domingo, setembro 25, 2022

A ROTINA TEM SEU ENCANTO (Sanma No Aji)



“Os filmes de Ozu derivam do que os japoneses chamam de “Mono no aware”, a percepção de que a vida é essencialmente estática e triste. Ele via a natureza humana não só como um equilíbrio entre pais e filhos, mas também entre esperança e desespero, e vida pública e privada.”
Mark Cousins


Fui checar a quantidade de citações sobre Yasujiro Ozu que Mark Cousins faz em seu excelente História do Cinema – Dos Clássicos Mudos ao Cinema Moderno (Martins Fontes, 2013) e é impressionante o número de vezes. E olha que, como o próprio autor diz, Ozu está longe de ser um dos diretores mais influentes do cinema. Até porque ele demorou bastante a ser descoberto no Ocidente. Além do mais, como seus primeiros filmes remontam à década de 1920 e o cinema japonês só começou a ser descortinado para o mundo ocidental com o Leão de Ouro que Akira Kurosawa ganhou com RASHOMON, em 1951, é natural que isso tenha acontecido. Porém, mesmo depois de seu reconhecimento, poucos diretores acompanharam seu estilo singular.

Segundo Cousins, os filmes de Ozu são as verdadeiras obras do classicismo cinematográfico – o cinema supostamente clássico americano, ele chamava de “realismo romântico fechado”, e ele explica muito bem o porquê. Muito disso tem a ver com a contenção das emoções, que, mesmo assim, em muitos filmes explodem e provocam lágrimas, por mais sutil que ele trabalhe com elas.

A força de seus filmes está mais no estilo e muito pouco no enredo: câmera posicionada a um metro do chão, o uso de câmera estática e a ausência de dollies, a opção por abordar a calma cotidiana em famílias ou em escritórios e de não mostrar certos eventos (ou personagens) que supostamente seriam importantes, enfatizando o que ele julga importante, tornando sua obra tão enxuta quanto rica.

Como o diretor se entediava com enredos, é possível perceber, principalmente vendo um filme como A ROTINA TEM SEU ENCANTO (1962), a lapidação da forma de seu cinema. Muitos até afirmam que o filme seria uma espécie de remake de PAI E FILHA (1949), o que faz bastante sentido se considerarmos a sinopse, mas aqui o visual é um pouco diferente, talvez por ser um filme em cores (seu segundo). 

Na “trama” deste e do filme de 1949, viúvo tenta persuadir a filha adulta, que mora com ele, a se casar. O caminho que Ozu faz neste filme é um tanto diferente. Se em PAI E FILHA, a personagem da filha parece ter mais tempo de cena, aqui é o pai o grande protagonista. Vivido por Chishu Ryu, o ator favorito do realizador, o homem de sorriso triste e olhar carinhoso sabe o que significará ficar sozinho depois que a filha se casar. (Ozu fotografar o rosto humano unindo a calma e a tristeza como nenhum outro diretor faz toda a diferença.) A filha também sabe o que significa para o pai ela sair de casa, e é por isso que ela não se esforça para arranjar um casamento. Afinal, dentro daquela estrutura da sociedade tradicional ela se tornou a substituta da mãe nos afazeres domésticos, fazendo as refeições para o pai e o irmão, lavando a roupa, cuidando da limpeza da casa etc.

E por mais que o filme pareça até bem retrógrado nesse sentido, há um bocado de discussão sobre isso, já podendo se ver uma rebeldia e uma conscientização da exploração da mulher dentro desse modelo de família. Mas a rebelião é suave e Ozu, considerado um mestre da conciliação, até faz com que a filha aceite casar com um homem de quem nem gosta muito. A cena em que ela descobre que o favorito dela se mostra já comprometido com outra jovem é bem tocante.

Surpreendi-me em ver quanto tempo passei sem ver um filme de Ozu. Os últimos que vi (os únicos quatro, na verdade) foram nos anos 2013 e 2014. Agora, de posse do livro da Versátil que veio junto com o pack de quatro boxes de cineastas autorais japoneses, li o excelente texto de Filipe Furtado sobre este filme até então inédito (para mim) do diretor e fiquei mais uma vez encantado, ainda que não tanto quanto com seu "filme-irmão", PAI E FILHA, que me arrebatou de uma maneira única.

Este aqui tem um ar mais crepuscular, pois o ator que também está no filme citado está obviamente mais velho e há uma ênfase na solidão dos homens viúvos e na responsabilidade que recai sobre seus ombros em acabar deixando a filha como sua cuidadora para o resto dos seus dias. Aqui Ozu prefere apontar seus holofotes para a figura de homens de meia idade (ou idosos) bem-sucedidos num Japão pós-guerra que tem uma relação ambígua sobre o fato de ser o perdedor no grande conflito.

O que encanta no filme também é o modo como o diretor vai tecendo sua trama através de conversas entre os personagens sobre os destinos de seus filhos e de si mesmos. Também acho curioso como as mulheres não são mostradas como submissas dentro do casamento. Ao contrário, temos um casal com uma mulher quase mandona, e que representa um dos vários momentos de leveza da obra. A própria música do filme chama a atenção para essa leveza, por mais que o amargor no final seja praticamente inevitável.

No mais, tenho aguardado com ansiedade o lançamento no Brasil do livro de Paul Schrader sobre Ozu, Robert Bresson e Carl Theodor Dreyer. O livro se chama Transcendetal Style in Film: Ozu, Bresson and Dreyer.

Filme visto no box O Cinema de Ozu Vol. 3.

+ DOIS FILMES

MEN - FACES DO MEDO (Men)

Estou achando bem interessante essa tendência atual de trazer diversos problemas (políticos, sociais, psicológicos etc.) e usá-los como alegorias dentro do cinema de horror. MEN – FACES DO MEDO (2022), de Alex Garland, é mais um exemplar desse tipo, agora apontando os holofotes para a situação de uma mulher (Jessie Buckley, sempre ótima) que viaja para uma casa de campo bem afastada da cidade de modo a tentar esquecer o trauma do suicídio do marido, que não se conformava com a ideia de se divorciar dela. O mais estranho na cidade é que todos os homens têm o mesmo rosto e nisso o filme aposta na estranheza e a une à tensão, especialmente nas cenas em que a heroína sofre perseguição de sujeitos bem esquisitos. O filme é uma obra que apresenta a misoginia do mundo ao redor da protagonista, podendo vir tanto de uma criança quanto de um padre. Gosto de como o diretor derruba as expectativas de quem aguarda um final próximo do convencional. Além do mais, também achei interessante certas cenas de flashbacks me causarem mais assombro que as passadas no momento presente, talvez por serem de natureza mais realista. Curiosamente, a cena da criança usando a máscara fez eu me lembrar do ótimo slasher COMUNHÃO, de Alfred Sole, mas pode ter sido apenas uma coincidência e não uma citação.

A MULHER REI (The Woman King)

Eis um filme que se destaca mais por sua importância nas questões de representatividade do que por uma boa direção, pelas cenas de ação ou mesmo pelas atuações. Ainda assim, há que se perceber com atenção a movimentação atual para trazer uma conscientização maior por parte da sociedade do papel e da força das mulheres negras, que costumavam (ou costumam ainda?) ser apagadas na história. Além do mais, A MULHER REI (2022), de Gina Prince-Bythewood, diretora de THE OLD GUARD (2020), traz uma questão bem importante, que é a escravização dentro da própria África, advinda de guerras entre tribos e reinos, de modo que os prisioneiros viravam material para ser vendido para os europeus, aqui representados pelos portugueses. O curioso é que, mesmo tendo uma atriz gigante como Viola Davis, quem rouba o protagonismo é a jovem Thuso Mbedu, boa tanto nas cenas dramáticas, quanto nas cenas de ação. Há um outro tema pesado que o filme traz, e que muito fere à personagem de Viola. Eu até gostaria que o filme soubesse trabalhar de maneira mais delicada esse momento (uma determinada conversa entre as duas), pois havia potencial para se chegar a uma cena de levar às lágrimas.

sábado, setembro 24, 2022

RODRIGO AMARANTE NO THEATRO JOSÉ DE ALENCAR – 23 DE SETEMBRO DE 2022



Que bom que as coisas estão começando a voltar ao normal no que se refere a espetáculos com grande público. Não havia ainda voltado para os shows, até porque eu ando meio preguiçoso para algo do tipo, e eu já estava indo a apresentações musicais apenas de artistas de que gosto muito. Foi o caso do show da Marisa Monte no final de janeiro de 2020, pouco tempo antes de o mundo virar de ponta cabeça com a pandemia. O meu interesse em conferir um show solo de Rodrigo Amarante já remonta há algum tempo e eu me arrependo de não ter ido a seu show da turnê do Cavalo (2013) no Órbita, casa de festas que nem existe mais.

O espaço escolhido em Fortaleza para esta nova turnê foi um bocado mais chique, o nosso querido Theatro José de Alencar, que talvez até esteja precisando passar por novas reformas, mas que continua lindo, sim. O trabalho solo de Amarante é muito particular. Quando ouvimos o disco 4 do Los Hermanos, já percebemos que o caminho que ele e Marcelo Camelo adotavam já estava passando por uma transformação. Mas eu diria que Amarante seguiu por um caminho até mais arriscado, optando por canções não muito fáceis e que precisam de tempo para a real percepção. Pelo menos comigo, Cavalo foi um disco que eu só percebi o quão bom era depois de alguns anos de maturação.

Com apenas dois álbuns na carreira, o cantor e compositor opta por evitar falar de sua banda pregressa, embora muito de quem ele foi esteja fortemente presente. O próprio baterista Rodrigo Barba, fiel companheiro de banda, esteve com ele nessa turnê breve que passou por poucas cidades do Brasil e que encerrou em Fortaleza, lugar onde Amarante morou durante a adolescência. O cantor se mostrou particularmente feliz durante toda a apresentação e brincou bastante com as demonstrações de afeto do público, que o chamava de lindo, maravilhoso, poeta, gênio. Uma alegria, claro, para quem passou tanto tempo isolado e que só mais recentemente está podendo sentir o calor do público.

O espetáculo começa com a faixa experimental “Drama” tocando enquanto as luzes estão apagadas. Como é uma faixa com efeitos, ela serve para dar o tom da apresentação. O fato de o nome de seu novo disco ser Drama (2021) tem tudo a ver com teatro. Portanto, nada mais justo de utilizar esse tipo de espaço para a apresentação. A primeira música tocada pelo artista (que traz consigo um violão quase mágico) é “Maré”, que privilegia a riqueza percussiva. É a canção que traz a máxima “Sorte é não querer mais que viver”. Em seguida, é a vez de “Tango”, faixa em inglês, seguida de “Tanto”, que na versão original traz arranjos de metais, que não puderam ser trazidos para o show.

A alegria veio maior para mim com uma canção de Cavalo, a faixa de abertura “Nada em Vão”, que me faz lembrar muito a poesia simbolista pelo bom uso das consoantes e da escolha das palavras (“Qual razão / É medir o imenso da sede / Se cede o senso / À sensação”). Além do mais, é sensacional o arranjo que valoriza cada instrumento. Enfim, só ouvindo mesmo para perceber. Em seguida, mais duas em língua estrangeira, mais uma do novo disco, até chegar a belíssima “O Cometa”, que foi meio que um convite para a plateia cantar junto.

Após a lindíssima bossa nova “Tara”, os arranjos iniciais de “Tuyo”, a canção-tema da série NARCOS, com uma clara influência da música dos nossos países hermanos, trouxe alegria para a plateia. Como se trata de uma canção bastante famosa, justamente por causa da série, ela talvez já tenha chegado ao inconsciente coletivo. Mas nada me prepararia para “Irene”. Trata-se de uma canção que parece ter nascido da dor. Começa com os versos viscerais “Saudade eu te matei de fome / E tarde eu te enterrei com a mágoa”. Essa canção foi tocada apenas por Amarante, seu violão e o público, que cantou em uníssono, de maneira muito respeitosa. Foi o ponto alto do show pra mim, sem dúvida.

As canções que encerrariam a noite, “Evaporar” (do Little Joy), “Tardei” (que parece música de western spaghetti), mais duas do novo disco, sendo “Tao” uma excelente faixa para apresentar os músicos com um ótimo riff, e “Maná”, que balançou a plateia com sua alegria contagiante e uma explosão de baixo, bateria e percussão. Após “The End”, a volta para o bis já era esperada. Ele volta sozinho, com o violão, para dar aquele presentinho para os velhos fãs, cantando “O Vento”, batendo aquela saudade dos shows catárticos da ex-banda. A canção é mais uma do repertório do autor que trata de reencarnação e karma. Para fechar com alegria, mas com aquele gostinho de “quero mais”, uma canção da Orquestra Imperial.

Deixo meus agradecimentos ao cantor e espero que ele volte mais vezes. Um show como esses é muito importante que seja prestigiado e valorizado, seja pela alegria e pelo aspecto diferente que traz, seja por ser uma oportunidade rara. 

Agradecimentos também à minha irmã Adaila, que esteve comigo no show. Ela, que aprendeu a conhecer e a amar Los Hermanos simultaneamente comigo, a cada disco novo da banda que eu trazia pra casa e a gente fazia aquela audição inicial, acompanhando as letras no encarte. 

Setlist

Drama
Maré
Tango
Tanto
Mon Nom
I Can’t Wait
Eu com Você
O Cometa
Tara
Tuyo
Irene
Evaporar (Little Joy)
Tardei
Um Milhão
Tao
Maná
The End

Bis
O Vento (Los Hermanos)
Pode Ser (Orquestra Imperial)

domingo, setembro 18, 2022

PECADOS DE GUERRA (Casualties of War)



Seguindo com meus textos e minhas revisões dos filmes de Brian De Palma, chego a PECADOS DE GUERRA (1989), que foi um filme que, não sei por que motivo, não vi nos cinemas. De todo modo, a minha lembrança (remota) é de vê-lo em VHS e o que ficou presente foi a intensidade provocada pela trilha sonora de Ennio Morricone marcando os momentos de dor do personagem de Michael J. Fox frente à crueldade absurda sofrida pela jovem vietnamita raptada, estuprada e violentada pelo sargento vivido por Sean Penn e seus soldados.

Nesta revisão, muito do que não lembrava me pareceu melhor, caso do terceiro ato, com a busca por justiça do personagem de Fox, dando ao filme um quê de GLÓRIA FEITA DE SANGUE (a obra-prima de Stanley Kubrick). A guerra do Vietnã estava em alta na época do lançamento de PECADOS DE GUERRA, com Oliver Stone trazendo seu NASCIDO EM 4 DE JULHO no mesmo ano, além de outros títulos de destaque em anos anteriores. Mas PECADOS DE GUERRA não era como um PLATOON, por exemplo, que dividia de maneira muito clara a guerra entre mocinho e bandidos, como num faroeste, e tem um final triunfante, ao contrário de um final de total fracasso, como é o caso do drama de Brian De Palma. E talvez por isso ele tenha sido mais um fracasso de bilheteria para seu currículo.

PECADOS DE GUERRA é baseado em uma situação real ocorrida em 1966 e que foi tornada pública em um artigo de 1969 da revista New Yorker. No ocorrido, soldados americanos sequestram de um vilarejo uma jovem vietnamita, que é levada para satisfazer os desejos animais dos homens. A ideia é do sargento e apenas um dos homens se opõe o suficiente para reportar o crime a seus superiores. De Palma apresenta os homens de maneira bem distinta: Sean Penn como o líder que perdeu a fé na guerra depois da morte do amigo sargento e agora está a fim de adotar um estilo malvado de ser; John C. Reilly como o mais burro do grupo; John Leguizamo como o sujeito que não quer participar do estupro coletivo, mas que acaba fazendo por medo de seu superior; e Don Harvey, que talvez seja o personagem mais apagado e mais genérico.

Michael J. Fox é o mais próximo de um herói, mas não por seus atos heroicos, mas por ter a sensibilidade e a empatia que os outros não têm. O personagem de Fox dá um passo à frente na pureza de espírito, em relação ao Eliot Ness de OS INTOCÁVEIS (1987), que de certa forma se corrompeu no processo. O personagem de Fox, por causa de sua hesitação, falha miseravelmente em salvar a jovem vítima. Ele se junta a outros heróis depalmianos, como o Jack não tentando salvar Sally em UM TIRO NA NOITE (1981) ou Jake não chegando a tempo para salvar Gloria em DUBLÊ DE CORPO (1984). Os três foram muito lentos em suas ações.

Uma das curiosidades dos bastidores é que Sean Penn procurou ignorar ou dar um tratamento de humilhação a seu colega Michael J. Fox para gerar uma química que funcionasse a favor do filme, que lida com uma carga de tensão forte entre os dois personagens. Além do mais, a persona pouco amigável de Penn nos bastidores foi aproveitada por De Palma. Há uma cena em que ele dá um tapa em Leguizamo e o tapa é de verdade e foi filmado em vários takes. Mais ou menos como aconteceu com Betty Buckley estapeando forte Nancy Allen em CARRIE, A ESTRANHA (1976), com o cineasta dizendo: “bata mais forte!”.

Um dos destaques de PECADOS DE GUERRA está no fato de ser o primeiro filme a dar ênfase ao sofrimento do povo vietnamita. Depois Oliver Stone faria o seu ENTRE O CÉU E A TERRA, mas seria apenas em 1993. E esse destaque chamou a atenção dos críticos que elogiaram o filme. Uma pena que seja uma obra que não alcance muito sucesso em vários aspectos, como não conseguir um efeito de suspense na cena de Fox preso num buraco. A cena teria sido feita pensando nos efeitos de TUBARÃO, de Spielberg, mas sem a mesma eficiência. As cenas de guerra também não são tão fortes, mas é fácil entender que o foco no filme é menos a guerra e mais os efeitos psicológicos dela em seus personagens. E sendo assim, PECADOS DE GUERRA tem seu charme.

+ UM ANÚNCIO IMPORTANTE

32º CINE CEARÁ – FESTIVAL IBERO-AMERICANO DE CINEMA

Entre os dias 7 e 13 de outubro, acontecerá em formato 100% presencial a trigésima-segunda edição do mais tradicional festival cearense de cinema. As exibições serão no Cineteatro São Luiz e no Cinema do Dragão, equipamentos da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult/CE) geridos pelo Instituto Dragão do MAR (IDM).

A lista dos filmes escolhidos já está presente no site oficial, mas deixarei aqui também:

OS LONGAS DA COMPETITIVA IBERO-AMERICANA

A FILHA DO PALHAÇO. Direção: Pedro Diógenes. Ficção. 104’. Brasil. 2022. 12 anos.
GREEN GRASS. Direção: Ignacio Ruiz. Ficção. 100’. Chile-Japão. 2022. 16 anos.
LA PIEDAD / A PIEDADE. Direção: Eduardo Casanovas. Ficção. 80’. Espanha-Argentina. 2022. 16 anos.
LAS CERCANAS/ INSEPARÁVEIS. Direção: María Álvarez. Documentário. 81’. Argentina. 2021. Livre.
LO INVISIBLE / O INVISÍVEL. Direção: Javier Andrade. Ficção. 85’. Equador-França. 2021. 18 anos.
NIÑOS DE LAS BRISAS/ MENINOS DE LAS BRISAS. Direção: Marianela Maldonado. Documentário. 100’. Venezuela-Reino Unido-França. 2021. 12 anos.
O ACIDENTE. Direção: Bruno Carboni. Ficção. 95’. Brasil. 2021. 14 anos.
VICENTA B. Direção: Carlos Lechuga. Ficção. 77’. Cuba-França-EUA-Colômbia-Noruega. 2021. 12 anos.

OS CURTAS DA COMPETITIVA BRASILEIRA

ALEXANDRINA – UM RELÂMPAGO. Direção: Keila Sankofa. Documentário. 11’. Amazonas. 2022. Livre.
BIG BANG. Direção: Carlos Segundo. Drama. 13’. Minas Gerais. 2022. 12 anos.
CAMANCO. Direção: Breno Alvarenga. Documentário. 14’. Minas Gerais. 2022. Livre.
CELESTE (SOBRE NÓS). Direção: Natália Araújo. Ficção. 19’. Pernambuco. 2022. 12 anos.
CEMITÉRIO DE FLORES. Direção: Rafael Toledo. Suspense/terror. 19’. Minas Gerais. 2022. 16 anos.
CONTRAGOLPE. Direção: Victor Uchôa. Documentário. 16’. Bahia. 2022. Livre.
ELUSÃO. Direção: Taís Augusto. Ficção. 22’. Ceará. 2022. Livre.
FILHOS DA NOITE. Direção: Henrique Arruda. Documentário. 15’. Pernambuco. 2022. 12 anos. 
INFANTARIA. Direção: Laís Santos Araújo. Ficção. 24’. Alagoas. 2022. 12 anos.
O ÚLTIMO DOMINGO. Direção: Joana Claude e Renan Barbosa Brandão. Ficção. 17’. Rio de Janeiro. 2022. Livre.

OS LONGAS DA MOSTRA OLHAR DO CEARÁ

A COLÔNIA. Direção: Virgínia Pinho e Mozart Freire. Documentário. 73’. Ceará. 2022. 12 anos.
AFEMINADAS. Direção: Wesley Gondim. Documentário. 95’. Ceará. 2022. 10 anos.
ESCURIDÃO NA TERRA DA LUZ. Direção: Popy Ribeiro. Documentário. 96’. Ceará. 2022. 16 anos.
TODO MUNDO JÁ FOI PARA MARTE. Direção: Telmo Carvalho. Animação. 72’. Ceará. 2022. 12 anos.

OS CURTAS DA MOSTRA OLHAR DO CEARÁ

A MARGEM DE UM RIO QUE CORREM MEUS ANCESTRAIS. Direção: Iago Barreto Soares. Documentário. 13’. Ceará. 2021. Livre.
ALUÁ. Direção: Felipe Camilo. Documentário. 15’. Ceará 2021. Livre.
AQUELE QUE VEIO DO OESTE. Direção: Wesjley Maria. Ficção. 19’. Ceará. 2021. Livre.
BEGE EUFORIA. Direção: Anália Alencar. Ficção/experimental. 20’. Ceará. 2022. 12 anos.
FIO DE ARIADNE. Direção: Mozart Freire e Ton Martins. Ficção. 16’. Ceará. 2021. 14 anos.
MULHERES ÁRVORE. Direção: Wara. Experimental. 17’. Ceará. 2022. Livre.
NA ESTRADA SEM FIM HÁ LAMPEJOS DE ESPLENDOR. Direção: Liv Costa e Sunny Maia. Ficção. 11’. Ceará. 2021. 14 anos.
ÓPERA SEM INGRESSO. Direção: Andreia Pires. Musical. 24’. Ceará. 2022. Livre.
PEDRO. Direção: Leo Silva. Ficção. 11’. Ceará. 2022. Livre.
ROSA NEGRA. Direção: Sabina Colares e Marieta Rios. Documentário. 23’. Ceará. 2022. Livre.

A atriz e produtora Teta Maia e o músico Ednardo serão os homenageados. As homenagens aos dois nomes que têm suas carreiras marcadas pelo cinema, nas telas e bastidores, vão acontecer no Cineteatro São Luiz, respectivamente nos dias 12 e 13, ocasião em que serão agraciados com o Troféu Eusélio Oliveira.

sábado, setembro 17, 2022

MOONAGE DAYDREAM



Celebrar personalidades que revolucionaram o mundo através da arte é algo que me deixa muito feliz. Na última semana eu já havia celebrado Maria Bethânia, com o doc MARIA – NINGUÉM SABE QUEM SOU EU, e Jean-Luc Godard, com PAIXÃO, por ocasião da passagem do cineasta. Cada vez mais me vejo como um humanista, como alguém que, apesar de perceber a maldade e as fraquezas do ser humano, também vejo e louvo seus feitos, sua aproximação de algo próximo de uma divindade, dentro do que é possível no plano terrestre. Aliás, eu até poderia dizer que o que se faz com arte é também magia. Ando lendo o livro Palavras, Magias e Serpentes, de Alan Moore e Eddie Campbell, e cada vez aceito a arte como uma forma de magia. E não há como negar que há algo de muito mágico quando nos deixamos levar pela força das canções de David Bowie, especialmente dentro de uma sala de cinema, com uma projeção e um som excelentes de uma sala IMAX.

Tenho pouco conhecimento de David Bowie e assim como vários outros artistas, passei a conhecê-lo através de coletâneas. A primeira que comprei foi The Best of David Bowie – 1969/1974, que me apresentou a canções como “Space Oddity”, “Jean Genie”, “Rebel Rebel”, “Ziggy Stardust”, “Oh! You Pretty Things”, “Changes”, “Rock ‘n’Roll Suicide”, “Aladin Sane” e tantas outras obras-primas condensadas em intervalos de minutos. Imagino que foi erro de minha parte não ter me aprofundado melhor nos álbuns ao longo dos anos - de álbuns, só tenho hoje comigo em formato físico Hunky Dory (1971) e Blackstar (2016).

Porém, mesmo que eu não tivesse comprado ou ouvido as canções de David Bowie como também um interessado por música e por rock, especificamente, como cinéfilo, eu já teria uma bagagem generosa de participações do astro como ator em vários filmes que ajudaram também a enriquecer sua persona. É só pegar títulos como O HOMEM QUE CAIU NA TERRA (1976), FOME DE VIVER (1983), FURYO – EM NOME DA HONRA (1983), A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) ou TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) para perceber que havia também da parte de Bowie um interesse por se eternizar em tela pelas mãos de grandes diretores. Além de músico e ator, Bowie também pintava e fazia vídeos experimentais.

Ver MOONAGE DAYDREAM (2022), de Brett Morgen, foi uma experiência muito mais intensa do que eu esperava. Na verdade, foi uma das experiências emocionais, sensoriais e intelectuais mais poderosas que eu já passei em uma sala de cinema, inclusive por causa também das imagens psicodélicas. O filme não é apenas um apanhado de imagens de arquivo que cobrem a vida e a obra do cantor e compositor, mas também um convite à reflexão sobre a beleza da vida e sua conexão com as artes. De certa forma, isso guarda relação com o já referido documentário sobre Bethânia, por mais diferentes que sejam os formatos e as intenções de seus realizadores. Isso porque ambos os filmes me trazem tanto emoção quanto uma alegria e uma gratidão de viver. No caso do filme de Bowie isso se apresenta de maneira ainda mais exponencial, já que há uma infinidade de referências cinematográficas que Morgen faz passear pela tela, como que para deixar claro que Bowie foi/é uma das figuras mais importantes do maravilhoso e trágico século XX – e que, no caso dele, se expandiu também para o novo milênio.

Se MOONAGE DAYDREAM fosse apenas uma coleção de imagens dos shows dos anos 1970 de Bowie com os Spiders from Mars, eu já ficaria muito feliz. Os minutos iniciais do filme se detêm bastante nesses shows, ajudando a apresentar, inclusive para quem não conhece o artista, seu personagem mais famoso, o Ziggy Stardust. E aquilo é fabuloso quando ouvido com o som no talo. Vários momentos me deixaram arrepiado. Entrecortando essas imagens, vemos cenas de uma enrevista de Bowie ao apresentador britânico Russell Harty, com Bowie todo montado como Ziggy e deixando Harty algumas vezes sem jeito. Quando questionado se ele se perguntava algo como “Jesus, eu devo entrar na cena por um outro caminho?”, ele disse: “Eu nunca pedi nada a Jesus; foi tudo iniciativa minha”. E há aquela pergunta sobre os sapatos dele, que receberam uma resposta também desconcertante e engraçada.

Aos poucos, além de vermos a evolução do trabalho de Bowie como artista e sua metamorfose ao longo dos anos, o filme de Morgen também nos apresenta um pouco da intimidade do artista, um pouco de suas ideias (mutáveis), de seus interesses, de sua inquietação espiritual, a ponto de ficar angustiado quando não está compondo ou cantando, chegando a viajar por várias partes do mundo, tanto para compreender o mundo, como se fosse um alienígena, como para crescer como pessoa. Ele conta o quanto se sentiu mais confortável quando passou dos 30 anos de idade, em comparação com sua juventude. Até mais bonito, fisicamente, ele ficou. Além do mais, havia um forte apego à solidão e uma falta de vontade de construir relacionamentos amorosos. Há uma referência ao irmão que voltou da guerra e passou o resto da vida em um manicômio e o distanciamento de Bowie com a família, o que pode ter contribuído para essa espécie de fuga. 

Dos seus relacionamentos amorosos, só é mostrado seu contentamento imenso ao finalmente conhecer sua alma gêmea, a modelo e atriz somali Iman. E claro que há coisas que o filme não quis ou não teve como incluir de sua intimidade. Até porque MOONAGE DAYDREAM é mais sobre a persona pública de Bowie, e não sobre aquilo que não o artista trata de esconder. Isso acaba por acentuar o ar misterioso em torno dele.

Há momentos de tela preta que claramente funcionam como fins e começos de novos capítulos do longa-metragem, e que fazem saltos para outros momentos da vida e da carreira de Bowie. Depois da estupenda fase setentista, vemos a controversa, mas bastante bem-sucedida fase da década de 1980, quando o ator passou a se vestir de terno branco em suas apresentações e cantar canções com uma sonoridade mais pop.

Curiosamente, um dos momentos que mais me deixou emocionalmente em sintonia foi no refrão de “Let’s Dance”. Talvez por trazer algo de mais mundano, mais simples, mais romântico e talvez menos capricorniano – dentro do que se convenciona tratar os nativos desse signo, aliás, bastante citado pelo próprio artista ao longo do filme. Além do mais, confesso que ainda tenho dificuldade de penetrar na maior parte das letras de Bowie, e por isso prefiro me deleitar com a música, com a sonoridade, com a melodia, com seus arranjos fantásticos.

Ao final, ao sair da sessão maravilhado, e talvez um tanto triste por voltar à realidade, falei um palavrão em tom de comoção. Muito disso porque o filme, nos instantes finais, traz um pouco do fim da carreira e da vida de Bowie, o que certamente é motivo de se ter uma leve melancolia. O que havia acabado de ver, além da história de um grande artista, podia ser visto por mim como uma declaração de amor. Amor à vida, à música, ao cinema, à pintura, ao teatro, à moda. É estar grato de estar vivendo em algum momento na mesma época em que David Bowie caminhou sobre a Terra.

+ DOIS FILMES

INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to Paradise)

Delícia de comédia que faz a gente rir e principalmente sorrir durante praticamente toda a metragem de INGRESSO PARA O PARAÍSO (2022). Não me envolvi tanto nas cenas dramáticas, mas torci pelos personagens de George Clooney e Julia Roberts o tempo inteiro. Os dois astros são velhos amigos e o tom de descontração entre os dois perpassa todo o filme. Ajuda muito também o elenco jovem. Kaitlyn Dever (de FORA DE SÉRIE e da minissérie INACREDITÁVEL) está encantadora como a filha do casal que viaja com a melhor amiga (Billie Lourd) para a ilha paradisíaca de Bali e lá conhece e se apaixona por um local (Maxime Bouttier). Clooney e Roberts, como um casal que se odeia, se juntam com a intenção de comprometer o casamento da filha com o rapaz. Há várias situações suavemente cômicas, paisagens de encher os olhos, uma tensão entre o casal que (sabemos) ainda se ama, e um andamento narrativo muito bem acertado. Que eu lembre, MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (2018), o filme anterior do diretor Ol Parker, não era assim tão bom e até imagino que ele tenha sido escolhido para este filme pelo elemento em comum, que é um espaço paradisíaco onde o amor floresce. Cena engraçadíssima: a disputa dos casais ao som de música dos anos 1980 de quem consegue ficar de pé mais tempo sem cair de bêbado.

ÓRFÃ 2 - A ORIGEM (Orphan – First Kill)

Claro que a mão firme de Jaume Collet-Serra faz falta neste prequel de A ÓRFÃ (2009), mas o diretor Willaim Brent Bell, da maior parte das continuações da franquia Jogos Mortais, dá conta do recado, com a ajuda de um roteiro muito bem amarrado e espirituoso, que nos faz rir em diversos momentos, especialmente após a surpresa que este segundo filme revela. Também é um trunfo de ÓRFÃ 2 - A ORIGEM (2022) a ótima presença de cena de Julia Stiles, como a mulher que recebe a psicopata Esther como sua filha. Isso ajuda um pouco a compensar a dificuldade de aceitarmos Isabelle Furman como uma mulher que consegue se passar como criança por todos ao redor, algo que no primeiro filme parecia mais fácil. De todo modo, isso faz parte do senso de humor que o diretor e o elenco parecem defender muito bem e com cumplicidade. Uma bela surpresa.

sexta-feira, setembro 16, 2022

PAIXÃO (Passion)



No último dia 13 de setembro Jean-Luc Godard resolveu partir por conta própria deste mundo. Usou o método legal (na Suíça) do suicídio assistido por já estar exausto, e por outros motivos que não foram publicados e talvez só ele mesmo saiba, ou quem sabe alguém mais próximo. Godard, que nunca fez concessões, que fez tudo que sempre quis no cinema, também fez o que quis no fim de sua vida. Diferente de tantos outros diretores que optaram por um caminho mais fácil em sua arte, Godard foi escolhendo caminhos singulares para seus filmes, de natureza mais desafiadora. 

A difícil penetrabilidade de boa parte de seus trabalhos é tanto o que atrai quanto o que repele. Mais repele do que atrai, na verdade, se pensarmos em um público maior. Os anos em que eu mais vi filmes do cineasta foi entre 2006 e 2010, e ainda assim foram filmes da década de 1960, e depois disso, por algum motivo, acabei me afastando, a não ser por exibições de novas produções no cinema ou de uma ou outra reprise de ACOSSADO (1960), seu longa de estreia e seu filme mais popular.

Ver PAIXÃO (1982) foi um choque. O diretor não cansou de fazer obras radicais em suas propostas formais, embora uma revisão imediata do filme já ajude a clarear bastante, como numa releitura de um livro mais denso. Na revisão, pude perceber que logo no início Godard deixa clara a melhor maneira de se ver o filme: ao ser perguntado qual é a história do filme, o cineasta vivido por Jerzy Radziwilowicz diz que é "uma obra cheia de buracos, espaços mal ocupados... não observe severamente a estrutura nem a fotografia; faça como Rembrandt, olhe os seres humanos atenta e demoradamente por um bom tempo".

Não consegui fazer isso, fiquei tentando juntar a confusão que os primeiros 20 minutos trazem, para depois começar a compreender um pouco mais a "trama". O final, com aquela menina pulando e dizendo que não gosta de carros, pode ser também uma chave para entender o filme como algo menos severo do que é, como algo mais leve do que parece, como são algumas de suas obras dos anos 60.

Por isso, o melhor é ver PAIXÃO como um filme-ensaio, como ficaria muito claro em obras mais recentes do cineasta, como ADEUS À LINGUAGEM (2014). O que ocorre, é que, ao buscar entender a trama, o espectador se vê confuso em um emaranhado de cortes pouco comuns e até uso de falta de sincronia deliberada nos diálogos de modo a nos deixar ainda mais desconfortáveis, embora o ideal fosse ficar confortável e feliz com tal experiência tão original e espirituosa. Aos poucos, a brincadeira com a história já se manifesta na própria figura do cineasta vivido por Jerzy Radziwilowicz, que fica sempre revoltado quando alguém pergunta qual é a “história” de seu filme. Como se já não bastasse a pressão do produtor italiano para que sua obra tivesse que fazer um sentido fácil.

É fascinante ver a construção das cenas do filme dentro do filme, como no momento em que testemunhamos o que ocorre fora das lentes da câmera, quando assistentes de direção trabalham na posição de um monte de atores, todos vestidos com figurinos de época (outros e outras totalmente nus, como que buscando também, com a nudez dos corpos, uma beleza que remete aos clássicos gregos). Ao som de Mozart, Ravel, Dvorak, Beethoven e Faure, Godard traz referências às pinturas de Goya, Delacroix, El Greco, Rembrandt etc., demonstrando uma bagagem cultural invejável e que mais uma vez nos deixa entre a tristeza de nossa ignorância e a ansiedade para conhecer de maneira mais aprofundada a arte, aquilo que aproxima o homem da divindade. O que é uma pena para quem é um trabalhador assalariado e precisa cumprir horas exaustivas de trabalho e não tem energia para se alimentar de tal nutrição espiritual.

No fiapo dessa trama esburacada, mas que vai ganhando mais sentido com o passar do tempo, o cineasta-protagonista (Radziwilowicz), alter-ego de Godard, tem dois interesses amorosos, uma jovem operária de fábrica, vivida por Isabelle Huppert, e uma empresária, dona de imóveis, vivida por Hanna Schygyulla, e é muito bom acompanhar as cenas com as duas. O personagem de Michel Piccoli, marido de Hanna, parece um pouco perdido nas vezes que aparece, mas é sempre bem-vindo como figura representativa de um momento áureo do cinema francês. Além do mais, seu personagem tem um quê de Paul Javal de O DESPREZO (1963), mas sem o tom trágico e ridículo.

Acho também muito interessante a associação que Godard faz entre trabalho e amor, como se ambos fossem praticamente a mesma coisa. Teria que prestar mais atenção para compreendeer mais atentamente suas intenções e seu modo de ver o mundo, pela perspectiva de alguém que critica as condições de trabalho em seu país e o próprio capitalismo. Enquanto isso, a preocupação política com a luta da esquerda segue presente como tema, com a situação preocupante na Polônia, no início da década de 1980.

Curiosamente, Jean-Claude Carrière aparece como roteirista não creditado no IMDB. Não sei o quanto ele participou da obra e não entendi por que não foi creditado, mas em alguns momentos o filme me lembrou suas contribuições com Luis Buñuel. Ah, e a fotografia, de Raoul Coutard (O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS, 1965), mais uma vez está de encher os olhos. Quem puder encontrar uma cópia em alta resolução do filme ficará ainda mais encantado.

+ DOIS FILMES

NASCEMOS HOJE, QUANDO O CÉU ESTAVA CARREGADO DE FERRO E VENENO

Uma pequena surpresa, ao procurar por curtas em meu HD externo e encontrar um filme inédito para mim de Juliana Rojas e Marco Dutra. NASCEMOS HOJE, QUANDO O CÉU ESTAVA CARREGADO DE FERRO E VENENO (2013) é um pouco mais diferente das obras anteriores, mais direcionadas ao terror. Aqui temos uma espécie de sci-fi com filme de amor, sobre um casal (Carla Kinzo e Eduardo Gomes) que, cansado da vida na Terra, resolve se aventurar no espaço sideral, a fim de encontrar um lugar que lhes seja mais gentil. Há utilização frequente de canções (originais) que ajudam a dar ao filme um ar de fábula, mas que também fazem lembrar de outros títulos mais conhecidos da produtora Filmes do Caixote, como SINFONIA DA NECRÓPOLE (2014, de Juliana Rojas) e O QUE SE MOVE (2012, de Caetano Gotardo).

MERENCÓRIA

Um dos filmes mais bonitos de Caetano Gotardo. Adoro os dois primeiros terços de MERENCÓRIA (2017), quando a melancolia e a dor de algo não dito paira no ar e se manifesta. Primeiro na cena da sacada, quando o casal conversa e acontece um momento mágico em que o tempo parece parar e o homem começar a chorar. O segundo ato, da mesma mulher cantando, é de partir o coração. E vem o terceiro ato, que é mais a cara do Gotardo, e que traz uma fisicalidade para a dor de outros dois personagens masculinos, e essa fisicalidade também vem com a dor, com a angústia, com o desespero ou qualquer outro sentimento que aflige a alma. As opções sempre certeiras de ângulos de câmera por parte do diretor são de dar gosto, assim como a escolha da luz para cada momento.

quinta-feira, setembro 15, 2022

OS INTOCÁVEIS (The Untouchables)



Não tenho certeza qual foi o meu primeiro Brian De Palma visto. Alguns podem ter sido vistos em minha fase pré-cinefilia. De todo modo, OS INTOCÁVEIS (1987) foi um dos que mais vi e revi na televisão, por conta de suas inúmeras exibições. Como também foi um sucesso de público no cinema, isso acabou por se amplificar também sempre que o filme era exibido em um momento em que muitos brasileiros ainda não possuíam um videocassete – eu, por exemplo, só fui comprar o meu primeiro aparelho em 1992, com uma grana das férias de um ano de trabalho, e com poder aquisitivo muito pequeno. De todo modo, esta foi a primeira vez que o vi na janela correta, em alta definição e com as vozes originais dos atores.

Um dos maiores sucessos, tanto de público quanto de crítica do diretor, OS INTOCÁVEIS é um filme marcado por várias cenas clássicas, que tanto devem à habilidade do diretor no uso dos espaços e dos cortes, quanto ao roteiro de David Mamet e à música poderosa de Ennio Morricone, que marca o filme na memória desfe os créditos iniciais. Para se ter uma ideia do sucesso do filme, ele teve um investimento de 20 milhões de dólares e rendeu 76 milhões nos Estados Unidos e 186 milhões no mundo todo. Foi também um alívio para De Palma, que vinha de fracassos de público com os anteriores DUBLÊ DE CORPO (1984) e QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE (1986).

Curiosamente, é o terceiro filme seguido sobre a máfia do cineasta, depois do explosivo SCARFACE (1983) e da comédia QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE. OS INTOCÁVEIS se diferencia bastante dos dois por trazer um tom mais heroico. Se bem que esse heroísmo é complexificado com certos medos do protagonista, o agente do tesouro Eliot Ness (Kevin Costner), em se tornar tão violento quanto seu inimigo Al Capone (Robert De Niro). Essa situação já havia sido exposta em outros trabalhos do diretor: Winslow tinha medo de se tornar Swan em O FANTASMA DO PARAÍSO (1974), Robin, de se tornar como Childress, em A FÚRIA (1978), ou Tony, como Frank em SCARFACE.

Há uma questão também que se estabelece de maneira muito forte em Ness, que é o fato de ele ser visto, tanto por seus colegas policias, quanto pelos mafiosos, como alguém feminilizado, para os padrões de masculinidade daquele universo violento. A imagem de seu fracasso segurando guarda-chuvas numa foto do jornal trouxe indignação, embora não tenha sido o suficiente para fazê-lo desistir da empreitada de pegar Capone. O que ele notou é que Chicago estava corrompida, inclusive os policiais, todos comprados pelo chefão. Assim, ele resolve unir uma força-tarefa formada por apenas mais três homens de fora do meio: o veterano policial de rua Malone (Sean Connery), o novato Stone (Andy Garcia) e o contador Wallace (Charles Martin Smith).

E De Niro está tão odioso como um Al Capone capaz de matar alguém com um taco de beisebol em plena reunião com homens de negócio, que fica muito fácil tomar partido dos homens da lei chefiados por Ness. Além do mais, o personagem de Sean Connery é talvez o mais querido dos quatro, e isso faz com que a cena de sua morte seja o ponto alto de dramaticidade do filme, e nada mais justo que apresentá-la com uma montagem de uma cena de ópera. A frase dele, “Eu simplesmente acho que é mais importante pra mim ficar vivo”, acaba ressoando nesse momento.

OS INTOCÁVEIS é também um filme da máfia com um tom de western, com uma noção de homens bons e homens maus bem definida e até um quê de SETE HOMENS E UM DESTINO. Além do mais, há uma cena no deserto, na fronteira com o Canadá, que lembra bastante o cenário de um western, com vários policias enfileirados, e de cavalos, prontos para desbaratar o contrabando de bebida alcóolica.

Além da cena da morte de Malone, a que mais fica guardada na memória e que costuma ser estudada como um exemplo da grandeza de Brian De Palma é a famosa cena da estação de trem, que homenageia O ENCOURAÇADO POTEMKIN, de Sergei Eisenstein. Nessa cena, o diretor usa tudo que lhe está em mãos, dentro do que o orçamento lhe permite – a cena seria feita com uso de helicópteros e sequências de trens se movendo e uma batida, mas faltou dinheiro e De Palma teve que improvisar de última hora. “Ok, turma. O dinheiro acabou. Então me dê uma escadaria, um relógio e um carro de bebê.”, disse ele.

OS INTOCÁVEIS acaba sendo também um filme sobre personagens que confrontam suas próprias naturezas sombrias, ao ter que lidar com a mesma violência de seus aniversários. E, no caso de Ness, tendo que fazer coisas fora-da-lei, como empurrar o homem que matou Malone de cima do prédio, depois que ele o ouve dizer que “Malone morreu gritando como um porco irlandês”. Ou seja, para o espectador, isso se torna mais do que justificado. Além do mais, há a cena no tribunal em que o protagonista reconhece que prender Capone representou para ele algo parecido como vender sua alma. Não exatamente nessas palavras, mas é fácil entender dessa maneira. 

+ DOIS FILMES

CAÇADA NO CANAL DA MORTE (Amsterdamned)

Mistura de slasher com giallo e filme policial, CAÇADA NO CANAL DA MORTE (1988), de Dick Maas, traz tanto a figura de um assassino misterioso que vai aumentando a cada dia a soma de suas vítimas, quanto a investigação de um policial que se vê impotente frente à dificuldade de pegar o criminoso. Um dos trunfos do filme é a beleza de se passar em Amsterdã e destacar os seus vários canais. Até parece ter nascido da ideia de pensar um slasher/policial com direito a perseguição de lancha e embate embaixo d´água, de modo a se diferenciar dos demais filmes dos citados gêneros. E de fato o faz com muita personalidade. Amsterdã, com suas ruas apertadas e cenário todo particular, é um personagem mais importante no filme do que o detetive e seu interesse amoroso. Aliás, a bela moça é vivida por Monique van de Ven, que fez história em dois filmaços de Paul Verhoeven dos anos 1970, LOUCA PAIXÃO e O AMANTE DE KATYHY TIPPEL. Quanto ao visual do assassino, achei bem original ter aproveitado a figura de um mergulhador de vestes pretas. Grande momento de suspense: quando a mocinha vai parar na casa em que o assassino supostamente (?) está. Visto no box Slashers VII, que ainda conta com um making of de cerca de meia hora sobre o filme.

A LUTA DE UMA VIDA (The Survivor)

Um filme que tem o sabor (ruim) de uma daquelas grandes produções chatas dos anos 1990 que miravam no Oscar e acertavam no esquecimento e no tédio. Barry Levinson, o ganhador do Oscar por RAIN MAN (1988) nunca foi um autor ou mesmo um grande diretor, mas aqui se prova de vez que a aposentadoria talvez seja uma boa ideia para ele (mas que não vai acontecer tão cedo, a julgar pelas próximas produções já anunciadas). A LUTA DE UMA VIDA (2021) tem pouco mais de duas horas, mas com sensação térmica de três. Possui pelo menos uns três finais antecipados e o fim parece não vir. E é um fracasso no que planeja ser melhor, que é lidar com as emoções da história dramática de um homem que sobreviveu aos campos de concentração lutando boxe e que agora vive procurando pela antiga namorada, também vítima da violência nazista. Os únicos trunfos que o filme tem é a presença sempre luminosa de Vicky Krieps e uma participação especial de Danny DeVito. É pouco.

domingo, setembro 11, 2022

MARTE UM



Uma pequena amostra da sensibilidade de Gabriel Martins está no curta MOVIMENTO (2020), realizado na pandemia do coronavírus, com o próprio diretor mostrando o cuidado com seu filhinho pequeno dentro de casa, enquanto do lado de fora, além do vírus, as pessoas pretas ainda teriam que conviver com um racismo que cada vez se mostrava mais vivo na sociedade brasileira, ainda mais depois que o bolsonarismo deixou cair as máscaras de quem era escroto mas que pagava de boa pessoa.

MARTE UM (2022), recentemente escolhido pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Visuais para representar o Brasil no Oscar 2023, é o primeiro longa-metragem solo de Martins, depois do ótimo NO CORAÇÃO DO MUNDO (2019), dirigido em parceria com Maurílio Martins. O novo filme traz uma proposta bem diferente, um olhar mais para dentro do que para fora de seus personagens, embora inicie com a informação de que a história se passa pouco depois da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Essa informação talvez não chegue a ser tão essencial para a história, mas acredito que, para o futuro, ela será de fundamental importância.

Apesar de ter uma trama, MARTE UM não é bem um filme de trama, mas um filme de personagens. E esses personagens são quatro pessoas de uma família negra de classe média baixa da região metropolitana de Belo Horizonte. O que temos aqui é uma dessas obras que nos pega pelas emoções, à medida que vamos nos afeiçoando a esses personagens. Como cada um tem um tipo de problema, de visão de mundo e de intenções para o futuro (ou presente), é bem possível que nos identifiquemos com alguns deles por algum motivo.

Como já passei por um momento de sofrer com transtorno de ansiedade e ataque de pânico, me identifiquei em parte com a mãe Tércia (Rejane Faria), uma mulher que, vítima de uma pegadinha, passa a ter ataques de pânico e até a achar que está causando algum mal para a família, em determinado momento. Mas talvez eu tenha me identificado mais com o pequeno Deivinho (Cícero Lucas), que sofre pressão do pai para ser jogador de futebol, quando na verdade suas ambições para o futuro são outras bem diferentes: ele quer ser astrofísico, e quer, inclusive, participar da primeira missão de colonização para Marte. (No meu caso, meu pai também era um pouco frustrado por eu não jogar nem me interessar por futebol.)

Mas claro que o filme não vilaniza o pai, o carinhoso Wellington (Carlos Francisco, de BACURAU), um senhor que frequenta reuniões do AA e tem uma paixão imensa pelo futebol e por seu time. Ele quer quer fazer uma espécie de transferência do sonho de algo que ele mesmo não é mais capaz de concretizar, agora que não tem mais idade para ser jogador de futebol. Wellington trabalha como porteiro em um prédio de luxo há alguns anos e costuma tratar bem todos os habitantes do edifício. Não tem, por exemplo, uma visão mais revolucionária e raivosa como o novo rapaz que começa a trabalhar lá, que enxerga muito claramente a luta de classes. O rapaz, aliás, vivido por Russo APR (presente em TEMPORADA e NO CORAÇÃO MUNDO), parece uma versão menos melancólica do protagonista de ARÁBIA, outro grande filme mineiro da última década.

E chegamos à quarta personagem do filme, a jovem Eunice (Camilla Damião), que está atualmente apaixonada por uma outra garota e resolve sair de casa e tomar seu próprio rumo. A primeira pessoa a quem ela conta sobre seu namoro é Deivinho, em um momento intimo lindo do filme, quando os dois personagens contam seus segredos um ao outro. Eunice talvez represente a maior revolução daquela família, ao trazer a namorada para a casa e deixar claro que gosta de meninas, para a surpresa dos pais.

MARTE UM passa de maneira muito bonita um carinho especial por esses personagens. As suas quase duas horas passam voando, já que estamos imersos nos dramas pessoais de cada um deles. E vez ou outra nos vemos chorando em determinados momentos. Destaco a cena da cadeira, com a despedida de Eunice da casa, quando ela vai morar com a namorada. As emoções de Wellington e de Eunice passam a ser nossas também. Além do mais, há um trabalho formal que merece ser destacado e mais observado em futuras revisões. Percebi uma ênfase nos rostos dos personagens nas cenas, com poucos momentos de campo-contracampo.

Apesar de ser exibido ainda em salas de nicho, em circuitos comerciais, ao que parece, depois da escolha para o Oscar, MARTE UM também está sendo exibido em algumas salas de circuito mais comercial, de shopping, dando a chance para que outros espectadores também possam vê-lo no cinema. MARTE UM é daqueles filmes que deixam o coração da gente mais quentinho. A vida não é fácil, mas correr atrás dos sonhos e de uma vida melhor ainda nos é permitido.

+ DOIS FILMES

RAPSÓDIA PARA O HOMEM NEGRO

Com os holofotes apontados para MARTE UM (2022), o interesse pelas obras anteriores de Gabriel Martins pode-se fazer presente. Caso o IMDB não esteja errado, RAPSÓDIA PARA O HOMEM NEGRO (2015) é o segundo trabalho na direção de Martins e uma obra que carrega uma valorização da ancestralidade negra e uma complexidade na forma, que também requer um pouco de conhecimento do candomblé. Na história, o jovem Odé prepara uma vingança para a morte de seu irmão mais velho, Luiz. O bonito é que há em determinado diálogo entre os irmãos a questão da vilania e do heroísmo e a cena final do filme tem uma beleza plástica que combina com os gestos do herói vingador. E se em 2015 havia uma sociedade que parecia esconder um pouco seu sentimento de preconceito com os negros, de uns anos para cá as máscaras caíram um bocado. No mais, bom rever em cena Carlos Francisco e Rejane Faria, dois dos protagonistas de MARTE UM.

MEU AMIGO MINEIRO

Uma feliz surpresa este curta produzido pelo coletivo Alumbramento, que traz dois jovens diretores, o cearense Victor Furtado e o mineiro Gabriel Martins, trabalhando em conjunto e como personagens também. Em MEU AMIGO MINEIRO (2012), Martins vem visitar o amigo Vitinho em Fortaleza e, devido a algum desencontro, o mineiro fica sozinho, passeando pela cidade o dia todo. Vamos acompanhando essa sua jornada, que vai da Praça dos Leões a um bar karaokê. Gosto muito de como o filme extrai a experiência da contemplação quando se está sozinho (e em paz). Há tanto uma valorização do estar só quanto da amizade. Uma celebração da vida que ainda traz imagens bonitas de minha cidade.

sábado, setembro 10, 2022

SANDMAN – PRIMEIRA TEMPORADA (The Sandman – Season One)



Lembro-me de meu primeiro contato com Sandman, a obra-prima de Neil Gaiman. Foi na faculdade, em 1994. Um amigo, ouvindo a minha redação escolhida pela professora Laura sobre a descoberta da leitura e de minha paixão por quadrinhos que remontava à infância, tira da mochila o encadernado de Prelúdios e Noturnos, o primeiro arco de Sandman, lançado pela Editora Globo, a primeira de várias editoras a lançar essas histórias no Brasil. Ele me emprestou a HQ e fiquei impressionado. Na década de 1990, eu andava meio afastado dos quadrinhos e foi um deleite poder descobrir aquele universo tão fascinante sobre um senhor do sonhar histórias inventivas a seu respeito. Lembro de uma vez que, estando de posse do arco Estação das Brumas, eu saí do de barzinho próximo ao Centro de Humanidades e, sob efeito do álcool, do sabor da noite e do movimento do ônibus, lia aquela história louca sobre Morpheus tendo que assumir o inferno com muita alegria.

Eis que, passados 30 anos, uma adaptação de Sandman finalmente chegou às telas. E foi bom que tenha chegado em forma de série de TV, já que um filme não conseguiria abarcar tantas histórias – a série principal de quadrinhos tem 75 edições + a edição especial Sandman – Orpheus. E ter Neil Gaiman como um dos comandantes da série, ao lado de David S. Goyer e Allan Heinberg (o showrunner) pode garantir que a essência da obra original não se perca em sua adaptação. O problema é que senti falta de melhores diretores para os episódios. Acho que o(a) único(a) mais conhecido(a) é Colarie Fargeat, a francesa diretora do rape and revenge VINGANÇA (2017). Ela provavelmente foi escolhida para o episódio “Collectors” pelo aspecto mais sangrento desse capítulo da série.

Há coisas de que gostei um bocado em SANDMAN (2022) e coisas que me incomodaram. E o fato de uma das coisas que mais tenha me incomodado seja justamente o ator escolhido para interpretar Morpheus comprometeu bastante o meu prazer pela série. Tanto que gosto muito mais quando o Sandman está ausente de cena, como na maior parte dos episódios especiais que encerram a temporada (como no especial final que traz os contos "Um Sonho de Mil Gatos" e "Calíope") ou em vários momentos do arco Casa de Bonecas.

O CGI meio barato e a barba por fazer aparente do ator também não ajudaram. Inclusive, o CGI impede a boa apreciação do episódio no inferno, o que me deixa preocupado com o que pode acontecer com a segunda temporada, quando o arco Estação das Brumas for adaptado. Ficaria muito mais feliz se a série optasse por efeitos práticos, por mais que ganhasse um aspecto de produção barata de terror.

Pontos positivos: a jovem atriz que interpreta Rose Walker, Vanesu Samunyai; a atriz que interpreta a Morte, Kirby Howell-Baptiste; a presença marcante de David Thewlis como John Dee (aliás, o episódio "Imperfect Hosts" é um dos melhores, sem dúvida, e muito por causa do ator); Charles Dance como o Mago que prende Morpheus; e o respeito à obra original. Se bem que, tendo Neil Gaiman como um dos caras que comandam a série, percebe-se quase uma mão de ferro no sentido de não se obter muitas liberdades na condução das tramas. Para o bem e para o mal. Eu fico me perguntando se não preferiria uma obra mais liberta das amarras dos quadrinhos e com um excelente diretor por trás, mas sei que isso faria muita gente irritada, sendo que muitos já ficaram com as mudanças de gênero e raça em alguns personagens.

Enfim, é uma boa série, com momentos ótimos e outros fracos, e que espero que melhore no futuro. Morpheus ainda será apresentado como uma pessoa nada boazinha quando as histórias sobre Orpheus e Nada aparecerem, provavelmente na segunda temporada. Por enquanto, Tom Sturridge com essa cara de bebê chorão não vai convencer muito como uma espécie de deus implacável, ciumento e malvado.

É possível que minha impaciência ou quase implicância com a série venha do fato de tê-la visto ao mesmo tempo que via os excelentes episódios da temporada final de BETTER CALL SAUL. Ou seja, ficava muito difícil não fazer alguma comparação, por mais que eu soubesse que se tratavam de tipos distintos de intenções. Além do mais, o que há de melhor na série ainda vem de Neil Gaiman, de seu material inventivo, trazendo ideias geniais, como a do escritor que captura uma musa em “Calíope”, um homem que deseja viver para sempre no episódio “The Sound of Their Wings”, que também apresenta a irmã do personagem-chave para a audiência; a jornada de Sandman para recuperar seus objetos roubados no primeiro arco. Ou seja, está tudo nos quadrinhos. E quem não leu não sabe o que está perdendo.

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QUANDO DESCEM AS SOMBRAS (The Night Walker)

Interesssante ver um filme dos anos 1960 que traz um personagem chamado "Sonho" logo depois de ter finalizado a série SANDMAN. QUANDO DESCEM AS SOMBRAS (1964) não é dos meus favoritos de William Castle - prefiro ALMAS MORTAS (1964) e TRAMA DIABÓLICA (1961) -, mas é uma obra bem interessante em sua proposta, e tem tudo a ver com o espírito "truqueiro" e enganador do cineasta. Outra coisa que ajuda muito o filme é a presença de Barbara Stanwyck, uma das maiores atrizes da velha Hollywood, aqui em seu último papel no cinema - depois ela só apareceria em séries de televisão. Na trama, ela é esposa de um homem cego que tem ciúme dela com um homem que aparece em seus sonhos. Ela mesma não sabe quem é o tal homem. Lá pelo final, o filme apresenta uma série de surpresas e reviravoltas. Gosto mais da segunda metade do que da primeira. E adoro o cartaz estiloso, que vende o filme como se fosse um título sobre satanismo ou coisa parecida. Visto no box Obras-Primas do Terror 13.

ANNABEL LEE

Com a narração de Vincent Price para dar o lirismo romântico e gótico necessário para esta história, adaptada do célebre poema homônimo de Poe, o que temos aqui é um curta de apenas 10 minutos que consegue ser ao mesmo tempo aterrorizante, angustiante, trágico e terno. Na trama de ANNABELL LEE (1969), de Ron Morante, uma família tenta impedir o romance de um casal ao matar a jovem Annabel Lee. E o modo como ela é morta é aterrador, um pesadelo. Muito inventivo o uso das fotografias para dar um ar de estranheza, assim como as cenas "mudas", narradas por Price. Belo pequeno filme presente nos extras do box Edgar Allan Poe no Cinema Vol. 3.

quarta-feira, setembro 07, 2022

MARIA – NINGUÉM SABE QUEM SOU EU



Maria Bethânia é uma das artistas mais fascinantes da música brasileira. E desde seus primeiros anos de carreira o cinema tratou de reverenciá-la. Há um documentário em curta-metragem dirigido por Júlio Bressane e Eduardo Escorel chamado BETHÂNIA BEM DE PERTO – A PROPÓSITO DE UM SHOW (1966) que já apontava o fascínio pela cantora. A partir dos anos 2000, ela passou a ser vista com certa frequência em documentários que a homenageavam ou a traziam aos holofotes, como MARIA BETHÂNIA – MÚSICA É PERFUME (2005), de Georges Gachot; MARIA BETHÂNIA – PEDRINHA DE ARUANDA (2007), de Andrucha Waddington; (O VENTO LÁ FORA) (2014) e FEVEREIROS (2017), ambos de Marcio Debellian; sem falar em outros tantos documentários sobre outros artistas em que ela comparece, ou até em longas-metragens dos anos 1960 e 80 em que ela é creditada como atriz.

Essa atração do cinema por Bethânia talvez seja explicada em MARIA – NINGUÉM SABE QUEM SOU EU (2022), de Carlos Jardim, quando ela conta o momento em que percebeu que suas apresentações deveriam ser vistas em teatros e não em casas noturnas. Afinal, o que ela apresentava se aproximava bastante do ambiente das peças, já que a dramatização é parte essencial de sua arte. Nada melhor, então, do que usar os recursos do teatro, como a iluminação e a direção de arte, para enriquecer seus shows. O cinema não é citado em nenhum momento, mas acho muito fácil estabelecer um elo entre e cinema e teatro, assim como é fácil para a cantora fazer uma ligação muito estreita entre música e literatura. Bethânia trafega por essas artes com muito prazer e muita naturalidade. Tão natural quanto seu cantar.

Mas uma das coisas que mais me encantou neste documentário de formato bastante simples, com o revezamento contínuo de depoimento e imagens de arquivo, é o quanto o filme destaca, mesmo que de maneira inconsciente, a figura de mulheres fortes. Orbitam Maria Bethânia as figuras de Nossa Senhora, sua mãe Dona Canô, Mãe Menininha do Gantois e Fernanda Montenegro, que com sua voz poderosa recita textos imensos sobre a cantora. O modo como Bethânia justifica sua preferência por Nossa Senhora (no lugar do todo poderoso Deus) faz conexão com o momento mais emocionante do filme, quando Bethânia é perguntada sobre sua mãe. E o filme ainda nos brinda com uma imagem linda das duas cantando. Eu, canceriano fã de mães que sou, chorei bastante nesse segmento. A mãe, como a figura cuidadora e amorosa, parece muito mais atraente para um contato de proximidade com a santidade do que um pai. E eu digo isso sendo alguém que não cresceu em lar católico.

E assim como uma mãe carinhosa, uma das forças de Bethânia está em cantar cada palavra como se a acariciasse, mesmo quando canta a dor, a ferida exposta. Aliás, por isso as composições do Gonzaguinha são tão poderosas quando cantadas por ela. E essa força da palavra a aproxima da poesia e da prosa poética – no filme, vemos a cantora recitar Fernando Pessoa, Clarice Lispector e Mia Couto em diferentes momentos. O respeito, o interesse e o amor que Bethânia tem pela literatura ficam bem explícitos na entrevista, que procura, de alguma maneira, decifrar essa mulher misteriosa que tem uma alegria de viver tão contagiante que o choro pode vir em momentos inesperados ao longo de suas declarações.

Assisti ao filme ao lado das minhas amigas Valéria e Bárbara e de vez em quando Valéria brincava: “não pode pausar?”. Tudo a ver, levando em consideração o quanto cada momento, seja das imagens de arquivo, seja da entrevista, tem de valioso e de convite à reflexão (ou à pausa para recuperação emocional), a ponto de misturarmos nossa compreensão do filme com nossas experiências de vida. As associações são praticamente inevitáveis.

Temos muita sorte de viver na mesma época de Bethânia, Caetano Veloso (que aparece como uma espécie de guia para a irmã desde a infância), Gilberto Gil, Chico Buarque, Roberto Carlos, enfim toda essa turma que segue viva e que surgiu principalmente nos férteis anos 1960.

Ao final da sessão e depois dos abraços cheios de saudade, voltei para casa ouvindo pela primeira vez, integralmente, Álibi (1978), um dos discos mais fantásticos da música brasileira. E a noite escura do caminho de volta me parecia mágica. E minha vida parecia mais feliz. Certas coisas não têm preço. 

+ DOIS FILMES

AMIGO SECRETO

É triste constatar o processo de piora no cenário político, econômico e social brasileiro desde 2013. Tanto que quando Maria Augusta Ramos lançou O PROCESSO em 2018 lamentávamos muito o absurdo que foi retirar uma mulher inocente da cadeira da presidência da república para iniciar o golpe. E eis que de lá pra cá tivemos prisão do Lula, eleição do Bolsonaro, entrada de Moro como ministro da Justiça e defesa, pandemia, escândalo das vacinas, ameaça ao estado democrático, mais de 600 mil pessoas morrendo de Covid e outras milhões passando fome... Ou seja, em 2018 não sabíamos que tudo poderia piorar tanto. E ainda não sabemos o que virá, claro. Mas se o próprio documentário novo de Ramos termina com imagens tristes, também termina com um cenário atual que aparentemente traz um pouco de esperança para os próximos anos. Em AMIGO SECRETO (2022), os personagens principais são jornalistas do The Intercept Brasil, que cobriram e lançaram as bombas vindas de um vazamento de mensagens entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato. AMIGO SECRETO não deixa de ser uma desforra em relação aos eventos de O PROCESSO, mas ainda é muito cedo para celebrar. O filme tem seus problemas de ritmo e a sensação de que muito foi cortado na edição final. Afinal, há tanta coisa que acontece dentro desse pesadelo que é o governo Bolsonaro que um filme só não daria mesmo conta. Mas temos uma vantagem deste documentário em relação ao anterior, que é uma maior facilidade de ser compreendido por uma audiência estrangeira. Isso é algo positivo para uma visualização maior no mundo e não apenas para ser apreciado por pessoas de linha mais progressista.

8 PRESIDENTES, 1 JURAMENTO - A HISTÓRIA DE UM TEMPO PRESENTE

Mais um documentário que vem se juntar aos vários que vêm sendo feitos para registrar ou fazer refletir sobre o nosso tempo. Na verdade, este aqui tem a tarefa inglória e ousada de tentar fazer um resumão da história do Brasil a partir dos movimentos para as eleições diretas. Então, cobre desde a eleição indireta que elegeu Tancredo Neves e José Sarney até um pouco deste momento ensandecido, desgovernado por Jair Bolsonaro. Como documentário de montagem, 8 PRESIDENTES, 1 JURAMENTO - A HISTÓRIA DE UM TEMPO PRESENTE (2021), de Carla Camurati, acaba optando por mostrar certas coisas e toma seu partido, que é puxar os melhores momentos para Fernando Henrique Cardoso, e comete até o desrespeito de apresentar aqueles memes sem graça para desmerecer Dilma Rousseff. Ainda assim, sobram momentos emocionantes, que é justamente o tom mais emocional de Lula e Dilma em certos momentos de suas carreiras. Lula, quando toma posse; Dilma, quando fala sobre as torturas na época da ditadura. Como é um documentário bem filiado à Globo, incomoda bastante ver a atenção dada ao pessoal da Lava Jato sem depois não apresentá-los como farsantes. Sem falar que é daqueles filmes que nos deixam bem tristes com a nossa história política e econômica. 

domingo, setembro 04, 2022

ERA UMA VEZ UM GÊNIO (Three Thousand Years of Longing)



“What is desire and what is contentment? What is love? How do you define love? What are the gestures that make it clear to you that there is love?”
(George Miller, em entrevista ao Indiewire)

A teoria dos autores ou política dos autores é algo sempre tentador para os cinéfilos que acompanham com atenção a carreira de grandes diretores. E por isso quando um deles parece fazer algo um pouco diferente do que esperávamos, tentamos compreender suas motivações e as conexões de tal obra com as anteriores. Curiosamente, procurando pelo nome de George Miller aqui no blog para ver quantos filmes dele foram citados, dei de cara com uma afirmação minha a respeito de seu segmento para NO LIMITE DA REALIDADE (1983) em que eu dizia: “Não deixa de ser curioso o fato de o melhor dos episódios partir das mãos do diretor menos criativo da turma.” Isso é imperdoável, mesmo levando em consideração que os demais diretores do filme sejam Steven Spielberg, Joe Dante e John Landis. Na época que eu escrevi isso ainda não existia a obra-prima MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA (2015) e eu não tinha revisto os dois primeiros filmes do herói mais recorrente da filmografia do cineasta. Por isso, perdoem minha ignorância.

De todo modo, talvez o filme que faça uma conexão mais próxima com o novo ERA UMA VEZ UM GÊNIO (2022) seja justamente o que eu ainda não vi de Miller, AS BRUXAS DE EASTWICK (1987), que trata da questão do desejo e suas consequências. O novo filme seria mais elaborado do ponto de vista filosófico, pois, imagino eu, usar a conversa entre duas pessoas sábias e inteligentes para refletir sobre a ideia do desejo recebido magicamente como algo perigoso a partir de experiências, histórias e até piadas dá ao filme mais munição para explorar o assunto de forma aprofundada.

ERA UMA VEZ UM GÊNIO conta a história de uma narratologista (Tilda Swinton) que, em viagem para Istambul para uma de suas palestras, compra um vidrinho que chama sua atenção em um antiquário. Ao chegar no quarto do hotel e esfregar o objeto para tirar um pouco da sujeira, sai um enorme e assustador gênio (Idris Elba), que necessita que ela faça três pedidos para que ele consiga, enfim, sua liberdade, depois de passar milhares de anos preso em recipientes minúsculos.

A história parece ser muito simples e muito familiar. E aparentemente infantil até. E talvez esse seja um dos motivos de haver várias cópias dubladas do filme por aí. Talvez tenham pensado se tratar de uma fantasia quase infantil, quando na verdade o que temos é algo bem adulto, não apenas por causa do sexo, da nudez e da violência, mas também, principalmente, por causa dos diálogos. Assim que a personagem de Swinton recebe a proposta, ela fica logo ressabiada, pois, especialista em narrativas, sabe que sempre há consequências para esse tipo de pedido. Nós, cinéfilos, também sabemos, mas talvez tenhamos mais intimidade com viagens no tempo e suas consequências desastrosas. (Aliás, quando o gênio falou sobre a história do pedido, a primeira coisa que pensei foi poder voltar no tempo.)

A conversa do gênio com a narratologista rende muitas histórias paralelas e é nessas histórias que o filme se enche de uma beleza visual fantástica – o diretor de fotografia John Seale (MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA; SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS) estava aposentado e Miller conseguiu tirá-lo da aposentadoria para que ele o ajudasse a materializar essa história cheia de tintas coloridas e exóticas, com subtramas passadas na antiguidade. A história que mais me surpreendeu foi a que traz Salomão e a Rainha de Sabá, isso porque ela traz um Salomão cheio de truques de magia, a ponto de ser o primeiro a encarcerar o gênio. Haverá outras histórias fantásticas, como a do herdeiro do trono que é obcecado por mulheres grandes; ou a do relacionamento do gênio com uma mulher casada e a obsessão dela por adquirir a maior quantidade de inteligência possível.

ERA UMA VEZ UM GÊNIO talvez tenha um problema de ritmo ou de montagem – por vezes parece ter a duração maior do que tem –, mas é uma prova de que Miller é um dos cineastas mais inventivos e surpreendentes da atualidade. Ele consegue passar por caminhos que parecem distantes um do outro, indo desde uma forte dedicação a sua maior criação (o universo Mad Max), passando por animações sobre pinguins, uma história sombria sobre um porquinho, uma comédia envolvendo bruxaria e um melodrama tocante sobre uma doença rara de uma criança.

Por que motivo ele escolheria fazer um filme sobre um gênio da lâmpada e sua relação com uma mulher solitária antes de lançar FURIOSA (2024), que, imagina-se, seja um filme tão pouco verbal e tão visual quanto MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA? A mais fácil das respostas seria dizer que é por ser mais barato e a produção custar menos. E por mais que seja um filme visualmente lindo, há um interesse em demonstrar o amor pela velha e boa arte de narrar histórias. ERA UMA VEZ UM GÊNIO é uma declaração de amor à narrativa clássica, mas talvez seja principalmente uma história de amor, com ênfase nas duas palavras: "história" e "amor".

+ DOIS FILMES

O DEBATE

A estreia na direção de longas-metragens de Caio Blat com O DEBATE (2022) é de certa forma bem discreta: temos um filme pequeno com basicamente dois atores discutindo em duas linhas temporais distintas. Debora Bloch e Paulo Betti são um casal separado que trabalha junto em uma redação dum telejornal durante os debates acirrados para presidente da república. Disputam o cargo o presidente (negacionista) e o ex-presidente. Os nomes não são citados, mas nem é preciso. O filme se divide em dois momentos, o presente, 2022, e o passado, durante o início da pandemia, em 2020, quando a relação dos dois começa a se deteriorar. Em ambos os momentos, é possível ver que ela está mais à esquerda e ele é um pouco mais ao centro. O roteiro escrito a quatro mãos por Guel Arraes e Jorge Furtado passa a impressão de que cada um pode ter escrito as falas de cada personagem. Será?

ENNIO, O MAESTRO (Ennio)

Linda celebração da vida e da obra de um dos maiores gênios da história do cinema e da música. Acompanhamos, através de depoimentos do próprio Ennio Morricone sua história de vida, seu início fazendo arranjos para artistas da RCA e depois seu ingresso definitivo no mundo do cinema, fazendo a princípio trilhas para westerns italianos. Morricone tem mais de 500 créditos em filmes e ENNIO, O MAESTRO (2021), de Giuseppe Tornatore, tenta condensar o que há de mais importante em sua obra em um filme de menos de três horas de duração. No final, a gente vê que é pouco, embora eu tenha achado a última meia hora um pouco menos empolgante do que o que o mostra produzindo até a década de 1980. O Oscar que ele não ganhou pela trilha de OS INTOCÁVEIS, de Brian De Palma, também é lembrado, com indignação. É muito bom ouvir os depoimentos de diversos outros cineastas e também de pessoas que trabalharam com ele. Alguns momentos são de arrepiar, como as cenas de ERA UMA VEZ NO OESTE e de CINEMA PARADISO, e podemos perceber o quanto Ennio se emocionou ao lembrar de certos momentos-chave de sua vida. Sem dúvida, um artista sem igual. No mínimo.

sábado, setembro 03, 2022

EM BUSCA DO PRAZER (Alla Ricerca del Piacere)



O grande barato de conhecer mais e mais filmes do gênero giallo é que, mesmo quando eles não são ótimos ou obras-primas, boa parte deles conserva uma elegância e um charme tão próprios que chegam a ser irresistíveis. O caso de EM BUSCA DO PRAZER (1972), de Silvio Amadio, é bem particular, pois não é aquele giallo mais tradicional, com um assassino de luvas pretas matando várias pessoas, enquanto alguém, não necessariamente um detetive de polícia, tenta solucionar perigosamente o mistério. Aqui o mistério em torno da suposta morte de uma jovem mulher segue uma linha que muito lembra o cinema clássico hollywoodiano (hitchcockiano, às vezes), mas com uma dose de erotismo que o aproxima tanto das comédias eróticas italianas, que seriam também especialidade de Amadio, quanto do espírito da época daqueles tempos em que a contracultura invadia a arte, a moda e os lares.

Trata-se, muito provavelmente, de um dos mais sensuais gialli já produzidos – se alguém viu QUELLA ÈTA MALIZIOSA (1975), do mesmo diretor e com a presença exuberante de Gloria Guida, sabe mais ou menos o que esperar, levando em consideração que o que temos aqui é uma hsitória de suspense. Há uma exploração admirável dos corpos nus de pelo menos três personagens femininas importantes no filme, em especial Barbara Bouchet e Rosalba Neri – elas duas contribuem com uma cena de sexo lésbico lindíssima nos primeiros vinte minutos da metragem.

Na trama, Bouchet é uma jovem que se candidata a secretária de um romancista depois que sua amiga, secretária anterior desse escritor, é dada como desaparecida. Ter o americano Farley Granger (PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock) como um dos protagonistas é um ganho e tanto para a produção, assim como também ter a presença da cidade de Veneza embelezando algumas cenas externas. Ele faz o papel do tal escritor, principal suspeito pelo desaparecimento e possível morte da ex-secretária. A personagem de Bouchet vai se aproximando e tentando descobrir o mistério, mas também vira objeto de desejo da esposa do escritor (Rosalba Neri), que adora reunir amigos para criar jogos sexuais em sua casa. 

À medida que a protagonista se aproxima daquele casal, mais ela vai se enredando numa rede de drogas, sexo e violência. Além do mais, uma vez que o escritor descobre que ela suspeita que ele é o assassino, ele passa a ditar num gravador, para que ela ouça, pois é tarefa dela ouvir as fitas e datilografar tudo, a história de uma jovem secretária que chega na casa de um assassino para investigar a morte de sua amiga/amante. Ou seja, de certa maneira, o escritor passa a brincar com a própria situação de suspeição, o que acaba nos fazendo lembrar de outro suspense erótico muito querido, INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven.

Barbara Bouchet é hoje considerada uma das rainhas do giallo, ao lado de Edwige Fenech. Só em 1972, mesmo ano de EM BUSCA DO PRAZER e um dos anos de ouro para o gênero, ela também esteve em O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS, de Lucio Fulci, e em A RAINHA VERMELHA MATA 7 VEZES, de Emilio Miraglia, para citar dois títulos de destaque.

EM BUSCA DO PRAZER tem um andamento muito agradável, e talvez isso até prejudique um pouco a criação de uma atmosfera de tensão mais eficiente. Talvez porque a especialidade de Amadio fosse mais o erotismo e a comédia do que o suspense. Mesmo trabalhando um tom de mistério, o filme parece uma grande brincadeira. Isso pode ser encarado como algo tanto positivo quanto negativo, dependendo do que se espera e do que se aceita de um filme. Li em um desses fóruns de compartilhamento de filmes sobre o fato de que EM BUSCA DO PRAZER estaria mais próximo de um Alice no País das Maravilhas do que de um romance da Agatha Christie. Isso faz todo o sentido. E é uma chave para uma melhor valorização do filme.

Visto no box Giallo Vol. 5.

+ DOIS FILMES

GUIA ROMÂNTICO PARA LUGARES PERDIDOS (Guida Romantica a Posti Perduti)

Alguns filmes preenchem nossos corações com um sentimento próximo ou superior à gratidão. Essa é mais ou menos a minha relação com GUIA ROMÂNTICO PARA LUGARES PERDIDOS (2020), de Giorgia Farina, um road movie que parecia ter tudo para dar errado e acaba funcionando muito bem, com seus dois personagens que poderiam ser difíceis de se afeiçoar: uma moça que sofre constantes ataques de pânico (Jasmine Trinca) e um homem alcoólatra (Clive Owen). Os dois se conhecem em um dos estados de embriaguez do personagem de Owen e combinam uma viagem para uma cidade muito peculiar da Inglaterra. Gosto muito de como a amizade dos dois vai se solidificando, com o respeito da condição de cada um, e de como o caminho que levam vai mostrando possíveis faróis. Adoro a cena da dança no final e também os momentos finais de ambos com seus respectivos parceiros românticos. Um pequeno filme sobre amizade, mentiras, viagens, motivação e diferentes maneiras de enxergar a vida, sob um véu muito próprio.

PARADISE - UMA NOVA VIDA (Paradise – Una Nuova Vita)

Não consegui me envolver com esta comédia dramática sobre um homem que se vê longe de sua família após testemunhar um crime de assassinato. Vivendo num lugar isolado e gelado graças ao serviço de proteção à testemunha, ele acaba encontrando o próprio assassino naquele espaço. E os dois estabelecem uma relação até que bem próxima. Primeiro longa de ficção de Davide Del Degan, PARADISE – UMA NOVA VIDA (2019) tem uma beleza plástica que chama a atenção. Há um plano geral de um dos locais que é de encher os olhos. Mas a falta de conexão com a trama ou com os personagens fez com que o filme parecesse muito mais longo do que na verdade é. De todo modo, imagino que ele encontrará seu público.

sexta-feira, setembro 02, 2022

UM LUGAR BEM LONGE DAQUI (Where the Crawdads Sing)



Ter um cinema novo chegando na cidade é sempre motivo de comemoração, mesmo quando o cinema não traz tanta novidade assim no que se refere ao que já é ofertado nas demais salas mais comerciais. Na pandemia, os dois complexos da rede Arco-Íris em Fortaleza que estavam de pé, com três salas no Shopping Aldeota e duas no Shopping Del Paseo, fecharam. O que é uma tristeza, ainda mais se levarmos em consideração que esses shoppings ficam localizados em lugares tradicionalmente habitados pela alta burguesia da cidade. Se está difícil para o rico, que dirá para o pobre.

Pois bem. Uma outra empresa assumiu e refez duas dessas salas perdidas e lá fui eu feliz ontem, para prestigiar o novo espaço. UM LUGAR BEM LONGE DAQUI (2022), de Olivia Newman, em cópia legendada. Uma sala novinha em folha costuma ser bem caprichada, right? Infelizmente nem sempre, como pude constatar. Gostei da disposição das poltronas, da tela, apesar de não tão grande, mas quando começou o primeiro trailer, do segundo Avatar, já percebi o som médio extremamente abafado. Aquilo estava muito errado. E isso se tornava ainda mais perceptível com o fato de que o trailer estava dublado.

Esperei o filme começar, mas na hora que começa as luzes se acendem (em vez de se apagarem) e a imagem em scope aparece em “letterbox”, em vez de cobrir a tela inteira. E o problema do som, que deveria ser bem caprichado, pois Dolby Atmos, persistiu. Inclusive, antes do filme começar, exibiram a vinheta do Atmos. Saí para reclamar logo dos três problemas de uma só vez: luzes acesas, som médio abafado (o pior de tudo) e a tela scope limitada (algo que já aturei sem reclamar em outras ocasiões, em outras salas da cidade).

As meninas que me atenderam foram bem atenciosas e tentaram resolver os três problemas, entrando em contato com o projecionista. Uma delas até disse que estava assim porque o som era Atmos, mas isso definitivamente não se justificava - ao contrário, isso deveria significar um som de altíssima qualidade. A tela, quando tentaram resolver, acabou por esconder as legendas, e voltaram como estava antes. Mas era o som que me incomodava especialmente. Não conseguiria me concentrar durante as mais de duas horas de filme daquele jeito. Pedi desculpas e disse que ia embora. Até me ofereceram um "vale" para uma próxima visita, para usar quando consertassem o problema, mas moro longe demais para fazer esse tipo de "vistoria". Não ganho para isso. 

Senti-se um pouco malvado (e, consequentemente, um tanto culpado) com o fato de sair de lá parecendo um desses críticos antipáticos de restaurante que vejo nos filmes, ainda mais não aceitando receber em parte o prejuízo do ingresso comprado, mas é que não queria dar viagem perdida e por isso corri para ver o filme no Cinépolis RioMar, que o exibia em um horário 15 minutos mais tarde. Logo, se eu corresse, chegaria a tempo. E deu certo, já que não havia fila para comprar ingresso e nem mesmo espectadores no cinema, o que é uma tristeza - na outra sala também só havia um casal na sala. Saudades de quando entrava em em qualquer dia ou noite numa sala de cinema e sempre havia público.

Ao entrar na nova sala, vazia, e já percebendo uma diferença enorme, comecei a me acalmar e sentir um pouco daquela paz de estar na sala escura em um estado de quase suspensão do tempo. Uma paz que experimento há mais de 30 anos.

Mas falemos do filme em questão, que deveria ser o objeto desta postagem, mesmo não sendo um grande filme. Confesso que o que mais me atraiu em UM LUGAR BEM LONGE DAQUI foi a presença da inglesa Daisy Edgar-Jones, a atriz que eu aprendi a amar em NORMAL PEOPLE, que aliás é uma série que também lida com dois estados aparentes de sua beleza.

Além do mais, sendo ela inglesa, seria no mínimo interessante vê-la no papel de uma moça brejeira do sul dos Estados Unidos. E a atriz não se saiu ruim, não. O problema talvez esteja na direção e no roteiro mesmo. E o roteiro talvez não quisesse inventar algo que não estivesse no best-seller, por alguma obrigação ou auto-obrigação de ser fiel à obra original. Digo isso apenas como suposição, já que não li o livro. 

UM LUGAR BEM LONGE DAQUI é uma espécie de filme de tribunal cuja maior parte da ação se passa em flashbacks que nos levam à história da protagonista desde sua infância, quando foi abandonada pela família, que por sua vez estava fugindo do pai alcóolatra e violento. Assim, ela mora com o pai até a idade adulta. A jovem, conhecida pelos habitantes da cidade como "moça do brejo", vai parar no tribunal acusada de ter assassinado um rapaz. Vendo sua história conhecemos o tal sujeito, bem como um outro que a ensina a ler e escrever. 

Gosto de como a história termina, por mais que não seja exatamente uma surpresa. Até porque, após sofrer agressões físicas e psicológicas, ela precisava tomar uma atitude. Acho uma pena que o filme não explore de maneira mais incisiva e poética a relação dela com a natureza e com as poucas pessoas que a acolhem, mas nem sempre se pode ter tudo e filmes medianos também devem ser vistos. O resultado aqui é um “Supercine" apenas razoável.

+ DOIS FILMES

VIRAR MAR (Meer Verden) 

Não deixa de ser curioso ver um projeto gestado de maneira tão pouco convencional, como este  VIRAR MAR (2020), de Philipp Hartmann e Danilo Carvalho, que aparentemente foi todo feito de forma muito intuitiva, tentando encontrar caminhos a partir de ideias e dos acasos que surgiram ao longo da trajetória das filmagens, que demoraram vários anos. Senti falta de mais paixão da parte dos realizadores e também de foco, mas talvez tenha faltado algo que me deixasse um pouco mais conectado à obra. A ideia é curiosa, apontando os extremos entre o sertão cearense carente de água e uma região da Alemanha prestes a ser inundada pelo mar por decisão de uma unidade da federação. A parte brasileira aparentemente tem um peso maior, principalmente quando entra em cena um cineasta popular de Quixadá. É interessante ver o quanto esses novos documentários tentam cada vez mais se libertarem das amarras do gênero, tornando-se filmes mais livres e com uso cada vez mais evidente da atuação e da interferência de seus realizadores para a geração de uma mise-en-scène mais cuidadosa. 

CONTRATEMPOS (À Plein Temps) 

Junto com O ACONTECIMENTO, de Audrey Diwan, CONTRATEMPOS (2021) encabeça a lista dos melhores títulos presentes no Festival Varilux de Cinema Francês deste ano. E o que temos aqui é daqueles filmes de tirar o fôlego, já que é muito fácil se colocar no lugar da protagonista (Laure Calamy), que mora em uma cidade mais ou menos afastada de Paris. Ela está na posição de mãe solo - o pai das crianças não aparece - e ela procura em paralelo ao emprego de camareira de hotel cinco estrelas um outro trabalho melhor, que faça jus a seus títulos universitários. Ela ainda tem que lidar com uma greve geral dos transportes em Paris, entre outras coisas. O filme nos deixa tão acelerados e cansados quanto a mulher, e isso em menos de uma hora e meia de duração. Tudo está em seu devido lugar neste segundo longa-metragem de Éric Gravel, que merece atenção como diretor, mas cujo trabalho deve demais à onipresença de Calamy, atriz que eu só conhecia até então de pequenos papéis.