quinta-feira, fevereiro 14, 2019

CLIMAX

Às vezes basta uma cena para que um filme se torne memorável. Mesmo quando esse filme é cheio de problemas e que provoca mais insatisfações do que alegrias. Aliás, falar de alegrias quando o assunto é Gaspar Noé é até um pouco complicado, ainda que as intenções do diretor de provocar náuseas e outras reações ruins dêem com os burros n’água. Com relação à tal cena marcante de CLIMAX (2018), trata-se de uma sucessão de performances solo dos dançarinos e dançarinas, mostrada através de uma câmera que visualiza a ação de cima. Aquilo é tão belo e sensual e a música é tão intensa e envolvente que, por alguns minutos, até parece que estamos vendo um dos melhores filmes do ano.

A cena acontece depois que vamos conhecendo um grupo relativamente grande de dançarinos prontos a participar de uma experiência um tanto misteriosa, mas apresentada de uma maneira interessante e ao mesmo tempo dispersiva que abre o filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 90) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros.

Falando em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão (só depois atentei para uma ligação da cena que serve de prólogo, de uma mulher agonizando no gelo, com o espaço em que eles se encontram confinados), o fato de que elas estão naquele espaço lembra um pouco O ANJO EXTERMINADOR, do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer.

Uma pena que Noé tenha essa obsessão quase infantil por querer chocar a plateia e transforma algo que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que vai para uma linha do desagradável, como já é tradicional no cinema do diretor, desde antes de ele ficar famoso mundialmente pela cena prolongada de estupro de IRREVERSÍVEL (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga).

Ainda assim, a lembrança que guardarei desta experiência filmada apenas com um fiapo de roteiro de cinco páginas e muita vontade de fazer algo diferente, será das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso. Lembrarei de como esse filme poderia ser tão mais gostoso se não precisasse efetivamente contar uma história.

+ TRÊS FILMES

CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)

Não tenho acompanhado todos os filmes do Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS (2011). Este é certamente um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTOS (que prefiro). Ano: 2018.

A NOSSA ESPERA (Nos Batailles)

Que baita filme lindo! Apresenta a porrada da vida real sem nos dar muito espaço para chorar e descarregar as emoções de tanta emoção. Aí o que fica é um nó na garganta. A história não é apenas a de um homem que é abandonado pela esposa e tem que cuidar dos dois filhos pequenos. Isso é apenas o tronco de uma árvore que apresenta diversos galhos, diversas dores. Adoro uma cena do Duris com a personagem da irmã (que linda!), as cenas de apoio dos amigos que também passam por situação difícil etc. Meus agradecimentos a todos os envolvidos. Direção: Guillaume Senez. Ano: 2018.

O VALOR DE UM HOMEM (La Loi du Marché)

O diretor Stéphane Brizé parece ter se especializado em dramas sobre pessoas vivendo os piores momentos de suas vidas. Bom que está cercado sempre de atores e atrizes muito bons, como é o caso aqui de Vincent Lindon. Na trama, ele é um homem de meia idade que está enfrentando uma dificuldade de encontrar emprego. E mesmo quando consegue, o filme se torna ainda mais incômodo. Ano: 2015.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (Boy Erased)

Os dias estão cada vez mais sombrios em nosso país e no mundo. Por isso que certos filmes que uma década atrás teriam um peso menor adquirem um gesto político muito mais intenso e cheio de fúria. BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (2018) ganhou os holofotes recentemente por ter tido sua estreia nos cinemas cancelada no Brasil pela Universal, sua distribuidora, que não quis se arriscar com um filme menor e que não recebeu nenhuma indicação ao Oscar - Lucas Hedges havia recebido uma indicação de ator no Globo de Ouro.

Não é a primeira vez que Hedges, 22, interpreta um jovem gay tendo que esconder do mundo o que ele é - pudemos ver em menor escala no ótimo LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig um papel parecido, quase uma prévia do que ele faria no filme de Joel Edgerton.

O impacto de BOY ERASED para o espectador, principalmente o espectador de linha progressista, é de raiva mesmo, a cada sessão que o protagonista tem que passar na terrível terapia de reorientação sexual. Há igrejas que não chegam ao cúmulo de fazer ou criar tais terapias, mas acabam por também fazer com que as pessoas vivam em negação e auto-enfrentamento de seus desejos, ao pensar que tudo o que pensam e querem é fruto do pecado, de tentações demoníacas.

Na trama, Jared Eamons (Hedges) é um jovem que inicia a vida universitária e é quase estuprado por um colega. O tal colega, passando por um momento difícil, deseja se confessar para Eamons, mas depois começa a achar que o rapaz será um perigo para ele. Por isso, o garoto prefere dizer mentiras sobre Eamons aos pais dele, que começam a questionar o filho sobre sua orientação sexual. Detalhe: o pai de Jared, vivido por Russell Crowe, é um pastor evangélico.

Na mesma noite, Jared resolve contar aos pais que tem pensamentos com homens, e que acredita ser homossexual. A mãe (Nicole Kidman) também fica muito transtornada. A solução que o pai encontra é chamar homens da igreja para orar e tomar medidas que possam "ajudar" o filho. A ajuda, então, vem na forma da terapia de reorientação sexual. Cada cena que se passa nesse lugar é carregado de uma aura tão pesada que é impossível não ficar com raiva de tudo aquilo.

Jared Eamons é o alter-ego de Garrard Conley, autor do livro de memórias que deu origem ao filme. Pelo que vemos, ele chegou a testemunhar pouca coisa. Poderia ter ficado mais tempo para contar mais detalhes dos bastidores terríveis desse lugar. Mas o que viu foi suficiente para escrever um artigo para o The Times e depois um livro.

Há uma cena em BOY ERASED, de diálogo entre pai e filho, que dá para fazer uma paralelo com o diálogo do pai do garoto de ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino. A diferença é que aqui a realidade dói mais, pois temos um pai com uma dificuldade muito grande de aceitar o filho como ele é, devido à sua formação moral e religiosa.

+ TRÊS FILMES

A ROTA SELVAGEM (Lean on Pete)

Do mesmo diretor de 45 ANOS (2015), este filme segue a tortuosa vida de um jovem adolescente que mora só com o pai que não tem dinheiro para lhe sustentar. É então que ele resolve trabalhar como ajudante de um homem que cuida de cavalos de corrida. O elenco é bom e o rapaz que faz o protagonista é ótimo. Há pelo menos três cenas muito boas e fortes. Pena que eu estava muito cansado no dia. Direção: Andrew Haigh. Ano: 2017.

EU NÃO SOU UMA BRUXA (I Am Not a Witch)

Depois de ver PERSONA, de Bergman, ver este filme aqui é um balde de água fria. Não que não tenha sua importância no quesito de denúncia sobre um caso absurdo. Mas é tão absurdo que parece surreal o que é mostrado na tela. Ainda não tive a chance de ver se o que apresentam na trama acontece de fato na Zâmbia. Acho que me incomodei também com o país. Mesmo o Brasil de hoje fica parecendo um paraíso. Direção: Rungano Nyoni. Ano: 2017.

MEU QUERIDO FILHO (Weldi)

O filme, pela temática, lembra um pouco OS COWBOYS, de Thomas Bidegain, mas tem menos força na hora de nos colocar no lugar dos personagens. Mesmo o personagem do pai parece um tanto bobo em sua busca pelo melhor para o filho. E o filho, do modo como é pintado, acaba sendo visto por nós como digno de nosso desprezo e do destino ruim que ele escolheu. Embora haja esse pano de fundo da situação na Síria, o filme é até bem universal, na questão de pais e filhos. Direção: Mohamed Ben Attia. Ano: 2018.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

A FAVORITA (The Favourite)

O grego Yorgos Lanthimos é o caso de cineasta que conseguiu prestígio internacional através, primeiramente, do caráter único de seus filmes. O indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira DENTE CANINO (2009) foi a obra que deu início ao domínio mundial desse cineasta cheio de idiossincrasias. Nesse filme já se percebia um gosto tanto pelo bizarro quanto por um senso de humor muito particular. Afinal, por mais que alguém ache o filme um tanto perturbador em diversos aspectos, há ali tantos momentos desconcertantes que às vezes o que nos resta é rir.

O gosto pelo surreal inundou o seu primeiro filme em língua inglesa, O LAGOSTA (2015), que contou com astros de Hollywood de primeiro escalão (Colin Farrell e Rachel Weisz).Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. A trama nos apresenta a um mundo em que pessoas que não conseguem um par são condenadas a se transformarem em animais. Detalhe: elas tem o direito de escolher que animal se tornar.

O trabalho seguinte de Lanthimos, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), já se encaminhava mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Mas é inegável o flerte pela atmosfera de medo, que intensifica os climas dos trabalhos anteriores do diretor. O filme contou novamente com Colin Farrell, no papel de um cirurgião, e mais uma vez em um trabalho de dramaturgia estranha, como pede o diretor, e também com Nicole Kidman, no papel da esposa. Os dois são perturbados por um jovem adolescente com sede de vingança.

Eis que o cineasta grego chuta a porta com os dois pés em seu mais recente trabalho, já que A FAVORITA (2018) recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de um filme bem mais acessível, do ponto de vista das esquisitices, mas ainda assim pega desprevenido muitos espectadores que vão ao cinema ver um drama de época inglês típico. Para começar, há quem entre na sala sem saber que o filme também lida com a temática do relacionamento homossexual. Como estamos vivendo um período em que o conservadorismo está mais forte, isso pode incomodar a alguns desavisados.

Mas A FAVORITA é, antes de tudo, um filme sobre o jogo de poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão fortes representando seus papéis com tanta beleza que até parece que o jogo de poder também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman, que se tornou famosa nos Estados Unidos com este filme, parecem disputar não apenas o seu papel, mas também o nosso respeito e admiração.

Na trama, Emma Stone é uma jovem pobre que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século XVIII. Além de ela chegar toda cheia de lama e fezes, ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que ela percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada.

Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular que se destaca principalmente nos interiores. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que só aumenta a comparação que o filme vem recebendo com BARRY LYNDON, de Stanley Kubrick. Há também uma suntuosidade nos cenários e figurinos que é de dar gosto, mesmo a quem não está muito interessado no enredo. Se bem que é difícil não se divertir com a trama e com o show de interpretação das três atrizes. Gostei especialmente de Stone, que ganha talvez até mais tempo de cena que a Olivia Colman. As cenas dela tentando seduzir um dos nobres do castelo a base de porrada são muito engraçadas.

Em tempos de safra fraca de filmes indicados à categoria principal do Oscar, A FAVORITA é um alívio e tanto.

A FAVORITA recebeu indicações ao Oscar nas categorias de filme, direção, atriz (Olivia Colman), atrizes coadjuvantes (Emma Stone e Rachel Weisz), roteiro original, desenho de produção, figurino, direção de fotografia e montagem.

+ TRÊS FILMES

GREEN BOOK - O GUIA (Green Book)

Que safra horrível a do Oscar deste ano, hein! O que é isso, meu Deus? Há tempos eu não vejo um filme tão medíocre assim. Não é que seja ruim, mas tem toda pinta de filme ultrapassado, que até se costumava a ver em premiações dos anos 80, por exemplo. E que discussões rasas que o filme provoca. Um desperdício de uma dupla de atores ótimos. Na  trama, homem branco e rude de origem italiana é contratado para ser o chofer de um músico negro nos Estados Unidos dos anos 1960. Indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e montagem. Direção: Peter Farrelly. Ano: 2018.

A ESPOSA (The Wife)

Perde na originalidade e na construção dramática para o MONSIEUR & MADAME ADELMAN, de Nicolas Bedos, mas não dá para negar que é um filme que consegue capturar o espectador do início ao fim. Gosto bastante das cenas de flashback e da personagem jovem. Como não é uma história real, mas baseado em um romance, fica difícil comprar às vezes a trama. Ainda mais em pelo século XX. Indicado ao Oscar de melhor atriz para Glenn Close. Direção: Björn L Runge. Ano: 2017.

ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku)

Difícil não gostar do Koreeda e do modo sensível com que ele aborda os dramas familiares. Acho que ainda gosto mais de PAIS & FILHOS e DEPOIS DA TEMPESTADE, mas este aqui tem algo em comum com o primeiro. O interessante é que primeiro o filme faz com que a gente goste daquelas pessoas imperfeitas para depois fazê-las entrar em situações mais dramáticas, longe da rotina de comer e se socializar em família. O último frame é lindo. Indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira. Direção: Hirokazu Koreeda. Ano: 2018.