Gostei mais de XICA DA SILVA (1976) desta vez, na revisão, embora seja, ainda, um filme que me cause sentimentos mistos. Ver no cinema também ajuda, claro. Terceira vez que vejo, acho. A primeira foi lá na adolescência, quando passou na Globo numa daquelas exibições bem-sucedidas de clássicos modernos do cinema brasileiro (filme brasileiro sempre era sucesso popular quando exibido na TV aberta) e depois, outra vez, em 2018. A cópia remasterizada em 4K está lindona e lamento que não seja maior a quantidade de restaurações e lançamentos de remasterizações de filmes brasileiros em nossas salas.
A sorte dos trabalhos de Cacá Diegues é que ele foi um dos cineastas que mais presença marcou nos festivais internacionais, dos tempos do cinema novo até a época da retomada. E XICA DA SILVA talvez seja uma das melhores escolhas para relançamento, levando em consideração ter aqui o que muitos dizem ser o primeiro filme brasileiro com uma heroína negra. (Não tenho certeza se é de fato.) E Cacá gosta do tema da escravização do negro no Brasil, além de também ser um cineasta que valoriza o protagonismo negro, como podemos ver em GANGA ZUMBA (1963) e A GRANDE CIDADE (1966), os dois com Antonio Pitanga.
XICA DA SILVA é uma espécie de apresentação carnavalesca do período colonial brasileiro, quando era comum encontrar um negro escravizado com um colar de ferro na rua, ou sendo chicoteado à beira de um rio, enquanto os brancos enriquecem com as riquezas minerais, especialmente da região de Minas, onde se passa a história. Xica é uma mulher que vive numa casa e é querida pelo seu dono e pelo filho, mas justamente por fazer sexo de um jeito que ninguém jamais viu igual. O que ela faz de tão extraordinário, inclusive, nem é mostrado, até para acentuar o aspecto mitológico da personagem.
Vivida por Zezé Motta, a heroína consegue uma chance de mudar de vida quando conhece um homem recém-chegado de Portugal, o Comendador João Fernandes, vivido por Walmor Chagas. Ela logo trata de deixá-lo muito interessado e ela é logo comprada e depois transformada numa espécie de rainha daquele vilarejo. Para desespero e ódio da classe mais privilegiada do lugar, em especial Hortência, a personagem de Elke Maravilha, que tem uma queda pelo comendador. Xica da Silva não é mostrada apenas como uma mulher negra que sobe de vida em tempos de escravização e possui dons sexuais especiais, mas como alguém que tinha uma inteligência afiada para agir politicamente, e isso é enfatizado quando seu figurino muda para uma veste negra.
Vale destacar também a presença de José Wilker, que está brilhante como o Conde de Valadares. A cena de Xica dançando para ele é um dos pontos altos do filme. Pensar que Wilker fez esse personagem no mesmo ano que interpretou o Vadinho de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS é acreditar que os astros estavam a seu favor naquele 1976.
+ TRÊS FILMES
LUIZ GONZAGA – LÉGUA TIRANA
Escolher o recorte do biografado é uma tarefa difícil. Não é sempre que um realizador tem a sorte de contar a história da vida de um cantor famoso, por exemplo, abrangendo um longo período de tempo e ter sucesso – HOMEM COM H é uma rara exceção. Geralmente o melhor a se fazer é escolher determinada fase da vida do biografado. E, nesse sentido, LUIZ GONZAGA – LÉGUA TIRANA (2025), de , de Marcos Carvalho e Diogo Fontes, me pegou de surpresa, já que a maior metragem do filme é para contar a infância do Gonzagão. Inclusive, o ator que interpreta o cantor quando criança é muito bom. E há um cuidado em contar essa história até com algum toque de misticismo, como se houvesse um destino de rei para aquele jovem Luiz – nome de rei, alguém diz em determinado momento. As próprias locações parecem sair de contos de fadas, ou alguns encontros mágicos, como o cego que diz se chamar Assum Preto. Além do mais, há também algo que remete o filme a obras de décadas passadas, sem ter medo de mostrar o início do interesse da criança pela nudez das mulheres, bem como sua primeira vez na juventude, num prostíbulo - uma cena, aliás, de bom gosto. Quem também merece destaque é o casal que faz os pais de Gonzaga, sempre interessados na melhor educação, dentro do que se podia ter quem era pobre - ir à escola, por exemplo, não era direito dos mais pobres. Como já há um filme que trata da carreira de sucesso do cantor, o ótimo GONZAGA – DE PAI PRA FILHO, ter essa outra opção é bem válido, não importando que este novo filme perca bastante na comparação com a obra de Breno Silveira.
MAURÍCIO DE SOUSA – O FILME
Não dá pra comparar esta cinebiografia de Mauricio de Sousa com os três filmes live-actions de seus personagens, especialmente com o adorável filme do Chico Bento, mas até que há mais semelhanças na história do criador de Mônica e cia. do que eu imaginava (e gostaria). Pra começar, MAURÍCIO DE SOUSA – O FILME (2025), de Pedro Vasconcelos, começa com a infância do personagem e com sua vontade de ganhar dinheiro com seus desenhos. Aliás, talvez tenha me incomodado um pouco essa questão de ele pensar em ganhar dinheiro com os desenhos e não com suas histórias ou seus personagens. Mas isso diz mais de mim do que do Maurício retratado, vivido por Mauro Taqueda de Sousa, o próprio filho do Maurício, e hoje diretor do MSP Studios. De todo modo, quem teve os quadrinhos como elemento muito importante em sua vida, como é o meu caso, vai se identificar bastante com o protagonista, como quando ele descobre a paixão pelos quadrinhos antes mesmo de aprender a ler, por exemplo. É também muito bom ver pessoas ilustres que passaram pela vida de Maurício surgindo em algum momento do filme, como é o caso de Ziraldo e de Jayme Cortez. Mesmo quem não tem muita intimidade com quadrinhos vai gostar de acompanhar o duro que Mauricio deu para conquistar seu sucesso, graças também a pessoas importantes como sua avó e seu pai. Pra mim ficou faltando algo que me encantasse de fato – o ator parece demais com o Maurício, é a cara dele, mas ele ser o coração do filme e não ser um grande ator acaba prejudicando um pouco.
REJEITO
Na época da tragédia de Brumadinho em 2019, eu achei a coisa tão absurda que imaginei que veríamos uma quantidade imensa de filmes sobre o assunto. Os poucos que surgem são pequenos documentários como este, REJEITO (2023), de Pedro di Filippis, que não atingem o público que se deveria. Este aqui começa melhor do que termina, mas é compreensível, já que o diretor foi buscando mais material ao longo dos anos e um desses materiais bons para o filme é a cena dos moradores de Socorro que são obrigados, mais uma vez, a deixar suas casas, por ordem das autoridades. O absurdo é ter uma tragédia em Mariana (em 2015) e tudo continuar sendo feito pela Vale como se nada tivesse acontecido. E aí veio Brumadinho em 2019, com 272 mortos, centenas de famílias traumatizadas e sem lugar e a morte da fauna e da flora da região. Ver aquela vaca cheia da lama do rejeito doeu muito no peito, assim como nos deixa indignados demais ouvir o sujeito da Vale comparando o ocorrido em Brumadinho com um acidente de avião. Canalhas. É triste sair do cinema com esse sentimento de impotência, mas acho importante demais que isso nunca seja esquecido. Afinal, é isso que eles querem.





