sábado, abril 17, 2021

UM VERÃO ESCALDANTE (Un Été Brûlant)



Filme que antecede a chamada trilogia do ciúme de Philippe Garrel, UM VERÃO ESCALDANTE (2011) traz um tom muito mais trágico do que suas obras posteriores. Falo das obras posteriores pois me falta conhecimento dos trabalhos das décadas passadas desse que é considerado por muitos o maior cineasta francês vivo junto com Jean-Luc Godard. O tom trágico se antecipa no prólogo, ao vermos Frédéric, o personagem de Louis Garrel, batendo o carro deliberadamente rumo ao suicídio.

Antecipando-me, não sei se foi o efeito de O SAL DAS LÁGRIMAS (2020), ainda quente na memória afetiva, mas a impressão que tive de UM VERÃO ESCALDANTE foi de uma obra menor do diretor. E que não parecia ter a intenção de ser menor, dado seu forte interesse pelo viés trágico. De todo modo, é muito bom ver o quanto é caro para Garrel lidar com os temas do ciúme, da possessividade, da carência afetiva, enfim, de cada fraqueza que nos é própria dentro de um relacionamento.

O que vemos neste filme é certa crueldade do cineasta para com seus personagens. A cena do choro do protagonista e de sua esposa, vivida por Monica Bellucci, ao saberem que o relacionamento está chegando ao fim é um dos mais belos e mais cruéis momentos. E é cruel o fato de o filme não nos oferecer momentos para que nos solidarizemos com Frédéric. Não o vemos sendo gentil, amável ou carinhoso com a esposa; só o vemos como alguém possessivo, autoritário e um tanto arrogante. E o único momento em que Angèle, a personagem de Bellucci, abre um sorriso é justamente na cena em que dança com outro homem.

Angèle é uma atriz que, por amor ao marido, aceita se submeter à vontade dele e rejeitar certos papéis que lhe são oferecidos. Uma vez que ela se cansa, inclusive do ciúme doentio de Fredéric, a opção por sair de casa e ser novamente livre parece ser a mais acertada. Enquanto isso, Frédéric, pouco interessado em política como o amigo Paul (Jérôme Robart), afirma que as únicas coisas que lhe interessam são sua pintura e sua esposa.

A propósito de Paul, trata-se de um personagem que funciona mais como testemunha e narrador da tragédia do protagonista, quando ele e a namorada Élisabeth (Céline Sallette) passam uma temporada no espaçoso apartamento de Frédéric e Angèle em Roma. Falando nesse casal de coadjuvantes, um dos momentos mais bonitos do filme acontece quando Élisabeth, enciumada com a atenção que Paul tanto dá a Frédéric, resolve ir embora. Trata-se de um momento de fragilidade muito bonito e que Garrel lida com muito carinho. É algo que tenho notado no cinema do diretor, em especial esse da última década, que é o que conheço, esse não julgar, esse acolher seus personagens imperfeitos.

Pena que, da metade para o final, o filme vai ficando menos interessante, perdendo um pouco a sua força, por mais que eu goste bastante da cena perto do final, do reencontro de Frédéric com o casal de amigos. Ao ver o casal passeando com o bebê e símbolo de felicidade conjugal talvez ele tenha se dado conta de sua vida, suas escolhas e, dotado de um olhar enevoado, toma a trágica decisão. Um outro momento importante do filme é a cena que marca a despedida de Maurice Garrel da vida e do cinema. Ele aparece como o fantasma do avô de Frédéric. Como o cinema é uma arte habitada por fantasmas, a presença breve de Maurice é bastante simbólica desse espaço entre a vida e a morte que vive nos filmes.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES

ON THE ROCKS

O novo filme de Sofia Coppola é talvez o seu trabalho mais modesto, mas ainda gostei mais deste do que de O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017), um de seus projetos mais ambiciosos. Talvez este novo filme seja mais pessoal, tenha mais a ver com situações da própria cineasta, que assina também o roteiro. Na trama de ON THE ROCKS (2020), Rashida Jones é uma escritora que está com pouco tempo para se concentrar em seus trabalhos, cuidando bastante dos filhos pequenos. E ela começa a suspeitar que o marido (Marlon Wayans) a está traindo. Ela fala de suas preocupações para o pai (Bill Murray), que tenta ajudá-la à sua maneira. Muito interessante ver essa diferença generacional entre pai e filha e também um interesse de Sofia de entender a geração (supostamente?) mais machista de seu pai. E Bill Murray está ótimo.

ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY (The United States vs. Billie Holiday)

Uma pena que Lee Daniels tenha estragado o que poderia ter sido uma cinebiografia bem decente. A força de ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY (2021) está toda em Andra Day, que está mesmo muito boa no papel de uma das mais queridas cantoras dos Estados Unidos. Querida, mas também extremamente judiada, conforme vemos no filme, que ao menos nos fornece informações sobre a estrela e também nos coloca um pouco naquele período (anos 40/50) em que a KKK parecia mandar nos órgãos públicos, principalmente os de segurança. Uma coisa que me incomodou muito no filme foi o modo como todo mundo parece/é muito pouco inteligente. Tanto Billie, por voltar para um sujeito violento e covarde (o filme nunca deixa claro o verdadeiro apego a esses caras), quanto a polícia, principalmente em uma das cenas finais - mas, certamente, nesse caso específico, isso é mais problema de roteiro e direção.

QUO VADIS, AIDA?

Mais um desses filmes que nos lembram da crueldade da guerra. E das pessoas que fazem a guerra. Em QUO VADIS, AIDA? (2020), de Jasmila Zbanic, temos a história de uma intérprete que trabalha para a ONU em uma missão de pacificação para que os refugiados da cidade de Srebrenica não sejam mortos pelo exército sérvio, que está tomando a cidade, em seu trajeto de conquistar o território e afastar as etnias indesejadas, da pior maneira possível. Sei pouco ou lembro pouco do que li sobre essa guerra, que era assunto frequente nos noticiários dos anos 1990, e por isso em muitos momentos fiquei confuso com a situação das pessoas. Mas é um filme que pode ser tranquilamente visto por quem não conhece detalhes sobre a guerra. Até porque o grande drama da história está na busca da protagonista para encontrar abrigo para o marido e seus dois filhos. Ótima interpretação de Jasna Djuricic, que faz a protagonista.

terça-feira, abril 13, 2021

CINCO DOCUMENTÁRIOS



Na falta de coragem e inspiração para uma postagem mais aprofundada, vamos de textos rápidos sobre cinco documentários vistos nos últimos quatro meses, sendo três deles indicados ao Oscar 2021.

TIME

Essa linha de documentários recentes que têm conseguido registros de 20 anos ou mais tem aumentado e a tendência é que agora, com a maior facilidade de registrar eventos com celulares, filmes como este serão ainda mais presentes. A diretora de TIME (2020), Garrett Bradley, tem experiência tanto com ficção quanto com documentário e isso ajudar a encontrar os momentos certos para a narrativa, tanto na longa expectativa da protagonista da soltura de seu marido da prisão, quanto na necessidade de também dar voz a um dos filhos, o que ajuda a enriquecer o trabalho. Ainda assim, vejo o filme quase como uma obra inacabada, tal a sensação que fica no final. Como se a conclusão quisesse ser mais emocionante do que realmente é. Talvez o piano na trilha atrapalhe mais do que ajude. Mas é isso: documentários lidam também com o acaso.

AGENTE DUPLO (El Agente Topo)

É muito provavelmente o mais sofisticado e bonito candidato à categoria de melhor documentário neste Oscar. E em muitos momentos esquecemos que é um documentário. A estrutura de ficção é muito forte e também é muito fácil se pegar comovido com o velhinho protagonista e com os vários idosos lá da casa de repouso. Além de ser muito divertido. Fácil também se pegar gargalhando em alguns momentos. Na trama de AGENTE DUPLO (2020), de Maite Alberdi, um detetive particular procura pessoas de 80 a 90 anos para um serviço a definir. Depois de ser escolhido, a missão de Sergio Chamy é investigar algo na casa de repouso sem que ele seja percebido. Trabalho de espião mesmo. O registro humanista do filme é comovente.

COLLECTIVE (Colectiv)

Por mais difícil que seja a situação das vítimas de um incêndio em uma casa de shows e a posterior morte dos sobreviventes levados para um hospital especializado em queimaduras, não deixa de dar uma ponta de inveja em ver os atos da imprensa para pressionar os hospitais a adotarem medidas eficientes, já que as pessoas estavam morrendo de infecção hospitalar. Inveja, pois aqui no Brasil, tivemos foi falta de oxigênio durante a pandemia, além, claro de um serviço do governo federal que só beneficia o vírus. Quanto ao filme romeno, COLLECTIVE (2019), de Alexander Nanau, de fato tem sua força. O que mais me deixou intrigado foi o fato de o cineasta e os câmeras estarem presentes tanto nas reuniões dos jornais quanto nas do novo ministro da saúde, que em determinado momento chega a ser o protagonista da história. No mais, confesso que achei o filme um pouco cansativo. Talvez por ter que usar muito jargões técnicos para falar da crise sanitária nos hospitais de Bucareste e de todo o país.

SEARCHING FOR DEBRA WINGER

Foi tão bom ouvir todas essas mulheres maravilhosas falando sobre a situação da mulher, especialmente das atrizes, que têm que equilibrar suas vidas profissionais com o casamento e os filhos. Ao ouvir, por exemplo, Meg Ryan, ou a própria Rosanna, falarem sobre a dificuldade de ter que se dividir ou às vezes escolher entre os filhos ou os filmes, bate um bocado de angústia. Afinal, isso não é algo pelo que os homens costumam passar. Temos o caso de Jane Fonda, que sempre se dedicou muito mais à vida profissional e depois foi deixando quando se casou com um sujeito que disse para ela parar. Rosanna Arquette começa seu filme fazendo uma citação trágica de OS SAPATINHOS VERMELHOS, de Powell e Pressburger, sobre uma jovem bailarina que é obrigada a escolher entre sua paixão pelo balé e o homem que ama. Por que não ter as duas coisas? As entrevistas com as várias atrizes ocorrem em um misto de descontração e um bocado de rancor com a sociedade machista. Nos dias de hoje percebemos de cara a falta de mais atrizes negras no elenco de entrevistadas (só Whoopi Goldberg e Alfre Woodard comparecem). Mas há tantas discussões que vêm à tona, tão ricas, que eu lamento que não tenha sido um filme com mais visibilidade na época de seu lançamento. Quanto a Debra Winger, valeu o suspense de esperar a atriz que desistiu de ser atriz para dar sua entrevista. De todo modo, ela voltaria a fazer filmes e televisão, ainda que nunca mais voltasse a ser a estrela que foi nos anos 80/90. SEARCHING FOR DEBRA WINGER (2002) é um filme pequeno sobre um tema importante e feito com muito sentimento. O filme voltou a ser pauta com a matéria que saiu no El País chamada "Debra Winger, a estrela de cinema que preferiu desaparecer antes de ficar invisível".

O CAPITAL NO SÉCULO XXI (Capital in the Twenty-First Century)

Uma espécie de resumão da história do capital, do século XIX até os dias atuais, em que se propõe uma maneira de ir além do capitalismo como se conhece, de modo que haja uma diminuição da desigualdade social. O autor do livro, Thomas Piketty, comparece como um dos entrevistados, e o filme é muito empolgante ao tratar do assunto, com utilização de cenas de filmes, inclusive, para ajudar a contextualizar o momento histórico. O CAPITAL NO SÉCULO XXI (2019), de Justin Pemberton, é desses filmes que nos deixam pensando no assunto e que chamam a atenção para o livro, que deve funcionar melhor para a reflexão. Por mais que seja um documentário que segue uma linha tradicional na forma, me pareceu muito bom de ver e seu estilo didático é bem-vindo para quem não é um economista ou estudioso aprofundado do assunto.

sábado, abril 10, 2021

RASTRO DE MALDADE (Bone Tomahawk)



Lendo alguns comentários do público que viu RASTRO DE MALDADE (2015) há alguns anos, percebi que é comum acharem o filme lento e longo (na verdade só tem pouco mais de duas horas). Mal sabiam essas pessoas que o cineasta S. Craig Zahler faria um filme ainda mais lento e longo. E como meu primeiro contato com a obra de Zahler foi com JUSTIÇA BRUTAL (2018), seu terceiro longa, já estava mais ou menos preparado para este seu debut. Na verdade, acho que essa narrativa sem pressa dele está entre as suas maiores qualidades. Mostra o quanto ele é seguro na direção, na construção do roteiro e na construção das imagens.

A estreia de Zahler na direção foi fantástica. Lamento que seus filmes não estejam alcançando mais popularidade do que merecem, mas o culto vai aumentando à medida que as pessoas vão conhecendo seu trabalho. Em RASTRO DE MALDADE, o diretor une o western com o horror e em certo momento remete a certo ciclo de filmes de gênero italianos (não vou dizer mais nada sobre isso para não estragar as surpresas).

Quanto à parte western, parece uma mistura de RASTROS DE ÓDIO, de John Ford, com ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks. Há a missão desesperada por alguém que foi sequestrada por indígenas e há o grupo fisicamente frágil, composto por um idoso (Richard Jenkins) e um homem com a perna ferida (Patrick Wilson). Os mais fortes no grupo são o xerife vivido por Kurt Russell e um homem arrogante e famoso por ter matado muitos índios (Matthew Fox). Aliás, que baita elenco, hein? E pensar que esse filme é uma produção de baixo orçamento (U$ 1,8 milhão) e que foi rodada em apenas 21 dias...

Zahler credita muito do sucesso artístico do filme a seu excelente elenco. Que é masculino em grande maioria, mas que traz uma personagem feminina maravilhosa, a médica sequestrada pelos “índios trogloditas” vivida por Lili Simmons. No pouco tempo de tela que ela aparece, sua presença é luminosa. Mas, assim como os outros dois longas do cineasta, este seu primeiro trabalho como diretor é essencialmente masculino. E isso não deixa de ser um nadar contra a corrente neste momento, inclusive pelo fato de o diretor lidar com temas desconfortáveis como novamente trazer os índios como vilões, como nos westerns da velha Hollywood. Ele faz, porém, uma diferenciação, ao mostrar os inimigos como bem particulares. A caracterização dos tais trogloditas, aliás, é fantástica, saída da mente de quem é fã de ficção de horror - Zahler é também letrista de uma banda de death metal. 

A história é bem simples, mas cada detalhe que o diretor/roteirista inclui na narrativa a enriquece cada vez mais. Seja a luneta que o personagem de Matthew Fox usa, o ópio usado pela médica e depois por seu marido (Wilson) ou o som que os trogloditas emitem. Além de tratar bem os aspectos psicológicos de cada personagem. E há todo o trajeto que os quatro percorrem para chegar ao destino, que vai se tornando cada vez mais penoso, cada vez mais próximo de um cenário de horror.

A comparação que costumam fazer entre Zahler e Tarantino tem sua razão de ser. Ambos são cineastas mestres em lidar com o prolongamento do tempo e com diálogos às vezes “pouco produtivos”. O que dizer daquela conversa do personagem de Jenkins sobre ler livros numa banheira?

Outro elemento muito presente nesta estreia de Zahler é a beleza plástica. Percebemos um cuidado com a composição dos personagens no quadro. Como se trata de uma produção barata, há bem poucos extras na cidade e isso acentua ainda mais o clima de beleza estranha. Enfim, mal posso esperar para o próximo Zahler. E quem sabe conhecer também seus trabalhos como romancista, roteirista de quadrinhos e roteirista de outros filmes não dirigidos por ele.

+ TRÊS FILMES

A RENA BRANCA (Valkoinen Peura)

Na busca por um filme de curta duração durante a madrugada, fiquei intrigado com este filme de horror finlandês bem diferente. A fotografia em tons expressionistas contrasta com a trilha sonora, que às vezes mais parece com a de algumas comédias da Velha Hollywood, o que acaba tornando este objeto ainda mais estranho. A história de A RENA BRANCA (1952), de Erik Blomberg, se passa nos campos gelados em uma comunidade de pastores de renas. Na trama, bela mulher do vilarejo, um tanto insatisfeita com o marido, procura um xamã, que a oferece poder através de uma poção e do sacrifício de um animal. De certa forma, parece uma variação de filmes de lobisomem, substituindo o lobo por uma rena branca. Achei pouco envolvente em sua conclusão, mas é muito bonito visualmente e tem o seu charme. Filme presente no box Obras-Primas do Terror 11.

TIMER - CONTAGEM REGRESSIVA PARA O AMOR (TiMER)

Depois de WANDAVISION fiquei curioso com este longa da criadora da série, Jac Schaeffer, e que tem também elementos tanto de romance quanto de ficção científica. Na história de TIMER - CONTAGEM REGRESSIVA PARA O AMOR (2009), cientistas inventaram um timer que indica/avisa quando a pessoa vai encontrar a sua cara-metade. A personagem principal tem o seu timer em branco, o que indica que o seu predestinado ainda não implantou um. Enquanto isso, ela conhece um rapaz por quem ela tem interesse. Ao mesmo tempo, vemos sua meia-irmã e suas atitudes mais altruístas e mais interessadas na felicidade dela. É interessante que há o espaço para o questionamento da validade ou não dessa tecnologia, e gosto de como a história se encerra.

O RELOJOEIRO (L'Horloger de Saint-Paul)

O filme escolhido para homenagear Bertrand Tavernier, que partiu na quinta-feira, dia 25 de março, foi esta obra presente no box Filme Noir Francês 4, da Versátil. A vantagem de ter esses boxes com filmes diversos estrategicamente guardados é ter obras como esta, cheias de surpresas, à mão. E pra mim a surpresa está principalmente no fato de que este longa-metragem de estreia de Tavernier é muito mais um filme sobre a relação entre pai e filho (e antes disso entre o pai e o policial responsável pelo caso, vivido por Jean Rochefort) do que sobre o crime em si. Em O RELOJOEIRO (1974), acontece o crime, um assassinato, e o personagem de Philippe Noiret fica aturdido ao saber que seu jovem filho fugiu com a namorada depois de ter matado um homem. A partir daí o filme segue em um andamento lento, sem pressa, com escolhas nada óbvias de composição narrativa, com relação ao que acha melhor mostrar e o não mostrar. Acho a cena final muito bonita. Por mais que o filme não explore tão bem a relação pai e filho, ela se estabelece de maneira forte a partir da ausência e da dor do personagem de Noiret.

quarta-feira, abril 07, 2021

MTV AO VIVO - PATO FU NO MUSEU DE ARTE DE PAMPULHA



Recentemente, com as notícias de mortes de pessoas queridas, tinha dias que eu não conseguia fazer simplesmente nada. Em um desses dias, eu me peguei vendo uns vídeos do Pato Fu no YouTube. E chorei vendo o vídeo de "Me explica", no dia que soube da morte da Helen Lúcia e com o Santiago ainda lutando pela vida na UTI. "Me explica" nasceu inspirada no caso do acidente de Herbert Vianna, que o deixou na cadeira de rodas e trouxe a morte de sua esposa, mas é uma canção que pode muito bem ser aplicada a qualquer sentimento triste de ausência, à mágica da morte, esse estar seguido do não estar.

Depois de ver esse vídeo no computador percebi que não tinha em minha coleção o DVD do show - como pode, meu Deus? Eu tinha o CD apenas. Acabei conseguindo comprar no Mercado Livre e chegou hoje. No meio de tantas notícias ruins, foi o alento do dia, foi a alegria até, por mais que a banda, a partir deste disco, fosse tomar um caminho cada vez mais voltado à melancolia. Não que não houvesse já indícios disso desde Gol de Quem? (1995), mas é algo que foi aumentando com Televisão de Cachorro (1998) e com Isopor (1999).

Hoje foi apenas a segunda vez que eu vi MTV ao Vivo - Pato Fu no Museu de Arte de Pampulha (2002). A primeira foi justamente na MTV, em 2002. No momento do show, além da sofisticação dos novos arranjos para as faixas já conhecidas, percebi que esse tom mais depressivo estava mais presente, especialmente nas novas faixas, "Por perto", "Não mais", "Nada pra mim" e a já citada "Me explica", o único rock enérgico das quatro. As outras três são todas canções centradas muito no violão - no caso de "Nada pra mim", o teclado de Lulu Camargo é também fundamental.

Esse tom deprê abre a apresentação com "Tribunal de causas realmente pequenas", faixa retirada de Ruído Rosa (2001) e canção que é quase um hino da desesperança, muito em sintonia com os tempos sombrios em que vivemos hoje. Mas, para não ficar só na tristeza, a faixa aparece em conjunto com a raivosa "Licitação". Foi uma excelente maneira de começar o show.

Curiosamente, o CD traz uma ordem bem distinta das canções. As recém-citadas, por exemplo, não comparecem no disco. No CD a banda optou por começar com a nova versão de "Eu", que troca as guitarras pesadas pelos instrumentos acústicos dos ilustres convidados Hique Gomez e o saudoso Nico Nicolaiewsky. Assim, o uso do acordeon, do violino e do serrote, além do piano e do teclado (de Lulu Camargo) mostra que a banda se importava com seu público, ao querer de fato trazer um material completamente novo. Na verdade, eu até gostaria que a banda fosse dessas de lançar discos ao vivo de turnês, mas infelizmente não rolou até hoje um, a não ser os do projeto Música de Brinquedo.

Algumas versões ficaram incrivelmente lindas, como a de "Porque te vas", com Hique e Nico auxiliando nos vocais de Fernanda Takai. A propósito, como pode eu já estar no sexto parágrafo sobre o Pato Fu e não ter citado ainda a Fernanda? Por mais que John Ulhôa seja a mente da banda, o coração é a Fernanda. Aliás, talvez essa comparação seja totalmente absurda e Fernanda seja mais mente (até por ser virginiana) e o John mais coração. Não importa. O que importa é que Fernanda, com sua voz singular, cheia de doçura e até certa fragilidade, me traz uma emoção que nenhuma cantora de vozeirão é capaz de trazer.

E neste show ela transborda graça, seja quando dança nas canções mais agitadas, como "Porque te vas", "Vivo num morro" e "Made in Japan"; seja assustando os carolas em "Capetão 66.6 FM”; seja trazendo extrema delicadeza em faixas como "Canção pra você viver mais" e "Nada pra mim".

Quem não conhece o Pato Fu não tem ideia do quanto a banda é plural. E do quanto essa pluralidade em nenhum momento parece incoerente com o corpo de trabalho da banda. Como um exemplo da estranheza gostosa da banda, o que é aquela apresentação de "Rotomusic de Liquidificapum", hein?   

Outra coisa que eu vejo como muito positiva neste DVD é a apresentação breve que há entre uma série de músicas, com entrevistas e informações sobre as novas canções, sobre os entrevistados e sobre os próprios membros da banda.

E pensar que eu passei esses últimos 19 anos sem rever tudo isso... Gratidão imensa, John, Fernanda, Ricardo e Xande. Vocês são incríveis!

+ DOIS DVDS MUSICAIS

FERNANDA TAKAI - NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL: AO VIVO NO INHOTIM

Eu sei que querer que o registro em DVD do show Na Medida do Impossível fosse tão bom quanto ver ao vivo seria demais, mas eu fiquei um pouco desapontado com a falta das intervenções ou das palavras espirituosas de Fernanda durante os shows. Mas, uma vez que aceitamos a proposta mais limpa e pura de ter apenas as canções, está tudo de boa. A qualidade da imagem e a reprodução está de dar gosto. E algumas faixas ganham força, como a própria canção de início ("Partida"), que conta com a versão ao vivo como extra (de arrepiar). Não gostei dos novos arranjos para "Nada pra mim" e para "O ritmo da chuva". Mas me emocionei ao ouvir de novo "Liz", além de ter curtido muito a surpresa do DVD, que é "De onde vens", do Dorival Caymmi. Ah, só para deixar registrado: o show ao vivo (na Caixa Cultural) foi um dos melhores shows que eu vi na vida. E muita coisa que poderia estar neste registro em DVD e que eu senti falta foi coisa do primeiro disco solo da Fernanda Takai. Mas como eu sei que ela já havia trabalhado as canções do primeiro disco bastante, então dá pra aceitar de boa. Ano de lançamento: 2017.

TITÃS E XUTOS & PONTAPÉS - ROCK IN RIO AO VIVO

O show é curto, mas não é das melhores performances dos Titãs. Ao vivo eles são muito bons, mesmo na fase decadente. É legal conhecer um pouco do repertório da banda portuguesa que toca e canta com eles, mas às vezes as diferenças não ajudam muito. O que ajuda é o amor pelo rock e as paredes de guitarra distorcida o tempo inteiro (e os hits, que são vários). O ponto alto da noite nem é música deles: "Aluga-se", do Raul Seixas. Que na versão dos Titãs ficou animadora. Ano de lançamento: 2012.

segunda-feira, abril 05, 2021

SUPLÍCIO DE UMA ALMA (Beyond a Reasonable Doubt)



Briguei muito com ele [o produtor]. Fiquei muito desgostoso. Disse o que queria ao montador, Gene Fowler, e fui embora, sabendo que o filme estaria em boas mãos. Olhei para o passado - quantos filmes mutilados - e, uma vez que não tinha qualquer intenção de morrer de ataque cardíaco, disse a mim mesmo: "Acho que vou desistir disso". E decidi nunca mais filmar nos Estados Unidos.
(Fritz Lang, entrevista a Peter Bogdanovich, em Afinal Quem Faz os Filmes)

Essa foi a única coisa que Lang falou ao diretor/entrevistador a respeito de SUPLÍCIO DE UMA ALMA (1956), a despedida do realizador de Hollywood. O que é uma pena que tenha ocorrido, já que sua passagem pelos Estados Unidos não foi menos do que brilhante. Mas imagino que ter engolido tantos sapos não faz mal para ninguém. O curioso é que, apesar de todos os atritos, este seu último filme americano é ótimo, muitos o consideram uma obra-prima injustiçada.

Os dois últimos filmes de Lang nos Estados Unidos são obras de baixo orçamento, o que, aliás, é triste de notar, dadas as comparações que costumam fazer entre Lang e Alfred Hitchcock. Enquanto o inglês se tornou pop, trabalhando em produções caríssimas, praticamente um dono de Hollywood, Lang enfrentou uma série de dificuldades, pulando de estúdio para estúdio. Os dois últimos títulos são produções da RKO e são uma espécie de retorno às preocupações sociais que o cineasta havia trazido para os Estados Unidos em filmes como FÚRIA (1936) e VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937).

O tema do filme, a pena de morte, é mais uma prova do caráter humanista da obra languiana. Já no prólogo, quando vemos uma cena de execução na cadeira elétrica, a câmera não mostra o sofrimento do homem morrendo fritado, apenas as reações dos presentes. Quem já acompanhou os filmes de Lang sabe que ele segue essa tradição de, mesmo em filmes de temática violenta, evitar a violência gráfica.

SUPLÍCIO DE UMA ALMA, que ganhou uma refilmagem em 2009, por Peter Hyams, aqui no Brasil chamada de ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA, apresenta uma história no mínimo intrigante. O dono de um jornal (Sidney Blackmer), um cidadão contrário à pena de morte, pretende fazer uma experiência, provando que a justiça é falha e é capaz de matar um inocente por erros em processos legais. Seu genro, Tom Garrett (Dana Andrews), interessado também em fazer um estudo para seu segundo romance, aceita plantar provas de um crime, de modo que ele passe a ser, para a polícia, o responsável por um assassinato não solucionado de uma stripper.

O ponto de partida do filme é bastante empolgante e o filme é redondinho em seus 80 minutos de duração. Pena que o desenvolvimento não seja tão bom quanto a primeira metade da narrativa, ainda que, visto em retrospecto, SUPLÍCIO DE UMA ALMA seja uma obra mais do que digna. Inclusive o filme justifica a segundo parceria com Dana Andrews, cuja figura dúbia cai muito bem como alguém que é visto por um júri popular como um potencial assassino.

Uma das coisas que desagradaram os espectadores foi a mudança do protagonista, de uma figura inocente se passando por um culpado, para um sujeito que acreditávamos ser inocente sendo na verdade o grande culpado. Esse detalhe é mais interessante do que parece, é muito mais do que uma pegadinha, pois é Lang nos convidando a refletir sobre julgamentos, sobre a inocência e a culpa. Inclusive quando mostra a namorada de Garrett (Joan Fontaine) preferindo entregar o sujeito à polícia do que escondê-lo. Do ponto de vista moral, é perfeitamente compreensível, e, nós do lado de cá da tela também acabamos demonizando o protagonista, que nos enganou. Mas será que fazendo isso não nos tornamos tão cruéis quanto o próprio sistema que mata pessoas em uma cadeira elétrica?

É interessante notar que o que Lang faz em SUPLÍCIO DE UMA ALMA é uma inversão de algo que ele havia feito em A GARDÊNIA AZUL (1953). Novamente, o tema da culpabilidade de uma pessoa é posta em prova, usando uma inteligente elipse para enganar o espectador. Mas com todo o respeito. 

+ DOIS CURTAS E UM MÉDIA

A VOZ HUMANA (The Human Voice)

Pedro Almodóvar não para. Está filmando outro longa e tem mais três trabalhos em pré-produção. Infelizmente li pouco dos escritos que ele publicou no início da pandemia, mas, do pouco que li, era tudo tão bom e cheio de intensidade. Gosto também do tom memorialista que ele adota, tanto nos escritos quanto em vários de seus filmes. A VOZ HUMANA (2020) parece feito para soltar os demônios, libertar-se daquilo que fica engasgado, ainda mais quando se está em confinamento. A personagem vivida por Tilda Swinton não está em confinamento por causa da Covid, mas porque espera o ex-marido (ou ex-namorado?) voltar. Espera angustiada, com tentativas de dormir para acalmar o espírito com pílulas, e de acordar com café para se manter ativa. A linda fotografia do sempre presente colaborador José Luis Alcaine continua alinhada com as cores vivas de Almodóvar e o calor de seus sentimentos. E falar em calor sobre este filme não é usar uma figura de linguagem.

O DESPERTAR DE WOTON (Woton's Wake)

Se em MURDER À LA MOD (1968) havia um experimentalismo forte, para o que ficaríamos acostumados a ver nos filmes do De Palma a partir dos anos 1970, é de se esperar que seus primeiros curtas fossem experiências ainda mais livres. Este seu terceiro curta, O DESPERTAR DE WOTON (1962), tem os elementos da comédia e da paródia, além do interesse por crimes, coisas que apareceriam com frequência nas obras mais "comerciais" do diretor. Achei meio bagunçado, mas é interessante. Apresenta o protagonista, Woton, um maníaco que se veste como Jack, o Estripador, que caça suas vítimas e coleciona seus apetrechos roubados. Há também o gosto por máscaras, uma obsessão do diretor, que aparece forte aqui. A dificuldade que eu tive de entender a narrativa talvez se resolva com uma revisão. É interessante também notar a brincadeira que ele faz com O SÉTIMO SELO, de Bergman, e o modo como ele já antecipa uma contracultura que era ainda bastante tímida no cinema americano. Assim, a bomba atômica parece ser mais saída do espírito dos anos 1950, enquanto a orgia dos jovens antecipa, com ousadia, o cinema da Nova Hollywood, prestes a desabrochar.

UM DIA NO CAMPO (Une Partie de Campagne)

Eu preciso ter vergonha na cara e parar de ver os filmes de Jean Renoir como desculpas indiretas. No ano passado vi dois filmes magníficos dele por causa de Fritz Lang. UM DIA NO CAMPO (1936/1946), eu vi por causa de LA FLOR, de Mariano Llinás, que presta uma homenagem meio torta. Achei de uma beleza fenomenal. O sentimento de gratidão e de apreciação da vida, da natureza, e que também se manifesta na escapulida que mãe e filha dão com dois rapazes que conhecem, tudo isso é algo de celebração. Ao mesmo tempo, há algo da aproximação do sujeito à jovem, meio que à força, pelo menos a princípio, que me incomodou um pouco e me causou sentimentos mistos. Ainda tem aquela imagem linda da chuva no rio (sempre as águas nos filmes de Renoir) e o momento de silêncio e de contemplação da natureza dentro do barco. Uma pequena obra-prima inacabada. 40 minutos que passam voando.

domingo, abril 04, 2021

SERVANT - SEGUNDA TEMPORADA (Servant - Season 2)



No mesmo dia da estreia de WANDAVISION pelo Disney+, a Apple TV+ lançou a segunda temporada de SERVANT (2021), que infelizmente passou longe de ter a mesma repercussão popular da série da Marvel. O que era até previsível, mas eu não encontrava, por exemplo, vídeos feitos por youtubers brasileiros sobre a série sobre as tantas possibilidades e teorias que a série de terror com produção de M. Night Shyamalan e Tony Basgallop (seu criador) tem. O que é uma pena, levando em consideração que trata-se de um trabalho de excelência do ponto de vista cinematográfico, com um extremo cuidado com composições visuais, design de produção etc, coisas geralmente também atribuídas aos trabalhos de Shyamalan.

No final da primeira temporada, Jericho, o bebê misterioso dos Turners, havia sido sequestrado ou desaparecido. Para quem não sabe, esse bebê surgiu como que um passe de mágica quando o casal contratou a babá Leanne (Nell Tiger Free) para cuidar do que na verdade era apenas um boneco. A mãe do bebê, Dorothy (Lauren Ambrose), havia ficado tão traumatizada com a morte do bebê de verdade, ocasionada por um descuido seu, que o marido Sean (Toby Kebell) e o irmão dela Julian (Rupert Grint) optaram por usar um boneco para que Dorothy começasse a aceitar aos poucos a perda. O problema é que ela não percebeu quando, no lugar do boneco, apareceu um bebê de verdade, graças a habilidades de feitiçaria de Leanne, uma moça gentil e muito estranha.

A segunda temporada tem um tom ainda mais claustrofóbico, ainda mais centrado no ambiente da casa dos Turners. O que funcionou muito bem nesses tempos de pandemia, em que as situações mais importantes têm acontecido mais dentro dos lares do que fora deles. Além do mais, se pensarmos nas dificuldades deste ano ainda pandêmico, acreditar em uma terceira temporada para o próximo ano é mais fácil, levando em consideração o elenco reduzido e com poucos coadjuvantes surgindo de forma pontual.

A segunda temporada de SERVANT tem como principal mistério e objetivo descobrir onde está Jericho, quem o sequestrou. Vale dizer que seu sumiço também se deu junto com o sumiço de Leanne. Mas Leanne é encontrada nos primeiros episódios trabalhando na casa de outra família e é colocada por Dorothy como sua prisioneira até que diga onde está a criança e coopere. 

A série tem um senso de humor muito afiado, até porque lida com uma situação em que uma das protagonistas, Dorothy, age em certo ponto como uma psicopata, enquanto o marido e o irmão tentam auxiliá-la, mas ainda tomando muito cuidado para não contar coisas que ela não pode ou não deveria saber. E há um clima de mistério que uma boa obra de ficção envolvendo bruxaria deve ter. Felizmente, muitas perguntas são respondidas na season finale, mas outras ficam no ar, assim como fica também uma abertura para imensas possibilidades de mudanças na futura terceira temporada.

Vale destacar os diretores envolvidos nesta segunda temporada. Além de Shyamalan, que dirige o quarto episódio, o excelente e tenso "2:00", há duas diretoras que chamam a atenção: a francesa Julia Ducournau (do ótimo GRAVE, 2016) dirige os dois primeiros episódios, enquanto a filha de Shymalan, Ishana Night Shyamalan, contribui com a direção de dois dos melhores episódios, "Pizza" e "Josephine", o último. Há ainda outras duas diretoras convidadas, a suíça Lisa Brühlmann e a sueca Isabella Eklöf. Esse maior espaço para cineastas mulheres tem tudo a ver com o espaço fechado de uma casa e também com uma maior aproximação com a psicologia das duas personagens femininas fortes da série. São elas que ditam os rumos da trama, por mais desorientadas ou confusas que se sintam. Os dois homens, Sean e Julian, parecem estar em estado de inércia.

Além do mais, o brilho de Leanne nesta temporada foi ainda maior, em sua jornada de auto-aceitação, sua luta gradual contra suas origens de repressão e o maior apego aos “prazeres da carne” (sexo, música, paladar), em oposição à sua costumeira autoflagelação. Agora fica a dúvida: será Leanne uma bruxa do bem ou alguém que definitivamente vai tornar a vida dos Turners ainda pior no futuro?

+ TRÊS OBRAS DE TERROR

SOB O PODER DA MALDADE (The Sorcerers)

Depois de ler uma excelente história em quadrinhos do Dylan Dog que tratava do cineasta Michael Reeves, fiquei muito animado para ver este segundo longa-metragem do realizador. Ainda que não seja tão brilhante quanto O CAÇADOR DE BRUXAS (1968), este filme tem um charme muito especial, seja por trazer Boris Karloff em um de seus últimos papéis, seja por mostrar a juventude londrina animada com as festas rock. Como Reeves só tinha vinte e poucos anos, tinha uma aproximação mais direta com o espírito de sua geração. Na trama de SOB O PODER DA MALDADE (1967), Karloff é um hipnólogo que, junto com a esposa, consegue trazer um jovem para sua casa, de modo a experimentar o controle de todos os atos do rapaz. Cada sensação que o rapaz sentia, o casal de velhinhos também sentia. Mas como o filme aqui é de terror, é de se imaginar que esse controle será direcionado para o mal. Filme presente no box Obras-Primas do Terror 4.

LA LLORONA

Incrível ver um filme de horror abrindo caminho entre os títulos indicados a melhor filme internacional da temporada de premiações, no caso, do Globo de Ouro. Não é um simples e direto filme de fantasma ou da lenda da chorona, mas uma obra que fala inclusive para nós, brasileiros, que tivemos um passado de ditadura militar nascida com a desculpa de combater o comunismo. Resultado: genocídio, "desaparecimentos". A história de LA LLORONA (2019), de Jayro Bustamente, acompanha o drama da família de um general que agora está tendo que responder pelos crimes do passado. Sua vida e de sua família (formada basicamente por mulheres) sofrem a pressão da população enfurecida (e com razão), mas também há a pressão do sobrenatural, que surge de maneira bem intensa. Excelente uso da janela scope! No mais, fiquei pensando se certo presidente frequentemente tido como genocida também terá a sua vez.

CATÁSTROFE NUCLEAR (Threads)

Interessante saber que um dos melhores filmes sobre os estragos causados por uma bomba nuclear foi feito para a televisão. Este CATÁSTROFE NUCLEAR (1984), que nos créditos é atribuído mais a seu roteirista Barry Hines do que ao diretor Mick Jackson, é impressionante no grau de realismo que impõe, muitas vezes parecendo um documentário ou a dramatização de uma situação real. Ainda considero BLACK RAIN - A CORAGEM DE UMA RAÇA, de Shohei Imamura, o mais impactante sobre o assunto, até por tratar de um acontecimento real, a bomba de Hiroshima; mas aqui, o medo do que a Guerra Fria poderia ocasionar acabou inspirando os criadores a fazerem um retrato de puro horror, principalmente os momentos que mostram os sobreviventes, submetidos a radiação, lutando pela vida, a todo custo. E pensar que eu não sabia da existência deste filme até outro dia. Mais um exemplo do quanto uma curadoria é essencial. Filme presente no box Clássicos Sci-Fi Vol. 7.

sexta-feira, abril 02, 2021

MEU PAI (The Father)



Com esses tempos loucos, manter uma rotina minimamente normal, como cinéfilo, tem sido uma tarefa um tanto difícil pra mim. Na verdade, já estava, antes do aumento no índice de contaminação da Covid e que levou a um novo lockdown em meu estado. Mas piorou nos últimos meses, principalmente por causa da notícia de mortes de pessoas queridas. Ontem mesmo, recebi a notícia do falecimento da Susana, ex-colega de trabalho e parceira de almoço na época da CABEC. Junte-se a isso um aumento em meu quadro da ansiedade que tem me impossibilitado de ver alguns filmes sem ter de dar pausa ou mesmo voltar a cena. Ontem, por exemplo, acabei desistindo de ver dois filmes, por falta de concentração.

A própria temporada do Oscar, que costumo receber com animação e muito interesse de ver todos os indicados principalmente no cinema, neste ano, com quase tudo (ou tudo) tendo que ser visto em casa mesmo, aquela impressão de que estamos diante de vários filmes medianos e um tanto chatos fica no ar, embora eu saiba que há muito de minha cisma (muitas vezes injusta) com as produções da Netflix.

Porém, no meio de tudo isso, um dos filmes recentes que eu consegui ver com atenção, entusiasmo e também muita emoção foi este MEU PAI (2020), filme de estreia do romancista e dramaturgo francês Florian Zeller, adaptando sua própria peça, mas com uma sensibilidade puramente cinematográfica ao fazer a transição para as telas, sem que parecesse teatral. Os resquícios do teatro talvez estejam mais presentes na montagem em blocos de cenas bem destacadas do que nos diálogos, que seguem uma linha mais naturalista.

Um dos grandes trunfos do filme é a atuação brilhante de Anthony Hopkins, no papel de Anthony, o senhor de 80 anos que sofre de demência. O ator, que tem várias décadas de serviços prestados ao cinema, estava há um tempo no piloto automático durante algumas décadas no novo milênio, após suas brilhantes performances em O SILÊNCIO DOS INOCENTES (que lhe rendeu um Oscar) e em VESTÍGIOS DO DIA. Mais recentemente, ele chamou novamente a atenção como o Papa Bento XVI em DOIS PAPAS, de Fernando Meireles.

Vale dizer que ter Anthony Hopkins em MEU PAI era uma obsessão de Zeller, que quis filmar em inglês e não em francês e mudou o nome do personagem original da peça para Anthony para conseguir o sim de Hopkins, que para Zeller é o melhor ator vivo. E o diretor sabia que não ia ser fácil conseguir um ator como Hopkins logo em seu primeiro filme, mas ao que parece todo mundo saiu satisfeito no final. E a imagem que eu tive de Hopkins recentemente não era muito boa, depois de ver o que ele disse para David Lynch, ao chamá-lo em seu camarim durante as filmagens de O HOMEM-ELEFANTE e dizer ao jovem Lynch que ele não tinha o direito de dirigir aquele filme e depois pediu ao produtor que ele fosse demitido após desentendimentos durante as filmagens.

Mas o que Hopkins faz em MEU PAI é extremamente comovente. O ator se entrega ao papel de cabeça neste personagem cujo problema de memória o deixa bastante perturbado. Como o filme é visto pelo ponto de vista de Anthony, então nos colocamos em seu lugar diversas vezes. Dizer isso é dizer que também nos sentimos frágeis, inseguros, perdendo controle de tudo ao redor, até o ponto de desabar de tristeza, dor e impotência, de frente para nossa própria mortalidade.

Como se já não bastasse toda a construção fílmica ser tão bem desenvolvida e absurdamente bonita (inclusive na direção de arte, fotografia, trilha sonora etc.), Zeller, Hopkins e toda a equipe nos brindam com uma das melhores cenas finais dos últimos anos. De arrepiar. Mas antes de encerrar, é preciso destacar o ótimo desempenho de Olivia Colman (Oscar de melhor atriz por A FAVORITA), como a filha de Anthony. Seu papel é sóbrio, sem muitos arroubos, passando em seu olhar o sentimento de tristeza pela condição do pai, mas também tendo pensamentos nada nobres sobre dar um fim àquela situação. Se bem que essa e outras cenas que mostram ações e pensamentos da personagem de Colman podem ter vindo da mente confusa de Anthony. Ou não? De todo modo, essa sensação de confusão faz parte da experiência que é ver MEU PAI.

MEU PAI recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator (Anthony Hopkins), atriz coadjuvante (Olivia Colman), roteiro adaptado, montagem e desenho de produção.   

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES  

DRUK - MAIS UMA RODADA (Druk)

Achei este filme de Thomas Vinterberg surpreendente em muitos aspectos. E ousado ao não ser tão moralista ou dogmático ao tratar do uso do álcool. DRUK - MAIS UMA RODADA (2020) é também um filme sobre a química do nosso corpo e como essa química pode ser usada para nosso benefício ou para a nossa desgraça. Como estava esperando uma obra muito carregada de dramaticidade, fiquei surpreso com as várias situações cômicas que aparecem, com os momentos divertidos por que passam os quatro amigos em sua experimentação perigosa. Mads Mikkelsen mais uma vez entrega uma bela atuação. Gosto de como ele convence como uma pessoa fragilizada. Por outro lado, vejo problemas nas cenas de sala de aula, que poderiam ter sido um pouco mais bem construídas. DRUK recebeu indicações ao Oscar  nas categorias de direção e filme internacional. 

MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE (Minari)

Um filme que demora um pouco a dizer a que veio, ou a se apresentar mais interessante ou emocionante, mas gosto muito da relação que se estabelece entre o garotinho e a vovozinha, mais até do que a situação tensa no relacionamento do casal vivido por Steven Yeun e Yeri Han. Mas é a parte final de MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE (2020) que apresenta uma situação que me pareceu até um pouco desonesto como modo de desmerecer as intenções do personagem de Yeun de ser bem-sucedido em seu projeto de fazenda. Talvez eu tenha percebido um pouco de ambiguidade no epílogo e isso tenha tornado o filme de Lee Isaac Chung mais simpático pra mim. Ainda assim, preferia que fosse um filme mais enfático na exaltação da vida. MINARI recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator (Steven Yeun), direção, atriz coadjuvante (Yuh-Jung Chung), roteiro original e trilha sonora. 

NOMADLAND

Essa coisa de jogar muito peso e expectativa em um filme é algo muito ruim. Não que eu não tenha gostado do filme de Chloé Zhao, mas todas as cenas mais bonitas e sutis em sua carga dramática cuidadosamente segura teriam chances talvez de me pegar pelo sentimento mais do que pegaram. O que eu achei mais interessante mesmo em NOMADLAND (2020) foi ver esse grupo de pessoas que vivem on the road, em RVs, pegando bicos para sobreviver em um país pós-crise de 2008 e ainda não reerguido. Quanto à personagem de Frances McDormand, o que me deixou mais próximo dela foi essa vontade de trabalhar, essa necessidade que ela tinha de estar sempre ocupada, já que carregava muito a dor de uma perda. Fiquei muito curioso com o método da diretora de usar não-atores para a construção do filme; se foi algo acidental ou já pensado para cada história individual. No mais, quem sabe um dia eu o revejo no cinema e tenha uma experiência emocional mais intensa. NOMADLAND recebeu indicações aos Oscar nas categorias de melhor filme, atriz (Frances McDormand), roteiro adaptado, montagem e fotografia.