terça-feira, outubro 20, 2020

MISS MARX



Um filme que conta a história de Eleanor Marx, a filha de Karl Marx, já é suficientemente atraente, tanto para quem a conhece quanto para quem não sabe de sua história de vida, de sua luta. A escolha por um som punk rock para os créditos iniciais de MISS MARX (2020) me causou bastante simpatia. É algo parecido com o que Sofia Coppola fez em seu MARIA ANTONIETA. Ou seja, dá ao filme um quê de estranheza temporal, aproximando-o do nosso momento presente. Até porque a personagem é alguém muito à frente de seu tempo.

Como a própria diretora Susanna Nicchiarelli destacou em entrevista à Variety, Eleanor Marx não casou formalmente, decidiu não ter filhos e era muito dedicada à carreira política. Para aquela época, fim do século XIX, tudo isso era muito avançado, a sociedade inglesa não aceitava com tanta naturalidade. E falando em naturalidade, o que Nicchiarelli faz com sua direção, seu roteiro e seu elenco é admirável. Não há um engessamento nas falas, mesmo quando elas são transcritas diretamente de documentos históricos.

Quanto à narrativa adotada, me pareceu bem mais clássica do que à de seu longa anterior, NICO, 1988 (2017), outro filme da diretora que também traz um recorte da vida de uma pessoa real. Nicchiarelli, inclusive, achou tão fascinante fazer esse tipo de trabalho que disse que nem chega a pensar em trabalhar em outro projeto que também não seja uma biopic. O estimulante da experiência, segundo ela, é ter a liberdade de criar dentro de uma imposição histórica, já que não se pode mentir sobre a vida dessas pessoas reais.

Podemos destacar como um dos pontos altos do filme a interpretação de Ramola Garai. A atriz é a protagonista de ANGEL, de François Ozon, e foi indicada duas vezes ao Globo de Ouro por duas diferentes minisséries britânicas, EMMA e THE HOUR. Expressiva, Garai confere à protagonista o equilíbrio entre a força e a fraqueza, a dualidade em pregar os direitos das mulheres diante de multidões e ser mal tratada pelo marido, o dramaturgo e ativista Edward Aveling (Patrick Kennedy), um personagem curioso pelo modo como leva a vida, quase que sem ânimo de viver. Isso combina com os problemas de saúde que surgem mais adiante na narrativa.

Outro grande destaque de MISS MARX é o desenho de produção, que é de dar gosto, a cargo de Igor Gabriel (colaborador frequente dos irmãos Dardenne) e Alessandro Vanucci (que já havia trabalhado com a diretora em seus outros dois longas). Bem junto ao desenho de produção, a fotografia que destaca os tons bem vivos e coloridos é de Crystel Fournier, colaboradora tanto de Nicchiarelli quanto de outra cineasta importante, a francesa Céline Sciamma.

Talvez tenha faltado mais emoção ao abordar as paixões de Eleanor, tanto pelo companheiro quanto por seus ideais herdados do pai e trazidos para o feminismo, mas ainda assim é um filme bem digno e bonito e que tem tudo para ser sensação no circuito de filmes independentes quando acabar a Mostra de Cinema de São Paulo.

segunda-feira, outubro 19, 2020

LUA VERMELHA (Lúa Vermella)



Sucessão de imagens extraordinárias do mar e da lua. Lençóis cobrindo corpos formando imagens clássicas de fantasmas. A procura do corpo de um homem. Três bruxas no auxílio. O ganido muito estranho de um bode. Mortos e vivos convivendo em um estendido e parado tempo, em um luto que parece não ter fim. LUA VERMELHA (2020), de Lois Patiño, é cinema-poesia. É o tipo de filme que tem uma beleza plástica tão grande e um rigor formal tão admirável que lamentamos não estarmos vendo na telona de um cinema. Mas ao mesmo tempo nos sentimos gratos pela possibilidade de contemplar essas imagens e ouvir essas vozes.

Inclusive, há cenas interiores em que a iluminação também é igualmente impressionante. A história é um pouco difícil de compreender, mas trata-se de um filme mais para se sentir do que para entender. Não há interpretações no que estamos acostumados a entender pelo termo. Há imagens e vozes. Imagens que remetem à morte, vozes que trazem ao mesmo tempo paz e horror. As imagens dos fantasmas nos cenários da natureza também contribuem com o resultado. É o caso de filme que utiliza a singularidade das locações para construir sua trama, a partir da mitologia que o lugar dispõe.

E falando em locações, Patiño já havia feito um filme antes no mesmo lugar, Costa da Morte, no Nordeste da Galícia. Este novo trabalho é um retorno ao misterioso e fascinante local, a fim de, desta vez, contar a história de um mergulhador cujo corpo está desaparecido. O curioso é que a história desse homem surgiu apenas quando o cineasta estava no local, duas semanas antes de começar as filmagens, e assim transformou o que seria algo mais próximo de um documentário em um filme de ficção, envolvendo bruxas, monstros do mar e misticismo.

Como um cineasta que veio dos documentários, ainda que não seja do tipo naturalista, Patiño consegue aqui aliar o acaso dos processos que geralmente ocorrem nos registros documentais com um tipo de direção que parece ter em mente desde o início o que se deseja filmar. O resultado, com o áudio de diferentes pessoas agindo como mortos-vivos ou algo parecido, traz um ar de mistério e de beleza admiráveis. E há o trabalho de som, tanto o som da natureza quanto da música, que certamente em uma sala de cinema apropriada traria uma experiência ainda mais singular.

sábado, outubro 17, 2020

A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (The Haunting of Bly Manon)



Em tempos de resistência a séries de minha parte, só mesmo Mike Flanagan para fazer eu me empolgar com uma delas com todo carinho e entusiasmo, mesmo já esperando ser um trabalho inferior ao maravilhoso A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), que é algo próximo de uma obra-prima e tem todos os episódios dirigidos por seu criador. Aqui Flanagan terceirizou: dirigiu apenas o primeiro, "The Great Good Place". Ainda assim ele conseguiu imprimir sua marca na série como um todo. A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (2020) guarda várias similaridades com a minissérie anterior, utilizando novamente o método de ir aprofundando e apresentando melhor os personagens a cada episódio.

No caso, temos personagens vivos e também há os vários mortos. Esses é que trazem as histórias mais fascinantes e angustiantes, como a mostrada no episódio 7, o meu favorito. Essa ampliação do universo da novela de terror A Volta do Parafuso, de Henry James, fez eu me interessar mais ainda pela obra literária e pelas outras versões cinematográficas (falta eu ver ATRAVÉS DA SOMBRA, de Walter Lima Jr., e OS ÓRFÃOS, de Floria Sigismondi). E sim, eu sei que o texto original serve apenas de base para a construção de um roteiro que usa muitas liberdades para contar sua própria história de amor e morte.

Aliás, uma coisa que me encantou bastante neste MANSÃO BLY foi o caráter essencialmente romântico da história. Mas por romântico, eu me refiro ao romantismo "raiz", aquele que envolve dor, morte, sofrimento, assombração. No já referido sétimo episódio, "The Two Faces, Part Two", ficamos sabendo dos planos terríveis de Peter Quinn (Oliver Jackson-Cohen) para conseguir se livrar do purgatório em que vive desde que foi assassinado pelo misterioso espírito de uma mulher que já assombrava a casa há vários anos.

Aliás, é no episódio 8, "The Romance of Certain Old Clothes", quase todo filmado em preto e branco, que saberemos toda a história dessa mulher do século XVII (vivida por Kate Siegel, esposa de Flanagan). E a história é tão fascinante que teria força muito bem para ser um longa-metragem independente. No entanto, como parte do conjunto da obra se torna ainda mais poderosa, pois mais uma vez nos mostra a morte como algo extremamente perturbador. Ou seja, o temor maior aqui não é de morrer, mas é ter essa consciência da morte. Isso já havia sido mostrado nos episódios que revelam a morte de Peter e de Rebecca (Tahira Shariff), a governanta anterior da mansão.

A história, assim como a trama clássica de OS INOCENTES, de Jack Clayton, se inicia com a nova governanta, Dani Clayton (Victoria Pedretti), conseguindo o emprego a partir de uma entrevista com Henry Wingrave (Henry Thomas). O maltratado homem é o atual responsável pela mansão e pelas crianças, depois que os pais dos meninos faleceram. As crianças, aliás, são responsáveis por muito da força da minissérie. Tanto a doce Flora (Amelie Bea Smith) quanto o às vezes assustador Miles (Benjamin Evan Ainsworth). Essas crianças sabem de coisas que a jovem governanta jamais imaginaria. Ela, por sua vez, também já é assombrada por um fantasma pessoal.

No mais, antes que eu me esqueça, há mais três personagens muito importantes na linha do tempo do presente da série, mas preciso destacar Hannah Grose (T'Nia Miller), uma mulher que cuida com muito carinho da casa, mas que possui uma habilidade de locomoção temporal muito interessante. Essa brincadeira com as idas e vindas no tempo já era algo muito bem trabalhado em RESIDÊNCIA HILL e é novamente explorado com brilhantismo em MANSÃO BLY.

Aguardando agora o próximo projeto de Flanagan, outra série para a Netflix, em fase de gravações, chamada MIDNIGHT MASS. Por enquanto ainda não há uma data de lançamento, mas tudo leva a crer que será ainda mais especial do que esta, já que nela todos os episódios são dirigidos por Flanagan. E isso é um ótimo sinal.

sexta-feira, outubro 16, 2020

METRÓPOLIS (Metropolis)



Ando bastante cansado ultimamente. Nesta semana principalmente. Os textos que escrevi sobre os filmes da Mostra vistos em cabine foram escritos com uma dificuldade imensa por causa do cansaço mental. Não sei o quanto isso se apresenta claro nas linhas. De todo modo, não deixa de ser uma alegria poder estar iniciando uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda que de forma remota, ainda que não nas melhores condições.

De todo modo, como eu estava me habituando a ver mais ou menos um Fritz Lang a cada dois dias, essa nova rotina atrapalhou um pouco minha peregrinação pela obra do cineasta austríaco. E até já faz alguns dias que vi METRÓPOLIS (1927), que é um filme que, confesso, não está entre os meus clássicos mais queridos. Nesta segunda vez, consegui gostar mais um pouco, principalmente porque a nova cópia remasterizada e com duração ampliada está de dar gosto, mas também porque passei a conhecer melhor a poética do cineasta.

Por outro lado, continuam me incomodando algumas coisas no filme, como o seu final, por exemplo. Para minha surpresa, o próprio diretor também acha o final ruim. Ele disse que na época não tinha a mesma consciência política que foi adquirindo aos poucos. Achei curioso, pois é um final que parece agradar mais a empresários. Não à toa, Adolf Hitler adorou e quis trazer Lang para ser o seu cineasta-nazi mestre. No tal final, há uma confraternização entre o capital e o trabalho.

Na trama, a jovem Maria é uma espécie de mediadora e pacificadora para os trabalhadores escravizados, os que ficam no subsolo. Ela acredita em uma visão um tanto religiosa de uma figura que virá para os salvar ou encontrar o caminho. Há um irritante subtexto de aceitação que essa Maria boa traz. Tanto que quando a Maria má surge e fala para os trabalhadores quebrarem tudo, até achei que eles estavam fazendo o certo sim. Talvez fazer um épico de rebeldia contra o sistema fosse demais até para Lang, que dirá para os nazistas que já estavam a postos àquela altura na Alemanha.

Porém, não há como negar a influência de METRÓPOLIS principalmente nos filmes de ficção científica, como GUERRA NAS ESTRELAS, de George Lucas; BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott; BATMAN, de Tim Burton; o videoclipe de Madonna "Express yourself", dirigido por David Fincher, e até na criação de um certo super-herói que mora em uma cidade chamada Metrópolis. Ou seja, o que há de mais valoroso no filme não são as ideias políticas da roteirista Thea von Harbou, mas a genialidade de Lang na inovação visual, algo já bastante presente em obras anteriores, mas aqui mostrado explícito devido à produção muito mais cara. E acabou por render prejuízos financeiros.

Fracasso comercial, o filme levou quinze meses para ser rodado, empregou 36.000 extras e 200.000 figurinos, Lang passou oito dias filmando dez segundos de stop-motion da visão da cidade, foi o filme mais caro da UFA na era do cinema mudo. A rejeição do público fez com que os produtores cortassem o filme bastante e muito se perdeu. Encontraram uma versão integral na Argentina em 2008.

Outra coisa que me incomoda no filme são os personagens, fracos, unidimensionais. O mais interessante é o quanto se pode tirar deles do ponto de vista visual, como o aspecto vilanesco languiano do inventor maluco vivido por Rudolf Klein-Rogge, ou a exagerada performance de Brigitte Helm, especialmente quando ela aparece como o duplo malvado. Certamente, ela é, de longe, a melhor intérprete do filme. O que é aquela cena dela sendo queimada na fogueira, hein?! Outras estranhezas visuais fazem parte do charme do filme: o cientista louco com mão de ferro ou os trabalhadores que se arrastam em direção às mandíbulas de uma máquina que é também o antigo deus Moloch.

A excelente direção de fotografia é de Karl Freund, que havia trabalhado com Lang em AS ARANHAS (1919-1920). Ele, assim como Lang, passaria a morar nos Estados Unidos. Chegou a dirigir alguns filmes lá também, entre eles A MÚMIA (1932), para a Universal.

quinta-feira, outubro 15, 2020

O PROBLEMA DE NASCER (The Trouble of Being Born)



Fazer filmes com conteúdos sexuais e que envolvam crianças hoje é mexer num vespeiro. E foi o que aconteceu com a cineasta Sandra Wollner, que fez um filme sobre a relação de um homem com uma androide-criança. Embora seja um filme que coloque as questões de maneira muitas vezes implícita, elas acabam por se tornarem o centro das atenções, embora não sejam as únicas questões abordadas. Afinal, o filme é muito mais sobre a crise existencial dessa garota-androide e também sobre a confusão de sentimentos que ela acumula ao longo de seus anos de existência.

O PROBLEMA DE NASCER (2020), exibido e premiado em Berlim, na nova seção Encounters, é o segundo longa-metragem de Wollner, que havia tratado da construção do ego em seu primeiro longa, THE IMPOSSIBLE PICTURE (2016), e que agora trata de algo mais como o desaparecimento, a dissolução do ego neste novo filme. Essa distinção ela mesma fez em entrevista dada à revista Film Comment de março deste ano.

Na entrevista ela destaca uma diferença básica entre seu filme e outro a que costumam compará-lo: A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, de Steven Spielberg. O filme de Sbielberg baseado em ideia de Stanley Kubrick seria mais inspirado na história de Pinóquio, na vontade de um garoto criado artificialmente de se tornar alguém de carne e osso. No filme de Wollner, temos algo de certa forma ainda mais perturbador: a menina-androide queria apenas poder continuar fazendo a vontade de seu dono, continuar sendo seu objeto.

Como o filme trata dessa questão da objetificação, ainda que seja de uma criatura com inteligência artificial, mas com similaridades com humanos, ainda mais com uma garotinha, a questão do quanto o ser humano é capaz de trazer seus sentimentos mais sombrios para esses "brinquedos" vai se destacando. E a androide aos poucos vai demonstrando ter um tipo de consciência próxima da humana. Essa consciência, ou semi-consciência, se torna ainda mais próxima do espectador, pois é a própria robô que conta sua história, ainda que de maneira confusa e fragmentada. Como é fragmentada a própria narrativa.

Uma coisa que o filme destaca também é a sua fotografia com pouca iluminação, mesmo em cenas que se passam ao sol, na piscina. A sensação de meia luz acaba se tornando uma característica do filme e algo que combina com sua estranheza, com seu aspecto por vezes abstrato, especialmente quando Ellie, a androide, passa a conviver com uma senhora idosa e tem sua identidade mudada para a de um menino. Ellie, a jovem protagonista, passa a ser destituída de sua identidade anterior, mas as memórias, ainda que confusas, persistem, assim como a falta que ela sente do "pai". Nesse sentido, a voice-over no filme tem um papel muito feliz e importante.

Como se trata de um filme claramente de baixo orçamento, o aspecto de ficção científica passa a ser menos importante do que o aspecto dramático, da questão da identidade de Ellie, de suas angústias. Para dar um senso de estranheza à personagem, a diretora usou uma máscara de silicone na jovem atriz, que teve sua identidade preservada. Além do mais, a diretora fez questão de dizer que as cenas que mostram a garota nua não são dela mesma, mas de imagens geradas por computador. 

terça-feira, outubro 13, 2020

COZINHAR F*DER MATAR (Cook F**k Kill / Záby Bez Jazyka)



De início, demorei a me acostumar com o filme, até porque os primeiros dois capítulos deste COZINHAR F*DER MATAR (2019) são bastante apressados. E essa pressa passa a impressão de má realização. Essa impressão pode mudar a partir do terceiro capítulo, mais longo, mais lento e mais elaborado, inclusive com uma cena em tons teatrais e câmera estática (a cena do almoço). Cada capítulo apresenta diferentes versões da história errática de um homem com problemas familiares. E todos os capítulos tratam de violência doméstica de maneira, naturalmente, desconfortável. Aos poucos a tragédia e o pessimismo vão tornando o humor (negro) um pouco mais apagado e o filme vai adotando um tom mais sério.

Como a narrativa desta produção checa (e eslovaca) se inicia com um coro grego de mulheres do vilarejo em traje de banho, já se pode imaginar que não faltarão tragédias. Mas depois o filme chega com um tom de comédia, embora dificilmente vá arrancar risadas da plateia. Até porque, logo nos primeiros momentos, o protagonista quer convencer a mãe a passar o apartamento dela para ele (ao que parece, a esposa estaria chantageando o sujeito) e ainda a faz comer uma colher de pasta de amendoim, sendo que ela é alérgica. O resto do capítulo é ainda mais violento, tenso e incômodo, ainda que seja um tipo de violência diferente da vista em filmes de horror e afins. 

COZINHAR F*DER MATAR vai conquistando o interesse (por assim dizer) a partir dos terceiro e quarto capítulos, quando mais informações sobre os personagens nos são fornecidas. Assim, ficamos conhecendo o pai rico do protagonista Jaroslav (Jaroslav Plesl) e um pouco mais sobre a mãe de Blanka (Jazmína Cigánková), sua esposa. O filme vai apostando em situações que podem funcionar como um atrativo para a audiência, como a cena de sexo de Jaroslav com a própria sogra ou as tensões criadas em um supermercado. O choque também surge em uma cena envolvendo uma garotinha e uma rã. Ver também criança com arma na mão é outra coisa que incomoda.

O último capítulo traz uma realidade em que o protagonista é agora uma mulher. E imagina-se que com essa mudança de sexo se poderia mudar um pouco os padrões de comportamento danosos, as falhas de opção e as tendências à violência que surgem de todos os lados. Será?

O filme vem sendo comparado a CORRA, LOLA, CORRA, por razões óbvias, embora possa se pensar em FEITIÇO DO TEMPO também, embora aqui não haja consciência das múltiplas realidades e possibilidades por parte de nenhum dos personagens. E não há leveza. Não que essa fosse intenção da cineasta eslovaca.

segunda-feira, outubro 12, 2020

SUOR (Sweat)



É curioso ver um filme polonês contemporâneo e sentir uma diferença imensa em como se apresenta a sociedade de um país no intervalo de poucas décadas. Aqui vemos um cenário colorido e vibrante, muito distante, por exemplo, da Polônia cinza dos filmes de Kieslowski. O que não quer dizer que tudo seja exatamente feliz quanto se imagina a princípio. Em SUOR (2020), de Magnus von Horn, somos apresentados a uma jovem treinadora de ginástica famosa em seu país e bastante presente nas mídias sociais. Toda essa superficialidade dos dias de Instagram está lá, mas logo somos apresentados ao lado triste da personagem, Sylwia, às camadas por trás da fama, da beleza plástica e da rotina invejada por muitos.

SUOR foi um dos vários filmes selecionados para Cannes 2020, mas que, infelizmente, por causa da pandemia, tiveram que procurar outros meios de serem vistos. Com o selo de aprovação de Cannes (que tem um significado bastante importante), o filme chega agora à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, depois de exibições também na modalidade online em festivais na França, na Alemanha, na Suíça, na Islândia, no Canadá e nos Estados Unidos. O lado positivo desse meio de visualização é que aumenta consideravelmente as chances desses filmes serem vistos por muito mais espectadores.

SUOR é o segundo longa-metragem do sueco von Horn, mas quem brilha mesmo é a atriz, Magdalena Kolesnik, em seu primeiro papel como protagonista. A câmera não tira os olhos dela. Somos convidados a participar de sua intimidade, inclusive quando ela não precisa fingir o sorriso que normalmente usa diante das câmeras. E boa parte das vezes é ela mesma que se filma, fazendo seu shake, desembrulhando uma caixa que chegou com produtos de patrocinadores, ou mesmo desabafando sobre suas angústias. Um vídeo que a mostra chorando e triste por estar sozinha é objeto de repercussão nacional e um de seus patrocinadores chega a reclamar.

Há um momento que é o ponto de virada do filme, que é quando ela descobre um stalker estacionado perto de seu prédio. Incomodada com a situação, até porque o sujeito não é nada discreto na demonstração de sua admiração pela moça, ela conta o ocorrido em uma reunião de família e fica contrariada com a opinião da mãe sobre o sujeito - ele poderia ser uma pessoa boa, ela diz. Mais à frente, uma nova situação fará com que ela novamente reflita sobre a vida fora dos corpos bem definidos das academias e dos holofotes das redes sociais. E por mais que epílogo tenha me parecido frágil, não chega a comprometer o resultado e esse belo estudo de personagem.

quarta-feira, outubro 07, 2020

QUATRO DOCUMENTÁRIOS



Quem está acompanhando as últimas postagens do blog está percebendo que os documentários têm se mostrado mais presentes. Fico pensando se é por que a vida real está me chamando mais atenção ultimamente. E não é por causa do festival É Tudo Verdade, que aconteceu recentemente na modalidade virtual, pois só cheguei a ver um único filme neste festival, que foi o sobre os Paralamas. Como gosto de colocar coisas pessoais nos textos, senti necessidade de falar sobre o doc sobre o Sidney Magal, sobre o Caetano Veloso e sobre os cinéfilos de Nova York - esse último foi o que mais reverberou em mim, que me fez pensar na vida e também no documentário como gênero. Sobre os quatro filmes a seguir, o ideal é que eu falasse sobre eles de maneira mais demorada, mas infelizmente o meu tempo anda curto. Façamos o que é possível, então.

AS MORTES DE DICK JOHNSON (Dick Johnson Is Dead)

Este documentário que estreou recentemente na Netflix muito me fez pensar sobre a finitude da vida, sobre a velhice e, em especial, sobre o quanto é doloroso ver um familiar querido perdendo a memória aos poucos por causa da demência ou do Alzheimer. Kirsten Johnson, a diretora de AS MORTES DE DICK JOHNSON (2020), afirma, logo nos minutos iniciais do filme, sobre o quanto teme o momento em que ela perderá a pessoa que mais ama no mundo, seu pai, o Richard Johnson do título. Então, ela resolve se preparar para esse momento. Seu método é no mínimo curioso: encenar com o próprio pai e com a ajuda de dublês diferentes mortes possíveis para o idoso. O objetivo seria tanto ela quanto o pai se prepararem para a partida. Em alguns momentos, a brincadeira fica na fronteira do mau gosto, mas não deixa de ser bem curioso, especialmente o final. Há vários momentos bem tocantes e tristes que equilibram outros mais bem humorados.

NEVILLE D'ALMEIDA - CRONISTA DA BELEZA E DO CAOS

Neville d'Almeida é um cineasta com quem eu simpatizo bastante já faz alguns anos. Tanto gostava de ver as reprises de seus filmes na televisão, quanto cheguei a locar umas três vezes o VHS de MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA (1991) - por que será?. Mal sabia eu que havia rolado uma confusão em Gramado, quando da exibição deste filme, pois a Cláudia Raia foi uma apoiadora do Collor de Mello e acabou levando vaia junto com a equipe do filme, antes mesmo da exibição. Neville não deixou barato e brigou com o pessoal. Essa e outras histórias são contadas em NEVILLE D'ALMEIDA - CRONISTA DA BELEZA E DO CAOS (2018), de Mario Abbade, que também conta com depoimentos de várias pessoas que se relacionam de alguma forma com o cineasta, como atores e atrizes (Lima Duarte, Regina Casé, Joel Barcellos, Paulo César Pereio, Bruna Linzmeyer, Denise Dumont) e cineastas (Cacá Diegues, Marco Altberg, Cláudio Assis, entre outros). Sonia Braga, pelo visto, ficou sem falar com o diretor por causa do que achou ter sido uma super-exposição em A DAMA DO LOTAÇÃO (1978). As histórias mais interessantes são as que giram em torno de RIO BABILÔNIA (1982), tanto das loucuras das filmagens quanto da batalha para conseguir livrá-lo das garras da censura. Muito legal também tudo que se liga a Nelson Rodrigues, nos bastidores. Fiquei muito interessado nos primeiros trabalhos de Neville, JARDIM DE GUERRA (1970) e MANGUE BANGUE (1971). O primeiro já consegui; o segundo é bem maldito. Vamos ver se acho por aí. No mais, sigo na torcida por novos filmes do cineasta, mesmo sabendo que o cenário não está nada amigável.

OS QUATRO PARALAMAS

Engraçado que na década de 1980 os Paralamas do Sucesso, dentro do cenário das bandas de rock brasileiras, era a minha favorita. Até tive em fita K7 o álbum Big Bang (1989). Depois foi que outras bandas foram ganhando mais a minha simpatia, talvez por que as experimentações com um tipo de som mais brasileiro não me interessavam tanto assim naquele momento. Tanto que voltei a me interessar pela banda quando do retorno pós-acidente, com o excelente Longo Caminho (2002). O documentário OS QUATRO PARALAMAS (2020), de Roberto Berliner e Paschoal Samora, conta a história da banda destacando também a importância de José Fortes, o empresário da banda desde o início, desde quando começou a divulgar fitas demo e a agendar os primeiros shows em locais pequenos. Para o bem e para o mal o filme traz algumas canções inteiras. O videoclipe de "Alagados", por exemplo, é mostrado do início ao fim. Como eu já tinha visto algumas vezes, fiquei um pouco entediado. Como retrato da amizade dos quatro e de uma reflexão sobre a passagem do tempo, o filme é suficientemente forte.

O SAMBA É PRIMO DO JAZZ

Os documentários sobre artistas do cenário musical brasileiro continuam sendo muito bem-vindos. No caso de O SAMBA É PRIMO DO JAZZ (2020), de Angela Zoé, a artista homenageada é Alcione. E pra mim, que nunca fui fã ou mesmo observador da carreira da cantora, foi uma bela surpresa ver todo o seu percurso. Acho interessantes as cenas da atualidade, dos ensaios e da força e da mão-de-ferro de Alcione na condução do seu processo criativo, mas o melhor mesmo pra mim foi ver as imagens de arquivo, com a cantora aparecendo em diferentes visuais, desde a sua juventude. Também não sabia que ela tinha começado a carreira como cantora de jazz nos bares. Tanto que, quando ela foi chamada para gravar o seu primeiro disco, a gravadora estava querendo uma cantora de samba para rivalizar com Clara Nunes e Beth Carvalho, e Alcione falou: "olha, eu não canto samba." Ela acabou sendo convencida e gravou, depois foi se tornando também uma sambista, mas não exclusivamente. Faltou mais emoção ao documentário, mas, mesmo assim, foi bastante enriquecedor.

sábado, outubro 03, 2020

GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS (American Guerrilla in the Philippines)



Por mais que a maior flexibilização no distanciamento social tenha me animado um pouco, principalmente agora com a volta do Cinema do Dragão, que está promovendo uma saborosa mostra retrospectiva do Krzysztof Kieslowski, ainda fica aquela sensação de se estar vivendo perigosamente, mesmo cumprindo todos os requisitos de segurança e de distanciamento. De todo modo, está sendo interessante visualizar este mundo meio apocalíptico. Ontem, ao sair do cinema, dois bares no entorno do Dragão estavam funcionando e todas as pessoas estavam lá sem máscara. Então, não sei o que esperar. Ou se podemos nos alegrar por isso. Mas não estou com inspiração nem tempo para falar de nenhum Kieslowski por ora. Quero cumprir com a missão de escrever sobre todos os Langs vistos. Vamos a um de seus trabalhos menos inspirados.

GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS (1950) foi feito para pagar as contas, como o próprio Lang dizia. Ele estava precisando de dinheiro, assim como todo profissional. "Até um diretor precisar comer", dizia Lang, quando muitos o perguntavam sobre o motivo de ele ter aceitado fazer este filme. Ele já havia feito quatro filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, quatro filmes anti-nazistas. Este aqui seria o quinto, mas abordando o conflito no Pacífico.

Uma coisa que me fez estranhar este drama de guerra foi o fato de ser bem distinto das obras anteriores do cineasta, todas realizadas em estúdio, em fotografia em preto e branco muito bonita e estilizada. Em GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS, Lang adota uma fotografia em technicolor um tanto descuidada em comparação até com seus outros trabalhos em cores, nos westerns A VOLTA DE FRANK JAMES (1940) e OS CONQUISTADORES (1941). Nota-se, portanto, um grau muito menor de interesse e de entusiasmo.

Ainda assim, é possível traçar paralelos com outros filmes de Lang que lidam com heróis que lutam contra um inimigo que está em todos os lugares, como nos filmes anti-nazistas O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943), QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944) e O GRANDE SEGREDO (1946). E aqui também o protagonista tenta meios de inteligência para vencer os inimigos, no caso, os japoneses que invadiram as Filipinas. O herói é vivido por Tyrone Power, um dos oito sobreviventes de um bombardeio de aviões japoneses. Eles estavam em um barco a motor. E acabam por desembarcar na ilha, um deles muito ferido, pedindo ajuda aos habitantes em um momento em que o exército americano estava prestes a se render aos japoneses.

O personagem de Power decide, então, fugir para a Austrália, em vez de ser feito prisioneiro. No entanto, a jangada improvisada não vai muito longe e ele acaba retornando e ajudando a resistência. Há um interesse amoroso também, mas acredito que ele mais atrapalha do que ajuda na história. Quando o esposo da mulher morre, fica aquela sensação de "graças a Deus, agora podemos ficar juntos". Nada contra, mas não sei se o público da época pensou nessa situação.

O filme se constrói a partir de episódios, de situações por que passam os soldados americanos, ao se esconder no meio da selva ou a procurar lugares onde possam se ocultar. Há o caso da cirurgia que o protagonista tenta fazer, em vão, por falta de médicos; as formigas nos pés de um deles enquanto o sujeito se esconde na selva de um soldado japonês; o trabalho de guerrilha usando rádio; o dinheiro falsificado que é criado pelos próprios oficiais americanos etc. E há a melhor cena, do ponto de vista gráfico: os soldados americanos armados escondidos dentro da igreja.

Dado o resultado para os padrões do cineasta, é possível entender por que Lang sequer comentou uma linha sobre o filme na entrevista dada a Peter Bogdanovich. Se bem que o próprio entrevistador pode ter preferido não comentar nada a respeito, tendo ele mesmo diminuído a importância da produção.

quinta-feira, outubro 01, 2020

CINEMANIA



Acho que a gente gosta de se olhar no espelho, mesmo quando não nos achamos tão bonitos assim. Ver CINEMANIA (2002), documentário de Angela Christlieb e Stephen Kijak, é como se ver no espelho em alguns momentos. E saber rir do ridículo. Mas estou falando de cinéfilos, não de pessoas normais, por assim dizer. O cinéfilo como uma espécime a ser estudada, mas com todo o carinho. É assim que o filme de apenas 83 minutos (podia ser maior) se propõe (ou se revela). Por mais que deixe um gosto um tanto amargo com relação ao estilo de vida solitário e obsessivo-compulsivo dos personagens, não quer dizer que eles sejam infelizes.

O filme apresenta cinco cinéfilos bem diferentes que moram em Nova York, uma cidade excelente para quem gosta de variedade de filmes. O primeiro apresentado é justamente o mais interessante, Jack, que já começa dizendo que teme perder as estreias e por isso muitas vezes chega a ver quatro ou cinco filmes por dia. “Toda minha vida gira ao redor disso”, ele diz.

Já Bill é um sujeito que tem um gosto maior por filmes de relacionamentos. E pelo cinema francês pós-Nouvelle Vague. Segundo Bill, “filme é um substituto para a vida, é uma forma de vida”. É engraçado vê-lo se preparando para as sessões, a pouca importância que dá à alimentação, as preocupações em estar sempre o mais confortável possível em uma sessão, a fim de ter a melhor experiência fílmica.

Harvey é talvez o menos marcante dos personagens. Mas ele é ótimo em memorizar as durações dos filmes e tem uma bela coleção de trilhas sonoras em vinil. Já Eric tem uma preferência por filmes clássicos e não tem muita paciência para filmes mais cabeçudos, como os de Alain Resnais. Roberta, como a única mulher dos cinco, é talvez a mais excêntrica. Talvez por ter adquirido o hábito de acumular papel, o que muito me lembrou o Seu Wilson Baltazar, meu amigo parceiro de cinema que faleceu neste ano com a vinda do Corona Vírus.

Assim como Bill, eu também quero estar totalmente confortável durante a sessão. E muitas vezes compro analgésicos quando estou sentindo alguma dor no corpo. Ou café para não ficar com sono. Assim como Bill, deixo de frequentar alguns espaços que têm a projeção ruim. Tenho essa coisa meio preciosista, querendo que o cinema ofereça o seu melhor para a apreciação da obra.

Quanto ao amor pelas estrelas do cinema, curiosamente nesta semana surgiu uma brincadeira no Facebook com a pergunta "com qual personagem do cinema você desejaria transar?". Eu fiz uma lista generosa. Copiando aqui. “Grace Kelly em LADRÃO DE CASACA. Ou Jean Seberg em ACOSSADO. Ou Natalie Wood em ESTA MULHER É PROIBIDA. Ou Sharon Stone em INSTINTO SELVAGEM. Ou Demi Moore em SOBRE ONTEM À NOITE. Ou Jennifer Connelly em AMOR MAIOR QUE A VIDA. Ou Emmanuelle Seigner em LUA DE FEL. Ou Ludivine Sagnier em SWIMMING POOL. Ou Denise Dumont em EROS - O DEUS DO AMOR. Ou Claudia Cardinale em O LEOPARDO. Ou...”

Claro que isso tudo é uma brincadeira, mas um dos personagens fala algo que se deve levar muito a sério, que é a questão do padrão que ele cria de beleza. Jack chega a dizer que, ao sair da sessão de A DAMA DE SHANGHAI, de Orson Welles, fantasiou com a Rita Hayworth. Mas com a personagem em preto e branco, uma espécie de fetiche. Por isso acho Jack o personagem mais interessante, por expor isso de maneira aberta, inclusive quando fala de seu fracasso sexual.

Uma coisa que fez eu me identificar muito com Jack foi vê-lo falando de sua lista de filmes anotados em seu caderninho. E de como a memória de cada filme também traz a lembrança das circunstâncias de cada momento da vida, dos problemas românticos etc. É Jack também que fala da questão do choro, do quanto chorou quando viu OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR, de Jacques Demy, algo que também aconteceu comigo de maneira muito intensa.

Enfim, haveria muito o que falar sobre o filme, mas, quem se identificou de alguma maneira, deixo essa bela recomendação. Foi algo que me fez ganhar o dia. Quase me esqueci dos problemas.

segunda-feira, setembro 28, 2020

AS FACES DO DEMÔNIO (Byeonshin)



O filão de filmes de possessão demoníaca e exorcismos depois do fenômeno O EXORCISTA, de William Friedkin, foi enorme, principalmente nos anos 1970. Até o Mojica fez o seu (excelente) EXORCISMO NEGRO pegando carona na moda. Ultimamente, Hollywood ainda tem feito esse tipo de filme, mas a grande maioria tem se mostrado repetitiva e aborrecida. Além do mais, filmes de horror católicos estão começando a perder a homogeneidade.

Isso muda quando temos a oportunidade de ver um exemplar sul-coreano de filme de exorcismo com padre católico e uma óbvia influência do filme de Friedkin logo no prólogo. O fato de ser asiático ajuda a acentuar um ar exótico. Na sequência introdutória de AS FACES DO DEMÔNIO (2019), de Hong-seon Kim, o padre Joong-soo (Sung-Woo Bae) tenta expulsar o demônio de uma jovem usando todos os rituais aprendidos na Igreja Católica. Porém, o demônio é poderoso, o resultado é desastroso e a menina morre.

Corta para a chegada de uma família (pai, mãe, duas filhas adolescentes e um garotinho) em uma nova casa. Aos poucos, porém, eles começam a ser perturbados por um estranho vizinho. Mas o filme começa a ficar interessante mesmo quando o demônio passa a arquitetar confusões e perturbações na família ao saltar de um corpo para o outro. Seu primeiro ataque é quando ele aparece como o pai e entra no quarto dizendo coisas um tanto impróprias/assustadoras para a garota.

Esse salto do demônio em vários corpos e não apenas em um único hospedeiro faz lembrar POSSUÍDOS, de Gregory Hoblit, pouco lembrado filme de horror noventista estrelado por Denzel Washington. No filme sul-coreano essa mudança de corpos acontece apenas no seio familiar e com resultados muitas vezes surpreendentes, tanto do ponto de vista do plot e dos rumos que se tomam para cada personagem, quanto do grau de violência e gore.

Há uma cena lá pelo terço final que é absolutamente aterrorizante, envolvendo a agressão a uma personagem. E olha que esse terço final é a parte mais problemática, quando o filme precisa chegar a uma conclusão, que é a parte mais difícil de não se cair no lugar comum. Até então, as opções que Hong-seon Kim e sua equipe criativa dão ao filme trazem um frescor muito bom, mesmo quando os efeitos especiais são claramente de produção barata. Ainda assim, como não se surpreender com a sequência do ataque dos pássaros na avenida?

Outro aspecto bem positivo do filme está na interpretação do ator que faz o padre, especialmente quando ele retorna para ajudar sua família a se livrar do mal demoníaco. Sempre bom ver que o cinema sul-coreano continua nos brindando com boas surpresas de vez em quando. 

AS FACES DO DEMÔNIO fez bastante sucesso em seu país natal e talvez não alcance um sucesso ainda mais abrangente por conta da pandemia.

sexta-feira, setembro 25, 2020

14 CURTAS BRASILEIROS EXIBIDOS EM GRAMADO 2020



4 BILHÕES DE INFINITOS

O filme que abriu o singular Festival de Gramado desde 2020 louco foi este simpático conto sobre duas crianças que conversam sobre suas aspirações para o futuro enquanto a casa está com a energia cortada. Há algo de bonito no "sequestro do cinema" pelo menino, que valoriza a imagem projetada. Como os meninos são amadores, há aquele problema de às vezes não se entender tão perfeitamente os diálogos, mas o encanto das crianças compensa. Assim como a escolha do poético título. Direção: Marco Antônio Pereira.

RECEITA DE CARANGUEJO

Um conto de amadurecimento de uma jovem que mora com a mãe e a ida das duas a uma praia do litoral paulista para relaxar e comer caranguejo. Pequenos detalhes contam bastante, como as diferenças generacionais, o carinho na relação, o aprendizado na hora de aprender a preparar um caranguejo (no que há de perverso em botar os bichos na panela quente), e a naturalidade nas curtas e breves conversas entre mãe e filha. Direção: Issis Valenzuela.

INABITÁVEL

Muito interessante o trabalho desta dupla de cineastas pernambucanos. Depois do ótimo CARANGUEJO REI (2019), eles se superam e continuam no território do cinema fantástico em uma história envolvendo o desaparecimento de uma garota trans e um estranho objeto encontrado no quarto dela. O filme se destaca tanto na forma quanto na narrativa, prazerosa de acompanhar, e sempre intrigante. Falar mais a respeito pode estragar a apreciação de quem ainda não viu. Ainda estou pensando sobre o final, mas sua beleza que me pregou de surpresa. Direção: Matheus Farias e Enock Carvalho.

SUBSOLO

A animação de Otto Guerra já é conhecida dos brasileiros. O que diferencia neste curta é a trama, que, ao que parece, pertence mais à codiretora, Erica Maradona. É (talvez) uma espécie de crítica à cultura do emagrecimento nas academias e às frustrações que geralmente acontecem. A ideia é muito boa e o jeito como os personagens, especialmente dentro das academias, se comportam, é bem divertido. Direção: Erica Maradona e Otto Guerra.

ATORDOADO, EU PERMANEÇO ATENTO

Um soco no estômago este curta de estrutura simples sobre a história de um homem e de sua família que sofreram com a ditadura e que carregam até hoje as sequelas. Todo narrado pelo jornalista Dermi Azevedo com uma saúde bem frágil, agravada pelo Parkinson, o filme traz imagens dos tempos dos anos de chumbo, mas também são feitas observações diretas ao presente obscuro em que nos encontramos. Direção: Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos.

BLACKOUT 

Tenho um pouco de dificuldade em absorver os filmes de ficção científica com forte influência do ciberpunk produzidos no Brasil. No caso deste aqui, é interessante o posicionamento político rebelde e o visual futurista, mas não consegui adentrar sua trama, até porque boa parte do filme se passa basicamente na sala de interrogatório, que é quando a narrativa se torna menos interessante. Direção: Rossandra Leone.

WANDER VI

Um curta bem simples, mas bem cheio de carinho sobre a vida e os sonhos de um talentoso cantor nascido em Ceilândia e que almeja fama e reconhecimento nacional. Fiquei imaginando o sucesso dele no futuro e no quanto este curta se tornaria um documento importante sobre a pré-história de um grande artista. Ou pode ser apenas mais uma história de alguém que não conseguiu obter o sonho almejado. De uma forma ou de outra, o filme é gostoso de ver. Direção: Augusto Borges e Nathalya Brum.

EXTRATOS

Imagens de Helena Ignez filmadas pelo marido Rogerio Sganzerla e remontados pela filha Sinai. Não apenas imagens. A voz dela também. Falando coisas muito pertinentes até para o momento em que vivemos, sobre a perseguição aos artistas. E aí Sinai seleciona as imagens muito delicadamente e põe uma trilha sonora também belíssima. Parece um trabalho despojado, mas quando terminou deu vontade de ver de novo. Direção: Sinai Sganzerla.

DOMINIQUE

O filme nem tem tanta novidade assim (teria, talvez, se se apoiasse na história singular da família de Dominique, que têm outras duas irmãs também transexuais). Aqui há o retrato da personagem, de suas escolhas de vida até onde o destino permitiu (já que, como falou para a mãe, não tem culpa de ter nascido gay). De todo modo, como é um filme bem realizado e que usa muito bem o áudio da personagem ao longo de seus passeios pelo Pará, é mais do que bem-vindo, ainda mais em tempos de transfobia e ataques intensos aos grupos LGBTQ por parte da extrema direita. Direção: Tatiana Issa e Guto Barra.

JOÃOSINHO DA GOMÉA - O REI DO CANDOMBLÉ

Documentário experimental que usa áudio original de seu personagem, um homem respeitado por pessoas da religião de matriz africana, mas também bastante polêmico nos anos 1950. Há um ator/performer que interpreta uma versão do personagem, utilização de adereços, uma cena em uma feira de frutas etc. Talvez seja um filme que funcione mais para quem tem um pouco mais de intimidade com o personagem e com a umbanda, já que não tem nada de didático. Direção: Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra.

REMOINHO

Este curta é tão breve que talvez seja preciso rever para captar aquilo que não foi visto da primeira vez. Gosto da natureza melancólica do filme, que conta a história de uma mulher que deixa (muito provavelmente) o marido na cidade e volta para a cidade do interior onde mora sua mãe. As cenas da protagonista em contato com a natureza e em busca de paz são boas. Pena que são rápidas, não sendo possível entrar no espírito em tão rápido espaço de tempo. Direção: Tiago A. Neves.

VOCÊ TEM OLHOS TRISTES

Dos curtas exibidos em Gramado, este é um dos mais atraentes do ponto de vista narrativo. Além do mais, conta com a presença de dois gigantes do cinema brasileiro em participações especiais: Gilda Nomacce (incrível esta mulher!) e Jean-Claude Bernadet. Mas a história é sobre um rapaz que trabalha com aplicativo de entrega e sobre percalços em sua vida social, em especial quando vai visitar a família da namorada. Direção: Diogo Leite.

TRINCHEIRA

Trazer a imaginação da infância para a magia do cinema é algo que muitos cineastas americanos que tinham dinheiro puderam fazer. Ver isto se materializar em um curta feito com baixo orçamento e muita inventividade é admirável. E no começo eu até que não estava com muita boa vontade para o filme. Depois ele foi me ganhando com as imagens até chegar a seu final surpreendente. E o garoto sendo o único ator de verdade do filme é ótimo. Direção: Paulo Silver.

O BARCO E O RIO

Talvez o segundo melhor curta-metragem do festival, perdendo só para INABITÁVEL. Filmado no Amazonas, há um frescor e um diferencial no ambiente muito bem-vindo. É bem cuidado desde a primeira cena, tanto na iluminação de dentro do barco (meio fordiana) quanto nas interpretações mais naturalistas. A cena que mostra a mãe e a filha pela última vez é um desses momentos mágicos do cinema. Depois disso o filme não consegue chegar tão perto da beleza que conseguiu nesse momento em especial, mas termina de forma poética. Direção: Bernardo Ale Abinader.

quinta-feira, setembro 24, 2020

ME CHAMA QUE EU VOU



Ando com a cabeça um tanto confusa com a quantidade de coisas que tenho para dar conta nestes últimos dez dias de setembro, que ainda seguem pra mim com o mesmo tom do início do mês. Na dúvida entre o que fazer, quis dar uma uma respirada falando um pouco sobre um dos filmes vistos durante o 48º Festival de Gramado, que neste ano tão singular está com a programação sendo exibida no Canal Brasil. Se por um lado, é ótimo poder alcançar pessoas de todo o país que tenham o canal em seu pacote de assinatura, por outro, tivemos alguns problemas técnicos na exibição de alguns longas, especialmente no que se refere ao áudio, já que muitos desses filmes foram pensados para ser vistos no cinema. Foi principalmente o que aconteceu com o filme de Caetano Gotardo e Marco Dutra, TODOS OS MORTOS, talvez o mais prejudicado.

Mas felizmente o documentário sobre a vida e a obra de Sidney Magal, ME CHAMA QUE EU VOU (2020), de Joana Mariani, não sofreu tanto assim e pôde ser visto com muito prazer na telinha. Ainda assim, terei muito prazer em rever no cinema, já que a força da música na telona é imensamente superior. De todo modo, me arrepiei em muitos momentos com este filme que carrega muito da essência do próprio Magal, esse homem que tem a intensidade e a paixão como palavras-chaves em sua personalidade.

Quando criança, eu costumava me balançar na rede com imensa alegria, junto com minha irmã, enquanto escutávamos na vitrola o disco de estreia do cantor, que leva apenas o seu nome, de 1977. Meu pai tinha por hábito comprar discos de vários cantores de música popular. Tanto da velha guarda (Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette) quanto dos mais recentes (por recente, refiro-me à década de 1970, como Benito Di Paula e o próprio Magal). Então, creio que ele, por tabela, exerceu certa influência em meus gostos musicais.

O primeiro álbum de Sidney Magal é o que tem sua canção mais querida, "Meu sangue ferve por você", mas também traz "Amante latino" e a polêmica "Se te agarro com outro te mato". Outro grande hit desta primeira fase, "Sandra Rosa Madalena, a Cigana", só apareceria no disco seguinte, Magal (1978). Esse eu não tinha em casa, mas a canção também é dessas que dominaram o inconsciente coletivo e já no começo tem aquele arranjo que traz uma cozinha animadora seguida de metais inspirados. Naquela época havia um cuidado com os arranjos impressionante.

No entanto, o sucesso de Magal foi minguando depois desse início e o documentário de Joana Mariani aborda tanto esse sucesso meteórico quanto o começo de um período longo de fracassos nas vendas e na popularidade do cantor, embora ele nunca tenha deixado de ser reconhecido. Mas como Sidney Magal, ou Magalhães, como gosta de ser diferenciado quando não encarna o artista, não é apenas o artista, mas também o homem apaixonado, muitas de suas histórias pessoais emocionam.

Há o caso do encontro com sua futura esposa e do quanto ele teve a certeza de que aquela moça tão mais jovem do que ele seria a mãe de seus filhos. Magal conta tudo isso com muita emoção. Chora ao lembrar de momentos especialmente felizes de sua vida, como quando teve uma de suas canções aceitas para a abertura da telenovela RAINHA DA SUCATA, já do começo dos anos 1990, quando ele estava no ostracismo, mas que conseguiu surfar na onda da lambada com "Me chama que eu vou". E há a relação afetiva muito forte com a família que também ajuda a tornar a figura do personagem ainda mais querida em nossos corações e a torcer pelo seu sucesso.

As imagens de arquivo de diversos programas de televisão, tanto de apresentações quanto de entrevistas, são outro acerto do documentário. Não gostei tanto assim das cenas com Magal cantando ao piano, mas acredito que são bonitas e válidas mesmo assim. Até ajudam a enriquecer o documentário, já que ele costuma dedicar as canções geralmente à sua esposa.

Não sei quando o filme será lançado comercialmente, se ganhará as telas de cinema. Mas caso ganhem, já vou querer rever no cinema, com certeza. Imagina ouvir suas canções em som dolby?! Hein!?

sexta-feira, setembro 18, 2020

MALDIÇÃO (House by the River)



Não está sendo fácil este mês de setembro. Cansaço bateu na mesma proporção que o trabalho aumentou consideravelmente. Por isso ando com pouco tempo e energia para escrever para o blog, assim como não estou conseguindo administrar meu tempo para dar conta das pendências e por isso fico com complexo de culpa até para parar um tempinho e vir aqui escrever umas linhas. Até porque às vezes não se trata apenas de escrever o que penso e pronto. Geralmente gosto de ler a respeito, para anexar também informação junto às minhas impressões.

Ao menos com relação aos filmes do Fritz Lang, que fazem parte ainda de um projeto meu de ver a filmografia completa do diretor, eu pretendo guardar sempre um tempinho para escrever a respeito. E o mais recente dos trabalhos que vi de Lang é um dos melhores, MALDIÇÃO (1950), um suspense que lembra os melhores clássicos de Alfred Hitchcock.

Aliás, é bom lembrar que o trabalho anterior de Lang, O SEGREDO DA PORTA FECHADA (1947), também guarda algumas semelhanças com os filmes do mestre do suspense. É curioso acompanhar a sua obra do diretor austríaco e ver uma espécie de jogo de cores (ou de tons de cinza) que vai se formando aos poucos. Por exemplo, como o filme de 47 é talvez o mais barroco dos trabalhos do diretor, esse traço estético persiste, ainda que em menor intensidade, em MALDIÇÃO.

A trama se passa em fins do século XIX em uma área rural e tem um ar de melodrama gótico que apresenta uma espécie de releitura da história de Caim e Abel. Sendo Caim, o romancista Stephen Byrne, que, depois de assediar sexualmente a empregada da casa e matá-la estrangulada, ele ainda convence o irmão John (Byrne) (Lee Bowman) a ocultar o cadáver. Como eles moram em frente a um rio, a ideia que surge é colocar o corpo com um peso debaixo do rio. É a partir daí que a trama se desenrola, de maneira tão tensa e cheia de suspense quanto FESTIM DIABÓLICO, por exemplo, para citar um título de temática semelhante e feito dois anos antes.

Depois que a jovem mulher é tida como desaparecida, o terrível novelista usa a polêmica que surgiu em torno de seu nome para desenvolver uma história parecida com a que aconteceu de verdade, para capitalizar em cima do sensacionalismo. E deu certo: seu novo livro se tornou um best-seller. De certa forma, isso me fez lembrar de INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, que também tem uma romancista de histórias de crime que é acusada de um assassinato. No filme de Lang, porém, quando o corpo surge, é o irmão o principal suspeito do crime, o irmão que no início queria contar tudo para a polícia e que, desde a noite do crime, não conseguiu mais paz de espírito. Enquanto isso, Stephen se comporta cada vez mais como um sociopata.

Realizado na Republic, MALDIÇÃO é uma produção mais modesta de Lang. Ainda assim, ele capricha no visual o máximo que pode dentro de um orçamento mais limitado. A pouca luminosidade, especialmente nas cenas dentro da casa, é um elemento que auxilia bastante na construção visual e atmosférica desde o início. Quanto ao suspense, a cena da ocultação do cadáver lembra algo que Lang já havia feito antes em cena tensa de UM RETRATO DE MULHER (1944). Desta vez, sai o cenário urbano e entra um cenário rural e pantanoso.

Há, mais uma vez, uma bela utilização do som e do silêncio por parte de Lang, um mestre nesse quesito, desde os momentos iniciais, passados na casa em frente ao rio. Outro aspecto recorrente são as cenas econômicas de tribunal, algo que o cineasta foi aprimorando desde seus primeiros filmes nos Estados Unidos, até chegar ao básico e minimalista.

terça-feira, setembro 15, 2020

NARCISO EM FÉRIAS

"Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo. E que a lembrança do apartamento, dos shows, da vida lá fora era uma espécie de sonho que eu tinha tido."

Essa é uma das falas de Caetano Veloso ao descrever o seu primeiro momento no cárcere, quando foi colocado, sem a menor explicação, em uma solitária escura. Só de pensar nisso, de ter essa sensação de deslocamento da realidade, só de pensar nisso já é aterrador.

NARCISO EM FÉRIAS (2020) foi o retorno da dupla de cineastas Ricardo Calil e Renato Terra ao mundo da música popular brasileira depois do ótimo UMA NOITE EM 67 (2010). Aqui a opção de entrecortar o depoimento de Caetano Veloso com imagens de arquivo e depoimentos de outros entrevistados foi totalmente deixada de lado quando se percebeu que o filme ficaria muito mais poderoso apenas com uma montagem das cenas da entrevista feita ao cantor e compositor baiano.

Há quem diga que não é fazer cinema apresentar única e exclusivamente a entrevista de uma pessoa à frente de uma câmera, mas isso é bobagem. E parece que esquecem da grandeza de Eduardo Coutinho, mestre nesse uso. Em NARCISO EM FÉRIAS, os diretores optaram por esconder sempre que possível suas vozes. E há uns três enquadramentos básicos: o close-up, um plano que mostra o corpo inteiro do cantor e um plano mais distante, que acentua a parede ao fundo.

Tudo que ele conta já está em um capítulo do seu livro Verdade Tropical, um capítulo justamente intitulado "Narciso em Férias", e que se tornará um livro à parte, já em pré-venda. O termo foi tomado de empréstimo de um livro do romancista americano F. Scott Fitzgerald, e que também se refere ao fato de que, durante todo o período em que esteve preso, Caetano não se olhou no espelho.

Histórias narradas oralmente são a base da construção de nossa civilização e é bom ver que esse tipo de recurso ainda segue sendo incrivelmente poderoso, especialmente quando encontramos alguém que consegue nos colocar dentro da ação. Há um momento, em especial, da fala de Caetano, que me fez sentir em seu lugar, que é quando ele comenta sobre seu retorno para Salvador, para a casa de seus pais. O detalhismo da situação tem uma carga dramática assombrosa.

NARCISO EM FÉRIAS é cheio de momentos de bastante emoção, especialmente em seu terço final. O próprio Caetano Veloso parece ter se surpreendido com o próprio choro e pede para que os diretores parem a filmagem em determinado momento. E não é um momento em que ele fala de seu sofrimento, mas de quando ele comenta do sentimento de gratidão que ele tem por um sargento que ficou com pena de sua situação, de ele ser o único que não podia receber a visita da esposa, e que o ajudou. E ele lamenta não ter procurado saber o nome desse homem. Sem dúvida um dos momentos mais bonitos e tocantes do documentário e que, muito provavelmente, perderia um bocado da força sem a voz e sem o olhar do cantor .

Outro acerto de Calil e Terra foi o fato de trazerem canções para o documentário. Já começa com uma canção de Orlando Silva, "Súplica", canção cuja importância veremos ao longo do filme. Em 1968 e 1969, tocava bastante nas rádios "Hey Jude", dos Beatles, e que trazia um grande sentimento de esperança para Caetano sempre que a ouvia. Outras duas canções do próprio Caetano, compostas após a experiência do cárcere, também são citadas com emoção: "Irene" e "Terra".

Por trazer esse recorte da vida de um entre vários artistas que foram presos e exilados em um momento em que a extrema direita se apresenta como uma ameaça cada vez maior para o Brasil e para o mundo, e ainda enfatizar a importância e a beleza do trabalho de um de nossos mais brilhantes artistas, só por isso NARCISO EM FÉRIAS já se faz essencial.

sábado, setembro 12, 2020

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre Mi Madre)

Havia interrompido a leitura de Conversas com Almodóvar, de Frederic Strauss, livro de entrevistas com o maior cineasta espanhol vivo, com a revisão de CARNE TRÊMULA (1997), um dos filmes de que mais gosto de Pedro Almodóvar. Achava que a minha memória de TUDO SOBRE MINHA MÃE (1999) ainda estava relativamente fresca, o que não era verdade, mas geralmente prefiro demorar a rever certos filmes e por isso parei a leitura do livro, que abarca desde seus primeiros filmes até VOLVER (2006). Não sei se o autor continuou a fazer entrevistas regularmente com Almodóvar que possam ser incluídas em uma nova edição futura. De todo modo, trata-se de uma leitura deliciosa e está sendo muito bom retomá-lo.

Foi lendo a parte de TUDO SOBRE MINHA MÃE que soube, admirado, que este foi o primeiro filme de Almodóvar a concorrer em Cannes. Isso é muito curioso, já que o diretor já era prestigiadíssimo há bastante tempo. No festival, Almodóvar ganhou direção e um prêmio do júri ecumênico. E ficou insatisfeito com a Palma de Ouro ser concedida a ROSETTA, dos irmãos Dardenne. Almodóvar preferiria muito mais UMA HISTÓRIA REAL, de David Lynch, o que eu concordo totalmente.

As outras participações de Almodóvar em Cannes foram com VOLVER (prêmios de melhor atriz para Penélope Cruz e de roteiro); A PELE QUE HABITO (2011), com prêmios menores: prêmio da juventude e prêmio técnico de direção de fotografia para José Luis Alcaine; DOR E GLÓRIA (2019), com prêmio de ator para Antonio Banderas e prêmio técnico de música para Alberto Iglesias. JULIETA (2016) passou por Cannes mas não ganhou nenhum prêmio. Uma pena. Eu sou um dos entusiastas do filme.

Depois de cerca de vinte anos que vi no cinema TUDO SOBRE MINHA MÃE (não sei se foi em 1999 ou em 2000), voltei ao filme para tentar captar algo que não havia captado na época, já que esse não é um dos filmes que mais eu amo do diretor, mas que é um dos mais festejados, mais premiados e um dos mais queridos por muita gente. Continua não sendo tão impactante como outras obras, mas é sempre um prazer entrar em contato com o cinema de Almodóvar.

O curioso do título é que parece trazer um caráter muito pessoal e muito autobiográfico, mas não é o caso. Quem quiser se aproximar mais do passado de Almodóvar e de sua relação com a mãe é preciso que veja DOR E GLÓRIA, esse sim o mais pessoal de seus filmes. Mas é sim um filme sobre maternidade. Sobre maternidade e sobre a solidariedade entre as mulheres. Almodóvar acredita que haja muito mais solidariedade e ajuda mútua entre mulheres do que entre homens. O que é verdade e acaba por desconstruir a ideia distorcida de que entre as mulheres existe a rivalidade e não o oposto.

As mulheres de TUDO SOBRE MINHA MÃE são fascinantes. Todas elas. A começar por Manuela (Cecilia Roth), a mulher que retorna a Barcelona totalmente arrasada, depois de ter perdido o filho adolescente, atropelado. As poucas cenas de Manuela com Esteban, o filho, são carregadas de amor e por isso o impacto da cena do atropelamento é grande. Quando Manuela retorna a Barcelona é com o objetivo de contar ao pai do filho, uma transexual chamada Lola, que eles tiveram um filho juntos e que agora ele estava morto.

Não encontra de imediato Lola, mas faz amizade com outras mulheres: uma transexual que se vira no mundo da prostituição chamada Agrado (Antonia San Juan), uma atriz de teatro chamada Huma (Marisa Paredes) e sua namorada Nina (Candela Peña) e uma religiosa chamada Rosa (Penélope Cruz). Esse é o grupo que se forma e é muito prazeroso vê-las juntas, ver a dinâmica do relacionamento que se articula a partir da vontade de ajudar a outra, a partir da dor. Todas elas são mulheres sofridas por situações diversas, seja pelo abandono, seja pela partida da pessoa amada, seja pela doença.

O fato de termos duas mulheres que foram engravidadas pela mesma pessoa e essa pessoa é uma transexual foi baseada em fatos, em situações vistas por Almodóvar naquele final de século. Ele soube mesmo de uma transexual que, mesmo usando biquíni, reclamava da minissaia da mulher, um machismo absurdo herdado da cultura patriarcal.

Porém, TUDO SOBRE MINHA MÃE ainda não é daqueles filmes devastadores de Almodóvar. Pelo menos não para mim. Não como CARNE TRÊMULA ou como FALE COM ELA (2002), por exemplo. Mas é de uma beleza plástica imensa. A fotografia do brasileiro Affonso Beato é estupenda, assim como a trilha sonora de Alberto Iglesias. Talvez, fora a direção e as atuações, esses dois aspectos sejam os mais importantes para a construção de um melodrama nos moldes sirkianos, como talvez tenha sido essa a intenção de Almodóvar. E talvez esse excesso de cuidado com os aspectos técnicos tenha prejudicado um pouco o tratamento com a dor das personagens. Ainda assim, há um cuidado para que elementos cômicos sejam vez por outra introduzidos de modo que diminuam a aura pesada, como no momento em que as mulheres dizem que há tempos não fazem sexo oral em um homem.

Pela entrevista contida no livro, ao que parece Almodóvar tinha de fato um interesse em não ser tão sentimental. Fala que não gosta dos filmes sentimentais de Hollywood, diz gostar de um melodrama como ONDAS DO DESTINO, de Lars von Trier, por exemplo. Que é um filme que preciso rever, aliás. E, além de A MALVADA, de Joseph L. Mankiewicz, obviamente, há outro que é referência também para TUDO SOBRE MINHA MÃE e que ainda não vi, que é NOITE DE ESTREIA, de John Cassavetes.

Assim é a vida de cinéfilo: sempre tendo lacunas a preencher, filmes a rever, além de interesses ligados também à literatura e outras artes, que com frequência tangenciam o cinema. Não que eu esteja reclamando. Trata-se de um prazer e um dos maiores motivos de se estar vivo neste mundo.

Agradecimentos à Paula, que muito gentilmente viu este filme comigo em nova sessão simultânea à distância.

sexta-feira, setembro 11, 2020

O SEGREDO DA PORTA FECHADA (Secret Beyond the Door...)

É interessante este encaminhar de Fritz Lang pelo caráter de sonho que o cinema pode tão bem materializar (se é que esse é um verbo que combina com o sonhar). Ainda considero a sua melhor empreitada neste sentido o maravilhoso (e pouco citado) QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), mas todos os trabalhos seguintes a esse têm esse tom de sonho e/ou pesadelo que os torna no mínimo muito atraentes.

O SEGREDO DA PORTA FECHADA (1947) lembra alguns títulos da década de 1940, como três de Alfred Hitchcock (REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL; SUSPEITA e QUANDO FALA O CORAÇÃO, este último por causa das explicações psicanalíticas explícitas). REBECCA, aliás, foi o filme que inspirou Lang a fazer O SEGREDO DA PORTA FECHADA, que também traz elementos que lembram A SÉTIMA VÍTIMA, de Mark Robson, e A MULHER DESEJADA, de Jean Renoir (confesso que não vi esse último, mas já me antecipo em incluí-lo aqui, tendo em vista as associações que alguns críticos costumam fazer.)

E o curioso é que o filme sofreu muitos cortes por parte da Universal, que resultou em uma edição muito diferente da desejada pelo diretor. No entanto, há quem diga que isso acabou por tornar o filme ainda mais delirante, por "acentuar mais sua qualidade onírica". Quem falou isso foi o crítico Adrian Martin em seu texto para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer.

Aliás, achei bem curioso o fato de O SEGREDO DA PORTA FECHADA estar entre os cinco filmes do cineasta escolhidos para integrar o livro, já que os outros têm um caráter muito mais canônico, são são muito mais populares:DR. MABUSE, O JOGADOR (1922), METRÓPOLIS (1927), M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931) e OS CORRUPTOS (1953). Ou seja, ponto para o livro, que parece optar de vez em quando por obras menos óbvias do cinema universal.

Um dos aspectos mais curiosos deste filme é uma utilização generosa da voice-over. Inclusive, sem ela, acredito que a motivação dos personagens, especialmente de Celia, a protagonista, vivida por Joan Bennett, seria difícil de entender. A princípio, eu achei que esse excesso de vozes dos pensamentos da personagem seria resultado de alguma adaptação de um romance, mas não é o caso aqui. Foi uma vontade de experimentar do próprio Lang, de trazer o pensamento para o cinema, coisa que com o tempo foi ficando um pouco estranha e muito mais do território da literatura. Lang tinha planos, inclusive, de utilizar uma outra atriz para falar os pensamentos da personagem, mas Bennett ficou chateada com isso e implorou para que ela mesma fizesse.

Na trama, Bennett (trabalhando com Lang pela quarta e última vez) é uma jovem mulher rica que conhece um homem no México por quem logo se interessa e se apaixona. O homem, Mark, vivido por Michael Redgrave, é arquiteto e editor de uma revista. Inclusive, isso é a única coisa que ela sabe dele, e mesmo assim aceita se casar com ele lá mesmo, em uma igreja pequena no México, onde passam a lua de mel. É lá também que ela começa a sofrer com as inconstâncias dele.

Eles estão passam a morar na casa dele em Lavender Falls. Só lá ela descobre que ele já foi casado (agora é viúvo) e tem um filho adolescente. Mais coisas vão se revelando do personagem, como sua obsessão por quartos que serviram de cenário para assassinatos famosos. Tanto que ele reconstitui essas cenas em vários quartos de sua casa. E isso foi algo que ela só foi descobrir em uma festa em que ele mostrou com todo o entusiasmo a sua mansão/museu de horrores.

Aos poucos o filme vai diminuindo o tom de melodrama e ganhando mais suspense e tensão, aproximando-se do horror em determinado momento, quando a protagonista se vê ameaçada de morte pelo próprio marido. A fotografia barroca de Stanley Cortez, que sabe lidar muito bem com as sombras, e a música de Miklós Rózsa ajudam a construir esse cenário de pesadelo.

A paquera com a psicanálise freudiana era moda nos anos 1940 e Lang surfa na onda com este filme. Pena que a conclusão não seja muito satisfatória. O próprio diretor, em entrevista a Peter Bogdanovich, disse que achava ridícula a "cura" do personagem de Redgrave no final. Tão rapidamente ele deixa de ser um psicopata prestes a estrangular a esposa com o cachecol para logo ser "curado" por ela, bastando algumas palavras mágicas para que fosse embora seu trauma de infância etc.

Ainda assim, é um filme com imagens e momentos fascinantes que ficam guardados em algum canto da memória, como lembranças escondidas no subconsciente, dado seu aspecto tão etéreo, tão pouco material.

segunda-feira, setembro 07, 2020

SÓ UM BEIJO POR FAVOR (Un Baiser S'il Vous Plaît)

O ruim de ter um monte de coisas pendentes para fazer é que a qualidade dos textos deste espaço acaba ficando prejudicada. Mas não queria deixar que a memória de um filme como SÓ UM BEIJO POR FAVOR (2007), de Emmanuel Mouret, se perca. Na verdade, já há vários outros filmes em atraso para comentar aqui no blog, mas nada posso fazer se o dever me chama, a não ser tentar equilibrar a diversão com o dever. E, falando em responsabilidade e prazer, é curioso como esta excelente comédia de Mouret trata disso com tanta propriedade e com tanta delicadeza.

Meu contato anterior com o cinema desse cineasta foi em duas vezes em que dois de seus filmes foram selecionados para integrar o Festival Varilux de Cinema Francês. A primeira com FAÇA-ME FELIZ! (2009) e a segunda com A ARTE DE AMAR (2011). Ambos os filmes são muito divertidos, mas, se o primeiro segue uma linha próxima da comédia mais física de Jerry Lewis, Charles Chaplin e Buster Keaton, aproximando-se também das comédias malucas de Howard Hawks; o segundo lembra mais diretores que lidam com os relacionamentos, como Woody Allen e Éric Rohmer.

Nesse sentido, SÓ UM BEIJO POR FAVOR se aproxima mais de A ARTE DE AMAR e mostra que o cinema francês está muito mais em sintonia com as comédias românticas clássicas hollywoodianas do que o cinema produzido nos Estados Unidos e no Reino Unido, em que o subgênero tem demonstrado queda e quase desaparecimento com o passar dos anos. Inclusive, SÓ UM BEIJO POR FAVOR também me fez lembrar uma das minhas comédias românticas favoritas, HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO, de Rob Reiner, já que trata dessa questão envolvendo sexo entre amigos, aproximação afetiva entre amigos.

Aqui a pergunta não é: será que é possível haver amizade entre um homem e uma mulher (heteros)?. Aqui a pergunta é: um beijo de uma amiga (junto com sexo, no caso), a fim de satisfazer uma carência afetiva, pode ter consequências, no sentido de surgir uma paixão e por conseguinte afetar um casamento? E por mais que alguém possa achar a premissa um tanto boba, pode imediatamente mudar de ideia ao ver o modo como Mouret lida com a situação. É simplesmente um barato vê-lo contando à amiga de sua necessidade de afeição e de como ele não conseguiu obter um beijo de uma garota de programa. E principalmente o momento em que os dois vão para a cama pela primeira vez.

Há também um prazer muito especial na condução narrativa, já que essa história é contada por um outro casal de personagens, o casal que dá início ao filme. No começo, um homem dá carona a uma mulher e os dois sentem uma atração pelo outro. Porém, ela acredita que um simples beijo na boca na despedida, por mais que eles nunca mais se vejam no futuro, pode sim ter consequências, e por isso ela passa a lhe contar uma história. E assim começa a história principal, narrada em tons de As Mil e Uma Noites, tanto no que se refere ao encanto do narrativa, quanto ao encanto que vai crescendo entre os dois ao longo da noite.

Além do mais, o filme traz uma valorização do beijo até o final. Basta ver o beijo final, que é caprichado. Porém, até chegar lá, haja neurose, haja dúvida por parte do casal da história narrada. Eles gostam tanto da primeira experiência que tiveram, que não conseguem parar de pensar e querer mais. O casal é vivido pelo próprio Mouret e pela bela Virginie Ledoyen, uma jovem que pode ser vista em A PRAIA, aquele filme estrelado por Leonardo Di Caprio e dirigido por Danny Boyle. Ela também está no elenco da comédia musical 8 MULHERES, de François Ozon.

Com beleza, carisma e delicadeza, a atriz é ótima como a mulher que teme pela dor da separação do marido. Sim, ela é casada e ama o marido, mas está apaixonada pelo melhor amigo. O ideal, então, para que o marido não sofra é que ele se apaixone por outra mulher. E aí surge então uma trama um tanto maquiavélica (mas com a melhor das intenções) para que isso ocorra. Essa questão ética é um elemento que lembra bastante Rohmer e seu cinema católico.

Perguntado ao site Alt Film Guide sobre suas inspirações, Emmanuel Mouret disse que seu filme é inspirado principalmente em sua própria vida e que a semelhança com as obras de certos diretores famosos seria acidental. Outra coisa que é citada na entrevista e que vale a pena destacar é o uso da música clássica. Há muito Schubert e Tchaikovski e isso imprime ainda mais beleza ao filme e aos sentimentos dos personagens. Traz também uma espécie de atemporalidade, embora vejamos aspectos que remetem à primeira década do novo milênio, como o uso dos celulares. Por isso, preciso conferir mais filmes de Mouret. Já são dez longas lançados e um está prestes a estrear ainda neste ano.

Agradecimentos à Paula, que aceitou ver o filme comigo, mesmo que à distância, e bater um papo após a sessão.

sábado, setembro 05, 2020

A VINGANÇA DE KRIEMHILDE (Die Nibelungen - Kriemhilds Rache)

Eita, que este mês de setembro começou mostrando que o sol em Virgem não está pra brincadeira e que o tempo agora parece ser de aumento de trabalho e atividades profissionais. Por isso que acabei passando uns dias sem atualizar o blog. Acredito que quando eu conseguir me livrar de todas as pendências, é possível que eu volte com mais regularidade. Além do mais, considero este espaço como um espaço de trabalho também, embora não seja remunerado. Uma pena que não seja, aliás. Fica aqui a dica para eventuais patrocinadores.

Falemos então de mais um filme de Fritz Lang, da peregrinação que me "obriguei", com muito prazer, a fazer nessas semanas e que ainda demorará um pouquinho para acabar. Finalizei o grande épico de cerca de cinco horas de duração que o cineasta austríaco realizou na Alemanha. Depois da primeira parte, OS NIBELUNGOS - A MORTE DE SIEGFRIED (1924), meses depois estreou nos cinemas europeus a continuação, A VINGANÇA DE KRIEMHILDE (1924), que tem um aspecto bem menos fantasioso, já que o herói super-poderoso havia morrido no final do primeiro filme e a valquíria casada com o rei também não mais aparece, dando espaço a personagens mais humanos e frágeis.

O meu temor de que a personagem Kriemihilde (Margarete Schön) não daria conta de ser tão boa a ponto de dar força à este filme de vingança foi justificado. Tanto que acredito que o filme cresce com a entrada em cena de Átila, o famoso rei dos hunos, como o novo pretendente da princesa. Ela só aceita ser esposa do rei bárbaro pois há uma promessa de que esse homem realizaria todos os seus desejos, e ela já pensava demais em se vingar do assassino de Siegfried, Hagen Tronje.

O que, aliás, é uma bobagem, já que Hagen não é o único assassino. Todo o plano arquitetado foi feito por ordem e aceitação do rei e da rainha, que queriam se livrar do herói supostamente invencível. E por isso Hagen era blindado. Havia também uma espécie de camaradagem, de trato, entre o rei e seu guarda-costas e conselheiro que tornava Hagen quase inalcançável. E o filme mostra também certos valores que até um bárbaro como Átila tinha, já que, uma vez que ele convida alguém, ele seria incapaz de lhe fazer mal, o que muito irrita Kriemhilde.

Vale destacar que Átila é um personagem cuja personificação é tomada de bastante preconceito, já que ele é visto como uma criatura disforme e que se mexe como um orangotango, ainda mais que os demais hunos também vistos como bárbaros, principalmente se comparados com os nibelungos (alemães), todos brancos, limpinhos, de cabelo lambido e um ar até feminino - enquanto Kriemhilde exala um espírito masculino nesta fase vingadora.

Há nesta continuação uso constante de simbolismos (era comum nesta fase silenciosa do diretor e até mesmo no início da fase sonora nos Estados Unidos) e também inspiração em outras artes. O melhor exemplo talvez seja a cena que mostra um grupo de meninos nus com grinaldas em seus cabelos próximos a uma pequena árvore e Átila com sua armadura preta, inspirada em uma gravura de Max Klinger, pintor e escultor simbolista alemão.

A melhor sequência do filme é a final, na qual Kriemhilde, cansada de tentar encontrar pessoas para executar Hagen, pede para que os hunos incendeiem o espaço onde os nibelungos estão instalados. As cenas no interior da fortaleza, do incêndio, lembram uma das cenas finais de A MORTE CANSADA (1921).

Li no livro Fritz Lang, de Otte Eisner, que o trabalho de construção visual feito pelo cineasta em OS NIBELUNGOS influenciou bastante dois épicos históricos de Sergei M. Eisenstein, ALEKSANDR NEVSKY e IVAN, O TERRÍVEL.