segunda-feira, agosto 10, 2020

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (The Unbearable Lightness of Being)

Na época que A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (1988) foi lançado nos cinemas, ele foi festejado como uma das produções americanas que melhor ousaram tratar do sexo de maneira tão aberta. Tanto que nem parece filme americano. A trinca de atores principais não é americana: Daniel Day-Lewis é inglês, Juliette Binoche é francesa e Lena Olin é sueca. Mesmo o diretor, Philip Kaufman, americano, depois deste filme, começou a namorar mais a cultura europeia, em HENRY & JUNE - DELÍRIOS ERÓTICOS (1990) e CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (2000). Seu filme mais celebrado pela crítica talvez ainda seja OS ELEITOS (1983), presente em diversas listas de melhores dos anos 1980.

Mas minha intenção era fazer um texto daqueles mais memorialistas, já que este filme foi um dos mais importantes para o início da minha cinefilia. Enquanto aguardava o lançamento nos cinemas (o filme estreou em minha cidade no saudoso Cine Fortaleza), eu lia o romance de Milan Kundera e ficava muito intrigado em como seria feita a adaptação, já que não se trata de um romance tão focado na trama, mas mais em discussões filosóficas. A trama e seus personagens são mostrados com o carinho devido, mas é como se fossem um meio para que o escritor tcheco pudesse nos apresentar discussões sobre o mito do eterno retorno, o kitsch, a representação da imagem de Deus, entre outros tantos debates interessantes.

Alguns desses debates são colocados no filme na boca dos personagens em alguns momentos, e até podem parecer por vezes artificiais, mas foi uma forma que Kaufman e o célebre roteirista Jean-Claude Carrière encontraram para colocar um pouco do muito que há de questões filosóficas no livro de Kundera. Por outro lado, há coisas no filme que são de natureza extremamente cinematográfica, como a linda cena em que as duas mulheres, Tereza (Binoche) e Sabina (Olin), fazem sessões fotográficas de seus corpos nus. Tereza sabia que Tomas (Day-Lewis) era amante de Sabina e ter a oportunidade de ver em detalhes o corpo nu daquela mulher provavelmente traria muitos sentimentos conflitantes em sua mente. E o filme explora isso de maneira muito bonita, destacando tanto a sensualidade e a autoconfiança de Sabina, quanto a timidez e a difícil entrega de Tereza à nudez.

Na época que vi o filme, em 1989 ou 1990, não lembro exatamente, estava na escola ainda e minha excitação em vê-lo se dava por diferentes motivos: havia já um texto excelente do Eugenio Bucci publicado nos áureos tempos da revista SET que me serviu como um aperitivo, havia o interesse pelos corpos nus daquelas mulheres lindas e pelo erotismo, havia a admiração pelo aspecto sedutor de Tomas e havia o interesse em fazer essa comparação entre a obra literária e a obra cinematográfica. Mal sabia eu que eu faria um mestrado em literatura comparada décadas depois e estudaria o assunto para a minha dissertação.

Rever o filme neste fim de semana foi novamente muito prazeroso, por mais que estivesse bem mais distante da memória da obra de Kundera. Ainda assim, admirei a sensibilidade com que Kaufman e Carrière fecharam a narrativa, antecipando a tristeza para, em seguida, nos deixar apenas com a eternidade da felicidade do casal Tomas-Tereza. Achei que deram muito pouco espaço para Franz, personagem importantíssimo do livro, mas talvez tivessem que fazer isso por causa da duração - o filme tem quase três horas, talvez muita coisa tenha ficado na mesa de edição, um problema comum em se tratando de adaptações de romances.

Uma coisa que ainda me deixa muito impressionado é o luxo do filme. E quando falo em luxo nem me refiro à direção de arte, que é sim muito boa, mas em poder contar com artistas de primeiro escalão como Daniel Day-Lewis, que na época ainda não tinha se consagrado com três Oscars e sido considerado um dos melhores do mundo; Juliette Binoche, que talvez ainda fosse só vista como um rosto (e corpo) bonito, mas que depois seria respeitada como uma atriz fantástica que é; e nomes de peso, tanto no roteiro (Carrière, mais conhecido como parceiro de Luis Buñuel na fase francesa), quanto na direção de fotografia (Sven Nykvist, colaborador habitual do grande Ingmar Bergman). Ou seja, não dava para dizer que eles não contavam com gente de primeiríssima linha na equipe.

O espírito do tempo (1968) é mostrado em cenas da invasão dos tanques às ruas estreitas da cidade, na mistura de cenas em preto e branco documentadas com cenas filmadas incluindo Tomas e Tereza, destacando as tentativas (vãs) da população de tirarem os invasores de seu país. A versão tcheca de "Hey Jude", dos Beatles, é cantada por Marta Kubišová, muito popular na época em seu país e com canções que se tornaram símbolos da resistência, tanto que seus álbuns foram todos banidos das lojas tchecas em 1969. Quem viu o filme NO INTENSO AGORA, de João Moreira Salles, vai logo se lembrar da cena dos tanques e da proibição das fotografias e filmagens no país.

Se eu fosse citar as cenas de que mais gosto, gastaria muito tempo aqui, embora já tenha destacado a cena da sessão de fotos. Mas toda a interpretação de Day-Lewis como Tomas é brilhante. Faz-nos ter um pouco de inveja dele, de seu personagem, de seu olhar capaz de, tão facilmente, levar para a cama mulheres dos mais variados tipos. No romance, a mulher que se encanta com ele enquanto ele está lavando janelas é citada como de pescoço de girafa. Ou seja, ele gostava também da variedade. As cenas de intimidade de Tomas, tanto com Sabina, uma amiga-amante adorável, quanto com Tereza, sua esposa um tanto triste com suas saídas com outras mulheres, mas lindamente carinhosa, são também destaques.

Adoro uma cena em que ela acorda de um sonho ruim e Tomas a abraça, dizendo: "Você pode dormir, durma em meus braços, durma como um passarinho". É lindo isso. E há a cena do retorno dele a Praga, mesmo um tanto contrariado com a fuga da esposa, com o fato de agora os dois estarem presos em um país com um regime totalitário cruel, agora que os russos tomaram de conta. O olhar dele, o dela. A cachorrinha Karenin correndo para buscá-lo na porta. Aliás, o quanto Karenin é representativa do amor que o filme traz, hein. Belíssima obra, que cresceu ainda mais na revisão, e mais ainda agora enquanto estou lhe dedicando essas linhas.

Agradecimentos à Paula, que mais uma vez topou ver um filme da minha "curadoria", em esquema simultâneo.

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EMMA.

Que bom que o pessoal do Cinema na Varanda resolveu escolhê-lo para a discussão da semana, já que foi o empurrãozinho que eu precisava para dar-lhe uma segunda chance (havia desistido depois de uma noite de impaciência). EMMA. é um filme que vai se tornando melhor à medida que a trama se desenrola, que os personagens deixam de se esconder atrás de afetações e leves arrogâncias para se mostrarem como realmente são. Como é o caso principalmente de Emma, tão lindamente interpretada por Anya Taylor-Joy, tão radiante quanto a bela fotografia, que destaca o amarelo das flores e o verde da grama. A maior parte das cenas se passa durante o dia, inclusive. Muito sol. Mas o filme me ganhou mesmo nas cenas em que alguns personagens mostram ao máximo suas fragilidades e uma diretora então especializada em videoclipes se mostra bem sensível aos espíritos apaixonados. Direção: Autumn de Wilde. Ano: 2020.

A CAUDA DO ESCORPIÃO

Não há como negar o charme deste belo giallo e as surpresas que ele traz com os caminhos que a trama vai tomando, à medida que os assassinatos vão se somando. O ideal é ver o filme sem saber nada a respeito, para não estragar um pouco essas surpresas. A trama inicialmente acompanha uma mulher que é beneficiada com uma soma em dinheiro de um milhão de dólares, do seguro deixado pelo marido, morto em um acidente aéreo. Curiosamente, este seria o filme que eu veria em homenagem a George Hilton, falecido no ano passado, mas que acabei não vendo por algum motivo. Foi bom só ter visto agora, pois só depois surgiram cópias restauradas. A cópia constante no box Giallo Vol. 6, da Versátil, está lindona. Há ainda dois extras sobre o filme para ver. Quanto às mulheres, destaque para a sueca Anita Strindberg, que no ano seguinte faria outro filme com Martino, NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Direção: Sergio Martino. Ano: 1971.

PEDRO SOB A CAMA

Filme pequeno, mas com potencial para gerar emoções fortes envolvendo a distância e a reaproximação de um pai na vida de seus dois filhos. Os meninos estão muito bem, e Fernando Alves Pinto também. Na trama, Pedro é um menino sonhador que não fala, abandonado pelo pai tão logo nasceu. Ao saber que o pai retornou à cidade, ele toma uma decisão ousada: invade a casa dele e se esconde debaixo da cama, a fim de acompanhar um pouco a rotina do homem que pouco conhece. Visto no Cine Ceará de 2017. Direção: Paulo Pons. Ano: 2017.

domingo, agosto 09, 2020

A MORTE CANSADA (Der Müde Tod)

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas.
(Cantares 8.6)


Continuando minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang utilizando o método de ir e voltar no tempo, por conta de minha dificuldade em adentrar os filmes silenciosos da mesma forma que os sonoros, chego agora em A MORTE CANSADA (1921), considerado por muitos como a primeira obra-prima de Fritz Lang. Ou pelo menos ou o seu primeiro grande filme. Foi a partir deste trabalho que o cineasta passou a ser valorizado como um dos mais importantes da Alemanha. Da Europa, na verdade.

Interessante notar o quanto o realismo tão presente no início do cinema falado não era exatamente uma característica do cineasta em seus filmes silenciosos, que traziam o romantismo (como é o caso deste filme aqui), o futurismo, histórias de espiões e de super-vilões extraordinários, como é o caso do Dr. Mabuse, que surgiria na produção seguinte do realizador, e este sim, eu posso considerar como sua primeira obra-prima.

Essa relação de seus heróis e heroínas com a morte, ele chegou a levar para LILIOM (1934), seu único filme francês, e que também traz um personagem conversando com pessoas do mundo espiritual, discutindo possibilidades pós-morte. Soube, lendo um texto de um livro sobre Lang  (de Lotte H. Eisner) que o cineasta, quando criança, enquanto esteve doente, teve um sonho sobre a morte chegando até ele de maneira atraente.

Em A MORTE CANSADA, então, surge essa figura da morte materializada em forma humana, como posteriormente veríamos em O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, inclusive no modo como a morte também negocia a vida de uma pessoa. Sendo que no filme de Lang é a vida de uma pessoa amada que está sendo negociada e não a própria. Uma jovem tem seu namorado levado pela morte e, ao tentar o suicídio, vai parar em um lugar em que faz esse trato com a morte: ela teria três chances de salvar pessoas que estão prestes a morrer em tempos e locais distintos. Se ela salvar uma dessas pessoas, a morte dará seu amado de volta.

Não sou muito fã da parte dos episódios. Talvez por que já fico imaginando que, pelo menos nas duas primeiras histórias, ela não conseguirá salvar a pessoa. A dúvida é se conseguirá na terceira. E, como essas histórias são responsáveis pela maior parte da duração do filme, acabei me desinteressando um pouco, embora admire muito os aspectos técnicos e o quanto Lang decidiu fazer uma obra de narrativa mais simples, mas enriquecendo nos detalhes, como efeitos visuais inovadores, cenografia impressionante, cenas que parecem de grandes produções etc. E há também a beleza plástica da fotografia e dos enquadramentos, que muitas vezes são valorizadas pelo efeito de tintura na fotografia, algo comum nos filmes da virada dos anos 1910 e 1920.

Quando à história, acho que o que mais me chamou a atenção foi o último ato, quando a mulher vai em busca de alguém que queira dar a vida por uma outra pessoa - a morte ainda dá essa colher de chá pra ela. Assim, ela faz o pedido a um velhinho mendigo, a um grupo de velhinhas que reclama da vida em um asilo e de outro idoso, mas nenhuma dessas pessoas têm a coragem de se desapegar da vida. E aí há a cena ótima do incêndio, em que um bebê corre perigo de vida e muda os rumos dos acontecimentos para a protagonista. Todo esse trecho tem um poder imenso. Não à toa que Luis Buñuel chegou a dizer que foi A MORTE CANSADA que abriu seus olhos para a expressividade poética do cinema.

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NASCIDA PARA O MAL (In This Our Life)

O filme escolhido por mim para homenagear Olivia de Havilland foi este, em que ela faz a irmã boa da família, enquanto Bette Davis, pra variar, é aquela mulher com o cão nos couros. Depois de roubar o marido da irmã e fazer outras presepadas, a personagem chega a cometer outros atos terríveis no meio do caminho. Incomodou-me um pouco a trilha sonora que não dá trégua, mas achei este melodrama noir bem interessante. Inclusive, há uma questão que eu não tinha notado em filmes dessa época, até então: uma visão mais crítica e progressista quanto à questão do negro nos Estados Unidos. Há um personagem negro que lava o carro da família e que tem a intenção de estudar direito e ser um advogado. Hattie McDaniel, a mulher negra que ganhou o Oscar por ...E O VENTO LEVOU novamente trabalha com Olivia num mesmo filme, em um papel, infelizmente, ainda muito semelhante ao que a projetou. Curioso como essa questão do racismo acaba sendo tão forte (em especial dentro da discussão atual), que superou, pra mim, a história principal. Este foi o segundo filme dirigido por John Huston, que teve um caso tórrido com Olivia durante as filmagens. Raoul Walsh, não creditado, assumiu as filmagens na última semana, por motivos não explicados. Ano: 1942.

THE ROOM

O filme é mesmo ruim pra cacete e não saberia de sua existência se não fosse James Franco. Por isso me diverti posteriormente vendo O ARTISTA DO DESASTRE. Foi pensando nisso que eu até curti THE ROOM em diversos momentos. É quase um filme pornô sem pornografia. Não à toa virou um objeto de culto. Direção: Tommy Wiseau. Ano: 2003.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (How to Train Your Dragon - The Hidden World)

Ah, eu e minha relação com as animações. Como elas geralmente despertam em mim um sono muito incômodo. Engraçado que alguns filmes da Disney e da Pixar são uma exceção. Mas esses da Dreamworks, meu Deus... Tive que gastar com pipoca pra me manter acordado. Engraçado que eu tenho pouca lembrança dos outros dois e não tenho uma relação de afeto como muitos têm. Enfim, não me arrependo de ter ido vê-lo, mas acho que se fosse ver o filme ruim da Jennifer Lopez talvez eu não tivesse passado por isso. Direção: Dean DeBlois. Ano: 2019.

sábado, agosto 08, 2020

QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE

Quem me conhece já deve imaginar que meu interesse pela obra de Jean-Claude Brisseau se deu através, inicialmente, por seus filmes mais eróticos dos anos 2000, os excelentes COISAS SECRETAS (2002), OS ANJOS EXTERMINADORES (2006) e ERÓTICA AVENTURA (2009). Mas como Brisseau também é um cineasta interessado na espiritualidade, os interesses mais densos do plano material se unem de maneira tal, que é quase como se ele conseguisse misturar água e óleo. Ele traz transcendência para o sexo, o elevando a uma experiência religiosa, inclusive com o uso da música, que de forma geral é usada de maneira econômica em seus filmes, nas sequências de diálogos.

Assim, como eu tenho uma lacuna considerável para preencher nos filmes das décadas de 1970-1990 do cineasta, sua visão de realismo social e de poeta dos subúrbios que vejo em alguns textos ainda me foge um pouco. Portanto, a relação que faço de seu filme de despedida do plano material, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE (2018), é com seus trabalhos realizados no novo milênio. Se em seu trabalho anterior, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), esse erotismo era deixado um bocado de lado, agora ele retorna para namorar novamente o aspecto espiritual.

A história começa em tons rohmerianos, com Camille (Fabiene Babe) esperando ônibus em um terminal e atendendo a ligação de um celular que se encontra no banco. Do outro lado da linha, uma outra mulher, Suzy (Isabelle Prim), pede para que ela guarde o telefone pra ela, leve-o com ela para sua casa, que logo ela passará para pegar. O primeiro encontro das duas mulheres, no apartamento, parece carregado de sexualidade logo de início, quando Camille, usando apenas um vestido confortável, se mostra atraída por aquela mulher bem mais jovem que ela que afirma ter vários amantes, e que o homem que envia vídeos eróticos para o seu telefone é uma pessoa que está perdidamente louca por ela.

Logo essa atração se torna mútua, com um diálogo que une o naturalismo com uma espécie de estranheza, Suzy mostra os vídeos que ela faz transando com estranhos em público, e Camille a apresenta seus vídeos eróticos caseiros, mas feitos com efeitos especiais e muito bem trabalhados como arte. O sexo entre as duas é inevitável. A dona do apartamento e amiga íntima de Camille, Clara (Anna Sigalevitch), chega, flagra as duas na cama e se junta a elas na festa. O sexo funciona como elo inicial entre aquelas três mulheres.

Clara tem ajudado Camille em uma difícil fase de depressão em sua vida. E Suzy depois se mostrará bem menos femme fatale do que se apresentara inicialmente. Seu único amante na verdade é um homem que a persegue na casa de Clara, Fabrice (Fabrice Deville). As outras mulheres ajudam-na a se livrar do homem, que fica bêbado, usa uma arma e faz uma confusão do lado de fora. Quem mais ajuda a contornar a situação é Clara, que se sente na obrigação de fazer com que Fabrice esqueça Suzy. A cena de Clara fazendo sexo com Fabrice é um dos momentos mais eróticos e também de exposição de fragilidades do cinema de Brisseau. Muito lindo.

O caminho das três mulheres se conduz de maneira diferente. Suzy encontra a espiritualidade com um senhor septuagenário que mora no quinto andar. E Clara encontra o amor romântico pela primeira vez na figura de Fabrice. Já Camille tem conseguido força espiritual e independência depois de tantos anos de necessidade da presença da amiga. Das três, a que mais me encanta é Clara, com sua beleza, sua generosidade, sua sensualidade e seu amor que se expande por todos os níveis.

Como um cineasta profundamente religioso, Brisseau nos traz em seu filme-testamento momentos de gratidão poucas vezes vistos em outras obras para cinema. Ele começa com o amor físico, carnal; depois vai para o amor mais próximo da amizade; depois o amor romântico, e em seguida o amor transcendental. O fato de termos personagens aquebrantados ajuda muito a nos identificarmos em com um ou mais deles.

Li em um ótimo texto sobre o filme que suas personagens femininas são representações das feridas do cineasta. E achei muito interessante essa interpretação. Assim como a ideia de que, em seus trabalhos mais maduros, do fim de sua vida, ele estaria mais interessado na cura do que na fúria, algo bem mais presente em suas obras iniciais, pelo que li e pelo que vi em UM JOGO BRUTAL (1983). É uma forma reconfortante de deixar o mundo material, ainda que continuando com um pé firme nos desejos e nos prazeres supostamente menos nobres.

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TRANSTORNO EXPLOSIVO (Systemsprenger)

Impressionante e comovente história de uma garotinha de nove anos que, por conta de um problema de explosão emocional constante, não consegue encontrar um lugar para ficar. Em alguns momentos é até possível ficar um tanto irritado com a garota, mas o filme tem um olhar muito carinhoso com ela e isso faz muita diferença. Apesar de a mãe não conseguir ficar com ela, seu sonho é voltar para a casa de sua mãe. E talvez isso seja o que mais emociona, assim como sua relação de afeto com outras pessoas, como o rapaz que se identifica com ela e tenta ajudá-la profissionalmente. Impressionante a garotinha, Helena Zengel. Daqueles casos de interpretação mirim que deixa a gente de boca aberta. Com o sucesso que teve, ela estará no próximo filme de Paul Greengrass, junto com Tom Hanks, em fase de pós-produção. Direção: Nora Fingscheidt. Ano: 2019.

VIVA - A VIDA É UMA FESTA (Coco)

Já não consigo mais diferenciar o que é Pixar e o que é Disney Animation, mas não tem problema. O que importa é que ver mais um acerto da Pixar/Disney é sempre um prazer. Este filme é daqueles que envolvem tanto e impressionam tanto com seu visual que merece todos os prêmios. Não sei o quanto os roteiristas roubaram da animação FESTA NO CÉU, mas é muito bom ver uma apropriação tão bonita de uma cultura alheia, como a mexicana, e o fascinante Día de los Muertos e a questão da lembrança como elemento de manutenção da vida no pós-vida. E tem também o amor pela arte e um certo ar de rebeldia do jovem protagonista. Tudo isso junto dá um caldo muito bonito. Sem falar no mundo dos mortos. Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina. Ano: 2017.

INSUBSTITUÍVEL (Médecin de Campagne)

Eu até que tinha gostado do filme anterior de médico de Thomas Lilti, HIPÓCRATES (2014), mas este me pareceu tão anêmico e sem graça. Não que seja ruim; só não me disse nada e nem oferece nenhuma novidade formal (mas disso eu já sabia). Na trama, depois que um médico é diagnosticado com câncer, um novo médico se junta a ele para atender seus pacientes em uma região rural da França. Ano: 2016.

quinta-feira, agosto 06, 2020

QUANDO DESCERAM AS TREVAS (Ministry of Fear)

Alguns filmes parecem feitos de um tipo diferente de matéria. Por mais que digam que o cinema é a forma de arte que mais se aproxima dos sonhos, certos filmes conseguem se aproximar ainda mais dessa sensação. E eu, por algum motivo, tenho uma especial atração por esse tipo de obra. Por isso fiquei tão encantado com QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), que eu esperava que fosse "apenas" o terceiro filme anti-nazista de Lang realizado em Hollywood, ainda no calor da Segunda Guerra Mundial Não esperava algo tão onírico, tão kafkiano, tão estranho e tão cheio de loucuras. 

E acho curioso o fato de Fritz Lang não gostar do filme. Na entrevista que o cineasta deu a Peter Bogdanovich contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, seu desdém com relação à obra é bem explícito. Conta que aceitou a proposta de dirigi-lo porque gostava de Graham Greene (o filme é uma adaptação do livro O Ministério do Medo, de 1943, do romancista inglês), mas que ficou chateado com o roteiro e com a impossibilidade de mudá-lo e que quis pular fora do projeto. Não conseguiu pois já havia assinado o contrato com a Paramount. E que bom que não conseguiu! O impressionante é Lang ter feito o filme sem tanto carinho e ainda ter resultado em algo tão bonito.

A minha primeira simpatia pelo filme foi de uma talvez acidental semelhança da imagem do protagonista, vivido por Ray Milland, com ERASERHEAD, de David Lynch, graças à projeção de uma sombra na cabeça de Stephen Neale, o personagem de Milland. Ele aguarda alguém e ficamos sabendo que ele estava preso e agora está livre. Quando sai dessa prisão, vemos o nome da instituição, um centro para doentes mentais. Mais tarde saberemos mais um pouco sobre o motivo de Neale ter parado ali, mas, por enquanto, não sabemos nada de seu passado, só de sua alegria por estar finalmente livre.

Sua alegria é tanta que não se importa em ir embora para Londres, o principal centro dos ataques de bombardeiros alemães. Sua atenção é voltada para uma festa que acontece ali perto, uma festa de senhoras, aparentemente bem familiar. É interessante a disposição dele para dizer sim a experiências novas, como adivinhar o peso exato de um bolo, entrar na tenda de uma vidente, ou, mais adiante, participar de uma sessão espírita. Aliás, a cena da sessão mediúnica é uma das melhores do filme, uma das que Lang melhor explora as sombras, e a que melhor justifica o título brasileiro. Mas antes mesmo dessa sessão, outras coisas malucas já haviam acontecido, como na cena do encontro com o "cego" no trem. É dessas cenas que me fazem arregalar os olhos para o que estou vendo e dar um sorriso de satisfação.

Mas é durante a tal sessão espírita que Neale passa a ser perseguido, tanto por espiões nazistas quanto pela polícia, depois que um homem é morto enquanto as luzes estão apagadas e Neale é acusado de tê-lo assassinado. Ajudado por um dos irmãos austríacos que conhecera antes, ele consegue fugir e é ajudado pela irmã austríaca (Marjorie Reynolds). Sim, a trama é confusa e bem maluca, mas isso faz parte da graça da obra. Diria que o filme perde um pouco a graça quando tenta trazer explicações e se transformar em um thriller de espionagem mais convencional a partir de determinado momento, mas mesmo assim há uma agilidade na narrativa que faz com que essas questões supostamente mais sérias sejam também motivo de diversão.

Diria que QUANDO DESCERAM AS TREVAS faz parte daquele tipo de filme noir que prefere se distanciar um pouco do realismo para adentrar um tipo de surrealismo, seja pela trama kafkiana, seja por alguns elementos de mistério. Poderia lembrar de A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, por causa do mistério que seria depois inspiração para Lynch; mas também poderia lembrar de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, cuja trama é incompreensível. E tudo bem. O senso de humor do filme de Lang se torna ainda mais evidente na última cena. E toda a combinação que o diretor alemão faz de realismo com fantasia, como ele já havia feito em DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) e em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), funciona que é uma beleza neste que é, aparentemente, um dos seus filmes mais subestimados.

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O PARAÍSO DEVE SER AQUI (It Must Be Heaven)

Em determinado momento deste novo filme de Elia Suleiman, ele está em um escritório de uma produtora de filmes, que nega o seu trabalho afirmando não ser suficientemente palestino. Ou seja, o que querem dele é algo mais próximo de uma visão exótica e sofrida. E não uma comédia, por mais agridoce que seja este novo trabalho. É praticamente um filme de esquetes, em que o próprio realizador testemunha o que lhe aparece pela frente sem expressar nenhuma palavra. Assim, é quase um filme mudo, em certo sentido. Mas há uma importância grande do som e também da música. Inclusive, em dois momentos que parecem videoclipes: quando toca Nina Simone e ele está em Paris, e quando toca Leonard Cohen e ele está em algum lugar dos Estados Unidos. A cena do supermercado é um sarro, assim como a cena com o Gael García Bernal. Senti muita vontade de saber mais sobre a questão da convivência entre palestinos e israelenses dentro do Estado de Israel. No caso do filme, em Nazaré. Ano: 2019.

TOY STORY 4

Este quarto filme da série mantém o padrão de qualidade, graças, principalmente, à força de seus personagens, principalmente de Woody e depois de Buzz. Mas aqui temos outros dois personagens de muita força e importância para a trama, a boneca de porcelana Beth e o garfinho, criado pela garotinha em momento de ócio gerado pela solidão na escolinha. Acho que o filme cansa um pouco em seu terceiro ato, com tantas mudanças de planos nas aventuras dos heróis, mas não dá para reclamar muito. Até porque há aqueles bonecos aterrorizantes de filmes de terror da loja de antiguidades. Direção: Josh Cooley. Ano: 2019.

FRANCOFONIA - LOUVRE SOB OCUPAÇÃO (Francofonia)

Continuo não sendo fã de Aleksandr Sokurov e seus filmes são um convite ao sono. Mas como vi o filme com um pouco de febre, é provável que gostasse em outras circunstâncias. Há algo de bastante interessante, nem que seja para pensar o papel do museu e o momento da ocupação alemã na França. Ano: 2015.

quarta-feira, agosto 05, 2020

O CONVITE AO PRAZER



Quem gosta (quem ama, na verdade) o cinema de Walter Hugo Khouri sente sempre a necessidade de voltar às suas obras. Elas funcionam tanto isoladamente quanto dentro do corpo de seu trabalho. E também mudam bastante, à medida que nossa compreensão de mundo também muda, como costuma acontecer com qualquer obra de arte. Porém, no caso das obras de Khouri que trazem nudez e cenas de sexo mais gráficas, como as da fase da Boca, essa diferença de visão da obra pode ser ainda mais sentida.

É o caso de O CONVITE AO PRAZER (1980), filme que antecipa a obra-prima EROS - O DEUS DO AMOR (1981) e que é geralmente considerado um filme menor do diretor. Pelo grande número de cenas de sexo e de mulheres lindas desfilando pela tela, a primeira impressão que eu tive do filme, na minha adolescência, quando o vi pela televisão, foi de uma obra cujo destaque maior é o sexo. Sim, o sexo é fundamental para o filme, mas não como um elemento de diversão, como pude ver agora, com os olhos da maturidade. E também com os olhos mais atentos com coisas como o machismo e a objetificação da mulher. 

Nesse sentido, O CONVITE AO PRAZER é um dos filmes mais masculinos de Khouri, embora ele soubesse também fazer muito bem obras totalmente centradas em mulheres. Não à toa é tido como o nosso Bergman. Mas não é o caso deste trabalho em particular, cuja primeira mulher apresentada, a jovem e lindíssima Sonia (Aldine Müller), é quase uma boneca de pano pronta para ser aproveitada sexualmente pelo dentista Luciano (Serafim Gonzalez) e depois por Marcelo (Roberto Maya, o melhor de todos os Marcelos de Khouri). Os dois transam com ela, uma garota de programa, na cadeira de dentista de Luciano.

O filme começa mostrando a rotina de trabalho desse personagem próximo do patético que é Luciano. Um homem que tem por hábito liberar a secretária para usar o seu espaço de trabalho para o prazer, sem precisar pagar mais por isso, como motel, bebidas etc. Além do mais, ele tem a preocupação de não chegar tão tarde em casa. Mesmo assim, sua relação com a esposa Anita, vivida por Helena Ramos, ainda continua firme e forte.

O mesmo não se pode dizer do casamento de Marcelo, que passa por uma crise terrível. Ele não suporta a esposa, embora diga que a ama para o amigo. A mulher, Ana (Sandra Bréa, cheia de charme, mais uma vez), já parece cansada de tudo, mas é ele que a provoca mais. Aliás, é interessante como a casa deles, um palácio, se parece com um lugar que exala tristeza, especialmente quando contrastada com o espaço que Marcelo reserva para as orgias, a sua garçonniére. Ali é um espaço de exacerbação dos sentidos, dos prazeres, das possibilidades do sexo. Um espaço sem paredes, onde quem está na cama de baixo pode muito bem assistir à performance de quem está na cama de cima e vice-versa.

O lugar é quase um personagem para o filme, mas nada que vá eclipsar a força da presença de Marcelo, um homem que se sente bem ao se mostrar um sábio cínico e pessimista, mas também muito rico e elegante, especialmente quando se espelha à frente do pouco sedutor Luciano, que está ali para aproveitar aquela oportunidade de ouro, mesmo já estando, como o próprio Marcelo observou, bastante judiado pelo tempo. Aliás, a presença quase simiesca de Luciano perto das mulheres lindas que aparecem pelo filme é de um contraste impressionante.

E quanto às mulheres, que elenco! Além das já citadas Helena Ramos, Sandra Bréa e Aldine Müller, o filme ainda conta com Kate Lyra, como a funcionária inglesa de Marcelo; Nicole Puzzi, como a amiga da filha do protagonista; Alvamar Taddei, como uma das garotas de programa mais atraentes; sem falar em outras famosas atrizes do cinema brasileiro do período que aparecem em papéis menores, como Patricia Scalvi e Rossana Ghessa. São tantas beldades que a comparação de Marcelo com o próprio Khouri acaba por ser bastante pertinente.

Mas CONVITE AO PRAZER também é um filme em que o sentimento de mal estar se sobressai. Marcelo é um personagem que não se importa em causar transtorno a pessoas que ele conhece no cotidiano, como na cena em que convida sua secretária Miss Harriet (Kate Lyra) para a sua garçonniére. E o problema maior nem parece ser a bela mulher transar com Marcelo e com Luciano em esquema de revezamento na mesma cama, ao mesmo tempo, parecendo estupro, mas ter que dar de cara com colegas de trabalho, logo em seguida, e ter toda a sua reputação perdida.

Quanto ao uso deslumbrante de luz e sombras no filme, é em Kate Lyra que elas recaem de maneira mais linda, ressaltando o seu sentimento conflitante e também o sentimento conflitante do espectador, diante de situação cujo grau de incômodo luta contra algum sentimento de prazer voyeurístico e de encantamento com a beleza que persiste.

E por isso cada obra de Khouri merece uma reavaliação constante. Um filme como este, cujos créditos se iniciam com a pintura Os Amantes, de René Magritte, e se encerra com a mesma pintura, tem muito a dizer. Na pintura, vemos dois amantes se beijando totalmente cobertos por um pano que os impede de tocarem os lábios um do outro. Pode haver uma infinidade de visões dessa pintura, mas creio que uma delas pode ser a quase impossibilidade de se alcançar o amor.

As orgias que Marcelo empreende não são suficientes para trazê-lo prazer, satisfação. Sua necessidade de sentir é tanta que ele se deixa ser agredido fisicamente pelo amigo em um dos momentos finais do filme, como se aquela surra fosse para ele um presente; fosse, enfim, uma forma de sentir a vida.

Agradecimentos à Paula, que topou ver o filme simultaneamente comigo.

+ TRÊS FILMES

BRASIL S/A


Quando um filme não nos pega a gente fica até desinteressado em tentar descobrir os signos, os simbolismos. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e BRASIL S/A. Mas é um filme interessante e bonito de ver, embora seja necessário um pouco mais de disposição por parte do espectador. Direção: Marcelo Pedroso.

MAIS FORTE QUE O MUNDO - A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO

É muita firula e muito efeito pra pouca emoção. Mas é interessante o modo como a questão paterna é colocada. O começo em Manaus também é interessante, mas toda a trajetória para chegar às vitórias são muito rápidas e parecem um trailer, além de parecer também com aqueles filmes publicitários que se costuma ver em academias de musculação. A personagem de Cleo Pires também é fraca. Se a atriz não tivesse uma beleza e um charme próprios ficaria ainda pior. Mas é um filme a se conferir. Direção: Afonso Poyart. Ano: 2016.

O OUTRO LADO DO PARAÍSO

Acho que tenho um pouco de problema com filmes protagonizados por crianças. Por algum motivo esses filmes me dão sono, em sua maioria. Embora este título em si seja correto e tal, não consigo enxergar nada além disso, mesmo levando em consideração o cenário de golpe de 2016. De todo modo, as cenas dos amores do garotinho são legais. Minha preferida é a cena do cinema. Direção: André Ristum. Ano: 2014.

terça-feira, agosto 04, 2020

MACABRO

Marcos Prado tem uma carreira como diretor bastante curiosa. Sua maior experiência é na produção, tendo sido, inclusive, produtor executivo dos dois Tropas de Elite, do José Padilha, além de outros dois documentários famosos desse cineasta. Mas seu trabalho na direção começou com o documentário. Seu primeiro documentário para o cinema, ESTAMIRA (2004), é o retrato de uma mulher que vive em um lixão do Rio de Janeiro, que tem problemas mentais e filosofa sobre o mundo. Confesso que esse filme me deixou um tanto perturbado. Fiquei ao mesmo tempo temeroso de entender o pensamento da personagem e olhar para seus olhos.

E é interessante ver que Prado, depois de uma primeira experiência na ficção, com PARAÍSOS ARTIFICIAIS (2012), tenha voltado a lidar com o medo (a experiência do medo que eu falei no parágrafo anterior é puramente subjetiva), desta vez deliberadamente, ao contar a história dos "irmãos necrófilos" de Nova Friburgo, que foram notícia nos jornais na década de 1990. MACABRO (2019) foi o primeiro filme inédito a ser lançado comercialmente nestes tempos de pandemia, no circuito dos drive-ins. E só por isso creio que já chame a atenção.

Por mais que não esteja sendo recebido com tapete vermelho pela crítica, diria que MACABRO tem a cara de filme que será, no futuro, reavaliado e visto como um exemplar de suspense/terror/policial marcante e com aspectos valorosos. Prado aproveita uma onda bastante positiva de filmes de gêneros que cresceram consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Sem falar que, em comparação com a maioria dos muitos exemplares de horror e suspense estrangeiros que têm chegado ao circuito, o filme de Prado ainda ganha pontos por nos aproximar dos acontecimentos.

O modo como o filme se inicia, com o protagonista vivido por Renato Góes, o Sargento Téo, cometendo um erro ao atirar em um homem em uma operação na favela, confundindo uma furadeira elétrica com uma arma (baseado em um incidente recente real), é uma maneira de o filme começar já abordando os erros da polícia e a situação de racismo e violência que marcam a sociedade brasileira e que, a partir do que veremos na trama propriamente dita, é um racismo que persiste de maneira muito forte no Brasil profundo. Talvez nem precisasse que o cabo vivido por Guilherme Ferraz dissesse duas vezes que ele era o único negro daquela cidade, além da família dos irmãos assassinos procurados, mas talvez sim, seja necessário, para tornar mais didática a situação.

Fosse em outra época, muito provavelmente, essa questão étnica não seria sequer abordada e o filme focaria especificamente na busca pelos assassinos e estupradores e também em seus atos brutais. Há um pouco de fragilidade no modo como o filme parece querer justificar os atos dos irmãos como atos de vingança após anos de maus tratos. Isso é compensado com a construção de uma atmosfera de medo herdada do cinema de horror, como nas cenas de ataque às vítimas, mostradas sempre no escuro e tornando a aparência de um deles próxima de um monstro, a partir também do depoimento de uma sobrevivente. Isso ajuda a enriquecer o mistério, ao trazer a feitiçaria para os crimes.

O filme é feliz ao estabelecer um vínculo entre dois personagens em especial: o do Sargento Téo e uma ex-namorada da adolescência, Dora (Amanda Grimaldi). Essa relação ajuda a nos aproximar dos personagens e a aumentar a dramaticidade na cena em que Dora é abordada por um dos irmãos. É uma das melhores cenas do filme. Destaco também a cena de briga de Téo com o coronel da região, com uso de câmera na mão. Há também que se destacar a beleza da fotografia, a cargo de Azul Serra (TURMA DA MÔNICA - LAÇOS), que enfatiza a exuberância da paisagem natural de Nova Friburgo.

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O CHALÉ (The Lodge)

O novo filme da dupla de BOA NOITE, MAMÃE (2014) novamente brinca com o terror dentro de ambientes fechados. Um dos pontos mais fortes aqui é a capacidade de nos surpreender desde o início. Por isso, é o tipo de obra que é interessante ver sem saber nada a respeito. Vejo como problemática a descida à loucura da protagonista. Como se fosse necessário que o espectador entrasse em seus sapatos para que o resultado fosse mais eficiente. Quanto à culpa, o modo como ela é trabalhada é boa, mas também senti falta de mais força. Riley Keough é uma jovem atriz que tem bastante carisma e acho que isso ajuda. Outro ponto positivo são os ângulos de câmera dentro da casa. Em determinado momento, sentimos que a casa está se inclinando para o lado. De todo modo, ainda não foi dessa vez que eu comprei com todo o amor o trabalho da dupla de cineastas austríacos. Mas vou ficar de olho para os próximos. Direção: Severin Fialan e Veronika Franz. Ano: 2019.

O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)

Tim Burton juntou um monte de gente legal e ingredientes interessantes, mas não soube montar um bom trabalho. E quando o filme começa a ficar interessante, o sono já chegou e a vaca já foi pro brejo. Mas a Eva Green e o Asa Butterfield estão ótimos. A menina que voa é muito legal. Mas a verdade é que eu já vou ver Tim Burton com um pouco de má vontade. E olha que gostei dos dois anteriores. Ano: 2016.

SALA VERDE (Green Room)

Puxa, fazia um tempo que eu não via um filme tão tenso e tão "sangue nos zóio". Mas é melhor entrar nele sem saber nada da trama. O jovem e há pouco tempo falecido Anton Yelchin está sensacional. Na trama, uma banda de punk rock é forçada a lutar pela sobrevivência depois de testemunhar um assassinato em um bar neo-nazista. Direção: Jeremy Saulnier. Ano: 2015.

domingo, agosto 02, 2020

MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississipi Burning)

O primeiro Oscar a gente nunca esquece. Já tinha visto anteriormente trechos da premiação ao vivo ou em reprises, mas foi em 1989, o ano do início de minha cinefilia, que eu comecei a ver prestando atenção em todos os indicados, embora ainda cometesse o descaso de ter perdido no cinema alguns filmes das categorias principais. E MISSISSIPI EM CHAMAS (1988) foi um deles, que só vi quando saiu em VHS. Mas lembro que ele passou no Cine Diogo, enquanto RAIN MAN, de Barry Levinson, o vencedor daquele ano, passou no Cine São Luiz. UMA SECRETÁRIA DE FUTURO, de Mike Nichols, também foi exibido no São Luiz. LIGAÇÕES PERIGOSAS, de Stephen Frears, vi no Cine Fortaleza. E o mais "alternativo" e melhor dos cinco indicados, O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan, se não me engano passou no Cine Center Um. Não foi exatamente um ano tão bom para o Oscar, mas é o único ano que eu me lembro de cor todos os indicados.

Acabei revendo MISSISSIPI EM CHAMAS por ocasião da morte de seu diretor, Alan Parker, que deixou nosso plano na última sexta-feira, 31. E foi interessante constatar que muitos dos problemas sociais relatados no filme continuam muito presentes na sociedade americana, que durante a Era Obama talvez tenha ficado na surdina, não demonstrando de forma tão explícita o seu ódio e o seu preconceito contra os negros e também contra latinos, asiáticos etc. Pelo menos agora estamos vendo essas pessoas sem as suas máscaras, sem aquela fantasia de Halloween usada pelos membros da Ku Klux Klan.

Se fosse feito nos dias de hoje talvez MISSISSIPI EM CHAMAS desse mais protagonismo aos negros, mas eu diria que o resultado foi muito mais feliz do que eu lembrava, inclusive com cenas de destaque do elenco negro que vão bem além dos cultos e das passeatas de protesto. Há a cena de um agente do FBI negro que tem aquela conversa séria com o prefeito e que muda os rumos de tudo; e a há o posicionamento corajoso do menino que ousa falar com o agente vivido por Willem Dafoe, quando havia uma pressão imensa dos grupos racistas para que a comunidade negra não falasse nada para os forasteiros.

MISSISSIPI EM CHAMAS tem aquela coisa bem característica dos filmes de parcerias de policiais, que tratam de acentuar os contrastes entre os estilos de cada um. Aqui, temos um agente mais velho e mais cínico, vivido por Gene Hackman, um homem nascido no Mississipi, e que sabe como é a relação entre brancos e negros naquele lugar. Ele é também o agente que não tem tanto problema em fugir da cartilha para conseguir aquilo que julga necessário. Já o personagem de Willem Dafoe é um agente mais jovem, idealista e mais confiante em sua capacidade de mudar o mundo. Ele acredita que pode sim conseguir, através de meios legais, não apenas solucionar o caso dos três jovens desaparecidos, como fazer com que todos os responsáveis pagassem pelo que fizeram. Um meio termo acaba sendo necessário para a solução do caso.

Engraçado que eu percebi algo no filme que me fez lembrar da Velha Hollywood, dos filmes noir dos anos 1940 e 50, em especial no ato final, quando os agentes já estavam cercando os membros da Klan, inclusive os policiais. Destaque para a cena da barbearia, uma das mais memoráveis, e que mais traz à tona a força dramática de Gene Hackman, definitivamente um dos melhores atores a passar por Hollywood. As cenas em que seu personagem conversa com a mulher do policial, vivida por Frances McDormand, são também ótimas.

Quanto ao Oscar, das sete indicações que o filme recebeu, ganhou apenas a de melhor fotografia, realizada por Peter Bizou, que havia trabalhado com Parker em QUANDO AS METRALHADORAS COSPEM (1976) e PINK FLOYD - THE WALL (1982).

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SEBERG CONTRA TODOS (Seberg)

Este filme já me ganhou por pelo menos dois motivos: 1) adoro a Kristen Stewart; e 2) tenho muito interesse na história de Jean Seberg. Até pouco tempo atrás não sabia nada sobre ela que não fosse sua atuação em filmes do Godard e do Preminger. Agora sei sobre o mistério em torno de sua morte, as queimaduras durante as filmagens de SANTA JOANA, o envolvimento com os Panteras Negras, o quanto o governo americano quis destruir essa mulher. Não sei o quanto do filme foi fiel aos fatos, mas creio que o que foi mostrado deve ter sido pelo menos muito próximo do que aconteceu. E Kristen não tenta imitar Jean, o que é ótimo. Ela tem seu próprio brilho. Depois de cinebiografias sobre Grace Kelly, Marilyn Monroe e mais recentemente sobre Judy Garland, esta é a que melhor conseguiu não apenas captar o espírito da personagem e da época, como também funcionar como thriller, drama e estudo da personagem. Uma bela surpresa. E que linda que é a canção que a Nina Simone canta nos créditos, hein? Direção: Benedict Andrews. Ano: 2019.

O RETORNO DE BEN (Ben Is Back)

Filme-irmão de QUERIDO MENINO, de Felix van Groeningen, este O RETORNO DE BEN junta o drama com um pouco de suspense em seu terceiro ato. Achei bem comovente, final acertado e tudo, e há uma cena linda demais, a cena da igreja. Mais uma ótima composição de Julia Roberts e também do jovem Lucas Hedges, que tem se arriscado em alguns papéis de garoto fora dos trilhos. Direção: Peter Hedges. Ano: 2018.

O CÍRCULO (The Circle)

Sempre bom ver a Emma Watson e o filme não chega a ser chato em nenhum momento, mas a gente percebe que é uma adaptação corrida de um livro, que muita coisa fica faltando explicar ou explorar de maneira mais interessante. Acaba sendo uma espécie de versão light de um episódio de BLACK MIRROR. Não deixa de ter o seu interesse. Direção: James Ponsoldt. Ano: 2017.

sexta-feira, julho 31, 2020

OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (Hangmen Also Die)

Segundo filme anti-nazista de Fritz Lang, OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943) foi realizado no calor do momento, quando a Segunda Guerra Mundial estava explodindo na Europa e no Pacífico. Ao contrário de seu trabalho anterior, O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), que tinha uma cara de produção hollywoodiana, OS CARRASCOS...tem uma aproximação maior com o clima dos primeiros filmes falados de Lang na Alemanha, M - O VAMPIRO DE DUSSELDÖRF (1931) e O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), inclusive pela utilização de pouca música.

Isso acaba por afastar o filme do melodrama e aproximá-lo de um realismo histórico, de uma vontade de torná-lo o mais urgente possível. A própria ideia do filme nasceu de uma notícia real: a do assassinato do odiado carrasco Reinhard Heydrich, o "Reichsprotektor" da Tchecoslováquia. O sujeito foi um dos arquitetos do holocausto e foi uma vitória e tanto da resistência ter conseguido executá-lo em uma missão muito perigosa. A alegria pela morte dele é bastante sentida na cena do cinema, quando um sujeito entra na sala escura e passa a informação para outro, que passa para outro etc. E depois eles começam a bater palma no meio da sessão.

Lang faz mais uma vez um filme sem se importar com protagonistas. Há vários personagens e a trama parece ser árida, mas o cineasta tem a habilidade de fazer a narrativa tão empolgante, e também de nos deixar indignados com os atos terríveis dos nazistas, que as mais de duas horas passam rapidamente. Os personagens que mais se aproximam de serem os protagonistas são o médico que mata o carrasco, vivido por Brian Donvely; a moça que o abriga e que o livra da Gestapo, vivida por Anna Lee; e o professor que é pai dela (Walter Brennan).

Além deles há vários outros personagens, tanto do lado da Tchecoslováquia, como do lado dos alemães. Há pelo menos três personagens nazistas de destaque. E um traidor da resistência infiltrado no submundo, que passa a ser mais odioso que os próprios nazistas e se transforma no grande vilão, por sua covardia, por mais se comparar a um verme do que a um homem.

Mais uma vez, Lang prefere não mostrar a violência física, mas acredito que aqui ele consegue nos deixar bastante desconfortáveis, principalmente em uma cena em que um oficial nazista maltrata uma senhora (que claramente já foi torturada), mandando-a apanhar um pedaço da cadeira que cai com frequência. Suas costas doem e é possível estar um pouco nos sapatos daquela mulher, que segue bravamente não entregando nomes da resistência.

Sim, trata-se de um filme que enaltece a coragem dos inimigos dos nazistas, não apenas da Tchecoslováquia, mas, como a história se passa toda em Praga, eles são os que recebem os holofotes. A beleza da união é tanta que até mesmo uma mentira se torna um objeto de nobreza. No caso, a mentira é para tornar culpado o traidor da resistência e, consequentemente, tirar da prisão os vários reféns que já estavam sendo executados em um curto período de tempo.

O roteiro é de simples compreensão para uma história de espionagem e com tantos personagens. Mas vejo isso como um mérito de Lang. Tornar didático era necessário em tempos tão urgentes e tão desesperadores, como foram esses anos da Segunda Guerra Mundial. E como havia a liberdade de tratar do assunto em Hollywood, não havia sentido fazer filmes cifrados ou de tramas mais complexas.

OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM entrou em cartaz depois de duas quase realizações de Lang na Fox. Nas duas ocasiões, as produções foram assumidas por Archie Mayo. Na primeira, Lang entrou com um atestado de oito dias por causa de uma crise de vesícula. Na outra, houve problemas com o protagonista francês (Jean Gabin), que namorava Marlene Dietrich, que também já teve um caso com Lang.

A ideia do filme surgiu de uma conversa de Lang com o dramaturgo Bertold Brecht, que começou a escrever o roteiro junto com o cineasta e com outro roteirista, que falava tanto inglês quanto alemão, John Wexley, que queria que todos os créditos do roteiro fossem para ele. No fim, por conta de desentendimentos entre os três, Brecht voltou para a Europa e saiu um tanto chateado com o ocorrido. Uma das cenas que Brecht achava de mau gosto era a do líder da resistência estar escondido ferido detrás de uma cortina, enquanto um oficial nazista faz a busca em um apartamento. Ele tinha lá suas razões, mas a cena é eficiente.

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ÉDEN

O filme me atraiu mais pelo trio de atores (Júlio Andrade, Leandra Leal, João Miguel). Já fazia um tempo que queria ver e aí apareceu essa versão em HD. Me incomodou um pouco o jeito exageradamente caricato com que pintou os pentecostais. E tirando uma cena que mostra justamente um momento de beleza dentro da igreja, os demais me pareceram muito cínicos. E ainda tem aquele arrastar do filme para que dure mais de uma hora. E no final ainda não emocionar nada. Mas gostei de ter visto. Direção: Bruno Safadi. Ano: 2013.

O QUARTO DOS ESQUECIDOS (The Disappointments Room)

Meu Deus do Céu! Que filme ruim! A gente já sabe que está vendo um lixo logo no começo e torce para que os minutos seguintes passem logo. Não que seja uma tortura, mas é um troço que eu não recomendo pra ninguém. Direção: D.J. Caruso. Ano: 2016.

A COMUNIDADE (Kollektivet)

A condução da narrativa é boa, mas parece sempre estar faltando alguma coisa. O drama dos personagens é falho, exceto talvez pela filha adolescente do casal principal. Gosto da reconstituição de época, da trilha e de alguns momentos pontuais, mas Thomas Vinterberg parece querer recuperar o seu grande momento em FESTA DE FAMÍLIA (1998) e mais uma vez não consegue. Dá pra ver com interesse. Ano: 2016.

quarta-feira, julho 29, 2020

A PORTUGUESA

De vez em quando assisto algo que sinto tanta dificuldade de explicar em palavras que simplesmente travo. Por mais que tentasse escrever um texto através de recursos mais impressionistas, a dúvida sobre quem é a artista que fez aquilo que eu acabara de ver seguiu presente. Foi o caso de A PORTUGUESA (2018), de Rita Azevedo Gomes, dessas obras tão plasticamente bonitas que logo nos faz lembrar da falta da telona. Foi uma obra feita para ser vista na tela grande do cinema, inclusive pela pouca utilização de close-ups e pelo detalhismo em cada elemento colocado em cena, sejam coisas, pessoas ou animais.

O que andam dizendo por aí, de que o filme é como uma pintura em movimento, faz sim muito sentido. Inclusive, eu diria que A PORTUGUESA está muito mais próximo da pintura do que das irmãs mais próximas do cinema, como o teatro e a literatura. As cores importam, seja o vermelho do cabelo da protagonista, a portuguesa cujo nome nunca é dito, sejam as cores das paredes ou da própria natureza, ora o verde vicejante das folhas, ora o branco da cena em que a portuguesa e uma amiga conversam e começa a nevar.

O clima de sonho está presente na essência do filme, e muito disso talvez se deva ao próprio universo criado pela protagonista quando da ausência do marido, que passa anos guerreando e volta para casa principalmente quando está ferido. Ele mesmo explicita que sua relação com a guerra é muito longa e mais apaixonante do que com a própria esposa, a quem conhece há menos tempo.

O que pode incomodar um pouco na experiência do filme de Rita Azevedo Gomes talvez seja justamente porque a telinha não dá conta de tanta beleza, de tanta densidade, de tanto detalhismo durante mais de duas horas de duração. Além do mais, não temos aqui uma narrativa convencional, não há uma pressa em contar uma história. Por vezes, pouco importa se há uma história. As imagens importam muito mais. A direção de fotografia está a cargo do mestre Acácio de Almeida, que tem um currículo muito extenso desde a década de 1960. Algumas obras mais recentes cuja fotografia ele dirigiu e que se destacam são COLO, de Teresa Villaverde, e RAIVA, de Sérgio Tréfaut, além de colaborações com a própria Rita Azevedo Gomes.

Na trama, Clara Riedenstein (“John From”) vive a portuguesa do título, uma mulher de beleza pré-rafaelita e ar independente para a época, que se casa com Herren von Ketten (Marcello Urgeghe), austríaco que, durante a Era Moderna, luta contra o Episcopado de Trento. Baseada num conto de Robert Musil, publicado em 1924, a história se passa principalmente no Norte da Itália, onde fica o castelo que a portuguesa transforma em lar durante a ausência do marido. Mas não há muita clareza sobre o período histórico, situado entre os séculos 16 e 17, quando a geografia da Europa ainda era muito diferente, o que parece deliberado porque a diretora embaraça a cronologia com referências anacrônicas de música e literatura.

Mas isso não chega a ser tão importante. A principal pergunta que eu faço, na verdade, é: quem é Rita Azevedo Gomes? Venho notado a maior observação do trabalho desta diretora por parte de certo círculo de críticos mais estudiosos. Sérgio Alpendre, por exemplo, a colocou entre as mais importantes cineastas da década. Em sua lista de 20 favoritos dos anos 2010, há uma predominância de filmes portugueses, sendo dois de Azevedo Gomes: A VINGANÇA DE UMA MULHER (2012), em primeira posição, e este A PORTUGUESA, em vigésima.

Quanto às comparações que têm sido feitas da cineasta com Manoel de Oliveira, talvez esteja mais em alguma semelhança com o uso de planos-sequência longos e diálogos mais lentos. Mas isso não é exclusividade de Oliveira. De todo modo, Gomes chegou a trabalhar com o diretor centenário em FRANCISCA (1981), como figurinista. Nota-se, assim, que a aproximação da cineasta com o cuidado com a imagem, seja de roupas ou de qualquer elemento de cena, já remonta de algum tempo. Sobre a pergunta sobre quem é a cineasta, melhor deixar para ir respondendo à medida que for conhecendo melhor sua obra.

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TRÊS IRMÃOS

Acho que nunca tinha visto um filme português que representasse tão bem a tristeza profunda do espírito lusitano, tão bem notado na poesia e na música, o fado. Talvez o mais próximo disso tenha sido num dos filmes mais recentes de Teresa Villaverde, COLO (2017), que além de tudo tem um trabalho com as cores maravilhoso. Ver este aqui, numa cópia mais ou menos ruim, em vhsrip, diminui um bocado do impacto das cores, mas as emoções, o fato de os personagens (também uma família pobre e à deriva) serem tão tristes, desesperançados e cheios de desespero até combinam com uma imagem mais escura. Quero ver mais filmes da Teresa Villaverde, mas antes preciso me recuperar deste aqui. Ano: 1994.

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast)

Pra quem estava morrendo de preguiça de ver o filme e quis logo ver para "se livrar logo", até que lá pelo meio A BELA E A FERA me conquistou. Principalmente quando começa a parte da relação entre os dois no castelo. No mais, é um dos filmes mais cafonas da Disney, mas também mais ousados em tratar a questão do empoderamento feminino e da homossexualidade. Emma Watson contribui para trazer interesse para o filme. Encantadora. Direção: Bill Condon. Ano: 2017.

ESPERANDO ACORDADA (Les Chaises Musicales)

Trata-se de uma comédia romântica sem muita força, mas Isabelle Carré é uma graça e o filme é simpático e leve. Na trama, a atriz é uma violinista amadora que ganha a vida tocando em festas de aniversário de crianças e em lares para idosos. A caminho de um evento para o qual foi contratada, ela se perde, e, ao pedir ajuda, ela acidentalmente provoca um acidente e foge. No dia seguinte ela descobre que o homem está no hospital, em coma. Direção: Marie Belhomme. Ano: 2015.

segunda-feira, julho 27, 2020

A MULHER INFAME (Uwasa no Onna)

Da lista de cineastas homens que melhor conseguiram traduzir o sentimento feminino, ou pelo menos se solidarizaram a ponto de fazer do sentimento da mulher um dos principais aspectos de seu corpo de trabalho, se destaca o mestre japonês Kenji Mizoguchi. Muito de sua filmografia é profundamente interessada na vida e no drama de mulheres que foram vitimizadas pela sociedade e/ou pela pressão de seu tempo.

Há toda uma questão biográfica que justifica isso: o jovem Mizoguchi era terrivelmente contra o modo como seu pai tratava sua mãe e sua irmã. Além do mais, há o fato de que, por causa de problemas financeiros, seu pai vendeu a própria filha, irmã mais velha de Mizoguchi, para se tornar gueixa. Assim, sua obra costuma ser vista como uma espécie de tratado contra a sociedade machista. Claro que isso não é motivo suficiente para validar e tornar a sua obra uma das mais importantes. Há também questões formais de seu cinema as quais não me sinto muito apto para falar aqui, mas que corroboram sua imagem hoje inegável de ser um dos maiores cineastas do Japão de todos os tempos. Se não o maior.

Vi pouco mais do que meia dúzia de filmes de Mizoguchi, o que ainda é muito pouco. Mas digo com certeza que ele foi um dos diretores, junto com Yasujiro Ozu, que fez eu me apaixonar pelo cinema japonês clássico, já que até hoje ainda tenho uma certa resistência a gostar de verdade dos filmes de Akira Kurosawa. Mas isso é um problema que preciso resolver no futuro. Falemos, então, de um dos títulos de Mizoguchi que vi recentemente, A MULHER INFAME (1954), realizado entre duas obras-primas do diretor: O INTENDENTE SANCHO (1954) e OS AMANTES CRUCIFICADOS (1954). Reparem que os três filmes foram lançados no mesmo ano, o que é absolutamente admirável.

Em A MULHER INFAME, acompanhamos o drama da jovem interpretada por Yoshiko Kuga que é filha da dona de um bordel. Ela tenta suicídio depois que seu noivo descobre a profissão de sua mãe, que é algo de que a garota tem muita vergonha, por mais que o estabelecimento seja um dos mais respeitáveis do ramo na cidade. A mãe dela (Kinuyo Tanaka) mantém um caso secreto com o médico do bordel, um homem mais jovem do que ela vivido por Tomoemon Otani. A mãe, inclusive, tem o sonho de se casar com o médico e vender o seu negócio, a fim de começar uma nova vida.

Não sabendo do envolvimento da mãe com o médico, a jovem, a partir do momento em que passa a ser tratada por ele após a tentativa de suicídio, começa a gostar do rapaz. E ele também fica muito mais interessado nela, também por ser mais jovem e mais bonita que a mãe. Os dois passam a fazer planos, irem embora para Tóquio, onde ele montaria um consultório. Uma hora a mãe descobre e sente uma dor imensa na alma.

Mizoguchi, ao invés de fazer um filme sobre a rivalidade entre mãe e filha, percebe o modo bem pouco honesto do rapaz e apresenta gestos lindos das duas mulheres. Esse interesse pela psicologia da mulher, pelo seu sofrimento, pelo seu universo, se mostra muito feliz nesta obra que se passa na contemporaneidade, com uma imagem de uma mulher mais independente, ainda que a própria sociedade japonesa até hoje seja extremamente tradicionalista nesse sentido.

Em A MULHER INFAME, mais uma vez, Mizoguchi usa o melodrama para mostrar auto-sacrifícios românticos das suas personagens femininas. E se não é um de seus grandes filmes, é justamente porque ele foi tão alto em suas obras-primas, que alguns de seus outros títulos acabam ficando um pouco abaixo do cume que ele alcançou. Mas só um pouco.

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BRUMAS (Moontide)

Segundo filme da Fox que Fritz Lang inicia as produções mas que algo dá errado e ele é substituído novamente por Archie Mayo. Aqui, ao que parece, o problema teve a ver com Marlene Dietrich, que teve relações tanto com Jean Gabin quanto ele. É um filme um bocado estranho, e é justamente da estranheza que vem sua singularidade. Foi o primeiro papel de Gabin em Hollywood, saído da França por causa da guerra. Grande astro lá, mas totalmente desconhecido nos Estados Unidos, a produtora teve que fazer um jogo de marketing bem engenhoso para vendê-lo como o novo astro a despontar. Mas ele não durou muito lá. Uma das melhores coisas do filme é Ida Lupino, no papel da jovem deprimida e suicida que é salva da morte pelo francês com modo de vida cigano. Os dois, de espírito quebrado, se apaixonam. Mas há uma trama de um assassinato misterioso no meio. Construído em estúdio, o filme tem um ar artificial interessante e umas coisas meio WTF. Como era de se esperar, o filme seguinte de Lang não seria mais com a Fox. Ano: 1942.

BELEZA OCULTA (Collateral Beauty)

Não achei tão feio quanto pintaram. Tem o Will Smith de novo fazendo a mesma cara chorosa, mas o drama não é só dele, há também os de seus colegas. O bom elenco também compensa um pouco as falhas. Gostei muito da Naomie Harris, atriz cujo trabalho ainda conheço muito pouco. Direção: David Frankel. Ano: 2016.

O AMOR DE CATARINA

É um filme melhor do que eu esperava. O diretor se mostra amador também no sentido de mostrar o amor pelo cinema, em pequenas coisas, como em cenas de AURORA, de Buster Keaton, do nome de Gus Van Sant, em cartazes de filmes de terror no quarto da filha da protagonista.. Que é meio uma Macabeia repaginada. Mas muita coisa ficou apenas nas intenções. Ainda assim, não deixa de ser um filme estranho e por isso até que bem-vindo dentro das produções brasileiras exibidas nos cinemas de shopping. Direção: Gil Baroni. Ano: 2016.

domingo, julho 26, 2020

VIDA DE MENINA

Quando estive no primeiro ano da faculdade, fiquei encantado com uma das tantas aulas maravilhosas de Literatura Portuguesa da Professora Moema. Em uma dessas aulas, ela comentou sobre D. Sebastião e sobre o quanto o comportamento suicida do rei foi terrível para a História de Portugal, que seria tomado pelos espanhóis. O país desceria do pedestal e entraria numa era sombria que duraria décadas. Nessa época, o chamado Barroco português, apareceria uma obra um tanto estranha, composta apenas de cinco cartas intensamente apaixonadas de uma freira rejeitada por um oficial do exército, as Cartas Portuguesas, de Sóror Mariana Alcoforado. Segundo a professora, trata-se da melhor produção literária portuguesa desse momento sombrio do país.

E eis que, no Brasil, também temos algo incomum na história de nossa literatura: os escritos em um diário de Alice Dayrell Caldeira, quando adolescente, do final do século XIX, que foram publicados sob o pseudônimo Helena Morley, quando a autora já tinha 62 anos de idade, em 1942. A obra depois de lançada fez sucesso e chegou a ser cobrada em vestibular em algumas universidades. Ou seja, é um exemplo de arte feita sem a intenção de ser arte. O diário de Alice/Helena, de nome Minha Vida de Menina, é também um documento fantástico de uma época, ainda que seja muito rico em tratar de questões afetivas da menina com sua família (sua avó, seu pai, sua mãe, sua irmãzinha etc.).

VIDA DE MENINA (2004), por sua vez, é a incrível adaptação feita por uma outra Helena, a cineasta Helena Solberg, que na história do cinema brasileiro hoje costuma ser colocada como uma das representantes do Cinema Novo. Seu curta A ENTREVISTA (1966) ficou em 9º lugar no ranking de melhores curtas-metragens em votação recente pela Abraccine. É inegável a força de seu trabalho, mas é também inegável o quanto sua filmografia acaba sendo, muito provavelmente por causa de um machismo entranhado na sociedade, apagada ou tornada quase invisível para um público maior.

O caso de VIDA DE MENINA é admirável, já que eu, que me autodenomino cinéfilo, só conheci a obra neste ano. Mais exatamente ontem. Mesmo sendo um filme ganhador de vários Kikitos em Gramado, que eu me lembre, não chegou a estrear em minha cidade. Fiquei encantado com o grau de sensibilidade que o filme possui, o quanto é capaz de nos emocionar. Apesar de ser uma produção modesta, como geralmente são as produções brasileiras, mesmo as "de época", há aqui todo um cuidado artesanal no modo como é feita a reconstituição daquele período. O filme nos leva para as Minas Gerais do final do século XIX, um outro mundo, ainda que com muitas semelhanças com o Brasil de hoje, um Brasil que tenta disfarçar seu racismo, por exemplo.

Como um filme cuja voz é de uma menina/mulher, é importante ter uma cineasta mulher e também uma roteirista mulher (Elena Soarez) para contar essa história. Uma história composta quase que por "esquetes", já que o que vemos são situações marcantes retiradas do diário, que conseguem, no filme, encontrar uma coesão admirável, mesmo quando a menina Helena começa a costurar a sua história também com lembranças de quando era mais nova.

Trata-se de um filme que valoriza o amor pela leitura e pela escrita, que surgiu de um incentivo de um professor. Curiosamente, eu vi o filme no mesmo dia em que li, pela primeira vez, o conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, que é uma ode ao prazer da leitura. VIDA DE MENINA é, entre outras coisas, uma ode à escrita, e isso também muito me encanta.

A atriz Ludmila Dayer, a jovem que interpreta Helena, já tinha cerca de 20 anos quando fez esse papel tão desafiador. Ela vinha basicamente de trabalhos para a televisão. Muitos lembram dela de vários episódios de MALHAÇÃO, a série juvenil da Rede Globo. O trabalho de penteado e figurino, e também sua interpretação, são bons o suficiente para o convencimento do papel. Além do mais, a personagem é fascinante, no quanto é questionadora. Helena faz questionamentos sobre o papel do homem na Terra, a vida após a morte, o porquê de Deus permitir haver tanta desigualdade social, e até o darwinismo.

E o filme ainda tem o mérito de nos levar ao bucolismo dos riachos, às ruas cheias de subidas e descidas de Diamantina, às casinhas humildes, aos animais (cabras, galinhas, bois), às famílias de brancos convivendo com negros recém-saídos da escravidão, pelo menos oficialmente. E principalmente de ter um olhar estritamente feminino. Os homens têm menor tempo na história, ainda que alguns deles (o pai, o tio, o primo, o professor, o padre) desempenhem papéis de importância. Nota-se uma sociedade ainda muito dividida entre os dois sexos no cotidiano.

Acima de tudo, porém, o filme lida com sentimentos. E foi nisso que ele me pegou de jeito. Principalmente com a relação de Helena com a avó, por quem nutre um profundo amor. Ela é a neta preferida da avó também, mesmo sendo uma menina tida como mal-criada. Também emociona o modo como sua família, bem mais pobre e de vida mais difícil do que a de seus primos, abastados, tenta sobreviver às dificuldades. Uma coisa aparentemente simples, como o tecido para a farda da escola, então, se torna motivo de briga em casa. E o filme conseguiu, meio que sem querer, me deixar enredado nessa teia de afetos, a ponto de, em certo momento da trama, eu não conseguir segurar o choro. E é tudo feito com muito cuidado, sem arroubos melodramáticos, sem pesar a mão, nada disso. Por isso merece ser visto, revisto e descoberto como uma das obras mais importantes de nossa cinematografia.

Agradecimentos à amiga Paula, que viu o filme comigo, simultaneamente, em uma outra cidade. Por ser de família mineira, ela sentiu bastante familiaridade com os costumes, com a geografia etc. E também recomendo a leitura da entrevista que o amigo Adilson Marcelino fez com a diretora Helena Solberg para o seu incrível site Mulheres do Cinema Brasileiro.

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LUA EM SAGITÁRIO

O filme até começa bem, quando mostra a relação entre o casal e o dono de um estabelecimento fã devotado do rock. O rock banha o filme com a sua força enquanto pode, mas aí quando tentam criar um road movie, a coisa desanda. Direção: Marcia Paraíso. Ano: 2016.

JONAS

Nem imaginei que veria este filme no cinema, mas o amigo Luiz comentou que ia passar em uma pequena mostra lá no São Luiz. Como não devia estrear em circuito comercial, era a chance de ver mesmo. É um bom filme, com alguns problemas, mas que me agradou, principalmente pelo casal Jesuíta Barbosa e Laura Neiva. Jesuíta estava lá e discursou brevemente sobre o apoio às ocupações nas escolas e sobre o momento delicado que o país está vivendo. Direção: Lô Politi. Ano: 2015.

EXILADOS DO VULCÃO

A gente até se esforça pra gostar do filme e entrar na viagem sensorial, principalmente quando desistimos de tentar ligar os pontos de uma história, mas na maioria das vezes é tudo muito aborrecido e arrastado. Mas há, sem dúvida, momentos bem bonitos, plasticamente. Direção: Paula Gaitán. Ano: 2013.

sábado, julho 25, 2020

UM LUGAR AO SOL (A Place in the Sun)

Embora eu seja fã da Nova Hollywood, surgida junto com a contracultura na segunda metade dos anos 1960, ainda acredito que o auge do cinema americano aconteceu na década anterior. UM LUGAR AO SOL (1951), de George Stevens, é um exemplar desse cinema espetacular, que alia tanto as intenções de lidar com a questão da luta de classes quanto a tragédia aplicada a uma dramática história de amor de alta intensidade.

Vi este filme pela primeira vez em um Corujão da Rede Globo na aurora da minha cinefilia e fiquei especialmente impressionado, na época. Na semana passada, marquei de revê-lo, simultaneamente, com uma amiga, a Paula, que nunca tinha visto. Foi uma experiência bem interessante, uma maneira de fazer uma espécie de sessão de cinema em tempos de pandemia. De vez em quando comentávamos algumas cenas pelo messenger. E o filme segue sendo impactante.

Montgomery Clift, famoso por ter vários problemas de saúde, de alcoolismo e por sofrer ao ter que esconder sua homossexualidade, é o ator perfeito para interpretar George Eastman, esse homem pobre e fraco, covarde até, que se apaixona por uma moça da alta sociedade, a exuberante Angela Vickers, interpretada por uma Elizabeth Taylor em estado de graça. George deixa a cidadezinha onde morava para tentar a sorte na empresa de seu tio rico. No começo, sua presença é vista pelos familiares como um incômodo, e ele é colocado para trabalhar em uma seção bem pouco nobre da empresa. E embora seja proibido ter relacionamentos com colegas de trabalho, ele logo passa a namorar uma moça de sua seção, Alice, vivida por Shelley Winters.

O filme acompanha George em sua busca por encontrar alegria naquele novo mundo. Em determinado momento, enquanto caminha com Alice, ele vê um grupo de evangélicos pregando nas ruas. Mais tarde, veremos que havia ali uma identificação com o seu passado, com sua família, em especial, sua mãe. Agora ele vive uma outra vida. E tenta aproveitá-la ao máximo. Após uma saída com Alice, ele dorme com ela e a engravida. A notícia da gravidez surge justamente depois que ele conhece Angela na casa do tio. Angela não apenas se interessa por ele, como também se apaixona pelo rapaz. George, porém, não tem coragem de contar a verdade para nenhuma das duas mulheres e fica se afundando cada vez mais nas mentiras.

Não cheguei a julgar o comportamento de George, e talvez tenha me faltado empatia para perceber o drama da pobre Alice, que de repente se tornou um empecilho. Tanto que surge, na mente de George, o absurdo de simular um acidente com a namorada, a fim de se livrar dela e ser feliz com Angela. É algo horrível de se pensar e ele sabe disso. Por isso fica tão perturbado, tão dividido, tão dilacerado.

Quanto à felicidade, acredito que ele nunca tenha experimentado de fato, principalmente depois que soube da gravidez de Alice. Talvez o único momento realmente feliz de George tenha sido na festa na casa do tio, quando, como num sonho, Angela o aborda, puxa conversa com ele, demonstra interesse. Ela se sente atraída pelo ar de mistério daquele rapaz que joga sinuca sozinho. Mas o sorriso de George é sempre triste, mesmo quando tem a certeza do amor de Angela e está com ela em uma casa no lago. Sua vontade é de fuga da vida real, de abraçar a doce ilusão.

O filme se encaminha para a tragédia na cena do barco com Alice, que faz lembrar cenas similares de outras duas obras-primas, AURORA, de F.W. Murnau, e AMAR FOI MINHA RUÍNA, de John M. Stahl, ainda que distante do romantismo do primeiro e da perversidade do segundo. No último ato, com fotografia em tom de film noir, quando George vai ao tribunal acusado de assassinar Alice, nem ele mesmo sabe o quanto de culpa tem. O veredito, por mais cruel que seja, funciona como uma espécie de purgação de seus pecados, um meio extremamente duro de finalmente livrá-lo do tormento da vida dividida pela mentira. E a visita de Angela ao final... Que cena!

UM LUGAR AO SOL foi vencedor de seis Oscar: direção, roteiro, fotografia em preto e branco, figurino em preto e branco (da Edith Head) e trilha sonora. Tornou-se famoso pela afirmação de Charles Chaplin, de que seria o melhor filme que vira na vida. Representa o triunfo do cinema clássico americano. O filme foi a segunda adaptação do romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. A primeira versão, que levou o mesmo nome do romance, foi dirigida em 1931, por Josef von Sternberg.

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HERÓIS OU VILÕES (Wisdom)

Meu interesse por este filme estava principalmente em Demi Moore. De vez em quando vejo ou revejo algum filme com ela só para apreciar sua beleza e sua voz rouca. Quis o destino que eu visse este primeiro trabalho na direção de Emilio Estevez. A trama e os personagens me parecem um tanto ingênuos, assim como a polícia parece um tanto burra. Mas é um exemplar de um modo de pensar americano, seja pela tradição em glorificar foras-da-lei, seja porque havia mesmo, naqueles Estados Unidos da era Reagan, um sentimento de inconformismo e insatisfação com os rumos da economia e da sociedade. E aí temos um personagem que sai queimando arquivos de hipoteca nos bancos, em vez de roubar dinheiro. Parece um tanto idiota, mas depois o filme vai ganhando o prazer da liberdade, ainda que se saiba que a liberdade do casal seja fadada a um fim nada legal. Ano: 1986.

REVELAÇÃO (Disclosure)

Como formato de documentário, é bem quadrado e convencional, mas não é isso que importa. É interessante que o formato de depoimentos + imagens de arquivos, sendo muitas dessas imagens cenas de filmes, seja usado como um meio de nos aproximar dessas personagens reais e que às vezes nos parecem distantes. E é importante que algo venha trazer com muita clareza o que está errado na sociedade quando ela não tem a menor noção de empatia com esses seres humanos. O exemplo mais clássico é o de TRAÍDOS PELO DESEJO, quando o sujeito vomita depois de descobrir que a mulher tem um pênis. E isso acaba sendo replicado em outros filmes, inclusive comédias. E isso sem pensar em como essas pessoas se sentiam com isso. Alguns dos nomes mais importantes presentes no documentário: Jen Richards (HER STORY), Laverne Cox (ORANGE IS THE NEW BLACK), Zachary Drucler (TRANSPARENT), a lindíssima Trace Lysette (também de TRANSPARENT) e Lilly Wachowsky, que dispensa apresentações. É um filme que deveria ser mostrado em escolas. Direção: Sam Feder. Ano: 2020.

MAIS FORTE QUE BOMBAS (Louder than Bombs)

Que beleza de filme e de construção de climas e personagens. Foi muito melhor do que eu imaginava. E se o tal OSLO, 31 DE AGOSTO (2011) é melhor mesmo do que este, como dizem, então deve ser uma pequena obra-prima. O elenco é estupendo. Destaque para Isabelle Huppert, claro. Direção: Joachim Trier. Ano: 2016.

sexta-feira, julho 24, 2020

OS MORTOS NÃO MORREM (The Dead Don't Die)

Que Jim Jarmusch é um cineasta querido em Hollywood desde seu surgimento na década de 1980, disso não resta dúvida. E é interessante que, mesmo trabalhando com orçamentos modestos, ele consegue trazer um time de astros brilhante. No caso de OS MORTOS NÃO MORREM (2019), o cartaz do filme até destaca como chamariz principal essa riqueza no elenco, especialmente para um filme de zumbis. Além de Bill Murray, Adam Driver e Chloë Sevigny, que são os protagonistas, o novo longa ainda conta com Tilda Swinton, Steve Buscemi, Danny Glover, Rosie Perez, Iggy Pop, Sara Driver, RZA, Selena Gomez, Tom Waits, entre outros.

Depois de brincar com o gênero "filme de vampiros" no muito mais sério AMANTES ETERNOS (2013), eis que agora ele usa o registro da comédia para fazer o seu filme de zumbis. Trata-se de uma opção feliz, já que é um subgênero que está um tanto desgastado por ser tão utilizado no cinema, na televisão, na literatura, nos quadrinhos, nos games e em outras fontes. Ou seja, a opção por tratar a situação dos zumbis com ironia e usar até um divertido jogo metalinguístico (só o personagem de Adam Driver percebe que está dentro de um filme; ele sabe até a canção-tema) contribui para tornar OS MORTOS NÃO MORREM uma diversão também para quem percebe as referências.

A primeira metade é melhor resolvida do que a segunda, que é a que traz de maneira mais explícita a invasão dos zumbis. Na primeira parte, há um clima de estranheza que é encantador. Os personagens percebem que já são oito da noite e o sol ainda não se pôs; os noticiários falam de uma mudança no eixo da Terra. Até os animais desaparecem. E os mortos surgem, como zumbis. Mas até aparecerem, o filme brinca muito com a lentidão e a tranquilidade de seus personagens principais, típicos exemplares de caipiras americanos, cada um à sua maneira. Exceto a personagem de Tilda Swinton, que anda com uma espada samurai e é naturalmente muito mais estranha do que todos daquela cidade.

O modo como Jarmusch apresenta seus personagens é outro ponto muito positivo. Assim, vamos conhecendo o ermitão (Tom Waits), o racista (Steve Buscemi), o homem negro tranquilo (Danny Glover), a policial que vomita quando vê sangue (Chloë Sevigny), a turista bonita que chega com uma turma de amigos (Selena Gomez) etc. Então, com a apresentação desses tipos, o jogo está pronto para ser jogado com a invasão dos mortos-vivos, inicialmente de maneira muito discreta.

Uma pena que, uma vez que os zumbis surgem, o diretor não sabe muito bem o que fazer, e toda a linda estranheza poética da primeira parte acaba sendo prejudicada por um filme à deriva. Ainda assim, como se trata de uma comédia, não é preciso levar a sério os dramas dos personagens. Mas, por mais que Jarmusch seja um cineasta que goste de brincar com o humor em sua obra, alguns de seus trabalhos que lidaram com a poesia e com a melancolia, como FLORES PARTIDAS (2005) e PATERSON (2016), fora muito mais bem-sucedidos. Nesse sentido, é preferível, como comédia de zumbis, ZUMBILÂNDIA - ATIRE DUAS VEZES, de Ruben Fleischer, que também conta com Murray e é muito mais divertido. Mas, claro: são propostas distintas.

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RELIC

Um estudo da decadência do corpo e da mente humanas, da solidão e dos laços familiares. Isso tudo em um registro de terror. A estreante em longas-metragens Natalie Erika James consegue fugir da vulgaridade dos clichês do gênero, na maior parte do tempo, embora não consiga se livrar totalmente das influências do horror recente. O resultado, se não é excelente, traz sensações estranhas bem-vindas, como o momento em que a personagem de Robyn Nevin se perde literalmente dentro da casa. E tem a casa antiga, como um elemento acumulado das mais diversas energias. Principalmente de natureza mais pesada. Questões como a da maternidade também vêm à tona fortemente e é bom ver esse tipo de filme, com um elenco principal todo composto por mulheres. Só senti falta de momentos realmente apavorantes. Quanto a isso, achei o filme um tanto frio. Direção: Natalie Erika James. Ano: 2020.

VIDA (Life)

Embora não seja ruim, este VIDA acaba não passando de uma versão frouxa e sem graça de ALIEN, O 8º PASSAGEIRO (1979). Nem há a intenção de esconder a inspiração, mas nem é esse o problema. Quando o bichinho começa a atacar, o filme cresce, mas o diretor parece que não consegue manter o interesse depois de um tempo. Ao menos é um filme que parece saber rir de si mesmo. Ou não. Direção: Daniel Espinosa. Ano: 2017.

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A Monster Calls)

Este me deu sono. Eu já sou chato com filmes de fantasia, então, o grau de melodrama que ele traz não foi o suficiente para me emocionar. Ao contrário, fiquei bastante incomodado. Sem falar que as lições de moral do monstro são muito mastigadas. O menino não aprende por si mesmo. Achei interessante a primeira história do monstro. Mas só como narrativa e como desconstrutor de modelos de contos de fadas. Depois o filme fica bem frágil. Direção: J.A. Bayona. Ano: 2016.

quinta-feira, julho 23, 2020

CORAÇÕES EM LUTA (Vier um die Frau)

Assim como aconteceu quando parei para assistir a DEPOIS DA TEMPESTADE (1920), o outro dos filmes de Fritz Lang perdido e encontrado na Cinemateca Brasileira em 1986, a tarefa de ver CORAÇÕES EM LUTA (1921) não foi das mais fáceis. Voltei o filme depois dos quinze minutos iniciais por duas vezes para procurar entender a trama. O fato de esta cópia, em particular, não ter sequer uma música de acompanhamento torna a experiência um pouco mais desafiadora. Há a curiosidade de ser a cópia brasileira, com intertítulos em português. Aliás, é curioso como se havia o trabalho até mesmo de fotografar bilhetes e cartões de apresentações escritos em português para anexar no filme original.

É um filme que passa a impressão de ser mais direcionado a públicos mais ricos, tanto pela identificação com personagens com jeitos aristocráticos, quanto pela trama, que precisa ser apreciada com muita atenção para uma melhor compreensão. O filme anterior de Lang já era um tanto confuso, mas se culpava a falta de rolos perdidos no processo. Esse talvez não tenha tanta metragem perdida, mas ainda assim tem uma trama intricada envolvendo uma mulher e quatro pretendentes.

Logo no começo, somos apresentados a Yquem (Ludwig Hartau), o homem rico tido como um crítico (de teatro, provavelmente) que é também famoso por ser casado com uma das mais belas mulheres da cidade. Ele na verdade é um falsário, uma espécie de antecipador do Dr. Mabuse, inclusive na utilização de disfarces. Yquem desconfia que a esposa Florence (Carole Trõlle) o está traindo. Ele conhece a história de uma paixão que ela nutria por um homem, Werner Raff (Anton Edthofer), antes do casamento.

Aliás, abrindo um parênteses para falar de Carole Trõlle, vale destacar que a cópia brasileira faz uma espécie de separação do filme em capítulos, sempre apresentando no intertítulo o título do filme e o nome da estrela principal como chamariz. Não tenho conhecimento de sua carreira no cinema, mas ao que parece, nas primeiras décadas do século XX, ela era uma estrela.

O desenrolar da trama, em vez de facilitar, complica, com a inclusão de mais personagens, situações envolvendo irmãos gêmeos (como havia também em DEPOIS DA TEMPESTADE), mais tramas envolvendo roubos de joias e outros crimes. E a pobre da cópia, saltitante, ainda termina de maneira brusca. Talvez seja o final mesmo, mas no mínimo alguns fotogramas foram perdidos no meio do caminho e que acabou por deixar o filme sem epílogo.

É curioso como se trata de um filme pequeno, ainda que já traga elementos marcantes da autoria de Lang. E pensar que está apenas a um outro filme de uma obra-prima como DR. MABUSE, O JOGADOR (1922)...

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CORRESPONDENTE ESPECIAL (Confirm or Deny)

Trata-se de um filme mais interessante do que exatamente bom. Fritz Lang chegou a fazer parte da produção, mas foi substituído depois de seis dias. É interessante também ver que se trata de um filme feito no calor do momento, enquanto a Inglaterra estava sofrendo bombardeios alemães. E é também interessante por ser um filme que adota o estilo das screwball comedies para lidar com os diálogos e os momentos românticos de Don Ameche e Joan Bennett. Nem sempre funciona e, mais para o final, o filme vai ganhando toques mais dramáticos. Gosto muito da cena em que os dois se conhecem, durante um blecaute. Passa uma sensação de que até durante a guerra era possível se divertir. Só é uma pena que o resultado não tenha sido tão positivo. Destaque para o menino Roddy McDoweall, que havia participado do filme anterior de Lang, O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941). Quanto a Joan Bennett, ela estaria presente em três futuros títulos de Lang. Direção: Achie Mayo. Ano: 1941.

PAZ PARA NÓS EM NOSSOS SONHOS (Ramybė Mūsų Sapnuose)

Não consegui entrar no clima deste trabalho de Sharunas Bartas, que dizem que é justamente o seu filme mais fraco. Meu amigo Michel Simões conhece os seus filmes anteriores para dizer isso. Justo o primeiro que resolvem lançar por aqui. Ao menos a distribuidora segue com sua postura de apostar em obras arriscadas. Mas gosto de uma cena envolvendo uma amante (?) do protagonista. A cena eleva o filme, muito pela força da atriz em cena. É melhor do que tudo o mais, incluindo seus personagens pouco atraentes. Ano: 2015.

O TESOURO (Comoara)

Havia esquecido de escrever algumas linhas sobre este belo filme, que passa uma impressão de desespero pela crise financeira, aventura e até um certo ar de conto de fadas. É filme a se sair do cinema pensando a respeito. E dá pra rir bastante também. Esses romenos sabem fazer um cinema muito interessante. Direção: Corneliu Porumboiu. Ano: 2015.