domingo, março 29, 2020

CIDADE DO MEDO (Fear City)

Falemos um pouco de um dos filmes menos queridos da filmografia de Abel Ferrara, CIDADE DO MEDO (1984). O próprio diretor não queria fazê-lo, já que o roteiro havia sido pensado por ele e por Nicholas St. John, seu parceiro criativo, em 1975, e ele acreditava que havia ficado datado, que seria melhor um novo projeto. Porém, o estúdio queria fazer esse filme e ele deu o melhor de si para que a obra se materializasse.

Como sou da linha que acredita na teoria dos autores, costumo adotar a máxima que os piores filmes de grandes cineastas são melhores que pelo menos a imensa maioria dos melhores filmes de cineastas sem assinatura. E assinatura não falta em CIDADE DO MEDO. Tudo aquilo que se tornaria arquétipo nos filmes de Ferrara comparece neste neo noir que conta a história de um gerenciador de strippers para um clube, vivido por Tom Berenger, e uma stripper viciada em cocaína. E é também a história do quanto suas vidas são tocadas a partir do surgimento de um assassino serial que caça suas vítimas, na grande maioria mulheres, nas ruas.

O retalhador impiedoso tem vontade de matar, mas principalmente vontade de infligir dor e terror às mulheres. A primeira vítima não morre, embora fique, obviamente traumatizada. Esse personagem, que não tem nome (o próprio ator não aparece nos créditos finais, por algum motivo), assim como a jovem muda de SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981), se torna escravo de sua pulsão sexual, e também de sua noção distorcida de moral e pecado.

O erotismo no corpo masculino, associado à violência (o assassino treina artes marciais e uso de facas nu) e no feminino, associado ao prazer e ao contentamento, como podemos ver na cena de striptease da personagem de Melanie Griffith, está presente no filme como associado ao pecado.

O catolicismo de Ferrara se mostra aqui também no personagem de Berenger, que é atormentado por uma culpa do passado, de quando era lutador de boxe e matou um homem no ringue. A culpa, na trama, porém, acaba funcionando mais como um catalisador para que o personagem, no terceiro ato, encontre um motivo forte para voltar a usar de violência ou até a matar um homem novamente.

Há também a brincadeira com os gêneros. O exagero na forma como o diretor pinta tanto o herói quanto o vilão, e principalmente o embate final entre os dois, que parece saído dos mais vagabundos filmes de ação da década de 1980, é tão enfatizado que, saindo de Ferrara, só pode ter sido proposital.

CIDADE DO MEDO foi o primeiro filme com um elenco hollywoodiano de Ferrara e que só não foi distribuído pela Fox porque o estúdio deu para trás quando percebeu que o filme tinha doses generosas de sexo (que nem é tanto assim, na verdade) e violência, e o vendeu para uma distribuidora independente.

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ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out)

Elegante filme de mistério sobre um assassinato cometido por um dos membros de uma família que muito lembra os romances de Agatha Christie (ou os filmes baseados nos romances/novelas). O que me surpreendeu positivamente é que temos como protagonista, no meio de tantos atores e atrizes renomados, a personagem de Ana de Armas, o verdadeiro coração do filme. Ela é a cuidadora do patriarca da família e tem um problema de não conseguir mentir. O legal é que o filme vai entregando boa parte do que aconteceu na noite da morte do velho logo nos minutos iniciais, o que passa a impressão de que tudo está mais ou menos resolvido. Um elenco bacana, diálogos bem construídos, uma direção de arte lindona (pena que na sala que eu vi a projeção não era lá essas coisas), mas a mim me deixa um pouco cansado esse tipo de filme. Mas só um pouco. Direção: Rian Johnson. Ano: 2019.

JOHN WICK 3 - PARABELLUM (John Wick: Chapter 3 - Parabellum)

Um lado A extremamente excitante e um lado B um tanto desapontador. Ainda assim, ao lembrar das melhores cenas, presentes na primeira metade, há que se sentir uma ponta de alegria pela chance de ver um espetáculo desses no cinema. A cena da biblioteca, a primeira luta de facas com artes marciais, a cena de ação com a Halle Berry, tudo isso é muito bom. Direção foda do Chad Stahelski. Pena que no roteiro não souberam dar uma conclusão satisfatória e sem um vilão memorável. Ano: 2019.

CRIMES OBSCUROS (Dark Crimes)

Uma obra meio torta, mas que não deixa de ser eficiente em muitos aspectos. Jim Carrey está muito bem como um detetive de polícia obstinado, perturbado e rejeitado; a atmosfera da Polônia é de frieza até a alma; e a trama é boa, ainda que pareça ter alguns furos. A trilha, ainda que repetitiva, não deixa de contribuir a favor do filme. Mesmo que não resulte em um bom filme, vale ver essa experiência em língua inglesa do grego que dirigiu MISS VIOLENCE (2013). Direção: Alexander Avranas. Ano: 2016.

sábado, março 28, 2020

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

Interessante como há filmes que parecem ao mesmo tão pouco palpáveis e tão atraentes, que a sensação que temos é querer entrar na tela, querer tocar os personagens, tocar aquele universo criado, experimentar todas as sensações possíveis. Eu sei que ver no cinema torna isso mais próximo de se materializar, e por isso lamento muito não ter visto A LIBERDADE É AZUL (1993) na telona. Eu acredito que o filme chegou a ser exibido nos cinemas de Fortaleza, sim, mas, por algum motivo, algum vacilo de minha parte, eu não saí de casa para vê-lo. Por isso, minhas primeiras boas memórias de tê-lo visto foi de uma fita VHS. Rever agora, mesmo com o coração em constante estado de inquietação, foi muito especial, ainda que talvez não o ideal. É como se houvesse sempre uma necessidade de voltar ao filme.

O trabalho de Krzysztof Kieslowski aqui é denso. Tão denso que seu filme, de duração curta para uma obra com um andamento lento, ainda que com tomadas relativamente curtas, parece atingir a perfeição. Cada cena, cada detalhe, é importante, seja para dar contornos mais profundos à trama e à protagonista vivida por Juliette Binoche, seja para oferecer algo que ajude a montar o quebra-cabeças da história. Não que se trate de um filme "de roteiro" - a direção é que é mais importante -, mas há uma preocupação sim nesse aspecto; há um rigor formal perceptível.

Eu costumava comparar A LIBERDADE É AZUL com O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan. Ambos são filmes que tratam do luto, da perda. Mas a abordagem dos dois diretores é completamente distinta. Kasdan, por mais belo que seja o seu trabalho, se aproxima mais da narrativa mais clássica, enquanto Kieslowski traz com seus simbolismos e sutilezas um meio um pouco menos direto de se chegar ao âmago de sua história e dos sentimentos que ela traz consigo.

Na trama, Juliette Binoche é Julie, uma jovem mulher que é a única sobrevivente de um acidente de automóvel que mata seu marido, um famoso compositor, e sua filha de cinco anos de idade. Atormentada pela dor da perda do marido e da filha, inicialmente, ainda no hospital, Julie tenta o suicídio com o uso de pílulas. Não consegue, e em seguida resolve tomar algumas medidas que algumas pessoas, inclusive um dos melhores amigos de seu marido (Olivier, vivido por Benoít Régent), acredita ser uma loucura, como se livrar da casa, doar todo o dinheiro deixado pelo marido e ir embora, de preferência para alguma lugar que ninguém a conheça.

A partir da nova vida que surge, Julie nada em uma piscina, faz amizade com uma prostituta no prédio que passa a residir, tenta se livrar dos ratos que estão em seu apartamento, visita a mãe com Alzheimer, passeia pela cidade, procurando sentir alguma paz interior - e em certo momento é até possível vê-la experienciando essa paz. O passado, porém, vem à tona, principalmente na descoberta de que seu marido tinha uma amante e que ela está grávida. Isso acaba por mudar muito da percepção de Julie da vida e do modo como ela deseja lidar com a nova situação, inclusive na vontade que tem de ajudar Olivier na continuidade do projeto ambicioso do marido - o filme deixa indícios de que Julie era uma espécie de escritora fantasma e ajudou muito o marido quando ele estava sem inspiração.

Uma das coisas mais belas no filme, além da beleza extraordinária de Binoche, então com 29 anos, está na paleta de cores da fotografia do polonês Slawomir Idziak, que havia trabalhado com Kieslowski em A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991). O diretor de fotografia destaca, obviamente o azul desde os primeiros frames. Como a cor azul costuma ser associada à tristeza em algumas culturas, não é nada difícil fazer essa associação com o filme também.

Outro aspecto maravilhoso de A LIBERDADE É AZUL está na música do também polonês Zbigniew Preisner, um colaborador assíduo do cineasta e provavelmente um grande amigo. Seu trabalho aqui é o de romper com os silêncios tão presentes no filme e em alguns momentos essa música surge como algo bastante desconcertante, como nas cenas em que a tela fica totalmente preta e a música se torna o elemento único por alguns segundos. Isso se dá em algumas conversas de Julie com outros personagens.

Quem sabe um dia essa obra seja relançada em cópia remasterizada nos cinemas e possamos nos aproximar mais daquilo que parece tão pouco palpável, mas que tem uma beleza fantasmagórica maravilhosa.

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FELIZ ANIVERSÁRIO (Fête de Famille)

Curioso como este filme vem passando em branco, recebido com certa frieza até. Como exemplar de filmes sobre famílias com problemas, é um dos mais felizes que eu vi há um bom tempo. Lembrei do brasileiro DOMINGO, de Fellipe Barbosa e Clara Linhart, mas lembrei também de um dos trabalhos mais verborrágicos de Olivier Assayas, HORAS DE VERÃO. Este FELIZ ANIVERSÁRIO, além de ter uma fauna de personagens muito interessante e um ótimo elenco, ainda traz um crescendo de perturbação que se mistura com um grau de tranquilidade com que a matriarca e aniversariante (vivida por Catherine Deneuve) sempre lida com os problemas. Emmanuelle Bercot está mais uma vez fantástica como a maluca da família. Entre os rostos novos, gostei da jovem Isabel Aimé González-Sola, que faz a namorada do personagem de Vincent Macaigne, ator que sempre conquista minha simpatia nos filmes. Certamente, muita gente vai se identificar com a família. Direção: Cédric Kahn. Ano: 2019.

O PROFESSOR SUBSTITUTO (L'Heure de la Sortie)

Um filme estranho. E por isso mesmo merece ser visto com atenção. No começo, parece um filme de professor como qualquer outro, ao vermos um profissional sendo confrontando pelas dificuldades impostas por uma turma de alunos da elite intelectual da escola. Pode não agradar um pouco como a narrativa se desenrola a partir de certo momento, quando o professor passa a seguir os passos dos alunos, para investigá-los, mas não dá para negar que, ao final, não é um filme que abandona o espectador ao fim da projeção. Isso é muito bom. Direção: Sébastien Marnier. Ano: 2018.

A REVOLUÇÃO DE PARIS (Un Peuple et Son Roi)

Em geral, esses dramas de época franceses são bem chatos e acadêmicos. Esse não foge à regra, embora tenha sido recebido com interesse por um público grande do Cinema do Dragão, que lotou tanto a sala, que teve gente sentado nos degraus. E olha que o ar condicionado estava com defeito. O elenco do filme é cheio de rostos conhecidos, de gente talentosa vista em tantos outros filmes. Mas quem brilha mais é Adèle Haenel, ainda que seu papel nem seja assim tão bom. A ideia de contar a história da Revolução Francesa pelo ponto de vista do povo não deixa de ser boa e funciona até certo ponto. Achei impressionante crianças participando de um evento tão sangrento. Direção: Pierre Schoeller. Ano: 2018.

sexta-feira, março 27, 2020

SEDUÇÃO E VINGANÇA (Ms .45)

Encontrei em SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981) o cineasta cuja obra mais me deu vontade de peregrinar, até por ter muitas lacunas em sua relativamente longa filmografia e por ele ser um cineasta um tanto complexo e mais digno de ser visto com atenção e estudo. A leitura ajuda muito a complementar a experiência do filme, e por enquanto estou utilizando o ótimo catálogo Abel Ferrara - A Religião da Intensidade, organizado por Ruy Gardnier em 2012. Este segundo (ou terceiro, se considerarmos o pornô de Ferrara como a sua estreia) longa-metragem do diretor ganha, inclusive, bastante destaque no catálogo.

O filme impressiona por ser um dos primeiros do subgênero rape and revenge e ainda assim se antecipar aos que viriam, transgredindo as normas vindouras. E por mais que um filme como DESEJO DE MATAR, de Michael Winner, já tivesse sido feito anos antes, aqui a transformação da heroína numa máquina de matar depois que ela sofre dois estupros num mesmo dia é muito diferente. Ferrara procura torná-la menos vítima possível. Inclusive dando a ela o poder de matar um de seus estupradores, esquartejando seu corpo na banheira e guardando os pedaços na geladeira para, friamente, ir deixando aos poucos em diversos locais de Nova York.

É interessante notar o quanto a cidade é mostrada suja e violenta, como devia ser mesmo na época, mas também é enfatizado a hoje tão comentada cultura do estupro. Já no começo do filme vemos uma série de homens tentando abordar de maneira bem pouco educada as mulheres na rua. E depois dos dois estupros e da atitude de certos homens que se tornariam vítimas da misteriosa assassina da .45, podemos perceber o quanto a categoria estava mesmo precisando mudar.

Mas uma coisa começa a confundir o espectador quando Thana (Zoë Tamerlis) passa a matar homens aparentemente inocentes, ou que cometem pequenas falhas com as namoradas, para depois passar a escolher homens de modo puramente aleatório. Na cena da festa de halloween, quando ela está lindamente vestida de freira, basta ser homem para se tornar alvo.

Seria então um filme sobre uma mulher que fica perturbada depois do trauma do estupro (e que sua mudez é provavelmente também advinda de um outro trauma) e se torna uma assassina? Também, mas o barato do trabalho de Ferrara é como ele torna tudo complexo, não precisando ser isso ou aquilo. Pode ser isso e aquilo também. Toda discussão é bem-vinda, portanto.

Visualmente falando, uma das coisas que dá prazer de acompanhar no filme é a mudança de roupa de Thana a cada novo assassinato. Ela passa a se vestir de maneira cada vez mais ousada, deixando de lado o estilo de doce garota de convento até a se vestir como prostituta de luxo, dominatrix e, ao final, uma freira sexy com uma arma amarrada à coxa.

Do ponto de vista psicológico, é interessante também notar a evolução da personagem a partir do momento em que ela mata o segundo estuprador em seu apartamento e parece estar chegando ao êxtase quando esquarteja seu corpo. O sadismo é percebido também nas preliminares da aproximação das vítimas. Mas é importante lembrar que estamos vendo um filme de Ferrara, onde o prazer transforma-se em dor ou mistura-se à dor com frequência. Talvez o exemplo mais representativo seja o de VÍCIO FRENÉTICO (1992).

Assim, há um momento em que a sexualidade parece lhe ser recusada: a aparição do primeiro estuprador após o esquartejamento acontece quando Thana tenta se ver nua no espelho, ensaiando uma espécie de sentimento erótico após o ocorrido. Porém, aos poucos ela vai ganhando uma espécie de empoderamento ao estar de posse do objeto fálico.

Outra coisa que dá prazer ao ver o filme está no quanto ele é imprevisível. Só o fato de não sermos apresentados à personagem, de não sabermos nada sobre seu passado, de não ouvirmos sequer alguma coisa de sua boca (por ela ser muda e por não haver uma voice-over), de darmos de cara com a invisibilidade de Thana no início, tudo isso contribui para que cada cena que se segue seja algo surpreendentemente novo.

Fiquei tão animado com o filme, que já estou pegando o longa-metragem seguinte do diretor e quero ver os demais. Qualquer coisa para trazer um pouco de alegria para esse momento já está valendo. E não estamos falando de qualquer coisa, mas de obras de arte.

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AS DIABÓLICAS (Les Diaboliques)

O fato de eu já conhecer a história e as surpresas da trama atrapalhou um pouco a completa apreciação do filme. Aí fiquei pensando se ele é tão resistente a revisões quanto certas obras (lembrei, por razões óbvias, de PSICOSE, de Hitchcock). Mas claro que é uma beleza visualmente falando também, com imagens que ficam guardadas de maneira forte em nossa memória. A trama de duas mulheres planejando a morte de um homem que é marido e amante das duas não deixa de ainda manter o seu fascínio. Até por ser gostoso de ver. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1955.

SONATA DE OUTONO (Höstsonaten)

Um privilégio poder ver um Bergman tão intenso e em restauração tão perfeita na telona. Minha primeira vez com SONATA DE OUTONO e fiquei impressionado. Aliás, quase sempre fico impressionado com Bergman. Como o maior cineasta canceriano, vejo neste filme a essência disso: a questão de guardar. No caso, a filha que guarda as mágoas do mal causado pela mãe durante muitos anos. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1978.

REVANCHE REBELDE (Roadracers)

Melhor filme de Robert Rodriguez, ao lado de PLANETA TERROR (2007). O diretor se sai muito bem quando homenageia os gêneros de que gosta. Este aqui é uma beleza, brincando com os filmes de jovens rebeldes dos anos 50 e com um veneno forte na violência e na personalidade dos personagens. Foi uma produção para a televisão, junto com a de outros diretores, projeto Rebel Highway. Não vi os outros filmes. Melhores cenas: o cabelo pegando fogo, o rinque de patinação e o sexo à beira do lago. Ano: 1994.

quinta-feira, março 26, 2020

A FORTALEZA (Fortress)

Quarentena, dia 9. Ontem até que eu estive bem, conseguindo conter a ansiedade e a aflição, mas hoje eu não consegui canalizar minha energia durante a manhã e estou tentando, desesperadamente, fazer isto agora. Creio que vai ajudar. Ontem também foi dia da notícia da morte de um cineasta muito querido de quem aprecia o cinema de horror, Stuart Gordon, 72, o maior especialista em adaptação de H.P. Lovecraft para as telas. Baseado em Lovecraft ele fez RE-ANIMATOR (1985), DO ALÉM (1986), HERANÇA MALDITA (1995), DAGON (2001) e DREAMS IN THE WITCH-HOUSE (2005), feito para a série-antologia MASTERS OF HORROR.

Logo, estamos falando de um sujeito que era um apaixonado pelo horror e pela ficção científica também na literatura (há dois títulos dele inspirados em obras de Edgar Allan Poe também). Além do mais, ao lado de gente como Carpenter, Romero, Cohen, Hooper, Dante, Landis e vários outros que se mostraram muito fieis ao gênero especialmente durante a década de 1980.

A lembrança que eu tinha de A FORTALEZA (1992) era de uma exibição na televisão em meados dos anos 1990. Eu tinha começado a assistir e estava curtindo muito, mas por algum motivo nunca aluguei para ver em casa. Com a notícia da morte de Gordon, este foi o filme que me pareceu mais adequado para homenageá-lo, mesmo em se tratando mais de um thriller de ficção científica, ação e suspense sobre fuga da prisão em um cenário futurista distópico. Como eu adoro filme de prisão e fuga e também de distopia estaria matando dois coelhos com uma só cajadada.

A FORTALEZA tem aquele espírito gostoso dos filmes B produzidos nos anos 1980 e muitas vezes encontrados em fitas nas locadoras. A diferença é que é um B-zão com um pouco mais de dinheiro. E embora Christopher Lambert tenha trabalhado algumas poucas vezes com cineastas de primeiro escalão, como Michael Cimino e Claire Denis, foi no cinema de ação mais despretensioso que ele solidificou sua carreira.

E Gordon, ao escalá-lo para estrelar o seu filme, não pensa em pedir uma boa interpretação ou nada do tipo. Inclusive, não faz falta e é até charmoso da parte do filme esse tipo de atuação mais canastrona, tanto dele quanto do elenco de apoio. Gosto muito do vilão do filme, vivido por Kurtwood Smith, assim como gosto muito da personagem da esposa dele, a bela Loryn Locklin, que infelizmente não teve uma carreira bem-sucedida.

Na história, que se passa no futuro, no ano de 2017, as pessoas são impedidas de ter um segundo filho. E o governo tem uma máquina que é capaz de descobrir isso. Tentando driblar a máquina, mas depois descoberta, ambos são presos e levados para a tal fortaleza, uma prisão de segurança máxima enorme e de alta tecnologia. Os detentos são monitorados por câmeras-robôs e tem, dentro de seus intestinos, um aparelho que tanto pode explodir quanto provocar dor. O filme até exagera ao colocar também um controle dos sonhos dos detentos. Nem ter sonhos eróticos eles podem.

O filme fica ainda mais divertido quando começa a rolar uma conspiração para que haja uma tentativa de fuga, assim como fica divertido também quando mostra as brigas entre os detentos. Uma dessas brigas chega a ser eletrizante. Creio se tratar de um filme querido por muitos, mas ao mesmo tempo é geralmente subvalorizado, inclusive pelos fãs de Gordon. Mas pode ser que seja só impressão minha.

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CRIME SEM SAÍDA (21 Bridges)

Dentro do que parece ser um momento de carência de bons filmes policiais, este filme é bem-vindo. É elegante, traz um ator que promete ser uma espécie de novo Denzel Washington, tem um jeitão de film noir moderno. Ainda assim, a trama me pareceu um pouco comum e a personagem da Sienna Miller é tão apagada que é quase um fantasma dentro da narrativa. Não sei qual é o problema dessa atriz. Quanto ao diretor, sua experiência maior é na televisão e por isso o filme está sendo vendido com o nome de seus produtores, os irmãos Russo. Direção: Brian Kirk. Ano: 2019.

AS PANTERAS (Charlie's Angels)

Acredito que uma vez que ficamos (mal) acostumados com um tipo de filme de ação com coreografia bem conduzida, como os da série JOHN WICK, filmes feitos sem muito capricho acabam perdendo pontos. E há também aqui, no caso deste novo filme da série AS PANTERAS problemas de ritmo que fazem que depois de uma hora já fiquemos um tanto aborrecidos. Nem mesmo a beleza das três jovens mulheres ajudam a contrabalançar neste sentido. Não deixa de ser um filme simpático e de ter as suas qualidades, como o desejo de trazer o protagonismo ainda mais para as mulheres, mas isso não é o bastante. Direção: Elizabeth Banks. Ano: 2019.

CASAL IMPROVÁVEL (Long Shot)

Esperava mais desta comédia estrelada por dois astros tão cheios de carisma (adoro a Charlize Theron). O que eu senti falta foi uma maior tensão erótica por parte do casal. A relação começa cedo demais, atrapalha um pouco o timing. Ainda assim, há uma cena que é lindona: a de "Must have been love", clássico do Roxxette. Como é comédia com o Seth Rogen, tem que ter algo de grosseiro também, mas tá valendo e é bem-vindo. Direção: Jonathan Levine. Ano: 2019.

quarta-feira, março 25, 2020

SANTA JOANA (Saint Joan)

Assisti a LAURA (1944) dias atrás e percebi o quanto se trata de uma das obras mais perfeitas da história do cinema. Talvez seja a grande obra-prima de Otto Preminger, mas afirmar isso talvez seja precipitado, já que o diretor tem uma filmografia de cerca de 40 títulos e vi apenas uma meia dúzia deles. Mas não quero falar sobre LAURA ainda. Hoje preferi escrever sobre uma obra considerada menor do diretor, SANTA JOANA (1957).

Trata-se de um dos quatro títulos do cineasta presentes no catálogo da Amazon Prime - os outros três são INGÊNUA ATÉ CERTO PONTO (1953), O HOMEM DO BRAÇO DE OURO (1955) e O FATOR HUMANO (1979), seu último longa-metragem. É importante que divulguemos isso, já que o sistema de busca desse serviço de streaming não é tão facilitador.

Joana D’Arc é uma das personagens mais fascinantes da História, tanto pela trajetória que inclui coisas de natureza fantástica, como as vozes que ela dizia ouvir, quanto pelo sucesso diante dos enfrentamentos com o exército inglês na Guerra dos Cem Anos, e também pelo cruel processo, seguido do trágico fim na fogueira em 1431.

Os filmes anteriores sobre a santa guerreira traziam mulheres mais velhas interpretando a personagem. Preminger quis fazer diferente e por isso escalou a jovem Jean Seberg, de então 18 anos para viver a santa guerreira. Foi uma decisão acertada e catapultou para o estrelado Jean, que também se tornaria uma forte ativista política, mas que hoje é mais lembrada por seu papel marcante em ACOSSADO, de Jean-Luc Godard.

A história de vida de Seberg é trágica e conturbada, tendo como fim um suposto suicídio, algo diversas vezes tentando pela atriz. Diz-se "suposto" pelas circunstâncias estranhas em que foi encontrado seu corpo: totalmente nua no banco traseiro de um carro escondido em meio a folhas. Nesta entrevista há muita coisa a respeito de sua vida e morte.

Quanto à sua relação com Preminger, ela o chamava de "o führer", dado o modo extremamente autoritário e agressivo com que o cineasta se comportava com seus atores e equipe. É interessante ler o prólogo da entrevista que Peter Bogdanovich fez com o cineasta presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, e ver o quanto ele se surpreende ao dar de cara com um idoso amável e generoso, algo que contrariava a fama do diretor. Talvez por ele estar já velhinho e no fim da vida, tendo experimentado alguns fracassos e rejeições dos estúdios, da crítica e da nova geração de Hollywood.

Há quem diga que ele tenha queimado de propósito Jean na cena da fogueira para que ela tivesse um resultado melhor na atuação. Dizem que ela ficou um tanto perturbada desde então. Ouvi sobre isso em um podcast americano.

Quanto a SANTA JOANA, trata-se da adaptação da peça de sucesso de Bernard Shaw. É interessante ter essa informação antes de ver o filme, até para se preparar para uma obra mais teatral e centrada nos diálogos. Ainda assim, há uma estrutura narrativa bem convencional da Hollywood da época, com a entrada em cena do fantasma de Joana para o Rei da França e depois um flashback com os acontecimentos em ordem cronológica, a partir do momento de um milagre e, em seguida, a entrada da jovem no exército francês.

O momento mais comovente, pra mim, é quando Joana, ao perceber que ficará presa em um espaço confinado para o resto da vida, abdica dessa vida para ser queimada na fogueira. Segundo ela, não haveria sentido viver sem ver o céu, sem sentir o cheiro das flores, sem experimentar o ar puro. Ela fala de coisas básicas, e por isso emociona tanto.

A cena da fogueira é até rápida e menos dolorosa que a de O PROCESSO DE JOANA D’ARC, obra-prima de Robert Bresson, mas ainda assim é suficientemente dolorosa, mesmo em se tratando de um filme que flerta mais com a racionalidade do que com o aspecto milagroso da vida da personagem.

Há pelo menos três motivos para ver SANTA JOANA: Jean Seberg, Otto Preminger e a própria trajetória misteriosa de Joana D’Arc. Há poucos filmes que oferecem tantos aspectos atraentes para o espectador.

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MIAMI VICE

Uma das coisas que mais ficou em minha memória quando vi este filme no cinema foi o sentimento de excitação provocado pelo romance proibido entre os personagens de Colin Farrell e Gong Li. A cena da lancha indo para Cuba à noite. Aliás, a noite escura era outro elemento de grande excitação e frio na barriga. As cenas de sexo, ainda que discretas, ganham contornos fortes, por causa do uso da digital. Infelizmente a imagem para os dias de hoje ganha uma baixa definição, que para alguns pode parecer charme, mas ainda continua sendo algo que me incomoda. O mesmo aconteceu comigo com IMPÉRIO DOS SONHOS, de Lynch, na revisão. Mas adorei rever MIAMI VICE, curtir o estilo do diretor em lidar com as fronteiras entre o que é legal e o que não é. A cena do resgate de um membro do grupo de policias infiltrados também é um momento forte. Minhas impressões sobre o filme da época em que o vi podem ser lidas AQUI. Direção: Michael Mann. Ano: 2006.

RELÍQUIA MACABRA / O FALCÃO MALTÊS (The Maltese Falcon)

Lembro de ter visto este filme no começo dos anos 1990, em VHS, naquelas edições que tinham o símbolo da Warner em prata. Não gostava muito do visual daquelas fitas, mas aquela coleção só tinha coisa boa. RELÍQUIA MACABRA não é dos meus filmes noir favoritos, e só pude perceber agora, mas há muitas qualidades e muitos motivos de ele ser considerado o ponto de partida do gênero. Antes de mais nada, Bogart como Sam Spade é perfeito. E eu gosto dos coadjuvantes também, embora a femme fatale da vez pareça frágil demais. E nem é tão atraente assim. Direção: John Huston. Ano: 1941.

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the Road)

Engraçado essa coisa de listas, de como elas são importantes para nos deixar intrigados e interessados em determinado filme. A lista do Filipe Furtado dos melhores filmes de 1967 trazia este lindo filme de Stanley Doney na segunda colocação. E de fato é um belo trabalho, tanto na construção inteligente da montagem de quatro momentos na vida de uma casal, quanto nos sentimentos contraditórios que surgem, ora de alegria, com o início da relação, ora de mal estar, com as discussões, que é o que dá o toque de cinema europeu. Se bem que aqui é um filme inglês, ainda que com um cineasta hollywoodiano. Audrey Hepburn apaixonante, Albert Finney ótimo. Pena que vi o filme em pedaços, por causa da cópia que ficava o tempo todo travando.

segunda-feira, março 23, 2020

FIM DE FESTA

Quarentena, dia 6. Estou tendo dificuldade grande de ver filmes, de me concentrar neles. Ainda não encontrei nenhum que fosse capaz de me fazer esquecer da realidade, da situação em que nos encontramos. Na verdade, os filmes até têm aumentado minha angústia, em comparação com algumas leituras (livros, quadrinhos, revistas), que têm sido mais eficientes em confortar o meu espírito. Também estou encontrando um tanto de alívio na escrita de textos para o blog, não importando se os textos saem como gostaria que saíssem. O importante agora é deixar que o misto de informação, sentimento pela obra e exercício de memória trabalhem juntos.

E o título que gostaria de falar a respeito hoje é FIM DE FESTA (2019), de Hilton Lacerda, um dos filmes que prometiam uma nova leva de ótimos lançamentos brasileiros que surgiriam no momento pós-Oscar. Mas aí veio o Corona-vírus e estragou tudo. Ou estragou o semestre, digamos assim. Sejamos ao menos otimistas de que no próximo semestre entraremos em uma era gloriosa de recuperação do prazer do cinema como espaço coletivo.

Pensar em FIM DE FESTA é também pensar em abraços, em afagos, em carinho. É pensar no modo carinhoso com que o policial Breno vivido por Irandhir Santos trata o filho Breninho (Gustavo Patriota). A aproximação dos corpos é algo muito presente no filme e embora haja sim sexo, inclusive uma cena de sexo grupal, o que mais lembramos é da aproximação dos corpos como afeto entre pai e filho nas cenas lindas em que o Breno pai conversa com o Breno filho na sacada do apartamento enquanto compartilham um baseado, massageando o pé do outro e falando sobre suas angústias, suas frustrações. Principalmente da parte do policial, que retorna de férias na quarta-feira de cinzas e parece viver um constante estado de ressaca, com sua voz sempre pausada e expressão cansada.

O Carnaval hoje é um símbolo muito associado à esquerda, nesses tempos de polarização. E, diferente de TATUAGEM (2013), o longa-metragem anterior de Lacerda, que passava um clima de liberdade transgressora muito bonita, este novo é bastante contaminado pelos novos tempos. Filmado durante a tensa campanha eleitoral de 2018 que traria Bolsonaro para a presidência, o clima não podia ser dos mais felizes.

O filme acompanha duas histórias paralelas: temos a história de vida tranquila pós-Carnaval dos jovens, Breninho e seus amigos, que ocupam o apartamento do pai, promovem a suruba e o amor livre e bissexual, vão à praia, aproveitam o momento enquanto estão juntos, já que em breve se separarão.

Há, inclusive, uma cena na praia que se destaca e que é reflexo da polarização. A menina Penha (Amanda Beça) pratica o top less e é logo hostilizada por um grupo de pessoas que advoga para si as boas maneiras. Uma mulher até diz que quer o seu país de volta. É o Brasil se preparando para o que viria. A outra história acompanha o policial tentando desvendar o assassinato de uma turista alemã durante o Carnaval, mas os detalhes das investigações acabam sendo pouco importantes para o filme, que se constrói muito melhor em climas, atmosfera e nos gestos de seus personagens.

No mais, há que se destacar a única cena com participação de Hermila Guedes, conversando com o personagem de Irandhir. Muito boa. Dessas que fazem o público prender a respiração para curtir os silêncios e as falas desses grandes intérpretes, que ajudam a elevar ainda mais o já belíssimo cinema produzido em Pernambuco.

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MEIO IRMÃO

O que mais impressiona neste filme é a performance da jovem estreante Natália Molina. Ela dá um show e sempre que o filme fica sem sua presença cai um pouco. O que mais importa é o seu drama. O drama de uma menina cuja mãe saiu de casa há vários dias e não voltou. De estar se sentindo tão rejeitada quanto agredida pelo mundo. O momento em que ela diz que prefere não ter filhos, pois eles crescem para se tornarem escrotos, é bem representativa desse sentimento de desencanto. Aí temos o meio irmão dela, cuja trama é um pouco menos interessante, envolvendo uma filmagem de dois rapazes gays dando uns amassos e sendo depois espancados por uns caras homofóbicos. A união das duas histórias acaba não dando muita liga, mas o filme tem inúmeros momentos inspirados. Direção: Eliane Coster. Ano: 2018.

SOLTEIRA QUASE SURTANDO

Mina Nercessian é a razão de assistir a esta comédia romântica leve, que até lembra os trabalhos feitos por Mônica Martelli. Mina é uma mulher de 35 anos que descobre que está com menopausa precoce e tem poucos meses para engravidar e realizar o sonho de ser mãe, que até então era algo que ela não fazia questão de ser. É um filme para ser visto relevando os problemas de dramaturgia, as atuações, alguns diálogos e procurando se divertir com o que o filme tem de melhor para oferecer. E o melhor é Mina, com um carisma admirável. Se esse filme for um sucesso, ainda que pequeno, pode ser que ela ganhe novas chances de brilhar. Caco Souza é diretor de 400 CONTRA 1: UMA HISTÓRIA DO CRIME ORGANIZADO (2010), pouco visto, mas com um elenco bem interessante. Ano: 2020.

SÓCRATES

A comparação que o Merten faz deste filme com MOONLIGHT, de Barry Jenkins, no cartaz, tem a sua razão de ser, tanto por abordar a vida de um jovem negro e homossexual, quanto pelas dificuldades por que ele passa. Mas são dificuldades muito maiores, mais apropriadas à dura realidade brasileira. E por mais que pareça exagero mostrar o personagem pegando comida do lixo para aplacar a fome, sabemos que isso é realidade. Um dos méritos (ou curiosidades) do filme está em não mostrar o personagem enveredando por uma vida de crime, o que seria bem compreensível, afinal, em momentos desesperados, atitudes desesperadas e urgentes se fazem necessárias. Acaba sendo um filme sobre moral também. Confesso que não me ganhou totalmente, mas tem seus méritos. Direção: Alexandre Moratto. Ano: 2018.

domingo, março 22, 2020

JOIAS BRUTAS (Uncut Gems)

Que bom quando eu consigo, em meio a este período tão difícil, me concentrar na leitura de alguma coisa e que, ainda por cima, vai ajudar a repensar e a relembrar as sensações e pensamentos que tive quando vi JOIAS BRUTAS (2019), quarto longa-metragem dos irmãos Bennie e Josh Safdie, e que foi lançado no Brasil e na maior parte dos países do mundo diretamente na Netflix, no início desde fatídico 2020.

Eu acredito que ter visto na Netflix, em vez de em uma boa sala de cinema, pode ter prejudicado um pouco minha apreciação. Afinal, o filme é bastante irritante, claustrofóbico, incômodo. Embora tudo isso seja deliberado, uma vontade de seus realizadores, no cinema eu ficaria mais disposto a embarcar, sem pausas, nessa viagem, por mais que saísse da sala um pouco tonto.

Hoje aproveitei o dia para ler o que saiu sobre o filme nas revistas Cinema Scope (ed. 81) e Film Comment (vol. 55). Na Cinema Scope saiu uma apresentação seguida de uma entrevista com os irmãos de seis páginas. Muito esclarecedora e agradável de ler. A Film Comment fez apenas uma crítica de duas páginas, mas também muito boa. Sinto falta demais de boas revistas de cinema impressas no Brasil. Essas eu consegui, aproveitando a ida de minha irmã e meu cunhado aos Estados Unidos no início do ano. Então, ler esse material e conseguir me concentrar foi muito recompensador, assim como está sendo escrever a respeito aqui, tentando ignorar um pouco o mal estar do momento.

Na entrevista da Cinema Scope, os irmãos Safdie começam falando bastante sobre basquete, e como não sou um fã de esportes e sou totalmente alheio ao mundo da NBA, procurei aprender um pouco, mas só as informações mais básicas. Soube que JOIAS BRUTAS é o filme mais centrado na NBA desde SPACE JAM - O JOGO DO SÉCULO, de 1996. Em JOIAS BRUTAS, fui apresentado a Kevin Garnett, que agora está aposentado, mas que em 2012, que é quando se passa a história, ainda é um dos grandes astros do basquete. Ele é essencial para a trama e interpreta a si mesmo, por assim dizer.

O foco do filme é mesmo Adam Sandler, que teve uma interpretação elogiadíssima, coisa que não acontece talvez desde sua parceria com Paul Thomas Anderson em EMBRIAGADO DE AMOR, em 2002. Sandler, ao longo dos anos, ganhou a fama de estrelar comédias de gosto duvidoso e por isso foi um presente para ele e para nós vermos o quanto o ator é capaz de ser muito bom. Eu, pelo menos, esqueci que era o Sandler, e comprei o personagem do judeu viciado em jogo e dono de uma joalheria Howard Ratner.

O filme tem uma introdução no mínimo interessante, começando com imagens do acidente em uma mina na Etiópia e indo literalmente para dentro do protagonista, que está fazendo um exame de colonoscopia. Ele tem medo de estar com um câncer. Depois disso, é tudo muito delirante, muito estonteante, já que somos arremessados no meio da ação, dentro da joalheria de Howard, e em um tipo de narrativa que parece embebida de cocaína.

Nesse início, Howard recebe a encomenda preciosa (a tal joia bruta do título) quando o Kevin Garnett está em sua loja. Ele aceita que Garnett, que fica fascinado com a pedra multicolorida, deseja ficar com ela para dar sorte. O jogador acredita que ela tem um poder derivado de seus ancestrais. Ele poderia ficar com ela por uma noite apenas. Howard pega como caução o anel do jogador, e o penhora por U$ 21.000 em cash para apostar. É importante lembrar que muito do desconforto e da ansiedade que o filme provoca vem não apenas do uso da câmera inquieta, mas principalmente do modo histérico com que os personagens lidam com as coisas da vida, a começar pelo onipresente protagonista.

Nesse sentido, o filme lembra bastante a obra de John Cassavetes, talvez o cineasta que mais tenha influenciado os irmãos Safdie. Há essa agressividade presente a todo momento, mas também essa força nas atuações e na dramaturgia e no estudo de personagem. No caso, o que há de mais fascinante em Howard é o quanto ele é um homem infantilizado, ao querer tudo e não se dar por satisfeito em perder ou nas consequências de seus atos, um homem que não vê o valor em nada - objetos, dinheiro, pessoas - se ele não pode arriscar perdê-los.

Algo que me deixou muito intrigado ao ler a entrevista dos Safdie foi quando eles mencionaram o aspecto anticapitalista da filmografia de Sandler, e como isso casou como uma luva para o filme. Como sou pouco conhecedor da filmografia do ator/comediante, lembrei logo de filmes como CLICK, A HERANÇA DE MR. DEEDS e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, títulos que trazem uma espécie de lição moral sobre o que realmente importa na vida, muito além do materialismo. Os irmãos Safdie, porém, estão longe de tratar o assunto com sentimentalismo.

Enfim, há muito o que falar e o que lembrar do filme, mas acho importante deixar uma menção à ótima participação da estreante Julia Fox, que interpreta Julia, a amante de Howard. Algumas das melhores cenas são com Julia, especialmente uma em que eles brigam na rua e a câmera passa a segui-la e não ele. Por um momento passamos a acreditar que o filme mudaria de ponto de vista. Mas isso dura pouco.

Podemos ainda lembrar das dez pragas do Egito na reunião da família judaica tradicional, do cunhado mafioso vivido por Eric Bogosian, da participação do cantor The Weeknd como ele mesmo, inclusive em um show seu, e em mais uma série de cenas. Por isso, por mais que a nossa relação com o filme, enquanto o vemos, não seja uma relação prazerosa, depois percebemos o quanto se trata de uma obra digna de respeito.

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INOCÊNCIA ROUBADA (Les Chatouilles)

Segundo filme do festival que trata do assunto "pedofilia", este aqui é mais eficiente do que o do Ozon (GRAÇAS A DEUS), embora a comparação não seja muito justa, já que são bem diferentes. Aqui vemos uma jovem mulher que enfrenta os fantasmas do passado, envolvendo um homem, amigo de sua família, que a violou inúmeras vezes. O trabalho da atriz, diretora e bailarina Andrea Bescond é ótimo e o filme entra num crescendo de emoções que comove, sem ter que apelar para uma trilha sonora onipresente. O final é lindo. Direção: Andrea Bescond e Eric Metayer. Ano: 2018.

O TRADUTOR (Un Traductor)

É um bom filme para assistir, mas fica a impressão de que os diretores superestimaram a história. Não que não seja importante alguém ser impactado por sua passagem pela ala infantil de câncer, mas, do jeito que o filme mostra, a emoção é minimizada por pura incompetência de seus realizadores. Rodrigo Santoro até que se esforça e o seu personagem é bastante simpático. Outra curiosidade é ver o estrago que o fim da União Soviética causou de imediato na ilha de Fidel. Direção: Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso. Ano: 2018.

A NOITE DO JOGO (Game Night)

Talvez seja mesmo a comédia do ano de 2018, mas acredito que GRINGO seja mais eficiente em provocar mais risos. Este, porém, é mais inteligente em sua proposta, nos diálogos afiados, em ter uma Rachel McAdams encantadora demais e na direção de tirar o chapéu. Fora a direção de arte, foda também. Talvez o problema seja umas gorduras, problema de montagem. Tem hora que o filme parece se exceder e perde um pouco o ritmo. Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Ano: 2018.

sexta-feira, março 20, 2020

DISFORIA

Quarentena, dia 4. Confesso que não estou sabendo lidar muito bem com tudo isso. Não é só questão de estar se privando do cinema. Mas é todo uma preocupação e tristeza diante das impossibilidades do momento, diante do distanciamento entre as pessoas, diante da ameaça invisível. De todo modo, fico grato aos governantes locais, especialmente o Governador, que estão agindo com seriedade, ainda mais levando em consideração que praticamente estamos sem presidente. E fico grato, principalmente, aos amigos e familiares, pela força que estão dando neste momento, que é difícil, mas sabemos que quem pode estar em quarentena como eu está no grupo dos privilegiados.

No mais, elegi um filme para escrever do qual nem sei direito se entendi muito bem, mas que, como é um filme que lida também com mal estar e distanciamento físico, achei que poderia ser o adequado para hoje. Mais por identificação mesmo, já que estou tendo dificuldade de concentração para ver filmes em casa. Não sei o quanto vai durar essa sensação de aflição, essa incapacidade de me sentir bem com a solitude, que eu tanto valorizo e costumo usufruir com paz de espírito em dias normais.

DISFORIA (2019) é o primeiro longa-metragem de Lucas Cassales, do premiado curta O CORPO (2015), e conta duas histórias em paralelo, histórias que se encontram. Temos a história da menina que quebra o espelho do banheiro em um estranho surto. A menina mora com o pai viúvo e a avó. E temos a história do psicanalista que lida com uma situação também muito particular: sua esposa está internada em uma clínica psiquiatra e ele se sente muito sozinho.

As duas situações se cruzam quando o psicanalista recebe o caso da menina, e depois descobre que ela tem uma espécie de poder que leva as pessoas a confrontarem seus próprios demônios. Ele, naturalmente, fica assustado, mas segue frequentando a casa a pedidos do pai da garota, que se mostra cada vez mais ausente. Há momentos na narrativa em que vemos imagens gravadas do passado, de quando esse pai era feliz com a esposa, antes de ela morrer.

O forte do filme é a atmosfera, muito mais do que a trama, que é confusa, mas a confusão é bem-vinda quando a intenção é nos colocar na mente perturbada do protagonista, o psicanalista vivido por Rafael Sieg, utilizando recursos audiovisuais criativos. Há uma cena que me chamou muito a atenção e talvez seja uma das minhas favoritas do ano: o protagonista segue, em estado alterado, para uma espécie de festa na casa de sua amiga. Ao chegar lá, ele fica conversando com uma garota que começa a dançar, o que lembra tanto Audrey no piloto de TWIN PEAKS, de David Lynch, quanto Jong-seo Jun, dançando ao som de jazz em cena mais do que memorável de EM CHAMAS, de Chang Dong-lee. A ótima canção que embala a cena é "Artemísia", da banda indie Carne Doce.

A conclusão do filme talvez não seja tão boa quanto seu desenvolvimento, mas não deixa de ser também intrigante. De vez em quando é bom sair de um cinema de shopping depois de ter visto um objeto tão estranho como esse.

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AÇÚCAR

De AMOR, PLÁSTICO E BARULHO (2013) para este novo filme, Renata Pinheiro, agora com um codiretor assinando, exibe um progresso gigante. A não ser pela conclusão que pouco impacto teve sobre mim, toda a apresentação dos personagens, as primeiras imagens da geografia da Zona da Mata com o retorno para a Casa de Engenho da personagem de Maeve Jinkins e o atrito delicado com a comunidade de negros que está ali ao lado, tudo isso é muito bom. Constrói-se um tipo de tensão que sentimos também em O SOM AO REDOR, do KMF, mas que aqui aparece em um ambiente rural. É mais um filme que mostra a burguesia branca que segue não querendo admitir a dívida histórica com os negros. E isso aparece também na forma de um universo fantástico que aparece para assombrar aquele lugar, que certamente deve estar cheio de espíritos esperando por justiça. Maeve Jinkins mais uma vez excelente, muitas vezes se mantendo sozinha como personagem branca, com um elenco de apoio também está ótimo. Direção: Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Ano: 2017.

A FEBRE

Filmes que abordam a realidade do índio brasileiro sempre são muito tristes. Este aqui até que escapa de ser tão triste quanto tantos outros, por centrar na vida de um indígena que trabalha em um porto em Manaus, mas que mantém uma família à parte que fala a língua nativa dentro de casa. Há o incômodo de fazer parte do mundo branco e também de ter esses costumes dos ancestrais. Não se pode servir a dois senhores, diz a Bíblia. A maior parte do filme não é falada em português e nos espantamos com o quanto o nosso país é gigante, rico e diverso. No filme, destaque para os ótimos desempenhos dos atores. Admirável mesmo. Fiquei em dúvida com a cena final. Caso alguém tenha visto, gentileza me explicar. Direção: Maya Da-Rin. Ano: 2019.

JESSICA FOREVER

Filme que sabe trazer a brutalidade para a sensibilidade. Gosto de como a personagem de Jessica é um pouco distante e quase uma santa para os homens, todos renascidos a partir do encontro com ela, para formarem uma espécie de exército contra a opressão de um regime autoritário em um mundo distópico. O passado de alguns poucos personagens, com seus traumas, é explorado. Ajuda a dar mais humanidade a esse jovens, assim como o rapaz que se apaixona por uma jovem da ilha, o que não seria uma boa ideia para um grupo que vive fora da lei. Direção: Caroline Poggi e Jonathan Vinel. Ano: 2018.

quinta-feira, março 19, 2020

O OFICIAL E O ESPIÃO (J'Accuse)

O interessante de ver um filme de Roman Polanski tratando do tema da inocência, do fato de alguém ser julgado e condenado por um crime que não cometeu, é que ficamos nos perguntando o quanto o cineasta pode ter se espelhado nessa história, já que o cerco em torno dele aumentou consideravelmente, com o crescimento do #metoo, com as acusações posteriores de estupro/assédio que surgiram para manchar ainda mais a biografia do diretor franco-polonês.

O OFICIAL E O ESPIÃO (2019) é mais um filme da fase tardia de Polanski que traz um tipo de dramaturgia mais calcado nos diálogos, algo bastante enfatizado em dois trabalhos desta década, ambos baseados em peças de teatro. Refiro-me aos ótimos DEUS DA CARNIFICINA (2011) e A PELE DE VÊNUS (2013). O filme seguinte, BASEADO EM FATOS REAIS (2017), de menor impacto na obra do diretor, segue uma linha de thriller um pouco mais convencional. O novo filme também apresenta similaridades com outro filme recente do diretor, O ESCRITOR FANTASMA (2010), que, aliás, é baseado também em um romance de Robert Harris.

O OFICIAL E O ESPIÃO, formalmente falando, seria um pouco um misto desses trabalhos, em certo sentido, já que tanto é centrado em conversas e contém poucas cenas de ação, como também cria uma atmosfera de suspense e apreensão, levando em consideração o quanto o protagonista, o Coronel Georges Picquart (Jean Dujardin), se vê em um jogo de cartas marcadas por membros do corpo de superiores do exército francês, ao descobrir e tentar consertar a injustiça que foi terem mandado para a prisão um oficial acusado de alta traição (Alfred Dreyfuss, vivido por Louis Garrel).

O caso é bastante conhecido e o título original se refere a um artigo escrito pelo romancista Émile Zola de mesmo nome, que denuncia a injustiça da prisão (sozinho, na Ilha do Diabo) de Dreyfuss. Isso ainda custaria a liberdade de Zola por um tempo. O artigo foi publicado no jornal francês L'Aurore, em 13 de janeiro de 1898, e pode ser encontrado facilmente na internet. O artigo, porém, foi publicado depois de três dias que o verdadeiro traidor, Esterhazy (no filme vivido por Laurent Natrella), foi inocentado pela justiça, o que acabou por prejudicar sua força.

Há muitos méritos no trabalho de Polanski. Não deixa de ser uma satisfação poder ver mais um trabalho de um diretor de primeiro escalão e que tem um corpo de trabalho tão rico e tão próximo do universal. Assim, o que vemos é um filme que tem a segurança e a experiência de um grande diretor, aliado a um elenco de apoio extraordinário.

O filme é também muito atual em tempos de fake news, de pós-verdade. Aquilo que deve ser considerado verdade ocorre por imposição de forças superiores e essencialmente más. No filme, não basta apenas manchar e maltratar a vida de um inocente; é preciso também humilhá-lo. E aqui entra também a questão do antissemitismo, que na época já era algo muito forte, mas que tenderia a crescer ainda mais no início do século que viria.

Escrevo sobre este filme tentando estabelecer uma rotina nesses tempos de quarentena. É apenas o segundo dia e já estou angustiado, tanto pela situação inédita e muito perturbadora pelo que passamos, quanto pela falta de contato humano maior. E olha que eu sou craque nesse lance de recolhimento. Sempre recebi com aceitação os conselhos dos astrólogos, mas o recolhimento agora é global. E necessário. Que tudo isso passe rápido e que o cinema, agora restrito aos nossos lares, nos conforte.

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MEU NOME É SARA (My Name Is Sara)

Curiosamente, segundo o IMDB, o Brasil é o primeiro país do mundo a exibir este filme (além, claro de exibições em dois festivais no ano passado). É o primeiro filme de ficção do diretor e tem o seu valor, embora não mostre nada que já não tenha sido mostrado em outros filmes sobre a Segunda Guerra, com foco na maldade dos nazistas e na fuga dos judeus. Aqui temos a menina Sara que consegue se passar por não-judia em um povoado da Ucrânia e passa a morar em uma casa, recebendo como pagamento apenas comida e teto. No elenco, destaque para a polonesa Michalina Olszanska, que faz a mulher que abriga Sara. Ela tem um sex appeal interessante. Baseado em uma história real, o filme, de certa forma, ao final, serve mais uma vez para lembrarmos a monstruosidade que é o nazismo (nunca é demais dizer, ao que parece), mas até a escolha de ser falado em inglês, nos dias de hoje, parece estranho e antiquado. Direção: Steven Oritt. Ano: 2019.

LUTA POR JUSTIÇA (Just Mercy)

Por mais que seja um filme convencional de tribunal e de luta por justiça para um condenado por um crime que não cometeu, aqui já temos a vantagem de ter um ator tão bom quanto o Michael B. Jordan no papel do advogado de defesa do personagem de Jamie Foxx. Ele passa a dor de tentar peitar um sistema totalmente corrompido e racista, que é o do estado do Alabama, que parece não ter se livrado do espírito da era da escravidão. Se não fosse uma história real, até podia parecer tudo caricato, mas tendo em vista os políticos toscos que estão no poder hoje em dia, sabemos agora que pessoas cheias de maldade de fato existem. As máscaras caíram. E um filme como esse tem essa função de denunciar as injustiças cometidas principalmente a pretos e pobres e as tantas falhas nas condenações à morte um homem. Direção: Destin Daniel Creton. Ano: 2019.

O PREÇO DA VERDADE - DARK WATERS (Dark Waters)

Curioso Todd Haynes ter feito um projeto assim tão careta, por mais nobre que seja. Não que ele não tenha namorado o clássico-narrativo mais convencional, mas talvez nunca de maneira tão explícita. Em um filme que lembra as obras investigativas dos anos 70 (inclusive pela utilização de uma fotografia granulada bem bonita), DARK WATERS conta a história de um advogado de empresas químicas que passa a advogar na causa de vítimas de uma empresa que envenena a água de uma cidade. Na verdade, de muito mais do que uma cidade. É o tipo de filme que nos dá aquela sensação terrível de impotência, por mais que haja alguns momentos de vitória. Mas são tão poucos, e os grandes são tão poderosos, que é fácil desanimar. Ano: 2019.

sábado, março 14, 2020

QUATRO SÉRIES E UMA MINISSÉRIE

Dias perturbadores esses. O mundo parece estar vivendo uma espécie de apocalipse, com essa história do Corona Vírus, cancelamento de estreias em todo o mundo, várias escolas e universidades fechando as portas sem tempo definido, um prejuízo de bilhões em todo o mundo, e talvez uma festa, pelo menos por enquanto, para o mercado de streaming, já que as pessoas tenderão a ficar em suas casas, em isolamento. E dentro desse mercado boa parte das séries mais badaladas estão presentes. Todas essas mereceriam um destaque especial, mas infelizmente tem me faltado ânimo e energia. Aproveitemos este momento para comentar um pouco sobre essas produções.

LOCKE & KEY - PRIMEIRA TEMPORADA (Locke & Key - Season One)

A Netflix conseguiu trazer um projeto que estava com muita dificuldade de ver a luz. Há muitas histórias sobre o quanto a adaptação do pequeno clássico de Joe Hill e do desenhista Gabriel Rodríguez teve problemas em encontrar a TV (e no cinema). Primeiro com a Fox, que conseguiu fazer um piloto dirigido por Mark Romanek, mas que não conseguiu passar disso. Até se pensou em fazer uma trilogia de filmes, mas não vingou. Depois a Hulu tentou decolar o piloto, trazendo Carlton Cuse para a produção e Andy Muschietti para a direção, mas também não vingou. A Netflix apareceu e salvou a pátria, com Cuse se juntando a Meredith Averill como showrunners. E o resultado foi muito bom. LOCKE & KEY (2020) ganhou um apelo juvenil considerável, mas sem perder a beleza, o horror e o encanto que são características da obra original. Ainda que cheia de elementos de fantasia, e apresentando várias chaves mágicas com um forte teor de fábula, é o horror que predomina nesta história envolvendo uma família que volta para uma mansão deixada pelo pai, depois que ele é assassinado. É lá que eles descobrem chaves mágicas e também uma entidade maligna disposta a tudo para ter essas chaves. Pode parecer bobagem, mas é fácil se envolver com os personagens, que ganham muita força quando mostrados em suas fraquezas, como é o caso de Kinsey (Emilia Jones), a minha personagem favorita. E não só por ser linda. Mas aquela história de entrar na cabeça para se livrar do medo me deixou fascinado. A série sofre um pouco de uma barriga lá pelo meio, mas os dois últimos episódios são tão empolgantes, que fica difícil não ficar com uma ótima impressão. Que bom que no final tudo deu certo para a adaptação complicada deste trabalho de Joe Hill. Agora eu quero ler todas as HQs. Aliás, já estou com todos aqui do lado, esperando o momento certo, graças à generosidade de meu amigo Zezão.

INACREDITÁVEL (Unbelievable)

O que me deixou mais impactado emocionalmente em INACREDITÁVEL (2019) foi a solidão imensa da personagem da jovem Marie, vivida com brilhantismo por Kaitlyn Dever (a mesma do querido FORA DE SÉRIE, de Olivia Wilde). É uma menina que é estuprada e depois meio que forçam-na a dizer que mentiu sobre o ocorrido. Então, por mais que a partir do segundo episódio tenhamos uma ótima trama policial em busca do serial rapist, as vezes em que Kaitlyn aparece continuam pesando muito para a força da minissérie. Mas nada pode tirar o mérito das duas investigadoras, vividas pelas carismáticas Merrit Wever e Toni Collette. É muito bonita a relação que se estabelece entre elas diante de algo terrível. Não consegui deixar de chorar no final. Uma pedrada bem dada. Ainda bem que o Globo de Ouro deu destaque. Não fosse por isso, não teria chamado minha atenção. Mais um acerto da Netflix, que tem o hábito de apresentar muita coisa descartável, e por isso é preciso ficar de olho nos ótimos projetos que surgem.

SERVANT - PRIMEIRA TEMPORADA (Servant - Season One)

A trama de SERVANT (2019-2020) parte de algo que já foi visto em um terror B recente, BONECO DO MAL. Mas aí depois se revela algo muito mais sofisticado e interessante. Na trama, casal usa um boneco depois do trágico falecimento de seu filho recém-nascido. A mulher sofre de trauma e essa parece ser uma solução para ela acreditar que aquilo é um bebê de carne e osso. Um dia eles resolvem contratar uma babá. E as coisas mudam demais para eles. A menina que faz a babá (Nell Tiger Free) é ótima, passando tanto algo de perturbador e também de inocência. E o casal também (a atriz é Lauren Ambrose, a caçula da família da excelente A SETE PALMOS, de Allan Ball). Coincidência ou não, os dois episódios melhores são os dirigidos por M. Night Shyamalan, o primeiro e o nono. São mais bonitos plasticamente e os mais importantes do ponto de vista da trama/revelações. Ainda são guardadas algumas revelações para a próxima temporada, e eu não sei o quanto isso é bom. Por mais que os episódios sejam de meia hora, estender demais o mistério é para poucos e bons. Lançamento da Apple TV+.

MR. ROBOT - TEMPORADA 4 (Mr. Robot - Season 4)

Uma pena não ter me forçado a escrever com mais profundidade sobre esta última temporada de MR. ROBOT (2019). Ao final da série, fiquei tão impressionado e com o cérebro fervilhando com tanta informação que o episódio duplo trouxe, que deveria ter escrito algo, nem que fosse no calor do momento, embora a série seja bastante racional e necessite de uma mente mais centrada em fatos complexos. Acredito que Sam Esmail, como diretor de quase todos os episódios de sua criação, fez aqui sua obra-prima. Não sei se ele conseguirá se superar, mesmo estando no começo da carreira, ou se se encaminhará para outros projetos no cinema. Afinal, seu estilo faz muito mais o gênero cinema do que televisão. É muito ousada para a TV. Gosto de como esta temporada entrou mais na cabeça de Elliot e menos nas disputas com o Dark Army, embora tenha sido lindo o momento da transferência. Há um episódio especialíssimo (além dos dois finais), que é o episódio todo centrado em uma revelação do passado traumático do personagem, cara a cara com sua psicoterapeuta. Até a janela de aspecto mudou neste episódio (ficou em scope). Mas não pude deixar de me entusiasmar com a loucura que foram os dois últimos (os três, na verdade). E o final foi fantástico! Obrigado, Sam Esmail, Rami Malek, Carly Chaikin e todos os envolvidos.

MODERN LOVE - PRIMEIRA TEMPORADA (Modern Love - Season One)

John Carney continua sua especialização em unir o doce das histórias de amor com o agridoce das situações da vida, dos relacionamentos complicados etc. Mas, curiosamente, o episódio que mais me tocou não foi dirigido por Carney, mas pela atriz Emmy Rossum, que é aquele da garota que se aproxima de um homem mais velho por carência que teve do pai, que morreu cedo. Achei uma pequena pedrada. Talvez por eu já sentir o peso da idade, apesar de não ter passado ainda para a casa dos 50. Outro que me emocionou, ainda que muito simples, é o estrelado por Dev Patel e Catherine Keener, em que eles contam suas histórias de amor um para o outro. Alguns episódios são bastante centrados em diálogos mais longos, o que também é ótimo, como o da Tina Fey ou o da Sofia Boutella. E é emocionante também a história do casal gay que quer adotar uma criança. Ah, não dá para esquecer o mais inventivo de todos os episódios, o estrelado por Anne Hathaway, que brinca com o musical para tratar de um assunto muito sério, o de alguém vivendo com transtorno bipolar. Lindo, lindo.

sábado, março 07, 2020

VIVAMOS HOJE (Today We Live)

Um cineasta muito querido por mim da Velha Guarda de Hollywood, que começou a filmar ainda na fase muda do cinema, é Howard Hawks. Seus filmes têm uma assinatura tão marcante que até aqueles que são apenas roteirizados por ele, como o delicioso PILOTO DE PROVAS (1938), de Victor Fleming, tem a cara do realizador. Aqui temos Hawks exercitando um de seus temas favoritos: o dos grupos em tempos de guerra, além do gosto pela aviação. Algo que é mostrado também (falando apenas dos filmes de aviação) em filmes como A PATRULHA DA MADRUGADA (1930), HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS aka FORÇA DE HERÓIS (1943).

Em VIVAMOS HOJE (1933), temos o primeiro filme feito com roteiro do romancista William Faulkner. Depois ele ainda faria com Hawks outros trabalhos ainda mais marcantes, como UMA AVENTURA NA MARTINICA (1944) e À BEIRA DO ABISMO (1946). É engraçado Hawks contando a Peter Bogdanovich de seu primeiro encontro com Faulkner, de como desejou matá-lo nos primeiros minutos. Mas, depois que saiu para tomar umas com ele, ficaram amigos.

O roteiro original, baseado no conto "Turn About", do próprio Faulkner, não tinha uma protagonista feminina. O que foi um problema quando o estúdio quis que Hawks fizesse o filme com a estrela Joan Crawford, linda e jovem, ainda que de mau gosto com os figurinos. Joan chorou intensamente quando leu o roteiro e não se viu em lugar nenhum. Assim, Faulkner teve o trabalho de reescrever a história, de modo que colocasse Joan em papel de destaque. Claramente, o filme é muito mais uma história de amizade masculina, algo muito comum nos trabalhos de Hawks, do que uma história de amor. Tanto é que seu final brusco parece de propósito da parte do diretor, para mostrar que estava pouco interessado em contar essa história de amor.

De todo modo, a coisa do triângulo amoroso funciona para estabelecer tensões e rivalidades. E por mais que alguns digam que o filme não é tão hawksiano na primeira parte, com as cenas de Joan com Gary Cooper e os outros rapazes no interior da Inglaterra, gosto do modo dramático como se dá o encontro do casal principal, e de como a morte do pai da personagem é sentido por toda a família. Há, inclusive, algo bastante hawksiano já nesta parte, que é a tentativa de não chorar diante das circunstâncias, de parecer forte. Isso é muito comum nos filmes do realizador.

Mas o filme ganha tintas mais bonitas mesmo quando o cenário muda para a Londres cinza da época da Primeira Guerra. E depois quando vão para a França lutar contra os austro-húngaros. Assim, de um lado temos um americano que chega à Inglaterra, se apaixona por uma mulher e acaba por aderir à guerra (Cooper), entrando nas força aérea; e de outro, os dois rapazes amigos de infância da protagonista (um deles prometido a casamento a ela; o outro irmão dela), vividos por Robert Young e Franchot Tone, que trabalham na parte naval, jogando torpedo nas bases dos inimigos.

No filme, podemos ver os ataques tanto nos ares quanto nas águas. Como Hawks era fascinado por aviação, as cenas aéreas são um dos pontos altos do filme. O personagem de Cooper, um tanto perversamente, leva o rival para o avião onde costumam trabalhar, lançando bombas aéreas e atirando no céu contra os aviões inimigos. Mas o personagem de Young é tão bobão que não sente sequer medo. Leva sua barata de estimação (!) junto com ele, em uma caixa de fósforos, para aquele passeio divertido.

As coisas ficam mais dramáticas, e ganham uma conclusão um pouco precipitada, mas totalmente coerente com o jeito heroico com que os personagens do realizador, especialmente nos filmes de guerra, tentam contribuir para a melhor resolução de tudo, ainda que seja se sacrificando. Não é como se a vida não tivesse muito valor. Ela tinha. E muito. Daí o sacrifício ser tão duramente abraçado.

+ TRÊS FILMES

O VENCEDOR (Champion) 

O filme que eu escolhi para homenagear Kirk Douglas, morto por esses dias, aos 103 anos, foi este, o seu primeiro grande sucesso. O curioso do filme é o quanto temos um personagem pelo que torcemos contra, por seus atos pouco nobres ou por tratar as pessoas como lixo. Depois do que ele faz com a bela Emma (Ruth Roman), como perdoá-lo? Mas aos poucos vemos o protagonista entrar em uma espiral de descontrole que só poderia encaminhar para algo trágico. Para o bem do próprio personagem, de seus amigos e família e para o espectador também. Não sei o quanto o filme foi pioneiro em mostrar o boxe de maneira mais violenta do que o costume, mas é algo a se pesquisar. Direção: Mark Robson. Ano: 1949.

MOEDA FALSA (T-Men) 

Meu primeiro contato com um film noir do Anthony Mann, que é sua especialidade nos anos 1940. Um dos charmes do filme é a utilização de uma narração de cunho governamental para contar a história de homens do tesouro nacional que se infiltram em grupos de falsificadores de dinheiro. Há dois personagens principais, e a parte mais interessante é vê-los se aproximando dos mafiosos para conseguir o que desejam. Há algumas cenas memoráveis, mas nada tão bom quanto o que Mann faria nos westerns dos anos 50. Qual será o melhor filme dele desses anos 40? Ano: 1947.

DA AMBIÇÃO AO CRIME (Crime of Passion) 

Se não fosse o trabalho de curadoria que o pessoal da Versátil faz nas coleções Filme Noir e outros, eu não teria tido contato com este filme. Afinal, o diretor deste título é desconhecido para mim, não é desses autores consagrados. Por isso é importante que esses trabalhos sejam apresentados ao público. Uma das coisas que fez eu desgostar um pouco do filme foi o fato de não gostar da personagem principal, da Barbara Stanywick. Ela é dominadora, chantagista e capaz de coisas que o espectador duvida. Mas é justamente por isso que a terceira parte do filme ganha força e um grau de drama que faz jus à era dos filmes noir. Sterling Hayden faz o detetive de polícia sem muita ambição que casa com ela, uma jornalista que se aposenta para viver com ele. Porém, não sei se é um filme feminista, como diz a pequena sinopse do box. Direção: Gerd Oswald. Ano: 1956.

quinta-feira, março 05, 2020

WE CAN’T GO HOME AGAIN

Que saudade de quando eu tinha mais tempo e energia e fazia as peregrinações pelas obras de alguns cineastas. Com a companhia de alguns livros, geralmente de entrevistas, já passei pelas obras de Hitchcock, Cukor, Hawks, Ford, Almodóvar e por um grande cineasta da velha guarda de Hollywood que tem um histórico de vida também interessante, Nicholas Ray. Acompanhei os vários trabalhos do diretor junto com a leitura do livro The Films of Nicholas Ray, de Geoff Andrew, que apresenta ensaios do autor sobre cada um dos títulos do cineasta.

Vi quase todos os longas-metragens de Ray, seja alugando, seja baixando da internet. Só ficava faltando WE CAN’T GO HOME AGAIN (1973), este trabalho experimental e considerado incompleto, já que o diretor apresentou-o pela primeira vez no Festival de Cannes em uma versão considerada não definitiva. Ray ficou trabalhando na versão final até morrer, em 1979, mas sem chegar ao fim. Aliás, quem tiver a curiosidade mórbida de ver os últimos dias do cineasta precisa ver o excelente UM FILME PARA NICK (1980), feito a quatro mãos com Wim Wenders.

Acho difícil falar de WE CAN’T GO HOME AGAIN, já que eu não embarquei no filme. Vi parcelado em três vezes, por não ser assim tão fácil de acompanhar. No início, ,pelas inúmeras janelas no mesmo quadro apresentando diferentes ações; depois, pelo fato de essas ações não terem nenhuma unidade narrativa - pelo menos, não do ponto de vista mais convencional.

O filme é um trabalho diferente de tudo que ele fizera até então. Foi como se Ray precisasse se juntar aos jovens para que tivesse uma espécie de recomeço. Um recomeço radical, já que o filme foi feito em conjunto com um grupo de estudantes de cinema. Assim, há filmagens e refilmagens de dramatizações específicas e um tanto confusas, mas há também conversas de Ray com seus alunos. Ele agia como uma espécie de pai e mentor, embora alguns alunos questionassem o que ele dizia. Uma garota chegou a dizer: “Você acha que você sempre tem razão, só por que é velho e fez muitos filmes?”. Ele disse que não saberia responder essa pergunta.

Aí entra algo que talvez tenha me tocado mais no filme, que é a velhice, a decadência física do diretor. Há uma cena em que alguém pergunta a ele por que usar um tapa-olho e ele diz que talvez por vaidade. Uma vaidade que, pelas vestimentas e pelos cabelos desgrenhados, já estava claramente diminuindo naquela etapa da vida do realizador. No filme, ele morre duas vezes: a primeira, atropelado vestido de Papai Noel; a segunda, enforcado, suicidando-se, para dar uma espécie de última lição a seus pupilos. Achei ambas as soluções ruins, mas certamente há razões de ser.

+ TRÊS FILMES

INAUDITO

Uma coisa que mesmo nós, que vemos muito filmes e estamos preparados para experiências diferentes, é saber aceitar o filme pelo que ele é e não pelo que você esperava que fosse. Caí nessa armadilha com INAUDITO, talvez pela sinopse, que chama a atenção da importância do guitarrista Lanny Gordin na história de músicos como Caetano Veloso, Gal Costa, Jards Macalé, Gilberto Gil etc na virada dos anos 60 para os 70. O que o filme nos apresenta, porém, é o Gordin hoje, fazendo um tipo de música diferente e lidando com a questão da loucura, como o fato de ouvir vozes, de ter sido internado em um hospital psiquiátrico etc. O diretor acaba criando uma obra experimental, com tomadas estranhas, uma trilha sonora diferente e as palavras nem sempre compreensíveis de Gordin, que disserta sobre a natureza da música, sobre seu encontro com um E.T., sobre evolução espiritual etc. É um filme desafiador. Direção: Gregorio Gananian. Ano: 2017.

O FILME DO BRUNO ALEIXO

Se já é raro surgirem por aqui comédias portuguesas, ter um filme como este é uma oportunidade e tanto. Bruno Aleixo é um famoso personagem e apresentador de talk show de Portugal. O filme faz piada com várias celebridades portuguesas, o que pode perder um pouco da graça para nós que não os conhecemos, mas isso não prejudica a fruição e o prazer que dá essa brincadeira de tentar pensar argumentos de filmes. Não exatamente se trata de uma animação, embora haja animação também. Melhores momentos: a primeira ideia de Bruno para um filme (o Papa justiceiro); o filme de jovens cumprimentando as meninas; e o chocolate. Aliás, o ator que faz um dos personagens/atores me lembrou muito o Bolaños. Direção: João Moreira e Pedro Santo. Ano: 2019.

A CIDADE DOS PIRATAS

A presença de Laerte é tão interessante que eu acho uma pena esta animação experimental, por assim dizer, não se deter mais em sua história. Tudo bem que há um documentário sobre ele (e eu vou atrás para saber mais detalhes), mas o diretor Otto Guerra se mostra bem interessado. Pena que algumas das histórias que se mostram no filme não são tão empolgantes, como as aparições dos piratas do título. Por outro lado, o drama do câncer do cineasta é interessante, mas poderia ser mais explorado. Dos demais personagens, gosto do sujeito casado que se traveste escondido da esposa e a do político homofóbico que tem sonhos gays. Ano: 2018.

domingo, março 01, 2020

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man)

A Universal Pictures é uma produtora e distribuidora que tem um histórico bonito na década de 1930, quando foi a principal referência do que se fazia de cinema de horror em Hollywood. Começou a trazer os chamados monstros clássicos. Primeiro Drácula, depois Frankenstein, depois a Múmia, o Homem Invisível, o Lobisomem e o Monstro da Lagoa Negra. Além de variadas continuações e derivados desses personagens. Foi um sucesso estrondoso que durou mais de duas décadas.

Na última década, porém, a Universal havia tentado, em vão, sucesso em trazer de volta esses monstros, em nova roupagem. Tentaram com O LOBISOMEM (2010), com um diretor bom, Joe Johnston, e, apesar de o filme não ser ruim, pouca gente lembra. Em seguida, o estúdio teve a ideia de contar uma história diferente de um de seus ícones. O resultado foi DRÁCULA - A HISTÓRIA NUNCA CONTADA (2014), dirigido por Gary Shore, que acabou caindo no esquecimento. O mesmo ocorreu com VICTOR FRANKENSTEIN (2015), de Paul McGuigan, estrelado por Daniel Radcliffe, e chegou mesmo ao fundo do poço com A MÚMIA (2017), de Alex Kurtzman. Nem com a presença de Tom Cruise no elenco o filme conseguiu ganhar as audiências. Por isso, a ideia do estúdio de criar um chamado Dark Universe acabou sendo arquivada.

Assim, chegamos finalmente a O HOMEM INVISÍVEL (2020), que nem tinha um diretor de primeiro escalão ou com uma obra tão marcante à frente. O australiano Leigh Whannell, que até então só havia dirigido dois longas, sendo um deles o pouco inspirado SOBRENATURAL - A ORIGEM (2015), seria, portanto, o responsável por dar uma repaginada na história de Adrian Griffin (o primeiro nome não aparece no romance de H.G. Wells e é geralmente mudado a cada adaptação para o cinema), o homem que ficaria insano após uma experiência de se tornar invisível.

O grande acerto de Leigh Whannell, que assina também o roteiro, é que há agora uma mudança de ponto de vista, que passa a ser da esposa de Griffin, uma mulher abusada e violentada e que foge de uma moderna e sofisticada casa de vidro à beira-mar em uma primeira sequência cheia de tensão. Vivida pela excelente Elisabeth Moss, Cecilia Kass consegue unir a fragilidade e a fortaleza em um único personagem, uma mulher profundamente traumatizada pelo marido, que é tido como morto. Seria uma boa notícia, mas ele deu um jeito de ter forjado a própria morte e agora está invisível para atormentá-la. Obviamente ninguém acredita nessa história e ela é tida como louca. O próprio filme traz possibilidades de que tudo não passa de loucura da personagem.

O interessante de tudo é que não vemos os tais maus tratos sofridos por Cecilia durante o casamento, mas aceitamos de bom grado seu medo intenso do marido sádico e monstruoso. E o que é ainda mais fantástico é que o filme consegue passar um clima de medo e tensão constantes, à medida que sabemos que há alguém dentro daquele espaço grande da janela scope. Whannell é sábio também em não enfatizar espaços claustrofóbicos ou muitas tomadas em close-up. Temos várias cenas em que vemos o espaço da casa, com a protagonista aparecendo no canto, enquanto os móveis e as paredes ocupam os dois terços do quadro.

A elegância dos planos é um destaque, assim como é também o uso magnífico do som e da música, que dá um tom de ainda mais horror à situação de perseguição que a desacreditada personagem sofre o tempo inteiro. Vale destacar o nome do compositor: o inglês Benjamin Wallfisch, que havia trabalhado em filmes como BLADE RUNNER 2049 (2017) e IT - A COISA (2017), entre outros. Mas é neste O HOMEM INVISÍVEL que vemos a excelência de seu trabalho. Em entrevista ao site Moviemaker, ele contou que se inspirou na trilha de Bernard Herrmann para PSICOSE. Ou seja, há momentos de completo silêncio, e outros em que a música aparece cortando agressivamente como uma faca nas mãos de alguém louco ou desesperado.

Há outros elementos hitchcockianos em O HOMEM INVISÍVEL, como os twists, as surpresas. E podemos dizer que temos uma obra tão bem-sucedida, que consegue, diferentemente de muitos filmes do gênero, chegar ao seu clímax e continuar ainda forte, intenso, capaz de deixar o espectador prendendo a respiração. Há também uma dose generosa de gore e uma cena de ação fora de série (a cena do manicômio). Além do mais, ter uma atriz como a Elisabeth Moss, que já interpretou outras sobreviventes sofridas em séries como TOP OF THE LAKE e THE HANDMAID'S TALE, foi uma aquisição e tanto, e ela em si já é um símbolo desses tempos de luta contra a violência doméstica e o abuso sexual, dentro de uma obra que apresenta uma mulher à sombra de um relacionamento abusivo.

P. S: Quem tiver a oportunidade de ver o filme em uma sala IMAX, não deixe de aproveitar essa chance de ouro.

+ TRÊS FILMES

A HORA DA SUA MORTE (Coutdown)

Para um filme que tem como intenção apenas a diversão de um público juvenil, até que A HORA DA SUA MORTE é bem-sucedido. Não faltam momentos de sustos (alguns nem sempre funcionam, é verdade, mas outros sim). A ideia é boa e ao que parece original. Afinal, ninguém havia feito um filme sobre um app de contagem para os dias de vida. Depois disso, a narrativa lembra um bocado a franquia PREMONIÇÃO, com a diferença que aqui temos uma espécie de demônio para buscar as pessoas na hora da morte. E o filme lida com o sobrenatural de maneira cristã, com ajuda de um padre e tudo. No mais, é redondinho, tem uma atriz linda como protagonista (a jovem Elizabeth Lail), mas também pode ser esquecível. Direção: Justin Dec. Ano: 2019.

MARIA E JOÃO - O CONTO DAS BRUXAS (Gretel & Hansel)

Há pelo menos dois motivos para ir ao cinema ver este filme: o primeiro é a presença brilhante da jovem Sophia Lillis, que cada vez mais vem se mostrando uma grande atriz; o segundo é o visual lindo (a fotografia, a direção de arte, os ângulos de câmera inusitados e até alguns momentos que lembram A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky). Achei um tanto confuso no modo como coloca a trama no início, mas tem uma bela construção de climas. E o aspecto bizarro é, de certa forma, suavizado (no sentido de não exagerar), dando às cenas mais características de filmes de horror um aspecto de sonho/pesadelo. Há também uma questão feminista forte, ligada ao protagonismo da mulher, associado à questão das bruxas e o medo que ela pode trazer aos homens. Para um diretor que fez o seu terceiro filme protagonizado por uma mulher, não deixa de ser um ponto de intersecção interessante. Direção: Oz Perkins. Ano: 2020.

ZUMBILÂNDIA - ATIRE DUAS VEZES (Zombieland - Double Tap)

Não lembro de ter gostado tanto do primeiro quanto gostei deste. Canção foda do Metallica nos créditos iniciais, Emma Stone mais linda e apaixonante do que nunca (e sem precisar se esforçar muito), elenco de apoio muito bom (a entrada de Rosario Dawson e a cena na nova Graceland são pontos altos), e um humor que quase sempre acerta. O problema é quando não acerta, mas isso é normal. Não dá pra ficar pedindo para rir de todas as cenas. Até porque tem piadas que parecem muito americanas. Além dos diálogos espirituosos, há boas coreografias nas cenas com os zumbis e bem-vindas referências pop. Eu veria um terceiro filme com essa turma muito de boa, mas não sei se haverá. Já não deve ter sido muito fácil reunir os três astros. Direção: Ruben Fleischer. Ano: 2019.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

FOURTEEN

Curioso como alguns filmes parecem ao mesmo tempo atraentes e fugidios. Como se fossem sonhos bons. Ou nem tão bons, já que o tema abordado nem sempre é dos mais felizes. FOURTEEN (2019) representaria esse tipo de filme. E é um filme que fala sobre depressão. O diretor, o cinéfilo e crítico Dan Sallitt, decide contar sua história pelo olhar da amiga da pessoa que sofre com a doença.

Somos apresentados a duas jovens: Mara (Tallie Medel) e Jo (Norma Kuhling). Mara faz o tipo mais comum e parece ter um misto de admiração e inveja da amiga Jo, que faz um tipo sedutor, com uma beleza que remete a modelos. Enquanto Mara costuma ter apenas um namorado, Jo não se importa em brincar quando o assunto é relacionamento.

Mara costuma ajudar bastante a amiga, que está sempre passando por problemas, como nas várias vezes em que é demitida dos empregos. Até que, depois de anos, Mara perde a paciência com Jo. “Você sempre está precisando de alguma coisa; fica difícil”, desabafa a mais sensata das duas. Durante uma das cenas mais longas desse filme que parece uma sucessão de esquetes curtas, a câmera se aproxima de Jo, enquanto ela confidencia seus problemas à amiga, remetendo a algo ocorrido com ela aos quatorze anos de idade. O filme não explicita o que ocorreu, mas é fácil inferir.

No que se refere à estrutura narrativa e à dramaturgia, FOURTEEN lembra alguns trabalhos de Eric Rohmer, autor que, curiosamente, parece estar sendo um dos cineastas mais influentes para a nova geração de cineastas. As cenas são curtas, há muitos diálogos, encontros e reencontros. E há também enormes elipses temporais e uma brincadeira com o olhar do espectador em uma tomada de uma estação de trem.

Mas o que mais importa é o quanto o filme nos coloca igualmente interessados nas vidas das duas protagonistas. A beleza triste do final acentua a delicadeza dessa pequena grande obra.

+ TRÊS FILMES

UMA MULHER ALTA (Dylda)

Acho problemático um filme cuja personagem-título se torne menos interessante que a suposta coadjuvante, a amiga ruiva que retorna da guerra para ver o filho que a amiga loira e alta cuidava. Como a maioria dos filmes russos, este aqui é duro e com pouco espaço para humor. Os momentos de riso trazem personagens com comportamentos estranhos. O sorriso no rosto de Masha é ao mesmo tempo belo e bizarro, já que aparece muitas vezes em ocasiões desconfortáveis. As duas atrizes estrearam com este filme, o segundo longa do realizador de TESNOTA (2017), um filme também um tanto difícil, mas, por ser mais contemporâneo, se aproxima mais de nossos costumes. Destaque mais uma vez para o belo uso das cores fortes (roupas, cores das portas), que se destacam em ambientes um tanto mortos. Prêmio de melhor direção na Mostra Un Certain Regard em Cannes. Direção: Kantemir Balagov. Ano: 2019.

FRANKIE

Só tenho acompanhado a carreira de Ira Sachs desde DEIXE A LUZ ACESA (2012), e tive a impressão de que este novo filme é diferente, não apenas por não abordar de maneira mais direta a homossexualidade, como os três anteriores, mas por ter uma relação mais próxima com o cinema europeu. É sempre um prazer ver a Isabelle Huppert em ação, e ter um elenco tão diverso e tão bom conta pontos demais a seu favor. Adoro uma cena específica de Huppert com Marisa Tomei (emotiva e contida, ao mesmo tempo); gosto demais de todas as vezes que Brendan Gleeson está em cena. Talvez o ponto fraco esteja em alguns personagens, como o casal que está se separando e a filha deles que vai à praia. Embora trate também de perda, não tem a mesma força da trama principal, por assim dizer. Ainda assim, adoro os silêncios e também os dois momentos ao som de piano. Se todo filme mediano fosse assim, eu ficaria mais feliz. Ano: 2019.

1917

Interessante como 1917, quando passa a se centrar em apenas um dos personagens e, com isso, perde o seu aspecto mais afetivo, vai se tornando algo próximo de um jogo, de um videogame, ou coisa assim. Há a missão a ser cumprida e os inúmeros obstáculos. A fotografia é linda e ver em IMAX é um deslumbre, há algumas cenas marcantes, mas à medida que o filme vai chegando ao seu clímax vai perdendo a força, em vez de causar um tipo de emoção gerada pelo cansaço físico e emocional do protagonista. A brincadeira com o uso do plano-sequência único é divertida, e é legal perceber que em alguns momentos deixamos de prestar atenção nesse aspecto, mas às vezes isso parece ser o principal sentido de existir de 1917. O Sam Mendes sensível de POR UMA VIDA MELHOR (2009) junto com o mestre na direção de ação de 007 - OPERAÇÃO SKYFALL (2012) poderiam ter resultado em algo melhor. Ano: 2019.

sábado, fevereiro 22, 2020

MENTIRAS (Gojitmal / Lies)

Estava procurando nos meus caderninhos de anotações dos filmes que via no cinema (infelizmente só passei a fazer essas anotações a partir de 1998), e fiquei curioso quando vi que só assisti MENTIRAS (1999) em janeiro de 2002, no então chamado Espaço Unibanco Dragão do Mar. Foi um impacto e tanto pra mim ver este filme. E esse impacto - e o modo como mexeu com algumas fantasias s&m que eu tinha e não sabia disso - ficou mais forte do que a própria lembrança da história. Claro que me lembrava de algumas coisas, como uma cena de sexo anal e principalmente das porradas na bunda com paus e gravetos, tanto na moça quanto no homem, mas quase vinte anos fazem muita diferença na memória de uma pessoa.

O que faz o trabalho de Sun-Woo Jang fugir da vulgaridade, mesmo se aproximando tanto de um filme pornô em alguns momentos, é sua sensibilidade em mostrar a evolução da relação um tanto doentia entre a garota de 18 anos Y (Tae Yon Kim) e o homem de mais de 40 J (Sang Hyun Lee). Na trama, ela é uma garota que, para não seguir o exemplo das duas irmãs mais velhas, que começaram sua vida sexual sendo estupradas, ela decide perder a virgindade com esse homem mais velho com quem ela tem se comunicado a distância.

Para isso, eles marcam de transar em um motel. E toda a expectativa, todo o início de tudo, o encontro, as preliminares, tudo é muito excitante. O misto de frio na barriga com outras sensações menos nobres, por assim dizer, são praticamente inevitáveis. E só por esse início MENTIRAS já valeria a espiada. Acontece que há muito mais a seguir, já que o personagem masculino tem por hábito a vontade de usar métodos de sadomasoquismo para encontrar um prazer maior. Como ele encontra a aceitação fácil da jovem, a relação dos dois passa a ser cada vez mais brutal, ainda que sempre consentida, sendo que inicialmente eles usam ferros, depois gravetos e depois até coisas mais pesadas.

Ele já havia tentado com a esposa, mas ela achava aquilo um absurdo e fugira disso. Como a esposa, uma pintora, passava boa parte do tempo em Paris, para ele era tranquilo encontrar com a jovem Y, que fica cada vez mais apaixonada por ele. Ao mostrar as feridas nos glúteos para a amiga (que fica ao mesmo tempo assustada e enciumada), devido à sessão de chicotadas que deixam marcas fortes, inclusive na coxas e na panturrilha, ela diz que gosta de tudo que o J faz.

O filme chega a um estágio em que o sujeito larga a vida profissional para ficar com a garota, vivendo apenas de sexo e porrada, procurando gravetos no chão como se fossem viciados em crack, enquanto pedem dinheiro emprestado para conseguirem lugar para morar e se alimentar.

MENTIRAS também não trata de culpar um ou outro pelo comportamento ou de apresentar aquilo como um traço horrível. Isso vai de acordo com a visão do espectador. O que podemos ver é também uma relação de afeto forte que se cria entre o casal de amantes. As últimas cenas, por exemplo, são de cortar o coração.

O interessante é que este foi o primeiro filme sul-coreano que eu vi. Mal sabia eu que poucos anos depois as produções do país virariam febre, a ponto de ter um filme ganhando melhor estatueta em festa do Oscar. Também não sabia o quanto os sul-coreanos são bons em lidar com o sexo. Anos depois eu assistiria o excelente e altamente excitante A CRIADA, de Chan-wook Park, e conheceria o maravilhoso Hong Sang-soo, que também usaria do sexo em seus primeiros trabalhos. Foi muito bom poder rever MENTIRAS e ver que continua cheio de força e uma capacidade enorme de excitar, por mais que também possa trazer sentimentos de angústia ou outro tipo de desconforto.

+ TRÊS FILMES

O ÚLTIMO AMOR DE CASANOVA (Dernier Amour)

Acho até fácil se apaixonar pela Stacy Martin. Comprei as cenas dela tentando se fazer de difícil para o Casanova, criando uma carga de tensão sexual muito interessante, a ponto de um beijo já ser uma conquista e tanto. Isso, levando em consideração que o personagem masculino já havia visto a moça prestando serviços sexuais por dinheiro. Pena que o filme a certa altura perde um bocado do rumo, embora possamos dizer que isso talvez simbolize um pouco o sentimento do protagonista. De todo modo, dos filmes de Benoît Jacquot, ainda fico com ADEUS, MINHA RAINHA (2012) e com 3 CORAÇÕES (2014). Ano: 2019.

O CONTO (The Tale) 

Falta pouco para ser um grande filme. A história em si é impressionante e chocante, além de também ser bem inventiva no modo como ela é descortinada, até sabermos detalhes sobre o abuso sexual sofrido pela própria diretora em sua infância. O interessante do filme é como ele coloca a questão de maneira bem complexa. A garotinha que faz a Dern novinha é ótima. Direção: Jennifer Fox. Ano: 2018.

DESOBEDIÊNCIA (Disobedience)

Gostei demais dessa experiência de Sebastián Lelio no cinema de língua inglesa. Ainda mais com a força das duas Rachels: Weisz e McAdams. Muito fodas essas meninas. Faltou algo na parte do rabino. Eu não senti a dor dele. E talvez isso seja uma falha, não sei.. Mas me envolvi muito com o romance proibido das duas mulheres. E que linda que é a cena de sexo, hein. As cenas litúrgicas (dá pra chamar assim?) também são belas. Ano: 2017.