quarta-feira, fevereiro 24, 2021

O SÓCIO DO SILÊNCIO / PARCEIRO DO SILÊNCIO (The Silent Partner)



No dia 5 de fevereiro, morreu aos 91 anos Christopher Plummer, ator querido por muitos, vencedor do Oscar por TODA FORMA DE AMOR e bastante lembrado por seu papel no clássico A NOVIÇA REBELDE. E lá fui eu fazer uma listinha dos meus dez favoritos filmes do ator no Facebook, dentre os que eu havia visto (ele tem mais de 200 títulos!). E eis que apareceram alguns filmes indicados por amigos. Entre eles, estava este O SÓCIO DO SILÊNCIO (1978), dirigido por Daryl Duke, diretor que tem mais trabalhos para a televisão em seu currículo.

E de fato O SÓCIO DO SILÊNCIO, lançado em VHS como PARCEIRO DO SILÊNCIO, e disponível atualmente em DVD no box Cinema Policial Vol. 5, da Versátil, é um filmaço. Desses acertos que acontecem com diretores que não chegam a ser autores e não têm um nome famoso, mas que é muito fácil de acontecer. Certamente, se fosse dirigido por um cineasta famoso seria uma obra bem mais lembrada. Mas de uma coisa tenho certeza: quem viu este filme não se esquece.

Eu confesso que já vi a fita nas locadoras algumas vezes, mas a figura daquele Papai Noel com um revólver na capa não me atraiu. Erro meu, claro. Até porque as cenas do personagem de Plummer vestido de Papai Noel e a fim de roubar o banco do shopping, estão entre as mais tensas do cinema de crime dos anos 1970. Também fiquei bastante impressionado com o grau de violência do filme e de como o personagem de Plummer é terrivelmente assustador.

O filme tem um quê de PACTO SINISTRO, do Hitchcock, já que o bandido coloca o bancário como seu "sócio". Com a diferença que o bancário, vivido por Elliot Gould, o verdadeiro protagonista, foi esperto o suficiente para ficar com o dinheiro supostamente roubado durante a confusão envolvendo o assalto, seguido do alarme e da caça ao criminoso. Ou seja, na verdade, temos dois criminosos. Só que um deles é o herói, por assim dizer. O personagem de Gould passa a ser perseguido pelo criminoso profissional - depois também vemos que é um homem extremamente violento e capaz de matar.

Miles, o personagem de Gould, por sua vez, é fascinante no modo frio como arquiteta seus planos e não se mostra apavorado com os ataques do criminoso. Ele é um sujeito que nem sempre é bem-sucedido com as mulheres. Costuma receber fora da colega de trabalho vivida por Susannah York, que prefere manter uma relação com um homem casado, também do banco. As coisas passam a mudar depois do incidente com o Papai Noel assaltante e quando a imprensa passa a ver Miles como uma espécie de herói. A partir desse ponto, a bancária começa a vê-lo com outros olhos. Mais adiante, surge uma outra personagem feminina bem atraente para seduzi-lo, vivida pela bela Céline Lomez. O jogo de gato e rato passa a se tornar cada vez mais interessante, tanto por ganhar força em sensualidade, quanto em tensão e violência.

É interessante pegar algumas curiosidades sobre O SÓCIO DO SILÊNCIO. Uma delas é o roteiro, que ficou a cargo de Curtis Hanson, que faria o oscarizado LOS ANGELES - CIDADE PROIBIDA (1997) e tem outros filmes interessantes como diretor, como o thriller UMA JANELA SUSPEITA (1987). Outra curiosidade é que O SÓCIO DO SILÊNCIO é remake do dinamarquês PENSE EM UM NÚMERO (1969), de Palle Kjærulff-Schmidt. No mais, há um fato que também me chamou a atenção, já que citei Hitchcock: Elliot Gould chegou a levar uma cópia do filme para o mestre do suspense assistir. Hitch deve ter ficado bem feliz.

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TRÁGICO DESTINO (Where Danger Lives)

A busca de filmes de curta duração e a foto bonita de Faith Domergue, então namorada e protegida do magnata Howard Hughes, foram os dois principais elementos para que eu escolhesse ver este filme noir pequeno, mas que contava com o carisma de Robert Mitchum (meio no piloto automático e com a vantagem de interpretar um homem com dor de cabeça) e a bem cuidada direção de John Farrow, que conta no elenco com a esposa Maureen O'Sullivan, que nos anos 1930 fez o papel da Jane nos filmes do Tarzan. Na trama de TRÁGICO DESTINO (1950), Mitchum é um médico que se interessa por uma paciente e foge com ela depois de um incidente envolvendo a morte do marido dela. Há vários momentos de tensão e outros até de humor, como no festival onde todo mundo deve estar de barba.

LEGADO EXPLOSIVO (Honest Thief)

E Liam Neeson segue sua jornada de herói de ação de filmes de baixo orçamento, com todo o carisma e talento que lhe é próprio. Claro que nem sempre ele tem a chance de trabalhar com um diretor como Jaume Collet-Serra, mas mesmo com diretores menores e tramas muito simples, é ele que tem feito os filmes de ação mais bacanas em Hollywood atualmente. Neste LEGADO EXPLOSIVO (2020), de Mark Williams, ele até lembra um pouco Charles Bronson na época das continuações de DESEJO DE MATAR, mas com a diferença de ser um bom ladrão, ex-marine, um homem prestes a se entregar para a polícia, a fim de viver uma vida em paz no futuro com a mulher amada. Boa diversão popular com alguns momentos empolgantes.

INCÊNDIOS (Incendies)

Revendo este filmaço de Denis Villeneuve depois de 10 anos, gostei ainda mais. Até porque estava com a mente mais alerta e por conta disso ficou muito mais fácil apreciar este que talvez seja o primeiro grande filme do cineasta. Em tons de investigação misteriosa a mãe morta delega ao casal de filhos gêmeos tarefas de encontrar o pai e o irmão. Adoro o desenrolar da trama de INCÊNDIOS (2010) e de como o diretor costura a narrativa com as linhas do tempo da mãe e dos filhos, de modo que aos poucos vamos percebendo o que ocorreu. A peça original parece pegar emprestado muito da tragédia grega e traz um ar suave ao conseguir juntar o horror com o amor. Sensacional.

domingo, fevereiro 21, 2021

CONTO DE VERÃO (Conte d'Eté)



Para usar de eufemismo, não me considero um sucesso no que se refere a relacionamentos amorosos. Por outro lado, ou talvez por causa disso, tenho uma atração forte por filmes que lidam de maneira inteligente e delicada com o assunto. E nisso Éric Rohmer é mestre. CONTO DE VERÃO (1996) me deixou sorrindo de orelha a orelha em toda sua metragem, mesmo lidando com algo que poderia me deixar bastante incomodado, que é a incapacidade ou dificuldade de um rapaz de escolher entre três garotas. E por mais que possamos considerar isso um privilégio de poucos, acompanhar a confusão que isso se acumula na vida do rapaz, de maneira descontraída, é uma operação de mestre desse que é um dos cineastas mais queridos do mundo. De certa maneira, é possível fazer uma comparação justa entre este filme e as comédias de Shakespeare, no modo como se tece com inteligência o enredo.

Foi a segunda vez que vi CONTO DE VERÃO e novamente no cinema. Olha que sorte a minha. A primeira vez foi em uma pequena mostra exibida no Cinema de Arte no Iguatemi no início dos anos 2000, que trazia todos os quatro contos das estações e mais A INGLESA E O DUQUE (2001). Ou seja, para mim foi uma descoberta fenomenal. Considero CONTO DE VERÃO um dos meus favoritos dos quatro contos, embora costume ter uma queda talvez maior por CONTO DE INVERNO (1992), por sua natureza mais romântica e filosófica.

CONTO DE VERÃO já tem um ar um pouco mais pragmático no modo como apresenta as relações. Sem falar que mostrar pessoas bem jovens é também um modo de celebrar a existência nessa época da vida, ainda mais se lembrarmos que Rohmer já era um septuagenário na época da realização desses filmes.

Na trama, o jovem e belo Gaspard é vivido por Melvil Poupaud (que aparece em papel menor em VERÃO DE 85, clara homenagem de François Ozon ao filme de Rohmer). Ele está tirando férias em Dinard, bela cidade litorânea na região da Bretanha, e no primeiro dia conhece Margot (Amanda Langlet), uma simpática garçonete. Margot claramente se mostra interessada no rapaz, a julgar pelo modo como o aborda na praia. Ele, por sua vez se mostra um pouco intimidado. Gaspard havia marcado um encontro com sua namorada (ou quase) Léna (Aurelia Nolin), e por isso talvez houvesse um medo da parte dele de se envolver com outra pessoa.

Enquanto Léna demora a chegar, a amizade entre Margot e Gaspard vai se tornando cada dia mais próxima, embora Gaspard prefira muitas vezes a companhia de seu violão, especialmente à noite. As conversas e os passeios na área da praia são envolventes e agradáveis e o elo entre os dois cresce. Nós, do lado de cá da tela, ficamos encantados com Margot, com sua naturalidade e também com sua beleza comum. Acontece que aparece outra garota na jogada, Solène (Gwenaëlle Simon), que por ter uma natureza mais prática, além de uma poderosa presença sexual, se aproxima mais rapidamente de Gaspard, não ficando no platonismo. Os dois viajam para a casa de um tio dela e encontram mais coisas em comum do que esperavam - como o gosto pela música, por exemplo. Naturalmente, a cabeça de Gaspard já devia estar bastante balanceada à essa altura. E isso cresce ainda mais com a chegada afinal de Léna, que se mostra, logo de cara, a menos interessante das três.

Como os outros filmes de Rohmer, CONTO DE VERÃO lida com assuntos caros ao cineasta, como liberdade, fidelidade e controle, muitas vezes dentro de um contexto em que o acaso também exerce uma poderosa influência. Assim como a maioria de seus outros filmes, este também tem uma linguagem visual elegante, uma preferência pela luz natural suave e um cuidado no roteiro impressionante. No caso de CONTO DE VERÃO, há tantos diálogos que sua verborragia pode incomodar alguns espectadores. Não é o meu caso e nem o de tantos apreciadores de seu estilo. Ao contrário: é admirável como alguém cuja palavra é tão importante não deixa nunca de expressar as imagens de maneira tão rica.

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ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise)

Não me lembro se vi este filme de Richard Linklater pela quinta ou sexta vez. Na verdade, eu evito rever muitas vezes, até para poder aproveitar mais de sua magia em cada nova experiência, como se ela pudesse se dissipar. Da última vez, em 2013, eu estava bem mais emotivo, acho eu. E por algum motivo acreditei que não precisava de um novo texto a respeito (o que tenho de registro é de 2004). Rever ANTES DO AMANHECER (1995) no ano passado foi também especial, embora tenha me parecido mais rápido em sua conclusão, muito ágil na montagem das cenas. Foi bom notar coisas que eu não tinha notado. E me arrepiar de novo em partes dos diálogos dos dois, como na cena em que ela diz acreditar que Deus está no espaço entre eles. Ainda acho isso fantástico. As discussões filosóficas são menos importantes hoje, eu diria. São importantes como reflexo da empolgação da juventude, mas o mais importante são os olhares, a atração e a admiração que os dois vão criando um pelo outro. Percebi algo de mais lascivo desta vez, nos beijos. Acho que antes só percebia algo mais romântico, algo extra físico. Essa é uma das tantas vantagens da revisão.

A FESTA DE FORMATURA (The Prom)

Pior do que um filme ruim é um filme ruim de uma duração longa. E em se tratando deste musical de Ryan Murphy, 2h10 demora a passar sim. De todo modo, ainda gostei de algumas canções cantadas pela Joe Ellen Pellman, que talvez seja a alma de A FESTA DE FORMATURA (2020), embora não apareça com seu nome no cartaz principal. Ela é a garota lésbica de uma cidadezinha retrógrada que sonha em ver sua namorada se declarando publicamente na festa de formatura. As coisas não acontecem como ela quer, mesmo com a intervenção de uma trupe de artistas do teatro que a buscam como um meio de se redimirem de um fracasso de crítica, como uma causa nobre. Impressionante como Meryl Streel gosta de fazer musical ruim. Ela esteve no tenebroso CAMINHOS DA FLORESTA. E tem o James Corden, que esteve no inacreditável CATS. Esse, então, parece que está querendo pagar algum karma pesado ou coisa do tipo. De todo modo, o filme tem uma mensagem nobre, sobre aceitação das diferenças e o “sair do armário”. Mas o pior de tudo é que para um musical ser bom não precisa de uma boa história. Mas boas canções são essenciais. Aqui não há. O que sobra é um filme colorido, chato e que eu só vi por estar na lista de indicados do Globo de Ouro. A FESTA DE FORMATURA foi indicado nas categorias de melhor filme (comédia ou musical) e melhor ator em comédia ou musical (James Corden).

RELATOS DO MUNDO (News of the World)

No IMDB o único filme em que aparece "directed by" Paul Greengrass é este RELATOS DO MUNDO (2020). Seria um filme menos pessoal, menos autoral por causa disso? Não sei se a escolha do "directed by" no lugar de "a film by" representa uma força menor do autor na obra. De todo modo, este é um dos trabalhos mais bonitos do diretor inglês, que tinha ganhado a fama de filmar com a câmera tremida. Aqui ele escolha outra maneira, talvez pelo filme se passar no século XIX e também ter momentos mais serenos, ainda que haja também outras cenas bem próprias dos westerns, como ameaças física e psicológica e tiroteio. Na trama, Tom Hanks é um sujeito que ganha a vida lendo notícias em cidades do sul dos Estados Unidos, lugares ainda com um sentimento de derrota forte pós-guerra civil. São pessoas analfabetas e simples. A vida do protagonista muda de rumo quando ele encontra uma menina alemã que foi capturada e criada por índios durante anos. E agora ele se vê na missão de buscar um lar para a garotinha. A atriz mirim é ótima, Helena Zengel, de TRANSTORNO EXPLOSIVO. Um grande acerto terem-na trazido para um filme americano. RELATOS DO MUNDO foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias de melhor atriz coadjuvante (Helena Zengel) e melhor trilha sonora (James Newton Howard).

sábado, fevereiro 20, 2021

O ESPELHO DA BRUXA (El Espejo de la Bruja)



Conhecer certos filmes e certas particularidades de determinadas cinematografias requer, na maioria das vezes, um empurrãozinho. É por isso que é tão importante uma revista de cinema, uma aproximação com um grupo de cinéfilos e também uma curadoria. Foi graças à curadoria de Fernando Brito para a Versátil que eu pude conhecer o incrível O ESPELHO DA BRUXA (1962), de Chano Urueta, presente no box Obras-Primas do Terror - Horror Mexicano. E pra mim foi uma surpresa e tanto entrar em contato com esse filme em particular.

Lembremos que aqui no Brasil, foi em 1964 que José Mojica Marins lançou o seu À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, o filme que é considerado o ponto de partida para o horror no cinema brasileiro, pelo menos declaradamente horror. Ou seja, dois anos antes o gênero parecia já estar bem estabelecido no México. Tanto é que no mesmo box tem um filme de 1959 (MISTÉRIOS DO ALÉM-TÚMULO, de Fernando Méndez, ainda a ver). Como não sou estudioso do gênero no país que acolheu Luis Buñuel por um bom tempo, não sei desde quando ele existe por lá.

Mas o que importa agora é falar um pouco deste O ESPELHO DA BRUXA, sobre o quanto ele é inacreditável em sua proposta de ser ao mesmo tempo um filme sobre um espírito vingativo com ajuda de uma bruxa e um filme sobre um cientista maluco, aos moldes de Frankenstein, mas com uma clara influência da obra-prima OS OLHOS SEM ROSTO, de Georges Franju, lançado dois anos antes na França.

Na trama, uma mulher descobre, através do espelho mágico de sua governanta, uma senhora com contato com entidades ocultas, que seu marido pretende matá-la. Desesperada, ela não sabe o que fazer, pede ajuda à governanta, que procura auxílio das entidades, mas as criaturas do além afirmam que morrer é o destino da jovem mulher, que nada poderia ser feito. A mulher, então, aceita o copo de leite envenenado do marido - clara alusão a SUSPEITA, de Alfred Hitchcock.

Depois de sua morte, a governanta promete à falecida que ela será vingada. E logo sabemos o motivo de o sujeito querer se livrar da esposa: ele queria trazer para casa sua amante, que logo se torna a nova esposa. Acontece que não será fácil para essa nova esposa viver naquela casa assombrada pelo fantasma da falecida e situações incríveis acontecerão e trarão tragédia para si. E isso é só o começo de um filme que segue por caminhos inacreditáveis e cheios de invenção e ainda tem uma força narrativa admirável. A casa onde se passa a trama também traz um ar gótico todo próprio e herdeiro do cinema de horror clássico americano e britânico, mas com aquele tempero todo particular da cultura mexicana e seus arroubos melodramáticos.

Também me agrada a dublagem não ser do tipo "para o mercado internacional", como a Itália costumava fazer. Ao que parece o filme foi feito pensando principalmente no mercado local e de países de língua espanhola. Que já é, aliás, um baita mercado. Agora é me deliciar com os demais filmes presentes no box. Tenho certeza que novas e agradáveis surpresas me esperam.

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O MENINO E O VENTO

O diretor argentino Carlos Hugo Christensen não era do clube do Cinema Novo e faz aqui uma obra deliciosamente anacrônica, com um pé na literatura herdeira do conto de Aníbal Machado. Dois anos antes, o diretor havia adaptado outro conto famoso de Machado, "Viagem aos Seios de Duília". O MENINO E O VENTO (1967) tem um quê de fantástico muito interessante. Talvez no cinema brasileiro o vento tenha sido novamente destacado com tanta força apenas por Walter Lima Jr., em seu A OSTRA E O VENTO (1997). Na trama, acompanhamos a história de um engenheiro que é chamado para depor em uma pequena cidade de Minas Geras sobre o desaparecimento de um menino. Ele é réu e considerado responsável pelo ocorrido pela população. O filme fica ainda melhor a partir de uma hora de duração, quando começamos a ouvir o relato do personagem de Ênio Gonçalves sobre os mágicos dias ao lado do garoto e sua fixação pelo vento. Há algo que me lembrou certo cinema produzido na Itália na mesma época - os diálogos, o mistério, as relações entre os personagens. Pena que a cópia existente do filme não seja lá essas coisas.

A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (Village of the Damned)

Com a notícia da morte de Barbara Shelley, fui procurar um filme que tivesse a atriz no elenco em meu acervo. Tinha em um dos boxes da Versátil (Obras-primas do Terror 1) este A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (1960), de Wolf Rilla, horror britânico com um pé na sci-fi dos anos 50 que eu me devia ver há algum tempo. Acho que não vi nem a refilmagem do John Carpenter. O filme já começa de maneira muito intrigante, com uma cidade inteira parada por horas, com seus moradores desmaiados. E aí surge uma nova surpresa, na forma de um grupo de criancinhas loiras e de olhar ameaçador. Senti falta de um maior impacto na conclusão do filme (embora nunca vá esquecer da "parede de tijolos”), mas gosto do sabor de produção barata e da boa condução narrativa. O papel de Barbara Shelley é até pequeno. Ela é a esposa do professor vivido por George Sanders.

HALLOWEEN 4 - O RETORNO DE MICHAEL MYERS (Halloween 4 - The Return of Michael Myers)

Michael Myers, o psicopata que nunca morre, sobrevive ao incêndio que o deixou em coma por 10 anos no segundo filme (1981) e volta para aterrorizar a pequena cidade. O elenco não conta com Jamie Lee Curtis, mas traz mais uma vez Donald Pleasance no papel do Dr. Loomis, o especialista no assassino. O alvo da vez do assassino é a garotinha que esteve com a personagem de Lee Curtis no primeiro filme (1979). HALLOWEEN 4 - O RETORNO DE MICHAEL MYERS (1988), de Dwight H. Little, tem alguns bons momentos, mas não sei o quanto os clichês já não estavam gastos no ano da realização do filme. De todo modo, as cenas que se passam dentro de uma casa, quando Michael está, são eficientes. E há um final até que bastante surpreendente.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

UM NOVO DUETO (Une Autre Vie)



Quando, no final do ano passado, soube que o mais recente filme de Emmanuel Mouret, LOVE AFFAIR(S) (2020), esteve presente no top 10 da Cahiers du Cinéma, fiquei bastante feliz. E minha alegria aumentou quando soube que esse mesmo filme foi o recordista de indicações ao César, o Oscar francês. Ou seja, o cineasta cuja obra passei a acompanhar com mais carinho e maior aproximação a partir do ano passado, embora já conhecesse um pouco em outras ocasiões, agora é um dos queridos da crítica.

Minhas visitas aos filmes de Mouret têm me mostrado também surpresas muito agradáveis, especialmente quando entrei em contato com algo próximo de um melodrama com toques satíricos, MADEMOISELLE VINGANÇA (2018), e uma comédia amarga, ROMANCE À FRANCESA (2015). Até então, a experiência que eu tinha com o cinema de Mouret era de diversão bem leve, acima de tudo, com influências óbvias (Allen, Rohmer) e outras não tão óbvias (Hawks, McCarey, Lubitsch).

Essa mudança na carreira ao abraçar agora o melodrama se deu a partir de UM NOVO DUETO (2013), filme com ares de Douglas Sirk, tanto no tom quanto no tema das diferenças de classe como um elemento de forte obstáculo para a prosperidade de um romance. No caso, a diferença aqui se dá entre uma pianista famosa dentro dos círculos de música erudita, Aurore (a italiana Jasmine Trinca), e um eletricista, Jean (o ex-rapper JoeyStarr). Ou seja, apesar de surgir uma atração mútua entre os dois, eles têm pouco em comum no que se refere a educação cultural.

Além do mais, Jean é casado com a vendedora de loja Dolorès (Virginie Ledoyen, de SÓ UM BEIJO POR FAVOR, 2007). Dolorès vai se mostrar não apenas um empecilho para a relação entre Jean e Aurore, mas também uma personagem não só dona da própria vida, mas dona da narrativa do filme. Aliás, é muito bonito e também bem curioso o modo como Mouret nos faz abraçar certas personagens que parecem, a princípio, figuras pouco dignas de nosso afeto. Acontece com a mulher cheia de rancor de MADEMOISELLE VINGANÇA e a jovem ligeiramente irritante de ROMANCE À FRANCESA. Esse aspecto de humanidade e de aprofundamento de seus personagens começou a se manifestar com mais força justamente a partir deste UM NOVO DUETO.

Os elementos do melodrama comparecem tanto no tom solene da linda trilha sonora de Grégoire Hetzel (o mesmo de INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve), quanto na gravidade com que os sentimentos dos personagens se apresentam e inclusive em uma situação que ocorre com uma importante personagem. Mais uma vez Mouret lida com um triângulo amoroso como elemento de tensão e culpa em seus personagens, em geral pessoas que parecem carregar o mundo em seus ombros. É o caso dos dois amantes, embora aqui se perceba isso com mais força na personagem de Jasmine Trinca.

Curiosamente, o filme teve críticas bem divididas na época de seu lançamento. Na verdade, pelo pouco que pude ler, as críticas em geral não foram muito favoráveis. Agora talvez seja a chance de ver o filme à luz da obra autoral de Mouret, de uma poética que vai mudando, se aperfeiçoando e se tornando cada vez mais sofisticada.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

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PEQUENA GAROTA (Petite File)

Eis um filme que daria uma excelente sessão dupla com o brasileiro LIMIAR, de Coraci Ruiz. Ambos nos apresentam mães lidando com a difícil situação de seus filhos/filhas em um momento de transição de gênero. No caso da menina de PEQUENA GAROTA (2020), de Sébastian Lifshitz, há um tratamento com uma psiquiatra que dá nome ao caso. A situação, mesmo assim, não deixa de ser angustiante, pois a mãe já prevê com frequência o futuro de agressão que a filha irá sofrer da sociedade. Até porque já sofre o bastante na escola. Há uma cena em especial que é muito comovente: a primeira consulta com a especialista e a garotinha, com lágrimas nos olhos, ainda não se sentindo à vontade para expor todas as suas angústias. A câmera, na altura da criança, acessa nosso sentimento de empatia.

O DINHEIRO (L'Argent)

Uma beleza esta cópia nova de O DINHEIRO (1983), de Robert Bresson. E uma honra poder vê-lo no cinema. A primeira vez que vi este filme não tinha me envolvido. Agora, prestando atenção na trama, nos vários personagens afetados pela nota falsa e no estilo singular da dramaturgia do diretor, tudo foi muito prazeroso. O aspecto do sacrifício, da culpa e da provação que seus personagens costumam passar está presente especialmente no personagem Yvon Targe, que se revela o mais importante. Por mais que pareça um conto moral - talvez o seja -, Bresson faz parecer algo ainda mais complexo, devido ao seu estilo de ausência de emoção explícita no comportamento de seus heróis. O que não quer dizer que seus filmes são desprovidos de paixão: ao contrário, eles esbanjam. Lindo e cruel filme de despedida de um mestre.

PERFIL DE UMA MULHER (Yokogao)

Primeiro de sete longas do diretor Kôji Fukada a estrear em circuito brasileiro. Acompanhamos em PERFIL DE UMA MULHER (2019), em duas linhas temporais, a história de uma mulher que trabalha/trabalhou como enfermeira particular, servindo há anos a uma mesma família, a idosa matriarca. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando acontece algo grave envolvendo seu sobrinho e uma garota. O que temos é um enredo fácil de envolver, até por centrar sempre na protagonista e na mudança radical que se aplica na segunda linha do tempo. Em momento de cancelamentos constantes, não é difícil se solidarizar com a personagem.

terça-feira, fevereiro 16, 2021

NINFAS DIABÓLICAS



Assisti a alguns exemplares do cinema de horror brasileiro e um dos títulos que mais me chamou a atenção foi NINFAS DIABÓLICAS (1978), estreia de John Doo na direção. Ele já havia trabalhado antes como ator e era um rosto conhecido dos filmes da Boca do Lixo. Certamente seu papel mais famoso é o do segmento "O Pasteleiro", obra-prima com direção creditada a David Cardoso e presente no longa coletivo AQUI, TARADOS! (1981). E de fato quem vê "O Pasteleiro" nunca se esquece.

Em NINFAS DIABÓLICAS ele não comparece à frente das câmeras, mas seu primeiro filme na direção é coerente com outros que ele realizaria e que trazem o tema das mulheres monstruosas e vingativas, que também surgiriam em NINFAS INSACIÁVEIS (1981) e EXCITAÇÃO DIABÓLICA (1982) - curioso como esses títulos são derivativos do primeiro filme. Não cheguei a ver esses dois, mas sei desse elemento em comum graças a um estudo feito pela especialista em horror brasileiro Laura Cánepa.

Infelizmente a cópia disponível na internet de NINFAS DIABÓLICAS é tão ruim que é fácil ser rejeitada por muitos espectadores. No entanto, é curioso como, mesmo com as imagens distorcidas captadas de uma fita em VHS antiga com legendas em espanhol, o filme consegue nos manter interessados e até mesmo fascinados com o desenrolar da trama e o modo como lida com os desejos do executivo Rodrigo, vivido por Sergio Hingst, frente às duas garotas vestidas de colegiais que pedem carona a ele no momento que ele está indo ao trabalho.

As supostas colegiais são interpretadas por Aldine Müller e Patrícia Scalvi, duas das atrizes mais importantes do cinema paulista. A personagem de Aldine, Úrsula, é a que fica sentada no banco da frente e que incita o homem a experimentar uma aventura, enquanto aproxima suas pernas das dele. Não demora muito para que ela logo fique dirigindo o carro em seu colo, tornando a aventura do protagonista ainda mais perigosa. Elas dizem que sabem de uma casa abandonada na praia e para lá eles se dirigem. Na praia deserta, à medida que Rodrigo se aproxima de Úrsula para concretizar o sexo, mesmo com todas as dificuldades de alcançá-la (ele é um homem fora de forma), o filme vai ganhando um ar sobrenatural e de mistério, que segue numa linha crescente, até chegar a uma cena envolvendo uma pedra.

Podemos encarar NINFAS DIABÓLICAS como um filme da linha "pecado e castigo", em que homens casados são levados a situações "proibidas" e se vêem em situações de desespero. Como um bom exemplo recente, vindo do cinema americano, tivemos BATA ANTES DE ENTRAR, de Eli Roth, estrelado por Keanu Reeves. Esse tipo de filme pode ser algo inconscientemente derivado de um cinema de culpa hitchcockiano, mas se distingue bastante pelo apelo erótico, que tanto excita quanto perturba.

O filme, além da direção segura de Doo, ainda conta com direção de fotografia de Ozualdo R. Candeias e roteiro coescrito em conjunto com Ody Fraga. Soube de amigos que tiveram a chance de ver NINFAS DIABÓLICAS em uma cópia restaurada em película em uma exibição no CCBB-SP em 2010. Ou seja, existe essa cópia muito boa disponível. Porém, com o estado que está a Cinemateca Brasileira, com este atual governo a interditando, a nossa memória cultural está sofrendo um perigo terrível.

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ATRAVÉS DA SOMBRA

A minha história com ATRAVÉS DA SOMBRA (2015), de Walter Lima Jr., é curiosa, já que via todo mundo falando mal, mas tinha muita curiosidade de ver. Não encontrava nos fóruns que visito, não via em DVD pra comprar e não chegou nos cinemas de minha cidade. E foi ganhando aquele rótulo de obra rejeitada pelos fãs do do diretor e pelos fãs do cinema de horror também, por não ser uma adaptação tão bem-sucedida da novela A Outra Volta do Parafuso, de Henry James. Agora que revi OS INOCENTES e vi a minissérie A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY, me sinto um pouco mais próximo da mitologia da história e dos personagens, e só por isso ver este filme já foi interessante. Sem falar que em alguns momentos a grandeza de Lima Jr. como diretor comparece. Mas é um filme que não consegue assustar nas cenas de fantasmas, embora ganhe pontos comigo nas sequências de maior estranheza (inclusive o final). Acredito que o último ato ajuda a elevar o filme, ainda que não o recupere.

TRILOGIA DE TERROR

Dos três segmentos de TRILOGIA DE TERROR (1968) só tinha visto o de José Mojica Marins, presente como um extra em um dos DVDs lançados pela Cinemagia. E foi muito bom rever o curta "Pesadelo Macabro", cheio de situações absurdas (o que é aquela cena da macumba com o chicote?) e com um andamento narrativo que lembra muito as histórias em quadrinhos de terror. Mojica tinha também um senso de decupagem invejável, embora muitos só vissem aquilo que julgavam de mau gosto. Quanto aos episódios dos outros celebrados diretores, é curioso como eles fogem do padrão de horror de linha mais tradicional, até por não ser a praia deles. "O Acordo", de Ozualdo R. Candeias, tem muito do cinema primitivo e de western feijoada, mas também recebe influências da contracultura em muitas cenas. Curioso como há um destaque para a brutalidade dos homens, praticamente todos abusadores. Já "Procissão dos Mortos", de Luiz Sérgio Person, foi o que menos gostei, embora seja corajoso ao colocar referências explícitas a Che Guevara em plena ditadura. Gosto muito de uma cena no bar.

A MULHER DO DESEJO (CASA DAS SOMBRAS)

Com certeza o título alternativo do filme ("Casa das Sombras") diz muito mais do que o que foi usado, mais comercial e chamativo. É interessante ver o quanto o cinema brasileiro experimentava nos mais diversos gêneros da década de 1970. Em A MULHER DO DESEJO (1975), de Carlos Hugo Christensen, temos um horror gótico estrelado por José Mayer e Vera Fajardo, em que eles são um casal que herda uma casa e a fortuna de um tio muito esquisito de Ouro Preto. O funeral é estranho, a casa é sinistra, as regras também são. Mas o pior estaria por vir na vida daquele casal. O uso de Wagner na trilha sonora dá um ar de angústia mas também de intensidade. Infelizmente a cópia existente não ajuda muito a valorizar a beleza das cores e do uso das sombras (um dos maiores méritos do filme), mas também não está entre as piores que eu vi.

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

RIFKIN'S FESTIVAL



O início de minha relação com o cinema de Woody Allen foi de achar seu trabalho um tanto pretensioso, já que era um exemplar bem explícito de um tipo de cinema destinado a intelectuais burgueses. Ou nem tão burgueses assim. Depois, comecei a gostar, a amar, a me identificar com sua persona cheia de neuroses e manias. E aos poucos a gente vai se apegando mais e mais, principalmente quando entramos em contato com alguns de seus trabalhos mais brilhantes.

Infelizmente ele não está mais em sua fase brilhante. Mas tenho defendido seus últimos trabalhos, inclusive por terem, em sua maioria, me trazido muito prazer. Começar a ver o filme com aquele jazz e as letras brancas de fundo preto com o elenco em ordem alfabética nos créditos, isso já traz uma sensação de familiaridade muito agradável. Mas essa familiaridade tem muito a ver com nossa relação de afeto com seus filmes, que costuma vir de boas experiências. 

Desde CRIMES E PECADOS (1989) que vejo todos os seus filmes no cinema, só tendo perdido de ver dois, NEBLINA E SOMBRAS (1991), que acredito não ter sido exibido em Fortaleza (vi em uma gravação da Rede Globo posteriormente), e IGUAL A TUDO NA VIDA (2003), que cometi a besteira de baixar da internet e depois não fui ao cinema para revê-lo, até por não ter curtido tanto o filme. De todo modo, para mim e para muitos cinéfilos, ter um filme novo do Woody Allen todos os anos era um alento e uma alegria.

Infelizmente RIFKIN'S FESTIVAL (2020) - visto em um momento especial, por conta da pandemia, em casa mesmo - é uma de suas obras menos inspiradas. Provavelmente o filme mais apático dele desde VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (2010). Ainda assim, é um filme que merece ser visto com atenção, já que se trata de seu primeiro trabalho após os ataques duros que ele sofreu com as acusações da filha adotiva Dylan Farrow e o posterior cancelamento por parte de alguns atores e atrizes que trabalharam com ele, especialmente em seu trabalho anterior, UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (2019), que também foi um filme difícil de ser lançado, por causa da quebra de contrato com a Amazon, entre outros problemas.

É até possível sentir uma ponta de tristeza e de desencanto em seu alter-ego, agora vivido por Wallace Shawn. Aos 77 anos, Shawn é o ator mais velho que ele traz para representar sua conhecida persona. Antes disso, ele havia trabalhado com Larry David, em TUDO PODE DAR CERTO (2009). Com David a coisa funcionou melhor pois pareceu uma mescla do estilo de dois gênios da comédia. Com Shawn, o protagonista parece mais patético, e seu drama, tanto de estar sendo traído pela esposa, quanto o de estar se apaixonando por uma médica espanhola bem mais jovem que ele, é um pouco difícil de conseguir nossa solidariedade/simpatia.

Assim, o que mais importa não é o quadrado amoroso Shawn/Elena Anaya e Gina Gershon/Louis Garrel, mas as homenagens que Allen faz aos seus ídolos do cinema, em especial os do cinema europeu. Em determinado momento do filme, o protagonista é meio que ignorado na mesa de um restaurante enquanto fala que prefere o cinema europeu ao americano. E as homenagens vão em forma de cenas que saem de delírios do personagem, de perturbações de sua mente.

Essas homenagens aparecem em preto e branco e com diferentes janelas de aspecto de filmes clássicos de Bergman (o único que tem três filmes homenageados), Buñuel, Welles, Lelouch, Truffaut, Fellini. Mas não deixa de ser um pouco incômodo ver que Allen escolhe filmes um pouco óbvios dos realizadores, dando a impressão de ter um conhecimento limitado do cinema europeu. Ainda assim, essas homenagens são bem divertidas e certamente vão passar batido para quem não conhece os filmes. O diretor de fotografia Vittorio Storaro comparece novamente de forma brilhante com sua luz, tanto nas imagens em preto e branco quanto nas cores bonitas da cidade de San Sebastian.

É uma pena que essa preocupação formal talvez tenha prejudicado seu sentimento. É como se seu protagonista estivesse indiferente ao que acontece em sua vida. Na cena em que Gershon diz o quanto se sente realizada na cama quando está com Garrel, isso pouco parece doer nele. O mesmo ocorre quando vemos sua despedida da personagem de Anaya, a mais interessante do filme. De certo modo, isso acabou me deixando duplamente triste, tanto pela incapacidade do filme de fazer doer, quanto por esse personagem não se importar com a solidão e o fracasso sentimental e profissional. Pelo menos, isso nos leva a pensar,  e só um autêntico autor é capaz disso, mesmo em suas obras menos inspiradas.

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OS MELHORES ANOS DE UMA VIDA (Les Plus Belles Années d'Une Vie)

Eu já não tinha gostado muito do filme mais célebre de Claude Lelouch, UM HOMEM, UMA MULHER (1966). Acho que tem o seu charme, mas me parece vazio, como vazios parecem seus personagens. Essa vacuidade se repete nesta segunda sequência, OS MELHORES ANOS DE UMA VIDA (2019), desta vez trazendo os personagens na idade da decadência física - ainda que a personagem de Anouk Aimée ainda esteja bela e elegante, o personagem de Jean-Louis Trintignant sofre com a perda da memória e a dificuldade de mobilidade. O que ainda teima em ficar em sua memória são as lembranças do grande amor de sua vida (Aimée). A opção de Lelouch em fazer também uma espécie de homenagem ao seu mais famoso filme e aos seus personagens numa espécie de grande videoclipe pode até ter o seu mérito (talvez acentuar a beleza de Aimée, a juventude, aquela fotografia em preto e branco linda...), mas o resultado final é desanimador. Ainda assim, vale ver. Nem que seja pela participação especial de Monica Bellucci.

A GAROTA DA PULSEIRA (La Fille au Bracelet)

Neste filme uma das coisas que menos importa é saber se a garota vivida por Mélissa Guers (estreante) é culpada ou inocente do assassinato da amiga. Um dos maiores méritos de A GAROTA DA PULSEIRA (2019), de Stéphane Demoustier procurar nos rostos as emoções, às vezes difíceis de supor, tanto nas cenas de tribunal quanto fora, onde a garota cumpre prisão domiciliar com a tornozeleira eletrônica. No tribunal também se enfatiza a tendência da sociedade em fazer julgamentos morais, principalmente levando em consideração códigos de conduta próprios de outras gerações. Embora a presença de Chiara Mastroianni seja discreta e muito bem-vinda, Roschdy Zem, que faz o pai da garota, é muito mais presente importante para a narrativa.

O AMOR DE SYLVIE (Sylvie's Love)

Muito bonito este O AMOR DE SYLVIE (2020), de Eugene Ashe, que emula os romances da Velha Hollywood, com talvez a diferença apenas de ser dirigido por um cineasta negro ativista e protagonizado por pessoas negras, o que traz uma perspectiva relativamente nova se compararmos com os filmes so white da época. A trilha sonora é de dar gosto, com vários clássicos americanos. E há a história de amor do casal principal, cheia de obstáculos. Tessa Thompson é apaixonante e Nnamdi Asomugha é bem carismático e elegante. Até um "The End" no final usam para manter o charme de outrora, e também para nos aproximar do cinema que era feito nos Estados Unidos naquela época. Um cinema nada inclusivo, é sempre bom lembrar.

domingo, fevereiro 14, 2021

DOCE VINGANÇA (Promising Young Woman)



Os filmes de rape and revenge têm uma tradição de serem dirigidos por homens. Aliás, a própria indústria cinematográfica é essencialmente machista. Além do mais, trata-se de um subgênero que é afiliado ao exploitation. Logo, tem sim uma intenção exploratória, não só pelo sexo, mas pela violência. Recentemente tivemos um filme dessa subcategoria dirigido por uma mulher, VINGANÇA, de Coralie Fargeat, que é sutil no modo como se diferencia dos outros filmes do subgênero.

Por isso que BELA VINGANÇA (2020), o longa-metragem de estreia de Emerald Fennell, tem ganhando tanta repercussão. Além de ser representativo do espírito do nosso tempo, sua abordagem no modo como trata a vingança da protagonista é bem diferenciada. Como a cultura do estupro está presente na sociedade durante séculos é natural que filmes de diferentes gêneros que abordam mesmo que sem querer o assunto se tornem poderosos documentos de época. E mesmo filmes desse subgênero, como LILIAM, A SUJA, de Antonio Meliande, e SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, fetichizam tanto o corpo quanto a violência gráfica.

Por mais que alguns possam achar exagerado o modo raivoso com que BELA VINGANÇA escancara a cultura do estupro, seja mostrando homens se aproveitando de mulheres bêbadas, ou a já tradicional abordagem oral de operários a mulheres que passam na rua, Fennell foge do que se costuma esperar desse tipo de filme ao trazer não uma psicopata, mas alguém maltratada e extremamente traumatizada por um evento do passado. E não foi um evento que ocorreu com ela especificamente, mas com sua melhor amiga.

Na trama, Carey Mulligan é Cassandra, uma jovem que abandonou a faculdade de medicina e agora trabalha em uma cafeteria e tem por hábito dar lições de moral a homens que se aproveitam de mulheres em bares. Logo na primeira cena, ela se faz de bêbada e um homem a leva para casa com a intenção de se aproveitar de seu corpo. O filme vai ficando mais interessante quando descobrimos mais sobre seu passado e quando ela passa a se aproximar das pessoas que a traumatizaram e foram responsáveis pela morte de sua amiga. Há também em paralelo um romance que se estabelece entre ela e um jovem médico, um rapaz que já foi seu colega de classe nos tempos de faculdade (Bo Burnham).

Outros méritos do filme são: a narrativa que se desenrola de maneira surpreendente; a fotografia e a direção de arte que traz um ar de feminilidade infantil; e o modo como Carey Mulligan se apresenta como alguém ao mesmo tempo doce e cheia de veneno. Gosto de como a diretora utiliza cores costumeiramente associadas à feminilidade para dar um tom todo próprio às imagens, seja no ambiente de trabalho ou na casa da personagem. Ajuda a trazer a força e o perigo da mulher associados à sua fragilidade. A própria voz de contralto de Mulligan contribui para isso.

Aliás, sobre Mulligan, é bem possível que este seja o papel mais memorável de sua carreira, por mais que ela tenha brilhado em filmes melhores como INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM, dos irmãos Coen, e SHAME, de Steve McQueen.

BELA VINGANÇA foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias filme (drama), direção, atriz (drama) e roteiro.

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FALE COM AS ABELHAS (Tell It to the Bees)

Nos dias de hoje é fácil (ou quase fácil) assumir sua sexualidade diferente. Na década de 1950, na Escócia, em uma vila pequena, o escândalo é gigantesco. E FALE COM AS ABELHAS (2018), de Annabel Jankel, é uma amostra não apenas da intolerância de gênero, mas também da maldade da sociedade machista. Às vezes parece exagerar um pouco no tratamento, mas há também uma delicadeza muito bonita no modo como as duas mulheres se aproximam e se amam. Além do mais, há uma cena que é surpreendente na adoção do mágico.

GAGARINE

Interessante como GAGARINE (2020), de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, vai aos poucos se desligando do senso de realidade na mesma medida que o jovem protagonista, Youri Gagarine, vai procurando uma fuga de um destino cruel - mãe ausente, seu edifício prestes a ser demolido. E sua fuga mental e que ganha contornos surrealistas vai ganhando a cara das coisas que lhe são mais queridas, o mundo dos astronautas. Lá pelo meio do filme esse desprendimento com a realidade começa a ser efetuado, mas de maneira sutil, até o final de contornos mais fantásticos. Legal a participação breve do hoje lendário Denis Lavant. 

EU ESTAVA EM CASA, MAS (Ich War Zuhause, Aber)

O filme começa mostrando três animais: um coelho, um cachorro e um burro. Confesso que ao final da sessão de EU ESTAVA EM CASA, MAS (2019) me senti como o burro. Ao que parece a intenção da diretora Angela Schanalec, pelo que dizem em algumas críticas por aí, é reescrever a gramática do cinema. O que me parece interessante. E foi o motivo de eu ficar o tempo inteiro fazendo perguntas a mim mesmo. Qual o motivo de a protagonista ser tão irritadiça? O que é aquele diálogo com o cineasta? Por que a opção pelo andamento lento de certas passagens? Por que alguns personagens têm suas importâncias na narrativa abreviadas, mas ao mesmo tempo parecem ser importantes (caso do personagem de Wolfgang Michael)? Enfim, terminei o filme com frustração, por não ter entendido nada, mas ao mesmo tempo um tanto impressionado com as imagens e com os planos esticados que parecem característicos de filmes longos, ainda que não seja o caso aqui. É um filme que eu vou querer esquecer ou que me chamará de volta para a revisão? Está parecendo mais a segunda opção.

sábado, fevereiro 13, 2021

AMOR ESTRANHO AMOR



Não lembro exatamente em que ano vi AMOR ESTRANHO AMOR (1982) no saudoso Cine Diogo, mas, a julgar pela informação de que foi em 1991 que Xuxa Meneghel proibiu a comercialização em VHS, imagino que tenha sido nos primeiros anos dessa década.

Na época que se dispôs a fazer o filme, Xuxa não sabia que se tornaria apresentadora de programa infantil. Ela era namorada do Pelé, que por sua vez era amigo do produtor Aníbal Massaini Neto, e, como Walter Hugo Khouri era um cineasta que valorizava muito as atrizes que eram elevadas a um posto de sucesso sempre que apareciam em seus filmes, a chance de trabalhar com o cineasta parecia uma oportunidade de ouro. Mesmo sendo um filme que deu uma dor de cabeça para a futura apresentadora, que pagou 60 mil dólares anuais à Cinearte Produções, durante os anos de 1991 a 2018, para sua interdição, não dá para negar que trata-se da obra cinematográfica mais importante e bonita que ela já fez.

Surpreendi-me positivamente com a revisão da obra agora. Costumava considerar o filme um trabalho menor do cineasta e agora vejo que me equivoquei. Equipará-lo a outras obras do diretor é uma tarefa ingrata, já que estamos falando de alguém que fez grandes filmes através de cinco décadas. Então talvez seja melhor olhar para AMOR ESTRANHO AMOR como uma obra-solo, por mais que seja difícil não fazer referência a outros tantos títulos do realizador, especialmente os que apresentam o alter-ego Marcelo.

Aqui o nome do protagonista não é Marcelo; é Hugo, representado pelo menino Marcelo Ribeiro e pelo idoso Walter Forster, que comparece como uma espécie de fantasma vindo do futuro para relembrar o seu breve período naquela mansão que funcionava como um prostíbulo de luxo, onde sua mãe trabalhava e morava. A mãe, vivida por Vera Fischer, chama-se Ana, nome frequentemente usado por Khouri em seus filmes estrelados pelo mulherengo Marcelo.

Vera Fischer aparece com uma beleza tão extraordinária neste filme que parece saída de alguma pintura clássica. Não à toa, a cena em que ela se relaciona intimamente com o filho é explicitamente inspirada na Pietà de Michelangelo. O modo como Khouri vê os corpos femininos tem essa relação da apreciação artística. Embora o desejo esteja também presente, o sentido de busca da beleza clássica comparece de maneira forte. E há os close-ups dos olhares, todos poderosos. Principalmente quando vemos Ana, mas também o personagem de Tarcísio Meira, que interpreta um rico político paulista que exige exclusividade de Ana naquele bordel, e tem a intenção de ajudar a liderar a oposição a Getúlio Vargas momentos antes de o presidente instituir o Estado Novo.

Uma das coisas que mais me agradou no filme foi o início, quando o menino Hugo chega no prostíbulo sem saber que ambiente era aquele. Sua intenção é encontrar a mãe, que fica numa situação complicada. Afinal, como explicar a presença de uma criança em um lugar destinado a adultos? E enquanto o garoto espera e é também olhado e assediado pelas outras jovens mulheres do bordel, ouvimos canções clássicas do cancioneiro brasileiro na voz de cantores como Francisco Alves e Orlando Silva. Inclusive, no final do filme, ainda ouvimos mais uma linda do Francisco Alves, chamada "Misterioso amor", que brinca com o título do filme e sua temática edipiana.

Ainda que vejamos em outros filmes do realizador personagens que atravessam a infância e a adolescência tendo que lidar com o desejo, como em EROS - O DEUS DO AMOR (1981) e AS FERAS (1995), em nenhum outro filme de Khouri o Complexo de Édipo é tão bem explorado quanto em AMOR ESTRANHO AMOR. Quando o garoto vai para seu quarto e sabe que a mãe está transando com um homem, ele chora copiosamente. O filme ganha uma dimensão onírica quando o desejo inconsciente (ou talvez nem tão inconsciente assim naquele momento) se materializa na cena entre mãe e filho.

Eis um filme que oferece pano pra manga para uma série de estudos e discussões, que vão muito além da polêmica pobre que se instalou em torno dele nesses anos todos. Além do mais, junto à direção cheia de classe do realizador, há ainda a música sempre brilhante de Rogério Duprat, a Traditional Jazz Band (adorei as cenas com a banda na festa), a direção de fotografia do mestre Antonio Meliande, um elenco de apoio de primeira linha - Mauro Mendonça e Otávio Augusto, as jovens Vanessa Alves, Sandra Graffi e principalmente Matilde Mastrangi, rainha do cinema erótico brasileiro, que comparece em uma cena pra lá de inspirada.

Por tudo isso, a exibição do filme no Canal Brasil com um upgrade na imagem e no som na última quinta-feira foi um presente para os cinéfilos e para os apreciadores da obra do diretor. 

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

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FENDAS

Assim que vi DE VEZ EM QUANDO EU ARDO (2020), o mais recente trabalho de Carlos Segundo, fiquei logo curioso para entrar em contato com outras obras do autor. Felizmente, pude ter essa oportunidade, e foi logo com um longa-metragem. E é interessante fazer essa jornada ao contrário, do mais recente para o mais "antigo" e ir percebendo as conexões entre as obras. Assim como no curta, FENDAS (2019) traz um mistério e um interesse pela imagem como um objeto misterioso. O fato de haver também protagonistas mulheres em seus filmes também acentuam esse mistério, por mais que o mistério na mulher talvez seja hoje em dia mais uma convenção do que uma verdade, não sei. O que me deixou confuso no filme foi a união de imagem e som e o foco que se estabelece no som, um som que chega de maneira mágica do outro lado do Atlântico. Ou seria uma manifestação física? Essa relação com a física e a metafísica é uma das coisas que mais tem me interessado na obra, mas também suas escolhas no filmar, como o momento em que vemos uma conversa em um único plano que dura 12 minutos, com câmera parada, ou a cena da imagem com o carro em movimento olhando para trás, na estrada. Trata-se de um filme que desejamos experienciar numa tela grande, inclusive pelos efeitos sonoros. Será que será possível?

CABEÇA DE NÊGO

O nosso FAÇA A COISA CERTA, feito em sintonia com um momento especialmente favorável à reação mais ativa quando se faz necessário. CABEÇA DE NÊGO (2020), de Déo Cardoso, é também um filme que pode ser muito especial para quem é de Fortaleza, como eu, quem é professor de escola pública como eu. Eu me vi naquele espaço. Embora conte com uma atriz famosa e ótima (Jéssica Ellen), são os jovens atores iniciantes que são o coração do filme. Impressionante o domínio narrativo da direção, do roteiro, da montagem. A história passa voando e traz conexões com os protestos e ocupações ocorridas em escolas secundaristas de poucos anos atrás.

SEM DESCANSO

A história que SEM DESCANSO (2019) escolhe para ser o coração e o ponto de partida é muito poderosa: a investigação do desaparecimento de um rapaz depois de ele ter sido abordado por três policiais e ser levado em uma viatura. A história aconteceu em Salvador em 2014 e é realmente dolorosa. Gosto de como o diretor Bernard Attal costura a história a partir dos depoimentos. E também acho interessante o link com a questão da tradição de violência na polícia desde os tempos de Brasil-império. Mas a impressão que fica é que começou a faltar foco a partir daí. E o foco diminui mais ainda quando tenta-se uma expansão da problematização. Ainda assim, é um filme que merece ser visto e divulgado. Sem dúvida nenhuma.

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

O TESOURO DE BARBA RUBRA (Moonfleet)



Acostumei-me tanto com o preto e branco estiloso de Fritz Lang (e me apaixonei por ele, na verdade) que confesso que já cheguei para ver O TESOURO DE BARBA RUBRA (1955) com um pouco de má vontade. Mesmo tendo pelo menos uma curiosidade e um detalhe importante, que é o fato de ser o único de seus filmes com janela em scope, e de ter um colorido também bem vivo e bonito, há algo de muito próprio daqueles filmes épicos nascidos com o advento do cinemascope que me desanimaram um pouco. Sem falar que a trama do filme não me pegou. O que mais gostei foi do aspecto formal. E, ao que parece, foi isso que também elevou o filme a status de obra-prima por vários críticos franceses dos anos 1960.

Quando Fritz Lang recebeu o convite para a produção do filme ele nem pensou duas vezes e nem queria saber muito do que se tratava. Afinal, era a chance de trabalhar na MGM novamente, desde sua bem-sucedida estreia em 1936 com FÚRIA. E para fazer a produção mais cara já realizada por ele em Hollywood. Talvez por eu já saber da famosa reclamação de Lang com o formato de tela (ele dizia que só servia para filmar cobras e funerais), eu fiquei mais atento com o uso da imagem e de fato pode ser complicado ter que preencher a tela com alguma coisa em cenas com apenas uma ou duas pessoas mostradas em plano geral.

E há muito plano geral em O TESOURO DE BARBA RUIVA, já que havia mesmo a intenção naquela época de chamar a atenção do público novamente para os cinemas, que já estava perdendo audiência para o sucesso da televisão nos lares. A cor e o tamanho da tela eram, assim, dois grandes chamarizes. E por mais que eu não tenha amado o filme, tenho que admitir que há sim momentos de tensão muito interessantes, como o uso do suspense na cena do poço.

O filme começa com a chegada do jovem órfão John Mohune, de onze anos de idade, na cidade de Moonfleet. Ele já chega assustado com a imagem de um anjo de madeira, que mais parece um demônio, no cemitério. O uso da música dá ao filme logo de cara um tom de horror gótico, tom que retorna com certa frequência ao longo da narrativa. O resto da trama será praticamente toda vista pelos olhos do garoto, que se depara com um jogo de intrigas envolvendo um grupo de contrabandistas e uma aristocracia corrupta. A missão do pequeno John é encontrar um amigo que sua falecida mãe havia dito ser de confiança, Jeremy Fox (Stewart Granger), um dos líderes dos contrabandistas, mas também um sujeito que ganha a simpatia quando consegue ser cínico, mas também gentil, cavalheiro e corajoso.

Como o filme é visto pelo olhar de John e como ele vê Fox como uma espécie de herói, um certo romantismo é sentido no ar, ainda que Lang seja um diretor muito interessado na forma e isso faça com que criemos algum distanciamento dos personagens. No caso, há um distanciamento entre e espectador e protagonista (o garoto) também no momento final, quando o espectador sabe que o personagem de Fox está morto, mas o garoto o espera, deixando o portão da mansão aberto para quando seu grande amigo voltar. É mais um exemplo de final agridoce comum em diversas obras do realizador, ainda que sem a força, por exemplo, de um SÓ A MULHER PECA (1952), para citar um que me impactou muito.

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PINÓQUIO

É curioso essa coisa de querer fazer um filme mais sombrio de Pinóquio. Esperava algo mais perturbador vindo de um diretor que fez filmes violentos da máfia italiana. No fim das contas, a narrativa de PINÓQUIO (2019), de Matteo Garrone, me pareceu um tanto tediosa, mesmo quando tratava de situações bem fantásticas, como na cena da baleia (ou seria um peixe maior?). Eu lembro que quando eu era criança fiquei muito impressionado com o momento em que Pinóquio se transforma em um jumento. Aquilo me apavorou, mesmo na animação da Disney. Aliás, as animações da Disney já foram mais ousadas nesse sentido: não tinham medo de traumatizar as crianças. O visual do filme é bonito, mas achei que faltou magia, principalmente nas cenas com a fada. E que ideia idiota da distribuidora de mandar pra cá as cópias dubladas em inglês. hein?! E é um inglês com sotaque italiano.

UM CRIME EM COMUM (Un Crimen Común)

A atriz de UM CRIME EM COMUM (2020), de Francisco Márquez, é ótima; o filme não consegue se manter nos momentos de suspense. E a atriz é a principal daquela filme enorme de mais de 13 horas de duração, LA FLOR, de Mariano Llinás. Bom saber. Mais um motivo para ver o LA FLOR em um dia em que estiver com disposição. Na trama, uma professora de sociologia comete o erro de ter medo na noite em que o filho da empregada mais precisava. Queria ter me conectado melhor com a angústia da personagem em esconder seu segredo. Não rolou desta vez, mas eu até daria uma nova chance ao filme num futuro próximo ou não tão próximo.

RIVER OF GRASS

Nesta estreia na direção de Kelly Reichardt podemos ver sementes do que apareceriam em filmes como WENDY E LUCY (2008) e FIRST COW (2019), mas é uma obra muito mais distanciada e talvez mais alegórica também. Os personagens não são fáceis de serem gostados, mas ao que parece não é essa a preocupação de RIVER OF GRASS (1994). Acho interessante o jeito mais bruto do material produzido, a figura feminina querendo distância da rotina de mãe e da família e também da voice-over que se diferencia bastante dos filmes noir. Aqui temos a voz da mulher nos ajudando um pouco a entender a personagem. Às vezes parece uma muleta, mas tem a sua beleza. Só depois que a diretora ganharia força para contar a história muito mais com as imagens do que com as palavras. (Se bem que eu adoro as palavras.)

terça-feira, fevereiro 09, 2021

PAJEÚ



I fear that I'm ordinary
Just like everyone
To lie here and die among the sorrows
Adrift among the days
(Billy Corgan, "Muzzle”)

Sermos esquecidos. Esse é um dos temores da humanidade. Não à toa tentamos ser lembrados através de nossos descendentes, nossas realizações artísticas e científicas, ou de qualquer outra natureza. Shakespeare procurou eternizar o seu amor através de sonetos, deixando muito claro esse temor do esquecimento, da terra cobrindo o corpo e também o espírito. Também não queremos ser esquecidos pelos nossos amigos e familiares. Quando ouvimos sobre pessoas que são encontradas mortas semanas após a morte, sozinhas, é difícil não sentir uma ponta de tristeza. O esquecimento seria a solidão elevada à enésima potência.

E se isso ocorre com pessoas, pode ocorrer com coisas que geralmente costumam ter uma vida bem mais longa, como riachos, por exemplo. PAJEÚ (2020), de Pedro Diógenes, trata desse riacho. Mas não só. A relação de investigação que a jovem professora de ensino fundamental faz sobre o riacho que foi renegado pela cidade de Fortaleza e transformado em esgoto a céu aberto e reservatório de lixo também tem uma estreita ligação com seus sentimentos mais íntimos, o mal estar que tem consumido seu espírito, tirado seu sono, trazido pesadelos, afastado-a de seus amigos.

Fiquei impressionado e também bastante tocado com este filme que tanto é uma dolorosa reflexão sobre o esquecimento, quanto sobre a relação existente entre a angústia de uma moça frente a algo inexplicável e a falta de conhecimento e respeito de uma cidade diante de um de seus riachos mais importantes, o Pajeú do título, que serviu de base para a construção da cidade.

É possível ampliar essa alegoria para a própria construção do Brasil, desde a colonização até os dias de hoje, com o descaso e o desrespeito com a natureza e o meio-ambiente. Mas o que me tocou particularmente foi quando a protagonista Maristela (Fátima Muniz) começa a fazer essas perguntas sobre o medo de ser esquecido. Isso cala fundo e deixa as pessoas desnorteadas, trazendo seriedade e preocupação para seus rostos, antes sorridentes.

Essas cenas em que ela faz perguntas às pessoas trazem o documentário para a ficção e essa contaminação, em vez de atrapalhar, traz mais verdade à obra que já havia brincado com o fantástico. Há uma espécie de monstro que aparece nas águas poluídas do riacho, como que um fantasma insatisfeito e tentando se comunicar com a protagonista.

Há também um personagem que traz muito carinho para o filme. O amigo próximo de Maristela, Yuri, vivido por Yuri Yamamoto, hoje mais famoso por seu papel em INFERNINHO ( 2018), dirigido por Diogenes em parceria com Guto Parente. Ele é essa representação do afeto e está preocupado com a saúde mental da amiga, que tem evitado socializações. Ainda assim, ele a convence a ir a um karaokê, espaço que surge onírico nas vezes em que é representado. E também espaço de melancolia, especialmente na linda cena final, uma das mais belas do cinema brasileiro recente.

PAJEÚ talvez seja a maior chance de encontrar a voz autoral de Pedro Diogenes, cineasta que quase sempre esteve envolvido em projetos coletivos e talvez por isso tenhamos ficado sem saber o seu grau de importância em filmes como ESTRADA PARA YTHACA (2010), NO LUGAR ERRADO (2011), COM OS PUNHOS CERRADOS (2014), O ÚLTIMO TRAGO (2016) e o já citado INFERNINHO. De uma forma ou de outra, sua contribuição para o engrandecimento do cinema cearense contemporâneo é algo a nos deixar felizes e gratos.

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DENTE POR DENTE

Há filmes cuja existência é difícil de entender. No caso de DENTE POR DENTE (2020), de Pedro Abrantes e Júlio Taubkin, já se trata de um filme problemático a partir do roteiro. Mas, como nem todo filme depende de roteiro para se fazer gostar, DENTE POR DENTE tem seus méritos, e é mais um exemplar de filme brasileiro que usa o gênero fantástico para falar de problemas sociais. Nem sempre funciona. Ainda que no cartaz a presença de Paolla Oliveira e Renata Sorrah dê a entender que suas presenças são próximas do protagonismo, não é o que acontece. A câmera segue o tempo todo Juliano Cazarré em uma jornada que lembra a de alguns filmes noir clássicos.

O PROFETA DA FOME

Depois de sua fase mais gloriosa (1964-1969), José Mojica Marins aceitou trabalhar como ator neste filme de Maurice Capovilla, cineasta da turma do Cinema Novo - por isso há um tom de crítica social mais marcadamente característico do movimento. Mas há uma linha mais transgressora, tanto pela escalação de Mojica (inclusive como meio de arrecadar uma bilheteria melhor), quanto por brincar com a chamada "estética da fome". Em O PROFETA DA FOME (1970), o próprio herói, o fakir vivido por Mojica, percebe que a fome é também um negócio. É um filme que pode ser divido em duas partes: a primeira parte, no circo, e a segunda que tem aquela cena memorável com um cantador e que vai levar o protagonista para um outro tipo de circo. Mas a minha cena favorita é uma no circo, com uma plateia ávida para ver uma pessoa comendo gente. Ah, e foi uma boa o Paulo César Pereio ter dublado o Mojica. Ficou ótimo! A voz do Pereio é um dom.

BARÃO OLAVO, O HORRÍVEL

Júlio Bressane brincando com o gênero horror. E "brincar" talvez seja a palavra certa, já que os filmes realizados de maneira rápida neste mesmo ano parecem ter um viés bem descompromissado. Ele já era o intelectual que sabemos que é hoje, e a partir dos filmes posteriores isso se tornaria mais explícito, mas aqui a intenção é talvez se aproximar do cinema de Mojica. Só acho que não consegue, pois a influência da Nouvelle Vague francesa se apresenta de maneira mais forte. A história de BARÃO OLAVO, O HORRÍVEL (1970) não interessa muito, assim como não interessam os atos e as consequências dos personagens, como o próprio Barão, que tem por hábito transar com cadáveres. Até por isso, a parte que eu mais gosto é a mais descontraída, com a Helena Ignez nas ruas brincando com a população. Bonito de ver Ignez com Lilian Lemmertz também.

domingo, fevereiro 07, 2021

MONJAS PECADORAS (La Monaca del Peccato)



1989 foi meu ano de estreia como cinéfilo. Por que eu digo isso? Porque foi o ano em que comecei a ler sobre cinema em jornais e revistas, a ir ao cinema toda semana, a acompanhar as premiações principais, a ficar atento para os lançamentos na telona e em VHS e também nas exibições na TV aberta. E foi no início deste ano que comecei a comprar a revista SET, na época, em uma fase maravilhosa. MONJAS PECADORAS (1986) foi um dos destaques inclusive de capa de uma das edições. E me deu muita vontade de ver. Mas eu não tinha nem 17 anos ainda e a censura do filme era 18.

Mas lá fui eu com meus amigos, tentar comprar e ver se dava certo. Compramos, mas fui barrado. Aquele menino franzino não tinha cara de quem tinha 18 anos mesmo. E partimos para ver outro filme no Cine Fortaleza - se não me engano, foi COCOON, de Ron Howard. MONJAS PECADORAS estava passando no Cine Diogo, o cinema do Centro com mais cara de popular. Era lá que eram exibidos filmes do Van Damme, do Stallone, filmes policiais e às vezes filmes eróticos softcore. Hoje em dia o cinema não existe mais. No espaço grande construíram um shopping popular, o Shopping Diogo. Uma pena, mas podia ser pior.

Passaram-se anos e eu nunca vi o filme. Talvez por algum sentimento relacionado à rejeição daquela ocasião, não sei. Ou talvez porque não era mesmo uma obra benquista pela crítica. Eu passava na locadora, olhava para a fita, pegava, e novamente deixava ela ali no mesmo cantinho de antes. E eis que, só recentemente, os caminhos da internet me aproximaram novamente desse exemplar do nunsploitation. Aliás, foi só nesta semana que eu soube quem é o diretor do filme, o prolixo Joe D'Amato (197 títulos no IMDB!), que aqui assina sob um pseudônimo (Dario Donati).

Enquanto via o filme e encontrava um monte de falhas em seus primeiros minutos, fiquei me perguntando se o fato de D'Amato ter adotado um pseudônimo já era uma deixa de que se tratava de um filme a que ele tinha vergonha - se bem que depois ele perdeu a vergonha de vez, pois assinou um monte de filmes pornôs até o fim de sua vida. O que, aliás, não é motivo de vergonha nenhuma. Mas no ano anterior ao MONJAS ele havia realizado o ótimo A ALCOVA (1985), estrelado por Lilli Carati.

A estrela de MONJAS PECADORAS é Eva Grimaldi, a atriz e modelo que também faria um filme como o nosso querido Walter Hugo Khouri, FOREVER - JUNTOS PARA SEMPRE, em 1991. MONJAS foi seu primeiro trabalho no cinema. E há uma exploração do corpo da atriz, o que é de se esperar em se tratando do subgênero. Se bem que é um filme que decepciona quem vai buscar nele um erotismo atraente. Na verdade, ele já começa bastante incômodo, com a cena da personagem Susanna (Eva) sendo estuprada pelo próprio pai, razão que a leva a ser encarcerada em um convento.

O filme é uma adaptação do mesmo romance inacabado de Denis Diderot, que foi adaptado por Jacques Rivette em 1966 e fez nascer a obra-prima A RELIGIOSA. Infelizmente, fazer esse tipo de comparação com a obra de Rivette só torna a obra bastarda de D’Amato ainda menor. Mas também seria burrice da minha parte perseguir esse tipo de comparação. Afinal, trata-se de um filme que, pela própria maneira como se vende, não parece se levar tão a sério em sua defesa da pobre moça que é feita freira à força e ainda por cima é assediada, humilhada e torturada.

Só na meia hora final que o filme deixa de lado suas tentativas de brincar com um erotismo que não funciona para trazer um tom de horror à história de Susanna, que chega a receber água benta através de meios bem “estranhos”, e é acusada de possessão demoníaca por uma freira enciumada (a madre superiora ficara apaixonada por Susanna) e outras tantas companheiras. Lembrando que, no convento, há também um padre que logo se interessa fisicamente por Susanna.

Uma das cenas mais memoráveis - como também acontece no filme de Rivette - é a do julgamento, em que Susanna se vê tendo que se defender das mentiras e dos ataques físicos. Pena que termina de maneira tão brusca. Teria sido uma chance de ouro de D'Amato tornar seu filme mais lembrado e mais querido.

Agradecimento à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES

SAINT MAUD

Acho interessante o modo como este SAINT MAUD (2019), de Rose Glass, usa a iconografia da Igreja Católica e da crença fervorosa de sua protagonista para construir uma obra muitas vezes apoiada em contradições. Afinal, a própria fé é instável e o filme trabalha com isso também, até por nos colocar o tempo todo nos sapatos (às vezes bem dolorosos) da personagem de Morfydd Clark. Ela é uma enfermeira particular que passa a cuidar de uma dançarina famosa que está se tratando de um câncer em grau avançado (Jennifer Ehle). A razão de ser de sua vida passa a ser salvar a alma daquela paciente perdida e pecadora. Gosto da mudança da trama, trazendo mais complexidade para a protagonista, mas senti dificuldade de me conectar e de me envolver com as estranhezas sobrenaturais (?) que o filme traz. De todo modo, há uma beleza na composição dos quadros que, por si só, já é algo bem-vindo.

SNUFF - VÍTIMAS DO PRAZER

Eis um filme complicado de avaliar. SNUFF - VÍTIMAS DO PRAZER (1977), de Claudio Cunha, é atraente de ver, os problemas de dramaturgia podem ser relevados, mas talvez seja preciso ver além. O interesse pela lenda urbana dos snuff movies chega ao Brasil com esta ideia de Cunha e Carlos Reichenbach, que assinam o roteiro. Na trama, dois sujeitos planejam escalar equipe e elenco para filmar um snuff. Sem que a equipe saiba, uma das atrizes será assassinada em cena. É interessante ver a escalação do grupo: uma stripper (Rossana Ghessa), uma atriz decadente, uma aspirante a atriz, uma miss de cidade do interior e um único ator saído do hospício (Roberto Miranda). Carlos Vereza interpreta o diretor decadente que tem como assistente o sempre simpático Canarinho. O filme começa a ficar mais interessante com a expectativa da tal cena fatal e o desespero de um dos sócios diante da iminente morte da atriz por quem ele se apaixona. Há uma cena que a imagem ripada do VHS torna quase impossível de enxergar: a cena da briga do lado de fora de um prostíbulo, muito escura. Gosto do final e das escolhas econômicas da construção deste exploitation que mais parece uma profecia do que viria a acontecer com a Boca do Lixo anos depois.

LIBERTÉ

Não é um filme fácil, como já era de se prever. Mas há algo de fascinante na construção da atmosfera, seja pela quase ausência de trilha - ouvimos apenas o som dos grilos e o farfalhar nas folhas no bosque, além do som das vozes das pessoas -, seja pela sensação de que estamos em uma espécie de inferno em que o desejo sexual nunca é satisfeito, as ideias e a criatividade das perversões precisam ser sempre inventivas e cruéis. O prólogo de LIBERTÉ (2019), de Albert Serra, já antecipa isso, mas não entrega o que o filme traria. O filme é uma espécie de teste de fidelidade para o espectador, por conta do andamento lento e certo mal estar que muitas vezes provoca pelas cenas de sadismo, embora esse mal estar possa ser, em algumas ocasiões, e dependendo do espectador, também confundido com fantasias sexuais reprimidas. Fico feliz de ter visto no cinema; em casa, não sei se ia ser uma experiência interessante.

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

PARTIDA



Estou em uma fase de imensa gratidão ao cinema. Sou grato também aos amigos, poucos, mas fiéis, e às canções e aos livros/HQs, mas acho que o cinema tem se situado em um espaço superior neste momento. Hoje, na semivazia sala do Cinema do Dragão (o que é até bom em tempos de pandemia), durante a sessão de PARTIDA (2019), de Caco Ciocler, este sentimento veio com força. No filme, não esquecemos de nossa condição como um país muito mal tratado e entregue aos fascistas, mas nem por isso o prazer de ver um ótimo filme se dissipa. Na verdade, o sentimento de identificação é também bem-vindo.

Esta estreia na direção de Caco Ciocler parte de uma ideia em que tudo poderia dar errado (o que é normal em se tratando de documentários sem marcações rígidas). Vamos nos envolvendo cada vez mais com aquelas pessoas discutindo política dentro do ônibus a caminho do Uruguai. Há jogos de cena (pra usar um termo do Coutinho), limites entre a atuação e a simples observação e gravação das conversas, e no meio disso, ouvimos verdades duras sobre o Brasil dos dois lados do espectro político.

A narrativa se inicia momentos antes da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018 e na vontade de um grupo de sair do país por uns dias e encontrar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Momentos tensos, de reflexão, mas também divertidos, se unem a um final lindíssimo. Em algum momento a protagonista diz: só fizemos um filme. É apenas um filme? Não creio. 

Afinal, passar por essa uma hora e meia de discussão e reflexão sobre a situação do país, sobre a polarização, sobre o quanto podemos estar errados mesmo quando defendemos as pautas corretas. E há o fechamento com um encontro lindo, com palavras comoventes, que trazem um gostoso calor para o coração. 

A protagonista de PARTIDA é Georgette Fadel. Militante de esquerda, ela sofre muito com a derrota de Fernando Haddad nas eleições. O filme já começa com ela contando para a câmera de quando foi agredida com uma cadeirada na rua e ficou sem entender se o motivo foi por ela ser gay, usar vermelho ou qualquer outro. Então, ela tem a ideia de se candidatar a presidente da república para 2022. E surge a ideia de se fazer um filme sobre sua trajetória até o Uruguai em um ônibus com um grupo de amigos, que passa, inclusive, pela vigília Lula Livre. 

Para fazer o contraponto das opiniões de Georgette, o diretor (também muito atuante na frente das câmeras nessa brincadeira de gente grande) convida Leo Steinbruch, alguém que tem uma opinião muito mais próxima de um eleitor de Aécio Neves, e que tem por hábito colocar a culpa de todos os males no PT, com discursos já conhecidos.

A discussão funciona, menos por Leo e mais por Georgette, uma personagem tão forte e tão segura de suas convicções que chega a eclipsar a todos. Ela mesma em determinado momento pede para uma das pessoas se expor mais, dizer mais suas opiniões. Caco Ciocler, que não deixa claro seu posicionamento político, sugere que o filme seja uma construção coletiva, algo feito e pensado por todos presentes naquele ônibus.

O resultado tão positivo me fez lembrar de outra estreia de um ator famoso, O BEIJO NO ASFALTO, de Murilo Benício, que por ser um ator, como Ciocler, destaca em seu filme o desempenho de seus colegas em cena de forma bem marcante. Por mais distintos que sejam os filmes, há esse forte elemento em comum.

+ TRÊS FILMES

A JANGADA DE WELLES

Com a minha enorme lacuna no cinema de Orson Welles e também nos filmes de Rogério Sganzerla que lidam com Welles, senti que me faltava pré-requisitos para ver este documentário realizado pela mesma dupla que já havia feito o curta CIDADÃO JACARÉ (2005), Petrus Cariry e Firmino Holanda, sobre o jangadeiro cearense que morreu durante as filmagens do inacabado e mítico IT'S ALL TRUE. Foi muito bom ver L.G. de Miranda Leão falando sobre sua paixão por esse episódio em sua vida, ver Helena Ignez citando o marido entusiasta de Welles, entre outros depoimentos. A JANGADA DE WELLES (2019) parece seguir uma linha de fluxo de consciência: fala de Welles e suas confusões com os produtores, sua vinda para o Rio e depois para Fortaleza, Getúlio Vargas e os pescadores, e depois fala da situação triste dos morados do Mucuripe, que foram sendo enxotados da área da praia para que os ricos construíssem seus grandes edifícios. Uma série de histórias tristes e lamentáveis, mas com uma história memorável da vinda de um ser mitológico como Welles.

MUSSUM - UM FILME DO CACILDIS

Um filme que me interessou mais pela figura super-carismática que era o Mussum. Uma impressão que fica no final de MUSSUM - UM FILME DO CACILDIS (2019), de Susanna Lira, é de que ele parecia muito mais feliz no samba. É muito legal vê-lo, com aquele sorrisão bonito, no programa Ensaio da TV Cultura, falando e cantando. Mas claro que sua entrada nos Trapalhões foi fundamental para que ele se tornasse uma das pessoas negras mais famosas do Brasil, possivelmente a mais bem-paga da televisão brasileira. Gosto de quando o doc toca no assunto do racismo no programa humorístico e que hoje é percebido com mais clareza. Mas não gostei da ideia chupada explicitamente de ILHA DAS FLORES, de Jorge Furtado, usado em dois momentos. Dos depoimentos, o mais emocionante é o do filho que menos recebeu atenção do pai, talvez por ser o mais jovem.

EMICIDA: AMARELO - É TUDO PRA ONTEM

Creio que estamos vendo sinais de que uma nova era pode estar de fato surgindo. Afinal, nos últimos anos, pudemos ver pessoas desfavorecidas se levantando e tomando para si o que merecem de direito, por mais que isso ainda esteja se apresentando mais no plano simbólico, espiritual. O trabalho de destaque de pessoas negras essenciais feito neste documentário pensado pelo Emicida é brilhante. EMICIDA: AMARELO - É TUDO PRA ONTEM (2020), dirigido por Fred Ouro Preto, costura essa história de grandes homens e grandes mulheres com cenas de sua apresentação no Theatro Municipal, uma apresentação feita com todo o luxo e toda a pompa merecida, já que o som que ele faz é sofisticado o bastante, com banda, naipe de metais etc. A associação com o samba vai se tornando mais forte. Eu, infelizmente, só tive a ideia de colocar as legendas para entender melhor as letras de rap lá pela metade do filme. Assim, já recomendo que façam o mesmo. E pensar que já são dez anos de quando eu viajei para Recife e vi o show de Emicida sem nem saber quem ele era... Muito feliz que ele tenha se tornado esse gigante, essa referência cultural, intelectual e de luta.

terça-feira, fevereiro 02, 2021

11 CURTAS BRASILEIROS



Na falta de um texto sobre algum longa visto (há muitos na lista), seguem mais alguns textos rápidos sobre curtas vistos recentemente. A maior parte deles são de uma safra nova.

ZIGURATE

Fascinante conto com tons lovecraftianos sobre a crise de valores da sociedade. ZIGURATE (2009), de Carlos Eduardo Nogueira, lida com a sensualidade, imagens tão sugestivas quanto explícitas sobre o sexo, mas o sexo mais como um elemento de ostentação dentro do pacote que inclui luxo e corpos perfeitos, do que como algo libertário e prazeroso. Na verdade, em determinado momento, o sexo passa a ser quase um fator de escravidão. É desses curtas que impressionam pelas imagens, mas que traz simbolismos diversos.

O HOMEM DAS GAVETAS

Tive um pouco de dificuldade de entender este O HOMEM DAS GAVETAS (2020), de Duda Rodrigues, embora na revisão eu tenha compreendido mais do ponto de vista da narrativa, ao menos, já que filmes sem diálogo costumam me deixar desconcentrado (um problema meu, eu sei). Mas achei fascinante a história desse homem de madeira cheio de gavetas em lugares estratégicos do corpo que passa a sentir necessidade de preencher o vazio dessas gavetas com diversas coisas: flores, ouro, sexo, comida, e aos poucos começa a surgir uma insatisfação espiritual. Já li uma crítica que vê o curta como um estudo da história da arte, mas acredito ser mais fácil compreendê-lo como a história das necessidades e frustrações do ser humano. Excelente o trabalho de stop-motion.

INSTITUIÇÃO_INTUIÇÃO

Bonita e criativa reflexão sobre o momento mais intenso da pandemia, quando as ruas estavam vazias e a ação se concentrava mais dentro das casas e se refletia nas telas dos celulares e computadores. Em INSTITUIÇÃO_INTUIÇÃO (2020), de Ana Pi Há diversos assuntos em que a diretora nos faz refletir: pensar nas pessoas que vivem na rua, a mudança no mundo, o pensar criativo como oportunidade, o cuidar da vida. A narradora começa uma conversa, que na verdade é um monólogo, mas que pode ser encarado como uma conversa, sim, já que podemos continuar o diálogo.

VIVA ALFREDINHO!

Não tinha a menor ideia de quem era Alfredinho e nunca tinha ouvido falar do bar Bip Bip, situado em Copacabana, mas fiquei encantado e muito emocionado com o registro do velório deste homem, que conseguiu transformar sua partida em um bloco de carnaval. As pessoas cantando sambas em sua homenagem, falando um pouco sobre o profundo carinho por ele, levando o cortejo com música e cerveja, e há todo o aspecto agridoce do samba, que consegue ser alegre e triste ao mesmo tempo. Os 15 minutos de duração de VIVA ALFREDINHO! (2019), de Roberto Berliner, trazem uma das mais bonitas manifestações em torno de uma pessoa e de sua partida deste plano que eu já vi.

O QUE NÃO TEM ESPAÇO ESTÁ EM TODO LUGAR

Pareceu-me um filme maníaco-depressivo. Ou ao menos lida de diferentes maneiras com as situações de tristeza acentuadas no momento da pandemia. A primeira parte de O QUE NÃO TEM ESPAÇO ESTÁ EM TODO LUGAR (2020), de Jota Mombaça, traz um texto bem deprê sobre pessoas que cometeram suicídio, lembra pessoas célebres citadas de maneira poética. Depois o estilo de projeto experimental/vídeo-instalação passa a tomar conta, quando o artista seleciona diversas imagens de celular para compor seu cenário do momento no mundo e de seu sentimento.

OBATALA FILM

Acho que sou muito dependente da narrativa, embora tenha criado com o tempo alguma sensibilidade com a apreensão de certos filmes de natureza mais experimental. No caso deste OBATALA FILM (2019), de Sebastian Wiedemann, fiquei entre duas opções: deixar que os seus sete minutos de imagens e sons me fisgassem pelo coração ou tentar, racionalmente, entender o que estava vendo, a representação das imagens, seus significados. Mas isso também se torna difícil sem conhecer o extra-filme, informações sobre quem é aquele homem filmado em super-8 e o que são aqueles rituais e que música é aquela. São certamente informações que podem ampliar a apreciação fílmica.

O QUE HÁ EM TI

A partir da famosa imagem do haitiano que abordou Bolsonaro para dizer "Acabou, você não é mais presidente" e deixar o especialista em matar desconcertado, O QUE HÁ EM TI (2020), de Carlos Adriano faz uma colagem poética, triste e tensa da canção "Haiti", de Caetano e Gil, de um poema de Sousândrade sobre a Revolução Haitiana e de imagens da intervenção militar do Brasil na época da governo Lula, que resultou em uma chacina no país. As cenas incomodam, a música interrompida e recortada também contribui para esse incômodo. Também há recorte de imagens na tela. Um cinema poesia que transpira indignação.

DO PÓ AO PÓ

Um espirituoso olhar para a pandemia este DO PÓ AO PÓ (2020), de Beatriz Saldanha, com influências de Lynch no uso do som e da importância dada aos objetos em cena. Eu adoro quando isso acontece, pois mostra um olhar apurado do/a cineasta e na verdade é algo que não se percebe com tanta força em muitos filmes (são poucos que fazem isso tão bem, na verdade). O uso da claque nas cenas do lavar as mãos traz tanto humor quanto horror para este objeto estranho. E a montagem com filmes antigos ajuda a tornar a experimentação um sucesso em tempos de recursos limitados de produção. Criatividade é tudo.

LORA

A alegria de um documentarista que privilegia o ser humano é poder encontrar personagens de grande força. E aqui neste LORA (2020), de Mari Moraga, temos uma excelente personagem. Além do mais, é um filme que dá voz a uma classe que geralmente fica à margem da margem da sociedade, o morador de rua. Raramente são pessoas que têm palavra. Lora não é mais moradora de rua, mas viveu durante 20 anos, teve a experiência com o crack, com a experiência de estupro, a experiência de agressão de autoridades públicas. E ela fala com muita segurança e muita clareza sobre os direitos constitucionais, sobre a desumanidade costumeira do Brasil e do estado de São Paulo. É um curta que passa voando e a gente até lamenta quando acaba.

MÃTÃNÃG, A ENCANTADA

Animação contada, narrada, dublada, dirigida e desenhada por índios da tribo maxakali, povo que vive em regiões de Minas Gerais. Há um poder de fábula muito forte na trama de MÃTÃNÃG, A ENCANTADA (2020), de Shawara Maxakali e Charles Bicalho, que começa com um homem da tribo sendo picado por uma cobra venenosa e vindo a falecer. Sua esposa, inconformada com sua morte, segue seu espírito a um lugar para onde vão os espíritos. O traço adotado é simples e muito bonito e combina com o estilo fantástico adotado.

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESPAÇO-TEMPO

Tem sido interessante perceber esta leva de curtas intimistas baseados em fotos. Eles custam muito pouco ou quase nada ao realizador, e com frequência são feitos com sensibilidade e inteligência. Este PEQUENAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESPAÇO-TEMPO (2020), de Michelline Helena, tem apenas três minutos de duração e a diretora/narradora mostra fotos de uma família e filosofa sobre coisas que poderiam ter acontecido com os personagens das fotos em uma realidade alternativa. Ela inicia o filme nos situando dentro do momento da pandemia, o que já se apresenta como mais um tipo de documento histórico.