sexta-feira, dezembro 02, 2022

17º FEST ARUANDA



A vida é uma caixinha de surpresas. Estava eu na minha rotina de ir para a escola, para casa e para o cinema, e de ver filmes em casa, de ler o quanto posso, quando recebo o convite de Amanda Aouad, atual vice-presidente da Abraccine, para que eu integrasse o júri do Fest Aruanda, em João Pessoa-PB, um festival de que ouvir falar muito bem por alguns anos, mas que não estaria presente no meu radar, até pelo fato de meu trabalho como crítico de cinema estar ainda mais independente, por assim dizer, sendo o meu veículo principal de trabalho o Diário de um Cinéfilo. O que não quer dizer que eu não esteja aberto para os festivais fora de minha cidade, embora tenha que driblar uma série de obstáculos para ir até eles, levando em consideração que sou professor da rede pública. Ter trabalhado nas eleições e dispor de algumas folgas ajudou muito a me ausentar do trabalho que é meu verdadeiro ganha-pão, para ter a honra de acompanhar o festival.

Chegar a uma cidade diferente da nossa e com a pouca presença de pessoas conhecidas, como é o caso deste evento, é uma atividade bem empolgante, pelo grau de imprevisibilidade. Na quinta-feira de manhã, logo que chego ao aeroporto do Recife, rola um apagão no 4G da Vivo e fico sem me comunicar com os organizadores. Ainda bem que consegui encontrar o rapaz que me levaria para João Pessoa. E então foi só alegria. Fomos pegar uma outra pessoa em Recife que iria ao festival e foi ótimo para mim fazer esse passeio, ouvindo histórias das duas cidades, sua geografia, sua cultura. Quando dizem que viajar é como ler um livro, eu diria que a comparação tem um quê de verdade.

No mais, gostei bastante das instalações do Hotel Caiçara, que fica perto da orla (praia de Tambaú). Depois de um almoço na cobertura que traz uma visão de um dos mais bonitos céus que eu já vi, e de descansar um pouco para a noite de abertura do festival, chega a hora de partir com um grupo em direção ao Manaíra Shopping. O festival acontece numa sala gigante da Cinépolis (a MacroXE), o que pra mim é novidade em se tratando de festivais. Em geral, acompanho esse tipo de evento em salas mais independentes ou cinemas de rua. Mas o pessoal do Fest Aruanda soube usar muito bem a estrutura a seu favor. Até porque dispõem de excelente som e imagem, além de um espaço muito bom para as apresentações.

Depois de um coquetel que funcionou como uma maneira de conhecermos pessoas e de nos apresentarmos, o evento começa com VTs de pessoas que passaram pelo festival (a crítica de cinema Flávia Guerra), que passarão (Toni Tornado), que não poderão comparecer (Murilo Benício), que têm o festival como uma espécie de mãe (os atores Mayana Neiva e Luiz Carlos Vasconcelos), entre outros. Enquanto isso, a música escolhida para as vinhetas é “Cavaleiro de Aruanda”, em clara alusão ao nome do festival. Aruanda é tanto o céu dos orixás quanto um marco do cinema brasileiro e paraibano, o curta homônimo de Linduarte Noronha. Isso, aliás, diz muito também do quanto a sociedade paraibana vem abraçando a cultura negra, especialmente quando os dois homenageados do festival são Zezé Motta e Toni Tornado, que ilustram a capa do evento.

A noite de abertura rendeu muitas emoções e um claro sentimento de gratidão a Lúcio Vilar, o idealizador do festival. Ficou muito claro também o orgulho que o pessoal sente da cultura paraibana, e o quanto o evento se expande para cidades do interior. Há também uma transparência muito grande em relação aos patrocinadores do festival, tanto de empresas privadas quanto de públicas, como é o caso da Cagepa, a companhia de água do estado. É como se estivéssemos vendo o encontro especial de uma grande família que se reúne para celebrar suas vitórias, como o acordo com uma universidade em San Diego, na Califórnia, ou o sucesso do streaming dedicado a filmes paraibanos. O clima positivo do momento político atual também ajudou a tornar o evento particularmente feliz. Enfim, é fácil compreender porque tantos críticos de cinema fazem questão de participar do Fest Aruanda. Quem veio quer vir de novo. Aliás, desde já, deixo meus parabéns ao crítico Amilton Pinheiro, o curador do festival, embora o evento mal tenha começado.

Antes da homenagem a Zezé Motta, uma das maiores atrizes do cinema brasileiro, além da teledramaturgia e de ser também cantora, fomos apresentados ao teaser do curta-metragem MEU PAI, ELIÉZER ROLIM, de Minna Miná. As breves imagens nos apresentam ao professor e cineasta do título. 

Em seguida, foi exibido o curta A VIDA SIMPLES DE JURANDY MOURA, sobre o poeta, crítico e cineasta. O documentário, dirigido por Lúcio Vilar e Marcus Vilar, possui uma carga afetiva comovente, sem falar no quanto nos deixa interessados pela obra do autor,  tanto a poesia, quanto seus curtas, que inclusive sofreram pressão da ditadura por mostrarem a realidade miserável da sociedade paraibana da época. Seu filme mais famoso é PADRE ZÉ ESTENDE A  MÃO (1972) e seu celebrado livro de poemas chama-se A Vida Simples.

Quando Zezé Motta desce ao palco traz um discurso bem sucinto e diz preferir cantar uma canção para o momento. Canta à capela “A Missão”, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira. Um momento lindo para encerrar a noite, antes de iniciarem a exibição de XICA DA SILVA, de Cacá Diegues. A noite acabou com um jantar numa barraca em Tambaú, com um pessoal muito legal da crítica e de gestão de eventos de cinema: Orlando Margarido, Gilson Packer, Flávia Miranda e Thiago Stivaletti.

domingo, novembro 27, 2022

ATÉ OS OSSOS (Bones and All)



Luca Guadagnino tem uma carreira no mínimo interessante. Apesar de ele ter ficado conhecido mundialmente pelo seu belo retrato do desabrochar juvenil de ME CHAME PELO SEU NOME (2017), o diretor italiano já possui 32 títulos em seu currículo, entre curtas e longas, entre ficção e documentário. Percebe-se que ele tem um interesse em experimentar. Gosta de histórias de amor, mas também tem um interesse forte no cinema de horror, como deu para notar quando optou por fazer uma reinvenção de um clássico de Dario Argento em SUSPÍRIA – A DANÇA DO MEDO (2018). Não podemos esquecer que um de seus primeiros filmes a estrear em grande circuito foi 100 ESCOVADAS ANTES DE DORMIR (2005), que, pelo que me lembro, foi tão polêmico quanto massacrado pela crítica na época de seu lançamento. Por algum motivo, acabei não vendo. Agora, passados alguns anos e com uma filmografia mais sólida como autor, me deu vontade de conferir esse título.

ATÉ OS OSSOS (2022) une o coming of age de ME CHAME PELO SEU NOME com o horror de SUSPÍRIA – A DANÇA DO MEDO, trazendo a história de uma garota de 18 anos (Taylor Russell) que se vê numa situação difícil quando o pai a larga à própria sorte depois de um evento já aguardado: a menina tem compulsão por carne humana. Agora ela tem a tarefa de encontrar um meio de se adaptar ao mundo, um mundo de cidades fantasmas da América profunda dos anos 1980. Sua tarefa, agora que o pai a deixou com uma gravação numa fitinha cassete explicativa, é encontrar a mãe. No meio disso, porém, ela acaba encontrando dois personagens que também possuem esses traços canibais, um homem mais velho vivido por Mark Rylance e um jovem interpretado por Timothée Chalamet.

Como eu gosto muito de ser surpreendido, ATÉ OS OSSOS foi um filme que me ganhou em muitos aspectos. Guadagnino mistura gêneros para falar de amor, desejo e necessidade de maneira muito crua e que pode incomodar espectadores mais sensíveis. Na sessão em que estive, algumas pessoas deixaram a sala na cena em que a garota e o canibal velho se alimentam do corpo de uma senhora idosa. Há detalhes que ajudam a enfatizar o aspecto mais perturbador da condição desses personagens, embora seja fácil ver essa condição muito parecida com a de dependentes químicos que precisam de uma droga para seguir com suas vidas. A diferença aqui é que esse “esporte” envolve matar pessoas, e é isso que deixa a personagem de Taylor Russell bastante incomodada. Ela é como o novo vampiro Louis, de ENTREVISTA COM O VAMPIRO: sabe de sua condição especial, mas acredita que precisa evitar ao máximo o sacrifício de pessoas inocentes.

Entre as várias surpresas que ATÉ OS OSSOS traz há uma participação muito especial de Chloë Sevigny como a mãe da protagonista. Aliás, quem viu a atriz em AMERICAN HORROR STORY – ASYLUM sabe que ela não tem problema nenhum em fazer personagens bem fora do comum. Isso vale para outros papéis bem desafiadores feitos por ela, como KIDS, HIT & MISS, THE BROWN BUNNY e DESEJO PROIBIDO. Abrir esses parênteses para falar de Sevigny pode ter sido desnecessário, mas acho importante chamar a atenção para a coragem da atriz de se entregar a diferentes personagens.

Outra coisa desconcertante de ATÉ OS OSSOS é a trilha sonora muitas vezes romântica de Trent Reznor e Atticus Ross (dupla geralmente parceira de David Fincher). Essa trilha, que enfatiza a história de amor de Maren (Russell) e Lee (Chalamet), parece por vezes destoar das passagens sangrentas que surgem ao longo do filme, mas por isso mesmo achei muito interessante, por mais que eu não tenha me comovido com o amor dos dois. O que mais me interessa acaba sendo essa história fora do comum e o tempero venenoso usado nas cenas de horror (não podemos esquecer o momento do filme com a participação perturbadora de Michael Stuhlbarg e David Gordon Green), sendo que muitas delas ficarão em minha memória por muito tempo, acredito eu.

A adaptação do romance juvenil de Camille DeAngelis caiu como uma luva no cinema de Guadagnino, tão interessado nos prazeres da juventude e em suas dores e angústias. O interesse do diretor pela juventude também será foco de seu próximo trabalho, CHALLENGERS, estrelado por Zendaya, a ser lançado em 2023.

+ UM ANÚNCIO IMPORTANTE

17º FEST ARUANDA

O Fest Aruanda de 2022, festival tradicional de cinema brasileiro que acontece em João Pessoa – PB, que ocorrerá entre os dias 1 a 7 de dezembro, anuncia seus títulos selecionados. Para mais detalhes, veja a programação completa no site do festival. Seguem as listas das mostras principais:

Mostra Competitiva de Longas NACIONAL

ANDANÇA – OS ENCONTROS E AS MEMÓRIAS DE BETH CARVALHO (Doc, RJ), de Pedro Bronz
BIA (Fic, PE), de Taciano Valério
FAUSTO FAWCETT NA CABEÇA (Doc, RJ), de Victor Lopes
LUPICÍNIO RODRIGUES – CONFISSÕES DE UM SOFREDOR (Doc, SC), de Alfredo Manevy
PÉROLA (Fic, RJ), de Murilo Benício
PROPRIEDADE (Fic, CE), de Daniel Bandeira

Mostra Competitiva de Curtas NACIONAL

MERGULHO (Fic, SP), de Marton Olympio e Anderson Jesus
TIRO DE MISERICÓRDIA (Fic, MG), de Augusto Barros
CARTA PARA GLAUBER (Doc, RJ), de Gregory Baltz
DÉJÀ VU (Fic, PB), de Carlos Mosca
DESEJO E NECESSIDADE (Fic, PB), de Milso Roberto
SANGUE POR SANGUE (Fic, PB), de Ian Abé e Rodolpho de Barros
SAINDO COM ESTRANHOS DA INTERNET (Anim, SP), de Eduardo Wahrhaftig
QUARENTENA (Fic, PR), de Adriel Nizer e Nando Sturmer
ELES NÃO VÊM EM PAZ (Fic, SP), de Pedro Oranges e Victor Silva
SOCORRO (Doc, RJ), de Susanna Lira
FILME DE QUARTO (Fic, SP), de Raffaella Rosset
TEKOHA (Doc, SP), de Carlos Adriano

Mostra Competitiva de Longas SOB O CÉU NORDESTINO
 
CORDELINA (Doc, PB), de Jaime Guimarães
FIM DE SEMANA NO PARAÍSO SELVAGEM (Fic, PE), de Severino
MANGUEBIT (Doc, PE), de Jura Capela
PATERNO (Fic, PE), de Marcelo Lordello
PEQUENOS GUERREIROS (Fic, CE), de Bárbara Cariry

Mostra Competitiva de Curtas Paraibanos SOB O CÉU NORDESTINO

ARATU (Fic), de Firmino de Almeida
A PRAÇA DO JOÁS (Doc), de Gutenberg Pequeno
ANJOS CINGIDOS (Anim), de Laercio Filho e Maria Tereza Azevedo
A ESPERA (Doc), de Ana Célia Gomes
CALUNGA MAIOR (Fic), de Thiago Costa
ERA UMA NOITE DE SÃO JOÃO (Anim), de Bruna Velden
NÃO EXISTE PÔR DO SOL (Fic), de Janaína Lacerda
O REBANHO DE QUINCAS (Fic), de Hipólito Lucena e Rebeca Souza
RENDEIROS (Doc), de Romero Sousa

quinta-feira, novembro 24, 2022

OS ASSASSINOS (The Killers)



Cada vez eu ando mais confuso com relação aos filmes a que eu realmente assisti, principalmente quando não tenho um registro deles. Na minha cabeça, por exemplo, eu já vi OS ASSASSINOS (1946), de Robert Siodmak, seguido de seu remake homônimo feito para a televisão por Don Siegel em 1964. De todo modo, rever o clássico agora de Siodmak foi como se o visse pela primeira vez. Até porque há um detalhe muito importante, que foi o quanto eu me deixei enganar, assim como o protagonista, pela femme fatale de Ava Gardner, o quanto também caí como um patinho, enfeitiçado por sua beleza arrebatadora, quando tudo, no roteiro, nas falas e até na música do Miklós Rózsa, já deixavam claro que aquela mulher representava a ruína do personagem de Burt Lancaster, assassinado logo no início do filme, e que depois surge como uma espécie de fantasma, a partir dos flashbacks de terceiros. A estrutura desses flashbacks, aliás, faz lembrar CIDADÃO KANE, mas eles são embaralhados em sua ordem cronológica.

Vale lembrar que o filme adaptou o conto de Ernest Hemingway e o fato de o escritor americano ter tirado a própria vida aos 61 anos pode trazer luz para o personagem do Sueco (Lancaster), o cara que, sabendo que está prestes a ser assassinado, fica esperando a morte chegar sem tentar se defender. Ou seja, logo de cara vemos que o filme é sobre desencanto, sobre desistir da vida. E imagino que isso já transpareça no conto de Hemingway. O que os roteiristas (um deles, John Huston, não creditado) tiveram que fazer após a morte do personagem Sueco foi usar muita criatividade para pensar em um grande motivo para esse desencanto do protagonista.

Quando vemos Ava Gardner, porém, tão cheia de beleza, no esplendor dos seus 23 anos, debutando finalmente como estrela em Hollywood, é fácil perceber os motivos desse homem ter caído em desgraça. Claro que não apenas pela beleza pura e simples da mulher, mas, como veremos ao longo dos flashbacks, pelo seu jogo duplo, pela falsidade, crueldade e egoísmo dela (a última cena com a personagem deixa bem claro esse aspecto de sua personalidade).

Interessante que o homem encarregado de investigar o caso, o corretor vivido por Edmond O'Brien, terceiro creditado, acaba tendo muito mais tempo de tela que Gardner e talvez até mais do que Lancaster, mas dá para entender que Lancaster é o protagonista, o dono da história, por assim dizer, ainda que um herói triste, enquanto O’Brien representa uma espécie de um quase espectador, entusiasmado por estar vivendo dentro de uma aventura noir investigativa.

Quanto aos 15 minutos iniciais do filme, que foi o que realmente esteve presente na obra literária de Hemingway, esses instantes são tão impressionantes que tudo o mais que viria a seguir parece menor. A cena é tensa e sufocante, as imagens têm uma beleza plástica de encher os olhos, desde os instantes iniciais, com apenas a sombra dos assassinos se aproximando do estabelecimento, ao som da música que antecipa o tom de ameaça. A cena é tão boa que inspirou o famoso quadro Nighthawks, de Edward Hopper. Além do mais, é importante lembrar que o grande Andrei Tarkóvski fez um curta-metragem no início de sua carreira inspirado no conto de Hemingway também.

Essencial para o ciclo dos filmes noir, OS ASSASSINOS já impressiona pelo preto e branco extremamente contrastante e expressionista e pela já citada trilha sonora carregada de violência e inspiração. Nem todo momento me pegou – acho que a segunda metade do filme tem um problema de ritmo –, mas quando o filme brilha é impressionante. Adoro o momento do encontro de Lancaster com Gardner, da conversa na prisão, do retorno para um novo e perigoso golpe, e de uma das últimas sequências, a do restaurante, que parece um último ato de uma ópera, e é quando o diretor brinca mais com os movimentos de câmera.

Quanto a Robert Siodmak (SILÊNCIO NAS TREVAS, 1946), o homem que é praticamente sinônimo de film noir, trata-se de um dos diretores alemães que fugiram da Europa durante a ascensão do nazismo. A lista de cineastas talentosos vindos da Alemanha nessa época traz nomes de peso como Billy Wilder, Ernst Lubitsch, Max Ophüls e Fritz Lang, e todos contribuíram para esse momento todo especial, para essa nova sensibilidade surgida em Hollywood, advinda tanto do espírito da época, de um mundo mais sombrio devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial, quanto da influência do expressionismo alemão na plasticidade da fotografia dos filmes.

OS ASSASSINOS está presente no box Filme Noir Vol. 11, com alguns extras muito bons. Destaque para o que trata da música de Miklós Rózsa. Ver esse pequeno documentário me ajudou a valorizar ainda mais tanto o trabalho do músico quanto o filme em si. O grande cinema é uma arte que deve ser consumida não como fast food, mas como algo a ser degustado e apreciado com atenção, carinho e estudo.

+ DOIS FILMES

OS ANFITRIÕES (American Gothic)

Que filme estranho e assustador este! Que bom que não tinha lido nada a respeito ou visto o trailer (os trailers antigos são ainda mais cheios de spoilers). OS ANFITRIÕES (1987) começa com um grupo de jovens (três casais), cujo avião dá pane e eles acabam ficando presos em uma ilha. A "salvação" é representada por uma velha casa habitada por um casal de idosos e seus estranhos filhos. Um dos grandes méritos do filme é conseguir surpreender mesmo quando já havia mostrado cenas tão bizarras e incômodas. John Hough é um diretor que merece mais atenção. Neste ano vi o seu INCUBUS (1981), um slasher bem diferente. Este aqui, apesar de ser mais "faca na carne", tem um tom de pesadelo muito forte. Tanto que a protagonista é recém-saída de um hospital psiquiátrico e isso acaba fazendo toda a diferença no direcionamento para a conclusão. Rod Steiger e Yvonne De Carlo estão muito bem como esse casal idoso, e até me fizeram lembrar o recente X – A MARCA DA MORTE, de Ti West, ainda que as propostas dos dois filmes sejam bem distintas. Visto no box Slashers VIII.

O MILAGRE (The Wonder)

Eis um filme que tem uma ligação maior, dentro da filmografia de Sebastián Lelio, com DESOBEDIÊNCIA (2017). Ambos lidam com questões morais e com uma visão crítica das religiões que impedem a felicidade das pessoas. Mas O MILAGRE (2022) traz mais mistério em sua trama, que envolve uma menina de nove anos que está, supostamente, há quatro meses sem comer nada e, corre o boato, seria uma espécie de santa da comunidade, numa vila do interior da Irlanda, nos anos 1860. Florence Pugh é a enfermeira contratada para vigiar e prestar eventuais socorres à menina. Uma das forças do filme está nas imagens, seja pela movimentação estilizada da câmera, principalmente nas cenas externas, seja pela expressividade de Pugh, uma das mais talentosas atrizes de sua geração. A direção de fotografia é de Ari Wegner, a mesma responsável pelas lindas imagens de LADY MACBETH (2016), o filme que revelou Pugh para o grande público. O belo uso do azul no figurino da personagem é um elemento em comum em ambos os filmes.

domingo, novembro 20, 2022

ANJO NEGRO (L’Ange Noir)



Talvez ANJO NEGRO (1994) seja o filme mais diferente da carreira de Jean-Claude Brisseau. Por diferente, digo, diferente do que ele havia realizado até então. E do que realizaria nos anos seguintes, embora já antecipasse um tipo de erotismo de imagens e fetiches que estariam presentes a partir de COISAS SECRETAS (2002). ANJO NEGRO quebrou minhas expectativas por ser, pelo menos de maneira superficial, um filme de crime e investigação. Mas também me surpreendeu por ser uma homenagem explícita a UM CORPO QUE CAI.

Aliás, vale lembrar o quanto alguns ótimos diretores já buscaram o clássico de Alfred Hitchcock para fazer tributos ou quase atualizações. Brian De Palma, com TRÁGICA OBSESSÃO; Paul Verhoeven, com INSTINTO SELVAGEM; David Lynch, com CIDADE DOS SONHOS; Christian Petzold, com PHOENIX. Certamente há mais exemplos que por enquanto desconheço, mas acho lindo quando grandes cineastas se veem na posição de saudar o grande mestre a partir de sua própria poética. A mitologia do mestre do suspense a serviço de novas poéticas.

ANJO NEGRO começa com uma cena impactante: uma mulher loira (a cantora Sylvie Vartan) descarrega a arma em um homem e o mata. Depois disso, uma outra mulher entra em cena para rasgar a roupa da mulher loira, meter-lhe uns tapas e quebrar vários móveis do quarto. Fica claro que a intenção ali é simular uma tentativa de estupro. À medida que a trama vai se desenrolando (e se enrolando também), o advogado vivido por Tchéky Karyo, Paul Delorme, vai descobrindo mais coisas sobre essa mulher por quem ele é apaixonado.

Tudo isso ao som da música poderosa de Jean Musy, colaborador frequente de Brisseau, ao detalhe do coque no cabelo que faz lembrar instantaneamente o citado filme do Hitch, a uma paleta de cores que enfatiza um vermelho lindíssimo, a muitas tomadas externas do carro do advogado que age como detetive, e a uma mulher que esconde sua verdadeira identidade. Ou seja, a inspiração hitchcockiana parece óbvia.

Stephane, a personagem de Vartan, é uma mulher de passado desconhecido. Casada com um juiz respeitado (Michel Piccoli, em participação pequena, mas luxuosa), ela tem como principais figuras em sua casa uma governanta (María Luísa García, a montadora e atriz de vários filmes do diretor) e a jovem filha Cécile (Alexandra Winisky), ambas mulheres que possuem segredos a ser revelados ao longo do filme. Não deve ser à toa que Brisseau usa as principais figuras femininas como dotadas de um grande mistério, na mesma medida que possuem um incrível fascínio e sex appeal. Aliás, há imagens eróticas, de mulheres nuas, que aparecem ao longo da investigação do advogado que surgem como se fossem figuras etéreas. Brisseau, mesmo em uma obra que parece ser mais devedora do cinema de gênero, segue sendo o cineasta que lida com a espiritualidade e a carnalidade com a mesma intensidade.

Se em um dos filmes anteriores do realizador, BODA BRANCA (1990), Brisseau havia explorado os mistérios de uma adolescente, o que dizer de uma mulher adulta, que tem uma história de vida maior? Então, as investigações de Paul e os bilhetes que ele recebe pelo caminho que o direcionam para pessoas que o ajudam a montar o quebra-cabeças têm a intenção de responder às perguntas: quem é Stéphane Feuvrier?, Quem é o homem que ela matou?, O que houve entre eles?, etc. A narrativa que o diretor constrói, herdeira do filme noir clássico americano, é também contaminada por uma câmera que parece ir por um caminho oposto ao da violência explicitada desde o começo.

Embora a violência surja com frequência nas obras de Brisseau, o amor e a espiritualidade acabam vencendo o mal. Em ANJO NEGRO, isso não parece ocorrer. O que permanece puro no filme é o amor dos dois homens por Stéphane, principalmente do marido, que sequer quer saber a verdade sobre ela. Quer apenas ir embora com ela, estar junto dela. Quase como uma sombra do personagem de Bruno Cremer em BODA BRANCA.

Quanto à juventude rebelde, tão comum nas obras de Brisseau, ela comparece sim aqui, mas principalmente perto do final, na figura de Cécile. ANJO NEGRO é provavelmente a produção mais cara do realizador, com direito a Piccoli e aos figurinos luxuosos da protagonista, criados por Christian Dior. No final, assim como acontece em BLACKOUT – SENTIU A MINHA FALTA?, de Abel Ferrara, é a partir de uma imagem em vídeo que o mistério será descortinado. Como se o velho tivesse que ser confrontado pelo novo para que encare, finalmente, a verdade.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

I TOUCH A RED BUTTON

Ter um filme "novo" de David Lynch para ver é sempre motivo de alegria. Mesmo quando o filme novo em questão é na verdade um videoclipe. Acontece que Lynch não faz vídeos musicais tradicionais. Quando ele foi convidado para fazer um clipe para a banda Interpol da canção "Lights" talvez os caras da banda nem soubessem que ele entregaria uma animação tão básica e suja, mostrando apenas repetidamente um ser parecido com um monstro apertando um botão vermelho. O botão, aliás, é a única coisa colorida do vídeo. Tudo o mais em I TOUCH A RED BUTTON (2011) é preto, branco e cinza. A canção é muito boa - não conhecia - e tem uma guitarra que segue num crescendo que combina bem com a animação feita por Lynch.

HOLLYSHORTS GREETING

Outro curta especial de David Lynch, este aqui ele fez por ocasião de uma premiação, o Hollyshorts 2008 Visionary Award. Em HOLLYSHORTS GREETING (2008), o diretor apresenta a si mesmo em cenário em preto e branco, mas emulando a red room de TWIN PEAKS (1990-1991), inclusive com a imagem e o som sendo rodados ao contrário, como o anão da série fazia, com um misto de simpatia e horror. Não há muita novidade neste curta e também não creio que o diretor tenha tido a vontade de ser tão inventivo, mas para os fãs é agradável e familiar. E sempre tem algo que a se prestar atenção. Inclusive algo que pode ser a chave para compreender sua obra: quando ele mostra um donut e diz para que olhem para o donut e não para o buraco.

sábado, novembro 19, 2022

NADA É POR ACASO



É possível dizer que a onda de filmes espíritas, que começou forte na virada dos anos 2000-2010, especialmente com as duas melhores realizações, NOSSO LAR e CHICO XAVIER, já não parece mais tão forte, embora neste ano NADA É POR ACASO (2022) seja a segunda produção deste subgênero a entrar nos cinemas – o outro foi PREDESTINADO – ARIGÓ E O ESPÍRITO DO DR. FRITZ, que acabei não vendo. A grande maioria dessas produções peca por ter um ar quase amador, embora isso às vezes acabe sendo um aspecto charmoso e diferencial. O problema é que sabemos que, como eles não têm um diretor do porte de um Daniel Filho, que dirigiu CHICO XAVIER, acabam fazendo tudo na raça mesmo, por vezes conseguindo resultados bem decentes.

NADA É POR ACASO, de Márcio Trigo, se beneficia de ter na produção alguns atores profissionais muito bons, como Giovanna Lancellotti (INCOMPATÍVEL), Fernando Alves Pinto (PARA MINHA AMADA MORTA) e Werner Schünemann (BENS CONFISCADOS). Então, esse pessoal segura muitas vezes o filme e ajuda a valorizar uma obra que se equilibra como numa gangorra entre acertos e desacertos. Senti falta também de ajustes nos diálogos e uma direção mais bem cuidada. Se tem uma coisa que não fica legal, por que não procurar alternativas para melhorá-la, como boa parte das cenas de abordagem do personagem de Rafael Cardoso (O RASTRO) à jovem vivida por Lancellotti? Ou seja, ao mesmo tempo que ficava incomodado com a dramaturgia, me pegava pensando se veria tanto defeito assim se estivesse assistindo a um filme português ou de outra nacionalidade, que prefere um outro tipo de registro, que não o do naturalismo.

A trama cheia de mistério, herdada do romance (psicografado) de Zibia Gasparetto, é um trunfo do filme, que começa com Marina (Lancellotti) recebendo um carro importado e uma transferência bancária de 5 milhões de reais. Isso é o suficiente para ajudar sua família (a mãe e o irmão mais novo) e fazer com que ela passe a ter o seu próprio escritório de advocacia. De onde veio esse dinheiro, segue sendo um mistério até os instantes finais do filme. Inclusive, ela não quer falar na tal viagem à Inglaterra sempre que o namorado Rafael (Cardoso) toca no assunto.

A trama paralela envolve a outra protagonista (Mika Guluzian), uma mulher que também guarda um segredo, e que sofre por ter traído o marido em determinado momento de sua vida, e a figura desse adultério aparece para assombrá-la. Aliás, acho o personagem masculino que faz chantagem muito ruim, muito mal desenvolvido, por mais que sirva à trama. E fiquei me perguntando se não é um problema do próprio romance de Gasparetto, e isso me fez questionar sobre a qualidade literária dessas obras psicografadas. Porém, como sou um desconhecedor dessa literatura diferenciada, deixo apenas meus questionamentos mesmo.

No mais, há algo que muito me interessa, que é a questão espiritual relativa ao nosso papel no mundo, à nossa missão. E até podemos ver essa questão da religião espírita quase como um calcanhar de Aquiles em alguns momentos também, por causa do tom panfletário e por vezes moralista. Além disso, há um direcionamento muito explicadinho para tudo, embora, no fim das contas, eu tenha gostado do tom didático usado para explicar a conexão entre as duas personagens femininas, principalmente.

Enfim, é um filme que me causou sentimentos conflituosos, mas que me ganhou especialmente na última cena. Então, fica meu respeito, claro. Até porque eu sou muito sensível ao tema da maternidade, e aqui em especial há uma situação que é muito dolorosa para uma das personagens, mas que é abraçada ao final como uma missão muito bonita, como um segredo a ser guardado com um misto de dor e alegria. Por isso acredito que a cena final, entre as duas protagonistas do filme, pode ter sido feita com muita emoção pelas atrizes. E por isso funciona tão bem.

+ DOIS FILMES

LE NOM DU FEU

Um rapaz chega a um consultório médico e é atendido por uma jovem médica, que diz que até caso de homem grávido já recebeu. Ele diz que o caso dele é especial, que ele é um lobisomem. LE NOM DU FEU (2002) é um divertidíssimo e tocante pequeno filme de Eugène Green, que usa muito a influência de Robert Bresson na atuação mais despojada e até com simplicidade do campo/contracampo para dar dinamismo à conversa dos dois personagens. Há passagens lindas depois dessa conversa inicial, seja na cena noturna, que prova que não precisa de efeito especial em filme de lobisomem; seja na conversa que eles têm depois, que é lindíssima. "Eu gostaria de ser o seu remédio", diz ela. De arrepiar. Um dos melhores filmes que eu vi neste ano tem menos de 20 minutos, vejam só.

A CHUVA ACALENTA A DOR

Tem sido interessante acompanhar a obra de Leonardo Mouramateus. O primeiro filme que vi dele foi o curta MAURO EM CAIENA (2012), que chamou bastante a atenção entre os críticos, quando de sua exibição no Cine Ceará. A CHUVA ACALENTA A DOR (2020), curta rodado em Portugal, já traz um estilo que lembra mais os realizadores de lá. O que já havia de experimental acaba parecendo mais estranho, mas uma estranheza europeia. Terminou o filme e eu fiquei sem compreender muita coisa, embora tenha gostado bastante da segunda parte, com a Isabél Zuaa (que atriz fantástica!) tentando trazer de volta a virilidade ao marido pouco contente. Já a primeira parte tem relação próxima com a primeira ao lidar com a loucura e com um desejo de se expressar de maneira bem livre, como se fazendo e falando o que vem à cabeça.

sexta-feira, novembro 18, 2022

O MATADOR (The Gunfighter)



É curioso como alguns cineastas importantes da Velha Hollywood acabam não ganhando o mesmo status e a mesma glória de outros tantos. Fui olhar no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer se achava algum do Henry King e nada. Nem O MATADOR (1950), que é o que eu esperava encontrar. Noutro livro de minha coleção imaginei que ele estaria: O Cinema Americano dos Anos Cinquenta, de Olivier-René Veillon, e lá também o cineasta também não é citado – estará no livro dos anos 1930, já que sua carreira remonta desde o cinema silencioso? Soube que em 2007 o Festival de San Sebastián prestou uma homenagem ao realizador, dedicando-lhe uma retrospectiva. Jacques Lourcelles, no texto “Henry King, o Admirável”, tenta explicar esse pouco louvor ao diretor com o fato de King não ter cunhado “nenhum símbolo pelo qual pôde apanhar a imaginação do público”. Ou seja, é possível que tenha passado batido entre os jovens críticos franceses, em parte por isso, embora eu esteja fazendo uma simplificação.

De todo modo, meus questionamentos vêm do fato de que fiquei particularmente impressionado com O MATADOR. Não conhecia outros filmes de King, a não ser JESSE JAMES (1939), western que só vi por anteceder O RETORNO DE FRANK JAMES, de Fritz Lang, e funcionava como pré-requisito para o primeiro western dirigido pelo cineasta vienense. Ah, vi também o filme em segmentos PÁGINAS DA VIDA (1952), mas por causa principalmente do segmento de Howard Hawks. Ou seja, o preconceito parte de mim, mas porque fui influenciado pelos críticos que ditam quem são os autores que merecem mais a nossa atenção.

Por sorte, a Versátil tem feito um trabalho fantástico atualmente, que é a confecção de livros de cerca de 100 páginas contendo ensaios sobre filmes de uma coleção específica da distribuidora. No livro sobre Cinema Faroeste, que eu tive a honra de comparecer com uma análise sobre CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William A. Wellman, O MATADOR foi selecionado pelos curadores da empresa como um dos dez filmes essenciais da coleção. E isso é dizer muito, se pensarmos que muitos filmes de altíssimo nível ficaram de fora.

O MATADOR é uma espécie de anti-western com bem pouca ação e um sentimentalismo apaixonante. Na trama, Gregory Peck é Jimmy Ringo, o pistoleiro mais rápido do oeste. Sua fama agora é mais um obstáculo do que uma ajuda, pois ele vive sendo desafiado por jovens pistoleiros que querem ficar famosos às suas custas, tentando lhe tirar a vida. Sua missão de vida atualmente é conseguir falar com a ex-esposa, que não vê há muitos anos, e mudar de rumo. O aspecto de Peck, seu cansaço, fica logo evidente nas primeiras cenas, mas também sua honradez e sua elegância. Como não conhecemos o jovem pistoleiro selvagem que ele foi, o que temos contato é este homem mais maduro e disposto a esquecer o passado e a viver uma vida tranquila com a mulher amada (Helen Westcott).

Algo impressionante no filme, aliás, é o quanto nos envolvemos e nos solidarizamos com o herói, tendo o conhecido tão pouco e em uma obra de apenas 84 minutos de duração. Com facilidade nos afeiçoamos a Ringo e também ao xerife (Millard Mitchell), um velho amigo que ele encontra por sorte na pequena cidade. Outra coisa que chama a atenção é o quanto King e os roteiristas nos deixam em estado de suspense naqueles instantes em que o herói passa quase o tempo todo naquele saloon, aguardando. Ao mesmo tempo, nossas expectativas são constantemente quebradas. Esse suspense também tem a ver com o uso das horas de maneira que antecipa MATAR OU MORRER, de Fred Zinnemann, lançado dois anos depois.

Uma das curiosidades geralmente conhecidas de O MATADOR é que o projeto original não era de King. Surgiu de uma colaboração entre John Bowers e André De Toth, com John Wayne em mente para o papel do pistoleiro. De Toth teria ficado chateado com os rumos que sua criação estava tomando e saiu do projeto. Não gostava da ideia de Gregory Peck como o pistoleiro mais veloz do Oeste, já que Peck tinha um aspecto mais de intelectual, carecendo de uma suposta necessidade de ser mais selvagem para o papel. Porém, o que King fez em seu filme foi algo que transborda amor, um libelo contra a violência. Logo, muito compreensível um ator que passe esse sentimento. E isso Peck faz, certamente, assim como boa parte do elenco de apoio. 

King e Peck já haviam trabalhado juntos antes no drama de guerra ALMAS EM CHAMAS (1949) e, depois de O MATADOR, o diretor e o astro se reuniram de novo em filmes bem distintos: DAVID E BETSABÁ (1951), AS NEVES DE KILIMANJARO (1952), ESTIGMA DA CRUELDADE (1958) e O ÍDOLO DE CRISTAL (1959).

Filme visto no box Cinema Faroeste Vol. 11.

+ UM ANÚNCIO IMPORTANTE

16º FOR RAINBOW – FESTIVAL DE CINEMA E CULTURA DA DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO

De 14 a 21 de dezembro acontecerá um dos festivais mais tradicionais da cidade, o For Rainbow. Os filmes escolhidos pela curadoria para esta edição já foram divulgados. Segue a lista:

LONGAS-METRAGENS

A FILHA DO PALHAÇO (Brasil, 2022), de Pedro Diógenes
CORPOLÍTICA (Brasil, 2022), de Pedro Henrique França
EU SOU ALMA / I AM ALMA (Alemanha/Argentina, 2022), de Mariana Manuela Bellone
GERMINO PÉTALAS NO ASFALTO (Brasil, 2022), de Coraci Ruiz e Julio Matos
PETIT MAL (Colômbia, 2022), de Ruth Caudeli
PROJETO FANTASMA / POYECTO FANTASMA (Chile, 2022), de Roberto Doveris
UM PEDAÇO DO MUNDO (Brasil, 2022), de Tarcísio Rocha Filho, Victor Costa Lopes e Wislan Esmeraldo
UÝRA – A RETOMADA DA FLORESTA (Brasil/EUA, 2022), de Juliana Curi

CURTAS-METRAGENS

CABILUDA (Brasil, 2022), de aColetto e Dera Santos
CAPIM-NAVALHA (Brasil, 2021), de Michel Queiroz
COMER MAMÃO À BEIRA-MAR / EATING PAPAW ON THE SEASHORE (Guiana, 2022), de Rae Wiltshire e Nickose Layne
ELA É A PROTAGONISTA / SHE’S THE PROTAGONIST (Bélgica, 2021), de Sarah Carlot Jaber
ELUSÃO (Brasil, 2022), de Taís Augusto
ESTA TERRA NOBRE /THIS NOBLE LAND (Botswana, 2022), de Theo Silitshena
FANTASMA NEON (Brasil, 2021), de Leonardo Martinelli
LUAZUL (Brasil, 2022), de Letícia Batista e Vitória Liz
LUTE PELA SUA LIBERDADE / FIGHT FOR YOUR FREEDOM (Burkina Faso, 2022), de Canisius Avéko
MÍSSIL – PARTE 1 (Brasil, 2022), de Roberta Marques
NA ESTRADA SEM FIM HÁ LAMPEJOS DE ESPLENDOR (Brasil, 2021), de Liv Costa e Sunny Maia
NEM O MAR TEM TANTA ÁGUA (Brasil, 2022), de Mayara Valentim
NO CÉU / IN HEAVEN (Espanha, 2022), de Manuel Gomar
NÓS, OS OUTRES / WE, THE OTHERS (Chile, 2022), de Mato Ariel Torga
PEDRO FAZ CHOVER (Brasil, 2022), de Felipe César de Almeida
PENSADOR / OVERTHINKER (Argentina, 2022), de Matías Dinardo
POSSA PODER (Brasil, 2022), de Victor di Marco e Márcio Picoli
PRAZER / JOUISSANCE (Irã, 2022), de Sadeq Es-haqi
PROCURA-SE BIXAS PRETAS (Brasil, 2022), de Vinicius Elizário
PROMESSA DE UM AMOR SELVAGEM (Brasil, 2022), de Davi Mello
QUANDO CHEGAR A NOITE, PISE DEVAGAR (Brasil, 2021), de Gabriela Alcântara
QUINZE PRIMAVERAS (Brasil, 2022), de Leão Neto
ROSA NEON (Brasil, 2022), de Tiago Tereza
TÁ FAZENDO SABÃO (Brasil, 2022), de Ianca Oliveira
UMA PESSOA COMUM / ORDINARY (EUA, 2022), de Atlas O Phoenix

quinta-feira, novembro 17, 2022

NOITES BRUTAIS (Barbarian)



Um dos maiores baratos de NOITES BRUTAIS (2022), um dos mais celebrados exemplares de horror da atual temporada, é o quanto o filme vai tentando se reinventar, quebrando nossas expectativas o tempo todo. Logo, o ideal é que nada seja lido sobre o filme antes de vê-lo. Inclusive, se você não o viu ainda, recomendo que pare de ler este texto. Não que eu vá dá muitos spoilers, mas quanto menos se souber a respeito, mais prazer o filme proporcionará. E gosto muito quando isso acontece, mesmo quando a obra em questão se mostra até um pouco descompromissada na ampliação de sua “importância”, por assim dizer. Falo isso pois a tendência geral dos novos filmes do gênero é serem bem mais do que filmes de horror, serem uma espécie de tratado sobre alguma questão sociológica ou psicológica. Não que isso falte em NOITES BRUTAIS, mas não está longe de ser comparado a um Jordan Peele, por exemplo.

A direção é de um cara pouco conhecido do meio chamado Zach Cregger, que até então era mais ligado à comédia. Seu primeiro longa foi uma comédia (romântica?) entitulada MISS MARÇO – A GAROTA DA CAPA (2009). Cregger foi um dos criadores de um programa de televisão chamado THE WHITEST KIDS U’KNOW (2007-2011). É muito provável que essa passagem pela comédia tenha sido fundamental para a efetivação do tom de NOITES BRUTAIS, que é um filme que pode, sim, meter medo, mas que se assiste principalmente com muito prazer e às vezes com um sorriso no rosto. Como fazer boa comédia é saber usar acertadamente o timing, isso pode ser um grande trunfo para a construção de um filme de horror que não tenha a pretensão de ser solene ou coisa do tipo.

A trama de NOITES BRUTAIS começa quando Tess, a personagem de Georgina Campbell (bastante lembrada pelo ótimo episódio “Hang the DJ”, da quarta temporada de BLACK MIRROR), aluga uma casa pelo Airbnb. A localização, em um bairro muito estranho no subúrbio de Detroit, já deixa no ar o perigo. Ainda mais com a chuva, que cai torrencialmente. Outro detalhe importante é que a moça vem tentando evitar a ligação do namorado ou ex-namorado. Acontece que, ao chegar à tal casa, ela descobre que alguém já havia alugado, um rapaz vivido por Bill Skarsgård (que viveu o palhaço em IT – A COISA). Com a dificuldade de encontrar outro lugar para ficar, ela resolve passar a noite na tal casa, mesmo não confiando muito naquele sujeito. Até rola um tipo de atração entre os dois, quando resolvem tomar um vinho, inclusive. Mas a casa possui segredos e de alguma forma esses segredos chamarão a atenção dos dois, o que será fatal.

Fico até sem graça de estar contando parte da história, e nem pretendo prosseguir, pois essa parte é apenas do primeiro segmento do filme, que mudará de rumo e talvez até de protagonista (será?), com a entrada em cena do controverso personagem de Justin Long (ARRASTE-ME PARA O INFERNO), um sujeito que está passando por uma situação complicada de acusações de assédio sexual, o que poderá representar o fim de sua carreira profissional no ramo do entretenimento. A relação dele com a casa do primeiro segmento logo surgirá. Assim como um olhar do filme para pautas atuais.

NOITES BRUTAIS engrossa a lista de ótimos títulos de horror lançados em 2022, que talvez seja um ano a ser estudado futuramente como um dos mais marcantes para o gênero – como foi o de 1981 para o slasher e o de 1972 para o giallo. Falando em décadas passadas, senti no filme de Cregger um tom de horror dos anos 1980, especialmente pelo uso do gore, ainda que o tom cômico seja mais comedido, estando presente mais nas entrelinhas e no prazer das surpresas, dos sustos e dos absurdos. É impressionante, inclusive, quando o filme explora a geografia dos subterrâneos da casa. É uma pena que não tenha passado nos cinemas, mas de vez em quando é bom ter essas surpresas exclusivamente em streaming, até porque o nosso circuito do gênero na telona nem sempre funciona como um bom curador, a julgar pelo que as distribuidoras costumam trazer, sem o menor critério de qualidade.

+ DOIS FILMES

HELLRAISER

Um dos grandes trunfos do HELLRAISER original (1987) foi não se prender tanto ao cubo e aos cenobitas e mais à história sangrenta de assassinatos e de reconstituição/regeneração do corpo de um homem graças ao amor de uma mulher. Este novo filme que promete, talvez, reacender a chama da franquia, aposta no cubo e na mitologia dos demônios criados por Clive Barker. Por sorte, HELLRAISER (2022) vai ficando empolgante depois da primeira metade, quando novas situações vão se apresentando cada vez mais desafiadoras e perturbadoras para a heroína (Odessa A'zion), uma jovem dependente química que acaba sendo apresentada ao "cubo mágico" e tem sua vida obviamente amaldiçoada. O novo filme tem um visual bem mais limpo que o original, mas não pega leve na violência gráfica e no gore, sendo até mais explícito no quesito apresentação de dor – destaque para uma certa cena envolvendo uma agulha. O filme também tem a sorte de ter um diretor habilidoso como David Bruckner, que já havia mostrado seu talento em A CASA SOMBRIA (2020), seu melhor filme até o momento, acredito.

O LIVRO DE PEDRA (El Libro del Piedra)

Muito provavelmente inspirado em OS INOCENTES, este belo filme de Carlos Enrique Taboada conta a história de uma mulher que começa a trabalhar como governanta em uma casa enorme e afastada do vilarejo e que precisa lidar com uma menina que acredita falar com uma criança-fantasma chamada Hugo. O andamento do filme é lento e, assim como o clássico de Jack Clayton, leva-nos a pensar, a princípio, que todos esses elementos sobrenaturais possam ser frutos da imaginação ou do medo que se instala naquela casa, especialmente à noite. Mais ou menos como VENENO PARA AS FADAS (1986) se utiliza mais da sugestão. Porém, O LIVRO DE PEDRA (1969) vai seguindo por outros caminhos e trazendo momentos verdadeiramente arrepiantes, como a cena do espelho, ou outros momentos de terror mais sutis e que também lidam com a escuridão da noite e com o mistério que habita o coração da menina. Visto no box Obras-Primas do Terror - Horror Mexicano 2.