segunda-feira, agosto 31, 2020

QUEEN & SLIM

A morte de Chadwick Boseman na última sexta-feira, 28, foi um baque e tanto, não apenas para cinéfilos e fãs do herói Pantera Negra. O filme da Marvel teve um impacto imenso na sociedade, trazendo uma representatividade negra inédita dentro de blockbusters. E Boseman parte em um ano em que também atua como um símbolo de heroísmo em DESTACAMENTO BLOOD, de Spike Lee. Enquanto isso, os Estados Unidos estão pegando fogo com um presidente racista, assassinatos de negros por policiais e protestos em várias partes do mundo em plena pandemia.

Falar disso antes de falar mais especificamente de QUEEN & SLIM (2019), estreia na direção de longas-metragens da diretora de videoclipes Melina Matsoukas, é importante para nos lembrar do momento em que estamos vivendo. O filme estreou nos Estados Unidos no final do ano passado e teve pouca repercussão, por mais que a dupla de atores esteja ótima. Tanto Daniel Kaluuya quanto Jodie Turner-Smith. Havia um burburinho sobre possibilidades de indicação ao Oscar e uma maior visibilidade ao filme. Uma pena que não ocorreu. Aqui no Brasil, nem chegou aos cinemas, sendo lançado direto em VOD (AppleTV e Looke), sem muito alarde.

Além da bela atuação de Kaluuya e Turner-Smith, o filme de Matsoukas se destaca por uma valorização da estética black, seja na construção das imagens, muito bem cuidadas na fotografia de Tat Radcliffe, que traz um viés muito próprio para a beleza dos corpos, seja na trilha musical sensual e quente. Aliás, vale destacar que o diretor de fotografia também foi o responsável pelo primeiro episódio de LOVECRAFT COUNTRY, nova série em cartaz na HBO. E é impressionante como ambos os trabalhos têm elementos em comum - são quase gêmeos.

Em ambos os trabalhos vemos personagens negros vivendo em um país extremamente racista. E por mais que a série de Jordan Peele e Misha Green se passe na década de 1950, quando havia separações de banheiros para brancos e pretos, espaço reservado nos ônibus para brancos e pretos, QUEEN & SLIM se passa nos dias atuais. Ainda assim, sentimos imediatamente o horror da protagonista ao saber que ter o carro abordado por um policial branco é sim motivo de muita preocupação.

Na trama, Queen & Slim (os nomes reais dos personagens nunca são citados) se encontram pela primeira vez em um restaurante para um encontro via Tinder. "Por que você escolheu este restaurante?", ela pergunta. "O dono é negro", ele responde. Isso já ajuda a nos colocar dentro de um território perigoso, o tal país da liberdade, os Estados Unidos da América. E aí, quando os dois voltam do encontro e de uma conversa não muito animada, eles são parados pelo citado policial. Algo ruim acontece e eles acabam sendo fugitivos da lei, passando pelo vasto território americano e ganhando ares de heróis, já que o policial já havia matado um homem negro antes.

Por mais que o filme não se mantenha tão bom em sua segunda metade e tenha uma conclusão sem muita inventividade, estamos diante de um filme que merece uma maior atenção, tanto por suas várias qualidades, quanto pela representatividade negra e feminina/feminista (a força da personagem Queen, ter uma diretora negra). Além do mais, há cenas que certamente vão continuar firmes na memória, como o momento em que os dois entram em uma festa e são reconhecidos e saudados por várias pessoas. E há também o prazer que road movies costumam trazer ao mostrar as transformações por que passam os personagens ao longo da jornada.

A arte segue sendo uma das formas mais bonitas de resistência.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

CARANGUEJO REI

Na falta de INABITÁVEL (2020), o curta que vem chamado a atenção durante o Kino Fórum, que não consegui ver por problemas técnicos, consegui cópia deste trabalho anterior da dupla de diretores, que segue uma pegada de cinema de terror muito interessante. Aqui, a cidade de Recife está sendo dominada por caranguejos por todos os lados, ao mesmo que tempo que um homem de negócios (Tavinho Teixeira, de O CLUBE DOS CANIBAIS) vê seu corpo se transformando a cada dia. É mais um filme de gênero que vem trazendo questões sociais e ecológicas de maneira inteligente. Ótimo uso da fotografia em cenas noturnas. Direção: Enock Carvalho e Matheus Farias. Ano: 2019.

MAURO, HUMBERTO

Gosto muito do doc recente HUMBERTO MAURO (2018), de André Di Mauro, que nos faz sair do cinema bastante impressionados com a genialidade do cineasta pioneiro, a partir da amostra de algumas de suas obras. Este curta de David Neves já havia feito algo muito similar, e com a vantagem de ainda poder entrevistar o diretor, em sua casinha de campo, na maior tranquilidade. Acho curioso o comentário de Glauber Rocha, ao dizer que Mauro seria um precursor do Cinema Novo, como se o Cinema Novo fosse o marco zero do nosso cinema. Mas pode ser implicância minha com o Glauber. No mais, rever a cena do rapaz e da moça no jogo de pega-pega em GANGA BRUTA (1933) é sempre um deleite. Como ele conseguiu captar com tanta beleza, sensualidade e espontaneidade aquela cena? Um absurdo de tão lindo. Ano: 1975.

sábado, agosto 29, 2020

18 FILMES EM 18 ANOS

Aniversário de 18 anos deste blog. Como o número 18 é um número especial - o blog atingiu a maioridade -, achei que seria interessante fazer uma postagem diferente, ainda que não necessariamente inédita. O que temos aqui são trechos de escritos que fiz desde o primeiro ano do blog até o presente momento, ou seja, dos anos 2002-3 até 2020. Não são necessariamente os melhores filmes vistos nos referidos anos (há clássicos e revisões), nem mesmo os melhores textos, mas os filmes são todos muito queridos e acredito que selecionei partes das postagens que dizem bastante de mim - mais do que dos filmes, embora diga deles também. No fim, parece que foi bom o Diário de um Cinéfilo ter nascido sob um signo de terra.

LUCIA E O SEXO (Lucía y el Sexo)

Uma cena, entre várias, me chamou a atenção: Lucía está na ilha e a câmera desce e mostra uma tomada dela com a lua ao fundo (a lua é uma constante no filme e personagem da história). Sublime. LUCIA E O SEXO mexe com a cabeça, com o pau, com os poros e com o coração. É um turbilhão de sentimentos e sensações que intoxica o corpo e nos faz querer estar vivos. Quem ainda não viu, não deixe de ver por nada. A não ser que você conheça alguma Lucía pelo caminho. Aí tá perdoado. (Julio Medem, 2001).

OS PÁSSAROS (The Birds)

Lembro que quando eu ia A uma igreja evangélica na infância e adolescência, o pastor de vez em quando comentava que cada vez mais se via menos aves no céu. Que elas estavam se preparando para o dia da grande tribulação, quando o planeta iria viver os dias do Apocalipse. Aquilo, junto com a história do arrebatamento da igreja, me deixava aterrorizado. Nem sei se tem na Bíblia essa história dos pássaros surgirem pra atacar o homem, mas no filme de Hitchcock o tom apocalíptico não encontra concorrente à altura. (Alfred Hitchcock, 1963).

O HOMEM ELEFANTE (The Elephant Man)

Como não ficar comovido com a cena em que Merrick é levado para conhecer a esposa do personagem de Hopkins? Me emociono só de lembrar. Na minha vida, assisti poucos filmes assim tão cheios de humanidade quanto esse. O personagem de Hopkins é de uma extrema nobreza, principalmente quando questiona suas reais intenções em relação a Merrick. Seria ele igual ao homem que maltrava o pobre coitado, o exibindo como atração de circo, preso numa jaula? A diferença talvez estivesse na gentileza e nos bons tratos que ele prestava a um homem que nem mesmo dormir deitado podia. Vendo o filme, nos questionamos a respeito de nossos atos: o que faríamos se nos encontrássemos com alguém como Merrick? Provavelmente agiríamos com horror e repulsa. Infelizmente. (David Lynch, 1980).

A PALAVRA (Ordet)

Lembro que quando eu era criança, ao ouvir uma conversa entre meus pais, fiquei sabendo que meu pai estava muito doente. Não lembro muito bem de que era, acho que era de pneumonia. Ele começou a fumar muito cedo, desde os nove anos, e foi o cigarro que o acabou matando. O fato é que eu fiquei preocupado com a doença de meu pai. Achava que ele ia morrer e fiz um acordo com Deus: pedi a Ele que curasse o meu pai em troca de uma gripe em mim mesmo. No dia seguinte, eu estava gripado. E perguntei à minha mãe sobre meu pai e ela falou que ele estava praticamente bom. Quando eu era criança, eu tinha mesmo fé. Hoje só sobrou o pessimismo e uma certa indiferença budista, que só tem servido para minimizar as frustrações. Hoje estou mais para Woody Allen que para Carl Dreyer. (Carl Th. Dreyer, 1955).



CÃO SEM DONO

Cheguei ao cinema não muito bem. Estava com um aperto no peito, uma espécie de aflição. Mas aos poucos fui me acalmando, esquecendo de mim e me concentrando no drama daqueles dois personagens: Ciro e Marcela. Se bem que é costume a gente se identificar com o protagonista, especialmente quando tem uma moça tão linda na jogada. A gente meio que sonha ter a mesma sorte que ele e acaba se colocando em seu lugar, gozando as alegrias e sofrendo as tristezas. E foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. E o mais interessante de tudo é que CÃO SEM DONO foi realizado num registro quase bressoniano, sem uso de música para forçar a emoção e com cenas curtas e objetivas. Impressionante a sensibilidade com que Brant e seu parceiro, Renato Ciasca, juntam o texto e a interpretação dos atores para construir essa história de amor e de encontro com a vida, no que ela tem de melhor e de pior. (Beto Brant, 2007).

NA CIDADE DE SYLVIA (En la Ciudad de Sylvia)

Como se trata de um filme enigmático, ao final, restam mais perguntas do que respostas, o que eu acho ótimo, pois promove uma reflexão e abre um leque de opções para o espectador. Seria a memória que engana o rapaz ou estaria ele delirando? Será que se trata de um filme sobre a memória ou do quanto o amor por uma pessoa pode transcender o aspecto físico? Mas se o amor era tão grande assim, por que ele demorou tanto para voltar para a mesma cidade? Assim como na sequência da perseguição, vamos nos perdendo nesse labirinto da memória e do amor, dois temas muito caros a mim. O fato de as pessoas do filme não ganharem nomes só mostra o quanto NA CIDADE DE SYLVIA vai além do mundo material. Afinal, quem sabe o nome da própria alma? (José Luis Guerín, 2007).

JANELA INDISCRETA (Rear Window)

A sexualidade também está presente em momentos bem menos explícitos em JANELA INDISCRETA, em especial na cena do beijo de Grace Kelly. O famoso beijo-surpresa, cuja sequência em câmera lenta foi recuperada anos depois. Confesso que a primeira vez que vi a Grace Kelly neste filme, com os hormônios a mil da adolescência, digamos que o meu corpo reagiu instantaneamente. E ainda mexe comigo até hoje. Parece com um sonho. O personagem de Stewart está dormindo e quando acorda vê aquela deusa se aproximando dele. Ele, quase sem poder se esquivar, devido à sua condição de acidentado. Mas para que se esquivar? Aliás, como alguém não quer se casar com Grace Kelly? Talvez esse seja o maior absurdo do filme. (Alfred Hitchcock, 1954).

A MOSCA (The Fly)

O fato de Cronenberg lidar com detalhes horrendos do processo de transformação, como as unhas, os dentes e as orelhas caírem, além de toda aquela gosma que sai da boca quando Jeff Goldblum passa a se alimentar como uma mosca, tudo isso contribui para que o filme se torne bem mais do que um horror convencional. Trata-se de uma obra inédita e feita com seriedade. Havia uma preocupação do diretor para que o público não achasse que os resultados do filme fossem vistos como engraçados. Por isso ele teve que pegar pesado. O diretor gosta de dizer que o seu filme seria uma espécie de horror metafísico. Disse ele em entrevista contida no livro Cronenbeg on Cronenberg: "Me agrada fazer isso, mostrar o que o gênero pode fazer, especialmente numa época em que para a maior parte das pessoas filme de horror era SEXTA-FEIRA 13 ou HALLOWEEN." (David Cronenberg, 1986).







AS CANÇÕES

O fato de os entrevistados se sentarem no escuro ajuda bastante a criar um clima no qual eles fiquem mais à vontade para contar suas histórias e cantar as suas canções. Os momentos mais bonitos são aqueles de mulheres desprezadas pelos homens de suas vidas. Vê-las dizendo o quanto ainda amam esses homens, apesar de tudo o que passaram, são motivos suficientes para que lágrimas rolem. O senhor militar que pede para que seja chamado de comandante e que no passado agiu tantas vezes como um cafajeste e hoje tenta se redimir com a esposa idosa é outro momento muito bonito. Também destaco o sujeito que veio da favela, que escolheu "Que nega é essa?", do Jorge Ben-Jor, e que conta com muita desenvoltura a sua história com a mulher que ama. São histórias como a dele que ajudam a renovar a fé num relacionamento conjugal. (Eduardo Coutinho, 2011).

DELÍRIO DE LOUCURA (Bigger than Life)

Esse misto de melodrama familiar com filme de horror perpetrado por Ray ainda tem múltiplas possibilidades de visão. Segundo Geoff Andrew, o filme pode ser visto como uma história edipiana (o filho quer matar o pai), uma alegoria (quando Ed quer desafiar o poder de Deus), uma tragédia (Ed é um mortal que se vê como divino), um horror psicológico (Ed como uma monstruosidade) e como um melodrama (ao mostrar em tons carregados a doença de Ed e como ela afeta a família). (Nicholas Ray, 1956).

A VISITANTE FRANCESA (Da-reun Na-ra-e-seo)

Um modo de encarar essas diversas histórias é imaginá-las como pequenas variações e repetições de um universo paralelo (adoro a moça da pousada, que sempre empresta a Anne um guarda-chuva). No caso, um universo criado por um deus representado por uma jovem roteirista. Que, não por acaso, é abandonada ao final do filme. Uma espécie de narradora marginal. Isto é, coerente com personagens que se sentem estrangeiros em seu próprio país. (Hong Sang-soo, 2012).

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (sex, lies and videotape)

Steven Soderbergh bem que poderia ter continuado a fazer filmes assim, intimistas, e ganhar um status mais forte de autor, como o diretor a quem ele homenageia, John Cassavetes. A falta de pressa na construção dos planos e dos diálogos lembra bastante o cinema do pai dos cineastas independentes americanos, embora já se perceba um minimalismo típico dos anos 1980. O que, de certa forma, ajuda bastante na fluidez do filme. Em nenhum momento os diálogos cansam. Ao contrário: o diretor até poderia estendê-los que seriam bem-vindos. Principalmente os momentos em que Ann e Cynthia se despem para a câmera de Graham. É fácil sentir o coração bater mais forte nesses momentos. Não apenas pelo fetiche de estar sendo filmado por um estranho, mas por envolver também outras emoções. (Steven Soderbergh, 1989).



A COLINA ESCARLATE (Crimson Peak)

A beleza das cenas sangrentas e violentas não encontra paralelos com o que é filmado no horror contemporâneo. Se quisermos estabelecer comparações nesse sentido teremos que buscar mesmo na Hammer, em Bava ou em Argento. E lembrando de Bava e de Argento, lembramos também da personagem de Jessica Chastain, a irmã fria e malévola que rouba a cena a cada instante em que aparece. Para muitos, Chastain faz uma composição exagerada; para outros, como eu, trata-se da melhor personagem do filme, a que mais se aproxima de um mal equiparado ao de bruxas de contos de fadas clássicos ou de filmes de horror góticos. Como não amar a sequência final de Chastain enfrentando a heroína num duelo mortal? (Guillermo del Toro, 2015).

OS AMANTES CRUCIFICADOS (Chikamatsu Monogatari)

E é então que o filme ganha contornos bem românticos, ou ultrarromânticos. A cena de Mohei e Osan no barco é uma das mais belas dos filmes de Mizoguchi. Porém, diferente de um contido SENHORITA OYU (1951), que traz a tragédia para um território fechado e opressivo para os personagens, OS AMANTES CRUCIFICADOS opta pela catarse, pelo sentimento de quase bem-estar com o fato de deixar os sentimentos aflorarem com força. Mesmo que isso custe a sua vida. É quase uma visão cristã, em que é necessário perder a vida para ganhar a alma. (Kenji Mizoguchi, 1954).

APESAR DA NOITE (Malgré la Nuit)

(...) falar da trama de APESAR DA NOITE talvez diminua um pouco a impressão da natureza do filme, de sua forma única, ainda que remeta às vezes a Lynch e a Claire Denis, de narrar, de compor com mistério os planos e as sequências. Trata-se também de um filme que nos faz sentir dor. Muitas vezes uma dor física mesmo pelos atores/personagens em circunstâncias desagradáveis. Inclusive, o filme de Grandrieux tem uma estreita relação com o gênero horror. E aqui temos um horror que passa longe de provocar uma sensação de segurança e bem-estar familiar como geralmente sentimos com o gênero. O que temos é cinema de gente grande. Poético, desesperador, apaixonado, assustador, intenso. (Philippe Grandrieux, 2015).

PARAÍSO PERDIDO

Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções. (Monique Gardenberg, 2018).

LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (Di Qiu Zui Hou De Ye Wan)

É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante. (Gan Bi, 2018).

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood)

O papel de Mr. Rogers (e deste filme que procura se moldar aos seus ensinamentos, à sua sabedoria e até ao seu estilo à moda antiga) é nos tirar da carapaça dura de autoproteção que nos torna mais cínicos e distantes de quem fomos um dia na infância, como se estivéssemos em um consultório de psicanálise e precisássemos lidar com nosso lado mais fragilizado para nos tornarmos mais fortes. (Marielle Heller, 2019).

sexta-feira, agosto 28, 2020

OS NIBELUNGOS - A MORTE DE SIEGFRIED (Die Nibelungen - Siegfried)

Interessante que o título brasileiro já denuncia o destino do herói. Mas, para os alemães, a história dos Nibelungos é tão famosa quanto a história de Jesus. Além do mais, no próprio cartaz original alemão, vemos Siegfried tendo seu corpo perfurado pela lança que porá fim à sua vida. OS NIBELUNGOS - A MORTE DE SIEGFRIED (1924) é a primeira de duas partes da saga dos Nibelungos, uma das histórias mais míticas do folclore alemão. Fritz Lang, depois de ter feito um trabalho fenomenal com DR. MABUSE, O JOGADOR (1922), talvez sua grande obra-prima da fase silenciosa, foi encarregado de mais uma outra produção bem ambiciosa.

Na época que li a graphic novel O Anel do Nibelungo, adaptação da ópera de Richard Wagner por P. Craig Russell, tive bastante vontade de ver estes dois filmes de Lang, que na verdade não têm história nenhuma de anel. Então, não sei o quanto houve de licenças poéticas, ou se Lang se inspirou menos em Wagner e mais na literatura que tenta contar a mitologia da saga. Pelo que li rapidamente a respeito da ópera de Wagner, há diferenças bem significativas, além do fato de a história contada na ópera cobrir um período de tempo muito maior.

De todo modo, há de comum o herói Siegfried, um jovem loiro filho de um rei, mas criado por anões especialistas em forjar espadas e outros materiais. Ele ganha uma espada especialmente feita para ele e se vê empolgado em deixar seu povoado para conhecer o mundo. No meio do caminho, ele encontra um dragão enorme que solta fogo. Ele enfrenta e mata o dragão e um pássaro lhe diz que se ele se banhar no sangue do dragão, ele terá um corpo impenetrável. Durante o banho, uma folha cai de uma árvore em suas costas. Aquela parte do corpo seria sua única parte sensível, o que lembra bastante a lenda grega de Aquiles.

Demorei um pouco a me interessar pela história, mas aos poucos o filme vai nos conquistando, com sequências empolgantes e até mesmo alguns efeitos especiais que impressionam para a época, como a cena em que os anões da caverna do tesouro junto com o anão deformado que lhe introduz o lugar se transformam em pedra. Naquele momento, Siegfried já estava de posse de uma touca que tanto pode torná-lo invisível quanto transformá-lo em quem ele desejar.

Isso faz com que a história de Siegfried se torne tão fascinante e fantasiosa quanto histórias de super-heróis. Essa impressão aumenta ainda mais quando o herói se encarrega de ajudar o rei Gunther de vencer uma valquíria, Brunhild. O rei deseja se casar com ela, mas ela é uma mulher forte, que vive com as amazonas e não tem a menor intenção de ser mulher daquele rei. Só um herói invencível como Siegfried conseguiria vencê-la, mas é o próprio rei que terá que se mostrar hábil de vencê-la em três desafios a ele impostos. Siegfried, invisível, trapaceia para ajudar o rei na disputa. Aliás, curioso isso, já que é uma trapaça, algo não muito nobre para um herói.

Mais à frente, veremos outras situações bem interessantes, até porque Brunhild não se dá por satisfeita, já que não se sente casada, mas uma prisioneira. E ela acaba se transformando em um dos vilões do filme. Até poderiam dizer que isso seria fruto da suposta famosa misoginia de Lang, mas é bom lembrar que quem fez o roteiro foi sua esposa Thea von Harbou, e, muito provavelmente, inspirada na própria história mitológica, essa sim herdeira do machismo de longa data. Esse sentimento se intensifica quando pensamos que são as duas mulheres, principalmente, as responsáveis pela ruína dos dois reis, Siegfried e Gunther. A esposa de Siegfried, Kriemhild, porém, comete erros mais por ingenuidade.

Aliás, fico pensando como será o segundo filme, agora sem Siegfried e com Kriemhild preparando sua vingança. Será ela uma personagem boa o suficiente para segurar um filme inteiro? É ver para saber. Quanto a este filme, há uma coisa no começo que me incomoda, levando em consideração o nazismo ascendente: o fato de o filme ser dedicado ao grande povo alemão. Esses excessos de nacionalismo sempre devem ser vistos com desconfiança, que o diga o novo momento político brasileiro.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

BY THE KISS

Um curta de cinco minutos em que vemos uma mulher num beco escuro sendo beijada por várias pessoas. Em vez de conforto, aos poucos, sua expressão é de dor, de desesperança, de tormenta até. Fui olhar a sinopse oficial do filme, exibido em Cannes, e é a seguinte: Os diversos relacionamentos de uma mulher ao longo da vida. E isso fez com que o filme se tornasse ainda mais doloroso e intenso. A música ajuda muito a intensificar, especialmente se ouvindo em um som alto na TV ou som. Direção: Yann Gonzalez. Ano: 2006.

MULHERES DA BOCA

Interessante registro da zona de prostituição da chamada Boca do Lixo, em São Paulo. Há um momento desconfortável, com dramatização, de um cafetão agredindo psicologicamente uma profissional do sexo. Mas talvez o mais interessante mesmo seja o depoimento da dona de um bordel, falando de seu negócio e do quanto necessita tratar bem os clientes. Depois, vemos imagens de um clube noturno de strip-tease com aquele clima disco decadente do início da década de 80. Podia ser melhor.

quarta-feira, agosto 26, 2020

JOGADA DE RISCO (Hard Eight / Sydney)

Primeiro dos sete longas (por enquanto) de Paul Thomas Anderson, um dos mais celebrados cineastas surgidos nos anos 1990, mas também um cineasta, às vezes, de difícil penetração - não é todo filme dele que me ganha fácil, por exemplo. Mas não dá para negar que seus filmes não sejam todos, de uma forma ou de outra, impressionantes, cada um a sua maneira. E o interessante é que ele lida com universos muito distintos. Não é o tipo de cineasta que gosta de repetir mundos.

Foi muito bom rever JOGADA DE RISCO (1996), seu longa de estreia, visto pela primeira vez em VHS não lembro quando. E na época não curti muito. Creio que saiu em home video depois do sucesso de BOOGIE NIGHTS - PRAZER SEM LIMITES (1997), se não me engano. Mas também não tenho certeza. Rever agora traz uma série de pontos positivos, como o fato de ver em uma cópia 1080p encontrada por aí, respeitando a janela scope. Com certeza é um filme que perdeu muito com a mutilação das chamadas "telas cheias" que eram o padrão nos lançamentos em VHS.

Ao contrário do que acontece com muitos cineastas talentosos estreantes, JOGADA DE RISCO não é um filme cheio de amostras de genialidade técnica e narrativa. É uma obra mais discreta e por isso mesmo pode ser melhor apreciada hoje do que foi na época de seu lançamento. Hoje podemos traçar paralelos com o cineasta mítico que Paul Thomas Anderson se tornou, inclusive com o excelente trabalho com os atores.

Aqui já chama a atenção o fato de ele trazer à frente um ator já maduro. Philip Baker Hall já tinha 65 anos quando interpretou Sydney, este enigmático homem que faz uma boa ação, ao tirar da miséria um rapaz que estava sem dinheiro até mesmo para pagar o enterro do pai e via como uma possibilidade de conseguir algum dinheiro tentando a sorte em Las Vegas. E como ajuda de estranhos é algo fácil de desconfiar, esse rapaz, John, vivido por John C. Reilly, demora a acreditar, mas aos poucos vê que as dicas de se ganhar dinheiro no cassino, com apenas 50 dólares (depois 150), foram o início de uma amizade que se formaria a partir dali. Um tipo de amizade que se parece muito com a relação entre pai e filho.

Completando o trio principal, temos Gwyneth Paltrow fazendo uma atendente de bar que ganha uns extras com prostituição e que se envolve afetivamente com John. A personagem de Gwyneth tem uma doçura e uma vulnerabilidade adoráveis. As cenas em que ela conversa com Sydney são magníficas. Aliás, Philip Baker Hall talvez nunca mais tenha tido um trabalho tão bom em sua carreira - falo isso sem conhecer sua carreira inteira, mas esta estreia de PTA foi um presente e tanto para o ator.

Sydney tem uma classe, uma elegância, passa uma segurança e uma autoconfiança e também uma sabedoria que ele soube ganhar com a maturidade, que talvez só pudemos comprar, como espectadores, por não acompanhar as suas falhas anteriores, que só seriam reveladas no último ato, em conversa também antológica e cheia de silêncios com o personagem de Samuel L. Jackson, o quarto elemento da trama. Ou seja, talvez tivéssemos um julgamento distinto dele se víssemos o que ele fizera antes. Como não é o caso, suas falhas são aceitáveis, perdoáveis e humanas, principalmente se comparadas com a de uma pessoa que está fazendo uma chantagem.

Assim, JOGADA DE RISCO é também um filme sobre culpa e redenção, algo que veríamos em MAGNÓLIA (1999). E há também uma espécie de crítica ao capitalismo americano, ao modo de ganhar a vida através de jogos. Porém, diferente de um tipo muito mais intenso de cobiça, como o visto em SANGUE NEGRO (2007), aqui temos algo muito mais mesquinho. Pra que cena mais triste do que a dos 300 dólares? Fazer uma grande besteira na vida por causa de 300 dólares. Aliás, baita cena, que revela também uma das melhores atuações de Gwyneth Paltrow.

Quanto a Paul Thomas Anderson, creio que preciso rever toda sua obra. É um cineasta por quem eu tenho um respeito imenso, mas que me parece, muitas vezes, um mistério. Falta a mim estudar mais sua obra e ver seus filmes com mais atenção.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

ZÉZERO

Desconcertante este filme. Um exemplar de cinema feito com a intenção de se aproximar da precariedade do seu tema, que são pessoas que vivem em situação de extrema miséria, saindo da condição de pedinte para a de trabalhador de construção, assinando com o dedo para ganhar os seus trocados, sobreviver. Mas a sofisticação do cineasta é tanta que ele usa essa falta de recursos a seu favor. Os próprios créditos são escritos em papéis rasgados. E há aquele caráter também de revolta imenso, de mandar tomar no cu, com todas as letras e com um close no final. Há sexo agressivo, brutal, o homem em busca da satisfação física. Há uso de som de maneira muito própria. E é curioso como a meia hora passa rápido, curioso como um filme de natureza assim experimental nos ganha tão rapidamente. Recomendo que leiam a excelente crítica de Sérgio Alpendre para o livro Curta Brasileiro - 100 Filmes Essenciais. Excelente! Direção: Ozualdo R. Candeias. Ano: 1974.

MEOW!

Animação realizada nos tempos em que fazer animação no Brasil era uma trabalheira dos diabos, este filme se tornou um clássico, tanto pela boa técnica empregada (chegou até a ganhar prêmio em Cannes!), quanto pela crítica política da colonização americana no Brasil, que chega a fazer até mesmo um gato trocar o seu leite pela Coca-Cola através de uma espécie de lavagem cerebral. O filme é simples e nos leva a rir diversas vezes. As expressões do felino são sensacionais. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1981.

segunda-feira, agosto 24, 2020

O GRANDE SEGREDO (Cloak and Dagger)

O menos brilhante dos filmes anti-nazistas de Lang, O GRANDE SEGREDO (1946) se aproxima mais da aventura, e fica melhor quando Lilli Palmer entra em cena, como interesse amoroso de Gary Cooper. É interessante que é um filme feito após o fim do conflito e lida justamente com um tema muito sensível naquele momento, que é a bomba atômica. Porém, ao que parece, o pensamento que o filme dá a entender é de que era preferível os Estados Unidos terem a bomba do que os nazistas. Não deixa de ser algo para encobrir um grande pecado, mas o filme não escolhe esse caminho da culpa.

Na verdade, existe uma história meio suja por trás. Os produtores da Warner destruíram o final original do filme, cenas inteiras, contendo algo que seria bastante incisivo com relação ao discurso anti-bomba atômica. Nas cenas cortadas/destruídas, Cooper diz algo como "Este é o Ano I da Era Atômica, e Deus nos ajude se imaginamos que conseguiremos ficar com isto para nós e esconder do resto do mundo." Isso é possível de ver no roteiro original. Mas não é de ficar indignado? Eu teria ficado, no lugar de Lang, que aceitou embarcar no projeto justamente por causa dessa questão suprimida pela produtora.

O que ficou foi mais uma aventura de espionagem em que Cooper, um cientista americano, é escalado para uma missão na Europa durante a guerra. Como é comum nesses filmes de espionagem, algumas coisas me pareceram pouco claras. Mas tudo bem. Ele é recrutado pela OSS para entrar em contato com um médico húngaro que está na Itália trabalhando para os nazistas. Disfarçado de oficial alemão, Cooper entra no escritório do médico e descobre que ele trabalha para os nazistas e fascistas pois eles raptaram sua filha. Então, a nova missão dos heróis passa a ser trazer de volta a filha do médico para que ele possa ser também resgatado.

Na verdade, a trama parece mais complicada do que isso, mas é mais ou menos assim. No meio da jornada, o protagonista conhece uma mulher italiana de luta (Palmer), por quem se apaixona. Eu até diria que a presença de Palmer ajuda a tornar o filme muito mais interessante e envolvente. Antes, a troca de pessoas que auxiliam o protagonista estava me deixando ainda mais confuso. E, enquanto Palmer tinha aquela imagem de mulher fria, o que ajudou bastante para o papel, Cooper tinha uma imagem de homem de confiança. Ele até fez, durante a Guerra, um papel bem pacifista, SARGENTO YORK, de Howard Hawks. Mas Lang achava que ele poderia ser pouco crível no papel de um cientista, já que interpretou vários caubóis e militares anteriormente. Como homem de ação funcionou perfeitamente. E é mais isso que o filme pede, afinal.

Enquanto os demais filmes anti-nazistas de Lang realizados em Hollywood - O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943) e QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944) - tinham algo de mais romântico no dever dos heróis, aqui há algo bem menos preto no branco, há uma consciência de que dentro da guerra, você está sujo também, mesmo que esteja do lado certo. É mais ou menos algo que a personagem de Lilli Palmer diz em determinado momento. Do mesmo modo, tanto os nazistas quanto os fascistas são vistos de modo menos palpável e vago do que nos filmes anteriores.

A melhor cena de ação do filme (ou melhor cena do filme): os nazistas cercando a casa do pessoal da resistência, enquanto os heróis tentam salvar o médico, descendo por um alçapão que vai dar em um poço. Mas também acho fascinante a cena de Cooper lutando com um fascista, uma luta difícil e silenciosa, lembrando uma cena que Hitchcock faria em CORTINA RASGADA, vinte anos depois. O não uso da música, fez uma diferença enorme para a construção da tensão. Mas isso já é algo que Lang já fazia com maestria desde M - O VAMPIRO DE DUSSELDÖRF (1931).

+ DOIS FILMES (CURTOS)

SOCORRO NOBRE

Curioso como fiquei mais interessado no polonês Frans Krajcberg do que na presidiária Socorro Nobre que dá título ao filme. Só hoje que fui saber que Walter Salles já havia realizado um curta sobre o artista polonês que mora em uma cidadezinha do litoral baiano. Mas é muito interessante o contraste que o diretor faz do modo como filma os dois personagens: enquanto Frans é visto em planos abertos (há uma cena linda de câmera em movimento, dele correndo pela praia), as cenas com Socorro, dentro da prisão, são claustrofóbicas, em closes, não nos deixando ver o que está ao redor da mulher, apenas seu rosto e o que ela tem para dizer, sua relação com a esperança de sair da prisão. Na época de CENTRAL DO BRASIL (1998), muito se falou deste curta, principalmente pelo fato de as cartas serem um ponto em comum. E aqui, de fato, a carta de Socorro para Frans é muito bonita e tocante. O curta é mais simples do que eu pensei que fosse, na verdade, assim como é simples (e emocionante) a cena do encontro dos dois. Ano: 1996.

O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA

Não sei se é impressão minha, mas este curta não envelheceu muito bem. Há muitas coisas que se veem em outros curtas brasileiros da década de 1980, como brincadeiras metalinguísticas, referências cinematográficas etc. Mas há algo de muito interessante, que é a questão humanista, anti-racista e também anti-militarista. Tudo bem que já havia chegado a redemocatização, mas ainda rolava uma censura resquício da ditadura. "Milico e merda é a mesma coisa", diz o preso Dorival, em frente aos quatro militares. As questões raciais seriam novamente trabalhadas em obras futuras de Furtado, como O HOMEM QUE COPIAVA (2003) e MEU TIO MATOU UM CARA (2004). Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart. Ano: 1986.

sábado, agosto 22, 2020

A VERDADE (La Vérité)

Fico curioso para ver a experiência de diretores "estrangeiros", especialmente os orientais, em países estranhos a eles. Em geral, costumo gostar do resultado. Gostei de ver Wong Kar-Wai nos Estados Unidos (UM BEIJO ROUBADO); de ver Abbas Kiarostami na França (CÓPIA FIEL) e no Japão (UM ALGUÉM APAIXONADO); de ver Asghard Farhadi na França (O PASSADO) e na Espanha (TODOS JÁ SABEM); de ver Hou Hsiao-Hsien na França (A VIAGEM DO BALÃO VERMELHO). E a gente percebe, vendo esses exemplos, o quanto a França é carinhosa com os autores, tão receptiva a obras que terão seus espaços garantidos em festivais internacionais, mas que não necessariamente terão boas bilheterias.

E mais uma vez a França se mostra interessada em um diretor estrangeiro, o japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor da Palma de Ouro com ASSUNTO DE FAMÍLIA (2018). Em Cannes, ele já havia ganhado prêmios importantes antes, com PAIS & FILHOS (2013), que ainda acho o mais bonito dele. Minha primeira experiência com Kore-eda foi com o drama espiritual DEPOIS DA VIDA (1998). De lá pra cá, ainda que perdendo alguns de seus filmes, também pude conferir parte de sua obra e ver o quanto a família lhe é tão cara como tema. Não sei se ele chega a ser comparado com Yasujiro Ozu por causa disso ou se as questões familiares são temas caros aos japoneses de modo geral.

E é tratando de família que ele traz um argumento que estava guardado há alguns anos para filmar e faz nascer A VERDADE (2019), seu primeiro filme não falado em japonês, com Juliette Binoche, Catherine Deneuve e Ethan Hawke. Ludivine Sagnier também aparece no filme, mas em um papel um tanto apagado. Em entrevista ao site Filmed in Ether, Kore-eda conta que não teria como fazer este filme no Japão, pois lá não existe uma estrela do porte de Catherine Deneuve para ser tão representativa desse poder e dessa fama.

Inclusive, o filme brinca com elementos reais da vida/obra de Deneuve, como o fato de ela ter de fato quase filmado com Alfred Hitchcock. Fiquei curioso e procurei saber: Hitchcock ficou encantado com ela em A SEREIA DO MISSISSIPI, de François Truffaut, mas, por algum motivo, o projeto não foi adiante. Até porque, na década de 1970, o mestre do suspense estava com a saúde bem frágil e realizou apenas dois filmes antes de morrer. E embora Binoche seja hoje uma estrela de um porte tão grande (ou quase) quanto Deneuve, há ainda essa relação de adoração maior a Deneuve, por ter uma filmografia mais longa, desde os anos 1960.

Mas acho que gosto mais ainda da Binoche, talvez por ter acompanhado sua carreira desde os anos 1980 e vê-la envelhecer linda e radiante ainda neste momento pós-50's. Ou seja, ela é o caso de atriz bela cujo tempo lhe foi muito gentil. Além do mais, ela tem um cuidado muito especial com os cineastas com quem trabalha. Basta bater o olho em sua filmografia para perceber isso. Nem é preciso citar exemplos. E é interessante vê-la pela primeira vez ao lado de Deneuve, talvez hoje em dia uma espécie de primeira dama do cinema francês.

Binoche é Lumir, uma mulher casada com um ator americano de segundo escalão (Ethan Hawke) e que tem uma filha pequena adorável. A bela família, a princípio sem defeitos, chega para visitar a mãe, Fabienne (Deneuve), uma estrela de cinema que já teve os seus tempos mais gloriosos, se preparando para fazer o papel de coadjuvante em um novo filme. As duas não se entendem muito bem e há traumas na relação, atritos que ressurgem no retorno ao convívio, incluindo a história de alguém que morreu e que foi muito importante para as duas.

Gosto muito da familiaridade de Hawke com aquele ambiente, por mais que ele seja o elemento estranho. Isso talvez se deva às viagens à Europa para fazer a (por enquanto) trilogia de Jesse e Celine com Richard Linklater. Então, ele passa essa imagem de pessoa que equilibra o ambiente, trazendo um pouco de tranquilidade quando o clima às vezes está tenso entre as duas mulheres. E por mais que ele guarde um problema seu, o modo carinhoso com que ele trata a filha também passa bastante ternura.

A VERDADE é um filme de sutilezas. Diria que mais sutil do que qualquer outro filme realizado no Japão (pelo menos, dentre os que vi). E provavelmente menos poderoso também. Ainda assim, é uma delícia de ver. O tempo passa rapidamente em uma trama que não se mostra nem um pouco apressada. Senti falta de algumas cenas para unirem determinados momentos, mas isso não chega a ser um grande problema.

É interessante também ver o "filme dentro do filme", uma espécie de mix de sci-fi com melodrama, em que Deneuve interpreta a filha de uma mulher que vai ao espaço e não envelhece. Assim, há cenas curiosas de uma mulher em seus 70 anos (Deneuve) chamando uma mulher jovem de mamãe. A situação um tanto surreal lembra um pouco os diálogos do pós-vida de DEPOIS DA VIDA, do Kore-eda, mas trazem também reflexões sobre o envelhecimento e a passagem rápida da vida humana, bem como a questão da ausência materna. Enquanto isso, na vida real, Fabienne e Lumir vão descobrindo coisas do passado que elas até então não sabiam.

Agradecimentos à Paula, pela companhia e pela conversa após o filme.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

GLAURA

Adoro os filmes do Guilherme de Almeida Prado, lamento o fato de ele estar "parado" e sonho em poder um dia ver a sua obra de estreia, AS TARAS DE TODOS NÓS (1981), realizada na Boca. Foi bom ver este curta com um elenco estelar e com característica de conto literário de linha mais ou menos tradicional. Júlia Lemmertz é uma mulher insatisfeita com a vida que leva, com a cantoria da vizinha, com o fato de ter que levar o sogro cadeirante para a missa aos domingos, enquanto o marido (Alexandre Borges) vai para o futebol. Mas o foco do filme é a questão da felicidade, não apenas no olhar a vida do outro (como o velho vivido por José Lewgoy diz), mas a própria vida mesmo. É talvez o mais despretensioso dos trabalhos do diretor. Ah, e a direção de fotografia é de Carlos Reichenbach! Ano: 1995.

MEU COMPADRE ZÉ KETI

Linda homenagem que Nelson Pereira dos Santos fez ao seu compadre, o grande compositor de sambas e marchinhas de carnaval Zé Keti, que já havia comparecido na trilha sonora de RIO, 40 GRAUS (1955), primeiro longa do cineasta, com "A voz do morro". Aliás, é impressionante a quantidade de clássicos de Zé Keti, que eu só fui conhecer de nome graças à Fernanda Takai, quando ela gravou "Diz que fui por aí" tão lindamente em seu álbum dedicado ao repertório de Nara Leão. As canções de Zé Keti estão tão entranhadas em nossa memória coletiva que é como se elas já existissem há séculos. E a homenagem é bonita e simples: Nelson apenas filma um grupo de amigos do compositor que cantam seus sucessos tomando cerveja, enquanto se prepara uma feijoada. Aqui a alegria supera a tristeza. Ano: 2001.

sexta-feira, agosto 21, 2020

AS 6 MULHERES DE ADÃO

O nosso cinema já foi muito sexualizado. Tanto que chegou a incomodar muita gente. Muita gente hipócrita, eu diria. Mas também era um cinema que oferecia muita munição para aqueles que só diziam que o cinema brasileiro só tinha palavrão e mulher pelada. Embora não fosse só isso mesmo, o cinema produzido na Boca do Lixo tinha essa necessidade de ser apelativo, pois tinha que se auto-sustentar. Foi, aliás, um momento em que o nosso cinema conseguiu de fato ser uma indústria gloriosamente bem-sucedida. Claro que alguns diretores que queriam se expressar de maneira diferente acabavam tendo que jogar o jogo, mas isso fazia parte daquele momento.

Estava dando uma olhada no site da Ancine, na lista dos filmes mais vistos no cinema dos ano de 1980 e 1981, e é impressionante como praticamente só tinham filmes eróticos. O sexo explícito, inclusive, estava chegando ao nosso cinema. E David Cardoso, Ody Fraga e cia. tentaram aproveitar um pouco o momento, naqueles primeiros anos da década, ainda que ainda usando o sexo simulado. AS 6 MULHERES DE ADÃO (1981) tem pelo menos uma cena de sexo explícito logo no início: com o próprio diretor/produtor/protagonista recebendo um blow job de uma moça enquanto atende uma ligação. Ou seja, muito antes de Vincent Gallo fazer polêmica com BROWN BUNNY e aquela famosa cena de felação, David Cardoso saiu na frente.

Os filmes com David Cardoso tinham essa característica de usar muito sua imagem de galã bonito e homem musculoso para talvez ajudar a atrair também públicos interessados no corpo masculino. Também parecia haver algo de bastante narcisista ali. Ao mesmo tempo, Cardoso adorava brincar com sua fama nos filmes. Ele estaria em uma brincadeira semelhante em um segmento de A NOITE DAS TARAS Nº 2 (1982), interpretando a si mesmo e sendo assaltado por uma trupe de mulheres fãs.

Ter Ody Fraga como roteirista ajuda bastante a tornar os filmes de David Cardoso melhores, com uma voltagem erótica muito boa e ideias boas, mesmo com um enredo simples. AS 6 MULHERES DE ADÃO tem um fiapo de trama que se sustenta principalmente com as boas cenas de sexo. Cenas curtinhas, mas eficientes, em sua maioria. Na trama, um grupo de mulheres que já passaram pelas mãos do personagem de Cardoso se junta para uma festa-surpresa para o homem objeto do desejo delas, mas também objeto da ira. E é lá nessa casa (é a casa de Ronnie Von, soube hoje), elas ficam nuas, tomando banho de sol na piscina - isso era regra da dona da casa, mas certamente o único motivo de isso fazer sentido é mostrá-las todas nuas na piscina para nós, espectadores.

É lá que elas relembram suas experiências eróticas com o protagonista. E é através desses flashbacks que vamos conhecendo algumas dessas histórias. Gosto muito da cena do carro com Ely Cardoso (é uma das mais sexualmente intensas). E gosto também da cena em que Luiz Carlos Braga leva o nosso garanhão para transar com a própria esposa enquanto ele assiste - uma variação de algo que o próprio ator faria em MULHER TENTAÇÃO, de Ody Fraga, que também traz a bela Sandra Graffi. Creio que Sandra é a mulher mais famosa do elenco.

Quanto à tal surpresa, não é das melhores que elas preparam para o personagem. Na verdade, é um pesadelo para qualquer homem. É saindo dos flashbacks e trazendo Adão/Cardoso para a casa com todas as mulheres que a narrativa toma um novo rumo. Não necessariamente para melhor, mas faz parte da diversão despretensiosa de um filme que quer apenas divertir e animar. Imagino que muitas pessoas que saíram do cinema reclamando de problemas no filme no fundo se divertiram bastante.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

NELSON CAVAQUINHO

Os filmes do Leon Hirszman, inclusive seus curtas, estão entre os raros que tiveram a sorte de ser remasterizados e reaparecer como novos. É o caso deste aqui, que valoriza a fotografia linda em preto e branco de Mário Carneiro. Tenho bem pouca aproximação com a música de Nelson Cavaquinho, mas do pouco que ouvi gostei. Gosto do tom triste e sombrio de canções como "Luz negra" e "A flor e o espinho". Neste curta, nem o diretor nem o cantor/compositor tentam disfarçar a pobreza do ambiente. Sua casa é um entra-e-sai de gente, com menino bebendo cerveja na boca da garrafa, galinhas no chão, um colchão sujo no chão no quarto, posteriormente visitado pela câmera ao final. E há as músicas de Nelson, as palavras um tanto tristes dele, o semblante envelhecido para quem tinha apenas 58 anos. Ele conta rapidamente de quando tinha 8 anos e viu caminhões carregando cadáveres. Provavelmente por causa da gripe espanhola, algo que ganha outro sentido nesses tempos de pandemia. Ano: 1969.

MARANHÃO 66

O que eu achei mais incrível neste curta foi a coragem de Glauber Rocha de fazer um trabalho totalmente distinto do que seria uma peça de propaganda. Ao contrário, colocar imagens de José Sarney discursando em sua posse no governo do Maranhão para uma multidão e incluir imagens de extrema pobreza do povo nas favelas, doentes e com esgoto a céu aberto não seria nada interessante para o político que inauguraria ali um novo reinado de populismo no estado. Tanto que resolveram engavetar o curta. Ainda bem que ele sobreviveu e serviu como uma espécie de ensaio para TERRA EM TRANSE (1967), que Glauber faria no ano seguinte. E dói um bocado ver este filme nos dias de hoje. Não por termos vivido os difíceis anos de Sarney como presidente, mas com o presente mesmo. Ano: 1966.

P.S: Hoje o crítico Raphael Camacho postou em seu blog (Guia do Cinéfilo), que atualmente está trazendo entrevistas com cinéfilos, uma entrevista minha. Quem quiser ler, só clicar AQUI.

quinta-feira, agosto 20, 2020

ALMAS PERVERSAS (Scarlet Street)

Acho uma delícia fazer comparações entre obras, seja da obra literária para a obra cinematográfica, seja entre obras cinematográficas que partem da mesma origem. No caso, o romance La Chienne, do francês Georges de La Fouchardière, que inspirou tanto o clássico naturalista A CADELA (1931), de Jean Renoir, quanto sua adaptação em clima de film noir ALMAS PERVERSAS (1945), de Fritz Lang. Curiosamente, Lang era um admirador de Renoir, mas não havia reciprocidade da parte do cineasta francês, de acordo com análise encontrada como extra no box Filme Noir Vol. 7, da Versátil.

Pois bem. Embora eu ache uma delícia comparar filmes adaptados da mesma fonte, e ainda por cima feitas por mestres de estilos tão distintos (fiz algo parecido vendo várias versões de Madame Bovary para o cinema, anos atrás), não deixa de ser um pouco complicado ver o filme de Lang depois de se impactar com o maravilhoso trabalho de Jean Renoir. São duas propostas bem distintas. Sai o naturalismo de Renoir, entra a estilização de Lang; sai o tom leve, quase amoral e por vezes engraçado; entra o tom mais moralista e trágico.

Aliás, a questão moral em ALMAS PERVERSAS não foi nem por causa da censura (que, sim, pegou bastante no pé do filme), mas por convicções pessoais de Lang, que acreditava que o homem que matava alguém teria que pagar pelo pecado; se não pela lei dos homens, pela lei de Deus ou da própria consciência atormentada. Quanto à censura de Hollywood, já foi complicado transformar a personagem de uma prostituta em uma mulher interesseira e preguiçosa, por mais que possamos ver na Kitty de Joan Bennett algo parecido com uma garota de programa e no Johnny de Dan Duryea um cafetão. Se não uma garota de programa, algo que nos dias de hoje chamam de sugar baby, ainda que o personagem de Edward G. Robinson, Chris, seja excessivamente ingênuo para entender sua participação neste triângulo "amoroso".

O que eu vejo como algo que depõe um pouco contra o filme de Lang, em comparação com o de Renoir, é o fato de nos importarmos menos com os personagens. Em A CADELA, eu fiquei o tempo todo incomodado com cada ação dos personagens, com as variadas ações de abusos e humilhações, sejam elas percebidas ou não. Em ALMAS PERVERSAS é até fácil se deixar levar pelo charme e beleza de Kitty e não se importar muito com as implicações da esposa de Chris.

Lang constrói uma autêntica femme fatale pobre (mas com algum glamour), que não tem ideia de que está aplicando um golpe em um sujeito também pobre, que chega a roubar dinheiro da empresa para satisfazer os prazeres da amante. E pior: uma amante a quem ele nem mesmo dá sequer um beijo na boca. Algo que me deixa impressionado. (Fiquei pensando em uma nova adaptação do romance de La Fouchardière, feita aqui no Brasil nos saudosos anos 1970 e 80, principalmente na Boca.)

Mas isso tinha a ver com o Código Hays, a censura pesada aplicada nos filmes. Os censores implicaram até com a cena de Robinson se abaixando para pintar as unhas dos pés de Bennett, que usava apenas um roupão. É de fato uma cena sensual, e talvez nos anos 1940 fosse algo um tanto escandaloso, mas hoje em dia não tem todo esse peso. De todo modo, a construção por Lang de sua personagem feminina foi brilhante. Bennett mistura a sensualidade e beleza com um tipo de vulgaridade e preguiça que ajudam a enriquecer Kitty, a torná-la atraente e apaixonante, inclusive aos olhos do espectador, consciente de seu caráter.

O filme de Lang também parece mais consciente e organizado na estrutura narrativa - o roteirista Dudley Nichols havia trabalhado em vários filmes de John Ford e também em O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), de Lang. Há situações que são muito mais bem construídas, como o "autorretrato", na verdade a última pintura de um sujeito apaixonado por uma mulher, muito mais convincente e poderoso do que um autorretrato do personagem do filme de Renoir. Essa consciência também está no cuidado estético, na beleza da fotografia de Milton R. Krasner, o mesmo do filme anterior de Lang, UM RETRATO DE MULHER (1944), que pode ser considerada uma obra-irmã em muitos aspectos.

E há detalhes interessantes em ALMAS PERVERSAS, como a questão de Chris não ter um senso de perspectiva em seus quadros. Assim como também não tem na vida real, ao não perceber que está sendo manipulado, por exemplo; ou ao se deixar levar pela loucura de cometer furtos no local de trabalho, embora isso e também o assassinato de Kitty sejam manifestações de natureza passional e não relativas a uma suposta falta de honestidade do protagonista. Além do mais, seu destino final, mentalmente perturbado, não é por causa do remorso pela morte de Kitty e pela morte de Johnny, mas por um ciúme que persiste, mesmo em um plano espiritual/psicológico.

+ DOIS FILMES (CURTOS)

DOCUMENTÁRIO

Rogério Sganzerla é um dos cineastas brasileiros de quem mais eu tenho lacunas, tanto pela quantidade de títulos, quanto pelo meu afastamento por sentir um pré-requisito em cinema de Welles, muitas vezes. Aqui é seu primeiro filme. Delicioso. Mas seria melhor ainda se tivesse legendas. Infelizmente não houve uma restauração que trouxesse de volta um som minimamente bom, tão importante para a compreensão dos diálogos entre os dois rapazes que caminham pelas ruas de São Paulo à procura de um filme para ver. Nenhum aprova o que o outro quer ver e assim vão andando e conversando. Fala-se em Fuller, Hawks, Hitchcock, HELP!, dos Beatles, de O DESAFIO (filme do Saraceni), quadrinhos do Batman, dificuldades financeiras e respira-se muito o espírito da nouvelle vague francesa, especialmente Godard, tanto pelos cortes, quanto pela fotografia. Como diria o Carlão, é o filme que todos os cinéfilos gostariam de fazer. Aliás, não sei por que os cinéfilos-cineastas não fazem mais filmes sobre a cinefilia, assim de maneira tão explícita quanto este. Ano: 1966.

VEREDA TROPICAL

O melhor filme sobre sexo hortifrutigranjeiro de todos os tempos. Engraçado que na época que vi pela primeira vez, como segmento do longa CONTOS ERÓTICOS, não vi muita graça, talvez por querer que fosse um filme erótico no sentido mais comum da palavra. Na verdade, é uma comédia engraçadíssima sobre um sujeito que tem por hábito transar com melancias (dá banho nelas, passa talquinho e tudo). Mas o saboroso mesmo do filme é a conversa dos personagens de Cláudio Cavalcanti e Cristina Aché sobre as taras do amigo, sobre sexo e solidão etc. E as coisas se tornam mais saborosas ainda quando os dois vão à feira procurar uma fruta fálica pra ela. A versão que está circulando por aí, remasterizada, está linda, cristalina, de cores vivas. Direção: Joaquim Pedro de Andrade. Ano: 1980.

quarta-feira, agosto 19, 2020

A PRIMA SOFIA (Une Fille Facile)

Alguns filmes que nos ganham a simpatia acabam por se tornarem ainda mais queridos quando passamos a saber de eventos extra-filme, ou pelo menos só conhecidos de quem leu alguma matéria em jornal ou quem está bastante familiarizado com determinado ator ou atriz, como é o caso de Zahia Dehar, que faz a personagem-título, que é bastante conhecida na França e cuja escalação pode ser vista como ousada para este A PRIMA SOFIA (2019), de Rebecca Zlotowski, diretora do charmoso e torto ALÉM DA ILUSÃO (2016).

Antes de falar um pouco da atriz/modelo, gostaria de falar um pouco sobre o sentimento que ela (a personagem/a atriz) me passou enquanto via o filme. Sua hiper-sexualidade beirando o vulgar traz algo de conflitante no modo como vemos a expressão de sua liberdade, de sua nudez, de suas transparências ou a facilidade ou vontade com que ela deseja satisfazer seus desejos. Mexe também com algo que talvez esteja relacionado a algo de mais sombrio em nosso ser, algo que está relacionado a um tipo de moralismo hipócrita e machista.

Por isso vi uma semelhança da personagem com outra mulher que lida bastante com a hiper-sexualidade em um filme de algumas décadas atrás, A MULHER PÚBLICA, de Andrzej Zulawski. Não por acaso, há uma coincidência (ou não existem coincidências?) com o fato de a diretora de A PRIMA SOFIA ser de ascendência polonesa e de ter nome até parecido com o do referido cineasta.

A polêmica em torno de Dehar se dá por ela ser bastante conhecida na França. Ela abrilhantou em 2010 os noticiários sobre escândalos envolvendo os jogadores de futebol franceses Franck Ribéry e Karim Benzema, que foram acusados de pagá-la com serviços de garota de programa quando ela ainda tinha 17 anos. Os jogadores se safaram na justiça ao afirmarem que não sabiam que ela era menor de idade. Posteriormente, ela acabou por se tornar famosa como modelo, como designer e agora como atriz também no filme de Rebecca Zlotowski.

Seu papel em A PRIMA SOFIA guarda muita similaridade com sua vida real, trazendo uma brincadeira metalinguística desconhecida de quem não é francês ou de quem desconhece os bastidores. Ela é a prima que surge na cidade de Cannes de surpresa para visitar a jovem Naïma (Mina Farid), de 16 anos, que a recebe com muita alegria e entusiasmo. Há algo nessa prima que veio de Paris que passa a ser objeto de fascínio por Naïma, como seu sex appeal, sua tranquilidade em se expor de top less e também seu ar de liberdade em relação ao aproveitar a vida. Ela tem uma tatuagem acima do bumbum com a frase em latim "Carpe diem".

Em determinado momento, as duas estão tomando sol na praia e aparecem dois rapazes, atraídos pelo corpo exuberante de Sofia. E a garota não se importa com os rapazes. Ao contrário: deixa-os desconfortáveis ao aproximar a mão de um deles em seu seios e depois falar de sua pele macia e de outra parte do corpo dela ainda mais macia. O comportamento da prima deixa Naïma um pouco escandalizada, mas seu exemplo de liberdade faz com que, mais e mais, ela se torne um exemplo de vida.

Em entrevista para o site The Hot Corn, Zahia Dehar afirma: "eu não acredito que você pode se chamar de feminista se você coloca outras mulheres em jaulas". Depois, ela diz que admira as chamadas bad girls, já que são essas mulheres as mais fortes e as mais livres. Essa percepção da sociedade em torno da personagem é muito clara no filme, a cada vez que Sofia passa, com seus trajes provocantes, seja um vestido totalmente transparente para a noite, seja um vestido leve e florido, como o que ela usa para ir a um palacete na Itália, com os rapazes que ela conhece.

Essas cenas na Itália são deliciosas, inclusive, ao lidar com a questão do julgamento, do preconceito. Em determinado momento, Sofia, na roda de pessoas ricas que estão ali, afirma que aquele lugar lhe faz lembrar Marguerite Duras. Uma das mulheres (Clotilde Courau) ri e desconfia que aquela garota com jeito de prostituta não sabe nada da escritora e faz perguntas sobre quais livros ela gosta mais de Duras. Além do mais, nada mais simbólico do que ter em cena Courau, casada com o Príncipe de Veneza, nesta cena. Outro acerto de casting de Zlotowski.

A PRIMA SOFIA é também um conto sobre a brutalidade do homem, ainda que narre isso de maneira relativamente leve - afinal, já vimos coisas como VINTE ANOS, de Fernando Di Leo, que lida com essa brutalidade diante da beleza e da liberdade sexual feminina de maneira infinitamente mais agressiva. Mas talvez tenha resultado assim, de maneira muito menos exploratória, por ser narrado por uma mulher. Além do mais, por mais que Sofia atraia demais as atenções, a história é de Naïma, do quanto ela aprende naquele breve período de férias de verão, e no quanto ela aprende para sua vida, para o seu futuro. É um filme cujas semelhanças com A COLECIONADORA, de Éric Rohmer, têm sido citadas em algumas críticas. E tem mesmo tudo a ver.

P.S: Ouçam o podcast do Cinema na Varanda desta semana. A discussão em torno do filme é muito interessante.

+ DOIS FILMES

MULHERES QUE MATAM (Women Who Kill)

Em uma das edições do For Rainbow (de 2016), vi este filme interessante, um thriller sobre duas podcasters obcecadas por assassinos seriais de mulheres. Elas foram ex-namoradas e há ainda uma chance de ainda terem sentimentos uma pela outra. Infelizmente não anotei nada sobre o filme e as lembranças dele ficaram nebulosas demais. Lembro que gostei razoavelmente e é curioso que é um desses filmes que permaneceram inéditos no país, até onde sei. Então talvez tenha sido uma das raras exibições no país. Direção: Ingrid Jungermann. Ano: 2016.

A CIDADE DO FUTURO

Outro filme que muito me agradou na programação do For Rainbow de 2016, este filme da dupla Cláudio Marques e Marília Hughes, depois de terem ganhado força com o relativo sucesso do anterior, DEPOIS DA CHUVA (2013), foi bem recebido e talvez o melhor da mostra competitiva, pelo que me lembro. Na trama, vemos uma família formada por dois homens e uma mulher no interior da Bahia. É um filme que poderia ter tido uma repercussão maior no circuito alternativo. Ano: 2016.

terça-feira, agosto 18, 2020

A CADELA (La Chienne)

Assim como fiz com TEOREMA, na postagem anterior, ao checar os filmes do realizador presentes no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, fiz o mesmo com Jean Renoir, um dos maiores cineastas franceses de todos os tempos. Mesmo sabendo o quão querido é o cineasta, fiquei surpreso pelo número de títulos presentes: A CADELA (1931), BOUDU SALVO DAS ÁGUAS (1932), UM DIA NO CAMPO (1936), A GRANDE ILUSÃO (1937), A REGRA DO JOGO (1939) e A CARRUAGEM DE OURO (1952). Sem dúvida, um mestre; sem dúvida, seus filmes se tornaram clássicos. E mesmo já tendo visto uma meia dúzia de filmes dele, percebo que ainda é pouco para perceber sua poética.

Vi A CADELA recentemente por ocasião de minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang. Então, acessei o filme de Renoir de maneira indireta, já que se trata da primeira obra (de duas) do cineasta francês a ser refilmada por Lang em Hollywood. A CADELA foi refeito como ALMAS PERVERSAS (1945), a ser visto em breve.

Embora tenha visto alguns dos filmes mais aclamados de Renoir, nenhum deles havia me despertado tantos sentimentos de incômodo e de raiva, atração e repulsa, quanto este. E digo isso como um mérito do cineasta e de seus personagens. Todos eles são passíveis de nossa raiva, de nossa indignação e de nossa compreensão. Temos um cafetão, Dédé (Georges Flamant), que bate na prostituta, Lulu (Janie Marèze), que por sua vez se aproveita da bondade de Maurice Legrand (Michel Simon) para sugar tudo o que ele tem financeiramente para lhe retribuir praticamente nada em troca, apenas uma espécie de promessa de carinho. Além do mais, uma outra personagem é digna de nossa raiva, a esposa de Legrand, que o humilha e o maltrata.

Ou seja, é difícil ver o filme sem ficar se perguntando por que certos personagens se permitem viver em uma situação tão serviçal, tão humilhante, sem tomar uma atitude. Viver sozinho é preferível a viver em situação parecida com à dos personagens. Principalmente Legrand, o protagonista, excessivamente bondoso, aceitando tudo o que vem da "cadela" do título, até mesmo os quadros que ele pinta serem vendidos com um outro nome, com Dédé se aproveitando da situação. Ele é provavelmente a figura mais odiosa dos três, já que os outros dois ao menos são levados pela paixão.

Por isso faz sentido o filme começar com um teatrinho de marionetes falando diretamente ao espectador e dizendo-nos para não fazer julgamentos. Faz sentido. No meio do drama, é possível rir com uma situação que surge com o personagem de Michel Simon (no momento de sua primeira conversa com o primeiro marido da esposa). Trata-se de um momento especialmente importante para conferir mais leveza ao filme. Ao fim, é sim um conto moral, ainda que torto em suas vias, em seus destinos.

Não sei o quanto Fritz Lang muda nossas impressões sobre o comportamento humano, o quanto nos fará também espantados com os gestos de seus personagens, ou se trará também naturalidade a eles como Renoir faz. Os dois diretores lidam com tipos diferentes de realismo. E em Hollywood o realismo de Lang na década de 1940 já estava emoldurado com as tintas mais escuras do estilo adotado pelo cinema americano de então. Só sei que Renoir cada vez mais me atrai e desperta meu respeito.

+ TRÊS FILMES (CURTOS)

VIRAMUNDO

Por mais que a situação do povo nordestino tenha melhorado consideravelmente dos anos 1960 para cá, muita coisa não mudou. Inacreditável o depoimento de um nordestino já bem instalado em São Paulo, mas que diz que não se considera mais um "nortista", mas um paulista, e que os nordestinos só pensam em matar, ao contrário dos paulistas, que caminham para a frente. E ainda fala como um bolsonarista dos dias de hoje, reclamando das tendências esquerdistas dos sindicados. Algumas coisas não mudaram. Também me incomoda o discurso do patrão, mas já é de se esperar algo do tipo. Retrato de um período muito difícil, VIRAMUNDO ainda conta com a canção de Caetano Veloso na voz de Gilberto Gil que introduz o filme como um cordel cantado. Só me pareceu um tanto deslocada a última parte, que mostra cenas da umbanda, de cultos evangélicos, do espiritismo etc, mas dá para entender que seria uma espécie de caminho único para aqueles que sofrem de desesperança em um país em que os governantes estão pouco se lixando para os desfavorecidos. Direção: Geraldo Sarno. Ano 1965.

A RUA DAS CASAS SURDAS

Gostei da metáfora com as baratas e a resistência. E da surpresa também. Na trama, Em uma vizinhança silenciosa, durante a ditadura, dois homens acompanham um jogo de futebol pelo rádio, até que resolvem aproveitar o intervalo do primeiro tempo para voltar ao trabalho. Direção: Gabriel Mayer e Flávio Costa. Ano: 2016.

ABISSAL

Bacana esses trabalhos ligados à família, à busca pelo passado obscuro de nossos avós. O diretor cearense Arthur Leite, partindo do projeto de pesquisar a vida de um avô que nunca conheceu, começa a investigar a história da própria família. Quanto mais mergulha nela, mais se afasta da ideia original, percebendo que a personagem, na verdade, é sua avó, Rosa. Ano: 2016.

domingo, agosto 16, 2020

TEOREMA

Já faz mais de um mês que vi TEOREMA (1968), de Pier Paolo Pasolini. Tive que checar a data, pois achava que fazia dois ou três meses. Com essa situação de isolamento social, estou perdendo muito a noção do tempo. Coisas que aconteceram ontem eu penso que foram antes, ficam dentro de uma espécie de névoa da memória, sem separação de dias, o passado imperfeito se misturando com o passado perfeito. O meu interesse em finalmente ver TEOREMA foi o fato de ser o mais aclamado filme de Pasolini, e não um outro motivo, creio eu.

Demorei a escrever a respeito por não ter me aproximado do filme em muitos aspectos. Mas entendo que se encaixa perfeitamente no espírito da época, 1968, quando certos filmes tinham ares de revolucionários como o ano, e chegam a parecer enigmáticos. E de fato este o é.

Peguei o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, e vi que dois filmes de Pasolini estão presentes na lista: aquele que possivelmente é o meu favorito dele, O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (1964), e o seu mais trabalho polêmico, SALÓ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (1975), que ainda não tive coragem de rever - quem sabe, em breve. Ou seja, TEOREMA, que eu jurava se encontrar na lista, não está. Talvez seja considerado mais um filme cultuado do que um filme clássico. No caso, uso a palavra "clássico" como "obra que fica presente" e não como estilo narrativo, já que se trata de um cinema mais moderno.

Talvez, ao ver TEOREMA, estivesse aguardando algo menos enigmático, mais simples. E até podemos dizer que há algo de muito simples na construção do enredo, durante a primeira metade. Acredito que já vimos isso em outros filmes: a figura de um homem (até pode ser uma mulher) que captura o desejo de todas as pessoas da casa (homens, mulheres, patrões e empregada). É possível lembrar de O PRINCÍPIO DO PRAZER, de Luiz Carlos Lacerda; de VISITOR Q, de Takashi Miike; de SUSANA, de Luis Buñuel; de SEXO - SUA ÚNICA ARMA, de Geraldo Vietri; e, ampliando o espectro, podemos lembrar de O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, tanto a versão de Don Siegel quanto a de Sofia Coppola, embora a proposta de ambos seja bem diferente.

Claro que, até por ser homossexual, há elementos queer na obra, como close-ups da "parte baixa" do personagem de Terence Stamp, especialmente na cena em que ele está no jardim lendo um livro e a empregada da casa olha para ele com desejo. Stamp interpreta um homem misterioso que é recebido como hóspede em uma luxuosa casa e começa a ser objeto de desejo de todos os presentes. E Stamp de fato está muito bonito, elegante e charmoso em seus cerca de 30 anos de idade. Já Silvana Mangano já era uma estrela mais madura, ainda que belíssima, com sua maquiagem muito branca. Com Pasolini, ela já tinha feito ÉDIPO REI (1967). Do elenco também vale destacar a presença da menina que faz a filha, Anne Wiazemsky, de A GRANDE TESTEMUNHA, de Robert Bresson.

O que torna TEOREMA um filme mais cifrado é o seu "lado B", que traz um sentimento de pós-lisergia muito interessante, ao mostrar as consequências do encontro com o enigmático homem para todos da família. Há recursos simbolistas interessantes e imagens impactantes, como as da ascensão da empregada como santa em um vilarejo pobre. Ou seja, se antes havia uma dúvida se o personagem de Stamp seria um anjo ou um demônio, essa relação com essa personagem feminina o aproxima de um ser mais divino, o que não deixa de ser transgressor, já que ele desperta o desejo sexual de todos, e o sexo até hoje tem essa relação com o pecado, ainda mais em um país católico, como a Itália. Há também questões relacionadas ao comunismo, desde a primeira cena, tema caro ao cineasta. No mais, talvez eu prefira, por enquanto, ficar com uma lembrança de mistério em torno do filme.

+ TRÊS FILMES

LEMBRO MAIS DOS CORVOS

A proposta por si só já é interessante: filmar apenas o depoimento de vida da atriz trans Julia Katharine, aproveitando-se de fatos muito impactantes de sua vida, sendo que alguns, principalmente o primeiro contado, são muito difíceis para ela de compartilhar com a câmera. Retrato corajoso de uma vida e de desnudamento da alma de um ser humano, embora o caráter documental possa ser um engano, talvez tudo ou quase tudo seja fictício. O trabalho de Gustavo Vinagre merece ser visto com atenção. Direção: Gustavo Vinagre. Ano: 2018.

A ROSA AZUL DE NOVALIS

Gustavo Vinagre, agora com um codiretor, faz um outro filme em que investiga, através de entrevistas, um personagem curioso. Aqui temos a personalidade de Marcelo Diorio, um homem que conta detalhes de sua vida, suas lembranças traumáticas, suas taras, suas visões de vida e espiritualidade, mas há também cenas entre as entrevistas que acentuam o caráter de encenação, coisa que ficava menos explícita no trabalho anterior de Vinagre, LEMBRO MAIS DOS CORVOS. Aqui o que temos é um filme muito mais ousado, muito mais escandaloso. Com esses dois filmes, Vinagre vem se tornando um dos diretores mais interessantes do cinema brasileiro. Codireção: Rodrigo Carneiro. Ano: 2018.

ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA

Pena não ter escrito nem sequer umas poucas linhas a respeito deste filme. Só sei que o vi pois deixei registrado no álbum do Facebook em novembro de 2016. Como estava fazendo parte do júri do festival For Rainbow na época, e o filme fazia parte da mostra competitiva, preferi não me expor. Na sinopse, um jovem rapaz de raízes na etnia indígena saterê, quando se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu e os costumes urbanos da metrópole. Direção: Sergio Andrade e Fábio Baldo. Ano: 2016.

sábado, agosto 15, 2020

SHE DIES TOMORROW

Ontem, ao saber da morte de um amigo de aproximadamente a minha idade, fiquei em um daqueles estados de descrédito da realidade, ainda mais agora em tempos de pandemia, quando ela parece ainda mais absurda. E ainda tem todo o cenário político, no Brasil, nos Estados Unidos, no mundo, que se encaminha para um cenário ainda mais assustador. Mas a morte do Márcio foi o que me abalou. Não que eu fosse tão próximo a ele. Talvez tenham sido as circunstâncias: a rapidez, o fato de ele estar presente e sempre alegre e fazendo piadas em nosso grupo do WhatsApp, e de repente não estar mais. Cheguei a conversar sobre isso com meu amigo Santiago, que, por sua vez, hoje pela manhã, me conta da notícia da morte da ex-namorada de um amigo nosso em comum. Essas mortes de pessoas jovens, e de maneira tão inesperada, nos deixam ainda mais fragilizados diante da vida.

E ontem, vejam só que filme eu fui escolher para ver à noite. Um filme em que uma personagem passa a acreditar piamente que morrerá no dia seguinte, e cuja certeza acaba passando para a amiga mais próxima, que por sua vez transfere esse sentimento a outros ao ir a uma festa. A primeira moça, Amy, vivida por Kate Lyn Sheil, até chega a ter sentimentos mistos com a sua condição. Não é que seja ruim a ideia da morte iminente, talvez seja ruim, mas simplesmente é. Simplesmente é algo que deve ser aceito como um fato. Um dos efeitos dessa relação de proximidade com a morte é olhar para as coisas de maneira diferente, como se fosse a primeira vez. Dizer coisas sem filtro também pode ser um efeito, assim como não se importar em lidar com relacionamentos só para agradar uma pessoa.

SHE DIES TOMORROW (2020) é dirigido por Amy Seimetz, atriz de CEMITÉRIO MALDITO e A ROTA SELVAGEM, entre outros. Ela dirigiu alguns curtas e um outro longa-metragem pouco conhecido, SUN DON'T SHINE (2012), também estrelado por Kate Lyn Sheil, provavelmente uma amiga próxima. O que vemos em SHE DIES TOMORROW pode ser estudado mais atentamente com um tipo de cinema de horror dirigido por mulheres que tem se mostrado bastante presente no circuito independente atual e que tem um tipo de enredo mais interiorizado.

Não à toa SHE DIES TOMORROW, ainda que tenha sido produzido antes da pandemia, tem se tornado um dos exemplares mais representativos desse sentimento que atingiu o mundo inteiro. Um sentimento de fragilidade, mas também de um movimento diferente no olhar a vida, no olhar as horas. No caso de Amy, a protagonista, logo no início do filme, ao falar com a amiga por telefone, afirma que um filme tem uma hora e meia. A amiga havia lhe dito para se acalmar, para ver um filme. Para quem vai morrer talvez ver um filme não seja mesmo a melhor pedida. Ela escuta música enquanto bebe vinho, então. Repete a mesma canção várias vezes na vitrola. E pensa que gostaria que os seus restos mortais se transformassem em uma coisa útil, como uma bolsa de couro, por exemplo.

O interessante da categorização do horror na atualidade é que a abrangência do gênero se amplificou. Cinema de horror não é mais apenas o cinema de sustos, o cinema de monstros, fantasmas ou coisas do tipo. E no caso de SHE DIES TOMORROW nem se trata de ter a morte como principal inimiga (será que ela é mesmo?), mas do modo como a construção da atmosfera prefere muito mais um drama psicológico do que um território para um medo mais familiar ao gênero. É possível, inclusive, rir em muitas cenas. O senso de humor é sutil e interessante. As cenas mais próximas do horror talvez sejam as de profusão de luzes. Eu costumo ficar incomodado com essas luzes coloridas piscando. E é também mais uma prova de que estamos vendo um cinema de baixo orçamento feito com carinho e inventividade.

+ TRÊS FILMES (CURTOS)

CORAÇÃO MIGRANTE

Belo conto agridoce sobre jovem que veio do interior, ainda sonhando com a mulher amada, e deposita suas esperanças no futebol, em um time de periferia. Legal como o filme é todo despido de glamour e mostra pessoas comuns, do dia a dia. E são poucos os diretores que se atrevem a mostrar futebol no cinema. Gostei do que os diretores alcançam aqui nas cenas da partida que mostrará (ou não) o talento de Juninho Mise-en-scéne. Há uma espécie de coro grego que intercala as cenas, só que com um homem tocando violão canções populares. Direção: Leonardo Amaral e Roberto Cotta. Ano: 2020.

O ESTACIONAMENTO

Embora tenha ficado sem entender sobre o que é o curta gostei bastante da ambientação e do clima de pesadelo que ele consegue criar. Na trama, um imigrante haitiano vem para o Brasil e, para sobreviver, arruma emprego em um estacionamento de carros. Ele também passa a viver no estabelecimento, mas começa a ficar louco com algumas situações. Direção: William Biagioli. Ano: 2016.

A MOÇA QUE DANÇOU COM O DIABO

Plasticamente muito bonito e realizado e a ideia final é muito boa. Fico incomodado um pouco com o tanto que o cinema pinta os evangélicos de modo pejorativo, mas aqui houve um motivo e foi para uma conclusão inteligente. Na trama, uma garota vive sua rotina tentando encontrar o seu paraíso na Terra. Direção: João Paulo Miranda. Ano: 2016.

sexta-feira, agosto 14, 2020

A MULHER DO LAGO (La Donna del Lago)

Hoje não está sendo um dos melhores dias. Acordei um tanto desanimado e comecei a atualizar umas fotos que estavam/estão com problema no blog como forma de aproveitar o tempo e a pouca inspiração, mas depois até apareceu uma animação para escrever sobre o protogiallo que eu vi ontem, A MULHER DO LAGO (1965), de Luigi Bazzoni e Franco Rossellini. Mas aí soube de uma notícia que abalou minhas estruturas: a morte de um amigo querido,  dos tempos do Coral do IBEU, o Márcio. Logo agora que a turma estava se reunindo para um projeto (à distância) em plena pandemia. E aí fiquei pensando no quanto ele era divertido, mas também no quanto a nossa vida é um sopro. Ontem ele estava; hoje já não está mais. Nunca vou me esquecer da viagem para o Cumbuco, quando a gente (ele, Nilberto e Paulo Hugo e eu) fomos ver a final da Copa de 94. Foi a única final de Copa divertida para mim. Tratemos de nos manter vivos nestes tempos sombrios, então.

Vamos ver, então, se consigo escrever alguma coisa sobre o filme de ontem. Curiosamente, é também um filme que lida com o espanto diante da notícia da morte de alguém. Na trama, um escritor de romances, Bernard (Peter Baldwin), viaja a um local no litoral onde costumava passar as férias no passado. Ele se instala em um hotel bastante interessado em rever uma bela mulher que ele conhecera da última vez. Essa mulher, Tilde (Virna Lisi), aparece constantemente em suas memórias. Acontece que ele descobre que Tilde está morta. Supostamente se suicidou. Sem acreditar no ocorrido, e bastante desconfiado com as circunstâncias que levaram à morte de Tilde, Bernard procura investigar.

A investigação dele não chega a ser parecida com à de um policial. E muito do que ele pensa, mesmo em situações de confusão mental, é exposto em uma voice-over que nos aproxima do personagem, de suas angústias, do desejo que nutria por Tilde, e pela crescente desconfiança de que ela teria sido de fato assassinada pelo dono do hotel ou alguém muito próximo. A fotografia em preto e branco em tons claros dá um ar etéreo para a obra. Inclusive, muitas das cenas se passam durante o período frio. Em uma delas, Bernard está esperando uma mulher que ele acredita que poderá lhe contar algum segredo e enquanto espera ele se sente com muito frio e com febre.

É interessante como o cinema italiano da década de 1960 era rico. Além dos grandes mestres, autores respeitados em festivais mundo afora, havia os chamados filmes de gênero (gialli, filmes de horror, spaghetti westerns, filmes políticos, comédias populares, sci-fies, filmes de fantasia e de aventuras passados na antiguidade etc.). E às vezes havia filmes que não se enquadravam em certos gêneros e ficavam um tanto perdidos no meio de tudo. Talvez seja o caso de A MULHER DO LAGO, que traz inúmeros elementos que seriam popularizados no giallo, mas que se aproxima mais de um thriller psicológico dramático com tintas surrealistas.

Muito do que é mostrado na ação vem dos sonhos e dos delírios do protagonista. Tudo o que vemos de Tilde vem das lembranças dele. Há até a repetida imagem do olho (figura tão recorrente nos gialli) testemunhando a mulher na cama com outro homem. E assim Virna Lisi, ainda que tenha uma participação muito pequena, é a imagem que mais é lembrada ao final da projeção. Também ficamos com a forte lembrança do som do vento frio, das imagens do hotel vazio e de um clima fantasmagórico no ar.

+ TRÊS FILMES (CURTOS)

YES, GOD, YES

Aproveitando que postaram a legenda tanto para o curta quanto para o longa da mesma diretora e com a mesma atriz, vi logo o curta, de apenas 11 minutos. Quem viveu a internet discada vai se identificar; e quem já teve bases religiosas que trouxeram culpa para a consciência por causa do sexo e da masturbação também. O filme trata isso com muito senso de humor. Adoro a cena final. Mas todo o curta é muito agradável, parecendo mesmo uma preparação para o que a diretora faria a seguir. Nem sei se ficou bom o longa ainda, mas imagino que seja no mínimo bem divertido. Direção: Karen Maine. Ano: 2017.

FIRE (POZAR)

Tentar chegar a este filme pelo caminho da razão é difícil, já que o trabalho de David Lynch, que muitas vezes já é um tanto hermético, se torna ainda mais complicado quando ele usa o recurso da animação, que possibilita mais abstrações. Assim, o melhor caminho para se aproximar deste filme é outro, o da emoção talvez. Alguns simbolismos são bem próprios do Lynch, como o fogo, tão presente e que aqui se destaca novamente. Na página de divulgação do filme, Lynch falou que, no projeto, apresentado a alunos de uma escola de música em 2015, em parceria com o compositor Marek Zebrowski, o diretor não falaria nada de suas intenções para o músico. Ele veria as imagens e comporia a trilha a partir de suas próprias interpretações. É, certamente, o caso de filme para rever algumas vezes para prestar atenção em mais detalhes. Ano: 2015.

CLANDESTINA FELICIDADE

Não sabia da existência deste curta, um dos primeiros trabalhos de Marcelo Gomes, antes de estrear em longa com CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005). O que muito me animou, ao ser apresentado por ele, foi o meu recente encantamento com o conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, uma ode ao prazer de ler como raramente se vê. E há também toda a beleza do universo infantil e o universo da própria escritora, que é explorado em pequenos momentos do filme, que não é uma adaptação cena a cena do conto, o que é até bom. O que o conto tem de lindo no modo como termina, o curta tenta emular no sorriso de felicidade da menina Luísa Phebo. Adorei! Direção: Marcelo Gomes e Beto Normal. Ano: 1998.

quinta-feira, agosto 13, 2020

A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (Color out of Space)

Com uma carreira bem acidentada, Richard Stanley volta à direção de longas-metragens depois de um longo período apenas trabalhando em curtas, segmentos em longas coletivos e documentários. Hollywood não foi muito gentil com ele depois de demiti-lo no meio das filmagens de A ILHA DO DR. MOREAU (1996), filme que depois foi achincalhado, mesmo tendo o nome de John Frankenheimer como diretor - ele foi o encarregado de dar seguimento às filmagens. Lembrando que Stanley era uma promessa para o cinema de horror nos anos 1990, com filmes como HARDWARE - O DESTRUIDOR DO FUTURO (1990) e O COLECIONADOR DE ALMAS (1992).

Ainda assim, mesmo tendo tanta dificuldade de conseguir entrar novamente em um grande projeto, Stanley seguiu sendo cultuado por parte de fãs do gênero. A boa notícia é que seu novo filme, A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019), baseado em um conto de H.P. Lovecraft, é muito possivelmente seu melhor trabalho. Não está sendo e não será nada próximo de uma unanimidade, mas é muito bonito plasticamente e tem uma atmosfera de pesadelo crescente bastante envolvente.

Chama a atenção também a participação de Nicolas Cage, ator incansável que só em 2019 tem seis produções com seu nome como ator. Este filme de Stanley é um dos que mais têm a sua cara entre as produções recentes. Ou seja, ele não economiza nos gritos, nos tiques, naquilo que já nos acostumamos a ver. E não chega a atrapalhar nenhum pouco. Cai como uma luva para o filme.

Ele interpreta um pai de família que mora em uma região rural bastante afastada da cidade. mais próxima Esse detalhe é importante para que possamos nos dar conta do distanciamento da família quando o inferno chega. E o inferno chega em cores, em especial na cor-de-rosa bem viva. Quando a família está se preparando para dormir, algo parecido com um meteorito cai no jardim, deixando uma cratera imensa e muitas dúvidas sobre o que se trata. Aos poucos, cada membro da família passa a se comportar de maneira muito estranha.

Apesar da presença de Cage, podemos dizer que a verdadeira protagonista do filme é Madeleine Arthur, uma jovem com poucos títulos marcantes no currículo, mas que aqui demonstra muito carisma. Ela faz o papel da filha de Cage. Na primeira cena do filme, ela está praticando um ritual de magia à beira de um rio quando é flagrada por um rapaz que está passando. Sua intenção é fazer um feitiço para curar definitivamente sua mãe do câncer. Sua mãe é uma mulher frágil e carinhosa vivida por Joely Richardson, e que possui outros dois filhos, um adolescente e um garotinho, cada um deles de importância pontual para a trama. Fazem parte da família também as alpacas que o patriarca cria com muito carinho.

Mas, quem espera algo parecido com uma boa construção de personagens ou diálogos ricos, pode esquecer. Não que os diálogos sejam ruins ou o roteiro seja ruim. É que não parece haver nenhuma intenção por parte de Stanley de fazer um filme com essas bases. Seu maior interesse é na beleza, tanto a beleza das cores artificiais geradas por efeitos visuais quanto a beleza da natureza. E também a beleza dos efeitos gore, que em alguns momentos remetem a O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, de John Carpenter, e outros filmes de horror oitentistas.

Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley conta que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia. Quanto aos aspectos niilistas do escritor, eles seguem presentes na adaptação, em especial quando a família vai se desintegrando mais e mais, tornando-se, literalmente, monstros sob o efeito da radiação alienígena.

Stanley também se sente muito grato a Nicolas Cage, um grande fã de Lovecraft. O cineasta afirma que ele foi o homem que restaurou sua fé em Hollywood novamente. Depois do trauma de A ILHA DO DR. MOREAU, poder filmar tudo com tranquilidade, em uma região rural de Portugal, e com todo o apoio dos atores e dos técnicos, e ter um resultado muito tão favorável não tem preço. As coisa foram tão bem que Stanley planeja duas novas adaptações de Lovecraft para breve. Aguardemos.

+ TRÊS FILMES

HOST

Com o tempo que esta pandemia está demorando a ir embora, daqui a pouco teremos um bom número destes filmes de horror que se passam no momento atual. HOST nem é tão original assim - lembrei de AMIZADE DESFEITA, lá do longínquo 2014, mas certamente há outros exemplos. Na trama, um grupo de jovens resolve fazer uma comunicação com uma entidade em uma webconferência via zoom com auxílio de uma médium. As coisas acontecem como se espera que aconteçam nesses filmes. O legal é esperar pela surpresa, pela originalidade. Pelo menos, fica a lição: nada de chamar pelos mortos durante encontros via web. Ainda mais se você não leva a sério a coisa. O filme tem pouco menos de uma hora, mas conto como longa-metragem. Direção: Rob Savage. Ano: 2020.

O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire de la Peur)

Um daqueles casos de filmes imperdíveis, mas que eu, como cinéfilo estava perdendo há muito tempo. A chance de ver no cinema, em cópia remasterizada, foi uma beleza. Interessante o quanto o filme passa de uma crônica divertida e cruel sobre uma sociedade pobre de um país latino-americano para um thriller de causar muita tensão em sua segunda metade. A longa duração nem é sentida. Outra coisa que chama muito a atenção é o modo como Clouzot escala sua esposa para ser uma mulher que sofre terríveis humilhações, o que só aumenta ainda mais a polêmica de sujeito cruel e sádico. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1953.

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (Sorry We Missed You)

Uma paulada este filme de Ken Loach. Diferente de EU, DANIEL BLAKE (2016), este aqui parece acertar no tom até mesmo quando as desgraças na vida da família se acentuam de modo que sequer acreditamos. Além de tudo, contar a história e comover sem utilização de música já ganha o meu respeito. E o carinho com que ele trata esses personagens sofridos da classe trabalhista para fazer uma crítica do capitalismo da era Uber é sensacional. Mesmo quando determinado personagem pode ser encarado como o grande problema da família, Loach nos lembra que o buraco é mais embaixo. Eu não costumo dizer isso, mas diria que este filme é obrigatório, principalmente para pensar o atual momento político-econômico-social. Filme saído da safra de Cannes-2019.