sábado, setembro 21, 2019

RAMBO - ATÉ O FIM (Rambo - Last Blood)

Sylvester Stallone perdeu a chance de fazer um baita filme de vingança com o novo RAMBO - ATÉ O FIM (2019), dirigido por Adrian Grunberg, de PLANO DE FUGA (2012). As motivações que ele tem depois que membros de um cartel mexicano sequestram sua filha adotiva são suficientes para esquecermos o quão estereotipados eles são mostrados. O resgate de um familiar sequestrado já é algo que estamos acostumados a ver nos filmes de ação estrelados por Liam Neeson. O diferencial aqui é colocar o lendário John Rambo no encalço dos bandidos.

E também há um diferencial na questão da vulnerabilidade. Stallone não é como Tom Cruise, por exemplo, que quer sempre sair bem na fita nos filmes de ação, com um ego gigante. Stallone parece não se importar, por exemplo, em aparecer levando uma surra de dezenas de homens e ficar no chão. Afinal, seu surgimento foi levando muita porrada no lindo ROCKY, UM LUTADOR.

John Rambo só quer ficar em paz, mas as pessoas não deixam. Isso, aliás, é basicamente o plot do pequeno clássico RAMBO - PROGRAMADO PARA MATAR (1982). Ele só queria curtir a sua solidão em paz. Em ATÉ O FIM ele aparece ainda mais pacífico, bem mais velho e morando com uma família formada por uma garota órfã de mãe e abandonada pelo pai biológico. Ele é o Tio John, mas é o mais próximo de um pai que a garota tem. Há também uma senhora mexicana que cuida da casa e funciona como uma espécie de mãe.

A garota, na ânsia de conhecer o pai biológico, vai parar no México, contra a vontade de John, e acaba sendo raptada e colocada em um grupo de mulheres forçadas a se prostituir. John Rambo vai até lá com o intuito de resgatá-la. E é com essa simplicidade de trama que se constrói RAMBO - ATÉ O FIM.

E dá-lhe cenas de violência gráfica explícita, que até há alguns anos poderia ser mais celebrada pelos fãs de filmes de ação e terror, mas que não parecem chocar a audiência dos dias de hoje. Mas o problema é mesmo a falta de uma melhor solução para a trama, que leva o personagem para o velho exército de um homem que não empolga e esfria o interesse pela vingança, esse elemento tão fácil de gerar a solidariedade do espectador. No mais, o filme poderia ter aproveitado melhor a personagem de Paz Vega, que parece saída de algum filme dos anos 70. Falta de sensibilidade e inteligência dos realizadores, nesse sentido? Talvez.

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RAINHAS DO CRIME (The Kitchen)

Estreia na direção da roteirista Andrea Berloff. Não chega a ser um filme ruim, mas é meio problemático na incapacidade de trazer sentimentos de angústia e incômodo tanto pelas cenas violentas quanto pela mudança radical de vida das três mulheres, que passam a chefiar a máfia da Cozinha do Inferno depois que os três maridos são presos. O filme tem uma veia feminista forte e isso é um de seus méritos. Também gosto das três atrizes, mas sempre acho injusto quando surge uma Elisabeth Moss para humilhar as demais. Se bem que a Tiffany Haddish está ótima também. Podia ser algo melhor nas mãos de um bom diretor, talvez. Ano: 2019.

VELOZES & FURIOSOS - HOBBS & SHAW (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw)

No começo, este spin off da galinha dos ovos de ouro da Universal parece até ser bem bacana, com uma boa maneira de unir novamente os dois protagonistas que se odeiam para uma missão. Há um paralelismo bem interessante, assim como temos uma Vanessa Kirby pra lá de sensual e carismática. Mas depois o filme se estende por tempo demais e quando chega na parte de Samoa a gente quer que tudo termine. Outro problema desses filmes de ação sem muita novidade é que eles ficaram muito para trás depois do evento John Wick, pelo menos dentro do cinema ocidental contemporâneo. Também incomoda um pouco o modo como a franquia foi se distanciando da fisicalidade para ingressar em um pastiche de James Bond com toques de ficção científica no meio. E sem conseguir um resultado bacana com isso. Direção: David Leitch. Ano: 2019.

ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL (Hotel Mumbai)

Interessante que aqui não temos a Índia colorida de O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. A intenção é mesmo provocar um choque de contraste entre a extrema miséria das ruas de Mumbai e o luxo de cair o queixo do hotel onde se passa a história. É um thriller envolvente e eficiente feito por um diretor iniciante para longas. Os atores estão bem como heróis nascidos das circunstâncias; todo os cinco atores principais. E até os terroristas  saem um pouco do preto no branco na cena da ligação de um deles para o pai. No fim, todos são vítimas. Atenção para a bela iraniana Nazanin Boniadi. Já tinha visto a moça em HOMELAND, mas não sabia de onde a conhecia. Direção: Anthony Maras. Ano: 2018.

sexta-feira, setembro 20, 2019

O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (Tabi no Owari Sekai no Hajimari)

Considerado por muitos um dos maiores cineastas de cinema de horror da atualidade, Kiyoshi Kurosawa tem, com frequência, demonstrado interesse em variar. Basta lembrar que um de seus mais recentes trabalhos, PARA O OUTRO LADO (2015), por mais que adentre o terreno do espiritual, não opta pelo medo como fator principal, é sobre um grande amor que retorna da morte, tudo de maneira muito serena. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (2019), seu mais recente filme, exibido no Festival de Locarno, é de uma delicadeza impressionante. É, desde já, um dos melhores lançamentos deste ano.

O filme nos apresenta a uma repórter de um programa de variedades do Japão que está com sua equipe no Uzbequistão para gravar a história de um lendário peixe de dois metros de comprimento que habita, supostamente, um lago. Como não conseguem gravar o tal peixe, a equipe procura alguma coisa que possa ser interessante para o tal programa. Enquanto passa esse tempo em território estrangeiro, a protagonista de nome Yoko procura conhecer os pontos turísticos do lugar, ao mesmo tempo que lida com a solidão e o sentimento de saudade do namorado e uma forte insegurança também, tendo em vista que em determinado momento ele deixa de retornar suas mensagens.

Yoko é protagonizada por Atsuko Maeda, em terceira colaboração com Kurosawa. A primeira foi, inclusive, em outro filme ambientado fora do Japão, com ela como protagonista. Trata-se de O SÉTIMO CÓDIGO (2013). Outra informação muito interessante sobre Atsuko é que ela é uma cantora famosa no Japão, uma cantora que se tornou atriz, e que em O FIM DA VIAGEM.. canta em duas lindas cenas. Ela canta uma versão em japonês de "Hino ao Amor" nas duas cenas, mas o sentido da canção muda de acordo com o que acontece na vida da personagem e com o fluxo de seus sentimentos.

Impressionante como o filme nos faz próximos de Yoko. Sentimos medo quando ela sente medo; sentimos solidão quando ela se sente só; sentimos o seu mal estar diante do trabalho quando ela assim se sente; o sentimento de não pertencimento etc. Só por isso o filme já é louvável. Por isso o diretor não economiza elogios a Atsuko, que consegue passar aquilo que sente estando sozinha em cena. E há muitas cenas em que ela está sozinha naquele país estrangeiro e estranho.

Há uma cena especialmente tocante: ela tem a ideia de rodar uma matéria sobre um bode que está preso em uma casa e ela deseja libertar o animal. Como a equipe compra a ideia, eles vão em busca de realizar esta ação. E as cenas de Yoko com o bode e o reencontro são tão cheias de ternura que só aumentam ainda mais o grau de quase inocência que a personagem transmite. De vez em quando personagens assim fazem bem para nosso espírito. E por isso filmes assim são tão valiosos.

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RETRATO DO AMOR (Photograph)

Uma baita decepção este novo trabalho de Ritesh Batra, depois do lindo LUNCHBOX e do muito bom NOSSAS NOITES. Aqui a história de amor parece não funcionar em momento algum. Faltam tanto ao rapaz quanto à moça carisma e também química entre os dois. Talvez o excesso de "sutileza" tenha resultado em algo quase nulo. A trama fica tão morna que nem mesmo cheguei a torcer pelos dois. O filme não traz tanto do habitual caos nas ruas tão comuns nos filmes indianos. É mais focado na relação entre os dois e na mentira que criam para a avó do sujeito. Se bem que não deixa de ser um diferencial ver um personagem homem e heterossexual sofrendo a pressão de ter que casar. Geralmente só vemos isso em personagens femininas. Ano: 2019.

VISION

É o tipo de filme que a gente quer gostar, que contém cenas muito bonitas e um enredo complicado e que é meio que a cara de filmes japoneses de ficção científica e de alguns animes cabeça, mas que se revela um problema ao final da projeção. Naomi Kawase parece desde o começo puxar um sentimentalismo através de imagens (as lágrimas da personagem de Juliette Binoche ao presenciar o espaço geográfico milenar japonês), mas que precisa de uma maior conexão com o espectador para que se efetive. Gosto das duas cenas discretas de sexo, mas isso é mérito principalmente da beleza e da sensualidade de Binoche. É algo que já estamos acostumados a ver em filmes franceses. No final, a tal erva vision me pareceu bem pouco compreensível. Mas como eu acho que cinema é mais para sentir do que para entender, nem foi esse o problema. Ano: 2018.

BANGLA

E, ao que parece, nasce um novo talento das comédias românticas. O jovem Phaim Bhuiyan dirige e protagoniza esta história de amor sobre um jovem bengali que se apaixona por uma italiana. Como sua religião não permite sexo antes do casamento, isso começa a perturbá-lo, e muito. Um dos méritos do filme é nos fazer torcer pelo romance dos dois, entender os obstáculos, se apaixonar pela moça (que adorável que é Carlotta Antonelli!) e saber que toda grande história de amor traz obstáculos para que a tensão se estabeleça e a união seja possível. Saí do cinema leve. Se a vida real não está sendo tão gentil, às vezes é o cinema que traz um desses sonhos materializados. Ou quase. Ano: 2019.

quarta-feira, setembro 11, 2019

PACARRETE

A edição do festival Cine Ceará deste ano foi talvez a mais bonita, a mais bem-sucedida, a que mais encheu a nossa alma de amor e orgulho. Amor nestes tempos de ódio e intolerância; orgulho do nosso cinema brasileiro, e do nosso cinema cearense, especificamente, que nunca esteve em fase tão boa, tanto em quantidade quanto em qualidade. Não por acaso, tivemos um filme de um diretor cearense abrindo o festival, o premiado A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz; um que ganhou a mostra competitiva, GRETA, de Armando Praça; e o filme que encerrou o festival, PACARRETE (2019), de Allan Deberton. E é deste filme, que chegou com oito kikitos de Gramado, que falaremos agora.

Conheço o trabalho de Deberton desde o ótimo curta DOCE DE COCO (2011), que já mostrava um cineasta que tinha uma sensibilidade muito especial para lidar com questões humanas, com pessoas passando por situações de fragilidade. O curta apresenta uma garota que engravida de um rapaz conquistador de sua cidadezinha. O filme seguinte, O MELHOR AMIGO (2013), trata do amor platônico que um rapaz sente pelo amigo; depois veio OS OLHOS DE ARTHUR (2016), um trabalho que lida com um personagem autista. Ou seja, já dá para ver que desde os seus trabalhos iniciais, Deberton procura fazer uma espécie de defesa de pessoas incompreendidas.

Não é diferente com PACARRETE, sua estreia em longa-metragem no cinema. O que temos aqui é a história de uma mulher considerada louca pela cidade em que mora. A personagem é baseada na verdadeira Pacarrete, uma senhora excêntrica e espalhafatosa de Russas-CE que tentava mostrar o valor da arte e da dança para o povo simples da cidade. A verdadeira Pacarrete se chamava Maria Araújo Lima.

Quem encarna a versão para o cinema da personagem é a ótima Marcélia Cartaxo (prêmio de melhor atriz em Berlim por A HORA DA ESTRELA, de Suzana Amaral, entre outros vários prêmios). Ela esteve presente no curta de estreia de Allan Deberton e novamente se mostra um amuleto de sorte para o jovem cineasta.

É normal ficar um pouco incomodado a princípio com o tom que é dado à personagem. O filme começa com Pacarrete varrendo a calçada de sua casa dançando, lembrando um bocado os musicais da velha Hollywood, especialmente CANTANDO NA CHUVA. O belo colorido da fotografia, com auxílio da luz forte do Ceará, emula o technicolor dos anos de ouro do cinema americano. Depois vemos o quanto a personagem é exagerada na fala, o tom sempre acima. É quando vemos que estamos diante de uma comédia popular, pronta para ser apreciada por um público maior do que o dos festivais.

E, uma vez que nos acostumamos e aceitamos os trejeitos de Pacarrete, fica fácil gostar da personagem, de se solidarizar com ela. Inclusive, há uma fala que ela cita a falta de interesse das pessoas por arte que fez com que o Cine São Luiz em peso batesse palmas.

No elenco, há um personagem que representa uma espécie de contraponto para Pacarrete, o amoroso comerciante Miguel, vivido por João Miguel. Ele tem um carinho todo especial pela bailarina aposentada e isso faz com que ela nutra por ele um sentimento de amor platônico. Pacarrete mora sozinha com a irmã mais velha Chiquinha que vive em uma cadeira de rodas, vivida por Zezita Matos. Ela é outra personagem que traz uma sobriedade que equilibra as falas de Pacarrete. Há também a empregada da casa, Maria, vivida por Soia Lira.

Pacarrete tem interesse em aproveitar a comemoração dos 200 anos da cidade de Russas para apresentar à cidade o seu número de balé, que há tempos ela se dedica em casa, desde que voltou de Fortaleza, para cuidar da irmã mais velha. Porém, ela não é bem recebida pelos funcionários da prefeitura, que acreditam que seu trabalho não é de interesse do público, que quer mesmo uma festa com forró. Sem falar, que não acreditam na sanidade dela.

Em algum momento do filme, o melodrama entra forte e arrepiante. É louvável a transição tranquila que o cineasta consegue fazer da comédia para o melodrama e vice-versa. E muitas vezes de uma hora para outra, como se quisesse emprestar muito da molecagem cearense para o seu filme, como em certo momento muito triste que logo é seguido de uma piada que fez a plateia chorar de rir.

Entre o choro breve e o riso farto, PACARRETE é um dos mais bonitos exemplares recentes do nosso cinema. E chega em um momento muito necessário. Assim como a bailarina que não deixou de lado o seu sonho, precisamos seguir em frente nestes tempos difíceis para a cultura e para a própria sanidade mental. O filme deve estrear em todo o Brasil no primeiro trimestre de 2020.

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MARIA DO CARITÓ

Filme simpático, mas que talvez falhe em buscar cenas engraçadas nem sempre sendo bem-sucedido. O mais interessante do filme é o absurdo da situação, da moça vitalina em busca de marido, mas cujo pai a guardou para um santo. Depois veremos que o filme também funciona como uma metáfora da situação política atual no Brasil. Aliás, quase todo filme brasileiro nos faz lembrar da realidade, por mais inocente que pareça. Curiosamente, é um filme que dialoga com A VIDA INVISÍVEL, ao abordar a questão das mulheres sendo enganadas pelos homens, geralmente os pais, representando um patriarcado decadente. Direção: João Paulo Jabur. Ano: 2019.

CANÇÃO SEM NOME (Canción sin Nombre)

Duas histórias paralelas que se cruzam: a da jovem mulher em busca do filho recém-nascido sequestrado e a do jornalista que procura, em um Peru ainda sob domínio da ditadura militar (1988), ajudar aquela mulher. O maior destaque é visual. A fotografia, em 4x3 e em preto e branco, lembra bastante o cinema mudo dos anos 20, com uso de muitas sombras e uma sensação de opressão o tempo inteiro. Ainda assim, há muitas imagens lindas, especialmente as feitas em exteriores. Senti falta de uma maior conexão com o drama dos personagens, mas isso pode ser mais problema meu do que do filme. Direção: Melina Léon. Ano: 2019.

RAFIKI

Senti muita falta de me envolver com as personagens, de me importar com o destino e a união das duas. E isso já diz muito do filme para mim. Por mais que haja a intenção de abordar o tema do preconceito em um país extremamente preconceituoso como o Quênia, não me empolgou em momento algum. Ainda assim, gosto das meninas, que estão muito bem em seus papeis. Direção: Wanuri Kahiu. Ano: 2018.

sexta-feira, agosto 30, 2019

BACURAU

Você quer viver ou morrer? Essa pergunta é feita por um dos vários personagens de BACURAU (2019), filme-coral de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, em uma de suas cenas mais intensas. Escolher entre viver é a ideologia dos habitantes da cidadezinha que dá título ao filme, um lugar que é um exemplo de resistência em um Brasil distópico futurista que guarda algumas similaridades com o momento atual.

O interessante é que Kleber Mendonça Filho tem dito em entrevistas e debates que não é separatista, apesar de enaltecer o Nordeste com entusiasmo em seu filme. Seu trabalho, ainda que exibido apenas em 2019, provavelmente não deve ter antecipado a eleição de Jair Bolsonaro, que não venceu nos estados da região Nordeste. E por isso tem havido um movimento, ainda que muito tímido e às vezes em tom de brincadeira, em memes, de separar a região do restante do Brasil.

Como BACURAU flerta também com os filmes do cangaço e há momentos de banho de sangue, a chamada para reagir de forma violenta pode ser uma mensagem e tanto. E eis o seu potencial de dinamite, até por se vestir de uma roupa de filme de gênero, que muito provavelmente agradará a um público muito maior do que seus dois trabalhos mais art-house anteriores, O SOM AO REDOR (2012) e AQUARIUS (2016). Assim, a ambição do filme não é apenas de natureza formal ou no trato com a mensagem, mas ao saber de seu maior diálogo com o grande público.

A história começa com a ida de Teresa (Bárbara Colen, ótima) ao povoado. Ela está de carona no caminhão-pipa e usando um jaleco. O que ela carrega são vacinas, como iremos saber mais adiante, quando ela chega ao velório de sua mãe, a matriarca do vilarejo. Até o momento dessa chegada, muitas informações nos são passadas. E o filme demora um bom tempo nessa apresentação de personagens, até entrar efetivamente no suspense, quando eles percebem que estão sendo atacados.

Sônia Braga é uma médica no vilarejo e aparece inicialmente bastante transtornada no velório daquela senhora tão querida. Mas aos poucos vamos notando que, mesmo com uma rixa ou outra, aquele pequeno pedaço de civilização é formado por pessoas bem próximas e unidas. E essa união se torna ainda mais intensa quando eles se percebem vítimas de um ataque. Para nós, espectadores, ao ingressarmos em um universo novo e em uma cidade à margem dos grandes centros e do que está acontecendo no resto do Brasil, cada detalhe é interessante e muito bem recebido.

Como os diretores optaram por fazer um filme de ação bem próximo do cinema oitentista (não faltam referências a John Carpenter), há um tanto de caricatura nos vilões, em especial o alemão Udo Kier, um ícone do cinema europeu, com uma filmografia invejável e muitos filmes de terror também no currículo (ele até já foi o Conde Drácula na produção de Andy Warhol). E é trazendo Kier para essa mistura maluca que BACURAU se mostra como uma obra com um inegável senso de humor. É como se pudéssemos ver o sorriso no rosto de seus diretores em várias cenas, principalmente as que envolvem os estrangeiros, os vilões.

Por isso é possível ver BACURAU como uma grande aventura de mocinho contra bandido, um western feijoada moderno. Dessas que inspiram palmas do público em determinados momentos da narrativa. Quase um RAMBO, só que com vários personagens. Aliás, se olharmos para o cartaz do filme após vê-lo veremos o quanto cada personagem é importante para o enredo.

Dentre esses personagens, ainda não citei o cearense Silvero Pereira, que interpreta o fora-da-lei Lunga, amigo do pessoal de Bacurau, mas que vive escondido das autoridades. Até o momento em que ele finalmente surge, com uma aparência muito curiosa, com um misto de macho com queer. Isso faz com que o filme se aproxime tanto dos dias atuais quanto dos heróis parrudos dos filmes da década de 1980.

Outro cearense que não tem sido mencionado com frequência nas críticas é Rodger Rogério, compositor e intérprete da primeira geração do chamado Pessoal do Ceará. Ele interpreta uma espécie de cantador que está presente em uma das cenas mais divertidas do filme, quando do aparecimento dos forasteiros sudestinos. O diálogo dele com essas pessoas é impagável.

Como se vê, há tanto o que se falar sobre o filme, sobre cada personagem/ator/atriz, que até pode-se imaginar que BACURAU é uma obra de trama intrincada. Na verdade, o plot é muito simples e parece muitas vezes feito com ar de brincadeira. Porém, em se tratando de Kleber Mendonça Filho e do momento político brasileiro, pode haver uma interpretação de convite à luta.

Se ARÁBIA, outro dos filmes recentes de nossa cinematografia que vem conclamado as pessoas à luta, é uma obra com um tom bem melancólico; BACURAU transforma a melancolia em raiva, em ação, em luta. Não que o povo de lá seja de guerra. Mas a placa já diz tudo: "Bacurau: se for, vá em paz".

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ESPERO TUA (RE)VOLTA

Mais um documentário que ajuda a pensar e lembrar de eventos importantes da história política brasileira. Este filme muito bem editado foca na ocupação dos estudantes nas escolas públicas secundaristas quando da ameaça do fechamento de várias pela secretaria de educação do estado de São Paulo. O filme volta no tempo em alguns anos e tenta pensar o papel dos jovens na luta, de 2013 até o início de 2019, com a eleição de Bolsonaro. As melhores partes são dos embates dos jovens com a polícia. Ótimos registros. Direção: Eliza Capai. Ano: 2019.

PASTOR CLÁUDIO

Desses filmes que a gente assiste e não acredita, por mais que já saibamos dos horrores que aconteceram nos porões da ditadura. Mas ouvir e ver alguém que participou de execuções e de sumiços de corpos de pessoas contrárias à ideologia do Estado é aterrorizante. Por mais que Cláudio Guerra diga ser agora um pastor evangélico que reconhece os erros do passado e colabora com a comissão da verdade, como de fato vem colaborando, é muito difícil tanto para quem o encara quanto para ele mesmo ouvir/contar aquilo tudo. E há coisas que ele conta por alto, envolvendo sociedades secretas que ainda existem. A elite brasileira. E tudo passa a fazer sentido no que se refere ao apoio de um cara como Bolsonoro. O desejo de poder e o pouco caso pela vida do outro ainda impera. Direção: Beth Formaggini. Ano: 2017.

DIVINO AMOR

Um filme que despertou em mim sentimentos mistos. Embora tenha me incomodado o modo como eles retrataram os evangélicos, como, aliás, é natural de se ver na maioria dos filmes brasileiros (acho que a exceção que eu vi foi em uma cena de CARANDIRU, do Babenco), ainda assim, o encaminhamento do filme torna-o mais complexo e interessante. A segunda metade é melhor no que traz. Plasticamente é muito bonito e gosto da ousadia das cenas de sexo (BOI NEON já tinha uma cena ousada e boa). Ainda estou pensando nas alegorias com o Brasil da era Bolsonaro a partir do final, mas ainda não cheguei a uma conclusão. O que, de certa forma, é bom. Direção: Gabriel Mascaro. Ano: 2019.

segunda-feira, agosto 19, 2019

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a Time in… Hollywood)

Cada novo filme de Quentin Tarantino é um acontecimento que movimenta tanto cinéfilos assíduos quanto esporádicos. Eis o motivo de seus filmes serem tão populares. Claro que a capacidade do cineasta de trazer astros do primeiro escalão também ajuda bastante. Ter Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie no mesmo filme, sem falar em participações muito especiais, como a de Al Pacino, é um chamariz e tanto. Um luxo e tanto. Mas as pessoas vão ao cinema principalmente para ver o novo filme do cineasta, certamente.

Seu novo trabalho, ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (2019), é seu melhor filme desde BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) e tira um pouco do gosto amargo que ficou com OS OITO ODIADOS (2015). Seja através dos diálogos sem pressa, seja com o modo como Tarantino brinca com o tempo mais uma vez, estendendo-o às vezes para causar suspense, como na cena de Cliff Booth (Brad Pitt) em um cenário rodeado pelos hippies liderados por Charles Manson; seja na sequência final, que nos leva à fatídica noite do dia 9 de agosto de 1969, quando ocorreu a chacina que pôs fim a vida de Sharon Tate; em todos os momentos do filme, Tarantino é dono do tempo e do espaço.

Um espaço que ele recria a partir de um já existente, o da Los Angeles do final dos anos 1960. Lembrando que boa parte de seus filmes se passam em um tempo indeterminado, mas com uma aura de apego ao passado muito intensa. O melhor exemplo disso é o de PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994). Aqui há um misto de eventos e pessoais reais com criações puramente tarantinescas. Em especial os protagonistas, o ator decadente Rick Dalton, vivido por DiCaprio, e seu dublê, o já mencionado personagem de Pitt.

Há um clima de bromance entre os dois que lembra alguns filmes da Velha Hollywood, como os dirigidos por Howard Hawks, ainda que a amizade dos dois se manifeste da maneira bruta de Tarantino. Cada pessoa oferece o afeto da sua maneira. Mas isso não quer dizer que não se veja amor no filme. Há bastante. Especialmente amor pelo cinema. Seja o cinema de Hollywood, seja o cinema feito na Itália para exportação, por mais que o personagem de DiCaprio ache que está chegando ao fundo do poço por não conseguir espaço melhor nos Estados Unidos e encontrar um caminho aberto no cinema italiano de gênero, para ele considerado muito inferior. Engraçada a cena em que o personagem de Al Pacino lhe explica que Sergio Corbucci é o segundo melhor diretor de western spaghetti do mundo.

Quanto à já famosa violência tarantinesca, seja por causa da pressão dos novos tempos, seja por maturidade mesmo, o novo filme do cineasta é o que menos busca uma violência gráfica, dentre todos os seus trabalhos. Aqui o que mais conta é a beleza do ir e vir dos carros, as ruas movimentadas com centenas de cinemas de rua, tudo muito lindo de ver com a exuberante fotografia de Robert Richardson, colaborador de Tarantino desde KILL BILL – VOLUME 1 (2003).

Falando em beleza, que acerto a escolha de Margot Robbie para viver Sharon Tate, hein! Linda demais a cena dela no cinema, satisfeita com a ótima recepção do filme em que trabalha por parte do público. Há quem ache que sua presença em cena é muito pequena, quase não lhe é dado texto, mas isso acaba tornando-a próxima de uma deusa, justamente por isso. E sua personagem é tão cheia de graça que é difícil não se encantar com seu sorriso, com sua alegria de passear pelas ruas e de dançar. Como se Tarantino quisesse nos mostrar o quanto a morte de uma mulher como essa é abominável.

Por isso a polêmica e incrível aposta do cineasta pela sua conclusão é tão bem-vinda. No mais, há também um elogio à inocência e à infância na figura da atriz mirim Julia Butters, a menina que dá uma lição no decadente astro Rick Dalton.

Está havendo uma confusão de percepções sobre a questão hippie. Não há por que acreditar que o diretor tem uma visão negativa dos hippies. Aqueles hippies em especial, os envenenados pelas mensagens de Charles Mason, esses sim representam o mal. E, nesse sentido, Tarantino não se furta de querer mostrar o mal como definitivamente mal, como fez com os nazistas em BASTARDOS INGLÓRIOS. Pode ser uma visão simplista, mas o modo como o diretor lida com isso é de uma beleza que transcende a necessidade de maiores problematizações.

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LISA E O DIABO (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil)

Pelo pouco que eu li de bastidores este parece ser o SOBERBA do Mario Bava, com a vantagem que foi um filme que conseguiu ter a suposta versão do diretor lançada posteriormente, já quando o cineasta faleceu. É uma obra estranha, bem delirante, que me lembrou CARNIVAL OF SOULS. Engraçado isso, já que CARNIVAL havia me lembrado um dos Bavas. Aqui se tem em comum a mulher perambulando perdida, a presença dos mortos que ressurgem, muitas cenas de climão, mas soma-se aí muitas cores na fotografia (bonita mesmo) e um romantismo que eu não esperava, lá pelo final. Romantismo no sentido amplo do termo, digo. Destaque para a participação da Alida Valli. Por mais que, de interpretação mesmo, só dê para destacar a naturalidade do Telly Savalas mesmo. Ano: 1973.

DUAS RAINHAS (Mary Queen of Scots)

Boa estreia de Josie Rourke, diretora mais ligada ao teatro. Ao contrário do que se pensa (inclusive pelo título brasileiro), a grande figura do filme é mesmo Saoirse Ronan. A rainha Elizabeth de Margot Robbie tem um papel importante, mas menor na trama, que tem o seu peso trágico, graças à própria história, aqui contada com muito mais minúcias do que no filme do John Ford. Ano: 2018.

SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS (Se7en)

Impulsionado pelo pessoal do Cinema na Varanda fui rever SEVEN, que tinha visto no cinema uma vez e outra em VHS. Mal lembrava do filme em si, só lampejos e do final impactante. Aliás, é engraçado isso: eu geralmente costumo esquecer dos finais dos filmes, menos dos impactantes. Com o tempo virou mesmo um clássico, embora eu ache que falte algo para se tornar excelente, não sei.. Mas é muito bom de ver e a trilha do Howard Shore é uma das mais felizes de sua carreira. Dramática e tensa, especialmente no final. Direção: David Fincher. Ano: 1995.

segunda-feira, agosto 12, 2019

BLOQUEIO

Quentin Delaroche já havia dirigido um ótimo filme sobre o cenário político recente do Brasil, CAMOCIM (2017), que funcionou como uma espécie de espelho da sociedade brasileira. Em BLOQUEIO (2018), somos reapresentados a um caso que aconteceu no ano passado e que gerou uma forte repercussão, a paralisação nacional dos caminhoneiros. E tem acontecido tanta coisa de 2018 para cá que quase esquecemos este momento em que o Brasil quase parou. O filme também lembra que o comportamento de boa parte dos grevistas era muito próximo de um bolsonarismo, como se aquela ação, de modo não deliberado, tivesse ajudado a chocar o ovo da serpente.

Assinado por Delaroche e por Victória Álvarez, o filme tem uma estrutura bastante simples: os diretores, ao verem que aquela situação poderia ser interessante o suficiente para gerar um filme para cinema, se dirigiram até um dos locais de concentração. Como o documentário é o gênero cinematográfico que mais depende do acaso para seu sucesso, podemos dizer que um dos problemas de BLOQUEIO está na ausência de personagens marcantes.

O que o documentário mais enfatiza na luta dos caminhoneiros por melhores condições de trabalho é o que há de mais controverso em seu discurso: o socorro através de uma intervenção militar. E isso acaba se tornando ridículo quando eles são forçados a encerrar a greve devido à chegada da polícia do exército. O próprio diretor pergunta a um deles, que é mal tratado por um dos militares: mas não é a eles que vocês estão pedindo socorro?

Depois de discursos desse tipo e orações de grupos evangélicos, um sopro de sobriedade surge quando dois professores chegam para discutir com o grupo, tratando justamente da questão da intervenção militar como solução para todos os problemas do Brasil, para o fim da corrupção etc. Ordem e progresso, a bandeira do Brasil, o Hino Nacional, todos esses símbolos que acabaram sendo apropriados pela direita, são abraçados pelos grevistas. E há um sentimento misto na cena em que eles cantam o Hino Nacional. Que momento esse em que vivemos, hein.

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O OLHO E A FACA

Quanta mudança de RIOCORRENTE (2013), tão cheio de alegorias visuais, para este novo trabalho de Paulo Sacramento, um pouco mais simples na forma, mas que aposta no tom de opressão. Opressão no trabalho, opressão na família do personagem de Rodrigo Lombardi. O diálogo com Caco Ciocler é perturbador; a cena de sexo com Débora Nascimento é animadora, as cenas com a família são incômodas, mas muito boas. Algo parece ter se perdido, mas ainda assim é um filme que merece ser visto com interesse. Ano: 2019.

MARCIA HAYDÉE – UMA VIDA PELA DANÇA

Eu, como leigo que sou em matéria de dança, desconhecia a existência da maior bailarina do Brasil (pelo que entendi no documentário). Bom ter um documentário exibido nos cinemas para nos apresentar a ela, por mais que o formato seja um tanto quadrado. Acredito que seja um filme mais apreciado pelos fãs de ballet e dança moderna também, já que ela foi uma que "contaminou" o ballet clássico com a modernidade. Direção: Daniela Kullman. Ano: 2018.

FEVEREIROS

Faltam-me identificação e sentimento de proximidade para gostar mais deste filme. Já que nem sou de família católica e nem do candomblé, acho que acabei vendo tudo com muito distanciamento. Ainda assim, com algum interesse, principalmente pelo fato de a personagem em questão ser Maria Bethânia e o filme também tratar de sua infância (dela e de Caetano Veloso, que me interessa mais). E tem o fato de a Bahia ser um mundo singular. Direção: Marcio Debellian. Ano: 2017.

quinta-feira, agosto 08, 2019

DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)

Um dos momentos mais bonitos de DOR E GLÓRIA (2019) acontece quando o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), em clara emoção, percebe o quanto tocou positivamente a vida de alguém ao resgatar uma pintura escrita por um jovem rapaz a quem ele alfabetizou já quando criança. Pode ser também uma cena representativa do quanto somos gratos ao próprio Pedro Almodóvar pelo tanto que ele nos proporcionou ao longo de três décadas de cinema. Um cinema transgressor e transbordante de emoções.

Curiosamente, o novo trabalho do mais popular dos cineastas espanhóis é um dos mais contidos no que se refere à sua tradicional veia intensa na dramaticidade, que se traduz tanto no uso das cores fortes quanto, principalmente, nas interpretações e nos sentimentos. Daí ele se encontrar na categoria de cineasta que ganhou um adjetivo: almodovariano.

Desde A FLOR DO MEU SEGREDO (1995), sua filmografia tem passado por mudanças que já sinalizavam um estilo mais maduro, com uma tendência a fazer menos comédias e mais dramas um pouco mais sóbrios. A única exceção dessa fase recente foi OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), curiosamente não muito bem recebido por vários fãs e por boa parte da crítica.

Se esses filmes de 1995 pra cá representam uma fase madura, DOR E GLÓRIA transparece ainda mais, inclusive por ser costumeiramente chamado de bio-ficção, por misturar supostamente eventos da vida pessoal do cineasta com histórias e personagens fictícios. A questão dos problemas de saúde de Salvador é um dos primeiros pontos que o filme trata, e o modo como isso é mostrado é muito inteligente e divertido, mas também algo com que possamos tanto nos identificar quanto nos solidarizar com o personagem.

Paralelamente, as memórias de infância de Salvador nos são apresentadas, com um especial carinho pela figura da mãe do cineasta, na fase mais jovem interpretada por Penélope Cruz, e na fase idosa por Julieta Serrano. Essas memórias irão entrecortar toda a narrativa fílmica, enquanto vemos o avanço daquele momento de quase aposentadoria de Salvador, quando ele se vê cansado e doente o suficiente para não se sentir capaz de voltar a um set de filmagens.

O filme, então, passa a tratar de reencontros. O reencontro com um ator com quem ele não trabalhava há mais de vinte anos (Asier Etxeandia) e, de maneira mais emocionante, o reencontro com uma paixão da juventude (Leonardo Sbaraglia). O primeiro representou a busca do protagonista por uma nova experiência, a heroína; o segundo trouxe lembranças boas e a certeza de que os momentos em que estiveram juntos foram positivamente essenciais para a vida e a obra do artista.

Mas nada mais emocionante que a questão da mãe, ao final do filme. Os diálogos de Salvador com a mãe, próxima da morte e já dizendo como gostaria de ser enterrada, além de falar sobre questões sobre aceitação, no que concerne principalmente à orientação sexual do diretor, e à dificuldade do relacionamento entre os dois na fase adulta, tudo isso chega em um crescendo sutilmente intenso. Almodóvar trata isso com tanta delicadeza que as lágrimas descem de maneira também sutil.

Quanto a Antonio Banderas, ele vive o personagem de sua vida em DOR E GLÓRIA. E tendo em Almodóvar o principal responsável por apresentá-lo ao mundo, com filmes como MATADOR (1986), A LEI DO DESEJO (1987) e ATA-ME (1989), nada melhor do que tê-lo novamente, e que até então se mostrava um tanto limitado, dessa vez em um papel lindo e comovente como o de Salvador Mallo. Seu prêmio de melhor ator em Cannes foi mais do que merecido.

+ TRÊS FILMES

GRAÇAS A DEUS (Grâce à Dieu)

François Ozon tem domínio narrativo, mas, embora este filme pareça uma espécie de cruzamento entre SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS e 120 BATIMENTOS POR MINUTO, não tem o mesmo dinamismo do primeiro nem a mesma paixão do segundo. Também pode remeter ao MÁ EDUCAÇÃO, do Almodóvar, pela temática. Em outros tempos, poderia causar polêmica, mas hoje em dia os escândalos envolvendo padres pedófilos já se tornaram, infelizmente, comuns. O lado positivo é que as pessoas estão contando mais e se livrando um pouco mais de seus demônios pessoais. Bom o fato de o filme ter vários núcleos, sendo três os personagens mais importantes. Ano: 2018.

JORNADA DA VIDA (Yao)

Um filme que conecta os sentimentos que tivemos de algo de nossa vida a partir de cenas simples e ternas. A história do menino Yao que resolve ir de sua vila no meio do deserto do Senegal até Qatar para conhecer o ator famoso vivido por Omar Sy. Destaque para a química entre os dois, para os sorrisos que passam uma alegria de viver contagiante. Sy já é desses atores que esbanjam carisma. Um papel como esse lhe cai como uma luva. Mas o menino também é ótimo. Direção: Philippe Godeau. Ano: 2018.

QUERIDO MENINO (Beautiful Boy)

Gosto de muitas coisas do filme, mas ele não funciona direito como um todo. Acaba dependendo demais de seus atores e atrizes (adorei ver Maura Tierney na telona - baita atriz!). Queria ter me emocionado tanto quanto me emocionei com ALABAMA MONROE, o filme do diretor na Bélgica. Steve Carell cada vez mais à vontade em papéis sérios. Nesse eu não lembrei em nenhuma vez do Michael de THE OFFICE. Direção: Felix van Groeningen. Ano: 2018.