sábado, setembro 12, 2026

SUCCUBUS (Necronomicon – Geträumte Sünden)

 
“Nunca me passou pela cabeça que um dia eu tivesse coragem de ver vinte, trinta filmes do Jesús Franco, um cineasta horrível. Eu precisei ver trinta filmes do Jesús Franco pra ver duas obras-primas. O resto é muito ruim, muito ruim. Em todos os sentidos, ele era porco pra filmar. Bota porco nisso. Mas quando ele acerta, talvez pelo fato de ter trabalhado com todos os grandes… Succubus é uma obra-prima. Succubus acho que inclusive é Mulholland Drive antes de Mulholland Drive. Esse vale a pena. O outro é Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa. É uma beleza de filme. Um filme simples, ao mesmo tempo extremamente delicado…” 
Carlos Reichenbach

Eu ando numa fase de acreditar que o nosso tempo não é o bastante. E não me refiro nem a nossa curta existência, pois sei que um dia estamos aqui e no outro já podemos não estar mais. Não tenho a quase certeza de que viverei até os meus oitenta e tantos anos. O que muitas vezes me deixa inquieto é sair para o trabalho e ver o tanto de boxes de DVDs e BluRays em minha estante, ver a pilha de livros e HQs, e saber que em meu tempo de descanso, o chamado terceiro turno, provavelmente não terei mais energia para ver um filme, embora às vezes, com sorte, até calhe de ter. E quanto à escolha dos filmes, muitas vezes não sou eu quem os escolhe; são eles que me escolhem.

Foi assim que, na dúvida entre se pegava algo dos vários boxes da Versátil ou fuçava meus HDs externos, vejo que havia baixado, não faz muito tempo, este filme de Jesús Franco que Carlão Reichenbach louvou em entrevista gravada em 2004 para uma equipe, se não me engano, da Contracampo, uma importante revista eletrônica de crítica de cinema dos anos 2000. Na entrevista perdida e resgatada nos últimos anos estavam Francisco Guarnieri, Guilherme Martins e Ruy Gardnier. Vale procurar o papo completo, disponível no ótimo site Multiplot!

Pois bem. Dou play em SUCCUBUS (1968) e percebo o quanto o filme é típico do espírito desse ano tão singular. O cinema produzido neste ano quase sempre tem algo de onírico, experimental, de transgressor, de buscador de novos caminhos para a linguagem cinematográfica, de antena para a ambientação pós-psicodélica desses tempos.

SUCCUBUS é também um filme recheado de erotismo (Fritz Lang chegou a dizer que foi o filme erótico que mais lhe agradou), mas um erotismo que também tem algo de cabeçudo, de godardiano, no sentido de fazer citações explícitas a autores. Numa das minhas cenas favoritas, Janine Reynaud, atriz presente no giallo A CAUDA DO ESCORPIÃO, de Sergio Martino, sai de casa com um vestido branco provocante, de costas nuas, sem mais nada por baixo, e conversa com um homem num bar. O barman tem como única vestimenta uma espécie de gravata. E o diálogo com o homem mais velho (este, vestido de terno) se dá como numa espécie de disputa, de embate intelectual. O homem (Howard Vernon, de O SILÊNCIO DO MAR, de Jean-Pierre Melville) diz o nome de um autor (da literatura, do cinema) e ela deve responder com uma palavra. Ele diz Godard, ela responde limão; Faulkner, touro; Henry Miller, doces pássaros etc. Então ele diz Robbe-Grillet e ela não consegue dizer palavra alguma, entregando a ele um de seus sapatos. Percebe-se, então, que se trata de uma espécie de strip poker. Ao nome de Justine, ela diz amor; ao nome amor, carne.

Enquanto isso, há a inventividade do uso de uma grande lupa para enfatizar/aumentar o tamanho na tela dos belos olhos e boca de Reynaud. As últimas respostas da mulher enfatizam seu desejo pela volúpia: religião, Gomorra; passado, Sade. A opção pela imagem dos dois dançando com a gaiola de um pássaro à frente e um tipo de janela de vidro que remete a uma prisão atrás é outro detalhe interessante. Assim como é interessante o grau de erotismo que o filme tão bem enfatiza, sem que precise apelar para o pornográfico. Vale destacar também outra das respostas de Reynaud: Hitchcock, olho.

O filme também explora a ambientação externa da cidade (as locações são em Portugal e na Alemanha), fazendo com que não nos importemos tanto com a trama. Embora haja uma trama de assassinato e possessão, embora haja um ambiente de um espaço que explora espetáculos de sadomasoquismo (a primeira cena do filme apresenta o que parece ser um misto de tortura sangrenta com desejo). Em determinado momento, a comparação que Reichenbach faz com CIDADE DOS SONHOS parece já fazer bastante sentido.

A ambientação daqueles tempos, de sexo, drogas e rock’n’roll, sendo que aqui o rock é trocado por jazz, dá espaço para que, no momento do uso do LSD em cubos de açúcar numa festa, os personagens se entreguem ao que suas mentes veem, ao que seus corpos sentem, como no momento que Reynaud rola pelo chão, convidando os demais para que ajam feito cães pelo chão. O mais interessante é pensar que o filme, a partir do roteiro, tenha sido gerado sob a influência desse alucinógeno. Por outro lado, Franco parece ter um cuidado tão grande com a imagem que a gente logo descarta essa hipótese. Ainda sobre o filmar o erotismo, há uma cena que achei linda e sofisticada: quando o casal principal transa no chão e a câmera os mostra desfocados atrás do aquário. Só depois que o foco muda para os dois. O sexo também é interessante quando se une à violência do jogo de poder do casal amarrado e indefeso diante de uma mulher cheia de desejo e com uma faca na mão. Não gosto tanto da conclusão, mas há tantos momentos brilhantes em SUCCUBUS que o que não me encantou merece ser relevado. 

Por enquanto, até onde sei não existe uma cópia remasterizada em alta definição de SUCCUBUS, embora já existam outros filmes do cineasta ganhando remasterização em 4K ou em excelente qualidade de imagem em BluRay. Inclusive, recentemente a Versátil Home Video incluiu SEM ROSTO (1988), a partir de uma remasterização 4K, no box Obras-Primas do Terror – Anos 80 3

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OS OLHOS DE LAURA MARS (Eyes of Laura Mars)

Cinco anos atrás eu vi no cinema a obra-prima de James Wan MALIGNO, e na época o cineasta dizia que uma de suas principais influências foi OS OLHOS DE LAURA MARS (1978), filme nascido por causa do sucesso dos gialli no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. John Carpenter é um dos roteiristas, mas um cineasta não-autor, Irvin Kershner, que dirigiria o ótimo O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (1980) num futuro próximo, é quem comanda este suspense com toques misteriosos e pouco realistas, sobre uma fotógrafa de moda (Faye Dunaway) que enxerga pelos olhos de um assassino serial enquanto o sujeito está executando alguém do círculo de amizades da fotógrafa. Tommy Lee Jones é o detetive de polícia responsável por investigar o caso. O final é horroroso, e o romance entre os dois personagens é bem ruim, mas o filme é um retrato muito interessante de sua época, dos tempos da discoteca e do hedonismo. Para um whodunit, OS OLHOS DE LAURA MARS não deixa de ser interessante e tem seu brilho próprio apesar de acabar sendo uma versão açucarada do que poderia ser um giallo made in USA. Há uma preocupação em não mostrar a violência gráfica e a música de Barbra Streisand se destaca no início e no fim do filme, como que para vender o produto como uma espécie de drama romântico e conquistar um público maior. No fim das contas, não é nem terror nem história de amor, embora queira ser ambas. Ou seja, enquanto o cinema europeu mostrava coragem, o cinema hollywoodiano mostrava certa covardia. Filme visto no box Obras-Primas do Cinema – Psicopatas.

O ESQUARTEJADOR / THE SLAYER – O ASSASSINO (The Slayer)

Meu interesse pelo slasher vem menos pelo entretenimento familiar sobre grupos de pessoas sendo mortas por um assassino à solta, geralmente numa embalagem pop, especialmente se foi realizará nos anos 1980, o auge do subgênero, e mais por encontrar, dentro dessas produções baratas qualidades muitas vezes surpreendentes, quando a gente sabe que a maioria dessas produções artesanais, mas feitas quase em ritmo industrial naquela primeira metade da década de 80. E de vez quando um desses filmes que não parece valer muita coisa traz algo de muito incentivo e mágico. Eu diria que muito da força de O ESQUARTEJADOR (1982), de J.S. Cardone, esteja na protagonista, aquela que a gente sabe que é a mais próxima de ser uma final girl. E ela meio que sumiu dos filmes depois dessa experiência como a heroína, uma mulher atormentada por pesadelos, que é convencida pelo marido e irmão a viajarem de férias para uma ilha deserta. Chegando lá, coisas misteriosas acontecem e há todo um clima em torno de uma tempestade. Ainda acho que o filme podia ser um pouco menor, mas adoro a textura, a interpretação de Sarah Keldall, que parece destoar da dos demais. Não comprei muito o final, mas isso é até um detalhe para um filme que não tinha um roteiro decente, dinheiro pata a produção, mas havia uma bela locação e uma atriz inspirada. Filme visto no box Slashers XVII.

MEDO EM CHERRY FALLS (Cherry Falls)

Acredito que, na virada do milênio, o subgênero slasher, que havia conseguido ser revitalizado a partir de PÂNICO, de Wes Craven, suas continuações e outros sucessos comerciais que vieram na esteira, começou a sair de moda novamente. E isso explica que uma produção relativamente cara como MEDO EM CHERRY FALLS (1999), que chegou a ser exibido em Cannes e comercializado para diversos países, foi lançado direto para a televisão nos Estados Unidos. A ideia para o filme me pareceu bem divertida: um serial killer que tem como modus operandi matar moças e rapazes virgens. E o mais legal é que, quando se descobre isso, os adolescentes virgens da escola preparam uma festa de fim da virgindade, uma grande orgia. E a palavra “orgia” foi bem pensada pelo roteirista do filme, mas, em se tratando de Hollywood, dá para imaginar que certas ousadias foram cortadas. Então, não deixa de ser ridículo que na hora da tal orgia todo mundo está com sua roupa de baixo. A melhor coisa do filme é Brittany Murphy, com sua doçura e vulnerabilidade. Ela é a filha do policial que namora um sujeito que há tempos quer transar com ela e ela hesita. A primeira cena do filme é um prólogo com o assassino (ou assassina) fazendo duas vítimas: um jovem casal que estava namorando no carro perto do rio. Depois, o filme vai ganhando mais leveza, à medida que as cenas na escola vão sendo mostradas. Não é um grande filme, mas prende a atenção, tem uma conclusão divertida e memorável e algumas boas ideias que certamente seriam melhor executadas com um diretor mais talentoso. Uma curiosidade: o roteiro do filme chegou a ser oferecido a David Lynch, que declinou gentilmente, dizendo já estar com um outro projeto. Filme visto no box Slashers XVII.

domingo, setembro 06, 2026

CLOSE-UP (Nema-ye Nazdik)

 
“Em algumas ocasiões temos vontade de ser outra pessoa, porque estamos cansados de ser nós mesmos.”
Abbas Kiarostami


Na época que estagiava no Banco do Nordeste conheci um rapaz que, com o tempo, foi sofrendo de um tipo de problema que às vezes me assustava, às vezes me aborrecia. Procurando pelo nome dessa condição, parece se chamar mitomania. Ele dizia, por exemplo, que havia se encontrado com a Norah Jones no café ou com outro cantor ou astro de Hollywood famoso, ou que estava com uma viagem agendada para Los Angeles, pois estava prestes a fazer um filme nos Estados Unidos etc. Uma vez, confesso que não estava psicologicamente bem para escutar com leveza essas coisas e me afastei dele, quando ele apareceu num festival de cinema para conversar comigo. Lembro também que ele teve, numa das visitas que me fazia na Cabec (a empresa onde trabalhei por 20 anos), num acesso de lucidez, ele comentou sobre a coisa que lhe afligia praticamente todos os dias: acordar de manhã e não saber se ia ter dinheiro para pagar a passagem de ônibus ou para comer alguma coisa.

Lembrei desse rapaz quando vi, emocionado, CLOSE-UP (1990), obra-prima do saudoso mestre Abbas Kiarostami. Trata-se de um de seus filmes mais diferentes, por parecer um documentário, ao mesmo tempo que tem sua assinatura muito visível. Digo diferente, pois comecei a escrever este texto antes de ter visto E VIDA CONTINUA (1992), que já faz essa confusão gostosa entre documentário e ficção. A própria sinopse de CLOSE-UP diz que se trata da história real de Hossain Sabzian, um cinéfilo, que finge ser o famoso cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf para enganar uma família. O filme já começa com um jornalista investigativo pegando um taxi junto a dois policiais a fim de flagrar o tal farsante, enquanto ele estava ainda na casa da família a quem estava enganando. Seria um furo de investigação. Essa cena é a que mais se parece com uma encenação, até por não termos a presença do diretor, mas uma câmera está dentro do carro, registrando a cena. Aliás, tanto Kiarostami quanto Jafar Panahi adoram filmar dentro de carros. Mais à frente, a cena será filmada de outra ponto de vista, quando Kiarostami borra mais uma vez as fronteiras daquilo que parece ser um documentário e um filme de ficção.

Logo depois, após a prisão de Sabzian, vemos o diretor entrevistando a família prejudicada pelas mentiras do rapaz, dando um ar de documentário mais tradicional, embora também pareça encenado, e também conversando com pessoas da lei, com o objetivo de filmar o julgamento de Sabzian, algo que não era muito comum ou permitido. A pergunta que mais Kiarostami fazia para o rapaz era por que ele havia feito aquilo. E por que ele continuou fazendo. O bonito de tudo isso é o quanto o diretor (e o filme em si) tem esse olhar carinhoso e até caridoso com esse homem que poderia muito bem ser demonizado.

Tenho lido o livro Caminhos de Kiarostami, de Jean-Claude Bernadet, aos poucos, enquanto retorno ou vejo filmes inéditos para mim do mestre iraniano. E há um trecho do livro em que Bernadet fala sobre o quanto as casas costumam ser espaços de hostilidade. Em ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987), a casa já era vista dessa forma em pelo menos duas ocasiões: quando o menino tenta conversar com a mãe e não é compreendido para devolver o caderno do seu colega; e quando ele finalmente chega a essa casa, mas algo misterioso faz com que ele não entre. O espaço que parece menos hostil é o espaço exterior, por mais agressivo que possa ser.

Em CLOSE-UP, quando o filme começa, não vemos, inicialmente, o momento em que Sabzian é preso pelos policiais. O carro fica esperando enquanto ele é trazido. Quando vemos a casa do ponto de vista do que aconteceu, é para ver o personagem ser preso. Os espaços fechados são apresentados como espaços de prisão, sendo o carro uma espécie de atenuante, já que é uma espécie de casa em movimento, de terapia (DEZ, 2002), de tentativa de fuga (GOSTO DE CEREJA, 1997), de busca (E A VIDA CONTINUA) e até de salvação (O VENTO NOS LEVARÁ, 1999).

Há um trecho no livro de Bernadet intitulado “Eliminação do Diretor”, em que alguém, conversando com Kiarostami sobre CLOSE-UP acreditava ser esse um filme sem diretor. E o cineasta, em vez de ficar chateado, acabou achando aquilo genial: um filme sem diretor. Disse: “Meu grande desejo é um dia poder fazer cinema sem câmera, sem microfone, sem equipe; ou então encontrar um meio definitivo de fazer o ator esquecer a onipresença desse instrumento constantemente apontado por ele.” É com se Kiarostami estivesse ao mesmo tempo pensando num cinema do futuro e pensando num cinema espiritual, por assim dizer. O filmar como gesto criativo vinculado a algum tipo de espiritualidade. Para um cineasta tão humanista e também tão crente no lado bom das pessoas, começo a ver essa sua declaração mais enigmática do que exatamente prática.

Outra coisa que merece ser mencionada sobre CLOSE-UP está na cena em que Sabzian e se encontra com o cineasta Mohsen Makhmalbaf, aquele que ele tanto admirava e que acabou por se fazer passar. Mas Makhmalbaf está ali para abraçar (do ponto de vista metafórico, principalmente) aquele homem que passou já pela humilhação da prisão, depois de ter vivido continuamente a humilhação de não ter o que dar de alimento para sua mulher e seu filho. E não importa se a cena foi encenada. Não importa também se a falha no microfone foi deliberada pelo próprio Kiarostami na pós-produção, de modo a obter um efeito dramático.

O que importa é que ele obteve e que as imagens com as falas cortadas são cheias de amor, assim como as imagens de Sabzian sentado na garupa da moto do diretor com flores para entregar à família a quem mentiu, como num gesto de desculpas, de pedido de perdão àquelas pessoas. E Kiarostami tem a mágica de não necessitar do close-up em cenas emocionantes, como na última cena de E VIDA CONTINUA, por exemplo. Aqui não é diferente e é até preferível que aquela distância da câmera de Kiarostami para a fachada da casa da família tenha sido a opção mais bonita e mais sábia para a criação de uma emoção transcendental, algo que o diretor iraniano consegue tão bem criar.

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MÃE E FILHO (Zan va Bache)

Não sei se dá para generalizar, mas há algo na sensibilidade dos cineastas iranianos que muito me toca. Este MÃE E FILHO (2025) parece herdeiro dos melhores melodramas dos mais variados países com essa tradição (Itália, México, Estados Unidos, Espanha), mas com aquele tempero muito próprio da cultura iraniana, que sabe lidar muito bem com questões familiares e existenciais. Um dos atores principais, inclusive, Payman Maadi, é conhecido de quem viu PROCURANDO ELLY e A SEPARAÇÃO, ambos de Asghar Farhadi. O filme me surpreendeu positivamente, até porque eu esperava encontrar um filme que abordasse o universo do filho adolescente e o de sua mãe. Para minha alegria, o foco é maior no drama dos adultos, dessa personagem fascinante que é Mahnaz (Parinaz Izadyar), enfermeira, mãe solteira de um adolescente e uma criança menor. Enquanto isso, ela se prepara para casar com o colega de trabalho, Hamid (Maadi), um sujeito que não é exatamente um exemplo de honestidade. No meio disso tudo, dois outros eventos impactam a vida da protagonista e de todos, de tal modo que me peguei comovido com diversas situações. Até pela facilidade que tenho por me comover com as dores das mães. MÃE E FILHO pode até não ser tão carregado de denúncias políticas do estado iraniano, mas é político à sua maneira, além de extremamente humano. Uma das últimas, se não a última cena do filme, com a mãe, as duas filhas e o neto, é de um amor que transborda, que nos inunda. Até cheguei a pensar que Saeed Roustayi era o nome de uma diretora, de tão sensível que esse cineasta é com suas personagens femininas, além de crítico do papel do homem nas famílias. Um dos meus filmes favoritos do ano. 

TÁXI TEERÃ (Taxi)

Jafar Panahi é uma simpatia. E por isso que eu dou preferência a seus filmes estrelados por ele mesmo, interpretando a si mesmo. Em determinado momento de TÁXI TEERÃ (2015), um estudante de cinema pergunta a ele como fazer para conseguir uma ideia para seu filme, e Panahi diz que ele deve sair para o mundo, sair de casa de modo a buscar suas próprias ideias, seu próprio olhar, pois os outros filmes já foram feitos por outros diretores. Não sei se a ideia de ambientar um filme num táxi com o próprio diretor propondo uma amostra da realidade de seu país, uma amostra proibida pelas regras do regime iraniano, mas certamente este é um filme singular pelas circunstâncias e pela própria assinatura de Panahi, alguém que consegue fazer das objeções e proibições obras de arte inventivas. Há ecos de FOI APENAS UM ACIDENTE, digo, há antecipações, em especial na cena em que Panahi encontra uma amiga que está prestes a encontrar um amigo na prisão, uma prisão política, como já aconteceu com ela e o próprio cineasta. Dos personagens surgidos no filme, se destaca um vendedor de CDs piratas, o que é genial para que o diretor destaque também a impossibilidade que os iranianos têm de ver filmes de várias outras nacionalidades, a não ser pelo meio pirata. Ou seja, o espírito corsário é ainda mais imperativo para quem deseja ter contato com o cinema mundial naquele país.

FOI APENAS UM ACIDENTE (Yek Tasadef Sadeh)

A lembrança de um filme incrível como 3 FACES (2018) mais uma vez não se repetiu com este novo e hypado FOI APENAS UM ACIDENTE (2025). Algo parecido havia acontecido com SEM URSOS (2022). O hype prejudica, mas aqui eu também senti falta do próprio Jafar Panahi atuando. De todo modo, o filme me ganhou especialmente quando conseguiu transformar um drama pesadíssimo e violento em uma comédia absurda que faz refletir sobre nossas próprias ações, sobre nossa humanidade. O que fazer quando encontramos o homem que foi o nosso torturador no passado dentro de um país que ainda mantém o mesmo regime e que você não pode ter a lei a seu favor? Inclusive, a cena dos dois homens da lei perguntando o que estava havendo, e também querendo algum dinheiro, mostrando a corrupção como também mostrado em O AGENTE SECRETO do KMF é exemplo desse sistema que não muda, o sistema que, inclusive, nos últimos dias, sentenciou novamente Panahi a prisão, ele que já foi preso outras vezes por insistir em expor o que há de podre no Irã pós-revolução islâmica. Aliás, eu acredito que a Palma de Ouro possa ter vindo para o filme mais por uma questão política, da situação de Panahi, e também pelo conjunto de sua obra (que é admirável, com mais de 30 anos encantando as plateias). De todo modo, um prazer poder ver este trabalho, que carrega o veneno e o amor em doses semelhantes. Que Panahi consiga vencer mais essa dura batalha em seu país e que volte com um novo filme no futuro.

sábado, setembro 05, 2026

HOMEM-ARANHA – UM NOVO DIA (Spider-Man – Brand New Day)

 
De vez em quando eu consigo um tempinho para atualizar este blog. No último dia 29 de agosto ele fez 24 anos. Ou seja, no próximo ano o Diário de um Cinéfilo completará um quarto de século de existência e ainda há pessoas que de vez em quando descobrem o blog, escrevem comentários e dizem que vão passar a seguir. E pra mim é um espaço que também funciona como uma viagem no tempo, com a redescoberta de textos que eu escrevi no passado e que não me lembrava mais o que tinha escrito, de que maneira determinado filme tinha me pegado etc. E gosto quando fico satisfeito com o texto, quando é um filme que eu já tinha visto antes e acho que não preciso de um texto novo para ele, até porque é tanto filme para ver, livros e quadrinhos para ler e tão pouco tempo disponível para as coisas de que gosto.

Aliás, já que vamos falar de uma adaptação de quadrinhos, não custa lembrar que continuo sendo leitor de quadrinhos, que estou muito entusiasmado com os Absolutes da DC e um tanto animado com alguns títulos da Marvel também, embora a chamada Casa de Ideias esteja passando atualmente por uma fase de crise de criatividade. Não estou lendo a fase atual do Homem-Aranha, por exemplo, mas dizem que não é boa. Os filmes do Homem-Aranha, tanto os da fase do Sam Raimi (2002-04-07) e os dois dirigidos por Mar Webb (2012-14) foram filmes que de alguma maneira tentam se aproximar do herói dos quadrinhos, ainda que busquem maneiras diferentes de inovar. Estão ambos sob os direitos da Sony e o Homem-Aranha, sendo o principal herói da editora, era muito visado para que estivesse no MCU. E, com um acordo, a Sony conseguiu essa união com a Disney e o Aranha passou a conviver com os outros heróis que começaram a aparecer a partir do filme inaugural do MCU, HOMEM DE FERRO, de Jon Favreau.

Nunca me animei muito com esse Homem-Aranha do Tom Holland, que apareceu pela primeira vez em CAPITÃO AMÉRICA – GUERRA CIVIL (2016), dos irmãos Russo e que ganhou o primeiro filme-solo com HOMEM-ARANHA – DE VOLTA AO LAR (2017), de Jon Watts. Toda aquela coisa de fazer dele uma espécie de mascote do Tony Stark no começo era algo que me incomodava um pouco. Sem falar na cara de menino do ator. Mas eis que chega o quarto filme (fiquei admirado com o fato de já ser o quarto, já que pouco me lembro dos dois primeiros) e Holland começou a envelhecer bem.

Além do mais, as mudanças que a Marvel está propondo para os filmes do MCU, depois de tanta tranqueira produzida nos últimos anos, estão surtindo algum efeito, embora eu continue achando que investir em cineastas não-autores ou investir em autores para cortar as asas deles (como fizeram com Sam Raimi e Chloé Zhao) seja um erro. De todo modo, compreendo a intenção de manter as produções nos trilhos e considero acertos filmes mais recentes, como THUNDERBOLTS* e QUARTETO FANTÁSTICO – PRIMEIROS PASSOS, que funcionam individualmente e não apenas como mais um tijolinho desse universo cinematográfico.

Em HOMEM-ARANHA – UM NOVO DIA (2026), o Aranha/Peter Parker de Tom Holland finalmente ganha uma maior semelhança com o herói dos quadrinhos, agora que aparece mais solitário e angustiado, mas sem perder o bom humor. Zendaya segue mostrando por que é uma das atrizes mais importantes da atualidade e faz um MJ carismática e capaz de nos fazer comprar o amor de Peter por ela. E o filme também aproveita três heróis (ou anti-heróis) importantes da Marvel, o Hulk (Mark Ruffalo), o Justiceiro (Jon Bernthal) e uma certa (futura) x-men que todo mundo já sabe quem é vivida por Sadie Sink. Aliás, a atriz é outro acerto mirando o público jovem, por ter um papel importante na série STRANGER THINGS. Ah, e não podemos esquecer de Yelena Belova, vivida pela sempre carismática Florence Pugh. Sua principal cena no filme é até bem ousada no quesito sensualidade para uma produção da Marvel/Disney.

Considero um tanto problemático o ritmo do filme, que parece ter bem mais que as suas 2h25min. Para quem viu A ODISEIA e não sentiu o tempo passar, pode fazer uma imediata comparação. Sem falar nos efeitos especiais com tanto CGI que parece videogame de 10 anos atrás. Ainda assim, é fácil relevar e sabemos o quanto seria complicado fazer, por exemplo, uma luta do Aranha com o Hulk mais realista do que a que ficou. Além do mais, a participação de Marisa Tomei no filme é um dos momentos mais bonitos na história da Marvel no cinema. HOMEM-ARANHA – UM NOVO DIA contou com a direção de Destin Daniel Cretton, que já havia feito para a divisão da Marvel no cinema SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANÉIS (2021), que eu considero um tanto chato. 

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SUPERGIRL

Acredito que se não existisse a ótima HQ Supergirl – Mulher do Amanhã, de Tom King e Bilquis Evely, o idealizador deste novo momento da DC no cinema James Gunn não teria pensado num filme para a heroína. Embora não seja uma adaptação fiel, por assim dizer, da história da HQ, o filme de Craig Gillespie usa o esqueleto do enredo para introduzir a personagem. O que mais me incomodou no filme foi o aspecto visual. Afinal, por que em SUPERMAN, dirigido pelo próprio Gunn, há um capricho visual, de cores, de efeitos especiais, de enredo, de caracterização de personagens, e neste SUPERGIRL (2026), o que vemos é um filme de cores apagadas, cinza, de efeitos ruins para o padrão de produções milionárias da DC/Warner? Se eu não tivesse assistido na sala IMAX iria culpar o projetor diante de fotografia tão feia. No mais, gosto da jovem Milly Alcock como a heroína. Ela tem carisma. Também gosto do início, com cara de western (ou de filme de samurai) com intenção de criar uma história de vingança para a adolescente Ruthy (Eve Ridley). Embora a jovem desapareça um pouco do lado de Alcock, no final ela passa a servir de ótima escada para o drama da Supergirl, que ainda guarda em si um luto e uma revolta pela perda dos pais e viaja para planetas de sóis vermelhos de modo a conseguir se embriagar, escapar da realidade, da solidão, uma vez que ela já chegou no Planeta Terra tendo convivido com os pais. Tem uma origem distinta da de Superman. Acaba sendo um filme ok, que não empolga muito nas cenas de ação (com aquelas imagens horríveis, cinzas, sem nitidez, efeitos ruins), que conta com Jason Momoa interpretando a si mesmo, mas como a maquiagem do Lobo, e com um final bonitinho e terno, graças ao gracioso cãozinho Krypto. E a pergunta continua: qual será o destino do projeto de Gunn para o novo universo cinematográfico DC, dada a nova situação da Warner?

O FIM DA RUA (The End of Oak Street)

O quarto longa-metragem do diretor de CORRENTE DO MAL (2014) é também seu filme mais ambicioso do ponto de vista da produção. O que me agradou bastante em O FIM DA RUA (2026), de David Robert Mitchell, foi o teor nostálgico, aquela sensação de que viver num mundo menos veloz como foi o mundo dos anos 1980, além do teor nostálgico de séries de televisão como ALÉM DA IMAGINAÇÃO e de filmes exibidos na Sessão da Tarde. Na trama, uma família vivendo num bairro de subúrbio percebe que boa parte de sua vizinhança agora vive num mundo jurássico. Tudo indica que foram arremessados para o passado e agora convivem e lutam pela sobrevivência com dinossauros. Apesar de vermos os vizinhos sendo comidos pelos animais pré-históricos, pelo menos até determinado momento o tipo de tensão parecesse controlada. Mas só até determinado momento. Anne Hathaway está ótima como a mãe de família que tem o sonho de ser romancista, e Ewan McGregor também está bem como o pai de família que perdeu o emprego e vive de bicos como empregador. Há uma sequência bem emocionante no final. Belo filme.

PRINCESA MONONOKE (Mononoke-hime)

Segunda vez que vejo PRINCESA MONONOKE (1997). A primeira não me entusiasmou tanto, mas, como se trata de um dos filmes mais cultuados de Hayao Miyazaki, eu fiquei bastante entusiasmado com a chance de vê-lo no cinema, na sala IMAX, numa cópia remasterizada. O horário foi meio ingrato (às 13h), mas era o que tinha para aquele dia. Já era sorte o título ter dobrado a semana. O que me deixa intrigado no filme é o aspecto político, o quanto o personagem Ashitaka se esforça para encontrar um caminho do meio na luta existente entre a dona de uma usina e uma princesa da floresta, uma jovem que quer distância do ser humano e vive muito bem entre os animais gigantes de sua fauna. O que me incomoda um pouco e me tira o interessa é o aspecto fantasioso, que, junto com a trilha sonora orquestrada e muito clássica (assim como a estrutura do próprio filme também é de narrativa clássica, tudo isso às vezes é um convite ao sono. Gosto da jornada do herói e do quanto o filme é transgressor até em trazer violência gráfica nas cenas de batalha.

sábado, agosto 22, 2026

SOBRENATURAL – AGORA ENTRE NÓS (Insidious – Out of the Further)

 
“O normal é bom”, diz Gemma, a personagem de Amelia Eve, quando ela procura ajuda para se livrar de uma entidade maligna que no passado já atormentou e matou sua mãe e agora tem feito de sua vida (e de sua filha pequena) um inferno. E nos filmes de terror, em geral, a vida normal é a vida boa. Melhor dizendo, uma vez que esses personagens se veem numa situação de aflição intensa, tudo o que se quer é a normalidade.

SOBRENATURAL – AGORA ENTRE NÓS (2026) é o sexto filme da franquia criada por Leigh Whannell e, por que não dizer também, por James Wan, que dirigiu os dois primeiros capítulos (2010, 2013) e acabou deixando os demais nas mãos de cineastas pouco talentosos. Se bem que o próprio Whannell, que assumiu a direção de SOBRENATURAL – A ORIGEM (2015), se mostrou um realizador e tanto em filmes como O HOMEM INVISÍVEL (2020) e o subestimado LOBISOMEM (2025).

Aqui neste sexto filme, temos apenas uma personagem que liga esta nova aventura às demais, a médium (morta) Elise (Lin Shaye). No mais, há um frescor neste novo capítulo que entra em sintonia com a boa condução do quase desconhecido Jacob Chase, que tem no currículo um terror chamado VEM BRINCAR (2020), talvez seu cartão de visitas para assumir a direção deste sexto filme. E que bom que funciona bem na maior parte das vezes. E lembremos que ele assume também a função de roteirista. Ou seja, todas as boas ideias de usar instrumentos do meio da odontologia como elementos de terror, são oficialmente dele.

O filme já começa com um clima de opressão impressionante: a pequena Gemma vive com medo da mãe e vê sua casa tristemente abandonada: ao chegar da escola, ela põe o lixo pra fora, esquenta o jantar e lava umas roupas. Enquanto isso a mãe está abatida e enfraquecida pelas forças de um mal que a criança não sabe dizer o que é. O prólogo termina em tom de tragédia para sermos depois levados a 20 anos no futuro, com Gemma agora sendo também mãe solteira de uma menina, trabalhando como dentista.

Um dos méritos do filme é saber construir cenas de pesadelo (na verdade, visitas ao além) muito boas – há uma que faz lembrar BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR, de Kane Parsons). E gosto também da exploração do medo a partir de seu ambiente de trabalho, como na cena do velho aparecendo como paciente.

Outro acerto do filme está na protagonista, que havia aparecido em A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY, série de Mike Flanagan. Ela defende muito bem sua personagem, nos faz acreditar em seu terror. A pequena Island Austin também está perfeita como a adorável filha de Gemma. Quando o filme a apresenta, desde o início é fácil gostar dela, de sua curiosidade sobre o que aconteceu com sua avó, de sua vontade de doar seus brinquedos para a caridade.

O novo diretor, além de fazer algo novo, não deixa de ser fiel ao espírito da franquia, em que planos astrais convivem com o mundo material, histórias do passado são mudadas por eventos do futuro no plano astral, e demônios horríveis ameaçam a paz, não só de uma família, mas do mundo.

Sem dúvida, uma das melhores surpresas do terror em 2026. Justo de onde menos se espera ainda é possível encontrar salvação. Mesmo que num tipo de produção de narrativa mais clássica, sem intenção de querer ser, deliberadamente, uma alegoria de algum transtorno da sociedade contemporânea ou alguma brincadeira de metalinguagem ou coisa parecida. Para isso, tivemos o excelente ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE. Há espaço para o clássico e para o pós-moderno na atual safra do gênero. 

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BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (Backrooms)

O cinema de horror em 2026 está bem sortido e cheio de novidades. Sem falar no fator popularidade. OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (2026), de dois jovens realizadores, encabeçam esse novo momento, embora não se deva esquecer do ótimo EXTERMÍNIO – O TEMPLO DO OSSOS, de Nia DaCosta, lançado no início do ano. BACKROOMS, de Kane Parsons, é intrigante e se diferencia muito do horror mais convencional e não apenas por apostar menos nos sustos e mais num tipo de estranheza trazida de uma criação anônima e coletiva da internet. Na trama, dono de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) encontra uma passagem para um lugar bizarro e onde as coisas parecem estar todas fora do lugar. Com o desaparecimento desse homem, sua psicanalista (Renate Reinsve), resolve investigar e vai parar no tal lugar. O filme começa a ganhar contornos de terror um pouco mais explícitos perto do final, mas nunca perde seu charme. Ganhou uma versão estendida, mas não sei se teve o mesmo público que viu a primeira vez quis pagar ingresso para ver de novo cenas adicionais.

O ESTIGMA DE SATANÁS (The Blood on Satan’s Claw)

Vendo os extras do DVD (presentes no box Obras-Primas do Terror 10), admirei mais ainda os responsáveis pela materialização desta belezura. Ou seja, foi sugerido ao diretor e ao roteirista a presença de atores muito presentes no cinema de horror inglês da época, como Peter Cushing e Ingrid Pitt, e os caras tiveram a força de dizer que não queriam esses astros, não queriam essa associação com a Hammer, que naquela época não fazia mais filmes de horror muito levados a sério. E acredito que havia mesmo a consciência de que esta produção era especial, como de fato é. Há em O ESTIGMA DE SATANÁS (1971), de Piers Haggard, uma atmosfera que, desde o começo, nos deixa intrigados. Na trama, rapaz, ao arar o campo, encontra o que parece ser o esqueleto de algo que não é nem humano nem animal. Para o jovem, trata-se do esqueleto de um demônio. Ao contar o caso para um reverendo, este acredita ser só uma superstição. Acontece que a comunidade local, especialmente os jovens, passam a ser dominados por espíritos malignos, e o que mais me chamou a atenção foi a garra substituindo a mão de alguns jovens acometidos por essa força. Acaba trazendo algo de perturbador. Destaque também para a belíssima Linda Hayden, que faz a líder dos jovens satanistas. A cena em que ela se despe para seduzir um pastor já é uma das mais belas do cinema de horror britânico que eu tenho lembrança. Além de linda, a atriz empresta muita força para essa personagem. Uma pena que não tenha feito muito sucesso.

NADJA

David Lynch assina a produção executiva desta espécie de Drácula estilizado e ambientado nos anos 1990, com direito a duas canções do primeiro disco do Portishead, o que para mim já entra como ponto a favor. Por NADJA (1994) ser um filme de vampiro filmado em preto e branco as comparações com O VÍCIO, obra-prima de Abel Ferrara, são quase inevitáveis. Mas as propostas são bem distintas e parece que esse diretor, Michael Almereyda, curte uma adaptação modernosa de um clássico – anos depois faria HAMLET – VINGANÇA E TRAGÉDIA (2000), ambientado numa Nova York contemporânea. O bonito deste seu trabalho aparece mais quando ele tenta emular um pouco do clima de Lynch (que aparece aqui num papel pequeno), como na condução dos diálogos. A vontade de deixar explícita a ligação direta com Drácula aparece até nos nomes dos personagens: há o Drácula, o Val Helsing e o escravo Renfield, além de Lucy, que no romance de Bram Stoker é a melhor amiga de Mina. Aqui Lucy é a principal vítima da vampira Nadja, filha de Drácula. No mais, acho que esperava gostar mais do filme. Visto no box Vampiros no Cinema 7.

quarta-feira, agosto 19, 2026

VÍTIMAS DO PECADO (Victimas del Pecado)

 
A primeira vez que ouvi falar em VÍTIMAS DO PECADO (1951) foi vendo o documentário CINEMA DE LÁGRIMAS, de Nelson Pereira dos Santos, quando o realizador brasileiro representou o cinema da América Latina na comemoração dos 100 anos de cinema que resultou em documentários em diversas partes do mundo. Nelson optou por enfatizar o cinema mexicano, que tinha o melodrama como especialidade. Uma das imagens que me marcou lá em 1995, quando vi esse documentário na televisão, foi justamente a cena da mulher largando um bebê numa lata de lixo por amor a um homem perverso. O filme, VÍTIMAS DO PECADO, de Emilio Fernández, eu demoraria mais de 30 anos para ver. Mas valeu a pena ter visto agora, numa cópia remasterizada em 2022, lançada no box Filme Noir - Noir Internacional.

VÍTIMAS DO PECADO impressiona desde as primeiras cenas, ambientadas num cabaré em que a protagonista, Violeta (Ninón Sevilla), dança algo que para nós brasileiros parece muito familiar, uma música citando orixás como Ogum e Xangô. As demais canções são rumbas e outros ritmos caribenhos, mas essa primeira tem uma africanidade e uma energia que nos aproxima mais. Este primeiro momento do filme nos apresenta a este mundo habitado por dançarinas, prostitutas, gângsteres, cafetões. Na verdade, muitas vezes esses papéis exercidos por homens e mulheres são duplos.

Ou seja, o primeiro personagem masculino apresentado, Rodolfo (Rodolfo Acosta), se mostra como um homem mesquinho, vaidoso e ficamos sabendo que engravidou uma das garotas de programa do estabelecimento, e que essa mulher, Rosa, acabou de parir a criança. O filme tem uma montagem dinâmica o bastante para que, logo depois da famosa cena do bebê sendo deixado, dolorosamente, na lata de lixo, também mostrar a faceta não apenas covarde é cruel de Rodolfo, mas também suas ações como ladrão e assassino, a exemplo dos gângsteres apresentados no cinema hollywoodiano dos anos 1930.

Ou seja, o filme, que antes começou como uma espécie de musical (há várias cenas musicais marcantes), e depois para um melodrama, muda a chave para uma espécie de noir criminal, embora o melodrama seja o que predomina e o que torna o filme verdadeiramente emocionante, já que Violeta, a heroína da história, é a mulher que salva a criança, e que, na falta de quem possa acolher o bebê, o toma como seu filho, mesmo que para isso precise se prostituir nos lugares mais decadentes da cidade.

Apesar de dirigido e roteirizado por homens, VÍTIMAS DO PECADO enfatiza a união e a bondade das mulheres em detrimento da covardia e maldade dos homens dentro daquela estrutura patriarcal pré-estabelecida. Os realizadores do filme, diretor, roteiristas e principalmente o celebrado diretor de fotografia Gabriel Figueroa (OS ESQUECIDOS, de Luis Buñuel) fazem uma crítica ácida ao sistema, uma vez que a lata de lixo fica em frente ao Monumento à Revolução Mexicana. Uma ironia de um país que celebrava seus ideais de “progresso, justiça e proteção social".

Nos extras do box, há um pequeno documentário que nos ajuda a abrir os olhos para o trabalho excepcional de Figueroa, que utiliza brilhantemente a profundidade de campo nos ambientes internos e o uso das sombras em externos como meio de enfatizar o sentimento de abandono de Violeta e do pequeno bebê que ela pega para criar. Há sequências em que essa dor é tão estilizada quanto sentida. O que dizer do ataque de Rodolfo à casa de Violeta? Só uma cena dessas já justifica a valorização de VÍTIMAS DO PECADO como uma das maiores obras do cinema mexicano. E mais emoção nos aguarda, lá no final. Difícil conter as lágrimas, hein.

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CINCO TIPOS DE MEDO

Que bom que a Downtown colocou CINCO TIPOS DE MEDO (2025), de Bruno Bini, em várias salas do circuito brasileiro. Se vai ficar em cartaz em mais sessões nas próximas semanas, aí já é outra história. A comparação que estão fazendo com os filmes-coral de Altman, e principalmente com os primeiros trabalhos de Iñárritu, faz sentido, mas o roteiro do próprio diretor Bruno Bini é muito bem arrumado, trazendo pontos de vista diferentes de uma tragédia envolvendo várias pessoas. Há a raiz do mal, que é o personagem de Xamã, um traficante de drogas violento, e todos aqueles que são prejudicados por sua ação, incluindo a ex-namorada que deseja fugir dele, vivida por Bella Campos. Aliás, que bom que essa moça finalmente fez cinema. É bastante conhecida por seu trabalho na televisão. Já Bárbara Colen é bem conhecida de quem acompanha o cinema brasileiro contemporâneo e faz uma mãe cheia de fúria por causa da morte do filho. Em meio a tanta tragédia e violência há espaço para o humor, em especial com o personagem de João Vitor Silva, o que mais se aproxima de um protagonista do elenco.

APENAS COISAS BOAS

Eis um daqueles filmes claramente divididos em lado A e lado B. Daniel Nolasco parece brincar de utilizar diferentes gêneros ao contar uma (ou duas?) história sobre o encontro de dois homens. Eu não consegui prever nem de longe, na primeira parte, no que o filme se transformaria na segunda, ou seja, uma espécie de thriller almodovariano (pelas cores e pelos tons), ainda lidando com a exploração dos corpos nus masculinos, mas sem aquele aspecto fetichista que caracterizou VENTO SECO (2020), o longa anterior do cineasta – entre um e outro longa, Nolasco dirigiu o interessante O CAVALO DE PEDRO (2023), que justamente por ser um curta acaba sendo visto por uma parcela menor de espectadores. APENAS COISAS BOAS (2025) começa com créditos vermelhos bonitos ao som de uma música country e acompanhando um homem em sua motocicleta. A história se passa nos anos 1980 e o cuidado com os aspectos plásticos já chamam a atenção. Para Nolasco, a plasticidade está à frente das interpretações, ainda que essas não fiquem atrás. Inclusive, é sempre bom ver um filme que traga Renata Carvalho, cujo melhor desempenho ainda é, provavelmente, no maravilhoso OS PRIMEIROS SOLDADOS, de Daniel de Oliveira. Aqui ela aparece na segunda parte da história, que acontece nos dias atuais, quando a trama dá um grande salto temporal. Na primeira, o jovem proprietário de terras Antônio conhece e abriga Marcelo, um rapaz que havia sofrido um acidente na estrada enquanto estava em sua motocicleta. Na segunda, bom, na segunda melhor não contar muito para não estragar a surpresa.

A VOZ DE DEUS

Fazer documentário com um projeto a longo prazo demanda uma compreensão de que tudo pode acontecer. O diretor Miguel Antunes Ramos sabia disso quando resolveu acompanhar de perto dois pregadores mirins de igrejas evangélicas por cerca de dez anos. Muito interessante notar o quanto esses garotos ficam à vontade diante das câmeras, o que é importante para que sejam eles mesmos – ou ótimos atores representando com naturalidade. A VOZ DE DEUS (2025) propõe algumas reflexões interessantes, e a questão da fé até parece ficar em segundo plano. Pensamos mais no quanto a infância dessas crianças é profundamente afetada por essa exploração por parte dos pais, que encontra na boa expressão dos filhos um meio de vida. O primeiro vende DVDs (pelo menos enquanto esse tipo de mídia ainda tem alguma popularidade); o segundo quer aproveitar para vender roupas masculinas, já mirando na era das redes sociais. De uma forma ou de outra, tudo me pareceu assustador. Enquanto isso, o filme não se esquiva de mostrar o país dividido diante da ameaça do bolsonarismo. A lacuna da pandemia é até interessante, para vermos o salto no tempo e a mudança de vida e de perspectiva desses jovens e de seus pais.

terça-feira, agosto 18, 2026

FORASTEIRO DA NOITE (Strangers in the Night)

 
Já faz um tempo que eu estava namorando a possibilidade de fazer uma peregrinação pela obra de Anthony Mann, ou seja, ver tudo o que for possível dele, de preferência em ordem cronológica. Mas pensava: nem sequer consegui finalizar a filmografia do Samuel Fuller. E aí fui esperando a hora. Porém, de uns dias pra cá, um fórum de que participo começou a disponibilizar links de vários filmes do realizador e fui formando pastinhas e ficando com água na boca para começar logo a ver, mesmo sabendo que ele tem uma quantidade bem expressiva de créditos na direção. (São 43 títulos, sendo que dois deles são perdidos: foram produções experimentais para a televisão, na virada dos anos 1930 e 40, quando a TV não fazia parte ainda da vida do povo americano.)

Curiosamente, ao buscar um filme do diretor para ver, não foi desses links que peguei, mas de uma das coleções de filmes noir da Versátil. FORASTEIRO DA NOITE (1944) foi o mais antigo que consegui encontrar até agora dele. Pode ser que consiga outros, mas sei também que antes deste trabalho Mann realizou alguns musicais e comédias que não me parecem tão atraentes, mas que podem, sim, ser bem legais.

Devido à pequena duração (56 min), FORASTEIRO DA NOITE aparece como extra do box Filme Noir Vol. 17, o sétimo filme do pacote. Nos anos 1940, várias produções mais baratas possuem essa duração, às vezes passando apenas um pouco de uma hora de duração. O que sei é que dei uma sorte danada de escolher logo um filme tão saboroso, tão empolgante e sem nenhuma gordura ou atropelos e conseguir nos fazer ficar apreensivos com os personagens principais e com o que a velha antagonista é capaz de fazer.

Na trama, um sargento da marinha chamado Johnny Meadows sofre na guerra e é encaminhado de volta para casa. Seu maior interesse naquele momento é finalmente encontrar uma jovem chamada Rosemary com quem ele estava se correspondendo, a partir de um endereço constante num livro usado que ele lia. Logo depois, conhecemos duas mulheres, a dona de uma casa, uma senhora idosa chamada Sra. Hilda e sua ajudante, Sra. Ivy. A Sra. Hilda tem uma obsessão por um retrato pintado de uma menina chamada Rosemary, que diz ser sua filha. É também na casa de Hilda que chega a médica que será fundamental para a trama, a Dra. Leslie, interpretado por uma apaixonante Virginia Grey.

No dia que está no trem, é o momento que ele encontra essa Dra. Leslie, e há uma química que se vê logo de cara e que nos ganha. Assim como nos surpreende o que vem logo a seguir no trem, o quanto os efeitos práticos da época, mesmo em produções baratas, como esta da Republic, são eficientes. O som também ajuda a trazer impacto para a cena. Mas o impacto mesmo virá quando o jovem militar chegar à casa da Sra. Hilda, em busca da tal Rosemary.

Achei a história tão boa que até fui pesquisar pra ver se ninguém teve a ideia de fazer um remake, já que o filme é curto, que cairia na obscuridade se não fosse o nome de Mann na direção e também não contasse com o resgate da Film Noir Foundation. Que bom que há essa empresa que valoriza e restaura verdadeiras pérolas do cinema, como é o caso de FORASTEIRO DA NOITE, que já tem aquele jogo de luz e sombras tão característico do ciclo noir. Há tanto esse trabalho de apontar as sombras no aspecto plástico quanto no aprofundamento da personalidade dos personagens, por mais que no caso deste filme B mais humilde o ritmo mais rápido seja necessário para que a obra caiba numa sessão dupla com um filme classe A. 

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O MUNDO EM PERIGO (Them!)

Um filme que influenciou não apenas as demais produções que trouxeram insetos gigantes, O MUNDO EM PERIGO (1954) também é influência em clássicos mais recentes, como ALIENS, O RESGATE, de James Cameron, e TROPAS ESTELARES, de Paul Verhoeven. Hoje os efeitos especiais estão bem datados, mas quase tudo que foi feito no gênero sci-fi na década de 1950 é assim (desse período, só lembro de O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, que ainda impressiona em seus efeitos). O MUNDO EM PERIGO capta bem o espírito de seu tempo. Não era só o Japão que havia ficado traumatizado com a bomba atômica, mas os próprios americanos ficaram paranoicos, esperando serem atingidos por uma bomba a qualquer momento. A Guerra Fria estava só começando. Mas para esse tipo de produção eu só consigo pensar na primeira discussão entre os executivos, que talvez tenham partido de um cartaz de filme, de um desenho, de uma ideia, para, só depois, desenvolver um roteiro e tentar bolar meios de materializar essa ideia: ou seja, a ideia de formigas que ficam gigantes e ameaçam não só o deserto do Novo México e a Califórnia, mas a humanidade inteira. A salvação vem de dois cientistas: um idoso (Edmund Gwenn) e sua filha (Joan Weldon), justamente os personagens mais carismáticos do filme. Mas gosto de como o filme trabalha bem o coletivo desde o começo, quando dois policiais estaduais encontram no deserto uma garotinha em estado de choque. Há um trabalho muito bom de desenvolvimento da narrativa e a finalização é caprichada. Por mais que as formigas não sejam convincentes isso acaba sendo um detalhe com um aspecto humano da produção. Visto no box Clássicos Sci-Fi: Anos 50 – Vol. 5, que conta com uma apresentação de Gabriel Carneiro.

A CICATRIZ (Hollow Triumph / The Scar)

Muito da força de A CICATRIZ (1948), de Steve Sekely e Paul Henreid, está na composição visual do lendário diretor de fotografia John Alton. O barato da trama é que ela não se preocupa em realismo: tudo está em prol da ideia de um criminoso (Paul Henreid) de conseguir elaborar uma estratégia supostamente perfeita para conseguir escapar da polícia e dos gângsteres. Essa estratégia surge quando ele descobre que existe um sósia seu, um homem cujo rosto é a cópia igual ao seu, com a exceção que esse homem, um psicanalista, possui uma cicatriz. Então, o plano do protagonista passa a ser tomar o lugar desse homem. A partir do momento que a história se encaminha para esse instante, o filme vai ficando mais empolgante. Pena que o protagonista seja uma pessoa tão odiável a ponto de não torcermos por ele no que se refere ao romance com a personagem da secretária do psicanalista (Joan Bennett). Ou seja, o cara é perverso demais, cínico demais para que torçamos por ele na conclusão, que ganha contornos um pouco mais românticos, e mais trágicos. Mas não torcermos pelo protagonista criminoso (e desta vez assassino) faz com que sua corrida para a vitória perca a força. Mas ainda assim, gosto demais do aspecto estranho do filme, do absurdo da situação, quase tão absurdo quanto um A OUTRA FACE, de John Woo, mas com um pé maior, obviamente, no realismo. Acho um barato as cenas dele tentando se adequar à identidade do morto sem saber sequer o nome da esposa ou dos amigos. Além do mais, há vários momentos de impacto visual impressionante, graças a movimentações de câmera e jogos de luz e sombra, como na cena em que o personagem de Henreid atravessa a rua para entrar na casa da personagem de Bennett, já perto do final. Gosto também da ironia da trama. Do destino desse personagem. Visto no box Filme Noir Vol. 8.

A NOIVA DO INFERNO (Botan-dôrô)

Um conto moral sobre um homem que se apaixona por uma fantasma que revela mais a maldade dos vivos do que o perigo dos mortos. A NOIVA DO INFERNO (1968), de Satsuo Yamamoto, conta com pelo menos dois atores conhecidos dos filmes de Akira Kurosawa e possui uma elegância na direção que chama a atenção logo no início, quando o protagonista se vê encurralado por seus familiares para se casar com uma mulher que não ama. No dia do festival Obon, que no folclore japonês corresponde um pouco ao Dia dos Mortos no México, o protagonista conhece duas mulheres, sendo que fica encantado com a mais jovem. As duas o reencontram e logo se inicia um relacionamento entre ele e essa moça mais jovem. O que ele não sabe (embora o espectador saiba logo de cara) é que aquelas mulheres estão mortas. De início, elas não contam a verdade para ele, mas uma vez que ele fica sabendo o filme ganha contornos de filmes de exorcismos em comunidade, como O LAMENTO, de Na Hong-jin, ainda que a produção aqui seja muito mais modesta. Inclusive, eu diria que é um dos méritos do filme: ser claramente barato e conseguir desenvolver tão bem a atmosfera, além de ter que lidar com os figurinos e a direção de arte para recriar uma comunidade do período (século XVII). O filme é baseado num conto folclórico que se tornou bastante popular no teatro kabuki, e cuja trama é similar a de outros filmes mais famosos, como CONTOS DA LUA VAGA de Kenji Mizoguchi, e KWAIDAN, de Masaki Kobayashi. Visto no box Obras-Primas do Terror – Horror Japonês 2.

domingo, agosto 16, 2026

ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

 
Fiquei encantado com este ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2026), que é tanto uma homenagem aos slashers que tanto sucesso fizeram nos anos 1980, quanto uma fotografia dos tempos de hoje, que elegeram o horror como gênero principal para levar a juventude ao divã, com seus inúmeros problemas e complexidades. Inclusive, essa coisa de categorizar filmes por gênero não é muito o perfil da diretora Jane Schoenbrum, vide seu coming of age com embalagem (ou capinha) de filme de horror EU VI O BRILHO DA TV (2024). Ou seja, dá para perceber seu amor pelo gênero, mas também dá para ver seu interesse em usar o horrror, no caso, como desculpa para retratar o desejo (e também a frustração com o sexo) de sua heroína, a cineasta Kris, vivida por Hannah Einbinder (série HACKS), a quem foi conferido o direito de revitalizar a franquia “Acampamento Miasma”, que tanto faz lembrar a bem mais popular SEXTA-FEIRA 13 quanto o slasher mais de nicho ACAMPAMENTO SINISTRO.

Quem gosta de slashers, inclusive, vai se deliciar, particularmente, com a abertura do filme, que apresenta em poucos minutos a glória e a decadência de uma franquia slasher, inclusive (e principalmente) quando ela passa para o mercado de VHS, já que foi nos anos 1980 que esse subgênero se tornou mais popular. É possível pensar também no quanto as novas gerações sentem essa nostalgia daquilo que não viveram, ou que viveram já no finalzinho, no caso do DVD. Em determinado momento do filme, Kris encontra numa loja de conveniência de uma cidezinha perdida do norte dos Estados Unidos um DVD de um dos capítulos de cinessérie “Acampamento Miasma” e pergunta ao atendente do hotel onde se hospeda se há, em algum dos quartos, um aparelho de DVD para que possa usufruir do produto adquirido. Ou seja, percebe-se também essa necessidade da mídia física, que foi se perdendo com o advento dos streamings.

Essa falta de fisicalidade também pode-se levar para a personagem de Einbinder, que confessa logo no primeiro encontro com a atriz de cinema aposentada Billy (Gillian Anderson), hoje mais conhecida como a final girl do primeiro “Acampamento Miasma”, que tem dificuldade de ter orgasmo, e por isso o trabalho para ela é prioridade. Abrindo um parêntese para parabenizar a diretora Jane Schoenbrum por trazer uma atriz, que mesmo sendo uma incrível intérprete, segue sendo muito mais lembrada como a Agente Dana Scully de ARQUIVO X; e juntá-la a outra atriz, mas desta vez de uma série mais recente, o que acaba tornando o filme chamariz para pelo menos duas gerações diferentes de espectadores, por mais que acredite que a obra seja abraçada também pela cinefilia jovem e pela comunidade LGBTQIA.

Vale lembrar que o slasher é um subgênero que carrega como estigma um teor bastante exploratório e misógino. Além de homofóbico e transfóbico (a referência a ACAMPAMENTO SINISTRO não é à toa). Eis que, assim como outras cineastas mulheres têm feito ao pegar gêneros mais explorados e desenvolvidos com o olhar masculino, Schoenbrum vira do avesso o subgênero aqui e o coloca para o olhar feminino. Kris deve ao “Acampamento Misma” original o seu despertar sexual, especialmente na cena de sexo marcante da personagem de Billy. E Billy, como mulher vivida e atraente, conta a Kris o segredo de seu olhar naquela cena.

O legal deste filme é que ele tinha tudo para parecer pedante, já que usa, sim, muitas palavras para buscar entender a fascinação pelo gênero, mesmo reconhecendo seus problemas de preconceito. Inclusive, há até um desejo por parte de Kris de se imaginar como uma personagem vitimada por algum assassino serial de um slasher, um fetiche um bocado estranho, mas que, dentro de um filme que trabalha tão bem a autoconsciência do espectador, se torna pouco perigoso. Como diz a frase apregoada por Billy, “se você se sentir que está real demais, é só desligar”. Isso vale para uma fita cassete ou um DVD, mas também vale para a trama do filme.

Falando em trama, além de todas as cenas em que as duas atrizes contracenam juntas, todas deliciosas, há uma divertidíssima em que Kris conversa numa videochamada com os produtores do filme que ela foi chamada para dirigir. Ao colocar para eles suas novas ideias, que são talvez até mais ousadas que as brincadeiras metalinguísticas que Wes Craven fez em O NOVO PESADELO – O RETORNO DE FREDDY KRUEGER(e cá pra nós, o nosso Mojica foi ainda mais genial nesse quesito em EXORCISMO NEGRO), ao colocar para eles essas ideias, vemos um pouco do que o mercado é capaz de podar de ideias originais de tantos realizadores em favor daquilo que julgam que o público supostamente quer ver.

Felizmente, estamos vivendo uma nova era de ouro para o horror, com produções originais e ousadas fazendo sucesso de crítica e de público, e incentivando os produtores a investir mais nesses criadores mais loucos, por mais que a influência do cinema de décadas passadas ainda continue presente.

No mais, ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE tem, sim, muito sangue, embora seja aquele sangue que esguicha em litros, mais do que um KILL BILL. E há também um bocadinho de sexo, o que é algo a se festejar, uma vez que a tal geração Z anda cada vez mais desinteressada de sexo nos filmes e aparentemente até na vida real. Ver um filme como este no cinema é também valorizar o calor da película 35mm (por mais que o filme chegue aqui já em DCP). Schoenbrum usa uma fotografia que remete à dos slashers oitentistas. E isso também é gostoso demais de ver. Assim, aquilo que poderia ser quase acadêmico acaba se tornando tão viajante quanto divertido e sensual.

+ TRÊS FILMES

EU VI O BRILHO DA TV (I Saw the TV Glow)

Antes de ver ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2024), o novo filme de Jane Schoenbrun, aproveitei para ver este seu trabalho anterior, que teve um hype considerável na época do lançamento, embora não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros. EU VI O BRILHO DA TV (2024) me surpreendeu, pois esperava um filme de terror. Não que não seja quando ampliamos o espectro, mas o que vemos aqui é mais um filme sobre falta de aceitação e solidão, em conjunto com questões de sexualidade, envolvendo tanto o jovem Owen (Justice Smith, na fase adolescente e adulta) quanto a sua colega de escola dois anos mais velha, Maddy (Jack Haven, na época do filme ainda usando o nome feminino). Tanto Owen quanto Maddy veem numa série de TV que passa no fim da noite uma espécie de fuga para a realidade triste que vivem. E fuga é uma das palavras-chave do filme, já que Owen tem uma questão com aceitação de sua sexualidade, enquanto Maddy vê como sua única saída para não morrer ir embora daquela cidadezinha. O filme promete ficar mais empolgante justamente quando ela propõe a ele que fujam juntos, enquanto ele foge, mas é desse salto para uma nova vida. A tristeza do destino final de Owen certamente vai encontrar muitos espectadores que ou se identificarão ou se solidarizarão. Acho que o filme podia ser um pouco mais curto, e há um problema de ritmo que me tirou o interesse diversas vezes, por mais que ache a proposta interessante e intrigante. Minha expectativa para ACAMPAMENTO MIASMA... já era muito maior.

INSACIÁVEL (Saccharine)

Um filme de terror que quer tratar de transtornos de compulsão alimentar e apresenta como principal fantasma uma mulher obesa feita em CGI e com aquela cara de assombração manjada já é um filme problemático por si só. Junte-se a isso a prótese horrível para apresentar a atriz quando está (ou se sente) acima do peso. INSACIÁVEL (2026) seria uma espécie de filme-irmão de A SUBSTÂNCIA, mas sem o mesmo talento na direção. Na trama, jovem estudante de medicina que se sente desconfortável com seu peso e rejeitada por seus interesses amorosos experimenta um comprimido que é capaz de emagrecer de forma milagrosa. Acaba descobrindo que a matéria-prima da cápsula é feita de cinzas de cadáveres. O filme tem uma duração desnecessariamente longa. Se fosse só um filme de 80 minutos talvez fosse recebido com mais simpatia pela audiência. A diretora Natalie Erika James, que havia se saído bem em RELÍQUIA MACABRA (2020), teve a coragem de fazer um remake de O BEBÊ DE ROSEMARY chamado APARTAMENTO 7A (2024), e parece se perder ainda mais em seu terceiro longa.

AURORA

Acredito que o próprio diretor José Eduardo Belmonte não estava botando muita fé no sucesso deste filme para ter demorado cerca de 10 anos para montar e lançar, apenas no Telecine e Canal Brasil. Ele acabou priorizando outros dois trabalhos com maior possibilidade de sucesso comercial e lançados naquele 2016, a minissérie ALEMÃO – OS DOIS LADOS DO COMPLEXO e a comédia ENTRE IDAS E VINDAS. Enquanto isso, AURORA (2025) foi ficando de molho, mesmo tendo um elenco de peso. Com apenas 65 minutos de duração, às vezes fica a impressão de que houve um esforço para que as imagens do céu, para indicar o tempo passando, foram, além de totalmente feitas em pós-produção, também uma criação puramente digital. Na trama, casal vivido por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão saem para comprar uma casa: a primeira venda da carreira da corretora vivida por Marjorie Estiano. A quase paz da compra é quebrada por pessoas que entram na casa. Mesmo já entregando os elementos sobrenaturais de cara, acredito que seja interessante ir descobrindo o filme enquanto as revelações vão surgindo, embora a trama em si seja muito simples. É um filme que depende mais da atmosfera e do desempenho de seus atores, além de uma trilha sonora de acompanhamento. Pode não ser um grande filme, mas é um bom exercício e os atores defendem bem seus papéis, principalmente Estiano, que é sempre impressionante em tudo que faz.