segunda-feira, dezembro 14, 2009

JANELA INDISCRETA (Rear Window)



Terceira vez que vejo JANELA INDISCRETA (1954), de Alfred Hitchcock. A primeira foi na televisão, dublado, e a segunda, no cinema, quando do relançamento depois da restauração. Curiosamente, ainda assim, é um filme cuja fotografia parece ainda um pouco envelhecida. Devo dizer que a terceira vez foi melhor que as demais. Antes, eu não gostava tanto, por causa de seu andamento mais suave, que na minha cabeça não combinava muito com um filme de suspense. Mas agora, apreciando o filme pelo que ele é e não pelo que eu esperava que fosse, percebo que se trata mesmo de uma obra-prima. E um dos filmes mais influentes do cinema, sem dúvida. Quantos diretores já não homenagearam a obra?

É também um dos filmes mais estudados em teoria do cinema e técnica de edição, graças às reações do personagem de James Stewart a partir do que ele vê nas várias janelas. A propósito, desde a primeira vez que vi o filme - aliás, principalmente na primeira vez que vi o filme - que fico impressionado com a a moça seminua que se requebra em uma das janelas. É algo bem ousado, ainda mais para a época. Há uma sexualidade muito forte ali.

A sexualidade também está presente em momentos bem menos explícitos, em especial na cena do beijo de Grace Kelly. O famoso beijo-surpresa, cuja sequência em câmera lenta foi recuperada anos depois. Confesso que a primeira vez que vi a Grace Kelly neste filme, com os hormônios a mil da adolescência, digamos que o meu corpo reagiu instantaneamente. E ainda mexe comigo até hoje. Parece com um sonho. O personagem de Stewart está dormindo e quando acorda vê aquela deusa se aproximando dele. Ele, quase sem poder se esquivar, devido à sua condição de acidentado. Mas para que se esquivar? Aliás, como alguém não quer casar com Grace Kelly? Talvez esse seja o maior absurdo do filme.

Era a segunda parceria de Hitchcock com a atriz-princesa. Em DISQUE M PARA MATAR (1954), ela ainda estava um pouco engessada. Foi com JANELA INDISCRETA, com um papel que valorizava mais o seu jeito expansivo, alegre e encantador de ser, que ela mostrou realmente a que veio. E se mostraria ainda mais bela e sedutora no trabalho seguinte, LADRÃO DE CASACA (1955). O próprio Hithcock, muito sabiamente, havia percebido isso e, quando contratou o roteirista John Michael Hayes, pediu a ele que passasse uns dias com Grace Kelly, para perceber o seu modo de ser e poder fazer uma personagem moldada nela.

E falando ainda nos aspectos sexuais do mais famoso filme sobre voyeurismo de todos os tempos, interessante destacar o patrulhamento social que se fazia com o sexo entre pessoas não casadas. Era mesmo algo proibido. Principalmente num condomínio, onde o senhorio não permitia que pessoas solteiras trouxessem outras para dormir em seu apartamento. O olhar de cumplicidade - ou talvez de reprovação ou de inveja - do policial amigo de Stewart quando vê as roupas íntimas da moça em seu apartamento também é algo que diz muito do que era a sociedade naquela época. E Hithcock quis mostrar uma mulher bem liberal e ativa, como já era comum em Nova York.

Mas já gastei cinco parágrafos falando basicamente de sexo e de Grace Kelly e ainda não falei do principal, que é o olhar de James Stewart às janelas de seu condomínio como metáfora da relação entre o espectador e o cinema. E essa semelhança entre protagonista e espectador faz com que o momento do encontro com o assassino seja realmente assustador. Interessante notar que a distância da câmera, em relação às janelas dos apartamentos que ele espia é sempre longe. Exceto quando ele usa uma lente de aumento, como um binóculo ou uma lente adaptada para uma câmera fotográfica. Outro aspecto digno de nota também é o fato de Hitchcock não entregar logo de cara uma visão geral de todas as janelas. Ele o faz apenas quando quer enfatizar uma situação dramática, como na cena da morte do cachorrinho, que é realmente uma das mais emocionantes do filme.

Não percebi isso de cara, só depois, lendo a entrevista que Hitchcock deu a François Truffaut. Aliás, outra coisa que Truffaut muito inteligentemente destacou foi a aliança. Na cena em que Grace Kelly - que quer se casar com James Stewart - coloca a aliança da esposa do assassino no dedo, ela tem uma dupla vitória: ter conseguido uma evidência do crime e já ter uma aliança no dedo! Já estaria a um passo para o casamento, portanto. Muita coisa que pode passar batido para o espectador pode ser visto na cerca de uma hora de documentário de Laurent Bouzereau, presente nos extras do dvd da Universal. Ainda haveria muito o que falar sobre JANELA INDISCRETA. Aliás, é um filme que parece fonte inesgotável de estudos, teorias, análises. E mais uma das provas da genialidade do nosso querido mestre do suspense.

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