sábado, dezembro 28, 2019

TOP 20 2019 E O BALANÇO DO ANO



1. LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, de Bi Gan
2. DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar
3. O IRLANDÊS, de Martin Scorsese
4. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO, de Kiyoshi Kurosawa

5. ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD, de Quentin Tarantino
6. DESLEMBRO, de Flavia Castro
7. A NOSSA ESPERA, de Guillaume Senez
8. SYNONYMES, de Nadav Lapid

9. 3 FACES, de Jafar Panahi
10. MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel
11. INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee
12. TODOS JÁ SABEM, de Asghar Farhadi


13. BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
14. FORA DE SÉRIE, de Olivia Wilde
15. UM AMOR IMPOSSÍVEL, de Catherine Corsini
16. O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente

17. VINGADORES - ULTIMATO, de Anthony e Joe Russo
18. PARASITA, de Boon Joon-ho
19. O MAL NÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR, de Ari Aster
20. UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK, de Woody Allen

Menções honrosas 

21. UM HOMEM FIEL, de Louis Garrel
22. ASSUNTO DE FAMÍLIA, de Hirokazu Koreeda
23. VARDA POR AGNÈS, de Agnès Varda
24. A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz
25. LEMBRO MAIS DOS CORVOS, de Gustavo Vinagre
26. GUERRA FRIA, de Pawel Pawlikowski
27. UM ELEFANTE SENTADO QUIETO, de Bo Hu
28. O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA, de Letícia Simões
29. VERMELHO SOL, de Benjamín Naishtat
30. A FAVORITA, de Yorgos Lanthimos

Já virou até um clichê todo final de ano dizermos que não foi um ano fácil. Mas 2019 foi, no mínimo, bem diferente. As circunstâncias políticas no Brasil e no mundo fizeram toda a diferença e, inclusive, refletiu em alguns dos filmes mais representativos deste ano, que trataram de expor a questão da luta de classes. Os filmes que mais lidam com esse assunto, dentre os 20, são o brasileiro BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e o sul-coreano PARASITA, de Boon Joon-ho. Os dois passaram no Festival de Cannes e foram ambos premiados. Cada um a sua maneira trata de meter o dedo na ferida da má distribuição de renda. No caso de BACURAU, a má intenção dos poderosos é tema. 

O cinema cearense também tratou da luta de classes em um filme de horror, o ótimo O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente, que apresenta ricos, literalmente, comendo os pobres e invisíveis. SYNONYMES, de Nadav Lapid, também trata com sensibilidade da questão do abismo social, o caso dos imigrantes em países desenvolvidos. 

Assim, ao longo do ano, fomos cada vez mais vendo que o cinema, assim como outras formas de arte, estava revestido de um gesto político. É por isso que um filme como INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee, que expõe, com muito bom humor mas com uma raiva represada também, a questão do racismo nos Estados Unidos, é tão urgente, tão importante, em pleno século XXI. É que certas coisas óbvias parece que deixaram de ser tão óbvias. Por isso é sempre bom lembrar também dos anos de chumbo da ditadura no Brasil, e DESLEMBRO, de Flavia Castro, faz isso de maneira encantadora. 

Temos também as questões do machismo e da violência sexual, presentes de maneira impactante em UM AMOR IMPOSSÍVEL, de Catherine Corsini, que conta a história de uma mulher que se deixa levar, pela paixão, pelo homem que acredita ser o amor de sua vida e que é pai de sua filha, mas que, no entanto, vai se tornando cada vez mais ausente. 

Falando em ausência, como não lembrar da tristeza imensa que MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel, é capaz de traduzir em imagens e sons? Temos aqui o caso de uma mulher que aguarda notícias do marido, preso durante a Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação alemã na França. Provavelmente ele estaria em um campo de concentração, mas não saber se ele está vivo ou morto é mais angustiante do que saber de sua morte. Temos uma das melhores interpretações femininas do ano aqui, a de Mélanie Thierry. 

Falando em grandes interpretações dentro de grandes filmes, o que foram os novos trabalhos de Pedro Almodóvar e Martin Scorsese, hein? Esses dois realizadores trouxeram novas obras-primas para seus currículos, DOR E GLÓRIA e O IRLANDÊS, trabalhos que representam momentos particularmente maduros de suas carreiras. Como grandes autores que são, suas vidas são espelhadas em suas obras. No caso de Almodóvar, mais ainda, já que o personagem de Antonio Banderas vive seu alter-ego, cheio de problemas de doenças e questões afetivas pendentes. Já Scorsese realizou um projeto de longa data, reunindo uma trupe dos mais brilhantes atores da Nova Hollywood, todos na sua faixa de idade, para repensar o mundo da máfia sob nova luz e trazer à tona mais uma vez a culpa, um dos temas mais frequentes na obra do cineasta americano. 

Outro cineasta americano da Nova Hollywood que compareceu também nos cinemas, mas com um filme que estava, até então, embargado por causa de problemas legais envolvendo a Amazon, a produtora e distribuidora e uma acusação não comprovada de abuso sexual. UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK parece um filme como qualquer outro de Woody Allen, mas a distância de dois anos fez com que a saudade de ver suas obras no cinema fizesse uma falta tremenda. E ele aqui traz um filme novamente com dois jovens personagens vivendo situações desafiadoras diferentes em suas vidas. E aprendendo com isso. 

Quem também soube lidar com as questões da juventude foi a estreante Olivia Wilde, que com seu FORA DE SÉRIE, narrou os dramas e as angústias de duas meninas CDF de uma escola, que resolvem tirar um dia para tirar o atraso do tempo que deixaram de curtir em festas etc., como seus colegas "normais". É também um lindo filme sobre amizade e sororidade. Possivelmente o mais bonito. Além de ser também muito engraçado. 

Quanto ao amor romântico, o melhor exemplar exibido no ano não foi uma comédia romântica fácil de ver, mas um pesado drama noir sobre a busca de um homem por uma mulher. Temos em LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, de Gan Bi, um tipo de cinema que se apoia no sonho para se elevar, tratando também do aspecto escorregadio da memória. O que é a cena do voo? Impressionante como o cinema continua sendo essa fábrica de sonhos que mexe com nossos corações. 

Quem também tratou de diminuir na violência e aumentar no amor neste ano foi Quentin Tarantino. E deu muito certo. ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD não é apenas uma declaração de amor ao cinema, mas também à arte de modificar a realidade (como ele já havia feito uma vez em certo filme de guerra). Passada a polêmica besta envolvendo Bruce Lee, o que ficou foi a presença do nono filme de Tarantino em centenas de listas de melhores do ano. Nada mais justo. 

E falando em filmes lindos, o que dizer de A NOSSA ESPERA, de Guillaume Senez? O filme quase não dá tempo para o choro, deixando a emoção à flor da pele, ao contar a história de um homem que é abandonado pela esposa e trata de cuidar com muito amor dos filhos. Interpretação linda de Roman Duiris. Lá do Japão veio o maravilhoso O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO, de Kiyoshi Kurosawa, que é um dos melhores exemplos de como ser capaz de nos colocar no lugar de uma personagem que se sente extremamente frágil, mas também impressionantemente corajosa. 

Dois cineastas iranianos comparecem no meu top 20: Jafar Panahi, que consegue tirar leite de pedra, mesmo estando proibido de filmar pelo governo de seu país. Em 3 FACES, ele adentra o Irã rural para contar uma história que cheira tanto à realidade que o filme parece um documentário. Já Asghard Farhadi optou por uma narrativa mais convencional, mas ainda coerente com sua obra, tratando novamente de questões familiares. A experiência de filmar TODOS JÁ SABEM na Espanha não agradou a tantos, mas eu achei o filme saborosíssimo. Uma espécie de thriller com fortes toques de melodrama e um elenco ibero-americano de dar gosto.

Falando em filme de gênero, um dos títulos mais aguardados do ano foi o novo trabalho de Ari Aster. E talvez por ser muito aguardado acabou despertando sentimentos mistos. Mas a verdade é que ver O MALNÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR passa aquela impressão de que estamos vendo algo muito especial. E essa sensação é muito boa. Além do mais, há tantas cenas de beleza plástica e outras tantas memoráveis que as chances de este filme se tornar um clássico são bem grandes. 

Para terminar, lembremos do melhor filme dos Estúdios Marvel, VINGADORES - ULTIMATO, dirigido pelos irmãos Joe e Anthony Russo, que fecharam com chave de ouro uma trajetória muito bem orquestrada. Quem foi/é fã dos quadrinhos da Marvel quando criança, adolescente ou adulto, viu aqui a materialização de um sonho, a realização de uma grande ópera espacial com dezenas de super-heróis, sem nunca perder o lado humano no processo. Isso é quase um milagre. E talvez este filme seja mesmo isso tudo, um milagre. 

É por causa de filmes como esses vinte citados (claro que poderia ter citado muitos mais) que o cinema ainda continua sendo uma forma de arte que vai além do mero entretenimento, que nos eleva espiritualmente e nos faz pessoas melhores. Pelo menos, quero acreditar que sim, por mais que ver muitos filmes seja uma tarefa que possa sacrificar um pouco a vida social. 

Top 5 - Piores filmes do ano

É a tal coisa: a cada ano eu tenho sido mais seletivo na escolha dos filmes, por mais que ainda continue indo bastante ao cinema. O caso de CATS é especial, já que entramos no cinema já esperando o pior, mas infelizmente isso acontece com filmes que a gente torce que dê certo. 

1. CATS, de Tom Hooper
2. STAR WARS - A ASCENSÃO SKYWALKER, de J.J. Abrams
3. X-MEN - FÊNIX NEGRA, de Simon Kinberg
4. KARDEC, de Wagner de Assis
5. HELLBOY, de Neil Marshall

Top 5 - Musas do Ano

Tenho um especial apreço por esta seção, que parece ser um tanto controversa nos dias de hoje. Mas a verdade é que a apreciação da beleza feminina fala mais forte e acredito que simplesmente deixar de lado esta seção seria uma espécie de autocensura. Assim, deixo aqui a lembrança e as imagens de cinco atrizes que são não apenas colírios para os olhos, mas calor para o coração, encantamento para o espírito... 

1. Margot Robbie (ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD)

2. Juliette Binoche (QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU, VISION e VIDAS DUPLAS)

3. Elle Fanning (ESPÍRITO JOVEM e UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK)

4. Josephine Langford  (AFTER)
5. Naomi Scott (ALADDIN e AS PANTERAS)

Clássicos revisitados ou vistos pela primeira vez na telona em ordem alfabética

A MULHER É O FUTURO DO HOMEM, de Hong Sang-soo
AS DIABÓLICAS, de Henri-Georges Clouzot
CONTO DE CINEMA, de Hong Sang-soo
CYRANO, de Jean-Paul Rappeneau
FILHA DE NINGUÉM, de Hong Sang-soo
JUVENTUDE TRANSVIADA, de Nicholas Ray
O ASSASSINO MORA NO 21, de Henri-Georges Clouzot
O FILME DE OKI, de Hong Sang-soo
O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
O MISTÉRIO DE PICASSO, de Henri-Georges Clouzot
O MISTÉRIO DE PICASSO, de Henri-Georges Clouzot
O SALÁRIO DO MEDO, de Henri-Georges Clouzot
PERSONA, de Ingmar Bergman
TARTUFO, de F. W. Murnau
Top 20 vistos pela primeira vez na telinha em ordem alfabética

A FORÇA DOS SENTIDOS, de Jean Garrett
A GAROTA DE LUGAR NENHUM, de Jean-Claude Brisseau
DEMOCRACIA EM VERTIGEM, de Petra Costa
FRONTEIRAS DO INFERNO, de Walter Hugo Khouri
FULANINHA, de David Neves
KARINA - OBJETO DE PRAZER, de Jean Garrett
LISA E O DIABO, de Mario Bava
O CÓDIGO PENAL, de Howard Hawks
O FOTÓGRAFO, de Jean Garrett
O PARQUE MACABRO, de Herk Harvey
O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano
OITAVA SÉRIE, de Bo Burnham
OS MENINOS, de Narciso Ibáñez Serrador
PAIXÃO E ACASO, de Domingos Oliveira
RIO BABILÔNIA, de Neville d'Almeida
SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA, de Luiz Sérgio Person
TCHAU AMOR, de Jean Garrett
TRÊS IRMÃOS, de Teresa Villaverde
UM CAMINHO PARA DOIS, de Stanley Doney
UMA CANTA, A OUTRA NÃO, de Agnès Varda

Revisões na telinha

OMISTÉRIO DE CANDYMAN, de Bernard Rose
O REI DA COMÉDIA, de Martin Scorsese
REVANCHE REBELDE, de Robert Rodriguez
SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS, de David Fincher
TOKIO EM DECADÊNCIA, de Ryû Murakami

As séries e minisséries - Top 5

1. CHERNOBYL
2. MR. ROBOT - QUARTA TEMPORADA
3. EUPHORIA - PRIMEIRA TEMPORADA
4. MODERN LOVE - PRIMEIRA TEMPORADA
5. FLEABAG - PRIMEIRA TEMPORADA


Feliz 2020!

Assim, deixo meus votos de um excelente 2020 para todos nós, tanto na vida social, quanto na arte, nos filmes em especial. Que possamos prosseguir lutando pelo nosso direito ao acesso à arte. Que pessoas ignóbeis como alguns que estão no poder tenham seus interesses de destruição frustrados e nosso cinema brasileiro alcance um status ainda maior - é preciso que ele chegue com mais força ao público. Enfim, muita paz, amor, saúde, diversão e arte. Grande abraço e um muito obrigado aos leitores deste espaço.

domingo, dezembro 22, 2019

14 CURTAS E UM MÉDIA-METRAGEM

PLANETA FÁBRICA

Pra quem viu o excelente CHAPELEIROS (1983), de Adrian Cooper, não faz muito tempo, o impacto deste PLANETA FÁBRICA talvez seja menor. Ainda assim, revisitar as imagens poderosas do filme original e ver as imagens mais recentes da fábrica de chapéus passa sentimentos confusos, conflitantes. Acho que mudei a impressão um pouco do filme original, do quanto eu achava a fábrica um ambiente de quase escravidão e sofrimento e agora vejo que pode ter sido um espaço de muito prazer para todos que lá trabalharam ou fizeram parte. Direção: Julia Zakia. Ano: 2019.

A FELICIDADE DELAS

Não gosto tanto da primeira parte, mas ela é parte importante para a segunda parte e o final incrível, com as duas meninas. Fiquei na dúvida sobre o final, mas imagino que seja representativo de uma espécie de morte que se confunde com um êxtase. O que é a mesma coisa, levando em consideração os arquétipos de sexo e morte. Há todo um trabalho muito bem pensado de decupagem nas cenas das duas mulheres em momento íntimo no meio de uma fuga da polícia, intensificando a excitação. Curiosamente, Julia Zakia, do curta que eu vi anteriormente, é diretora de fotografia deste aqui. Direção: Carol Rodrigues. Ano: 2019.

ANIMAL INDIRETO

O diretor tem a ideia de fazer um filme (um média-metragem) a partir de sua experiência com o transtorno de ansiedade, que em seu caso foi seguido de um período de depressão. Assim, ele resolve filmar, à sua maneira, suas viagens para Cuba e Haiti, a fim de encontrar uma cura ou algum sentido para a vida. Queria que o filme tivesse me tocado mais, já que tenho um histórico de transtorno de ansiedade também, mas não houve tanta identificação. Ou vai ver o acaso não foi tão generoso com ele, a ponto de trazer-lhe bons personagens e situações extraordinárias. De todo modo, é bom perceber que a intenção dele muitas vezes parece ser focar no presente, a fim de se desviar das angústias. Assim, há muita câmera parada filmando a natureza. Direção: Daniel Lentini. Ano: 2019.

MIRAGEM

Um filme que eu poderia ficar vendo por horas, mas que dura apenas cerca de 20 minutos. Aqui a diretora cria uma atmosfera de intimidade nas entrevistadas (sua mãe e a atriz Gilda Nomacce) para alcançar momentos e sentimentos que venham de memórias bem antigas, e memórias em que as pessoas estivessem sozinhas. Isso é importante no processo. É um tipo de cinema mais sensível, feminino, que não tem medo de atingir fundo nas emoções para provocar o choro. Gosto demais desse tipo de cinema. Destaque para uma imagem "do futuro" descrita por Gilda. Quase uma cena de horror de um filme do Bergman (me lembrou MORANGOS SILVESTRES). Direção: Flora Dias. Ano: 2019. FOTO.

OLHAR E SENSAÇÃO

Um filme que ajuda a explicitar a posição de Carlão entre os três cineastas que melhor representam a cidade de São Paulo, ao lado de Khouri e Person. Aqui temos uma alternância de imagens de natureza triste (animais enjaulados) e uma megalópole em ritmo bem acelerado. Há ainda espaço para recordações de infância e uma música composta pelo próprio diretor inspirada em Bach. Direção: Carlos Reichenbach. Ano: 1994.

ESTA RUA TÃO AUGUSTA

Paródia dos filmes institucionais, celebrando a Rua Augusta (e São Paulo, por tabela), mas não sem também celebrar a figura de um artista, no caso um pintor maldito que anda de saia e pinta cristos de saia entre outras brincadeiras com a religião cristã. Carlos Reichenbach, em seu primeiro filme, já mostrando o humanista que sempre seria. Ano: 1968.

SANGUE CORSÁRIO

Um dos mais bonitos curtas de Carlos Reichenbach, SANGUE CORSÁRIO lida com a palavra em seu estado mais belo: a poesia. Aqui não é um documentário, mas uma ficção experimental em que o poeta Orlando Parolini, também ator de três obras importantes do diretor, interpreta um poeta visionário, um homem à frente de seu tempo. É filme para ver mais vezes, até para absorver as palavras escolhidas por Carlão. Ano: 1979.

O M DA MINHA MÃO

Se no curta de 68, Carlos Reichenbach homenageou um pintor (e uma rua), aqui temos a homenagem a um outro artista, um músico cego que toca acordeom. Há mais recursos metalinguísticos e há mais respiro para se ouvir a música nesse filme de mais interiores que exteriores. M lembra também o filme de Lang, um dos ídolos de Carlão. Ano: 1979.

TEA FOR TWO

Muito bom ter a oportunidade de ver um belo curta de estreia dentro de uma sessão com um longa. No caso, LEMBRO MAIS DOS CORVOS, de Gustavo Vinagre. Este curta dirigido pela atriz e amiga de Vinagre é uma espécie de comédia romântica meio melodrama sobre corações partidos e novos encontros. Achei muito bom, especialmente pela presença forte de Gilda Nomacce. Que gigante que é essa mulher! Direção: Julia Katharine. Ano: 2018.

BAO

Curta interessante que abre OS INCRÍVEIS 2 e que trata da questão da maternidade e outras coisas até um tanto sombrias. Queria ter me envolvido mais, na verdade, mas acho que estava um pouco desligado, e a narrativa é muito rápida. Direção: Domee Shi. Ano: 2018.

LINKLATER: ON CINEMA AND TIME

Uma pequena homenagem ao cinema de Richard Linklater e a uma de suas maiores obsessões: o tempo. Quem é fã, difícil não se emocionar ou ficar com os olhos marejados, principalmente nas cenas envolvendo Jesse e Celine. Dá pra ver várias vezes com prazer. Direção: Kogonada. Ano: 2017.

ANT HEAD

É o caso de rever e entender melhor este curta de David Lynch. A primeira parte requer um bocado de concentração do espectador, mesmo não acontecendo muita coisa. A segunda já parece ter alguma relação com a teoria de Lynch sobre o mal que está cercando o nosso mundo contemporâneo. A investigação mais detalhada de um mal ainda maior e poderoso, como mostrado em TWIN PEAKS - O RETORNO (2017). Ano: 2018.

ALGUMA COISA ASSIM

Que filme bonito e com gosto de quero mais. Mas nem é tanto assim pelo drama do personagem masculino, ainda em busca de reafirmar sua sexualidade, mas de sua amiga, vivida pela Caroline Abras. Que graça essa menina. E talentosa pra caramba. Não à toa ela quem ganhou prêmio por esse curta em Gramado. Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos. Ano: 2006.

SER O QUE SE É

Curta que trata da valorização do corpo da mulher, da aceitação. E também da atração entre duas mulheres. Curiosamente passou antes da exibição de TRAFFIK, e foi muito prejudicado pela sala ruim, escura. A cópia do filme também não parecia ajudar. Direção: Marcela Lordy. Ano: 2018.

THE CHORUS

Um filme que antecipa a angústia de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987). Impressionante como Abbas Kiarostami trabalha de maneira tão sofisticada com os recursos mais simples de que dispõe. Pode ser um filme sobre a necessidade de ouvir e de ser ouvido. Ou tem alguma conotação política que ainda não peguei. Ano: 1982.

sábado, dezembro 21, 2019

AMOR À SEGUNDA VISTA (Mon Inconnue)

Curiosamente, o gênero comédia romântica anda em baixa já faz algum tempo. A última onda ocorreu nos anos 1990 e de lá para cá Hollywood e o Reino Unido ficaram com poucos exemplares por ano. No entanto, o cinema comercial francês traz alguns exemplares que merecem a nossa atenção, embora parte da crítica vá encontrar problemas e dizer o quanto tais filmes são antiquados e tal. Mas creio que muitas vezes o que mais importa é o quanto a obra é capaz de aquecer nossos corações, e creio que, nesse sentido, AMOR À SEGUNDA VISTA, de Hugo Gélin, merece uma atenção especial, principalmente para aqueles de espírito romântico.

O que faz uma boa história de amor? Acredito que um dos elementos que mais funcionam para uma bem-sucedida narrativa amorosa está no tipo de obstáculo apresentado. Desde muito antes de Romeu e Julieta que sabemos que quando não há obstáculo, a relação não é valorizada. Outra coisa: é preciso haver algum grau de identificação com pelo menos um dos personagens.

No caso do filme de Gélin, é fácil sentir-se próximo de Raphaël, o personagem de François Civil. Principalmente quando, junto com ele, nos apaixonamos pela bela Olivia (Joséphine Japy). Quem costuma se sentir atraído pela beleza e pela doçura de belas mulheres já fica no mínimo solidário de Raphaël, quando, que, como num passe de mágica, o amor de sua vida deixa de fazer parte de sua rotina. Sim, estamos diante de um filme de gênero fantástico, que traz um elemento sem explicação para que Raphaël finalmente veja o que está perdendo. Ou aprenda com aquela espécie de maldição que chega em sua vida.

Na trama, rapaz tímido e nerd encontra moça tímida e nerd na escola (ambos fazem um casal muito bonito), os dois se apaixonam, casam-se, a carreira dele como escritor é um sucesso, a carreira dela como pianista nem tanto, e justamente por isso, por causa do sucesso dele, o rapaz vai cada vez mais se dedicando ao casamento e menos à relação com a mulher amada. Até que um dia o destino lhe prega uma peça e ele acorda num mundo em que ele é um zé ninguém e ela é uma pianista famosa, que sequer lembra dele.

Desesperado, ele precisa arrumar uma maneira de reconquistá-la, trazê-la de volta para si. E sem simplesmente dizer que eles já foram casados e que aquela realidade ali é falsa ou coisa do tipo. É preciso começar tudo de novo, como em FEITIÇO DO TEMPO, ou em COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, tentar, de alguma maneira inteligente, se aproximar daquela pessoa famosa e fazer com que ela se apaixone por ele novamente. E isso renderá situações bem divertidas.

AMOR À SEGUNDA VISTA pode não ser um grande filme e que não apresente exatamente nada de novo, mas a química entre os personagens funciona que é uma beleza, a torcida pelos dois também, assim como a tensão provocada pela separação e consequente torcida do espectador pelo retorno dos dois.

Quanto aos dois atores, François Civil, só neste ano ele compareceu em três comédias românticas (para vermos o quanto o cinema francês superou o americano e o inglês nesse aspecto): os outros filmes foram QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU, de Saffy Nebou, e ENCONTROS, de Cédric Klapisch. Já Joséphine Japy brilhou quando adolescente no ótimo RESPIRE, de Mélanie Laurent. Bom ver que ela cresceu e que merece a chance de atuar em mais filmes importantes e de maior visibilidade.

+ TRÊS FILMES

QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU (Celle Que Vous Croyez)

Não consigo ver o filme sem a presença de Binoche, de sua beleza, de sua capacidade de ser frágil, mesmo tendo uma persona tão brilhante, mesmo sendo tão mais bela que a garota que ela finge ser em conversa virtual com um rapaz mais jovem. Em certo ponto, lembra DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, mas aqui é outra coisa. Há três atos bem definidos e eu gosto muito do primeiro e um pouco menos dos dois últimos, mas sei o quanto são fortes o suficiente para fazer a gente ficar pensando na própria vida, no quanto as autossabotagens podem ter contribuído, ou no quanto certas coisas são difíceis de admitir. Direção: Safy Nebbou. Ano: 2019.

O MISTÉRIO DE HENRI PICK (Le Mystère Henri Pick)

Muito divertida esta comédia sobre um crítico literário que perdeu o emprego e a esposa em uma busca obsessiva pelo autor de um livro descoberto em uma biblioteca de livros rejeitados. Acho que o filme perde um pouco do ritmo perto da conclusão, que não achei tão satisfatória, mas é muito gostoso de assistir e todo o elenco tem um timing cômico muito bom. Cada vez mais animado com as comédias francesas, mesmo essas mais comerciais, por assim dizer. Além de tudo, também é bom ver uma sociedade que gira em torno do ler e escrever livros. Mesmo sendo ela uma utopia. Direção: Rémi Bezançon. Ano: 2019.

UMA SEGUNDA CHANCE PARA AMAR (Last Christmas)

Um filme de alto risco para se tornar algo odiado pelas plateias mais críticas, já que tem é um filme de mensagem, um filme natalino. Mas é também um filme bem estranho e por isso mesmo acaba nos deixando bastante intrigados. A Emilia Clark está muito bem, talvez seja o seu melhor papel no cinema (se bem que ela talvez não tenha tido nada bom antes), e muito à vontade. Já Henry Golding vai conquistando a gente aos poucos, como o interesse amoroso dela. O fato de haver muitas canções do George Michael na trilha sonora ajuda também a plateia a se sentir emocionada diversas vezes. Tome cuidado com spoilers. Melhor ir ao cinema sem saber nada. Direção: Paul Feig. Ano: 2019.

segunda-feira, dezembro 16, 2019

DOUTOR SONO (Doctor Sleep)


Terá sido uma escolha feliz a que fez Mike Flanagan aceitando esta missão de fazer uma continuação de O ILUMINADO (1980), de Stanley Kubrick? Como DOUTOR SONO (2019) é a adaptação de um novo livro de Stephen King, que dá seguimento à vida, agora adulta, do garoto iluminado Dan Torrence (Ewan McGregor), parece haver uma tentativa de agradar tanto o romancista – que já não gostava do filme de Kubrick – quanto os fãs do filme. Acrescente-se a isso o aspecto ambicioso da obra, levando em conta que até então Flanagan só havia trabalhado em produções mais modestas.

Mas, se seus filmes anteriores são modestos, o mesmo não podemos dizer da qualidade dos mesmos, do quanto eles pareciam apontar para a figura de Flanagan como a do melhor cineasta dedicado ao gênero horror na década: ABSENTIA (2011), O ESPELHO (2013), HUSH – A MORTE OUVE (2016), O SONO DA MORTE (2016), OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016) e JOGO PERIGOSO (2017). Todos eles são filmes que têm uma elegância formal admirável, além de uma obsessão por lidar com questões familiares que nos apresentam a um autor respeitável.

Um autor que ainda faria a sua obra-prima em formato de minissérie, A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), que conta histórias de pessoas de uma mesma família tendo que lidar com traumas do passado, sendo narrado em três eixos temporais. Por esse currículo admirável, a expectativa para que DOUTOR SONO fosse o grande filme do ano acaba caindo por terra, ao nos depararmos com um trabalho torto, embora os problemas pareçam ter vindo mais da origem literária do que da adaptação.

Claro que, sendo também editor do filme, a culpa pelos vários problemas presentes na obra recai ainda mais sobre o diretor. Por isso, Flanagan teria feito melhor se recusasse a oferta talvez tentadora de dirigir um filme de tanta visibilidade e com tantas cascas de banana.

Mas nem tudo é ruim em DOUTOR SONO. Na verdade, as qualidades devem ser ressaltadas. Temos dois filmes em um: o que pretende ser a continuação direta de O ILUMINADO e o que parece algo totalmente novo, apresentando um grupo de vampiros de energia, liderados por uma elegante Rebecca Ferguson. Essas histórias se entrecruzam, já que esse grupo de vampiros tem um interesse especial nos iluminados. Uma das primeiras cenas do filme mostra Rose the Hat, a personagem de Ferguson, seduzindo uma garotinha para matá-la. Algumas cenas de assassinato desses iluminados, inclusive, são bem violentas e perturbadoras, já que esses vampiros vão se alimentando da dor e do medo. E eu diria que isso é um ponto positivo do filme.

Para muitos, porém, o momento mais interessante de DOUTOR SONO talvez seja o retorno de Dan ao famoso hotel em que se passa a maior parte da duração de O ILUMINADO, com direito a reinterpretações de cenas do primeiro filme com atores diferentes, outra solução questionável e que torna este trabalho de Flanagan/King ainda mais bizarro. Devido a tantos problemas, as qualidades e a elegância na direção de Flanagan têm pouco espaço para se sobressaírem. Uma pena.

+ TRÊS FILMES

MEDO PROFUNDO – O SEGUNDO ATAQUE (47 Meters Down – Uncaged)

O primeiro já não era muito memorável, mas sempre me sinto atraído por esses filmes de tubarão. Este aqui tem alguns momentos de destaque, como a sensação de medo que dá à medida que as meninas avançam cada vez mais baixo pelas cavernas. Porém, os clichês são tão manjados que cada vez que o tubarão atacava o público já previa. Ainda assim, um entretenimento razoável e com imagens paradisíacas. O filme marcou a estreia de Sistine Stallone, filha do Stallone, no cinema. Mas a verdadeira protagonista é a garota de A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS. Direção: Johannes Roberts. Ano: 2019.

OS 3 INFERNAIS (3 from Hell)

Rob Zombie devia parar de vez de dirigir filmes depois deste aqui. Mesmo com toda a boa vontade que eu tenho para filmes de terror (não quero perder nenhum no cinema este ano), esse aqui procura chocar por chocar e acaba não tendo resultado nenhum no espectador. Talvez alguém vá sentir asco ou algum incômodo, mas aqui a morte é desvalorizada, os personagens são desimportantes e Sheryl Zombie está irritante. Quanto ao Sid Haig, não sei das circunstâncias da morte do ator para o resultado final das filmagens. Ano: 2019.

OS JOVENS BAUMANN

Uma espécie de A BRUXA DE BLAIR mineiro, este filme até tem a primeira metade muito boa, quando as fitas VHS mostram os jovens apenas se divertindo. Quando tenta mudar para o mistério, perde a força. Ainda assim é um objeto estranho e muito bem-vindo em nossa filmografia, inclusive para engrossar o número de filmes do gênero que estão pipocando ultimamente no Brasil. Direção: Bruna Carvalho Almeida. Ano: 2018.

domingo, dezembro 15, 2019

NO INTENSO AGORA

“Nem sempre a gente sabe o que tá filmando”. Essa é uma das frases mais significativas dentre as tantas ditas pelo diretor João Moreira Salles ao longo de NO INTENSO AGORA (2017), já que muito do que o cineasta faz neste filme, construído na mesa de edição, é observar, analisar e refletir sobre imagens deixadas para a posteridade, mas sem a total consciência do que significariam.

O filme abre em silêncio, com imagens da Tchecoslováquia de 1968. Nota-se um respeito forte por aquelas imagens e pelas que virão. Elas mostram pessoas alegres, festejando a vida. São imagens amadoras e o narrador faz observações sobre essas pessoas, sobre as roupas, sobre a estação do ano e principalmente sobre a felicidade delas.

Mais à frente, saberemos que NO INTENSO AGORA é sobre momentos felizes que foram substituídos por frustrações ou até mesmo por tragédias. No caso, uma tragédia pessoal que não é contada pelo cineasta: o fato de sua mãe ter perdido a alegria de viver e morrido em 1988. A perda da mãe não é dita explicitamente, mas, através do tom de voz, do uso do tempo pretérito e de associações com algumas histórias apresentadas, isso se torna claro. "Eu era feliz nas férias, na minha memória; minha mãe era feliz o ano inteiro", afirma o cineasta.

João Moreira Salles prefere lembrar-se da mãe naquele momento de sua vida, feliz. Em outros momentos, pergunta-se se a mãe estaria feliz naquele maio de 1968, quando a família morava em Paris e a França vivia uma convulsão social que trouxe alegria e empolgação para os jovens que se tornaram, ao menos por alguns momentos, protagonistas de uma nova história que estava sendo – acreditava-se – construída.

As cenas que mostram Maio de 68 são cheias de uma vontade de viver contagiante. “A felicidade é uma ideia nova” foi uma das frases pintadas nos muros de Paris nessa época. A moça que corre no dia 6 de maio, rindo enquanto a polícia joga bombas contra os estudantes; a garota com um sorriso no rosto que atende a ligação de uma mãe preocupada com a ausência do filho que participa ativamente dos movimentos daquele mês.

Desses movimentos de luta, os protagonistas são o jovem Daniel Cohn-Bendit, do lado dos estudantes, e o Presidente da França Charles De Gaulle, representante do estado de coisas velho, das alas conservadoras e resistentes à mudança. Infelizmente os conservadores vencem no final. Cohn-Bendit é usado pelo sistema que ele tanto ataca e é afastado do movimento. O líder aceita a proposta de uma revista, ganha um carro, viaja para a Alemanha, sendo fotografado em seu trajeto. Foi usado pelo capitalismo. “Meu personagem me escapou’, diz.

O sentimento de frustração que isso provoca encontra ecos no que acontece na Tchecoslováquia, com as imagens da invasão dos tanques soviéticos em Praga. A história dos tchecos em 1968 ganha um arco dramático menor na narrativa, mas o drama do jovem Ian Palak, que protestou contra o sistema ateando fogo no próprio corpo, é comovente, com o governo permitindo o enterro público para que as pessoas pudessem ao menos ter o direito de expressar sua dor. João Moreira Salles busca casos semelhantes também em Paris e no Rio de Janeiro.

Um dos problemas de NO INTENSO AGORA é que suas passagens na China acabam trazendo uma sensação de torpor, ao contrário do que acontece quando o filme se centra na situação na França ou na Tchecoslováquia. Há uma tentação de ser mais lírico, mais poético, mas triste, muito pela presença de sua mãe naquele espaço, naquele momento. A situação política da China, porém, é mais complexa, provoca sentimentos contraditórios.

Ao final, porém, percebemos que o que poderia ser visto como dois filmes em um, o filme pessoal e intimista sobre a mãe do cineasta na China da Revolução Cultural e o filme sobre as lutas e opressões sociais na Europa e um pouco no Brasil, é cuidadosamente pensado como algo interligado principalmente pelo sentimento. Um sentimento um tanto amargo de derrota, mas também da lembrança de dias felizes.

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O MISTÉRIO DE PICASSO (Le Mystère Picasso)

Henri-Georges Clouzot a essa altura já podia tudo. Até mesmo fazer um filme com Pablo Picasso pintando exclusivamente para sua câmera. Eu fiquei um tanto impaciente, mas é uma experiência e tanto. Até porque o filme quase inteiro é só de acompanhar as pinturas feitas por ele. Em alguns momentos achei assustador o quanto a aplicação das cores em suas obras trazem uma sensação de caos e perturbação. Falta-me mais conhecimento sobre a história da arte como um todo para poder apreciar melhor um filme como esse. Ano: 1956.

TORRE DAS DONZELAS

Quando o filme começou eu estava achando estranho aquele grupo de mulheres que passaram por anos de prisão e tortura estarem ali rindo e sorrindo. Depois a gente vai entendendo os motivos, ao longo da narrativa, quando sabemos que o fato de elas estarem inteiras e muito vivas para contar isso é mais um sinal de que elas venceram os torturadores, por mais difícil que tenha sido. Não apenas por terem sobrevivido, mas por transformarem aquele tempo juntas em algo quase agradável, muitas vezes divertido e um espaço de transmissão e absorção de conhecimento. E o que é Dilma Roussef, hein? Essa mulher é uma fortaleza. E cada fala dela dá um orgulho danado de ter torcido por ela afinal de tudo. Direção: Susanna Lira. Ano: 2018.

AUTO DE RESISTÊNCIA

Um filme sobre as dores de mães que perderam seus filhos pela ação assassina de policiais. Também sobre suas tentativas de se unir para conseguir alguma justiça. Algumas cenas são impressionantes, como aquelas que flagram a ação dos policiais. Talvez haja muitas repetições no discurso das mães, mas talvez seja maldoso imaginar que essa repetição não seja necessário. É até pouco, apenas uma parcela da missão de vida dessas mulheres. Como não podia deixar de ser, lá estava Flávio Bolsonaro defendo os policias e suas técnicas de matar primeiro e armar para que as vítimas apareçam como os culpados. Direção: Natasha Neri e Lula Carvalho. Ano: 2018.

sábado, dezembro 14, 2019

A FORÇA DOS SENTIDOS


Talvez esteja exagerando, levando em consideração a rica tradição do cinema brasileiro em criar excelentes cenas de sexo, de ter grandes mestres que souberam lidar com o erotismo de maneira que o termômetro se eleva a níveis estratosféricos e, ainda assim, conserva a beleza das imagens e da direção cinematográfica. Mas, ao ver uma das cenas de A FORÇA DOS SENTIDOS (1980), do genial Jean Garrett, eu não consegui pensar em outra cena de sexo melhor e mais bonita.

Para a construção dessa cena, há todo um trabalho também de criação de mistério, de cuidado com o culto à escuridão da noite. A cena começa com o personagem de Flávio (Paulo Porto) saindo da casa de praia em que se hospedou, já que não estava conseguindo dormir. Ele segue até a beira da praia. Lá chegando, vê Glorinha (Francinette Costa), uma das jovens mulheres do vilarejo, em cima de uma pedra, próxima ao mar. O som do mar é não apenas ouvido, mas sentido também.

Os dois têm uma breve conversa, que funciona muito bem para uma conversa que teria como objetivo saírem dali para o sexo. Ela o convida para uma bebida em sua casa; ele aceita, diz ser uma ótima ideia; vai apenas de camiseta e sunga (ou cueca?) para a casa da bela mulher. Ou seja, a cena já começa excitante pois o que temos aqui é a prévia, num encontro, em que o desejo é construído aos poucos. A excitação não está apenas no aspecto erótico em si, mas também na ansiedade, no frio na barriga que o espectador (leia-se este espectador) sente neste momento.

E a amplificação aumenta ao chegarem à casa de Glorinha. Detalhe: durante todo o tempo, os dois estão sendo vigiados pela misteriosa Pérola (Aldine Müller), uma jovem bela e muda que parece ter uma especial atração por aquele homem que acabou de chegar ao vilarejo. Pérola os segue até a casa de Glorinha. E presencia da janela da casa toda a noite de amor dos dois. Flávio e Glorinha ouvem um disco na vitrola, tomam uma bebida, dançam grudados um no outro, e, em seguida começam a se beijar voluptuosamente e a tirar a roupa.

Àquela altura (fim dos anos 70 e início dos 80), o cinema brasileiro já trazia cenas de sexo bastante gráficas. Diria que aquele foi o melhor momento para o erotismo no cinema brasileiro. E Jean Garrett e Carlos Reichenbach, aqui participando como um diretor de fotografia pra lá de inspirado, fazem algo muito especial na construção dessa cena. Pois há a aproximação e também o distanciamento da câmera, a experiência do voyeurismo com a presença de Pérola na janela, e os momentos em que a câmera filma os três personagens no mesmo quadro.

Mas há algo também muito forte para apimentar ainda mais esta cena: Pérola está sedenta de desejo ao ver os dois transando. Tanto que é preciso se aliviar no mar. Ela se deita na praia e se contorce de desejo, enquanto a maré traz a água para suavizar esse momento de calor intenso. Que voracidade erótica numa única cena!

Só por essa cena este filme já poderia ser alçado a uma das obras mais importantes da cinematografia brasileira. Mas, por mais que o culto a Jean Garrett tenha aumentado exponencialmente ao longo dos anos no meio cinéfilo, ainda pode-se dizer que A FORÇA DOS SENTIDOS é quase obscuro.

Em tempos de sucesso do cinema de horror brasileiro, vale lembrar que A FORÇA DOS SENTIDOS poderia muito bem se enquadrar nesse gênero. O filme já começa com uma cena de Flávio vendo o aparecimento do corpo nu de um homem chegando no mar. Não é a primeira vez que isso acontece, conforme ele mesmo narra em voice-over. Aquilo é uma cena do futuro do filme, que começa a contar da chegada dele até aquele lugar belo e misterioso e a fazer amizade com as pessoas de lá.

O mistério começa a ser percebido com força quando ele, ao conversar com Glorinha após a noite de sexo, percebe que ela nega ou diz não se lembrar do que aconteceu. Estaria ela brincando com ele, teria se esquecido realmente ou tudo foi fruto de sua imaginação? O restante do filme, embora não consiga superar a tal cena descrita nos parágrafos acima, ainda é uma beleza, enfatizando mais no mistério e um pouco menos no erotismo, embora ele nunca seja deixado de lado. Até o final, que traz horror e maravilhamento. Viva Jean Garrett!

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DEPRAVAÇÃO - ORGIA DAS TARAS

Esse pessoal da Boca do Lixo sabia mesmo vender o peixe: colocaram logo três palavras chamarizes para o público no título. Aí nem importava se fazia sentido no enredo, que nesse caso aqui está mais próximo do suspense. Infelizmente a trama é uma confusão dos diabos e o filme parece não se importar com isso. As cenas de sexo nem compensam, não são boas, e nisso se sente falta de um bom diretor nesse quesito. O que conta é mesmo a estranheza da atmosfera e a Patrícia Scalvi, que consegue ser boa atriz até em produções meio toscas como essa. Quanto à Matilde Mastrangi, sua personagem é coadjuvante. Direção: Luiz Castellini. Ano: 1980.

OS BONS TEMPOS VOLTARAM: VAMOS GOZAR OUTRA VEZ

O primeiro segmento é bem legal, principalmente pela presença da Carla Camurati (linda!!), mas também por emular a graça dos anos 50 e ter várias subtramas e personagens divertidos. Pena que a segunda história não é tão boa. Até achei um tanto constrangedora na falta de criatividade na construção do erotismo. Mas vale pelas cenas de sexo, e pela vontade que o cinema e a arte em geral naquele 1985 tinham de mandar a ditadura à merda. Direção: Ivan Cardoso e John Herbert. Ano: 1985.

BAR ESPERANÇA (O ÚLTIMO QUE FECHA)

Quanto amor que esse filme passa, hein! No fim, a gente chega a relevar os momentos pouco brilhantes em prol dos momentos cheios de emoção e beleza. Sem falar que é um documento valioso daquela época. E uma ode à amizade e às reuniões nos bares. Ah, e a única cena que eu lembrava, a do striptease da Sylvia Bandeira, continua uma beleza, e entendo ter ficado tão impressionado quando a vi, pré-adolescente. Ver um negócio daqueles na televisão mexe mesmo com a cabeça da gente. Sylvia, linda demais, embora sua personagem seja fraca. Mas não é só isso que conta, ainda mais em filme de grupo. Quanto às músicas: Blitz, Caetano, Gal, Gretchen e uma marchinha de carnaval de arrepiar. E que emoção ver certa atriz tão querida ali no final, não creditada. Direção: Hugo Carvana. Ano: 1982.

domingo, dezembro 08, 2019

A VIDA INVISÍVEL

A reflexão sobre o machismo e a condição opressora vivida pelas mulheres de gerações passadas - nossas mães, nossas avós etc - já era um tema caro a Karim Aïnouz desde seu primeiro filme, o curta-metragem SEAMS (1993), realizado quando o cineasta morava nos Estados Unidos, e que poderia muito bem servir como extra de alguma edição especial em DVD ou BluRay de A VIDA INVISÍVEL (2019), o novo e premiado filme do diretor cearense.

Em SEAMS, Aïnouz entrevista sua mãe, suas tias e sua avó, a fim de saber como era o casamento, como era o relacionamento com os homens no passado. E a presença masculina, na grande maioria dos relatos, se mostrava, para usar um termo atual, tóxica. Em A VIDA INVISÍVEL, o diretor adapta o romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da jornalista pernambucana Martha Batalha, que conta a história de duas irmãs vivendo no Rio de Janeiro dos anos 1950, e que são separadas pelo destino, que aqui recebe o impulso de pessoas masculinas capazes de oprimir, mentir e maltratar essas mulheres. No caso, o patriarca da família de Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) é essa principal mão poderosa e opressora.

Mas, como um filme que abraça o melodrama com todas as forças, A VIDA INVISÍVEL brinca bastante com as ironias perversas da vida, com a forma como tudo parece conspirar para que aquelas duas irmãs não se vejam. A separação das duas ocorre pela primeira vez quando Guida foge com um marinheiro grego e volta para casa grávida e frustrada - o jovem que parecia ser o seu príncipe encantado era na verdade um canalha.

Guida vê como opção voltar para a casa dos pais, mas é expulsa pelo pai, que ainda conta que a irmã Eurídice está na Europa. Mal sabia Guida que sua irmã havia se casado com um homem patético, vivido por Gregório Duvivier, e que morava ali mesmo, no Rio de Janeiro. A cena do casamento e a noite de núpcias do novo casal passa toda a sensação de desconforto extremo da mulher. Na verdade, ela é praticamente estuprada na primeira noite. A imagem dos dois se olhando no espelho, após o sexo nada bom para a jovem, é memorável.

Enquanto Guida se esforça para viver uma vida de mãe solteira, Eurídice tenta não engravidar, a fim de conseguir sua tão sonhada vaga em um conservatório. Ela é pianista e gostaria muito de estudar piano, se aprofundar naquilo que mais ama. As duas, porém, vão vivendo uma vida de frustrações - Guida não consegue novos relacionamentos estáveis com os homens e Eurídice acaba engravidando sem sua vontade. O filme também afasta uma visão romântica da maternidade.

É importante destacar que nossas duas protagonistas não são mulheres conformadas com suas condições no mundo do patriarcado. Guida é independente e tenta ser alegre, ir a festas e ter aventuras passageiras com alguns homens; Eurídice, por sua vez, tenta, à sua maneira, mesmo grávida, a vaga no conservatório. Enquanto isso, o filme vai entrecortando a narrativa com as cartas que Guida envia para a irmã, com o endereço de seus pais, sonhando que um dia elas seja respondidas. Infelizmente, passam-se anos e as cartas não chegam a Eurídice.

É uma situação bastante triste, mas A VIDA INVISÍVEL, se abraça o melodrama, está mais perto de um tipo de melodrama mais duro, como o do alemão Rainer Werner Fassbinder, do que de algum exemplar hollywoodiano, como os filmes de Leo McCarey, que provocam o choro com mais facilidade. Aqui o choro fica preso na garganta, pelo menos em boa parte da metragem. Há uma busca pelas cores saturadas na fotografia de Hélène Louvart, responsável pela direção de fotografia de HAPPY AS LAZZARO, de Alice Rohrwacher, e o uso do vermelho com certa constância, além da umidade do verde das árvores. O filme foi gravado em película com uma câmera intacta de 1960, o que passa uma impressão de obra saída de tempos atrás, embora haja um diálogo direto com o momento atual.

E, há, claro, a presença maravilhosa de Fernanda Montenegro como a versão idosa de Eurídice, para fechar com chave de ouro este trabalho, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes, e um dos favoritos ao Oscar de filme internacional. Karim Aïnouz e toda a equipe, incluindo o produtor Rodrigo Teixeira, merecem todo o sucesso que a obra anda conquistando mundo afora. E isso em um momento necessário para o cinema brasileiro, que ao mesmo tempo que chegou a um ponto de excelência e de visibilidade mundial em festivais, segue sendo atacado por um governo estúpido. Estúpido, burro e perverso, como o pai de Eurídice e Guida.

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CARCEREIROS - O FILME

Acredito que qualquer episódio da série televisiva seja melhor do que este longa para cinema, que se propõe centrar mais na ação e menos nos dramas dos personagens. Se fosse um bom filme de ação, os problemas de roteiro e de construção de personagens seriam perdoados. Mas infelizmente o que vemos é uma edição picotada para disfarçar a incompetência na construção de cenas de ação, muito tiro no escuro para deixar o espectador desnorteado, mas que, no fim, acaba deixando-nos desinteressados do produto. Uma pena que tanta gente boa tenha sido chamada para algo que não vingou. E é melhor o José Eduardo Belmonte voltar a fazer filmes pequenos. Para provar que ele ainda é relevante. Ano: 2019.

DIZ A ELA QUE ME VIU CHORAR

O filme de Maíra Bühler lembra CORPO DELITO e BARONESA, tanto por traçar histórias de pessoas com uma câmera quase sempre parada e que parece tentar não se intrometer no drama dos personagens. Aqui vemos um grupo de pessoas, a maioria delas usuárias de crack, que moram em uma espécie de hotel, feito na época do governo do Haddad. Vemos as paixões dessas pessoas (seja por alguém, seja por causa da violência), o quanto estão deficientes de ter um pensamento mais lúcido devido ao vício na droga, mas também muito sentimento de amor entre as pessoas. O fato de a câmera não mostrar direito o ambiente do quarto em que vivem e mais enquadramentos nos rostos faz com que fiquemos um tanto desconfortáveis. Mas isso imagina-se ser a proposta do filme. Ah, a canção do repertório de Tim Maia que dá título ao filme ("Pede a ela") é cantada por um dos morados e é de arrepiar. Direção: Maíra Bühler. Ano: 2019.

O JUÍZO

Importante lembrar que o primeiro longa de Andrucha Waddington foi um filme de gênero: o bom GÊMEAS (1999). Passadas algumas décadas, o diretor aproveita a onda do terror nacional para contar esta história de uma família atormentada pelo pecado de um patriarca, na época da escravidão. É um filme bem estranho (o que é o lado positivo) e com uma aparência feia (a única coisa bonita é a Carol Castro, quase um contraponto a tudo), fotografia sem a menor preocupação em parecer bela e uma câmera na mão que lembra alguns exemplares do terror contemporâneo vindos dos Estados Unidos. O garoto que faz o filho do casal é interpretado pelo filho de Fernanda Torres (aqui como roteirista) com o diretor. No mais, como história, vale pensar sobre possíveis aproximações de espíritos em momentos ébrios. Ano: 2019.

domingo, dezembro 01, 2019

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York)

Chegará o dia em que os filmes dos anos 2010 de Woody Allen serão revalorizados. Claro que isso só o tempo dirá, mas, a impressão que dá, vendo UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (2019), é que o tom do filme lembra bastante o de algumas obras de Éric Rohmer ou de Hong Sang-soo. Não há um compromisso com o naturalismo nas interpretações, no ritmo das falas. No caso do filme de Allen, a velocidade dos acontecimentos é coerente com a agilidade dos diálogos.

Há, como sempre a projeção da própria persona de Woody Allen em seus personagens, e isso se vê em ambos os protagonistas. Enquanto Timothée Chalamet simboliza aquele aspecto mais amargo e pouco entusiasmado com a vida, ainda que não tanto quanto o protagonista de HOMEM IRRACIONAL (2015), que chegava ao niilismo; temos a personagem entusiasmada, vivida com encanto por Elle Fanning.

Ele vem de uma família abastada de Manhattan, embora não fique nada à vontade com suas origens e viva fugindo dos familiares e de uma festa que deveria estar presente; ela também vem de família rica, seu pai é um banqueiro em Tucson, Arizona, mas é alvo de chacota, por causa do lugar de origem pelos amigos nova-yorquinos de Gatsby (personagem de Chalamet), que a consideram uma caipira.

O filme começa com uma narração em voice-over por Gatsby, que confessa estar apaixonado por Ashleigh (Fanning), e isso lhe traz mais prazer de viver. Ela precisa ir a Nova York para entrevistar um famoso diretor de cinema para seu trabalho na faculdade e os dois partem para um par de dias em Manhattan. Gatsby tinha seus planos para o dia com Ashleigh: visitar museus, comer em bons restaurantes, passear bastante.

Mas aí surgem alguns empecilhos, já que o diretor (Liev Schreiber), muito provavelmente por parecer atraído pela jovem estudante, decide dar-lhe um furo de reportagem, dizer o quanto está desgostoso com o projeto e ainda por cima mostrar uma prévia do novo filme, ainda em fase de produção. Uma oportunidade dessas Ashleigh não ia perder. E por isso vai adiando o encontro com o namorado, que vai sendo cada vez mais deixado de lado.

As trajetórias de Gatsby e Ashleigh vão seguindo por caminhos opostos com relação ao encaminhamento de como ver a vida: enquanto ela parece uma criança em uma loja de doces à frente daquele universo hollywoodiano, com homens mais velhos da indústria bastante interessados sexualmente naquela jovem bela e com um figurino que lembra uma colegial, ela parecia totalmente dona da situação, tanto por ser desejada até mesmo por um ator símbolo sexual (personagem de Diego Luna).

Enquanto isso, sentindo uma falta enorme da namorada, Gatsby visita um set de filmagens de um amigo estudante de cinema e dá de cara com a irmã de uma ex-namorada, Chan (Selena Gomez), uma personagem atraente. A cena do beijo dos dois no carro na filmagem de um dos takes é um dos pontos altos da temperatura erótica do filme. A outra cena boa, sensualmente falando, envolve a chegada de Ashleigh à casa do personagem de Diego Luna. Há quem veja a situação de Ahsleigh, ao final dessa situação, como sendo humilhante, e talvez seja mesmo, mas há também algo de belamente erótico e perverso.

Paralelamente, enquanto Ashleigh, recebe uma bofetada ao ser exposta ao doce e ao amargo do showbizz hollywoodiano, Gatsby, ao ter uma conversa com a mãe, passa a ter uma ideia melhor de sua vida e de suas origens. Assim, UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK é um filme que apresenta uma visão agridoce da vida, misturando tanto o romantismo de uma obra como MAGIA AO LUAR (2014), quanto a amargura e a certeza de que a vida é que dá as cartas de CAFÉ SOCIETY (2016).

Completando tudo isso, a fotografia linda do mestre Vittorio Storaro, que trabalhou com Allen no anterior RODA GIGANTE (2017), apresenta uma luz tão bela e tão própria do trabalho do fotógrafo, que só é um pouco suavizada pela presença da chuva, símbolo das situações emocionalmente instáveis da vida de todos os personagens.

Além do mais, não deixa de ser um alívio adentrar mais uma vez o universo familiar e delicioso dos filmes de Allen no cinema, depois de tanta confusão causada pelas acusações de sua filha adotiva, que puseram novamente um dedo na ferida de algo que repercutiu na década de 1990 e que prejudicou a reputação do cineasta nesse momento de caça às bruxas, atrapalhando sua rotina anual de produções. Mesmo agora, depois de ter entrado em um acordo com a Amazon, UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK segue inédito em seu país de origem. Felizmente, Allen já tem um novo filme em fase de pós-produção, rodado na Espanha.

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CADÊ VOCÊ, BERNADETTE? (Where'd You Go, Bernadette)

Muitas vezes a gente se pergunta o motivo que faz certos cineastas abraçarem certos projetos. A história de uma arquiteta que tem problemas de sociabilidade teria provocado alguma identificação ou algo parecido por parte de Richard Linklater? De todo modo, por mais que tenhamos um filme com problemas de ritmo, mesmo querendo ser rapidinho nos diálogos e tal, o que mais conta é a presença sempre radiante de Cate Blanchett, e de um punhado de cenas memoráveis. Ela cantando com a filha "Time after time", da Cindy Lauper, é emocionante. Assim como são todas as cenas que envolvem a relação dela com a filha. A impressão que fica é que o filme poderia ter saído melhor do que saiu, mas nem sempre se pode acertar em tudo. Ano: 2019.

ENCONTROS (Deux Moi)

É o tipo de cinema fofo, com direito até a um gatinho filhote adotado e que rouba a cena algumas vezes. O filme lembra o argentino MEDIANERAS - BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL, e mostra a rotina de solidão de um rapaz e uma moça que moram vizinhos, mas que seguem em busca de alguém que sirva para eles. Divertido o paralelismo do que acontece na vida deles, como o fato de ambos frequentarem psicanalistas, entre outras coisas. François Civil está se especializando em boas comédias românticas. Bom pra ele. Ana Girardot também é uma moça que além de bonita é muito carismática, como já tínhamos podido ver na série LES REVENANTS. Direção: Cédric Klapsch. Ano: 2019.

A TABACARIA (Der Trafikant)

Um filme um tanto morno, mas que tem as suas qualidades, especialmente a presença de Bruno Ganz como um simpático Sigmund Freud, aqui dando conselhos a um jovem que quer conquistar uma moça. Aliás, que moça! Uma pena que o filme dê pouco espaço para a presença da garota, já que ela rouba a cena sempre que aparece. Trata-se da russa Emma Drogunova. A história se passa momentos antes do início da Segunda Guerra Mundial, quando a Áustria já estava quase toda ocupada por oficiais nazistas. Aos poucos, o filme vai perdendo sua razão de ser. Direção: Nikolaus Leytner. Ano: 2018.

domingo, novembro 24, 2019

CORPO DELITO

O trabalho de encenação em documentários tem sido bastante comum no cinema contemporâneo. CORPO DELITO (2017), o longa-metragem de estreia de Pedro Rocha, vem engrossar essa categoria de filmes.Mas, por mais que se trabalhe com a encenação, a observação da vida faz com que o efeito do acaso gere situações obviamente inesperadas.

A escolha do protagonista, Ivan Silva, um rapaz que, depois de cumprir oito anos de prisão, está em regime de semiliberdade, usando uma tornozeleira eletrônica que lhe oferece um espaço bastante restrito para locomoção, é problemática no sentido de que não se trata de um personagem carismático - embora não tivesse a obrigação de ser, já que o que vemos ali é a representação de si mesmo, de um homem inquieto, fechado e pouco disposto a disciplinas.

Em nenhum momento o filme diz qual crime Ivan cometeu para ter cumprido esse tempo na prisão e ainda estar cumprindo o restante em semiliberdade. Mesmo assim, é difícil não escapar de fazer algum julgamento a Ivan, que, ainda por cima, se mostra incomodado com a tornozeleira (que ele chama de pulseira), afirmando que ela tem atrapalhado sua vida, tornando-a quase tão incômoda quanto a vida na prisão. Atormenta-lhe a rotina de ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa; de não poder largar a família ou o trabalho, como se essa também não fosse a rotina de pessoas que vivem sem tornozeleiras. Se a intenção do diretor é tornar Ivan e também José Neto, seu amigo, personagens fáceis de despertar empatia, talvez essa intenção tenha sido um tanto frustrada.

Aos poucos o filme passa a trazer mais forte a presença de José Neto, o amigo de Ivan que está em liberdade e vai aonde deseja ir. É de certa forma libertador para o espectador sair um pouco dos ambientes fechados (casa de Ivan, local das entrevistas com as autoridades para reavaliar seu comportamento), mas é também incômodo no sentido de que percebemos que a passagem de José Neto por ambientes de pessoas abastadas parece dissonante, como na cena em que ele vai comprar um par de tênis em um shopping center e sua figura parece suspeita, quase perigosa, para um segurança.

O fato de as gravações na Favela dos Índios terem sido feitas entre 2014 e 2016 faz com que muitos hiatos temporais sejam sentidos ao longo da narrativa. Pela escolha em não utilizar depoimentos, a trama é entendida a partir dos diálogos, e certas situações não ficam muito claras, como, por exemplo, o que houve para que Ivan fosse retirado do trabalho na Fábrica-Escola, que poderia ajudá-lo a diminuir seu tempo com a "pulseira" e ser visto com bons olhos pelas autoridades que estavam acompanhando seu processo.

Uma das imagens mais surpreendentes do filme é a de Ivan colocando papel alumínio para burlar o serviço de monitoramento da tornozeleira eletrônica. Trata-se de um momento de certa forma transgressor, como se o diretor estivesse sendo cúmplice daquele crime. No entanto, o fato é que Ivan já estava fazendo aquilo há alguns dias e esta cena foi encenada, a pedido do diretor, para que sua história fosse contada.

Como uma obra de tensões, elas transparecem nos mais simples diálogos ao longo da narrativa. É o caso da conversa na praia entre José Neto e um amigo. Nota-se que há silêncios incômodos. À frente de uma câmera muitas coisas não são ditas, mas é possível perceber que a cena em que Ivan e José Neto cantam "V.L. (Parte 1)", dos Racionais Mc's, é um momento não só de maior espontaneidade, mas um momento também em que aqueles jovens marginalizados encontram em uma forma de arte um instrumento de grata identificação e certa alegria.

Talvez tenha faltado ao filme mais momentos assim, em que o público passe a entender ou lembrar que a realidade dessas pessoas e as consequências violentas de seus atos são principalmente frutos de um sistema social e político perverso. Por isso a cena final no terraço, com dois personagens olhando os prédios ricos em contraste com a favela, tenha sido uma escolha das mais felizes de CORPO DELITO.

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ESTRADA PARA YTHACA

É aparentemente um filme em que nada acontece. Quatro amigos saem em estrada, param, fazem comida, comem, dormem, andam, dirigem, não há muitos diálogos. O filme foi construído à medida que a viagem foi acontecendo, em homenagem a um amigo que partiu prematuramente. O sofrimento e o luto deles talvez coincida um pouco com nossa inquietação espiritual, ou talvez eles tenham conseguido passar esse mal estar, essa tristeza nas imagens feitas como que em câmera amadora. Direção: Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Ano: 2010.

OS MONSTROS

Uma ode à liberdade, mesmo que a liberdade signifique incomodar e fazer com que poucos gostem do trabalho artístico. Os personagens são pessoas que se sentem deslocadas no mundo, com características de artistas de vanguarda que ninguém ou quase ninguém se importa. A parte final é até um pouco difícil de ver, com a extensão da proposta de mostrar aquilo em um intervalo de tempo considerável aquilo que seria descartado ou simplesmente mostrado rapidamente em um filme comum. É filme para ver com o espírito calmo, mas ainda assim sair da experiência com inquietação. É possível que eu tenha gostado mais desse do que de ESTRADA PARA YTHACA (2010). Direção: Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Ano: 2011.

BATE CORAÇÃO

É um filme cheio de problemas, mas dá para se divertir em alguns momentos. Há até momentos em que a emoção parece contagiar. Aqui temos um misto de filme espírita com filme LGBT e filme de mensagem (sobre doação de órgãos). O que mais incomoda é a própria ideia do filme de fazer com que o personagem mulherengo garanhão tenha ficado com raiva de ter recebido um transplante de um homem gay. De todo modo, como vivemos num mundo absurdo, é possível que isso de fato aconteça. Direção: Glauber Filho. Ano: 2019.

quarta-feira, novembro 20, 2019

O IRLANDÊS (The Irishman)

Cineastas católicos costumam lidar com a culpa de maneira muito intensa. Alfred Hitchcock, Abel Ferrara, Clint Eastwood, Robert Bresson, Éric Rohmer são alguns desses exemplos. Basta citar seus nomes para lembrar da temática da culpa em alguns de seus trabalhos mais marcantes. Mas Martin Scorsese, que vem tratando do peso dos próprios atos de seus personagens, e possivelmente dele mesmo, como espelho desses alter-egos, conseguiu chegar a um desses exemplares definitivos em que o remorso acompanha também o espectador, até pela duração e pelo andamento mais pausado e de certa forma pesado de O IRLANDÊS (2019).

Se em alguns filmes de máfia do diretor havia alguns momentos de euforia e alegria dentro daquele universo em que havia também muitas mortes, Scorsese também era mestre em nos mostrar o fundo do poço, a descida aos infernos de seus personagens. Isso acontece tanto em OS BONS COMPANHEIROS (1990) quanto em O LOBO DE WALL STREET (2013), uma espécie de atualização dos filmes de máfia. Porém, o que temos em O IRLANDÊS é algo de natureza distinta, feita com carta branca da Netflix, que investiu os 159 milhões de dólares necessários para a realização deste projeto de mais de dez anos.

O projeto nasceu quando Robert De Niro leu o livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, e ficou fascinado. Comentou com Scorsese, que percebeu o entusiasmo do amigo. Isso aconteceu na época em que De Niro dirigiu O BOM PASTOR (2006). Importante lembrar que Scorsese não se reunia com De Niro e Joe Pesci desde CASSINO (1995). Logo, a expectativa de ver a reunião dos três e mais Al Pacino era grande.

O livro de Brandt conta a história de Frank Sheeran, um hitman da máfia que foi guarda-costas do líder sindical Jimmy Hoffa, e que contou sua própria versão dos fatos envolvendo a misteriosa morte do sindicalista, desaparecido em 30 de julho de 1975, e declarado morto 10 anos depois. É importante não saber detalhes disso para não estragar as surpresas e principalmente o impacto que o filme provoca.

Para viver os personagens na fase mais jovem da vida, agora que todos estão na casa dos 70 anos, Scorsese recorreu a uma tecnologia de rejuvenescimento digital. Até o momento, trata-se do mais bem-sucedido uso dessa tecnologia, embora algumas pessoas reclamem que os rostos ficam jovens, mas o corpo continua se movimentando como o de um velho. No entanto, uma vez que você aceita a brincadeira, é fácil ficar não apenas envolvido, mas também muito impressionado com a interpretação daquelas versões mais jovens de De Niro, Pesci e Pacino.

Especialmente De Niro e Pesci estão sublimes. E pensar que Pesci só aceitou sair da aposentadoria depois de muita insistência de Scorsese e De Niro... Aqui ele faz um papel distinto do que estamos acostumados a vê-lo fazer, geralmente muito elétrico. Em O IRLANDÊS ele é um chefão da máfia gentil, doce até. E com uma fala mais mansa e pacificadora, mesmo lidando com situações em que matar uma pessoa é só parte do jogo.

A narrativa atravessa seis décadas, e isso era um problema difícil de contornar para Scorsese. Ele acreditava que colocar atores jovens para interpretar De Niro e Pesci seria algo inconcebível, levando em consideração o fato de esses atores conhecerem a Nova York da época como a palma da mão e este fato ser importantíssimo para seu filme. E a utilização de próteses e maquiagem nem sempre funciona muito bem. O próprio De Niro fez isso em ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de Sergio Leone, quando teve que envelhecer na base da maquiagem.

Interessante notar que estamos em um ano em que dois cineastas veteranos estão trazendo filmes que denotam um estado de espírito mais reflexivo em torno da velhice. Por isso alguns críticos têm feito comparações de O IRLANDÊS com DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar. Ambos os filmes são trabalhos que lidam com o envelhecer, com a dor, com os arrependimentos, com as mudanças provocadas pelo tempo em seu modo de ver a vida.

Outra coisa que não deixa de ser impressionante no filme de Scorsese é o quanto o diretor tinha em mãos atores do porte de Harvey Keitel e Bobby Cannavale e se dá ao luxo de utilizá-los tão pouco. O mesmo poderia ser dito da personagem de Anna Paquim, que vive um das filhas de Frank Sheeran, mas sua interpretação com uma ausência de falas bem explícita é compensada com o olhar e com uma espécie de confronto que ela faz com o pai. Aquilo é forte o suficiente para magoar o coração de um homem velho cheio de pesos do passado nos ombros.

Um peso que o personagem leva como uma cruz. Velhinho, ele precisa de muletas, cai em uma cena. O filme mostra sua decadência física, seu desaparecimento. Como se ele precisasse daquela trajetória toda para que compensasse, de algum modo, o mal que fez no passado. Saímos do cinema diferentes de quando entramos. E não apenas por termos acabado de ver uma obra-prima.

+ TRÊS FILMES

ALMA EM SOMBRAS (The Clay Pigeon)

Um dos primeiros longas de Richard Fleischer foi um film noir curtinho, de 63 minutos, e bem movimentado. Conta a história de um ex-soldado da marinha que acorda de um coma desmemoriado e descobre que está prestes a ir à corte marcial por ter matado um colega. Ele foge do hospital em busca de provar a própria inocência e acaba encontrando uma série de obstáculos. Interessante que há várias cenas diurnas. A mais movimentada, a da perseguição dos capangas ao protagonista acontece à luz do dia, o que foge um pouco ao que geralmente se vê nos filmes desse período. Ano: 1949.

AMOR ATÉ AS CINZAS (Jiang Hu Er Nü)

Provavelmente é o filme que menos gostei do Jia Zhangke, mas ainda assim é admirável em muitos aspectos. Gosto especialmente quando ele foca na solidão da personagem feminina, e menos quando está em cena a sua contraparte. É sempre bom viajar no tempo e espaço para uma cultura tão diferente com a chinesa e é assim que nos sentimos a maior parte do tempo, embora eu ache que tenha faltado mais força na maneira como nós nos importamos com os personagens. Ano: 2018.

MONSIEUR & MADAME ADELMAN

Gosto muito da primeira metade do filme, quando os personagens estão jovens. A coisa vai ficando meio chata com a velhice. Se a intenção for mostrar que a velhice é chata para um casal, deu certo. Mas não creio que foi isso. Adorei o sorriso lindo de Doria Tillier. Na trama, no funeral do marido, após uma união de 45 anos, a esposa passa a contar a um jornalista a história de sua relação com o renomado escritor que foi seu marido incluindo segredos bastante íntimos e capazes de destruir a memória do morto. Direção: Nicolas Beldos. Ano: 2017.

quarta-feira, novembro 13, 2019

TÓKIO EM DECADÊNCIA (Topâzu)

Na década de 1990, no auge dos meus twenties, a minha sede por filmes eróticos, com temas abordando a sexualidade e certas fantasias sexuais era bem forte. É fácil entender pela idade, com os hormônios transbordando, mas sei que esse tipo de interesse em erotismo/pornografia não é algo comum a todos. Pra mim continua sendo, aliás, ainda que de maneira um pouco mais suave.

Embora não seja uma novidade da década em si o erotismo no cinema (sempre existiu, em menor ou maior grau, dependendo da censura e da cultura de cada país), podemos dizer que INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, foi um divisor de águas e trouxe uma chuva de softcores nas locadoras, no cinema e na programação das TVs.

TÓKIO EM DECADÊNCIA (1992), mesmo sendo do mesmo ano do filme estrelado por Sharon Stone, chegou ao Brasil apenas três anos depois. Não lembro se chegou a passar em alguma sala de cinema na cidade – talvez não – e o vi pela primeira vez em VHS. Como se trata de um filme japonês, já se espera algo um pouco mais bizarro e incomum de nossos irmãos nipônicos.

Abordando o universo S&M, o filme de Ryû Murakami, romancista autor de AUDIÇÃO (1999), de Takashi Miike, foi adaptado da obra do próprio Murakami. Pelo que eu li pela internet ele adaptou cinco histórias e a transformou na narrativa de Ai, uma jovem pura e inocente, vivida por Miho Nikaido, uma atriz que fez eu me lembrar de uma personagem de um filme recente de Kiyoshi Kurosawa, O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO.

A cena que minha memória tratou de tornar mais forte é uma das primeiras. Ai é contratada por um gângster da Yakuza para satisfazer os seus desejos sádicos. Ela deve ficar na janela de um grande edifício seminua, dançando sensualmente, se contorcendo, até que aquela situação de humilhação se torne tão excitante que ela fique bem molhada. E passam-se horas, a noite chega, e aquela pobre menina ficou de fato muito excitada. O gângster a apalpa para verificar.

Como fantasia erótica S&M, achei isso fabuloso. E nem foi a única coisa que Ai fez durante aquele período de prestação de serviços com esse homem. Mais situações aparecerão durante a longa noite, principalmente quando chega a esposa do sujeito. Mas foi aquela cena da janela que me pegou que não saiu da minha memória e me fez querer ver o filme de novo, desta vez em uma ótima cópia.

E uma coisa que eu reparei nesta revisão é que o filme ganha ainda mais força no aspecto humano, no quanto a obra aprofunda os dramas existenciais de Ai, sua vontade de encontrar um grande amor, mesmo tendo que trabalhar para esse tipo de cliente. Se o filme fosse apenas uma sucessão de cenas excitantes e exploratórias já seria muito bom. Consegue transcender esse aspecto, com suas cenas mais longas e contemplativas.

A primeira cena, da injeção, passa uma sensação de impotência, de uma impossibilidade de sair do jogo, uma vez entrando e já dá o tom de algo sombrio. E também vale destacar a cena da dominatrix humilhando o seu cliente, que age feito um cachorrinho e é obrigado a beber urina. Não é bem obrigado, na verdade. Ele estava curtindo aquilo, foi para isso que ele contratou os serviços dessa outra moça, que enricou com esse negócio. Por tabela, o filme também acaba falando do vazio existencial desses homens, sejam eles sádicos ou masoquistas. E o Japão talvez seja um misto de sociedade doente, mas ao mesmo tempo em que tem conseguido se libertar de certos tabus através da arte (cinema, mangás, literatura etc.).

+ TRÊS FILMES

LÁMEN SHOP (Ramen Teh)

Que filme bonito, hein! Além de tratar da comida de maneira quase espiritual (como é comum de ver em algumas obras japonesas), tem toda uma questão familiar que acaba falando mais forte e traz muita emoção. Fui ver o filme achando apenas ser ok e acabei me comovendo bastante. Há uma questão política envolvendo a relação Japão/Singapura também e que pode passar batido por quem não conhece nada dos países. Mas o forte é mesmo a relação familiar e a questão da comida. Por mais filmes do Eric Khoo no circuito! Ano: 2018.

AFTER

É melhor do que eu esperava. Muito por causa da atriz, uma graça chamada Josephine Langford. Ela lembra tanto a Sarah Michelle Gellar quanto uma versão teen de Cybill Shepherd. E por isso muito do interesse do filme jaz em sua personagem e no modo como ela vê a vida como algo muito excitante, já que ainda é virgem e está bem apaixonada pelo rapaz que conhece na faculdade. Não há cenas de nudez, mas as cenas de amor/sexo são bem sensuais e bonitas. Interessante ver Peter Gallagher, que eu conheci em SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, fazendo um papel pequeno em um filme como esse, que lembra tanto CREPÚSCULO quanto CINQUENTA TONS DE CINZA em diversos aspectos. Direção: Jenny Gage. Ano: 2019.

RAINHA DE COPAS (Dronningen)

É um filme interessante para causar reflexões sobre o caso apresentado: mulher passa a fazer sexo com o enteado de 17 anos. Confesso que fiquei sem entender se o filme é moralista, ou se pensar que é moralista já denota alguém com problema. De todo modo, é um drama tenso e envolvente, com uma ótima atriz dinamarquesa fazendo um papel forte em uma história controversa, com direito a uma cena de sexo bastante ousada (ainda que curta) para os dias de hoje. Direção: May el-Toukhy. Ano: 2019.