segunda-feira, dezembro 31, 2018

TOP 20 2018 E O BALANÇO DO ANO

1. ARÁBIA, de João Dumans e Affonso Uchôa
2. O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO, de Yorgos Lanthimos
3. À SOMBRA DE DUAS MULHERES, de Philippe Garrel
4. PARAÍSO PERDIDO, de Monique Gardenberg

5. AS BOAS MANEIRAS, de Juliana Rojas e Marco Dutra
6. EM CHAMAS, de Lee Chang-dong
7. TRAMA FANTASMA, de Paul Thomas Anderson
8. DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis

9. VERÃO, de Kirill Serebrennikov
10. ASAKO I & II, de Ryûsuke Hamaguchi
11. ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino
12. HEREDITÁRIO, de Ari Aster

13. LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig
14. CAFÉ COM CANELA, de Glenda Inácio e Ary Rosa
15. TULLY, de Jason Reitman
16. VINGADORES - GUERRA INFINITA, de Anthony e Joe Russo

17. CANASTRA SUJA, de Caio Sóh
18. A CÂMERA DE CLAIRE, de Hong Sang-soo
19. O AMANTE DUPLO, de François Ozon
20. O BEIJO NO ASFALTO, de Murilo Benício

Menções honrosas

AMANTE POR UM DIA, de Philippe Garrel
RASGA CORAÇÃO, de Jorge Furtado
CUSTÓDIA, de Xavier Legrand
PONTO CEGO, de Carlos López Estrada
SEVERINA, de Felipe Hirsch
PARIS 8, de Jean-Paul Civeyrac
UMA NOITE DE 12 ANOS, de Álvaro Brechner
EX-PAJÉ, de Luiz Bolognesi
MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT, de Christopher McQuarrie
FERRUGEM, de Aly Muritiba

2018 não foi um ano fácil. Foi um ano comprido e sofrido. A Copa do Mundo parece ter ocorrido há muitos meses. E as eleições foram por demais desgastantes, especialmente para aqueles que lutaram pela manutenção da democracia e por um governo que respeitasse mais a inteligência e a sensibilidade do que a estupidez e a brutalidade. Em vez disso, vamos torcer e lutar para que nossas conquistas sejam pelo menos mantidas ao longo desse processo que só Deus sabe como se dará.

Para minha vida pessoal também não foi fácil. Mas ao menos posso dizer que tentei, mesmo levando cabeçadas e nadando muitas vezes contra a maré. Quando portas pareciam se abrir, ou eu não sabia como lidar e estragava tudo, ou essas mesmas portas se fechavam rapidamente. Foi o ano em que comecei a fazer análise. Comecei tarde demais, eu diria. Mas acho que só isso já tem algum significado: ando querendo descobrir mais sobre mim, cuidar mais de mim. Tentar entender o que se passa e se passou. Também ando cuidando mais de mim do ponto de vista físico. 

Foi um ano também muito cansativo do ponto de vista do trabalho. Meu corpo cansado não aguentou e o blog acabou sendo prejudicado por isso. Nunca em nenhum outro ano eu escrevi tão pouco - houve um bloqueio criativo também para a criação de outros textos. Veio uma sensação de que meus escritos são ruins. E de que, no blog, só escrevo agora para mim. Mas, mesmo em tempos de decadência de blogs, até acho que estou resistindo. Cá estou fazendo a tradicional postagem de fim de ano, que preparo com alguma antecedência, pelo trabalho que dá. Alguém deve estar lendo, tenho certeza. Vamos aos filmes.

A melhor alegria deste ano para os cinéfilos foi a excelente safra de filmes brasileiros de alta qualidade. Se no ano passado nenhum filme brasileiro esteve presente em meu top 20, neste ano tenho seis filmes em minha lista. Este foi o ano em que eu tive certeza de que o cinema brasileiro é um dos melhores do mundo. Ajudou muito ler os livros da Andrea Ormond, mas também ajudou demais poder ver esses filmes maravilhosos no cinema e eles falarem tanto para o nosso momento.

Sim, pois, levando em consideração a situação política em que nos encontramos, cada gesto se reveste de uma importância imensa. Por isso ARÁBIA, da dupla João Dumans e Affonso Uchôa, encabeça minha lista de favoritos. É o filme que mais fala à classe trabalhadora, que mais tem um espírito de rebelião, mas também de certa melancolia poética poucas vezes vista em nosso cinema.
Nosso cinema em 2018 foi bem plural: tivemos um melodrama musical maravilhoso e romântico e que faz com que nos esqueçamos dos problemas do dia a dia para adentrar uma espécie de paraíso que nos enfeitiça e aquebranta nosso coração com o melhor da música feita sem medo de ser cafona ou exagerada. PARAÍSO PERDIDO, de Monique Gardenberg, só poderia ser brasileiro. Além de tudo, é um filme que louva toda forma de amar. 

Um dos melhores filmes de terror do ano também foi brasileiro, sim, senhor. AS BOAS MANEIRAS, de Juliana Rojas e Marco Dutra, conta uma história de lobisomem como se nunca viu antes. Dividido em lado A e lado B, no primeiro lado do disco temos uma relação de afeto entre duas mulheres de classes sociais distintas; e no outro lado, a história de amor entre mãe e filho, um filho que por acaso é um filhote de lobisomem.

Falando em afeto, como não gostar do baiano CAFÉ COM CANELA, de Glenda Inácio e Ary Rosa? É dessas obras que enchem o coração de amor e é feito com uma simplicidade que encanta ainda mais. CANASTRA SUJA, de Caio Sóh, é outra obra feita na raça, mas com atores conhecidos no elenco. Uma obra que vai fundo na desgraça de uma família, até lembrando Nelson Rodrigues. E, pra fechar os brasileiros, eis que no final do ano aparece uma surpresa linda: uma adaptação de uma peça de Nelson dirigida pelo estreante Murilo Benício. O texto original de O BEIJO NO ASFALTO foi lançado em 1960, mas o filme parece falar mais ainda para o cenário dos dias de hoje, um cenário de distopia crescente.

O cinema de horror aparentemente não foi tão cheio de grande obras, pelo menos dentre as que surgiram no circuito comercial, mas podemos destacar, além do já citado AS BOAS MANEIRAS, dois filmes tão distintos entre si e que poderiam ser muito bem classificados no rótulo pós-horror, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO, de Yorgos Lanthimos, e HEREDITÁRIO, de Ari Aster. O primeiro nem está aparecendo nas listas de horror por ser tão diferente, mas foi o filme que mais me meteu medo neste ano, pois lida com o medo irracional. Já a obra de estreia de Aster tem o mérito de nos apresentar à tragédia pessoal dos personagens (o que é a cena da crise alérgica, hein?) para só então adentrar o horror explícito mais próximo do convencional.

Tangenciando o horror e adentrando a seara do suspense, tivemos o maravilhoso EM CHAMAS, de Lee Chang-dong, que encanta com a delicadeza da direção e o impacto de vários momentos eletrizantes. O AMANTE DUPLO, de François Ozon, por sua vez, já é daqueles suspenses eróticos desavergonhados que costumavam produzir aos montes nos anos 90, mas que infelizmente andam meio sumidos. A diferença é que temos um cineasta que está sempre consciente do que está fazendo. Por isso é tão divertido. 

Dos filmes do Oscar, tivemos algumas belezuras: TRAMA FANTASMA, de Paul Thomas Anderson, é uma história de amor das mais sombrias já contadas, mas também das mais belas; ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino, é também uma história de amor, mas bem mais solar e com uma sexualidade pulsante; LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig, é a história do difícil amadurecimento da jovem Lady Bird e sua busca de sair de sua cidade natal, apesar dos obstáculos.

E se 2018 foi um ano sem um Woody Allen (triste isso), ao menos tivemos o prazer de ver duas obras de dois grandes cineastas da atualidade surgindo nos cinemas. Separei só uma de cada para este top 20: À SOMBRA DE DUAS MULHERES, do francês Philippe Garrel, que trata de relações sentimentais de forma mágica (como eu amo este filme!); e A CÂMERA DE CLAIRE, do sul-coreano Hong Sang-soo, desses diretores que não precisam se esforçar para parir uma pérola atrás da outra.   

E, pelo visto, tratar de relações ou da busca de um amor parece ser quase que um denominador comum dessa lista. Daí surge uma obra como DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, que trata da busca do amor romântico por parte de uma mulher madura divorciada. E o que dizer de ASAKO I & II, de Ryûsuke Hamaguichi, que lida de forma singular com a história da paixão de uma jovem por um rapaz e de uma posterior virada na sua vida? E tivemos um dos mais felizes exemplares do cinema russo, o delicioso VERÃO, de Kirill Serebrennikov, que fala de música pop, mas também de relacionamentos, de um triângulo amoroso. E pensar na vida íntima e no que o "eu do passado" pode dizer para o "eu do presente" traz uma obra tão surpreendente como TULLY, de Jason Reitman.

Para não dizer que não falei de blockbusters, destaque para o melhor filme do universo cinematográfico Marvel até o momento. VINGADORES - GUERRA INFINITA, dos irmãos Anthony e Joe Russo, faz tudo o que veio de HOMEMDE FERRO para cá ter valido a pena. Enquanto a DC come poeira tentando ser engraçada como a Marvel, a Casa das Ideias sabe trazer uma história sombria no momento certo. Na expectativa pela continuação.

Top 5 Piores do Ano

Acho que neste ano eu evitei ainda mais tranqueiras do que no ano passado. Infelizmente acabei perdendo, inclusive, vários filmes de horror que pintaram por aqui e que eu gosto de ver, mesmo os potencialmente ruins. Assim, até pensei em não incluir uma lista de piores. É a parte que menos me interessa. Mas só pra manter a tradição, segue abaixo o que vi de pior nos cinemas:

1. CINQUENTA TONS DE LIBERDADE, de James Foley
2. A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER, de Peter e Michael Spiering
3. ALGUÉM COMO EU, de Leonel Vieira
4. LUA DE JÚPITER, de Kornél Mundruczó
5. AQUAMAN, de James Wan

As séries e minisséries

Se no ano passado eu vi poucas séries, neste ano vi menos ainda. Por isso, nem acho justo numerar 10. Vamos numerar apenas cinco, então. Vale destacar que uma delas é maravilhosa, a que encabeça a lista, totalmente dirigida pelo jovem mestre Mike Flanagan.

Top 5 Musas do Ano

Quanto à beleza dos rostos femininos, uma das seções de que mais gosto de fazer para o blog funciona como um colírio para os olhos. Desta vez, temos duas brasileiras no mínimo apaixonantes em suas performances.

1. Bruna Linzmeyer (O GRANDE CIRCO MÍSTICO e O BANQUETE)

2. Kaya Scodelario (MAZE RUNNER - A CURA MORTAL)

3. Caroline Abras  (ALGUMA COISA ASSIM)

4. Matilda Lutz  (VINGANÇA)

Irina Starshenbaum (VERÃO)

Clássicos revisitados (ou vistos pela primeira vez) na telona

ACOSSADO, de Jean-Luc Godard
BAR ESPERANÇA (O ÚLTIMO QUE FECHA), de Hugo Carvana
LOUCURAS DE UMA PRIMAVERA, de Louis Malle
O ASSALTO AO TREM PAGADOR, de Roberto Farias
O HOMEM DA CAPA PRETA, de Sergio Rezende
SONATA DE OUTONO, de Ingmar Bergman
STELINHA, de Miguel Faria Jr.
STROMBOLI, de Roberto Rossellini
Z, de Costa-Gavras

Top 20 vistos (pela primeira vez) na telinha (em ordem alfabética)

A LEI DA FRONTEIRA, de Allan Dwan
A PATRULHA DA MADRUGADA, de Howard Hawks
A REGIÃO SELVAGEM, de Amat Escalante
ANTIPORNO, de Sion Sono
CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO, de Alan Oliveira
ELEGIA DE OSAKA, de Kenji Mizoguchi
FIRST REFORMED, de Paul Schrader
GATOS, de Ceyda Torun
INVERNO DE SANGUE EM VENEZA, de Nicolas Roeg
MULHER MOLHADA AO VENTO, de Akihiko Shiota
NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, de Murilo Salles
O CONTO, de Jennifer Fox
PERFUME DE MULHER, de Dino Risi
PRA FRENTE, BRASIL, de Roberto Farias
PROCURA INSACIÁVEL, de Milos Forman
RENDEZ-VOUS EM PARIS, de Éric Rohmer
REPÚBLICA DOS ASSASSINOS, de Miguel Faria Jr.
ROMA, de Alfonso Cuarón

SEM LEI E SEM ALMA, de John Sturges
TERROR CEGO, de Richard Fleischer

Revisões na telinha

BAR ESPERANÇA (O ÚLTIMO QUE FECHA), de Hugo Carvana
BETE BALANÇO, de Lael Rodrigues
CABO DO MEDO, de Martin Scorsese
CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch
FELIZ ANO VELHO, de Roberto Gervitz
VIDA DE SOLTEIRO, de Cameron Crowe


Feliz 2019!

Lembrando de uma fala de George Constanza de SEINFELD, eu não quero mais ter esperança, minha meta agora é não ter mais esperança nenhuma. De certa forma, até faz algum sentido. Não que esteja sendo pessimista, embora o cenário ajude um bocado a ser, mas a questão é que às vezes esperamos demais e as coisas não acontecem e aí surgem as frustrações. O que não quer dizer que não devamos nos preparar, traçar planos e metas para nossa felicidade pessoal e daqueles que amamos.

Uma coisa que eu aprendi neste ano foi a dar valor às pequenas coisas, às coisas do cotidiano que há alguns anos eu achava pouco importantes, como dar comida ao Jorginho e vê-lo feliz balançando o rabo; dar atenção à minha mãe e às minhas irmãs, por mais que eu me ache pouco atencioso; sair sozinho ou com um amigo ou amiga para um bom cinema (se bem que isso, o cinema, eu não coloco como pequena coisa não); conversar com os poucos amigos mais chegados e estar imensamente grato pela confiança que eles me depositam; estar se sentindo bem fisicamente, já que dores não são nada legais. Enfim, acho que me fiz por entender e isso é até meio óbvio de se dizer, mas às vezes a gente esquece. Interessante a gente estar neste mundo para aprender, mas esquecer e quebrar a cara de novo tantas e tantas vezes, não é?

Para encerrar, desejo que 2019 seja uma surpresa muito positiva para nós em vários campos de nossa vida: afetiva, profissional, financeira, estudantil e que coisas boas como viagens e artes sejam mais presentes. E quem sabe até tenhamos uma reviravolta para melhor no campo da política. Dreaming is free, como diz a canção. Até breve, obrigado pela leitura e viva a arte, vida a resistência e viva o cinema brasileiro!

sábado, dezembro 29, 2018

ASAKO I & II (Netemo Sametemo)

O Festival de Cannes tem o hábito de colocar em sua mostra competitiva obras de cineastas já celebrados. Daí a surpresa para alguns de ver um nome ainda não muito conhecido sendo destaque na edição deste ano, o de Ryûsuke Hamaguchi, com seu ASAKO I & II (2018). Acontece que o diretor já havia sido bastante premiado em outros festivais com um longa de mais de cinco horas de duração, HAPPY HOUR (2015), inédito comercialmente no Brasil.

Com 10 filmes no currículo, incluindo curtas e documentários, Hamaguchi finalmente chega ao circuito brasileiro, com um drama romântico desconcertante. Ora o filme opta por um estilo mais naturalista, ora seus personagens parecem mais afetados nas interpretações. Isso acontece principalmente no primeiro momento, quando, embriagada de amor, a jovem Asako (Erika Karata) se vê sem chão quando seu amado Baku (Masahiro Higashide) desaparece. Ela muda de cidade, sai de Osaka e vai morar em Tóquio e tenta reconstruir sua vida.

E quando o filme parece se aproximar de uma linha mais realista, e de fato o tom do filme muda um pouco, surge algo que perturba o coração de Asako: o fato de ela conhecer um rapaz idêntico na fisionomia a Baku. O jovem, de nome Ryôhei, ganha rapidamente um co-protagonismo na narrativa. Diferente do enigmático Baku, Ryôhei é um sujeito comum, que sente que tem a sorte de conhecer uma moça tão bela e tão terna quanto Asako.

O problema para Asako é que ela não sabe se o que ela sente por Ryôhei se dá pelo fato de ele ser muito parecido com Baku ou se ela está mesmo se apaixonando ou se apegando afetuosamente ao rapaz, que passa a representar a estabilidade emocional para a jovem. Há uma cena entre os dois que é linda dentro de um contexto de caos, que é a cena do encontro durante o terremoto. Mas há outra cena que é ainda mais bonita, que surge dentro de um contexto de uma relação estável: Ryôhei está deitado no chão e Asako massageia seus pés. Aquele momento parece algo bem próximo do paraíso na Terra.

O que ASAKO I & II traz de diferente em relação a outros dramas românticos, ou mesmo comédias românticas, é que ele procura inverter a felicidade, que deixa de ser algo mais próximo do romantismo para algo mais próximo do realismo. Para uma cultura que fez brotar um cineasta como Yasujiro Ozu, é até compreensível.

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DE REPENTE UMA FAMÍLIA (Instant Family)

Filme que me faz chorar já me ganha o meu respeito. O interessante desta comédia dramática é que ela parece mais despretensiosa do que de fato é, trazendo discussões importantes sobre a questão da paternidade e sobre o quanto nós somos frutos do amor e do desamor. Rose Byrne é sempre aquele colírio e tem um timing perfeito para comédias. O filme é baseado numa história real da vida do diretor Sean Anders. Ano: 2018.

PERGUNTE-ME TUDO (Ask Me Anything)

É um desses filmes esquecidos e que ficam no limbo, já que nem sei se aparece em Netflix ou coisa do tipo. É uma obra subestimada, que trata de questões da intimidade de uma garota vivendo uma fase difícil e com relacionamentos com outros homens. Achei que tem problema de montagem e faltou mais emoção, mas talvez eu é que estivesse pouco conectado. Britt Robertson está muito bem. Direção: Allison Burnet. Ano: 2014.

TODAS AS CANÇÕES DE AMOR

É um filme bem gostoso de ver, principalmente pelas canções. Música no cinema é sempre um prazer elevado a n potência. Aqui ainda temos a beleza da Marina Ruy Barbosa, mas principalmente a presença de um dos melhores atores do país, Júlio Andrade. O cara só não faz mais pelo filme porque o roteiro não permite. Ou a direção, talvez. Ainda assim, gosto de todos os personagens e da sensibilidade na construção dos diálogos. As canções poderiam ser menos óbvias, mas tá valendo. Direção: Joana Mariani. Ano: 2018.

sábado, dezembro 22, 2018

EM CHAMAS (Beoning)

Veja o filme, leia o conto, reveja o filme. Não é sempre que a gente se sente compelido a fazer isso, graças a uma obra cinematográfica que nos intriga e nos maravilha. É o caso de EM CHAMAS (2018), do diretor sul-coreano Chang-dong Lee, cuja última obra para cinema havia sido POESIA (2010). Passou tanto tempo assim entre um filme e outro e acabou por se revelar um cineasta de maior quilate, ainda que fique agora a curiosidade pelas suas quatro obras iniciais.

O conto que inspirou EM CHAMAS, "Queimar Celeiros", contido no livro O Elefante Desaparece, de Haruki Murakami, é bem sintético em sua trama. Chang-dong acrescenta muita coisa para formar seu longa a partir de uma história aparentemente simples e que se passa em sua maior parte na varanda da casa do personagem Jong-su (Ah-in Yoo), onde ele recebe o casal Hae-mi (Jong-seo Jun) e Ben (Steven Yeun, mais conhecido como o querido Glenn, da série THE WALKING DEAD).

O próprio Chang-dong confessa que destinou mais esforço e energia para esta cena e para a cena final. As demais, ainda que maravilhosas também, ele dirigiu dando menor importância. Isso não deixa de ser coerente com o que vemos no filme, mas também não deixa de ser impressionante, levando em consideração a quantidade grande de cenas estupendas, mesmo em sua sutileza. Vendo o filme pela segunda vez, por exemplo, é possível notar certos detalhes e belezas que na primeira pode passar desapercebido.

A própria aproximação de Hae-mi com Jong-su é feita com esmero. A moça, que no início não parece ser tão interessante assim para o rapaz, passa a se tornar cada vez mais digna de seu afeto, embora no começo ele não saiba disso. Na casa de Hae-mi, quando os dois fazem sexo, e Jong-su, um aspirante a romancista, olha com atenção e interesse para os arredores e para a janela do quarto, é como se ele estivesse procurando entender e captar melhor aquele momento de sua vida.

E depois há coisas um tanto surreais, como o gato que nunca aparece; ou o tal celeiro que também não é detectado, assim como a garota que desaparece. Isso acontece depois que Hae-mi volta da África e conhece Ben, um rapaz que é tudo que Jong-su não é: confiante, rico, tranquilo e bem-sucedido. "Como ele mora em uma casa como essa tendo a idade que tem?", Jong-su pergunta a Hae-mi, que àquela altura era namorada de Ben. E esse nem é um dos grandes mistérios de Jong-su. O desaparecimento de Hae-mi é que o atormenta e passa a ser a razão de sua existência. Assim como encontrar o tal celeiro queimado por Ben.

Quanto à tal cena da varanda, ela é tão cheia de encantamento que faz o coração do espectador pulsar mais forte. Tanto no momento em que os três estão fumando um baseado, quanto na cena da dança de Hae-mi, que parece saída de um filme de David Lynch. Isso se dá principalmente pela inclusão de uma música de Miles Davis, a mesma que aparece em ASCENSOR PARA O CADAFALSO, de Louis Malle. O próprio Chang-dong disse que gosta muito do filme de Malle, em entrevista para a revista Cinema Scope (edição 75).

Se há algo no filme que considero pouco empolgante são as cenas em que Jong-su tenta lidar com a prisão do pai. O reencontro com a mãe é interessante, mas toda a parte com o pai parece pequena diante da trama principal, quase como se fosse possível destacar. Funciona mais para acentuar o aspecto da solidão e abandono a que o personagem foi submetido. No mais, há muito o que se alimentar da riqueza de EM CHAMAS, seja tentando entender mais detalhes de sua trama, seja se aproveitando também das influências literárias (o próprio Murakami, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald) e musicais, seja adentrando na profundidade e no abismo de seus personagens. Não é sempre que vemos um filme assim.

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BUSCANDO (Searching)

Um filme bastante inventivo que é todo narraado através de câmeras, tela de computador ou aplicativos, televisão etc. O diretor é meio desconhecido, mas já chegou chutando a porta com os dois pés com esse suspense que nos deixa interessados até o fim. Na trama, um pai tenta a todo custo desvendar o paradeiro da filha desaparecida e talvez assassinada. Direção: Aneesh Chaganty. Ano: 2018.

OH LUCY!

Bela surpresa esta comédia dramática que fala muito sensivelmente sobre carência afetiva. As cenas da aula de inglês são ótimas, mas o filme sobrevive e consegue melhorar ainda mais ao longo da narrativa, quando os personagens partem para os Estados Unidos. Talvez seja este o melhor papel da carreira de Josh Hartnet. Direção: Atsuko Hirayanagi. Ano: 2017.

ANTES QUE TUDO DESAPAREÇA (Sanpo Suru Shinryakusha)

Kiyoshi Kurosawa ainda não me pegou, embora tenha sido um prazer poder ver no cinema este novo filme dele, que conta a história de uma invasão alienígena da maneira mais diferente que eu já vi. Quase um VAMPIROS DE ALMAS que nos convence de seu aspecto fantástico só pelos diálogos e alguns atos. E que linda que é a Masami Nagasawa. Vi que ela esteve em um remake japonês de COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, aquela comédia romântica com o Adam Sandler. Será que ficou legal? Ano: 2017.

segunda-feira, dezembro 17, 2018

FIRST REFORMED

Desde o começo de minha cinefilia que sei do caso de Paul Schrader, do fato de ele ter visto o seu primeiro filme na vida aos 17 anos, devido à formação religiosa de sua família, que proibia dança ou qualquer entretenimento popular. Embora até hoje me admire com isso, ainda mais levando em consideração que Schrader se tornou um crítico, depois um roteirista e depois um cineasta, eu me identifico um bocado com isso, já que eu também era proibido de dançar por minha mãe, evangélica fervorosa. Nem mesmo a presença de meu pai, afeito aos prazeres etílicos, fez com que essa influência se confirmasse tão intensa em mim.

No caso de Schrader, é interessante como, em vez de ele lidar com filmes pendendo para a religião, como aconteceu com Ingmar Bergman, que também sofreu os traumas de uma criação religiosa rígida, o cineasta e roteirista americano preferiu simpatizar com a temática da violência. Daí até hoje ser mais lembrado pelo roteiro de TAXI DRIVER (1976). Curiosamente, é justamente o clássico personagem Travis Bickle que mais é citado como referência do novo trabalho de Schrader, o impressionantemente belo FIRST REFORMED (2017).

Em entrevista à revista americana Cineaste (Vol. XLIII), Schrader comenta sobre os caminhos de sua carreira, sobre como se identifica mais com um Kubrick do que com um Hitchcock, no sentido de que quer sempre fazer algo diferente, desafiador, e não ficar repetindo temas. Daí seus filmes aparentemente não terem um aspecto tão comum entre si. Ele revela na entrevista que sua própria carreira no cinema também foi surgindo a partir de coisas que ele acabava de ver, como quando ele viu O BATEDOR DE CARTEIRAS, de Robert Bresson, em 1968, pela primeira vez. Foi a partir daí que algo lhe acendeu o desejo e a certeza de que poderia fazer cinema também.

E é justamente de Bresson a principal referência quando assistimos a FIRST REFORMED (embora Schrader confesse ter sido influenciado por IDA, de Pawel Pawlikowski). O personagem de Ethan Hawke, o atormentado pastor Toller, é claramente inspirado no padre do filme do cultuado cineasta francês. Ambos são homens que não encontram alegria na vida e que gostam de escrever em um diário enquanto bebem tanto vinho que seus fígados já quase não existem.

A vida de Toller mudaria, porém, a partir do encontro com Mary, uma jovem mulher grávida que quer que o padre convença seu marido suicida de que ela não deve abortar. O problema é que o tal marido suicida apresenta motivos suficientes para o reverendo acreditar que não há mesmo nenhum sentido de colocar uma vida neste mundo, cujo fim já pode ser facilmente visto a partir do quanto o homem polui o meio-ambiente. O lado positivo é que a vida de Toller passa a fazer mais sentido, agora que ele se torna também um militante, agora que seus olhos foram abertos para o horror iminente do planeta.

E há Mary, vivida com um brilho quase celestial por Amanda Seyfried, que durante as filmagens estava também grávida. O fato de seu nome ser Mary já carrega uma ideia de santidade, por mais que aqui estejamos falando de um não-católico. De todo modo, isso não importa muito, até porque pastor ou padre não faz muita diferença no modo como é pintado o personagem de Hawke e sua igreja pequena.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em FIRST REFORMED é a beleza formal. Novamente entra em cena uma ligação com Bresson, que costumava filmar uma porta por alguns segundos mesmo quando o personagem saía de cena por ela. O que acaba por criar uma estranheza. Esse tipo de "atraso" é também usado por Schrader, mas ele faz questão de quebrar algumas regras que ele mesmo cria, como o fato de não movimentar a câmera. Em certo momento, ele usa uma dolly, justamente para que o espectador perceba que existe uma regra que foi quebrada.

E temos a beleza da fotografia em 1,37:1, que privilegia os corpos. E a angústia dos personagens. E o pessimismo latente. E o fato de haver uma necessidade de um comprometimento maior por parte do espectador, devido também ao andamento lento do filme e sua intensidade. Aliás, difícil não ver FIRST REFORMED e não lamentar o fato de ele continuar inédito nos cinemas brasileiros. As chances de ele chegar às telonas talvez só se cumprissem com indicações ao Oscar. Será que resta alguma esperança? Na falta do cinema, vale ver e rever com prazer esta que talvez seja a obra-prima de Schrader como diretor.

+ TRÊS FILMES

WON'T YOU BE MY NEIGHBOR?

Um documentário sobre a história de vida e carreira de um apresentador de um programa infantil se transforma em uma história sobre gentileza, amor e sobre o quanto somos produto do amor e do desamor. Na verdade, não apenas isso: há tanta riqueza e tantos detalhes em cada gesto e em cada fala do personagem. Direção: Morgan Neville. Ano: 2018.

A PRECE (La Prière)

Belo e de certa forma até que bem simples filme sobre a dificuldade de se curar do vício em uma droga pesada. A PRECE acaba sendo mais do que isso. Gostei de pensar na questão da completude do ser humano, da necessidade de satisfazer tanto os desejos do corpo quanto do espírito. Direção: Cédric Khan. Ano: 2018.

THREE IDENTICAL STRANGERS

Eis um filme que quanto menos você souber a respeito da trama, ou seja, da história real dos três gêmeos, melhor. Nesse sentido, podemos encontrar paralelos com outros documentários, como DEAR ZACHARY - UM CASO CHOCANTE e SEARCHING FOR SUGAR MAN. É um filme que dá muito o que pensar sobre a questão da criação e dos genes como elementos na construção da personalidade da pessoa. Mas há muito mais a se discutir a partir do que somos apresentados. Direção: Tim Wardle. Ano: 2018.

sábado, dezembro 15, 2018

CORAÇÃO SELVAGEM (Wild at Heart)

Rever CORAÇÃO SELVAGEM (1990) foi recordar o momento mágico de ter visto este filme no cinema pela primeira vez. Eu era um jovem cinéfilo e também bastante entusiasmado com aquela série fantástica que a Globo tentou estragar, TWIN PEAKS (1990-1991). O filme foi feito durante as gravações da série e por isso hoje eu tenho sentimentos mistos em relação a este longa-metragem. Por mais que a experiência de vê-lo tenha sido fascinante, o conceito de obra-prima lynchiana seria mudado pelo próprio David Lynch, que se superaria enormemente nos trabalhos seguintes.

Ainda assim, CORAÇÃO SELVAGEM deve ser visto com carinho, embora possa desagradar a quem o considere excessivo ou histérico. Também é um filme que prima mais pelo bizarro e pelo cômico do que pelo assustador, coisa que Lynch faria tão melhor, inclusive na série TWIN PEAKS. Aliás, há alguns atores e atrizes da série no elenco em participações muito bem-vindas: Grace Zabriskie, Sherilyn Fenn, David Patrick Kelly, Sheryl Lee e Jack Nance.

Lembro que a cena de Sailor (Nicolas Cage) matando um homem a porrada ao som de um rock bem pesado ("Slaughterhouse", de uma banda chamada Powermad) no começo do filme muito me impressionou. Lynch consegue fazer uma ligação muito estreita entre o rock contemporâneo e o rock e o estilo de vida dos anos 1950, tão queridos em sua obra (não à toa Sailor é fã do Elvis Presley e canta duas de suas canções no filme).

Mas uma coisa que eu não lembrava era o lado safado (no bom sentido) no filme. Impressionante como Lynch gosta dessas coisas. Aliás, mesmo no recente TWIN PEAKS - O RETORNO (2017) ele arrumou um jeito de colocar sexo na história. Aqui, o ponto alto da sensualidade vem de um flashback de Sailor. Ele conta para sua amada Lula (Laura Dern, em segunda colaboração com Lynch) uma de suas primeiras experiências sexuais. O detalhe de Sailor abordando a moça é que faz toda a diferença. Eu fiquei surpreso de ter esquecido dessa cena!

Também havia me esquecido da bela sequência que mostra Isabella Rossellini pela primeira vez em cena. Aquela imagem de Rossellini havia sido capa de uma revista SET, na época, no auge criativo e intelectual. A beleza está tanto em sua presença (de cabelo curto e loiro), mas principalmente na construção da direção de arte: ela sai de uma casa simples no meio do nada. Já a participação de Willem Dafoe como Bob Peru é memorável, difícil demais de ir para o arquivo morto da memória. Sua figura grotesca combina bastante com o tom caricato que Lynch pinta nesta sua obra, vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 1990.

Outra coisa que dá para perceber em CORAÇÃO SELVAGEM é o quanto é mais um filme com episódios quase soltos do que uma narrativa que se sustenta por um fio condutor. Há várias subtramas que têm, cada uma, a sua força, havendo espaço para mais de dois, três ou mesmo quatro vilões.

É também um filme que soma à obra de Lynch o tema da perdição do herói ou da heroína. No caso, o herói (Sailor) consegue a sua redenção. Mas não sem antes ir ao inferno duas vezes. Por mais que tenhamos uma história que mostra alguém sendo perseguido por um mundo cercado pelo mal por todos os lados, uma característica de quase toda obra de Lynch, o tom é mais leve, graças a um final feliz. E às vezes um final feliz pode ser mais ousado do que um final sombrio e triste.

+ TRÊS FILMES

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don't Look Now)

Em homenagem a Nicolas Roeg, finalmente vi este clássico moderno. Acabei não entrando muito no clima, o que também aconteceu com o filme estrelado pelo David Bowie, mas é uma obra singular, com uma montagem bem própria, e um tipo de terror que parece muito distante do que se espera encontrar. Hoje em dia rotulariam como pós-horror. Ano: 1973.

PROCURA INSACIÁVEL (Taking Off)

O filme escolhido para homenagear a passagem de Milos Forman foi a sua estreia nos Estados Unidos. Dá para perceber seu apreço pela contracultura nesta comédia sobre pais em busca de filhos que desaparecem, e o medo de eles se desencaminharem com as drogas etc. As melhores cenas ficam para o final. E a cena da aula de como fumar maconha é sensacional. Ano: 1971.

LOUCURAS DE UMA PRIMAVERA (Milou en Mai)

Um dos filmes que mais transborda vida por todos os poros. E o engraçado é que ele começa a partir da morte da matriarca e de uma espécie de disputa pelos bens etc. Mas o que transforma aquela reunião de família e de agregados numa festa é o clima de maio de 68, que contamina até mesmo a região rural da França. Mágica pura! Direção: Louis Malle. Ano: 1990.

segunda-feira, dezembro 10, 2018

O BEIJO NO ASFALTO

Impressionante a capacidade do cinema (e das outras artes também, creio eu) de buscar algo tão próprio de um tempo, o Rio de Janeiro de 1961, época em que foi encenada a peça de Nelson Rodrigues, e transformá-la em um autêntico produto de nosso momento, do Brasil de hoje. A mesma peça já havia rendido dois longas-metragens para cinema, um em 1965, de Flávio Tambellini, e um outro mais famoso, provavelmente, dirigido por Bruno Barreto em 1981. Mas agora vivemos novos tempos. Tempos mais parecidos com uma distopia.

Por isso Murilo Benício, em sua estreia na direção, prefere adotar um tom mais sombrio, próximo do kafkiano, embora humor não falte, já que estamos falando de Nelson Rodrigues, mestre em saber explorar o lado podre da família, das pessoas, da sociedade brasileira em geral. Benício também resolveu brincar com a metalinguagem, de modo a trazer mais força e enfatizar o prestígio da peça, ao trazer todo o elenco em uma roda de leitura, também aberta para fazer observações sobre a obra, sobre o dramaturgo e sobre os personagens. Fernanda Montenegro é a que mais faz observações, até por ter vivido os tempos em que a peça se passa.

Na trama de O BEIJO NO ASFALTO (2018), já conhecida por muitos, um homem, Arandir (Lázaro Ramos), beija a boca de um homem que acabou de ser atropelado por um ônibus. Havia repórteres e testemunhas e o caso virou notícia de jornal. Uma notícia que virou a vida do pobre homem de cabeça para baixo. Afinal, ele, mesmo sendo casado, teria tido um caso com o tal homem morto? Era essa a pergunta que todos o faziam até o limite da exaustão.

A esposa, Selminha, vivida brilhantemente por Débora Falabella, apoia o marido, apesar de o pai (Stênio Garcia) sempre questioná-la sobre se ela o conhece de fato (o pai nunca chama Arandir por seu próprio nome, apenas "seu marido", "meu genro" etc.). O casal mora junto com a irmã mais jovem de Selminha, Dália (Luiza Tiso), que funciona como um elemento de atiçamento nas relações familiares.

A opção pelo preto e branco na fotografia acentua o tom sombrio de drama criminal e investigativo, mas principalmente na condução do espírito atormentado de um homem. Aliás, não só de um homem, já que outras pessoas também são conduzidas a esta teia de horror. Assim, nenhuma outra cena parece tão impactante quanto a de Selminha sendo interrogada pelo delegado (Augusto Madeira) e o repórter inescrupuloso (Otávio Müller). O texto de Nelson é tão forte que nem mesmo a revelação de uma quarta parede nos tira sua intensidade. Ao contrário, só mostra o quanto o texto do escritor é forte e o quanto foi acertada a direção de Benício. Lembrando também que Débora Falabella já havia feito muita gente se emocionar no cinema com um monónogo emocionante no melodrama O FILHO ETERNO, de Paulo Machline.

No mais, vale dizer que não é todo dia que vemos um ator se mostrar um diretor de mão cheia. O caminho que Benício traça aqui lembra o de Al Pacino, quando estrelou na direção com RICARDO III - UM ENSAIO. E se os falantes de língua inglesa têm Shakespeare, nós, brasileiros, temos Nelson Rodrigues. E isso não deixa de ser um baita motivo de orgulho.

+ TRÊS FILMES

TUDO ACABA EM FESTA

Uma bobagem divertida. Lembra alguns filmes americanos sobre festas em empresas. Só que esse aqui parece mais amador, o que não necessariamente diminui a diversão. Marcos Veras está bem, mas gostei mesmo foi das moças, principalmente Giovanna Lancellotti, que nunca tinha visto no cinema, pelo que eu lembre. Simpatia de menina. Já Rosanne Mulholland me pareceu pouco aproveitada. Direção: André Pellentz. Ano: 2018.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

É o melhor filme de Cáca Diegues em muito tempo, mas isso não quer dizer muito, já que faz teeempo que ele não lança um filme decente. Este aqui me pegou positivamente pela viagem, embora eu ainda não saiba qual é o motivo final, sobre o que é o filme. Há quem diga que é sobre machismo ao longo das décadas. Tem uma relação com BYE BYE BRASIL. Gostei de muita coisa, na verdade. Mas o que é a Bruna Linzmeyer, hein? Hein? Meu Deus!! Fiquei em estado de graça. Ou sei lá que tipo de estado eu posso dizer que fiquei. Deu até para repensar a questão da nudez, que foi dita por Pedro Cardoso como algo que representa a nudez do intérprete e não do personagem. Mas que tal registrar em filme de alta qualidade, para ficar para a posteridade, a beleza de um corpo em seu auge? Direção: Carlos Diegues. Ano: 2018.

A VOZ DO SILÊNCIO

Terceiro filme de André Ristum que vejo e o terceiro de que não gosto. Esse aqui é ainda mais problemático pois é um filme-coral com histórias quase todas sem nenhuma dramaticidade eficiente. A história que quase comove é a da mãe-filho-avô, mas acaba chegando muito perto do fim. A atmosfera da solidão de São Paulo também não rende. E Marieta Severo, hein. Que papel ruim. Trata-se de uma coprodução Brasil/Argentina, com vários atores argentino em papéis importantes. Ano: 2018.

quinta-feira, novembro 08, 2018

VIDA DE SOLTEIRO (Singles)

Certos filmes precisam de um distanciamento temporal para que possam envelhecer bem. Como acontece com os discos. Na primeira vez que vi VIDA DE SOLTEIRO (1992), em VHS, não me empolguei muito. Mesmo já sendo um entusiasta da turma de Seattle, do grunge. Se bem que eu gostava bem mais do Nirvana do que de Alice in Chains, Pearl Jam e Soundgarden. E Nirvana não chega a tocar no filme. Em compensação, toca a linda “Drown”, dos Smashing Pumpkins, minha banda do coração número 1 daquela década de 90, que não é grunge, mas que havia alguma semelhança naquele primeiro momento.

Não que o longa-metragem que deu visibilidade a Cameron Crowe tenha se revelado uma pérola. Talvez o saudosismo,r em poder voltar àqueles tempos tenha me feito um pouco mais feliz nesses dias difíceis. Além do mais, as histórias de amor são boas. Ou ao menos uma delas é muito boa e envolvente, que é a história de Steve (Campbell Scott) e Linda (Kyra Sedgwick). A história deles dois lida muito com regras de namoro, sobre a maneira como o casal deve se comportar para ser mais feliz ou para fazer a relação dar certo. Por mais que as novas gerações posem de descomplicadas, isso ainda não mudou, gera identificação.

A outra história importante é a do casal Cliff (Matt Dillon) e Janet (Bridget Fonda). Ela é louca por ele, um vocalista de uma banda de garagem sem muito tutano. Ele infelizmente a esnoba, não lhe dá o devido valor. Aos poucos, ela percebe que precisa se desprender daquela relação. Dar amor sem receber em troca. E já até dá para imaginar o que acontece. Mas essa história, por mais que Bridget Fonda esteja apaixonante, acaba sendo pouco atraente, justamente por não ser aprofundada e também pelo fato de o personagem de Dillon ser um tanto bocó.

Uma coisa que nos deixa pensando ao ver agora à distância a carreira de Cameron Crowe é que é um cineasta que precisa muito de laços afetivos e da força da memória para que seus trabalhos sejam memoráveis. Como foi o caso de QUASE FAMOSOS (2000). Seus trabalhos que parecem ser de encomenda, por mais interessantes que sejam, como JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996) e VANILLA SKY (2001), carecem de brilho e de amor. E nem falemos de seus últimos trabalhos para não dar vexame.

+ TRÊS FILMES

DO JEITO QUE ELAS GOSTAM (Book Club)

Um filme que eu vi com certa preguiça. Mas o elenco é de respeito e dá pra dar uma relevada em algumas coisas, se a intenção for ver uma comédia leve com atrizes na chamada "melhor idade". Diane Keaton continua sendo muito querida. E é a trama dela a mais interessante das quatro. Direção: Bill Holderman. Ano: 2018.

ANNA KARENINA – A HISTÓRIA DE VRONSKY (Anna Karenina. Istoriya Vronskogo)

É ruim não ter visto uma adaptação boa do romance clássico vinda da Rússia. As que eu gostei foram justamente em língua inglesa: a versão com a Greta Garbo e a com a Keira Knightley. Esta parece aqueles filmes do Hallmark, com a diferença que é um pouco mais classuda. Era para a personagem da Anna ficar insuportável de chata mesmo? Estava nos planos? É o tipo de filme em que a gente sente sempre vontade de mudar os rumos dos acontecimentos, para ver se dá jeito. Direção: Karen Shakhnazarov. Ano: 2017.

JULIET, NUA E CRUA (Juliet, Naked)

Só em ter visto em Miami já foi marcante, mas já era um filme que eu queria muito ver, pelo casal de protagonistas. Acho que Ethan Hawke é o ator com quem eu melhor me identifico, por ter mais ou menos a minha idade e ter no currículo filmes muito especiais pra mim. Já a Rose Byrne, é por ser encantadora mesmo. Há muito humor e sensibilidade nesta comédia romântica simples. O diretor é conhecido de quem acompanhou a série GIRLS. Direção: Jesse Peretz. Ano: 2018.

quarta-feira, novembro 07, 2018

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting of Hill House)

Talvez o cineasta especializado no gênero horror mais brilhante da nova geração, levando em consideração a quantidade e a qualidade de seus trabalhos, Mike Flanagan encontra na minissérie (ou seria mesmo uma série?) A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018) o seu ponto alto, por mais que encontremos no desenvolvimento da narrativa, principalmente em sua conclusão, uma ou outra irregularidade. Mas é muito pouco mesmo diante de tanta segurança e tanta sensibilidade na condução da obra.

O traço de autoralidade de Flanagan se apresenta de maneira explícita em seu interesse por questões familiares, já presentes em filmes como O ESPELHO (2013), O SONO DA MORTE (2016) e JOGO PERIGOSO (2017), também uma produção da Netflix e talvez seu trabalho menos inspirado, mas, ainda assim, uma obra que, mesmo sabendo lidar com o medo muito bem, traz um debate sobre o abuso sexual infantil como principal elemento.

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL impressiona por convidar o espectador para ver uma história de terror, mas que o segura mesmo pelo excelente roteiro que privilegia os dramas dos personagens, que são apresentados e aprofundados um a um ao longo dos episódios. Além de ter o mérito de conseguir lidar com tantos personagens, há duas ou três linhas temporais sendo contadas. Há a história no passado, ligada à tragédia e ao mistério que puseram fim à vida da matriarca da família (Carla Gugino), e há a história no presente, com todos os personagens já adultos.

Tanto os atores crianças quanto os mais jovens são muito bons. Especial destaque para Kate Siegel, atriz presente em vários trabalhos de Flanagan. Ela interpreta Theo, que desde criança percebe que tem uma sensibilidade nas mãos, é capaz de saber o que aconteceu apenas tocando em algo. Por isso usa sempre luvas. Ela também prefere evitar abraços ou aproximações físicas, o que prejudica sua vida íntima e a torna muito solitária.

Não é apenas Kate Siegel que apareceu em filmes de Flanagan. Henry Thomas e Carla Gugino, que interpretam os pais da família, estiveram em JOGO PERIGOSO; e Lulu Wilson e Elizabeth Reaser, a Shirley nos estágios criança e adulto, estão ambas em OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016). Assim, o clima de familiaridade também se estende aos rostos dos atores e atrizes da série.

A trama, cheia de idas e vindas no tempo, mostra as consequências nas vidas de uma família depois de um evento sobrenatural ocorrido em uma casa mal assombrada, a Residência Hill do título. Assim, aos poucos vamos conhecendo os eventos a partir dos pontos de vista de cada um dos membros da família, até que o quebra-cabeças se solucione. Embora todos os episódios sejam muito bons, é possível destacar alguns dos mais impressionantes: “A Moça do Pescoço Torto”, que lida com o mistério da assombração que atormenta a caçula da família, Nell; e o episódio em que toda a família se reúne pouco antes do sepultamento da irmã, em uma noite tempestuosa. Esse possui um trabalho de câmera magnífico.

Se no ano passado, a melhor série da Netflix foi o thriller MINDHUNTER, neste ano o serviço de streaming surpreende com uma séria candidata a melhor série de horror já produzida.

+ TRÊS SÉRIES

BETTER CALL SAUL – QUARTA TEMPORADA (Better Call Saul – The Fourth Season)

E depois de três acertadas temporadas, a história de Jimmy McGill começa a desandar e a ficar desinteressante neste quarto ano. Uma pena. Ainda assim, a melhor coisa da série continua sendo Kim. As tramas envolvendo os traficantes começam a ficar chatas, mesmo tendo um personagem tão cativante quanto o Mike. Quem sabe se recupere na quinta, que parece será a última. Criadores: Vince Gilligan e Peter Gould.

OBJETOS CORTANTES (Sharp Objects)

Muito interessante o andamento lento de SHARP OBJECTS. Muitos chegaram a dizer que era uma série sobre nada. Mas creio que foi necessário. Esse tipo de andamento combina com o ar de falta de vontade de viver da personagem de Amy Adams, de volta à sua cidade natal para fazer uma matéria sobre um assassinato de uma garota. O final é surpreendente e mórbido o bastante pra gente respeitar a série. Sem falar que o trio de protagonistas, a mãe e as duas filhas, são excepcionais. Criador: Marti Noxon.

THE AFFAIR – QUARTA TEMPORADA (The Affair – The Fourth Season)

Depois de uma terceira temporada fraca, THE AFFAIR volta com força e trazendo desafios imensos para seus personagens. É tudo muito intenso: morte, gravidez, câncer terminal, reencontro familiar, crise matrimonial. Vida de adulto consegue ser pior do que só pagar boleto e controlar peso. Há uma grande surpresa que mexe muito com o espectador, mas não chega a ser tão traumático, como o que aconteceu com um dos protagonistas de A SETE PALMOS, por exemplo. Ainda assim, a série está mais caprichada nos textos e na sensibilidade com que lida com os personagens. Criadores: Hagai Levi e Sarah Treem.

quinta-feira, outubro 25, 2018

LEGALIZE JÁ - AMIZADE NUNCA MORRE


É raro uma cinebiografia acertar a mão. Muitas tentam dar conta da vida completa do artista ou da pessoa em questão e acabam por tornar tanto a narrativa quanto o personagem rasos. Não é o caso de LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE (2018), dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que faz um recorte destacando a amizade entre Marcelo D2 e Skunk, responsáveis pela criação de uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro dos anos 1990, o Planet Hemp.

Bastava estar vivo naquela década para lembrar o que o rolava nas rádios e nas televisões: era o boom do pagode e do axé. O surgimento de novas bandas da turma de 94 foi crucial para dar uma oxigenada no rock daquele período, ainda que as bandas da década anterior ainda estivessem ativas e interessantes. Mas era preciso sangue novo e essa nova turma em geral soube lidar com a transgressão de maneira muito mais efetiva do que a turma anterior. Colocar a legalização da maconha como principal bandeira por si só já foi um trunfo. Mas o Planet Hemp tinha muito a oferecer no que se refere à qualidade de sua música.

Uma coisa que muita gente não sabia, inclusive eu, era a importância de Skunk para a criação do conceito da banda. Marcelo não acreditava em si mesmo, embora as letras tenham partido dele desde o começo. Skunk, soropositivo, tentou lidar com a doença até onde deu. Na época, os coquetéis para combater o avanço do HIV eram muito desconfortáveis e tinham efeitos colaterais bem desagradáveis.

LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE ganhou este subtítulo justamente por ser mais um filme de amizade do que um filme sobre criação musical. As linhas paralelas das vidas de Marcelo e Skunk, com Marcelo trabalhando de camelô vendendo camiseta de banda de rock na rua, e Skunk morando com um amigo argentino dono de um bar e com uma espécie de mini-estúdio caseiro, se cruzam em um momento em que o rapa aparece para desmontar as bancas de alguns vendedores de rua.

Chega a ser tocante ver a aproximação e a ótima química entre os dois, com Skunk sempre sendo o cara que motiva Marcelo a acreditar em si, em pensar grande com a ideia de montar uma das melhores bandas de rock do país. O filme tem uma pegada leve, apesar de haver aspectos dramáticos muito fortes devido às situações nada fáceis da vida de ambos, com cenas bem divertidas, como a da igreja ou a do guitarrista chegando ao estúdio. E há também os momentos musicais, que são de arrepiar. O que dizer da primeira vez em que ouvimos “Phunky Bhuda”? O que é esse riff de guitarra, essa energia?

Vale destacar aqui as excelentes performances dos atores. Tanto Renato Góes como Marcelo quanto Ícaro Silva como Skunk estão ótimos. Principalmente o segundo, que exala um carisma impressionante. Quanto ao um dos diretores, Johnny Araújo já havia se mostrado muito interessado em rock desde seu debute, com O MAGNATA (2007), com roteiro de Chorão e participação do Marcelo Nova, e DEPOIS DE TUDO (2015), uma espécie de ode à canção “Soldados”, da Legião Urbana.

+ TRÊS FILMES

A FÁBRICA DE NADA

Coragem do pessoal do Dragão de exibir um filme tão pouco usual e com uma duração até que bem longa. A FÁBRICA DE NADA dialoga com o nosso ARÁBIA, sobre a questão do trabalho e do capitalismo, mas é um bocado mais teórico. Olhei para os relógios várias vezes, mas acho que meu mal era a fome, já que fiz dobradinha com o uruguaio UMA NOITE DE 12 ANOS . Direção: Pedro Pinho. Ano: 2017.

DJON ÁFRICA

Acho excelente a primeira metade: passa um prazer grande dentro do subgênero road movie, por mais que adote um registro realista e quase documental, com uso de não-atores. Acho que lá pelo meio dá impressão de que os diretores não sabiam o que fazer com o personagem, ou não souberam como terminar sua história. Eu teria que pegar umas entrevistas e saber mais sobre o processo criativo e os rumos do projeto para saber o que aconteceu. De todo modo, é quase uma passagem de ida e volta para Cabo Verde. E custa baratinho, hein. Direção: João Miller Guerra e Filipa Reis. Ano: 2018.

10 SEGUNDOS PARA VENCER

já fizeram tantos filmes de boxe que muitas vezes esta cinebiografia do Éder Jofre parece imitar ROCKY, UM LUTADOR sem querer disfarçar. Ou outro parecido. Só que as cenas de luta são chatas e as de preparação também. O que mais conta mesmo é a relação pai e filho e a problematização quanto à questão de ser um campeão, o significado disso. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.

quinta-feira, outubro 04, 2018

FERRUGEM

A carreira de Aly Muritiba, nascido no interior da Bahia, é bastante curiosa. Diretor interessado na temática do presídio, até por ter trabalhado como agente penitenciário por sete anos, chegou a ganhar visibilidade nos festivais com a maneira pungente com que tratava aquele ambiente e as pessoas que lá trabalhavam, cumpriam pena ou as que visitavam os presos, como no curta A FÁBRICA (2011). Mas a virada na carreira de Muritiba se deu mais recentemente, quando ele mudou o foco de suas atenções, a partir do thriller PARA MINHA AMADA MORTA (2015) e do horror TARÂNTULA (2015).

Se em PARA MINHA AMADA MORTA o conteúdo de um vídeo seria o catalisador do destino do protagonista – ele descobre que sua esposa falecida tinha um caso com outro homem através de uma fita VHS -, no novo FERRUGEM (2018) é também um vídeo o responsável pelo estrago que acontece na vida dos dois protagonistas.

O vídeo em questão foi filmado com câmera de celular e mostra um momento de intimidade entre dois adolescentes colegiais. A primeira parte do filme foca em Tati (Tiffany Dopke), que terminou um namoro recentemente e começa a conversar com um rapaz mais tímido e arredio, Renet (Giovanni de Lorenzi). O filme parece dar a impressão de que a partir da conversa que os dois têm vai surgir uma história de amor, mas a garota fica logo assustada quando seu aparelho celular desaparece.

No entanto, isso não é nada perto do que se transformará a sua vida no dia seguinte, ao saber que o vídeo íntimo presente no celular foi viralizado e ela passa a ser vista por toda a escola como vadia ou algo parecido. Ao abordar em especial esta parte do filme, Muritiba deixa bem claro o modo diferente com que o vídeo atinge os presentes: o ex-namorado de Tati leva tudo na brincadeira. Para ela, porém, o vídeo representa um pesadelo insuportável.

Acabei lembrando do que uma professora amiga minha falou sobre a necessidade de as mulheres se unirem para ajudar a desestruturar a sociedade machista instituída e principal motor para tragédias como a mostrada no filme. Afinal, na trama, as próprias garotas se afastam de Tati, a família é ausente em apoio e as famílias das colegas incentivam o afastamento de suas filhas dessa menina de comportamento impróprio. Hipocrisia e falta de empatia imperam.

A segunda parte do filme, mais longa, mais angustiante e mais contemplativa, lança seus holofotes para Renet, o jovem com quem Tati havia conversado na primeira parte. O papel do pai de Renet, vivido pelo excelente Enrique Diaz, ganha mais força nesta segunda parte, enfatizando o aspecto. A história dessa vez se passa em uma cidade litorânea, e há a importante visita da mãe até então ausente de Renet, que aparece grávida.

Essa questão da gravidez da mãe e o fato de ela ter abandonado os filhos para viver a sua vida não é algo visto com bons olhos por Renet. Ao contrário, o rapaz evita atender os telefonemas da mãe ou qualquer contato com ela. Eis mais um elemento importante para dar pano para a manga no que se refere à maior cobrança das mulheres na sociedade machista, que vive em um momento de crescimento com a onda conservadora, na contramão de uma linha mais progressista que vinha até então se formando.

FERRUGEM pode não ser o tipo de filme que agrada imediatamente durante a metragem, mas que aos poucos vai ganhando força na memória afetiva, tanto pela beleza da construção das cenas, quanto pelas discussões que levanta.

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O NOME DA MORTE

Um filme herdeiro de um tipo de cinema que se fazia muito bem no Brasil dos anos 1970. Uma pena que deve acabar sendo visto por poucas pessoas, pois tem uma narrativa muito enxuta e fluida e um veneno bem próprio nascido do drama do personagem pistoleiro. O título internacional do filme é 492, o número de mortes do protagonista. Baseado em uma história real. Direção: Henrique Goldman. Ano: 2017.

ALGUMA COISA ASSIM

Acho o curta mais redondinho e mais bem resolvido, mas o longa traz mais coisas para a discussão, como a questão do aborto. A brincadeira com os três tempos também ficou boa, ainda que não tão boa quanto gostaríamos. O problema do filme talvez seja o personagem masculino, já que Caroline Abras arrasa de novo. Nos três tempos. Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos. Ano: 2017.

A DESTRUIÇÃO DE BERNADET

Considerado por muitos como o maior crítico de cinema do Brasil, Jean Claude Bernadet ganha aqui mais um filme em torno de si. Provavelmente o mais importante, no sentido de ser um longa-metragem sobre ele, mas também sabendo brincar com a ficção, com a performance. Achei o monólogo final um pouco cansativo, mas talvez esteja ali muito do significado do filme. Por isso é importante prestar bem atenção. Direção: Claudia Priscilla e Pedro Marques. Ano: 2016.

quarta-feira, outubro 03, 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS (La Noche de 12 Años)

Nós, brasileiros, estamos vivendo um dos momentos mais perigosos de nossa História, com a possibilidade de eleição de um candidato à presidência que flerta com a ditadura militar e com os torturadores, tendo deixado isso bem claro em diversas declarações. Por isso que a primeira coisa que eu pensei ao sair da sessão de UMA NOITE DE 12 ANOS (2018), de Álvaro Brechner, foi: este filme deveria passar numa Tela Quente da vida, para que a maior quantidade possível de brasileiros pudesse assistir. É lamentável que ele fique relegado ao pequeno circuito, um espaço que costuma já ser frequentado por pessoas de linha progressista.

O filme conta uma história que foi repetida em quase todos os países da América Latina: o surgimento de ditaduras militares nos anos 1960 e 1970, patrocinadas pelo governo americano, com medo de uma possível transformação desses países em repúblicas comunistas. Os tempos eram outros, mas atualmente a falta de noção domina e o velho discurso anticomunista volta à tona com a ascensão da extrema direita no mundo.

Por isso a urgência de uma obra como UMA NOITE DE 12 ANOS, desde já candidato do Uruguai ao Oscar de filme estrangeiro. Muito do interesse do filme se dá pela presença de um personagem muito importante e querido dos sistemas democráticos recentes, José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Ele e mais dois amigos foram presos e torturados durante 12 anos e o filme acompanha esse processo com muita desenvoltura narrativa. Não que seja um filme novo do ponto de vista formal. É até bastante tradicional. Mas isso é até positivo, para alcançar um público maior.

Na trama, Mujica, (Antonio de la Torre), o poeta Mauricio Rosencof (Chino Darin) e o político e jornalista Eleutério Fernández Huidobro (Alfonso Tort) passam por várias prisões diferentes ao longo dos anos, impossibilitados de se comunicar um com o outro ou com qualquer outra pessoa. São tratados como se fossem elementos extremamente perigosos para o sistema implantado. Uma vez que o ódio aos comunistas era comum entre os militares, o tratamento que eles recebiam era proporcional a esse ódio.

A cada contagem dos dias e da mudança dos espaços, sentimos a perda da esperança daqueles homens. Dos três, Mujica foi o que mais se aproximou de enlouquecer, já que não obteve um elo de comunicação como os dois outros conseguiram em determinado momento, através de batidas na parede, criando códigos. Para não ficar tão carregado de tragédia, Brechner até traz um pouco de humor, embora o riso surja às vezes do ridículo da situação, como na cena em que um dos prisioneiros está algemado e não consegue sentar na privada para defecar. Os militares imbecis não conseguem tomar uma decisão sem perguntar a seus superiores.

Rosencof até conquistou a simpatia de um sargento ao ajudá-lo a conquistar a mulher que ele desejava, através da escrita de cartas. São esses talvez os momentos mais leves do filme, cujo tom é de uma escuridão tão penetrante que até sentimos uma diferença enorme na fotografia sempre que vemos as poucas imagens de exteriores. Há uma cena em que um deles pede para que lhe tire por favor as vendas, de modo que ele possa pelo menos olhar para o céu por um minuto.

À medida que o tempo da ditadura se aproxima do fim, a partir de um plebiscito, assim como aconteceu também no Chile, vamos ganhando um pouco mais de alegria e esperança, embora esse sentimento mais positivo seja nublado pelo fato de que os 12 anos que aqueles homens perderam na prisão jamais serão recuperados novamente. Ainda assim, não deixa de haver um sentimento agridoce de vitória, principalmente quando lemos sobre os destinos desses três homens no campo da política e das artes. Mas, como o tempo é cíclico, a luta continua. As ameaças também.

+ TRÊS FILMES

Z

O começo do filme é confuso pra caramba, mas depois, com as investigações, tudo passa a fazer mais sentido. O tom de confusão do começo era pra ser mesmo. Era o tom da França em 1968. E o filme se parece demais com o mundo de hoje. Inclusive com o Brasil de hoje. Impressionante. Direção: Costa-Gavras. Ano: 1969.

CAMOCIM

Da série de documentários que se constroem como dramas e que têm enriquecido o cinema brasileiro contemporâneo, CAMOCIM tem sua urgência, pois apresenta a imagem do Brasil dividido a partir das eleições municipais de uma pequenas cidade de Pernambuco. Ótima a protagonista, cabo eleitoral de um vereador. Bom também ver o ridículo de ambos os lados e o quanto o povo vira fantoche fácil dos políticos. Direção: Quentin Delaroche. Ano: 2017.

UMA QUESTÃO PESSOAL (Una Questione Privata)

Fui com muito interesse e muita boa vontade ver o último filme dos irmãos Taviani, mas infelizmente achei muito difícil de me sensibilizar ou mesmo de me envolver com a obra. Até fico me perguntando novamente se é uma espécie de mal do cinema italiano contemporâneo. Este filme em particular tem o problema de não trazer envolvimento emocional nas cenas de flashback do protagonista com a garota que ele ama. Acerta um pouco no que há de maior, que é a questão da guerra, enquanto ele passa por essa busca interior. Direção: Paolo Taviani. Ano: 2017.

quarta-feira, setembro 12, 2018

VIAGEM A FLÓRIDA

São tempos estranhos esses. Em 2015, quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, o cenário político-econômico brasileiro também estava muito ruim. Mas, desta vez, está tudo tão pior que dá até um sentimento de culpa de estar viajando para um lugar em que reina a prosperidade, enquanto o Brasil está passando por uma crise gigante. E também mexeu muito comigo o fato de o meu melhor amigo ter sido demitido e estar passando pelo que talvez seja a fase mais difícil de sua vida, em praticamente todos os aspectos, enfatizando agora a questão financeira.

Não teria feito a viagem se não fosse o convite tentador de meu cunhado Wandré, que utilizou suas milhas e chamou a mim e a minha irmã mais velha, a Ilinha, para viajarmos com ele e a Adaila para Orlando e Miami. A Ilinha, ainda por cima, conseguiu uma casa nota 10 lá em Orlando, com uma de suas clientes. A casa estaria garantida, de graça, durante o período, segundo a proprietária. Acontece que o visto da Ilinha foi recusado pela embaixada americana e tivemos que pagar o aluguel da casa, ainda assim muito mais baixo que as diárias em um hotel.

A intenção principal da viagem de Wandré e Adaila: comprar o enxoval do meu sobrinho que virá daqui a alguns meses. A presença da Ilinha seria ideal para que me acompanhasse durante os momentos de compras nas lojas de bebê, que renderiam várias horas. Sem a Ilinha, acabei desperdiçando algumas horas que poderia usar para mim, por não me organizar direito e também pelo fato de Orlando ser uma cidade com poucas opções além dos parques. Todos os estabelecimentos comerciais são distantes um do outro. Ainda assim, fiquei mais feliz que pinto no lixo quando adentrei a Barnes and Noble de lá, mesmo sendo tão menor que a de Los Angeles, que ainda tinha um departamento de música. Ao menos pude comprar umas revistas de cinema e uns livros e ficar algumas horas por lá.

Quanto aos parques, o que eu havia escolhido para conhecer acabou sendo o mais acertado, dentre os dois que visitamos. Wandré e Adaila já conheciam quase todos os outros. A minha preferência pelo Epcot foi pela parte dedicada à culinária de vários lugares do mundo, com a possibilidade de se deliciar com diferentes pratos, mas também de conhecer a parte futurista e tecnológica. Dois momentos marcantes dessa parte: o primeiro foi um brinquedo que nos leva em poucos minutos até Marte, com uma passada pela Lua. Que baita simulação. Confesso que gelei, saí de lá tremendo na base, mas ao mesmo tempo bastante impressionado com a perfeição da coisa. Principalmente na hora em que somos arremessados da Terra para a Lua. Só de lembrar já dá um frio na barriga. O outro brinquedo fantástico do parque é um passeio em que somos apresentados à evolução tecnológica do ser humano, desde a antiguidade até os dias de hoje. Este brinquedo fica exatamente dentro do globo branco que serve como cartão postal do parque. Antológico. Se eu for novamente a Orlando, vou querer ir lá nesse parque de novo.

Já o outro parque, o Animal Kingdom, não me conquistou, embora seja sim bem curioso, com a parte dos animais sendo vistos ao vivo. Porém, depois de eu ir a um brinquedo meio tosco que simula ataques de dinossauros e faz o carrinho balançar, fiquei até com medo de ir ao tal brinquedo do Avatar. Amarelei. E saímos do parque mais cedo do que o previsto para conhecer outras coisas de Orlando. Foi quando eu fui até a Barnes and Noble, enquanto o meu casal favorito fazia mais compras. Acabou sendo positivo e produtivo para todos.

Assim como foram muito positivos cada momento em que sentávamos para comer e conversar. Adoro comer e acho que restaurantes e lanchonetes são coisas essenciais em viagens. Como comíamos muito tarde, as visitas ao McDonald's e ao Burger King foram costumeiras. Por outro lado, foi uma beleza poder conhecer um restaurante de massas tão bom quanto o Olive Garden.

Apesar de ter curtido os momentos em Orlando, já estava ansioso pelos dias finais em Miami, por ser uma cidade gigante, com mais coisas para conhecer. Acontece que Miami também é uma cidade que não tem metrô e isso dificulta a vida de quem está a pé. Mas ainda assim fiquei fascinado por sua beleza. Ficamos no 18º andar de um edifício cuja janela dava para ver uma paisagem linda da cidade, tanto à noite quanto de dia. Lá na praia, em Miami Beach, tirei umas fotos lindonas também, mesmo em um dia com oscilações de sol e chuva. Lá nesse momento foi quando eu estava mais tranquilo e em paz comigo mesmo, com a companhia que tinha e aquele mar e aquele céu lindo.

No primeiro dia (ou melhor, à noite), fizemos um passeio tradicional em um Big Bus, só para dar uma geral pela cidade. O sujeito que apresentava a cidade no ônibus ficava imitando o Al Pacino em SCARFACE o tempo inteiro e fazendo graça com os passageiros. Depois comemos no Hard Rock Café lá de Miami Beach. Foi a minha primeira vez comendo lá e achei uma delícia o sanduíche gigante e também adorei o atendimento. Em Nova York, em 2015, apenas passei rapidamente para conhecer a área interna do lugar, mas desta vez pude saborear a comida.

No dia seguinte, já era o último dia da viagem, mas tínhamos um bom tempo ainda para curtir a cidade. Fomos ao maior shopping center da cidade, o Aventura. A ideia de ir ao shopping foi minha, já que não tinha outra ideia mesmo. Além do mais, tive a sorte de conhecer o maior multiplex que já vi, um que tem 24 salas de cinema. Vi lá JULIET, NAKED, de Jesse Peretz. O filme eu vi com muito prazer, tanto pela presença de Ethan Hawke, quanto pela beleza de Rose Byrne. Hawke talvez seja o ator que mais entra em sintonia comigo: tem mais ou menos a minha idade e está presente em pelo menos três dos filmes mais importantes da minha vida.

Entre os demais momentos agradáveis da viagem, as várias passagens de madrugada pelo Walmart foram marcantes, com aquela imensidão de produtos e aquela calmaria da madrugada. A casa de Orlando era tão boa que dava até pena de só estar lá para dormir. A cama, então, era uma delícia. Dava vontade de ficar muito tempo dormindo. Desconfortáveis mesmos só os voos, mas nem dá para reclamar muito, já que o avião é o meio mais rápido para chegar aos lugares. Foi bom voltar para casa, mesmo com uns quilos a mais depois de tanta junk food, mas depois de alguns dias já comecei a sentir saudade da lá de novo. Deve ser por isso que tantas pessoas são viciadas em viagens. Elas nos mudam internamente, trazem alegria para nossas vidas, ampliam nossos horizontes. Preciso fazer mais viagens. Seja só ou acompanhado. No Brasil ou no exterior.