas de possessão são impressionantes. Um dos melhores filmes de terror já feitos no Brasil. Direção: Dennison Ramalho. Ano: 2003.

À MEIA NOITE COM GLAUBER ROCHA

Filme de colagem com a intenção de homenagear poeticamente não apenas Glauber Rocha, mas também Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros. Cenas não apenas do Cinema Novo e dos filmes de Glauber especificamente, mas também do cinema marginal, do tropicalismo e até de obras estrangeiras. Há falas de Glauber tomando para si a fundação do Cinema Novo e elevando o cinema como a mais importante das artes. Em outro momento, ele lamenta a pobreza cultural brasileira. Direção: Ivan Cardoso. Ano: 1997.

ALMA NO OLHO

Ao mesmo tempo que se mostra uma louvação do corpo e do espírito do negro, também traz a questão da chegada no negro à cultura ocidental e no quanto isso pode representar uma volta às correntes do tempo da escravidão. Parece mais uma performance de teatro, mas, por outro lado, em um teatro não seria possível haver os cortes que no cinema tem das imagens, tanto dos closes quanto das mudanças de figurino. A música-tema é de Coltrane, homenageado explicitamente no início do filme, embora as batidas sejam bem brasileiras. Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1974.

AMOR!

Já tinha visto esse curta na TV (ou em VHS, talvez). Acho que talvez tenha envelhecido um pouco. Na época me parecia mais esperto, mais ácido e mais engraçado. Mas ainda é bem divertido. E as mudanças de narrações, da voz do Paulo José para a do Pereio, funcionam que é uma beleza. Até podia dizer que é um filme sem esperança, se o próprio filme parecesse se levar a sério. Acho que não é o caso. Direção: José Roberto Torero. Ano: 1994.

ANIMANDO

Teria curtido mais se fosse de menor duração. É um trabalho admirável de brincar de Deus com um pequeno boneco usando inteligentemente os recursos da animação. Dar um pouco de consciência para sua criação é o melhor momento do filme, quando o boneco se rebela com as cores/roupas que lhe são dadas/pintadas. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1987.

UM APÓLOGO

Um dos mais famosos contos de Machado de Assis (até as crianças o conhecem), Um Apólogo ganha uma simpática adaptação para o cinema por um de nosso pioneiros mestres. O filme tem um sabor de tesouro arqueológico pela época em que foi realizado e por parecer velho mesmo, mas justamente por isso que ganha força e até os efeitos especiais parecem muito bons. O começo, falando sobre Machado de Assis e um pouco de sua obra, dá um ar de curta-metragem feito para alguma televisão educativa governamental, embora na época ainda não existisse televisão. Direção: Humberto Mauro. Ano: 1939.

ARRAIAL DO CABO

O que mais me chamou a atenção neste curta de Saraceni e Carneiro foi o quanto as imagens mostradas na tela parecem distantes das de hoje, de nossa realidade. Talvez pelo fato de terem pegado uma humilde vila de pescadores. Aí passa-se a impressão de que um cinema feito no começo dos anos 60 parece mais primitivo do que os trabalhos de Humberto Mauro dos anos 30. O bom é que a narrativa é dispensada rapidamente e as imagens se detêm nos pescadores, muitas vezes flagrados contra a luz do sol. A música ajuda a dar um ar mais lírico. Ainda assim me incomodou o meu distanciamento a uma obra tão incensada e importante dentro da história do cinema brasileiro. Direção: Mario Carneiro e Paulo Cezar Saraceni. Ano: 1960.

ARUANDA

Uma espécie de pai de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, ARUANDA é pioneiro em mostrar o povo preto e pobre do sertão nordestino, do jeito que eles são de fato. E não deixa de ser impressionante para nós, criados em cidade grande, ver o modo de vida e de sobrevivência de quem tem que se virar com o que tem, ou seja, o barro, a água barrenta e os galhos secos para fazerem tanto os potes quanto a própria casa. Uma longa jornada da escravidão até a vida de pequenos proprietários de terra na sertão. Direção: Linduarte Noronha. Ano: 1960.

DIVERSÕES SOLITÁRIAS

O ponto de vista de uma pessoa que se diverte na solidão, embora aparentemente muito feliz com seu walkman, passeando nas ruas e ouvindo um bom rock. A cidade de São Paulo é um personagem na história que praticamente só conta com um protagonista e umas duas coadjuvantes que o abordam em dois momentos distintos. Há uma espécie de crítica àqueles que condenam os que consomem cultura pop estrangeira. Direção: Wilson Barros. Ano: 1983.

A PASSAGEM DO COMETA

Cada novo filme de Juliana Rojas é uma alegria, pois todos os seus trabalhos são no mínimo ótimos. Agora, então, que já tem longas premiados e devidamente louvados, está no domínio ainda maior de seu trabalho. Aqui ela conta a história de uma jovem que vai fazer um aborto na época em que o cometa Haley está passando. É gostoso de ver e um tanto enigmático. Ano: 2017. (foto)

NOTURNO

Não me sinto apto para analisar animações mais abstratas e que principalmente foram produzidas em uma outra época, em que esse tipo de produção era mais raro no Brasil, era um feito de fato heroico. Este pequeno e belo curta de Aída Queiroz se encaixa nesse quesito. O filme ficou na posição de número 57 da lista das melhores animações segundo a Abraccine. Ano: 1986.

O PROJETO DO MEU PAI

Que desenho lindo! Encanta já desde o começo, quando a diretora/narradora conta sobre como era sua família quando ela era pequena e como ela os desenhava, com os tradicionais bonecos-palito. A questão da ausência do pai dói um pouco no tom agridoce do filme e se torna ainda mais forte nas emoções quando a narradora-personagem reencontra o pai quando adulta. De dar uma leve dor no peito. Direção: Rosaria. Ano: 2016.

O VIOLEIRO FANTASMA

Um filme que mistura elementos da cultura nordestina, como o cantador de repente, com coisas da cultura mexicana, como o culto aos mortos, e até a coisas relativas à cultura japonesa (pelo que eu entendi ou remeti), nas cenas em que o filme ganha ares de sonho, com cabeças voadoras e coisas parecidas. Só faltou eu me conectar mais com o trabalho, mesmo gostando muito do visual, das cores etc. Direção: Wesley Rodrigues. Ano: 2017.

MENINA DA CHUVA

Outra belezura de trabalho de Rosaria, que dessa vez trata da solidão através do drama de uma garotinha de cor roxa que não encontra inclusão entre as meninas da sua idade nem entre os adultos. Quem tem uma relação mais forte com a solidão é fácil entrar em sintonia tanto com o filme quanto com a personagem, no sentido de que é possível trafegar por momentos de tristeza e por outros de satisfação, mesmo sozinha, como na bela cena da chuva. Há também uma valorização da visualização da vida cotidiana como elemento de graça para a vida a sós. Ano: 2010.