segunda-feira, outubro 24, 2016

A PRÓXIMA VÍTIMA



É muito bom saber que ainda podemos nos surpreender positivamente com o nosso cinema. Saber que há muitos exemplares a serem descobertos de filmes fantásticos que até estão ao nosso alcance, e alguns deles até com uma qualidade de imagem e som bem decentes. Infelizmente é minoria e nem gosto de pensar nisso, mas o que importa é que temos sim uma história de cinema muito rica e saborosa. A PRÓXIMA VÍTIMA (1983), de João Batista de Andrade, é um desses exemplares desse tipo de cinema de dar gosto.

Depois de ter dirigido uma adaptação de sua própria obra, um cordel, o ótimo O HOMEM QUE VIROU SUCO (1980), João Batista de Andrade partiu para o cinema de gênero, o filme policial. Mas contado de uma maneira bem brasileira, sem intenção nenhuma de copiar o padrão americano, embora essa coisa de investigação policial seja algo muito comum e já herdeiro da literatura ocidental, ou mundial. Aqui mesmo no Brasil já tínhamos escritores que faziam literatura policial, como Rubem Fonseca, por exemplo.

Na história de A PRÓXIMA VÍTIMA, temos Antônio Fagundes como David, um repórter investigativo de uma rede televisiva que está encarregado de cobrir o caso do assassinato em série de prostitutas no bairro do Brás, em São Paulo. Para saber mais sobre os crimes, ele acaba se aproximando de uma prostituta menor de idade, Luna, vivida por Mayara Magri, que na época já tinha feito três telenovelas e era um rosto bem conhecido. Fagundes, então, nem se fala, com seu histórico de cinema e televisão que remonta ao fim dos anos 1960. E em A PRÓXIMA VÍTIMA ele está excelente. Um dos melhores trabalhos de sua carreira, sem dúvida.

A história é baseada em um caso real do chamado "Vampiro do Brás", um assassino em série que nunca foi descoberto pela polícia. E assim como fez em O HOMEM QUE VIROU SUCO, Batista de Andrade trata da questão do preconceito com pessoas mais pobres na metrópole. Se no anterior, era o nordestino, em A PRÓXIMA VÍTIMA, temos os negros e as prostitutas como alvos da sociedade hipócrita e preconceituosa. Um dos principais acusados do crime é um negro que é há tempos incomodado pela polícia. E há uma cena dele com Fagundes, quando o repórter entra em seu território para fazer uma entrevista, que é antológica.

De quebra, o filme ainda traça um painel bem quente sobre o Brasil em convulsão daquela época, com o processo de redemocratização. Assim, vemos cenas reais de comícios e pessoas nas ruas comentando sobre os candidatos ao Governo de São Paulo na época: Lula, Jânio e Montoro. Naquele momento, a polícia agia de maneira consciente de que as coisas estavam mudando, como deixa bem claro o delegado vivido por Othon Bastos. No elenco, há também participação do saudoso Goulart de Andrade, como o chefe de redação.

Com o mistério envolvendo as mortes, o envolvimento próximo do amoroso de David e Luna, a dificuldade de trabalhar em um país ainda com um pé na ditadura e um cenário político singular, só isso já seria suficiente para tornar A PRÓXIMA VÍTIMA um filme imperdível. Mas acontece que ele consegue ser muito mais do que isso, com uma condução narrativa excepcional de Batista de Andrade e um roteiro muito bem acertado de Lauro César Muniz. E que bom que agora é possível ver esta belezura em alta resolução e com cores vivas. É ou não é algo a se comemorar?

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