quarta-feira, dezembro 31, 2014

TOP 20 2014 E O BALANÇO DO ANO



1. O LOBO DE WALL STREET, de Martin Scorsese
2. ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA, de Nuri Bilge Ceylan
3. SOB A PELE, de Jonathan Glazer
4. THE ROVER – A CAÇADA, de David Michôd
5. O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra



6. O PASSADO, de Asghar Farhadi
7. ERA UMA VEZ EM NOVA YORK, de James Gray
8. RELATOS SELVAGENS, de Damián Szifrón
9. BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater
10. MAGIA AO LUAR, de Woody Allen



11. LUNCHBOX, de Ritesh Batra
12. RIOCORRENTE, de Paulo Sacramento
13. NOÉ, de Darren Aronofski
14. ELA, de Spike Jonze
15. VIDAS AO VENTO, de Hayao Miyazaki



16. UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO, de Yôji Yamada
17. INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM, de Joel e Ethan Coen
18. PELO MALO, de Mariana Rondón
19. O HOMEM DUPLICADO, de Dennis Villeneuve
20. O ESPELHO, de Mike Flanagan

Menções honrosas (ou filmes que quase entraram no top 20)

A COLEÇÃO INVISÍVEL, de Bernard Attal; CÃES ERRANTES, de Tsai Ming-Liang; CASTANHA, de Davi Pretto; INTERESTELAR, de Christopher Nolan; ANOS FELIZES, de Daniele Luchetti; GAROTA EXEMPLAR, de David Fincher; QUANDO EU ERA VIVO, de Marco Dutra; ALABAMA MONROE, de Felix Van Groeningen; BEM-VINDO A NOVA YORK, de Abel Ferrara; MAIS UM ANO, de Mike Leigh

2014 não foi um ano normal. O Brasil sediou a Copa e as eleições presidenciais deixaram os brasileiros com os ânimos tão acirrados que isso dividiu o país ao meio e continuou a desfazer amizades. Senti falta de alguns amigos, mas também acabei me esquivando de vários contatos sociais, o que não é bom, mas precisava para atingir uma meta. Infelizmente não foi dessa vez, mas talvez porque a meta desde o começo estivesse borrada e sem o devido empenho da minha parte. Daí o ano ter terminado pra mim com um gosto levemente amargo de frustração. Mas nada tão sério assim.

O ano também foi de perdas para o cinema. Nosso maior documentarista Eduardo Coutinho foi morto pelo próprio filho, Robin Williams cometeu suicídio, Philip Seymour Hoffman morreu em consequência do uso de drogas, José Wilker morreu do coração e também perdemos os cineastas Harold Ramis, Alain Resnais e Mike Nichols. Com exceção de Hoffman, o Diário de um Cinéfilo tratou de homenageá-los. Isso só para citar as perdas mais sentidas. Pareceu um ano um tanto pesado espiritualmente. Mas nós sobrevivemos para contar e esperamos que 2015 seja, no mínimo, muito melhor.

Nos cinemas, não faltaram blockbusters bons e ruins, filmes de super-heróis, tanto adaptados dos quadrinhos como criados direto para a telona (se considerarmos LUCY e O PROTETOR como filmes de super-heróis), dois ambiciosos épicos bíblicos e, vejam só, até filmes brasileiros de horror.

Em Fortaleza, tivemos as ótimas ações do Cinema do Dragão, que tratou de animar o ânimo dos cinéfilos com várias mostras especiais que privilegiaram principalmente o cinema com pouca chance de chegar ao circuito, preenchendo, assim, lacunas enormes. Além disso, ganhamos novamente a chance de ver clássicos na telona. Destaques para SANGUE RUIM e BOY MEETS GIRL, de Leos Carax, UM CORPO QUE CAI e OS PÁSSAROS, de Alfred Hitchcock, LARANJA MECÂNICA, de Stanley Kubrick, ERA UMA VEZ EM TÓQUIO, de Yasujiro Ozu, BYE BYE BRASIL, de Carlos Diegues, O BEIJO DA MULHER ARANHA, de Hector Babenco, OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE, de John Badham, O EXORCISTA, de William Friedkin, O PODEROSO CHEFÃO, de Francis Ford Coppola, MORANGOS SILVESTRES e O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman.

Quanto aos vinte escolhidos, curiosamente há dois filmes com "Lobo" no título. O primeiro deles, O LOBO DE WALL STREET, representa a volta de Martin Scorsese ao ritmo "cheirado" de suas obras mais louvadas, bem como a melhor performance da carreira de Leonardo DiCaprio. O segundo, O LOBO ATRÁS DA PORTA, é uma das estreias mais bem-vindas de um diretor brasileiro em muito tempo, ainda que a forma seja a de uma narrativa tradicional.

Para quem prefere uma narrativa mais ousada também não faltaram opções, como o muito estranho SOB A PELE, de Jonathan Glazer; e o brasileiro RIOCORRENTE, de Paulo Sacramento, que se sustenta todo ele em simbolismos para passar a sua mensagem de inconformismo. Também nesse campo onírico, vale destacar o horror psicológico O HOMEM DUPLICADO, de Dennis Villeneuve. Falando em horror, fiz questão de destacar um dos mais interessantes filmes do gênero lançados em nossos cinemas neste ano, O ESPELHO, de Mike Flanagan.

Vindo de cineastas americanos aclamados, tivemos a história de amor e dor ERA UMA VEZ EM NOVA YORK, de James Gray; a (des)construção do tempo em BOYHOOD – DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater; a volta à comédia romântica doce em MAGIA AO LUAR, de Woody Allen; uma visão nada convencional do mito do dilúvio em NOÉ, de Darren Aronofski; uma história de amor futurista em ELA, de Spike Jonze; e a sofrida luta de um músico por um lugar ao sol em INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM, dos irmãos Coen.

Fora dos Estados Unidos, chegaram o grandioso e sensível ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA, do turco Nuri Bilge Ceylan; o thriller distópico THE ROVER – A CAÇADA, do australiano David Michôd; mais uma incômoda briga entre casais em O PASSADO, a cargo do iraniano Asghar Farhadi; uma coletânea de curtas empolgantes dirigidos pelo mesmo diretor, RELATOS SELVAGENS, do argentino Damián Szifrón; uma história de amor regada a boa comida e correspondência, LUNCHBOX, do indiano Ritesh Batra; e uma dura história de preconceito e opressão a um garotinho em PELO MALO, da venezuelana Mariana Rondón.

O cinema japonês pode ser visto como um caso a parte, tendo trazido o filme mais emotivo e comovente do ano, UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO, de Yôji Yamada, remake adorável do clássico ERA UMA VEZ EM TÓQUIO, de Ozu. Tivemos também a despedida das telas do imbatível Hayao Miyazaki, com sua bela animação VIDAS AO VENTO.

Top 5 Piores do Ano 

Quanto aos piores, não é preciso tecer muitas considerações a respeito. Creio que já escrevi o suficiente sobre eles e quem quiser saber mais é só clicar nos links. Os selecionados do ano foram:

1. SIN CITY – A DAMA FATAL
2. TRANSFORMERS – A ERA DA EXTINÇÃO
3. RIO 2
4. O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA 2 – A AMEAÇA DE ELECTRO
5. GERONIMO

As séries

Novidades e boas surpresas não faltaram em 2014. As novas e melhores séries (ou minisséries, dependendo do caso) que tive o prazer de ver este ano foram TRUE DETECTIVE, FARGO, PENNY DREADFUL e THE AFFAIR. A primeira trilhando o caminho do mistério, a segunda do humor negro, a terceira dos personagens clássicos do horror britânico, e a quarta da tensão existente numa relação proibida. O ano também marcou a volta de Jack Bauer, com a minissérie 24 HORAS – VIVA UM NOVO DIA, com a diminuição de 24 para 12 episódios, o que funcionou muito bem. Outra série que foi salva pelo gongo foi THE KILLING, que conquistou uma quarta temporada, graças à sensatez e à boa vontade de boas almas.

Das séries que continuo vendo, felizmente houve uma melhora ainda maior em GAME OF THRONES, na novíssima temporada de THE WALKING DEAD, nas aventuras das meninas de GIRLS, e especialmente no reboot de HOMELAND, que soube muito bem se adaptar à saída de um dos protagonistas. Quanto a BATES MOTEL, houve uma leve queda em relação à empolgante primeira temporada, mas nada muito preocupante. 2014 também foi o ano da despedida de TRUE BLOOD, uma série que estava mesmo precisando sair do ar, mas que pelo menos saiu de maneira bastante digna e emocionante.

O ano também marcou o meu retorno a BREAKING BAD, uma série que justifica todos os elogios que recebeu ao longo dos anos em que esteve no ar. As bolas pretas foram para ORPHAN BLACK, que fechou uma segunda temporada chata e me fez desistir dela, e para AMERICAN HORROR STORY. Quanto a THE BIG BANG THEORY, a sitcom chegou a um momento de sua carreira milionária que deixou de ousar e raramente é engraçada. Porém, não é série para largar, graças a seus personagens carismáticos.

Top 5 Musas do Ano


1. Amy Adams, em TRAPAÇA


2. Leandra Leal, em O LOBO ATRÁS DA PORTA


3. Margot Robbie, em O LOBO DE WALL STREET


4. Scarlett Johansson, em SOB A PELE, LUCY e CAPITÃO AMÉRICA 2 – O SOLDADO INVERNAL


5. Stacy Martin, em NINFOMANÍACA – VOLUME 1

Se no ano passado eu mesmo reclamei de não ter nenhuma brasileira na lista das cinco musas do ano, 2014 nos trouxe a assustadora performance de Leandra Leal em O LOBO ATRÁS DA PORTA, bem como seu sex appeal extraordinário, além de um corpo nu magnífico. E falando em corpo nu, quase tive um treco com a revelação Margot Robbie, em suas cenas mais sensuais de O LOBO DE WALL STREET. Nunca Scorsese colocou tanto sexo em um filme seu. Falando em sexo, outra revelação é Stacy Martin, que interpretou a viciada em sexo Joe quando jovem em NINFOMANÍACA, a divertida saga em duas partes de Lars von Trier. Já Scarlett Johansson virou cadeira cativa nesta seção anual. A diferença é que desta vez ela tirou a roupa, no belo e estranho SOB A PELE. Mas quem acabou encabeçando a lista mesmo, por sua doçura e por seus traços de princesa em traje sexy setentista foi mesmo Amy Adams. Ela é a melhor coisa de TRAPAÇA, de David O. Russell.  

Os 20 Melhores Filmes Vistos na Telinha

Infelizmente vi poucos filmes em casa durante o ano, em comparação com os anos anteriores. Senti falta, especialmente, de filmes clássicos, principalmente da Velha Hollywood, que eu amo até mais que os da Nova. Mas foi bom finalmente entrar em contato com as obras de John Cassavetes, além de ter o prazer de conseguir dois filmes raros de Carlos Reichenbach para ver. Mas a maior supresa veio de um filme brasileiro que não conseguiu espaço nos cinemas: NA CARNE E NA ALMA, de Alberto Salvá. Quem ainda não viu, faça esse favor a si mesmo.

ALÉM DAS MONTANHAS, de Cristian Mungiu
AMOR, PALAVRA PROSTITUTA, de Carlos Reichenbach
ASSIM FALOU O AMOR, de John Cassavetes
BANG BANG, de Andrea Tonacci
CAÇADOR DE ASSASSINOS/DRAGÃO VERMELHO, de Michael Mann
CLÉO DAS 5 ÀS 7, de Agnès Varda
FACES, de John Cassavetes
INSTINTO MATERNO, de Călin Peter Netzer
MENINA BONITA, de Louis Malle
MEU NOME É...TONHO, de Ozualdo Candeias
NA CARNE E NA ALMA, de Alberto Salvá
O MELHOR PAI DO MUNDO, de Bobcat Goldthwait
O SÉTIMO CONTINENTE, de Michael Haneke
PASSION, de Brian De Palma
REINO ANIMAL, de David Michôd
SEGREDOS DE SANGUE, de Chan-wook Park
STEEKSPEL, de Paul Verhoeven
ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci
UM DIA NA VIDA, de Eduardo Coutinho
UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, de John Cassavetes

Revisões

Curiosamente, no mesmo ano em que eu vi poucos filmes em casa, aumentei ainda mais a lista de revisões. Conversando com um senhor cinéfilo certo dia ele me falou que, devido à idade, não tem mais tempo de vida para ficar revendo filmes. Sua sede é para descobrir filmes que ainda não viu. Bem que eu queria ter uma memória boa para dizer o mesmo, o que não é o caso, já que boa parte desses filmes que revi foram por necessidade mesmo. Ver a maioria deles foi como se fosse a primeira vez. Pra completar, houve a chance de ver alguns clássicos no cinema, o que ajudou a aumentar a lista de 11 (no ano passado) para 17.

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, de Mike Nichols
BACKBEAT – OS 5 RAPAZES DE LIVERPOOL, de Ian Softley
BYE BYE BRASIL, de Carlos Diegues
FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis
JACKIE BROWN, de Quentin Tarantino
LARANJA MECÂNICA, de Stanley Kubrick
MORANGOS SILVESTRES, de Ingmar Bergman
O BEIJO DA MULHER ARANHA, de Hector Babenco
O FRANCO ATIRADOR, de Michael Cimino
O GAROTO, de Charles Chaplin
O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman
PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA, de Quentin Tarantino
SANGUE RUIM, de Leos Carax
SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, de Steven Soderbergh
SHOWGIRLS, de Paul Verhoeven
SOBRE ONTEM À NOITE..., de Edward Zwick
UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock

Feliz ano novo!

Desejo aos leitores um excelente 2015, com mais tempo e mais condições para nos realizarmos nos mais diversos campos da vida e encontrarmos aquilo que mais se aproxima da felicidade terrena. Que seja um ano que possamos cuidar melhor de nós mesmos e daqueles que amamos. E que para nós, amantes da arte, seja também um ano com mais tempo para vermos mais e melhores filmes, lermos mais e melhores livros, ouvirmos mais e melhores discos. Pois a vida sem a arte fica vazia.

terça-feira, dezembro 30, 2014

SEIS FILMES DO NOVO CINEMA BRASILEIRO



Pode ser que eu esteja forçando a barra colocando estes seis cineastas, com obras totalmente diferentes uma da outra, no mesmo saco. Eles não fazem parte de um movimento ou algo do tipo ou moram numa mesma região do país. Mesmo assim é possível estabelecer uma interseção pelo caráter de novidade e frescor que essas obras trazem, além do fato de serem todos dirigidos por cineastas jovens e com propostas que fogem do que se costuma ver no cinema mais tradicional. Falemos um pouco dos filmes, então. Todos foram vistos no Cinema do Dragão.

ELES VOLTAM

A estreia na direção de Marcelo Lordello apresenta um cineasta de talento tratando do tema do abandono e do modo como uma jovem (Maria Luiza Tavares) tenta sobreviver longe dos pais e da família quando é deixada na estrada. ELES VOLTAM (2012), ao mesmo tempo em que mostra uma protagonista à deriva e descobrindo um mundo novo, trata também da questão da solidariedade de um povo simples a uma jovem menina branca e rica que se encontra perdida. Embora tenha gostado da narrativa cuidadosamente lenta e do bom desempenho dos não-atores, falta ao trabalho de Lordello algo que eu ainda não sei explicar muito bem para que se tornasse um grande filme. Ainda assim, é certamente um diretor a se prestar atenção.

O MENINO E O MUNDO

O desenho animado de Alê Abreu é tão cheio de abstrações que chega a ser um pouco difícil falar a respeito, principalmente tendo passado tanto tempo que o vi pela primeira e única vez. O que não dá pra negar é o quanto O MENINO E O MUNDO (2013, foto) representa um salto em nosso cinema de animação, optando ao mesmo tempo por traços simples (o personagem principal é apenas um rabisco), mas ao mesmo tempo sofisticados. Há colagens surpreendentes, como imagens em estilo documentário e inserção de carros feitos em computador nos traços. A proposta é mais ambiciosa: mostra um país em desarranjo social, com uma trilha sonora de Emicida, que tanto bem tem feito pela música de reflexão da coletividade. O filme fala de muita coisa: fábricas, artistas de rua, a pobreza etc. Destaque também para o excelente desenho de som.

UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA

Este road movie existencial cerrano poderia ser mais interessante. E acho até que começa muito bem, ao mostrar os primeiros contatos do protagonista Pedro (Vinícius Ferreira) com o homem de espírito nômade Lucas (Marat Descartes). UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA (2013), de Gustavo Galvão, traz alguns experimentos formais em sua narrativa, mas não é isso que fica na memória. O que mais fica é mesmo o encontro desses dois homens: um em busca de liberdade, o outro em busca de alguém com quem viver a sua própria liberdade. Surge uma amizade meio torta, se é que dá pra chamar de amizade, já que Lucas se mostra um sujeito perigoso aos olhos de Pedro. Em meio a uma trilha sonora que mistura punk rock e jazz, o filme vai seguindo seu caminho tortuoso. Gustavo Galvão se mostrou um cineasta inquieto e este é seu segundo longa. O anterior se chama NOVE CRÔNICAS PARA UM CORAÇÃO AOS BERROS (2012).

VENTOS DE AGOSTO 

Provavelmente VENTOS DE AGOSTO (2014) é o filme que eu mais gosto desses seis aqui apresentados. Gabriel Mascaro, depois de uma experiência com documentários, sendo o anterior DOMÉSTICA (2012), de grande repercussão nos festivais, se aventura agora no terreno da ficção, ainda que não tenha de todo largado o registro de documentário, que se mistura à narrativa ficcional de um casal que vive em uma pequena cidade litorânea de Alagoas. A moça tatuadora e fã de punk rock vive insatisfeita com aquele lugar e só mora lá por que tem de cuidar da avó. O rapaz trabalha com ela entregando cocos – e no meio disso costumam transar na paisagem verde de cocos. Ele, ainda que resistente a mudanças, fica obcecado com o cadáver de um desconhecido que aparece na praia. O lugar, de difícil localização, complica a chegada da polícia ou de alguém para levar o corpo, que fica do lado de fora de sua casa durante dias. Unindo sensualidade com reflexão existencial, VENTOS DE AGOSTO teve uma boa campanha nos cinemas, tendo alcançado até as salas de shopping. Além do mais, seu belo cartaz deu o que falar.

GIRIMUNHO 

A chance de ver o tão celebrado GIRIMUNHO (2011), de Clarice Campolina e Helvécio Marins Jr., veio com uma mostra recente ocorrida no Dragão do Mar, com presença da diretora Clarice. A mostra era dedicada aos filmes da produtora cearense Alumbramento, mas GIRIMUNHO ganhou espaço por ter um dos técnicos presentes na produção. Trata-se de mais um filme que mistura o documental e o fictício, só que bem mais radical, já que todos os personagens são interpretados por pessoas de uma pequena cidade do norte de Minas Gerais. Aliás, eles interpretam a si mesmos. Há uma fusão entre o que ocorreu de verdade em suas vidas e uma tentativa de seguir um roteiro. A trama gira em torno de duas mulheres idosas, Bastu e Maria do Boi. O sobrenatural é um elemento bastante presente no filme, seja pela "presença" do fantasma de alguém recém-falecido, seja pelo folclore que remete a uma certa mitologia perdida no tempo.

MEDO DO ESCURO

Ver MEDO DO ESCURO (2014), de Ivo Lopes Araújo, no cinema, do jeito que foi projetado, é uma experiência única, gostando-se ou não do filme (e da experiência). Foi o filme-surpresa da Mostra Alumbramento e tomou-se todo um cuidado para se criar uma atmosfera de mistério na sala, toda escura e com uma música ao vivo ao fundo de caráter assustador. Essa música seria a trilha sonora do filme mudo que nos seria apresentado em primeira mão. O som das caixas de som implantadas era tão alto que reverberava em nossos corpos, com seus graves potentes. Quanto ao que se via na tela, vejo mais tentativas de se chegar a um cinema onírico do que sucesso. Ainda assim, há alguns momentos brilhantes, fruto de experimentações com a câmera. A mistura de horror com ficção científica apocalíptica nem sempre funciona, mas não deixa de ser curioso para quem mora na cidade e reconhece as locações. Ivo Lopes Araújo já é um dos maiores nomes da fotografia de cinema no Brasil (basta ver seu currículo) e tem buscado também o caminho da direção cinematográfica.

domingo, dezembro 28, 2014

ÊXODO – DEUSES E REIS (Exodus – Gods and Kings)



Dos cineastas veteranos que ainda fazem superproduções em Hollywood, Ridley Scott é, curiosamente, um dos que mais têm sido alvo de críticas, tanto dos especialistas quanto do próprio público. E apesar de ter dirigido duas lindas obras tortas mas cheias de vigor como PROMETHEUS (2012) e O CONSELHEIRO DO CRIME (2013) nos últimos anos, infelizmente ele errou a mão feio no novo ÊXODO – DEUSES E REIS (2014), uma de suas obras mais problemáticas.

A comparação com NOÉ, de Darren Aronofsky, é inevitável, já que ambos são os dois filmes bíblicos mais ambiciosos do ano. Porém, enquanto Aronofsky teve a coragem de tornar a história do dilúvio ainda mais fantástica e apresentar um protagonista próximo de um psicopata, Scott não parece nem mesmo saber o que quer em seu épico sobre parte da história de Moisés, o profeta mais importante do Judaísmo.

Diferente de OS DEZ MANDAMENTOS, de Cecil B. DeMille, ÊXODO – DEUSES E REIS não tem a intenção de mostrar de maneira mais detalhada uma história mais extensa de Moisés, aqui vivido por Christian Bale. Não vemos, por exemplo, a cesta sendo deixada com o bebê indo parar nas mãos da filha do Faraó. Também não há espaço para a voz de Deus. Ou um deus nos moldes dos antigos épicos bíblicos. Ao que parece, isso se tornou quase proibitivo, além de bem anacrônico, para o cinema que se produz hoje.

Então, neste mundo esquecido por Deus, a opção em ÊXODO é mostrá-lo na figura de um garoto, embora fique a dúvida se se trata realmente de Deus ou de um mensageiro. De todo modo, não deixa de ser curioso e remete ao diabo mostrado como uma menina em A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Martin Scorsese. Scott prefere deixar para o espectador decidir se Moisés estava mesmo falando com Deus ou se ele era uma espécie de esquizofrênico.

Mas isso se torna bem problemático quando é preciso mostrar as sete pragas e o povo atravessando o Mar Vermelho. Assim, por mais que seja criativa a forma como ele faz as águas ficarem manchadas de vermelho, as demais pragas adquirem mesmo um caráter fantástico. Mas o pior mesmo é a cena da travessia no Mar Vermelho, totalmente broxante, se pensarmos em quão fantástica é a versão de DeMille. Ao tentar fazer algo mais "realista", talvez por culpa de um roteirista ateu, quem sabe, o resultado foi pífio. E embora o roteiro seja ridículo em diversos momentos, a direção de Scott não compensou em instante algum.

E há um problema de casting impressionante. Para que escalar uma atriz do porte de Sigourney Weaver se é para lhe oferecer falas escassas e extremamente bobas? A essa altura ela ainda deve estar chateada com o diretor de ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (1979), mesmo ela tendo sido alçada à fama graças a Scott. A conversa sobre a maternidade e origem de Moisés - uma das poucas em que ela participa - é bastante confusa, o que dá a entender que muita coisa deve ter ficado na sala de edição.

Aaron Paul, como Josué, é outra escalação infeliz. O ator parece não ter se livrado de seu personagem viciado e malandro de BREAKING BAD. Só faltou dizer um "yo" em meio a uma conversa com Moisés. E nem é preciso falar de Ramsés, vivido por Joel Edgerton (de GUERREIRO), um exemplo de como não se criar um antagonista. E, meu Deus, pra que colocá-lo frente a frente com Moisés no final, novamente?

Pode-se atribuir uma das falhas do filme à edição, já que as duas horas e meia de projeção passam de maneira bem travada e as elipses ao final passam uma impressão clara de terem sido feitas às pressas, como para arranjar uma conclusão mais ou menos satisfatória, já sabendo que seria quase impossível salvar a produção.

Felizmente há poucas cenas de batalha, pois as que Scott tenta dirigir no começo são bem constrangedoras, lembrando as edições picotadas de GLADIADOR (2000), só que um tanto piores. Há uma cena de uma lança atravessando um homem que é tão ruim que parece teatro infantil. A melhor coisa do filme acaba sendo a beleza encantadora da espanhola María Valderde, que interpreta Séfora, esposa de Moisés.

Mais sorte no próximo projeto de Scott, pois se trata de um cineasta talentoso, apesar dos altos e baixos. Ele costuma se sair melhor em projetos com orçamento menor e com mais ênfase nos personagens.

quinta-feira, dezembro 25, 2014

O ABUTRE (Nightcrawler)



Um dos últimos grandes títulos a entrar em cartaz no circuito brasileiro em 2014, O ABUTRE (2014), estreia do roteirista Dan Gilroy na direção, é desses filmes que nos deixam com os olhos grudados na tela do início ao fim, e que traz um protagonista que está longe de ser um exemplo de ética e dignidade, mesmo que possa ser um exemplo de determinação e criatividade. Jake Gyllenhaal, indicado ao Globo de Ouro 2015 pelo papel, encarna um dos personagens mais memoráveis e sombrios de sua carreira, depois de ter flertado com as sombras em OS SUSPEITOS e O HOMEM DUPLICADO, ambos de Dennis Villeneuve.

O ABUTRE nos leva ao mundo das pessoas que ganham dinheiro com a desgraça alheia: as pessoas que trabalham em noticiários policiais sensacionalistas do tipo "quanto mais sangue melhor" e aqueles que saem à noite à procura de acidentes fatais, roubos, assassinatos etc. Quanto mais impactantes as imagens, melhor o cachê. E é assim que Lou Bloom, o personagem de Gyllenhaal, começa a ganhar sua vida. De ladrão barato, ele salta para dono de uma empresa captadora de notícias.

Lou Bloom é um exemplo de personagem que conquista a plateia, apesar de suas ações terríveis e no modo como ele trata seu empregado (Riz Ahmed, ótimo) e a editora-chefe de noticiários sensacionalistas de uma rede pequena de televisão, vivida por Rene Russo. Em nenhum momento Bloom tem qualquer sentimento de culpa ou escrúpulos. Ele não sabe lidar com pessoas e sua obstinação é tão doentia que para ter uma mulher ele é capaz de agir como um criminoso, revelando mais ainda o seu caráter de sociopata. A atuação de Gyllenhaal é auxiliada por sua magreza, conseguida especialmente para deixar o personagem com o rosto anguloso e os olhos esbugalhados.

Como exemplo de absorção entre personagem e narrativa, o filme se mostra tão cínico quanto o protagonista quando ele, dentro da rede de televisão, começa um discurso de homem trabalhador e exemplo do que há de melhor na sociedade americana e uma trilha sonora solene é ouvida ao fundo. Em sua maior parte, porém, a trilha de James Newton Howard, colaborador habitual de M. Night Shyamalan, está a serviço do suspense.

Outro grande destaque na parte técnica é o diretor de fotografia Robert Elswit, colaborador dos filmes de Paul Thomas Anderson. Se em SANGUE NEGRO ele havia imprimido as trevas na tela por meio da pouca luz e do simbolismo do petróleo, Elswit faz isso novamente: o sangue também é negro nessa Los Angeles noturna, fria e desprovida de amor.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

THE AFFAIR – PRIMEIRA TEMPORADA (The Affair – Season One)



Uma das melhores surpresas dentre as novas séries de televisão do ano, THE AFFAIR (2014) se destaca menos pela história e mais pela sua estrutura. Não apenas pela divisão em partes que mostram as versões da história dos pontos de vista de Noah (Dominic West) e Alison (Ruth Wilson), mas em lidar com a noção de verdade e mentira na imagem impressa, uma vez que descobrimos, já no primeiro episódio, que não devemos confiar inteiramente em nenhuma das duas versões apresentadas, como numa espécie de RASHOMON contemporâneo.

Na trama, Noah é um professor de escola, pai de uma grande família (quatro filhos – duas crianças e dois adolescentes), que vai passar as férias com os filhos e a esposa Helen (Maura Tirney) em uma pequena cidade do estado de Nova York, lar dos pais ricos de Helen. O local é cheio de casas de praia, mas tem uma história própria, que abriga também alguns segredos sombrios, como praticamente toda pequena cidade tem.

É neste local paradisíaco que Noah conhece a garçonete Alison, uma mulher que ajudou a evitar (de maneira mais ou menos ativa, dependendo de cada versão) que um dos filhos de Noah e Helen morresse engasgado. Curiosamente, a primeira parte, centrada em Noah, o mostra passando por uma espécie de fase de sucesso com as mulheres. Todas olham para ele ou se mostram interessadas pelo menos em um sexo sem compromisso. Só isso já dá pra desconfiar um pouco, já que o personagem, ou mesmo o ator Dominic West, não é nenhum galã.

A história de Alison é mais marcada por uma tragédia relativamente recente, a da morte por afogamento de seu filho pequeno. Desde então, ela não tem conseguido se sentir à vontade com o marido Cole (Joshua Jackson). Isso é uma justificativa por sua fuga, não apenas do casamento, mas da vida que leva, o que acabou facilitando sua entrega a Noah, que representa uma aventura totalmente nova que veio a se transformar em paixão. Ou algo doentiamente parecido.

O affair dos dois demora um bom tempo daquelas férias, enquanto a mulher só reclama da falta do marido em seus deveres conjugais. Ele não consegue parar de pensar em Alison. Interessante como a atriz Ruth Wilson entrega uma personagem cheia de nuances, em cada versão da história.

A narrativa é um primor e faz com que queiramos ver um episódio atrás do outro, como um vício. Quanto à questão da mentira ou das diferentes versões (ou complementos) das histórias, ela se ajusta bem a outro trabalho da dupla de criadores Hagai Levi e Sarah Treem, EM TERAPIA (2008-2011), que ao mostrar pessoas falando sobre suas vidas para um psicanalista também lida com o território da dúvida.

Um dos elementos que também se destaca em THE AFFAIR é a sensualidade. As várias cenas de sexo, que se não são tão gráficas, são bem passionais e cheias de beleza e desejo. Destaque para uma sequência em que Noah faz Alison ter um orgasmo apenas usando suas mãos, enquanto ao fundo vemos a bela praia. Ainda assim, é sempre bom dizer que a série, como trata de um relacionamento proibido, também traz uma atmosfera de suspense e perigo, além de ter uma subtrama envolvendo um crime ocorrido.

THE AFFAIR foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias de melhor série (drama), melhor ator (drama) para Dominic West e melhor atriz (drama) para Ruth Wilson. A série foi renovada pelo canal Showtime para uma segunda temporada.

terça-feira, dezembro 23, 2014

HOMELAND – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Homeland – The Complete Fourth Season)



Com uma terceira temporada totalmente sem rumo e à beira do abismo, HOMELAND consegue se reinventar brilhantemente nesta quarta temporada (2014). Se bem que o termo "à beira do abismo" funcionaria perfeitamente para descrever os eventos narrados nos 12 novos episódios, centrados em Carrie Mathison, vivendo situações tão ou mais dramáticas do que nos tempos de Adrian Brody. Muita gente, inclusive, duvidava que a série conseguiria se reerguer com a falta de Brody. Na verdade, ele a estava atrapalhando. Não havia mais espaço para seu personagem.

Colocar Carrie no Paquistão enfrentando terroristas do Afeganistão foi uma decisão muito mais acertada, funcionando como um reboot para a série. A questão da bipolaridade foi novamente muito bem trabalhada, assim como a solidão da personagem e a incapacidade de ser mãe, enfatizada no segundo episódio, um dos poucos que se passam nos Estados Unidos.

A série já acerta no primeiro episódio, quando a questão ética sobre o assassinato de pessoas associadas aos rebeldes xiitas é posta em questão. A própria Carrie é vista como uma espécie de vilã no começo, apontando drones que matam covardemente dezenas de pessoas. A ética também entra em questão quando a personagem, para conseguir chegar a determinado líder terrorista, entra em contato com um jovem estudante de medicina, chegando a seduzi-lo. É como se Carrie tivesse vendido à alma ao diabo ou coisa parecida.

Quem cresceu bastante nesta temporada foi Peter Quinn (Rupert Friend), agente que tanto ajudou Carrie e Saul nas temporadas passadas, que sempre teve um crush pela agente, mas nunca arranjou espaço para se aproximar. Quinn é outro personagem consumido pela angústia, pela inquietude e pela solidão. Tanto ele quanto Carrie buscam paz de espírito no inferno que é enfrentar situações extremamente perturbadoras e perigosas como as apresentadas ao longo da temporada. Inclusive, Quinn ganhou tanto espaço em cena e nos corações dos espectadores que chegou a eclipsar um personagem querido como Saul (Mandy Patinkin).

Uma das grandes qualidades de HOMELAND, e desta temporada especialmente, é saber equilibrar momentos de pura tensão capaz de nos fazer perder o sono, como na maioria dos episódios, com momentos de extrema sensibilidade e dor, como os mostrados nos episódios "Trylon and Perisphere" (o segundo) e "Long Time Coming" (o último), adentrando a alma de seus personagens, dando uma profundidade que outras séries (e filmes) de espionagem e suspense não conseguem.

HOMELAND foi indicado ao Globo de Ouro na categoria melhor atriz (drama). E Carrie Mathison é, definitivamente, o grande papel da carreira de Claire Danes. 

sábado, dezembro 20, 2014

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstället)



Algumas pessoas têm uma sabedoria especial em lidar com as frustrações da vida. Como se elas já nascessem sabendo aproveitar cada oportunidade, sabendo o timing certo para dar o próximo passo de modo que a vida seja gentil com elas. Outras, no entanto, e creio estar enquadrado neste grupo, costumam sempre pensar naquilo que poderiam ter feito e não fizeram por algum motivo. No meu caso, tive/tenho o obstáculo da timidez, que quase sempre fez com que eu hesitasse. Há também os atos impulsivos, tomados no calor do momento, e que às vezes são tão ruins quanto não tomar uma decisão.

Aproveitando este momento de remoer o passado, ainda que um passado bastante presente, falo de MORANGOS SILVESTRES (1957), filme feito por um cineasta jovem, mas de espírito velho, tanto que seu alter-ego, digamos assim, chamado Isaak, é um senhor septuagenário (Victor Sjöström) que volta ao passado através da memória durante uma viagem de carro. Sua vida de êxito social (ele está prestes a receber uma homenagem, um título de Doutor Honoris causa em Lund) não compensa aquilo que tanto lhe aflige o espírito: o fato de que ele não é feliz.

Essa viagem melancólica pela juventude, quando encontra a garota por quem era apaixonado (Bibi Andersson) e que acabou se casando com seu irmão, se mistura também com um certo cansaço da vida, uma amargura. O próprio personagem se queixa de estar vivo, assim como sua mãe de 96 anos e seu filho de 48. É um quadro bastante depressivo, embora o filme possua até uma leveza, se comparado com GRITOS E SUSSURROS (1972) ou PERSONA (1966), que lidam mais explicitamente com a questão da depressão.

Aqui não é exatamente uma depressão, mas uma melancolia sombria. Tanto que o início do filme traz uma das sequências de pesadelo mais antológicas do cinema. Nela, Isaak caminha por uma rua deserta e vê um carro funerário que perde a roda e deixa cair um caixão. Dentro do caixão, para seu horror, ele encontra o seu próprio cadáver. E esse cadáver o pega pela mão e tenta levá-lo para dentro do caixão. Assim, a própria homenagem que Isaak vai receber tem um caráter fúnebre, como se fosse sua despedida da vida, uma maneira de lhe avisarem que o seu tempo por esse mundo já passou. Curiosamente, no mesmo ano Bergman dirigiu outro filme sobre a morte, O SÉTIMO SELO (1957).

MORANGOS SILVESTRES exige um estado de espírito calmo e propício para sua devida apreciação, mas nem por isso é um filme difícil, hermético. Ao contrário, é uma das narrativas de Bergman mais agradáveis de acompanhar, como se o cineasta estivesse se deixando levar pela fluidez da vida como um rio. E por uma sensação de que não adianta muito lamentar o que passou, embora lembrar aquilo que ainda representa tanto para si seja até bom para o espírito. Mesmo que a realidade esteja por perto para espantar a ilusão e a fuga, como na cena do espelho.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

SHOWGIRLS



Ultimamente tem me dado uma nostalgia, uma vontade de rever filmes que vi no cinema em fins dos anos 1980 e durante a década de 1990. SHOWGIRLS (1995) era um desses filmes a que eu ansiava tanto rever, até para ver se continuava gostando dele quanto eu gostei na época. E por ser uma obra que é tão malhada quanto cultuada, tanto visto quanto lixo quanto como luxo. E esse paradoxo está presente no próprio tom do filme, que ora parece genial, ora parece vagabundo.

É como se Paul Verhoeven, o nosso querido holandês maluco, quisesse brincar com filmes como FLASHDANCE – EM RITMO DE EMBALO, que, não por acaso, também foi roteirizado por Joe Eszterhas, que estava em parceria com Verhoeven desde o sucesso de INSTINTO SELVAGEM (1992). Era um roteirista quente, tanto no sentido de que estava sendo valorizado pela indústria, quanto pelo fato de estar aproveitando a moda de thrillers eróticos para se dar bem na indústria. Porém, nessa brincadeira, SHOWGIRLS acabou sendo o filme que jogou uma pá de cal em sua carreira. Felizmente, não em Verhoeven, que ainda faria mais dois filmes em Hollywood, antes de ser queimado (por causa de O HOMEM SEM SOMBRA, 2000) e ficar em banho-maria em sua terra natal.

Verhoeven brinca com as noções de bom e de mau gosto em SHOWGIRLS, contando a história de Nomi Malone, uma jovem mulher (Elizabeth Berkley) que tenta a sorte como dançarina em Las Vegas. Depois de ser enganada por um cantor cover do Elvis, ela perde tudo o que tem, mas conhece uma moça que lhe garante um lugar para morar e muito apoio moral. Porém, para sobreviver, ela acaba aceitando o trabalho de stripper e dançarina de lap dance.

Elizabeth Berkley foi mais um achado de Verhoeven, que sempre soube escolher muito bem mulheres bonitas para seus filmes desde a fase holandesa. Berkley é impressionante: ganha o espectador desde o começo e quando nos é apresentada a cena de seu primeiro striptease, quase temos um treco. E eu achando que não ia sofrer mais esse tipo de coisa, passado tanto tempo que eu vi o filme. Outras sequências eróticas memoráveis: a lap dance com o personagem de Kyle MacLachlan, a cena da piscina e o ensaio com o personagem de Glenn Plummer. Verhoeven ainda brinca também com o modo sádico e erótico com que são tratadas as mulheres que dançam com os seios à mostra: eles precisam estar "acesos". Adorável o nível de taradice do diretor. E em plena careta Hollywood.

Curioso notar uma sequência de grande carga emocional, que é o momento em que Nomi entra pela primeira vez no palco para fazer parte de um espetáculo prestigiado. O ponto de vista dela do palco, antes de entrar, lembra, guardadas as devidas proporções, a chegada dos soldados no planeta assolado por assustadores insetos gigantes no sangrento TROPAS ESTELARES (1997). O medo da personagem ao se apresentar pela primeira vez em um espetáculo que lhe era um sonho profissional tinha algo de assustador. É como se pudéssemos sentir também o frio na barriga.

Alguns momentos são mesmo risíveis, como as cenas de ensaio à FLASHDANCE, mas faz parte da brincadeira. Além do mais, SHOWGIRLS pode ser visto como a luta por sobrevivência na própria Hollywood, embora nos seja mostrada Las Vegas. É que no mundo do entretenimento hollywoodiano, há sempre alguém tentando puxar o seu tapete. E isso é mostrado com intensidade logo que a personagem entra naquele grupo de dança e acaba sujando também as mãos, devido ao ódio que nutre pela personagem perversa de Gina Gershon.

Rever o filme e lembrar do primeira vez em que o vi no Cine São Luiz, além de me alegrar muito, trouxe uma pontinha de saudade dos catárticos anos 90. E desse tempo em que Hollywood gastou uma fortuna com uma produção deliciosamente de "mau gosto". :)

quinta-feira, dezembro 18, 2014

UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (A Woman under the Influence)



Como diz uma canção do mundo livre s/a, "de vez em quando é bom falar dos fracassados". E poucos cineastas lidam tão bem e de maneira tão humana com personagens fragilizados e longe do ideal de felicidade quanto John Cassavetes. UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (1974) segue a linha de dramas que tentam se aproximar cada vez mais da vida e menos das fórmulas hollywoodianas de se buscar a emoção. Cassavetes nos coloca no centro das emoções e nos deixa atordoados sem entender direito o que são essas emoções.

Cá pra nós, no fundo eu ainda prefiro o jeito hollywoodiano, mas isso se deve, provavelmente, ao fato de eu já estar acostumado e talvez prefira em geral o caminho da fuga. Mas já sabemos que em Cassavetes não é isso o que acontece, embora ASSIM FALOU O AMOR (1971) se aproxime mais das comédias românticas e seja um filme mais leve do que os demais.

Um pouco mais longe da figura linda e elegante do trabalho anterior, Gena Rowlands não se importa em aparecer mais envelhecida, sem maquiagem e interpretando uma mulher com problemas mentais, mas com um amor imenso pelos filhos e pelo marido, embora já no começo saibamos que ela foi para a cama com outro homem, depois de uma noite de bebedeira. Mas isso, além de ser comum no cinema de Cassavetes – lembra de imediato FACES (1968) –, é também mais um elemento de aproximação com as imperfeições humanas.

E o interessante é que aos poucos vamos ficando mais acostumados e criando um carinho por esses personagens. Até mesmo os masculinos, que em algumas obras suas são mostrados como quase insuportáveis. Aqui é quase impossível não gostar de Nick, o personagem de Peter Falk, um homem que ama tanto sua esposa Mabel, que sente raiva quando os amigos tentam pelo menos insinuar que ela é louca.

Assim como outros trabalhos do diretor, há uma predominância de planos longos, como a cena do café da manhã com espaguete, a tentativa de internar Mabel ou a sua chegada do hospício. Essa última cena, aliás, é uma das mais tocantes de toda a carreira do diretor. É quando Gena Rowlands mostra toda a complexidade e a riqueza de sua personagem, flutuando entre a busca por um comportamento aceitável para a sociedade e uma fragilidade imensa, como se ela não pertencesse àquele mundo, tão cheio de regras.

Curiosamente o filme quase não foi lançado por não conseguir distribuidor e até mesmo foi inicialmente rejeitado no Festival de Nova York. O curador do festival havia dito que o filme era o maior pedaço de merda que ele já havia visto. UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA só passou no festival graças ao pedido de Martin Scorsese, que defendeu Cassavetes até o último minuto.

quarta-feira, dezembro 17, 2014

O HOBBIT – A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS (The Hobbit – The Battle of the Five Armies)



Finalmente os esforços de Peter Jackson foram recompensados no grau de satisfação que este último capítulo da saga O Hobbit proporcionou aos fãs. O HOBBIT – A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS (2014) possui inúmeras qualidades. Apesar de começar exatamente onde parou A DESOLAÇÃO DE SMAUG (2013), com o ameaçador dragão Smaug devastando a pequena cidade próxima à montanha onde ele repousava antes de ser acordado pelos anões e por Bilbo (Martin Freeman), este episódio, ainda que muito bom, é rapidamente visto como apenas um prólogo, antecedendo o título do filme.

A partir daí é como se A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS começasse de fato. E realmente é, sendo que a principal preocupação dos heróis agora é a "doença do ouro" afetou a mente de Thorin (Richard Armitage), o líder dos anões que passa agora a ficar com a mente nublada e perturbada a ponto de não pensar em mais nada a não ser repousar sobre aquela grande quantidade de ouro. A luta principal é dele enfrentando esses demônios que assolam seu espírito.

Mas o grande diferencial de A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS é mesmo o ritmo non-stop da ação, com muitas batalhas. São praticamente duas horas de lutas entre anões, elfos, orcs, gigantes, humanos e há também um forte link com O SENHOR DOS ANÉIS ao mostrar Saruman (Christopher Lee) numa sequência com Galadriel (Cate Blanchett) e Gandalf (Ian McKellen). Aliás, o que é aquela cena de "Galadriel from hell", hein? Aquilo ali pode assustar plateias mais jovens. Intenso e assustador.

Porém, o que conta mesmo são as empolgantes cenas de batalha, que até chegam a ser tão boas quanto às de O SENHOR DOS ANÉIS – AS DUAS TORRES (2002). Mais até, se considerarmos a duração e a diversidade geográfica e de personagens. A bela e brilhante fotografia de Andrew Leslie, as lindas panorâmicas que fazem do ato de ver o filme no cinema uma experiência melhor do que ver em casa, e a trilha sempre bem cuidada de Howard Shore completam o capricho técnico.

Isso ajuda a compensar um pouco a falta de um maior interesse que temos pelos personagens. Quando um deles morre, por exemplo, poderíamos sofrer com isso, mas não é bem isso que acontece. Além do mais, Bilbo parece pouco presente em um filme que tem o seu nome no título. Ele parece um coadjuvante no meio da ação. Como ele próprio diz em algum momento, quando recebe um colete de prata de Thorin, ele é um hobbit, não tem a habilidade de lutar, como os anões e elfos. Mas certamente é isso que o aproxima do espectador, bem como o fato de ele não ser um herói perfeito – mente, rouba e trapaceia. Ainda assim, é o personagem mais nobre e querido.

Embora, como um todo, A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS seja o capítulo mais bem resolvido da trilogia, falta-lhe uma cena tão fascinante quanto a do encontro de Bilbo com a criatura Gollum em O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA (2012). Mesmo assim, Peter Jackson fez uma tarefa e tanto, adaptando com sucesso um livro pequeno em três filmes de longa duração sem que parecesse chato. E ainda convidando o público a querer rever a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Além do mais, sabemos que ele voltaria à Terra Média sem pensar duas vezes se lhe fosse dada a oportunidade.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

CINCO HISTÓRIAS DE AMOR



Os dias andam curtos, o coração anda apertado e a cabeça não anda lá muito boa. E, por causa disso, interrompo um pouco os estudos para escrever para o blog, mesmo que sejam minitextos curtos e rasteiros sobre cinco filmes. O que eles têm em comum é o fato de contarem sofridas histórias de amor, ainda que das mais diversas maneiras e em alguns casos misturando gêneros. A qualidade dos filmes varia entre bons e medianos.  

UMA NOVA CHANCE PARA AMAR (The Face of Love)

O filme passou em apenas duas sessões no mês de setembro e foi abraçado pelo Cinema de Arte em fins de novembro. Pelo menos quando eu o vi, em setembro, foi uma das raras vezes em que a projeção digital do Iguatemi estava satisfatória. Até achei que tinham resolvido os problemas. O que não foi o caso. UMA NOVA CHANCE PARA AMAR (2013), de Arie Posin, traz uma história que remete a UM CORPO QUE CAI, do mestre Hitchcock. A trama é intrigante. Annete Bening é uma viúva que, mesmo passado algum tempo da morte de seu marido, não consegue esquecê-lo. Um dia, vagando por um museu de arte, ela vê um homem idêntico a ele (Ed Harris). Para desespero do vizinho, vivido por Robin Williams, em um de seus últimos papéis. A graça do filme está mais em sua tensão do que nos sentimentos amorosos (e um tanto doentios) da protagonista.  

AMOR FORA DA LEI (Ain't Them Bodies Saints)

Já que eu falei de projeção digital no Iguatemi, deixo registrado aqui o caso deste filme, cuja projeção estava tão escura que mal dava para ver os personagens na tela. E nem se tratava de um filme tão escuro assim. Havia várias sequências que se passava durante o dia até. A história é interessante, mas o filme é pouco inspirado. AMOR FORA DA LEI (2013) carrega muitos elementos do western, podendo até ser classificado como um western tardio. A trama se passa no Texas, quando o fora-da-lei vivido por Casey Affleck, durante um tiroteio com a polícia, é preso, deixando grávida sua namorada (Rooney Mara). Passados alguns anos, ele foge da prisão com o intuito de fugir com ela, sem saber que ela está relutante com relação a isso. A tragédia é iminente. Creio que teria gostado mais do filme se o visse em circunstâncias melhores.

ANTES DO INVERNO (Avant l'Hiver) 

Eis um filme difícil de classificar. Pode-se dizer que seja um filme sobre traição, embora o personagem de Daniel Auteuil evite ter qualquer relação mais íntima com a jovem que aparentemente o persegue (Leïla Bekhti). Médico e casado com uma mulher atenciosa (Kristin Scott Thomas), ele sempre pensa duas vezes ao tentar evitar uma maior aproximação com a jovem, embora haja uma tensão de sua parte. A direção de Philippe Claudel, de HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO (2008), é firme e ANTES DO INVERNO (2013) é um trabalho sóbrio. Mas há algo que faz com que o filme não seja suficientemente bem-sucedido. Talvez falte à jovem mais apelo sexual para que sintamos mais na pele a situação do protagonista. O que não acontece.

O CIÚME (La Jalousie)

Para quem, como eu, viu de Philippe Garrel apenas AMANTES CONSTANTES (2005), é até um susto ver este O CIÚME (foto, 2013), um trabalho tão mais econômico e modesto. Garrel faz parceria novamente com o filho, Louis Garrel, que interpreta um jovem ator divorciado e em início de carreira no teatro que namora uma mulher mais velha (Anna Mouglalis), também atriz, mas sem trabalho. Ela aguarda um papel à altura. Apesar das dificuldades, os dois estão bem, embora não faltem momentos em que o relacionamento parece mesmo fadado a ruir. O filme reserva uma surpresa para o espectador, embora não seja nada assim tão impactante, pois não é da natureza da obra, que opta pela delicadeza. O uso da bela fotografia em preto e branco é outro elemento que conta pontos a seu favor.

O MELHOR DE MIM (The Best of Me)

Já existem tantos filmes baseados nos best-sellers de Nicholas Sparks que já daqui a pouco perderemos a conta. O MELHOR DE MIM (2014) sofre dos problemas da maioria dos filmes baseados nos romances desse escritor. No caso, até temos um bom diretor – Michael Hoffman, de SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (1999) e A ÚLTIMA ESTAÇÃO (2009) –, mas infelizmente ele não mudou os diálogos fracos e nem arranjou uma dupla de jovens atores bons. O que salva são os momentos dos personagens já maduros, vividos por James Marsden e Michelle Monaghan. Mas mesmo eles não conseguem sustentar a trama que envolve um relacionamento que acabou graças a uma desgraça ocorrida no passado. Vale ver pela Michelle Monaghan, que continua linda.

domingo, dezembro 07, 2014

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (sex, lies, and videotape)



Quase 25 anos depois de ver SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) no cinema, no saudoso Cine Center Um, de poltronas confortáveis, projeção linda e programação perfeita, bateu uma enorme vontade de revê-lo, até para ver se as sensações e os sentimentos que bateram forte em mim na primeira apreciação persistiriam. E o filme continua batendo forte sim nas emoções, embora já não seja tão excitante (no sentido erótico/físico mesmo) quanto foi quando eu era adolescente. O que é natural. Mas é excitante emocionalmente, principalmente nas conversas do personagem de James Spader e as duas mulheres, tão adoráveis quanto diferentes.

Embora Graham (Spader) seja o primeiro personagem a aparecer em cena, em seu carro, vestindo sempre uma camisa preta de manga longa e uma calça jeans azul (lembro que me identifiquei com ele por gostar de me trajar daquela forma também – aliás, até hoje gosto), a primeira cena pra valer é de Ann (Andie McDowell) conversando com o seu psicanalista. No pouco que ouvimos da conversa entre os dois, ela é muito retraída no que se refere ao sexo. Não acha grande coisa e diz que conseguiria viver sem. O marido, John (Peter Galagher), depois descobrimos, tem um caso com a fogosa irmã de Ann, Cynthia (Laura San Giacomo).

Embora o filme pinte John como um cafajeste – e, naturalmente, um mentiroso nato – não dá para resistir aos encantos de Cynthia, e de suas propostas tão excitantes, como transar no quarto da irmã, por exemplo. Mas esse caso extraconjugal e os problemas no casamento de Ann não são nada perto do que viria com a chegada de Graham, um sujeito com um pequeno problema: ele se diz impotente. Não consegue mais ter ereção perto de outra pessoa. Por isso filma depoimentos de mulheres sobre sexo (vida, desejos, memórias, fantasias etc.) para depois usar essas gravações para se masturbar.

Steven Soderbergh bem que poderia ter continuado a fazer filmes assim, intimistas, e ganhar um status mais forte de autor, como o diretor a quem ele homenageia, John Cassavetes. A falta de pressa na construção dos planos e dos diálogos lembra bastante o cinema do pai dos cineastas independentes americanos, embora já se perceba um minimalismo típico dos anos 1980. O que, de certa forma, ajuda bastante na fluidez do filme. Em nenhum momento os diálogos cansam. Ao contrário: o diretor até poderia estendê-los que seriam bem-vindos. Principalmente os momentos em que Ann e Cynthia se despem para a câmera de Graham. É fácil sentir o coração bater mais forte nesses momentos. Não apenas pelo fetiche de estar sendo filmado por um estranho, mas por envolver também outras emoções.

E no caso específico de Ann, então, a inversão de papéis chega a mexer demais com os sentimentos do espectador. Estamos diante de duas pessoas que têm sérios problemas de relacionamento e de se permitir doar para outras pessoas e que sabem que sentem atração um pelo outro. O filme deixa claro isso desde os primeiros momentos em que os dois conversam e Graham olha para ela com interesse e carinho. O final parece um tanto brusco e pouco realista, mas a ternura da cena final encanta gerações e gerações de apreciadores deste belo drama. SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE segue sendo o melhor filme de Steven Soderbergh até hoje.

sábado, dezembro 06, 2014

HOMENS, MULHERES E FILHOS (Men, Women & Children)



Na quinta-feira resolvi finalmente conhecer uma das salas VIPs recém-instaladas no complexo da Cinépolis do novo Shopping Rio-Mar. Ao mesmo tempo em que estava muito curioso para ver o grau de conforto da sala, queria ver também como se comportava o público, em um ambiente que diz que lugar de cinema também é para almoçar ou jantar. As instalações são muito bonitas e o espaço é agradável, mas há algo ali que me deixou desconfortável a ponto de eu querer ficar sentado (e não deitado) em mais da metade do filme. E, de preferência, com os pés no chão, o que nem sempre é possível pelo tamanho das poltronas reclináveis.

A ideia de ver o filme deitado até me passa uma ideia de pouco respeito para com a obra de arte – isto, levando em consideração que o filme é mesmo uma obra de arte. Quanto à comida, não tenho nada contra comer no cinema, mas aquele serviço de garçons me incomodou um pouquinho. Talvez por eu ser o único que não comprou nada lá.

Quanto à projeção, que é o mais importante, não há do que reclamar. Imagem perfeita, com tudo no lugar. O som poderia ser um pouco mais alto e potente, mas também não é baixo. Nos aspectos técnicos, é tudo muito bom. O filme escolhido foi HOMENS, MULHERES E FILHOS (2014), de Jason Reitman, cineasta que respeito bastante, embora não a ponto de achá-lo um dos melhores de sua geração.

Desde JUNO (2007) Reitman conquistou o seu lugar como cineasta classe A de Hollywood, com indicações ao Oscar e tudo. AMOR SEM ESCALAS (2009) repetiu o feito. Mas talvez o seu melhor filme seja mesmo JOVENS ADULTOS (2011), que foi esnobado pela academia, mas que lida com a questão da necessidade de autoafirmação e o sentimento de ser um perdedor numa sociedade que valoriza muito o ter e o ego.

HOMENS, MULHERES E FILHOS é um filme que tropeça na sua ambição de abarcar mais de uma temática, embora tudo seja incluído na intenção de pensar a sociedade de hoje, tão focada no mundo virtual que deixa escapar o mundo real. Tim, o personagem de Ansel Elgort (o jovem de A CULPA É DAS ESTRELAS) é talvez o mais representativo do elenco. Seus únicos amigos são virtuais, participantes de um jogo interativo.

Tanto ele como o pai sofrem com o abandono da mãe/esposa, mas ele quer acreditar que seus problemas não valem nada, pensando numa escala cósmica de que somos nada diante do universo que um dia vai deixar de existir. O rapaz tem alguém com quem contar no mundo real, Brandy (Kaitlyn Dever), uma garota que ele conhece na escola e que sofre perseguição da mãe (Jennifer Garner), quase uma psicopata em sua obsessão em proteger a filha de qualquer possível perigo vindo da internet ou do mundo real.

Um dos personagens mais curiosos é Don (Adam Sandler), um homem que tem passado por uma crise no casamento e encontra válvulas de escape em sites de pornografia, através da masturbação. Curiosamente, ele chega a conhecer alguns sites através do computador do filho adolescente, que também se acostumou tanto com o mundo virtual que tem dificuldades em lidar com os desafios sexuais do mundo real.

A curiosidade com relação ao personagem de Don é que ele é o único que tem o direito a uma narradora (Emma Thompson) para sua vida. HOMENS, MULHERES E FILHOS começa com ele e essa narradora, que se afasta dos demais personagens, em seguida, dando à narrativa um caráter ainda mais fragmentado. Porém, um dos problemas tanto da narradora quanto da própria narrativa como um todo é a tendência a tornar o filme moralista além da conta, mesmo mais à frente criticando o excesso de proteção da personagem de Jennifer Gardner.

Há outras duas subtramas interessantes, como a de duas garotas diferentes, mas com pontos em comum: uma delas não come para ficar muito magra e com isso conseguir um pouco de popularidade com os rapazes; a outra é incentivada pela mãe a fazer fotos sensuais que seriam postadas na internet para divulgação.

Neste filme-coral, sobra pouco espaço para aprofundamento dos personagens, mas Reitman tem bom domínio da narrativa e o filme é agradável de ver, embora passe sempre a impressão de estar dando uma lição de moral o tempo inteiro, especialmente com a narração em voice-over desnecessária.

Vale destacar a presença cameo de uma estrela pornô no filme: Tori Black, atualmente uma das mais famosas do ramo, e que tem lucrado bastante dentro da indústria dos filmes adultos. É interessante como de vez em quando Hollywood faz filmes que criticam o seu lado mais "pecaminoso". Foi assim com SHAME, LOVELACE e COMO NÃO PERDER ESSA MULHER, embora alguns poucos, como SEX TAPE – PERDIDO NA NUVEM, tenham encarado as ovelhas negras da família com mais carinho.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

UMA NOITE DE CRIME – ANARQUIA (The Purge – Anarchy)



Eis uma franquia nova e bem-sucedida, que traz uma premissa muito interessante, embora o resultado, como um todo, acabe deixando a desejar em alguns aspectos. Aconteceu com o primeiro UMA NOITE DE CRIME (2013), estrelado por Ethan Hawke, e acontece também com este segundo filme, UMA NOITE DE CRIME – ANARQUIA (2014), sem nenhum astro, mas com um resultado melhor do que o original.

O diretor James DeMonaco havia feito roteiros de filmes que primam pela tensão, como A NEGOCIAÇÃO (1998) e ASSALTO À 13ª D.P. (2005). Mas roteirizar é uma coisa, dirigir é outra. Ainda assim, tanto o primeiro quanto o segundo filme têm alguns ótimos momentos. Em UMA NOITE DE CRIME – ANARQUIA, destaca-se a primeira metade, em que novos personagens são apresentados e, diferente do primeiro filme, em que eles ficam dentro de suas casas, tentando defender seu território dos expurgadores assassinos, agora os protagonistas, por algum motivo, estão na rua, ainda mais expostos à ação dos assassinos.

Há o caso do sujeito misterioso (Frank Grillo) que sai de casa em seu carro blindado para uma missão; da mãe e filha pobres que são arrastadas por um grupo que invade a casa delas e as quer levar para algum lugar específico; e do casal que tem seu carro avariado e fica nas ruas à mercê do que pode acontecer. O sujeito misterioso, descrito apenas como "sargento", representa, para os demais personagens, a possibilidade de saírem vivos daquela noite em que matar ou praticar qualquer crime é permitido (e incentivado) pelo governo dos Estados Unidos.

Com um orçamento estimado em apenas 9 milhões de dólares e já tendo ultrapassado mais de 70 milhões só nos Estados Unidos, UMA NOITE DE CRIME – ANARQUIA é uma prova de que apostar no cinema de horror com uma boa premissa e uma boa divulgação é garantia de sucesso. Nem é preciso de nenhum astro hollywoodiano para servir de chamariz. Ou mesmo de bons atores. Basta conseguir captar momentos de tensão, suspense ou mesmo horror puro.

Este segundo filme, trazendo a teoria de que o governo financia a limpeza a fim de diminuir o número de pobres no país, acaba trazendo mais frescor ao universo criado por DeMonaco. Por outro lado, a ideia dos ricos se divertindo com a morte e o medo das vítimas não é tão original e lembra, para citar um exemplo mais recente, O ALBERGUE, de Eli Roth, que é bem mais visceral, perturbador e violento.

Ainda assim não se deve tirar o mérito de UMA NOITE DE CRIME – ANARQUIA, uma prova de cinema bom e barato. Sequência mais memorável e mais inquietante: a chegada na casa da amiga de uma das protagonistas.

domingo, novembro 30, 2014

SAINT LAURENT



Quanta diferença ver este SAINT LAURENT (2014) e a cinebiografia YVES SAINT LAURENT, dirigida por Jalil Lespert, também lançada este ano. O filme de Lespert tinha uma intenção bem maior de apresentar os fatos de maneira didática para que o espectador totalmente leigo na vida e na obra do estilista francês aprendesse um bocado. Por isso foi bom a versão de Bertrand Bonello ter sido lançada nos cinemas depois, uma vez que não só complementa o filme de Lespert, como também se mostra um trabalho bem mais bonito em todos os sentidos.

Bonello apresenta uma paleta de cores de encher os olhos, que transparece tanto nas cenas nas boates, nos anos 1960, quanto no último e ultracolorido desfile, de 1976, que de certa maneira fecha o recorte do filme, iniciado em 1967. Aqui não há espaço para os pais de Yves (Gaspard Ulliel) e os seus primeiros passos rumo à alta costura. O estilista já é um nome consagrado quando apresentado desde o início. Também há pouco espaço para o relacionamento dele com Pierre Bergé (Jérémie Renier), não apenas amante, mas o homem por trás das negociações da marca Yves Saint Laurent no mundo todo.

O curioso de SAINT LAURENT é o quanto o filme procura se fechar, não apenas não entregando tão facilmente seus personagens, mas também na maneira como a câmera mostra poucos planos gerais, preferindo planos fechados, fugindo do lugar comum de mostrar-se um plano mais aberto para só depois fechar o plano e em seguida mostrar close-ups.

Não há também muita preocupação em deixar o espectador totalmente consciente do que está acontecendo, embora também não seja um filme difícil de acompanhar. Inclusive, há um momento em que Bonello usa o split-screen para mostrar eventos importantes acontecendo no mundo, em paralelo com as passarelas. O uso desse recurso se mostrará ainda mais elegante perto do final.

Uma das cenas mais belas acontece em uma boate, na primeira aparição da beldade Aymeline Valade, que interpreta Betty, uma moça que desfila para um concorrente de Yves, mas que é convidada para trabalhar para ele e se torna uma das amigas queridas. Na referida sequência, Betty se mostra como uma deusa, ao mesmo tempo em que também vemos que ele só a escolhe porque se enxerga nela, numa espécie de transferência que os psicólogos descreveriam melhor. O fato é que a imagem daquela mulher se levantando para dançar na pista é apaixonante.

No entanto, o amor de Bonello pelas mulheres, muito bem mostrado em um de seus melhores trabalhos, L'APOLLONIDE – OS AMORES DA CASA DE TOLERÂNCIA (2011), é um pouco deixado de lado em SAINT LAURENT, já que ele precisa focar naquele personagem e seus relacionamentos afetivos com homens. Além de Pierre Bergé, passa pela vida de Yves também uma grande paixão, Jacques de Bascher, vivido com elegância e entrega por Louis Garrel. Jacques é o homem que ameaça não só a relação com Pierre, mas também a própria grife, já que a relação dos dois também está diretamente ligada ao uso de drogas e álcool.

E isso o filme de Bonello enfatiza bastante, fazendo com que algumas cenas emulem estados de espírito alterados por essas substâncias, bem como o próprio espírito da época – o ano de 1967, embora não seja o ano que os dois se conhecem, é conhecido como o ano mais lisérgico do século XX. Além do mais, o vício de Saint Laurent nas pílulas vêm de muito cedo, lembrando bastante a vida de outro nome importante da cultura pop, Brian Epstein, o empresário dos Beatles, que também era gay, enveredava por lugares sombrios à procura de aventuras e tomou pílulas até perder parte da sanidade mental.

No mais, há uma trilha sonora magnífica, que equilibra tanto as canções do mundo da contracultura ("I put a spell on you" toca em versão do Creedence Clearwater Revival e ouvimos "Venus in Furs", do Velvet Underground, em uma versão alternativa) quanto a música erudita – ouvimos Maria Callas em um dos pontos altos do filme. Além do mais, sair da sessão ao som de "Faithful Man", de Lee Fields & The Expressions, é animador.

sábado, novembro 29, 2014

BOA SORTE



BOA SORTE (2014) é o primeiro longa-metragem de ficção de Carolina Jabor, filha de Arnaldo Jabor e uma das sócias da Conspiração Filmes. Venceu o prêmio do público do Festival de Paulínia e tem uma simpatia e uma ternura que são bem-vindos. Afinal, histórias de amor são sempre atraentes. Só é preciso que tudo conspire para que o resultado saia satisfatório.

A trama acompanha o envolvimento de João, rapaz viciado em remédios, que vai parar em uma clínica psiquiátrica, e a paciente que lá encontra, uma garota que está morrendo em consequência da AIDS. O relacionamento gera alguns momentos especialmente emocionantes, tanto pela entrega física de Deborah Secco à sua personagem (ela emagreceu bastante para aparentar alguém doente) e a naturalidade com que lida com o papel, quanto pelo trabalho inspirado do jovem João Pedro Zappa, um pouco por ele não ser muito conhecido e não gerar associação de seu papel com outros trabalhos.

Na clínica, ele conhece o amor pela primeira vez com alguém que já aceitou a própria morte iminente. Mas que nem por isso se sente infeliz. Ao contrário, é Judite, personagem de Deborah, que traz felicidade para a vida do até então zumbi João, desde que os dois se conhecem até a amizade se transformar em um relacionamento mais íntimo. Porém, como é previsível, essa paixão está fadada a se transformar em dor.

A história é baseada no conto “Frontal com Fanta”, do cineasta Jorge Furtado, que assina o roteiro com seu filho Pedro, e é possível perceber um pouco da espirituosidade dos diálogos do diretor de MEU TIO MATOU UM CARA (2004) em alguns momentos. Talvez o filme ficasse até melhor se fosse dirigido por ele. Mas BOA SORTE é uma bela estreia, ainda que suas passagens mais dramáticas nem sempre sejam convincentes. Sorte é que o filme aposta mais na leveza e em momentos divertidos.

Duas atrizes mais maduras interpretam personagens importantes da trama: Cássia Kis Magro, como a psiquiatra da clínica, e Fernanda Montenegro, como a avó de Judite. Fernanda, como sempre, por mais que pareça se repetir um pouco, é responsável por momentos comoventes, principalmente quando contracena com Zappa. No mais, é desejar boa sorte para Carolina Jabor neste e nos próximos filmes que dirigirá.  

quinta-feira, novembro 27, 2014

O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet)



Muito boa a oportunidade que tive de rever O SÉTIMO SELO (1957), filme tão reverenciado por tantos cinéfilos e estudiosos do cinema, mas que não cheguei a apreciar de verdade quando o vi em VHS. No cinema e, ainda mais em película bem conservada e boa projeção, é outra coisa. É como se eu voltasse a ficar de bem com Bergman de novo, que durante algum tempo foi sempre aquele diretor que eu deixava pra ver depois, com calma, até por ele ter uma filmografia bem extensa.

O filme foi lançado na Europa logo após SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR (1955), obra que o consagrou e que, assim como O SÉTIMO SELO, teve passagem por Cannes. Hoje muitos acham injusto Bergman ter perdido a Palma de Ouro para SUBLIME TENTAÇÃO, de William Wyler, mas premiações têm dessas coisas. O que mais importa é o quanto o filme sobreviveu sem deixar de ser relevante e sem perder a sua força.

O SÉTIMO SELO só seria lançado nos cinemas brasileiros em 1974 e aí vemos o quanto temos sorte atualmente de ter em fácil acesso, nos sites de compartilhamento da vida e em ótima qualidade, toda a filmografia do cineasta à disposição. Basta querer. Sem falar no caminho legal, que é o das ótimas versões em DVD e BluRay da maioria de seus filmes à venda em lojas nacionais e estrangeiras.

Diferente de MORANGOS SILVESTRES (1957), que tem uma melancolia mais constante e muito presente, O SÉTIMO SELO equilibra o aspecto sombrio da presença da morte e da peste negra de uma Suécia medieval com momentos de humor, de leveza, em especial as cenas envolvendo a trupe de saltimbancos. Mas apesar da beleza de Bibi Andersson que faz uma personagem nessa trupe, o que mais chama a atenção mesmo é o drama de Antonius Block (Max Von Sydow), o cavaleiro que volta das cruzadas totalmente desiludido, após ter lutado em vão por uma religião cheia de falhas, enganações e outras atrocidades.

Diante da morte iminente, personificada por Bengt Ekelund, que lhe concede um tempo para uma partida de xadrez, ele procura o sentido da vida e a existência de Deus, já que sobre isso nem a morte sabia. Assim, não deixa de ser tocante o momento em que ele encontra uma jovem acusada de bruxaria e prestes a ser queimada na fogueira, para saber se ela teve contato com o diabo, de modo que ele pelo menos tivesse algum intermediário para encontrar Deus. Nem mesmo isso. Apenas o nada absoluto. Aliás, a cena da jovem queimando na fogueira lembra um pouco a da obra-prima DIAS DE IRA, do dinamarquês Carl Th. Dreyer, ainda que menos intensa.

Não só Antonius, mas praticamente todos os personagens de O SÉTIMO SELO estão destinados a sucumbir diante da morte, sendo poupados apenas um casal e o bebê da trupe, que representam o que há de puro na humanidade, uma amostra do humanismo do cineasta. O amor de Bergman pelo teatro também pode ter interferido na escolha e no carinho pelo casal, já que ambos são atores itinerantes de um circo.

E foi assim que eu fiz as pazes com O SÉTIMO SELO – ninguém merecia aquela cópia tosca em VHS da Continental – e fico na torcida para que arrange um tempo para me dedicar um dia à obra desse cineasta que influenciou de maneira forte a obra de dois dos meus diretores favoritos, Woody Allen e Walter Hugo Khouri. Não posso renegar o mestre e reverenciar tanto os discípulos.

sábado, novembro 22, 2014

TRÊS FILMES FRACOS

 

Ok, comparando com os blogs de outros colegas cinéfilos, este aqui até que não está tão abandonado. Mas desde já peço desculpas aos fiéis leitores ou aos ocasionais pelos textos meio atabalhoados. O tempo parece que tem estado do lado apenas do Mick Jagger esses dias. Mas vamo que vamo com uma postagem tripla e comentários rasteiros de filmes que não merecem mesmo muitas palavras.

ISOLADOS 

Sempre que vemos algum filme de horror brasileiro no circuito, não há como não torcermos por seu sucesso, tanto nas bilheterias quanto de produção artística. Infelizmente ISOLADOS (2014), de Tomas Portella, não é um de nossos melhores exemplares. Possui até alguns momentos que remetem a alguns filmes de horror e mistério de nosso grande mestre Walter Hugo Khouri (gosto especialmente da casa cheia de "janelas" no meio da floresta), mas no geral é um filme que procura apostar mais na atmosfera do que no roteiro e dá com os burros n’água. Na trama, um casal vivido por Bruno Gagliasso, um médico, e Regiane Alves, sua paciente com problemas de depressão, vai até uma casa situada em um local afastado da cidade justamente quando um terrível assassino de mulheres está à solta. O filme traz uma sucessão de clichês que só agradam mesmo os fãs de cinema de horror que não se importam tanto em ver obras ruins. Eu meio que me incluo nesse grupo, portanto, não vi a apreciação de ISOLADOS como uma perda de tempo, mas como mais um passo, ainda que errado, do cinema de horror no Brasil. Aos poucos, a gente chega lá.

O CANDIDATO HONESTO

Justo quando eu começava a simpatizar com Leandro Hassum, graças ao divertido VESTIDO PRA CASAR, eis que lá vem ele com mais uma parceria com o nefasto Roberto Santucci, o mesmo dos horríveis ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE (2012) e sua continuação (2013). O CANDIDATO HONESTO (2014) é uma versão mequetrefe de O MENTIROSO, comédia divertida com Jim Carrey. Na versão brasileira, Hassum interpreta um político corrupto que, da noite para o dia, depois de um encontro com sua avó moribunda, passa a ser incapaz de mentir ou de fazer qualquer ato imoral. Isso acaba por atrapalhar completamente sua campanha. O destaque aqui é o apelo para os palavrões, que até então não tinham aparecido nas comédias de Hassum. Acabou tornando o produto final ainda mais vulgar. E olha que eu não tenho nada contra palavrões. Eles apenas não combinaram em nada aqui neste filme que não tem nada que se aproveite.

FÚRIA (Tokarev / Rage)

É impressionante a quantidade de filmes em que Nicolas Cage se autossabota, como tivesse cometido um crime terrível e agora precisasse se purgar através de filmes ruins. Tudo bem que cinco anos atrás tivemos a oportunidade de vê-lo protagonizando VÍCIO FRENÉTICO, de Werner Herzog, mas é pouco em uma filmografia de cerca de três a quatro filmes por ano. Quando FÚRIA (2014) teve o seu trailer disponibilizado e o nome do pouco conhecido cineasta espanhol Paco Cabezas foi citado, imaginou-se que poderia ser uma espécie de resgate aos bons tempos de Cage, já que o cineasta tem dois filmes aplaudidos pela crítica – APARECIDOS (2007) e CARNE DE NEÓN (2010) – e talvez pudesse fazer alguma diferença no comando desse filme sobre morte, máfia e vingança. Na trama, Cage é um sujeito que já fez parte da máfia, mas que agora é um homem desligado dos negócios ilícitos. Quando sua filha é sequestrada, ele não vê outra alternativa a não ser ir em busca dos possíveis criminosos, da maneira mais violenta que pudesse. Se ao menos FÚRIA carregasse mais nas tintas da violência gráfica, talvez fosse um trabalho que chamasse mais a atenção, mas nem mesmo isso tiveram a coragem de fazer.

sexta-feira, novembro 21, 2014

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The Graduate)



Normalmente, quando um artista do cinema, principalmente um cineasta, morre, faço questão de ver algum de seus filmes como forma de homenageá-lo. Anteontem foi a vez de Mike Nichols nos deixar. Embora pouco valorizado dentro da política dos autores, trata-se de um diretor com uma carreira de destaque, que foi tanto relevante para ajudar a criar a chamada “Nova Hollywood”, justamente com este A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967), quanto por seus trabalhos mais convencionais feitos ao longo dos anos, mas que quase sempre traziam algo de especial. Não cabe aqui citar cada um de seus trabalhos, até por eu não ter visto todos, mas o caminho que ele trilhou foi marcante. Pode-se dizer que o seu último grande sucesso popular foi CLOSER – PERTO DEMAIS (2004), que angariou uma impressionante legião de fãs.

Quanto à sua contribuição para a "Nova Hollywood", eu achava que no livro Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood o escritor Peter Biskind tivesse dado maior destaque a esse clássico moderno, já que A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM foi responsável, junto com com BONNIE & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn, a iniciar oficialmente essa nova fase do cinema americano feito nos estúdios. Mas infelizmente não há muitas informações sobre o filme de Nichols no livro. Talvez por não ter muita fofoca e intriga em jogo.

Mas o que importa é o valor do filme, que além de ser retrato de uma revolução social de um país, é também uma obra de arte que resiste ao tempo e continua admirável e emocionante. Basta ver o começo, com um meditativo e dormente Dustin Hoffman dentro de um avião e depois saindo do aeroporto para sua casa, com a canção "Sound of Silence", de Simon & Garfunkel, ao fundo, para perceber que estamos diante de um filme especial. Aliás, a trilha sonora da dupla é fundamental para que a emoção tome conta da gente.

Na época, Hoffman já tinha 30 anos, mas convenceu muito bem na pele de Ben Braddock, um rapaz tímido e atrapalhado de 20. Recém-saído da faculdade, mas sem saber o que fazer da vida, sendo cobrado pela família e amigos da família, o rapaz que só queria fugir de tudo teve uma chance de ter uma guinada na vida ao ser seduzido por uma mulher casada e que teria idade para ser sua mãe, a Sra. Robinson, vivida com brilhantismo por Anne Bancroft. Todas as cenas envolvendo o relacionamento de Ben com aquela mulher são tratadas com muita inteligência por Nichols. Impossível esquecer a montagem acelerada de quando Ben vê pela primeira vez o corpo nu da Sra. Robinson e entra em pânico. Ou da primeira vez no hotel.

Mas o filme consegue melhorar ainda mais com a entrada em cena da filha da Sra. Robinson, Elaine, vivida pela belíssima Katharine Ross. Assim, pode-se dizer que o filme é dividido em lado A e lado B, sendo que o primeiro trata de sexo enquanto o segundo trata de amor. Elaine, apesar de ser uma moça proibida, acaba se tornando o grande amor e o verdadeiro sentido para a vida de Ben. A última cena dos dois é tão linda que consegue superar até mesmo aquilo que tentou representar. Não é maravilhoso quanto isso acontece?

quinta-feira, novembro 20, 2014

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA - PARTE 1 (The Hunger Games: Mockingjay - Part 1)



A terceira parte de JOGOS VORAZES é a primeira curva descendente de uma franquia que começou muito bem e prosseguiu surpreendentemente melhor em sua segunda parte, JOGOS VORAZES - EM CHAMAS (2013). Ter uma atriz bonita e talentosa como Jennifer Lawrence ajudou bastante a manter a chama acesa, mas sabemos que isso não é o suficiente. Foi uma soma de fatores que fizeram com que esta franquia mais dirigida ao público juvenil também caísse nas graças da crítica.

Não foram também os livros, que não têm, por exemplo, o mesmo prestígio da série Harry Potter. Porém, como tratam de outras questões que não há a magia, mas a ideia de uma sociedade distópica, como em outros clássicos da literatura – 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, são exemplos – as adaptações para o cinema da epopeia de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrecen) também despertam interesse de um público mais maduro.

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – PARTE 1 (2014) continua com Francis Lawrence na direção, depois da bem sucedida experiência com EM CHAMAS. Não temos mais uma repetição dos tais jogos, que aparecem no primeiro e no segundo filmes, mas uma trama envolvendo um bloco rebelde que foi sendo construído abaixo do Distrito 13 e que planeja utilizar o símbolo de vencedora e de rebelde de Katniss para desmantelar o poder autoritário da Capital e do Presidente Snow (Donald Sutherland).

O problema é que este novo filme não consegue repetir nem a mesma excelência do segundo nem o mesmo vigor do primeiro. Um dos motivos talvez esteja em ser uma obra incompleta, dependendo da segunda parte, mas isso não chega a ser uma grande desculpa, já que outras franquias conseguiram se sair muito bem com essa estrutura episódica. Logo, há, de fato, problemas tanto no roteiro, que é derivado de um livro considerado por quem leu como sendo inferior aos demais, e há também problemas de dramaturgia, com diálogos fracos e alguns momentos bem pouco inspirados.

Ainda assim, trata-se de um filme que tem o seu valor, não exatamente pela presença de Katniss, que aqui aparece mais chorando do que em ação, o que pode incomodar um pouco quem está acostumado a vê-la em ação nos outros dois filmes. Há uma sequência de bombardeiro bem interessante, mas é pouco. Assim, quem acaba brilhando mais são personagens secundários, como Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), que aparece liderando um grupo de rebeldes em uma cena digna de alguns bons filmes de espionagem.

Como a relação que se estabelece entre rebeldes e o governo é ainda de distanciamento, a presença de um especialista em invasão de redes de computador (Jeffrey Wright) acaba também sendo muito bem-vinda. Falando em excelente elenco, muito bom ver as breves participações de Philip Seymour Hoffman, que são mais do que se esperava, tendo em vista que algumas das falas de seu personagem foram cortadas por causa de seu falecimento em fevereiro, durante as filmagens. Do jeito que ficou, seu personagem continua bastante presente, exceto em uma sequência em que Julianne Moore, a presidente dos rebeldes, fala dele como se ele não estivesse mais entre nós, como numa aparente e discreta homenagem.

Outro problema de A ESPERANÇA – PARTE 1 vem desde o primeiro JOGOS VORAZES (2012), que é a falta de carisma do personagem Peeta (Josh Hutcherson), que fica retido na Capital, sendo usado pelos vilões como um joguete em programas de televisão feitos para abalar as estruturas emocionais de Katniss. O problema parece estar no ator que o interpreta, já que, dado o histórico do casal dentro dos jogos, deveria haver uma maior torcida da plateia pelos dois.

Depois do final pouco satisfatório, que já era de esperar que fosse com um gancho, resta aguardar a conclusão e torcer para que ela ajude a balancear os problemas deste terceiro filme. O que se espera é que Katniss se mostre novamente mais ativa e menos frágil. Não que a fragilidade de sua personagem não seja uma qualidade, mas sempre se espera mais da moça símbolo da resistência. De uma boa lembrança do filme, guardamos a canção que a própria Katniss/Jennifer Lawrence canta e que tem uma força e uma beleza admiráveis.

terça-feira, novembro 18, 2014

ASSIM FALOU O AMOR (Minnie and Moskowitz)



Depois da decepção que foi para mim OS MARIDOS (1970), com personagens masculinos chatos numa narrativa que parece não querer terminar, a impressão que eu tive com ASSIM FALOU O AMOR (1971), o trabalho seguinte de John Cassavetes, foi completamente oposta: embora não seja uma comédia romântica convencional, o filme é cheio de amor e tem uma leveza que não se costuma ver nos outros títulos do cineasta.

Ele continua mordendo e assoprando, mas há mais uma trégua para o espectador, já que o personagem masculino da vez é muito simpático e carismático. Seymour Moskowitz, vivido pelo velho amigo do diretor Seymour Cassel, é tudo o que não se esperaria de um par romântico. Desajeitado, feio, com uma barba e um bigode que passam um ar de sujeira, sem classe e sem dinheiro, ele acaba representando para a personagem, a adorável Minnie Moore, de Gena Rowlands, aquilo que ela não encontrou em homens ricos e cheios de cultura.

Aquele humilde atendente de estacionamento não se conforma em ser inferior na escala social à bela e elegante curadora de museu. E sua intenção em ganhá-la é tanta que ele tenta até no grito. Aliás, como se grita em ASSIM FALOU O AMOR. Um dos blind dates de Minnie (em cena brilhante de Val Avery), inclusive, é um sujeito que fala tão alto que incomoda. E faz rir.

E falando em fazer rir, é impressionante o quanto os limites entre o drama e a comédia são tênues no filme. Embora muitas vezes nos peguemos rindo de orelha a orelha, há momentos, em especial os que mostram a solidão e a carência afetiva dos personagens, que são de fato muito tocantes. Há uma cena que trafega entre o riso e o choro, que é a cena da caminhonete, perto do final.

Apesar de ser uma das obras mais "feel good" do diretor – provavelmente a mais, nesse sentido –, ASSIM FALOU O AMOR é uma screwball comedy que reinventa as histórias de amor. Não apenas por colocar um ogro no papel de um possível galã, mas também pela rejeição de Cassavetes à velha fórmula hollywoodiana das comédias românticas.

Seus personagens eternamente inseguros e amargos continuam presentes. E se uma cena tem muito romance, ele a coloca junto com um mix de ansiedade e incerteza que corrói a alma de seus heróis. Sempre que seus personagens estão ficando felizes, acontece algo para os deixarem tristes. É um filme raivoso e ao mesmo tempo delicado. E é nessas curvas sinuosas que Cassavetes nos presenteia com um de seus mais belos trabalhos.

domingo, novembro 16, 2014

DEBI & LÓIDE 2 (Dumb and Dumber To)



O tempo voa. Lá se vão 20 anos que DÉBI & LÓIDE - DOIS IDIOTAS EM APUROS (1994) revelou o talento dos irmãos Peter e Bobby Farrelly para o mundo, ainda que até hoje o filme seja um tanto estigmatizado como tão idiota quanto seus protagonistas. Ainda assim, independentemente do modo como é visto, trata-se de um filme que tem um bom séquito de fãs, inclusive de alguns intelectuais.

Até fizeram uma continuação em 2003, chamada DEBI & LÓIDE 2 – QUANDO DEBI CONHECEU LÓIDE, mas passou longe da popularidade do primeiro. Tanto por não ser dirigido pelos irmãos Farrelly como por também não ser protagonizado por Jim Carrey e Jeff Daniels, mas por dois jovens atores.

A necessidade de um DEBI & LÓIDE 2 (2014) "de verdade" veio em um momento particularmente propício para os principais envolvidos: os irmãos Farrelly andam com a popularidade em baixa – OS TRÊS PATETAS (2012) foi fracasso de público e crítica e PASSE LIVRE (2011) dividiu opiniões – e Jim Carrey também está apagado como comediante e protagonista desde SIM SENHOR (2008).

Outro possível agravante talvez fosse a boa repercussão de Jeff Daniels como ator sério graças à série jornalística e política THE NEWSROOM. Porém, como bom ator que é, ele conseguiria entrar no velho personagem bobão tranquilamente. O resultado: DEBI & LÓIDE 2 é um filme simpático e com alguns momentos que rendem boas gargalhadas, mas que ainda parece uma sombra do que foi o primeiro.

O filme acompanha o nosso tempo cronológico e se passa exatos 20 anos após o primeiro. Lloyd/Lóide (Jim Carrey) estava esse tempo todo em uma instituição para doentes mentais, sem sequer balbuciar uma palavra e agindo como um bebê. Em todo esse tempo, o fiel amigo Harry/Debi (Jeff Daniels) esteve visitando-o e até mesmo trocando suas fraldas. Só que um problema de saúde de Harry fez com que Lloyd acordasse de seu fingimento de 20 anos. O bom é que ambos acharam a pegadinha de Lóide sensacional.

E lá se vão os dois amigos em busca de um doador de um rim para Harry. A princípio, conversando com seus pais, depois, em busca de uma filha que supostamente ele teve nos anos 1990 com uma moça bem generosa de sua juventude. Ao procurar por ela, dão de cara com uma envelhecida Kathleen Turner, que já faz algum tempo não se importa mais em aparecer totalmente diferente do objeto sexual que foi no início dos anos 1980.

A busca pela filha rende umas boas piadas. E outras nem tão boas. A melhor delas talvez seja a que envolve fogos de artifício; outra bem boa envolve um trem. Assim, o filme vai tropeçando, mas mantendo a dignidade dos personagens originais. Pode-se dizer que em tempos de comédias fracas no cinema, DEBI & LÓIDE 2 se destaca como uma das mais engraçadas da temporada. E deve trazer o tão querido retorno à popularidade aos principais envolvidos.