domingo, maio 22, 2022

TOP GUN – MAVERICK



Tom Cruise entra na quinta década se mantendo de pé e com sucesso em Hollywood. E com o mesmo sorriso e juventude que o trouxe à fama, mesmo beirando os 60 anos de idade. E isso é impressionante. Também é impressionante como o astro, agora também um produtor de sucesso, se transformou em dono de sua própria carreira, escolhendo diretores com assinatura pouco reconhecível, mas muito eficientes em sua tarefa de artesãos. Essa tendência tem se mostrado desde fins dos anos 2000 e de certa forma tem funcionado.

Na época que Cruise fez TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986), de Tony Scott, ele tinha poucos filmes importantes como protagonista, mas já havia sido visto por Francis Ford Coppola como uma estrela em ascensão em VIDAS SEM RUMO (1983). Vindo de sucessos como NEGÓCIO ARRISCADO (1983) e A LENDA (1985), ele chega como a escolha perfeita para o filme-propaganda da marinha americana. Hoje o filme de Scott envelheceu mal e nem sei se parece ainda um comercial de refrigerante. Ainda assim, é essencial que ele seja visto para que possamos entrar com mais intimidade em TOP GUN – MAVERICK (2022), de Joseph Kosinski.

A escolha do diretor é acertada, não apenas por ele ser muito talentoso. Além de Kosinski já ter trabalhado com Cruise em OBLIVION (2013), ele tem no currículo outra sequência de um sucesso oitentista, TRON – O LEGADO (2010). Ou seja, parece ser a escolha perfeita. A inusitada sequência de TOP GUN logo de início já deixa claro que quer prestar tributo ao filme original, seja pelas primeiras imagens do local de aterrisagem dos aviões, seja pela mesmo rock do filme de Tony Scott apresentado nos créditos.

O apego ao original é necessário também para se criar um fio condutor para a história: Maverick, o personagem de Tom Cruise, será instrutor de uma equipe de pilotos de elite que contará com o filho de seu falecido amigo, morto durante um treinamento no primeiro filme. E muito do sucesso desta sequência se dá por essa relação um tanto tensa que se estabelece entre o protagonista (que ainda carrega um sentimento de culpa) e o jovem vivido por Miles Teller.

Por outro lado, a tentativa de trazer um novo par romântico para o personagem de Cruise não funciona muito bem. Química zero entre Cruise e Jennifer Connelly, mas vejo isso mais como um problema do ator, que tem um tipo de energia estranha no ar, quando o assunto é sexo e romance. Na época de TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS, as cenas de sexo com Kelly McGillis tinham uma pimenta interessante, com aquelas imagens dos beijos de língua explicitados, ainda que mostrados em penumbra estilizada. Agora, até mesmo pular da janela da amada, como um adolescente, ele faz. Sem falar que a sensualidade, que aparecia até de maneira homoerótica nos banheiros masculinos, é praticamente evitada nesta sequência. Já a recusa ao envelhecimento por parte de Cruise tem a sua graça, inclusive também nas cenas de Maverick jogando na praia com seus alunos.

Ainda tenho meus problemas com as cenas no céu, especialmente quando há muitos aviões parecidos nos momentos dos treinamentos, mas aqui elas são bem melhores que no primeiro filme, e a última cena de ação é ótima, deixando uma sensação de que acabamos de ver uma obra bem acabada, eficiente, feita com esmero, mesmo contando com um roteiro de diálogos fracos, mas isso talvez tenha ocorrido para não destoar tanto do filme original. No entanto, é louvável o quanto Kosinski consegue trazer de alma para o novo filme, e isso fica bem claro na última e emocionante cena de Maverick e Rooster, o personagem de Teller.

No mais, vale a pena ver na sala IMAX. A tela ultra-grande valoriza a beleza das imagens aéreas.

+ DOIS FILMES

TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (Top Gun)

A revisão de TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986), depois de passados muitos anos (décadas), acentuou o quanto ele ficou datado, embora eu tenha passado a admirar, agora em uma cópia lindona, o trabalho visual de composição, que é característico do Tony Scott. As cenas dos aviões no céu são um saco e muito difíceis de entender - deu uma saudade dos filmes de aviões do Howard Hawks... No mais, eu gosto das cenas mais humanas, no chão, da presença de Kelly McGillis. Mesmo com um roteiro ruim em mãos, eu gosto mais do filme quando ela está na tela. Fiquei me perguntando se Tom Cruise sabia que sua persona e seu personagem eram bem irritantes, não apenas pela arrogância de Maverick, ou se ele estava o tomando como um herói autêntico, um dos vários personagens que não passam por qualquer humilhação. Ainda assim, sigo gostando muito da filmografia de Tony Scott. Apenas deixo TOP GUN no finalzinho do ranking.

O PLANETA PROIBIDO (Forbidden Planet)

A ficção científica mais luxuosa até o advento de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO é um filme bem divertido e bastante criativo. Para começar, já fiquei bastante impressionado com a ideia de mostrarem terrestres dirigindo um disco voador em direção a um planeta desconhecido. Depois soube que foi a primeira vez que isso aconteceu. A produção da MGM também trouxe efeitos especiais de primeira linha, um monstro fantástico e um robô que fez tanto sucesso que ganhou participações em outros filmes. Baseado na peça A Tempestade, de Shakespeare, o filme mostra um grupo de homens que chegam para resgatar pessoas no tal planeta do título e não são muito bem recebidos. Outra coisa muito inovadora em O PLANETA PROIBIDO (1956), de Fred M. Wilcox, é a minissaia da personagem de Anne Francis. Não à toa, até hoje o filme é visto como uma das melhores sci-fies de todos os tempos pelos especialistas. Filme visto no box Clássicos Sci-Fi (volume 1).

quinta-feira, maio 19, 2022

O HOMEM DO NORTE (The Northman)



Dos novos cineastas de horror surgidos nos anos 2010, a minha preferência se firma ainda em Mike Flanagan, que, é verdade, tem uma quantidade de filmes e bagagem maior do que a trinca Jordan Peele, Ari Aster e Robert Eggers. Os três diretores, por terem quase a mesma quantidade de filmes no currículo e tendo ganhado uma boa repercussão desde suas estreias, são geralmente lembrados como os mais importantes representante do chamado novo cinema de horror produzido nos Estados Unidos.

O caso de Eggers é especial, no sentido que ele preferiu trilhar caminhos tangenciais ao horror em seu segundo (O FAROL, 2019) e agora em seu terceiro filme, O HOMEM DO NORTE (2022), que são distintos em intenção e proposta, mas que têm em comum o fato de apreciarem o território das lendas e das fantasias, por mais sombrios que sejam seus registros.

O HOMEM DO NORTE despertou meu interesse mais por seu aspecto visual do que por seu enredo e riqueza de personagens - a trama é bem simples e os personagens planos. Mas ainda assim vejo a materialização deste filme nos cinemas - e a minha surpresa ao ver que está fazendo um sucesso popular na primeira semana - como algo bem positivo.

O novo projeto do diretor de A BRUXA (2015), mesmo sendo uma produção de orçamento bem maior, consegue tornar mais claras certas obsessões do diretor. O interesse por fábulas e crenças pré-cristãs segue firme e o novo filme destaca a glória de morrer em batalha e a importância de uma virilidade quase animalesca como valores de um povo e de uma época.

Como estamos vivendo um aumento do interesse por vikings em séries de televisão, talvez isso seja o motivo de o público estar indo aos cinemas ver um filme que não chega a ser quase hermético como O FAROL, mas que não facilita tanto assim para o público médio. Para o meu gosto, poderia ter pendido mais para o horror e menos para a fantasia. E também não me incomodaria se o gore fosse mais sujo e a violência do filme transpirasse mais para o lado de cá da tela.

Do jeito que ficou, senti algo próximo a uma pasteurização da violência, inclusive pela utilização acentuada do CGI em detrimento dos efeitos práticos. No mais, como sempre, gosto muito de Anya Taylor-Joy. Sua personagem é a que confere mais humanidade ao herói vivido por Alexander Skarskard.

A trama é baseada na história que serviu de inspiração para a tragédia Hamlet, de Shakespeare, mas com os elementos da cultura nórdica amplificados e explicitados. Além de haver uma vontade também de deixar muito clara a questão da masculinidade como elemento tão opressor quanto natural naquele ambiente e tempo. E como se trata de um filme de vingança, por isso mesmo é simples na estrutura de seu esqueleto narrativo.

Na trama, o pequeno Amleth vê seu pai, o rei vivido por Ethan Hawke, ser assassinado pelo tio que toma a mãe dele (Nicole Kidman) como esposa, além, de se autoproclamar rei daquele povo. Agora adulto, forte e viril, Amleth (Alexander Skarsgård) está de volta para fazer aquilo que prometera quando criança, a começar pelo tio. A trama, porém, traz algumas surpresas na trajetória desse herói tão carregado pelo instinto de matar.

Acho interessante como O HOMEM DO NORTE destaca de maneira quase fetichista a masculinidade, quase ao ponto de ser um filme queer, como também pode ser visto, aliás, O FAROL, mas aqui há também três figuras femininas de fundamental importância, justamente por terem como sabedoria ou trunfo, conhecimentos próximos da feitiçaria. Refiro-me às personagens de Kidman, Taylor-Joy e Björk, em maior ou menor grau. Inclusive, até poderíamos ver como um simbolismo a morte dos dois personagens masculinos principais como uma espécie de morte de uma era, de uma maneira de pensar e de uma multidão de deuses.

No mais, fico na torcida para o retorno de Eggers aos projetos menores, já que parece ter havido uma dificuldade do cineasta em lidar com um grande orçamento e com os executivos de um grande estúdio. Aguardo com atenção seus próximos passos. 
 
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UMA HISTÓRIA DE AMOR E DESEJO (Une Histoire d’Amour et de Désir)

Um filme pequeno, mas bastante sensível sobre uma relação de atração, amor e desejo que se estabelece entre um rapaz de origem argelina e uma moça tunisiana recém-chegada a Paris. Ambos iniciam o curso de Letras e o filme destaca o foco de uma professora em tratar da poesia árabe antiga com forte carga sensual. Sofrendo com timidez e inexperiência, o rapaz por vezes se sente muito acuado diante da moça, muito mais destemida e sem grilos provocados por algum tipo de moralidade causada pela religião. Confesso que me identifiquei em alguns momentos com o rapaz, por conta de meu histórico de timidez. Além do mais, o fato de a história se passar em uma faculdade de Letras em boa parte do tempo também ajuda a acentuar a identificação. Gosto da tensão sexual que se cria entre os dois, dado o desejo de ambos perturbado pela insegurança do rapaz, o que acaba gerando um tipo de erotismo bastante sutil e bonito nas cenas de intimidade. A última cena de UMA HISTÓRIA DE AMOR E DESEJO (2021), inclusive, é a que mais justifica a janela em scope, que parece nascida para se filmar cenas de sexo na horizontal.

THE SOUVENIR - PART II

Depois dos eventos do primeiro filme, de 2019, a jovem protagonista Julie, uma estudante de cinema finalizando seu filme de conclusão de curso, precisa enfrentar os sentimentos conflitantes vindos do luto e da ausência de Anthony. Joanna Hogg aqui muda um pouco o estilo, trazendo vez por outra um ar documental e um pouco mais de leveza - afinal, de opressão já bastava o primeiro filme. Outro ponto positivo é mais tempo de tela de Tilda Swinton, que faz a atenciosa e preocupada mãe da protagonista (sua filha na vida real). Há uma cena que procura adentrar os infernos pessoais da vida de Julie que eu achei que poderia ser mais envolvente, mas acho que, do jeito que ficou, ajuda a trazer o filme para ares mais etéreos. Então, tá ótimo.

domingo, maio 15, 2022

O PESO DO TALENTO (The Unbearable Weight of Massive Talent)



Nicolas Cage é um ator singular. É cultuado pelos mesmos motivos que é rejeitado por uma classe de cinéfilos mais exigentes. Afinal, nos últimos anos – nas últimas décadas, eu diria –, ele tem acumulado muito trabalho. Com cerca de três a quatro filmes por ano, muitos desses filmes são sequer lembrados pela mídia, muitos deles indo parar direto no mercado de VOD. De vez em quando, aparece um ou outro que tem sido objeto de elogio da crítica, como MANDY – SEDE DE VINGANÇA (2018), PIG (2021) e A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019). Os dois primeiros eu ainda não vi e preciso colocar na minha lista de filmes para ver no futuro (próximo?).

Quanto aos filmes bem ruins, basta lembrar de coisas como REFÉNS (2011), O PACTO (2011), O RESGATE (2012), FÚRIA (2014) e O APOCALIPSE (2014), que, aliás, é um dos meus guilty pleasures com o ator, junto talvez com FÚRIA SOBRE RODAS (2011). Evitei citar filmes da década de 2000, pois há vários muito bons.

Quanto a O PESO DO TALENTO (2022), do quase estreante Tom Gormican, vejo como uma obra que tem uma premissa muito melhor do que o resultado. É coerente com a grande maioria dos filmes contracenados por Cage, em sua maioria escolhidos de qualquer jeito, sem muito rigor, ao sabor do que lhe é ofertado. Mesmo assim, o início do filme parece uma espécie de grito de liberdade de Cage, seja pelo fato de ele dizer que adora trabalhar muito, seja pela busca por projetos mais ambiciosos, como na cena em que ele conversa com o cineasta David Gordon Green – que já o dirigiu em JOE (2013).

O próprio momento em que os personagem de Cage e Pedro Pascal resolvem construir eles mesmos o filme a princípio roteirizado pelo fã (Pascal) é representativo dessa sensação de qualquer falta de rigor, embora eu não veja isso como um problema em si, uma vez que a direção saiba lidar muito bem com o improviso. 

Na trama, Cage interpreta a si mesmo – na verdade, uma persona que se confunde com ele. Frustrado por não obter um papel que julga importante, ele aceita comparecer à festa de aniversário de um homem bilionário que é seu fã, e que oferece um milhão de dólares apenas por sua presença. O que ele não sabe é que o tal homem pertence a uma família envolvida em sequestro e tráfico de drogas. 

Há alguns momentos divertidos, mas creio que são poucos, levando em consideração que o tom cômico predomina do início ao fim. Inclusive, imagino que não deve ser muito divertido para quem não entende as referências. Para quem entende, e tem um pouco de cinefilia no sangue, é legal ver o entusiasmo do personagem por O GABINETE DO DR. CALIGARI e a citação a PADDINGTON 2, como tanto um elemento de louvor ao filme, como uma piada que funciona bem.

O PESO DO TALENTO funciona um pouco como um filme sobre a construção de uma amizade entre dois homens de diferentes mundos. Mas nem tanto, já que o aspecto dramático – e isso inclui também as cenas de ação – fica prejudicado por um tom de comédia pouco eficiente. Como se o diretor não conseguisse ou não quisesse deixar entrar situações que poderiam render um belo espaço para outro tipo de emoção, explorando melhor a relação do personagem com sua família, por exemplo. Uma pena.

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INCOMPATÍVEL

Uma comédia romântica com aquele gostinho de produção feita há alguns anos, inclusive com as mesmas situações desconfortáveis e constrangedoras que são confundidas com declarações de amor, que se transformaram em fórmulas do gênero. Mas INCOMPATÍVEL (2022) tem o seu atrativo, e muito disso vem do carisma (e do sorriso) de Nathalia Dill, que infelizmente faz muito mais televisão do que cinema. E há também que se dar crédito ao protagonista, Gabriel Louchard, criador da série HOMENS? e que aqui está muito bem, principalmente a partir do momento em que seu personagem entra em contato com a youtuber vivida por Dill, a responsável pelo fim de seu casamento. Embora o filme trate de situações bem atuais, como a utilização de redes sociais como substituição da cachaça (ou como acréscimo a ela), o diretor Johnny Araújo, de bons filmes como DEPOIS DE TUDO (2015) e LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE (2017), que funcionaram como veículos para louvar o rock e o comportamento dos anos 1980 e 90, parece estar um pouco fora de seu ambiente natural nesta comédia mais contemporânea.

RIO DE VOZES

Documentário que aborda a vida de algumas pessoas que moram em cidades às margens do Rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco, RIO DE VOZES (2019), de Andrea Santana e Jean-Pierre Duret, é um filme que trata tanto do estado preocupante do rio do ponto de vista ecológico, quanto de algumas pessoas encontradas durante as filmagens e que foram escolhidas para ficarem no corte final, principalmente gente ligada à pesca. Esse tipo de documentário é muito dependente do acaso, mas tem a sorte de encontrar alguns personagens bem interessantes e acho até que termina com a dupla de melhores personagens aparecendo no momento mais poético: uma estudante e seu avô octogenário que trabalha na roça cantando uma antiga canção. É um filme contemplativo, na medida que também nos chama para olhar a beleza do rio, especialmente quando banhado pela luz do sol.

sábado, maio 14, 2022

GRITO DE HORROR (The Howling)



Uma coisa que senti falta durante um bom tempo foi apreciar um filme em mídia física e ter acesso a documentários sobre a produção e rever a obra com comentários em áudio do próprio diretor ou de algum historiador ou estudioso do assunto em questão. E com a mídia física passando a ser consumida apenas por um pequeno nicho de colecionadores, poucas pessoas tem aproveitado os filmes de maneira mais ampla, de modo que eles fiquem mais tempo em nossa memória. Afinal, ver esses extras ajudam a tornar a obra maior, ajuda-nos a valorizá-la ainda mais, saber de coisas impressionantes sobre a produção etc. Esse tipo de consumo é diferente do que se transformou hoje em dia o consumo em modalidade fast food: assistimos um filme, marcamos no Letterboxd e já vamos direto para o próximo. Isso é uma pena, embora eu compreenda o fenômeno diante da ascensão dos streamings e da popularização das redes sociais, inclusive as dedicadas ao cinema, como a já citada.

Agora, por exemplo, acabei de ver um dos extras de GRITO DE HORROR (1981), o clássico filme de lobisomem de Joe Dante, e fiquei sabendo detalhes sobre a produção das sequências. Nem sabia que foram feitas tantas sequências, a maioria delas indo direto para o mercado de vídeo. Mas falemos do filme que importa.

Vi GRITO DE HORROR pela primeira vez nos anos 1990, em VHS. E na época nem gostei muito, talvez por esperar algo diferente ou por ele ser muito celebrado pela crítica da revista SET (era um dos destaques daquelas fichas de cinema e vídeo, e o cartaz é de fato muito bonito). Revendo em um Blu-Ray belíssimo, cópia restaurada lançada pela Versátil, com som 5.1. que valoriza a música de Pino Donaggio, e também podendo perceber a inventividade tanto da trama quanto dos efeitos de maquiagem, claro que percebi o quanto se trata de uma das obras mais importantes de horror já feitas. Certamente um top 5 do subgênero “filme de lobisomem”.

Ter sido lançado no mesmo ano de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis, que tem efeitos mais impressionantes e um senso de humor muito próprio, pode ter tirado um pouco do brilho do filme de Dante, mas nota-se que aqui a intenção é outra, que o senso de humor é mais pontual, que as homenagens a outros filmes e mestres do cinema são mais presentes, e, principalmente, a trama na cidade do interior funciona muito bem e reserva surpresas no final, e isso só depõe a favor deste clássico. Além do mais, há uma belíssima exploração da sensualidade que tem tudo a ver com libertar os seus instintos mais primitivos e selvagens.

Logo de início, já percebemos que GRITO DE HORROR é um filme diferente. Ele começa com uma situação tensa em que Karen White, uma repórter de televisão vivida por Dee Wallace, está usando escutas para se encontrar com um serial killer nos fundos de uma videolocadora pornô. O cenário é bastante urbano e a ótima montagem mostra tanto a preocupação de seus colegas de profissão, quanto seu receio diante da situação inédita para uma âncora de telejornal. E a cena com o tal homem é bem marcante, feita de modo que não vemos o sujeito. Apenas ela o vê e fica tão traumatizada que sua memória daquele momento desaparece.

A história ganha ares mais próximos dos tradicionais filmes de lobisomem, que geralmente se passam em ambientes rurais, quando o médico de Karen a incentiva a passar uma temporada num resort isolado conhecido como “Colônia”. Acontece que aquele ambiente é habitado por uma espécie de sociedade de lobisomens. E eu não sei o quanto isso é um spoiler, já que o filme tem mais de 40 anos de idade, mas acredito que o mais importante da narrativa não está tanto assim na trama, mas no modo criativo com que Joe Dante nos leva por caminhos tortuosos.

Dante, na época, era um diretor jovem, que só tinha um sucesso de bilheteria, PIRANHA (1978). Com GRITO DE HORROR ele se tornaria um dos mestres do cinema de horror do período, passando a ser também um dos protegidos de Steven Spielberg, que seria produtor executivo do sucesso GREMLINS (1984). Sem falar que Spielberg gostou tanto de Dee Wallace que a levou para interpretar um papel importante em E.T. – O EXTRATERRESTRE.

Um dos grandes chamarizes de GRITO DE HORROR é oferecer uma das mais impressionantes e longas cenas de transformação. Mesmo com a frequente comparação com a cena de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, a maneira criativa com que o discípulo de Rick Baker, Rob Bottin, elabora o efeito é louvável. Ele deixa o filme com um ar de produção que transita entre o baixo orçamento e a produção mais cara. Inclusive, Bottin se tornaria tão grande quanto Baker, tendo trabalhado em efeitos visuais e de maquiagem de obras importantes e de primeiro escalão, como O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO e O VINGADOR DO FUTURO. Além da cena da longa transformação, destaco algumas outras bem memoráveis, como a cena do ataque do lobisomem a Belinda Balaski no arquivo da polícia ou a dos lobisomens atacando o carro de Karen. Dante não queria fazer um lobisomem parecido com um lobo, com as quatro patas no chão, nem usar a velha técnica de um homem cheio de pelo, como no clássico O LOBISOMEM, de George Waggner, filme aliás homenageado de diversas maneiras em GRITO DE HORROR. O resultado ficou fantástico, parecendo uma variação da fábula do Lobo Mau. 

O filme de Dante também se destaca por ter um roteiro simples, mas muito bem elaborado, graças à contribuição de John Sayles, hoje muito mais lembrado pela direção de dramas sofisticados. Sayles e Dante optaram por deixar de lado o livro no qual ele se baseia, por não achar suficientemente bom, e mudar quase tudo. O livro só seria adaptado de maneira fiel na terceira sequência do filme, GRITO DE HORROR 4 – UM ARREPIO NA NOITE (1988), lançado direto em vídeo.

No mais, deixem eu ir ali terminar de ver os extras do box.

+ DOIS FILMES

O TERCEIRO OLHO (Il Terzo Occhio)

A influência de PSICOSE se mostrando bastante explícita neste horror gótico (mas contemporâneo) produzido na Itália e com o astro Franco Nero no mesmo ano que ele seria celebrado pelo papel de Django. Em O TERCEIRO OLHO (1966), de Mino Guerrini, ele interpreta um conde que curte uma taxidermia e que enlouquece depois que perde a noiva num acidente de carro – ou será que ele já tinha tendências psicóticas antes disso?. A grande vilã da história, porém, é a governanta, uma mulher que sente atração pelo conde e está disposta a fazer de tudo para conseguir o que deseja. A cópia está avariada em algumas passagens, mas ainda considero muita sorte de que sejam passagens pequenas. Imagina só se os filmes brasileiros que só encontramos em cópias lastimáveis de repente aparecessem com cópias em sua maioria com qualidade decente como esta, hein? Que lindo que seria... Filme disponível no box Obras-Primas do Cinema – Gótico Italiano Vol. 2.

CROCODILOS - A MORTE TE ESPERA (Black Water: Abyss)

Interessante o caso de Andrew Traucki, um especialista em filmes de tubarões e crocodilos. Depois de MEDO PROFUNDO (2007), ele volta com os crocodilos em CROCODILOS - A MORTE TE ESPERA (2020) e faz um suspense muito bem executado e cheio de tensão, que se passa em sua maior parte dentro de uma caverna. Como o crocodilo fica quase sempre no escuro, percebe-se que isso funciona muito bem para economia no orçamento. Na trama, cinco amigos vão parar em uma caverna inexplorada no norte da Austrália. Quando uma tempestade começa a alagar o lugar, eles se veem num mato sem cachorro. Ou numa caverna com um crocodilo, melhor dizendo. O filme tem a capacidade de nos fazer torcer pelos personagens, mesmo sem aprofundar muito suas personalidades. E olha que já comecei a vê-lo me perguntando qual dos cinco morreria primeiro.

domingo, maio 08, 2022

DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (Doctor Strange in the Multiverse of Madness)



Há que se louvar o modo como Kevin Feige trouxe um personagem pouco conhecido do grande público como o Doutor Estranho e o transformou no herói responsável pelas ações mais importantes em filmes-evento da Marvel, como VINGADORES – GUERRA INFINITA (2018), VINGADORES – ULTIMATO (2019) e mais recentemente HOMEM-ARANHA – SEM VOLTA PARA CASA (2021). Sua história de origem, em DOUTOR ESTRANHO (2016), de Scott Derrickson, foi também acertada, inclusive para estabelecer o tom do personagem em sua versão para o cinema, auxiliada pela escalação de um grande ator como Benedict Cumberbatch. Ou seja, há uma série de acertos incríveis se pensarmos na jornada do MCU desde HOMEM DE FERRO.

Hoje podemos nos dar ao luxo de reclamar desses filmes, que até tempos atrás, só pelo fato de existirem como produções classe A, já poderiam ser vistas como milagres pelos fãs de longa data da Casa das Ideias. Agora que esses filmes de super-heróis estão quase deixando de ser subcategorias e se tornando um gênero à parte, podemos tranquilamente criticá-los. Até por ter muito dinheiro envolvido e muita expectativa por parte dos fãs. Isso gera uma demanda de energia considerável, não apenas para os espectadores, mas por geradores de conteúdo desse tipo de produto.

Uma das coisas de que mais se costuma reclamar é que a grande maioria – talvez todos? – desses filmes da Marvel seguem uma fórmula estabelecida por seu produtor. Ou seja, não há muito espaço para que os diretores façam filmes verdadeiramente autorais nesse esquema. Mas, ao que parece, Sam Raimi conseguiu “furar a bolha” dessa fórmula. Mesmo com um roteiro que precisa andar na linha e que deve ser tanto veículo de chegada quanto de saída de filmes e séries, Raimi imprime sua marca de cineasta cujas origens vêm do cinema de horror. Por mais que ele tenha já entrado na seara dos filmes de super-heróis desde DARKMAN – VINGANÇA SEM ROSTO (1990) e depois nos três primeiros filmes do Homem-Aranha (2002, 2004, 2007), ele ainda é mais lembrado pela lendária trilogia EVIL DEAD (1981, 1987, 1992).

Em DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (2022), a trama é talvez o maior problema, já que é novamente a história de um homem com uma missão, que muito se assemelha a um videogame, RPG ou coisa parecida. Apesar disso, o roteiro de Michael Waldron, o idealizador da série LOKI (2021), tem também seus méritos, principalmente quando trata de situações de arrependimento, da parte de Stephen Strange, ou de dor da ausência, da parte de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen). Mesmo assim, a escolha de Waldron para a função de roteirista do filme me parece mais coerente com a questão envolvendo o multiverso, já bastante trabalhada na primeira temporada da série do deus da mentira.

Ver o filme em 3D, por mais que tenha sido desconfortável – foi a primeira vez desde o início da pandemia –, tem lá o seu charme, até porque há muitos efeitos visuais explorados. Sacrifica-se as cores em prol dos efeitos. Sacrifica-se um pouco mais de conforto em prol do espetáculo. Sem falar que os óculos tornam a imagem mais escura, acentuando o clima sombrio que o filme propõe. E por sombrio, temos o que podemos chamar de mais próximo que uma produção da Marvel chegou de cinema de horror. É possível dizer que é um mix de horror com aventura, por mais que o horror seja atenuado para não assustar o público. Ainda assim, acredito que algumas pessoas que evitam o gênero podem se sentir desconfortáveis.

O filme começa com Stephen Strange acordando de um sonho – na verdade, algo que está acontecendo em uma realidade paralela – e indo ao casamento de sua ex-namorada Christine (Rachel McAdams). Ainda sentindo amor por ela, Strange lamenta tê-la perdido, lamenta que as coisas não tenham saído como ele gostaria. Logo, porém, o filme parte para a ação, quando o bairro é invadido por um monstro verde de tentáculos atacando uma adolescente, America Chavez (Xochitl Gomez), que tem o poder de abrir janelas para universos alternativos.

America é a jovem que o nosso querido mestre das artes místicas havia visto em seu sonho. A cena funciona tanto para trazer movimento para o filme quanto para servir como ponto de partida para o que virá: a menina precisa de ajuda e Strange acha que poderá encontrar ajuda em Wanda. Acontece que Wanda, perturbada com a ausência dos filhos que ela criara com seu poder de manipulação da realidade – como visto em WANDAVISION (2021) –, chegara ao ponto de se contaminar com as energias negativas do Darkhoud, um livro demoníaco, por assim dizer. E ela vê America como um meio de chegar até o universo onde ela tem a sorte de ser a mãe dos dois gêmeos.

No meio disso tudo, Raimi brinca com distorções visuais, com referências a filmes como A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO, de Jack Arnold, e CARRIE, A ESTRANHA, de Brian De Palma, além do próprio EVIL DEAD. Afinal, o tal Darkhoud nada mais é do que uma versão da Marvel para o Necronomicon.

Finalizando, fico feliz que a fonte de inspiração dos quadrinhos ainda não tenha secado. Há coisas emprestadas da fase de Brian Michael Bendis no título dos Vingadores, como os Illuminati, ou da fase de Jason Aaron no título do Doutor Estranho. E há também coisas que são pensadas para o futuro dos filmes da Marvel, como a personagem da jovem America Chavez, que provavelmente integrará a formação dos Jovens Vingadores. O futuro da Marvel no cinema parece ainda longo.  

+ DOIS FILMES

A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO (It Came from Outer Space)

Sci-fi essencial realizada nos anos de ouro do gênero. Fiquei encantado com a inventividade de A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO (1953), de como Jack Arnold (O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, 1957) traz um visual muito interessante para os alienígenas e das cenas que mostram o ponto de vista do invasor quando ataca as pessoas. O filme tem uma beleza plástica que já encanta nos primeiros minutos. Na trama, um astrônomo e sua namorada, uma professora de escola, veem o que parece ser um meteoro caindo no deserto do Arizona. Ele vai até lá e enxerga algo parecido com uma nave, mas ninguém da cidade acredita nele. As coisas mudam quando algumas pessoas começam a desaparecer. Gosto muito da Barbara Rush, presente na obra-prima DELÍRIO DE LOUCURA, de Nicholas Ray. Ela tem um visual e um carisma encantadores. Engraçado que até coisas que ficaram datadas, como o exagero dos gritos, hoje parecem um recurso extremamente charmoso. Preciso ver e estudar mais as produções dessa época. Presente no box Clássicos Sci-Fi.

O JOVEM LOBISOMEM (Full Moon High)

Muito curioso esse início dos anos 1980 e a febre de filmes de lobisomem que voltou com força nessa época. Mas se esses filmes, os por assim dizer mais dramáticos, já tinham uma carga cômica e autoconsciente, como é o caso dos principais do mesmo ano, GRITO DE HORROR e UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, um filme como O JOVEM LOBISOMEM (1981), que se assume explicitamente como comédia, acaba correndo o risco de forçar o riso e não conseguir obtê-lo do espectador. Claro que há aquele charme típico de produções que hoje chamam de trash ou exploitation, mas não sei se é bem o caso deste filme de Cohen, um mestre do cinema de gênero de baixo orçamento. Na trama, jovem viaja para a Romênia e é mordido por um lobisomem na década de 1960. Após beliscar um sem número de garotas em sua cidade (para manter o clima leve, não há mortes ou mesmo sangue), ele foge de lá e só retorna, ainda jovem, 20 anos depois, para reencontrar tanto uma nova geração quanto pessoas que o conheceram antes. Um barato os efeitos cuidadosamente toscos. Gosto especialmente do visual do lobisomem que o ataca na Romênia. Filme presente no box Lobisomens no Cinema 3.

sexta-feira, maio 06, 2022

A MESMA PARTE DE UM HOMEM



Lamento não estar conseguindo passar para o blog as reflexões que grande parte dos filmes merecem ter. Tentar pensar neles de maneira mais aprofundada é muito importante para mim, para que eles se mantenham mais presentes e não se dissipem tão rapidamente da memória. Assim, há muitos filmes que eu julgo importantes e valiosos e que acabam não ganhando um texto só dele pelo simples fato de o tempo, o trabalho e o volume de energia que me é tomado acabam por provocar um cansaço físico e mental que torna quase impossível me sentar à frente do computador e pensar no filme da forma que ele merece. Além do mais, nos últimos anos (cerca de seis ou sete anos, acho), tenho valorizado mais o tempo destinado ao sono reparador.

Aproveitando este momento mais ou menos livre, então, falemos de um dos melhores filmes brasileiros que tive a honra de ver neste ano, A MESMA PARTE DE UM HOMEM (2021), de Anna Johann. No filme, a diretora constrói um clima de tensão pautado bastante no som e muitas vezes nos close-ups e no modo como esse recurso também pode ser usado para intensificar nosso desconhecimento do que está fora da tela. O roteiro, assinado por Johann e Alana Rodrigues, é engenhoso em construir a trama, os diálogos e as situações que enriquecem o jogo entre os três personagens principais.

Na história, a rotina de duas mulheres, mãe (Clarissa Kiste, de FERRUGEM) e filha adolescente (Laís Cristina, da minissérie FORA DE SÉRIE), é mudada a partir do momento em que elas acolhem um homem desmemoriado (Irandhir Santos, desnecessário citar filmes com ele), após o desaparecimento/morte do marido/pai. Até que ponto aquele homem estranho pode ser um perigo para elas e até que ponto elas podem tirar vantagem de ter um homem dentro de um ambiente rural hostil? Ao mesmo tempo, o personagem masculino vai se tornando mais à vontade naquele ambiente de duas mulheres que se mostram atraídas por ele. E a brincadeira de ambiguidade começa a ficar mais interessante e carregada de tensão à medida que fazemos certos questionamentos sobre o que os personagens fazem ou pensam.

Johann, que tinha experiência na direção apenas com documentários até então, parece se sentir muito à vontade no território da ficção. O filme foi exibido em Tiradentes e depois também na Mostra de São Paulo, mas ver no cinema faz toda a diferença. Vi na gloriosa sala 2 do Cinema do Dragão e pude apreciar a obra da melhor maneira possível, com o som e a imagem tendo sua força amplificados. E falando em imagem, a fotografia de Hellen Braga (MÃES DO DERICK) é essencial para a apreciação do que vemos, com um trabalho de luz muito coerente com o mostrar e o esconder, e também na valorização tanto dos espaços interiores quanto da paisagem linda do interior do Paraná.

Uma das coisas que valorizo muito no filme é que o que há de terror e suspense no filme é tão sutil que faz com que o que acontece com os personagens deixe de ser uma diversão e se torne uma preocupação. Um dos melhores exemplos é a cena em que o personagem de Irandhir está sozinho no mato com a personagem de Laís. Ela está caçando com ele. E o personagem masculino, a certa altura, já estava muito consciente de seu papel naquele jogo de manipulação, mas nós, enquanto espectadores, temíamos pela jovem. É uma cena que, à parte, pode não ser tão tensa, mas dentro do conjunto faz toda a diferença. Eis um filme que quanto mais eu penso nele, mais eu gosto.    

+ DOIS FILMES

ALEMÃO 2

Ainda que goste do primeiro filme, de 2014, não estava tão confiante que José Eduardo Belmonte conseguiria fazer uma continuação depois de oito anos e com novos personagens. Na verdade, parte da força do novo (e melhor) filme está justamente nesses novos personagens, principalmente os três policiais que chegam na linha de frente para executar a missão de trazer o novo chefão do crime do complexo. Em ALEMÃO 2 (2022), os policiais são interpretados por Vladimir Brichta (que sofre ataques de pânico com frequência), a novata vivida por Leandra Leal e o jovem policial com pinta de fascista vivido por Gabriel Leone. Ou seja, temos um trio de atores excelente e de fato eles mandam muito bem nos momentos de tensão que o filme traz do começo ao fim. Quase não há momentos para respiro, e quando há, ainda somos brindados com cenas brilhantes, como a participação de Zezé Motta (que mulher fantástica!) e a conversa do personagem de Brichta com o chefe do crime (Digão Ribeiro) numa farmácia. Mesmo as cenas fora da favela, na sede da polícia, são muito melhores em comparação com as do primeiro filme, e há também o arco do jovem policial militar Bento (Dan Ferreira) com a sobrevivente do primeiro filme, Mariana (Mariana Nunes). Além do mais, diferente do primeiro, que parecia uma obra quase tímida em fazer uma crítica à instituição, essa tem uma posição mais crítica desde o início. E ouvir "O Que Sobrou do Céu" com uma imagem de arquivo chega a ser bem doloroso.

VALENTINA

É bom ver que é possível encontrar na Netflix um filme brasileiro que não apenas seja representativo da causa LGBTQI+, mas que também é de dar gosto de ver, com narrativa bem contada e personagens carismáticos. Na trama de VALENTINA (2020), de Cássio Pereira dos Santos, acompanhamos uma menina trans de 17 anos que encontra dificuldade de se matricular na escola de uma cidade do interior de Minas Gerais. Ela e a mãe já estavam se mudando por causa da violência que a garota vinha sofrendo em outra cidade. Novos ares podem ser a esperança para uma nova vida, em que ela pode ter a liberdade e a tranquilidade para ser quem deseja ser. A atriz que faz a personagem-título (Thiessa Woinbackk) é muito boa e a história se encaminha para situações que tanto evidenciam um tipo de roteiro mais tradicional, como também se mostra preocupado em apresentar detalhes do cotidiano da jovem, que ainda são obstáculos, como a cena da entrada na festa, por exemplo.

domingo, maio 01, 2022

SCHOCK



Um dos eventos mais importantes da minha vida – e que culminou com a criação deste blog – foi a minha entrada na lista de discussão Cannibal Holocaust, criada pelo amigo Carlos Thomaz Albornoz, um entusiasta de filmes de horror europeus. Naquela época, maio de 2001 em diante, eu sequer sabia da existência de dois mestres do cinema de horror italiano, Mario Bava e Lucio Fulci. Dario Argento, o outro membro da “santíssima trindade”, havia furado a minha bolha e aparecido na revista SET, até então um dos poucos veículos para minha formação cinéfila – lembro que quando TERROR NA ÓPERA foi lançado nos cinemas houve uma repercussão bem positiva por parte da crítica da revista.

Uma pena, porém, que a crítica da época do lançamento dos filmes de Bava nos cinemas, mesmo a estrangeira (americana, francesa e mesmo a italiana), não tenha louvado em vida a genialidade do diretor, o maior e mais influente dos três cineastas citados. Ontem, por ocasião de um curso sobre o grande mestre do horror italiano, ministrado por Fernando Brito, resolvi pegar um filme do cineasta ainda inédito por mim, por mais que na verdade eu precise rever todos os demais, inclusive os mais famosos e importantes. Mas gostei muito de ter visto SCHOCK (1977), seu último trabalho na direção, quando ele já passava o bastão para o filho Lamberto Bava, que dirigiu algumas cenas, foi um dos roteiristas e teve a solução para vários efeitos visuais, inclusive o mais famoso, o da criança correndo para os braços da mãe.

Gosto muito de como SCHOCK é tanto um filme de horror de fantasma quanto uma história sangrenta de assassinato, de como lembra um filme americano, mas sem deixar de parecer italiano. Na verdade, a história poderia se passar em qualquer lugar. Na trama, Daria Nicolodi é uma mulher que começa a ficar bastante perturbada com o comportamento do filho pequeno. A narrativa é cadenciada e o horror começa de maneira quase sutil. Algumas coisas só são ditas aos poucos, como um detalhe ou outro sobre o primeiro marido da protagonista, que supostamente teria se suicidado por causa do vício em drogas. Ao falar sobre o pai, não mais presente, o menino pergunta à mãe: o que é estar morto? Ela responde com carinho que é nunca mais podermos ver a pessoa novamente.

A primeira metade do filme tem uma força grande pois se apoia mais em um horror psicológico e fornece as bases para todo o desenvolvimento. Assim, quando o filho tenta imitar os gestos do companheiro da mãe fazendo sexo com ela em uma das primeiras cenas, isso sim é perturbador e incômodo. Ou quando o menino a ameaça de morte com aquela cara de ódio, ao vê-la beijando o segundo marido em uma festa. Esse segundo marido, um piloto de avião comercial, também parece um sujeito suspeito, já que coloca gotas de um remédio na água da personagem. Estaria ele a ajudando ou a envenenando? Como sabemos que ela passou um tempo internada em uma clínica psiquiátrica depois da morte do marido, seguramos essa informação, embora ela seja ainda insuficiente para nós.

Esse tipo de incerteza contribui para que fiquemos em um estado próximo ao da protagonista, que já não sabe mais o que está acontecendo. Estaria ela sendo assombrada pelo espírito do falecido? O que é aquela mão putrefata que aparece em suas visões com frequência? O tal fantasma teria possuído o corpo do filho, a exemplo do que acontece em OS INOCENTES, de Jack Clayton? E o principal, no terço final: ela teria alguma culpa direta na morte do marido? O filme demora um pouco para responder a essas perguntas e nos instantes finais brica com efeitos visuais que enfatizam o ataque sobrenatural a uma mulher fragilizada psicologicamente.

Mas é curioso eu falar disso sem mencionar o visual, os cuidados plásticos, que são a principal característica dos filmes de Bava, desde sua estreia solo, com A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO (1960). Não vi na cópia em BluRay, lançada lá fora apenas neste ano pela Arrow (com comentários em áudio de Tim Lucas!), mas na cópia em DVD presente no box Obras-Primas do Terror 4. Já é possível ver que aqui não há um visual tão deslumbrante quanto em outros trabalhos do mestre. O que não quer dizer que não tenha uma fotografia muito interessante, com os efeitos visuais que ajudam a nos colocar dentro do inferno mental da protagonista, especialmente quando ela sonha ou parece estar em um estado de confusão mental provocada por alucinações.

No que se refere ao que poderíamos chamar de uma evolução do cinema de Bava, houve também uma busca dos produtores de SCHOCK de aproveitar o sucesso dos filmes de Dario Argento e trazer uma banda de rock progressivo para fazer a trilha sonora. A banda Libra causa uma boa impressão e ajuda a trazer empolgação para as cenas mais movimentadas.

Enfim, não deixa de ser uma alegria que, mesmo passados vários anos da morte do autor, em 1980, esse processo de descoberta de Bava pelas novas gerações continue aumentando, principalmente a partir da maior acessibilidade que a internet trouxe.

+ DOIS FILMES

DUAS MULHERES (La Ciociara)

Belo e tocante melodrama do grande Vittorio De Sica. Talvez, junto com LADRÕES DE BICICLETA (1948), seja seu filme mais popular, tendo conquistado até o Oscar de atriz para Sophia Loren, que já havia ganhado o prêmio de atriz em Cannes). Ela de fato está deslumbrante e entrega uma interpretação comovente. O fato de DUAS MULHERES (1960) se passar durante a Segunda Guerra na Itália, quando tudo era muito difícil e o país estava devastado, acentua a carga dramática. Na trama, Loren é uma viúva que deixa Roma com sua filha adolescente e vai para o campo, a fim de evitar os bombardeios. O filme se detém bastante no relacionamento que elas têm com os camponeses, principalmente com o personagem de Jean-Paul Belmondo, que faz um intelectual antifascista. Achei a cena mais dramática do filme mais tensa e incômoda do que esperava e o final é muito bonito. Melancolicamente bonito.

NEGÓCIO À ITALIANA (Il Boom)

Tem sido uma maravilha poder conhecer melhor a obra de De Sica, que vai muito além de LADRÕES DE BICICLETA e UMBERTO D. (1952). Em NEGÓCIO À ITALIANA (1963), tive contato com uma excelente comédia social que apresenta uma Itália bem diferente do momento imediatamente pós-Segunda Guerra, tão explorado nos melodramas do cineasta. Dado o drama do personagem, o registro poderia ser dramático, mas me pareceu muito acertado ter optado pelo cômico. Alberto Sordi faz o papel de um sujeito brincalhão, casado com uma mulher linda e que frequenta os ambientes da alta sociedade romana. O problema é que ele está gastando mais do que devia e está completamente arruinado, e sem ninguém que o ajude. Melhor não contar mais para não estragar as surpresas. Grande cena (entre tantas): a festa que o protagonista dá para seus amigos burgueses.

quarta-feira, abril 27, 2022

PEQUENA MAMÃE (Petite Maman)



Acho curioso como eu, que tenho tantas memórias afetivas e/ou complexas da infância e até hoje as levo para o divã, tenho uma relação um pouco estranha com filmes protagonizados por crianças. Fico me perguntando o motivo de muitos deles me fazerem dormir ou não me despertarem tanto o encanto. Claro que há casos e casos e alguns exemplares me trazem mais atenção (VENENO PARA AS FADAS, de Carlos Enrique Taboada; OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut; O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo del Toro; ABC DO AMOR, de Mark Levin; ou o maravilhoso ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO?, de Abbas Kiarostami; entre outros). Sei que colocar isso num mesmo balaio é injusto, mas acontece e é algo que eu vivo me perguntando por que acontece.

PEQUENA MAMÃE (2021) não chegou a me causar sono, não, mas digamos que, depois do entusiasmo e do encantamento que eu senti com RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (2019), o novo filme de Céline Sciamma não me trouxe tanta alegria. Claro que são filmes e propostas muito diferentes e eu mesmo não tenho conhecimento suficiente da poética da cineasta para buscar muitos elos entre os dois filmes e outros dois que vi vários anos atrás. De todo modo, é possível perceber sua sensibilidade ao tratar de relações entre mulheres, seja de natureza romântica, familiar ou entre amigas.

É também preciso compreender o momento da gestação de PEQUENA MAMÃE, que foi durante a pandemia. E isso fica claro de notar na economia do elenco (e muito provavelmente da equipe de filmagem) e da grande quantidade de cenas em espaços abertos e distantes de uma cidade grande. Na trama, a pequena Nelly (Joséphine Sanz) sofre o luto da morte muito recente da avó e lamenta o fato de não ter conseguido dizer adeus a ela. Logo uma pessoa que ela tanto amava. Ao mesmo tempo, ela tem percebido o distanciamento físico de sua mãe, que está passando por uma situação provável de separação ou crise no casamento. Não sabemos o que está havendo também, pois nosso olhar se limita ao olhar de Nelly.

Algo mágico ou fantasioso acontece quando Nelly está na casa de campo da avó: ela tem contato com uma menina da sua idade, que é na verdade a sua própria mãe, vivida pela irmã de Joséphine Lanz, Gabrielle – as duas meninas são tão parecidas que senti dificuldade de definir quem era quem. Esse encontro, além de fantástico, pois funciona como uma máquina do tempo, é uma maneira de Nelly entrar em contato de modo mais próximo com a mãe, agora com sua idade e ainda muito inquieta com o próprio futuro, mesmo sendo tão jovem. É também a oportunidade de Nelly conversar com a avó, que a recebe com carinho como a nova amiguinha da filha.

Algumas religiões espiritualistas dizem que nossas famílias são geralmente compostas por revezamento de funções, por assim dizer. Se nesta vida reencarnamos como filhos, no passado poderíamos ter sido pais ou irmãos uns dos outros, e isso vale para o futuro também. Eu acho essa ideia muito simpática e PEQUENA MAMÃE meio que materializa uma possibilidade que não acontece na relação mãe-filha, por exemplo: de haver um tipo de relacionamento entre pares, em vez de uma relação de autoridade ou de uma menor aproximação pelo simples fato de que essa relação é entre adulto e criança.

Sciamma repete a parceria com a diretora de fotografia Claire Mathon, a mesma de RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS, mas que também fez trabalhos muito distintos e muito especiais em obras como UM ESTRANHO NO LAGO, de Alain Guiraudie, e SPENCER, de Pablo Larraín. Em PEQUENA MAMÃE, o trabalho de Mathon traz cores leves que fundem uma melancolia até própria do período em que o filme foi realizado com uma sutil alegria do encontro de Nelly com a versão mirim de sua mãe.

PEQUENA MAMÃE é um filme modesto e que foi recebido com pouco alarde dentro do circuito alternativo, principalmente levando em consideração o filme anterior da cineasta, eleito o melhor do ano por várias associações de críticos no Brasil e no mundo. Mas, de todo modo, não é um filme que procura chamar tanta atenção para si, é um filme que parece se esconder para ser encontrado por uma plateia menor e merecedora.

+ DOIS FILMES

FLEE - NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR (Flugt)

Chega com algum atraso nos cinemas este documentário realizado no curioso formato de animação, o que traz um forte acento ficcional para ele. Curiosamente, uma animação que também tratava de personagens afegãos, o excelente OS OLHOS DE CABUL, me pareceu trazer mais verdade e realidade do que esta produção indicada triplamente ao Oscar. Confesso que posso incluir FLEE - NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR (2021), de Jonas Poher Rasmussen, como mais uma animação que me fez cochilar, mas tenho que reconhecer suas qualidades, como a questão da falta de pertencimento do protagonista, tanto no que se refere às suas erranças por conta da fuga de seu país natal, quanto por causa de sua orientação sexual, que a princípio o deixou muito confuso.

HYPNOTIC

A Netflix e outros serviços de streaming vêm fazendo o que pequenas companhias faziam na era das locadoras e, antes disso, na era dos filmes produzidos para a televisão. A maioria desses filmes são pouco confiáveis, mas alguns chamam a atenção por outros motivos, seja pelo elenco (me atraiu a presença de Kate Siegel), seja pelo tema e a trama (no caso, o uso da hipnose me atrai). Este HYPNOTIC (2021), de Matt Angel e Suzanne Coote, lembra bastante os thrillers veiculados no Supercine, com clichês manjados e uma história que tem seus momentos. Na trama, a protagonista tem alguns problemas de ansiedade e visita um psicanalista, que sugere a hipnose. O interessante do filme é perceber como ele lida com questões contemporâneas, relativas a abuso psicológico, a partir de uma trama de suspense e mistério. Às vezes funciona, mas muito por causa da Siegel, que, se não me engano, só tem encontrado bons filmes quando trabalha com o marido, Mike Flanagan.

sábado, abril 23, 2022

CIDADE PERDIDA (The Lost City)



Acho que meu amor e minha admiração por Sandra Bullock começaram até que de maneira um pouco tardia, já que na época que a vi em VELOCIDADE MÁXIMA (1994) eu não a enxerguei tanto assim, embora tenha gostado bastante do filme, visto sob efeito de uma boa dose de suco de guaraná no Cine Diogo – bons tempos aqueles. Mas eis que, em seguida, a vi (em VHS) no drama romântico ENQUANTO VOCÊ DORMIA (1995) e já tive uma outra percepção. É um filme muito mais fácil de chamar atenção para ela.

E Bullock acertou em cheio quando se mostrou muito talentosa para a comédia, em filmes como FORÇAS DO DESTINO (1999), MISS SIMPATIA (2000) e AMOR À SEGUNDA VISTA (2002). E ela ainda venceu a barreira do preconceito com a idade em Hollywood quando continuou a brilhar em comédias românticas, como foi o caso de A PROPOSTA (2009). Ou em comédias “não-românticas”, por assim dizer, como AS BEM-ARMADAS (2013) e OITO MULHERES E UM SEGREDO (2018). E eu nem citei os dramas bem-sucedidos que ela fez nesse ínterim, que são vários (e alguns maravilhosos), mas porque o foco aqui é lembrar da comédia mesmo, do quanto seu timing é acertado para esse tipo de registro.

E eis que chegamos à nova comédia estrelada pela nossa querida estrela, CIDADE PERDIDA (2022), dirigida pelos irmãos Aaron e Adam Nee, cineastas até então bem pouco conhecidos e vindos de produções pequenas. Acho que o melhor elogio que eu posso fazer ao filme é dizer que não tenho recordação de quando foi a última vez que eu ri tanto no cinema. Foi provavelmente com O ESQUADRÃO SUICIDA, mas o riso vinha de outra maneira, provocado por um pouco de sadismo com a violência gráfica.

Neste filme em que Bullock contracena com Channing Tatum, outro ator muito bom no registro cômico, os risos são mais inocentes, mais relaxados. Aliás, toda a experiência de CIDADE PERDIDA se dá pelo se relaxar e se divertir com situações tão bobas quanto inteligentes em sua construção, como é o caso de cada cena envolvendo o personagem de Brad Pitt – da primeira à última aparição do personagem de Pitt, ele brilha.

Quanto a Sandra, ela está muito à vontade no papel e mostra que talvez ainda seja a rainha das comédias em Hollywood. Na trama, como uma escritora de romances baratos (mas lucrativos) de aventura, ela e o modelo da capa de seus livros (Tatum) vão parar em uma ilha desconhecida e perigosa (inclusive com um vulcão em erupção), depois que ela é raptada por um bilionário excêntrico (Daniel Radcliff). O filme tem espaço para algum romantismo, mas sempre associado ao riso e à comédia (vide a cena da rede) e para a ação.

Curiosamente, nos últimos tempos eu tenho tido bem pouca paciência para esse tipo de aventura que se passa em lugares exóticos (talvez pelo excesso de CGI nas paisagens e nos efeitos usados atualmente), mas temos que lembrar que o apelo popular desse tipo de filme já remonta à época do cinema mudo. No ano passado mesmo, acabei vendo o trabalho que Fritz Lang fez nesse gênero, em momentos distintos de sua carreira, como as duas partes de AS ARANHAS e a dupla de filmes O TIGRE DA ÍNDIA e O SEPULCRO INDIANO. E isso aconteceu porque havia um tipo de pulp fiction que era bastante consumida antes mesmo do advento do cinema.

Sobre CIDADE PERDIDA, o filme tem sido bastante comparado a TUDO POR UMA ESMERALDA, de Robert Zemeckis, a aventura oitentista que vi na televisão na aurora da minha cinefilia e de que tenho pouca lembrança – mas creio que ainda deva permanecer um ótimo filme, dado o talento do diretor. E basta pegarmos a sinopse para ver coisas em comum, como o fato de ambas as protagonistas femininas (Bullock aqui e Kathleen Turner no filme de Zemeckis) serem romancistas e irem parar em lugares selvagens em situações perigosas e descobrindo o amor naquele ambiente inóspito.

E eu nem sei afirmar (ainda?) se CIDADE PERDIDA é fruto de um trabalho de mestres do cinema ainda pouco reconhecidos e que ainda se farão perceber como tais – assim como Zemeckis já era considerado um mestre em sua época, mesmo que sob a asas de Spielberg. O fato é que o filme estrelado por Bullock deve muito de sua força à presença da atriz e por isso resolvi dedicar o texto a ela, principalmente. Afinal, o que seria de Hollywood sem o carisma de suas estrelas?

+ DOIS CURTAS

PREMONITION FOLLOWING AN EVIL DEED

O curta de apenas um minuto que David Lynch fez para o projeto que celebrou os 100 anos do cinema (LUMIÈRE E COMPANHIA) possui imagens tão fascinantes que ficamos na torcida para que um dia o cineasta resolva transformá-las em um longa, ou pelo menos em um curta mais longo, mais desenvolvido. A proposta feita aos cineastas que toparam o projeto era usar as mesmas câmeras e trabalhar com as mesmas limitações técnicas daquele fim de século XIX. A sinopse de PREMONITION FOLLOWING AN EVIL DEED (1995) diz: “a short film about the events following a murder”. Assim, vemos a imagem de um corpo morto, três policiais avançando diante da tela, a imagem de uma mulher que parece sentir a presença de algo ou alguém, e há algo muito aterrador, que parece saído de um filme de terror e ficção científica. Mas tudo muito rápido, feito para ser visto e revisto. Já havia visto há cerca de vinte anos, mas é algo que, quando sai da memória de rápido alcance, começa a povoar outros segmentos da nossa mente.

MODELO MORTO, MODELO VIVO

Uma mulher trans, Manuela, se candidata a modelo para ser desenhada por estudantes de uma oficina de desenho. É barrada logo na entrada, claramente pela sua identidade. MODELO MORTO, MODELO VIVO (2020), de Iuri Bermudes e Leona Jhovs, manifesta um amor muito grande por seus personagens, a protagonista e seu interesse amoroso. E há uma fluidez narrativa que faz com que os 25 minutos pareçam 10 ou até menos. O fato de que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQI+ no mundo, por mais que seja conhecido, é importante que seja relembrado. Assim como é importante que filmes como este sejam vistos por mais pessoas, já que nossa sociedade precisa ter sua compreensão do outro, do sentimento do outro, melhor trabalhada.

domingo, abril 17, 2022

SEM SOL (Sans Soleil)



“Not understanding obviously adds to the pleasure.”

A frase acima, dita pelo alter-ego de Chris Marker em SEM SOL (1983), um homem chamado Sandor Krasna, capta muito do que este filme em particular, mas também do que muitos filmes que nos conquistam por caminhos mais tortuosos, conseguem nos ganhar. Sandor é o sujeito que supostamente viaja pelo mundo e cujas cartas servem de base para a construção deste filme-ensaio sobre a modernidade, o amor e a memória (entre outras coisas que poderíamos incluir). O que nos deixa ao mesmo tempo felizes e frustrados com o filme, assim como outros títulos de Marker, é que ver uma única vez não é o bastante. É mais um exemplo de filme que não reclamaríamos em ter uma versão em livro, mas se fosse apenas um livro perderíamos as imagens valiosas.

Vi SEM SOL pela primeira (e por enquanto única vez) na Mostra Retrospectativa do Cinema do Dragão em janeiro deste ano. A mostra contou também com outros dois títulos do cineasta francês, LA JETÉE (1962) e LEVEL 5 (1995). Pena que havia poucas pessoas na sala para compartilhar essa felicidade de ver um filme como este no cinema. Por outro lado, isso me fez sentir ainda mais privilegiado. Mas a verdade é que eu demorei a escrever sobre o filme por não ter a menor ideia de como começar. Sei que o ideal seria revê-lo para tentar escrever um texto um pouco mais decente, mas acabei de ler um texto gringo sobre alguém que também se sentiu inseguro como eu me senti e resolveu ver o filme outras vezes e isso acabou não ajudando muito – embora eu acredite que tenha ajudado sim.

O outro problema que tenho é, obviamente, o distanciamento temporal. Estamos em abril e vi o filme em janeiro. Um filme cheio de imagens de diferentes lugares, que traz reflexões nem sempre fáceis de compreender, além de informações completamente novas. Assim, talvez seja melhor encarar SEM SOL como um desses filmes nascidos do sonho, dessas obras que parecem não se esforçar em buscar uma lógica muito racional. A lógica seria mais de cunho intuitivo.

SEM SOL nos leva a diferentes partes do mundo. Há a imagem bonita de três crianças caminhando em uma estrada na Islândia em 1965 como um registro da felicidade. Depois disso somos enviados a países como Japão, Guiné-Bissau, Cabo Verde e até aos Estados Unidos, particularmente, a São Francisco, quando Marker faz um link de suas reflexões com teoria da linguagem cinematográfica usando UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. O modo como ele estabelece essas ligações é incrível. Talvez uma maneira de rever o filme no futuro seja ficar prestando atenção em como essas conexões são feitas.

O fato de haver múltiplos assuntos em um único filme – e assuntos que parecem não ter tanta ligação um com o outro – parece passar a ideia de que se trata de um filme sem foco. Mas eu não ousaria dizer isso, já que o fascínio que SEM SOL me provocou foi tão grande que meu respeito pelo filme está acima de qualquer pensamento sobre falhas na estrutura narrativa. Percebe-se que há uma tendência do diretor em se fixar mais no Japão, como se esse país lhe despertasse mais interesse, mais fascinação. Assim, temos claramente um olhar estrangeiro sobre uma sociedade japonesa “exótica”. E isso nos leva à influência da cultura americana no Japão do pós-guerra. E sobre guerras e atritos entre diferentes povos, o filme, por sua vez, nos leva à relação do povo de Guiné-Bissau com os portugueses, seus colonizadores.

Lá no primeiro parágrafo eu disse que SEM SOL é um filme sobre modernidade, amor e memória, mas lendo agora o pequeno texto de Jonathan Rosenbaum presente no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer (sim, de vez em quando gosto de recorrer a esse livro), o crítico do Chicago Reader diz que este é um filme sobre subjetividade, morte, fotografia, costumes sociais e a própria consciência. Então, talvez o que eu tenha escrito acima diga mais de mim do que do filme de Marker. Mais uma vez precisamos nos lembrar que ver e pensar os filmes é uma experiência muito particular e que depende de nossa sensibilidade e de nossa bagagem cultural.

+ DOIS FILMES

LEVEL 5 (Level Five)

Enquanto eu assistia a LEVEL 5 (1995) já ficava desejando revê-lo. Tanto pelo prazer que ele proporciona, quanto por sua complexidade e inventividade na forma e por certas informações que me eram inéditas e que gostaria de parar com calma para rever ou estudar a respeito. Se fosse um livro, LEVEL 5 seria lido com paradas estratégicas. Como é um filme-ensaio, temos que seguir o ritmo adotado por Chris Marker, que é ótimo. Às vezes é rápido, às vezes é cadenciado, em especial quando ouvimos as reflexões na interpretação de Catherine Belkhodja. O assunto principal do filme é um episódio muito triste da Segunda Guerra Mundial, envolvendo as mortes de japoneses na ilha de Okinawa, muitas delas por suicídio. Ótimos os depoimentos de Nagisa Oshima e também de um japonês que foi soldado na guerra e se tornou pastor evangélico.

VISÕES DO IMPÉRIO

Este filme de Joana Pontes traz um assunto interessante, mas que nem sempre me deixou interessado ao longo de sua metragem. Talvez pela utilização de um estilo mais comum, com depoimentos sobre a história problemática das fotografias, a maioria delas de autores anônimos, vindas dos países que foram colonizados por Portugal. Há uma ênfase principalmente em Angola, e na violência que o povo angolano sofreu quando foi assassinado e assaltado por aqueles que se autoproclamaram colonizadores. Essa indignação comparece em VISÕES DO IMPÉRIO (2021) de maneira bem educada, bem limpa, por estudiosos do assunto, o que acabou me deixando um pouco incomodado. De todo modo, é um filme importante para que se possa discutir a crueldade e o absurdo que foi a colonização, em vez de achar que temos que esquecer tudo, levar a dor e o sofrimento para debaixo do tapete.

sexta-feira, abril 15, 2022

APOLLO 10 E MEIO – AVENTURA NA ERA ESPACIAL (Apollo 10 1/2: A Space Age Adventure)



Infelizmente o nosso sonho de ver um quarto filme estrelado pelo nosso casal de personagens favorito do cinema americano, Jesse e Celine, não se materializou. Pela regra dos nove anos de intervalo entre os três filmes, a continuação de ANTES DA MEIA-NOITE (2013) deveria sair neste ano. Julie Delpy já afirmou que não haverá um quarto filme dos personagens. Os três, o diretor Richard Linklater, Delpy e Ethan Hawke conversaram e viram que não havia ideias suficientemente boas que justificassem um quarto filme. E, de fato, se for para estragar a magia, melhor mesmo que não haja.

No entanto, eis que Linklater volta com um filme delicioso e que surge com bem pouco alarde na Netflix. APOLLO E MEIO – AVENTURA NA ERA ESPACIAL (2022) é a terceira animação que o diretor faz usando o recurso da rotoscopia. E talvez o mais visualmente bonito, ainda que, pela minha memória, o meu favorito dos três continue sendo WAKING LIFE (2001), pelo tanto que me deixou entusiasmado com os questionamentos filosóficos feitos um atrás do outro. Era como se o filme necessitasse de uma versão em livro, para que pudéssemos parar, pensar, pesquisar, estudar.

De certa forma, APOLLO E MEIO é um pouco assim, mas em vez de buscar uma reflexão mais cabeça, o aspecto enciclopédico está nas inúmeras referências – musicais, cinematográficas, televisivas, comportamentais, históricas – daqueles anos finais da década de 1960. E dentro de uma visão deliciosamente nostálgica. Há uma subtrama envolvendo o jovem protagonista entrando numa missão secreta da NASA, como que mostrando o quanto aquele momento da corrida espacial fez a cabeça do jovem Linklater, mas o mais importante, e o que mais agrada, é mesmo a viagem no tempo para a infância de Stan (Milo Coy).

Na voz de Jack Black, a versão adulta de Stan, claramente o alter-ego de Linklater, pegamos na mão do personagem e seguimos nessa viagem rumo a 1968/69. E quem me conhece sabe que o ano de 1968 é particularmente especial para mim, já que é o ano do meu filme favorito (2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, claramente uma referência explícita já no título) e do meu álbum favorito (o “Álbum Branco” dos Beatles). E muitas coisas são vistas rapidamente nessa lista de motivos para celebrar o passado. As sessões duplas ou triplas no cinema têm tanto valor afetivo quanto o sabor do sorvete que ele tomava com os irmãos, ou as disputas pela posse da televisão em uma época de ouro das séries. Sem falar naquilo que movimentava a sociedade da época, a corrida espacial, que culminou na chegada do homem à lua, evento televisionado para todo o mundo em 20 de julho de 1969. O fato de Linklater ter crescido no Texas e mostrado já em outras obras as dores e as delícias de ter vivido nesse estado o aproxima ainda mais da NASA e daquele momento histórico.

E há aquilo que afeta de maneira muito intensa a memória afetiva, que é a música. E o que dizer da música produzida nos anos 1960? Especialmente aquelas da segunda metade dessa década?! Há muitos trechos de canções que aparecem no filme e outras são citadas verbalmente também. Há Credence Clewater Revival, The Byrds, Johnny Cash, Pink Floyd, entre outras. Acho que Linklater só não incluiu mais porque ia custar uma fortuna pagar os direitos autorais por tanta música. De todo modo, já há o bastante para conferir ainda mais empolgação para o filme.

E sabemos a forte relação que Linklater tem com a música, sendo que sua juventude mais adulta foi representada nos filmes JOVENS, LOUCOS E REBELDES (1993) e em sua continuação espiritual, JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (2016), filmes que representam um Linklater menos intelectual e mais em sintonia com o jovem americano médio. Esses filmes talvez possam ser vistos, inclusive, como continuações de APOLLO 10 E MEIO, se pensarmos sua história do ponto de vista cronológico.

Como temos uma história de um menino de nove anos, há toda uma carga de inocência, que só fica um pouco de lado quando o espectador adulto percebe as diversas aberturas, ainda que discretas, de crítica social, que, afinal, era algo presente e de muito mais interesse das irmãs mais velhas do protagonista. Em fins dos anos 1960, os Estados Unidos estavam vivendo um momento de lutas pelos direitos civis. Dá até um pouco de inveja de quem pôde vivenciar e testemunhar tudo isso.

+ DOIS FILMES

AMBULÂNCIA - UM DIA DE CRIME (Ambulance)

Um dos acertos (poucos, diria) na carreira de Michael Bay, AMBULÂNCIA – UM DIA DE CRIME (2022) tem um espírito de filme B com orçamento de filme A. Me vi pensando nisso na cena em que um homem se mete no para-brisa do carro. Além disso, o senso de humor afiado está presente principalmente na cena da cirurgia de emergência. Jake Gyllenhaal parece estar se divertindo bastante com seus overactings, Yahya Abdul-Mateen II é um astro em ascensão que só tem contra si o nome difícil de memorizar, e a jovem Eliza González brilha em cena e segura a onda nos momentos de tensão dentro da ambulância. E falando em brilho, podemos destacar a fotografia solar, mas também podemos seguir reclamando da montagem excessivamente picotada, que já é a cara do Michael Bay e aqui não é muito diferente. Na cena do assalto eu fiquei completamente zonzo. Além do mais, quem toma um café e vai ver o filme na sala IMAX com o som no talo fica ainda mais zonzo. Tiro, porrada e bomba que me fez esquecer os problemas e até sorrir. Então, tá valendo demais.

MEDIDA PROVISÓRIA

Eu achei o ponto de partida de MEDIDA PROVISÓRIA (2020) muito interessante, como mais um desses contos distópicos, mas senti falta de um desenvolvimento que funcionasse dramaturgicamente e que tivesse um aprofundamento maior dos personagens. As frases feitas e meio batidas me incomodaram também e há momentos em que o diretor Lázaro Ramos parece não saber onde colocar a câmera (isso é sentido principalmente no começo do filme, depois ele parece desistir de fazer algo diferente visualmente). Como objeto político e de contestação, acho que tem o seu valor. Vejo também valor como entretenimento popular, principalmente se o público é de gente de esquerda - acredito que seja o grosso da audiência presente. O Cineteatro São Luiz, pelo menos, estava bem cheio, e houve palmas e gritos em determinados momentos. Então, vejo isso como positivo, por mais que eu não tenha me sentido em sintonia com a alegria e com o contentamento do público.

domingo, abril 10, 2022

ONIBABA - A MULHER DEMÔNIO (Onibaba)



Em tempos de “revolta das máquinas” aqui em casa, vou procurando diminuir o intervalo de postagem para o blog (que já é de uma semana!) escrevendo escrevendo sobre o fascinante ONIBABA - A MULHER DEMÔNIO (1964), de Kaneto Shindô, que integra a seleção de clássicos do horror japonês presentes no box Obras-Primas do Terror Vol. 5. Meu conhecimento de cinema de horror japonês (de cinema japonês em geral, eu diria) é cheio de lacunas, é muito limitado, mas nunca é tarde para ir conhecendo as obras mais reverenciadas. 

O que mais me deixou surpreso ao ver este filme foi o quanto, na maior parte de sua metragem (cerca de 100 min), ONIBABA parece se distanciar do rótulo “horror”, pelo menos de um horror mais sobrenatural. Já adianto (spoiler!) que isso muda em seu desfecho, o que alguns críticos veem como uma falha. Eu, ao contrário, achei esse aspecto muito interessante. Até porque eu já havia aceitado que era horror suficiente ter duas mulheres matando samurais e roubando seus pertences como forma de sobrevivência em um Japão sofrendo com uma guerra civil no século XIV. Depois do primeiro assassinato, ocorre uma quase naturalização desses eventos, já que eles fazem parte de uma situação de desespero e necessidade. Há outra cena em que as duas mulheres matam um cachorro para se alimentar.

Essa rotina, por assim dizer, é interrompida quando um homem retorna da guerra e as visita. Este homem é amigo do filho da mulher mais velha, que por sua vez é marido da mais nova. Ele conta que seu companheiro havia morrido e ele conseguiu escapar. Com a chegada do homem e o interesse dele pela mulher mais nova (as duas mulheres não têm nome no filme), uma nova dinâmica é estabelecida. Principalmente quando se passa a enfatizar o desejo carnal dos dois jovens e o misto de ciúme e raiva da mulher mais velha, que tenta a todo custo impedir o encontro dos dois, que acontece com frequência na calada da noite, quando a jovem corre pelos juncos ao som da trilha sonora percussiva de Hikaru Hayashi. E as cenas de sexo são bastante ousadas se pensarmos que estamos em 1964, e de fato a sexualidade intensa do filme foi um elemento que chamou muita atenção na época de seu lançamento. Mas, como o próprio Shindô diz, o sexo no filme não é dado a perversões, ele é apenas realisticamente selvagem. Afinal, os dois personagens são jovens com a libido em alta.

O filme tem uma virada impressionante a partir do momento em que a mulher mais velha recebe a visita de um samurai usando uma máscara de demônio. A princípio, ela teme esse homem, pela máscara horripilante que ele usa, mas o homem pede que ela o ajude a encontrar uma saída daquele lugar. O sujeito também diz que nunca tira a máscara, pois ele tem um rosto muito bonito, que a mulher se apaixonaria por ele se o visse. Ao livrar-se do homem e enxergar seu rosto, ela passa a usar a máscara para aterrorizar a nora em suas escapadas noturnas. E esses momentos preparam a narrativa para um final aterrorizante.

A sintética crítica do filme presente no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer atribui o rosto deformado por detrás da máscara como sendo o hibakusha, ou seja, o rosto de uma vítima da bomba atômica. Isso faz muito sentido se pensarmos que, se as feridas das duas bombas ainda são sentidas até hoje pelo povo japonês, imagine em 1964. Além do mais, essa conexão faria ainda mais sentido com o tom mais realista que Shindô utiliza na maior parte da narrativa. E ele faz isso trazendo no final um sentimento de horror e perturbação singular na cena das mulheres lutando para arrancarem a máscara de demônio. Sem dúvida, um dos maiores clássicos do gênero já realizados.

+ DOIS FILMES

O ESQUELETO DA SRA. MORALES (El Esqueleto de la Señora Morales)

Fechei o primeiro box Horror Mexicano, spin-off de Obras-Primas do Terror, da Versátil (o segundo está à minha espera), e fiquei bastante satisfeito com todos os seis filmes presentes. Cada um deles é muito singular. O ESQUELETO DA SRA. MORALES (1960), de Rogelio A. González, não é um filme de horror convencional. Ele nos coloca no ambiente tóxico de uma casa onde vivem um homem que trabalha com taxidermia e uma mulher, a Sra. Morales, do título, que faz o possível para encher a paciência do sujeito, além de contar mentiras para o padre da cidade e suas amigas beatas a respeito dele. Há um quê de Edgar Allan Poe no protagonista e em sua teoria sobre a execução do crime perfeito. Há, inclusive, uma citação de "O Coração Denunciador", do mestre dos contos de horror. Junte-se a isso o senso de humor todo particular, temos um filme que, no mínimo, merece muito nossa atenção. Dos seis filmes do box, O ESQUELETO DA SRA. MORALES é o mais mundano e realista.

O CREMADOR (Spalovač Mrtvol)

Não foi um filme fácil pra mim, talvez por vê-lo sofrendo incômodas dores no corpo e o que o diretor Juraj Herz oferece não é diversão. Mas é fascinante ver uma obra tão ímpar, tão singular como esta. A própria montagem de O CREMADOR (1969) é um caso à parte. Há saltos de uma cena para a outra ao mesmo tempo drásticos e suaves, quase como se não percebêssemos. Uma vez que percebemos, ficamos mais atentos para essas quebras de cenário. Além do mais, o protagonista é fascinante em sua fala e também em sua narração monótona, do início ao fim. E o que é aquele uso do pente nos mortos? Ele penteia os mortos no caixão e em seguida usa o pente em si mesmo ou em seus filhos adolescentes. Na trama, ele é um homem que trabalha em um crematório e que se delicia com a cremação. A história de acreditar que as almas das pessoas desencarnadas logo procurarão um novo corpo, a partir do que ensina o livro tibetano dos mortos, parece até uma desculpa para sua maldade. Que, claro, tem tudo a ver com o nazismo, os campos de concentração e os banheiros dos campos. Filme visto no box Obras-Primas do Terror Vol. 11.

domingo, abril 03, 2022

SERVANT – TERCEIRA TEMPORADA (Servant – Season Three)



Acabei de reler o texto que escrevi um ano atrás sobre a segunda temporada de SERVANT e percebi que na temporada passada Leanne, a personagem mais interessante da série, vivida por Nell Tiger Free, já iniciava um processo de mudança bem radical em sua maneira de ser e de ver a vida, e também de ter consciência de seu poder de manipulação e de sua autoestima, que também tem a ver com sua negação da opressão relacionada à seita que ela participava. Por outro lado, agora que ela matou a tia no final da temporada passada (e escondeu o corpo dentro da casa, sendo que os dois atos podem ser vistos como atos simbólicos), ela sabe que, a qualquer momento, pode ser alvo dos membros da seita.

E assim começa a terceira temporada (2022), com seus episódios dedicados principalmente a mostrar essa situação de clausura e medo de Leanne, que trouxe de volta o bebê Jericho, para alegria do casal Dorothy (Lauren Ambrose) e Sean (Toby Kebell). Sean, inclusive, passa a se ligar mais na fé, entra em uma igreja evangélica, acreditando que o milagre da volta de Jericho precisa sim ser celebrado, ele acredita que precisa ser grato a Deus. Aliás, que cena fantástica a que mostra o diálogo de Sean com Leanne, quando ela diz que não foi Deus quem trouxe de volta Jericho.

Por mais que a série ganhe muito pelo seu mistério, um dos maiores méritos de SERVANT está em seu capricho visual. M. Night Shyamalan deu o tom, dirigindo alguns episódios (nesta terceira, ele dirige apenas o primeiro), e convida cineastas jovens e talentosos para seguir o estilo, embora percebamos também certa liberdade criativa no uso da câmera, dos ângulos, das opções visuais. Percebe-se, por exemplo, o quanto a filha do cineasta, Ishana Shyamalan, mostra serviço nesse sentido nos episódios assinados por ela.

Entre os demais jovens diretores convidados, vale destacar a presença de Carlo Mirabella-Davis, do horror psicológico DEVORAR (2019); de Kitty Green, a diretora de A ASSISTENTE (2019), outra obra que lida com a tensão de maneira forte; e a dupla Severin Fiala e Veronika Franz, de BOA NOITE, MAMÃE (2014). Outros nomes novos e cujos trabalhos não conheço ainda, e creio que merecem nossa atenção, são Dylan Holmes Williams (THE DEVIL’S HARMONY, 2019) e a dupla Logan George e Celine Held (TOPSIDE, 2020). Prestemos atenção nesses nomes.

Esta terceira temporada é totalmente dominada por Leanne, mas com Dorothy sendo, mais uma vez, sua inimiga, em um embate muito tenso dentro de um espaço relativamente pequeno. Alguns episódios são muito especiais. Adoro "Tiger", quando Leanne aceita sair de dentro de casa para uma festa na rua e acaba enfrentando uma situação de perigo. É um dos poucos episódios situados fora da casa. Em "Donut", vemos uma tentativa de uma colega de Dorothy de usar Leanne para derrubar a ex-colega com ajuda da bruxinha, tendo resultados arrepiantes. E os dois últimos episódios, com a tentativa de Dorothy de se afastar ou de afastar Leanne, fecham muito bem (e com um baita choque) uma temporada que começou mais tranquila que as anteriores.

Para uma temporada que parecia demorar muito na situação de medo de Leanne de sair de casa, o modo como a trama avança a partir da segunda metade faz com que ela seja talvez a melhor até o momento. O olhar de Dorothy na cena final da temporada já prenuncia o que vem de perturbador por aí. E talvez deixemos de simpatizar tanto assim com Leanne, a bruxa (ou seja lá o que ela é) que aprendemos a amar, apesar de tudo.

+ DOIS FILMES

O RITUAL - PRESENÇA MALIGNA (The Banishing)

Apostar apenas na atmosfera sem ter tanta preocupação com um roteiro é uma tarefa que apenas grandes diretores ou cineastas muito talentosos podem se dar ao luxo. Infelizmente não é o caso de O RITUAL - PRESENÇA MALIGNA (2020), de Christopher Smith, que tem um problema em lidar com a história em si, que chega a se tornar desinteressante até para quem conta, mas que possui sim alguns momentos visuais muito interessantes. A cena da personagem de Jessica Brown Findlay correndo "em duplicatas" pela casa assombrada, por exemplo, é muito boa, embora pareça copiada de TWIN PEAKS ou de algum filme do Mario Bava. Há também uma preocupação do diretor em não parecer vulgar e por isso não há muitos jump scares - acho isso válido. Também há uma correlação com o mal causado pelo nazismo, já que a história se passa pouco antes da entrada da Inglaterra na Segunda Guerra.

MORBIUS

Não sei se o pessoal que cria esses filmes com personagens da Marvel exclusivamente para a Sony (ainda que em conjunto e com o aval da própria Marvel) quer fazer o público desistir dessas tranqueiras ou quer fazer uma espécie de teste de paciência ou de fidelidade com o espectador. A fidelidade de fato existe - eu sou um dos vários que assiste, mesmo que sem vontade e bastante cansado, todos esses filmes com heróis e vilões da Casa das Ideias para o cinema - e talvez por isso eles ainda estejam se mantendo firmes com esses projetos toscos. Em MORBIUS (2022), dirigido por Daniel Espinosa, temos um filme que até poderia resultar em algo decente, uma história de um cientista "maluco" que se transforma em um vampiro pelo caminho dos experimentos científicos, mas que infelizmente vai ficando cada vez mais desinteressante até chegar ao ápice na cena da luta de Morbius com seu antagonista no metrô. É o momento em que gritamos "tirem-me daqui!" ou olhamos para o relógio, com impaciência. E o que é aquele primor de diálogo da cena pós-créditos, hein? Só deixa explícito que não existe uma pessoa interessada em fazer algo minimamente razoável. E o pior é que aponta para continuações, junções com outros heróis e vilões etc.

quarta-feira, março 30, 2022

OS 15 CURTAS INDICADOS AO OSCAR 2022



Assim como no ano passado, neste ano consegui ver todos os curtas-metragens indicados ao Oscar nas três, categorias: live action, documentário e animação. Gostei de todos os filmes de ficção live action, mas os demais praticamente não gostei, excetuando um ou outro. Comentários rápidos sobre cada um, abaixo.

Live action

ON MY MIND 

Tenho conversado com meus alunos nas últimas aulas em que trago música sobre o poder de uma "simples" canção de cerca de três minutos de duração e de como algumas dessas se tornam tão cheias de sentimentos profundos e tão duradouros que parecem eternos. Neste curta dinamarquês, temos um homem que deseja cantar uma canção clássica do repertório de Elvis Presley para sua esposa em um bar vazio e com um karaokê (mais ou menos) disponível. ON MY MIND (2021), de Martin Strange-Hansen, é muito simples em sua proposta, e muito sensível em abordar o sentimento desse homem e de como emoções conflitantes e talvez até alguns remorsos podem povoar sua mente, ao lembrar da esposa e recitar a letra da canção que faz a alma voar.

PLEASE HOLD

A comparação com BLACK MIRROR é bem válida, pois temos aqui também a tecnologia agindo como agente do terror. E há uma relação direta com o nosso momento e a nossa relação com a "inteligência" artificial. Quantas vezes não odiamos aqueles robôs que atendem as chamadas e não entendem o que dizemos? No caso do drama do protagonista de PLEASE HOLD (2020), de KD Dávila, a coisa ainda é mais perturbadora, pois ele é preso por robôs e sequer sabe o motivo de sua prisão. 

ALA KACHUU - TAKE AND RUN

Quando o curta não tem muita força na direção, é interessante que ele se justifique como obra política relevante. E talvez seja o caso de ALA KACHUU - TAKE AND RUN (2021), de Maria Brendle, embora não seja um filme mal dirigido. Mas a questão da mulher que é sequestrada para se casar contra a sua vontade em um povoado do Quirguistão é algo que merece ser gritado para todos os cantos do mundo, de modo que absurdos como esse deixem de acontecer. Na trama, Sezim é uma jovem que sonha em estudar na faculdade e sair de seu povoado. Para isso, faz uma prova para conseguir fazer seu curso com uma bolsa de estudos. Infelizmente, alguém a escolhe como noiva. A duração de 38 minutos passa a impressão de vermos a prévia de um longa e não um curta, e não digo isso como um demérito. Eu continuaria vendo o filme com bastante prazer caso a história continuasse a ser contada por mais uma hora e meia.

THE LONG GOODBYE

Em tempos de ascensão dos grupos de extrema direita, um filme como este se faz necessário. E como se já não fosse muito poderoso criar uma espécie de distopia em que os brancos passam a matar à queima-roupa pessoas de diferentes etnias, ainda temos a força do rap como aliado. Riz Ahmed, que, além de ótimo ator, ainda é um rapper, usa os minutos finais deste curta para mostrar sua indignação mais do que justificada. Os brancos invadem diferentes países e territórios na Ásia, na África e nas Américas para depois vir expulsar, diminuir e matar aquelas pessoas que, agora nascidas em países como Estados Unidos e Inglaterra, são consideradas estrangeiras e nada bem-vindas. THE LONG GOODBYE (2020), de Aneil Karia, foi o vencedor na categoria.

THE DRESS (Sukienka)

Um filme um tanto arriscado este THE DRESS (2020), de Tadeusz Lysiak, pois poderia trazer uma impressão de pena da protagonista por parte de alguns espectadores. Ela é uma jovem anã carente de afeto e que nunca foi para a cama com um homem (ou mulher) até então. Equilibrando-se nessa corda-bamba, o jovem diretor polonês conta, com segurança e cuidado, em sua meia hora de duração, um recorte da vida dessa moça - sua mudança de humor quando recebe o flerte de um jovem caminhoneiro, sua indignação e desgosto por não ser uma pessoa "normal", seguido do sentimento de busca de uma autoconfiança necessária para que ela possa ser minimamente bem-sucedida em seus anseios. E, nesse sentido, é fácil se identificar com ela, já que o filme nos aproxima mais de seus dramas e de suas dores.

Documentário

ONDE EU MORO (Lead Home)

Para uma seleção de documentários em curta-metragem pouco atraentes, até que eu achei bonito este ONDE EU MORO (2021), de Pedro Kos e Jon Shenk, que pode funcionar como uma reflexão sobre o abismo existente entre os ricos e os miseráveis dentro da sociedade americana. Ver isso acontecendo em três das cidades mais ricas da Califórnia é entender que o sistema capitalista errou, e errou feio. O filme nos apresenta a um grupo de pessoas que vivem nas ruas, por uma série de razões, mas a principal delas é, claro, a falta de dinheiro, a impossibilidade de conseguir o aluguel e de se alimentar ao mesmo tempo. Muito interessante o fato de o filme acompanhar também a vida afetiva de alguns deles, mostrar que ela existe, apesar das circunstâncias. Por mais que não seja um documentário brilhante, só de cutucar a ferida já vale.

WHEN WE WERE BULLIES

Alguns amigos e colegas de trabalho costumam dizer que essa atual preocupação com o bullying nas escolas é bobagem, que a gente viveu isso e que estamos vivos e bem. Será que estamos bem? Algumas memórias ficam apagadas, de fato, especialmente de quando fomos crianças. Só aquelas mais marcantes ficam presentes. E foi com essa sensibilidade que o diretor de WHEN WE WERE BULLIES (2021), Jay Rosenblatt, resolveu fazer um filme sobre um comportamento que ele lamenta ter cometido quando estava na quinta série, de ter agredido um colega de classe, juntamente com outros colegas seus. No filme, ele entra em contato com os colegas dessa turma e muitos esqueceram de quase tudo dessa época, mas a maioria lembra desse garoto que sofreu bullying. O modo como o diretor tece a trama é muito instigante e me deixou interessado em ver em que ponto seu filme chegaria. O uso de técnica de animação artesanal com as fotos das crianças e imagem de filmes antigos ajuda a juntar as peças. Considero um dos melhores filmes da categoria.

TRÊS CANÇÕES PARA BENAZIR (Three Songs for Benazir)

Seguindo a tendência de documentários em curta-metragem fracos da temporada do Oscar, este aqui, disponível na Netflix, apresenta, em um registro próximo da ficção, a história de um jovem homem casado que mora em um abrigo e não consegue se alistar no exército pois sua família acredita que é uma má ideia. E talvez eles tenham razão. TRÊS CANÇÕES PARA BENAZIR (2021), de Elizabeth Mirzaei e Gulistan Mirzaei, não funciona como história de amor (ora, se o sujeito ama tanto a esposa, pra que ele quer ir para a guerra?), nem como filme de protesto frente à situação sempre de desvantagem e desgraça do povo afegão (já foram alvo dos russos, dos talibãs e dos americanos). Há um quê de cinema iraniano, mas a dupla de cineastas precisa se esforçar muito para chegar pelo menos ao padrão médio do cinema feito no Irã.

THE QUEEN OF BASKETBALL

É impressão minha ou esses documentários em curta-metragem selecionados para o Oscar deste ano estão bem fracos? Até tive sentimentos mistos em relação a este aqui, sobre uma das primeiras jogadoras de basquete dos Estados Unidos a ter uma repercussão mundial. Como não ligo muito para o esporte, o que mais me pegou no filme foi a questão da passagem do tempo e das sequelas que as doenças causam no corpo ao longo dos anos, de como uma pessoa pode passar de um estágio de saúde forte (dentro do esporte) a uma situação de fragilidade. THE QUEEN OF BASKETBALL (2021), de Ben Proudfoot, também enfatiza a questão do machismo e da demora de se criar e patrocinar uma liga de basquete feminina nos Estados Unidos. Este filme foi o vencedor da categoria.

AUDIBLE

Antes de mais nada, pra que um curta de 39 minutos? Continua sendo curta? Provável que sim. Mas a minha reclamação talvez não tenha a ver com duração, mas como este filme se esforça para emocionar e a mim não conseguiu em nenhum momento. O que me trouxe de novo foi perceber um mundo diferente, o de jovens jogadores de futebol (americano) surdos. AUDIBLE (2021), de Matthew Ogens, foca em alguns poucos membros desse time e passa aquela lição de que não podemos desistir por perder um jogo, que podemos nos esforçar para vencer o próximo. Essa coisa do jogo, como metáfora da vida, até tem algum sentido, mas é bom sempre a gente lembrar que sempre que há um vencedor, há do outro lado um perdedor. É praticamente uma lógica do capitalismo. Mas talvez falar essas coisas só denunciem que não tenho um espírito competitivo muito forte. E talvez por isso não me ligue em jogos, esportes etc. O que não quer dizer que em bons filmes de esporte eu não possa torcer por alguém.

Animação


AFFAIRS OF THE ART

Não me entusiasmei muito com este AFFAIRS OF THE ART (2021), de Joanna Quinn, mas talvez tenha me faltado algo próximo à identificação com a protagonista, a mulher que desde criança adora desenhar e pintar e que segue fazendo isso obsessivamente, agora que é casada e tem um filho. A animação é bem interessante - parece pintura à guache ou coisa do tipo. Tanto que fiquei tão ligado na singularidade da animação que me perdi na rapidez da narrativa. Por causa disso é bem capaz que seja um filme que cresça com a revisão. O difícil é eu querer rever.

BOXBALLET

A história de uma relação quase improvável durante os últimos anos da União Soviética entre uma bailarina delicada de musicais clássicos e um boxeador grosseiro e de rosto arrebentado de tanto apanhar nas lutas. Não achei a animação envolvente e na verdade fiquei me perguntando qual seria o critério para a escolha desses filmes. De todo modo, BOXBALLET (2021), de Anton Dyakov, é um curta simpático e que celebra a união das diferenças, ou apesar das diferenças. Além do mais, do ponto de vista técnico, é uma animação com personalidade.

THE WINDSHIELD WIPER

Interessante e bonito este curta indicado a melhor animação. É uma obra bem adulta e reflexiva sobre o amor romântico. Um homem escuta conversas sobre relacionamentos que não funcionam em um café e talvez ele seja o alter-ego do diretor Alberto Mielgo. Ao final do filme, ficamos sabendo que as pequenas histórias apresentadas foram inspiradas em conversas ouvidas em cafés e restaurantes em diversas cidades do mundo. Essa coisa mais globalizada aparece também nos lugares. Há desde alguém que se suicida por causa da solidão ou do fracasso no amor, passando pelo casal que olha o mar calado (a moça seminua ajuda a tornar os aspectos mais carnais da relação bem importante), pelo mendigo que, no fundo do poço, confunde uma manequim com sua ex-esposa etc. Destaque para as belas pinturas que combinam com o clima de desencanto do filme. THE WINDSHIELD WIPER (2021) foi o vencedor na categoria.

BESTIA

Tive que rever imediatamente depois da primeira vez, por causa da minha dificuldade de acompanhar histórias sem falas (minha mente passa a se dispersar). Além do mais, BESTIA (2021), de Hugo Covarrubias, também possui muitos hiatos temporais, muito mistério (auxiliado pela trilha sonora) e há coisas muito importantes sobre o filme que só se fica sabendo através de artigos ou entrevistas, como o fato de ser uma obra sobre uma torturadora real da época da ditadura de Pinochet. Em vez de focar em aspectos mais políticos ou mesmo nas torturas de maneira mais explícita, o filme nos apresenta à mente perturbada da protagonista e também à sua rotina de vida com seu cachorro. Aliás, as coisas envolvendo o cachorro são talvez as mais chocantes do filme. Achando muito interessante essa seleção de curtas mais adultos do Oscar 2022.

A SABIÁ SABIAZINHA (Robin Robin)

Eis um filme muito bonitinho sobre um passarinho (na tradução brasileira chamam de sabiá, mas acho que em inglês é outro pássaro - acho) e esse passarinho fêmea, desde que nasceu, é criado por uma família de ratos. Ela cresce aprendendo a fazer coisas que os ratos fazem, como ser cuidadosa em roubar coisas das casas dos humanos, mas não aprende a voar, por exemplo. A SABIÁ SABIAZINHA (2021), de Dan Ojari e Michael Please, tem pelo menos dois momentos de suspense muito bons, que lembram thrillers de roubo. E há uma gata como vilã da história, vivida por Gillian Anderson. Aliás, uma coisa que sempre me deixa encucado, por que nas animações os gatos são sempre vilões? Ou quase sempre, sei lá. Curta presente na Netflix.