sábado, outubro 22, 2016

OUIJA – ORIGEM DO MAL (Ouija – Origin of Evil)



2016 está sendo um ano estranho em muitos aspectos. Não poderia ser diferente no campo dos filmes de horror. Quem diria que a continuação de um grande filme como INVOCAÇÃO DO MAL resultaria em um filme tão aquém do que se espera de James Wan, e que a continuação de uma obra tão esquecível e insignificante como OUIJA – O JOGO DOS ESPÍRITOS (2014) fosse resultar em um trabalho tão bonito e interessante?

Aliás, sempre bom dizer que OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016) não é exatamente uma continuação, mas um prequel, e que não é necessário ver o original para entender qualquer coisa. Temos uma história independente, que tem um parentesco muito maior com outra obra do diretor, O ESPELHO (2013), um dos mais inventivos filmes de horror desta década.

Mike Flanagan, o diretor, é desses nomes que merecem atenção neste atual cenário de poucos grandes nomes no gênero. Pelo menos em comparação com o que havia nas décadas de 1970-80. Flanagan não apenas traz ideias novas para o título, como faz tudo com uma elegância de tirar o chapéu. Pode até ter derrapado um pouco na conclusão, mas ainda assim é difícil negar as qualidades do novo filme.

A começar pelos créditos iniciais, que trazem o logo da Universal antigo, como nos anos 1960, e depois com o título escrito em letras grandes, como se estivéssemos vendo um filme sessentista. A reconstituição de época é de dar gosto e o trabalho de direção de arte e fotografia é algo que ajuda a narrativa a parecer ainda mais atraente, por mais que o enredo possa parecer, em alguns momentos, requentado ou um tanto previsível.

Mas na verdade só parece. Embora haja algumas apropriações de cenas do primeiro filme, como a inevitável brincadeira de olhar pela lente do indicador do tabuleiro ouija e ver alguma coisa que provocará medo na plateia, há muitas surpresas ao longo da metragem. Flanagan sabe lidar muito bem com a expectativa, principalmente nos 2/3 iniciais do filme, que são perfeitos em sua condução narrativa e recursos de câmera que funcionam a favor da trama, como a profundidade de campo, como na cena em que a garotinha vai buscar, a pedido do espírito misterioso, uma bolsa cheia de dinheiro para sua mãe.

O jogo com o medo do espectador é feito com muita eficiência, mesmo quando o filme sai do território das sutilezas para mostrar a entidade maligna ou uma expressão assustadora no rosto da garotinha de forma mais gráfica. Mas é no modo como a garota consegue ser sinistra apenas sorrindo, que vemos o quanto este prequel está longe da vulgaridade dos filmes do gênero. E isso é muito bom de constatar.

Na trama, uma família formada por uma mãe e duas filhas (uma adolescente e uma criança) vive de aplicar golpes em clientes que acreditam que a mulher é capaz mesmo de se comunicar com os mortos. Através de algumas combinações prévias com as filhas, ela consegue enganar até mesmo algumas pessoas mais céticas. Mas, como é de se esperar, o jogo com os espíritos – que começam a perturbar a família através do tabuleiro ouija – se tornará muito perigoso para essa pequena família e para outras pessoas que a cercam.

Talvez um dos problemas do filme seja a explicação da trama, que acaba não sendo tão interessante e até bastante convencional. O que importa mesmo é a habilidade de Flanagan em extrair momentos de medo e suspense ao longo da história. Há também outra coisa que conta pontos a favor para OUIJA – ORIGEM DO MAL: o fato de se investir bastante na construção de seus personagens e fazer com que nos interessemos por eles. Junte-se isso à atmosfera de medo e ao tratamento visual sofisticado e temos um pequeno grande filme, desses de dar gosto de ver.

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