sábado, fevereiro 26, 2022

MEMORIA



Quando eu era criança, eu tinha um sonho recorrente. Um botijão de gás vinha surgindo de longe, do escuro, e, à medida que se aproximava de mim, o ruído que ele vinha fazendo ia aumentando até o limite do insuportável. É quando eu acordava. Nunca entendi direito o que representava isso. E nem sei se era realmente um botijão de gás. Mas na memória que eu tinha desses sonhos, e do som metálico que ele fazia, eu tinha certeza que era.

Já faz quase um mês que tive o privilégio de ver MEMORIA (2021), de Apichatpong Weerasethakul, no cinema, numa cópia 4K. Foi dessas experiências únicas e também muito difíceis de descrever. Agora mesmo, por exemplo, não tenho a menor ideia do que falar sobre o filme. Gostaria muito de poder ainda estar “dentro” dele, acessando seus códigos secretos e oníricos, mesmo que ainda não os compreendendo. Talvez o prazer – nem sei se essa é a palavra ideal, no caso – de ver os filmes do mais celebrado cineasta tailandês da atualidade (de todos os tempos, talvez?) esteja nessa conexão que ele consegue fazer com o sonho. Ele próprio diz que o cinema é como um fantasma, não tem um aspecto físico. E, se por acaso, o cinema em algum momento nos traz certa ilusão de materialidade próxima ao mundo tridimensional em que vivemos, Weerasethakul trata de enfatizar o aspecto etéreo dessa arte.

Por isso, talvez tentar pensar a narrativa de MEMORIA seja importante para colocar um pouco de ordem no que acontece durante sua metragem e no que assimilamos. O filme começa com um estrondo. Um barulho como se fosse de “uma enorme bola de concreto caindo em um fundo metálico coberto de água”, como é descrito mais adiante. Trata-se de um barulho que é sonhado pela personagem de Tilda Swinton, uma mulher escocesa que está na Colômbia para visitar a irmã, hospitalizada. 

Obcecada por esse estrondo, que surge novamente quando ela está desperta, e às vezes em situações bem inconvenientes, a protagonista procura um técnico de mixagem de som para tentar recriá-lo em estúdio, como em uma espécie de retrato falado sonoro. E toda essa sequência com o técnico de som é fascinante. (A propósito, quem for estabelecer um paralelo deste filme com A CONVERSAÇÃO, de Francis Ford Coppola, não deve estar errado, pois trata-se de um dos dez filmes favoritos do diretor e isso significa muito para quem procura compreender as obsessões e paixões de um autor.)

Porém, para a protagonista, não basta recriar o som materialmente. Esse som, esse estrondo, acaba sendo o ponto de partida para que ela, depois de visitar museus, galerias de arte e escavações arqueológicas, avance para a Colômbia profunda, para a região amazônica, em busca, talvez dos povos invisíveis da floresta. A floresta, que é um elemento espiritual e constante na obra de Weerasethakul. E, para encontrar essas respostas, ela encontra um homem que talvez não seja exatamente um ser humano vivo. A coragem do cineasta de ir longe, tanto do ponto de vista político, quanto metafísico ou ufológico, é admirável.

MEMORIA foi minha terceira experiência na sala de cinema com a obra de Weerasethakul. Há cerca de dez anos vi TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (2010) em película em uma mostra de cinema “transcendental” no UCI Iguatemi. E relendo meu texto escrito na época, um tanto desnorteado com o que tinha acabado de ver, também destaquei o som. Ou seja, seria tão bom ter a chance de ver todos os filmes do diretor no cinema...

Nota complementar e talvez desnecessária: procurando por um texto meu sobre CEMITÉRIO DO ESPLENDOR (2015), percebi que simplesmente deixei passar. Não há sequer um textinho pequeno a respeito. Mais um exemplo de que nem sempre é fácil escrever sobre o cinema do cineasta. Ou só mais mais um exemplo de minha memória falha.

+ DOIS FILMES

MATAR A LA BESTIA

Achei sensacional o modo como a diretora Agustina San Martín nos apresenta um filme sobre uma suposta fera que está à solta, aterrorizando um povoado de uma região que faz fronteira entre a Argentina e o Brasil. MATAR A LA BESTIA (2021) se inicia com a chegada de uma moça à procura de seu irmão, que há tempos não dá notícia. Gosto de como o filme é um exercício de atmosfera como há tempos não via. Além de tudo, há um grau de sensualidade que torna a obra ainda mais atraente, em especial quando entra em cena uma outra moça na trama, que passa a chamar a atenção da protagonista. Um tipo de filme cuja duração passa voando e até poderia se arriscar em se alongar por mais tempo.

A MULHER DE UM ESPIÃO (Supai no Tsuma)

Curiosamente, um dos roteiristas deste novo longa de Kiyoshi Kurosawa é o novo queridão da crítica, Ryûsuke Hamaguchi (RODA DO DESTINO). Não sei o quanto esta informação é importante, talvez não muito, mas representa mais um título com a presença dele em nossos cinemas. A MULHER DE UM ESPIÃO (2020) toca no tema da necessidade de o Japão perder a guerra para que algum tipo de restabelecimento de justiça aconteça. Hoje o Japão é muito mais crítico de seu papel no passado. Mas o curioso é que o sujeito, o tal espião do título, não parece assim tão justo, por mais que esteja mesmo de posse de provas das atrocidades dos seus compatriotas na China. De certa forma, é bom ver essa complexidade dos personagens, inclusive dele, sendo que o filme é narrado pelo ponto de vista da esposa. É um filme que se destaca também pelas cores (amarelo dominante), pelos figurinos dos anos 1940, pelo cuidado com a posição da câmera. Enfim, como estamos diante de um trabalho de um cineasta já maduro, é fácil perceber suas tantas qualidades.

quarta-feira, fevereiro 23, 2022

DIÁRIOS DE OTSOGA



Alguns filmes, talvez por causa de sua singularidade, demoram um pouco mais a se instalar em nossa memória afetiva. É o caso de DIÁRIOS DE OTSOGA (2021), dirigido por Miguel Gomes e Maureen Fazendeiro, sua companheira. Gomes, para quem não lembra, é o diretor de alguns dos filmes portugueses mais celebrados do novo milênio, como AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO (2008), TABU (2012) e a trilogia AS MIL E UMA NOITES (2015). São trabalhos que brincam com a experimentação e trazem um estranhamento muito bem-vindo.

Muito desse estranhamento que seus filmes provocam, aliás, tem a ver com nossa (minha) pouca familiaridade com o senso de humor português, que se distancia bastante do nosso. Além do mais, ficamos muito acostumados com o humor americano por conta da dominação cultural no campo das artes e do entretenimento. Além disso, como praticamente todos os filmes portugueses que chegam a nosso circuito são de linha mais arthouse, por assim dizer, consequentemente temos poucos exemplares por ano em cartaz para ficarmos minimamente íntimos dessa cinematografia.

A chance de ver DIÁRIOS DE OTSOGA na Mostra Retroexpectativa do Cinema do Dragão foi bem valiosa. Trata-se de um filme bem menos ambicioso do ponto de vista da produção, pela própria característica de ser literalmente caseiro. A ideia do filme surgiu da corroteirista Mariana Ricardo, que pensou em juntar três jovens isolados em uma casa sem nada para fazer.

Nascido durante a pandemia, DIÁRIOS DE OTSOGA explicita esse momento quando passa a brincar com a metalinguagem. Em determinado momento, um dos atores deixa o isolamento no sítio e isso acaba por ameaçar o grupo a uma possível contaminação de Covid-19. A atriz que faria uma cena de beijo com ele, por exemplo, diz se recusar a fazer por causa da irresponsabilidade do rapaz. Porém, fica a pergunta: essa sequência seria encenada ou uma filmagem de uma situação real? Estamos diante de um falso documentário ou de um documentário que contaminou uma ficção? De uma forma ou de outra, a simples inclusão dessa cena leva o filme por um caminho muito divertido e empolgante.

Até então, o que o filme nos havia proposto em seu projeto era uma história que estaria supostamente sendo apresentada de trás pra frente. "Otsoga" não é nenhuma palavra japonesa, mas "agosto" ao contrário. A partir dessa quebra na estrutura, o filme ganha em densidade e em interesse. Sem falar que o senso de humor refinado vai ficando mais explícito. Em determinado momento, por exemplo, vemos as filmagens de uma cena dos jovens em cima de um trator, sorrindo, como se aquela cena fizesse algum sentido. Achei isso sensacional. Ou seja, eis um filme que eu terei um prazer imenso de rever quando entrar em circuito comercial.

+ DOIS FILMES

ENTRE NÓS, UM SEGREDO

Talvez o aspecto pouco poroso de ENTRE NÓS, UM SEGREDO (2020), de Toumany Kouyaté e Beatriz Seigner, tenha deixado a minha curiosidade antropológica pouco acesa. É quase sempre curioso acompanhar hábitos, costumes e culturas de diferentes povos, mas no caso dos mistérios da tradição oral dos povos de Burquina Faso, o filme não ajuda muito. Ou então eu precisaria ter construído um repertório que alcançasse o que as pessoas falam, inclusive lendas e expressões locais que talvez careçam de didatismo (para mim, pelo menos). Como gosto bastante de LOS SILENCIOS (2018), o trabalho mais famoso de Beatriz Seigner, que é muito rico nos aspectos visuais, achei excessivamente simples essa estrutura mais convencional deste seu novo trabalho.

ESPERO QUE ESTA TE ENCONTRE E QUE ESTEJAS BEM

Gosto mais do resgate histórico que ESPERO QUE ESTA TE ENCONTRE E QUE ESTEJAS BEM (2020) faz do que do tom de investigação para descobrir a dona das 110 cartas de amor encontradas em uma feira de antiguidades. Nesse resgate, vemos imagens valiosas de cidades do Brasil, as cidades relacionadas à possível passagem da remetente das cartas ou de seu destinatário. No caso, as cidades de Campo Grande e Rio de Janeiro na década de 1950. Fiquei muito curioso para ouvir ou ler o conteúdo integral de pelo menos uma das cartas, mas talvez a diretora Natara Ney tenha achado que estaria invadindo a privacidade da dona das cartas e do destinatário. E talvez ela tenha razão.

domingo, fevereiro 20, 2022

O BECO DO PESADELO (Nightmare Alley)



A minha relação com os filmes de Guillermo del Toro é muito particular. Tendo a gostar muito ou desgostar bastante. Tendo a ficar empolgado, especialmente com aqueles que exploram mais o terror ou a violência gráfica, ou a dormir de tédio. Até consigo fazer uma tabelinha com duas colunas separando os filmes que me fizeram dormir e aqueles que me deixaram ligado. Dito isso, O BECO DO PESADELO (2021) só me manteve acordado talvez por causa do café, mas acho que fiquei sonolento em alguns momentos. É por isso que eu adoro, por exemplo, A COLINA ESCARLATE (2015), um deslumbre visual e um banquete sangrento, que não costuma ser muito bem querido pela maior parte da crítica ou dos cinéfilos talvez por ser assumidamente over. Como del Toro é um cineasta mais feliz nos aspectos visuais do que nos enredos e em construções de personagens, O BECO DO PESADELO não me pareceu um projeto ideal para ele.

O BECO DO PESADELO é a segunda adaptação do livro O Beco das Ilusões Perdidas, de William Lindsay Gresham. A primeira foi O BECO DAS ALMAS PERDIDAS (1947), de Edmund Goulding, estrelada por Tyrone Powell. Esse filme, aliás, também já possuía alguns problemas de narrativa atabalhoada em sua conclusão, mas como tinha aquele jeitão de filme B, isso é muito mais fácil de relevar. Sem falar que há aquele dinamismo que é característico dos filmes noir do período. Já del Toro procurou encher o filme de um requinte visual que acaba comprometendo esse tipo de relação entre espectador e obra. Ou seja, olhamos para o filme querendo uma obra sofisticada em todos os sentidos.

E mais: del Toro não consegue fugir da conclusão apressada, ou com a sensação de que o corte final estaria faltando muitas cenas. E olha que ele fez um filme com uma duração 40 minutos maior que a de O BECO DAS ALMAS PERDIDAS. Não sei se o romance no qual os dois filmes se baseiam é difícil de ser adaptado, mas em diversos momentos O BECO DO PESADELO parece ser uma obra toda errada, como quando utiliza uma música não condizente com o momento da cena, ou na escolha de um Bradley Cooper inexpressivo para interpretar justamente alguém que engana as pessoas.

Aliás, todos os personagens do filme parecem meio mortos. Se essa é a intenção, talvez o diretor tenha conseguido alguma coisa. Algumas escolhas são acertadas (comparando com o filme de 1947). Por exemplo, a última cena achei muito boa. Foi a hora certa de terminar e teria passado um sentimento de extremo desencanto com a vida se o filme tivesse conseguido manter esse tipo de pesar contaminando a audiência desde o começo.

Na trama, Bradley Cooper é um homem que chega para trabalhar em um circo e, com sua ambição e talento, passa a aprender a técnica da “adivinhação” usada nesses espetáculos. Com o sucesso, e após casar com uma moça de lá (Rooney Mara), ele passa a fazer suas apresentações em hotéis chiques e a se envolver com pessoas da alta sociedade, entre elas uma psiquiatra tão esperta quanto ele, vivida por Cate Blanchett, que aparece com um visual tão “boneca de porcelana” quanto em NÃO OLHE PARA CIMA.

É curioso como o filme acaba deixando de lado um monte de atores excelentes pelo caminho, como Willem Dafoe, Toni Collette, David Strathairn, Richard Jenkins e o próprio ator-fetiche de del Toro, Ron Pearlman. Quem mandou fazer filme luxuoso demais, não é? Na verdade, não sei o quanto o Oscar que del Toro recebeu por A FORMA DA ÁGUA (2017) foi prejudicial ou não para sua carreira. 

O BECO DO PESADELO recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção de arte, figurino e fotografia.

+ DOIS FILMES

MORTE NO NILO (Death on the Nile)

Acho que aquela teoria que se aplicava a Paul McCartney, sobre ele estar morto e ter sido substituído por um sósia etc., podia se aplicar a Kenneth Branagh. Não consigo acreditar que o atual Branagh seja o mesmo de seus trabalhos iniciais, como HENRIQUE V (1989), VOLTAR A MORRER (1991), MUITO BARULHO POR NADA (1993) e HAMLET (1996). Ou então eu fui enganado e ele nunca foi mesmo um grande diretor. O que vemos em MORTE NO NILO (2022) é uma produção classe A com qualidade de teatrinho de escola. Todos os personagens são ridículos. Não sei se é para levar a sério ou se é para ser mesmo algo feito para se pensar como uma comédia. Do elenco, acho que gosto apenas de Emma Mackey, que os sortudos que veem a série SEX EDUCATION devem conhecer. A moça tem um carisma e uma expressividade que a destacam, por mais que a trama a deixe em segundo plano em vários momentos. Além do mais, como não sou muito fã desses whudunits mais clássicos, se não tiver algo diferente, não me interessa muito. Mas há uma cena que muito me surpreendeu pelo tempero erótico, a cena da "serpente do Egito", com Gal Gadot e Armie Hammer. :o

MOONFALL - AMEAÇA LUNAR (Moonfall)

Uma das coisas que mais me deixa indignado em superprodução ruim é a quantidade de dinheiro jogado fora. Sei que isso é até bastante comum e faz parte do jogo de Hollywood, mas no caso deste MOONFALL – AMEAÇA LUNAR (2022) até naquilo que poderia se esperar de bom, que são os efeitos visuais, é tudo muito desleixado. E aí temos a história, que nas mãos de um diretor bacana, até poderia render algo interessante, mas infelizmente Roland Emmerich, que nem sei se um dia já foi um bom diretor, certamente desistiu aqui de se esforçar. Na trama, a lua começa a sair do eixo e um casal de astronautas volta para uma missão para salvar o planeta, junto com um cara que se fazia de doutor. Há quem vá se divertir com essa tranqueira, mas não foi o meu caso, infelizmente.

sexta-feira, fevereiro 18, 2022

TUDO BEM



Vendo TUDO BEM (1978) como homenagem a Arnaldo Jabor, falecido na última terça-feira, dia 15, percebi o quanto me falta ainda para compreender o seu universo, a sua poética. E como o filme foi realizado ainda com a ditadura civil-militar limitando as liberdades de expressão, há muita coisa cifrada. Ainda assim, Jabor já havia tido a coragem de fazer um documentário que deixava explícita a falta de consciência política da classe média e das classes menos desfavorecidas do que estava de fato acontecendo no Brasil. Refiro-me ao A OPINIÃO PÚBLICA (1967), um filme que só passou pela censura por não ser uma obra abertamente contrária ao regime, deixando o espectador tirar suas próprias conclusões a partir das opiniões das pessoas entrevistadas.

Já em TUDO BEM, sendo uma obra ficcional, Jabor estava em um território mais perigoso. Vindo de duas ótimas adaptações de Nelson Rodrigues, TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1972) e O CASAMENTO (1975), o cineasta estava em alta para continuar fazendo suas crônicas ferinas da classe média brasileira, tão cheia de hipocrisia e falso moralismo. Deixar de ser um “especialista” em Nelson Rodrigues e buscar sua própria voz foi um passo e tanto em TUDO BEM, que ele escreveu em parceria com o roteirista Leopoldo Serran.

O resultado é uma obra caótica (no bom sentido), uma verdadeira zona – em alguns momentos lembra teatro pelo estilo carregado da interpretação, construindo caricaturas dos seus personagens, como se estivesse usando uma lente que aumenta suas qualidades e seus defeitos. Na trama, uma família de classe média um tanto decadente convive com um grupo de pedreiros que estão trabalhando na reforma do apartamento. Junte-se a isso a empregada doméstica rezadeira (Maria Sílvia) e uma nova contratada, vindo da prostituição (Zezé Motta) – que é o lugar onde ela preferia estar, em vez de trabalhar em “casa de madame”.

Paulo Gracindo está ótimo como o patriarca frustrado pelo fantasma da impotência, ao mesmo tempo que fala com seus três fantasmas camaradas, que lhe dão dicas na hora de escrever textos ou cartas. Uma das coisas que mais chamou a atenção para mim nessas conversas do personagem de Gracindo com os três fantasmas foi a distância generacional cada vez mais abissal dessas pessoas com a geração dos dias de hoje, seja no modo de falar quanto na cultura adquira. Talvez Jabor, um homem que vejo como de espírito mais moderno, por ser da geração do Cinema Novo, quisesse apresentar aqueles homens como seres antiquados.

Enquanto isso, a esposa (Fernanda Montenegro), sentindo falta do sexo com o marido, acredita que ele a está traindo com outra. Em certo momento, ela chega até a apelar para a ajuda de sua empregada rezadeira, para arranjar uma forma de usar a magia ou o sobrenatural para seduzi-lo, fazer com que ele sinta desejo de ir para a cama com ela. Aliás, uma das coisas que chama bastante atenção em TUDO BEM é o modo como a religiosidade também entra na equação, ajudando a tornar aquele ambiente ainda mais caótico do que já aparentava desde o início, mas também mais representativo do Brasil.

Há uma cena que define bem essa confusão bem humorada, que é a que reúne um monte de gente no banheiro se molhando com o vazamento de um cano. Engraçado que antes dessa cena, eu já estava achando que havia no filme muitos paralelos com O ANJO EXTERMINADOR, de Luis Buñuel, mas no filme de Buñuel está presente na casa apenas a burguesia, enquanto Jabor une a classe média e os pobres. Os pobres que são bons, como afirma em diálogo muito engraçado e irônico a personagem de Montenegro, no momento em que os pedreiros estão comendo seus humildes almoços em suas marmitas. É muito melhor comer essa comida simples do que comer nesses restaurantes de luxo, diz ela, depois de tentar se desculpar por não oferecer almoço para eles.

Há um outro momento memorável nesse sentido: quando a família de migrantes de Piauí (José Dumont), um dos pedreiros, aparece na casa dos ricos porque foram enxotados de onde estavam por não ter como pagar o aluguel. Piauí, ao dizer que vai levá-los para morar debaixo da ponte, desperta um pouco da generosidade da matriarca, mas não o suficiente para aguentá-los por mais do que um dia no apartamento. Logo chamam o síndico do prédio para mandá-los embora.

Acredito que este é um dos poucos filmes brasileiros que mistura de maneira tão explícita as classes abastadas com a classe miserável dentro de um mesmo ambiente. Tudo isso com uma direção de arte e fotografia que privilegiam a sujeira. Coisas do cinema brasileiro da época, que tinha essa função de incomodar nos tempos da ditadura, fazendo aquela contraposição com as telenovelas da Rede Globo, que mostravam apenas pessoas bonitas, ricas e maquiavam a realidade brasileira.

Quanto a Arnaldo Jabor, especificamente, houve quem dissesse que ele já “tinha morrido” quando deixou o cinema, com o fim da Embrafilme, e passou a trabalhar como comentarista político (com viés direitista) e a escrever crônicas políticas e afetivas no jornal O Globo, de 1995 a 2016. Entre essas crônicas, há uma que muito me emocionou. Já chorei em várias vezes que a li. Ela aparece (creio que sem o parágrafo inicial original) neste LINK. Só por isso, por essa sensibilidade em lidar com as dores, e também pelo cinema, claro, Jabor merece nosso respeito e consideração.

+ DOIS FILMES

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES

Eis o caso de adaptação que já denuncia a origem teatral. Há algo na conclusão do filme que funcionaria melhor no teatro do que no cinema. Nas duas conclusões, por assim dizer. O melhor de PERDOA-ME POR ME TRAÍRES (1983) está no grande flashback, que conta a história de Judite (Vera Fischer) e seu marido ciumento (Nuno Leal Maia). É curioso como o ciúme acaba lembrando o filme do Claude Chabrol recentemente revisto (CIÚME – O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO), mas a obra de Nelson Rodrigues segue um outro caminho, tão perturbador quanto. Quanto à Vera, ela está numa beleza tão divina que me peguei pensando se ela não seria a mais bela de todas as estrelas do nosso cinema. A história inicial, encabeçada por Lídia Brondi, por sua vez, não tem força, funcionando mais como objeto de vingança, ao final. No mais, há também que se destacar o brilhantismo de Nelson em usar frases geniais, como "amar é ser fiel a quem nos trai", entre outras. Braz Chediak se saiu bem melhor no antológico BONITINHA, MAS ORDINÁRIA OU OTTO LARA REZENDE (1981).

A FOME DE LÁZARO

Um filme que aposta mais nas imagens do que nos diálogos. Aliás, praticamente não há diálogos no curta A FOME DE LÁZARO (2020). O que ouvimos de vozes humanas são as rezas. As escolhas que o diretor Diego Benevides faz em seu trabalho de estreia são muito acertadas, sabendo muito bem o que quer na montagem para construir a narrativa, cujo momento máximo está no banquete oferecido em promessa a São Lázaro. O modo como são vistos de perto tanto os cães quanto os sertanejos aparece como uma forma de unificá-los, de colocarem a eles (e a nós) numa posição de igualdade com os animais. Muito interessante.

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

CHANGEMENT D’ADRESSE



Passei por maus bocados nesses últimos dias. Começou com dores no corpo no domingo, depois uma mistura de dor com ardor na região lombar, sem falar na disposição física, próxima do zero. Como já estou sendo medicado, hoje me sinto melhor. Estou aguardando o resultado do teste de COVID, por via das dúvidas (o médico achou os sintomas muito a cara de COVID). O ruim desses dias em casa doente é que até o prazer de ver filmes fica bastante prejudicado. O máximo que consegui foi ver um filme do Arnaldo Jabor, “parcelado”. Acredito que teria gostado mais em outras circunstâncias, embora tenha conseguido perceber suas qualidades de forma racional, apesar das dores. 

No sábado, como estava melhor, a apreciação de um Emmanuel Mouret inédito para mim foi muito saborosa. E eu não poderia deixar de falar de CHANGEMENT D’ADRESSE (2006) de maneira um pouquinho mais elaborada e não apenas nesses pequenos textos que funcionam como notas de rodapé, que estou fazendo no blog apenas por não conseguir tempo e energia para dar conta de escrever com calma sobre todos os filmes que vejo. Principalmente nesse último mês de janeiro, quando vi bem mais títulos do que a média dos outros meses.

Este é o terceiro longa-metragem de Mouret e já apresenta com muita leveza aquilo que o cineasta-ator-roteirista mostraria em suas obras posteriores, inclusive quando passaria a fazer também histórias dramáticas. Neste filme da primeira fase, temos novamente Mouret como uma espécie de Woody Allen francês, no jeito desajeitado com que aborda as mulheres e de como tenta compensar a timidez com a conversa. Em filmes posteriores, notar-se-ia uma maior influência de Éric Rohmer, mas em uma comédia mais física, como FAÇA-ME FELIZ (2009), por exemplo, vi traços tanto de Jacques Tati quanto das screwball comedies dos anos 1930, como LEVADA DA BRECA, de Howard Hawks, por exemplo.

Na trama de CHANGEMENT D’ADRESSE (que eu saiba, o filme nunca chegou a ser lançado no Brasil e por isso não há um título brasileiro – me avisem se a informação estiver incorreta), Mouret é David, um músico que passa a dividir o apartamento com Anne, vivida por Frédérique Bel, parceira de Mouret nos saborosos SÓ UM BEIJO POR FAVOR (2007), o já citado FAÇA-ME FELIZ e A ARTE DE AMAR (2011). Ela acaba se tornando a melhor amiga do protagonista, embora um sentimento amoroso esteja no ar o tempo todo, nem que seja apenas sentido de forma consciente apenas pelo espectador. Assim, ficamos numa posição de privilegiados ao saber que eles dois foram feitos um para o outro, pelo menos dentro das opções disponíveis na trama. Até porque é com Anne que David se sente mais à vontade – eles até chegam a conversar numa boa enquanto Anne está tomando banho nua na banheira.

Como Anne tem um namorado (que nunca aparece no filme, está sempre viajando) e David se apaixona pela jovem Julia (Fanny Valette, de A PEQUENA JERUSALÉM), sua aluna de trompa, a relação dos dois segue sendo de cumplicidade. Aliás, é curioso o abismo existente nas personalidades de Anne e Julia. Enquanto Anne é muito tagarela e fala tão rápido quanto um personagem de desenho animado, Julia é tão silenciosa e calada que chega a acentuar o constrangimento de David em suas abordagens tímidas. Há uma cena que denota uma situação de perdedor passivo do personagem: quando ele viaja com Julia e eles acabam conhecendo um cara na viagem e ela se apaixona pelo tal sujeito.

É interessante perceber que tanto CHANGEMENT D’ADRESSE quanto SÓ UM BEIJO POR FAVOR partem de perguntas do tipo “o que aconteceria se...?”. Se em SÓ UM BEIJO POR FAVOR, ele parte da pergunta “e se eu beijasse a minha melhor amiga, será que isso prejudicaria nossa amizade?”, em CHANGEMENT D’ADRESSE a pergunta que vem é “e se eu compartilhasse o mesmo apartamento com uma mulher atraente, um apartamento especificamente sem muitas portas ou muita privacidade, será que seria complicado estabelecer uma relação de amizade pura e simples?”. Outra coisa que também se percebe nos filmes do realizador é uma preferência pelo chamado quadrado amoroso (ou até um quinteto, quando entra uma outra pessoa na equação). De todo modo, seja no registro da comédia ou do drama, o que eu tenho notado é que essas perguntas têm resultado em filmes que trazem um prazer de assistir de dar gosto.

CHANGEMENT D’ADRESSE foi exibido no Festival de Cannes, na Quinzena dos Realizadores, e foi muito bem recebido, aplaudido de pé. Mesmo levando em consideração a duração curta (85 min), é impressionante como o filme passa voando. Mérito da direção, da montagem e da graça de todos os envolvidos. Um viva para Mouret e sua trupe!

Agradecimentos a Paula, entusiasta de Mouret, pela companhia durante a sessão, e a William Salgado, que fez a gentileza de sincronizar as legendas em português, que até então não estavam casando com a versão que eu dispunha.

+ DOIS FILMES

A MULHER QUE FUGIU (Domangchin Yeoja)

Ver A MULHER QUE FUGIU (2020), de Hong Sang-soo me passou uma impressão que Sang-soo talvez esteja precisando efetuar mudanças em seu estilo, de modo a trazer mais energia e paixão, coisa que havia de sobra em obras como FILHA DE NINGUÉM (2013) e CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015). Mas quem sou eu para questionar um autor como ele? Até porque este filme talvez cresça com uma revisão, já que eu gosto bem mais do terceiro segmento, quando passo a compreender um pouco mais – só um pouco – o drama pessoal da personagem de Kim Min-hee. Também gosto do primeiro segmento (acredito que a separação em segmentos seja um tanto óbvia, ainda que não explícita). É no primeiro segmento que há aquele diálogo bem engraçado envolvendo um gato no condomínio.

A WORLD WITHOUT WOMEN (Un Monde sans Femmes)

Acho que estou me tornando um fã de Guillaume Brac, tendo visto apenas um curta, um média (este filme tem pouco menos de uma hora) e um longa dele, ALL HANDS ON DECK (2020). Me encanta o tom agridoce de suas comédias dramáticas habitadas em ambientes de lazer e de encontros e despedidas. Em A WORLD WITHOUT WOMEN (2011), o personagem Sylvain (Vincent Macaigne), do curta LE NAUFRAGÉ (2009), está de volta. Ele é um sujeito tímido, mas que se esforça em tentar diminuir sua solidão na cidadezinha litorânea onde mora. Aqui ele se interessa por Patricia (Laure Calamy), que chega com a filha Juliette (Constance Rosseau) para passarem uns dias de descanso na praia. Sentimentos surgem, o desenrolar da relação breve é imprevisível e o filme termina com um misto de quentinho no coração com algum aperto. Lindo, lindo.

domingo, fevereiro 13, 2022

IRRADIATED (Irradiés)



Uma das coisas que eu temo um dia acontecer é o fim das salas de cinema como as conhecemos. Antes mesmo da pandemia já vinha ocorrendo uma migração forte de muitos cinéfilos para os streamings, da experiência da sagrada sala escura para o conforto de seus lares. Os streamings também funcionaram como um elemento amplificador da preguiça para muitos que buscavam os filmes por meios alternativos ou para a compra de mídia física. Quem tem o streaming x é só ligar a TV, dar um search pelo filme (se necessário) e apertar play no controle remoto. E se há preguiça de procurar o filme para ver em casa, que dirá de ir à sala de cinema. 

Voltei a pensar nesse suposto fim das salas de cinema quando frequentei as tantas sessões maravilhosas da Mostra Retrospectativa do Cinema do Dragão e fui um dos sortudos a estar presente. Acredito que, além de BENEDETTA, de Paul Verhoeven, que já era um filme que vinha em caráter de pré-estreia e com um hype considerável, a única sessão bastante animada da mostra foi a de MEMORIA, de Apichatpong Weerasethakul, talvez por ser sessão única. Mas que também é um exemplo de que não há como comparar a experiência de ver em casa este filme em específico com vê-lo na tela grande e com apropriado. Pretendo voltar a falar desse título em breve, quando estiver com tempo, disposição e um pouco de inspiração.

Por ora, falemos do último inédito que vi na mostra, o impressionante filme-ensaio IRRADIATED (2020), de Rithy Panh, mais conhecido como o diretor de A IMAGEM QUE FALTA (2013), indicado ao Oscar de filme estrangeiro, mas que possui uma carreira de mais de 20 títulos, todos, se não me engano, abordando o tema do horror da guerra. E não é para menos: Panh teve sua família assassinada de modo extremamente cruel pelo Khmer Vermelho. Seu pai, sua mãe, suas irmãs e sobrinhos morreram de fome e exaustão em um campo de trabalhos forçados na zona rural do Camboja. Isso já é motivo mais do que suficiente para que um artista dedique sua carreira a tratar desse assunto, seja especificamente dos horrores de seu país natal, seja dos horrores das guerras em outras partes do mundo.

IRRADIATED tem essa proposta mais abrangente e por isso mesmo mais impactante no modo como nos deixa em estado de desesperança com a raça humana. Confesso que não é um filme que eu anseio rever tão cedo, pois o impacto emocional que ele provoca é deveras pesado. Senti algo semelhante a uma náusea, tanto pelas imagens fortes (em alguns momentos quis virar o rosto), quanto pelo sentimento de maior conscientização do mal perpetrado pelo homem em diversas guerras e também em atos inadjetiváveis, como fazer experiências com seres humanos e filmar o ato ou o resultado.

E há um detalhe que não é exatamente um detalhe: Rithy Panh usa uma tela tripla aproveitando o formato scope para compor suas imagens e intensificar a força delas. Como se diz na narração, é essa a intenção. IRRADIATED usa um tipo de lirismo narrativo semelhante ao de HIROSHIMA, MEU AMOR, de Alain Resnais, mas de maneira muito mais seca, muito mais cruel para o espectador, talvez mais próximo de NOITE E NEBLINA, do mesmo Resnais, ambos citados em imagens. Essas duas obras-primas de Resnais lidam com dois dos maiores crimes da raça humana: o holocausto nazista e as bombas de Hiroshima e Nagazaki enviadas pelos Estados Unidos. 

Ao ver este oratório audiovisual, as lágrimas não vêm. O que vem é um nó na garganta e uma tristeza imensa. A proposta de Panh de fazer uma reflexão sobre o mal é extremamente bem sucedida. Às vezes, em vez da narração e música temos apenas o silêncio e as imagens, muitas delas já vistas, mas nem por isso menos dolorosas. Corpos humanos tratados como lixo nos campos de concentração, pilhas de corpos jogados em valas, arrastados pelos próprios prisioneiros com rostos já despidos de esperança e talvez até da própria noção de realidade. E há a bomba de Hiroshima, vista inúmeras vezes na tela tripla ou na tela ampliada, além dos efeitos nas cidades vizinhas.

Talvez a única coisa que eu tenha achado desnecessário no filme tenha sido as imagens das figuras vestidas de fantasmas do imaginário japonês, que parece mais apropriado para uma peça teatral e acaba interferindo um pouco no fluxo poderoso das imagens de arquivo. Mas respeito as intenções do cineasta. Além do mais, esses elementos são menores em comparação com o tanto que IRRADIATED nos deixa em um estado próximo à depressão nesse choque de realidade. Talvez por isso não seja recomendado a audiências extremamente sensíveis.

+ DOIS FILMES

POUR DON CARLOS

Tenho um pouco de dificuldade em me concentrar, de não me dispersar em filmes silenciosos, principalmente esses que possuem muitos personagens e tramas mais intrincadas. Comecei a tomar gosto por POUR DON CARLOS (1920), de Musidora e Jacques Lasseyene, a partir da simplificação de sua história, que acontece quando dois homens vão para uma guerra civil ocorrida no século XIX na Espanha e viram alvo de preocupação de certas pessoas, entre eles uma mulher interpretada por Musidora, uma das figuras mais interessantes do cinema mudo francês. O rosto expressivo da atriz (e aqui também diretora) é bem marcante. E há algumas cenas visualmente marcantes, como o enterro de um corpo, ou a tensa cena em que a personagem tenta seduzir um homem para conseguir a soltura de um amigo. 

FABIAN - O MUNDO ESTÁ ACABANDO (Fabian oder der Gang vor die Hunde)

Como desconheço a poética de Dominik Graf talvez não tenha penetrado da maneira mais adequada neste seu trabalho ambicioso - pela duração, mas também por ousar documentar a Alemanha do início dos anos 1930, quando o nazismo estava se estabelecendo e impondo sua força de maneira mais agressiva. Era um momento de depressão gritante no país, que sofria ainda com as consequências da Primeira Guerra e a taxa de desemprego era altíssima. O Fabian do título (Tom Schilling) é um rapaz que trabalha em uma empresa de cigarros, mas que na verdade intenciona seguir a carreira de escritor. Durante uma de suas noites pela grande metrópole decadente, ele conhece e se apaixona por uma atriz de cinema (Saskia Rosendahl) e o amor é correspondido. O curioso da estrutura narrativa de FABIAN - O MUNDO ESTÁ ACABANDO (2021) é que ele começa de maneira bem agitada e por vezes de difícil compreensão, mas que, após a cena do encontro dos amantes, ocorre um outro tipo de andamento, mais lento e mais convencional também. Gosto muito de como o diretor inclui imagens reais (assim acredito) da Berlim da época, trazendo mais verdade para sua obra. O final me deixou mais decepcionado do que triste, e talvez eu veja isso como um problema. Ainda assim, para uma obra de cerca de três horas de duração e com algumas ousadias formais, é bastante envolvente.

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

MÃES PARALELAS (Madres Paralelas)



É uma felicidade ter a honra de ter um mestre do melodrama em atividade e em pleno domínio de seu ofício e, ainda por cima, termos a chance de conferir seu novo trabalho na tela grande. Como aqui no Brasil a distribuição do filme será na Netflix, pelo menos o serviço de streaming mais popular e poderoso do mundo dá essa pequena janela para que possamos conferir MÃES PARALELAS (2021) no cinema antes de sua estreia na telinha na próxima semana. E de certa forma o lançamento de um Almodóvar na Netflix pode trazer uma visibilidade que talvez nenhum outro filme do cineasta espanhol trouxe até hoje. E olha que estamos falando de um sujeito que é o diretor não americano e não inglês mais popular do mundo.

Felizmente Almodóvar usou seu tempo durante a pandemia de maneira produtiva. Depois de fazer um curta-metragem muito interessante, A VOZ HUMANA (2020), ele retorna aos melodramas protagonizados por mulheres, como já é tradição desde pelo menos QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO? (1984), após o bem-sucedido filme masculino e autobiográfico DOR E GLÓRIA (2019). E, deixando de lado comparações entre um filme e outro, mais uma vez Almodóvar acerta, mesmo quando erra, se levarmos em conta que há alguns problemas de desproporcionalidade entre os dois temas abordados no enredo.

MÃES PARALELAS tem o sabor dos grandes melodramas noir dos anos 1940-50 produzidos em Hollywood, com aquela trilha sonora de suspense do grande Alberto Iglesias surgindo nos momentos adequados e trazendo tons sombrios quando necessário. Sobre a trama, acho muito interessante ver o filme sabendo o mínimo possível dela, de modo que cada movimento do enredo seja saboreado em seu devido tempo. Dito isso, peço a licença para comentar um pouco da trama a partir do próximo parágrafo.

Em MÃES PARALELAS, Penélope Cruz é Janis e Milena Smit é Ana, duas mulheres de idades diferentes que se conhecem na maternidade. Ambas estão prestes a dar à luz e estão sozinhas. Ou seja, estão separadas dos pais biológicos das crianças prestes a nascer. As circunstâncias de cada uma são distintas e mais adiante saberemos detalhes principalmente de como ocorreu a gravidez de Ana, já que a princípio só sabemos da história de Janis, nome adotado em homenagem a Janis Joplin, que tem uma de suas canções mais lindas presentes na trilha sonora. Também saberemos em seguida um pouco do passado da mãe de Janis e de como ela se relaciona com a diva do rock.

O interesse de Almodóvar por dramas familiares se dá por sua própria história de vida, nascido de família humilde e em ambiente rural e depois indo para a cidade grande, como a personagem Janis. MÃES PARALELAS, inclusive, demora um pouco para nos apresentar à família e ao passado da personagem, a suas raízes. Isso só ganha espaço após o drama principal, envolvendo maternidade, ficar de certa forma concluído. Inclusive, em certo ponto o filme até parece ficar um pouco à deriva, mas é uma sensação interessante, já que ficamos sempre esperando o que Almodóvar fará em seguida, ele que também é um mestre dos roteiros, assim como é das composições visuais e da sentimentalidade.

Mais uma vez a temática do estupro aparece em um de seus filmes, mas desta vez, embora mais chocante e doloroso, bem menos controverso. E quando o tema surge aumenta nosso carinho pelas personagens, aumenta nosso sentimento de solidariedade por suas dores e seus traumas pessoais. Aquele carinho de Almodóvar pelas mulheres, que também foi marca em TUDO SOBRE MINHA MÃE (1999) segue sendo forte em seu corpo de trabalho. E sobre aquilo que falei sobre a desproporcionalidade da trama envolvendo maternidade versus trama envolvendo os mortos na Guerra Civil Espanhola e na ditadura de Franco, isso deixa de ser tão importante quando essas tramas se complementam.

No fim das contas, MÃES PARALELAS é um filme sobre famílias. Principalmente sobre as mulheres das famílias: as mães, as filhas, as avós, as bisavós. Além do mais, em tempos de extrema direita se apresentando novamente em diversos países do mundo, é sempre importante lembrar de certas coisas essenciais, é sempre importante lembrar dos genocídios, dos crimes, e até mesmo do perigo de ser “apolítico”.

MÃES PARALELAS foi indicado a dois Oscar: melhor atriz (Penélope Cruz) e melhor trilha sonora (Alberto Iglesias).     

+ DOIS FILMES

66 QUESTÕES DA LUA (Selíni, 66 Erotíseis)

Longa-metragem de estreia de Jacqueline Lentzou, 66 QUESTÕES DA LUA (2020) é tanto um retrato do amadurecimento de uma jovem adolescente, quanto a história da relação de maior aproximação que ela passa a ter com o pai que está doente. Há um tom pouco doce no modo como a narrativa se desenvolve, começando com imagens de filmagens caseiras em VHS dos anos 1990, que de vez em quando voltam, e seguindo com as dificuldades da menina em cuidar praticamente sozinha do pai. Enquanto isso, ela segue tentando descobrir segredos dolorosos que o homem prefere esquecer ou esconder, e que acabam sendo também elementos de mistério dentro do filme. Não é uma obra tão convidativa e aconchegante, mas também não é difícil de acompanhar.

A DONA DO BARATO (La Daronne)

Pode não ser um grande filme, mas A DONA DO BARATO (2020), de Jean-Paul Salomé, tem uma leveza agradável e tem a força de Isabelle Huppert, que é tão boa que consegue levar o filme, praticamente, nas costas. Na trama, ela é uma intérprete que trabalha na polícia e ajuda na apreensão de imigrantes árabes na França. Chega um dia que ela resolve não só ajudar alguém envolvido com o tráfico, mas ela mesma passar a ganhar dinheiro com o material. Gosto do gesto transgressor da personagem e do filme, que tem um quê de policial francês da década de 1970. Ao contrário do que eu pensava, o diretor já tem vários filmes no currículo.

domingo, fevereiro 06, 2022

A VIAGEM DE PEDRO



Quinto longa-metragem de ficção de Laís Bodanzky, A VIAGEM DE PEDRO (2021) é a primeira incursão da cineasta no território dos filmes de época e isso já demanda um esquema de produção muito bem cuidado. Aliás, é bom perceber que a finalização das filmagens ocorreu em 2018, quando ainda havia um Ministério da Cultura, ao menos. Então, percebemos que esses filmes brasileiros de produção mais ambiciosa (são bem poucos, na verdade) são herança de outros governos. 

Se A VIAGEM DE PEDRO é o primeiro filme histórico, por assim dizer, de Bodanzky, é também um mergulho admirável no horror psicológico, que permeia a ida aos infernos de Pedro I, quando de sua viagem a Portugal, a fim de lutar contra o meio-irmão e conseguir o trono do seu país-natal, colocando sua filha mais velha como imperadora. Se olharmos para a filmografia da diretora, que se mostra de uma versatilidade impressionante, talvez só encontremos esse tipo de situação de horror psicológico em seu longa de ficção de estreia, BICHO DE SETE CABEÇAS (2000), por abordar a situação perturbadora de alguém que se vê preso contra sua vontade em um hospital psiquiátrico que ainda adotava aquela “técnica” terrível do eletrochoque.

A maior parte da ação de A VIAGEM DE PEDRO se passa no navio inglês que carrega pessoas de diversas nacionalidades e culturas. Entre brasileiros, europeus e africanos livres da escravidão, o Pedro vivido por Cauã Reymond procura compreender o que lhe aflige e que lhe tira até sua potência sexual. “Como é que eu vou ganhar uma guerra de pau mole?”, se pergunta ele, frustrado, a seu médico particular. Fragilizado, mas ainda procurando manter sua fama de mulherengo, em certos momentos ele se compara a Napoleão, que para ele é o exemplo de alguém que chegou a uma situação de conquista insuperável.

No navio, essa situação frente à esposa Amélia (Victoria Guerra, a bela atriz portuguesa de O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS) o deixa frustrado. Apesar de tudo, ou talvez por isso, o sexo não lhe sai da mente, tanto que ele chega a encenar um sexo oral com um polvo (!) e a também se aproximar de uma mulher negra do navio (Isabel Zuaa, de AS BOAS MANEIRAS). Laís Bodansky foge, assim, do que seria um filme histórico convencional. O que temos aqui é uma história que acontece, principalmente, dentro da mente de Pedro, do que ele vê no navio e do que ele lembra, através de flashbacks, de sua infância, quando chegou de Portugal em 1808, e de suas relações com sua primeira esposa Leopoldina (Luise Heyer) e com sua amante Maria da Glória (Luisa Gattai). Essas memórias ajudam um pouco a esclarecer a presente situação aflitiva do protagonista.

Bodanzky explora lindamente a dignidade dos personagens negros, suas culturas, suas dores, suas religiões e crenças. Há um personagem negro, inclusive, que se mostra muito poderoso frente àquele imperador pós-abdicação. Sérgio Laurentino é o chefe de cozinha do navio que desperta a atenção de Pedro, ao mesmo tempo que se apresenta como uma possível salvação para a doença que lhe aprisiona e lhe perturba. A cena do ritual é bastante poderosa e visualmente rica; assim como é linda a cena de Pedro caindo no mar, de um simbolismo que resume sua trajetória no filme e talvez na vida, como a narração dá a entender no final.

Posso estar errado, mas talvez a janela "clássica" (1,37:1) atrapalhe um pouco uma repercussão mais popular do filme quando for lançado em circuito, mas acho muito bonito a diretora não fazer concessões e entregar a obra como deseja. Além do mais, A VIAGEM DE PEDRO é mais um trabalho que atesta a habilidade da diretora em lidar com múltiplos personagens. Ela que já apresentou um elenco múltiplo lindo em CHEGA DE SAUDADE (2007) e em AS MELHORES COISAS DO MUNDO (2010), mais uma vez consegue dar conta da complexidade dos tripulantes do navio e dos habitantes da memória de seu herói pouco honrado e, por isso mesmo, muito humano.

+ DOIS FILMES

TÔ RYCA! 2

Achei o primeiro TÔ RYCA! (2016) bem divertido e por isso resolvi dar uma olhada nesta sequência, que tem os seus momentos, graças a gente muito boa como a própria Samantha Schmütz, o Rafael Portugal (que sempre rouba a cena) e a Evelyn Castro, que faz a mulher que afirma ter o mesmo nome e sobrenome de Selminha (Schmütz) e aparece para reivindicar a fortuna que a outra ganhou do nada. Assim como o primeiro filme, há em TÔ RYCA! 2 (2022), de Pedro Antônio, bons momentos de crítica social. Aliás, há, inclusive, uma indireta muito bem dada à classe média que se acha rica no Brasil. A cena da chuva talvez seja a melhor do filme, mas seria capaz de enumerar outras tantas. Só não chega a ser exatamente bom pois nem sempre as gags funcionam.

KEVIN

Linda a habilidade da diretora Joana Oliveira de fazer um documentário com tanta cara de ficção, a partir da viagem que ela faz a Uganda para visitar a amiga Kevin. As duas se conheceram 20 anos atrás quando estudaram na Alemanha e nunca perderam o contato. Agora que Joana está passando por um momento difícil de sua vida, ela sente necessidade de fazer essa viagem e encontrar apoio no carinho e na sabedoria de vida da amiga. Por mais que haja, imagino, cenas previamente performadas, combinadas, KEVIN (2021) passa uma verdade e flui de maneira tão tranquila, que parece se tratar de algo realizado facilmente, o que acredito que não seja o caso.

quinta-feira, fevereiro 03, 2022

OS GRANDES VULCÕES



Um dos maiores prazeres que tive neste mês de janeiro deste ano que inicia foi/tem sido a Mostra Retroexpectativa do Cinema do Dragão (que continua neste início de fevereiro). Não tenho palavras para expressar a minha gratidão a Pedro Azevedo, o curador, ao Governo do Estado, que tem possibilitado financiamento ao projeto, e a todos os envolvidos. Como se já não bastasse dispor da melhor programação de cinema da cidade de Fortaleza e qualidade de imagem e som impecáveis, o Cinema do Dragão ainda traz surpresas dentro dessa mostra.

Entre essas surpresas, quem diria que algo tão próximo de uma experiência que funcionaria mais em um teatro me agrasse tanto, me empolgasse tanto. OS GRANDE VULCÕES (2021), de Thiago B. Mendonça (direção do vídeo e edição) e Fernando Kinas (direção geral, roteiro e pesquisa musical), é dessas obras que impressionam por diversos aspectos. Antes de mais nada, há a performance genial de Fernanda Azevedo. Ela comanda o monólogo/palestra/interpretação de forma brilhante. Admiramos seu talento ao mesmo tempo em que ouvimos e prestamos atenção ao que é dito: em grande parte, o discurso do escritor inglês Harold Pinter, quando recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Seu discurso é intitulado “Arte, Verdade e Política” e tece fortes críticas aos Estados Unidos e a seu parceiro, o Reino Unido. Os americanos, após a Segunda Guerra Mundial, e principalmente após a queda do muro de Berlim e dos fins de regimes comunistas em diversos países da Europa, se fantasiou de grande mocinho do mundo civilizado enquanto atacava de maneira muito sutil muitos países. Inclusive o nosso, o Brasil, já que a ditadura civil-militar que durou 21 anos foi patrocinada pelos americanos.

Este filme/discurso nos incita a nos indignarmos com a política descarada do governo dos Estados Unidos em seu processo de dominação cultural e genocídio mundial, especialmente de países que são quase invisibilizados por serem tão pobres ou tão desgraçados por guerras internas ou religiosas. O maior exemplo que Pinter dá talvez seja o caso do Iraque, que foi atacado após o 11 de setembro com a desculpa de que estaria de posse de armas de destruição em massa.

Há um senso de humor muito particular na atuação de Azevedo, assim como é afiado o discurso de Pìnter. Como o documentário utiliza imagens de longas-metragens (muitos brasileiros, como OS CAFAJESTES, FILME DEMÊNCIA e O HOMEM DO SPUTNIK), de arquivos jornalísticos e também canções (destaque para "Comentários a Respeito de John", de Belchior, em momento arrepiante), acaba sendo muito mais do que um teatro filmado ou uma experiência a ser vivenciada em algum tipo de museu. Ao contrário, funciona como cinema muito bem.

Outra coisa muito curiosa é que o discurso de Pinter, que é de 2005, se mostra atualizado ainda mais nos dias de hoje, em tempos de pós-verdade, e é atualizado inclusive nas fotos grandes que Fernanda Azevedo expõe, como as de Jair Bolsonaro e do general Augusto Heleno. Tristemente, a crítica de Pinton, para nós brasileiros, se apresenta ainda mais feroz e digna de atenção.

Torço para que um dia este filme entre em cartaz comercialmente, pois quero vê-lo novamente. OS GRANDES VULCÕES merece ser visto pela maior quantidade de pessoas possível, merece ser apresentado em escolas e universidades. E servirá para despertar a raiva, inclusive, dos lambe-botas do governo norte-americano, como é o caso deste atual desgoverno brasileiro.

+ DOIS FILMES

O DIA DA POSSE

Um filme confortável em um momento desconfortável do Brasil e do mundo este O DIA DA POSSE (2021). Allan Ribeiro, que sempre faz umas experiências muito interessantes, aqui se permite usar sua criatividade para fazer um filme durante a pandemia com seu amigo Brendo Washington. Ele sabe que tem um personagem interessante e os assuntos abordados também são interessantes, embora não necessariamente profundos. Ao que parece, Ribeiro tem a intenção de documentar tanto as aspirações do amigo quanto suas rápidas conversas pelo celular com a família num momento em que os números de vítimas da covid-19 registravam cerca de mil mortes por dia.

ESTAMOS TE ESPERANDO EM CASA

Um filme que tem menos de uma hora de duração, mas que certamente ativa muitos gatilhos emocionais para quase todo mundo. Em ESTAMOS TE ESPERANDO EM CASA (2021), de Cecília da Fonte e Marcelo Pedroso, vemos imagens colhidas na primeira onda da covid-19, em 2020, e a personagem principal, por assim dizer, é irmã de um dos diretores, a terapeuta ocupacional Poliana, que tem o trabalho de entrar em contato pelo celular com os familiares de pessoas que estão na UTI, muitas delas às portas da morte; outras, conseguindo se recuperar. A maioria das imagens é feita pela câmera de celular, exceto as que apresentam a intimidade de Poliana, casada com um professor e mantendo contando à distância com os pais, idosos. É triste voltar no tempo, aos tempos de lockdown, mas é mais triste lembrar dos nossos amigos queridos que se foram pela doença, que ainda não acabou, que segue na terceira onda, na verdade.