sexta-feira, abril 03, 2020

O REI DE NOVA YORK (King of New York)

Uma coisa que me veio à mente vendo O REI DE NOVA YORK (1990) e observando o ano de lançamento do filme foi o fato de ter ocorrido no mesmo ano de OS BONS COMPANHEIROS, a obra-prima de Martin Scorsese. Abel Ferrara já falou em entrevista que Scorsese é sim uma grande influência em seu trabalho e já em filmes anteriores isso se mostrava aparente, mas não tanto quanto neste seu primeiro filme mais centrado na máfia - embora também nos mostre o ponto de vista dos policiais.

Mas, se por um lado, o filme de Scorsese foi lançado em quase todo cinema do mundo, a obra do Ferrara teve um lançamento muito mais modesto. Na minha cidade, por exemplo, eu não lembro de ter passado em nenhuma sala. Vi o filme em DVD, pela primeira vez, em 2003, e até tem um registro tosco disso aqui no blog.

Revê-lo foi algo totalmente novo, como se estivesse vendo pela primeira vez, principalmente levando em consideração que ando fazendo um estudo entusiasmado sobre a obra de Ferrara, durante esta quarentena.

Interessante que, nos textos anteriores sobre Ferrara, eu vi várias vezes os críticos comentarem a influência de F.W. Murnau em sua obra. E essa aproximação do diretor americano com o genial alemão transparece como homenagem em uma cena em que o protagonista (Frank White, vivido por Christopher Walken) adentra um espaço reservado de um grupo de gângsters. Lá eles estão assistindo a NOSFERATU.

E, prestando mais atenção, vi o quanto as sombras exercem um papel importante neste filme. Além da sugestão de que Frank White, que só sai de casa apenas à noite, com seu sobretudo preto, se esgueirando pelos cantos, seria uma espécie de vampiro moderno. Inclusive, seu jeito manso de falar lembra o dos sugadores de sangue nobres do cinema clássico. A única vez que White sai durante o dia é dentro de sua limusine preta, e para matar um policial no cemitério, durante o funeral do amigo, com uma metralhadora.

O filme começa com White saindo de sua prisão, sendo libertado depois de passar muitos anos preso. Em liberdade, ele fica hospedado em um hotel luxuoso de Nova York. Sua expressão é sempre melancólica, mesmo quando sorri ou faz aquela vozinha aguda, um elemento bizarro, mas que parece forçar um pouco mais um aspecto de humanidade ao anti-herói.

O niilismo, algo presente na obra de Ferrara desde muito cedo, comparece de maneira muito mais forte em O REI DE NOVA YORK. A impressão que temos ao ver aqueles personagens é que parecem ser almas que se desviaram de Deus, ou anjos caídos e sempre em constante estado de revolta, talvez porque o conceito católico fique nas entrelinhas, sem precisar ser expressado.

Talvez para compensar o mal que já fez, White tem a intenção de ser prefeito de Nova York, de fazer algum bem àquela cidade. Se não para compensar o mal, pode ser uma visão diferente, deturpada ou não da realidade. Ele afirma que "a humanidade nasceu para existir além do bem e do mal desde o começo." Seu primeiro projeto é a construção de um hospital para crianças, usando o dinheiro adquirido de seu império de cocaína.

Essa ambiguidade moral também transparece no modo como são mostrados os policiais (David Caruso, Wesley Snipes, Victor Argo). Apesar de claramente serem agentes da lei, é preciso agir contra essa lei, burlar as regras, para poder dar cabo do inimigo. É assim que pensa o personagem de Caruso, é assim que eles acabam agindo quando a situação fica mais delicada.

Falando em atores, é impressionante o salto que Ferrara deu a partir deste filme, trazendo um elenco masculino de peso (Walken, Lawrence Fishburne, Caruso, Argo, Steve Buscemi, Giancarlo Esposito). O elenco feminino não traz nenhum nome de grande peso, mas há pelo menos dois grandes destaques pela beleza, carisma e sensualidade. Janet Julian, que faz a amante de White, e Carrie Nygren, que faz uma de suas guarda-costas (aliás, que inusitado ter duas guarda-costas mulheres, fugindo totalmente do convencional).

É também um filme que acentua a imprevisibilidade. Há muitas cenas que puxam o tapete do espectador, a começar pela sequência do primeiro encontro de White com a gangue de Jump (Fishburne), que transparece tensão, para se transformar em abraços e dancinha de comemoração de amigos. Há uma primeira conversa de Frank com Jennifer (Janet Julian), que também se parece hostil, mas logo à frente os dois se revelam amantes. Inclusive, a cena do metrô, com ele a beijando e tocando seus seios em um vagão vazio, é talvez a mais sensual de um filme que se caracteriza também pela sensualidade.

E falando em sensualidade, como esquecer a cena de Melanie (Carrie Nygren, linda), uma das guarda-costas de Frank, lambendo cocaína do abdômen de um homem, enquanto afrouxa seu cinto? Durante a cena, Frank passa, olha no quarto e seu olhar é difícil de definir o que está sentido com o que vê. Assim, o desejo, a pose, a dança, as drogas, a música (o rap, principalmente), tudo é muito quente, erótico e convidativo.

No mais, se um grande filme se constrói de grandes cenas memoráveis, não há como negar que estamos sim diante de um grande filme. Como esquecer a cena da perseguição de carros com a polícia na noite chuvosa? Ou a cena de Jump, mesmo sentindo uma dor terrível por causa dos tiros de Dennis em sua barriga, rindo ao ver que o parceiro de Dennis está agonizando?

A partir de O REI DE NOVA YORK, Ferrara chegou a um momento sublime e glorioso de sua carreira. E é muito excitante estar acompanhando tudo isso, em ordem cronológica.

+ TRÊS FILMES

CALMARIA (Serenity)

É um filme que vale ver tanto por seu bom elenco (Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Diane Lane, Jason Clarke), como pela maneira como brinca de desconstruir a trama de um film noir (solar). O problema é que a história vai ficando um pouco desinteressante, quando deveria, ao contrário, ficar mais empolgante, pela virada e tal. Ainda assim, é um filme que merece a espiada. Inclusive, melhor não estragar algumas surpresas. Direção: Steven Knight. Ano: 2019.

O PESO DO PASSADO (Destroyer)

Acho que seria um bom filme com uma direção melhor. A história também não ajuda muito, mas também não há nada de muito errado. E a edição é até ok. Falta é força na direção para tornar o drama bom o suficiente para que a gente se importe com os personagens. Principalmente com a protagonista (Nicole Kidman). Gosto da parte final da trama. Direção: Karyn Kusuma. Ano: 2018.

TRAFFIK - LIBERDADE ROUBADA (Traffik)

É um suspense até eficiente, mas há certas coisas que me incomodaram e que acabam por dar à produção um ar de Supercine. Aquela personagem da policial é horrível e algumas coisas parecem bem de mau gosto, como uma cena em que toca uma linda canção da Nina Simone durante um ato de puro horror. Isso não dá pra perdoar. Direção: Deon Taylor. Ano: 2018.

quinta-feira, abril 02, 2020

AD ASTRA

Uma das coisas que eu costumava fazer com frequência na época em que meu blog era mais atualizado e também mais acessado era exercitar minha memória para falar sobre filmes que já fazia algum tempo que tinha visto. Façamos, então, algo parecido com um título de um dos diretores mais queridos da geração que começou na década de 1990, o americano James Gray.

AD ASTRA (2019) aparentemente é diferente de tudo que Gray havia realizado até então, sendo ele um misto de drama familiar com ficção científica espacial. A história se passa no futuro, em um momento em que a humanidade é capaz de providenciar missões até Netuno. Porém, o que temos novamente é um filme sobre a jornada de pai e filho, algo que havia sido explorado de maneira muito interessante no trabalho anterior do diretor, Z - A CIDADE PERDIDA (2016), em que a jornada se passa na floresta amazônica dos anos 1920.

Em AD ASTRA, Gray parece querer falar mais uma vez da busca de um filho por seu pai, da tentativa de refazer os passos para encontrar o pai, ou o pai em si, ou a si mesmo. Como se trata de uma obra que traz uma jornada tanto exterior quanto interior, há sempre esse movimento para dentro e para fora.

Na trama, Brad Pitt é um jovem astronauta que tem o chamado "right stuff", ou seja, a capacidade de manter-se são e tranquilo nas mais difíceis situações. Isso já é testado assim que o filme começa, quando ele quase morre tentando trazer de voltar para a Terra depois de muitas complicações uma espaçonave (ou seria um foguete?).

Ele é também conhecido por ser filho do famoso astronauta que está desaparecido e tido como morto depois de ter chefiado uma missão a Netuno. Desde então, nunca mais se teve notícia desse homem, que se transformou em um mito. Apesar da ausência de décadas, é como se o pai, ou ausência do pai, fosse uma presença constante na vida do protagonista. Até mais do que sua esposa, vivida por Liv Tyler, em papel apagado, mas que combina com o que o filme pretende dizer, creio eu.

Um aspecto que não foi muito aceito por parte da crítica foi o uso muito presente da voz do protagonista/narrador. Ao que parece, foi uma concessão do cineasta diante aos produtores, que talvez não tenham gostado muito do resultado sem uma voz explicativa. A situação lembra um pouco o caso de BLADE RUNNER, de Ridley Scott, que depois ganhou a versão do diretor, cortando a tal voice-over.

Sem o uso da voice-over, AD ASTRA se aproximaria bastante, em tom e imagem, de 2001 - UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Kubrick, embora bem menos ambicioso e mais intimista e apesar do orçamento explicitamente maior para os padrões de Gray. De todo modo, como é um filme que namora bastante com a noção de terapia, esse recurso é até bem-vindo, já que, em uma sessão de terapia, a voz - se não um diálogo, um monólogo - é fundamental.

Pode-se até ter problemas com o filme, mas não dá para dizer que Gray deixou de lado sua assinatura em prol de uma grande produção. Inclusive, é bem provável que seja um filme que ganhe bastante com a revisão e com uma perspectiva histórica e de estudo da obra do diretor.

+ TRÊS FILMES

STAR WARS - A ASCENSÃO SKYWALKER (Star Wars: Episode IX - The Rise of Skywalker)

É triste ver uma das franquias mais lucrativas e mais queridas de todos os tempos tendo que terminar assim de maneira tão triste, tão cheia de problemas. Aliás, é difícil encontrar qualidades no filme nos quesitos roteiro, interpretações, densidade dramática, senso de aventura, força dos personagens. Se os novos personagens já não eram suficientemente fortes nos primeiros filmes, aqui eles se mostram não apenas rasos, mas totalmente vazios. A informação sobre a origem da Rey, inclusive, pode incomodar também, mas, ao que parece, foi fruto das reclamações de fãs xiitas por causa do segundo filme, dirigido por Rian Johnson. É sair do cinema sem querer ver mais nenhum outro filme da franquia. Triste assim. Direção: J.J. Abrams. Ano: 2019.

ANIQUILAÇÃO (Annihilation)

Um filme que estava no meu pendrive há séculos seculorum e eu já tinha visto a metade em fascículos. Resolvi, depois da postagem no blog do amigo Marcelo Valletta, terminar de ver logo a bagaça. Até que a segunda metade tem dois momentos (de terror) bem interessantes. Pena que o filme é feito de boas ideias mas de realização pífia. Há quem vá ficar animado com a bela direção de arte, mas se isso é tudo que o filme tem a oferecer, tá ruim, viu? Faz parte da maldição que assola a maioria dos filmes produzidos pela Netflix. Direção: Alex Garland. Ano: 2018.

O PREDADOR (The Predator)

Shane Black é um grande piadista. Só vendo O PREDADOR como uma comédia é que dá para respeitar e até gostar bastante, mesmo com aquele final todo confuso e tosco e que põe muita coisa a perder. Mas gosto muito da ousadia da história que mistura muita coisa, do grupo formado pelo atirador de elite, da Olivia Munn, a cientista que de repente tem habilidades de luta impressionantes. No fim das contas, os aliens acabam ficando meio que em segundo plano na brincadeira. Ano: 2018.

quarta-feira, abril 01, 2020

12 CURTAS

COMO FERNANDO PESSOA SALVOU PORTUGAL

A história, muito divertida, eu já conhecia através de uma biografia do Fernando Pessoa. Trata-se de quando ele foi contratado para escrever um slogan para a Coca-Cola, a bebida americana, que queria encontrar espaço também em solo luso. Interessante que o filme brinca também com os heterônimos de Pessoa, sua forma de composição dos poemas (ainda que de maneira discreta), mas sempre fico feliz quando diretores estrangeiros têm esse conhecimento sobre Pessoa. Acabo achando que ele é algo que poucas pessoas não-falantes da língua portuguesa o conhecem. Quanto ao filme, tem aquele estilo característico do Eugène Green, que lembra um pouco Bresson na dramaturgia. Ano: 2018.

A ENTREVISTA

Um compilado de entrevistas de anônimas da elite carioca enquanto vemos imagens de uma jovem mulher indo à praia e se preparando para se casar. O que temos aqui tem um valor imenso, já que o filme, além de ser um dos raros dirigidos por mulheres nos anos 1960, aborda temas considerados tabus na época, como virgindade, submissão ao marido, educação dos pais etc. Assim, temos algumas opiniões conflitantes, algumas mais progressistas, como a da moça que diz que a virgindade não significa nada para ela, enquanto outra acredita que é uma forma de respeito para com o outro se casar virgem. A sociedade brasileira desse período, por mais que se quisesse acreditar que estava vivendo uma revolução, ainda parecia tímida em assumir certos posicionamentos. Talvez porque o recorte fosse da elite, apenas, não sei. Outro aspecto de destaque do filme é o quanto ele é moderno dentro do que se costumava chamar de documentário, formalmente falando. Direção: Helena Solberg. Ano: 1966.

COURO DE GATO

Nunca tinha visto este curta de Joaquim Pedro de Andrade. Adiava para vê-lo dentro do filme em segmentos CINCO VEZES FAVELA, mas fiz a opção certa ao vê-lo em separado. É brilhante. De cortar o coração. E uma demonstração do gênio do Joaquim Pedro na construção de uma narrativa com uma ausência quase total de falas, apenas imagens e sons, e uma trilha sonora maravilhosa. O que temos de falas é uma narração que conta que os tamborins dos desfiles de carnaval, por falta de material mais fácil de encontrar, eram feitos com couro de gato. A partir dessa informação e do horror disso tudo, vemos garotos em busca de gatinhos pelas ruas e casas, a fim de vender e não passar fome. A cena do garotinho perto do gato branco e dividindo a comida com ele é devastadora. E a cena final mais ainda. Foda!! Ano: 1961.

WHAT DID JACK DO?

David Lynch sabe como nos deixar desconcertados. Seu curta surpresa lançado na Netflix, no dia do seu aniversário, nem havia chegado a ser catalogado no IMDB ainda. A estranheza da situação, o próprio Lynch sendo um detetive interrogando um macaquinho suspeito de um assassinato, me deixou um pouco sem conseguir acompanhar os detalhes da investigação. Há uma cena que remete a outras obras de Lynch que metem medo, mas aqui é tudo tão experimental que essa sensação não fica tão forte como em RABBITS (2002), para citar outro trabalho bem experimental do diretor. Enquanto não temos outro longa de Lynch, não deixa de ser uma alegria ter um trabalho novo dele ganhando tanta repercussão. Ano: 2017.

A BORDO

É uma satisfação quando vemos um trabalho de um amigo e ficamos encantados e, no caso deste filme, ligeiramente assombrados com o resultado. Em A BORDO, Sylvia Prado (excelente!) é uma mulher de 40 anos que está em sua primeira gestação. Mas, como nem sempre as coisas acontecem como planejado, algo ocorre. Melhor não contar mais da trama para não estragar a apreciação de quem ainda não viu o filme, mas posso destacar duas cenas: a simulação do estar dentro do útero materno; e a planta e a chuva. As cenas da intimidade, da tristeza, da aceitação ou não da perda pela protagonista são mostradas de maneira econômica e poética. E fazer uma metáfora da vida na cena da montanha-russa é de uma beleza impressionante. Destaque também para a participação de Chris Couto. É um tipo de curta que mereceria mais burburinho, embora tenha sido premiado em variados festivais. Davi Mello é um cineasta a se prestar atenção. Ano: 2015.

AS VIAJANTES

O novo trabalho de Davi Mello segue uma linha mais de cinema fantástico, lembrando David Lynch, mas me lembra também um dos trabalhos de Juliana Rojas, O DUPLO. Optar pelo cinema fantástico e ter a honra de trabalhar com Gilda Nomacce, a rainha do gênero no Brasil, foi uma felicidade e tanto. No filme, duas amigas, atrizes, conversam, mas a personagem de Gilda está inquieta, com medo, olhando pela janela. E eis que ela conta, em flashback, o que realmente lhe perturba. E realmente é algo bem perturbador. Ótimo trabalho de montagem. E os olhos de Gilda... quanta expressividade! Ano: 2019.

NADA

Belo trabalho sobre garota que insiste em nadar contra a maré e não quer fazer Enem como os seus demais colegas de escola. O filme é até mais do que isso, existencialista. Gostei bastante. Legal ter passado em Cannes. Direção: Gabriel Martins. Ano: 2017.

SUPERDANCE

Interessante como os trabalhos de curta-metragem feitos aqui no Ceará estão cada vez mais brincando com o coletivo, com pessoas conversando de maneira bem descontraída. E ao mesmo tempo também inserindo elementos surreais na narrativa. Direção: Pedro Henrique. Ano: 2016.

MAMATA

Filme que ainda continua forte em um país cada vez mais cheio de desesperança. É um grito de indignação que ainda cala alto, mesmo com os clamores de "Fora, Temer" já tendo diminuído. (Atenção! Este minitexto está defasado, já que foi escrito no início de 2018 ainda, quando a situação não chegou a isso que está aí hoje.). Direção: Marcus Curvelo. Ano: 2017.

O VIGIA

Talvez nem precisasse da homenagem à América Vídeo no começo do filme, até porque O VIGIA tem uma construção de atmosfera muito boa, assim como o uso da música de suspense. Ainda assim, é um trabalho brilhante. Direção: Priscila Smiths e P.H Diaz. Ano: 2017.

FRANKSTEIN PUNK

Divertida brincadeira com vários filmes americanos usando animação com massinha. Uma prova do amor de Hamburger pelo cinema desde o seu primeiro trabalho. A cena que toca a música-tema de PARIS, TEXAS é sensacional. Direção: Cao Hamburger e Eliana Fonseca. Ano: 1986.

TORRE

Estupendo trabalho de narração com animação para contar uma história familiar dolorosa. Queria ter sido tocado mais pelo filme, mas é difícil reclamar de uma obra dessas. Direção: Nadia Mangolini. Ano: 2017.

terça-feira, março 31, 2020

INIMIGOS PELO DESTINO (China Girl)

"Todo problema nos filmes de Ferrara é um problema social, um problema endêmico à formação e manutenção de uma comunidade humana."
(Adrian Martin, em "Neurosis Hotel: An Introduction to Abel Ferrara")

Dou meus parabéns a quem está conseguindo manter uma rotina de vida produtiva e tranquila neste período de quarentena. Por mais que tenha conseguido fazer algumas coisas, a maior parte do tempo não é nada produtiva. E embora não seja muito bom ficar se culpando por tudo, é também importante dar um chega pra lá no desânimo, a fim de fazer o que se tem de fazer de home office, sem ficar postergando, e ainda conseguir ler aquilo que se considera importante e ver os filmes que desejaria.

Ontem até tentei escrever alguma coisa para o blog e não consegui. E aí percebi que um dos motivos mínimos para eu encontrar um pouco de entusiasmo tem sido ver, ler e escrever sobre os filmes de Abel Ferrara. Ontem de madrugada terminei de ver INIMIGOS PELO DESTINO (1987), que não é dos seus grandes trabalhos, embora tenha os seus fãs, mas que tem sim a sua marca. É também um dos favoritos do realizador.

Lendo o ensaio "Geometria da Força: Abel Ferrara e Simone Weil", do historiador de cinema Tag Gallagher, especialista em Ford e em Rossellini, fiquei impressionado como o autor consegue destacar coisas que eu até então não havia percebido no filme, como os momentos mais estilizados, detalhes relativos aos objetos em cena, um uso de sombras que ele compara a Murnau, além de atentar para as superfícies geométricas e as texturas. Gostaria que ele fosse mais detalhado, mas ao menos me deixou mais atento para quando for ver novas obras do cineasta.

O filme é uma livre adaptação da história de Romeu e Julieta e também de AMOR, SUBLIME AMOR, de Robert Wise e Jerome Robbins, já que a ação se passa nos guetos de Nova York, e lida com uma briga de gangues. As gangues aqui são os italianos da Little Italy e os chineses de Chinatown. No meio do fogo cruzado, dois jovens se apaixonam: Tony e Tyen.

Diferente do que se poderia prever em um filme que se propõe em ser uma nova versão de uma das histórias mais famosas do mundo, há muito mais destaque para a máfia e para os embates entre as gangues dos dois lados do que para o romance entre os dois. Eu diria que isso prejudica um pouco a empatia e que seria o calcanhar de Aquiles de INIMIGOS PELO DESTINO. Ainda assim, há momentos de emoção intensa, bem típica dos italianos, como a cena do funeral do irmão de Tony. O rapaz acredita que o momento não é de preparar uma vingança contra os chineses, como quer sua famiglia, já que isso só traria mais mortes, e se revolta com todos.

Assim como o crítico Adrian Martin falou na frase que abre a postagem, o problema no filme não é de natureza apenas dos jovens apaixonados, mas algo muito maior, envolvendo toda a comunidade. Algo muito parecido com o que acontece em CIDADE DO MEDO (1984), cujos assassinatos das strippers têm profunda relação com as vidas individuais de cada personagem.

Nesse sentido, o sacrifício ainda que involuntário dos dois jovens serve para trazer um pouco de paz para as duas comunidades. Como herdeiro de um catolicismo que o persegue desde a infância em escola católica, o sacrifício se torna mais importante ainda quando vemos que o grupo de pessoas ao redor não tem consciência de coletividade. O próprio diretor diz que o filme é sobre conscientização, sobre o despertar político dos jovens diante da opressão dos mais velhos.

+ TRÊS FILMES

COMO FALAR COM GAROTAS EM FESTAS (How to Talk to Girls at Parties)

Por mais que eu goste do começo do filme, com as festas punk, e fique encantado sempre com a beleza de Elle Fanning, além de achar muito divertido o relacionamento do rapaz com ela (uma alien), apesar disso tudo, não consegui me conectar com este filme. Por isso demorei um tempo para terminar de vê-lo. Aliás, acabei terminando de ver a meia hora final, meio que por acidente, por problemas com a conexão da internet. Sei que não é a melhor maneira de apreciar um filme, mas de vez em quando isso acontece. Só não podia ter acontecido com um espaço de tempo tão grande. Quanto ao final, engraçado eu ter achado bonito, mas nada emocionante. O que só aponta a minha falta de conexão, por um motivo ou outro. Direção: John Cameron Mitchell. Ano: 2017.

TARDE PARA MORRER JOVEM (Tarde para Morir Joven)

Custei um pouco a entrar no clima do filme, que nos joga no meio da ação, em que um grupo de habitantes de uma comuna na região rural do Chile procura se instalar, viver a vida da melhor maneira possível, ter seus relacionamentos etc. A figura principal é da garota Sofia (Demian Hernández), que me faz lembrar as protagonistas de dois filmes brasileiros muito queridos, DESLEMBRO e CALIFÓRNIA, curiosamente também dirigidos por mulheres. Há também um clima que me lembra os filmes de Alice Rohrwacher, para citar outra diretora contemporânea. Embora seja um filme coral, o foco maior está em Sofia e também em outro jovem, um rapaz interessado nela, embora ela prefira um outro, mais velho. Uma pena que falte ao filme uma capacidade maior de nos fazer sentir o que passa pela cabeça e pelo coração de Sofia - achei até mais fácil me solidarizar com o rapaz. Há uma cena de um incêndio que justifica o prêmio de direção que o filme ganhou no Festival de Locarno. Admirável. No mais, porém, o filme me deixou mais inquieto do que presente em cada momento. Direção: Dominga Sotomayor Castillo. Ano: 2018.

ANOS 90 (Mid90s)

Interessante como alguns jovens diretores têm apostado em lidar com a difícil passagem de fase da adolescência. OITAVA SÉRIE, este aqui do Jonah Hill, o FORA DE SÉRIE, da Olivia Wilde são exemplos. Este é bastante centrado nos meninos, com participação feminina apenas pontual, mesmo quando mostra a mãe do protagonista. Gosto muito como Hill apresenta a necessidade de autoafirmação do garoto, os exemplos que ele julga ideais (primeiramente no irmão, única figura masculina da casa, depois nos meninos de rua skatistas). Lembrei em alguns momentos de KIDS, do Larry Clark, ainda que seja menos intenso e mais delicado. Ótimos os garotos escolhidos para os papéis. E a A24 acerta mais uma vez. Tem algum filme ruim dessa produtora? Ano: 2018.

domingo, março 29, 2020

CIDADE DO MEDO (Fear City)

Falemos um pouco de um dos filmes menos queridos da filmografia de Abel Ferrara, CIDADE DO MEDO (1984). O próprio diretor não queria fazê-lo, já que o roteiro havia sido pensado por ele e por Nicholas St. John, seu parceiro criativo, em 1975, e ele acreditava que havia ficado datado, que seria melhor um novo projeto. Porém, o estúdio queria fazer esse filme e ele deu o melhor de si para que a obra se materializasse.

Como sou da linha que acredita na teoria dos autores, costumo adotar a máxima que os piores filmes de grandes cineastas são melhores que pelo menos a imensa maioria dos melhores filmes de cineastas sem assinatura. E assinatura não falta em CIDADE DO MEDO. Tudo aquilo que se tornaria arquétipo nos filmes de Ferrara comparece neste neo noir que conta a história de um gerenciador de strippers para um clube, vivido por Tom Berenger, e uma stripper viciada em cocaína. E é também a história do quanto suas vidas são tocadas a partir do surgimento de um assassino serial que caça suas vítimas, na grande maioria mulheres, nas ruas.

O retalhador impiedoso tem vontade de matar, mas principalmente vontade de infligir dor e terror às mulheres. A primeira vítima não morre, embora fique, obviamente traumatizada. Esse personagem, que não tem nome (o próprio ator não aparece nos créditos finais, por algum motivo), assim como a jovem muda de SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981), se torna escravo de sua pulsão sexual, e também de sua noção distorcida de moral e pecado.

O erotismo no corpo masculino, associado à violência (o assassino treina artes marciais e uso de facas nu) e no feminino, associado ao prazer e ao contentamento, como podemos ver na cena de striptease da personagem de Melanie Griffith, está presente no filme como associado ao pecado.

O catolicismo de Ferrara se mostra aqui também no personagem de Berenger, que é atormentado por uma culpa do passado, de quando era lutador de boxe e matou um homem no ringue. A culpa, na trama, porém, acaba funcionando mais como um catalisador para que o personagem, no terceiro ato, encontre um motivo forte para voltar a usar de violência ou até a matar um homem novamente.

Há também a brincadeira com os gêneros. O exagero na forma como o diretor pinta tanto o herói quanto o vilão, e principalmente o embate final entre os dois, que parece saído dos mais vagabundos filmes de ação da década de 1980, é tão enfatizado que, saindo de Ferrara, só pode ter sido proposital.

CIDADE DO MEDO foi o primeiro filme com um elenco hollywoodiano de Ferrara e que só não foi distribuído pela Fox porque o estúdio deu para trás quando percebeu que o filme tinha doses generosas de sexo (que nem é tanto assim, na verdade) e violência, e o vendeu para uma distribuidora independente.

+ TRÊS FILMES

ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out)

Elegante filme de mistério sobre um assassinato cometido por um dos membros de uma família que muito lembra os romances de Agatha Christie (ou os filmes baseados nos romances/novelas). O que me surpreendeu positivamente é que temos como protagonista, no meio de tantos atores e atrizes renomados, a personagem de Ana de Armas, o verdadeiro coração do filme. Ela é a cuidadora do patriarca da família e tem um problema de não conseguir mentir. O legal é que o filme vai entregando boa parte do que aconteceu na noite da morte do velho logo nos minutos iniciais, o que passa a impressão de que tudo está mais ou menos resolvido. Um elenco bacana, diálogos bem construídos, uma direção de arte lindona (pena que na sala que eu vi a projeção não era lá essas coisas), mas a mim me deixa um pouco cansado esse tipo de filme. Mas só um pouco. Direção: Rian Johnson. Ano: 2019.

JOHN WICK 3 - PARABELLUM (John Wick: Chapter 3 - Parabellum)

Um lado A extremamente excitante e um lado B um tanto desapontador. Ainda assim, ao lembrar das melhores cenas, presentes na primeira metade, há que se sentir uma ponta de alegria pela chance de ver um espetáculo desses no cinema. A cena da biblioteca, a primeira luta de facas com artes marciais, a cena de ação com a Halle Berry, tudo isso é muito bom. Direção foda do Chad Stahelski. Pena que no roteiro não souberam dar uma conclusão satisfatória e sem um vilão memorável. Ano: 2019.

CRIMES OBSCUROS (Dark Crimes)

Uma obra meio torta, mas que não deixa de ser eficiente em muitos aspectos. Jim Carrey está muito bem como um detetive de polícia obstinado, perturbado e rejeitado; a atmosfera da Polônia é de frieza até a alma; e a trama é boa, ainda que pareça ter alguns furos. A trilha, ainda que repetitiva, não deixa de contribuir a favor do filme. Mesmo que não resulte em um bom filme, vale ver essa experiência em língua inglesa do grego que dirigiu MISS VIOLENCE (2013). Direção: Alexander Avranas. Ano: 2016.

sábado, março 28, 2020

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

Interessante como há filmes que parecem ao mesmo tão pouco palpáveis e tão atraentes, que a sensação que temos é querer entrar na tela, querer tocar os personagens, tocar aquele universo criado, experimentar todas as sensações possíveis. Eu sei que ver no cinema torna isso mais próximo de se materializar, e por isso lamento muito não ter visto A LIBERDADE É AZUL (1993) na telona. Eu acredito que o filme chegou a ser exibido nos cinemas de Fortaleza, sim, mas, por algum motivo, algum vacilo de minha parte, eu não saí de casa para vê-lo. Por isso, minhas primeiras boas memórias de tê-lo visto foi de uma fita VHS. Rever agora, mesmo com o coração em constante estado de inquietação, foi muito especial, ainda que talvez não o ideal. É como se houvesse sempre uma necessidade de voltar ao filme.

O trabalho de Krzysztof Kieslowski aqui é denso. Tão denso que seu filme, de duração curta para uma obra com um andamento lento, ainda que com tomadas relativamente curtas, parece atingir a perfeição. Cada cena, cada detalhe, é importante, seja para dar contornos mais profundos à trama e à protagonista vivida por Juliette Binoche, seja para oferecer algo que ajude a montar o quebra-cabeças da história. Não que se trate de um filme "de roteiro" - a direção é que é mais importante -, mas há uma preocupação sim nesse aspecto; há um rigor formal perceptível.

Eu costumava comparar A LIBERDADE É AZUL com O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan. Ambos são filmes que tratam do luto, da perda. Mas a abordagem dos dois diretores é completamente distinta. Kasdan, por mais belo que seja o seu trabalho, se aproxima mais da narrativa mais clássica, enquanto Kieslowski traz com seus simbolismos e sutilezas um meio um pouco menos direto de se chegar ao âmago de sua história e dos sentimentos que ela traz consigo.

Na trama, Juliette Binoche é Julie, uma jovem mulher que é a única sobrevivente de um acidente de automóvel que mata seu marido, um famoso compositor, e sua filha de cinco anos de idade. Atormentada pela dor da perda do marido e da filha, inicialmente, ainda no hospital, Julie tenta o suicídio com o uso de pílulas. Não consegue, e em seguida resolve tomar algumas medidas que algumas pessoas, inclusive um dos melhores amigos de seu marido (Olivier, vivido por Benoít Régent), acredita ser uma loucura, como se livrar da casa, doar todo o dinheiro deixado pelo marido e ir embora, de preferência para alguma lugar que ninguém a conheça.

A partir da nova vida que surge, Julie nada em uma piscina, faz amizade com uma prostituta no prédio que passa a residir, tenta se livrar dos ratos que estão em seu apartamento, visita a mãe com Alzheimer, passeia pela cidade, procurando sentir alguma paz interior - e em certo momento é até possível vê-la experienciando essa paz. O passado, porém, vem à tona, principalmente na descoberta de que seu marido tinha uma amante e que ela está grávida. Isso acaba por mudar muito da percepção de Julie da vida e do modo como ela deseja lidar com a nova situação, inclusive na vontade que tem de ajudar Olivier na continuidade do projeto ambicioso do marido - o filme deixa indícios de que Julie era uma espécie de escritora fantasma e ajudou muito o marido quando ele estava sem inspiração.

Uma das coisas mais belas no filme, além da beleza extraordinária de Binoche, então com 29 anos, está na paleta de cores da fotografia do polonês Slawomir Idziak, que havia trabalhado com Kieslowski em A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991). O diretor de fotografia destaca, obviamente o azul desde os primeiros frames. Como a cor azul costuma ser associada à tristeza em algumas culturas, não é nada difícil fazer essa associação com o filme também.

Outro aspecto maravilhoso de A LIBERDADE É AZUL está na música do também polonês Zbigniew Preisner, um colaborador assíduo do cineasta e provavelmente um grande amigo. Seu trabalho aqui é o de romper com os silêncios tão presentes no filme e em alguns momentos essa música surge como algo bastante desconcertante, como nas cenas em que a tela fica totalmente preta e a música se torna o elemento único por alguns segundos. Isso se dá em algumas conversas de Julie com outros personagens.

Quem sabe um dia essa obra seja relançada em cópia remasterizada nos cinemas e possamos nos aproximar mais daquilo que parece tão pouco palpável, mas que tem uma beleza fantasmagórica maravilhosa.

+ TRÊS FILMES

FELIZ ANIVERSÁRIO (Fête de Famille)

Curioso como este filme vem passando em branco, recebido com certa frieza até. Como exemplar de filmes sobre famílias com problemas, é um dos mais felizes que eu vi há um bom tempo. Lembrei do brasileiro DOMINGO, de Fellipe Barbosa e Clara Linhart, mas lembrei também de um dos trabalhos mais verborrágicos de Olivier Assayas, HORAS DE VERÃO. Este FELIZ ANIVERSÁRIO, além de ter uma fauna de personagens muito interessante e um ótimo elenco, ainda traz um crescendo de perturbação que se mistura com um grau de tranquilidade com que a matriarca e aniversariante (vivida por Catherine Deneuve) sempre lida com os problemas. Emmanuelle Bercot está mais uma vez fantástica como a maluca da família. Entre os rostos novos, gostei da jovem Isabel Aimé González-Sola, que faz a namorada do personagem de Vincent Macaigne, ator que sempre conquista minha simpatia nos filmes. Certamente, muita gente vai se identificar com a família. Direção: Cédric Kahn. Ano: 2019.

O PROFESSOR SUBSTITUTO (L'Heure de la Sortie)

Um filme estranho. E por isso mesmo merece ser visto com atenção. No começo, parece um filme de professor como qualquer outro, ao vermos um profissional sendo confrontando pelas dificuldades impostas por uma turma de alunos da elite intelectual da escola. Pode não agradar um pouco como a narrativa se desenrola a partir de certo momento, quando o professor passa a seguir os passos dos alunos, para investigá-los, mas não dá para negar que, ao final, não é um filme que abandona o espectador ao fim da projeção. Isso é muito bom. Direção: Sébastien Marnier. Ano: 2018.

A REVOLUÇÃO DE PARIS (Un Peuple et Son Roi)

Em geral, esses dramas de época franceses são bem chatos e acadêmicos. Esse não foge à regra, embora tenha sido recebido com interesse por um público grande do Cinema do Dragão, que lotou tanto a sala, que teve gente sentado nos degraus. E olha que o ar condicionado estava com defeito. O elenco do filme é cheio de rostos conhecidos, de gente talentosa vista em tantos outros filmes. Mas quem brilha mais é Adèle Haenel, ainda que seu papel nem seja assim tão bom. A ideia de contar a história da Revolução Francesa pelo ponto de vista do povo não deixa de ser boa e funciona até certo ponto. Achei impressionante crianças participando de um evento tão sangrento. Direção: Pierre Schoeller. Ano: 2018.

sexta-feira, março 27, 2020

SEDUÇÃO E VINGANÇA (Ms .45)

Encontrei em SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981) o cineasta cuja obra mais me deu vontade de peregrinar, até por ter muitas lacunas em sua relativamente longa filmografia e por ele ser um cineasta um tanto complexo e mais digno de ser visto com atenção e estudo. A leitura ajuda muito a complementar a experiência do filme, e por enquanto estou utilizando o ótimo catálogo Abel Ferrara - A Religião da Intensidade, organizado por Ruy Gardnier em 2012. Este segundo (ou terceiro, se considerarmos o pornô de Ferrara como a sua estreia) longa-metragem do diretor ganha, inclusive, bastante destaque no catálogo.

O filme impressiona por ser um dos primeiros do subgênero rape and revenge e ainda assim se antecipar aos que viriam, transgredindo as normas vindouras. E por mais que um filme como DESEJO DE MATAR, de Michael Winner, já tivesse sido feito anos antes, aqui a transformação da heroína numa máquina de matar depois que ela sofre dois estupros num mesmo dia é muito diferente. Ferrara procura torná-la menos vítima possível. Inclusive dando a ela o poder de matar um de seus estupradores, esquartejando seu corpo na banheira e guardando os pedaços na geladeira para, friamente, ir deixando aos poucos em diversos locais de Nova York.

É interessante notar o quanto a cidade é mostrada suja e violenta, como devia ser mesmo na época, mas também é enfatizado a hoje tão comentada cultura do estupro. Já no começo do filme vemos uma série de homens tentando abordar de maneira bem pouco educada as mulheres na rua. E depois dos dois estupros e da atitude de certos homens que se tornariam vítimas da misteriosa assassina da .45, podemos perceber o quanto a categoria estava mesmo precisando mudar.

Mas uma coisa começa a confundir o espectador quando Thana (Zoë Tamerlis) passa a matar homens aparentemente inocentes, ou que cometem pequenas falhas com as namoradas, para depois passar a escolher homens de modo puramente aleatório. Na cena da festa de halloween, quando ela está lindamente vestida de freira, basta ser homem para se tornar alvo.

Seria então um filme sobre uma mulher que fica perturbada depois do trauma do estupro (e que sua mudez é provavelmente também advinda de um outro trauma) e se torna uma assassina? Também, mas o barato do trabalho de Ferrara é como ele torna tudo complexo, não precisando ser isso ou aquilo. Pode ser isso e aquilo também. Toda discussão é bem-vinda, portanto.

Visualmente falando, uma das coisas que dá prazer de acompanhar no filme é a mudança de roupa de Thana a cada novo assassinato. Ela passa a se vestir de maneira cada vez mais ousada, deixando de lado o estilo de doce garota de convento até a se vestir como prostituta de luxo, dominatrix e, ao final, uma freira sexy com uma arma amarrada à coxa.

Do ponto de vista psicológico, é interessante também notar a evolução da personagem a partir do momento em que ela mata o segundo estuprador em seu apartamento e parece estar chegando ao êxtase quando esquarteja seu corpo. O sadismo é percebido também nas preliminares da aproximação das vítimas. Mas é importante lembrar que estamos vendo um filme de Ferrara, onde o prazer transforma-se em dor ou mistura-se à dor com frequência. Talvez o exemplo mais representativo seja o de VÍCIO FRENÉTICO (1992).

Assim, há um momento em que a sexualidade parece lhe ser recusada: a aparição do primeiro estuprador após o esquartejamento acontece quando Thana tenta se ver nua no espelho, ensaiando uma espécie de sentimento erótico após o ocorrido. Porém, aos poucos ela vai ganhando uma espécie de empoderamento ao estar de posse do objeto fálico.

Outra coisa que dá prazer ao ver o filme está no quanto ele é imprevisível. Só o fato de não sermos apresentados à personagem, de não sabermos nada sobre seu passado, de não ouvirmos sequer alguma coisa de sua boca (por ela ser muda e por não haver uma voice-over), de darmos de cara com a invisibilidade de Thana no início, tudo isso contribui para que cada cena que se segue seja algo surpreendentemente novo.

Fiquei tão animado com o filme, que já estou pegando o longa-metragem seguinte do diretor e quero ver os demais. Qualquer coisa para trazer um pouco de alegria para esse momento já está valendo. E não estamos falando de qualquer coisa, mas de obras de arte.

+ TRÊS FILMES

AS DIABÓLICAS (Les Diaboliques)

O fato de eu já conhecer a história e as surpresas da trama atrapalhou um pouco a completa apreciação do filme. Aí fiquei pensando se ele é tão resistente a revisões quanto certas obras (lembrei, por razões óbvias, de PSICOSE, de Hitchcock). Mas claro que é uma beleza visualmente falando também, com imagens que ficam guardadas de maneira forte em nossa memória. A trama de duas mulheres planejando a morte de um homem que é marido e amante das duas não deixa de ainda manter o seu fascínio. Até por ser gostoso de ver. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1955.

SONATA DE OUTONO (Höstsonaten)

Um privilégio poder ver um Bergman tão intenso e em restauração tão perfeita na telona. Minha primeira vez com SONATA DE OUTONO e fiquei impressionado. Aliás, quase sempre fico impressionado com Bergman. Como o maior cineasta canceriano, vejo neste filme a essência disso: a questão de guardar. No caso, a filha que guarda as mágoas do mal causado pela mãe durante muitos anos. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1978.

REVANCHE REBELDE (Roadracers)

Melhor filme de Robert Rodriguez, ao lado de PLANETA TERROR (2007). O diretor se sai muito bem quando homenageia os gêneros de que gosta. Este aqui é uma beleza, brincando com os filmes de jovens rebeldes dos anos 50 e com um veneno forte na violência e na personalidade dos personagens. Foi uma produção para a televisão, junto com a de outros diretores, projeto Rebel Highway. Não vi os outros filmes. Melhores cenas: o cabelo pegando fogo, o rinque de patinação e o sexo à beira do lago. Ano: 1994.