segunda-feira, junho 11, 2018

AS BOAS MANEIRAS

A pouca popularidade de uma literatura fantástica feita no Brasil, pelo menos dentre os grandes escritores, e em comparação com o que se fez nos Estados Unidos e na Inglaterra, acabou por ricochetear em nosso cinema, que até tem bem mais títulos de horror e afins do que muitos imaginam, mas que ainda tem um apelo mais para o realismo e para a comédia.

Talvez por isso ainda haja essa resistência ao cinema fantástico por parte do público médio, que vê com olhos ressabiados as nossas investidas no gênero. Principalmente quando elas se mostram cada vez mais explícitas. E o salto que a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra dá do suspense psicológico de TRABALHAR CANSA (2011) para a fábula de terror AS BOAS MANEIRAS (2017) é bem grande. Se bem que pelo meio do caminho Marco Dutra nos presenteou com um belíssimo filme de possessão e casa assombrada, QUANDO EU ERA VIVO (2014).

AS BOAS MANEIRAS ainda assim é uma obra híbrida, que não se furta em colocar elementos que podem parecer corpos estranhos dentro do que se espera de uma história de lobisomem, como cenas em que alguns personagens começam a cantar, lembrando outra produção do coletivo Filmes do Caixote, o drama musical O QUE SE MOVE (2012), de Caetano Gotardo. Aliás, aqui também temos Cida Moreira cantando e atuando.

O fato de ser um filme que é visivelmente dividido em lado A e lado B até poderia passar a ideia de que poderia ser lançado em duas partes. Inclusive pela duração um tanto longa e pelo ritmo que começa a se tornar um leve problema durante o lado B.

No começo da trama, Clara (Isabél Zuaa, que conquistou muitos fãs com sua performance de mulher intensa e forte em JOAQUIM) vai pedir emprego de babá na casa de Ana (Marjorie Estiano, excelente). Ana procura uma pessoa que também cuide dela nos primeiros estágios da gravidez; que cuide da casa, inclusive. Clara, que precisa de dinheiro com urgência, aceita, e começa a haver uma relação de cada vez maior proximidade entre as duas. Uma proximidade que une tanto a carência afetiva quanto o gosto de Clara por mulheres.

Aos poucos, e de maneira deliciosa, vamos compreendendo a situação de Ana, seu misterioso gosto por carne, as dores grandes que sente na gestação e também somos apresentados à história de quando ela engravidou. A relação entre Ana e Clara é tão bela e singular que quando o filme parte para novos rumos se torna difícil não sentir falta dessa primeira parte.

Mas a segunda parte tem o grande mérito de ser ainda mais corajosa em assumir explicitamente o cinema de horror, homenageando o clássico UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis. Antes disso, o filme faria possíveis homenagens a FILHOS DO MEDO, de David Cronenberg, e NASCE UM MONSTRO, de Larry Cohen, entre outras.

Mas o curioso de tudo isso é que, apesar dessas homenagens, AS BOAS MANEIRAS tem uma brasilidade muito própria, com cenas acontecendo nas festas juninas e em um cenário de uma São Paulo próxima do gótico, com a força da lua sempre sendo um elemento presente. A fotografia linda é de autoria do português Rui Poças, conhecido por obras tão belas e distintas quanto TABU, O ORNITÓLOGO e SEVERINA.

Do ponto de vista humano, o filme também conquista desde o começo. Tanto nas relações de afeto entre Clara e Ana, quanto nas relações de mãe e filho entre Clara e o menino Joel (Miguel Lobo). O pequeno Joel, dada sua condição de lobo, precisa se submeter a certos sacrifícios.

E é até possível que o espectador saia um pouco contrariado da sessão de AS BOAS MANEIRAS. E é possível que esse mesmo espectador não perceba que ver uma obra como esta no cinema é um privilégio e tanto. E que tal filme ficará em suas lembranças por muitos anos.

+ TRÊS FILMES

TODOS OS PAULOS DO MUNDO

Acaba seguindo meio que uma fórmula adotada recentemente no documentário brasileiro de mostrar cenas dos filmes mais representativos do homenageado. No caso de Paulo José, nada mais justo, e os filmes são bem legais. Tem Khouri, tem Joaquim, tem Domingos, e mais um bocado de coisas. Ainda achei que faltou mais do homem Paulo em Todos os Paulos. Direção: Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. Ano: 2017.

CONSTRUINDO PONTES

A diretora parece que se perdeu pelo caminho e se não sabia onde queria chegar. Acabou terminando o filme do jeito que o destino deu. Não deixa de ser irritante também seu debate com o pai defensor dos militares. O problema é que ela não tinha poder de argumentação e o velho saía ganhando sempre com tranquilidade. Direção: Heloísa Passos. Ano: 2017.

ROGÉRIO DUARTE, O TROPIKAOSLISTA

Um dos melhores dessa safra de filmes que tratam de resgatar figuras históricas do Tropicalismo. Achei este ROGÉRIO DUARTE ainda melhor resolvido do que o sobre Torquato Neto. Mais redondo. E o personagem do Rogério é fascinante. Tenho certeza que muita coisa boa ficou de fora do corte final. Direção: José Walter Lima. Ano: 2016.

sábado, junho 02, 2018

TULLY

Há quem já tenha passado pela transição dos vinte para os trinta anos e ainda não tenha percebido nenhuma mudança. Mas a pessoa há de perceber, mais cedo ou mais tarde. E TULLY (2018), terceira parceria do cineasta Jason Reitman com a roteirista Diablo Cody, vem trazer o interessante assunto à discussão. Aliás, isso já havia sido discutido em JOVENS ADULTOS (2011), uma visão um tanto pessimista sobre a vida e suas decepções.

Porém, se Charlize Theron procura manter as aparências em JOVENS ADULTOS, em TULLY isso deixa de ser uma preocupação, até por que o nível de depressão é muito mais acentuado. Ela é Marlo, uma mulher grávida do terceiro filho, com um marido que não se esforça tanto para ajudá-la e com muito pouco ânimo para dar conta de tudo. Seu cansaço parece aumentar ainda mais depois do parto. O filme não deixa claro se a personagem está com depressão pós-parto - assim como não define a doença do filho que parece autista - mas o que vemos na tela é o suficiente para entendermos que se trata de uma mulher que precisa de ajuda.

O irmão bem-sucedido financeiramente dá a ideia de que ela pode descansar mais se aceitar a contratação de uma espécie de baby sitter noturna, uma garota que ficaria cuidando da filha, enquanto ela descansaria. E a entrada em cena de Tully (Mackenzie Davis), que dá título ao filme, já passa essa impressão de que Marlo e seu recém-nascido bebê estão em boas mãos. Tanto é que dá até um pouco de inveja da personagem: "quero uma Tully pra mim também", pensei, enquanto assistia ao filme.

E tudo vai fazendo mais sentido com as conversas que elas têm nos poucos momentos que são registrados na narrativa. A presença mágica de Tully, inclusive para arrumar a casa, faz toda a diferença no humor da protagonista, trazendo uma renovação de forças para Marlo. A diferença de idade das duas e o fato de Tully ter 26 anos e não ter casado ainda e de parecer ter respostar boas e positivas para sua vida faz com que pensemos no quanto perdemos à medida que deixamos a casa dos twenties.

Sei que isso pode ser uma visão pessimista da vida, mas a própria decadência do corpo concorda com isso e com a tese do filme, embora as coisas possam ser vistas por um prisma diferente, e é provavelmente o motivo de Tully ter surgido na vida de Marlo. Há quem vá achar que a revelação final diminua o filme, mas sou desses que acredita que quanto mais clara a obra for, principalmente neste caso, a discussão sobre os assuntos mais importantes serão muito mais enfatizadas, em vez de uma busca por entender uma obra cheia de enigmas ou coisas do tipo.

Assim, o que dói no espectador que tem mais de trinta ou quarenta ou cinquenta anos ao ver o filme é o quanto ele também quer ter de volta aquele contato com o seu eu dos vinte e tantos anos. Não apenas um contato como uma aparição, mas como uma espécie de simbiose de corpos e mentes, para que possamos seguir em frente com mais força, mais vigor e mais esperança no que há de vir. Além de repensar, com gratidão (por que não?), o nosso presente, por mais complicado que ele esteja.

+ TRÊS FILMES

ELLA E JOHN (The Leisure Seeker)

Road movie sentimental da terceira idade que traz junto o tema do Mal de Alzheimer. O casal de protagonistas (Helen Mirren e Donald Sutherland) segura o filme que é uma beleza. E há uma simpatia do filme em si que ajuda a conquistar o espectador com facilidade. Direção: Paolo Virzì. Ano: 2017.

TUDO QUE QUERO (Please Stand By)

Belo e tocante filme sobre jovem autista enfrentando um desafio e tanto pra ela. O diretor de AS SESSÕES (2012), filme que adoro, tem a sensibilidade de nos deixar próximos do sentimento de fragilidade e coragem da protagonista (Dakota Fanning). Direção: Ben Lewin. Ano: 2017.

TEU MUNDO NÃO CABE NOS MEUS OLHOS

É melhor do que eu esperava. Há um interessante apego/carinho pelo registro do melodrama. Pena que muitas escolhas da direção não funcionam e como eu vi em uma sala com problema de projeção (estava bem escura), fiquei com a impressão de ser uma produção ainda mais pobre do que é. Edson Celulari até que está bem como o cego. Direção: Paulo Nascimento. Ano: 2018.

sexta-feira, junho 01, 2018

PARAÍSO PERDIDO

Os musicais começaram a bombar nos Estados Unidos durante o período da chamada Grande Depressão, na virada dos anos 1920 para 1930, aproveitando o advento do cinema sonoro. Ir ver um musical tinha, portanto, um simbolismo imenso: a necessidade de encontrar em uma espécie de oásis em meio a turbulência do mundo lá fora.

É assim que José, o personagem de Erasmo Carlos, proprietário da boate Paraíso Perdido, oferece àqueles que lá estão: esqueçam todos os seus problemas, esqueçam sua vida lá fora, bem-vindos ao Paraíso Perdido. Mais ou menos isso. E, de fato, o que experimentamos ao longo da duração do novo trabalho de Monique Gardenberg é mesmo o de quase duas horas de trégua da dura vida.

Não só isso: PARAÍSO PERDIDO (2018), sendo também um musical, não tem a preocupação de ser fiel no campo do naturalismo das atuações e nem de fazer sentido em sua complicada trama familiar. As cores da fotografia, o gosto pelo brega e o respeito imenso ao amor (homo ou hetero) facilitam uma identificação com o cinema de Pedro Almodóvar, mas as canções, a maioria delas classificadas por muitos como bregas, são muito brasileiras, o que torna este trabalho muito nosso.

Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções.

Assim, há espaço para canções de Reginaldo Rossi, Odair José, Waldick Soriano, Belchior, Zé Ramalho fazendo cover de Bob Dylan, Gilliard, Roberto e Erasmo e até o jovem Johnny Hooker. As melhores interpretações são as de Julio Andrade. Talvez o melhor ator de sua geração, Andrade dá um show também na hora de subir no palco. O que dizer quando ele sobe para tocar "Não creio em mais nada", de Paulo Sérgio? É mais para sentir, talvez chorar, e se deliciar com tudo aquilo. E o respeito com todo esse material que é explorado é lindo.

Além de Andrade, há também interpretações belas de Seu Jorge (quem diria que um cantor seria passado para trás por um ator), por Jaloo, por Marjorie Estiano e pelo próprio Erasmo Carlos. Sua presença ali é mais do que simbólica. Parceiro do Rei e influência direta na formação da maioria dos cantores românticos da década de 1970, o Tremendão não precisa se esforçar para cantar bem. Basta estar lá e cantar uma das faixas.

Ele é o patriarca de uma família um pouco problemática e que comanda aquele espaço paradisíaco noturno. À família somos apresentados através do personagem do policial Odair (Lee Taylor), que é convidado para ser o guarda-costas do neto homossexual, que se apresenta travestido nos shows. Odair aceita, encantado com aquele lugar. Não demora para descobrirmos que há uma estreita ligação entre ele e aquela família.

Transbordando amor por todos os lados, PARAÍSO PERDIDO tem suas quase duas horas de música, intrigas amorosas e traumas do passado plenamente abraçados pela audiência, em uma experiência catártica poucas vezes vista no cinema brasileiro, no que se refere ao uso da música. Além de resgatar a música sentimental do passado, o trabalho mais belo de Monique Gardenberg tem uma elegância no uso dos movimentos de câmera, dos campos e contracampos tão bem usados nas cenas de apresentações na boate (destaque para a cena em que uma personagem informa estar grávida usando libras) e uma direção de arte e uma fotografia em tons quentes. Um dos melhores acontecimentos deste estranho e sombrio ano. Celebremos, portanto.

+ TRÊS FILMES

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

Esperava mais deste filme. Mas gosto da honestidade, do fato de não ter medo de abraçar o melodrama, mas me incomoda um pouco o humor que poucas vezes funciona. Ainda assim, para um filme sobre Alzheimer, até que é bem feel good e trabalha bem a questão da reaproximação entre pai e filho. Direção: Tiago Arakilian. Ano: 2018.

ALGUÉM COMO EU

É desses filmes que faz a gente sentir uma saudade enorme das comédias brasileiras dos anos 70/80. Até as produções para a televisão da Globo sabem explorar melhor a beleza de Paolla Oliveira. Além do mais, a própria ideia, além de parecer ruim, é pessimamente explorada. Mas gosto dos 15 minutos iniciais do filme, ao menos. Direção: Leonel Vieira. Ano: 2017.

TROPYKAOS

Acho que é um filme mais interessante do que exatamente bom. Mas não deixa de ser uma obra que fica na memória, que incomoda devido ao pesadelo do protagonista, vivendo um calor intenso. Gosto dos personagens do amigo viciado em crack e da namorada. A cena com a mãe também é muito boa. Direção: Daniel Lisboa. Ano: 2016.

sábado, maio 19, 2018

DEADPOOL 2

Não há como negar o quanto DEADPOOL (2016), o primeiro filme do mercenário tagarela, foi importante para trazer um pouco mais de ousadia para os filmes de super-heróis recentes. Claro que, no fim das contas, mesmo com conteúdo sexual e violento, tudo passa por um filtro dentro de uma época mais politicamente correta e respeitadora. Aliás, a respeito disso, há até uma piada no novo DEADPOOL 2 (2018) sobre a fixação um tanto estranha do taxista amigo do protagonista pela personagem de Kirsten Dunst em ENTREVISTA COM O VAMPIRO, uma vampira de dez anos de idade.

Dirigido por David Leitch, de ATÔMICA (2017), a sequência de DEADPOOL agora não tem mais a obrigação de contar a origem de seu anti-herói. No novo contexto, até quem nunca teve contato com o personagem nos quadrinhos se sente à vontade com seu senso de humor, sua intenção de ficar à margem, até por não ter nenhum problema em matar bandidos, e pelas piadas internas envolvendo filmes de super-heróis, quadrinhos, a consciência da música diegética e até mesmo a própria carreira de Ryan Reynolds.

Podemos dizer que o humor é um dos elementos mais problemáticos e que é o que mais costuma causar diferenças do público entre o gostar e o não gostar não apenas desta franquia, mas com os filmes dos estúdios Marvel também. Nem se trata aqui de entender ou não a piada; trata-se mais de não achá-la suficientemente boa para rir dela. Mas aí é que está o trunfo deste novo filme: há, dentro da trama, um pouco de tragédia que invade a vida do herói e que muda um bocado a dinâmica e o clima do que se esperava. E isso é muito bom. Ainda mais para um personagem que é praticamente imortal.

As brincadeiras com o fato de DEADPOOL ser uma franquia que utiliza heróis do segundo escalão, mesmo tendo o direito de trazer os personagens dos filmes dos X-Men, continuam valendo neste aqui, embora conte agora, além de Colossus, também com Cable, herói muito querido de quem começou a ler os heróis mutantes na década de 1990. Josh Brolin interpreta o homem que veio do futuro para matar um mutante adolescente que matará sua família. A semelhança com o enredo de O EXTERMINADOR DO FUTURO é claro que será motivo de piada por parte de Deadpool.

Ainda que inicialmente inimigos, Cable e Deadpool têm algo muito doloroso em comum e já se prevê que no final ambos serão aliados. O divertido é acompanhar o processo desta aventura despretensiosa até a sua conclusão. A própria criação do grupo X-Force é divertidíssima. Não só a criação como o destino de seus membros logo na primeira missão. A boa surpresa do grupo é Domino, a mulher cujo super-poder é ter sorte, vivida por Zazie Beetz, conhecida de quem acompanha a série ATLANTA.

No final, não deixem de ver as duas cenas extras pós-créditos. Elas são boas e importantes para a verdadeira conclusão da história. Assim como são muito bons os poucos momentos de cena com a bela Morena Baccarin e a nova versão de "Take on me", do A-Ha.

+ TRÊS FILMES

COLOSSAL

Curioso como este filme passou quase batido nos cinemas, com uma distribuição bem ruim. Aqui em Fortaleza, pelo menos, não chegou. Mas não é de todo ruim vê-lo na telinha. Parece filme menor mesmo. Mas é criativo, como todo trabalho do Nacho Vigalondo parece ser. E a Anne Hathaway está ótima, como sempre, como a moça que descobre que tem uma íntima ligação com um monstro que aparece do outro lado do mundo. Ano: 2016.

GRINGO - VIVO OU MORTO (Gringo)

Um barato este filme dirigido pelo irmão do Joel Edgerton. David Oyelowo (de SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE, 2014) está ótimo como o empregado de uma corporação que só se fode. A fluidez da narrativa, as reviravoltas, as várias cenas que nos pegam de surpresa, os personagens carismáticos, tudo contribui para o sucesso do filme. Pena que pouca gente vai ver. Direção: Nash Edgerton. Ano: 2018.

YOU WERE NEVER REALLY HERE

Esses estudos da Lynne Ramsay sobre psicopatas humanizados só me deixam com sono e bastante impaciente. No caso deste novo filme foi pior do que com PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011). Acho que se a cena do resgate da garota fosse feito de maneira mais convencional, quem sabe eu gostasse mais. Mas ao menos dá para considerar as escolhas menos óbvias da diretora como algo corajoso. Ano: 2017.

segunda-feira, maio 07, 2018

EX-PAJÉ

Luiz Bolognesi é um de nossos melhores roteiristas de ficção. Só no ano passado ele assinou o roteiro de dois dos filmes mais importantes, BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende, e COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodanzky. Isso para citar apenas dois mais recentes. Mas já havia dentro de sua filmografia um interesse muito especial pela Amazônia e pelos índios.Podemos citar seus documentários sobre a Amazônia, mas seu título anterior como diretor foi a animação UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (2013), que também contava em parte a história do índio brasileiro.

EX-PAJÉ (2018) é um documentário que mais parece com ficção. E ainda bem que Bolognesi conseguiu fazer isso tão bem. A história de Perpera, o personagem-título, é fascinante em sua dimensão trágica: um homem que se sente proibido de exercer a sua função tão importante na tribo (dos Paiter Suruí) porque agora é evangélico e os líderes religiosos dizem que o que ele fazia antes era coisa do diabo. E agora o pobre ex-Pajé tem medo de dormir de luz apagada por causa dos espíritos da floresta, que estariam furiosos com sua atitude de renúncia.

Esse mal estar é sentido em cada cena, em cada enquadramento, no modo como a tecnologia e o hábito dos brancos parece invadir aquele espaço. Por outro lado, não há também uma vilanização dessa tecnologia. Como julgar um povo que, como nós, está aberto a certos confortos, como um ventilador, uma máquina de lavar roupas ou o acesso à internet? Inclusive, a internet é usada para fins muito nobres por parte dos índios mais jovens, dispostos a denunciar qualquer invasão de madeireiros ilegais no Facebook, com apoio internacional.

Mas aí voltamos novamente ao aspecto trágico de Perpera, que veste um terno enorme para ficar de porteiro na igreja, sem entender sequer a língua portuguesa. Passa boa parte do tempo olhando para a natureza que parece lhe chamar a todo instante. O modo como o filme parece se transformar cada vez mais em uma obra de ficção se multiplica no momento em que o ex-Pajé é chamado a voltar à forma.

Por manter a atenção do espectador com uma narrativa sem voice-over ou algo que o caracterize mais facilmente como um documentário, EX-PAJÉ é dessas obras que tanto funciona como uma arma em defesa dos direitos dos habitantes do Brasil pré-Cabral, quanto como um exemplo de como saber utilizar cenas do dia a dia tão bem, de modo a construir um roteiro tão perfeito que parece ter sido tudo combinado. Muita coisa deve ter sido, mas a mágica do filme e a sua verdade estão lá o tempo inteiro, juntinhas.

+ TRÊS FILMES

VAZANTE

Acho a fotografia (em preto e branco) linda e certas tomadas são bem bonitas, mas como narrativa não conseguiu me envolver. O que eu mais gostei foi da menina, a estreante Luana Nastas, que casa com o sinhozinho. Mas mesmo o drama dela é prejudicado. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2017.

COMEBACK - UM MATADOR NUNCA SE APOSENTA

Uma bela despedida do Nelson Xavier, em um papel um tanto depressivo, mas ao mesmo tempo em busca de resistir, de não se dar por vencido pelo efeito do tempo. A gente está falando de um assassino e tal, mas o filme pode servir como alegoria pra vida. Direção: Erico Rassi. Ano: 2017.

FALA COMIGO

Filme simples, eficiente, com ideias boas e um trabalho de atuação muito bom. E usando poucos recursos, poucas locações. Pra fazer cinema bom não precisa de muito dinheiro. Começou bem na direção de longas o Felipe Sholl. O filme conta a história do relacionamento de um rapaz de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Ano: 2017.

terça-feira, maio 01, 2018

HOMELAND - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Homeland - The Complete Seventh Season)

HOMELAND está para os anos 2010 como 24 HORAS esteve para os anos 2000. São duas séries que lidam com um herói (agora uma heroína) que enfrentam algo relacionado a terrorismo. No caso desta terceira temporada de HOMELAND (2018), Carrie Mathison (Claire Danes) se aproximou mais ainda de Jack Bauer, pelo seu sacrifício em prol daquilo em que acredita. Se bem que não é tão simples assim. A personagem é um tanto viciada em adrenalina e não tem muita paciência de ficar em casa cuidando da filha. Por mais que queira pensar o contrário.

O grande trunfo desta sétima temporada é que ela é uma continuação direta da sexta, mas consegue ser muito mais eficiente nas subtramas, na criação de momentos memoráveis e também na maior valorização da protagonista. Há um segundo episódio fantástico, "Rebel Rebel", em que Carrie enfrenta um hacker que invade seu computador e faz chantagem. A temporada não consegue superar o grau de impacto, de suspense e de empolgação que este episódio traz.

No geral, a trama principal gira em torno das dificuldades da presidenta Keane (Elizabeth Marvel) de se mostrar forte diante de tantos inimigos. Ela chega ao ponto de prender centenas de pessoas que ela acredita serem inimigos potenciais. Entre eles Saul Berenson (Mandy Patinkin), o segundo personagem mais importante da série, amigo pessoal de Carrie e com uma experiência invejável no campo da espionagem dentro da CIA. Sua mudança para o time da Presidente Keane é um tanto rápida demais, mas serve também para trazer dúvida com relação à sanidade mental de Carrie, que está enfrentando uma dificuldade grande em lidar com sua família - a filha pequena, a irmã e o cunhado.

Sim, a questão da doença de Carrie é mais uma vez explorada com força nesta temporada. Trata-se de algo importante demais para a constituição da personagem para que seja ignorado. Desta vez, ela começa a acreditar que o lítio, que ela toma há vários anos, pode não mais estar surtindo o efeito desejado, que ela poderia estar perdendo a noção da realidade. E isso a incomoda bastante. Mas não faz com que ela pare com as aventuras, principalmente quando é encorajada pelo agente do FBI Dante Allen (Morgan Spector). A função de Dante será de vital importância para uma outra subtrama envolvendo traição envolvendo espiões russos.

A entrada dos russos na história até parece um pouco manjada, levando em consideração tantas tramas feitas durante o longo período da Guerra Fria, mas o fato é que os russos voltaram a ter atrito com os Estados Unidos recentemente, devido à situação na Síria, e HOMELAND sempre está em sintonia com o que está acontecendo no plano político mundial. Bom para a série, que dará adeus aos fãs na oitava e última temporada no próximo ano. Espero muito que eles encerrem tão bem quanto começaram.

+ DUAS SÉRIES

THE SINNER

Bela minissérie que conta com ganchos bem bons, que convidam a gente a querer ver com avidez cada próximo episódio. E a entrar cada vez mais nos mistérios do passado da protagonista (Jessica Biel), que comete um crime bárbaro e não se sabe o motivo. Muito bom o aspecto amoroso e obstinado do policial vivido por Bill Pullman. Pena que as questões dele na minissérie não ganhem muita força. Até porque o interesse maior mesmo é pela Biel. No final, que eu achei que ia me decepcionar, acabei me emocionando e achando bem catártico, apesar de ter algo de anti-clímax mesmo. Mas não vejo isso como um problema. Até porque a própria minissérie tem um ritmo meio irregular. Criador: Derek Simon.

O MECANISMO

A primeira impressão, do piloto, é de que é uma série muito ruim, no sentido de texto, de dramaturgia etc. mesmo. Depois do segundo episódio, a impressão melhora, até porque a Caroline Abras assume o protagonismo e essa menina é fantástica. É muito mais fácil comprar o papel dela de delegada do que o papel do Selton Mello, que além de tudo parece que fala com um ovo na boca. O personagem dele lembra o de Carrie Mathison, de HOMELAND, tanto pela doença quanto pela obsessão e inteligência. Mas está longe de ser tão bom e quando ele sai de cena a série só melhora. A brincadeira em torno dos nomes muitas vezes óbvios das pessoas públicas envolvidas na Lava Jato até que é divertida, mesmo a série às vezes agindo meio que de forma irresponsável, mas é bem melhor que o filme POLÍCIA FEDERAL. Criadores: José Padilha e Elena Soárez.

sexta-feira, abril 27, 2018

VINGADORES - GUERRA INFINITA (Avengers - Infinity War)

Dez anos depois da estreia dos Estúdios Marvel com HOMEM DE FERRO (2008) e passados quase duas dezenas de produções, muitas delas arriscadas, como filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como Doutor Estranho, Pantera Negra, Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, eis que a Marvel chega a um dos pontos mais aguardados desde sua criação: um grande épico envolvendo quase todos os personagens apresentados ao longo desses anos.

VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018), de Joe e Anthony Russo, representa muito mais do que o primeiro filme dos Vingadores. Aqui está em jogo não apenas dar conta de uma aventura de ação com alguns super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby, como foi o caso do trabalho de Joss Whedon, mas costurar um universo cinematográfico já gigantesco e com o pano de fundo dos quadrinhos de Jim Starlin. Foi ele quem criou Thanos, o mais fascinante vilão do estúdio até então. Thanos aparece aqui interpretado por um Josh Brolin quase irreconhecível, mas sem perder as nuances da interpretação.

E o filme não demora para apresentá-lo. A primeira cena de VINGADORES - GUERRA INFINITA já traz uma angustiante disputa do vilão em Asgard, contra Thor, Loki e outros deuses nórdicos. Sua intenção lá é capturar uma das joias do infinito. Uma vez que ele consiga todas as joias, espalhadas por vários pontos do universo, ele conseguirá o seu intento, de proporções apocalípticas. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é saber dar uma motivação inteligente para o vilão.

É curioso perceber que alguns dos trabalhos mais recentes da Marvel/Disney, como GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 , HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR e THOR - RAGNAROK, tinham um pé bem fixo na comédia. E nem todo mundo se envolve com o humor típico da Marvel, muitas vezes afetado, outras vezes excessivamente inofensivo, o que também pode ser um problema.

Mas o grande barato desta reunião é que ela sabe aliar o humor, principalmente quando Thor tem o encontro com os Guardiões da Galáxia, mas principalmente quando a narrativa assume seu aspecto mais sombrio. Afinal, estamos falando de um vilão que é para ser levado muito a sério, e que logo na primeira cena já mostra a que veio, embora cenas posteriores possam aprofundar ainda mais sua dimensão complexa, inclusive em um flashback de Gamora (Zoe Saldana).

VINGADORES - GUERRA INFINITA é bem articulado em blocos, com sequências que se passam em diferentes lugares do universo, sendo que um ou outro bloco tem uma ligação direta entre si, caso do bloco que traz Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) de Asgard para a Mansão do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) na Terra. O bom domínio narrativo dos irmãos Russo é essencial para que o público não se incomode com a duração um tanto longa do filme.

Já o elenco é um luxo que só uma superprodução dessas é capaz de bancar (ter um ator como William Hurt em praticamente uma ponta é um exemplo disso). Embora nem todos os personagens sejam bem aproveitados (o Homem-Aranha é um deles), é fácil pensar que seria impossível dar conta de todos eles de maneira mais aprofundada. Apenas certos heróis que guardam maior relação com a trama principal têm seu potencial dramático melhor explorado, como é o caso de Thor (Chris Hemsworth), Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Visão (Paul Bettany), Senhor das Estrelas (Chris Pratt), Gamorra e, claro, o grande vilão. Mesmo o Pantera Negra (Chadwick Boseman) funciona mais para ter Wakanda como um excelente campo de batalha. É lá que algumas das mais envolventes e emocionantes cenas acontecem.

Está havendo uma preocupação muito válida nas redes sociais para que as pessoas não contem o final da história. A essa altura ainda é possível escapar dos tais spoilers. Por isso é interessante que o filme seja visto o quanto antes, pois as surpresas são realmente inesperadas. Acontecimentos guardados para o final são fundamentais para que VINGADORES - GUERRA INFINITA faça a diferença dentre as demais produções da Marvel.

+ TRÊS FILMES

RAMPAGE - DESTRUIÇÃO TOTAL (Rampage)

É possível se divertir com este filme de monstros gigantes destruindo geral. Até por não se levar a sério. Mas acredito que RAMPAGE se beneficiaria muito de uns 10 a 15 minutos a menos. Chega uma hora que o show de efeitos especiais (às vezes ruins) cansa. Podia ter se assumido como um filme menor ainda. Melhor cena: uma que envolve Malin Akerman. Quanto ao Dwayne Johnson, não dá pra esperar muita coisa dele, mas acho pior ver o Jeffrey Dean Morgan com os mesmos cacoetes do personagem que ele faz em THE WALKING DEAD. Direção: Brad Peyton. Ano: 2018.

A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER (Winchester)

Todo mundo tem boletos a pagar. Inclusive Helen Mirren. E até que o argumento e a ideia deste filme não são ruins. Mas tanto o roteiro quanto a realização são ruins demais. Um dos filmes de terror mais chatos que eu já vi na vida. Lembram de A NOIVA, aquele filme russo que todo mundo desceu a lenha? Pois é. Aquele filme é muito mais interessante, sabe explorar muito mais a geografia de uma casa assombrada e tem momentos mais interessantes do ponto de vista do horror do que esse aqui, todo chique e com figurino e direção de arte bonitos. Direção: Peter e Michael Spiering. Ano: 2018.

PEQUENA GRANDE VIDA (Downsizing)

Tenho meus problemas com o filme na maneira como ele tinha infinitas possibilidades de trabalhar com o assunto e acaba não fazendo muita coisa em uma narrativa um tanto aborrecida de mais de duas horas de duração. Mas ficam boas lembranças, a boa ideia e o clima agridoce da narrativa. Direção: Alexander Payne. Ano: 2017.

quarta-feira, abril 25, 2018

CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE

A obra de Nelson Pereira dos Santos, morto em 21 de abril último, é admirável não apenas por sua construção e descontrução dos códigos e convenções do que se fazia no cinema brasileiro - como quando ele mostrou pela primeira vez o favelado do jeito que era de verdade em RIO, 40 GRAUS (1955), com sua tradução exemplar de um clássico da literatura, VIDAS SECAS (1963), ou outros tipos de experimentações, como QUEM É BETA? (1972).

Mas a questão que me traz aqui em relação a CASA-GRANDE & SENZALA DE GILBERTO FREYRE (2001) é lembrar o quanto somos devedores de um cineasta que também foi bastante preocupado em contar a História do Brasil através dos filmes. Nesta minissérie feita para a televisão, por exemplo, somos transportados para uma espécie de aula até que bastante didática sobre a nossa História, o nosso povo, uma obra literária e antropológica essencial.

Demora um pouco para nos acostumarmos com o tom de aula de "Telecurso 2º Grau", mas uma vez acostumados com essa opção de dramaturgia, a viagem é de um prazer difícil até de explicar. Temos a chance de assistir a uma aula de um excelente professor, no caso, o Prof. Edson Nery da Fonseca, que nos quatro capítulos em que é dividido o documentário, faz uma mediação entre o espectador e a obra fundamental de Freyre.

Os quatro capítulos recebem os seguintes nomes: Gilberto Freyre - O Cabral Moderno; A Cunhã, Mãe da Família Brasileira; Português, o Colonizador dos Trópicos; e O Escravo na Vida Sexual da Família Brasileira. São, como dá para perceber pelos títulos, dedicados ao próprio Freyre, ao papel mais especificamente da índia, ao português e ao negro. Mais ou menos similar à estrutura que Freyre utiliza para o seu livro.

O primeiro capítulo é bastante revelador de quem foi Gilberto Freyre, sua infância, sua educação em escolas e universidades americanas, seu interesse e paixão pela formação do povo brasileiro etc. O segundo é mais uma porrada em forma de capítulo, ao mostrar como foi a abordagem dos portugueses e sua diferenciação em relação aos norte-americanos, que não se misturaram aos nativos. Ao contrário deles, os portugueses se misturaram e adoraram fazer sexo com as índias. Povoar aquele espaço, inclusive, fazia parte do plano de dominação. As índias também gostavam muito dos portugueses. Mas o que é triste mesmo é ver os maus tratos, o abandono, a chacina e a cena final.

O terceiro capítulo nos leva até Portugal e vai buscar as origens dos portugueses de antes do descobrimento, quando já eram um povo mestiço, com fortes influências dos mouros. É o episódio menos impactante, mas nem por isso menos gostoso de assistir. O quarto episódio, por sua vez, é o mais revelador do título do livro, pois professor e aluna dialogam sobre a rotina de como funcionava a relação entre os senhores e seus escravos. Uma relação baseada em sadismo, masoquismo, transmissão de doenças (sífilis, principalmente), um pouco de dose de generosidade (em comparação com os senhores de escravos americanos, que não deixavam os negros professarem suas danças, costumes e crenças) e também se fala sobre o misticismo.

Enfim, falar sobre este documentário de Nelson Pereira dos Santos pra quem ainda não viu é só dar um gostinho do que o espectador pode experimentar. E lembrar mais uma vez o quanto somos devedores desse cineasta tão cheio de amor por nossa História, nossa cultura e nossa gente, e que, durante sua longa trajetória, contou essa nossa História das mais variadas maneiras. Sorte nossa. Nunca haverá um cineasta como Nelson Pereira dos Santos.

+ TRÊS FILMES

MEU CORPO É POLÍTICO

É um filme simples e que nos conquista aos poucos, cujos personagens vão ganhando força à medida que eles vão se incorporando a um todo coeso. No começo, não parece ser. E no começo me incomodou um pouco o discurso muito direto, quase didático, em especial de um personagem transexual. Direção: Alice Riff. Ano: 2017.

A LUTA DO SÉCULO

Incrível como não sabia nada nem do filme nem dos lutadores. E é até melhor assim, pois as surpresas são maiores. Dá pra rir e dá pra ficar comovido com a história desses homens que passaram a vida se odiando e tendo a chance de ir ao ringue diversas vezes. Direção: Sergio Machado. Ano: 2016.

PAULISTAS

Dentro da categorias desses documentários que tencionam borrar a linha com a ficção, este é um dos que menos me agradou e o que mais parece não ter dito a que veio. Se é para ser um retrato de um espaço de abandono dos jovens e de desolação, o que trouxe pra mim foi só tédio. Melhor rever RIFLE, que tem alguma semelhança e é muito mais bem-sucedido nesse quesito. Direção: Daniel Nolasco. Ano: 2018.

domingo, abril 22, 2018

SUBMERSÃO (Submergence)

Provavelmente o último bom filme de ficção de Wim Wenders tenha sido O CÉU DE LISBOA (1994). E ainda assim não é uma unanimidade. Já nessa época sua carreira estava sendo vista como em declínio. E de fato estava. O que tem salvado sua carreira atualmente são seus documentários. O último, O SAL DA TERRA (2014), sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, é uma beleza. É triste testemunhar a decadência de um dos mais importantes cineastas de sua geração, a geração dos novos nomes do cinema alemão surgida no final dos anos 1960.

Mesmo assim, aceitando que o que temos é apenas a sombra do que foi o diretor de PARIS, TEXAS (1984), é possível enxergar neste novo trabalho, SUBMERSÃO (2017), pontas de paixões e obsessões que são muito bem trabalhadas num todo irregular. Mas é muito melhor se apegar ao que há de positivo no filme do que no que há de negativo. Até porque o que há de positivo é muito bom de ver.

Refiro-me ao modo como o filme trabalha a construção do relacionamento da bióloga marinha Danielle Flinders (Alicia Vikander) e o espião britânico James More (James McAvoy). Ele não informa a ela sua verdadeira ocupação. Diz que é um engenheiro. Eles se conhecem e se apaixonam em uma espécie de hotel de luxo à beira-mar. E o que há de mais sólido no filme é justamente esses momentos em que os dois estão juntos e se conhecendo.

Wim Wenders é feliz em tornar crível cada momento de aproximação dos dois, cada detalhe dos diálogos, do quanto cada momento é importante (em certa cena, ela fala de uma marca de expressão que ele tem, enquanto se tocam; ele diz que vai se lembrar disso). E, de fato, a separação dos dois, para ambos irem a missões perigosas, à sua maneira, é um tanto dolorosa, mas é também enternecedora.

Os obstáculos que funcionam como um elemento de motivação e torcida por parte do espectador só se estabelecem por causa desse ponto de partida. O primeiro beijo dos dois é muito gostoso de ver. Por isso os instantes de separação, quando ele é sequestrado por um grupo jihadista e fica sem comunicação com ela, são dolorosos. Há quem vá achar o filme tedioso ou até insuportável.

E isto não é nem novidade para uma obra contemporânea de Wenders. Mas é possível sim entrar no clima de SUBMERSÃO, naquele misto de tristeza pela separação e de alegria pelo apego à recordação. Se a parte mais existencialista, científica e metafísica do filme não conseguem atingir o que almejam, a gente pode dar sim um desconto.

Quanto às belas imagens, trata-se da terceira parceria de Wenders com o diretor de fotografia Benoît Debie. Os anteriores foram em TUDO VAI FICAR BEM (2015) e OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ (2016).

+ TRÊS FILMES

COM AMOR, SIMON (Love, Simon)

A própria frase que vende o filme já diz tudo: todo mundo merece uma grande história de amor. Então, o que temos aqui é uma tradicional comédia romântica estudantil, com apenas uma diferença: é a história de um rapaz gay com dificuldade de sair do armário. A gente sofre um pouco com ele esse processo e nisso talvez esteja o grande mérito do filme. Além do mais, todos os personagens são simpáticos. Talvez só tenha me incomodado com uma visão muito otimista do mundo, não sei. Direção: Greg Berlanti. Ano: 2018.

OPERAÇÃO RED SPARROW (Red Sparrow)

Muito melhor do que andaram dizendo por aí. Gostei mais do que de ATÔMICA, mesmo sabendo que as propostas são diferentes. Mas ao menos este dá pra se envolver no drama da protagonista. E o filme deve muito à Jennifer Lawrence. A força dela é que impulsiona a produção, não a direção qualquer coisa do xará de sobrenome. Duas cenas eu acho massa: uma de sexo e uma de violência.. São cenas que se destacam dentro de uma obra mais para mediana. Direção: Francis Lawrence. Ano: 2018.

CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed)

Incrível como uma franquia consegue descer uma ladeira mais abaixo do que já estava. Imaginem se fizessem mais filmes. O que sairia. Sabemos que o principal problema é a fonte e que diretor nenhum conseguiria dar jeito estando tão amarrado ao texto original tosco. Enfim, dureza. A única vantagem de eu ter visto o filme sozinho numa sala em uma sessão que terminou depois da meia noite é que não precisei encarar os olhares constrangidos de ninguém. O shopping, aliás, parecia cenário de O DESPERTAR DOS MORTOS. O que é até uma coisa legal, sei lá. Direção: James Foley. Ano: 2018.

quinta-feira, abril 19, 2018

CABO DO MEDO (Cape Fear)

Não sei onde eu estava com a cabeça na época em que deixei de ver nos cinemas CABO DO MEDO (1991). E olha que eu já tinha saído de uma experiência inenarrável após a sessão de OS BONS COMPANHEIROS (1990). Só podia estar passando por algum momento muito delicado, não sei dizer. O fato é que, na época, só vi este remake espetacular dirigido por Martin Scorsese em VHS. E mesmo assim foi um impacto gigante. Mas se eu não me engano o filme não era bem uma unanimidade na época. Havia gente que achava muito comercial, se não me engano.

A releitura de CABO DO MEDO agora, desta vez respeitando a janela original e em uma ótima cópia ripada de um blu-ray, se deveu a uma brincadeira nova do pessoal do Cinema na Varanda, que está fazendo um novo quadro mensal dedicado à discussão de clássicos. O escolhido do mês de abril foi este filme estrelado por Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis.

CABO DO MEDO foi a sétima colaboração entre Scorsese e o seu então ator-fetiche De Niro. Uma colaboração das mais belas da história do cinema. Já Nick Nolte, havia trabalhado com o cineasta no segmento "Lições de Vida", de CONTOS DE NOVA YORK (1989). A caracterização dos dois personagens chega à perfeição, levando em consideração que ninguém se importe com o nível de intensidade que o filme prefere adotar. Nas cores, nas interpretações, na trilha sonora, na violência etc.

O embate dos dois personagens lembra muito o de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Aliás, todo o filme parece uma grande ode ao mestre do suspense, com uma homenagem explícita a PSICOSE, na cena da cozinha. O que é aquele momento, meus amigos? A própria trilha sonora é de Bernard Herrmann (do filme original), o que dá um tom hitchcockiano especial. Scorsese lida com todas as ferramentas cinematográficas de maneira tão genial que, naquele momento, era difícil não dizer que estávamos diante do maior cineasta americano vivo.

Toda a sequência que antecipa a tal cena da cozinha, com a tentativa de fazer uma armadilha para o ex-presidiário e estuprador é de uma tensão tão grande que jamais imaginaríamos que essa tensão se potencializaria na sequência do barco, quando o filme se encaminha para o seu grandioso desfecho.

Há sequências em que o uso de recortes para simular a profundidade de campo lembra bastante os trabalhos do colega de geração Brian De Palma. E há uma cena em especial que a música fica um pouco de lado para que possamos quase parar de respirar: caso da cena do primeiro encontro de Max Cady (De Niro) com a jovem e inocente Danielle (Juliette Lewis). A cena tem um misto de tensão, perigo, sensualidade e proibição que jamais imaginaríamos nos dias de hoje. Aliás, no ano seguinte, a própria Juliette apareceria beijando Woody Allen no também memorável MARIDOS E ESPOSAS. Ou seja, não faltava exploração da sensualidade da estrela adolescente na época.

CABO DO MEDO é um produto de sua época, mas talvez justamente por isso tenha envelhecido tão bem, tenha adquirido essa aura de clássico, ainda mais com tanta homenagem à velha Hollywood. Um filme que também possui a arte de deixar o nosso sangue intoxicado. Digo isso como elogio. E olha que não exaltei as qualidades formais da obra, que são imensas.

+ TRÊS FILMES

ÓDIO

Um dos filmes mais singulares da história do cinema brasileiro. Tem uma elegância impressionante na direção, na mesma maneira como também não se importa em mostrar os excessos que a própria história precisa contar. Certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Projeto pessoal e muito querido do Carlo Mossy. Ano: 1977.

FITZCARRALDO

Lembro de ter começado a ver este filme e não ter prosseguido numa exibição na televisão. Com a cópia restaurada, surgiu a chance de ver no cinema. Está longe de ser dos meus favoritos do Werner Herzog, mas não deixa de ser admirável em sua construção e sua ambição. Quem teria bancado um filme desses? Ano: 1982.

QUADRILHA MALDITA (Day of the Outlaw)

Que maravilha de filme, hein! Uma espécie de OS OITO ODIADOS que deu certo. Acho que Tarantino bebeu muito da fonte deste filme pra construir o seu ambicioso projeto. André De Toth é mestre e o seu filme é do mesmo ano de outro western muito especial, o RIO BRAVO, do Hawks. Ano: 1959.

domingo, abril 15, 2018

SEVERINA

Impressionante como as histórias de amor não se esgotam e se reinventam, passados tantos séculos. No caso de SEVERINA (2017), retorno de Felipe Hirsch à direção de cinema depois de um relativamente longo hiato, temos a história de amor de uma livreiro e uma ladra de livros em uma cidade do Uruguai. Ele (Javier Drolas), cujo nome nunca é citado ao longo da narrativa, talvez tenha deixado aquela moça bonita roubar os livros por ela ser bonita. Na terceira vez, no entanto, ele não deixa passar. Até porque ele também tem interesse em conversar e saber quem é aquela jovem mulher, vivida por Clara Quevedo.

Ela afirma se chamar Ana, mas nunca sabemos se é mesmo esse o verdadeiro nome. Um dos fortes atrativos da moça está no seu mistério. É pelo mistério que o livreiro se vê cada vez mais enredado em seus quereres, e é pela obsessão que ele sente por ela que ele se vê capaz de fazer algo inimaginável. O amor está associado fortemente ao perdão nesta espécie de fábula que tem o sabor de um ótimo livro, desses que a gente faz questão de fazer anotações, marcar os trechos mais interessantes. Há diversos momentos no filme em que queremos dar uma pausa para fazer anotações, guardar certos diálogos ou mesmo citações. SEVERINA, inclusive, já começa com uma inquietante epígrafe de Williams Carlos Williams.

O prazer da palavra também está presente no uso do recurso da voice-over, acentuando o sentimento de melancolia do narrador. A narração é bem-vinda, até por trazer ideias muito boas para dar força a esse delírio amoroso. Como é o caso de quando o narrador diz que a vida de um indivíduo é formada por coisas reais, coisas simples e coisas fantasmas. As coisas reais seriam aquelas coisas de grande valor e pouco frequentes na vida da pessoa, as coisas simples são as coisas rotineiras e as coisas fantasmas seriam aquelas terríveis, como a febre, dores e decepções terríveis.

A divisão da narrativa por capítulos também se constitui em mais um namoro do cinema com a literatura no filme, que pela própria história já seria óbvio. Os nomes dos capítulos que os antecipam fornecem um misto de suspense e humor que traz não só um ar de espirituosidade à obra, mas também um sentimento de surrealidade, à medida que os gestos de amor do livreiro por Ana vão se intensificando. E intensificam também o nosso interesse e respeito por SEVERINA, uma das melhores surpresas do cinema brasileiro recente.

+ TRÊS FILMES

ZAMA

Acho que nunca um filme me causou tanto mal estar e tanta náusea. Talvez eu já estivesse predisposto a esse sentimento, mas o filme aumenta isso. Se é a intenção mesmo de Martel (acho que é), parabéns. Mas nunca mais quero ver este filme de novo. Ainda assim, só não o considero ruim pelo modo como a diretora encena. Mas sei lá se isso não é só pra parecer diferente. Direção: Lucrecia Martel. Ano: 2017.

A LIVRARIA (The Bookshop)

Um filme que é simpático por sua vontade de exaltar os livros e ao trazer personagens interessantes, mas que falha em muitas coisas. O que temos é a impressão de que houve falha na adaptação do romance. O personagem do Bill Nighy é um achado. Certamente no romance deve ser fascinante ou próximo disso. Mas infelizmente fica tudo raso no resultado final. Direção: Isabel Coixet. Ano: 2017.

A NOIVA DO DESERTO (La Novia del Desierto)

Acho que me faltou mais identificação ou proximidade com os personagens para que eu me interessasse pelo romance deles. Mas gosto de como há momentos em que a atmosfera é bem captada, como na cena da tempestade, ou nas várias vezes em que o filme respira bem entre as falas dos protagonistas. Direção: Cecilia Atán e Valeria Pivato. Ano: 2017.

quarta-feira, abril 11, 2018

GUERRA CONJUGAL

Tenho lamentado muito a falta de atualizações do blog. Isso tem ocorrido em parte por causa de um cansaço que tomou conta de mim e que parece ir além da esfera física, em parte por este espaço ter ficado abandonado por leitores, em parte porque não tenho conseguido encontrar tempo para a atualização sem que eu fique com dor na consciência também em não estar fazendo outras coisas que são mais urgentes. Tempos difíceis.

Estou começando assim, mais uma vez em primeira pessoa, como nos primórdios do blog, falando um pouco por cima de meus problemas, para arrancar o texto que ainda não sei como sairá. A lista de filmes vistos e não escritos, aliás, é tão imensa que chega a dar tristeza. Mas aproveitemos este momento agora para escrever sobre um deles. O escolhido é GUERRA CONJUGAL (1974), de Joaquim Pedro de Andrade, um dos filmes que mais me deu prazer de ver nos últimos meses.

Só a cena que mostra o personagem do advogado vivido por Lima Duarte recebendo uma jovem em seu escritório já torna o filme muito especial. Mesmo levando-se em consideração o fato de ser um trabalho de um de nossos melhores realizadores. Não consigo pensar em outro título melhor do cineasta do que este, pelo menos não do ponto de vista do prazer narrativo. |

Acompanhamos em GUERRA CONJUGAL histórias em bloco de quatro personagens: o já citado advogado vivido por Lima Duarte; o casal de velhinhos vivido por Joffre Soares e Carmem Silva; e o cafajeste Nelsinho, vivido por Carlos Gregório. O filme certamente nos dias de hoje seria bastante problematizado, até pelo modo como a questão do assédio é tratado com leveza e humor, embora as mulheres não sejam nada bobas aqui.

O filme começa com o personagem de Joffre Soares acordando no meio da noite, reclamando que está se sentindo mal para a mulher. Ele teme morrer antes da esposa, por quem nutre uma relação de amor e ódio. Em seguida, vemos a tal cena do advogado tarado e aproveitador. Já Nelsinho, tem como grande destaque a cena em que está namorando uma moça perto da avó cega dela. Detalhe: a jovem está praticamente nua enquanto falam com a senhora idosa.

As linhas narrativas são mostradas em blocos, adaptando 16 contos extraídos de sete livros de Dalton Trevisan. Daí o texto ser tão bom quanto o trabalho de cenografia. Joaquim Pedro de Andrade consegue extrair beleza de espaços muito pobres, como a casa do casal de velhos, com um trabalho de cores que está sendo valorizado pela nova cópia remasterizada.

Pena que o filme poderia ser mais longo e ainda mais ousado se não tivesse sido vítima da censura da época, que o liberou com cortes para maiores de 18 anos, afirmando que era uma obra que afrontava as instituições familiares.

+ TRÊS FILMES

MUITO PRAZER

Custei a acreditar que MUITO PRAZER foi feito depois de LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA (1971). Demorou demais o David Neves a fazer outra belezura. E é um filme bem diferente do anterior, é mais uma crônica, mas é também bem interessado na alma feminina. Otávio Augusto talvez tenha aqui o melhor papel de sua carreira, e Ítala Nandi e Antonio Pedro também estão excelentes. Ano: 1979.

XICA DA SILVA

Ficou linda a restauração deste filme de Carlos Diegues. Com as cores vivas e belas como devia ser na época de seu lançamento. Não sou tão fã da protagonista e às vezes até acho o filme meio aborrecido, mas gosto muito a partir da chegada do personagem do José Wilker. Se bem que Walmor Chagas também passa uma nobreza admirável a seu personagem. É o filme que anteciparia as duas obras-primas de Diegues, CHUVAS DE VERÃO (1978) e BYE BYE BRASIL (1980). Melhor do que isso ele não ficaria. Ah, e é muito legal ver a Elke Maravilha linda, antes de chegar aos 30. Ano: 1976.

A GRANDE CIDADE OU AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE LUZIA E SEUS 3 AMIGOS CHEGADOS DE LONGE

Outro belo filme dentro da filmografia irregular de Diegues. O que mais se destaca é a câmera do Dib Lutfi, que faz do Rio de Janeiro um personagem grande na história. Antonio Pitanga também está ótimo e a cena final da Anecy Rocha é impactante. Tinha-a visto em CINEMA NOVO, do Eryk Rocha, e já achado bem forte. Já o papel do Leonardo Villar é um pouco fraco. Ano: 1966.

quarta-feira, abril 04, 2018

MADAME

Há filmes que se constituem em tão boas surpresas que simplesmente lamentamos o fato de que serão obras pouco vistas ou descobertas por uma audiência maior, mesmo uma audiência acostumada a ver bons filmes no cinema ou em casa. É o caso da comédia MADAME (2017), segundo longa-metragem da cineasta francesa Amanda Sthers.

A visibilidade mínima desta obra muito se deve à presença de um belo elenco internacional, que já chama a atenção no próprio cartaz, que traz a australiana Toni Collette, o americano Harvey Keitel e a espanhola Rossy de Palma, cujo rosto expressivo remete a trabalhos de Pedro Almodóvar, embora ela só tenha aparecido em cinco de seus filmes. Como se já não bastasse um trio como esses, há um ótimo elenco de apoio também em MADAME.

A história se passa em Paris, na casa de um casal de americanos que vive em uma pomposa mansão. A matriarca, Anne Fredericks (Toni Collette), prepara um jantar especial para convidados e tem um quadro de Caravaggio para negociar com um dos presentes. Ela não esperava que o filho fosse aparecer e, supersticiosa que é, não quer que na mesa tenham treze pessoas. Assim, ela tem como solução colocar a governanta da casa, uma senhora de modos simples e pouco requintados, Maria (Rossy de Palma), entre os convidados. Para não dar na vista, Maria deve permanecer calada e comer pouco durante o jantar.

Se o filme já começa com uma cena bela de Anne com o marido Bob (Keitel) pedalando pelas ruas de Paris, ele vai se mostrando melhor ainda com os preparativos e com a cena do jantar em si, que é narrada sem pressa e destacando cada pessoa presente na mesa, revelando tanto casos amorosos extraconjugais como o rápido interesse de um homem de negócios pela enigmática Maria. Boas piadas não faltam e é impressionante como o filme não se esforça para que o humor funcione de maneira bem natural.

Por mais que MADAME denuncie as diferenças de classes e o modo como a empregada deve se portar, de acordo com as regras rígidas da patroa, não há uma intenção em tornar a rica dona da casa em uma vilã, mas também uma mulher insegura. Afinal, ela não faz sexo com o marido (bem mais velho que ela) há algum tempo e agora vê a empregada feliz e tendo uma aventura amorosa. Anne dá suas escapadas, mas isso não é o suficiente para que ela se sinta especial dentro daquela situação inesperada. Mesmo a narrativa transitando pelas histórias pessoais dos três personagens principais, é graças a Maria que a trama ganha força e maior interesse.

Para completar, há uma sensibilidade muito especial que a diretora imprime, trazendo dignidade e afetividade para Maria, que, depois de tanto tempo, tem a possibilidade de viver um grande amor, e não apenas ficar trabalhar de doméstica para poder pagar os estudos da filha, que mora na Espanha. Além do mais, o modo como o filme se encerra é também de uma beleza admirável. MADAME certamente não traz inovações no campo formal, mas acerta em tudo que tenciona.

+ TRÊS FILMES

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express)

Filme bonito de ver, mas maçante pra caramba de asssistir. Eu já não sou muito fã dessa coisa de whodunit, e do jeito que o Branagh fez não me entusiasmou nenhum pouco. Queria saber dos fãs da Agatha Christie. O Branagh, ele curte texto e também curte imagem, mas infelizmente está fora de forma faz muito tempo. Ao menos, ele rendeu um bom Poirot. Direção: Kenneth Branagh. Ano: 2017.

PATTI CAKE$

Filme que quer enganar posando de indie, mas é pior do que muito filme sobre superação e luta produzido com muito dinheiro. Achei fracos os momentos dramáticos, as músicas, o modo como o diretor quer que a gente sinta empatia pelos personagens, e até o senso de humor. Esperava mais. Direção: Geremy Jasper. Ano: 2017.

BONECO DE NEVE (The Snowman)

Não esperava que o filme fosse tão chato e tão desarticulado. Nem a montadora do Scorsese salvou esse aqui. Chega um momento em que eu não quero mais saber quem é o assassino. Só quero que acabe logo. Não sei se foi falha na hora de adaptar ou se o livro já era vagabundo mesmo. Tem cara de ser, não sei. Mas grandes diretores tiram grandes filmes de livros vagabundos, que o diga Hitchcock. Direção: Tomas Alfredson. Ano: 2017.

sábado, março 31, 2018

I LOVE YOU, DADDY

Eis um filme que não poderia ter sido feito em pior momento. Na verdade, do jeito que Louis C.K. narra a sua história de um pai que quer dar o melhor para sua filha adolescente, mas que se vê diante de uma situação complicada, fica a dúvida se ele queria provocar ou se estava sendo ingênuo ao abordar uma questão um tanto delicada dessas, por mais que, ao final, percebamos que I LOVE YOU, DADDY (2017) é uma espécie de conto moral.

O que acabou deixando o filme com fama de maldito (e proibido também, no caso) foi a repercussão negativa em torno das acusações de assédio sexual cometidas pelo diretor, ator e comediante. Talvez ele tenha sido mais vítima de suas taras (que envolviam ele gostando de se masturbar na frente das mulheres), não um monstro como foi Harvey Weinstein, esse sim um estuprador e manipulador que merece o desprezo da indústria e até a cadeia.

No caso de I LOVE YOU, DADDY, que só pode ser visto em cópia vazada na internet, Louis C.K. interpreta um roteirista de televisão que está passando uma temporada com a filha adolescente China (Chlöe Grace Moretz). A garota gosta de dizer que ama o pai, até porque o pai costuma satisfazer suas vontades. Como ir passar uma temporada com um grupo de outros adolescentes, fazendo só Deus sabe o quê. Em uma de suas primeiras cenas, Chlöe aparece muito à vontade de biquíni na casa do pai, enquanto ele conversa com o colega de trabalho. O fato de ela estar de biquíni nem deveria representar nada de mais do ponto de vista do erotismo, mas isso depende de quem vê o filme.

No entanto, não é a isso que I LOVE YOU, DADDY se apega. A verdadeira trama do filme surge quando a filha conhece um famoso cineasta veterano acusado de estupro e pedofilia. O sujeito é vivido por John Malkovich. Inicialmente, ela diz odiar o tal diretor, mas à medida que vai conversando com ele, começa a aproximação e posterior paixão. Por ele ser tão mais velho que ela, e ela ainda não ter completado 18 anos, a coisa fica mais delicada para o pai da garota, que se vê na tentativa de afastar a filha daquele velho tarado.

E o interessante é que Malkovich não faz muitos esforços. Ele apenas faz o papel habitual de personagem blasé e com uma boa dose de autoconfiança. Meio que uma variação do que ele já fez em outros filmes. Há outra subtrama que merece menção, que é a da personagem de Rose Byrne, uma atriz linda (e grávida) que ganha o coração do roteirista para ser a personagem principal de sua série. Quanto ao personagem de Malkovich, o curioso é que se a intenção de C.K. era  mesmo dar uma alfinetada em Woody Allen, o tiro saiu pela culatra.

sexta-feira, março 30, 2018

DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (Un Beau Soleil Intérieur)

Há uma cena de DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR (2017) em que uma já cansada e sofrida Isabelle (Juliette Binoche) está em um táxi e pergunta ao motorista se ele está bem, como ele está se sentindo, quer, sinceramente, também saber dele. Tanto para saber do sofrimento alheio e quem sabe entender um pouco o seu, quanto para, talvez, se sentir menos sozinha ou mesmo encontrar alguma forma de alento. Esta é uma das mais belas, tristes e poéticas cenas do filme, embora seja também uma das mais simples. Precisa ser vista dentro do contexto dos acontecimentos anteriores para que seja melhor sentida.

No começo deste novo trabalho de Claire Denis, Isabelle, a heroína da narrativa, conversa de maneira bem pouco natural sobre seu drama, a dificuldade de encontrar alguém para amar, quase como se fosse um musical sem atores cantando. Na primeira cena do filme ela está transando com o amante, um homem casado, um banqueiro um tanto cínico. Ela é uma artista plástica que vive uma vida de menos posses para esbanjar, por isso o homem em certo momento a chama de proletária.

Mas a questão do dinheiro nem é um elemento forte do filme, não. O mais importante é a busca pelo amor, uma busca que esbarra constantemente em frustrações, em sentimento de rejeição. A história certamente encontrará identificação por parte do público, especialmente de um público que vive momentos frequentes de instabilidade na vida amorosa. Daí será fácil se ver um pouco na personagem de Binoche.

Aliás, que mulher, meus amigos. Esta afirmação é muito óbvia, levando em consideração que acompanhamos a atriz desde os anos 1980 e sempre com muita admiração, seja pela beleza, seja pela sensibilidade com que ela agarra os papéis. Mas em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR ela parece estar mais plena como mulher. É possível que pelo olhar de uma diretora como Claire Denis ela tenha alcançado outro patamar de sensibilidade. Uma mulher desta vez vista pelo olhar de outra mulher.

E justamente por ser tão bela e tão apaixonante, é tão irritante vê-la ser rejeitada como nas cenas com o personagem do ator de teatro vivido por Nicolas Duvauchelle, que apareceu em DESEJO E OBSESSÃO (2001) e MINHA TERRA, ÁFRICA (2009), ambos da diretora. As cenas com Duvauchelle talvez sejam as melhores do filme, no sentido de mostrar a tensão de um primeiro encontro, a dúvida sobre o passo seguinte a dar, as palavras como agentes de atrito etc.

Talvez o filme comece a derrapar a partir de uma cena de festa, em que aparece um sujeito um tanto exótico, que chama a atenção de Isabelle. Sua aparência e seus gestos até provocam alguns risos da plateia. O humor em DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR é bastante singular e muito bem-vindo, servindo para atenuar o tom de tristeza da personagem.

Terminar como terminou representa uma promessa de um futuro melhor, ou ao menos de uma aceitação por parte da personagem sobre sua vida e seu destino. O conselho do personagem de Gerard Depardieu, em pequeno papel, parece um pouco óbvio até, mas como esquecemos continuamente tantas lições que a vida já nos ensina, é necessário que certas coisas sejam novamente ditas e lembradas.

Há momentos que lembram David Lynch: Binoche dançando ao som de "At last", em linda interpretação de Etta James, como escolha ideal de canção sobre a definitiva (?) chegada do verdadeiro amor; ou mesmo a primeira aparição de Depardieu dentro de um carro, quebrando um pouco a linha narrativa, inserem na obra um ar surreal bem-vindo. Estar "aberta", neste caso, vale também para as escolhas de Denis.

terça-feira, março 20, 2018

MARIA MADALENA (Mary Magdalene)

Já há tantos filmes sobre Jesus que atualmente os realizadores se sentem na obrigação de mudarem um pouco o foco, o ponto de partida, o recorte ou mesmo o ponto de vista. Temos o caso recente de ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO, de Rodrigo García, que fazia um recorte do período em que Cristo combateu as tentações durante sete dias, em jejum. MARIA MADALENA (2018), de Garth Davis, é um pouco mais ousado em sua proposta: quer contar a história pelo ponto de vista de Madalena.

É interessante como, até os dias de hoje, a imagem de Maria Madalena ainda é associada a uma prostituta. Ou, no mínimo, a uma mulher com uma sexualidade muito forte. O próprio filme de Martin Scorsese, A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, em sua adaptação do romance homônimo de Nikos Kazantzákis, mistura a personagem de Madalena com a mulher que seria apedrejada e é salva pelo Nazareno.

Por isso causa estranheza ver uma Madalena até mais ativa em servir ao mestre do que os apóstolos Pedro (Chiwetel Ejiofor) e Judas (Tahar Rahim), para citar os dois que mais aparecem na narrativa. Rooney Mara está ótima como uma Madalena que acredita ser possuída por demônios - seus familiares acham que são os demônios que a impedem de querer se casar com um forte pretendente. Como ela não nutre amor pelo homem, quer mesmo é seguir aquele estranho e intrigante profeta que tem arrebanhado cada vez mais pessoas por onde passa.

Demora um pouco para aceitarmos Joaquin Phoenix como Jesus, mas aos poucos sua imagem como Cristo se torna até interessante. Inclusive nas escolhas do filme em mostrá-lo sorrindo, junto com Madalena, em cenas que compartilham juntos. Passa uma leveza que normalmente não se vê em obras que tratam da vida de Jesus. Embora haja cenas da crucificação, elas são rápidas, o que não quer dizer que não sejam dolorosas.

O que também impressiona é o diferencial no que se refere à ressurreição de Jesus, trazendo dúvidas sobre seu real e material ressurgimento do sepulcro. Afinal, ele aparece apenas para Madalena e é ela a portadora da boa nova, de que Jesus vive. Ao que parece, o filme não optou por ser fiel ao evangelhos canônicos, sendo mais próximo dos evangelhos apócrifos.

Algo que fica no ar é um certo clima de amor romântico não consumado que parece haver entre Madalena e Jesus. Porém, este tipo de impressão pode dizer mais do espectador do que filme em si, já que não é de maneira nenhuma explicitado. Talvez a impressão fique por causa da beleza esplendorosa de Rooney Mara, de seu olhar e de seu sorriso, ao olhar para o mestre. Longe de trazer volúpia, mas sim uma figura cheia de energia e amor, o que pode confundir. De todo modo, esse tipo de confusão está de acordo com certo diálogo entre Pedro e outro apóstolo: os dois acreditam que a entrada de Madalena no corpo de apóstolos não seria bom para o grupo.

Quanto à narrativa, é bom termos um filme narrado sem pressa, sem um particular interesse em conquistar um grande público. É um trabalho quase sensorial, no modo como brinca com a luz e com os olhares e os diálogos lentos dos personagens. MARIA MADALENA pode até não ser um grande filme, mas certamente está bem longe de ser uma obra ordinária ou esquecível, e ainda tem como vantagem o fato de dialogar com o atual momento de empoderamento feminino.

quinta-feira, março 15, 2018

TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM


Saí da sessão de TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM (2017) pensando na bênção da juventude. Uma bênção que vem junto com uma pitada de maldição no pacote. Ao mesmo tempo que a juventude traz vitalidade, inquietação muitas vezes saudável e uma maior possibilidade de inspiração para as mais diversas artes, é também neste período que mais se instala no jovem sentimentos sombrios, especialmente em indivíduos com algum grau de genialidade.

A história do poeta piauiense Torquato Neto pode trazer também questionamentos sobre o grau de visibilidade e talento que certos poetas alcançam. No caso de Torquato, o rapaz teve a sorte de ter se enturmado com o pessoal da Tropicália. Caetano, Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Rogério Duprat são alguns dos participantes do coletivo que mudou a história da música brasileira no final dos anos 1960.

O próprio Torquato acreditava que, naquele momento, a poesia dos livros estava em baixa, em termos de popularidade, mas que ela tinha muito mais chances de alcançar um público maior através da música, até pela tradição brasileira de ótimos letristas. E assim ele foi estabelecendo parcerias com cantores. Gal Costa cantou “Mamãe, coragem”, canção feita para a mãe de Torquato, que sentia a ausência do filho, que partiu para o Rio de Janeiro junto com a turma da música. Além da importante participação no disco-manifesto Tropicália, Torquato ainda fez parceria com músicos como Jards Macalé e Edu Lobo.

A Tropicália e a popularidade de Torquato Neto surgiram em um contexto bastante delicado da política brasileira, já que estávamos vivendo uma das mais violentas ditaduras. Foi nesse contexto que Torquato assinou a coluna “Geleia Geral”, para o jornal Última Hora. Nesse espaço, sua aproximação com o cinema se acentuou cada vez mais. Primeiro com o Cinema Novo, depois com o Cinema Marginal, mais adiante com um tipo de cinema ainda mais marginal, os pequenos filmes em super-8, como o cultuado NOSFERATO NO BRASIL (1970), de Ivan Cardoso, em que o próprio Torquato interpreta o personagem-título. A figura magra de Torquato caiu muito bem com a imagem de um vampiro nos trópicos, embora Cardoso insistisse para que ele não usasse as sandálias de couro.

Tudo isso é visto em TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM, mas de maneira que o filme não parecesse com um documentário tradicional. A opção por não mostrar as entrevistas com as pessoas que tiveram alguma relação com o poeta e que aparecem na teia narrativa foi, segundo os diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando, uma forma de honrar mais Torquato: se o próprio poeta não tinha um vídeo, apenas áudios, todos os outros ganharam apenas comentários em áudio também, o que não chega a ser problema nenhum. Faz parte do charme do documentário.

Uma curiosidade deste longa é que, à medida que ele se aproxima do final, o sentimento de ansiedade e excitação dos primeiros anos de envolvimento com a música por parte de Torquato, vai se transformando em um desinteresse pela vida, quando o poeta passa por uma tentativa de ganhar algum sucesso profissional e artístico quando viaja para a Europa, mas que acaba tendo seus planos bem frustrados. As cartas, que ouvimos pela voz de Jesuíta Barbosa, passam uma sensação de melancolia contagiante.

Ao final do filme, já é quase possível entender o caminho do poeta pelo suicídio aos 28 anos, devido ao vazio que parece se instalar, embora em momento algum o filme explore de maneira pouco respeitosa a depressão e os detalhes envolvendo as tentativas anteriores do poeta de tirar a própria vida. Além do mais, pode não ter sido proposital da parte dos diretores, mas os filmes em super-8 acabam criando uma sensação de desinteresse estranho dentro do que até então havia sido visto. Há inúmeras maneiras de interpretar essas imagens, mas talvez seja bom deixar no ar o que elas podem significar.

Talvez tenha faltado mais ao filme um pouco mais de exploração da poesia de Torquato, de excertos de sua arte no campo das palavras. De todo modo, é possível ver o artista multifacetado e inquieto que ele foi, através das canções (as duas que Gal Costa canta e outras), incluindo uma que encerra o filme, de seu envolvimento com o artista plástico Hélio Oiticica e de seu amor e interesse pelo cinema. Uma prova de que a poesia, para Torquato, ia além das palavras.

segunda-feira, março 12, 2018

TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER

É raro ver um filme brasileiro contemporâneo que trate com seriedade da questão da depressão. Antes tínhamos Walter Hugo Khouri, que com frequência tratava do tema com profundidade. Por isso o filme de estreia de Pedro Coutinho, TODAS AS RAZÕES PARA ESQUECER (2017), merece a devida atenção, por mais que seja um trabalho pequeno e modesto.

Os próprios motivos de o personagem de Johnny Massaro se ver em uma teia de tarjas pretas, psicoterapias e tentativas de encontrar um outro alguém pode parecer pequena para muitos: o fim de um namoro de três anos. Quem já passou por esse tipo de situação, de sofrer muito com a ausência da pessoa amada, mesmo duvidando do quanto gostava dela, vai pelo menos se sentir, com frequência, nos sapatos do jovem rapaz.

O fim do relacionamento, que veio por parte de Sofia (Bianca Comparato), foi algo tão surpreendente para Antonio (Massaro) que ele acredita que ele fica à deriva, sem saber para onde ir e o que fazer, mas acredita que sobreviverá facilmente a isso. Tanto que evita entrar em contato com Bianca durante esse primeiro período de tentativa de ficar sozinho novamente.

Primeiro, ele experimenta morar provisoriamente na casa de um casal de amigos, mas o casal estava passando por uma crise e estava fazendo terapia de casal, justo no momento em que ele chega. E é quando ele conhece a terapeuta, que tratará do seu caso também. As cenas com a terapeuta talvez sejam as menos interessantes do filme, mas são a partir delas que algumas perguntas funcionam como gatilho para que Antonio repense os motivos da separação e suas motivações para seguir adiante. Sem falar, que há algo de patético na figura da terapeuta também, que a torna especialmente interessante e um dos alívios cômicos do filme.

Aliás, muito bom poder rir em alguns momentos também. Rir, junto com o personagem, ajuda o espectador a se aproximar mais dele, como na cena de tentativa de conversa com moças via Tinder. E, a partir dessa aproximação, somos também convidados a compartilhar com Antonio de seu momento mais fundo do poço, de muito choro e enfrentamento da dor. E ter um final tão belo e agridoce também ajuda a deixar o filme ao menos simpático em nossa memória afetiva.

quinta-feira, março 08, 2018

BIG LITTLE LIES

Em determinado momento de BIG LITTLE LIES (2017), Madeline (Reese Witherspoon) conversa com a amiga Celeste (Nicole Kidman), ao telefone, dando a entender que Celeste tem uma vida perfeita, é casada com um homem bom, rico e bonito e tem filhos gêmeos perfeitos. Celeste, que convive com a violência doméstica diariamente, diz, frustrada, que sua vida não é perfeita, que tem passado por coisas ruins também. O marido, vivido por um aterrorizante Alexander Skarsgård, está ali perto, e pergunta à esposa, em tom ameaçador, o que seriam as tais coisas ruins que ela comenta com a amiga.

A princípio, BIG LITTLE LIES pode incomodar um pouco por mostrar a rotina de dondocas ricas vivendo na bela cidade litorânea de Monterey, na Califórnia. Mas é fácil se solidarizar com seus dramas, se importar cada vez mais com ela, mesmo os de Madeline, a dondoca-mor da comunidade, que vive ainda enciumada do ex, fazendo com que o novo marido se sinta rejeitado, por mais companheiro que ele seja.

Jane, a personagem de Shailene Woodley, é nova na cidade, e logo sabemos que seu drama é o mais perturbador: ela tem um filho nascido de um estupro. E já no primeiro dia de escola seu garotinho é acusado de ter agredido uma menina, filha de uma das mulheres mais influentes da cidade, Renata Klein (Laura Dern). O menino não sabe quem é o pai e tem muita curiosidade em saber suas origens.

Deu para perceber que BIG LITTLE LIES tem como principal tema a questão da violência doméstica. Mas a abordagem que o criador e roteirista David E. Kelley usa faz toda a diferença. Os créditos de abertura são lindos, apresentando apenas as personagens femininas dirigindo seus carros com seus filhos pequenos no banco traseiro. Mulheres e crianças são os grandes protagonistas dessa história. Mesmo Laura Dern desempenhando uma espécie de megera na trama, a série trata de mostrar a sororidade entre as personagens de modo tocante.

A série começa com um crime que é deixado em aberto até o final. E talvez a questão do crime seja um pouco o calcanhar de Aquiles desta temporada de BIG LITTLE LIES (inicialmente pensada como minissérie, mas que foi renovada por mais um ano). Isso acontece porque vários personagens que não desempenham papéis importantes, moradores de Monterey e supostas testemunhas dos atos das protagonistas, falam sobre o que viram e que poderia ter sido um dos motivos de a tal morte ter acontecido. Mas até isso funciona bem no final.

BIG LITTLE LIES ganhou quatro prêmios no Globo de Ouro: melhor minissérie, melhor atriz (Nicole Kidman), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgård) e melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).

segunda-feira, março 05, 2018

OSCAR 2018

Foi uma das premiações mais caretas em muitos anos. Não foi chata como a do ano passado, mas também não houve nenhum plot twist tão memorável. E nem poderia ter. Na verdade, o que mais se gostaria de ver era uma continuação ainda mais forte daquilo que foi bastante colocado na pauta do Globo de Ouro. Mas o tom de protesto já havia sido diminuído no tapete vermelho, com várias das estrelas vestidas de branco.

O discurso sobre as minorias não deixou de estar presente aqui e ali, porém. Desde a apresentação do host Jimmy Kimmel, que fez piada até com o fato de existir um filme chamado DO QUE AS MULHERES GOSTAM, estrelado por Mel Gibson, ou sobre o Oscar ser um sujeito de confiança por não ter um pênis. A ausência e quase apagamento de Casey Affleck por causa das acusações de assédio também deram o tom. Ele foi substituído por Jodie Foster e Jennifer Lawrence. Acabou rendendo uma das melhores piadas da noite, fazendo referência a EU, TONYA.

Quanto às premiações, houve poucas surpresas. Talvez só a de melhor documentário, que não foi para VISAGES, VILLAGES, mas para ÍCARO. Quanto ao prêmio principal, este era o mais esperado e o que mais estava rendendo várias possibilidades. O que foi algo bom. Existiu, por alguns momentos, a chance de CORRA! levar o prêmio principal, depois de ter ganhado melhor roteiro. Mas talvez isso fosse demais para Hollywood.

Ganhou Guillermo del Toro com um filme que atira para todos os lados e conseguiu agradar a muitos, inclusive trazendo em seu discurso a luta pelo fim dos muros separando as fronteiras. O fato de UMA MULHER FANTÁSTICA ter ganhado melhor filme e a atriz trans Daniela Vega ter subido ao palco para apresentar melhor a canção de ME CHAME PELO SEU NOME pareceu também muito feliz por parte dos organizadores.

Pode-se dizer que foi tudo muito bem pensado. Mas, justamente por isso, faltou tensão, faltou enfrentamento. Mas isso se deveu muito ao fato de o Oscar so white da edição de 2016 ter resultado em boa diversidade neste ano. Inclusive com a presença de Greta Gerwig concorrendo na direção e de uma primeira mulher na disputa de melhor diretora de fotografia na história da premiação. Ela perdeu para Roger Deakins, de BLADE RUNNER 2049, mas perder para um cara como esses chega a ser glorioso.

No mais, as piadas foram legais, ainda que bem tranquilas e comportadas, como a do jet ski, a da maconha e a brincadeira dos atores e o apresentador chegando de surpresa em uma sala de cinema ali pertinho. Deu vontade de estar lá.



Os Premiados

Melhor Filme – A FORMA DA ÁGUA
Direção – Guillermo del Toro (A FORMA DA ÁGUA)
Ator – Gary Oldman (O DESTINO DE UMA NAÇÃO)
Atriz – Frances McDormand (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Ator Coadjuvante – Sam Rockwell (TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME)
Atriz Coadjuvante – Allison Janney (EU, TONYA)
Roteiro Original – CORRA!
Roteiro Adaptado – ME CHAME PELO SEU NOME
Fotografia – BLADE RUNNER 2049
Montagem – DUNKIRK
Trilha Sonora Original – A FORMA DA ÁGUA
Canção Original - "Remember me", de VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Mixagem de Som – DUNKIRK
Edição de Som – DUNKIRK
Efeitos Visuais – BLADE RUNNER 2049
Design de produção – A FORMA DA ÁGUA
Figurino – TRAMA FANTASMA
Maquiagem e cabelos – O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Filme Estrangeiro – UMA MULHER FANTÁSTICA (Chile)
Longa de Animação – VIVA - A VIDA É UMA FESTA
Curta de Animação – DEAR BASKETBALL
Curta-metragem – THE SILENT CHILD
Documentário – ÍCARO
Curta Documentário – HEAVEN IS A TRAFFIC ON THE 405


domingo, março 04, 2018

THE POST - A GUERRA SECRETA (The Post)

Steven Spielberg tem um especial interesse pela História dos Estados Unidos desde criança. De acordo com o que ele mesmo diz no documentário SPIELBERG, de Susan Lacy, seus primeiros curtas experimentais foram sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente sobre situações envolvendo os aviões. Não por acaso, sua primeira experimentação profissional com a guerra foi em uma comédia, 1941 - UMA GUERRA MUITO LOUCA (1979). Só anos depois ele se atreveu a fazer um filme "sério" sobre a guerra, O IMPÉRIO DO SOL (1987), o primeiro de vários.

THE POST - A GUERRA SECRETA (2017) não é sobre a guerra, não a guerra que ele tanto prefere citar em suas obras, talvez por ser a guerra mais honrada dos americanos, mas, como o próprio título brasileiro diz, sobre uma guerra secreta, uma guerra acontecendo nos bastidores, em um momento em que os Estados Unidos estavam sob a mão de um presidente vilão. Não à toa, este filme chega em um momento em que o país está sendo governado por Donald Trump, um motivo e tanto para que Hollywood volte a ser tão politizada quanto foi nos anos 1970.

E chegamos em 1971, ano em que se passa a história de THE POST, quando repórteres do jornal The Washington Post, em especial Ben Bradlee (Tom Hanks), tentam a todo custo conseguir um furo e acabam descobrindo algo muito podre no governo de Richard Nixon. Na verdade, o tal furo foi conseguido de mãos beijadas por uma anônima, que distribuiu documentos secretos que incriminavam o Governo, que mentiu muito sobre a Guerra do Vietnã.

A semelhança de THE POST com o oscarizado SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy, é talvez só o caráter investigativo e uma visão mais gloriosa do jornalismo, embora, surpreendentemente, Spielberg consiga criar uma figura cínica do personagem de Hanks, e uma posição relativamente heroica da publisher Kay Graham, vivida por Meryl Streep. Não deixa de ser um alívio, levando em consideração que ele poderia ir pelo caminho fácil do bem contra o mal, pintando seus heróis com imagens essencialmente puras.

Outra vantagem de THE POST em relação ao filme que levou o Oscar é que Spielberg é muito mais cineasta, e isso transparece lindamente nas cenas em que sua câmera passeia pelos ambientes físicos do jornal, como nas reuniões, e nos vários planos-sequência. Há muito verbalismo sim, mas a palavra aqui é importante. E é interessante perceber que o cineasta não nos introduz tão facilmente ao enredo. É preciso prestar atenção para ir se acostumando e entendendo o ambiente e a situação, para depois se ver engolfado no suspense crescente da trama.

Além de contar com Streep e Hanks, há um elenco de apoio excepcional em THE POST: Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts (que, aliás, está em LADY BIRD também), Bruce Greenwood, Alison Brie, Bradley Whitford, Jesse Plemons. Um elenco grandioso que, compreensivelmente, é mal utilizado, em prol da trama. Um cineasta do porte de Spielberg pode se dar a esse luxo e aqui entrega seu melhor trabalho desde MUNIQUE (2005). Vale destacar também a 17ª parceria com o excelente diretor de fotografia Janusz Kaminski, que tem trabalhado com Spielberg desde A LISTA DE SCHINDLER (1993).

THE POST - A GUERRA SECRETA recebeu apenas duas indicações ao Oscar: filme e atriz (Meryl Streep).