quarta-feira, agosto 19, 2026

VÍTIMAS DO PECADO (Victimas del Pecado)

 
A primeira vez que ouvi falar em VÍTIMAS DO PECADO (1951) foi vendo o documentário CINEMA DE LÁGRIMAS, de Nelson Pereira dos Santos, quando o realizador brasileiro representou o cinema da América Latina na comemoração dos 100 anos de cinema que resultou em documentários em diversas partes do mundo. Nelson optou por enfatizar o cinema mexicano, que tinha o melodrama como especialidade. Uma das imagens que me marcou lá em 1995, quando vi esse documentário na televisão, foi justamente a cena da mulher largando um bebê numa lata de lixo por amor a um homem perverso. O filme, VÍTIMAS DO PECADO, de Emilio Fernández, eu demoraria mais de 30 anos para ver. Mas valeu a pena ter visto agora, numa cópia remasterizada de 2022, lançada no box Filme Noir - Noir Internacional.

VÍTIMAS DO PECADO impressiona desde as primeiras cenas, ambientadas num cabaré em que a protagonista, Violeta (Ninón Sevilla), dança algo que para nós brasileiros parece muito familiar, uma música citando orixás como Ogum e Xangô. As demais canções são rumbas e outros ritmos caribenhos, mas essa primeira tem uma africanidade e uma energia que nos aproxima mais. Este primeiro momento do filme nos apresenta a este mundo habitado por dançarinas, prostitutas, gângsteres, cafetões. Na verdade, muitas vezes esses papéis exercidos por homens e mulheres são duplos.

Ou seja, o primeiro personagem masculino apresentado, Rodolfo (Rodolfo Acosta), se mostra como um homem mesquinho, vaidoso e ficamos sabendo que engravidou uma das garotas de programa do estabelecimento, e que essa mulher, Rosa, acabou de parir a criança. O filme tem uma montagem dinâmica o bastante para que, logo depois da famosa cena do bebê sendo deixado, dolorosamente, na lata de lixo, também mostrar a faceta não apenas covarde é cruel de Rodolfo, mas também suas ações como ladrão e assassino, a exemplo dos gângsteres apresentados no cinema hollywoodiano dos anos 1930.

Ou seja, o filme, que antes começou como uma espécie de musical (há várias cenas musicais marcantes), e depois para um melodrama, muda a chave para uma espécie de noir criminal, embora o melodrama seja o que predomina e o que torna o filme verdadeiramente emocionante, já que Violeta, a heroína da história, é a mulher que salva a criança, e que, na falta de quem possa acolher o bebê, o toma como seu filho, mesmo que para isso precise se prostituir nos lugares mais decadentes da cidade.

Apesar de dirigido e roteirizado por homens, VÍTIMAS DO PECADO enfatiza a união e a bondade das mulheres em detrimento da covardia e maldade dos homens dentro daquela estrutura patriarcal pré-estabelecida. Os realizadores do filme, diretor, roteiristas e principalmente o celebrado diretor de fotografia Gabriel Figueroa (OS ESQUECIDOS, de Luis Buñuel) fazem uma crítica ácida ao sistema, uma vez que a lata de lixo fica em frente ao Monumento à Revolução Mexicana. Uma ironia de um país que celebrava seus ideais de “progresso, justiça e proteção social".

Nos extras do box, há um pequeno documentário que nos ajuda a abrir os olhos para o trabalho excepcional de Figueroa, que utiliza brilhantemente a profundidade de campo nos ambientes internos e o uso das sombras em externos como meio de enfatizar o sentimento de abandono de Violeta e do pequeno bebê que ela pega para criar. Há sequências em que essa dor é tão estilizada quanto sentida. O que dizer do ataque de Rodolfo à casa de Violeta? Só uma cena dessas já justifica a valorização de VÍTIMAS DO PECADO como uma das maiores obras do cinema mexicano. E mais emoção nos aguarda, lá no final. Difícil conter as lágrimas, hein.

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CINCO TIPOS DE MEDO

Que bom que a Downtown colocou CINCO TIPOS DE MEDO (2025), de Bruno Bini, em várias salas do circuito brasileiro. Se vai ficar em cartaz em mais sessões nas próximas semanas, aí já é outra história. A comparação que estão fazendo com os filmes-coral de Altman, e principalmente com os primeiros trabalhos de Iñárritu, faz sentido, mas o roteiro do próprio diretor Bruno Bini é muito bem arrumado, trazendo pontos de vista diferentes de uma tragédia envolvendo várias pessoas. Há a raiz do mal, que é o personagem de Xamã, um traficante de drogas violento, e todos aqueles que são prejudicados por sua ação, incluindo a ex-namorada que deseja fugir dele, vivida por Bella Campos. Aliás, que bom que essa moça finalmente fez cinema. É bastante conhecida por seu trabalho na televisão. Já Bárbara Colen é bem conhecida de quem acompanha o cinema brasileiro contemporâneo e faz uma mãe cheia de fúria por causa da morte do filho. Em meio a tanta tragédia e violência há espaço para o humor, em especial com o personagem de João Vitor Silva, o que mais se aproxima de um protagonista do elenco.

APENAS COISAS BOAS

Eis um daqueles filmes claramente divididos em lado A e lado B. Daniel Nolasco parece brincar de utilizar diferentes gêneros ao contar uma (ou duas?) história sobre o encontro de dois homens. Eu não consegui prever nem de longe, na primeira parte, no que o filme se transformaria na segunda, ou seja, uma espécie de thriller almodovariano (pelas cores e pelos tons), ainda lidando com a exploração dos corpos nus masculinos, mas sem aquele aspecto fetichista que caracterizou VENTO SECO (2020), o longa anterior do cineasta – entre um e outro longa, Nolasco dirigiu o interessante O CAVALO DE PEDRO (2023), que justamente por ser um curta acaba sendo visto por uma parcela menor de espectadores. APENAS COISAS BOAS (2025) começa com créditos vermelhos bonitos ao som de uma música country e acompanhando um homem em sua motocicleta. A história se passa nos anos 1980 e o cuidado com os aspectos plásticos já chamam a atenção. Para Nolasco, a plasticidade está à frente das interpretações, ainda que essas não fiquem atrás. Inclusive, é sempre bom ver um filme que traga Renata Carvalho, cujo melhor desempenho ainda é, provavelmente, no maravilhoso OS PRIMEIROS SOLDADOS, de Daniel de Oliveira. Aqui ela aparece na segunda parte da história, que acontece nos dias atuais, quando a trama dá um grande salto temporal. Na primeira, o jovem proprietário de terras Antônio conhece e abriga Marcelo, um rapaz que havia sofrido um acidente na estrada enquanto estava em sua motocicleta. Na segunda, bom, na segunda melhor não contar muito para não estragar a surpresa.

A VOZ DE DEUS

Fazer documentário com um projeto a longo prazo demanda uma compreensão de que tudo pode acontecer. O diretor Miguel Antunes Ramos sabia disso quando resolveu acompanhar de perto dois pregadores mirins de igrejas evangélicas por cerca de dez anos. Muito interessante notar o quanto esses garotos ficam à vontade diante das câmeras, o que é importante para que sejam eles mesmos – ou ótimos atores representando com naturalidade. A VOZ DE DEUS (2025) propõe algumas reflexões interessantes, e a questão da fé até parece ficar em segundo plano. Pensamos mais no quanto a infância dessas crianças é profundamente afetada por essa exploração por parte dos pais, que encontra na boa expressão dos filhos um meio de vida. O primeiro vende DVDs (pelo menos enquanto esse tipo de mídia ainda tem alguma popularidade); o segundo quer aproveitar para vender roupas masculinas, já mirando na era das redes sociais. De uma forma ou de outra, tudo me pareceu assustador. Enquanto isso, o filme não se esquiva de mostrar o país dividido diante da ameaça do bolsonarismo. A lacuna da pandemia é até interessante, para vermos o salto no tempo e a mudança de vida e de perspectiva desses jovens e de seus pais.

terça-feira, agosto 18, 2026

FORASTEIRO DA NOITE (Strangers in the Night)

 
Já faz um tempo que eu estava namorando a possibilidade de fazer uma peregrinação pela obra de Anthony Mann, ou seja, ver tudo o que for possível dele, de preferência em ordem cronológica. Mas pensava: nem sequer consegui finalizar a filmografia do Samuel Fuller. E aí fui esperando a hora. Porém, de uns dias pra cá, um fórum de que participo começou a disponibilizar links de vários filmes do realizador e fui formando pastinhas e ficando com água na boca para começar logo a ver, mesmo sabendo que ele tem uma quantidade bem expressiva de créditos na direção. (São 43 títulos, sendo que dois deles são perdidos: foram produções experimentais para a televisão, na virada dos anos 1930 e 40, quando a TV não fazia parte ainda da vida do povo americano.)

Curiosamente, ao buscar um filme do diretor para ver, não foi desses links que peguei, mas de uma das coleções de filmes noir da Versátil. FORASTEIRO DA NOITE (1944) foi o mais antigo que consegui encontrar até agora dele. Pode ser que consiga outros, mas sei também que antes deste trabalho Mann realizou alguns musicais e comédias que não me parecem tão atraentes, mas que podem, sim, ser bem legais.

Devido à pequena duração (56 min), FORASTEIRO DA NOITE aparece como extra do box Filme Noir Vol. 17, o sétimo filme do pacote. Nos anos 1940, várias produções mais baratas possuem essa duração, às vezes passando apenas um pouco de uma hora de duração. O que sei é que dei uma sorte danada de escolher logo um filme tão saboroso, tão empolgante e sem nenhuma gordura ou atropelos e conseguir nos fazer ficar apreensivos com os personagens principais e com o que a velha antagonista é capaz de fazer.

Na trama, um sargento da marinha chamado Johnny Meadows sofre na guerra e é encaminhado de volta para casa. Seu maior interesse naquele momento é finalmente encontrar uma jovem chamada Rosemary com quem ele estava se correspondendo, a partir de um endereço constante num livro usado que ele lia. Logo depois, conhecemos duas mulheres, a dona de uma casa, uma senhora idosa chamada Sra. Hilda e sua ajudante, Sra. Ivy. A Sra. Hilda tem uma obsessão por um retrato pintado de uma menina chamada Rosemary, que diz ser sua filha. É também na casa de Hilda que chega a médica que será fundamental para a trama, a Dra. Leslie, interpretado por uma apaixonante Virginia Grey.

No dia que está no trem, é o momento que ele encontra essa Dra. Leslie, e há uma química que se vê logo de cara e que nos ganha. Assim como nos surpreende o que vem logo a seguir no trem, o quanto os efeitos práticos da época, mesmo em produções baratas, como esta da Republic, são eficientes. O som também ajuda a trazer impacto para a cena. Mas o impacto mesmo virá quando o jovem militar chegar à casa da Sra. Hilda, em busca da tal Rosemary.

Achei a história tão boa que até fui pesquisar pra ver se ninguém teve a ideia de fazer um remake, já que o filme é curto, que cairia na obscuridade se não fosse o nome de Mann na direção e também não contasse com o resgate da Film Noir Foundation. Que bom que há essa empresa que valoriza e restaura verdadeiras pérolas do cinema, como é o caso de FORASTEIRO DA NOITE, que já tem aquele jogo de luz e sombras tão característico do ciclo noir. Há tanto esse trabalho de apontar as sombras no aspecto plástico quanto no aprofundamento da personalidade dos personagens, por mais que no caso deste filme B mais humilde o ritmo mais rápido seja necessário para que a obra caiba numa sessão dupla com um filme classe A. 

+ TRÊS FILMES

O MUNDO EM PERIGO (Them!)

Um filme que influenciou não apenas as demais produções que trouxeram insetos gigantes, O MUNDO EM PERIGO (1954) também é influência em clássicos mais recentes, como ALIENS, O RESGATE, de James Cameron, e TROPAS ESTELARES, de Paul Verhoeven. Hoje os efeitos especiais estão bem datados, mas quase tudo que foi feito no gênero sci-fi na década de 1950 é assim (desse período, só lembro de O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, que ainda impressiona em seus efeitos). O MUNDO EM PERIGO capta bem o espírito de seu tempo. Não era só o Japão que havia ficado traumatizado com a bomba atômica, mas os próprios americanos ficaram paranoicos, esperando serem atingidos por uma bomba a qualquer momento. A Guerra Fria estava só começando. Mas para esse tipo de produção eu só consigo pensar na primeira discussão entre os executivos, que talvez tenham partido de um cartaz de filme, de um desenho, de uma ideia, para, só depois, desenvolver um roteiro e tentar bolar meios de materializar essa ideia: ou seja, a ideia de formigas que ficam gigantes e ameaçam não só o deserto do Novo México e a Califórnia, mas a humanidade inteira. A salvação vem de dois cientistas: um idoso (Edmund Gwenn) e sua filha (Joan Weldon), justamente os personagens mais carismáticos do filme. Mas gosto de como o filme trabalha bem o coletivo desde o começo, quando dois policiais estaduais encontram no deserto uma garotinha em estado de choque. Há um trabalho muito bom de desenvolvimento da narrativa e a finalização é caprichada. Por mais que as formigas não sejam convincentes isso acaba sendo um detalhe com um aspecto humano da produção. Visto no box Clássicos Sci-Fi: Anos 50 – Vol. 5, que conta com uma apresentação de Gabriel Carneiro.

A CICATRIZ (Hollow Triumph / The Scar)

Muito da força de A CICATRIZ (1948), de Steve Sekely e Paul Henreid, está na composição visual do lendário diretor de fotografia John Alton. O barato da trama é que ela não se preocupa em realismo: tudo está em prol da ideia de um criminoso (Paul Henreid) de conseguir elaborar uma estratégia supostamente perfeita para conseguir escapar da polícia e dos gângsteres. Essa estratégia surge quando ele descobre que existe um sósia seu, um homem cujo rosto é a cópia igual ao seu, com a exceção que esse homem, um psicanalista, possui uma cicatriz. Então, o plano do protagonista passa a ser tomar o lugar desse homem. A partir do momento que a história se encaminha para esse instante, o filme vai ficando mais empolgante. Pena que o protagonista seja uma pessoa tão odiável a ponto de não torcermos por ele no que se refere ao romance com a personagem da secretária do psicanalista (Joan Bennett). Ou seja, o cara é perverso demais, cínico demais para que torçamos por ele na conclusão, que ganha contornos um pouco mais românticos, e mais trágicos. Mas não torcermos pelo protagonista criminoso (e desta vez assassino) faz com que sua corrida para a vitória perca a força. Mas ainda assim, gosto demais do aspecto estranho do filme, do absurdo da situação, quase tão absurdo quanto um A OUTRA FACE, de John Woo, mas com um pé maior, obviamente, no realismo. Acho um barato as cenas dele tentando se adequar à identidade do morto sem saber sequer o nome da esposa ou dos amigos. Além do mais, há vários momentos de impacto visual impressionante, graças a movimentações de câmera e jogos de luz e sombra, como na cena em que o personagem de Henreid atravessa a rua para entrar na casa da personagem de Bennett, já perto do final. Gosto também da ironia da trama. Do destino desse personagem. Visto no box Filme Noir Vol. 8.

A NOIVA DO INFERNO (Botan-dôrô)

Um conto moral sobre um homem que se apaixona por uma fantasma que revela mais a maldade dos vivos do que o perigo dos mortos. A NOIVA DO INFERNO (1968), de Satsuo Yamamoto, conta com pelo menos dois atores conhecidos dos filmes de Akira Kurosawa e possui uma elegância na direção que chama a atenção logo no início, quando o protagonista se vê encurralado por seus familiares para se casar com uma mulher que não ama. No dia do festival Obon, que no folclore japonês corresponde um pouco ao Dia dos Mortos no México, o protagonista conhece duas mulheres, sendo que fica encantado com a mais jovem. As duas o reencontram e logo se inicia um relacionamento entre ele e essa moça mais jovem. O que ele não sabe (embora o espectador saiba logo de cara) é que aquelas mulheres estão mortas. De início, elas não contam a verdade para ele, mas uma vez que ele fica sabendo o filme ganha contornos de filmes de exorcismos em comunidade, como O LAMENTO, de Na Hong-jin, ainda que a produção aqui seja muito mais modesta. Inclusive, eu diria que é um dos méritos do filme: ser claramente barato e conseguir desenvolver tão bem a atmosfera, além de ter que lidar com os figurinos e a direção de arte para recriar uma comunidade do período (século XVII). O filme é baseado num conto folclórico que se tornou bastante popular no teatro kabuki, e cuja trama é similar a de outros filmes mais famosos, como CONTOS DA LUA VAGA de Kenji Mizoguchi, e KWAIDAN, de Masaki Kobayashi. Visto no box Obras-Primas do Terror – Horror Japonês 2.

domingo, agosto 16, 2026

ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

 
Fiquei encantado com este ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2026), que é tanto uma homenagem aos slashers que tanto sucesso fizeram nos anos 1980, quanto uma fotografia dos tempos de hoje, que elegeram o horror como gênero principal para levar a juventude ao divã, com seus inúmeros problemas e complexidades. Inclusive, essa coisa de categorizar filmes por gênero não é muito o perfil da diretora Jane Schoenbrum, vide seu coming of age com embalagem (ou capinha) de filme de horror EU VI O BRILHO DA TV (2024). Ou seja, dá para perceber seu amor pelo gênero, mas também dá para ver seu interesse em usar o horrror, no caso, como desculpa para retratar o desejo (e também a frustração com o sexo) de sua heroína, a cineasta Kris, vivida por Hannah Einbinder (série HACKS), a quem foi conferido o direito de revitalizar a franquia “Acampamento Miasma”, que tanto faz lembrar a bem mais popular SEXTA-FEIRA 13 quanto o slasher mais de nicho ACAMPAMENTO SINISTRO.

Quem gosta de slashers, inclusive, vai se deliciar, particularmente, com a abertura do filme, que apresenta em poucos minutos a glória e a decadência de uma franquia slasher, inclusive (e principalmente) quando ela passa para o mercado de VHS, já que foi nos anos 1980 que esse subgênero se tornou mais popular. É possível pensar também no quanto as novas gerações sentem essa nostalgia daquilo que não viveram, ou que viveram já no finalzinho, no caso do DVD. Em determinado momento do filme, Kris encontra numa loja de conveniência de uma cidezinha perdida do norte dos Estados Unidos um DVD de um dos capítulos de cinessérie “Acampamento Miasma” e pergunta ao atendente do hotel onde se hospeda se há, em algum dos quartos, um aparelho de DVD para que possa usufruir do produto adquirido. Ou seja, percebe-se também essa necessidade da mídia física, que foi se perdendo com o advento dos streamings.

Essa falta de fisicalidade também pode-se levar para a personagem de Einbinder, que confessa logo no primeiro encontro com a atriz de cinema aposentada Billy (Gillian Anderson), hoje mais conhecida como a final girl do primeiro “Acampamento Miasma”, que tem dificuldade de ter orgasmo, e por isso o trabalho para ela é prioridade. Abrindo um parêntese para parabenizar a diretora Jane Schoenbrum por trazer uma atriz, que mesmo sendo uma incrível intérprete, segue sendo muito mais lembrada como a Agente Dana Scully de ARQUIVO X; e juntá-la a outra atriz, mas desta vez de uma série mais recente, o que acaba tornando o filme chamariz para pelo menos duas gerações diferentes de espectadores, por mais que acredite que a obra seja abraçada também pela cinefilia jovem e pela comunidade LGBTQIA.

Vale lembrar que o slasher é um subgênero que carrega como estigma um teor bastante exploratório e misógino. Além de homofóbico e transfóbico (a referência a ACAMPAMENTO SINISTRO não é à toa). Eis que, assim como outras cineastas mulheres têm feito ao pegar gêneros mais explorados e desenvolvidos com o olhar masculino, Schoenbrum vira do avesso o subgênero aqui e o coloca para o olhar feminino. Kris deve ao “Acampamento Misma” original o seu despertar sexual, especialmente na cena de sexo marcante da personagem de Billy. E Billy, como mulher vivida e atraente, conta a Kris o segredo de seu olhar naquela cena.

O legal deste filme é que ele tinha tudo para parecer pedante, já que usa, sim, muitas palavras para buscar entender a fascinação pelo gênero, mesmo reconhecendo seus problemas de preconceito. Inclusive, há até um desejo por parte de Kris de se imaginar como uma personagem vitimada por algum assassino serial de um slasher, um fetiche um bocado estranho, mas que, dentro de um filme que trabalha tão bem a autoconsciência do espectador, se torna pouco perigoso. Como diz a frase apregoada por Billy, “se você se sentir que está real demais, é só desligar”. Isso vale para uma fita cassete ou um DVD, mas também vale para a trama do filme.

Falando em trama, além de todas as cenas em que as duas atrizes contracenam juntas, todas deliciosas, há uma divertidíssima em que Kris conversa numa videochamada com os produtores do filme que ela foi chamada para dirigir. Ao colocar para eles suas novas ideias, que são talvez até mais ousadas que as brincadeiras metalinguísticas que Wes Craven fez em O NOVO PESADELO – O RETORNO DE FREDDY KRUEGER(e cá pra nós, o nosso Mojica foi ainda mais genial nesse quesito em EXORCISMO NEGRO), ao colocar para eles essas ideias, vemos um pouco do que o mercado é capaz de podar de ideias originais de tantos realizadores em favor daquilo que julgam que o público supostamente quer ver.

Felizmente, estamos vivendo uma nova era de ouro para o horror, com produções originais e ousadas fazendo sucesso de crítica e de público, e incentivando os produtores a investir mais nesses criadores mais loucos, por mais que a influência do cinema de décadas passadas ainda continue presente.

No mais, ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE tem, sim, muito sangue, embora seja aquele sangue que esguicha em litros, mais do que um KILL BILL. E há também um bocadinho de sexo, o que é algo a se festejar, uma vez que a tal geração Z anda cada vez mais desinteressada de sexo nos filmes e aparentemente até na vida real. Ver um filme como este no cinema é também valorizar o calor da película 35mm (por mais que o filme chegue aqui já em DCP). Schoenbrum usa uma fotografia que remete à dos slashers oitentistas. E isso também é gostoso demais de ver. Assim, aquilo que poderia ser quase acadêmico acaba se tornando tão viajante quanto divertido e sensual.

+ TRÊS FILMES

EU VI O BRILHO DA TV (I Saw the TV Glow)

Antes de ver ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2024), o novo filme de Jane Schoenbrun, aproveitei para ver este seu trabalho anterior, que teve um hype considerável na época do lançamento, embora não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros. EU VI O BRILHO DA TV (2024) me surpreendeu, pois esperava um filme de terror. Não que não seja quando ampliamos o espectro, mas o que vemos aqui é mais um filme sobre falta de aceitação e solidão, em conjunto com questões de sexualidade, envolvendo tanto o jovem Owen (Justice Smith, na fase adolescente e adulta) quanto a sua colega de escola dois anos mais velha, Maddy (Jack Haven, na época do filme ainda usando o nome feminino). Tanto Owen quanto Maddy veem numa série de TV que passa no fim da noite uma espécie de fuga para a realidade triste que vivem. E fuga é uma das palavras-chave do filme, já que Owen tem uma questão com aceitação de sua sexualidade, enquanto Maddy vê como sua única saída para não morrer ir embora daquela cidadezinha. O filme promete ficar mais empolgante justamente quando ela propõe a ele que fujam juntos, enquanto ele foge, mas é desse salto para uma nova vida. A tristeza do destino final de Owen certamente vai encontrar muitos espectadores que ou se identificarão ou se solidarizarão. Acho que o filme podia ser um pouco mais curto, e há um problema de ritmo que me tirou o interesse diversas vezes, por mais que ache a proposta interessante e intrigante. Minha expectativa para ACAMPAMENTO MIASMA... já era muito maior.

INSACIÁVEL (Saccharine)

Um filme de terror que quer tratar de transtornos de compulsão alimentar e apresenta como principal fantasma uma mulher obesa feita em CGI e com aquela cara de assombração manjada já é um filme problemático por si só. Junte-se a isso a prótese horrível para apresentar a atriz quando está (ou se sente) acima do peso. INSACIÁVEL (2026) seria uma espécie de filme-irmão de A SUBSTÂNCIA, mas sem o mesmo talento na direção. Na trama, jovem estudante de medicina que se sente desconfortável com seu peso e rejeitada por seus interesses amorosos experimenta um comprimido que é capaz de emagrecer de forma milagrosa. Acaba descobrindo que a matéria-prima da cápsula é feita de cinzas de cadáveres. O filme tem uma duração desnecessariamente longa. Se fosse só um filme de 80 minutos talvez fosse recebido com mais simpatia pela audiência. A diretora Natalie Erika James, que havia se saído bem em RELÍQUIA MACABRA (2020), teve a coragem de fazer um remake de O BEBÊ DE ROSEMARY chamado APARTAMENTO 7A (2024), e parece se perder ainda mais em seu terceiro longa.

AURORA

Acredito que o próprio diretor José Eduardo Belmonte não estava botando muita fé no sucesso deste filme para ter demorado cerca de 10 anos para montar e lançar, apenas no Telecine e Canal Brasil. Ele acabou priorizando outros dois trabalhos com maior possibilidade de sucesso comercial e lançados naquele 2016, a minissérie ALEMÃO – OS DOIS LADOS DO COMPLEXO e a comédia ENTRE IDAS E VINDAS. Enquanto isso, AURORA (2025) foi ficando de molho, mesmo tendo um elenco de peso. Com apenas 65 minutos de duração, às vezes fica a impressão de que houve um esforço para que as imagens do céu, para indicar o tempo passando, foram, além de totalmente feitas em pós-produção, também uma criação puramente digital. Na trama, casal vivido por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão saem para comprar uma casa: a primeira venda da carreira da corretora vivida por Marjorie Estiano. A quase paz da compra é quebrada por pessoas que entram na casa. Mesmo já entregando os elementos sobrenaturais de cara, acredito que seja interessante ir descobrindo o filme enquanto as revelações vão surgindo, embora a trama em si seja muito simples. É um filme que depende mais da atmosfera e do desempenho de seus atores, além de uma trilha sonora de acompanhamento. Pode não ser um grande filme, mas é um bom exercício e os atores defendem bem seus papéis, principalmente Estiano, que é sempre impressionante em tudo que faz.

segunda-feira, agosto 10, 2026

E A VIDA CONTINUA (Zendegi va Digar Hich)

 
Ando novamente encantado com o cinema de Abbas Kiarostami. Eu diria que nunca estive tão encantado. Ver CLOSE-UP (1990) pela primeira vez e depois rever ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987) foi muito revelador do quanto o mais célebre dos diretores iranianos traz de poesia, de humanidade (no sentido humanista da palavra) e de manifestação de beleza nas coisas simples da vida. Por mais que E A VIDA CONTINUA (1992) faça parte da trilogia formada pelo filme de 87 e ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS (1994), a chamada Trilogia Kocher, ter feito CLOSE-UP no meio pode ter feito com que o realizador quisesse mais uma vez fazer uma brincadeira metalinguística a partir da realidade.

E aqui a realidade é cruel: em 1990 um terremoto matou cerca de 50.000 pessoas no Irã. O terremoto aconteceu no mesmo dia (e hora?) do jogo Brasil x Escócia, durante a Copa do Mundo daquele ano. Essa informação pode parecer irrelevante diante da tragédia, mas não é, já que é parte importante do filme. Em meio aos escombros e ainda prateando os mortos, alguns iranianos de localidades mais rurais buscam fixar uma antena para assistirem a Brasil x Argentina, um dos jogos mais esperados do campeonato.

Antes de ver o filme, eu achava que era o próprio Kiarostami, como Jafar Panahi costuma fazer em seus filmes, que interpretava o protagonista, o cineasta. Aqui temos um ator interpretando o realizador de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? na localidade onde moram os pequenos heróis do filme. O cineasta temia que o protagonista de seu filme tivesse morrido. Pelo que li na sinopse de E A VIDA CONTINUA no IMDb, Kiarostami fez mesmo essa viagem com o filho pequeno em 1990 com essa mesma finalidade, e que alguém na Alemanha sugeriu que ele transformasse essa jornada num filme. Que bom que alguém deu essa sugestão a ele.

É incrível como o realizador tem a capacidade de transformar a geografia do lugar em poesia visual. Parecido com o zigue-zague da cena do filme da criança que busca o colega para devolver o caderno, aqui há uma imagem semelhante, e ainda mais bela, numa escala maior. Fiquei com o coração na mão na cena do carro subindo uma estrada muito íngreme, como se fosse alguém tentando escalar uma montanha. A imagem é distante, e imagino que ver o filme numa telona deve ser ainda mais incrível, mas na telinha aquela cena me ganhou, tanto pela beleza das imagens, que parecem pinturas, quanto pelo grau de apreensão que nos provoca.

No filme há um casal de recém-casados que serão muito importantes em ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS. No filme de 1992, eles são marcantes, ainda que o tempo de tela deles seja pequeno. Os jovens resolveram se casar no dia seguinte ao terremoto. Ou seja, por mais que possa parecer estranho, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Afinal, se a vida é um gás, que pode acabar para milhares de pessoas numa única noite, por que não materializar logo um sonho enquanto há vida?

Enquanto estou vendo esses filmes do diretor, tenho lido aos poucos o livro Caminhos de Kiarostami, de Jean-Claude Bernadet, que há tempos tenho e só agora resolvi lê-lo num misto de acompanhamento linear do texto ensaístico de Bernadet, quando indo diretamente para momentos pontuais sobre os filmes mais recentemente vistos.

Uma das coisas que eu mais achei interessante no livro é o amor de Kiarostami por carros, e de como eles estão muito presentes em seus filmes. Essa observação não é nenhuma novidade: o que eu achei novidade foi pensar o quanto ele prefere o interior dos carros e os interiores ao interior das casas. E aí há a lembrança de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO?, e de como a casa é principalmente vista como um ambiente hostil à criança, seja a sua própria casa, quanto a casa do seu amigo, em que ele desiste de entrar já pertinho do final do filme.

Em E A VIDA CONTINUA, não vemos as pessoas entrarem nas casas. Quando entram, são casas destroçadas, sem teto, em ruínas. Nos próprios relatos, como o de uma pessoa que sobrevive ao terremoto por ter acordado no meio da noite pela picada de mosquitos e assim conseguir sair da casa, o sair das quatro paredes representa salvação, ainda que uma salvação triste, diante de uma tragédia de tal magnitude. Enfim, há muito o que admirar, pensar e escrever sobre Kiarostami e desta vez paro por aqui, mas voltarei em breve a falar sobre o diretor e seus filmes

+ TRÊS FILMES

A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO

Uma coisa que se percebe neste terceiro longa-metragem de Eliza Capai é que, mesmo trabalhando muitas vezes com o acaso e com um espaço geográfico simples e que valoriza principalmente exteriores, a cidadezinha de Guaribas, no sertão do Piauí, há um rigor formal tão presente quanto em seu trabalho anterior, INCOMPATÍVEL COM A VIDA (2023). Em A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO (2026), Capai dependia muito da performance das crianças, meninas na faixa de 10-11 anos, contando, através de sua forma ainda inocente de ver a vida, coisas como a mudança da infância para a adolescência, a conversa com suas mães sobre o início do namoro com seus pais, o brincar como principal prazer, inclusive na escola. Confesso que esperava encontrar mais contrastes entre a realidade daquelas meninas e a de suas mães e avós, mas o filme acaba apenas tangenciando esse assunto. Não que seja uma obrigação e acredito que o que ficou é fluido e as meninas são uma simpatia.

A NOITE DE ALAÍDE

Não conhecia nada de Alaíde Costa até ver este filme. Certamente já ouvi falar no nome dela, no quanto foi uma das cantoras mais importantes do período pré-bossa nova. Mas também soube aqui que foi um dos maiores nomes da bossa nova, também, que teve certo grau de amizade com João Gilberto, Tom Jobim e aquela patota rica lá do Rio de Janeiro, sendo ela a única mulher negra do grupo. Um dos destaques de A NOITE DE ALAÍDE (2025), de Liliane Mutti, não é nem o que o filme traz de informação sobre a vida e a obra da cantora, mas o recurso narrativo de construir uma espécie de animação em cima de atores reais. Como Richard Linklater fez em WAKING LIFE, mas com outra finalidade e outro traço. Ainda assim, essa parte mais fictícia do longa se mistura com imagens de arquivo, e isso ajuda a enriquecer o que captamos de Alaíde. E o que captamos é especialmente uma alma muito triste. Claro que vendo tudo pelo que passou, é fácil compreender que ela tenha ficado amargurada e até desacreditada das amizades e da sociedade, mas vemos também que esse namoro com a melancolia já parecia fazer parte de seu espírito desde a infância. Tudo bem que aquelas canções tristes dos anos 1940 não ajudavam muito. Se bem que muitos artistas surgidos na efervescente segunda metade dos anos 1960 também cresceram ouvindo essas canções no rádio.

FUTURO FUTURO

Eis um filme que achei difícil de me conectar. Falo por mim, já que FUTURO FUTURO (2025), de Davi Pretto, foi o grande vendedor do Festival de Brasília, papando os prêmios de melhor longa-metragem, roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador, que faz o papel de um homem desmemoriado que “acorda” numa cidade (ou num lado da cidade) que vive dependendo de auxílios do governo, uma comida que chega via drones. Nesse lugar, há também uma espécie de escola em que imagens exibidas em alta velocidade substituem o conhecimento. Só essa ideia de Davi Pretto não deixa de ser uma crítica bem-vinda ao consumo terrível das redes sociais nos dias de hoje, que vem substituindo a leitura profunda e a própria busca por pesquisa e conhecimento de outrora. O protagonista por ter em seu corpo uma marca da letra K passa a ser chamado de K, fazendo com que lembremos de Kafka e de seus heróis kafkianos. Davi Pretto também usa bastante IA para criar imagens do lado rico da cidade. Segundo o diretor, isso veio tanto da interrupção das filmagens por causa das enchentes sem precedentes que assolaram o Rio Grande do Sul, quanto da falta de recursos financeiros para concluir sua obra de outra maneira. Não deixa de funcionar também como um retrato distópico não do nosso futuro, mas do presente mesmo. Não sou muito fã das ficções científicas produzidas no Brasil, mas talvez seja o caso de eu buscar mais exemplares. (Adoro AMOR VORAZ, do Khouri, por exemplo, mas o que eu não gosto do Khouri mesmo?) Dos quatro longas-metragens de Davi Pretto, o que eu sigo gostando muito é CASTANHA (2014), seu primeiro. Os demais são obras que têm algo de etéreos ou impenetráveis, o que pode até ser uma intenção do autor, mas se há a intenção também de fazer algo mais onírico e atraente pela estranheza, vejo que esse estranhamento poderia causar mais atração em mim, que tanto gosto desse tipo de filme menos interessado em trama e mais em atmosfera. Porém, entendo que tenha muito a ver com sintonia. E falando em CASTANHA, João Carlos Castanha está neste novo filme, interpretando um senhor que o abriga.

domingo, agosto 02, 2026

A PROFESSORA DE PIANO (La Pianiste)

 
Tem sido quase surreal ver estes relançamentos dos anos 2000 e eu, com a ilusão de pensar que não faz tanto tempo assim, me vejo praticamente vendo um filme inédito. O fato é que 25 anos de intervalo entre a primeira e a segunda vez que vemos um filme é, sim, um longo intervalo. Preciso admitir que os anos 2000 já estão um bocado distantes. Além do mais, a remasterização de várias produções lançadas em película nessa época se faz cada vez mais necessária. Dito isso, tive a sorte de ver A PROFESSORA DE PIANO (2001) no Cinema do Dragão ontem numa sala quase lotada, principalmente de jovens cinéfilos, que já veem Michael Haneke como um mestre do cinema, por mais polêmico que ele continue sendo. Mas na época de A PROFESSORA DE PIANO, Haneke não era ainda o cara que havia ganhado duas palmas de ouro em Cannes – com A FITA BRANCA (2009) e com AMOR (2012).

A PROFESSORA DE PIANO é muito mais do que um filme ousado com sequências espinhosas de sexo e violência que levam sua classificação indicativa para 18 anos. O desnudamento espiritual da personagem de Isabelle Huppert se mostra muito mais importante do que as tais cenas de sexo, sejam as vistas por ela numa cabine de locadora de vídeos pornôs, sejam as cenas de sexo nos banheiros, com o personagem de Benoît Magimel. Huppert, como atriz gigante que é, faz aqui uma personagem complexa, com um misto de maldade em seus atos, mas também de vulnerabilidade, ao falar de suas fantasias sexuais de cunho sadomasoquista.

Costumo dizer que a primeira cena do filme costuma ser muitas vezes definidora do que veremos a seguir e às vezes até uma síntese ou mesmo uma alegoria da obra. E a primeira cena do filme nos apresenta a uma relação de dependência emocional e de abuso psicológico doméstico: Erika, a personagem de Huppert, uma mulher já madura, tendo que se justificar quanto ao fato de estar chegando mais tarde a sua mãe idosa (Annie Girardot) e também sobre o valor do vestido que comprara. E depois uma briga entre as duas que chega às vias de agressão física. Ou seja, já temos aqui um caso claro de duas personagens que criaram um tipo de relação tóxica que faz com que o sentimento entre as duas se apresente complexo.

Enquanto isso, os créditos do filme prosseguem, como que cortando com silêncios, aquele momento, como a gilete que cortará uma parte íntima da protagonista, como num sinal de necessidade de sentir, nem que seja a dor. Em determinado momento, quando Walter, o personagem de Magimel, se declara para Erika, ela diz que não tem sentimentos, que ele teria que aceitar as condições dela, condições que seriam explicitadas na longa carta, que mais parece um relatório seco de fantasias sexuais de cunho fetichista e masoquista, em que ela expõe sua vontade de se colocar não apenas como a pessoa passiva e também passível de violência física, como também deixa claro o desejo de ignorar e de se desprender da figura materna.

Haneke faz aqui uma espécie de destruição de um conto de fadas já em formato transgressor. Ou seja, Walter seria esse príncipe encantado que finalmente aparece na vida de Erika, para que suas fantasias finalmente se materializassem. Por mais que essas fantasias se apresentem doentias para Walter. Porém, uma vez que essas fantasias ganhem alguma materialidade ela percebe que talvez não seja exatamente aquilo que ela deseja. E percebe também que seus sentimentos existem, e que eles podem doer tanto que sua última ação no filme se apresente como justificável, compreensível.

Haneke é o cineasta da negação da alegria ou do final feliz. Seja mostrando um suicídio coletivo em família (O SÉTIMO CONTINENTE, 1989), a negação da ajuda espiritual nos últimos instantes de vida de um casal idoso (AMOR), ou a imensa crueldade de um grupo de jovens frente a uma família (VIOLÊNCIA GRATUITA, 1997). E em A PROFESSORA DE PIANO essa crueldade é muitas vezes mostrada em close-ups ou planos muito próximos, como na última cena de intimidade, por assim dizer, entre Erika e Walter. Aquilo é feito para incomodar mesmo, assim como a preferência por um plano geral, no fim, para enfatizar o sentimento imenso de dor e de abandono de Erika.

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O SEGUNDO ATO (Le Deuxième Acte)

Vários filmes franceses exibidos no ex-Festival Varilux são tão bijuteria que acabei não dando atenção a alguns trabalhos de Quentin Dupieux, que foram exibidos nesse festival. Na Mubi, três filmes do realizador, de 2023-2025, estão presentes e deu vontade de ver este O SEGUNDO ATO (2024), que, além de contar com uma trinca de astros maravilhosos (Louis Garrel, Léa Seydoux e Vincent Lindon), funciona como uma espécie de antídoto para quem estiver cansado de filmes que seguem a mesma fórmula narrativa. O SEGUNDO ATO já começa apostando em dois planos longos que vão definir a quebra da quarta parede e depois a certeza de que aqueles personagens são atores vivendo personagens. Ou o contrário. Ou, como diz o personagem de Garrel em determinado momento: a ficção é a realidade e a realidade é a ficção. Como o filme tem apenas 80 minutos, essa estrutura de brincadeira metalinguística funciona até que bem, embora não seja tão genial quanto gostaríamos, e começa a cansar a partir do momento em que o quarteto entra no restaurante. O SEGUNDO ATO é garantia de risadas e de ótimas performances dos quatros atores principais, muito à vontade nessa brincadeira de Dupieux.

SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (If I Had Legs I'd Kick You)

Uma das coisas que mais tem me fascinado atualmente é a safra de produções dirigidas por mulheres e que abordam o universo feminino com uma sensibilidade muito própria. Exemplares recentes, como HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET, A CRONOLOGIA DA ÁGUA e A MEIA-IRMÃ FEIA são títulos que não temem adentrar os aspectos sombrios de suas heroínas. SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025), apenas o segundo longa-metragem de Mary Bronstein, nos aproxima tanto de sua protagonista que a câmera está quase que o tempo inteiro em close-up, muitas vezes em super-close up do rosto de Rose Byrne, aqui em sua melhor atuação. Em alguns momentos, o filme nos oferece alguns respiros, quando se afasta fisicamente da personagem, mas esses momentos são os instantes de fuga dela. Byrne interpreta Linda, uma psicóloga que lida com uns pacientes bem estranhos, mas é sua vida pessoal que a está enlouquecendo, principalmente a sua filha, cujo rosto a câmera faz questão de não nos mostrar. É quase como uma inversão das animações do Charlie Brown, em que os adultos não são mostrados: aqui a mãe é mostrada e a criança é o "objeto" que faz com que ela se sinta incapaz como mãe e sempre preocupada por causa da saúde frágil da menina. O prólogo já é impressionante, com a cena do buraco no teto e de toda aquela água. E aqui vemos o elemento água, assim como em HAMNET, como um elemento tipicamente feminino, assim como o próprio buraco, que às vezes faz lembrar obras de David Cronenberg. A propósito, o fato de o filme não ter uma chave totalmente realista é muito positivo para o espectador. Assim, por mais intenso que seja todo o drama por que a heroína passa, esses momentos mais próximos do fantástico nos levam para um outro tipo de sentimento. Em nenhum momento o filme quer adotar uma chave de melodrama, inclusive. Se eu já gostava da Rose Byrne antes, agora, então... E que bom que tive a chance de ver no cinema: o som do filme é essencial para uma apreciação completa.

FILHOS (Vogter)

Se o filme anterior de Gustav Möller, CULPA (2018), se passa num único espaço, este aspecto é abraçado ainda mais neste novo filme, FILHOS (2024), a ponto de termos um sentimento de claustrofobia, ajudado pela janela clássica de 1,37:1, que, dependendo do uso, pode, sim, causar esse tipo de impressão na experiência do espectador. Isso se potencializa ainda mais pela trama, toda (ou quase toda) dentro de uma penitenciária dinamarquesa. Por mais limpa que seja, o espaço parece ainda mais desumano do que nas penitenciárias sujas brasileiras, já que o preso fica dentro de uma salinha fechada, sem espaço para fazer suas necessidades, inclusive. E é dentro desse lugar que trabalha a protagonista, Eva (a ótima atriz Sidse Babett Knudsen, de DEPOIS DO CASAMENTO). E já chama a atenção ter uma mulher convivendo com vários detentos, de forma destemida. Até que um dia surge um novo presidiário que vai trazer um novo sentido para sua vida. Dizer mais que isso pode atrapalhar um pouco as surpresas. Mas posso adiantar que esse sim é o tipo de filme de terror pra mim: e não o terror sobrenatural: esse é realidade na veia; realidade e brutalidade. A opção do diretor por uma fotografia menos limpa, apesar do local um pouco mais asséptico, contribui para esse realismo que o filme busca. Mas um realismo que está a serviço de uma tensão tão grande que chega a dar até certo mal-estar. Mas falo isso como um elogio.

sábado, agosto 01, 2026

ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (Khane-ye Doust Kodjast?)

 
Havia visto pela primeira vez ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987) em 2005, numa fita VHS da Cult Films. Rever em qualidade HD e com uma percepção melhor não só da filmografia de Abbas Kiarostami, mas do próprio cinema fez a diferença enorme. Embora tenha ficado fascinado com O GOSTO DE CEREJA (1997) quando o vi no cinema, na época não estava suficientemente focado em acompanhar filmografias, coisa que só aconteceria na década seguinte. Além do mais, o circuito local não ajudava: lembro de poucos filmes do cineasta iraniano sendo exibidos em circuito local posteriormente – lembro apenas de ABC ÁFRICA (2001) e CÓPIA FIEL (2010), mas sei que posso ter perdido um ou outro lançamento no Cinema de Arte, até porque havia um hype em torno do cinema iraniano a partir do início dos anos 1990, e principalmente por causa da grandeza de Kiarostami.

Embora seja costumeiramente tratado como sua primeira obra-prima e seu primeiro filme mais famoso, ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? já é um filme de um cineasta bem experiente, além de ser uma espécie de continuação de um tema que lhe era caro: o do ambiente nas escolas. Curtas, médias e longas como O RECREIO (1972), O VIAJANTE (1974), EU TAMBÉM POSSO FAZER (1975), DUAS SOLUÇÕES PARA UM PROBLEMA (1975), TRIBUTO AOS PROFESSORES (1977), FIRST CASE, SECOND CASE (1979), OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO (1984), antecederam sua obra mais famosa sobre o universo de estudantes e alunos. Depois, ainda faria um documentário sobre a questão da educação no Irã, chamado LIÇÃO DE CASA (1988), entrevistando alunos sobre seus pontos de vista acerca das atividades domiciliares.

A simplicidade da ideia de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? se equivale à genialidade no uso da câmera, dos silêncios, dos espaços, do suspense, da incerteza em torno da busca do menino protagonista, na intenção de devolver o caderno do coleguinha de classe, uma vez que o tal coleguinha já estava por um triz para ser expulso pelo professor, por esquecer o caderno ou não fazer as atividades em outras ocasiões. Temeroso pelo que poderia acontecer com o colega, o pequeno Ahmed, contrariando sua mãe, que não escuta nem quer entender seus motivos, sai de casa para empreender uma verdadeira odisseia a pé, já que ele não sabe onde fica a casa do colega, embora saiba que fica num lugar distante de onde ele mora.

Nesse trajeto, Kiarostami nos apresenta a um mundo adulto extremamente cruel, destaque para a conversa entre seu avô e outro homem: o avô afirma que no tempo dele, as crianças teriam que ser submetidas a surras regulares, mesmo que não tenham feito nada de errado. O filme vai ficando mais sombrio, à medida que a noite chega e os vilarejos se tornam mais escuros, mais desertos e o tempo parece mais instável e assustador para uma criança, como na cena em que, depois que um idoso o ajuda a chegar na suposta casa do menino a quem o protagonista procura, ele se assusta com uma forte ventania e acaba voltando. Isso provoca uma imensa tristeza e uma sensação de frustração no garoto, que decide voltar para casa, mesmo sabendo que vai ou pode levar uma surra do pai. E as cenas com esse homem idoso são enternecedoras: o homem anda muito lentamente por causa da idade, mas é uma das únicas pessoas que ele encontra que se mostra disposta a ajudá-lo. Além disso, há aquele detalhe da flor que ele lhe dá que seria importante para a última cena do filme, já na escola, no dia seguinte.

E, perto do fim, ainda veríamos sequências muito poderosas, pois também cheias de mistério, como a sequência em que o menino faz o dever de casa do colega e a porta se abre com uma forte ventania, enquanto a mãe está tirando a roupa do varal. São imagens aparentemente simples, mas que o cinema feito por um gigante é capaz de transformar em magia.

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A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFORO (Tulitikkutehtaan Tyttö)

Pela ausência de mais filmes de Aki Kaurimäki em nosso circuito – do autor, só vi no cinema O HOMEM SEM PASSADO (2002), O PORTO (2011) e FOLHAS DE OUTONO (2023) –, e talvez até de uma maior conversa sobre seus filmes por parte de vários cinéfilos, acabei deixando de ver muita coisa disponível, inclusive na Mubi. Falo isso, pois muitas vezes ouvir sobre os filmes, bem como ler sobre eles, ajuda a nos deixar instigados. Este A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFORO (1990), já o nono longa-metragem do realizador, tem um rigor formal admirável, e está prestes a sair do catálogo do streaming (por isso aproveitei para vê-lo). Possui aquele tom de melodrama mais seco característico do autor, mas, ao mesmo tempo, paradoxalmente bem melancólico, que faz com que não apenas admiremos a plástica do filme (uma das marcas do autor), como também nos importemos e soframos junto com a protagonista, a jovem Iris (Kati Outinen, colaboradora constante do diretor), a tal garota que trabalha numa fábrica de caixas de fósforo do título. O filme demora um pouco a apresentar pessoas: o que vemos nos primeiros minutos são os movimentos das máquinas da fábrica, e só depois vemos Iris, dando uns retoques finais na embalagem das caixas de fósforo, o que acaba denotando a exploração do trabalho humano e a figura dessa garota como uma peça na engrenagem. O fato de ela ser explorada também pelos pais e depois por um sujeito que ela conhece e a trata muito mal, faz com que nosso senso de moral seja posto de lado. Gosto das ações posteriores dela, o que me faz questionar meus próprios pensamentos.

PEQUENAS CRIATURAS

A pergunta que não quer calar: em 1986 não havia clínica veterinária em Brasília? No mais, uma bela surpresa este segundo longa-metragem de Anne Pinheiro Guimarães. Inclusive, fiquei muito curioso para ver seu primeiro longa, codirigido por Carolina Jabor, TRANSE (2022), que conta com dois atores de que eu gosto muito, Luisa Arraes e Johnny Massaro. As primeiras imagens de PEQUENAS CRIATURAS (2025), em fotografia scope lindona, já chamam a atenção, e nos faz perceber que há ali uma direção rigorosa, além de um cuidado para trabalhar com a direção de arte daquela época e lugar e tratar com carinho os personagens. Carolina Dieckmann é a protagonista da história, mãe de dois garotos, um adolescente e um ainda criança (o que gosta de usar a máscara do filme O PLANETA DOS MACACOS). Cada um dos três personagens tem sua força na história. A mulher sofre com a ausência do marido, que muito provavelmente está com outra; o adolescente se sente solitário e revoltado com aquele lugar quase abandonado, enquanto a criança procura se divertir enquanto pode, apesar de sentir a falta do pai para seu aniversário que está pertinho. Os demais personagens são estranhos que vão se tornando amigos, como o interesse romântico (Caio Ciocler) e a vizinha de cima (Letícia Sabatella), além do amigo do garoto e um sujeito estranho que tem fama de ser tarado. Adoro a cena final, no drive-in. Um filme que cresce na memória.

UM TRISTE E BELO MUNDO (Nujum Al'amal w Al'alam)

Lembrei-me do decepcionante e equivocado 8 DÉCADAS DE AMOR, do espanhol Julio Medem, recentemente visto, e vi o quanto este trabalho do libanês Cyril Aris é muito mais feliz na proposta de mostrar a história de amor de um homem e uma mulher em tempos distintos. Em UM TRISTE E BELO MUNDO (2025), porém, a proposta também traz a questão político-social envolvendo um país que vive em situações de guerra e sob ataques de Israel há muitos anos, como é o caso do Líbano. A história se inicia quando Yasmina e Nino, ainda crianças, marcam um encontro amoroso num lugar x. Um encontro que não acontecerá e que os dois só se encontrarão quando adultos e terão uma nova chance de viver um novo amor. Mas, enquanto Nino tem um apego maior a seu país e uma visão mais romântica dos relacionamentos, Yasmina é mais desapegada e acredita que não vale a pena permanecer em seu país, assim como também não sabe se acredita em casamento. A história é bem conduzida, enfatizando o carinho dos personagens e os altos e baixos da relação. Para quem sente falta de uma boa história de amor, creio que pode encontrar uma aqui, situada no turbulento Oriente Médio.

terça-feira, julho 28, 2026

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill)

 
Uma bela surpresa rever UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (1999) com a Giselle e perceber o quanto o filme ainda me ganha. Acho que até mais do que quando o vi pela primeira vez, provavelmente em agosto/1999, apenas poucos meses antes de conhecer a Giselle. Talvez o impacto tenha sido maior hoje pois estava desacostumado com esse tipo de comédia romântica tão bem cuidada, como eram as dos anos 1990 e início dos 2000.

E este trabalho de Roger Michell com roteiro de Richard Curtis tem também uma simplicidade que encanta. A simplicidade está na trama, mas o trato carinhoso com os personagens e a sofisticação visual em certas cenas fazem a diferença, como quando o personagem de Hugh Grant atravessa estações do ano enquanto caminha pelo seu bairro depois que a personagem de Julia Roberts o deixa. Cativou-me o quanto esses dois protagonistas são mostrados de forma quase despida, do ponto de vista emocional. Há uma cena em que Anna Scott, a atriz vivida por Roberts, tem o olhar inquieto de uma garotinha se declarando para um menino. E ele também revela que não está preparado para ter seu coração partido novamente, na antológica cena na livraria.

Então, há essa quase inocência que parece ausente dos filmes atuais. Então, quando me peguei em lágrimas nos momentos finais, com aquela cena do “sim” na coletiva de imprensa, puxa, aquilo ali é muito lindo. Só eles dois, William e Anna, sabiam o que estavam sentindo e o que viveram e passaram e o que pretendem viver (juntos) a partir de então. Mas também há algo de muito presente nas comédias românticas, que é o quanto a publicização do amor do casal frente a um determinado público, seja ele pequeno ou grande, é importante para a materialização da relação afetiva. Quase como um pré-casamento, uma espécie de noivado dos filmes.

E, nessa cena, em específico, Julia Roberts e Hugh Grant emprestam seus sorrisos de maneira tão genuína que tudo parece perfeito, ao som de “She”, interpretada brilhantemente por Elvis Costello. Grant, na época, era o maior astro de comédias românticas do cinema britânico. Havia feito QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL em 1994 (também com roteiro de Richard Curtis) e NOVE MESES e RAZÃO E SENSIBILIDADE em 1995. Juntar-se a uma atriz americana do porte de Julia Roberts naquele 1999 o tornou ainda maior no subgênero. O que ele costuma emprestar a seus personagens é geralmente um misto de timidez e sarcasmo; e às vezes um pouco de cinismo. E Julia tem aquele sorrisão imenso, aquela aura de estrela que foi revelada em UMA LINDA MULHER. E considero o seu papel neste filme de Michell um dos melhores de sua carreira, até pelo quanto ela consegue combinar a dor e a delícia de ser uma estrela de Hollywood com certa vulnerabilidade diante de um homem por quem está apaixonada.

Uma coisa, porém, que não mencionei até agora é o quanto o sucesso do filme também se deve aos momentos engraçados, quanto o personagem do colega de aluguel de Grant, vivido por Rhys Ifans, o Spike, é importante para que o riso venha fácil. É um personagem que lembra um pouco o Kramer da série SEINFELD pelo jeito excêntrico de ser. E aí temos também os familiares do protagonista e a cena do jantar com Anna Scott, que é outro momento delicioso e que ajuda também a apresentar outros coadjuvantes importantes, inclusive para a conclusão da trama. Conquistar o riso do espectador é uma ótima maneira de pegá-lo desprevenido e chorando lá no final. Parabéns aos envolvidos.

+ TRÊS FILMES

PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (Wicked Little Letters)

É legal ver PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (2023), de Thea Sharrock, agora, sob a perspectiva de já ter visto Jessie Buckley brilhar em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET e como franco-favorita ao Oscar de melhor atriz. Nesta comédia ambientada na Inglaterra rural dos anos 1920, ela é uma jovem mãe irlandesa cujo comportamento mais libertário choca parte de uma pequena comunidade. Ela se vê enredada numa teia de intrigas acerca de cartas de teor violento e contendo palavras de baixo calão enviadas à personagem de Olivia Colman, uma solteirona beata que mora com os pais idosos. A partir do momento que a personagem de Buckley é presa como principal suspeita do envio das tais cartas, passamos a observar o comportamento machista e misógino dessa comunidade, a começar pela personagem da policial, que precisa ser lembrada que é uma policial mulher, com restrições em suas ações na delegacia e proibida de investigar o caso. Quando essa personagem policial (Anjana Vasan) ganha mais protagonismo na trama, esse aspecto mais misógino dos personagens vai de encontro com o quanto o filme passa a mostrar as mulheres ajudando umas às outras no julgamento e na investigação. Mesmo quando o filme apresenta a rivalidade entre as duas personagens principais, vemos essa situação mais como fruto de uma sociedade patriarcal que pune e oprime as mulheres do que como ações malignas de determinada personagem. A diretora de COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (2016) constrói uma história que deixa claro o carinho por suas personagens femininas, assim como destaca também uma série de situações tanto de vulnerabilidade quanto de coragem dessas mulheres.

LEGALMENTE LOIRA (Legally Blonde)

Na época que este filme estreou no circuito, eu confesso que tive certo preconceito. Provavelmente não estava muito disposto a diversões aparentemente mais despretensiosas, embora muitas vezes aquilo que se apresenta desta maneira guarde mais valor do que muito filme dito "de arte" por aí. LEGALMENTE LOIRA (2001), de de Robert Luketic, entrou no cardápio da Mubi e, rolando as opções do streaming com a Giselle, ela escolheu este filme, que eu não lembrava se havia visto ou não – depois vi que não havia assistido mesmo. E tive uma surpresa muito boa, e não foi de nostalgia ao ver gente como Selma Blair e Ali Larter (e até a diva dos anos 1960 Raquel Welch), mas principalmente a boa condução narrativa, a jornada da heroína subestimada que vai a uma faculdade de elite intelectual (o curso de Direito de Harvard) para mostrar seu valor para o ex-namorado. Sua intenção pode até ter sido fútil, mas é também digna. Reese Witherspoon está uma graça como essa garota rica e de bom coração, mas de estilo superficial, que leva essa generosidade e leveza a um lugar onde habitam pessoas de nariz empinado. Com sua cara de sessão da tarde, o filme aparece na curadoria da Mubi por algum motivo que vai além da forma, creio eu. Está mais ligado aos aspectos de sororidade e feminismo. Além do mais, este é um daqueles casos de comédias que se tornam clássicos com o tempo, pelo impacto que provoca no público e pelo quanto se mantém viva ao longo dos anos. Atualmente há uma série com uma proposta de ser uma prequel de LEGALMENTE LOIRA, de nome ELLE, estrelada pela jovem Lexi Minetree, e focando na vida de Elle na escola.

TOY STORY 5

Que gostoso sentir novamente o encantamento do primeiro TOY STORY (1995) neste quinto filme da franquia, realizado 31 anos após o original. Há tempos dizem que essas continuações são caça-níqueis (na verdade, caça-milhões), mas se há uma boa história para contar e um bom desenvolvimento de personagens e direção, essa já é uma boa justificativa. TOY STORY 5 (2026), de McKenna Harris e Andrew Stanton, é o primeiro que conta com uma mulher na direção (ainda que codireção) e aqui foi necessário para garantir uma sensibilidade feminina, pois a protagonista da vez é Jessie, a vaqueira de brinquedo que se revela extremamente carismática quando sai de cena (parcialmente) o caubói Woody. É ela a condutora da ação, aquela que mais sofre e mais luta para que sua criança, a pequena Bonnie, sentindo-se solitária e sem meninos de sua idade para brincar com ela, enfrenta a nova era de tecnologia, a do consumo abusivo de telas. O pequeno dinossauro de brinquedo chora, dizendo que não aguentará uma nova extinção. O filme tem uma sensibilidade muito própria, tornando-nos interessados pela trama e pelo drama dos personagens, tanto dos brinquedos quanto dos humanos, aqui alheios ao que está acontecendo ao redor, com os brinquedos correndo para diferentes casas, montando cavalos e subindo em carros, tudo para cuidar melhor de Bonnie. A intenção de Jessie, Buzz e cia. é menos evitar que eles se tornem rejeitados e ultrapassados diante da nova conjuntura, e mais em diminuir o sofrimento de Bonnie, que se vê numa situação de negar a si mesma para não se sentir tão diferente das outras crianças, que praticam bullying na menina por ainda brincar com bonecos. No mais, achei lindo esse novo passo mais romântico da cinessérie, ao trazer um Buzz apaixonado e com a intenção de pedir Jessie em casamento, lutando contra a timidez e a insegurança para fazer o pedido. TOY STORY 5 é daqueles filmes que transbordam amor. E faz isso com inteligência, sensibilidade e muito humor. E ainda introduz novos personagens muito bons.