quinta-feira, julho 31, 2008

IRINA PALM



Não vou negar. O que provavelmente me atraiu em IRINA PALM (2007) foi mesmo a presença de Marianne Faithfull. Acho que ainda tinha guardado em minha memória a juventude e a beleza da cantora, na época em que ela era conhecida como a namorada dos Rolling Stones, Lembro especialmente de sua aparição em THE ROLLING STONES - ROCK AND ROLL CIRCUS, o lendário especial de televisão que reuniu a banda e mais uma série de convidados ilustres numa celebração um tanto satânica. Mas como boa capricorniana que é, Marianne, apesar de ter perdido parte daquele encanto e beleza da juventude que se vai com o passar dos anos, ela parece estar bastante à vontade com a velhice. Ainda se perceba nos belos olhos dessa agora senhora cinquentona um pouco de seu encanto sedutor. E Marianne acaba por ser mesmo o grande trunfo do filme, que não chega a ser grande cinema mas que está bem acima da média do cinema produzido na Inglaterra. E falando em cinema inglês, é impressionante como vários exemplares do cinema da ilha têm se mostrado triste e cheio de autocomiseração – lembro especialmente dos melodramas de Mike Leigh.

IRINA PALM, no entanto, tem também o humor a seu favor. Marianne Faithfull interpreta uma senhora que já fez de tudo para tratar da saúde frágil de seu neto – chegando, inclusive, a vender a própria casa para pagar o tratamento do garoto. Acometido de uma doença rara e que leva à morte, o menino tem como alternativa ser tratado na Austrália. Um tratamento gratuito, mas os pais do garoto precisam de dinheiro para custear as despesas de viagem, hospedagem e alimentação durante a estadia no país. E, preocupada, Irina sai secretamente em busca de emprego, numa sociedade que não tem respeito pelos mais velhos no mercado de trabalho. Em geral, passou de cinqüenta anos, fica bastante difícil uma pessoa conseguir emprego - isso não é um problema exclusivo do Brasil. Maggie, a personagem de Marianne, no desespero, resolve, então, aceitar o emprego num clube erótico chamado "Sex World". O trabalho consiste em masturbar homens que colocam seus pênis num buraco e esperam um serviço bem feito de uma profissional anônima. Se no começo, o trabalho era nojento, asqueroso, chocante até, aos poucos, com a rotina, Maggie, que ganha o nome de guerra de Irina Palm, se transforma na melhor punheteira do clube, formando longas filas de homens ávidos para experimentar o seu toque mágico, e com o tempo ela começa a se sentir até orgulhosa de suas mãos e de seu sucesso com os clientes, chegando a ganhar até o coração do gerente do estabelecimento.

O filme só tem a ganhar com o humor, que se sobrepõe ao melodrama vulgar que o filme aparentemente parecia sucumbir no início, e Marianne, com suas demonstrações de versatilidade na interpretação – ela vai da tristeza ao asco, da vergonha à rotina, dorgulho a uma certa malícia, que é quando ela parece mais natural e seus olhos parecem brilhar mais. O filme foi dirigido pelo alemão Sam Garbarski, de O TANGO DE RASHEVSKI (2003), e é uma co-produção entre Reino Unido, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha e França. Curiosamente, Garbarski é um desses diretores que começaram a carreira de cineasta já tarde, tendo em vista já ter sessenta anos e esse é apenas o seu segundo longa. Talvez ele queira provar que, assim como ele próprio e a personagem de Marianne Faithfull, nunca é tarde para começar a fazer sucesso.

quarta-feira, julho 30, 2008

CINTURÃO VERMELHO (Redbelt)



Apesar do nome de David Mamet como diretor de CINTURÃO VERMELHO (2008), para os brasileiros, o verdadeiro atrativo do filme acaba sendo o triplo foco de como o Brasil é visto num filme americano: primeiro, a presença dos dois astros brasileiros que alcançaram maior repercussão nos Estados Unidos nos últimos anos (Alice Braga e Rodrigo Santoro) e, em seguida, a utilização do país do futebol como sendo também o país do jiu-jitsu. O tema principal do filme gira em torno da ética e da honestidade do protagonista, o professor de jiu-jitsu Mike Terry, interpretado por Chiwetel Ejiofor, avesso aos campeonatos do esporte que ama e pratica por acreditar que há muita desonestidade no meio. Mesmo sendo um grande lutador, ele prefere manter, junto com a sua bela esposa brasileira (Alice Braga), uma academia de bairro, com poucos mas fiéis aprendizes. Entre eles, um policial.

Como é de praxe no cinema de Mamet, nem tudo é tão simples, e o protagonista acaba entrando numa teia de intrigas que envolve o meio hollywoodiano, uma mulher abalada por um estupro, traições, um relógio roubado e uma necessidade urgente de conseguir dinheiro. Interessante notar o quanto o desespero por dinheiro tem surgido em filmes recentes dirigidos por cineastas americanos (O SONHO DE CASSANDRA, ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO). E olha que estamos falando de cineastas do país mais poderoso do mundo. Mas no caso de CINTURÃO VERMELHO, o dinheiro não chega a ser tão fundamental na trama quanto nos citados títulos, embora seja sim importante.

Terry e sua esposa estão passando por problemas financeiros e a solução para os problemas do casal aparentemente acontece por acaso, num bar, quando Terry salva um astro de Hollywood (Tim Allen) de uma briga, demonstrando toda sua habilidade de luta. Como forma de recompensar o favor, o astro consegue para Terry nada menos que um emprego de co-produtor de um filme de guerra seu. Joe Mantegna, ator-fetiche de Mamet, aparece como um poderoso executivo do estúdio. Mas quando tudo parece estar se encaminhando para um final feliz, inclusive para a esposa de Terry, que negocia uns vestidos brasileiros para as dondocas esposas dos astros, diretores e produtores de Hollywood, as coisas começam a se encaminhar por um caminho nada desejado.

Por mais que o valor do filme esteja na intrincada teia construída por Mamet e a discussão ética que o filme impõe, não deixa de ser interessante ver o quanto o Brasil é foco nesse filme que pode agradar até mesmo aos fãs de fimes de luta mais genéricos, embora esse espectador precise saber com antecedência que trata-se de um drama – ou mesmo uma tragédia - e não há tantas lutas assim. Ainda assim, na sessão em que eu estive, havia pelo menos uns três caras fortões que aposto que são praticantes do esporte. E não sabia que Mamet também é praticante e entusiasta do jiu-jitsu. Assim, o filme pode ser encarado como um de seus projetos mais queridos e pessoais, já que ele está lidando com algo do seu interesse. E talvez tenha sido a primeira vez que um cineasta do primeiro escalão aborda o universo do jiu-jitsu em Hollywood.

terça-feira, julho 29, 2008

FESTIVAL VAN DAMME



Depois de mais de dois anos do último "Festival Van Damme" que eu "promovi" aqui no blog, eis que eu retorno com mais quatro filmes do nosso querido belga. E na expectativa de ver o ambicioso projeto auto-biográfico JCVD (2008), agendado para este ano ainda, mas que já teve pré-estréia na França e está marcado para passar no Festival de Toronto, no Canadá, em setembro. O filme promete ser uma virada na carreira do astro, mas isso já pode ser percebido em ATÉ A MORTE (2007), de longe, um dos melhores da carreira do astro e que traz a sua melhor interpretação até agora. Mas não ponhamos os carros na frente dos bois e falemos dos filmes em ordem cronológica.

Interessante que, apesar de eu já ter pagado pra ver filmes do Van Damme no cinema, nunca paguei pra alugar ou comprar um dvd dele, coisa que fiz dessa vez. Dos quatro títulos, o único que eu vi na televisão (na Globo) foi LEÃO BRANCO, O LUTADOR SEM LEI (1990), produzido quando ele ainda estava no auge da popularidade e era sinônimo de bons números nas bilheterias. Naquela época, o cinema não estava tão elitizado como está hoje e ainda existiam alguns poucos cinemas de rua, como o Cine Diogo, que era o lugar onde geralmente passavam os filmes do astro e onde vi seu primeiro filme como protagonista no cinema: O GRANDE DRAGÃO BRANCO (1988), que achei uma merda na época, mas meus amigos, a turma com quem fui assistir, ficaram bem entusiasmados. Na época eu ainda guardava muito preconceito com esse tipo de cinema e torcia o nariz para esse rapaz que se apresentava como um novo Bruce Lee, ainda mais com aquelas propagandas irritantes e exageradas da Paris Filmes, que vendia filmes vagabundos como se fossem superproduções.

LEÃO BRANCO, O LUTADOR SEM LEI (Lionheart)

Embora não seja um filme pra se levar tão a sério, é um dos mais divertidos e bem fluidos trabalhos de Van Damme. Ele interpreta um desertor da Legião Estrangeira que chega aos Estados Unidos como clandestino tentando arrumar um jeito de pagar o tratamento de seu irmão (que havia sofrido sérias queimaduras) e manter financeiramente a cunhada e seu sobrinho. Como não tinha dinheiro, ele aceita participar de lutas clandestinas, já que ele era muito bom de briga. O filme lembra um pouco o ótimo LUTADOR DE RUA, com Charles Bronson, mas, diferente do filme de Walter Hill, mais seco, Sheldon Lettich, o diretor de LEÃO BRANCO, coloca um pouco mais de sacarose nas seqüências envolvendo os parentes do herói, que além de ter que lutar com uns caras fortões, de ser considerado culpado pelo que aconteceu ao irmão pela cunhada, ele ainda é perseguido pelos agentes da Legião Estrangeira que estão em seu encalço.

A COLÔNIA (Double Team)

Filme de uma fase já mais ambiciosa de Van Damme, do ciclo de filmes dirigidos por cineastas chineses. A COLÔNIA (1997) era o filme de Tsui Hark que faltava eu ver, e talvez um dos filmes com mais cara de grande produção do astro, ao lado de TIMECOP, O GUARDIÃO DO FUTURO (1994). Quando se trata de Tsui Hark é garantia de cinema sofisticado, mesmo que o roteiro não ajude nenhum pouco. O filme sofre do mesmo problema de GOLPE FULMINANTE (1998), o filme seguinte de Van Damme, também dirigido por Hark, problema ligado ao roteiro e à montagem. Ainda assim, A COLÔNIA é recheado de boas seqüências de ação e tem momentos surpreendentes, como a própria natureza da Colônia do título nacional, onde ficam os agentes da CIA considerados mortos para o mundo. O "double team" do título original se refere à parceria dele com o personagem do jogador de basquete Dennis Rodman. Fazendo papel de vilão, está um decadente Mickey Rourke. Um dos auges do filme vai acontecer no Coliseu Romano. Primeira vez que aluguei um filme de Van Damme. E não me arrependo, pois como o filme foi fotografado em scope, perder-se-ia muito optar para vê-lo na tevê.

SEGUNDO EM COMANDO (Second in Command)

Depois da fase de trabalho com os diretores chineses (Hark, Ringo Lam, John Woo), Van Damme começou a fazer filmes ainda mais marginais para saírem direto em vídeo. Alguns desses trabalhos, porém, merecem uma conferida, como o já citado aqui VINGANÇA (2004), que contém uma das melhores interpretações da carreira do astro. SEGUNDO EM COMANDO (2006) foi feito sob a batuta de Simon Fellows, cineasta que havia dirigido o terror REENCARNAÇÃO (2004), estrelado por Heather Grahan, disponível em dvd no Brasil e provavelmente muito pouco visto. O fato é que Fellows se sai muito bem nesse thriller de ação onde Van Damme interpreta um oficial americano que, em visita a um país não-identificado do leste europeu, é nomeado Segundo em Comando do embaixador americano do país. O país está sofrendo uma guerra civil e os rebeldes querem a vida do presidente que se refugia na embaixada dos Estados Unidos. Os insurgentes estão bem equipados com armas poderosas e querem o corpo do embaixador a todo custo. O personagem de Van Damme, no entanto, não abre mão e prefere tomar outras medidas para contornar o problema. É um filme muito movimentado e contar corpos e balas é uma tarefa impossível. Não chega a ser um filme tão bom, mas nota-se que também não é um trabalho vagabundo, que há um cuidado maior com a produção. O que não dá pra negar é a influência forte da série 24 HORAS. Foi a primeira vez que eu baixei um filme do Van Damme.

ATÉ A MORTE (Until Death)

Como em time que está ganhando não se mexe, Van Damme escala novamente Simon Fellows para dirigir esse que talvez seja o melhor filme da carreira do astro. Ou pelo menos merece estar entre os cinco melhores. ATÉ A MORTE mostra Van Damme como um policial que um tempo atrás trabalhou no departamento de narcóticos e que acabou viciado em heroína para se infiltrar num bando. O problema é que mesmo depois de finalizada a operação, ele continua viciado e aparece no filme com olheiras e um aspecto bem decadente. E como o próprio Van Damme também teve problemas com drogas pesadas, ele deve saber o que é mexer com vespeiro e dá ao filme uma interpretação inédita. ATÉ A MORTE tem uma reviravolta surpreendente lá pelo meio que o divide em duas partes. O protagonista, além de ser discriminado pelos próprios colegas policiais que o chamam de junkie, ainda sofre com a separação da esposa e a notícia de que ela está grávida de outro. Pra completar, ele tem um envolvimento íntimo com as prostitutas e enche a cara de uísque todo dia. É um retrato de uma vida estilhaçada num filme muito bom, que já começa com uma operação perigosa com drogas, envolvendo o vilão, interpretado por um Stephen Rea bem canastrão e muito acima do tom. Parece que ele não estava levando o filme tão a sério quanto Van Damme. Vale a pena procurar por ATÉ A MORTE nos saldões das Americanas, que foi onde eu comprei.

segunda-feira, julho 28, 2008

ARQUIVO X: EU QUERO ACREDITAR (The X Files: I Want to Believe)



Não cheguei a ser um fã, desses que não perdeu nenhum episódio de ARQUIVO X (1993-2002), mas foi uma série que marcou tanto a década de 90 que era quase impossível ficar alheio às aventuras de Mulder e Scully. E devo ter visto pelo menos uns trinta episódios de toda a série, tendo acompanhado por completo apenas a última temporada, quando já estava com tv por assinatura à minha disposição. Antes, havia apenas as chances de ver os episódios esporadicamente, através das exibições na Rede Record, bem como nas locadoras, já que alguns poucos episódios das primeiras temporadas chegaram a ser disponibilizados em vhs. Mas o pouco que vi dessa série que durou nove temporadas e um longa-metragem para cinema - que serviu de elo de ligação entre duas dessas temporadas - foi suficiente para eu criar um vínculo afetivo com os personagens.

Vale lembrar que ARQUIVO X - O FILME (1998), dirigido por Rob Bowman, um dos principais diretores de episódios da série, surgiu no auge de popularidade da série e num momento em que a internet começava a se popularizar também. Dez anos depois desse filme e seis depois de encerrada a série, Chris Carter traz de volta o casal Fox Mulder e Dana Scully em mais uma missão para resolver, ainda que os dois já estejam aposentados de suas antigas funções. Scully, em vez de ficar no ostracismo, resolve seguir a sua carreira médica. Inclusive, as cenas dela tentando salvar a vida de um garoto que tem uma doença gravíssima chega a ser tocante e a julgar pela maneira fria como o filme vem aparentemente sendo recebido, muita gente deve ter achado até um pouco piegas esse aspecto mais sentimental da trama. Pra mim, essa subtrama está entre os pontos altos do filme. Quanto a Mulder, ele continua interessado em fenômenos paranormais, E.T.s e coisas do tipo e vive escondido num lugar onde pouca gente sabe onde ele está.

O FBI, sem conseguir resolver um caso complicado que envolve uma agente desaparecida e um ex-padre de passado negro que tem o dom de ter visões, resolve ir em busca de Mulder, que se encontra desaparecido, mas que certamente a sua ex-parceira de trabalho deve saber onde ele está. Com certo ceticismo, mas ao mesmo tempo desesperados, os agentes federais utilizam esse médium para tentar encontrar a vítima, que, segundo ele, ainda estaria viva. A segunda seqüência do filme mostra o FBI e o médium encontrando um braço decepado debaixo do gelo. E assim começa ARQUIVO X: EU QUERO ACREDITAR (2008), dirigido pelo próprio criador da série, Chris Carter, que procura não encaixar o longa na grande trama de extra-terrestres da série, como acontece no primeiro filme, mas numa trama fechada, que pode ser compreendida por aqueles que nunca viram um episódio da série. Mas, obviamente, assim como acontece com SEX AND THE CITY - O FILME, trata-se de um trabalho que é muito melhor apreciado e valorizado por aqueles que já entraram em contato com a série e que criaram uma relação de afeto com os personagens. Tanto Mulder e Scully são fascinantes. Opostos complementares, um acredita até em chupa-cabra, a outra é adepta de São Tomé. É o típico caso de que os opostos se atraem. E é muito bom ver um pouco da intimidade dos dois, embora o filme seja bastante discreto nesse aspecto, preferindo focar mais a atenção nos problemas que os dois precisam solucionar. Scully, então, é duplamente pressionada, já que também está trabalhando com afinco para uma cura para o garoto, que ela ama como se fosse o próprio filho.

O que pode incomodar ou decepcionar um pouco no longa, o que eu acho de certa forma até compreensível, é a trama que está por trás de todo o mistério. E talvez seja mesmo o maior ponto fraco do filme. Mas até chegarmos à revelação final, ARQUIVO X: EU QUERO ACREDITAR ainda tem muito a oferecer ao espectador em cenas de intriga, ação e suspense. No recheio, há uma relação de antipatia imediata entre Scully e o padre, cujo passado negro é justamente o de ter abusado de crianças, que surge ao mesmo tempo em que também há uma relação sutil mas de certa proximidade entre Mulder e a agente interpretada por Amanda Peet, principalmente por causa da ausência de Scully nas investigações, já que ela prefere cuidar de algo que pra ela é mais importante. Enquanto isso, Mulder fica totalmente empolgado em poder novamente sentir aquela adrenalina dos velhos tempos, de poder mergulhar no escuro do mistério. Mulder, seguindo os seus já conhecidos métodos intuitivos, acredita - ou quer acreditar - que o padre possui mesmo dons mediúnicos. Assim, no meio de cenas que chegam a surpreender, para os fãs da série, o filme ainda reserva um pequeno presente, na figura de um personagem querido da série, que aparece no último ato.

Quanto aos atores que interpretam Mulder e Scully - diferente da maior parte do elenco de FRIENDS, para citar outra série de sucesso dos anos 90 que deve virar filme também -, pode-se dizer David Duchovny e Gillian Anderson até que tiveram (ou estão tendo) uma carreira relativamente bem sucedida, seja no cinema, seja na televisão, ainda que Gillian, grande atriz que é, bem que poderia dar mais o ar de sua graça. Na realidade, ela não parou de trabalhar. É que ela tem se dedicado mais a produções britânicas que não têm chegado aqui. Gillian tem uma beleza radiante, talvez hoje com os seus quarenta anos até mais do que no comecinho de ARQUIVO X, com aquele visual que ainda carregava muito da moda oitentista. E Duchovny está de volta à televisão, na bem sucedida série CALIFORNICATION e em eventuais produções hollywoodianas, como o recente drama COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO, de Susanne Bier.

P.S.: Enquanto isso, uma nova série inspirada em ARQUIVO X parece estar nascendo. Foi vazado na internet o piloto de FRINGE, a nova série de J.J. Abrams, que se parece bastante com a série de Chris Carter e que deve estrear em setembro. Cheguei a ver o piloto, que também conta com um casal de agentes do FBI em estranhos casos para resolver. Só não sei se a série vai dar liga, já que o personagem de Joshua Jackson (DAWSON'S CREEK) não parece ter tanta força quanto a obstinada protagonista, vivida pela bela Anna Torv, que veio da Austrália e tem no currículo peças shakespereanas. Mas isso é algo que só os próximos episódios darão a resposta.

domingo, julho 27, 2008

A IDADE DO OURO (L'Age d'Or)



Dizem que a separação da parceria entre Luis Buñuel e Salvador Dali se deu por causa de Gala, a ciumenta esposa de Dali. Os dois haviam trabalhado juntos no revolucionário curta-metragem UM CÃO ANDALUZ (1929), mas que o ódio que Buñuel sentia por Gala era tanto que ele chegou até a tentar estrangulá-la uma vez de tanta raiva. E o interessante é que essa raiva está presente com força total em A IDADE DO OURO (1930), o primeiro longa-metragem de Buñuel. A raiva é mostrada no filme na figura do protagonista, um sujeito que adora matar inseto, chuta cachorro, cego, violino, dá uma tapa no rosto de uma mulher da alta sociedade só porque ela derramou um pouco de vinho em sua mão e chega a atirar com um rifle numa criança por ele estar tirando sarro com ele. O protagonista de A IDADE DO OURO está para a raiva assim como o louco de O ALUCINADO (1952) está para o ciúme. Mas como estamos falando de Luis Buñuel, sabe-se que a raiva ou o ciúme não são exatamente os temas principais de seu trabalho, embora no caso desse filme em especial, ela seja de fundamental importância.

O ano era 1930, um momento de transição do cinema mudo para o falado, razão pela qual o filme ainda possua alguns vícios do cinema mudo, inclusive, com direito a freqüentes intertítulos explicativos. Antes da fase mais "comercial", ainda que não menos brilhante das produções mexicanas, Luís Buñuel já havia mostrado o tipo de cinema que ele realmente gostaria de fazer em A IDADE DO OURO, que antecipa as "brincadeiras" que ele faria com mais tranqüilidade e liberdade em sua fase tardia, em obras mais abertas, no sentido de não se preocuparem tanto com um enredo, como A VIA LÁCTEA (1969) e O FANTASMA DA LIBERDADE (1974). Em A IDADE DO OURO, Buñuel exercitou essas liberdades num filme ousado, que não se furta em atacar a Igreja e a sociedade burguesa.

O prólogo do filme já é bastante intrigante, emulando um documentário sobre escorpiões, sua natureza pouco sociável e a preferência por lugares escuros. Logo depois, corte para a cena do protagonista vendo uma espécie de procissão liderada por grandes autoridades da Igreja, atravessando um lugar deserto. A impressão inicial, já sabendo a habitual mania de Buñuel de dar as suas alfinetadas na Igreja é de que haveria uma relação dos escorpiões com a Igreja, mas vendo o filme depois vemos que a comparação com os escorpiões é feita ao próprio protagonista, o cara que chuta cachorros e atira em criancinhas, acima mencionado.

Apesar de o filme funcionar mais como um veículo para as idéias malucas do cineasta espanhol, que de vez em quando tenta acordar a platéia com cenas como uma vaca deitada numa cama ou uma mulher chupando com volúpia o dedo de uma estátua, o filme possui um enredo, quase uma história de amor, ligando esse homem irascível a uma mulher da alta sociedade. Mas o caminho que leva os dois a se unirem é um pouco longo, muito por culpa do pavio curto do tal homem, que além de exercitar a sua raiva costumeiramente, também demonstra fortemente a sua libido. Há uma cena em que ele está sendo levado por dois policiais e passa por eles um cartaz com o desenho das pernas desnudas de uma moça, que ele faz questão de olhar o máximo de tempo possível. Essa obsessão de Buñuel pelas pernas femininas se tornaria famosa nas produções seguintes.

A IDADE DO OURO pode ser classificado como uma comédia, como, aliás, todos os outros filmes de Buñuel. Basta o espectador ter um pouco de senso de humor apurado para o tipo de humor que ele pratica. Em alguns momentos, esse humor chega a ser quase pastelão, como na cena do encontro entre os dois amantes, cada um colocando uma mão na boca do outro. A certa altura, os dedos da mão do homem já haviam sido comidos, para logo depois reaparecem. Parece um recurso de desenho animado, onde as coisas podem ser revertidas e as imagens na tela são anedóticas. Na cena, por exemplo, em que o protagonista joga fora de uma janela o Papa (ou um cardeal ou bispo, não saberia distinguir), trata-se de outro momento que faz lembrar alguns desenhos animados, que aliás são devedores das comédias mudas dos anos 1920.

No entanto, como se trata de Luis Buñuel, as piadas não são em vão e têm uma razão de ser. Alguns momentos são mais enigmáticos do que realmente engraçados, embora uma coisa não exclua a outra. Caso da seqüência da câmera virada de cabeça para baixo mostrando um homem morto deitado no chão. Ou da própria seqüência final, que faz rir até de Jesus. As heresias de Buñuel e sua relação com a Igreja se tornariam célebres com o tempo, mas parecia haver uma relação de amor e ódio com a instituição. Ao mesmo tempo em que ele era ateu (graças a Deus), ele tinha certo fascínio pela Igreja, seus dogmas, seus santos e sacrifícios. Mas o que fica mais presente em A IDADE DO OURO é a vontade de transgredir, de chocar, de pregar o seu anarquismo e o desprezo pela burguesia. O subversivo e o político andam lado a lado com o onírico. Por essas e outras é que Buñuel, ao mesmo tempo em que nos convida a viajar para um mundo de sonhos, faz também um convite à reflexão ao mundo em que vivemos. Um pé no sonho, outro na realidade.

Texto redigido por ocasião da oficina de Crítica de Cinema e ainda aguardando as observações do orientador, embora já tenha feito algumas correções.

sábado, julho 26, 2008

CINCO CURTAS



A semana foi marcante principalmente pelos cinco dias do curso de Crítica de Cinema, ministrado pelo Ruy Gardnier. No curso - ou oficina - pude conferir dois desses cinco curtas: o absolutamente genial UMA SEMANA (1920), de Buster Keaton, e o nacional MAN.ROAD.RIVER (2004). Mas antes mesmo de ver esses dois filmes, já havia tido a idéia de baixar alguns curtas para justificar o fato de escrever algumas linhas sobre o primeiro trabalho de Jaume Balagueró, o curta ALICIA (1994). Aí fui aproveitando pra pegar mais uns dois curtas para ver, dando preferência, claro, para trabalhos de diretores de quem eu gosto. Além do mais, a vantagem do curta é que, se ele for ruim, passa rápido. :)

UMA SEMANA (One Week)

Sem dúvida, uma obra-prima. Conheço pouco do trabalho de Buster Keaton, mas do pouco que vi - A GENERAL (1926) e COPS (1922) -, eu pude ter certeza do quão genial esse sujeito era. UMA SEMANA é mais uma prova disso. O filme tem uma ritmo e outras características que remetem aos desenhos animados que ainda se popularizariam nas décadas seguintes, isto é, ele antecipou tudo. Claro que não foi só ele, já que havia também na época Chaplin, Harold Lloyd e outros menos conhecidos que realizavam esse tipo de humor mais físico, mas acredito que foi ele quem levou as brincadeiras às últimas conseqüências, através de situações completamente absurdas e de uma produção tão bem cuidada que até hoje deixa muita gente admirada - eu, inclusive. Em UMA SEMANA, Keaton é o noivo que está em lua de mel com sua jovem mulher e ganha de presente uma caixa contendo uma casa de madeira que pode ser construída bastando seguir as instruções. Acontece que um sujeito que não quer ver a felicidade do casal faz sabotagem, trocando a ordem das caixas. Resultado: a casa, à medida que vai sendo construída, vai adquirindo um jeitão bem estranho. O filme atinge status de puro maravilhamento na cena da tempestade. Uma co-direção foi atribuída a Edward F. Kline.

MAN.ROAD.RIVER

O filme é um trabalho de dez minutos que utiliza câmera de vídeo e o recurso do zoom para fazer uma reflexão sobre a diferença entre visualizar as coisas a partir de um quadro menor e o esclarecimento que se tem quando se vê a expansão do quadro, a partir do lento uso do zoom-out. O filme mostra, aparentemente em tempo real, uma travessia de uma pessoa por uma rua alagada, que se transformou num rio. Não chega a ser tão chato quanto ver grama crescer, mas a idéia é interessante. Além do mais, trabalhos experimentais assim não tem mesmo a obrigação de entreter. Direção de Marcellvs L. Foi exibido nos festivais internacionais de curtas de São Paulo e Rio de Janeiro.

O DIA DA ESTRÉIA DE CLOSE UP (Il Giorno della Prima di Close Up)

O próprio Nanni Moretti (foto) interpreta o dono de uma rede de cinemas que está particularmente preocupado com a estréia de CLOSE UP, o então novo filme de Abbas Kiarostami. O filme começa com Moretti fazendo a contabilização dos números que os blockbusters americanos obtêm nos cinemas. O REI LEÃO, por exemplo, é o campeão das bilheterias na época. Para a estréia de CLOSE UP ele quer que o maior número de pessoas vá ver o filme e fica preocupado quando vê que a telefonista diz que o filme que está passando é iraniano, enquanto que ele acha que dizer apenas isso pode afastar a clientela, que ela precisa dar melhores atrativos para o espectador. Nota-se também que os italianos têm o hábito de ver filmes dublados e ele quer fazer um trabalho de reeducação para que as pessoas vejam os filmes em sua língua original e não com aquelas mesmas vozes que aparecem em todos os filmes e na televisão. Mas parece que é uma batalha em vão e o filme é visto apenas por uns poucos gatos pingados. O DIA DA ESTRÉIA DE CLOSE UP (1994) é uma delícia de curta. Além do mais, as preocupações de Moretti são facilmente compreendidas pelos cinéfilos. Ainda por cima aumentou a minha vontade de ver O CROCODILO (2006).

ALICIA

Jaume Balagueró ainda estava engatinhando na direção de filmes e estreou com esse filme de seis minutos em preto e branco e com imagens impactantes e oníricas de uma jovem, a Alicia do título, que enquanto brinca de se masturbar percebe que sua vagina está sangrando. Ela é capturada por seres estranhos que usam máscaras usadas geralmente em caso de contaminação radioativa ou biológica ou algo do tipo e é levada para uma criatura ainda mais estranha para satisfazer as suas taras. Não vou dizer o que eles fazem com Alicia pra não estragar a surpresa mas digamos que Balagueró se utiliza do grotesco para falar ao mesmo tempo de vampirismo e de maternidade. Sabe Deus quais foram as suas intenções com esse primeiro trabalho. O clima apocalíptico seria continuado e aperfeiçoado em seu curta-metragem posterior: DÍAS SIN LUZ (1995), já comentado aqui no blog.

COUP DE VICE

Curta que Chabrol dirigiu para o projeto LES REDOUTABLES (2001). Trata-se de uma mini-série para a tv trazendo episódios dirigidos por vários cineastas. O veterano Chabrol é de longe o mais conhecido de todos do projeto. Ainda assim, apesar do final-surpresa dessa estória de serial-killers, o curta está longe da elegância característica dos longas do diretor. Talvez porque ele não se adequasse bem ao projeto ou por a trama ser simplista demais. O filme mostra um homem de meia-idade cujo carro aparentemente pára de funcionar no meio da estrada. Pra completar, começa uma forte chuva. Uma mulher, numa caminhonete, o socorre. No rádio, ouvimos a notícia de que há um assassino à solta, cujo modus-operandi é usar uma chave de fenda na jugular de sua vítima. Não dá pra dizer mais, pois o curta é... curto. :) Assim como geralmente são também os comentários sobre curtas. Acho que o único curta que eu dediquei um comentário integral aqui no blog foi para o belo VINCENT, do Tim Burton, e nem sei como encontrei tanto o que falar a respeito.

sexta-feira, julho 25, 2008

SONHO DE AMOR (Song without End)



Esse negócio de levar a sério demais a peregrinação da obra de algum diretor leva a alguns filmes no mínimo estranhos. SONHO DE AMOR (1960) nem é um filme oficialmente creditado a George Cukor. O que aconteceu foi que o diretor Charles Vidor morreu no meio das filmagens e Cukor foi convidado a finalizá-lo. Nem dá pra saber quais foram as cenas filmadas por Cukor, mas talvez tenham sido poucas, não sei. E por mais que seja um filme que focalize a sua atenção no mundo dos espetáculos, não é uma trabalho que tenha a cara de Cukor, o que não é de se admirar, já que ele apenas deu uma forcinha. Nos créditos iniciais, seu nome aparece nos agradecimentos. O filme é bem careta e meio chato, embora a figura de Franz Liszt seja bem interessante para uma cinebiografia. Há até um filme bem mais ousado sobre o virtuoso pianista, dirigido por Ken Russell, com Roger Daltry, do The Who, no papel principal e com direito a algumas cenas bem apimentadas e uma participação de Ringo Starr como o Papa! Chama-se LISZTOMANIA (1975) e tem bem o espírito de sua época.

Neste SONHO DE AMOR, a vida mais louca e pregressa de Liszt (Dirk Bogarde), é deixada prá trás e o filme foca a atenção no momento em que ele já está em casa, casado e com dois filhos, e prestes a abandonar a carreira, até ser convidado para tocar para a Princesa de Witgenstein (Capucine), por quem acaba se apaixonando, a ponto de fazer o que ela quer, tocar onde ela deseja e trocar a sua família e seus filhos pelo amor de uma mulher casada e pertencente à nobreza russa. Ele, na época, era considerado o mais virtuoso dos pianistas. Em seus espetáculos, tocava não apenas composições próprias, mas principalmente obras de autores consagrados como Beethoven, Chopin, Wagner entre outros mestres da música clássica e romântica. O interessante de ver esses filmes com essas obras desses autores renomados é notar o quanto algumas dessas músicas são já conhecidas de nossos ouvidos, mas que devido à nossa ignorância (deveria dizer à minha ignorância) acabamos não identificando o autor à obra. Pra minha surpresa, eu vi que já conhecia pelo menos duas obras de Listz. Acho que no campo da música erudita, eu fiquei nas Quatro Estações de Vivaldi e me desinteressei por Mozart no início dos anos 90. Mas do pouco que ouvi, tenho impressão que prefiro os românticos, como Beethoven e o próprio Liszt, e os barrocos, como Vivaldi e Bach, aos compositores mais cerebrais do Classicismo, como Mozart. Se bem que, pesquisando, eu vi que tanto Beethoven quanto Mozart tiveram momentos tanto clássicos quanto românticos, assim como Bach teve momentos barrocos e clássicos.

Quanto ao filme, por mais que dê pra se contentar com algumas apresentações do personagem principal, que toca belíssimas músicas desses compositores geniais (acharia ótimo se em cada música tocada, aparecesse na tela o nome do autor e da obra embaixo), o que o filme mais se interessa é em mostrar a forte paixão que Liszt nutre pela princesa, mais até do que pela própria música, o que só acontece com grandes artistas quando o amor é forte mesmo. Até aí tudo bem, mas eu não me conformo com certas decisões da princesa no final, por mais que eu possa aceitar como sendo parte de uma cultura da época, mas uma mulher que abdicou do próprio título de princesa para ficar com um homem indesejado pelos czars, bem que poderia se desvincular de sua tão sagrada igreja e ir se casar, digamos, na Inglaterra, numa Igreja anglicana, ou viverem juntos independente do que a sociedade vá pensar a respeito. Mas o problema maior está na fé e na certeza que ela tem de que Deus não permite que os dois fiquem juntos. Até aí, novamente, tudo bem, acabaria dando ao filme um certo ar trágico, principalmente levando em consideração a cena final, mas o filme mais se parece uma grande telenovela. Ia dizer novela mexicana, mas além de ser um termo já muito usado, acho que os mexicanos já devem estar cansados de serem comparados ao pior do melodramático que existe no mundo. :)

A cópia da ClassicLine está com as cores esmaecidas e não respeita a janela correta do filme, em scope. Mas como o filme não é grande coisa mesmo, não senti muito a falta da tela larga.

quarta-feira, julho 23, 2008

JOGO DE CENA



O dia em que o Sol entra em Leão, signo da encenação por excelência, parece propício para falar de JOGO DE CENA (2007), o documentário mais desconcertante de Eduardo Coutinho. Aliás, nem sei se dá pra chamar o filme de documentário, já que as entrevistadas também contam/recontam histórias fictícias ou histórias verdadeiras contadas por outras mulheres. O jogo começa com a imagem de um anúncio de jornal: Eduardo Coutinho convocando mulheres dispostas a contar experiências importantes de suas vidas em frente à câmera. 83 mulheres compareceram e desse total, cerca de um quarto ou menos dessas mulheres foram selecionadas para aparecerem no longa. Já faz algum tempo que todo novo trabalho de Coutinho é um acontecimento. Tive o prazer de ver cinco de seus filmes no cinema desde sua retomada com força total em SANTO FORTE (1999). O diretor tem o poder de arrancar de seus entrevistados depoimentos comoventes e/ou marcantes. O fato de o novo filme deixar o espectador na dúvida entre o que é um depoimento verdadeiro e o que é dramatizado fez com que eu criasse uma espécie de bloqueio em aceitar me emocionar de fato. Tanto que acabei me emocionando de verdade apenas umas duas vezes e uma delas foi pura encenação - e todo mundo sabia que era encenação - que foi a dramatização da Andréa Beltrão.

Muito curioso o bloqueio de Fernanda Torres, ao não conseguir tomar para si as palavras e os sentimentos de uma das entrevistadas. Ela ficou totalmente sem chão, sem saber o que falar, mas Coutinho resolveu colocar isso no filme assim mesmo, apesar da expressão boba do rosto de Fernanda diante da câmera nesse momento. Já Marília Pêra resolveu contar um dos truques de emocionar o espectador, que é o de deixar os olhos marejados e tentar esconder ou conter o choro, em vez de deixar as lágrimas rolarem. Segundo ela, isso torna a interpretação mais realista, mas sinceramente prefiro as lágrimas correndo no rosto na interpretação de Andréa Beltrão, que depois contou que chorou de verdade pois se colocou na posição da entrevistada e acabou se emocionando por ter algo em comum com a sua própria história de vida. Os depoimentos são no geral ligados a problemas e situações relativas à família ou a relacionamentos. Acredito que a presença das três atrizes famosas acabou por eclipsar um pouco as jovens e senhoras anônimas que se prontificaram a contar suas vidas diante da câmera. Uma delas, inclusive, é atriz e mais uma vez o espectador fica sem saber se ela encenou ou fez o seu depoimento com sinceridade.

O fato é que diante de uma câmera, as pessoas têm a tendência a enfeitar, inventar detalhes ou até a mentir. Por isso que eu ainda acho que o filme de Coutinho que mais me pareceu sincero e tocante foi O FIM E O PRINCÍPIO (2005), pois partiu de depoimentos de pessoas muito simples e idosas. Claro que isso não as isenta de mentir ou enfeitar os fatos diante da câmera, mas me pareceu menos provável. Desse modo, JOGO DE CENA foge um pouco do tradicional filme de conversa e pode representar uma ruptura ou um novo caminho para sua obra, como pode representar apenas uma obra diferente do que ele costuma fazer. E como ele é o grande cineasta do acaso do cinema brasileiro, sendo o acidental um dos principais traços característicos de sua obra, nada se pode prever do que virá num próximo trabalho. Ele é um homem que vai seguindo sua intuição com um fiapo de idéia que tem e que tem a sorte de fazer de anônimos estrelas de seus filmes. Inclusive, nesse novo filme, tem uma cena que lembra muito a clássica cena de EDIFÍCIO MASTER (2002), onde um senhor canta, junto com o disco de Frank Sinatra, "My Way", completa, sem nenhuma interrupção. Entre as declarações mais emocionadas destacam-se a da jovem que foi até o fim na promessa de nunca mais falar com o pai e que se ressente disso depois de ele ter morrido, ou da mulher que engravidou no meio da rua, um dos momentos mais engraçados do filme. São pequenas amostras do quanto a mulher e o seu turbilhão de emoções e de mistérios continua sendo o entrevistado ideal para a captura de sentimentos para uma câmera.

terça-feira, julho 22, 2008

ESPELHO MÁGICO



Mais do que nunca, tanto pela quase milagrosa idade de vida e atividade incansável de Manoel de Oliveira, quanto pela qualidade e mistério de seus trabalhos, o cineasta português vem sendo respeitado e louvado mundo afora. ESPELHO MÁGICO (2005), um dos filmes mais recentes desse cineasta prolixo, mostra novamente um respeito pelo passado e pelas tradições, visto com vigor em UM FILME FALADO (2003), mas dessa vez a religiosidade é o foco da discussão. O que mais me incomodou no filme, apesar de ter gostado de seu andamento todo próprio, da câmera geralmente parada, da não utilização do campo-contracampo nas cenas, o que mais me incomodou foi a insistência da protagonista, vivida por Leonor Silveira, em sua obsessão por querer ver a Virgem Maria, ou para usar as palavras dela, Nossa Senhora.

Leonor Silveira interpreta Alfreda, uma mulher rica e que passa os dias no ócio, mas sofrendo de uma crescente depressão. O fato de não poder ter filhos é um atenuante. Numa das convesas com seus amigos padres, um deles, interpretado por Michel Piccoli - o único personagem que fala inglês no filme -, vem com a teoria de que Nossa Senhora era rica. Alfreda, imediatamente, fica espantada e ao mesmo tempo feliz com a idéia. Sendo ela também rica, chega-se a um elo de identificação com uma personagem histórica que a própria Era de Peixes tratou de mostrar como de extrema humildade. E ela se pergunta porque motivo a Santa não aparece para ela, já que ela teria tantas perguntas importantes a fazer. Por que ela apareceu para um grupo de pastorzinhos que nada têm de interessante a perguntar e não aparece para uma pessoa mais culta?

Mas Alfreda não é a única protagonista desse filme. Para contrabalançar a fé de Alfreda, há Ricardo Trêpa, no papel de Luciano, um ex-presidiário que passa a ser motorista particular da madame. Ele, ao contrário de Alfreda, é pobre e descrente, achando as idéias de sua patroa fruto de uma mente doentia e que devem ser deixadas de lado, antes que ela enlouqueça. Por acaso, ele acaba encontrando um ex-detendo, conhecido na prisão como o "falsário", e que agora trabalha como afinador de instrumentos musicais para o esposo de Alfreda. Mas sendo ele um falsário, estaria ele fazendo um trabalho correto? É o falsário (Luís Miguel Cintra) quem dá a idéia de simular uma aparição de Maria, se é o que tanto ela quer. Só que eles têm dificuldade de encontrar um meio de tudo parecer real.

A obsessão de Alfreda pela visão de Nossa Senhora, se no começo pode ser algo interessante, vai se tornando chato e repetitivo à medida que o filme se desenvolve, apesar do interessante uso de elipses temporais. Talvez o fato de eu não ser católico contribua um pouco para esse pouco respeito que tenho com as questões levantadas. Talvez seja tudo uma questão de fé e o filme provavelmente deva causar comoção em católicos fervorosos talvez tanto quanto A PALAVRA, de Carl T. Dreyer, causou em mim, que vim de raízes protestantes. Se bem que eu acho a comparação entre os dois filmes abismal, no sentido qualitativo mesmo. Claro que há uma turma que idolatra não Maria, mas Manoel de Oliveira, e tudo o que ele faz, isentando a sua obra de qualquer crítica negativa. Porém, o caráter de mistério do filme faz com que eu o respeite e tenha consciência tanto de minhas limitações no conhecimento da obra e das intenções do cineasta, quanto de sua vasta cultura, freqüentemente explicitada nos diálogos e discussões de seus personagens. Porém, ainda acho que, dessa vez, ao contrário do rico e belo UM FILME FALADO, Manoel de Oliveira andou em círculos. E Lima Duarte, que já havia interpretado o papel de Padre Antonio Vieira em PALAVRA E UTOPIA (2000), do cineasta português, aparece novamente de batina em pequeno papel.

P.S.: Estou fazendo o curso "Crítica de Cinema", ministrado pelo Ruy Gardnier, editor da Contracampo. Ontem foi o primeiro dia e por enquanto tem sido muito interessante.

segunda-feira, julho 21, 2008

REBUILD OF EVANGELION 1.0 - YOU ARE (NOT) ALONE (Neon Genesis Evangelion: Rebuild of Evangelion 01 / Evangelion: 1.0 You Are (Not) Alone / Evangelion Shin Gekijōban: Jo/ Wevangelion)



Achava que meu retorno ao mundo dos animes seria com PAPRIKA, de Satoshi Kon, mas assim que eu fiquei sabendo de que havia esse projeto de reinvenção da série NEON GENESIS EVANGELION (1995), bem como de seu final alternativo, o longa THE END OF EVANGELION (1997), fiquei logo entusiasmado. REBUILD OF EVANGELION, a reinvenção dessa fascinante e empolgante série se dará em quatro filmes para cinema. O primeiro estreou no Japão em setembro do ano passado e foi chegando aos poucos nos países do Oriente e nos Estados Unidos. Esperar que esse filme chegue nos cinemas do Brasil é uma bobagem, já que nem a série, que foi tão badalada, sequer estreou em dvds oficiais. Portanto, nada como a internet para suprir essa carência.

Lembro que meu primeiro contato com o mundo de Evangelion foi através do mangá, lançado pela Conrad, e atualmente aparentemente estacionado no Japão. O mangá já era uma maneira de contar a estória do anime de maneira diferente, até pra não ficar chato para o leitor. Foi o primeiro mangá que eu li. Quando o colega do curso de inglês me emprestou os dois primeiros volumes, saí com eles na mão até um pouco envergonhado, com aquelas capas com traços infantis. Mas depois que me emocionei, já no segundo volume, eu tinha até orgulho de sair exibindo o mangá por aí. E esse meu colega tinha toda a série em vhs. Aí ele me emprestou e eu fui vendo cada episódio, cada vez mais empolgado. E também surpreso, já que nunca me liguei muito nesses seriados japoneses que tinham um robozão gigante pilotado por uma pessoa dentro. Quer dizer, até que eu assistia JASPION quando criança, mas com o tempo achava aquilo meio bobo.

Mas EVANGELION é outra história. É mais sofisticado. Os robôs não são robôs de verdade, são criaturas manipuláveis, perigosas e misteriosas, um misto de algo robótico com orgânico. E mistério é uma palavra chave para a série. E esse mistério faz parte do charme da série. Os personagens também são bem cativantes, principalmente os adolescentes: o tímido Shinji, a depressiva e estranha Rei, a sapeca Asuka e boa parte dos adultos. Quanto às batalhas envolvendos os Evas (é assim que são chamados os "robôs gigantes") e os anjos (ameaças extra-terrestres que chegam para destruir o planeta), elas são incrivelmente empolgantes. E elas têm algo de STAR TREK, já que também existe uma equipe de comando e apoio, falando palavras "técnicas" para dar aquele ar de seriedade e ficção científica, de uma maneira tensa que torna a coisa verossimil, se você entrar no espírito da coisa.

Apesar de ter adorado esse primeiro filme, ao final cheguei à conclusão de que quatro filmes é pouco para dar conta dos 26 episódios da série e ainda recriar o final. THE END OF EVANGELION já era uma tentativa de recriar o final da série para algo mais direcionado à ação, já que o 26º episódio era um final excessivamente psicológico e chegou a ser frustrante para alguns fãs. E o próprio mangá, se um dia chegar ao fim, também deverá apresentar um final diferente. Logo, se a intenção é reinventar, vamos ver no que vai dar. Em REBUILD OF EVANGELION 1.0, principalmente na primeira metade do filme, tudo parece igual ao original, só que de maneira condensada. Logo no início, Shinji é socorrido por Misato de um ataque de um anjo e é levado à NERV, a instituição responsável pela recriação de uma nova Tóquio e pela defesa do planeta contra os anjos. Que, curiosamente, recebem esse nome, mas são bem diferentes dos anjos descritos na Bíblia, nos quadros ou no imaginário popular. Na verdade, eles são das mais variadas formas, seja de um gigante, seja de uma grande pirâmide. Mas essas referências ao Cristianismo estão em toda a série, mas de maneira um tanto quanto estranha: o próprio nome da série já carrega em si muito disso; os robôs são chamados de Eva; e há, lá pelo final (da série) uma lança, que recebe o nome da lança que perfurou Jesus no Calvário.

Na trama, Shinji é um garoto problemático que foi abandonado pelo pai quando ainda era muito pequeno. E ele carrega essa mágoa de ter sido abandonado pelo pai dentro de si. E o seu pai é o responsável pela NERV. É ele quem o chama para pilotar o segundo protótipo do Eva, o Eva 01, já que o Eva 00 foi praticamente destruído por um ataque de um anjo. A adolescente que o pilotava, a introspectiva e depressiva adolescente Rei Ayanami, estava ferida, no hospital da NERV. Assim, Shinji, mesmo sendo recebido de maneira grosseira e indiferente pelo pai, tem em suas mãos a missão de pilotar esse Eva e já de cara enfrentar um monstrão gigante. Ele fica apavorado, mas recebe o apoio de sua chefe imediata, Misato, para controlar o pânico.

Talvez esse filme seja um bom cartão de visitas para quem nunca viu nada da série. Ou talvez não: seja apenas uma forma de saciar a sede dos fãs, que envelheceram um pouco nesses dez anos que se passaram entre o fim da série e essa nova "reconstrução". O filme, se comparado tecnicamente com a série, teve avanços enormes, com uma utilização maior de animação em CG misturada com a animação tradicional, que é a tendência atual da animação japonesa, além do uso de ângulos de câmera diferentes e estilosos. Em comparação com a série, entretanto, acredito que os quatro filmes não terão tempo suficiente para formatarem a personalidade dos personagens, que também é um dos grandes trunfos de qualquer série comparada a um filme para cinema. Afinal, se você não liga pro que vai acontecer com o personagem, que graça tem vê-lo lutando? e os filmes aparentemente deve focar mais na ação. Mas esperemos o segundo filme, que deve contar com a chegada da terceira e da quarta crianças responsáveis por pilotar outros Evas.

domingo, julho 20, 2008

ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER























" - Gênio! Puta que pariu, esse cara é um gênio!"
(Glauber Rocha, aos berros, durante uma sessão de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA num cinema do Rio de Janeiro.)


Depois do enorme sucesso de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964), José Mojica Marins conseguiu com bem mais facilidade financiamento para seu novo filme, a continuação ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967). E isso é de imediato sentido na produção, bem mais caprichada. No entanto, eu diria que um dos problemas do filme e que o deixa um pouco abaixo de À MEIA-NOITE ... é a sua duração. Como havia mais dinheiro envolvido, resolveram fazer um filme mais longo, sendo que um dos méritos do anterior era o de ser compacto. O segundo filme da trilogia do Zé do Caixão sofre um pouco pelo excesso, especialmente no final, quando o personagem fica se repetindo, afirmando que não existe Deus, nem o diabo, nem espíritos, como no filme anterior. E o modo como ele "morre" (ele é como o Jason, morre, mas sempre dão um jeito de trazê-lo de volta) não foi dos mais inteligentes, embora seja bastante coerente com o que seria apresentado numa história em quadrinhos despretensiosa de terror. Agora, com relação às suas palavras finais, onde ele aparece dizendo que passaria a acreditar em Deus, soube que aquilo ali foi imposição da censura na época. Mojica falou que no final original, ele dizia que continuava sem acreditar em Deus e a Censura o obrigou a fazer essa modificação, que acabou deixando o filme com um final grotesco.

Desse modo, não me filio ao grupo dos que consideram ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER melhor que o anterior ou o melhor filme de Mojica. Acho o primeiro melhor. Mas claro que esse segundo trabalho é muito especial. O foco narrativo nunca é perdido e o filme tem uma fluidez impressionante. Achei que ia ver apenas metade do filme e veria o restante no dia seguinte, mas quando comecei a ver não consegui mais parar até chegar ao seu final, já de madrugada. Essa é uma característica - a fluidez e a leveza narrativa - mais comum de se ver no cinema americano. E com esse ESTA NOITE..., Mojica inicia uma nova abordagem, fazendo um filme com mais elementos de terror do que o anterior, inclusive com direito a uma seqüência do Zé do Caixão sendo levado por uma criatura toda preta para um inferno colorido e perturbador. Essa é a única seqüência filmada em cores do filme. E outra coisa que eu fiquei sabendo, ouvindo os comentários em áudio do diretor no dvd, foi que nessa seqüência, ele estava completamente bêbado. Isso por causa da morte de uma pessoa da equipe. Ele conta que o sujeito falou pra ele, algo assim: "Mojica, estamos chegando ao final das filmagens e estranhamente até agora não morreu ninguém. Será que não vai morrer ninguém?" (Não lembrava que no filme anterior havia morrido gente). Aí o Mojica diz: "Vai morrer sim, é você quem vai morrer.", com um misto de brincadeira e irritação. E o pior é que o cara morreu mesmo!! Hoje ele conta que foi uma infeliz coincidência mas que ele sofreu muito com isso. Porém, depois de saber dessa história, passo a pensar duas vezes antes de fazer brincadeira com as pragas do Zé do Caixão. Na verdade, eu acredito que o sujeito ficou tão impressionado com o que o Mojica falou que ele mesmo provocou a própria morte, já que foi encontrado álcool no sangue dele, na necrópsia. E parece que ele estava tomando um medicamento na época que o impossibilitava de beber álcool. Outra coisa curiosa, ainda com relação a essa seqüência do inferno - que se feita hoje, com certeza seria muito mais sangrenta -, é que ela foi toda filmada durante a Semana Santa. Porém, o resultado do inferno de Mojica foi um sucesso e com o seu jeitão lisérgico, Mojica entrou em sintonia com o próprio espírito do ano de 1967, o mais psicodélico do século.

Há outras histórias curiosas sobre o filme e a mais divertida delas talvez seja a difícil tarefa de fazer a seqüência das aranhas. Mas antes, falemos um pouco do enredo do filme. A estória começa exatamente onde termina À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, quando Zé é atacado pelos espíritos vingativos. Quando o filme terminou, imaginou-se que ele havia morrido, mas ele não só não morreu, como ainda voltou do hospital equipado com uma câmara de torturas e um ajudante corcunda, bem típico dos filmes de terror da Universal, por exemplo. E a sua missão continua: encontrar a mulher perfeita. Na sua visão distorcida, a mulher perfeita teria que enfrentar o medo corajosamente. E ele seqüestra uma meia dúzia de mulheres da vila. É aí que entram as aranhas que eu ia começar a falar no começo do parágrafo. Elas passam por debaixo da porta e cobrem o corpo das meninas enquanto elas estão dormindo, de baby-doll - de preferência com as coxas de fora. É uma cena relativamente longa e não deixa de ser impressionante o fato daquelas mulheres terem suportado aquela tortura naquela seqüência. Mojica contou que teve que demitir um grupo de mulheres no começo das filmagens que abandonaram o filme por causa dessa cena e por isso ele acabou pertendo um bocado de fita. O curioso é o modo como ele conseguiu com que as aranhas andassem: com um ventilador. Elas foram empurradas pelo vento. No livro MALDITO, essa história é contada com mais detalhes. Se eu falar mais, o texto vai ficar enorme. Mojica, no áudio, não conta do trabalho que foi carregar essas centenas de aranhas caranguejeiras. Com o balançado do carro, elas começaram a sair das caixas e os assistentes do diretor ficaram com medo. O motorista chegou até a perder a direção do carro por causa delas. Bom, e ainda tem a história das cobras, das mais variadas espécies, também usadas nas coitadas das atrizes. Mas a história das aranhas é mais divertida. :)

Ainda no quesito diversão de bastidores, teve o caso da atriz que ia interpretar a mulher perfeita. Acontece que a menina era cheia de ataques de estrelismo. Além de ter sumido por quatro dias, atrasando as filmagens, ela fazia coisas que deixavam a equipe inteira louca de raiva. Desde dizer que ia se jogar de cima do prédio até a ficar procurando dificuldade para fazer cenas simples. Mas o principal problema para Mojica era encarar o mau hálito da menina. O mau hálito era tão forte que Mojica chamou outra pessoa para fazer a cena do beijo, filmada em super-close para disfarçar. Há outras histórias engraçadas envolvendo essa menina, mas eu deixo para incentivar os leitores do blog a comprarem o livro MALDITO, delícia de leitura e pura diversão. Mas no final do comentário em áudio, Mojica também conta o que aconteceu no final com essa menina, que era tão má atriz que na cena em que ela estava passando mal por causa de um aborto, Mojica teve que ficar apertando o dedo dos pés dela com alicate para que ela fizesse cara de que estava sentindo dor. Bom, não deixa de ser chato ver um diretor falando mal de uma atriz, mas por outro lado, a história é divertida. :)

Falemos dos extras. Entre os trailers, destaco o engraçadíssimo trailer de AS MULHERES DO SEXO VIOLENTO (1978), de Francisco Cavalcanti. Os outros são normais, mas esse tem uma carga de exploitation tão forte que começa a partir do título ridículo que o filme tem, mas que ao mesmo tempo traz duas palavras que atraem o espectador comum. Curiosamente, no livro MALDITO, tanto Mojica quanto Ozualdo Candeias aparecem como diretores não-creditados desse filme. Há ainda a continuação da enquete "Quem tem medo do Zé?" e novamente a excelente descrição do filme em questão por Cid Vale do site Carcasse. E dessa vez eu tive paciência de ouvir a estória que Mojica conta na rádio 89 FM, chamada "Onde Está Verônica?". E realmente o clima é assustador e ele sabe como criar um suspense, apesar de a gente já imaginar o final. Há também à disposição, o tema do programa Cine Trash, da banda Nightmare Team. É um heavy metal convencional. Quanto aos textos disponíveis, nada de novo em relação ao dvd anterior, a não ser um artigo que nem dá pra ler, com uma letrinha tão miúda. O texto se chama "Os Medos". O mesmo se pode dizer dos cartazes e quadrinhos. Aliás, é uma tarefa impossível ler aqueles quadrinhos na televisão. A não ser com o uso do zoom. Quem sabe no computador...E tem outros extras divertidos, mas vamos logos às entrevistas.

As entrevistas sempre são sempre por onde eu começo a ver os dvds. Dessa vez, os entrevistados são: Rogério Brandão, produtor e diretor de tv, produtor do Cine Trash, na Bandeirantes, apresentado pelo Zé do Caixão nos anos 90, quando ele teve a oportunidade de ser apresentado a um público novo, já que os filmes de terror passavam às 3 da tarde; Otávio Muller, ator, disse que tem inveja de não ter vivido nos anos 60,70, no auge do Zé do Caixão e de vários cineastas que estavam no auge, tanto do Cinema Novo como do Cinema Marginal; Paulo Sacramento, diretor, veio com o depoimento mais interessante do dvd, pois Sacramento apresenta antecipadamente o roteiro encadernado de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008), com direito a desenhos e idéias para o filme. O novo filme deve muito a Sacramento e a Dennison Ramalho para o ressurgimento para as novas gerações do Zé do Caixão e do tão sonhado e maldito último filme da trilogia do Zé. Há ainda: Mário Lima, ator e produtor, que participou praticamente de todos os filmes de Zé do Caixão, tendo inclusive dirigido uns filmes estrelados pelo Mojica e que encara o diretor como amigo e mestre na arte cênica; Rubens Francisco Lucchetti, escritor e quadrinistra, que já havia comentado nos extras de À MEIA-NOITE... Lucchetti fala de outros projetos menos conhecidos que ele fez em parceria com Mojica, como fotonovelas, por exemplo. Inclusive, seria uma boa que, agora que o Zé do Caixão está de volta, alguns desses trabalhos de Lucchetti com o Zé fossem relançados em acabamento de luxo. Acho que tem público interessado. No final, há o depoimento de Aldenoura de Sá Porto, escritora e roteirista do filme, que contribuiu principalmente com os diálogos.

Deixo por último minhas impressões sobre o principal extra do dvd: o documentário em curta-metragem O UNIVERSO DE MOJICA MARINS (1978), de Ivan Cardoso. Fiquei positivamente surpreso com o discurso de Mojica, que na época não tinha ainda pegado essa mania de falar a palavra "realmente" em toda frase. Pelo contrário, ele me pareceu tão lúcido e inteligente em suas argumentações que deixaria no chinelo muito intelectual da época. Ele mesmo, com humildade, se auto-denomina de analfabeto e acredita que a criação do Caixão é a sua missão nesse mundo, e que os seus filmes devem ajudar muita gente que se acha, no fundo, uma pessoa perturbada, e que vai ver o filme e tem uma espécie de libertação. Não deixa de ter alguma lógica isso que ele falou. O documentário começa de maneira bem interessante, mostrando a mãe de Mojica, que afirma: "meu filho não é o Zé do Caixão, meu filho não é perverso, meu filho é o José Mojica Marins". E como o próprio Ivan Cardoso já havia dito em seu depoimento constante dos extras do dvd de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, isso meio que desmistifica a figura do Zé do Caixão. No mais, achei genial a inclusão da canção "Quero que vá tudo para o inferno", de Roberto e Eramos Carlos, no curta.

sábado, julho 19, 2008

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight)



A seqüência de BATMAN BEGINS (2005) tinha tudo para ser uma das melhores, se não a melhor adaptação dos quadrinhos para a telona, se não fosse a pretensão de Christopher Nolan, que fez com que o filme se alongasse demais, estragando o que estava indo muito bem. Sem dúvida, BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008) é melhor que o filme anterior, que era didático demais, chato até, e talvez não resista a uma revisão. Assim, podemos dizer que o segundo filme do Homem-Morcego foi o mais bem acabado trabalho de Nolan, o que não quer dizer muito, já que seus trabalhos anteriores não são tão espetaculares como muita gente tenta me convencer. É um filme torto, mas que quase chega a um grau de excelência na sua proposta. A trama lembra, muitas vezes, as melhores estórias de Ed Brubaker e Greg Rucka para a série Gotham City contra o Crime, uma série em quadrinhos adulta da DC que priorizava os policiais de Gotham e mostrava o Batman apenas como coadjuvante nas tramas. Claro que no filme de Nolan isso não chega a acontecer, mas há sim um esforço maior ao mostrar os policiais não como apenas uns caras que não servem para muita coisa, mas como verdadeiros e eficientes agentes da lei. James Gordon (Gary Oldman) até salva o Batman (Christian Bale) numa determinada cena. Assim, BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS se aproxima muitas vezes muito mais de um barulhento e movimentado filme policial do que propriamente de uma convencional adaptação de HQs. E quando eu falo barulhento, vem à minha cabeça o som potente que sai das caixas de som do cinema sempre que ouvimos um tiro. Há um belo trabalho de som que vale destacar. Há uma seriedade em fazer um trabalho mais adulto, falando de temas como política, que pode não agradar muito à garotada, mas que deve agradar bastante o já bem crescido fã de histórias em quadrinhos. E há Heath Ledger como o melhor Coringa jamais encarnado, seja na televisão ou no cinema.

Heath Ledger dá ao vilão uma dimensão que não chega a ser tão trágica, mas que chega a causar uma espécie de perturbação e ao mesmo tempo passa simpatia ao espectador. O que ele faz, ele não faz por dinheiro, como chega a explicitar numa seqüência, mas faz pelo gosto que tem pela anarquia e pela morte. E porque ele é mesmo perturbado, claro. Assim como o Batman também é. E diferente do histrionismo do Coringa de Jack Nicholson e do Pingüim de Danny DeVito dos filmes de Tim Burton, Heath Ledger não transforma o seu Coringa num vilão irritante e caricatural. Ao contrário, há uma vontade de reinventar o personagem, a começar pela própria maquiagem, que a princípio eu, assim como quase todo mundo, estranhou, mais suja e desgrenhada. E no meio dos dois há Harvey Dent, o trágico personagem que se tornaria o vilão Duas Caras. O filme também ganha muito com a excelente performance de Aaron Eckhart, uma escolha perfeita para viver um homem que tem uma aparência confiável, mas que também manda muito bem quando se transforma num sujeito esquizofrênico, havendo, inclusive, um interessante triângulo amoroso entre ele, o Batman e sua ex, agora interpretada pela sempre ótima Maggie Gyllenhaal. E conta-se que a atriz não aceitou o papel logo de cara. Ela estabeleceu suas condições: queria uma personagem inteligente e não apenas a mocinha que o Batman salva dos vilões. E isso foi facilmente resolvido pelos produtores.

O problema do filme talvez esteja no excesso de clímaxes. Não se trata apenas de ter duas horas e meia de duração, mas o fato de as estripulias do Coringa custarem demais a chegar a uma conclusão. Na verdade, acredito que nem chegaram. Não sei se por causa da morte de Heath Ledger ou porque isso já estava nos planos dos roteiristas. O fato é que quando o filme ultrapassa as suas duas horas, ele começa a cansar e por mais que a meia hora final seja bem interessante, àquela altura eu já ficava me imaginando como um montador cruel, desses que não tem pena de cortar as cenas sem importância da trama. Mas talvez esse problema da duração nem seja relativo ao tempo em si, mas à própria maneira como o filme foi montado. Uma boa montagem faz um filme de quatro horas parecer ter duas. Ou então o problema seja do próprio Nolan, que não chega a apresentar um trabalho de direção que faça jus a todos os pontos positivos que enumerei aqui (som excelente, ótimo elenco - e olha que eu nem falei dos outros coadjuvantes de luxo -, cara de Gotham City contra o Crime e de filme policial e a utilização de uma cidade de verdade - Chicago - em vez de uma construída em estúdio). No fim das contas, quem domina o filme não é o Nolan, mas o Coringa, embora ele diga em certa ocasião para o já acidentado Harvey Dent que não é ele quem planeja as coisas, afinal, ele é um agente do caos. Ele apenas faz as coisas. Falando na crueldade do Coringa, o filme até poderia ser ainda mais ousado do que é, mas como as crianças também vão querer ver o Batman no cinema, talvez não seja mesmo de bom tom para elas ver cenas explícitas do Coringa rasgando a boca de suas vítimas. Ainda assim, tenho que dar o braço a torcer: mesmo com o problema dos excessos e da falta de uma montagem ou corte melhor, trata-se do melhor e mais sério filme do Batman já produzido. Não deixa de ser animador, tanto para o espectador quanto para a DC, que anda perdendo há um tempão a batalha para a Marvel, seja no cinema seja nos quadrinhos.

P.S.: E por falar em filmes longos de super-heróis, o trailer de WATCHMEN já está circulando pela internet. Talvez seja o mais ambicioso de todos os filmes de super-heróis já feito.

quinta-feira, julho 17, 2008

A SÉTIMA VÍTIMA (The Seventh Victim)























Não sabia da existência deste A SÉTIMA VÍTIMA (1943) e fiquei curioso quando alguém o citou numa conversa aqui mesmo no sistema de comentários do blog, numa ocasião em que se discutia a respeito do filme homônimo de Jaume Balagueró. A SÉTIMA VÍTIMA, de Mark Robson, trata-se de um film noir produzido por Val Lewton, cujos filmes mais conhecidos são aqueles dirigidos por Jacques Tourneur, como SANGUE DE PANTERA, A MORTA-VIVA e O HOMEM LEOPARDO. Se chamam esses filmes de horror psicológico, o que dizer então desse sensacional trabalho de sombras e de mistério dirigido por Robson? Pode-se afirmar sem sombra de dúvida que o diretor, assim com a protagonista do filme, Kim Hunter, começaram suas carreiras com o pé direito. Foi a estréia de ambos no cinema. Muitos elementos dos filmes produzidos por Lewton estão em A SÉTIMA VÍTIMA, como as cenas noturnas, com ruas geralmente desertas, personagens sendo perseguidas, closes nos sapatos das mulheres apavoradas, sombras que assustam e um mistério cercando a trama.

Com apenas 71 minutos de grande cinema, A SÉTIMA VÍTIMA me deixou impressionado e empolgado. A vantagem de filmes assim, com essa duração, é que eles têm poucas chances de cansarem o espectador. Mas essa não é a única qualidade do filme. Há uma cena, inclusive, que antecipa uma seqüência de PSICOSE, quando a protagonista está no banho e vê, através do plástico que cobre a área do chuveiro, a sombra de uma mulher. Quem sabe Hitchcock não se inspirou nessa cena para a sua clássica cena do chuveiro, hein?

A estória do filme gira em torno de uma jovem que estuda num orfanato-escola e sai à procura de sua irmã desaparecida. Ela fica sabendo que sua irmã mais velha, que sempre ligava para a escola para saber dela, não dá notícias há tempos e é encorajada a sair à sua procura num mundo hostil a que ela não está acostumada. O fato de ela ter vivido toda a sua vida num ambiente protegido e longe dos desafios e dos perigos do mundo exterior faz com que nos solidarezemos com a protagonista de imediato. Felizmente, apesar de o mundo ser mesmo cheio de perigos, ela tem a sorte de encontrar pessoas que procuram ajudá-la a desvendar o mistério do desaparecimento de sua irmã, que está implicada numa seita de adoradores do diabo.

O filme é cheio de momentos eletrizantes. Até pela curta duração, não há espaço para "tempos mortos". Há uma seqüência em especial que me chamou muito a atenção, que é aquela em que a protagonista entra com um detetive num lugar escuro e o homem sai de lá esfaqueado e ela sai correndo apavorada. Momentos depois, ela vê o homem morto no metrô, sendo carregado por dois homens estranhos, que agem como se estivessem levando um amigo bêbado. O fato de o metrô ser mostrado sempre vazio, assim como as ruas, já que os fatos mais importantes da trama acontecem à noite, dá um ar todo misterioso e excitante ao filme. E ao final - e que final!!! -, eu fiquei sem entender o título. No IMDB é que eu soube que o título é derivado de um primeiro script da produção, que mostrava uma heroina, também vinda de um orfanato, numa teia de mistério e assassinato. Se ela não encontrasse a identidade do assassino, ela se tornaria a sétima vítima. O produtor Val Lewton não gostou do roteiro e providenciou outro, bem diferente. No entanto, o número 7 permanece na memória do espectador logo que o filme acaba, já que é o número do apartamento da irmã desaparecida (Jean Brooks, protagonista de muitos filmes B nos anos 40).

quarta-feira, julho 16, 2008

TRAIÇÃO EM HONG KONG (Boarding Gate)























Revelado pra mim através de IRMA VEP (1996), numa fita enviada pelo amigo Renato, Olivier Assayas foi se convertendo aos poucos num dos meus cineastas favoritos da atualidade. Ainda que exista um buraco existente entre IRMA VEP e ESPIONAGEM NA REDE (2002) que preciso preencher - sem falar nos trabalhos anteriores do cineasta -, de 2002 pra cá, tenho acompanhado sempre que possível cada novo trabalho desse que eu considero o mais "globalizado" dos cineastas. Não porque seus filmes sejam bancados por diferentes países, como acontece com Roman Polanski, por exemplo, mas por ter uma atração aparente tanto pelos Estados Unidos e Canadá quanto pelos países do Oriente, mais especialmente China e Hong Kong. Foi de lá que que veio Maggie Cheung, com quem ele ficou casado durante três anos. CLEAN (2004) talvez tenha sido o filme que marcou a despedida da parceria de Assayas com Maggie. Mas isso não quer dizer que ele tenha deixado de se interessar pela terra do sol nascente, já que TRAIÇÃO EM HONG KONG (2007) conta com mais dois astros nascidos por aquelas bandas: o chinês Carl Ng e a linda taiwanesa Kelly Lin.

Mas quem dá força ao filme é a protagonista, vivida pela italiana Asia Argento, num dos papéis mais eletrizantes de sua carreira. Inclusive, o fato de o filme ser um thriller de ação e não um drama intimista acabou por fazer com que ele passasse direto para o mercado de dvd, já que as distribuidoras dos filmes ditos alternativos parecem ficar um pouco confusas quando um cineasta mais acostumado a ser visto como um diretor "de arte" aparece fazendo um filme desses. Talvez o problema seja do próprio público do circuito alternativo, que em geral não curte muito ver filmes de ação. O mesmo ocorreu com ESPIONAGEM NA REDE, que só passou na telona em festivais de cinema e foi lançado no Brasil apenas em dvd - mas pelo menos de maneira decente, na janela correta. Mas voltando a Asia Argento, ela não é a primeira pessoa a aparecer no filme. Quem primeiro dá as caras é o americano Michael Madsen e com aquela persona de gângster e mau caráter que ele ganhou graças ao Tarantino. Aqui, ele é um empresário inescrupuloso e que também trabalha com atividades ilegais, como tráfico de drogas. No começo do filme ele diz estar prestes a desistir do negócio de drogas e se tornar um comerciante legal, quando ressurge em sua vida, em seu escritório em Paris, uma mulher que marcou bastante o seu passado: Sandra, a personagem de Asia Argento.

Na longa conversa que os dois têm, vamos ficando aos poucos sabendo do que ocorreu no passado, coisa que daria para um outro filme igualmente interessante. O empresário, de nome Miles, usava Sandra para atrair mais clientes, além de usá-la também para saciar suas taras sadomasoquistas. Nesse sentido, TRAIÇÃO EM HONG KONG (sim, o título brasileiro é horrível) faz um link com o ainda mais barra-pesada ESPIONAGEM NA REDE. No novo filme, entretanto, Assayas - principalmente a partir de sua segunda metade, já que a primeira é regada a muito falatório -, investe mais na ação, a partir da reviravolta que acontece na vida da personagem de Asia. Na verdade, ambos os filmes citados possuem tramas bem complexas, mas que podem ser encaradas como mcguffins, para quem não quiser esquentar a cabeça e só curtir o corre-corre que o filme se transforma, principalmente no momento em que Asia Argento faz a conexão França-China, depois de ter cometido um assassinato. No mais, é Asia perfeita num filme de ação, interpretando uma personagem que tem tudo a ver com a imagem que ela criou para si.

Quem também está no filme como coadjuvante de luxo é Kim Gordon, vocalista, guitarrista e baixista da banda Sonic Youth. Talvez a banda mais querida de Assayas, já que ela está presente (na trilha) pelo menos desde IRMA VEP. Assayas chegou a dirigir um documentário - NOISE (2006) - que apresenta um festival de rock que fechou com as performances das bandas Metric e Sonic Youth. A Metric é aquela banda que balança as estruturas quando é mostrada numa das primeiras seqüências de CLEAN, tocando "Dead Disco". E falando em Metric, coincidentenmente, ontem na sessão de EM PARIS, ouvi novamente uma canção da banda: "Handshakes". Parece que os franceses adoram essa banda.

P.S.: Uma pena que as legendas que eu peguei da internet para o filme não traduziam os diálogos em cantonês. Acredito que esse é um problema que o dvd oficial, a ser lançado em breve pela Fox, não terá.

terça-feira, julho 15, 2008

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA - O FILME (Journey to the Center of the Earth)























Já está se falando em mais uma revolução no cinema. Depois do cinema falado, do advento das cores, do cinemascope e até do sexo explícito como formas de atrair o público para a telona, chega agora a vez da tecnologia em 3D. Um novo tipo de tecnologia, não aquela que ficou popular no passado, usada mais recentemente em PEQUENOS ESPIÕES 3D, com aqueles óculos que davam uma tremenda dor de cabeça. Dessa vez, o projetor é preciso estar equipado com essa nova tecnologia e os óculos são de cristal líquido. E é aí é que está o problema das salas brasileiras. Menos de dez salas em todo o Brasil dispõem desse tipo de projetor. Por isso, ver a aventura VIAGEM AO CENTRO DA TERRA (2008) no sistema convencional não chega a ser tão animador, apesar de o filme ser até bem simpático. O uso das cores e o clima de montanha-russa que o filme traz faz com que nós, que moramos em cidades que ainda não dispõem desse equipamento, apenas possamos imaginar como seria. Mas acredito que é questão de tempo para que esse tipo de tecnologia chegue em mais salas. Pelo menos eu quero ver o retorno de James Cameron, com o seu AVATAR, no ano que vem, já em 3D.

Essa tecnologia representa mais uma saída desesperada dos executivos de Hollywood para manter o cinema vivo, menos pelo amor à arte e mais pelos lucros, cada vez mais perdidos pela internet e pela pirataria. A televisão digital e os vídeos de alta definição, como o Blu-ray, se por um lado ajudam a combater a pirataria, por outro, podem ser uma boa desculpa para que o espectador prefira ficar em casa, com sua televisão em LCD, seu aparelho de Blu-ray e seu home theater. Mas eu acredito que o cinema sempre acaba encontrando meios de se manter vivo e como as coisas acontecem de maneira muito rápida, logo logo veremos as cenas do próximo capítulo dessa novela.

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA, ao contrário do que muita gente pensa, não se trata de uma adaptação da obra de Julio Verne, embora o livro funcione como uma espécie de mapa para que os aventureiros do filme possam vivenciar a experiência de um mundo existente no centro do nosso planeta. O filme é a estréia na direção de Eric Brevig, veterano responsável pelos efeitos especiais de filmes como O VINGADOR DO FUTURO, OLHOS DE SERPENTE, O DIA DEPOIS DE AMANHÃ e A ILHA. Nada mais natural que um especialista em efeitos dirija um filme onde eles sejam a base do trabalho. Porém, para aqueles que viram o filme em 2D (a maioria dos espectadores brasileiros), VIAGEM AO CENTRO DA TERRA é apenas mais uma aventura divertida e descartável. Não deixa de ser um filme bem animado e a escolha do trio que encabeça o elenco também foi bastante feliz. Por mais que eu não goste da série A MÚMIA, Brendan Fraser é um sujeito simpático, e Josh Hutcherson, em sua curta carreira marcou bastante no surpreendente PONTE PARA TERABÍTIA. Quanto à garota do filme, ela é uma islandesa de verdade e tem bastante carisma.

No filme, Fraser é um geólogo e professor que recebe a visita de seu sobrinho que chegou para passar uns dez dias em sua casa. O irmão do personagem de Fraser e pai do personagem de Hutcherson havia desaparecido tentando encontrar o Centro da Terra e por algumas coincidências do destino, tio e sobrinho vão parar na Islândia, à procura de um outro "verniano" (nome dado àqueles que acreditam que os livros de Julio Verne não são ficção, mas ciência). Como o senhor já havia morrido, a filha dele, cobiçada pelos dois, se encarrega de levá-los até o lugar desejado. É quando vários raios fazem com que os três se encontrem soterrados dentro de uma caverna e à procura de uma outra saída. O resto já dá pra imaginar. A partir desse momento, o filme vai ganhando um colorido diferente, e é aí que entra com mais força a imaginação de quem não está vendo o filme em três dimensões. Em certos momentos, o colorido do filme parece saído de uma ficção científica dirigida na Itália nos anos 60, o que não deixa de ser bonito. Mas a idéia de VIAGEM AO CENTRO DA TERRA é mesmo não deixar a peteca cair no que se refere à ação e à aventura dos três naquele lugar estranho, povoado de criaturas como dinossauros, plantas carnívoras e pássaros fluorescentes. E o filme tem mesmo o mérito de não se tornar enfadonho em momento algum nos seus compactos 92 minutos de duração, embora seja facilmente esquecido assim que se sai do cinema. No entanto, ao ver um grupo de adolescentes saindo da sala e falando sobre placas tectônicas e centro da Terra, tive um breve lampejo de esperança de que a juventude de hoje não está totalmente perdida.

segunda-feira, julho 14, 2008

ADORÁVEL PECADORA (Let's Make Love)



Um dos mais deliciosos filmes de George Cukor, ADORÁVEL PECADORA (1960) deve muito de seu brilhantismo à graça, à beleza e ao carisma de Marilyn Monroe. Cukor conseguiu fazer um musical com ela melhor que Howard Hawks, que fez o mediano OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS sete anos antes e embora tenha pegado Marilyn no auge da beleza não a tornou tão adorável e meiga quanto neste trabalho de Cukor, que é mais uma vez uma homenagem aos espetáculos teatrais, que nunca deixou de ser a grande paixão do diretor. (Aliás, acho que o que me incomoda no filme de Hawks é justamente o fato de as personagens serem vulgares e interesseiras demais.)

ADORÁVEL PECADORA antecedeu o filme que marcou a despedida das telas de Marilyn - OS DESAJUSTADOS, de John Huston, que também foi o adeus de Clark Gable. Por pouco, Cukor perde a chance de trabalhar com mais uma estrela importante, talvez a mais importante da década de 50, ao lado da princesa Grace Kelly. E por mais que digam que ela não era boa atriz e do quanto dava trabalho para os diretores - chegando atrasado por conta de seus problemas com as pílulas e tendo dificuldade de decorar as falas, além dos problemas de depressão - Marilyn tinha um brilho e um sex appeal praticamente inigualável naquela época. A começar pela voz, que também funcionava muito bem nas cenas musicais, dando um ar ao mesmo tempo sexy e infantil, especialmente quando aparece pela primeira vez no filme, cantando "My heart belongs to daddy", de Cole Porter (ver seqüência no youtube).

Dizem que ela teve um caso com Yves Montand durante as filmagens. E que ele até considerou deixar a esposa por ela, o que não deixa de ser compreensível. Não sei o quanto o marido Arthur Miller ficou sabendo disso, pois ele teve participação ativa no filme, tendo revisado o script, de modo que a personagem de Marilyn ganhasse maior destaque. Talvez a essa altura, ele já soubesse da encrenca em que tinha se metido ao se casar com ela. No livro AFINAL, QUEM FAZ OS FILMES, Cukor não entra em detalhes, só deixa claro o quanto ela não tinha confiança em si própria, tinha dificuldade de se concentrar, ficava nervosa e, por isso, ele tinha de filmar várias cenas em pedaços. Mas o filme ficou tão bem montado, que ficou perfeito. Marilyn era mágica e não tinha noção disso.

O filme conta a história de um bilionário empresário francês (Yves Montand) que é tão famoso quanto Elvis Presley. Quando ele sabe através de seu assessor que uma companhia teatral o está ridicularizando num espetáculo musical chamado "Let's Make Love", ele fica curioso e resolve assistir um dos ensaios. É quando ele se apaixona pela estrela do show, Amanda, interpretada por Marilyn. Como ninguém acredita que ele é o verdadeiro bilionário, mas apenas mais um sósia querendo arranjar lugar no espetáculo, de tão "parecido" e de se comportar feito um bobalhão feito o original, ele é logo escolhido. Como sua intenção é ficar sempre perto de Amanda até conseguir conquistá-la, ele inventa que é outra pessoa e procura meios de ganhar a admiração da jovem, seja à procura de piadas originais e engraçadas para aparecer, seja comprando ele mesmo o teatro. O seu desejo é que ela goste dele sem saber que ele é um bilionário, já que todas as mulheres com quem ele saiu só se interessavam por seu dinheiro. O filme começa um pouco morno, melhora consideravelmente com a entrada em cena de Marilyn e vai ficando ótimo da metade para o final. Até as seqüências musicais são gostosas de ver. E eu acho que estou começando a gostar de musicais também. E talvez deva isso a Cukor.

domingo, julho 13, 2008

ANGEL (The Real Life of Angel Deverell)



Fazendo um link com NOME PRÓPRIO, de Murilo Salles, e a necessidade e o desejo de escrever, falemos um pouco do mais recente trabalho do sempre interessante François Ozon. ANGEL (2007) pode ser descrito, em tom, e por causa da personagem título, interpretada pela bela Romola Garai, mais conhecida pelo papel de Briony aos 18 anos de idade em DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright, como uma espécie de homenagem a E O VENTO LEVOU. O tom do filme, inclusive a fotografia e a música, parece querer ser deliberadamente retrô, inclusive com a utilização de retroprojeção nas cenas externas, como se fosse mesmo um filme dos anos 30-40. A comparação com E O VENTO LEVOU acaba sendo inevitável, principalmente na maneira esnobe com que a personagem se mostra no início do filme, o que lembra muito a Scarlett O'Hara antes dos horrores da Guerra Civil, cheia de mimos. Acontece que a estranheza do filme se dá justamente porque esse tom de conto de fadas, onde tudo parece ser um sonho, demora muito para se desfazer e a impressão que temos é que há no filme um certo tipo de humor bizarro. Como se metade do filme fosse um delírio da mente da protagonista, como se nada fosse de verdade. Lembrei, inclusive, do último ato de FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach. O filme desmancha um pouco essa impressão e retoma o seu desejo de ser o E O VENTO LEVOU dos tempos modernos quando muda de tom, a partir do surgimento, justamente, de uma guerra, no caso, a 1ª Guerra Mundial, que acaba com a felicidade e os planos de uma mulher que sempre teve o que desejou.

Em ANGEL, a jovem Angel Deverell é filha de uma família humilde que possui uma mercearia numa pequena cidade da Inglaterra. Sempre que a professora pede que ela faça uma redação, ela entrega algo parecido com Charles Dickens, toda estilosa. A professora não acredita que a redação foi escrita por ela, até porque ela inventa que mora numa mansão ou num castelo, enquanto que todo mundo sabe que ela é filha do dono da mercearia. A própria mãe, humilde, também não acredita no potencial criativo da filha, mas a menina adora escrever. E daquele jeito mesmo, cheio de floreios. E assim, ela escreve o seu primeiro romance, que é enviado a uma editora em Londres. O editor (Sam Neill) a princípio pede que ela faça algumas modificações, mas ela se recusa. Ela conta detalhes, por exemplo, do aspecto sangrento de um parto, mesmo sem nunca ter assistido a nenhum. Aliás, o curioso é que Angel afirma não ler nenhum autor, ela apenas escreve. Não sei se isso é possível, ser assim tão isento de influências estéticas, mas talvez seja. O livro é um sucesso e Angel Deverell se torna uma romancista famosa, mas que tem vergonha de suas raízes pobres. A cada romance, sua fama aumenta e ela passa a freqüentar festas e espetáculos de aristocratas e se muda para uma tão sonhada mansão nos arredores da cidade onde nasceu. O que falta na vida dela, ela rapidamente consegue: um romance com um pintor rebelde, que nem aprecia o trabalho dela e talvez seja por isso mesmo que ela se apaixona por ele. Ela sustenta o rapaz com o que ganha das vendas de seus romances, é idolatrada e cuidada pela irmã dele, fã de seu trabalho, e passa a viver com os dois e a mãe nessa mansão. Tudo muda quando vem a guerra e o pintor decide se alistar. Outro rosto conhecido do elenco é o de Charlotte Rampling, que trabalhou com Ozon em SOB A AREIA (2000) e SWIMMING POOL - À BEIRA DA PISCINA (2003) e interpreta a esposa do editor.

Uma das características marcantes do cinema de Ozon é justamente o de arrancar boas interpretações femininas, embora um de seus melhores filmes, O TEMPO QUE RESTA (2005), seja do ponto de vista masculino. Em O AMOR EM 5 TEMPOS (2004) foi a vez da bela Valeria Bruni Tedeschi; Charlotte Rampling protagonizou o triste drama SOB A AREIA; e não poderia deixar de lembrar de Ludivine Sagnier, que nunca foi tão lindamente utilizada como nos filmes de Ozon, em trabalhos como GOTAS D'ÁGUA SOBRE PEDRAS ESCALDANTES (2000), 8 MULHERES (2002) e SWIMMING POOL - À BEIRA DA PISCINA. Impossível não tirar os olhos dos seios fartos da moça. Sem falar que no divertido musical 8 MULHERES, Ozon contou também com um time de estrelas de peso do cinema francês: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart e Fanny Ardant. É mole? O que eu ainda não entendi foi as intenções de Ozon como autor. O que ele deseja passar com suas obras? O fato é que todos os seus filmes, por melhores e mais belos que sejam, sempre deixam um gostinho de dúvida sobre suas qualidades. Como se estivéssemos sendo de alguma maneira enganados pelo cineasta. Como se ele estivesse curtindo com o gosto e com as expectativas da platéia. Talvez seja esse o denominador comum dos filmes de Ozon. Mas isso é só uma suposição de alguém que não chegou a ler nenhum texto sobre o conjunto da obra do diretor, a fim de encontrar mais respostas. O fato é que, querendo ou não, Ozon talvez seja o cineasta francês mais importante - ou pelo menos o mais famoso - surgido nos anos 90.

Top 5 Ozon:

1. GOTAS D'ÁGUA SOBRE PEDRAS ESCALDANTES
2. O AMOR EM 5 TEMPOS
3. O TEMPO QUE RESTA
4. SWIMMING POOL - À BEIRA DA PISCINA
5. 8 MULHERES

sexta-feira, julho 11, 2008

NOME PRÓPRIO




O filme está previsto para estrear na próxima sexta-feira, dia 18, mas como tive oportunidade de vê-lo com antecedência numa cabine de imprensa (agradeço antecipadamente à Thaís pelo convite), pretendo expor aqui as minhas impressões sobre o filme. Mas antes de falar de NOME PRÓPRIO (2008), gostaria de falar um pouco de um filme do diretor, Murilo Salles, que marcou bastante o início de minha cinefilia. FACA DE DOIS GUMES (1989) fez parte da última leva de filmes da Embrafilme, antes do Collor chegar e acabar de vez com o cinema nacional. Não era uma safra tão brilhante, mas pra mim, cinéfilo iniciante, foi um prazer ver aqueles filmes no cinema, especialmente um thriller tão bem acabado quanto aquele. Com o tempo, percebi que Murilo Salles é um cineasta que talvez não tenha uma marca de fácil identificação - se é que há -, já que seus filmes seguintes são completamente diferentes um do outro. NOME PRÓPRIO, no entanto, pode-se dizer que continua demonstrando o seu interesse com os problemas e as aventuras da juventude, como no anterior SEJA O QUE DEUS QUISER (2002). Só que há uma grande diferença, talvez um abismo, entre os dois filmes. Se o primeiro era uma comédia agitada, o novo filme é um trabalho mais introspectivo e angustiante, sobre uma pessoa que, nas palavras da própria personagem, "gosta de viver em sua cabeça". Como muita gente que gosta de escrever. Aliás, não se trata apenas de gostar de escrever, mas de sentir uma necessidade urgente de escrever, como forma de exorcizar os demônios.

Essa necessidade de escrever, embora sempre tenha existido desde que o homem inventou a escrita, transpareceu bastante no final dos anos 90 com a internet e o advento dos blogs. E um dos blogs mais visitados e mais polêmicos e lidos do Brasil era o de Clarah Averbuck, que hoje é uma celebridade, mas que passou por maus bocados e teve sua vida - intensa e autodestrutiva - muito bem representada no filme por Leandra Leal, que se entrega no filme com todo o seu talento e coragem. Quando eu aderi ao mundo dos blogs, depois de algum tempo tentando resistir, cheguei a pegar o finalzinho do brazileira preta , embora nunca tenha sido um leitor assíduo. Talvez, assim como ela, eu tenha acabado ficando muito autocentrado no meu próprio blog e no meu interesse em questão, no caso, o cinema. Ainda assim, continuo achando que as pessoas que me conhecem através deste espaço virtual me conhecem bem mais do que aquelas que me vêem todos os dias mas que nunca travaram uma conversa de verdade comigo. Mas deixando um pouco de lado a minha pessoa, o fato é que eu me solidarizei com Clarah, aliás, com Camila, a personagem do filme, inspirado nos livros MÁQUINA DE PINBALL, VIDA DE GATO e nos blogs de Clarah - o atual se chama Adiós Lounge. O nome "Camila" talvez tenha sido inspirado na personagem do romance PERGUNTE AO PÓ, de John Fante, já que o escritor é citado em determinada cena do filme. Sem falar que o estilo de vida regado a drogas e álcool da personagem combina bastante com Fante e, principalmente, com Bukowski - vide brazileira preta, cuja página contém a citação de uma frase do "velho tarado".

NOME PRÓPRIO começa sem os créditos, com o uso da câmera na mão, na cena em que o namorado de Camila a expulsa de casa. O motivo: ela havia transado com outro cara. Assim, de maneira violenta, ele coloca seu PC, seu monitor e suas roupas dentro de caixas e pede para que ela deixe a casa imediatamente. Sem ter para onde ir, Camila encontra abrigo na casa de um amigo e é onde passa boa parte do tempo tomando pílulas para emagrecer (que a deixam ligadona) com cerveja. A aflição de estar sozinha e de ser abandonada pelo namorado que ainda ama, junto com a solidão, faz com que a necessidade de escrever se torne ainda mais latente. Assim, ela começa a publicar seus textos no blog, onde expõe seus pensamentos, sentimentos e fatos da própria vida e onde encontra também fãs de sua escrita, que acabam ajudando-a de alguma maneira a sobreviver sem trabalho, dedicando-se apenas aos seus escritos e a uma vida boêmia.

De personalidade forte e capaz até de tomar o namorado da amiga na cara dura, numa cena memorável na praia, Camila é dessas que não leva desaforo pra casa, assusta caras que têm cantada fraca e que tem de lidar com as dificuldades de se viver sem dinheiro. Outra cena inesquecível do filme envolve um adolescente, fã do blog de Camila, que oferece a ela hospedagem e que acaba por se aproveitar de seu corpo, ainda que de maneira "um pouco" diferente. A cena dele se masturbando olhando para a foto da vagina de Camila na tela do computador é representativa do mundo de hoje, de como o sexo e a tecnologia acabaram se tornando cada vez mais próximos, aumentando a distância física entre as pessoas. O filme conta também com a beleza espetacular da "falsa loura" Rosanne Mulholland, em participação igualmente memorável. Mas é à Leandra Leal que o filme deve a maior parte de sua força. Sem Leandra, sem a entrega e o talento dessa jovem, de quem eu sempre fui fã, o filme não seria o mesmo.

Murilo Salles também faz um belo trabalho, ao mostrar um pouco da história recente da internet, uma história bem próxima de nós. A internet discada e de difícil acesso daqueles tempos hoje é pouco usada e a internet de banda larga é cada vez mais comum nos dias de hoje, sem falar na própria aparelhagem, com os monitores pesados sendo substituídos por levinhos e fininhos de LCD. Outra curiosidade: entre os vários e-mails que Camila recebe em seu Outlook, percebi que havia até um de trânsitos astrológicos, coisa que eu só passei a receber nos últimos meses, graças à minha inscrição no site Personare, excelente dica do amigo Eduardo Aguilar. E falando em Personare, as "coincidências" são tantas entre os textos que recebo falando do que ocorrerá em cada trânsito e o estado em que se encontra a minha vida que eu chego a ficar boquiaberto.

No blog do filme, é possível ver, entre outras coisas, a lista de cidades onde o filme aportará no dia 18.

P.S.: Está no ar a nova edição da Revista Zingu!, cujo destaque é o dossiê John Wayne. Tem uma contribuição minha lá sobre o filme HATARI!, de Howard Hawks. No mais, tem Filipe Chamy falando de A RELIGIOSA, de Jacques Rivette; Marcelo Carrard dando o seu adeus ao mestre Dino Risi; Matheus Trunk mandando um artigo interessantíssimo sobre realizadores da Boca do Lixo que só fizeram um único filme; Stella Stevens na seção Musas Eternas, entre outras coisas bacanas.