segunda-feira, outubro 21, 2019

GRETA

O longa-metragem de estreia de Armando Praça, GRETA (2019), é baseado na peça Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, de Fernando Melo, escrita e encenada como comédia. A mudança da comédia para o melodrama foi uma opção do cineasta, que achava que aquela história era muito mais próxima de um drama do que de uma comédia. Aliás, é interessante quando um diretor busca um espaço entre o drama e a comédia para contar suas histórias, como fazia Almodóvar em seus primeiros filmes, que hoje podem ser vistos até como histórias cheias de envolvimento dramático.

No caso de GRETA, não que não haja espaço para o humor – há bastante –, mas é definitivamente uma história sobre dor, sobre busca de sentido para uma vida que está próxima do fim e muita, muita solidão e rejeição. Mesmo sendo um filme com protagonistas homossexuais, certas coisas são universais. Afinal, difícil encontrar quem nunca passou por sentimentos de solidão e rejeição.

Na trama de GRETA, Marco Nanini é Pedro, um enfermeiro septuagenário que procura ajudar sua amiga transexual Daniela (Denise Weinberg), que passa por uma doença terminal e sofre muitas dores. A escalação de uma mulher cis para viver uma mulher trans tem sido bastante questionada, com alguma razão, mas difícil não se emocionar com a performance de Denise cantando “Bate coração”, canção do repertório de Elba Ramalho. A carga dramática que ela empresta à canção e amplifica o sentido da letra é tocante.

Mas o filme está mesmo mais interessado na trajetória de Pedro e sua busca por prazer para aliviar a dor, sua busca por alguém que o ame. Ele é um homem que costuma masturbar alguns pacientes do hospital em que trabalha, tenta marcar encontros e frequenta saunas gay, um espaço favorável para o sexo casual. Há uma cena com um misto de humor e drama bem marcante que se passa nesse espaço. Vale destacar que há cenas em que o sexo aparece bastante pulsante dentro dos leitos de hospital, inclusive.

A vida de Pedro ganha novo sentido quando ele, para encontrar uma vaga para a amiga Daniela no hospital, leva um homem responsável pela morte de outra pessoa, ferido, para sua casa. Com esse homem potencialmente perigoso vivido por Démick Lopes, Pedro cria uma relação de ajuda, desejo e afeto. O homem, a princípio muito reticente em ter relações sexuais com aquele homem idoso, aos poucos começa a se aproximar. Há um diálogo muito bonito e doloroso em que Daniela pergunta a Pedro se ele ainda está tendo um caso com esse homem que cometeu um crime e é procurado pela polícia. “É o único que eu tenho”, Pedro diz, com um misto de alegria e tristeza.

A entrega de Marco Nanini a esse papel é admirável. O grande ator não se incomodou em se entregar também de maneira física nas cenas que envolvem sexo e nudez. Isso contribui para que o filme ganhe ainda mais força na materialização desse universo marginal.

+ TRÊS FILMES

AS FILHAS DO FOGO (Las Hijas del Fuego)

Aqui eu vejo mais o mérito pela coragem da diretora em fazer uma obra que trafega pela pornografia dentro do mainstream do que exatamente por conseguir um grau de erotismo que ultrapasse a provocação e os flertes com o S&M. Gosto do terço inicial do filme e quase nada do terço final. A questão de ser uma obra que quer ser mais política do que erótica acaba pesando um bocado. Essa coisa de querer questionar a objetificação dos corpos e a ditadura da beleza normativa e tal acabou não funcionando pra mim. Mas vai ver é só falta de identificação com a sensibilidade mesmo. Direção: Albertina Carri. Ano: 2018.

EUFORIA

Um dos grandes destaques deste filme de Valeria Golino é a forte presença de cena de Ricardo Scamarcio, mais conhecido do grande público por sua interpretação de Santino, o vilão de JOHN WICK 2. Aqui podemos vê-lo de maneira mais naturalista, como um irmão que esconde do outro que o outro está com câncer em estado terminal. Ele acredita que entretê-lo e trazer alegria para o seu dia a dia será melhor. O fato de o personagem do Scarmacio ser gay e o outro não também rende bons momentos de humor na história. Muito agradável de ver e com alguns momentos bem tocantes. Direção: Valeria Golino. Ano: 2018.

COMER, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)

Não tenho acompanhado todos os filmes de Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS. Este é talvez um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTO (que prefiro). Ano: 2018.

quarta-feira, outubro 16, 2019

A NOITE AMARELA

"No estado que as coisas se encontram hoje, eu realmente acredito que o horror é o gênero narrativo que mais se aproxima da nossa realidade. Primeiro, porque nossa realidade está se dissolvendo, e essa é uma característica essencial das histórias de horror. Depois, porque nossa vida diária está infectada, como em um body horror de David Cronenberg minutos antes da metamorfose se completar e o monstro surgir entre nós. Logo, eu acredito que só o Horror mesmo pra salvar a gente de falar sobre esse mundo sem pé, nem cabeça que a gente vive." 
Ramon Porto Mota

Tem sido muito gratificando ler as entrevistas do cineasta paraibano Ramon Porto Mota, que estreia seu primeiro longa-metragem, depois da experiência em coletivo em O NÓ DO DIABO (2018), em um momento especialmente feliz para o cinema de gênero brasileiro. Vejam só: na mesma semana em que o seu filme estreou, entrou em cartaz também em outras salas do país MORTO NÃO FALA, de Dennison Ramalho, e AMOR ASSOMBRADO, de Wagner de Assis. E na semana anterior havia estreado O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente. Ou seja, o que ele fala acima tem tudo a ver com esse momento tão especial em que o cinema de horror brasileiro está deixando de ser rejeitado e está sendo abraçado por uma parcela cada vez maior de espectadores, ao mesmo tempo em que estamos vivendo um momento político também singular.

Nas entrevistas de Mota, ele afirma que não tinha a menor intenção de que seu filme A NOITE AMARELA (2019) sequer fornecesse metáforas para o momento político brasileiro. Mas acontece que a percepção da obra de arte, ainda mais essa do tipo mais livre e cheia de espaços, pode trazer interpretações diversas, sim. E isso já não está mais nas mãos do artista. Além do mais, o artista costuma ter antenas que captam o espírito da época. Assim, o mal estar com o mundo contemporâneo se faz bastante presente.

A NOITE AMARELA, como experiência fílmica, está destinado a ser aquele tipo de filme que pode não ser apreciado por um público grande, por sua opção em quase se desvincular de uma trama no sentido convencional, especialmente a partir de seu terço final, e se deixar levar pela atmosfera de sonho/pesadelo, fazendo com que vejamos as pessoas sendo engolfadas pela escuridão, por algo não muito fácil de ser compreendido. O escuro é um aspecto predominante no filme. Quase todas as cenas se passam à noite, desde o começo, quando os jovens secundaristas chegam à ilha para passar uns dias e comemorar a formatura do ensino médio.

A opção de Ramon Porto Mota em adotar uma fotografia suja, áspera, com pouca iluminação, como se fosse um filme feito nas primeiras experiências com o digital, contribui para a sensação de que estamos vendo uma produção estranha a esses tempos em que as imagens são cada vez mais nítidas. Ao mesmo tempo, difícil não apreciar o belo trabalho de direção de arte e fotografia, com um uso de cores que remetem ao cinema italiano de horror dos anos 1970. Além do mais, reparem no cuidado com a realização do cartaz.

A NOITE AMARELA é um filme marcado por sua geografia, seu sotaque paraibano, seus diálogos aparentemente espontâneos, mas que na verdade foram memorizados pelos atores. O tipo de dramaturgia também é diferente, estranho. Nas entrevistas, Mota vem comentando que seu filme é mais herdeiro das experiências com o cinema de horror de Walter Hugo Khouri e Jean Garrett do que com o cinema de horror estrangeiro. De fato, quem viu os filmes de Khouri e Garrett sabe do que ele está falando e vai concordar. A intenção é fazer uma obra atemporal, cuja estranheza atravessará décadas.

Na trama, um grupo de adolescentes chega a uma ilha praticamente desabitada e sem sinal de celular. Depois de se estabeleceram em uma casa, uma das meninas, Karina (Rana Sui), desaparece, e a missão da turma passa a ser procurar pela amiga pela noite escura. Eles resolvem se separar e acabam se deparando com estranhas coisas que lhes assombram, como a presença de duplos. No meio disso tudo, há um grande flashback que dá uma quebrada no filme, como se o tirasse do gênero horror e o colocasse em um daqueles filmes dos anos 1950, com jovens duelando. Isso contribui para a estranheza, mas não deixa de ser no mínimo divertido.

Além do mais, a presença desses jovens atores e de um cinema que não tem medo de experimentar, traz um frescor necessário para este momento em que há filmes de gênero que se esforçam para dialogar mais com grandes audiências. Quanto mais pluralidade, melhor.

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PYEWACKET - ENTIDADE MALIGNA (Pyewacket)

Um baita exemplo de como às vezes ter um orçamento muito baixo, mas muita criatividade e senso de direção pode ser recompensador. Se PYEWACKET não estreasse no circuito, não saberia sequer de sua existência. Por isso é preciso que as distribuidoras façam mais um trabalho de curadoria, para nos apresentar obras tão impressionantes como essa. Um dos grandes méritos do filme é o quanto se constrói uma atmosfera de medo, apreensão, arrependimento e outras coisas apenas com expressões faciais e movimentos de câmera precisos, nada mirabolantes. Na história, garota, revoltada com a mãe que quer tirá-la da escola e da cidade, tenta se vingar dela através de um feitiço de magia negra. Vi o filme em casa, mas certamente é filme que merece ser visto no cinema. Direção: Adam MacDonald. Ano: 2017.

IT - CAPÍTULO 2 (It - Chapter Two)

Uma tarefa muito difícil tornar crível e assustadora esta continuação, agora com os personagens adultos, na faixa de 40 anos, tendo que se comportar como em filme de adolescente para matar o monstro, o palhaço assassino de crianças (e adultos também). Infelizmente o filme funciona em alguns momentos, mas, à medida que vai se aproximando de sua conclusão, vai perdendo a força. A escalação do elenco adulto foi boa (Jessica Chastain, James McAvoy e Bill Hader, principalmente) e as várias cenas pequenas de flashback com o elenco infantil e carismático são legais, mas o principal, que é a metodologia para matar a criatura talvez só funcione no romance. É muito complicado tornar gráfico e ao mesmo tempo assustador tudo aquilo. Também senti falta de uma maior conexão afetiva com os personagens adultos. Enfim, uma pequena decepção para um filme ambicioso como esse. Direção: Andy Muschietty. Ano: 2019.

KARDEC

Eis o candidato a filme mais chato e aborrecido do ano. Perderam a oportunidade de contar uma história interessante de maneira agradável e o que temos é um filme que mais se parece com aquelas produções de época de quinta categoria lançadas diretamente em home video. Além do mais, há um tom solene que enche o saco, com uma música que traz a tentativa de exaltar o legado de Allan Kardec e sua coragem de peitar a Igreja Católica e as instituições. Pode ser uma pá de cal na chamada nova era dos filmes espíritas. Direção: Wagner de Assis. Ano: 2019.

segunda-feira, outubro 07, 2019

UM AMOR IMPOSSÍVEL (Un Amour Impossible)

No ano passado, o blog esteve praticamente entregue às baratas, de tão parado que estava. E os poucos leitores que ainda me seguem talvez não imaginem o quanto isso me incomodou. E essa fase continuou neste 2019, embora mais recentemente eu tenha procurado mudar um pouco a situação. Por isso, muita coisa boa que eu vi no cinema e em casa acabou não sendo escrita ou pensada neste espaço. Penso que a experiência fílmica só se torna completa quando a obra em questão é refletida, seja através de um bate-papo bem direcionado, seja através da escrita. E é essa a minha forma de dar continuidade à experiência, inclusive para saber qual o tamanho da minha relação de afetividade com o filme.

Por isso acho importante falar aqui de UM AMOR IMPOSSÍVEL (2018), de Catherine Corsini, que vi já faz alguns meses, mas que ainda está passeando por algumas cidades no circuito alternativo. Pelo título, parece uma dessas obras bem água com açúcar, mas o que temos aqui é uma verdadeira pedrada.

A história é contada por Chantal (Jehnny Betty, na fase adulta) e a personagem principal é sua mãe, Rachel (Virginie Efira, que vive a mesma personagem desde a tenra juventude até a velhice, o que é um risco). A princípio, o foco da narrativa se prende ao relacionamento entre Rachel e Philippe (Niels Schneider). Ela vem de uma classe mais humilde da sociedade; ele é um rapaz que conseguiu escapar da guerra da Argélia por influências de sua família rica e culta.

A relação dos dois parece correr muito bem, mas Rachel começa a ficar um tanto triste quando Philippe diz que tem entre seus princípios jamais se casar. E essa decisão não muda nem mesmo quando Rachel se vê grávida. A posição covarde de Philippe em não reconhecer oficialmente a paternidade de Chantal se torna até pequena diante do que veremos perto do final do filme.

Ainda que a figura de Philippe continue sendo de fundamental importância para a história, mesmo ele aparecendo para visitar a filha e Rachel de vez em quando, lá pelo meio, UM AMOR IMPOSSÍVEL se transforma em um filme sobre a relação de proximidade entre mãe e filha, e do quanto, mais adiante, Philippe fará parte de maneira mais próxima da vida de Chantal.

A cineasta Catherine Corsini vem de um belo filme sobre a relação afetiva entre duas jovens mulheres de estilos diferentes – UM BELO VERÃO (2015) – e aqui novamente mostra um cinema interessado em lidar com as questões relativas ao lugar da mulher no mundo moderno. No novo filme, entretanto, vemos uma protagonista por demais sofrida, seja por causa de uma paixão não correspondida, seja pela sociedade que não vê com bons olhos uma mãe solteira, entre outros problemas. Nesse sentido, é também um estudo sobre a evolução da mulher na sociedade ocidental (ou pelo menos francesa) a partir do final dos anos 1950.

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O SÉTIMO CÓDIGO (Sebunsu Kôdo)

Resolvi finalmente ver este filme do Kiyoshi Kurosaw devido às comparações feitas com o maravilhoso O FIM DA VIAGEM, O INÍCIO DE TUDO (2019). E embora haja muitas coisas em comum (a atriz, a locação em país estrangeiro, uma personagem desolada, a música), aqui há uma trama de espionagem/suspense que traz uma reviravolta na segunda metade. Gosto mais da primeira, mas é bom ver que temos um cineasta que não tem medo de arriscar e de fugir do lugar comum, trazendo sempre filmes para nos deixar desconfortáveis ou admirados. A duração é bem curtinha: apenas uma hora. Ano: 2013.

LUCIA CHEIA DE GRAÇA (Tropa Grazia)

É difícil desde já se envolver com a proposta inicial: a de uma jovem mulher que recebe um pedido de Maria Mãe de Deus para construir uma igreja. Há um humor que não funciona, situações inusitadas que parecem despropositadas, personagens sem força e sem carisma. Enfim, há tudo que podia ser necessário para que um filme como esse despertasse o mínimo interesse. E nem é pela questão religiosa, que é tratada com certa leveza. É por não saber lidar com o que tem em mãos mesmo. Direção: Gianni Zanasi. Ano: 2018.

FILHAS DO SOL (Les Filles du Soleil)

A diretora (cujo trabalho eu desconhecia até então) pesa a mão neste drama de guerra sobre um batalhão de mulheres curdas em uma guerra no Curdistão. O diferencial está no fato de ser uma história verídica em que mulheres assumem o protagonismo em uma guerra contemporânea. Mas achei difícil me emocionar e me importar com as personagens, por mais que algumas cenas dentro da edição de idas e vindas no tempo sejam boas, como a fuga de um cativeiro, por exemplo. Direção: Eva Husson. Ano: 2018.

sábado, outubro 05, 2019

O CLUBE DOS CANIBAIS

Estamos passando por um momento muito especial do cinema brasileiro, em que uma pluralidade cada vez maior de estilos, gêneros, maneiras de se fazer filmes estão surgindo. O CLUBE DOS CANIBAIS (2018) representa tanto este momento especial do cinema de gênero no Brasil, quanto também uma espécie de consolidação de uma chamada "primavera do cinema cearense", como alguns já vêm denominando este momento próspero e rico.

O CLUBE DOS CANIBAIS é também a afirmação de um cinema voltado para o horror e com um cuidado muito especial com a forma. Seu diretor, Guto Parente, já havia mostrado isso no ótimo A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA (2014), feito sem recurso algum do Estado, com um valor de produção próximo do zero. Parente escreveu o roteiro de O CLUBE DOS CANIBAIS em 2013, aplicou o projeto em edital em 2014 e finalizou as filmagens em 2016, tendo suas primeiras exibições em festivais ligados ao gênero fantástico em 2018.

Ou seja, o filme atravessou todo esse turbilhão de situações de pesadelo pelo que tem passado o Brasil ao longo desta década. A crítica à elite, que come os mais pobres - e pardos e pretos - e que elogia o "primeiro mundo" continua atual. Na verdade, ela nunca deixou de ser uma realidade do nosso país. Apenas as máscaras caíram.

O CLUBE DOS CANIBAIS conta a história de Otávio (Tavinho Teixeira), dono de uma empresa de segurança privada, e Gilda (Ana Luiza Rios), sua esposa, que adora ficar na piscina tomando uns drinques enquanto sensualiza para o caseiro. Os caseiros, logo veremos, passam por uma rotatividade intensa na casa, já que são sugados para a cilada de seus patrões. Gilda os atrai para o sexo enquanto o patrão está supostamente indo para Fortaleza.

A cena que mostra o sexo de Gilda com o caseiro, a masturbação de Otávio, o machado na cabeça da vítima, o êxtase, tudo isso é tudo muito cheio de sensualidade, assim como a visão de Gilda, descendo as escadas, com o corpo nu banhado de sangue, como uma espécie de versão maligna e poderosa da inocente Carrie (difícil não lembrar do filme do De Palma).

O interessante é que o gore, a violência gráfica, não parecem tão perturbadores neste filme que conta com um senso de humor satírico muito agradável. Sem falar que Guto Parente, sendo um esteta, preza pela beleza das imagens. Assim, o vermelho do sangue e tudo o mais que compõem essas cenas, fazem parte de uma intenção de fazer cinema mais ligado ao prazer visual, à valorização da fotografia e desenho de produção, do que ao choque pelo choque, muito comum em alguns filmes do subgênero torture porn, em moda na década passada.

Além do mais, percebemos que o filme não se atém simplesmente a uma repetição desses eventos na casa de Otávio e Gilda. Na verdade, há uma cena em especial que mudará o destino dos personagens. Isso acontece quando, em uma festa do tal clube, Gilda flagra o grande líder, Borges (Pedro Domingues), um deputado influente, em um ato secreto. Impagável a cena de Gilda indo conversar com Borges no dia seguinte. Um convite à gargalhada e um sinal de que Guto Parente e seu filme já haviam ganhado o espectador.

O CLUBE DOS CANIBAIS conta com uma equipe de dar gosto. Fernando Catatau, guitarrista célebre de Fortaleza, faz a trilha sonora, que valoriza tanto os sintetizadores quanto a bateria, amplificando o prazer fílmico. A supervisão de efeitos especiais é de Rodrigo Aragão, famoso por sua filmografia voltada ao horror gore. E há toda uma turma que vem crescendo cada vez mais no cinema cearense, como Ticiana Augusto Lima, Breno Baptista, Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Samuel Brasileiro, Lia Damasceno, Luciana Vieira, entre outros, que fazem parte do filme em variadas funções.

Por isso, não seria um exagero colocar O CLUBE DOS CANIBAIS na mesma lista de obras como AS BOAS MANEIRAS, de Julian Rojas e Marco Dutra; O ANIMAL CORDIAL, de Gabriela Amaral Almeida; e, por que não?, BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, filme que, segundo Parente, é um divisor de águas deste momento. Sem falar que há toda uma questão muito ligada ao ataque por parte da elite às classes menos favorecidas, que permeia todas essas obras.

No mais, difícil terminar este texto sem elogiar a elegante performance de Ana Luiza Rios, como Gilda, e também de Tavinho Teixeira, claro. Nosso cinema está cada vez mais pulsante, nadando contra a maré de ataques do Governo federal. Haveremos de sobreviver gloriosamente.

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SOLDADOS DA BORRACHA

Este é outro daqueles serviços de utilidade pública muito importante para que saibamos mais sobre essas pessoas que foram invisibilizadas pelo Governo e pela sociedade, mesmo sendo tão importantes, tanto para a vitória dos aliados na Segunda Guerra quanto para o sucesso do Brasil nas exportações de borracha em tempos de guerra, quando Getúlio Vargas fez um negócio da China com os Estados Unidos. O que esse povo passou não é mole. Ainda assim, o documentário de Wolney Oliveira é cheio de momentos divertidos, os personagens são muito bons e ele teve uma sorte tremenda de encontrar velhinhos cheios de alegria e vivacidade, e com histórias fascinantes para contar. Ano: 2019.

CURRAIS

Um filme necessário. A histórias dos campos de concentração no Ceará na seca de 32 são muito pouco mencionados em filmes e se existem em livros de História eles ganham pouca repercussão. Algo que a elite daquele época sempre quis: acobertar os atos criminosos e bestiais que faziam com os flagelados da seca. Ver este filme é lembrar mais uma vez que a máscara de bom moço do brasileiro esconde muita coisa suja e feia. O recurso dos diretores aqui se mostrou feliz, ao trazer para a ficção algo que seria puramente documental. E Rômulo Braga é um baita ator. Funcionou muito bem como o sujeito que faz a investigação. Um verdadeiro filme de horror. Direção: David Aguiar e Sabina Colares. Ano: 2019.

NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO

O que há de melhor e mais gostoso neste filme é o tom anárquico, que muito lembra os filmes brasileiros da época do Cinema Marginal. Mas a sintonia é mesmo com os tempos de hoje, inclusive fazendo uma boa sessão dupla com BACURAU, já que se trata também de uma espécie de filme "perigoso". Ao que parece, já passou da hora de ficar triste e agir. O filme às vezes parece ter sido feito a partir de sobras do figurino de OS POBRES DIABOS, mas, se parece não haver o mesmo cuidado com as imagens, há bem mais ousadias de discurso, com destaque para as falas do Everaldo Pontes, grande ator. Direção: Rosemberg Cariry. Ano: 2019.

domingo, setembro 29, 2019

PREDADORES ASSASSINOS (Crawl)

No início dos anos 2000, o nome de Alexandre Aja foi celebrado como um dos expoentes de um vindouro novo cinema de horror produzido na França. Tal foi o rebuliço que causou o seu ALTA TENSÃO (2003), que trazia alguns elementos de violência gráfica que seriam bastante característicos daquela década, que trouxe exemplares extremos como A INVASORA, de Alexandre Bustillo e Julien Maury; EM MINHA PELE, de Marina de Van; MÁRTIRES, de Pascal Laugier; (A) FRONTEIRA, de Xavier Gens; e, por que não?, IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, e DESEJO E OBSESSÃO, de Claire Denis.

Aja foi logo acolhido por Hollywood e seu primeiro filme nos Estados Unidos também foi bem recebido, embora fosse um remake de um clássico, VIAGEM MALDITA (2006). Pena que seus trabalhos seguintes não foram assim tão inspirados. ESPELHOS DO MEDO (2008) é bem esquecível; o remake PIRANHA 3D (2010) tem um interessante tom de comédia; e os posteriores, AMALDIÇOADO (2013) e A NONA VIDA DE LOUIS DRAX (2016), praticamente passaram batidos. Ou seja, nos Estados Unidos, Aja ganhou a fama de só ter tido sucesso com duas refilmagens.

Por isso seu nome deixou de ser tão importante agora, quando surge com o novo trabalho. PREDADORES ASSASSINOS (2019) é vendido com o nome de Sam Raimi, um tanto afastado da direção há alguns anos e agora assumindo mais a cadeira de produtor. O que temos neste novo filme de Aja é uma obra bem despretensiosa sobre uma garota que tenta salvar o pai de uma tempestade, mas tem mesmo é que salvar a ele e a si mesma de dois jacarés enormes que estão no porão da velha casa da família.

As questões familiares são poucos exploradas. Apenas o suficiente para que saibamos da ligação de proximidade entre Haley (Kaya Scodelario, que parece estar se "especializando" em filmes de gênero) e seu pai, Dave (Barry Pepper). Interessante notar que ambos estiveram na franquia MAZE RUNNER. Esse pode ter sido um dos motivos da reunião da dupla nesta difícil luta contra dois animais imensos e ávidos por carne e sangue.

O filme tem o mérito não só de nos manter tensos e na torcida pela salvação dos heróis, quanto pela criatividade em trazer tentativas dos personagens de lidarem com essa situação desesperadora. Não bastasse o fato de eles estarem feridos e incomunicáveis com a cidade, o nível da água está subindo e o tempo que lhes resta é muito pouco para ficarem simplesmente esperando a tempestade passar.

Como filmar na água é por si só uma tarefa complicada para qualquer cineasta, há que se dar o devido crédito a Aja, que leva seus heróis a situações bem intensas e até mesmo apavorantes. Outra coisa positiva é que o diretor não queria fazer um filme sobre jacarés tornados gigantes através de radiação ou coisa do tipo. Ou muito menos jacarés girando dentro de um tornado (para citar a franquia trash SHARKNADO). Isso faz com que seu trabalho fique mais próximo do realismo e muito mais fácil de ser comprado pelo espectador.

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GODZILLA II - REI DOS MONSTROS (Godzilla - King of the Monsters)

Mais uma superprodução que é um desperdício de tudo: do talento de seus atores, do dinheiro gasto e também de nosso tempo na sala escura. Logo o tempo, o mais precioso dos bens. Mas, enfim, cinema é risco também e eu tinha gostado do primeiro GODZILLA. Este aqui é fraco em tudo: tanto no desenvolvimento dos personagens, quanto na idealização e luta dos monstros, quanto na falta de uma história minimamente interessante (já que a direção também não ajuda). É possível que haja público interessado e até entusiasmado, mas para isso é preciso comprar o filme desde o início, já que o filme parece não querer ganhar o espectador em nenhum momento. A primeira cena do Godzilla é para ser algo épico, mas é só mais um monstro em CGI que ninguém (ou pouca gente) liga. Direção: Michael Dougherty. Ano: 2019.

BRIGHTBURN - FILHO DAS TREVAS (Brightburn)

Muito bom quando vemos um filme de terror com tal domínio de narrativa e inteligente ao reinventar a origem do Superman: o que aconteceria se o garoto que caiu na Terra fosse poderoso e também muito malvado? BRIGHTBURN é envolvente e parece um exemplar raro de filme de terror de qualidade estreando em nosso circuito. Fiquei até curioso para ver o longa anterior do diretor, A COLMEIA (2014), que deve ter estreado só em algum canal de streaming e quase ninguém deve ter visto. Direção: David Yarovesky. Ano: 2019.

OPERAÇÃO OVERLORD (Overlord)

Não vi em IMAX, mas acho que vale ver sim, para melhorar a experiência. Foi um dos filmes recentes que mais me surpreendeu positivamente. O trailer não me pareceu nada atraente. Quando vi estava dentro de um drama de guerra intenso que descamba para um horror com gore e tudo. E é um filme que não se prejudica com os seus excessos. Muito bom! As cenas iniciais no avião são tão boas, que lembram as cenas de aviação dos filmes dos anos 30. Direção: Julius Avery. Ano: 2018.

quarta-feira, setembro 25, 2019

15 CURTAS BRASILEIROS



O HOMEM NA CAIXA

Belo conto de horror sobre um mágico que, por um infortúnio, vai preso. Dizer mais do filme pode estragar as surpresas. Os diretores conseguem criar um interesse pelo personagem e pelo seu destino a todo instante. No começo, pensei se tratar de um drama político, depois fui vendo que se tratava de outra coisa. A animação é simples, mas realista, e com efeitos de movimento muito eficientes. O final fecha tudo com chave de ouro, lembrando, por alguma razão, algum conto de Poe. Direção: Alvaro Furloni, Ale Borges e Guilherme Gehr. Ano: 2018.

PLANTAE

Animação em tons épicos e sem nenhum diálogo sobre a repercussão fantástica de uma árvore que acabou de ser cortada frente ao homem responsável pelo ato. Podia funcionar como um belo libelo a favor da natureza, mas acabei não vendo muita graça, por mais que haja beleza na arte desenhada e na música utilizada para enfatizar o aspecto espiritual da árvore. Direção: Guilherme Gehr. Ano: 2018.

LÉ COM CRÉ

Animação lindinha e muito inteligente que traz depoimentos reais de crianças sobre determinados temas, sendo que elas são substituídas em imagens por bonecos (um elefante, uma criança, um adulto etc.). Adoro a maneira poética como a criança descreve certas coisas, como o dinheiro, o medo, e a diferença entre meninos e meninas, exatamente os temas abordados no curto espaço de tempo de LÉ COM CRÉ. Bem que podia ser um pouco maior na duração. Direção: Cassandra Rios. Ano: 2018.

ORAÇÃO AO CADÁVER DESCONHECIDO

Muito interessante esta incursão na ficção científica dentro de uma trama com clima de sonho. Há algo entre a primeira e a última semana que me pareceu fora de lugar, mas que talvez por isso tenha feito com que o filme tenha um caráter enigmático para mim. Fiquei impressionado com os efeitos visuais para um filme de orçamento muito limitado. Direção: Sávio Fernandes. Ano: 2019.

MARCO

Antes de mais nada, fiquei impressionado com a atriz principal do filme, que até já conhecia de um filme do Leonardo Mouramateus, se não me engano. Aqui ela é uma jovem mulher que volta à sua cidade natal por um motivo muito especial. Antes de chegar lá, o filme a mostra passando em um bar, andando com uma amiga, conversando com um tio, saindo com os amigos, para só entrar na questão do drama familiar. Que fica um tanto confuso no final, mas o que temos é um conjunto de belas cenas. Direção: Sara Benvenuto. Ano: 2019.

O TEMPO DO OLHAR E O OLHAR NO TEMPO

Samuel Brasileiro já havia mostrado em outros filmes, pelo menos os que eu vi, como no coletivo O ANIMAL SONHADO (2015) e o curta BIQUÍNI PARAÍSO (2015), que tem domínio da linguagem narrativa mais convencional, por assim dizer. Aqui o que temos é um trabalho mais experimental, com a presença da avó e de fotos sendo descritas. Basicamente é isso, mas há algo de muito poético no modo como ele dispõe as imagens e a fala. Ano: 2019.

MARIE

Alguém banque logo um longa-metragem para Leo Tabosa. Tudo neste filme é tão profissional e bonito e intenso que eu fiquei maravilhado. Ele teve a sorte de trabalhar antes, no curta NOVA YORK, com Hermila Guedes. Aqui é com Rômulo Braga, um baita ator. A história envolve dois amigos de infância que viajam para enterrar um senhor idoso em longo trajeto. Um deles passou pela transição de gênero e agora se chama Marie. O filme é composto por umas seis ou sete cenas, mas é impressionante como cada uma é disposta de maneira elegante, com um enquadramento específico com câmera parada, a fotografia deslumbrante de Petrus Cariry e a intensidade dramática. Há uma em especial que me deixou muito arrepiada. É o tipo de filme que a gente lamenta não ser visto por mais pessoas, justamente por ser um curta. A atriz transgênero Wallie Ruy é sensacional! Ano: 2019. (Foto)

RUA AUGUSTA, 1029

Interessante como este filme nos coloca dentro de um cenário de ocupação, tendo a polícia no encalço, parecendo ser muito real e transitando ora pela linguagem do documentário, ora pela dos filmes de found footage (se é que foi essa a intenção ou foi algo acidental). O filme é bem conciso, mas reflete um mês em que houve uma forte ocupação de prédios em São Paulo, durante o ano de 2015. Em um cenário político em que os empresários e a elite são os donos de tudo, inclusive da verdade, é preciso lembrar que a moradia é um direito de todos. Direção: Mirrah Iañez. Ano: 2019.

O GRANDE AMOR DE UM LOBO

O filme que mais alegrou o público no festival por conta de seu jeito moleque de contar a história de um garoto que quer ser cineasta e conta exatamente como será seu filme. Há muita inteligência em usar tanto o humor quanto os poucos recursos para que haja um resultado mais do que satisfatório. A história se passa no município de São Miguel do Gostoso, lugar paradisíaco que tem uma estreia ligação com a história do Diário de um Cinéfilo. Curiosamente, o produtor do filme é Eugenio Puppo, que deve ter ajudado os jovens talentos lá da cidade para a materialização desta obra. Direção: Adrianderson Barbosa e Kennel Rógis. Ano: 2019.

ILHAS DE CALOR

Filme simpático sobre grupo de estudantes de uma escola de Viçosa, uma cidade do interior de Alagoas. O filme traz tanto a realidade de uma sala de aula, sempre um tanto complicada para quem é professor, tendo que lidar com agente da ordem para dirimir o caos, mas há principalmente a liberdade dos estudantes fora da sala de aula, mas dentro das dependências da escola, seja para brincar, seja para namorar. O personagem Fabrício inicia e finaliza o filme. É seu o ponto de vista mais explorado. Direção: Ulisses Arthur. Ano: 2019.

POP RITUAL

Mais uma vez Mozart Freire dá uma aula de filme caprichado na direção de arte. Este aqui talvez seja o seu trabalho mais bem acabado até o momento. O que vemos é um padre que prende um vampiro em uma cama para utilizar de seu sangue. Há ecos de NOSFERATU pela aparência do rapaz que faz o vampiro, mas há quem vá se lembrar de A FORMA DA ÁGUA também. É um filme que se sustenta apenas com as imagens, sem a necessidade de diálogos, e ainda consegue passar uma mensagem política dentro desse cinema de gênero. Ano: 2019.

EU, MINHA MÃE E WALLACE

Filme muito bonito, todo pautado nos silêncios, nos olhares, nos diálogos curtos, na tensão entre os personagens a partir da chegada de um rapaz que esteve distante de todos (Fabricio Boliveira). Não há trilha sonora, e os olhos são todos muito discretos e simples, mas a carga emocional que o filme é capaz de passar é impressionante. Direção: Irmãos Carvalho. Ano: 2018.

COPACABANA-AUSCHWITZ

Filmes sobre o holocausto sempre me doem muito, pois lembramos o quão baixo o ser humano é capaz de chegar em termos de maldade. Este curta aqui é narrado por um sobrevivente dos campos de concentração e o diretor opta por um registro mais de imagens da natureza, opondo o céu azul do Brasil com o céu cinza da Alemanha no inverno dos anos 40. A simplicidade está mais a favor do que contra o filme, mas ainda assim, eu esperava me emocionar mais. Porém, sei que o problema pode ser comigo, que ando com a sensibilidade um pouco alterada. Direção: Jaiê Saavedra. Ano: 2018.

NOIR BLUE - DESLOCAMENTOS DE UMA DANÇA

Um filme que teve um hype bem grande entre o circuito mais fechado de cinéfilos. Eu particularmente gosto mais do filme graças à voz doce da diretora, que fala sem pressa de sua ida à África em busca de suas origens, do quanto ela tem em comum, como brasileira negra, com aquele continente tão receptivo e alegre. São as palavras dela que dão o tom de prazer do doc, mais do que as imagens. E é isso que me incomoda um pouco. Se bem que, como eu sou um apreciador forte das palavras, então, está valendo. Direção: Ana Pi. Ano: 2018.

A PRIMEIRA FOTO

O filme faz parte de uma leva de obras afetivas e familiares que lidam com a questão da ausência/presença de alguém. O diretor (ou eu lírico), que foi rejeitado pelo pai, assume o avô como verdadeiro pai e o que vemos é uma bonita homenagem a um homem. Há o recurso da fala suave presente em outros trabalhos do tipo (inclusive em NO INTENSO AGORA, do João Moreira Salles) e aqui das imagens esmaecidas ou desgastadas pelo tempo. Achei que poderia ser de menor duração, mas entendo e respeito o tempo e a necessidade do artista. Direção: Tiago Pedro. Ano: 2018.

segunda-feira, setembro 23, 2019

O MAL NÃO ESPERA A NOITE – MIDSOMMAR (Midsommar)


Quando Ari Aster estreou em longa-metragem com o ótimo HEREDITÁRIO (2018), muita gente ficou impressionada com a habilidade e a elegância do cineasta em lidar com a câmera. Estávamos diante de um novo caso de garoto prodígio do cinema. Agora com A MORTE NÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR (2019), que traz uma dose bem maior de humor, procura-se ainda mais tentar decifrar as intenções de seu realizador.

Pesquisando por seus curtas no IMDB podemos notar que a maior parte deles possui a combinação drama-terror-comédia. Logo, se tivermos a oportunidade de ver essas obras iniciais poderemos compreender melhor esse novo cineasta. Afinal, um diretor cujo primeiro filme é sobre um filho que molesta sexualmente o próprio pai não deve ser muito normal. O que, em se tratando de cinema, e para quem gosta, por exemplo, de David Lynch, é uma maravilha.

Em entrevista ao The Guardian, Aster contou que assistiu aos 11 anos de idade a LARANJA MECÂNICA e a VELUDO AZUL e odiou ambos por considerá-los extremamente perversos. Porém, não parou de rever os tais filmes para compreender o fato de não ter gostado. Entendeu, então, que seu destino era também fazer filmes que incomodassem.

MIDSOMMAR (melhor tratar a partir daqui pelo título original) é descrito pelo cineasta como um filme de fim de relacionamento. Não deixa de ser curioso, mas conta o cineasta que o roteiro foi inspirado em uma situação pessoal de rompimento.

Na trama, Florence Pugh é Dani, uma jovem com problemas de depressão que tem seu mundo devastado com a notícia da morte de sua família. Seu único amigo é o namorado Christian (Jack Reynor). Os amigos de Christian não gostam nada da garota, consideram-na grudenta e problemática. Daí ficam irritados quando Dani resolve ir com eles a uma viagem para a Suécia, mais especificamente para uma cidadezinha chamada Hälsingland, um paraíso que promove a cada ano um festival pagão milenar um tanto estranho para olhos estrangeiros.

Lembrando à primeira vista o clássico O HOMEM DE PALHA (1973), o filme acompanha de forma lenta a descoberta do grupo de jovens americanos aos costumes locais e também a situações bem bizarras, como o desaparecimento de alguns jovens estrangeiros.

A beleza das imagens, a maioria delas na deslumbrante luz do dia (a noite, nessa época do ano, é bem curta) faz do filme um diferencial diante da grande maioria dos filmes de horror, que optam pela noite como momento ideal para as cenas de ação e medo. Aqui alguns momentos que chocam os personagens acontecem com o sol bem presente, como a cena do sacrifício dos anciões da aldeia.

Talvez um dos problemas do filme seja não ser tão forte no que se refere a trazer a loucura para o espectador, já que, há, ao longo da narrativa, um prazer narrativo que nos distancia do incômodo, diferente, por exemplo, de LARANJA MECÂNICA, para citar um dos filmes que incomodou o pequeno Aster. Há, inclusive, uma cena de sexo desconcertante que provoca mais risos que mal estar, ainda que o espírito bizarro esteja lá presente. Aliás, mais uma vez, é sempre bom levar em consideração o senso de humor todo próprio do cineasta.

O nome de Ari Aster se tornou tão importante quanto o de Robert Eggers. Ambos são jovens cineastas que estão chegando ao segundo filme de horror depois de estreias que chamaram muito a atenção da crítica e do público mais exigente e mais interessado em ter novas experiências dentro do gênero. Assim, do mesmo modo que esperávamos com ansiedade MIDSOMMAR esperamos agora a volta de Eggers com O FAROL, previsto para estrear aqui no Halloween.

E podemos dizer que o que Aster traz em seu MIDSOMMAR, e que já havia mostrado em HEREDITÁRIO, é muito mais herdeiro de um cinema de horror mais ligado ao paganismo do que aquele tradicionalmente cristão. A BRUXA também o é, mas traz uma oposição, uma quebra com os preceitos cristãos, a fim de trazer uma ideia de liberdade de espírito bastante transgressora.

Em MIDSOMMAR, os personagens não se mostram religiosos. A presença deles naquele espaço novo é, a princípio, excitante pelo que há de diferente, de exótico. Depois, uma vez que o desaparecimento de alguns deles e o sacrifício humano é mostrado como algo pertencente às tradições milenares daquela comunidade, o elemento do horror vai se formando, mas isso independe do Cristianismo. Aliás, um dos personagens até faz uma comparação de certas tradições com costumes presentes na cultura indiana.

Um elemento claramente comum entre HEREDITÁRIO e MIDSOMMAR é a performance poderosa das duas atrizes protagonistas. No primeiro, Toni Collette; no novo filme, Florence Pugh, jovem que já havia chamado muito a atenção no ótimo LADY MACBETH.

Que Aster continue a nos surpreender. MIDSOMMAR, que hoje divide opiniões, tem tudo para se tornar um clássico no futuro próximo.

+ TRÊS FILMES

VERÃO DE 84 (Summer of 84)

Interessante este filme que bebe na onda de saudosismo dos anos 80. Aqui a semelhança com STRANGER THINGS é grande, embora seja um filme com um pé no realismo. Não há nada de sobrenatural, apenas a história de um garoto que acredita que o policial que mora na casa ao lado é o serial killer que está aterrorizando sua região. E aí ele sai com os outros três amigos usando walkie-talkies para investigar por conta própria o caso. Há também a linda moça vizinha que é desejada/sonhada por ele e que tem um papel bem simpático. Gosto da escolha que os diretores fizeram de demorar bastante até entrar sequências de ação. Desse modo, é até um filme leve, embora surpreenda em sua conclusão. Direção: François Simard, Anouk Whissell e Yoan-Karl Whissell. Ano: 2018.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO (Scary Stories to Tell in the Dark)

Muito interessante este filme com ar de terror oitentista (os protagonistas parecem versões mais velhas dos meninos de STRANGER THINGS (de novo!), com seus walkie-talkies), embora se passe em 1968. A trama principal envolve um livro encontrado em uma casa assombrada. Este livro será fundamental para o destino dos personagens. Legal que o filme se preocupa com a evolução dos personagens e a parte dos monstros também é uma boa sacada. O que cansa um pouco é a resolução, como é de praxe na maioria dos filmes do gênero. Direção: André Øvredal. Ano: 2019.

BRINQUEDO ASSASSINO (Child's Play)

Uma refilmagem que ganha pontos por uma série de coisas, como a atualização/mudança da história original. Além do mais, o filme conta com a presença maravilhosa de Aubrey Plaza. ❤ E eu gostei do garoto também, Gabriel Bateman, que havia aparecido em QUANDO AS LUZES SE APAGAM. A fuga da questão sobrenatural foi interessante, assim como a beleza das cores, das imagens, o ponto de vista do brinquedo, a tecnologia e o senso de humor. Pena que lá pelo meio o filme perca o rumo e se transforme em algo tão desnecessário quanto já imaginávamos inicialmente que fosse. Direção: Lars Klevberg. Ano: 2019.

domingo, setembro 22, 2019

PITTY NA PRAÇA VERDE DO DRAGÃO DO MAR - FORTALEZA, 21 DE SETEMBRO DE 2019


Minha mania de achar que vou ficar deprimido ao ir a um show sozinho não chegou a se dissipar totalmente com essa experiência aqui, mas é tudo questão de estado de espírito. Talvez não estivesse tão feliz comigo mesmo a ponto de ignorar o meu sentimento de solidão e inadequação que tem me incomodado recentemente. De todo modo, foi bom ter a chance de enfrentar esse pequeno e inofensivo monstro. Ainda mais, durante um show como esses, em que as pessoas que estão lá estão todas (ou quase todas) em sintonia com a artista, em comunhão.

Como meu interesse era ver o show de uma artista cujo trabalho eu muito aprecio e já acompanho há muito tempo, e nunca tinha visto nada ao vivo mesmo, embora já tenha assistido quase todos os registros ao vivo dela lançados em DVD (o {Des}concerto ao Vivo, de 2007, segue sendo o melhor registro de um show dela e um dos melhores feitos no Brasil em todos os tempos, por uma série de motivos, mas principalmente pela energia única). Ter chegado atrasado para a apresentação dela no Ceará Music de 2010 foi muito triste pra mim (só peguei as canções finais, mas adorei o que vi/ouvi).

Vale dizer que conseguir companhia para ir a um show da cantora não foi muito fácil para mim. No ano passado, quando ela esteve aqui para a primeira fase da turnê Matriz, convidei umas cinco ou seis pessoas, que não quiseram ir. Acabei desistindo de ir. Deve ser um problema generacional, não sei. As pessoas da minha idade não apreciam ou não conhecem muito o trabalho da cantora. Se bem que eu também convidei pessoas mais jovens do que eu. Enfim, não gastei muita energia para convidar tantas pessoas assim este ano, estando desde já disposto a ir sozinho desta vez. Primeira experiência em um show ao vivo só. E devo dizer que valeu, embora o sentimento de uma leve tristeza estivesse um tanto presente em mim ao longo da noite.

Ainda assim, apreciei o trabalho do DJ que se apresentou antes e principalmente da banda de abertura, a cearense Ouse, que faz um trabalho voltado explicitamente para questões relativas aos direitos das mulheres. O som deles é muito bom e a vocalista July Pessoa tem uma presença de palco incrível. Aliás, só de ver pessoas da geração dela fazendo rock nesses tempos em que o pop impera no cenário internacional já é muito bom. O rock está, desde o início dos anos 2000, em estado de resistência. Mas falemos da Pitty, de seu show.

A cantora e sua banda entra no palco ao som de "Ninguém é de ninguém", do álbum novo. A recepção é calorosa e a canção já está na boca do público. Logo depois vem duas dos primeiros discos, "Admirável chip novo" e "Memórias" (essa com elementos de "bad guy", da Billy Eilish). São duas canções que ainda guardam um frescor impressionante, mesmo tendo sido tantas vezes cantadas e ouvidas. Mas "Memórias" funcionou melhor e fez o público pular, até pela pungência das guitarras (ou união forte do baixo com a guitarra).

"Setevidas", do álbum homônimo de 2014, segue sendo uma canção ainda muito forte nos shows. O álbum, aliás, é um dos mais felizes da banda. Feliz no sentido de ser bem-sucedido, não no sentido do clima do disco, feito após uma experiência de quase morte da cantora, de maior consciência da própria finitude.

A conexão com o disco novo retorna com "Noite inteira", um dos momentos mais bonitos da noite. Para mim, desde a primeira vez que escutei essa canção eu já percebi o potencial incendiário para uma apresentação ao vivo, tanto por ser dançante quanto pelo belo casamento do baixo com a guitarra. "Te conecta" é outra que também funciona bem ao vivo e traz o público para um momento mais relaxante, já que se trata de um reggae. O cheirinho de erva subiu quando essa canção rolou, em versão um pouco mais estendida. Pitty estava curtindo o som.

A candidata a melhor canção da Pitty ever, "Na sua estante", uma porrada sobre a falta que uma pessoa faz depois do fim de um relacionamento, aliado à busca de seguir em frente para esquecer, a faz especialmente forte. Afinal, quem nunca passou por isso? De arrepiar a estrofe final: "Só por hoje não quero mais te ver/só por hoje não vou tomar minha dose de você".

O clima de balada e relacionamentos segue com "Motor", do novo disco. Trata-se de uma canção da banda baiana Maglore de 2013, e que também vem ganhando força recentemente na voz de Gal Costa. Para mim, lembra as canções de dor de cotovelo do Tim Maia. E isso é um elogio. Mas não deixa de ser algo estranho de ver dentro de um álbum da Pitty, que sempre só cantou músicas próprias. Aliás, não é a única cover do disco, não.

Logo em seguida, veio a parte acústica do show, com direito a três banquinhos, com a presença apenas do guitarrista Martin Mendonça, da própria Pitty, claro, e do baixista Guilherme Almeida, todos de posse de seus violões. Foi um momento bem especial, talvez o momento mais bonito do show inteiro. Rolou uma versão diferente e bonitona de "Teto de vidro" e logo em seguida uma homenagem a um dos nossos maiores cantores e compositores do Ceará e do Brasil, Belchior. "Sujeito de sorte" tem um sido um hino para esses dias difíceis. "Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro" segue sendo uma espécie de mantra. "Salve Belchior", ela disse ao final. Senti-me um privilegiado neste momento, ao vê-la cantando esta canção.

Logo em seguida, um resgate de uma canção do projeto Agridoce, a linda "Dançando". Nessa hora eu vi algo muito bonito do meu lado. Um casal de garotas que assistiam ao show abraçadinhas. A garota que estava na frente, deixava cair algumas lágrimas enquanto os versos "O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você" ecoavam. Para aquela garota aquele momento certamente vai ser para a vida toda. E fiquei feliz por ela.

Logo em seguida, em momento de transição da fase acústica com a elétrica, vem "Submersa", do novo disco, e a animada "Roda", com participação não exatamente presente da banda BaianaSystem. "Me adora", grande hit, foi a única do disco Chiaroscuro a entrar no setlist. "Máscara" segue sendo imprescindível e foi a que fechou o show antes de a banda voltar para mais duas canções: "Equalize" e "Serpente".

Aliás, é fantástico como "Serpente" ganhou esse espaço para encerramento dos shows da cantora desde a turnê do SETEVIDAS. Nada mais justo, tanto pela beleza e sentimento de serenidade da canção, como pelo fato de ela seguir ressoando até a nossa volta para as nossas casas. Guardadas as devidas proporções, virou uma espécie de "Hey Jude" da cantora, no sentido de que o público segue cantando à capela ao final do show.

Foi um belo e marcante espetáculo. Quanto à minha tristeza, a canção que encerrou o show já dizia tudo: "a sustentação é que amanhã já vem".

sábado, setembro 21, 2019

RAMBO - ATÉ O FIM (Rambo - Last Blood)

Sylvester Stallone perdeu a chance de fazer um baita filme de vingança com o novo RAMBO - ATÉ O FIM (2019), dirigido por Adrian Grunberg, de PLANO DE FUGA (2012). As motivações que ele tem depois que membros de um cartel mexicano sequestram sua filha adotiva são suficientes para esquecermos o quão estereotipados eles são mostrados. O resgate de um familiar sequestrado já é algo que estamos acostumados a ver nos filmes de ação estrelados por Liam Neeson. O diferencial aqui é colocar o lendário John Rambo no encalço dos bandidos.

E também há um diferencial na questão da vulnerabilidade. Stallone não é como Tom Cruise, por exemplo, que quer sempre sair bem na fita nos filmes de ação, com um ego gigante. Stallone parece não se importar, por exemplo, em aparecer levando uma surra de dezenas de homens e ficar no chão. Afinal, seu surgimento foi levando muita porrada no lindo ROCKY, UM LUTADOR.

John Rambo só quer ficar em paz, mas as pessoas não deixam. Isso, aliás, é basicamente o plot do pequeno clássico RAMBO - PROGRAMADO PARA MATAR (1982). Ele só queria curtir a sua solidão em paz. Em ATÉ O FIM ele aparece ainda mais pacífico, bem mais velho e morando com uma família formada por uma garota órfã de mãe e abandonada pelo pai biológico. Ele é o Tio John, mas é o mais próximo de um pai que a garota tem. Há também uma senhora mexicana que cuida da casa e funciona como uma espécie de mãe.

A garota, na ânsia de conhecer o pai biológico, vai parar no México, contra a vontade de John, e acaba sendo raptada e colocada em um grupo de mulheres forçadas a se prostituir. John Rambo vai até lá com o intuito de resgatá-la. E é com essa simplicidade de trama que se constrói RAMBO - ATÉ O FIM.

E dá-lhe cenas de violência gráfica explícita, que até há alguns anos poderia ser mais celebrada pelos fãs de filmes de ação e terror, mas que não parecem chocar a audiência dos dias de hoje. Mas o problema é mesmo a falta de uma melhor solução para a trama, que leva o personagem para o velho exército de um homem que não empolga e esfria o interesse pela vingança, esse elemento tão fácil de gerar a solidariedade do espectador. No mais, o filme poderia ter aproveitado melhor a personagem de Paz Vega, que parece saída de algum filme dos anos 70. Falta de sensibilidade e inteligência dos realizadores, nesse sentido? Talvez.

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RAINHAS DO CRIME (The Kitchen)

Estreia na direção da roteirista Andrea Berloff. Não chega a ser um filme ruim, mas é meio problemático na incapacidade de trazer sentimentos de angústia e incômodo tanto pelas cenas violentas quanto pela mudança radical de vida das três mulheres, que passam a chefiar a máfia da Cozinha do Inferno depois que os três maridos são presos. O filme tem uma veia feminista forte e isso é um de seus méritos. Também gosto das três atrizes, mas sempre acho injusto quando surge uma Elisabeth Moss para humilhar as demais. Se bem que a Tiffany Haddish está ótima também. Podia ser algo melhor nas mãos de um bom diretor, talvez. Ano: 2019.

VELOZES & FURIOSOS - HOBBS & SHAW (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw)

No começo, este spin off da galinha dos ovos de ouro da Universal parece até ser bem bacana, com uma boa maneira de unir novamente os dois protagonistas que se odeiam para uma missão. Há um paralelismo bem interessante, assim como temos uma Vanessa Kirby pra lá de sensual e carismática. Mas depois o filme se estende por tempo demais e quando chega na parte de Samoa a gente quer que tudo termine. Outro problema desses filmes de ação sem muita novidade é que eles ficaram muito para trás depois do evento John Wick, pelo menos dentro do cinema ocidental contemporâneo. Também incomoda um pouco o modo como a franquia foi se distanciando da fisicalidade para ingressar em um pastiche de James Bond com toques de ficção científica no meio. E sem conseguir um resultado bacana com isso. Direção: David Leitch. Ano: 2019.

ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL (Hotel Mumbai)

Interessante que aqui não temos a Índia colorida de O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. A intenção é mesmo provocar um choque de contraste entre a extrema miséria das ruas de Mumbai e o luxo de cair o queixo do hotel onde se passa a história. É um thriller envolvente e eficiente feito por um diretor iniciante para longas. Os atores estão bem como heróis nascidos das circunstâncias; todo os cinco atores principais. E até os terroristas  saem um pouco do preto no branco na cena da ligação de um deles para o pai. No fim, todos são vítimas. Atenção para a bela iraniana Nazanin Boniadi. Já tinha visto a moça em HOMELAND, mas não sabia de onde a conhecia. Direção: Anthony Maras. Ano: 2018.

sexta-feira, setembro 20, 2019

O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (Tabi no Owari Sekai no Hajimari)

Considerado por muitos um dos maiores cineastas de cinema de horror da atualidade, Kiyoshi Kurosawa tem, com frequência, demonstrado interesse em variar. Basta lembrar que um de seus mais recentes trabalhos, PARA O OUTRO LADO (2015), por mais que adentre o terreno do espiritual, não opta pelo medo como fator principal, é sobre um grande amor que retorna da morte, tudo de maneira muito serena. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (2019), seu mais recente filme, exibido no Festival de Locarno, é de uma delicadeza impressionante. É, desde já, um dos melhores lançamentos deste ano.

O filme nos apresenta a uma repórter de um programa de variedades do Japão que está com sua equipe no Uzbequistão para gravar a história de um lendário peixe de dois metros de comprimento que habita, supostamente, um lago. Como não conseguem gravar o tal peixe, a equipe procura alguma coisa que possa ser interessante para o tal programa. Enquanto passa esse tempo em território estrangeiro, a protagonista de nome Yoko procura conhecer os pontos turísticos do lugar, ao mesmo tempo que lida com a solidão e o sentimento de saudade do namorado e uma forte insegurança também, tendo em vista que em determinado momento ele deixa de retornar suas mensagens.

Yoko é protagonizada por Atsuko Maeda, em terceira colaboração com Kurosawa. A primeira foi, inclusive, em outro filme ambientado fora do Japão, com ela como protagonista. Trata-se de O SÉTIMO CÓDIGO (2013). Outra informação muito interessante sobre Atsuko é que ela é uma cantora famosa no Japão, uma cantora que se tornou atriz, e que em O FIM DA VIAGEM.. canta em duas lindas cenas. Ela canta uma versão em japonês de "Hino ao Amor" nas duas cenas, mas o sentido da canção muda de acordo com o que acontece na vida da personagem e com o fluxo de seus sentimentos.

Impressionante como o filme nos faz próximos de Yoko. Sentimos medo quando ela sente medo; sentimos solidão quando ela se sente só; sentimos o seu mal estar diante do trabalho quando ela assim se sente; o sentimento de não pertencimento etc. Só por isso o filme já é louvável. Por isso o diretor não economiza elogios a Atsuko, que consegue passar aquilo que sente estando sozinha em cena. E há muitas cenas em que ela está sozinha naquele país estrangeiro e estranho.

Há uma cena especialmente tocante: ela tem a ideia de rodar uma matéria sobre um bode que está preso em uma casa e ela deseja libertar o animal. Como a equipe compra a ideia, eles vão em busca de realizar esta ação. E as cenas de Yoko com o bode e o reencontro são tão cheias de ternura que só aumentam ainda mais o grau de quase inocência que a personagem transmite. De vez em quando personagens assim fazem bem para nosso espírito. E por isso filmes assim são tão valiosos.

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RETRATO DO AMOR (Photograph)

Uma baita decepção este novo trabalho de Ritesh Batra, depois do lindo LUNCHBOX e do muito bom NOSSAS NOITES. Aqui a história de amor parece não funcionar em momento algum. Faltam tanto ao rapaz quanto à moça carisma e também química entre os dois. Talvez o excesso de "sutileza" tenha resultado em algo quase nulo. A trama fica tão morna que nem mesmo cheguei a torcer pelos dois. O filme não traz tanto do habitual caos nas ruas tão comuns nos filmes indianos. É mais focado na relação entre os dois e na mentira que criam para a avó do sujeito. Se bem que não deixa de ser um diferencial ver um personagem homem e heterossexual sofrendo a pressão de ter que casar. Geralmente só vemos isso em personagens femininas. Ano: 2019.

VISION

É o tipo de filme que a gente quer gostar, que contém cenas muito bonitas e um enredo complicado e que é meio que a cara de filmes japoneses de ficção científica e de alguns animes cabeça, mas que se revela um problema ao final da projeção. Naomi Kawase parece desde o começo puxar um sentimentalismo através de imagens (as lágrimas da personagem de Juliette Binoche ao presenciar o espaço geográfico milenar japonês), mas que precisa de uma maior conexão com o espectador para que se efetive. Gosto das duas cenas discretas de sexo, mas isso é mérito principalmente da beleza e da sensualidade de Binoche. É algo que já estamos acostumados a ver em filmes franceses. No final, a tal erva vision me pareceu bem pouco compreensível. Mas como eu acho que cinema é mais para sentir do que para entender, nem foi esse o problema. Ano: 2018.

BANGLA

E, ao que parece, nasce um novo talento das comédias românticas. O jovem Phaim Bhuiyan dirige e protagoniza esta história de amor sobre um jovem bengali que se apaixona por uma italiana. Como sua religião não permite sexo antes do casamento, isso começa a perturbá-lo, e muito. Um dos méritos do filme é nos fazer torcer pelo romance dos dois, entender os obstáculos, se apaixonar pela moça (que adorável que é Carlotta Antonelli!) e saber que toda grande história de amor traz obstáculos para que a tensão se estabeleça e a união seja possível. Saí do cinema leve. Se a vida real não está sendo tão gentil, às vezes é o cinema que traz um desses sonhos materializados. Ou quase. Ano: 2019.

quarta-feira, setembro 11, 2019

PACARRETE

A edição do festival Cine Ceará deste ano foi talvez a mais bonita, a mais bem-sucedida, a que mais encheu a nossa alma de amor e orgulho. Amor nestes tempos de ódio e intolerância; orgulho do nosso cinema brasileiro, e do nosso cinema cearense, especificamente, que nunca esteve em fase tão boa, tanto em quantidade quanto em qualidade. Não por acaso, tivemos um filme de um diretor cearense abrindo o festival, o premiado A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz; um que ganhou a mostra competitiva, GRETA, de Armando Praça; e o filme que encerrou o festival, PACARRETE (2019), de Allan Deberton. E é deste filme, que chegou com oito kikitos de Gramado, que falaremos agora.

Conheço o trabalho de Deberton desde o ótimo curta DOCE DE COCO (2011), que já mostrava um cineasta que tinha uma sensibilidade muito especial para lidar com questões humanas, com pessoas passando por situações de fragilidade. O curta apresenta uma garota que engravida de um rapaz conquistador de sua cidadezinha. O filme seguinte, O MELHOR AMIGO (2013), trata do amor platônico que um rapaz sente pelo amigo; depois veio OS OLHOS DE ARTHUR (2016), um trabalho que lida com um personagem autista. Ou seja, já dá para ver que desde os seus trabalhos iniciais, Deberton procura fazer uma espécie de defesa de pessoas incompreendidas.

Não é diferente com PACARRETE, sua estreia em longa-metragem no cinema. O que temos aqui é a história de uma mulher considerada louca pela cidade em que mora. A personagem é baseada na verdadeira Pacarrete, uma senhora excêntrica e espalhafatosa de Russas-CE que tentava mostrar o valor da arte e da dança para o povo simples da cidade. A verdadeira Pacarrete se chamava Maria Araújo Lima.

Quem encarna a versão para o cinema da personagem é a ótima Marcélia Cartaxo (prêmio de melhor atriz em Berlim por A HORA DA ESTRELA, de Suzana Amaral, entre outros vários prêmios). Ela esteve presente no curta de estreia de Allan Deberton e novamente se mostra um amuleto de sorte para o jovem cineasta.

É normal ficar um pouco incomodado a princípio com o tom que é dado à personagem. O filme começa com Pacarrete varrendo a calçada de sua casa dançando, lembrando um bocado os musicais da velha Hollywood, especialmente CANTANDO NA CHUVA. O belo colorido da fotografia, com auxílio da luz forte do Ceará, emula o technicolor dos anos de ouro do cinema americano. Depois vemos o quanto a personagem é exagerada na fala, o tom sempre acima. É quando vemos que estamos diante de uma comédia popular, pronta para ser apreciada por um público maior do que o dos festivais.

E, uma vez que nos acostumamos e aceitamos os trejeitos de Pacarrete, fica fácil gostar da personagem, de se solidarizar com ela. Inclusive, há uma fala que ela cita a falta de interesse das pessoas por arte que fez com que o Cine São Luiz em peso batesse palmas.

No elenco, há um personagem que representa uma espécie de contraponto para Pacarrete, o amoroso comerciante Miguel, vivido por João Miguel. Ele tem um carinho todo especial pela bailarina aposentada e isso faz com que ela nutra por ele um sentimento de amor platônico. Pacarrete mora sozinha com a irmã mais velha Chiquinha que vive em uma cadeira de rodas, vivida por Zezita Matos. Ela é outra personagem que traz uma sobriedade que equilibra as falas de Pacarrete. Há também a empregada da casa, Maria, vivida por Soia Lira.

Pacarrete tem interesse em aproveitar a comemoração dos 200 anos da cidade de Russas para apresentar à cidade o seu número de balé, que há tempos ela se dedica em casa, desde que voltou de Fortaleza, para cuidar da irmã mais velha. Porém, ela não é bem recebida pelos funcionários da prefeitura, que acreditam que seu trabalho não é de interesse do público, que quer mesmo uma festa com forró. Sem falar, que não acreditam na sanidade dela.

Em algum momento do filme, o melodrama entra forte e arrepiante. É louvável a transição tranquila que o cineasta consegue fazer da comédia para o melodrama e vice-versa. E muitas vezes de uma hora para outra, como se quisesse emprestar muito da molecagem cearense para o seu filme, como em certo momento muito triste que logo é seguido de uma piada que fez a plateia chorar de rir.

Entre o choro breve e o riso farto, PACARRETE é um dos mais bonitos exemplares recentes do nosso cinema. E chega em um momento muito necessário. Assim como a bailarina que não deixou de lado o seu sonho, precisamos seguir em frente nestes tempos difíceis para a cultura e para a própria sanidade mental. O filme deve estrear em todo o Brasil no primeiro trimestre de 2020.

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MARIA DO CARITÓ

Filme simpático, mas que talvez falhe em buscar cenas engraçadas nem sempre sendo bem-sucedido. O mais interessante do filme é o absurdo da situação, da moça vitalina em busca de marido, mas cujo pai a guardou para um santo. Depois veremos que o filme também funciona como uma metáfora da situação política atual no Brasil. Aliás, quase todo filme brasileiro nos faz lembrar da realidade, por mais inocente que pareça. Curiosamente, é um filme que dialoga com A VIDA INVISÍVEL, ao abordar a questão das mulheres sendo enganadas pelos homens, geralmente os pais, representando um patriarcado decadente. Direção: João Paulo Jabur. Ano: 2019.

CANÇÃO SEM NOME (Canción sin Nombre)

Duas histórias paralelas que se cruzam: a da jovem mulher em busca do filho recém-nascido sequestrado e a do jornalista que procura, em um Peru ainda sob domínio da ditadura militar (1988), ajudar aquela mulher. O maior destaque é visual. A fotografia, em 4x3 e em preto e branco, lembra bastante o cinema mudo dos anos 20, com uso de muitas sombras e uma sensação de opressão o tempo inteiro. Ainda assim, há muitas imagens lindas, especialmente as feitas em exteriores. Senti falta de uma maior conexão com o drama dos personagens, mas isso pode ser mais problema meu do que do filme. Direção: Melina Léon. Ano: 2019.

RAFIKI

Senti muita falta de me envolver com as personagens, de me importar com o destino e a união das duas. E isso já diz muito do filme para mim. Por mais que haja a intenção de abordar o tema do preconceito em um país extremamente preconceituoso como o Quênia, não me empolgou em momento algum. Ainda assim, gosto das meninas, que estão muito bem em seus papeis. Direção: Wanuri Kahiu. Ano: 2018.

sexta-feira, agosto 30, 2019

BACURAU

Você quer viver ou morrer? Essa pergunta é feita por um dos vários personagens de BACURAU (2019), filme-coral de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, em uma de suas cenas mais intensas. Escolher entre viver é a ideologia dos habitantes da cidadezinha que dá título ao filme, um lugar que é um exemplo de resistência em um Brasil distópico futurista que guarda algumas similaridades com o momento atual.

O interessante é que Kleber Mendonça Filho tem dito em entrevistas e debates que não é separatista, apesar de enaltecer o Nordeste com entusiasmo em seu filme. Seu trabalho, ainda que exibido apenas em 2019, provavelmente não deve ter antecipado a eleição de Jair Bolsonaro, que não venceu nos estados da região Nordeste. E por isso tem havido um movimento, ainda que muito tímido e às vezes em tom de brincadeira, em memes, de separar a região do restante do Brasil.

Como BACURAU flerta também com os filmes do cangaço e há momentos de banho de sangue, a chamada para reagir de forma violenta pode ser uma mensagem e tanto. E eis o seu potencial de dinamite, até por se vestir de uma roupa de filme de gênero, que muito provavelmente agradará a um público muito maior do que seus dois trabalhos mais art-house anteriores, O SOM AO REDOR (2012) e AQUARIUS (2016). Assim, a ambição do filme não é apenas de natureza formal ou no trato com a mensagem, mas ao saber de seu maior diálogo com o grande público.

A história começa com a ida de Teresa (Bárbara Colen, ótima) ao povoado. Ela está de carona no caminhão-pipa e usando um jaleco. O que ela carrega são vacinas, como iremos saber mais adiante, quando ela chega ao velório de sua mãe, a matriarca do vilarejo. Até o momento dessa chegada, muitas informações nos são passadas. E o filme demora um bom tempo nessa apresentação de personagens, até entrar efetivamente no suspense, quando eles percebem que estão sendo atacados.

Sônia Braga é uma médica no vilarejo e aparece inicialmente bastante transtornada no velório daquela senhora tão querida. Mas aos poucos vamos notando que, mesmo com uma rixa ou outra, aquele pequeno pedaço de civilização é formado por pessoas bem próximas e unidas. E essa união se torna ainda mais intensa quando eles se percebem vítimas de um ataque. Para nós, espectadores, ao ingressarmos em um universo novo e em uma cidade à margem dos grandes centros e do que está acontecendo no resto do Brasil, cada detalhe é interessante e muito bem recebido.

Como os diretores optaram por fazer um filme de ação bem próximo do cinema oitentista (não faltam referências a John Carpenter), há um tanto de caricatura nos vilões, em especial o alemão Udo Kier, um ícone do cinema europeu, com uma filmografia invejável e muitos filmes de terror também no currículo (ele até já foi o Conde Drácula na produção de Andy Warhol). E é trazendo Kier para essa mistura maluca que BACURAU se mostra como uma obra com um inegável senso de humor. É como se pudéssemos ver o sorriso no rosto de seus diretores em várias cenas, principalmente as que envolvem os estrangeiros, os vilões.

Por isso é possível ver BACURAU como uma grande aventura de mocinho contra bandido, um western feijoada moderno. Dessas que inspiram palmas do público em determinados momentos da narrativa. Quase um RAMBO, só que com vários personagens. Aliás, se olharmos para o cartaz do filme após vê-lo veremos o quanto cada personagem é importante para o enredo.

Dentre esses personagens, ainda não citei o cearense Silvero Pereira, que interpreta o fora-da-lei Lunga, amigo do pessoal de Bacurau, mas que vive escondido das autoridades. Até o momento em que ele finalmente surge, com uma aparência muito curiosa, com um misto de macho com queer. Isso faz com que o filme se aproxime tanto dos dias atuais quanto dos heróis parrudos dos filmes da década de 1980.

Outro cearense que não tem sido mencionado com frequência nas críticas é Rodger Rogério, compositor e intérprete da primeira geração do chamado Pessoal do Ceará. Ele interpreta uma espécie de cantador que está presente em uma das cenas mais divertidas do filme, quando do aparecimento dos forasteiros sudestinos. O diálogo dele com essas pessoas é impagável.

Como se vê, há tanto o que se falar sobre o filme, sobre cada personagem/ator/atriz, que até pode-se imaginar que BACURAU é uma obra de trama intrincada. Na verdade, o plot é muito simples e parece muitas vezes feito com ar de brincadeira. Porém, em se tratando de Kleber Mendonça Filho e do momento político brasileiro, pode haver uma interpretação de convite à luta.

Se ARÁBIA, outro dos filmes recentes de nossa cinematografia que vem conclamado as pessoas à luta, é uma obra com um tom bem melancólico; BACURAU transforma a melancolia em raiva, em ação, em luta. Não que o povo de lá seja de guerra. Mas a placa já diz tudo: "Bacurau: se for, vá em paz".

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ESPERO TUA (RE)VOLTA

Mais um documentário que ajuda a pensar e lembrar de eventos importantes da história política brasileira. Este filme muito bem editado foca na ocupação dos estudantes nas escolas públicas secundaristas quando da ameaça do fechamento de várias pela secretaria de educação do estado de São Paulo. O filme volta no tempo em alguns anos e tenta pensar o papel dos jovens na luta, de 2013 até o início de 2019, com a eleição de Bolsonaro. As melhores partes são dos embates dos jovens com a polícia. Ótimos registros. Direção: Eliza Capai. Ano: 2019.

PASTOR CLÁUDIO

Desses filmes que a gente assiste e não acredita, por mais que já saibamos dos horrores que aconteceram nos porões da ditadura. Mas ouvir e ver alguém que participou de execuções e de sumiços de corpos de pessoas contrárias à ideologia do Estado é aterrorizante. Por mais que Cláudio Guerra diga ser agora um pastor evangélico que reconhece os erros do passado e colabora com a comissão da verdade, como de fato vem colaborando, é muito difícil tanto para quem o encara quanto para ele mesmo ouvir/contar aquilo tudo. E há coisas que ele conta por alto, envolvendo sociedades secretas que ainda existem. A elite brasileira. E tudo passa a fazer sentido no que se refere ao apoio de um cara como Bolsonoro. O desejo de poder e o pouco caso pela vida do outro ainda impera. Direção: Beth Formaggini. Ano: 2017.

DIVINO AMOR

Um filme que despertou em mim sentimentos mistos. Embora tenha me incomodado o modo como eles retrataram os evangélicos, como, aliás, é natural de se ver na maioria dos filmes brasileiros (acho que a exceção que eu vi foi em uma cena de CARANDIRU, do Babenco), ainda assim, o encaminhamento do filme torna-o mais complexo e interessante. A segunda metade é melhor no que traz. Plasticamente é muito bonito e gosto da ousadia das cenas de sexo (BOI NEON já tinha uma cena ousada e boa). Ainda estou pensando nas alegorias com o Brasil da era Bolsonaro a partir do final, mas ainda não cheguei a uma conclusão. O que, de certa forma, é bom. Direção: Gabriel Mascaro. Ano: 2019.

segunda-feira, agosto 19, 2019

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a Time in… Hollywood)

Cada novo filme de Quentin Tarantino é um acontecimento que movimenta tanto cinéfilos assíduos quanto esporádicos. Eis o motivo de seus filmes serem tão populares. Claro que a capacidade do cineasta de trazer astros do primeiro escalão também ajuda bastante. Ter Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie no mesmo filme, sem falar em participações muito especiais, como a de Al Pacino, é um chamariz e tanto. Um luxo e tanto. Mas as pessoas vão ao cinema principalmente para ver o novo filme do cineasta, certamente.

Seu novo trabalho, ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (2019), é seu melhor filme desde BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) e tira um pouco do gosto amargo que ficou com OS OITO ODIADOS (2015). Seja através dos diálogos sem pressa, seja com o modo como Tarantino brinca com o tempo mais uma vez, estendendo-o às vezes para causar suspense, como na cena de Cliff Booth (Brad Pitt) em um cenário rodeado pelos hippies liderados por Charles Manson; seja na sequência final, que nos leva à fatídica noite do dia 9 de agosto de 1969, quando ocorreu a chacina que pôs fim a vida de Sharon Tate; em todos os momentos do filme, Tarantino é dono do tempo e do espaço.

Um espaço que ele recria a partir de um já existente, o da Los Angeles do final dos anos 1960. Lembrando que boa parte de seus filmes se passam em um tempo indeterminado, mas com uma aura de apego ao passado muito intensa. O melhor exemplo disso é o de PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994). Aqui há um misto de eventos e pessoais reais com criações puramente tarantinescas. Em especial os protagonistas, o ator decadente Rick Dalton, vivido por DiCaprio, e seu dublê, o já mencionado personagem de Pitt.

Há um clima de bromance entre os dois que lembra alguns filmes da Velha Hollywood, como os dirigidos por Howard Hawks, ainda que a amizade dos dois se manifeste da maneira bruta de Tarantino. Cada pessoa oferece o afeto da sua maneira. Mas isso não quer dizer que não se veja amor no filme. Há bastante. Especialmente amor pelo cinema. Seja o cinema de Hollywood, seja o cinema feito na Itália para exportação, por mais que o personagem de DiCaprio ache que está chegando ao fundo do poço por não conseguir espaço melhor nos Estados Unidos e encontrar um caminho aberto no cinema italiano de gênero, para ele considerado muito inferior. Engraçada a cena em que o personagem de Al Pacino lhe explica que Sergio Corbucci é o segundo melhor diretor de western spaghetti do mundo.

Quanto à já famosa violência tarantinesca, seja por causa da pressão dos novos tempos, seja por maturidade mesmo, o novo filme do cineasta é o que menos busca uma violência gráfica, dentre todos os seus trabalhos. Aqui o que mais conta é a beleza do ir e vir dos carros, as ruas movimentadas com centenas de cinemas de rua, tudo muito lindo de ver com a exuberante fotografia de Robert Richardson, colaborador de Tarantino desde KILL BILL – VOLUME 1 (2003).

Falando em beleza, que acerto a escolha de Margot Robbie para viver Sharon Tate, hein! Linda demais a cena dela no cinema, satisfeita com a ótima recepção do filme em que trabalha por parte do público. Há quem ache que sua presença em cena é muito pequena, quase não lhe é dado texto, mas isso acaba tornando-a próxima de uma deusa, justamente por isso. E sua personagem é tão cheia de graça que é difícil não se encantar com seu sorriso, com sua alegria de passear pelas ruas e de dançar. Como se Tarantino quisesse nos mostrar o quanto a morte de uma mulher como essa é abominável.

Por isso a polêmica e incrível aposta do cineasta pela sua conclusão é tão bem-vinda. No mais, há também um elogio à inocência e à infância na figura da atriz mirim Julia Butters, a menina que dá uma lição no decadente astro Rick Dalton.

Está havendo uma confusão de percepções sobre a questão hippie. Não há por que acreditar que o diretor tem uma visão negativa dos hippies. Aqueles hippies em especial, os envenenados pelas mensagens de Charles Mason, esses sim representam o mal. E, nesse sentido, Tarantino não se furta de querer mostrar o mal como definitivamente mal, como fez com os nazistas em BASTARDOS INGLÓRIOS. Pode ser uma visão simplista, mas o modo como o diretor lida com isso é de uma beleza que transcende a necessidade de maiores problematizações.

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LISA E O DIABO (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil)

Pelo pouco que eu li de bastidores este parece ser o SOBERBA do Mario Bava, com a vantagem que foi um filme que conseguiu ter a suposta versão do diretor lançada posteriormente, já quando o cineasta faleceu. É uma obra estranha, bem delirante, que me lembrou CARNIVAL OF SOULS. Engraçado isso, já que CARNIVAL havia me lembrado um dos Bavas. Aqui se tem em comum a mulher perambulando perdida, a presença dos mortos que ressurgem, muitas cenas de climão, mas soma-se aí muitas cores na fotografia (bonita mesmo) e um romantismo que eu não esperava, lá pelo final. Romantismo no sentido amplo do termo, digo. Destaque para a participação da Alida Valli. Por mais que, de interpretação mesmo, só dê para destacar a naturalidade do Telly Savalas mesmo. Ano: 1973.

DUAS RAINHAS (Mary Queen of Scots)

Boa estreia de Josie Rourke, diretora mais ligada ao teatro. Ao contrário do que se pensa (inclusive pelo título brasileiro), a grande figura do filme é mesmo Saoirse Ronan. A rainha Elizabeth de Margot Robbie tem um papel importante, mas menor na trama, que tem o seu peso trágico, graças à própria história, aqui contada com muito mais minúcias do que no filme do John Ford. Ano: 2018.

SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS (Se7en)

Impulsionado pelo pessoal do Cinema na Varanda fui rever SEVEN, que tinha visto no cinema uma vez e outra em VHS. Mal lembrava do filme em si, só lampejos e do final impactante. Aliás, é engraçado isso: eu geralmente costumo esquecer dos finais dos filmes, menos dos impactantes. Com o tempo virou mesmo um clássico, embora eu ache que falte algo para se tornar excelente, não sei.. Mas é muito bom de ver e a trilha do Howard Shore é uma das mais felizes de sua carreira. Dramática e tensa, especialmente no final. Direção: David Fincher. Ano: 1995.

segunda-feira, agosto 12, 2019

BLOQUEIO

Quentin Delaroche já havia dirigido um ótimo filme sobre o cenário político recente do Brasil, CAMOCIM (2017), que funcionou como uma espécie de espelho da sociedade brasileira. Em BLOQUEIO (2018), somos reapresentados a um caso que aconteceu no ano passado e que gerou uma forte repercussão, a paralisação nacional dos caminhoneiros. E tem acontecido tanta coisa de 2018 para cá que quase esquecemos este momento em que o Brasil quase parou. O filme também lembra que o comportamento de boa parte dos grevistas era muito próximo de um bolsonarismo, como se aquela ação, de modo não deliberado, tivesse ajudado a chocar o ovo da serpente.

Assinado por Delaroche e por Victória Álvarez, o filme tem uma estrutura bastante simples: os diretores, ao verem que aquela situação poderia ser interessante o suficiente para gerar um filme para cinema, se dirigiram até um dos locais de concentração. Como o documentário é o gênero cinematográfico que mais depende do acaso para seu sucesso, podemos dizer que um dos problemas de BLOQUEIO está na ausência de personagens marcantes.

O que o documentário mais enfatiza na luta dos caminhoneiros por melhores condições de trabalho é o que há de mais controverso em seu discurso: o socorro através de uma intervenção militar. E isso acaba se tornando ridículo quando eles são forçados a encerrar a greve devido à chegada da polícia do exército. O próprio diretor pergunta a um deles, que é mal tratado por um dos militares: mas não é a eles que vocês estão pedindo socorro?

Depois de discursos desse tipo e orações de grupos evangélicos, um sopro de sobriedade surge quando dois professores chegam para discutir com o grupo, tratando justamente da questão da intervenção militar como solução para todos os problemas do Brasil, para o fim da corrupção etc. Ordem e progresso, a bandeira do Brasil, o Hino Nacional, todos esses símbolos que acabaram sendo apropriados pela direita, são abraçados pelos grevistas. E há um sentimento misto na cena em que eles cantam o Hino Nacional. Que momento esse em que vivemos, hein.

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O OLHO E A FACA

Quanta mudança de RIOCORRENTE (2013), tão cheio de alegorias visuais, para este novo trabalho de Paulo Sacramento, um pouco mais simples na forma, mas que aposta no tom de opressão. Opressão no trabalho, opressão na família do personagem de Rodrigo Lombardi. O diálogo com Caco Ciocler é perturbador; a cena de sexo com Débora Nascimento é animadora, as cenas com a família são incômodas, mas muito boas. Algo parece ter se perdido, mas ainda assim é um filme que merece ser visto com interesse. Ano: 2019.

MARCIA HAYDÉE – UMA VIDA PELA DANÇA

Eu, como leigo que sou em matéria de dança, desconhecia a existência da maior bailarina do Brasil (pelo que entendi no documentário). Bom ter um documentário exibido nos cinemas para nos apresentar a ela, por mais que o formato seja um tanto quadrado. Acredito que seja um filme mais apreciado pelos fãs de ballet e dança moderna também, já que ela foi uma que "contaminou" o ballet clássico com a modernidade. Direção: Daniela Kullman. Ano: 2018.

FEVEREIROS

Faltam-me identificação e sentimento de proximidade para gostar mais deste filme. Já que nem sou de família católica e nem do candomblé, acho que acabei vendo tudo com muito distanciamento. Ainda assim, com algum interesse, principalmente pelo fato de a personagem em questão ser Maria Bethânia e o filme também tratar de sua infância (dela e de Caetano Veloso, que me interessa mais). E tem o fato de a Bahia ser um mundo singular. Direção: Marcio Debellian. Ano: 2017.

quinta-feira, agosto 08, 2019

DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)

Um dos momentos mais bonitos de DOR E GLÓRIA (2019) acontece quando o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), em clara emoção, percebe o quanto tocou positivamente a vida de alguém ao resgatar uma pintura escrita por um jovem rapaz a quem ele alfabetizou já quando criança. Pode ser também uma cena representativa do quanto somos gratos ao próprio Pedro Almodóvar pelo tanto que ele nos proporcionou ao longo de três décadas de cinema. Um cinema transgressor e transbordante de emoções.

Curiosamente, o novo trabalho do mais popular dos cineastas espanhóis é um dos mais contidos no que se refere à sua tradicional veia intensa na dramaticidade, que se traduz tanto no uso das cores fortes quanto, principalmente, nas interpretações e nos sentimentos. Daí ele se encontrar na categoria de cineasta que ganhou um adjetivo: almodovariano.

Desde A FLOR DO MEU SEGREDO (1995), sua filmografia tem passado por mudanças que já sinalizavam um estilo mais maduro, com uma tendência a fazer menos comédias e mais dramas um pouco mais sóbrios. A única exceção dessa fase recente foi OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), curiosamente não muito bem recebido por vários fãs e por boa parte da crítica.

Se esses filmes de 1995 pra cá representam uma fase madura, DOR E GLÓRIA transparece ainda mais, inclusive por ser costumeiramente chamado de bio-ficção, por misturar supostamente eventos da vida pessoal do cineasta com histórias e personagens fictícios. A questão dos problemas de saúde de Salvador é um dos primeiros pontos que o filme trata, e o modo como isso é mostrado é muito inteligente e divertido, mas também algo com que possamos tanto nos identificar quanto nos solidarizar com o personagem.

Paralelamente, as memórias de infância de Salvador nos são apresentadas, com um especial carinho pela figura da mãe do cineasta, na fase mais jovem interpretada por Penélope Cruz, e na fase idosa por Julieta Serrano. Essas memórias irão entrecortar toda a narrativa fílmica, enquanto vemos o avanço daquele momento de quase aposentadoria de Salvador, quando ele se vê cansado e doente o suficiente para não se sentir capaz de voltar a um set de filmagens.

O filme, então, passa a tratar de reencontros. O reencontro com um ator com quem ele não trabalhava há mais de vinte anos (Asier Etxeandia) e, de maneira mais emocionante, o reencontro com uma paixão da juventude (Leonardo Sbaraglia). O primeiro representou a busca do protagonista por uma nova experiência, a heroína; o segundo trouxe lembranças boas e a certeza de que os momentos em que estiveram juntos foram positivamente essenciais para a vida e a obra do artista.

Mas nada mais emocionante que a questão da mãe, ao final do filme. Os diálogos de Salvador com a mãe, próxima da morte e já dizendo como gostaria de ser enterrada, além de falar sobre questões sobre aceitação, no que concerne principalmente à orientação sexual do diretor, e à dificuldade do relacionamento entre os dois na fase adulta, tudo isso chega em um crescendo sutilmente intenso. Almodóvar trata isso com tanta delicadeza que as lágrimas descem de maneira também sutil.

Quanto a Antonio Banderas, ele vive o personagem de sua vida em DOR E GLÓRIA. E tendo em Almodóvar o principal responsável por apresentá-lo ao mundo, com filmes como MATADOR (1986), A LEI DO DESEJO (1987) e ATA-ME (1989), nada melhor do que tê-lo novamente, e que até então se mostrava um tanto limitado, dessa vez em um papel lindo e comovente como o de Salvador Mallo. Seu prêmio de melhor ator em Cannes foi mais do que merecido.

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GRAÇAS A DEUS (Grâce à Dieu)

François Ozon tem domínio narrativo, mas, embora este filme pareça uma espécie de cruzamento entre SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS e 120 BATIMENTOS POR MINUTO, não tem o mesmo dinamismo do primeiro nem a mesma paixão do segundo. Também pode remeter ao MÁ EDUCAÇÃO, do Almodóvar, pela temática. Em outros tempos, poderia causar polêmica, mas hoje em dia os escândalos envolvendo padres pedófilos já se tornaram, infelizmente, comuns. O lado positivo é que as pessoas estão contando mais e se livrando um pouco mais de seus demônios pessoais. Bom o fato de o filme ter vários núcleos, sendo três os personagens mais importantes. Ano: 2018.

JORNADA DA VIDA (Yao)

Um filme que conecta os sentimentos que tivemos de algo de nossa vida a partir de cenas simples e ternas. A história do menino Yao que resolve ir de sua vila no meio do deserto do Senegal até Qatar para conhecer o ator famoso vivido por Omar Sy. Destaque para a química entre os dois, para os sorrisos que passam uma alegria de viver contagiante. Sy já é desses atores que esbanjam carisma. Um papel como esse lhe cai como uma luva. Mas o menino também é ótimo. Direção: Philippe Godeau. Ano: 2018.

QUERIDO MENINO (Beautiful Boy)

Gosto de muitas coisas do filme, mas ele não funciona direito como um todo. Acaba dependendo demais de seus atores e atrizes (adorei ver Maura Tierney na telona - baita atriz!). Queria ter me emocionado tanto quanto me emocionei com ALABAMA MONROE, o filme do diretor na Bélgica. Steve Carell cada vez mais à vontade em papéis sérios. Nesse eu não lembrei em nenhuma vez do Michael de THE OFFICE. Direção: Felix van Groeningen. Ano: 2018.