quarta-feira, setembro 12, 2018

VIAGEM A FLÓRIDA

São tempos estranhos esses. Em 2015, quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, o cenário político-econômico brasileiro também estava muito ruim. Mas, desta vez, está tudo tão pior que dá até um sentimento de culpa de estar viajando para um lugar em que reina a prosperidade, enquanto o Brasil está passando por uma crise gigante. E também mexeu muito comigo o fato de o meu melhor amigo ter sido demitido e estar passando pelo que talvez seja a fase mais difícil de sua vida, em praticamente todos os aspectos, enfatizando agora a questão financeira.

Não teria feito a viagem se não fosse o convite tentador de meu cunhado Wandré, que utilizou suas milhas e chamou a mim e a minha irmã mais velha, a Ilinha, para viajarmos com ele e a Adaila para Orlando e Miami. A Ilinha, ainda por cima, conseguiu uma casa nota 10 lá em Orlando, com uma de suas clientes. A casa estaria garantida, de graça, durante o período, segundo a proprietária. Acontece que o visto da Ilinha foi recusado pela embaixada americana e tivemos que pagar o aluguel da casa, ainda assim muito mais baixo que as diárias em um hotel.

A intenção principal da viagem de Wandré e Adaila: comprar o enxoval do meu sobrinho que virá daqui a alguns meses. A presença da Ilinha seria ideal para que me acompanhasse durante os momentos de compras nas lojas de bebê, que renderiam várias horas. Sem a Ilinha, acabei desperdiçando algumas horas que poderia usar para mim, por não me organizar direito e também pelo fato de Orlando ser uma cidade com poucas opções além dos parques. Todos os estabelecimentos comerciais são distantes um do outro. Ainda assim, fiquei mais feliz que pinto no lixo quando adentrei a Barnes and Noble de lá, mesmo sendo tão menor que a de Los Angeles, que ainda tinha um departamento de música. Ao menos pude comprar umas revistas de cinema e uns livros e ficar algumas horas por lá.

Quanto aos parques, o que eu havia escolhido para conhecer acabou sendo o mais acertado, dentre os dois que visitamos. Wandré e Adaila já conheciam quase todos os outros. A minha preferência pelo Epcot foi pela parte dedicada à culinária de vários lugares do mundo, com a possibilidade de se deliciar com diferentes pratos, mas também de conhecer a parte futurista e tecnológica. Dois momentos marcantes dessa parte: o primeiro foi um brinquedo que nos leva em poucos minutos até Marte, com uma passada pela Lua. Que baita simulação. Confesso que gelei, saí de lá tremendo na base, mas ao mesmo tempo bastante impressionado com a perfeição da coisa. Principalmente na hora em que somos arremessados da Terra para a Lua. Só de lembrar já dá um frio na barriga. O outro brinquedo fantástico do parque é um passeio em que somos apresentados à evolução tecnológica do ser humano, desde a antiguidade até os dias de hoje. Este brinquedo fica exatamente dentro do globo branco que serve como cartão postal do parque. Antológico. Se eu for novamente a Orlando, vou querer ir lá nesse parque de novo.

Já o outro parque, o Animal Kingdom, não me conquistou, embora seja sim bem curioso, com a parte dos animais sendo vistos ao vivo. Porém, depois de eu ir a um brinquedo meio tosco que simula ataques de dinossauros e faz o carrinho balançar, fiquei até com medo de ir ao tal brinquedo do Avatar. Amarelei. E saímos do parque mais cedo do que o previsto para conhecer outras coisas de Orlando. Foi quando eu fui até a Barnes and Noble, enquanto o meu casal favorito fazia mais compras. Acabou sendo positivo e produtivo para todos.

Assim como foram muito positivos cada momento em que sentávamos para comer e conversar. Adoro comer e acho que restaurantes e lanchonetes são coisas essenciais em viagens. Como comíamos muito tarde, as visitas ao McDonald's e ao Burger King foram costumeiras. Por outro lado, foi uma beleza poder conhecer um restaurante de massas tão bom quanto o Olive Garden.

Apesar de ter curtido os momentos em Orlando, já estava ansioso pelos dias finais em Miami, por ser uma cidade gigante, com mais coisas para conhecer. Acontece que Miami também é uma cidade que não tem metrô e isso dificulta a vida de quem está a pé. Mas ainda assim fiquei fascinado por sua beleza. Ficamos no 18º andar de um edifício cuja janela dava para ver uma paisagem linda da cidade, tanto à noite quanto de dia. Lá na praia, em Miami Beach, tirei umas fotos lindonas também, mesmo em um dia com oscilações de sol e chuva. Lá nesse momento foi quando eu estava mais tranquilo e em paz comigo mesmo, com a companhia que tinha e aquele mar e aquele céu lindo.

No primeiro dia (ou melhor, à noite), fizemos um passeio tradicional em um Big Bus, só para dar uma geral pela cidade. O sujeito que apresentava a cidade no ônibus ficava imitando o Al Pacino em SCARFACE o tempo inteiro e fazendo graça com os passageiros. Depois comemos no Hard Rock Café lá de Miami Beach. Foi a minha primeira vez comendo lá e achei uma delícia o sanduíche gigante e também adorei o atendimento. Em Nova York, em 2015, apenas passei rapidamente para conhecer a área interna do lugar, mas desta vez pude saborear a comida.

No dia seguinte, já era o último dia da viagem, mas tínhamos um bom tempo ainda para curtir a cidade. Fomos ao maior shopping center da cidade, o Aventura. A ideia de ir ao shopping foi minha, já que não tinha outra ideia mesmo. Além do mais, tive a sorte de conhecer o maior multiplex que já vi, um que tem 24 salas de cinema. Vi lá JULIET, NAKED, de Jesse Peretz. O filme eu vi com muito prazer, tanto pela presença de Ethan Hawke, quanto pela beleza de Rose Byrne. Hawke talvez seja o ator que mais entra em sintonia comigo: tem mais ou menos a minha idade e está presente em pelo menos três dos filmes mais importantes da minha vida.

Entre os demais momentos agradáveis da viagem, as várias passagens de madrugada pelo Walmart foram marcantes, com aquela imensidão de produtos e aquela calmaria da madrugada. A casa de Orlando era tão boa que dava até pena de só estar lá para dormir. A cama, então, era uma delícia. Dava vontade de ficar muito tempo dormindo. Desconfortáveis mesmos só os voos, mas nem dá para reclamar muito, já que o avião é o meio mais rápido para chegar aos lugares. Foi bom voltar para casa, mesmo com uns quilos a mais depois de tanta junk food, mas depois de alguns dias já comecei a sentir saudade da lá de novo. Deve ser por isso que tantas pessoas são viciadas em viagens. Elas nos mudam internamente, trazem alegria para nossas vidas, ampliam nossos horizontes. Preciso fazer mais viagens. Seja só ou acompanhado. No Brasil ou no exterior.

quarta-feira, agosto 29, 2018

CAFÉ COM CANELA


Impressionante como um filme consegue ser ao mesmo tempo experimental em sua linguagem e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. CAFÉ COM CANELA (2017), o premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que também nos apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras e de diferentes idades e situações.

A jovem Violeta (Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno.

O contraste das duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta nos pega tão fortemente: que lindo que é vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor.

Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração: uma cena muito simples e que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violeta; o cantar de um dos personagens coadjuvantes em uma razão de aspecto diferente (uma dentre três diferentes); a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana; e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, como se não algo tão capaz de encher nossos corações de amor?

E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda temos um quase monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Além do mais, é um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia. No caso, as cenas de CAFÉ COM CANELA se passam no Recôncavo Baiano.

Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. Mas o que conta mesmo nem são esses detalhes - se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções da audiência. Um presente que se não tomarmos cuidado pode passar desapercebido, como tantas outras joias recentes do nosso cinema.

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UNICÓRNIO

É até interessante de ver, mas impressionante como cansa, mesmo com toda a beleza e a linda fotografia em ultrascope. O diretor quer passar sensações e sentimentos através da imagem, mas não consegue, como nas cenas das angústias da garota no bosque. Mas curiosamente gosto da parte final, que lembra uma fábula. Pena que demora demais a chegar lá. Patrícia Pillar continua linda. Direção: Eduardo Nunes. Ano: 2017.

HILDA HILST PEDE CONTATO

Gosto bem mais da primeira parte do filme, que nos faz quase tão ávidos de boa literatura quanto a própria Hilda, além de ser mais interessante na questão da busca angustiante da escritora por vida além do plano terreno. É um filme bem singular. E a diretora tem um cuidado todo especial com os planos. Faz bem ver. Direção: Gabriela Greeb. Ano: 2017.

UMA QUASE DUPLA

É um filme que deve muito à Tatá Werneck a força que tem, ainda que não seja muita. Cauã está quase como um escada na dupla. É Tatá que fornece os momentos mais engraçados e memoráveis do filme. Que poderia ser menor e mais redondo. Faltou ao diretor timing para dominar a narrativa. Ainda assim é divertido e relaxante. Direção: Marcus Baldini. Ano: 2018.

quinta-feira, agosto 23, 2018

À SOMBRA DE DUAS MULHERES (L'Ombre des Femmes)


Grandes histórias de relacionamentos amorosos nem sempre precisam de trilhas sonoras grandiloquentes, atores com padrão Oscar de qualidade ou um tipo de direção cheia de virtuosismos. O que o veterano cineasta Philippe Garrel entrega em À SOMBRA DE DUAS MULHERES (2015) é justamente o contrário disso. E o que nos impressiona é o tanto de sensibilidade que ele é capaz de oferecer com textos aparentemente econômicos. Vale lembrar que o roteirista Jean-Claude Carrière, celebrado principalmente por sua parceria com Luis Buñuel, está entre os responsáveis pela construção dos diálogos naturalistas e tão capazes de nos envolver.

Na trama, acompanhamos a rotina de um casal de documentaristas, vividos por Stanislas Merhar e Clotilde Courau. Eles são, respectivamente, Pierre e Manon, um casal que já passou da fase da paixão e agora vive uma relação mais estável e de certa maneira monótona. O que faz com que Pierre acabe se interessando por outra mulher, Elisabeth (Lena Paugam), que preenche essa lacuna do desejo sexual que estava ausente na relação com Manon.

Elisabeth sabe que Pierre é casado, mas ainda tem esperança de que ele largue a esposa para ficar com ela. Uma oportunidade chega quando Elisabeth flagra Manon com outro homem em um encontro às escondidas. Ou seja, o que parecia apenas um triângulo amoroso em que só uma pessoa era a traída acaba se revelando uma espécie de quadrado de traições. Sem conseguir guardar essa informação por muito tempo, em um dos dias de crise entre os amantes, Elisabeth conta a Pierre do affair de sua mulher. A revelação cai como uma bomba.

Por mais que Pierre não tenha muita razão para reclamar da esposa - seria o sujo falando do mal lavado - não é assim que ele age. Há uma tradição machista já há muito enraizada de que se for o homem o traidor, tudo bem, já quando é a mulher... Assim, ele culpa Manon a ponto de a relação entrar em colapso, já que Pierre tem dificuldade em perdoar a mulher. Todo esse mal estar do casal é também sentido pela audiência, remetendo a um dos melhores trabalhos de François Truffaut, DOMICÍLIO CONJUGAL, que também trata da questão da infidelidade.

Ainda assim, o filme de Garrel mais lembra as cirandas de amor e desamor e os contos de natureza moral de Eric Rohmer, o que só torna a experiência de ver À SOMBRA DE DUAS MULHERES uma joia para os espectadores dos dias atuais, carentes de diretores que explorem tão bem tais questões. Aliás, por mais que possamos lembrar também do sul-coreano Hong Sang-soo nesse debate, são os franceses que aparentemente parecem ter mais expertise no assunto. Só lembrar de CIÚME – O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO, em que Claude Chabrol destrincha a mente perturbada de um homem atormentado pelo medo e insegurança de perder a bela mulher.

O que Garrel faz, porém, é fugir do registro over da dramaticidade e apontar para um caminho mais sutil, e talvez por isso mesmo capaz de despertar as emoções dos espectadores que provavelmente já viveram situações parecidas com aquelas dos personagens. Além do mais, o filme nos presenteia com a atuação sublime de Clotilde Courau, que faz a esposa traída e em busca também de prazer, fora de um casamento em que ela se sente infeliz pelo desinteresse do homem que ama.

Acompanhar seus dramas é uma tarefa tão dolorosa quanto deliciosa, já que a precisão da direção, da atuação, dos diálogos, da linda fotografia em preto e branco contribui para uma das mais pungentes experiências emocionais na sala escura dos últimos anos.

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NOS VEMOS NO PARAÍSO (Au Revoir Là-haut)

Um filme que tem seus momentos, e que se destaca pela bela produção, pelas imagens. Queria mais cenas das trincheiras, mas o filme trata de outra coisa: a relação de amizade entre dois homens depois de uma situação na Primeira Guerra. Há um problema de música demais, de personagens pouco carismáticos, e isso complica um bocado. Direção: Albert Dupontel. Ano: 2017. 

PROMESSA AO AMANHECER (La Promesse de l'Aube)

Taí um filme que poderia não existir. Não que seja de todo ruim, mas é muito chato, muito aborrecido. A aventura do protagonista só falta não acabar mais. Há coisas interessantes, já que poucos filmes falam de uma figura materna tão presente, mas a trama se perde e se arrasta, mesmo tendo seus momentos. A mesma história foi filmada por Jules Dassin em 1970. Certamente deve ser muito melhor. Direção: Éric Barbier. Ano: 2017.

MARVIN (Marvin ou la Belle Éducation)

Anne Fontaine tem feito filmes bem diferentes, mas tenho gostado de todos os trabalhos dela. Este aqui trata com delicadeza da história de um rapaz que viveu a dificuldade de ser gay numa sociedade machista e que agora tem a chance de falar sobre isso em seu trabalho como ator e dramaturgo. Gosto do jeito como a diretora se arrisca e deixa o filme respirar. Muito bom o ator que faz o personagem criança também. Direção: Anne Fontaine. Ano: 2017.

domingo, agosto 19, 2018

DISTÚRBIO (Unsane)

Apesar da irregularidade e de parecer não haver tantos pontos claros em comum para uma análise de sua autoralidade, seja do ponto de vista temático, seja do formal, a carreira de Steven Soderbergh é uma das mais interessantes dentre os cineastas surgidos do cenário indie nos últimos 30 anos. Trata-se de um diretor que se mostrou interessado nos mais diversos assuntos, sendo suas obsessões bastante fragmentadas.

Surgir com uma história sobre um homem com dificuldades de se relacionar sexualmente com as mulhres (SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, 1989), para depois brincar com uma história envolvendo um célebre escritor tcheco (KAFKA, 1991) e depois partir para um drama mais convencional (O INVENTOR DE ILUSÕES, 1993) e embarcar depois de um tempo dentro de um cinema mais comercial, por assim dizer, fazer esse trânsito com frequência e ainda seguir sendo um caso interessante não é para qualquer um.

DISTÚRBIO (2018) é o segundo filme para cinema de Soderbergh depois de uma anunciada aposentadoria que não se concretizou. O anterior foi a divertida comédia LOGAN LUCKY – ROUBO EM FAMÍLIA (2017), que volta ao tema do roubo inteligente, celebrado em ONZE HOMENS E UM SEGREDO (2001). Em DISTÚRBIO o diretor volta a outro tema que lhe interessa: a questão da sanidade mental, abordada em um registro mais dramático em TERAPIA DE RISCO (2013). No novo trabalho, temos um suspense bem eficiente.

Na trama, Claire Foy é Sawyer Valentini, uma jovem mulher que sofre de uma fobia que só aos poucos vai sendo descortinada. Ela mora em uma cidade distante de sua família, a fim de fugir de um homem obcecado. Certo dia, após uma consulta com uma psicóloga, ela acaba assinando papéis em que concorda em ficar detida em um sanatório por um determinado período de tempo. Ao chegar lá, afirma que um dos funcionários é o tal homem que a persegue. Demora um pouco para sabermos se o que ela diz é fruto de sua imaginação ou algo real. Até então, a personagem segue em uma espiral de medo e perturbação que é acentuada por imagens às vezes desfocadas, às vezes em enquadramentos pouco usuais, filmadas em uma câmera de um iPhone 7 Plus.

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TERROR CEGO (See No Evil)


Preciso conhecer mais o trabalho de Fleischer. Este TERROR CEGO é brilhante. A pobre da Mia Farrow faz um trabalho excepcional, inclusive físico, no papel de uma mulher cega e sozinha fugindo de um assassino. Já vi filme parecido, mas este talvez seja o melhor. Direção: Richard Fleischer. Ano: 1971.

HANNAH

Achei muito bom como um exercício de seguir uma personagem prestes a desabar. Mas o filme não me pegou, não me senti tocado pela personagem. Talvez por não haver uma maior clareza sobre o que de fato estava acontecendo entre ela e o filho e o que aconteceu com o marido. É muita responsabilidade nos ombros da Charlotte Rampling. Direção: Andrea Pallaoro. Ano: 2017.

RÉQUIEM PARA A SRA. J. (Rekvijem za Gospodju J)

Um interessante retrato da Sérvia, que ainda é uma nação em ruínas, pela visão de uma senhora com depressão e que planeja a própria morte. Pena que eu não me envolvi seu drama e achei mais interessante do ponto de vista formal apenas. Dá pra imaginar o Brasil com mais um ano de governo Temer vendo o filme. Direção: Bojan Vuletic. Ano: 2015.

quinta-feira, agosto 09, 2018

BAIXO GÁVEA

Ah se todos os filmes brasileiros que quiséssemos ver estivessem tão facilmente à mão. Com o cinema estrangeiro, principalmente o americano, tudo é tão mais simples. Ainda assim, não devemos reclamar tanto assim. Há meios para conseguir certas preciosidades que nem sequer estavam na lista de prioridades até pouco tempo atrás. É o caso de BAIXO GÁVEA (1986), de Haroldo Marinho Barbosa, que esteve entre os títulos que ganharam uma remasterização decente do Canal Brasil e que pode ser encontrado no mundo abençoado dos sites de compartilhamento também.

O meu interesse pelo filme aumentou depois que li o delicioso texto de Andrea Ormond publicado no livro Ensaios de Cinema Brasileiro – Os Anos 1980 e 1990. Vale dizer que cada texto deste livro nos faz querer ver o filme em questão imediatamente. Mesmo quando a autora diz que o filme tem problemas sérios. Vale dizer que não é o caso de BAIXO GÁVEA, que mesmo tendo uma cena de estupro muito mal encenada, nem isso chega a macular a beleza desta pequena pérola.

O filme trata da amizade de duas jovens mulheres que dividem o mesmo apartamento. Lucélia Santos (adorável!) é Clara, diretora de teatro; Louise Cardoso é Ana, atriz que está atuando no papel do poeta português Mário de Sá Carneiro em peça dirigida pela amiga sobre a vida de Fernando Pessoa. Só o fato de termos um filme que aborda a vida trágica do maior poeta da língua portuguesa já chama a atenção. E há várias cenas que se passam no teatro, nos ensaios.

Mas o que mais ganha o espectador mesmo é a vida real e contemporânea das duas amigas, principalmente de Clara, uma mulher em busca de amor e que acaba não tendo muita sorte com seus parceiros. No começo do filme ela amanhece na casa de um completo estranho, fruto de uma aventura regada a álcool na noite anterior. Sai de lá, um tanto aflita, direto para o trabalho, o teatro. Depois sabemos que Ana, apesar de amiga exemplar, tem uma queda pela amiga dramaturga e de vez em quando brinca, querendo levá-la para a cama. Como não há interesse mútuo, as duas compartilham diferentes tipos de solidão.

Essa busca de Clara por um amor lembra, inclusive, o recente DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, que traz Juliette Binoche no papel de uma mulher com fome de amor. Em uma de suas investidas, Clara encontra com um homem muito estranho, que a leva para seu apartamento. O tal homem é vivido por José Wilker, em participação especial, e em registro que une o cômico com o assustador.

BAIXO GÁVEA também tem o sabor de uma deliciosa máquina do tempo que nos leva para o Rio de Janeiro da década de 1980. Basta lembrar da cena em que Ana sai para dar uma passeada pelos bares do bairro, em busca de uma “gatinha”. Como é um filme mais de personagens e atmosferas do que de plot, o trabalho de Haroldo Marinho Barbosa tem um ritmo cadenciado, que não tem pressa em chegar a lugar algum, mas que ainda assim nos traz um misto de excitação e desespero, o que só prova que estamos diante de uma obra que fala às nossas almas por caminhos misteriosos. E que ainda dialoga com o teatro e a poesia de maneira muito bela, trazendo ainda um dos finais mais lindamente amargos do cinema brasileiro.

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BETE BALANÇO

Certamente Lael Rodrigues não sabia a importância do filme que estava fazendo quando filmou BETE BALANÇO. Certamente não é um grande filme. Longe disso. Há um bocado de problemas. Mas só em ter Cazuza em música e como ator e o espírito daquele momento do rock brazuca dos 80 já é uma maravilha. Sem falar na Débora Bloch, que está encantadora. Pena que perderam a chance de incluir uma cena de sexo da Débora com a Maria Zilda. No mais, foi a primeira vez que eu ouvi a versão original de "Carente profissional" (pelo Barão Vermelho). Só conhecia a versão (muito melhor) da Marina Lima. Direção: Lael Rodrigues. Ano: 1984.

O GOSTO DO PECADO

Cláudio Cunha sabe caprichar nas cenas de sexo, mas este filme é bem irregular em sua narrativa. Poderia ser mais enxuto, mais dinâmico. O personagem do Jardel Mello é difícil de gostar. Mas aí tem a Simone Carvalho, que é apaixonante sem fazer muito esforço. Direção: Cláudio Cunha. Ano: 1980.

MULHERES ALTERADAS

Filme que se destaca bastante no quesito visual (gosto muito das cores e dos ângulos) e também por lidar com a questão da sororidade e de diferentes estilos de vida e posicionamentos em relação à vida. Queria mais Monica Iozzi. Fiquei feliz que ela finalmente esteve em um bom filme. Quem acaba tendo mais espaço no filme é Deborah Secco e Alessandra Negrini. Direção: Luis Pinheiro. Ano: 2018.

terça-feira, agosto 07, 2018

ANA E VITÓRIA

A primeira cena de ANA E VITÓRIA (2018) mostra um grupo de pessoas em uma festa intimista olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Essa mudança de hábitos que faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém, é mostrada em tom agridoce no que se refere ao sentimento.

Afinal, a solidão e a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano. O que pode ter mudado é a sensação falsa de estar menos só por causa das pessoas com quem se pode conversar no ambiente virtual. Há também uma mudança de valores muito interessante da juventude moderna. As duas meninas, Ana e Vitória, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo.

Mas ANA E VITÓRIA é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo BAIXO GÁVEA, de Haroldo Marinho Barbosa. Mas aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com uma familiaridade com a linguagem jovem no comando. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que estão fazendo um sucesso popular bem considerável.

Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira muito natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro.

O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens que começam a cantar juntas e a partir dessa união passam a fazer sucesso e a arrebanhar uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções do duo, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não são tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho e a beleza do filme.

No fim das contas, ANA E VITÓRIA apresenta mais uma história sobre chegas e partidas, encontros e desencontros amorosos do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.

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TENTAÇÃO NA CAMA

Como história de crime é bem ruim. Já quando vai mostrar as cenas de sexo com as três mulheres, é bom de ver. Infelizmente a maior parte da história é sobre a trama chata que só é revelada lá pelo final e deixar tudo no suspense só piora as coisas. A participação de Ari Toledo contando duas piadas podia ser dispensada. No mais, dá pra entender por que David Cardoso chora de saudade sempre que fala de seus tempos áureos. Direção: Ody Fraga. Ano: 1984.

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES

Interessante fase do cinema brasileiro, que não precisava mais mostrar cenas de sexo para chamar a atenção, ainda que este aqui até possua. Mas o que mais importa mesmo é a espera, a eterna espera do garoto pelo pai envolvido com guerrilha na época da ditadura. Queria ter visto em melhores condições físicas. Direção: Murilo Salles. Ano: 1984.

SOL ALEGRIA 

Viva a anarquia! Abaixo a caretice! Uma beleza poder ter esses lemas em comum e ver SOL ALEGRIA. Por isso gosto tanto do miolo do filme, que se passa numa espécie de convento onde reina a depravação. Chega uma hora em que o sexo e a nudez estão tão naturais que se integram quase que sem estranhamento. Já acho problemática a terceira e última parte. Direção: Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira. Ano: 2018.

domingo, julho 29, 2018

MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (Mission: Impossible - Fallout)

Primeira vez que um filme da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL repete o diretor, o sexto filme da série traz mais uma parceria do produtor e ator Tom Cruise com o diretor Christopher McQuarrie, com quem havia trabalhado em JACK REACHER - O ÚLTIMO TIRO (2012) e em MISSÃO: IMPOSSÍVEL - NAÇÃO SECRETA (2015). A amizade, porém, deve ter surgido quando da produção de OPERAÇÃO VALQUÍRIA (2008), em que McQuarrie aparece como roteirista.

O caso de McQuarrie é interessante, pois nota-se um crescimento dele como cineasta, provavelmente a partir das exigências do Cruise produtor e homem cada vez mais centrado na adrenalina e nos filmes de ação. Pode-se dizer que o diretor e roteirista chegou ao status de excelência neste MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (2018), com cenas de ação de cair o queixo de tão boas. É possível que seja o melhor filme da franquia desde o primeiro, dirigido por Brian De Palma em 1996.

A brincadeira com as máscaras continuam e aumentaram ainda mais os perigos, presentes, inclusive, no set de filmagens, quando Cruise, ao rejeitar o uso de dublês nas cenas de ação, quebrou o próprio pé em uma sequência em que pula de um prédio para o outro. Toda essa sensação de verdade e de materialidade é sentida no filme, que se distingue bastante das atuais aventuras de ação que usam e abusam do CGI. Mesmo em uma sequência como a dos helicópteros, tudo parece muito palpável, pesado, real.

Por real, não há por que pensar que o filme é do tipo verossímil. Não há necessidade disso uma vez que se aceite o jogo, as brincadeiras que a franquia proporciona, como a velha tensão em cortar o fio de uma bomba nos últimos instantes. Aqui a diferença é que os realizadores intensificam esse momento, colocando não apenas uma, mas três bombas ao mesmo tempo, em um projeto de equipe.

E por falar em equipe, EFEITO FALLOUT talvez seja o filme que melhor soube trabalhar com a questão do grupo. Apesar de nunca deixar de ser o grande protagonista, Tom Cruise divide a tela com o "Superman" Henry Cavill desta vez, em participação muito importante - a cena do banheiro, com uma luta corpo a corpo entre eles dois e um asiático, é sensacional. E é quando surge também Rebecca Ferguson, que havia brilhado no filme anterior e que retorna como uma espécie de membro não filiada da equipe, já que ela é uma espiã de outra organização. Ving Rhames e Simon Pegg também retornam como fiéis parceiros de Ethan Hunt (Cruise) e Michelle Monaghan aparece pouco, como a ex-esposa que teve que sair da vida do agente por causa do perigo.

A sensação de familiaridade se dá não apenas pelo retorno de toda essa turma - até o vilão do filme anterior retorna - mas por uma parceria que foi azeitada para resultar em uma obra que merece figurar entre as melhores produções de ação do novo século. Assim, se a princípio alguém pode ficar triste com o fato de não haver um novo diretor para deixar a sua marca na franquia, esse sacrifício foi feito por um motivo justo. Além do mais, Cruise não anda querendo mais muitas intervenções de cineastas-autores em suas produções. Felizmente ele é um ótimo produtor e aqui pelo menos parece saber o que está fazendo.

A trama é talvez a mais intrincada dos seis filmes da série, mas isso não constitui um problema: até dá um charme a mais. Até porque é uma trama que não é difícil de acompanhar. E mesmo se fosse difícil, ficar perdido em filmes de espionagem faz parte do jogo. E no caso de EFEITO FALLOUT, então, temos tantas cenas de ação ótimas que mesmo que nada fizesse sentido o filme seria ótimo ainda assim. A cena do paraquedas, a já citada cena de luta no banheiro de uma boate, a cena de perseguição na moto, a corrida no prédio, a perseguição de helicópteros são os melhores exemplos. É quase um aviso para os produtores dos filmes do James Bond: pronto, agora façam melhor do que isso, se são capazes!

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LUA DE JÚPITER (Jupiter Holdja)

Quando vi que este filme estava cotado para a Palma de Ouro em Cannes fiquei imaginando o porquê. Agora vi que foi por causa do sucesso de WHITE GOD (2014), que eu considero um filmão. Mas este aqui, meu Deus do céu, o que é isso? Essa fascinação por efeitos especiais e pela história do rapaz que é capaz de voar é de cansar a paciência. E há uma trama toda confusa que chega um momento que desisti de tentar entender. É um pouco longo, mas parece ainda mais longo. Direção: Kornél Mundruczó. Ano: 2017.

BASEADO EM FATOS REAIS (D'Après une Histoire Vraie)

O quanto desceu Roman Polanski, hein? Não dá nem pra imaginar que é baseado em um romance. O romance deve ser bem vagabundo, é o que dá para pensar. As atrizes nem estão de todo ruins, se a ideia é mesmo fazer um suspense tipo Supercine. Nesse sentido, dá pra se divertir com a Eva Green mais uma vez vilanesca. Ano: 2017.

GEMINI

Estou virando um stalker da Lola Kirke. Foi por ela que vi este GEMINI, que pintou nos torrents da vida e nem sei se vai aparecer nos streamings. O filme é mais charmoso do que realmente bom, com uma trama intrincada e que se perde e desaponta quando chega ao seu desfecho. Mas até lá é intrigante, explorando bastante a noite escura e as mansões luxuosas de Los Angeles/Hollywood. Direção: Aaron Katz. Ano: 2017.

segunda-feira, julho 23, 2018

A PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol)

Tempos atrás eu fiz uma peregrinação muito gostosa pela obra de Howard Hawks. Ia em busca de todos os filmes disponíveis em DVD ou para download com legendas pelo menos em inglês ou até em espanhol e fazia a festa. Alguns filmes acabaram ficando de fora pela indisponibilidade nesses meios. Agora alguns deles estão começando a surgir. A PATRULHA DA MADRUGADA (1930) é um deles. Embora não seja um dos melhores do cineasta, é um de seus trabalhos mais importantes. É o primeiro filme a definir alguns aspectos que se repetiriam como marca do autor em diversos outros trabalhos.

Antes de HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS (1943), Hawks já havia prestado o seu tributo e demonstrado o seu amor à aviação neste que é tido como o primeiro filme sonoro realizado sem excessos de dramatização. Isso nas próprias palavras do diretor, em entrevista a Peter Bogdanovich, mas que pode muito bem ser quase uma unanimidade naqueles tempos em que os cineastas ainda tateavam na transição de uma era para a outra.

O filme também tem muito a ver com uma época em que o próprio Hawks era entusiasta da aviação e tinha uma relação de amizade com o milionário excêntrico Howard Hughes, que no mesmo ano fez um filme de aviação mais ambicioso do ponto de vista da produção, ANJOS DO INFERNO. Mas Hawks sabia lidar melhor com as emoções e por isso se tornou o gigante cultuado que é até hoje.

A PATRULHA DA MADRUGADA começa logo com a morte de dois pilotos durante uma missão durante a Primeira Guerra Mundial. Não conhecemos os pilotos, mas o filme sabe como deixar a situação trágica o suficiente, ao mesmo tempo em que os personagens principais tentam ser durões o o bastante para encarar aquela situação quase como uma rotina. Ainda que uma rotina muito cruel.

Um dos detalhes interessantes é que o próprio Hawks pilotou um dos aviões, filmou algumas cenas no ar. Cenas que depois seriam aproveitadas descaradamente em outra produção, da Warner, com praticamente o mesmo título. Por isso que hoje em dia, mesmo com tantos recursos, não conseguem fazer algo tão realista quanto o que se fazia nos anos 1930 e 1940.

Do ponto de vista das emoções, o ápice do filme é certamente a cena em que os pilotos cantam juntos no bar uma canção sobre aqueles que morreram e aqueles que ainda morrerão. É bem triste, mas é suficiente também para trazer uma relação de amizade masculina que se tornaria uma das marcas dos filme de Hawks. Quem é fã do cineasta certamente não pode ficar sem ver este A PATRULHA DA MADRUGADA. Até por que uma cena maravilhosa como a dos dois pilotos atacando a base dos alemães não se vê todo dia.

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HORIZONTE PROFUNDO - DESASTRE NO GOLFO (Deepwater Horizon)

Belo filme que nos oferece um pouco do que foi o maior desastre ecológico envolvendo petróleo da história dos Estados Unidos. Eficiente e no final a gente fica até bem emocionado. (Esse foi meu comentário na época que vi o filme, 11 de novembro de 2016. Com distanciamento, já vejo com excessos na parte do heroísmo.) Direção: Peter Berg. Ano: 2016.

UM ESTADO DE LIBERDADE (Free State of Jones)

A história em si eu não conhecia e achei fascinante! Mas o filme era pra ter virado uma minissérie. Acabou não dando conta de caber em 2 horas e 20 minutos e a segunda metade é bem corrida e apressada, recorrendo a vários textos explicativos. Mas há muitos momentos sensacionais. Direção: Gary Ross. Ano: 2016.

A LEI DA NOITE (Live by Night)

O amigo de Matt Damon, Ben Affleck, também se saiu mal dessa vez. A LEI DA NOITE podia ter rendido um puta filme, se feito sob a direção de um Scorsese, um De Palma, um Michael Mann... Há um material tão rico e é tão mal construído... Ano: 2016.

quarta-feira, julho 18, 2018

ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (Skyscraper)

Eis um filme que nos faz ter saudades das aventuras de ação tanto dos anos 1980 quanto da década seguinte. Isso porque ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (2018) acaba remetendo, inevitavelmente, ao hoje clássico DURO DE MATAR, que para muitos é considerado um divisor de águas entre o tipo de filme de ação que se fazia nos anos da Era Reagan e o que surgiria com mais sofisticação e mais diretores renomados na década seguinte. A lembrança tem a ver principalmente com a figura de um herói passando por situações perigosas em um prédio alto.

Acontece que tudo é anabolizado e o efeito para o espectador que até tenta embarcar com boa vontade no filme é de certa indiferença. Talvez por Dwayne Johnson ser uma figura tão forte e tão cheia de músculos que parece um super-herói já pronto e capaz até mesmo de passar de um lado a outro de um prédio com auxílio de fitas adesivas nas mãos, como um Homem-Aranha. Em DURO DE MATAR, Bruce Willis, por sua vez, encarna a figura de uma pessoa normal, que até sangra bastante.

Deixando as comparações de lado, o que temos é um filme em que não se espera nenhuma sutileza. O que o diretor Rawson Marshall Thurber, que já havia trabalhado com Johnson em UM ESPIÃO E MEIO (2016), poderia fazer era usar os exageros a seu favor. Uma pena que nem a equipe de efeitos especiais tenha se preocupado em deixar as cenas críveis a ponto de as aproximarem do espectador. Não se trata, portanto, de uma produção feita no capricho como um MISSÃO: IMPOSSÍVEL. E nem tem a pretensão de ser, na verdade. De todo modo, há pontos positivos a destacar.

Um deles é ter novamente Neve Campbell em ação depois de passarmos quase uma década vendo-a como protagonista da antológica cinessérie PÂNICO, de Wes Craven, nos anos 1990. Em ARRANHA-CÉU ela interpreta a esposa do protagonista. Curiosamente, veremos que ela é mais do que apenas uma esposa em perigo cuidando de seus dois filhos. Ter um protagonista com uma deficiência física (o herói perde a perna em ação no início do filme) acaba por tornar Johnson não um sujeito com pontos fracos. Ao contrário, ele se torna ainda mais invencível com aquela perna que lhe será útil em determinadas situações de perigo.

Outro ponto positivo é a locação. Hong Kong é um charme e foi um grande polo dos filmes de ação por décadas. Parte do elenco é composta por atores de lá. Além do homem que idealizou o prédio mais alto do mundo, vivido por Chin Han, há uma personagem coadjuvante, do grupo dos vilões, que poderia ter sido melhor aproveitada, a jovem e bela Hannah Quinlivan. Ela e Neve Campbell tem um momento juntas, mas é muito pouco.

O que sobra mesmo é espaço para a inteligência e as habilidades do protagonista, que passa a ter suas ações acompanhadas por uma multidão através de uma imensa tela de televisão, enquanto o prédio está em chamas e sua família corre perigo. A trama é o de menos: envolve os inimigos do empresário que planejam por em chamas o prédios mais alto do mundo. As cenas não deixam de passar uma lembrança do 11 de setembro. Talvez a ideia de Thurber tenha sido esta: fazer um grande épico de ação que remetesse a um grande drama americano.

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SICÁRIO - DIA DO SOLDADO (Sicario - Day of the Soldado)

Pra ser sincero, tenho pouca lembrança do primeiro filme, apesar de lembrar de ter gostado. Deste, gostei bastante da força do personagem do Del Toro, e de sua grande presença em cena, assim como de sua relação com a garota sequestrada. Interessante terem colocado um diretor italiano para dirigir esta sequência, que tem várias cenas memoráveis. A maioria delas, claro, roubadas por Del Toro. Destaque também para o ótimo roteiro bem costurado do Taylor Sheridan, que é praticamente um roteirista-autor. Caso raro atualmente em Hollywood. Talvez por isso Villeneuve não tenha querido dirigir mais este. Direção: Stefano Sollima. Ano: 2018.

OITO MULHERES E UM SEGREDO (Ocean's Eight)

Muito divertido este filme de roubo com a presença de um time de estrelas que a gente ama. Bullock, Blanchett, Hathaway e Paulson, em primeiro lugar. Mas Rihanna está sensacional também. Nem gosto muito do primeiro filme do Soderbergh, por isso fui achando que não ia gostar deste. Diversão despretensiosa e que honra a subcategoria. Direção: Gary Ross. Ano: 2018.

NO OLHO DO FURACÃO (The Hurricane Heist)

Filme bem ordinário, mas que não chega a ser exatamente ruim, sobre assalto a banco que acontece em um cenário de furacão intenso. Maggie Grace está muito à vontade como agente federal. Aliás, nunca a vi tão à vontade e tão bela. Direção: Rob Cohen. Ano: 2018.

quarta-feira, julho 11, 2018

CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO

Chega a ser impossível ver este documentário e não sentir saudade da época das videolocadoras, mesmo sabendo que hoje, em termos de qualidade de som e imagem e de oferta, as coisas estão muito melhores. E nós mesmos, tão entusiastas de uma era, fomos de certa forma responsáveis pelo fim das lojas. Eu mesmo há tempos não fazia uma visita a uma locadora. A oferta e a qualidade dos arquivos para download eram tentadores demais.

Mas o que sentimos vendo CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO (2017), de Alan Oliveira, é difícil até de por em palavras, já que vêm à mente um entusiasmo muito grande. Eu, por exemplo, ficava tão alegre ao entrar em uma grande locadora, como a King Vídeo ou a Distrivídeo, ou mesmo em uma que tinha aqui no bairro vizinho, que tinha uma oferta até generosa, que batia até uma dor de barriga, tal era o entusiasmo. É como deixar uma criança em uma loja de doces e dizer que ela pode ficar à vontade e escolher muitos para levar.

Eu já lia revistas sobre cinema e vídeo e cheguei a ler a revista do Rubens Ewald Filho também, a Video News, antes mesmo de ter um aparelho de videocassete. O primeiro que eu tive só foi em 1992, com o dinheiro das minhas primeiras férias. Então, não cheguei a ver essa coisa de fita pirata em locadoras, embora todas as fitas que eu alugasse já falassem bastante da questão da obrigatoriedade das fitas seladas.

O documentário acaba sendo gostoso pois nos faz viajar no tempo, desde os primórdios das primeiras videolocadoras, que começaram de uma maneira bem ousadas, muito fruto da vontade e do amor dessas pessoas. A história da Omni Vídeo, por exemplo, a primeira de São Paulo e possivelmente do Brasil, é para dar boas risadas. Assim, conhecemos as primeiras locadoras e também acompanhamos as primeiras emocionadas histórias e, depois, as primeiras distribuidoras oficializadas.

Também não deixa de ser emocionante ver os depoimentos do crítico Christian Petermann, falecido prematuramente no ano passado. Ele passa uma paixão em suas memórias de consumidor de vídeo que deve contagiar até mesmo o pessoal da geração do novo milênio, que não chegou a acompanhar esse processo, ou que chegou já em um momento em que essas lojas estão em extinção.

Por essas e por outras razões, como a bela montagem e a ótima escolha de pessoas a entrevistar, além do forte toque de emoção, já que as pessoas entrevistadas dedicaram muitos anos (décadas) de suas vidas unindo negócio e prazer, que CINEMAGIA é uma das produções brasileiras mais bem-vindas da atualidade, especialmente nesses tempos de streaming e novos hábitos de consumo de filmes. É sempre bom lembrar que as coisas já foram bem diferentes. E quem viveu aqueles momentos viveu momentos mágicos.

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LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA (Lumière)

É bom que o espectador vá ao cinema preparado para ver 108 curtas de 50 segundos dos irmãos Lumière. Mas mesmo com a possibilidade de cansar, a edição é muito boa, e a análise do diretor é excelente. Se fossem apenas os filmes para serem vistos e sem comentário algum certamente deixaríamos de prestar atenção em muitas coisas. Legal que a sala tinha bastante gente e muita gente se divertiu e riu de vários curtas. Ah, e eu achei incrível aquele com uso de três cinemascopes numa só imagem. Direção: Thierry Frémaux. Ano: 2016.

GATOS (Kedi)

Pra quem gosta de gatos é uma beleza. Mas o filme tem algo de muito interessante em mostrar Istambul, uma cidade cheia de gatos por todos os lados. Tem até o seu lado triste, pois muitos deles vivem nas ruas, sem donos. Muito bonitos os depoimentos de pessoas que conseguiram superar problemas sérios graças aos gatos. Sem falar que eles são de uma beleza incrível. É como um dos entrevistados diz: é como se eles fossem super-heróis. Admiráveis no que conseguem fazer e ainda serem tão elegantes. Gosto também de uma moça, que fala sobre a questão de os gatos permitirem ser belos e elegantes mas não permitirem que qualquer pessoa os toque. Direção: Ceyda Torun. Ano: 2016.

SPIELBERG

Levei meses para terminar de ver este documentário, pois ele não é tão fluido, é meio truncado, não sei. Mas há muita coisa a se aprender sobre o homem e o artista vendo este filme. Alguns filmes passaram batido, mas acho que a maior parte das escolhas foi acertada. Talvez o problema seja de montagem. Direção: Susan Lacy. Ano: 2017.

segunda-feira, julho 09, 2018

VINGANÇA (Revenge)

O fato de VINGANÇA (2017) ser um filme de estupro e vingança dirigido por uma mulher nos dias de hoje faz bastante diferença na hora de perceber detalhes importantes, principalmente se já temos como referência outros filmes desse subgênero em mente, como A VINGANÇA DE JENNIFER, de Meir Sarchi, e seu remake DOCE VINGANÇA, de Steven M. Monroe, THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, SEDUZIDA AO EXTREMO, de Robert M. Young, entre outros.

Em comum em todos esses filmes está o aspecto exploitation. São menos feitos para fazer uma reflexão sobre o ato terrível perpetrado pelos estupradores e mais feitos para mostrar as cenas violentas, às vezes até com um pouco de sadismo. O exemplar que leva essa característica às últimas consequências talvez seja IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, ainda que seja uma obra que, ao nos fazer olhar por vários minutos todo o estupro, também traz um sentimento de mal estar enorme.

De todo modo, ao vermos VINGANÇA, primeiro longa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, entendemos o fato de ela não mostrar a cena do estupro em si. Acaba não sendo necessário, já que o mal estar provocado pela tensão provocada pelo estuprador nos momentos imediatamente anteriores à ação já é motivo mais do que suficiente para que torçamos por sua vingança. Até porque o que acontece em seguida só torna os seus motivos ainda mais aceitáveis.

Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra dirigida por uma mulher e feita em tempos em que se procura não mais objetificar o corpo feminino, VINGANÇA destaca sim o belo corpo de sua protagonista, vivida pela italiana Matilda Anna Ingrid Lutz. Assim como traz motivo para algum espectador chegar e dizer: "mas ela não deu motivo para o estuprador fazer o que fez?". Aí é que está: a protagonista, ao brincar e se sentir desejada por aqueles três homens, tinha o direito de esbanjar sensualidade e beleza. Então, o que temos aqui é também uma espécie de filme-manifesto sobre esse direito.

Trazer esses questionamentos em uma embalagem de um filme de suspense sangrento (e haja sangue!) e cheio de filtros e com fotografia estilizada é um mérito que VINGANÇA tem. É possível ver o filme empolgado com o jogo de gato e rato e também se divertir com certas cenas que vão parecer bem inverossímeis, como as duas que envolvem um isqueiro. Ainda assim, não deixam de ser inteligentes no modo como encontram uma solução para que a vingança da jovem mulher fosse efetuada no calor do momento, e não um prato que se come frio, como se costuma dizer em provérbio popular.

Outro elemento muito importante que o filme destaca é a ênfase dada à covardia do estuprador (Vincent Colombe). Ele é covarde não só em ser um estuprador, mas é covarde também quando tem que enfrentar aquele anjo de vingança que escapa da morte para persegui-lo. Esses e outros detalhes contam nesta produção que sabe brincar com um tipo de história tantas vezes narrada por um homem e que traz consigo tanto a vulgaridade quanto a leitura rica e as questões tão em voga nos dias de hoje.

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7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)

Acho que este filme do José Padilha vale mais por apresentar uma história real impressionante de maneira até decente do que pelo modo como a narrativa se dá efetivamente. Gosto de como o casal principal trabalha com os conflitos internos. Do ponto de vista político, será que Padilha quis ser imparcial? Ano: 2018.

AOS TEUS OLHOS

Uma das boas surpresas dentre os filmes brasileiros a estrear neste ano. AOS TEUS OLHOS também se beneficia em saber lidar com um assunto muito presente nos dias de hoje, que é o julgamento que se faz de alguém a partir da internet. Aliás, não só esse tema. Carolina Jabor consegue manter um clima de tensão do início ao fim. Ano: 2017.

COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR

Como dá para ver o filme como sendo uma produção B de ação, acaba parecendo aquelas produções feitas diretas para vídeo nos tempos do VHS, embora a curiosidade esteja no fato de ser um filme basicamente moçambicano. É possível perceber tanto as falhas quanto as qualidades, mas não consegui me envolver e fiquei ligado mais nas falhas mesmo. E na falta de mais força dramática. Diretor: Licínio Azevedo. Ano: 2016.

sábado, junho 30, 2018

CANASTRA SUJA


Cinema para quem? O que leva o circuito exibidor a tratar alguns filmes com tanto desrespeito, especialmente os brasileiros? Tudo bem que é fácil entender que a fila precisa andar, levando em consideração a quantidade gigante de lançamentos. Mas a verdade é que os filmes brasileiros não estão sendo lançados; estão sendo arremessados. Muitos desses filmes só encontram um único horário e se são lançados em cinema de shopping só duram mesmo uma semana e pronto. Não há tempo para o boca a boca. Trata-se, infelizmente, do caso de CANASTRA SUJA (2016), de Caio Sóh, cineasta que até então desconhecia, justamente por não ter seus filmes exibidos em circuito local.

O caso de CANASTRA SUJA tem gerado um clamor muito especial, pois se trata de um filme que tem despertado muitas paixões. Há, claro, o caso de algumas críticas negativas, em especial uma famosa publicada no O Globo, e que alguns dizem ser responsável por um dos fracassos comerciais do lançamento, mas há, sem dúvida, uma falha no marketing, que poderia ter sido antecipado, melhor trabalhado, já que as imagens de divulgação são de arrepiar, muito atraentes para quem não viu e muito significativas e emocionantes para quem já viu o filme.

Mas falemos do filme em si, que já começa com uma câmera subjetiva de alguém adentrando uma casa humilde. Mais tarde a história retoma a este ponto. Assim, logo em seguida, somos convidados a conhecer os dramas dos habitantes daquela casa, o pai Batista (Marco Ricca), a mãe Maria (Adriana Esteves) e os filhos jovens Emília (Bianca Bin) e Pedro (Pedro Nercessian) e a adolescente especial Ritinha (Cacá Ottoni). Entre os demais personagens importantes, há que se destacar o amigo da família Tatu (David Junior), namorado de Emília.

Batista é alcoólatra e está tentando deixar o vício, e intenciona levar o filho a seguir seus passos no trabalho de manobrista, já que o rapaz não quer saber de estudar e nem tem nenhuma formação profissional. Em clima de desgraça pouca é bobagem, mas também trazendo muito humor diante dos percalços de seus personagens, o filme vai aos poucos levando-os a uma espiral de descida aos infernos, com seus dramas cada vez mais se acentuando.

O diretor e seu elenco têm a habilidade de manter a trama cada vez mais envolvente, por vezes divertida (como não se divertir com as cenas de Pedro e Tatu em um clube muito especial?), mas por vezes devastadora. Daí as várias semelhanças que alguns críticos têm feito com a obra de Nelson Rodrigues, embora do ponto de vista do cinema possamos lembrar tanto do neorrealismo italiano quanto do cinema brasileiro dos anos 70 e 80, quando os nossos filmes tinham de fato a intenção de destoar das telenovelas no que se refere à exploração e explicitação dos problemas sociais. Aliás, falando em telenovelas, que bom que é poder ver Bianca Bin, uma atriz linda e talentosa, saindo um pouco da tevê e enriquecendo o nosso cinema.

CANASTRA SUJA foi feito de forma bastante independente. Até a distribuidora é desconhecida, provavelmente própria. O elenco ajuda com a produção e o simbolismo da cena do karaokê é representativo deste espírito de união da equipe para a realização da obra. Chegar até o final da narrativa é chegar a um ponto de extravasamento das emoções, acumuladas diante de tantas situações ruins vividas por aqueles personagens de quem aprendemos a gostar em pouco tempo de metragem. Por isso é tão fácil entender a aposta que todo o elenco fez no filme, abrindo mão de seus cachês por acreditar na proposta de Sóh. Agora é torcer por um retorno do filme aos cinemas (até no Rio de Janeiro durou só uma semana em cartaz) ou ao menos uma maior visibilidade nos serviços de streaming. O importante é que este filme seja visto.

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TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR 

O ponto de partida é até interessante, sobre rapaz que descobre que uma mulher de quem ele não se lembra e deixou um recado na secretária eletrônica pode ser o amor de sua vida, mas infelizmente o filme não se sustenta quando parte para os finalmentes. Mas enquanto fica o mistério em torno da tal mulher da vida do protagonista (Mateus Solano) até que é divertido. Direção: Rodrigo Bernardo. Ano: 2018. 

TUNGSTÊNIO

Não li a HQ e não sei o quanto de fidelidade há nesta adaptação, mas acho que há muitos acertos na narrativa e na condução dos diálogos e da trama, mesmo com alguns personagens sendo mal resolvidos, como a mulher do policial vivido pelo Fabrício Boliveira. Destaque também para a rica composição visual. Direção: Heitor Dhalia. Ano: 2018.

PARA TER ONDE IR

É um filme que tem os seus melhores momentos quando tateia o seu rumo, quando parece à deriva. Quando começa a mostrar de maneira mais clara os problemas de suas protagonistas começa a ficar mais falho. Mas gosto muito de passagens poéticas, da atmosfera, de algo que às vezes aproxima o filme de um Kiarostami, e das cenas noturnas. E não é todo dia que a gente é apresentado ao Pará. Direção: Jorane Castro. Ano: 2016. 

sábado, junho 23, 2018

HEREDITÁRIO (Hereditary)

Há quem reclame do chamado pós-horror, dos filmes que tentam fugir dos clichês do gênero e apresentar novas experiências aos espectadores. Sabemos que um filme de horror tradicional, quando bem-feito, passa uma agradável sensação de familiaridade. Uma cena com chuvas, trovões, uma casa escura e algum fantasma ou monstro prestes a atacar e dar um baita susto no espectador passou a ser elemento de diversão. Mas também passou a se tornar algo batido.

Por isso, e se o cineasta não tiver a intenção de fazer algo divertido? Se ele quiser realmente tocar o terror, fazer algo que deixe o espectador incomodado, como William Friedkin fez em O EXORCISTA ou Roman Polanksi fez em O BEBÊ DE ROSEMARY? Ou ainda, trazendo para um momento recente: como Robert Eggers fez em A BRUXA? E aqui temos a mesma produtora do filme de Eggers, A24, apostando as fichas em outro cineasta estreante e talentoso.

Quando HEREDITÁRIO (2018) começa, já nas primeiras cenas, percebemos que a direção de Ari Aster é brilhante. No início, somos mostrados a uma casa de bonecas, que logo perceberemos será o cenário da casa onde se passará a maior parte da ação. A sensação de que aquela casa e aquelas pessoas são fantoches do destino ou de um deus maior já começa a cutucar a nossa imaginação.

Temos uma família se preparando para o funeral de uma matriarca. A família é formada pelos pais Annie (Toni Collette) e Steve (Gabriel Byrne) e pelos filhos adolescentes Peter (Alex Wolff) e Charlie (Millie Shapiro, que tem uma aparência acentuada por uma maquiagem, de modo a torná-la fisicamente estranha). Logo no funeral, sabemos que a falecida matriarca não era uma pessoa fácil, mas só aos poucos saberemos mais detalhes de sua relação com os demais.

Boa parte da metragem de HEREDITÁRIO tem o objetivo de construir uma dramaticidade forte o suficiente para que nos importemos ou até mesmo nos identifiquemos com os personagens. É provável que algum espectador já tenha se sentido "ok" depois da morte de um familiar. E também é provável que o mesmo espectador tenha sentido uma vontade enorme de morrer depois da morte de um ente querido. As duas situações são apresentadas.

Quando HEREDITÁRIO muda de tom e traz elementos sobrenaturais para sua trama, o drama dos personagens já está suficientemente solidificado. Ainda assim, há uma sensação de grande estranhamento com essa mudança. De repente, mudamos de um drama familiar narrado de maneira sutil para algo semelhante a um filme de horror dos anos 1970, inclusive na fotografia. Mas esse aspecto híbrido faz parte do charme do trabalho de Aster.

Vale dizer que o melhor para o espectador é ver o filme sem ter lido nada a respeito, principalmente se o texto já sugerir alguma cena chocante - como eu acabei de sugerir aqui. Há em HEREDITÁRIO um tipo de cena que fica guardada como um trauma gigante em nossa mente. É quando vemos que Ari Aster não está ali para brincadeira.

Não há como não mencionar a extraordinária interpretação de Toni Collette. A atriz é uma espécie de invólucro para a entrada de uma personagem que vai de alguém triste para alguém transtornada, totalmente desesperada e sofrida e depois para alguém possuída. E já que chegamos a este adjetivo ("possuída"), sim, o filme possui cenas de horror de arrepiar usando alguns dos clichês do gênero, mas sem nunca abusar do som para assustar. A força das imagens é suficiente, junto com a força da interpretação de Collette e dos demais atores e da direção segura e elegante de Aster.

O final pode ser um pouco confuso, mas só nos faz querer ver o filme mais uma vez. Há algo que temos que até pode ser considerado masoquismo, mas não é todo dia que vemos algo que une o sublime com o perturbador.

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VERDADE OU DESAFIO (Truth or Dare)

Mais um exemplo de um filme de terror contemporâneo que quer construir seu enredo a partir de uma premissa curiosa, que poderia render algo de bom. Pena que não é o caso deste filme, que até tem os seus momentos, mas é beem fraco, principalmente quando se aproxima de sua conclusão. Acho que até daria pra ter usado mais a criatividade usando a premissa do "truth or dare". Direção: Jeff Wadlow. Ano: 2018.

A NOITE DEVOROU O MUNDO (La Nuit a Dévoré le Monde)

Um filme de zumbis "sobre nada". Legal que a subcategoria ganhou um exemplar diferente. Não amei o filme, mas ele fica com a gente após a sessão. Senti que as metáforas estão mais para a filosofia do que para a política. Participação especial de Denis Lavant. Direção: Dominique Rocher. Ano: 2018.

O NÓ DO DIABO

Bem irregular, como é natural dizer desses filmes em segmentos. Gosto muito do segundo e do terceiro segmentos. Os outros, gosto com restrições. O segundo, do Gabriel Martins, é bem poderoso. Muito bom todos serem todos relativos ao tema da escravidão e do racismo no Brasil. Direção: Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi. Ano: 2017.

segunda-feira, junho 11, 2018

AS BOAS MANEIRAS

A pouca popularidade de uma literatura fantástica feita no Brasil, pelo menos dentre os grandes escritores, e em comparação com o que se fez nos Estados Unidos e na Inglaterra, acabou por ricochetear em nosso cinema, que até tem bem mais títulos de horror e afins do que muitos imaginam, mas que ainda tem um apelo mais para o realismo e para a comédia.

Talvez por isso ainda haja essa resistência ao cinema fantástico por parte do público médio, que vê com olhos ressabiados as nossas investidas no gênero. Principalmente quando elas se mostram cada vez mais explícitas. E o salto que a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra dá do suspense psicológico de TRABALHAR CANSA (2011) para a fábula de terror AS BOAS MANEIRAS (2017) é bem grande. Se bem que pelo meio do caminho Marco Dutra nos presenteou com um belíssimo filme de possessão e casa assombrada, QUANDO EU ERA VIVO (2014).

AS BOAS MANEIRAS ainda assim é uma obra híbrida, que não se furta em colocar elementos que podem parecer corpos estranhos dentro do que se espera de uma história de lobisomem, como cenas em que alguns personagens começam a cantar, lembrando outra produção do coletivo Filmes do Caixote, o drama musical O QUE SE MOVE (2012), de Caetano Gotardo. Aliás, aqui também temos Cida Moreira cantando e atuando.

O fato de ser um filme que é visivelmente dividido em lado A e lado B até poderia passar a ideia de que poderia ser lançado em duas partes. Inclusive pela duração um tanto longa e pelo ritmo que começa a se tornar um leve problema durante o lado B.

No começo da trama, Clara (Isabél Zuaa, que conquistou muitos fãs com sua performance de mulher intensa e forte em JOAQUIM) vai pedir emprego de babá na casa de Ana (Marjorie Estiano, excelente). Ana procura uma pessoa que também cuide dela nos primeiros estágios da gravidez; que cuide da casa, inclusive. Clara, que precisa de dinheiro com urgência, aceita, e começa a haver uma relação de cada vez maior proximidade entre as duas. Uma proximidade que une tanto a carência afetiva quanto o gosto de Clara por mulheres.

Aos poucos, e de maneira deliciosa, vamos compreendendo a situação de Ana, seu misterioso gosto por carne, as dores grandes que sente na gestação e também somos apresentados à história de quando ela engravidou. A relação entre Ana e Clara é tão bela e singular que quando o filme parte para novos rumos se torna difícil não sentir falta dessa primeira parte.

Mas a segunda parte tem o grande mérito de ser ainda mais corajosa em assumir explicitamente o cinema de horror, homenageando o clássico UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis. Antes disso, o filme faria possíveis homenagens a FILHOS DO MEDO, de David Cronenberg, e NASCE UM MONSTRO, de Larry Cohen, entre outras.

Mas o curioso de tudo isso é que, apesar dessas homenagens, AS BOAS MANEIRAS tem uma brasilidade muito própria, com cenas acontecendo nas festas juninas e em um cenário de uma São Paulo próxima do gótico, com a força da lua sempre sendo um elemento presente. A fotografia linda é de autoria do português Rui Poças, conhecido por obras tão belas e distintas quanto TABU, O ORNITÓLOGO e SEVERINA.

Do ponto de vista humano, o filme também conquista desde o começo. Tanto nas relações de afeto entre Clara e Ana, quanto nas relações de mãe e filho entre Clara e o menino Joel (Miguel Lobo). O pequeno Joel, dada sua condição de lobo, precisa se submeter a certos sacrifícios.

E é até possível que o espectador saia um pouco contrariado da sessão de AS BOAS MANEIRAS. E é possível que esse mesmo espectador não perceba que ver uma obra como esta no cinema é um privilégio e tanto. E que tal filme ficará em suas lembranças por muitos anos.

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TODOS OS PAULOS DO MUNDO

Acaba seguindo meio que uma fórmula adotada recentemente no documentário brasileiro de mostrar cenas dos filmes mais representativos do homenageado. No caso de Paulo José, nada mais justo, e os filmes são bem legais. Tem Khouri, tem Joaquim, tem Domingos, e mais um bocado de coisas. Ainda achei que faltou mais do homem Paulo em Todos os Paulos. Direção: Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro. Ano: 2017.

CONSTRUINDO PONTES

A diretora parece que se perdeu pelo caminho e se não sabia onde queria chegar. Acabou terminando o filme do jeito que o destino deu. Não deixa de ser irritante também seu debate com o pai defensor dos militares. O problema é que ela não tinha poder de argumentação e o velho saía ganhando sempre com tranquilidade. Direção: Heloísa Passos. Ano: 2017.

ROGÉRIO DUARTE, O TROPIKAOSLISTA

Um dos melhores dessa safra de filmes que tratam de resgatar figuras históricas do Tropicalismo. Achei este ROGÉRIO DUARTE ainda melhor resolvido do que o sobre Torquato Neto. Mais redondo. E o personagem do Rogério é fascinante. Tenho certeza que muita coisa boa ficou de fora do corte final. Direção: José Walter Lima. Ano: 2016.

sábado, junho 02, 2018

TULLY

Há quem já tenha passado pela transição dos vinte para os trinta anos e ainda não tenha percebido nenhuma mudança. Mas a pessoa há de perceber, mais cedo ou mais tarde. E TULLY (2018), terceira parceria do cineasta Jason Reitman com a roteirista Diablo Cody, vem trazer o interessante assunto à discussão. Aliás, isso já havia sido discutido em JOVENS ADULTOS (2011), uma visão um tanto pessimista sobre a vida e suas decepções.

Porém, se Charlize Theron procura manter as aparências em JOVENS ADULTOS, em TULLY isso deixa de ser uma preocupação, até por que o nível de depressão é muito mais acentuado. Ela é Marlo, uma mulher grávida do terceiro filho, com um marido que não se esforça tanto para ajudá-la e com muito pouco ânimo para dar conta de tudo. Seu cansaço parece aumentar ainda mais depois do parto. O filme não deixa claro se a personagem está com depressão pós-parto - assim como não define a doença do filho que parece autista - mas o que vemos na tela é o suficiente para entendermos que se trata de uma mulher que precisa de ajuda.

O irmão bem-sucedido financeiramente dá a ideia de que ela pode descansar mais se aceitar a contratação de uma espécie de baby sitter noturna, uma garota que ficaria cuidando da filha, enquanto ela descansaria. E a entrada em cena de Tully (Mackenzie Davis), que dá título ao filme, já passa essa impressão de que Marlo e seu recém-nascido bebê estão em boas mãos. Tanto é que dá até um pouco de inveja da personagem: "quero uma Tully pra mim também", pensei, enquanto assistia ao filme.

E tudo vai fazendo mais sentido com as conversas que elas têm nos poucos momentos que são registrados na narrativa. A presença mágica de Tully, inclusive para arrumar a casa, faz toda a diferença no humor da protagonista, trazendo uma renovação de forças para Marlo. A diferença de idade das duas e o fato de Tully ter 26 anos e não ter casado ainda e de parecer ter respostar boas e positivas para sua vida faz com que pensemos no quanto perdemos à medida que deixamos a casa dos twenties.

Sei que isso pode ser uma visão pessimista da vida, mas a própria decadência do corpo concorda com isso e com a tese do filme, embora as coisas possam ser vistas por um prisma diferente, e é provavelmente o motivo de Tully ter surgido na vida de Marlo. Há quem vá achar que a revelação final diminua o filme, mas sou desses que acredita que quanto mais clara a obra for, principalmente neste caso, a discussão sobre os assuntos mais importantes serão muito mais enfatizadas, em vez de uma busca por entender uma obra cheia de enigmas ou coisas do tipo.

Assim, o que dói no espectador que tem mais de trinta ou quarenta ou cinquenta anos ao ver o filme é o quanto ele também quer ter de volta aquele contato com o seu eu dos vinte e tantos anos. Não apenas um contato como uma aparição, mas como uma espécie de simbiose de corpos e mentes, para que possamos seguir em frente com mais força, mais vigor e mais esperança no que há de vir. Além de repensar, com gratidão (por que não?), o nosso presente, por mais complicado que ele esteja.

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ELLA E JOHN (The Leisure Seeker)

Road movie sentimental da terceira idade que traz junto o tema do Mal de Alzheimer. O casal de protagonistas (Helen Mirren e Donald Sutherland) segura o filme que é uma beleza. E há uma simpatia do filme em si que ajuda a conquistar o espectador com facilidade. Direção: Paolo Virzì. Ano: 2017.

TUDO QUE QUERO (Please Stand By)

Belo e tocante filme sobre jovem autista enfrentando um desafio e tanto pra ela. O diretor de AS SESSÕES (2012), filme que adoro, tem a sensibilidade de nos deixar próximos do sentimento de fragilidade e coragem da protagonista (Dakota Fanning). Direção: Ben Lewin. Ano: 2017.

TEU MUNDO NÃO CABE NOS MEUS OLHOS

É melhor do que eu esperava. Há um interessante apego/carinho pelo registro do melodrama. Pena que muitas escolhas da direção não funcionam e como eu vi em uma sala com problema de projeção (estava bem escura), fiquei com a impressão de ser uma produção ainda mais pobre do que é. Edson Celulari até que está bem como o cego. Direção: Paulo Nascimento. Ano: 2018.

sexta-feira, junho 01, 2018

PARAÍSO PERDIDO

Os musicais começaram a bombar nos Estados Unidos durante o período da chamada Grande Depressão, na virada dos anos 1920 para 1930, aproveitando o advento do cinema sonoro. Ir ver um musical tinha, portanto, um simbolismo imenso: a necessidade de encontrar em uma espécie de oásis em meio a turbulência do mundo lá fora.

É assim que José, o personagem de Erasmo Carlos, proprietário da boate Paraíso Perdido, oferece àqueles que lá estão: esqueçam todos os seus problemas, esqueçam sua vida lá fora, bem-vindos ao Paraíso Perdido. Mais ou menos isso. E, de fato, o que experimentamos ao longo da duração do novo trabalho de Monique Gardenberg é mesmo o de quase duas horas de trégua da dura vida.

Não só isso: PARAÍSO PERDIDO (2018), sendo também um musical, não tem a preocupação de ser fiel no campo do naturalismo das atuações e nem de fazer sentido em sua complicada trama familiar. As cores da fotografia, o gosto pelo brega e o respeito imenso ao amor (homo ou hetero) facilitam uma identificação com o cinema de Pedro Almodóvar, mas as canções, a maioria delas classificadas por muitos como bregas, são muito brasileiras, o que torna este trabalho muito nosso.

Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções.

Assim, há espaço para canções de Reginaldo Rossi, Odair José, Waldick Soriano, Belchior, Zé Ramalho fazendo cover de Bob Dylan, Gilliard, Roberto e Erasmo e até o jovem Johnny Hooker. As melhores interpretações são as de Julio Andrade. Talvez o melhor ator de sua geração, Andrade dá um show também na hora de subir no palco. O que dizer quando ele sobe para tocar "Não creio em mais nada", de Paulo Sérgio? É mais para sentir, talvez chorar, e se deliciar com tudo aquilo. E o respeito com todo esse material que é explorado é lindo.

Além de Andrade, há também interpretações belas de Seu Jorge (quem diria que um cantor seria passado para trás por um ator), por Jaloo, por Marjorie Estiano e pelo próprio Erasmo Carlos. Sua presença ali é mais do que simbólica. Parceiro do Rei e influência direta na formação da maioria dos cantores românticos da década de 1970, o Tremendão não precisa se esforçar para cantar bem. Basta estar lá e cantar uma das faixas.

Ele é o patriarca de uma família um pouco problemática e que comanda aquele espaço paradisíaco noturno. À família somos apresentados através do personagem do policial Odair (Lee Taylor), que é convidado para ser o guarda-costas do neto homossexual, que se apresenta travestido nos shows. Odair aceita, encantado com aquele lugar. Não demora para descobrirmos que há uma estreita ligação entre ele e aquela família.

Transbordando amor por todos os lados, PARAÍSO PERDIDO tem suas quase duas horas de música, intrigas amorosas e traumas do passado plenamente abraçados pela audiência, em uma experiência catártica poucas vezes vista no cinema brasileiro, no que se refere ao uso da música. Além de resgatar a música sentimental do passado, o trabalho mais belo de Monique Gardenberg tem uma elegância no uso dos movimentos de câmera, dos campos e contracampos tão bem usados nas cenas de apresentações na boate (destaque para a cena em que uma personagem informa estar grávida usando libras) e uma direção de arte e uma fotografia em tons quentes. Um dos melhores acontecimentos deste estranho e sombrio ano. Celebremos, portanto.

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ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

Esperava mais deste filme. Mas gosto da honestidade, do fato de não ter medo de abraçar o melodrama, mas me incomoda um pouco o humor que poucas vezes funciona. Ainda assim, para um filme sobre Alzheimer, até que é bem feel good e trabalha bem a questão da reaproximação entre pai e filho. Direção: Tiago Arakilian. Ano: 2018.

ALGUÉM COMO EU

É desses filmes que faz a gente sentir uma saudade enorme das comédias brasileiras dos anos 70/80. Até as produções para a televisão da Globo sabem explorar melhor a beleza de Paolla Oliveira. Além do mais, a própria ideia, além de parecer ruim, é pessimamente explorada. Mas gosto dos 15 minutos iniciais do filme, ao menos. Direção: Leonel Vieira. Ano: 2017.

TROPYKAOS

Acho que é um filme mais interessante do que exatamente bom. Mas não deixa de ser uma obra que fica na memória, que incomoda devido ao pesadelo do protagonista, vivendo um calor intenso. Gosto dos personagens do amigo viciado em crack e da namorada. A cena com a mãe também é muito boa. Direção: Daniel Lisboa. Ano: 2016.

sábado, maio 19, 2018

DEADPOOL 2

Não há como negar o quanto DEADPOOL (2016), o primeiro filme do mercenário tagarela, foi importante para trazer um pouco mais de ousadia para os filmes de super-heróis recentes. Claro que, no fim das contas, mesmo com conteúdo sexual e violento, tudo passa por um filtro dentro de uma época mais politicamente correta e respeitadora. Aliás, a respeito disso, há até uma piada no novo DEADPOOL 2 (2018) sobre a fixação um tanto estranha do taxista amigo do protagonista pela personagem de Kirsten Dunst em ENTREVISTA COM O VAMPIRO, uma vampira de dez anos de idade.

Dirigido por David Leitch, de ATÔMICA (2017), a sequência de DEADPOOL agora não tem mais a obrigação de contar a origem de seu anti-herói. No novo contexto, até quem nunca teve contato com o personagem nos quadrinhos se sente à vontade com seu senso de humor, sua intenção de ficar à margem, até por não ter nenhum problema em matar bandidos, e pelas piadas internas envolvendo filmes de super-heróis, quadrinhos, a consciência da música diegética e até mesmo a própria carreira de Ryan Reynolds.

Podemos dizer que o humor é um dos elementos mais problemáticos e que é o que mais costuma causar diferenças do público entre o gostar e o não gostar não apenas desta franquia, mas com os filmes dos estúdios Marvel também. Nem se trata aqui de entender ou não a piada; trata-se mais de não achá-la suficientemente boa para rir dela. Mas aí é que está o trunfo deste novo filme: há, dentro da trama, um pouco de tragédia que invade a vida do herói e que muda um bocado a dinâmica e o clima do que se esperava. E isso é muito bom. Ainda mais para um personagem que é praticamente imortal.

As brincadeiras com o fato de DEADPOOL ser uma franquia que utiliza heróis do segundo escalão, mesmo tendo o direito de trazer os personagens dos filmes dos X-Men, continuam valendo neste aqui, embora conte agora, além de Colossus, também com Cable, herói muito querido de quem começou a ler os heróis mutantes na década de 1990. Josh Brolin interpreta o homem que veio do futuro para matar um mutante adolescente que matará sua família. A semelhança com o enredo de O EXTERMINADOR DO FUTURO é claro que será motivo de piada por parte de Deadpool.

Ainda que inicialmente inimigos, Cable e Deadpool têm algo muito doloroso em comum e já se prevê que no final ambos serão aliados. O divertido é acompanhar o processo desta aventura despretensiosa até a sua conclusão. A própria criação do grupo X-Force é divertidíssima. Não só a criação como o destino de seus membros logo na primeira missão. A boa surpresa do grupo é Domino, a mulher cujo super-poder é ter sorte, vivida por Zazie Beetz, conhecida de quem acompanha a série ATLANTA.

No final, não deixem de ver as duas cenas extras pós-créditos. Elas são boas e importantes para a verdadeira conclusão da história. Assim como são muito bons os poucos momentos de cena com a bela Morena Baccarin e a nova versão de "Take on me", do A-Ha.

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COLOSSAL

Curioso como este filme passou quase batido nos cinemas, com uma distribuição bem ruim. Aqui em Fortaleza, pelo menos, não chegou. Mas não é de todo ruim vê-lo na telinha. Parece filme menor mesmo. Mas é criativo, como todo trabalho do Nacho Vigalondo parece ser. E a Anne Hathaway está ótima, como sempre, como a moça que descobre que tem uma íntima ligação com um monstro que aparece do outro lado do mundo. Ano: 2016.

GRINGO - VIVO OU MORTO (Gringo)

Um barato este filme dirigido pelo irmão do Joel Edgerton. David Oyelowo (de SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE, 2014) está ótimo como o empregado de uma corporação que só se fode. A fluidez da narrativa, as reviravoltas, as várias cenas que nos pegam de surpresa, os personagens carismáticos, tudo contribui para o sucesso do filme. Pena que pouca gente vai ver. Direção: Nash Edgerton. Ano: 2018.

YOU WERE NEVER REALLY HERE

Esses estudos da Lynne Ramsay sobre psicopatas humanizados só me deixam com sono e bastante impaciente. No caso deste novo filme foi pior do que com PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011). Acho que se a cena do resgate da garota fosse feito de maneira mais convencional, quem sabe eu gostasse mais. Mas ao menos dá para considerar as escolhas menos óbvias da diretora como algo corajoso. Ano: 2017.

segunda-feira, maio 07, 2018

EX-PAJÉ

Luiz Bolognesi é um de nossos melhores roteiristas de ficção. Só no ano passado ele assinou o roteiro de dois dos filmes mais importantes, BINGO - O REI DAS MANHÃS, de Daniel Rezende, e COMO NOSSOS PAIS, de Laís Bodanzky. Isso para citar apenas dois mais recentes. Mas já havia dentro de sua filmografia um interesse muito especial pela Amazônia e pelos índios.Podemos citar seus documentários sobre a Amazônia, mas seu título anterior como diretor foi a animação UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (2013), que também contava em parte a história do índio brasileiro.

EX-PAJÉ (2018) é um documentário que mais parece com ficção. E ainda bem que Bolognesi conseguiu fazer isso tão bem. A história de Perpera, o personagem-título, é fascinante em sua dimensão trágica: um homem que se sente proibido de exercer a sua função tão importante na tribo (dos Paiter Suruí) porque agora é evangélico e os líderes religiosos dizem que o que ele fazia antes era coisa do diabo. E agora o pobre ex-Pajé tem medo de dormir de luz apagada por causa dos espíritos da floresta, que estariam furiosos com sua atitude de renúncia.

Esse mal estar é sentido em cada cena, em cada enquadramento, no modo como a tecnologia e o hábito dos brancos parece invadir aquele espaço. Por outro lado, não há também uma vilanização dessa tecnologia. Como julgar um povo que, como nós, está aberto a certos confortos, como um ventilador, uma máquina de lavar roupas ou o acesso à internet? Inclusive, a internet é usada para fins muito nobres por parte dos índios mais jovens, dispostos a denunciar qualquer invasão de madeireiros ilegais no Facebook, com apoio internacional.

Mas aí voltamos novamente ao aspecto trágico de Perpera, que veste um terno enorme para ficar de porteiro na igreja, sem entender sequer a língua portuguesa. Passa boa parte do tempo olhando para a natureza que parece lhe chamar a todo instante. O modo como o filme parece se transformar cada vez mais em uma obra de ficção se multiplica no momento em que o ex-Pajé é chamado a voltar à forma.

Por manter a atenção do espectador com uma narrativa sem voice-over ou algo que o caracterize mais facilmente como um documentário, EX-PAJÉ é dessas obras que tanto funciona como uma arma em defesa dos direitos dos habitantes do Brasil pré-Cabral, quanto como um exemplo de como saber utilizar cenas do dia a dia tão bem, de modo a construir um roteiro tão perfeito que parece ter sido tudo combinado. Muita coisa deve ter sido, mas a mágica do filme e a sua verdade estão lá o tempo inteiro, juntinhas.

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VAZANTE

Acho a fotografia (em preto e branco) linda e certas tomadas são bem bonitas, mas como narrativa não conseguiu me envolver. O que eu mais gostei foi da menina, a estreante Luana Nastas, que casa com o sinhozinho. Mas mesmo o drama dela é prejudicado. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2017.

COMEBACK - UM MATADOR NUNCA SE APOSENTA

Uma bela despedida do Nelson Xavier, em um papel um tanto depressivo, mas ao mesmo tempo em busca de resistir, de não se dar por vencido pelo efeito do tempo. A gente está falando de um assassino e tal, mas o filme pode servir como alegoria pra vida. Direção: Erico Rassi. Ano: 2017.

FALA COMIGO

Filme simples, eficiente, com ideias boas e um trabalho de atuação muito bom. E usando poucos recursos, poucas locações. Pra fazer cinema bom não precisa de muito dinheiro. Começou bem na direção de longas o Felipe Sholl. O filme conta a história do relacionamento de um rapaz de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Ano: 2017.

terça-feira, maio 01, 2018

HOMELAND - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Homeland - The Complete Seventh Season)

HOMELAND está para os anos 2010 como 24 HORAS esteve para os anos 2000. São duas séries que lidam com um herói (agora uma heroína) que enfrentam algo relacionado a terrorismo. No caso desta terceira temporada de HOMELAND (2018), Carrie Mathison (Claire Danes) se aproximou mais ainda de Jack Bauer, pelo seu sacrifício em prol daquilo em que acredita. Se bem que não é tão simples assim. A personagem é um tanto viciada em adrenalina e não tem muita paciência de ficar em casa cuidando da filha. Por mais que queira pensar o contrário.

O grande trunfo desta sétima temporada é que ela é uma continuação direta da sexta, mas consegue ser muito mais eficiente nas subtramas, na criação de momentos memoráveis e também na maior valorização da protagonista. Há um segundo episódio fantástico, "Rebel Rebel", em que Carrie enfrenta um hacker que invade seu computador e faz chantagem. A temporada não consegue superar o grau de impacto, de suspense e de empolgação que este episódio traz.

No geral, a trama principal gira em torno das dificuldades da presidenta Keane (Elizabeth Marvel) de se mostrar forte diante de tantos inimigos. Ela chega ao ponto de prender centenas de pessoas que ela acredita serem inimigos potenciais. Entre eles Saul Berenson (Mandy Patinkin), o segundo personagem mais importante da série, amigo pessoal de Carrie e com uma experiência invejável no campo da espionagem dentro da CIA. Sua mudança para o time da Presidente Keane é um tanto rápida demais, mas serve também para trazer dúvida com relação à sanidade mental de Carrie, que está enfrentando uma dificuldade grande em lidar com sua família - a filha pequena, a irmã e o cunhado.

Sim, a questão da doença de Carrie é mais uma vez explorada com força nesta temporada. Trata-se de algo importante demais para a constituição da personagem para que seja ignorado. Desta vez, ela começa a acreditar que o lítio, que ela toma há vários anos, pode não mais estar surtindo o efeito desejado, que ela poderia estar perdendo a noção da realidade. E isso a incomoda bastante. Mas não faz com que ela pare com as aventuras, principalmente quando é encorajada pelo agente do FBI Dante Allen (Morgan Spector). A função de Dante será de vital importância para uma outra subtrama envolvendo traição envolvendo espiões russos.

A entrada dos russos na história até parece um pouco manjada, levando em consideração tantas tramas feitas durante o longo período da Guerra Fria, mas o fato é que os russos voltaram a ter atrito com os Estados Unidos recentemente, devido à situação na Síria, e HOMELAND sempre está em sintonia com o que está acontecendo no plano político mundial. Bom para a série, que dará adeus aos fãs na oitava e última temporada no próximo ano. Espero muito que eles encerrem tão bem quanto começaram.

+ DUAS SÉRIES

THE SINNER

Bela minissérie que conta com ganchos bem bons, que convidam a gente a querer ver com avidez cada próximo episódio. E a entrar cada vez mais nos mistérios do passado da protagonista (Jessica Biel), que comete um crime bárbaro e não se sabe o motivo. Muito bom o aspecto amoroso e obstinado do policial vivido por Bill Pullman. Pena que as questões dele na minissérie não ganhem muita força. Até porque o interesse maior mesmo é pela Biel. No final, que eu achei que ia me decepcionar, acabei me emocionando e achando bem catártico, apesar de ter algo de anti-clímax mesmo. Mas não vejo isso como um problema. Até porque a própria minissérie tem um ritmo meio irregular. Criador: Derek Simon.

O MECANISMO

A primeira impressão, do piloto, é de que é uma série muito ruim, no sentido de texto, de dramaturgia etc. mesmo. Depois do segundo episódio, a impressão melhora, até porque a Caroline Abras assume o protagonismo e essa menina é fantástica. É muito mais fácil comprar o papel dela de delegada do que o papel do Selton Mello, que além de tudo parece que fala com um ovo na boca. O personagem dele lembra o de Carrie Mathison, de HOMELAND, tanto pela doença quanto pela obsessão e inteligência. Mas está longe de ser tão bom e quando ele sai de cena a série só melhora. A brincadeira em torno dos nomes muitas vezes óbvios das pessoas públicas envolvidas na Lava Jato até que é divertida, mesmo a série às vezes agindo meio que de forma irresponsável, mas é bem melhor que o filme POLÍCIA FEDERAL. Criadores: José Padilha e Elena Soárez.