domingo, maio 28, 2017

SETE FILMES VISTOS NO FESTIVAL VARILUX DE 2016























A edição do ano passado Festival Varilux de Cinema Francês foi uma das melhores, se não a melhor em termos de quantidade de ótimos filmes vistos. E o curioso é que boa parte desses filmes não são de cineastas cultuados ou renomados. São nomes relativamente novos e de menor expressão. Se em 2016 estava assim, este ano promete ser ainda melhor. Veremos. Enquanto isso, falemos um pouco destes sete filmes que deveriam ter tido mais espaço ao longo do ano no blog, mas que acabaram, por um motivo ou outro, ficando de fora.

CHOCOLATE (Chocolat)

O filme que abriu o festival, CHOCOLATE (2016), quarto longa-metragem de Roschdy Zem, tem como principal força a presença e o carisma de Omar Sy, como o primeiro artista de circo negro da França. A história de Rafael Padilla, que ficou conhecido como o palhaço Chocolat nos últimos anos do século XIX, é bem comovente. Descoberto por um artista de circo britânico, George Footit (James Thiérrée), ele e Footit tiveram dias de glória e sucesso como uma dupla na Paris da Belle Epoque. Mas a questão racial vem à tona, assim como o fato de que Chocolat sempre interpretava o sujeito que apanhava nos espetáculos, o que acabou o incomodando, assim como também sua vontade de alçar vôos maiores e provar que podia ser também um grande ator. A história de decadência, amizade, fortuna acaba com um gosto bem amargo, mas isso só torna o filme ainda mais forte.

MARGUERITE

Catherine Frot ganhou o César de melhor atriz em 2016 por seu papel em MARGUERITE (2015). Na verdade, a personagem Marguerite Dumont é uma construção fictícia em cima da britânica Florence Foster Jenkins, que ganharia um filme próprio quase na mesma época, dirigido por Stephen Frears: FLORENCE – QUEM É ESTA MULHER?. Mas o sexto longa-metragem de Xavier Giannoli tem o seu brilho todo próprio, até por ser menos cômico e mais trágico do que a versão de Frears da história, embora ambos tenham em comum sua parcela de tragicidade. A personagem é convencida de que é uma boa cantora, mas as pessoas só querem tirar proveito de seu dinheiro, e ainda por cima escarnecer de sua voz e do ridículo da situação. Há um cuidado com a direção de arte que chama a atenção no trabalho de Giannoli.

UM HOMEM, UMA MULHER (Un Homme et un Femme)

O clássico do festival do ano passado foi UM HOMEM, UMA MULHER (1966), de Claude Lelouch, Eu, particularmente, fiquei um tanto decepcionado com o filme, embora admita que se trata de uma obra que tem sim o seu charme. Gosto principalmente das cenas que não economizam diálogos entre os dois amantes. É quando o filme mais dialoga com o cinema contemporâneo. Mas o excesso de vezes em que a canção-tema toca e mais algumas cenas que parecem pouco expressivas para a construção do romance do casal acabam prejudicando um pouco. De todo modo, foi muito bom poder ver este filme, em cópia restaurada, no cinema.

VIVA A FRANÇA! (En Mai, Fais Ce Qu'il Te Plaît)

Quarto longa-metragem de Christian Carion, VIVA A FRANÇA! (2015) é mais um bom drama de guerra que fala sobre a resistência francesa nos tempos terríveis da Segunda Guerra Mundial. Neste filme, vemos o começo da invasão alemã no território francês e a imagem dos aviões avançando pelos céus talvez seja um dos momentos mais memoráveis, embora o drama mesmo aconteça nos momentos seguintes, quando inocentes são assassinados por soldados nazistas. O filme se passa em espaços rurais e se concentra em personagens que resolvem contrariar as ordens do governo francês e fugir para outros lugares, abandonando seu vilarejo. O personagem principal, porém, é o de um alemão refugiado na França, e que justamente por isso acaba correndo perigo. O fato de ele se perder de seu filho pequeno contribui para a força do drama. Há trilha do mestre Ennio Morriccone, produção caprichada, mas parece faltar algo para que seja o grande filme que almeja.

AGNUS DEI (Les Innocentes)

A diretora Anne Fontaine já havia comparecido ao Festival Varilux com alguns bons filmes, COCO ANTES DE CHANEL (2009) e GEMMA BOVERY – A VIDA IMITA A ARTE (2014). O novo trabalho, AGNUS DEI (2016, foto), é mais ambicioso. E talvez até mesmo seja o seu melhor filme, embora não tenha visto os demais. O próprio ponto de partida já é bastante curioso: dezenas de freiras polonesas aparecem grávidas em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra. Ficamos logo sabendo que todas elas foram vítimas de estupro por parte de soldados do exército russo. O filme faz uma investigação cuidadosa do estado psicológico delicado, já que, além de terem passado por uma situação obviamente traumática, ainda há questões relativas à religião, à dificuldade de exposição do corpo, até mesmo para a enfermeira da Cruz Vermelha, muito bem interpretada por Lou de Laâge, que é chamada para atender àquelas mulheres religiosas. Há um momento especialmente bem emocionante.

LA VANITÉ

Provavelmente o filme que mais foge do convencional dentre os exibidos no Festival, LA VANITÉ (2015), de Lionel Baier, nos apresenta a um microcosmo habitado por um homem que deseja pôr fim à própria vida (Patrick Lapp), uma mulher destinada a executar o serviço (Carmen Maura) e um garoto de programa (Ivan Georgiev). O minimalismo do local contrasta com a complexidade da psicologia dos personagens e o modo criativo com que a história evolui. Sem falar no cuidado no uso das cores nos ambientes internos e até mesmo externos, claramente artificiais, feitos em estúdio. Embora seja um filme que lide com a questão da valorização da vida vs. desencanto, isso nunca é simplificado ou banalizado, o que só eleva o filme cada vez que pensamos nele.

A VIAGEM DE MEU PAI (Floride)

Na época de sua exibição no festival, A VIAGEM DE MEU PAI (2015), de Philippe Le Guay, foi exibido com o título de “Flórida”, tradução direta do título original. Trata-se de um dos belos exemplares do quanto o cinema francês sabe equilibrar a comédia do drama como poucas cinematografias conseguem. Ou seja, ver A VIAGEM DE MEU PAI, ao mesmo tempo que é um exercício muito gostoso, é também um estudo de personagem admirável, especialmente pela presença brilhante do veterano Jean Rochefort, um homem de 80 anos de idade que é cuidado pela filha (Sandrine Kiberlaine) e que tem o hábito de enxotar as enfermeiras e mulheres contratas para cuidar dele. Claramente com problemas de memória e outros que surgem com a idade, esse senhor tem a ideia fixa de visitar a filha ausente na Flórida. De certa forma, acaba conseguindo viajar. Belo filme do diretor de PEDALANDO COM MOLIÈRE (2013).

sábado, maio 27, 2017

NÃO MATARÁS (Broken Lullaby)























A cinefilia, como, aliás, qualquer forma de arte ou conhecimento, acaba abrindo portas para novas e novas portas. Soube que o novo e elogiado trabalho de François Ozon, FRANTZ, é remake de um filme de Ernst Lubitsch que recebeu o título no Brasil de NÃO MATARÁS (1932). Fiquei imediatamente curioso e um título que nem estava nos planos de ser visto, de uma hora pra outra, acaba furando essa fila infindável e caótica que é a de ver filmes em casa.

NÃO MATARÁS, mesmo tendo os mesmos problemas da grande maioria das obras do início dos anos 1930, quando o cinema falado estava se instalando, ou seja, ainda um pouco engessado, há uma fluidez narrativa muito boa, que nos fisga desde o começo, mas que é preciso esperar até perto de sua meia hora de duração inicial para finalmente ficar encantado com a história e seus personagens.

No começo, somos apresentados a um homem atormentado, o francês Paul (Phillips Holmes), que está em uma igreja para se confessar para um padre sobre algo que o incomoda bastante: o fato de ter matado um homem durante a Primeira Guerra Mundial, um alemão, a quem ele chega, inclusive, a ler a última carta endereçada à noiva. Por mais que o padre lhe diga que ele estava apenas cumprindo seu dever e lhe dê absolvição do seu pecado, o inconformado homem resolve viajar e conhecer a família do homem que teima em aparecer em seus sonhos.

Assim, o filme se transfere de Paris para uma pequena cidade da Alemanha, onde mora um simpático e atencioso médico, o Dr. Holderlin, vivido pelo amável Lionel Barrymore. Aliás, o que seria do filme se não fosse Barrymore, este homem que parece transferir o sentimento de amor para a tela e para o espectador? Ele é o pai do rapaz morto na guerra por Paul. E, assim como todos em sua vila, nutre um ódio enorme pelos franceses, que venceram a guerra e tiraram as vidas dos jovens habitantes.

Na mesma casa também vive Elsa (Nancy Carroll), a jovem ex-noiva de Walter, o soldado falecido, que trata o sogro como pai. E já se imagina que o destino vai colocar Paul e Elsa juntos, tendo este segredo tão difícil de ser contado pelo rapaz francês no meio do caminho. Afinal, quem em sã consciência chegaria à casa de um soldado morto para dizer que ele mesmo fora responsável pela morte de um membro querido de uma família? Por mais que a história seja envolvente, acredito que falta ao filme um pouco mais de interesse em ingressar nas profundezas das dores de seus personagens. Tudo parece até leve para as circunstâncias, e depende um bocado da colaboração do próprio espectador para ligar os pontos que parecem faltar.

Mas há o mérito da economia narrativa. É tudo contado de maneira muito rápida e simples, com uma elegância na condução da câmera que não deixa de ser admirável para aqueles tempos de equipamentos pesados e de retrocesso na arte de contar histórias por meio de filmes. Quando percebemos já estamos no belo final. Além do mais, NÃO MATARÁS é um filme que levanta uma mais do que justa bandeira antibelicista. Ninguém sabia que aquele momento de paz era só uma trégua para algo pior que viria.

quinta-feira, maio 25, 2017

REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA























Os filmes, por mais que tentem retratar uma época, acabam sendo reflexo da época em que foram realizados. Com REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA (2017) não é diferente. É possível perceber que a rixa existente entre esquerdistas e neoliberais que abre o filme é muito mais rancorosa hoje do que era naqueles tempos em que Lula ainda não tinha conseguido vencer uma eleição. É também um filme que acabou chegando em um momento particularmente infeliz para o PSDB, que quis usar o filme como propaganda dos tucanos.

Se bem que é bem possível ver o filme sem esse viés. Até porque, no fim das contas, Fernando Henrique Cardoso não aparece no filme como o criador da ideia do Plano Real. Ele apenas, espertamente, juntou uma equipe que trouxe uma ideia pré-existente em um trabalho de faculdade para a realidade brasileira. Foi um projeto arriscado, mas até hoje se elogia a criação de uma moeda forte, por mais que isso tenha custado bastante ao povo brasileiro, que sofreu um desemprego gigante, além de taxas de juros absurdos, tudo para manter a estabilidade da moeda.

E, por mais que vejamos claramente os problemas do filme, principalmente os de interpretação, escalação de atores e de diálogos, trata-se de uma narrativa até bem envolvente, muito por tratar de um assunto que interessa ao brasileiro médio, especialmente o que viveu os anos 1990. Não dava para esperar grande coisa de Rodrigo Bittencourt, o diretor da tenebrosa comédia TOTALMENTE INOCENTES (2012).

O filme foca na história de Gustavo Franco, que é mostrado como principal responsável pela existência do Plano Real, como também uma pessoa que tentou de tudo para que a moeda persistisse estável, mesmo com uma crise mundial e nacional que pedia que o Brasil cedesse. Não dá também para dizer que ele é exatamente um herói. E nisso o filme tem como mérito a boa interpretação de Emílio Orciollo Netto, no papel do egocêntrico e arrogante Gustavo Franco.

Por outro lado, tirando Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, todos os demais personagens soam ridículos, seja Norival Rizzo, como FHC, seja Bemvindo Sequeira como o Presidente Itamar Franco. Paolla Oliveira mais uma vez só serve para trazer beleza para a tela, pois sua interpretação nunca esteve tão constrangedora. Se nas telenovelas já é assim, nos filmes, suas limitações se agigantam. Assim, como Orciollo Netto acaba aparecendo bem mais na tela, os problemas de interpretação do filme são menores do que se esperava, pelo trailer. Ainda assim, não deixa de ser ridículo quando ele grita "Eu não vou desvalorizar a minha moeda!".

Quanto ao atual momento brasileiro de polaridades extremas entre esquerdistas, costumeiramente chamados de comunistas (como se isso fosse uma ofensa), e neoliberais, ela transparece desde o começo, mesmo que nas entrelinhas, embora nada seja tão forte quanto a sequência da discussão no restaurante entre Franco e um amigo que votou no Lula. Não se sabe até quando o país vai se unir novamente para o próprio bem do país, mas a impressão que dá é de que esse cenário vai permanecer por mais um bom tempo. Ainda mais em tempos de governo ilegítimo e uma podridão generalizada, que dessa vez está tão feia como uma ferida exposta.

quarta-feira, maio 24, 2017

CÃES SELVAGENS (Dog Eat Dog)























Curioso o título brasileiro ter usado o adjetivo “selvagem”. Afinal, foi em CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch, lá em 1990, que Nicolas Cage e Willem Dafoe fizeram sua parceria anterior, pra lá de memorável. Mas Dafoe era então um coadjuvante. Em CÃES SELVAGENS (2016), novo trabalho de Paul Schrader, ele está de igual pra igual com Cage, tão protagonista quanto ele. E enquanto Cage continua no piloto automático, mesmo que com um ótimo papel, Dafoe está brilhante.

Um dos aspectos mais admiráveis de CÃES SELVAGENS é o fato de nenhum dos três personagens, os ex-presidiários vividos por Cage, Dafoe e Christopher Matthew Cook, ser merecedor de nossa piedade. Também pudera, o que Dafoe faz com uma mulher logo no prólogo é algo tão brutal que não dá pra pensar nele em algo menos do que um monstro. O que acontece é que tudo é mostrado com muito humor, ainda que esse humor seja bem pesado.

Mas o que dá impressão é que seria necessário mesmo um cineasta da Nova Hollywood para fazer uma brincadeira tão pesada e sair no lucro. Schrader, brilhante roteirista, tem uma carreira como cineasta marcada por altos e baixos, e até uma aura de maldito. Fazia tempo que um filme do cineasta não pintava no circuito e desde o incidente envolvendo o prelúdio de O EXORCISTA, negado pelos produtores e lançado posteriormente em vídeo com o título de DOMINION – PREQUELA DO EXORCISTA (2005), que Schrader andava meio apagado dos holofotes, por mais que não tenha deixado de fazer e lançar filmes com uma boa regularidade.

Filme que se assiste com um sorriso de orelha a orelha (isso se você não ficar muito chocado com os personagens e as cenas), CÃES SELVAGENS também desperta umas boas gargalhadas, como na cena em que os três amigos resolvem sair, cada um, com uma mulher. E cada um em uma situação diferente. Todos eles, além de muito brutos e violentos, estavam desacostumados com o mundo exterior e acabam não sabendo aproveitar o prazer e a graça que o sexo oposto oferece.

Há quem vá achar tudo uma brincadeira de muito mau gosto, especialmente o duplo homicídio que abre o filme, mas a ideia talvez seja mesmo fazer uma obra em que o grotesco predomina, cujos exageros formais e narrativos andam de mãos dadas com seus personagens grosseiros, violentos e sem nenhuma esperança de conseguir um lugar naquele mundo estranho, depois de passarem tanto tempo atrás das grades. Se lembrarmos que Schrader é o roteirista de TAXI DRIVER (1976), podemos facilmente colocar esses novos personagens junto com o taxista psicopata do filme de Scorsese. Lembremos de sua cena levando a namorada para um cinema pornô. Mas, curiosamente, o roteiro é baseado em uma obra literária. Agora, cá pra nós, o que é aquele final, hein?

domingo, maio 21, 2017

CORRA! (Get Out)























2016 foi um ano muito especial para os filmes que traziam temática racial. Tanto que no Oscar deste ano foi MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR, de Barry Jenkins, o grande vencedor na categoria principal e O.J. – MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, na categoria de documentário, sendo que ambos já concorriam com pesos pesados da temática: UM LIMITE ENTRE NÓS, de Denzel Washington, e EU NÃO SOU SEU NEGRO, de Raoul Peck. Os quatro são obras que trouxeram uma rica e dura reflexão sobre o negro na sociedade americana.

Mas os filmes de horror, que muitas vezes são menosprezados, costumam ser excelentes análises políticas e sociais sobre a sociedade. Um dos exemplos mais claros disso é A NOITE DOS MORTOS VIVOS, de George A. Romero, que, aliás, possui um protagonista negro em plena década de 1960. Este e as demais sequências dos filmes que influenciaram definitivamente o que hoje se chama de filme de zumbi foram exemplares como representações do mundo.

Eis que este ano um filme de horror dirigido por um cineasta negro e que trata a questão do abismo existente entre brancos e negros nos Estados Unidos pegou muita gente de surpresa: CORRA! (2017), de Jordan Peele, que a princípio parece apenas a história de um rapaz negro, Chris (Daniel Kaluuya), que se vê aterrorizado com a expectativa de conhecer a família branca, ainda que liberal, de sua namorada Rose (Allison Williams, a Marnie da série GIRLS).

A aproximação com o horror vai acontecendo de maneira paulatina, com Peele tendo um domínio narrativo admirável, e ainda colocando um senso de humor original que envolve a plateia e faz rir, mesmo que seja de nervoso, em alguns momentos. O que deixa Chris mais cismado, logo que ele chega na casa da família dos pais da namorada são os criados: uma mulher e um homem negros, que mais parecem zumbis retirados dos filmes sobre zumbis haitianos, como A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur.

Sua tentativa de  conversar com eles só mostra o quanto sua ideia de que há alguma coisa terrivelmente errada naquela casa e naquela comunidade fazia sentido e não se tratava de paranoia – há uma cena em que a empregada negra chora e ri ao mesmo tempo, enquanto conversa com ele e outra em que ele leva um baita susto quando sai pra fumar um cigarro ao ar livre. São cenas de certa forma sutis, mas que antecipam, o cenário de horror e medo que vai sendo construído e que, no final apoteótico, eleva o filme à posição de um dos mais interessantes exemplares do gênero atualmente.

Assim, CORRA!, ao mesmo tempo em que funciona de maneira admirável como um filme de medo (os momentos mais eletrizantes não foram sequer mencionados aqui), o que já seria louvável, traz também um questionamento tanto da história de sofrimento do povo negro americano, que remonta à escravidão, quanto da questão do roubo, por parte dos brancos, da riqueza cultural afro-americana, o qual vem sendo feito explicitamente na música há muitas décadas e continua sendo.

sexta-feira, maio 19, 2017

A AUTÓPSIA (The Autopsy of Jane Doe)























Provavelmente estou dando um spoiler de um outro filme, mas fique à vontade para deixar de ler. Em A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra, há uma cena perturbadora para pessoas desacostumadas com imagens reais de partes do corpo humano dissecadas, como fígado, baço etc. No filme de Serra, certamente por ser tão realista, isso chega a incomodar mesmo, embora contribua ainda mais para a grandeza do trabalho do cineasta espanhol.

Pulemos então para este terror A AUTÓPSIA (2016), primeiro trabalho em língua inglesa do diretor norueguês André Øvredal. Imagina-se que o efeito do filme de Serra se estenderia por boa parte de um filme que lida com pessoas que retiram para análise partes do corpo de pessoas mortas. Mas não é bem isso que acontece: todas as cenas de autópsia do corpo da desconhecida que aparece são artificiais. Jane Doll parece uma boneca de borracha. E talvez seja mesmo, embora o ideal era que fosse mais real.

De todo modo, A AUTÓPSIA funciona justamente em sua primeira metade, quando acompanhamos pai e filho (Brian Cox e Emile Hirsh) se mostram felizes com seu trabalho de investigar a causa da morte dos cadáveres que chegam ao necrotério. E nós, do lado de cá da tela, também ficamos bastante intrigados com essa mulher desconhecida, que vai se revelando cada vez mais misteriosa a cada vez que eles cortam seu corpo.

O problema do filme está justamente quando ele se assume explicitamente de horror e todos os clichês já vistos em tantos outros trabalhos sobre casas assombradas e fantasmas ou outro tipo de ameaça sobrenatural acaba tornando tudo muito sem graça. Há poucas cenas de susto – e isso é até bom, torna o trabalho mais honesto –, mas os poucos que têm são frágeis.

A transformação do suspense de base criminal, ainda que saibamos que seria só o ponto de partida, em terror puro e simples, mas sem nada a acrescentar ao gênero, nem mesmo eficiência, acaba tornando a experiência de A AUTÓPSIA bem frustrante. Ficam as boas atuações de Cox e Hirsch, que dominam as cenas durante boa parte da narrativa, além do bom trabalho de direção de arte. Não deixa de ser um filme curioso e que merece a espiada.

sábado, maio 13, 2017

ALIEN - COVENANT























Ridley Scott com o tempo vem demonstrando, cada vez mais, tanto seu poder de criar imagens poderosas quanto suas fragilidades, quando mostra sua dificuldade em construir cenas de ação rápidas e eficientes. Essa fragilidade comparece com força em vários momentos de ALIEN – COVENANT (2017), sequência quase direta de PROMETHEUS (2012), na ordem cronológica da mitologia do universo Alien.

Mesmo não sendo o sucesso gigante esperado pela Fox, PROMETHEUS conquistou uma discreta geração de fãs. Além do mais, dessa vez, o nome “Alien” no título certamente surtirá um efeito maior nas bilheterias, agora que as intenções de Scott em voltar ao universo que ele deu início em 1979, com ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, se tornaram bem mais claras. É quase como se ele dissesse: outra pessoa vai fazer uma continuação de BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES (1982), mas serei eu quem vai retomar as rédeas de uma franquia de sucesso iniciada por mim. E, assim, é possível que novas sequências de ALIEN venham no futuro, pelas mãos do próprio Scott.

Um dos pontos bem positivos de ALIEN – COVENANT é o cuidado com a construção das imagens que se manifesta desde o início, quando vemos o andróide Michael Fassbender despertando e mostrando sua perfeição como criatura sintética para seu criador. Ele se autodenomina David, em homenagem a uma escultura de Davi, o segundo rei de Israel, que vê na sala. Corta para uma imagem da nave Covenant, também com Fassbender, dessa vez supervisionando a espaçonave, enquanto a tripulação e um grande grupo de pessoas colonizadoras outro planeta dormem em suas câmeras criogênicas.

Porém, um acidente sério faz com que a nave seja abatida e danificada e muitos da tripulação acabem sido afetados. O próprio capitão é uma baixa. Billy Crudup, como Oram, acaba assumindo o posto, já que era o segundo em comando. O ego de estar no comando mexe com a cabeça de Oram, que fica até mesmo insensível à morte do capitão, companheiro de Daniels, vivida com relativo brilho pela inglesa Katherine Waterston, que foi destaque em ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM, David Yates, e VÍCIO INERENTE, de Paul Thomas Anderson.

O fascínio pelo visual das criaturas criadas pelo artista plástico H.R. Giger se mantém em ALIEN – COVENANT. Elas novamente surgem a partir do contato com o corpo humano, assimilando a organicidade dos corpos e os usando como fonte de materialização e efetivo nascimento, como sementes esperando um solo fértil para nascer e se desenvolver. Algumas das criaturas são menores e mais claras, e saem de dentro dos órgãos das vítimas em cenas gore bem interessantes; e uma delas é assustadoramente maior e de cor preta.

Elas acabam sendo o grande trunfo do filme, junto com a elegância da direção de Scott, mesmo com todos os problemas do roteiro fraco. Além do mais, algumas cenas são carentes de um maior cuidado, principalmente levando em consideração que, por mais que pudessem ter feito um filme B honesto com essa história, sabemos que não é o caso aqui. Afinal, estamos diante de uma superprodução, com todos os recursos necessários para fazer tudo no capricho. No entanto, na cena em que Daniels fica dependurada numa nave enquanto atira em uma das criaturas, tudo parece tão rápido e insípido e parecido com um videogame de geração ultrapassada, que se esta cena fosse deletada, seria para o bem do filme.

Scott é um excelente arquiteto de dramas também, embora nunca (ou raramente) tenha dirigido filmes feitos para chorar – o que não é um problema, de modo algum. No entanto, como gosta também de dirigir filmes caros e grandiosos, acaba derrapando com certa frequência, como foi o caso recente de EXÔDO – DEUSES E REIS (2014). Felizmente, sua volta ao espaço sideral com o ótimo PERDIDO EM MARTE (2015) fez com que ele tomasse novamente gosto por aventuras espaciais.

Mas, se por um lado, PERDIDO EM MARTE conseguia nos solidarizar com as angústias de seu protagonista, ALIEN – COVENANT. além de quase se assumir como um horror/sci-fi genérico, de tão desleixado que parece em certos momentos - as questões filosóficas de PROMETHEUS são quase que totalmente deixadas de lado ou mostradas de maneira muito rasas - seus personagens são rasos e desinteressantes. Por isso, a sorte é que quando Scott acerta, mesmo em um filme irregular como este, ele acerta bonito. O que acaba compensando.

segunda-feira, maio 08, 2017

TOP OF THE LAKE























No mesmo ano que TWIN PEAKS retorna, uma minissérie de prestígio mais recente, TOP OF THE LAKE (2013), também volta. Detalhe: ambas terão sua première com os dois primeiros episódios no Festival de Cannes. TOP OF THE LAKE não foi pensada para ser uma série, mas uma minissérie. E, de fato, há uma história fechada, contada em sete episódios de menos de uma hora cada.

TOP OF THE LAKE, assim como THE KILLING (2011-2014), é devedora do caminho aberto pela revolucionária série de David Lynch e Mark Frost. A principal diferença é que aqui não temos nem humor nem surrealismo. É tudo muito sério, inclusive. Até porque se trata de uma minissérie de denúncia dos abusos que as mulheres sofrem dos homens, que são mostrados quase em toda a totalidade como seres repugnantes.

Jane Campion, junto com Gerard Lee, são os criadores da produção, que nos apresenta ao caso de uma garotinha de 12 anos de idade que se descobre grávida. Passando uma temporada em sua cidade natal, Robin, a detetive de polícia vivida por Elisabeth Moss, é chamada para ajudar no caso. Com pouco esforço, ela consegue conversar com a garota, coisa que os policiais da cidade não haviam conseguido.

Aos poucos, vamos percebendo, à medida que a história nos apresenta mais aprofundadamente a protagonista, que ela tem seus motivos para estar bastante interessada no caso de Tui, a garotinha grávida, que já no segundo episódio desaparece. Teria fugido? Ou foi sequestrada? Está viva ou morta? O pai da menina tem algo a ver com isso? São várias perguntas que surgem e que permanecem sem serem contadas por alguns episódios. Lembrando que o pai da garota, Matt (Peter Mulan), é temido na cidade justamente por ser extremamente perverso. Logo no primeiro episódio, por exemplo, vemos do que ele é capaz.

O que deixa Matt enfurecido de verdade é a invasão de um grupo de mulheres pertencentes a uma espécie de comuna que carregam consigo traumas com maridos e amantes e que seguem uma estranha senhora grisalha chamada apensa de GJ, vivida por Holly Hunter, que havia trabalhado com Jane Campion em O PIANO (1993), filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes.

As cenas mostrando a paisagem da Nova Zelândia são excepcionalmente belas e contribuem para enriquecer a experiência de ver TOP OF THE LAKE. O problema é que a minissérie, a partir do terceiro episódio, perde um pouco o impacto dos primeiros, que nos deixam cheios de entusiasmo. Felizmente, ainda que de maneira anti-climática, o desfecho é bom, sem falar na direção de atores e todo o trabalho de interpretação, que eleva a série a uma categoria respeitável.

sábado, maio 06, 2017

HIROSHIMA MEU AMOR (Hiroshima Mon Amour)























Há filmes que precisam de um pouco de maturação da nossa parte para que sejam minimamente valorizados. Minha relação com HIROSHIMA MEU AMOR (1959) não era das melhores, em comparação com o quanto este filme é amado e cultuado por uma vastidão imensa de cinéfilos. Muito da culpa disso está no fato de eu não ter me conectado nas primeiras vezes com o universo do filme e também conta o fato de eu ter visto duas vezes na telinha – e confesso que achava maçante, como quase todos os trabalhos que havia visto de Alain Resnais.

Mas aí eu resolvo dar uma chance e rever o filme, desta vez no cinema, em uma cópia linda, remasterizada em 4K. Meu Deus! O que é aquilo? Que obra maravilhosa é essa? Foi como se uma cortina escura tivesse saído de meus olhos e eu finalmente pudesse ver a beleza singular desta obra, perceber a perfeição em cada cena, o romantismo e o antinaturalismo das falas dos personagens, uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada), ambos casados, que se encontram e se amam em Hiroshima. A situação de ambos até lembra a de ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, e sua sequência, já que aquele é o último dia no Japão da atriz francesa.

HIROSHIMA MEU AMOR, pelo menos em sua parte inicial, que mostra a conversa íntima e poética dos dois amantes em um quarto de hotel, enquanto falam sobre Hiroshima e vemos imagens da terrível herança deixada pela bomba atômica naquela cidade, é uma espécie de continuação do documentário em curta-metragem NOITE E NEBLINA (1956), sobre o holocausto e os campos de concentração nazistas. Vê-se que a verve documentarista e o interesse pelos horrores da guerra ainda eram elementos que assombravam Resnais. Para isso ele recorria à poesia falada para ajudar a compor a poesia em imagens.

O filme foi um dos marcos inaugurais da nouvelle vague francesa, quando lançado no mesmo ano de OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, no Festival de Cannes. Porém, Resnais já tinha muito mais tempo de estrada do que o jovem Truffaut. Seu primeiro curta é de 1936. Há um gap de 10 anos entre a obra posterior, mas isso, muito provavelmente se deve à invasão alemã na França durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1946 ele não parou de experimentar e se aperfeiçoar.

HIROSHIMA MEU AMOR tem um erotismo sutil, mas de certa forma ousado para a época. Não há grafismo, mas há as vozes e os corpos. O erotismo nesses 15 minutos iniciais se funde com as imagens do horror das vítimas da bomba que destruiu aquela cidade, das imagens do museu que mostra vestígios daquela tragédia e de pessoas sofrendo em hospitais. Depois dos 15 minutos iniciais, estamos de volta a algo mais próximo da realidade, quando os dois terão que se separar, pelo menos por ora, para ir ao trabalho. É quando o filme se concentra mais no drama dos dois, sem no entanto deixar de mostrar assombrações do passado, como a história contada por ela sobre seu primeiro amor, um soldado alemão.

A história da personagem de Riva é tão intensa e sombria tinha tudo para eclipsar o fio principal da narrativa. Mas, como tudo no filme funciona à perfeição, essa história só ajuda a tornar HIROSHIMA MEU AMOR ainda mais poderoso, a dar ainda mais profundidade à personagem feminina e a torná-la ainda mais fascinante. A cena no restaurante, com ela se embriagando de vinho enquanto conta sobre seu passado, é tão cheia de amor e amargura que somos quase impossibilitados de não nos contagiarmos com essa imensidão de sentimentos.

E temos, claro, a construção visual na fotografia em preto e branco exuberante, mas também um tanto claustrofóbica. Porém, me pergunto o que seria do filme sem o roteiro poético de Marguerite Duras. As palavras são faladas de maneira bem pausada, para que sintamos o significado e a importância de cada uma delas, para que possamos sorver a poesia e o sentimento de paixão e angústia daquelas duas almas que estão prestes a se separar, mas que não conseguem se manter distantes uma da outra. E é por isso que não devemos nunca deixar passar uma experiência de ver os clássicos no cinema. É na telona que somos mais tragados pela força de obras magistrais como essa.

quinta-feira, maio 04, 2017

O CINEMA FANTÁSTICO ORIENTAL EM TRÊS FILMES























O Japão já tem uma longa tradição de filmes de horror. A Coreia do Sul tem crescido o número e a qualidade de filmes do gênero com o passar dos anos. E a China é um caso especial, até no filme selecionado aqui. Os três filmes foram vistos no cinema meses atrás, então vou mesmo ter que puxar da memória algumas impressões e sentimentos com relação a esses trabalhos, que certamente mereceriam um cuidado mais especial, mas pelo menos vou trazê-los de volta à minha mente.

CREEPY (Kurîpî: Itsuwari No Rinjin)

Antes de ganhar espaço em nosso circuito, o cinema do japonês Kiyoshy Kurosawa já era bastante cultuado pelos fãs do cinema de horror, especialmente aqueles que visualizam também as produções do outro lado do mundo. Assim, trabalhos seus como CURE (1997), KAIRO (2001) e DOPPELGANGER (2003) já eram vistos como exemplos de grande cinema de gênero. CREEPY (2016, foto) teve a sorte de encontrar um circuito alternativo mais receptivo a obras das mais variadas formas. O filme conta a história de Takakura (Hidetoshi Nishijima), um ex-detetive que é chamado por um antigo colega, Nogami (Masahiro Higashide), para investigar o caso de uma família desaparecida há seis anos. Enquanto isso, o detetive e sua esposa recentemente se mudaram para uma nova casa e conhecem um estranho vizinho (Teruyuki Kagawa), que tem uma esposa doente e uma filha adolescente. Pelo menos é isso que ele diz. O ator que faz o vizinho bizarro é impressionante. Um vilão perturbador e que não duvido que tenha aparecido no sonho de muitos espectadores impressionados. Algumas cenas são particularmente marcantes, como a do rapto da família, dentro do carro. É quando o filme de Kurosawa atinge verdadeiramente o tom de sonho/pesadelo. Até os tons de cores na fotografia parecem diferentes. Talvez o problema do filme seja a duração, um pouco longa.

A VIDA APÓS A VIDA (Zhi Fan Ye Mao)

Há filmes sobre tudo. Até sobre um espírito de uma mulher que usa o corpo do filho pequeno como veículo para que o marido mude uma árvore de lugar. Sim, A VIDA APÓS A VIDA (2016), do chinês Hanyi Zhang, tem essa história como mote. Mas sabemos que a história não é o mais importante nesse tipo de obra. Também não é um filme feito para assustar, mas que deve ser visto com ar de intriga e contemplação. Este primeiro trabalho do realizador é tão espiritual quanto terreno. A força da natureza é tão imensa em toda a narrativa e nos chamados tempos mortos (se é que dá pra chamá-los assim) que a questão espiritual às vezes passa a ser vista como algo orgânico, concreto, por mais que o filme em si não o seja. É difícil explicar, mas esse tipo de obra, justamente por isso, deve ser vista com carinho e atenção. Além do mais, há também espaço para o humor. Só há uma cena bastante incômoda de maus tratos de um animal que realmente incomoda.

O LAMENTO (Goksung)

Eis um filme desafiador. Tanto pela duração (2h36min) para um filme de horror, quanto pelo modo como a trama vai sendo desfiada de maneira cada vez mais bizarra e estranha. O LAMENTO (2016), terceiro longa do sul-coreano Na Hong-Jin, ganhou muita visibilidade e atenção nos festivais de cinema, inclusive os daqui do Brasil. Assim tivemos a sorte de ter este filme em nosso circuito, ainda que em lançamento reduzido. Trata-se de uma história um tanto pesada sobre assassinatos cruéis cometidos em um vilarejo. Os criminosos parecem estar fora de si e as autoridades acreditam que eles estão ou estavam sob efeito de alguma droga ou coisa parecida. Porém, o inspetor de polícia Jong-Goo (Kwak Do-Won) suspeita que os casos tenham uma origem sobrenatural, tendo ligação com um estranho homem japonês que chegara ao local. Enquanto investiga o suspeito, ele percebe que sua filha pode ser também uma vítima do ataque. Um dos pontos altos do filme é a cena em que vemos uma disputa espiritual entre dois feiticeiros diferentes. É quando vemos até que ponto O LAMENTO é capaz de chegar em ser bizarro e sobrenatural.

quarta-feira, maio 03, 2017

VERMELHO RUSSO























É interessante esse aspecto seletivo da memória. Costumamos nos lembrar de coisas aparentemente sem muita importância, mas que acabam ficando, por algum motivo, registradas em nosso banco de dados com muito mais vivacidade do que certas ações e situações supostamente mais importantes. O trabalho que as meninas de VERMELHO RUSSO (2016) fizeram foi muito de resgatar momentos marcantes e reencená-los fazendo uma nova viagem à Rússia, dessa vez parar interpretar elas mesmas.

A primeira viagem ocorreu em 2009, quando Maria Manoella e Martha Nowill foram a Moscou para estudar teatro, em particular o celebrado método de atuação de Constantin Stanislavski. E do jeito que o filme mostra deve ter sido tudo muito interessante, com um professor que não fala nada de português comandando os ensaios que as duas amigas fazem de Tio Vânia, de Anton Tchekov. A vida passa a interferir na arte e no modo como as duas interpretam cada personagem. Uma delas precisa se mostrar feliz e radiante; a outra precisa ser triste e com autoestima baixa.

A viagem de Manu e Marta, que são os nomes adotados para elas nessa encarnação no cinema, como personagens de ficção, acaba sendo uma sucessão de situações e momentos muito bons mas também muito angustiantes e aflitivos, seja porque elas estavam em uma terra distante, seja por terem que enfrentar suas próprias inseguranças, pondo em xeque a própria amizade, que no começo do filme parece inabalável.

Interessante notar que o trabalho do diretor Charly Braun, de ALÉM DA VIAGEM (2010), acaba se tornando quase invisível. O filme parece ser um projeto feito e comandado por Manoella e Martha, até por terem sido elas quem vivenciou tudo aquilo, além de serem donas de cada cena e da evolução de suas personagens, mesmo com a aparição de alguns rostos conhecidos em cena, como Michel Melamed e Fernando Alves Pinto. De todo modo, o filme anterior de Braun era também o relato de uma viagem e o novo trás o protagonista do anterior como algo próximo de um alter-ego do diretor, como o cameraman que acompanha as duas moças.

Algumas cenas fogem da linha narrativa principal e funcionam como achados durante a viagem, como a velhinha que elas encontram no corredor do hotel e que trabalhou durante muitos anos na Mosfilm, ou a conversa com os embaixadores do Brasil e de Portugal na Rússia, vistos em uma festa, além da própria beleza gélida da cidade, que funciona como uma terceira personagem. Essa brincadeira entre verdade e ficção não deixa de ser interessante e nos deixa curiosos para saber detalhes das filmagens e de ter a oportunidade de conversar com as atrizes e o diretor. Principalmente com as atrizes, na verdade, que além de tudo são encantadoras. Aliás, se não fossem o filme não teria ganhado tão facilmente a nossa simpatia.

segunda-feira, maio 01, 2017

ALÉM DA ILUSÃO (Planetarium)























Há pelo menos dois motivos para se querer ver ALÉM DA ILUSÃO (2016). O primeiro deles está no fato de que a diretora é uma das roteiristas do excepcional APESAR DA NOITE (2015), de Philippe Grandrieux; o segundo está na presença de Natalie Portman como protagonista. Mas há também outros bons motivos. Afinal, uma história sobre duas irmãs que têm o dom de se comunicar com os mortos e que atraem a atenção de um produtor de cinema francês que deseja flagrar através das câmeras o fenômeno é ou não é atraente?

Pois bem. Acontece que a diretora Rebecca Zlotowski, em seu terceiro trabalho na direção, parece não saber conduzir a sua trama. Tudo parece muito solto e perdido. Por mais que haja algo de intrigante nas personagens femininas (Natalie e a jovem Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp) e no personagem do produtor de cinema, vivido por Emmanuel Salinger, suas motivações ficam no ar.

Ou ao menos desinteressantes ao longo do filme, por mais que a fotografia e outros aspectos técnicos sejam agradáveis de ver. Pode-se dizer que há o mérito de conquistar o espectador no início, com uma história intrigante, com as duas irmãs se apresentando em um teatro de vaudeville para um número considerável de pessoas. O espetáculo mostra a comunicação com uma pessoa falecida.

O fato de elas terem sido convidadas para mostrar no cinema os seus dons não deixa de ser curioso, já que, àquela altura, havia efeitos especiais que poderiam muito bem enganar uma plateia facilmente, seja através de truques de edição, seja mexendo no próprio negativo, como quer fazer um dos amigos do produtor que resolve acolher as duas irmãs americanas em sua casa.

O tal produtor é um homem que vive recluso. Não é casado e diz que quer se comunicar com o irmão falecido. Acontece que a presença que aparece na sessão mediúnica não é do irmão, mas de outra pessoa desconhecida. Mas ainda assim muito interessante para o homem, pois o leva a uma sensação de prazer erótica totalmente inesperada. Aliás, esse é outro dos motivos de o filme poder ser considerado pelo menos curioso: afinal, está se tratando de uma pessoa fazendo sexo com um fantasma.

Mas, afinal, qual é o problema do filme? Ou será que o problema é com a relação do espectador do filme, já que há sim algumas críticas positivas, ainda que poucas, circulando sobre o trabalho, exaltando suas qualidades. Ainda assim, pode-se dizer que ALÉM DA ILUSÃO carece de uma atmosfera de sonho ou de maior intriga diante do que ele se propõe. De todo modo, ao menos não se trata de um trabalho qualquer, desses bons, mas suficientemente fáceis de serem esquecidos. Apesar de tudo, há algo de charmoso neste filme torto de Rebecca Zlotowski.

sexta-feira, abril 28, 2017

GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2)























Quando os estúdios Marvel anunciaram que o décimo longa-metragem do universo compartilhado Marvel seria estrelado por um grupo obscuro e não muito explorado dos quadrinhos chamado Guardiões da Galáxia ninguém ia suspeitar que o filme de James Gunn seria um baita sucesso. Passados três anos, a continuação, GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 (2017), com a mesma equipe e o mesmo diretor, chega com a coragem de ser mais pessoal, com Gunn com mais opção de fazer um trabalho que ele deseja, embora haja ainda muita coisa em comum com os demais filmes da Marvel, como o próprio humor, mesmo que seja um humor ainda mais escrachado.

Ao mesmo tempo em que também é um filme em que o humor prevalece, há também um sentimentalismo sem medo de ser exagerado na hora de compor os dramas dos personagens. E é com isso que GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 ganha pontos positivos. Afinal, nada como a coragem de meter o pé na jaca quando o assunto é sentimento em um filme que brinca com excessos de outros tipos, como o visual extravagante e derivado das décadas de 1970 e 80 e uma ação desenfreada que às vezes passa a impressão de algo desleixado.

Há quem vá achar, porém, o terço final do filme problemático e um pouco sem ritmo, mas talvez seja justamente neste momento que este volume 2 se mostra mais valoroso, ao lidar com as questões familiares de Peter Quinn (Chris Pratt), que finalmente encontra seu pai, aqui vivido por Kurt Russell. Aliás, Russell é um dos primeiros personagens a aparecer no filme, em um prólogo que se passa em fins dos anos 1970, quando ele aparece com feições mais jovens, modificadas pelo CGI. Mais à frente os fãs da Marvel terão uma surpresinha sobre quem ele realmente é. E esta é apenas um dos vários fan services que esta sequência traz.

Demora um pouco para que a história do filme se defina, mas até lá é possível se divertir já a partir dos créditos de abertura, os melhores de todos os filmes da Marvel até agora, mostrando a equipe lutando ao fundo, enquanto Baby Groot dança ao som de "Mr. Blue Sky", da Eletric Light Orchestra. Uma sequência animadora seguida de uma sequência de ação que parece não ter muita importância para a trama, a não ser brincar com a dinâmica do trabalho em equipe e com a característica de cada personagem, sedimentando o que ainda não havia ficado firme no primeiro filme.

Assim, agora é muito mais possível gostar do grandalhão Drax (Dave Bautista), por exemplo, pois são dele as partes mais engraçadas, principalmente quando entra em cena uma personagem chamada Mantis (Pom Klementieff) e ela é meio que alvo de bullying por parte dele, embora não pareça bullying para ela, que é um ser tão inocente. Enquanto isso, o filme dá mais humanidade e seriedade a Rocket (voz de Bradley Cooper) e ele deixa de ser apenas um guaxinim falante.

Aliás, uma das coisas positivas do filme é o fato de eles se aceitarem, no fim, como uma família disfuncional, já que todos eles guardam traumas ou ressentimentos do passado ou de aceitação. Assim, até mesmo Yondu, o personagem de Michael Rooker, acaba ganhando força e até simpatia em determinado momento. É bom quando um vilão chato passa a ser visto de outra maneira. Por outro lado, o verdadeiro vilão do filme se manifesta das maneiras mais exageradas possíveis. Mas neste momento o filme já havia conquistado e certas coisas podem ser relevadas.

As cenas de ação e de luta são boas, ainda que pouco orgânicas, e primam pelo cuidado com o colorido e a direção de arte. Destaque para as sempre bem-vindas cenas com Gamora (Zoe Saldana), cheia de charme lutando ou fazendo poses de mulher durona, mesmo quando está apenas dizendo 'não' às investidas de Peter Quinn. A própria Gamora também tem uma questão familiar que é problematizada e resolvida no filme, além de ser combustível para um pouquinho mais de sentimentalismo brega.

Mas é quando as boas canções de vez em quando entram para equilibrar e dar um pouco mais de encanto a este relativamente estranho filme, de final tocante. Assim, "Father and Son", de Cat Stevens, e "Bring it on home to me", de Sam Cooke, aparecem em momentos bem especiais, com a intenção de dar mais profundidade aos personagens e a seus dramas, em momentos de respiro.

No mais, GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2 se aproxima mais do futuro e do encontro com os outros heróis da Marvel, quando os heróis do espaço encontrarão os heróis da Terra em AVENGERS: INFINITY WAR, já no ano que vem. Assim, por mais que se possa reclamar de uma coisa ou outra nesses filmes da Marvel, eles estão muito à frente da concorrência, com o estúdio seguindo firme e forte para um encontro épico de vários heróis da Casa de Ideias.

quinta-feira, abril 27, 2017

PITANGA























Uma pena quando um grande cineasta demora a lançar mais filmes para deleite de seus fãs. Beto Brant, que às vezes assina a direção com Renato Ciasca, é um desses diretores que conquistaram o seu espaço entre os maiores do Brasil (e do mundo, por que não?) já a partir de seu longa de estreia, MATADORES (1997). Sua carreira tem sido marcada por obras de narrativa impactante como O INVASOR (2001) e CÃO SEM DONO (2007) e outras de maior risco e experimentação, casos de CRIME DELICADO (2005) e O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG (2010). Seu último filme na direção havia sido no longínquo 2011, com o apaixonante EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DE SEUS LINDOS LÁBIOS, estrelado por Camila Pitanga.

Pois é com Camila, desta vez coassinando a direção, que Brant retorna em PITANGA (2017), agora para contar a trajetória de vida de Antonio Pitanga, um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos, tendo ganhado papéis de destaque e protagonismo em um país que tem por hábito colocar os negros em segundo plano. Para um filme coassinado pela filha, até que Camila aparece bem pouco em cena. Em compensação, o ator domina o filme, que parece correr solto a partir da alegria contagiante e da autoconfiança de Pitanga.

Em alguns momentos, chega a ser até incômoda essa rasgação de seda contínua em torno do ator, que, naturalmente, se sente muito feliz em tomar para si a fama de grande conquistador, de homem de grande magnetismo. Mas nos dois primeiros terços do filme é quase difícil não sorrir junto com esse homem que viveu a vida de maneira intensa e que conquistou o coração de muitas mulheres, sendo que várias delas aparecem em cena, reencontrando com ele: Maria Bethânia, Zezé Motta, Selma Egrei, Ítala Nandi, Elisa Lucinda...

Senti falta da presença da mãe de Camila, que nas fotos mostradas é belíssima. Não à toa a filha ter vindo ao mundo assim tão bela e especial. Segundo relatos de alguns depoimentos ao longo do filme, o casal representava uma espécie de sensualidade, sexualidade e beleza singulares na época da sua juventude.

O fato de o filme ser contado pelo próprio Pitanga a partir dos encontros com as várias pessoas (famosas), velhos conhecidos, que passaram por sua vida de forma marcante, e que contam com ele lembranças boas do passado, é algo que o distancia de outros documentários que abordam a vida de personalidades. Aqui, o ator cheio de energia e muita prosa parece ser o dono do filme, com a bênção de Brant.

Talvez o problema do filme apareça em seu terço final, quando Antonio Pitanga aparece falando de assuntos mais sérios, sobre a chegada dos negros em território brasileiro nos navios negreiros, e passando a ser também um elogio à resistência, a destacar a importância do cinema mais político produzido no Brasil, especialmente nas décadas de 1960 e 70, e ao engajamento cultural de alguém que nasceu na Bahia e respeita e é bastante envolvido com a religião de seu estado.

De uma forma ou de outra, mesmo nos deixando ainda com saudades de seus filmes de ficção, difícil negar o destaque do documentário neste momento de opressão e ao mesmo tempo de resistência das minorias, atestando o valor do negro em nossa sociedade e em nossa cultura, a partir de um registro vívido e original e pulsante. Além do mais, a vantagem desse registro todo próprio escolhido por Brant e Camila é que muita coisa é revelada nas entrelinhas: nos gestos, nas falas e nas emoções dos vários personagens que aparecem em cena. Ah, e o filme ainda traz ótimas cenas de filmes estrelados por Antonio Pitanga, hein.

segunda-feira, abril 24, 2017

PAIXÃO OBSESSIVA (Unforgettable)























Impressionante como há obras que conseguem entrar numa categoria ímpar dentro do que costumamos chamar de filme ruim. PAIXÃO OBSESSIVA (2017), estreia na direção de longas da produtora Denise Di Novi, parece ter sido feito a partir da seguinte ideia: "ei, por que não fazemos um filme totalmente ruim, desses bem vagabundos mesmo, para lançar no mercado internacional? E aí a gente convida um par de atrizes mais ou menos do primeiro time de Hollywood, que dá tudo certo." Lembrando que Denise tem no currículo outro notável filme ruim, ainda que como produtora, MULHER-GATO (2004), que também conta com duas atrizes respeitadas em papéis constrangedores.

O grande trunfo de PAIXÃO OBSESSIVA é Katherine Heigl no papel de Tessa, uma “Barbie psicopata” (termo usado no próprio filme por uma das personagens) que faz de tudo para destruir o casamento do ex-marido (o apagado e inexpressivo Geoff Stults) com a sua nova noiva, Julia, vivida por Rosario Dawson. No começo do filme Tessa ainda não sabe que o relacionamento do ex está prestes a chegar a um casamento e logo que descobre passa a fazer coisas inimagináveis, como trazer de volta o grande pesadelo da vida de Julia, um homem que a espancou e que está sob uma ordem judicial para se manter distante.

A semelhança de PAIXÃO OBSESSIVA com alguns thrillers da década de 1990 é evidente, tanto que o gosto de café requentado e que desce mal permanece na boca o tempo inteiro, até o fim, horrível como tem que ser. Afinal, se é para ser ruim, que seja até o fim. A grande desvantagem deste longa em comparação com os demais thrillers que ganharam força naquela década – inclusive numa época em que fazer filmes direto para o mercado de vídeo não era tão ruim – era que naquele momento havia um apelo erótico muito maior e que hoje é minimizado devido aos novos tempos, embora de vez em quando seja possível ver um ou outro filme que aposte na sensualidade, como é o caso de outro suspense que também mostra casamento por um fio e um psicopata, O GAROTO DA CASA AO LADO, que explora bastante o sex appeal de J.Lo.

PAIXÃO OBSESSIVA não tem coragem e nem vontade de fazer o mesmo com Rosario e Katherine, ainda que insinue uma cena sensual muito sutil em determinado momento: a cena do banheiro do casal de noivos entrecortada com a conversa apimentada via Messenger dos dois psicopatas. Não há, claramente, a intenção de fazer uma cena erótica dali. Aquele momento é para ser psicologicamente perturbador para Julia e por isso a diretora usa uma montagem picotada que tenta trazer à tona o estado de espírito fora de controle da personagem. Na verdade, o filme até poderia ser acusado de ainda mais vagabundo se usasse esse momento para explorar a nudez ou a sensualidade de uma das atrizes.

No fim das contas, é possível se divertir com PAIXÃO OBSESSIVA. Não é o tipo ruim e chato, sendo possível funcionar como uma comédia involuntária. Se o espírito era talvez criar um filme deliberadamente ruim, é possível também sair de casa para ir ao cinema e ver um filme ruim para se divertir um pouco. Nos Estados Unidos, as poucas críticas positivas a esse trabalho se referem a ele como um "good trash". Ou seja, é filme com roteiro estúpido e manjado, intriga de telenovela barata, mas que ao menos sabe investir na briga entre as duas protagonistas, com a vantagem ainda de trazer Katherine Heigl para o lado negro da força, quase redimindo o resultado final e fazendo valer a espiada.

domingo, abril 23, 2017

TRÊS SUPERPRODUÇÕES RUINS























Hollywood é famosa por gastar dinheiro à toa. Quantas vezes não saímos do cinema admirados com o tanto que foi gasto em uma grande produção ruim cujo dinheiro gasto faria a alegria de dezenas de cineastas brasileiros talentosos? Ou cineastas americanos mesmo. Enfim, mas isso já faz parte do jogo e os próprios executivos, tendo a batata quente na mão, precisam vender o produto, a fim de não ter prejuízo. E aí soltam a bomba mundo afora. Hoje em dia um mercado como a China tem salvado do vermelho algumas dessas produções. Do ano passado para cá podemos listar pelo menos três desses filmes inacreditáveis de tão ruins. Vamos a eles.

INDEPENDENCE DAY - O RESSURGIMENTO (Independence Day – Ressurgence)

Nem sei se ainda há algum fã do primeiro INDEPENDENCE DAY (1996) por aí. Mas o fato é que alguém (talvez o próprio Roland Emmerich) achou que estava na hora de comemorar os 20 anos do filme original, que rendeu muito bem nas bilheterias e foi um sucesso popular considerável. Emmerich, que veio dos filmes B, tinha chegado ao primeiro escalão de Hollywood, mas apenas no que se refere a grandes orçamentos. Com o tempo, acabou ficando famoso como diretor bom para filmar disaster movies. INDEPENDENCE DAY – O RESSURGIMENTO (2016) traz uma trama que acontece 20 anos após os eventos do primeiro filme e alguns poucos personagens de volta também, como os vividos por Jeff Goldblum e Bill Pullman. Will Smith pediu muito dinheiro para retornar à franquia e a Fox desistiu de contratá-lo. Seria, aliás, mais um filme ruim na carreira recente de Smith. Quanto ao filme, confesso que me esforcei para ficar acordado. É do tipo ruim e chato. Ou seja, o pior tipo. Até tentei acompanhar comprando um saco de pipoca, mas, mesmo assim, não deu.

INFERNO - O FILME (Inferno)

O terceiro filme de Ron Howard baseado em um livro de Dan Brown consegue ser muito pior do que os outros dois – O CÓDIGO DA VINCI (2006) e ANJOS E DEMÔNIOS (2009). Aliás, a falta de qualquer coisa memorável no segundo filme talvez tenha sido um dos motivos de demorarem tanto a fazer um terceiro. E o curioso é que Howard é até um diretor bom, dependendo do projeto. Como não é esse o caso, não se pode esperar muita coisa mesmo. Porém, curiosamente, o começo de INFERNO – O FILME (2016) tem algo de atraente. Robert Langdon (Tom Hanks) se encontra desmemoriado e conhece uma jovem mulher que tenta ajudá-lo (Felicity Jones). O diretor consegue manter o interesse nesse início mais dinâmico. Infelizmente não se pode dizer o mesmo do resto do filme, principalmente quando os mistérios vão deixando de ser mistérios e as cenas de ação vão se tornando cada vez mais maçantes e convencionais. Trata-se de outro filme duro na queda para se manter acordado até o final.

A GRANDE MURALHA (The Great Wall)

Muito ruim quando a gente vê um cineasta de nome respeitável como o chinês Zhang Yimou envolvido numa roubada como A GRANDE MURALHA (2016). Se bem que fazia tempo que uma de suas produções chinesas não chegava ao nosso circuito. Então, talvez ele já estivesse mesmo em decadência. Seria, portanto, uma chance de ganhar novamente a visibilidade que obteve nos bons tempos de O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (2005) em um filme falado, em sua maior parte, em inglês. Ou seja, é uma produção pensada para faturar alto tanto no mercado internacional quanto na própria China. Ao contrário do que muita gente pensou, o filme não conta uma história real sobre a Grande Muralha, mas uma história fantasiosa envolvendo dois mercenários ocidentais (Matt Damon e Pedro Pascal) em busca de pólvora na China do século XV. Depois de escaparem de uma grande e misteriosa criatura, eles são capturados por um grupo de guerreiros chineses, que sabem da existência dessas criaturas. A muralha foi feita para protegê-los delas, inclusive. Eis mais um filme digno de cochilos épicos. Não lembro se foi no Oscar ou no Globo de Ouro (ou em ambos) que Damon foi ridicularizado por ter deixado de fazer MANCHESTER À BEIRA-MAR para fazer este A GRANDE MURALHA. Mas certamente mereceu o bullying dos colegas.

sábado, abril 22, 2017

PATERSON























Quantas vezes deixamos passar momentos preciosos de nossas vidas só porque eles não parecem dignos de serem lembrados por não serem, por assim dizer, extraordinários? E quantas vezes deixamos de perceber que estamos, sim, diante de momentos extraordinários, apesar de ordinários? É tudo uma questão de olhar a vida com olho de poeta, de perceber a beleza nos detalhes, como a posição dos sapatos de uma dupla de pessoas que conversam no ônibus ou uma simples caixa de fósforos. Isso pode ser alimento para a poesia.

PATERSON (2016), o novo trabalho de Jim Jarmusch, está aí para nos lembrar disso. E o filme faz isso com uma beleza e uma humanidade tão delicada que combina muito bem com seu personagem-título, vivido por Adam Driver. Trata-se, aliás, do melhor papel de sua carreira, até o momento, superando e contrastando com o intenso Adam, seu personagem em GIRLS, a série recém-encerrada de Lena Dunham.

Paterson, ao contrário de Adam, tem uma sobriedade e uma serenidade de lidar com a vida que dá até vontade de tomar como exemplo. Quando um colega de trabalho pergunta sobre sua vida, ele diz que está tudo bem, enquanto o tal colega está sempre reclamando de algumas coisas (várias, na verdade). Mas, de fato, Paterson é um homem de sorte: é casado com uma mulher amável e que ele ama (linda as cenas do amanhecer, com os dois na cama), tem uma rotina tranquila em um bairro tranquilo e consegue tempo para transformar os seus pensamentos em poemas, os quais guarda em um caderninho.

Sua esposa Laura (a iraniana Golshifteh Farahani, de PROCURANDO ELLY, de Asghar Farhadi) tenta fazer com que Paterson faça uma cópia de seus escritos e mostre ao mundo seus belos poemas. Ele, porém, hesita. O filme não diz, mas talvez a fama ou uma possível e indesejada mudança de rotina atrapalhasse o modo como ele vê a vida. Esse talvez seja um dos motivos também de ele não querer um telefone celular ou mesmo um computador. A vida de motorista de ônibus, para ele, lhe basta, provavelmente.

A esposa gosta de pintar coisas em sua casa e planeja ser cantora de música country, além de cozinheira de cup cakes e outras novidades, geralmente com uma obsessão pelo contraste entre o preto e o branco. Quanto a Paterson, sua poesia se nutre do cotidiano, que se faz necessário na rotina de uma pessoa normal, no caso, alguém que é motorista de ônibus, é casado, tem um cachorro que leva para passear e que também gosta de tomar uma cerveja no mesmo bar todos os dias. Além do mais, no ônibus, ele aprecia ouvir as conversas dos passageiros. Tudo é combustível para sua poesia.

E o modo como o filme narra os eventos, separando-os em dias da semana, faz com que nós, desacostumados, esperemos que algo de muito extraordinário ou mesmo perigoso aconteça. Afinal, isso é tão comum em se tratando de cenas com alguém dirigido algo. Não que não haja algo que não vá mexer com o equilíbrio de Paterson no desenrolar da trama, mas é impressionante como o ocorrido também nos afeta, nos deixa tristes, ainda que não seja nenhum fim do mundo.

Esse tipo de sentimento não é apenas um modo de nos solidarizarmos com o personagem, mas também de termos uma afinidade com ele no que se refere à valorização da arte como meio de expressar de forma transcendental a vida. A arte nos eleva. E de vez em quando é bom sair de um filme que consegue passar uma mensagem sobre a linguagem lírica utilizando a força da palavra sensível, falada e escrita, mas também extraindo poesia do próprio fazer cinematográfico.

quarta-feira, abril 19, 2017

QUASE 18 (The Edge of Seventeen)























Uma pena que a distribuidora de QUASE 18 (2016) tenha desistido de lançar o filme nos cinemas no Brasil. Embora ele já esteja disponível em outros meios, no cinema o trabalho de estreia da diretora Kelly Fremon Craig ganharia maior visibilidade. De todo modo, vale a tarefa de divulgar o filme para que seja visto pela maior quantidade de pessoas possível, já que se trata daquelas obras que mostram que para fazer um belo filme não é preciso inventar a roda ou usar recursos narrativos mirabolantes. Ao contrário, a simplicidade de QUASE 18 é muito bem-vinda.

Muito do sucesso do filme está na caracterização adorável de Hailee Steinfeld, como Nadine, a garota problemática e de poucos amigos que "perdeu" a melhor amiga de infância para o irmão. Durante uma pequena festa privada entre as duas na casa de Nadine, a amiga acaba se envolvendo e se apaixonando pelo irmão dela e os dois começam a namorar.

Se Nadine já tinha muitos motivos para viver chateada com a vida que levava e achar todo mundo da escola idiota, inclusive o irmão marombado e popular, a situação que acontece com a amiga faz ela até mesmo dizer que vai tirar a própria vida. Ela confidencia isso para o professor vivido por Woody Harrelson. O jeito cínico do personagem de Harrelson talvez seja o que atrai Nadine para sempre puxar conversa com ele. Quem é professor acaba se identificando e ficando enternecido com a conversa dos dois e a aproximação mais ou menos distanciada, mas baseada na confiança.

Como o filme é dirigido e escrito por uma mulher, parece passar mais verdade no modo como mostra o desabrochar daquela jovem que está confusa e está passando por uma fase de amadurecimento e de chegada à idade adulta. Não há a intenção de tornar Nadine uma personagem fácil, embora o filme consiga nos fazer gostar dela com muita facilidade, mesmo com todos os defeitos e inseguranças que ela transborda. E talvez justamente por isso gostemos mesmo. Ah, há também um personagem muito legal de um rapaz oriental que fica louco pela Nadine. Difícil não simpatizar com o rapaz.

Quanto à jovem sagitariana de 20 anos Hailee Steinfeld, importante lembrar que ela foi indicada ao Globo de Ouro por sua atuação neste filme, na categoria melhor atriz em musical ou comédia. Ela já havia chamado a atenção dos críticos e da academia no western BRAVURA INDÔMITA, dos irmãos Coen, lançado em 2010, quando ela era ainda mais jovem. Outro filme em que ela chama a atenção, ainda que em papel bem menor, é o delicioso MESMO SE NADA DER CERTO, de John Carney, não por acaso diretor de um dos mais belos filmes sobre a juventude dos últimos anos, SING STREET – MÚSICA E SONHO.

segunda-feira, abril 17, 2017

GIRLS – A SEXTA TEMPORADA COMPLETA (Girls – The Complete Sixth Season)























E uma das séries mais marcantes dos novos tempos chegou ao seu fim. Poderíamos dizer que GIRLS seria uma versão feminina de ENTOURAGE (2004-2011). Ou uma versão mais explícita de SEX AND THE CITY (1998-2004), por também tratar da vida de quatro mulheres, mas a verdade é que se trata de algo completamente diferente, diferente da série dos rapazes de Hollywood, diferente da série das mulheres ricas de Nova York.

O que vemos aqui são quatro moças que são apresentadas a nós no início dos seus vinte e poucos anos. Tão inseguras talvez quanto um adolescente e tão irritantes também, embora possam ser adoráveis e enternecer nossos corações à medida que vamos conhecendo cada uma delas, em seus dramas individuais. Lena Dunham, a criadora e protagonista da série, como Hannah, é o centro das atenções, embora com o tempo a criadora dê espaço para seus colegas brilharem.

Inclusive, talvez o melhor dos episódios da série seja um todo centrado em Marnie (Alisson Williams). Trata-se de "The panic in Central Park", da quinta e melhor de todas as temporadas. Esta sexta e última (2017) não tem a intenção de superar a obra-prima que foi a anterior, mas há vários episódios que brilham e que trazem discussões muito pertinentes aos dias de hoje.

O que dizer de "American bitch", no qual Hannah vai até a casa de um famoso autor que ela admirava, mas que foi alvo dela em um site feminista? O escritor estava envolvido em um escândalo em que se dizia que ele assediava garotas universitárias durante as turnês promocionais de seu livro. A relativamente longa e muito interessante discussão entre os dois personagens é o grande destaque deste tão diferente episódio, feito sob medida para os dias atuais, em que o tema do assédio e do abuso têm sido pontos fortes.

Se GIRLS já era uma série mais ou menos feminista, com "American bitch" esse posicionamento se torna mais claro ainda. É o tipo de episódio que pode ser visto separadamente, por alguém que apenas tem curiosidade pelo assunto em questão e não necessariamente quer se envolver com o universo da série. Para aqueles que desejam, porém, talvez o episódio mais poderoso seja "What will we do this time about Adam?", em que Hannah tem um reencontro com o seu ex-namorado (Adam Driver), depois de já ter vencido a dor de ter sido trocada por Jessa (Jemima Kirke), que nesta temporada ganha menos espaço em cena e mais antipatia dos espectadores, com ares de megera e bem menos glamour. E isso até pode ser visto como uma falha, já que beneficia Hannah, na comparação.

Quem ganha também episódios especiais na nova temporada é Elijah (Andrew Rannells), o amigo gay e roommate de Hannah, sendo o principal deles "The Bounce", sobre sua tentativa de ser ator de uma peça da Broadway. Ele também está bem presente em "Gummies", episódio focado na mãe de Hannah e seu processo de aceitação da nova fase, após a separação do marido que saiu do armário.

O episódio final, "Latching", que mostra a confrontação de Hannah com as responsabilidades da vida adulta e com o bebê, é dos mais estranhos, contrariando tudo o que se esperaria de uma series finale. Como um amigo muito bem disse: está mais para um epílogo; o penúltimo episódio, "Goodbye tour", é o que tem mais cara de final mesmo, já que é o último a reunir as quatro amigas. Ou ex-amigas. Afinal, a vida não é mesmo como uma telenovela.

domingo, abril 16, 2017

O ORNITÓLOGO























Foi meu primeiro contato com a obra do diretor português João Pedro Rodrigues, famoso por abordar a homossexualidade em seus filmes desde O FANTASMA (2000), passando por ODETE (2005) e MORRER COMO UM HOMEM (2009). Nesse sentido, até que O ORNITÓLOGO (2016) é uma obra sutil no que se refere à quantidade de cenas com apelo homoerótico. Na verdade, só há uma cena erótica: a que o protagonista Fernando (Paul Hamy) encontra Jesus, na figura de um pastor de cabras surdo-mudo.

Sim, foi o único filme de natureza religiosa que vi nesta semana, mas nem foi de propósito. A vontade de rever O ORNITÓLOGO vinha do fato de não lembrar mais direito de seu enredo onírico e simbolista quando o vi pela primeira vez em janeiro, em uma maratona, junto com outros filmes. Fazia-se necessário uma revisão para que eu escrevesse a respeito. Mas o curioso é que continuo sem saber direito sobre o que escrever. Não houve, na revisão, uma melhor absorção do que na primeira vez. Ao contrário: como estava com gripe e um pouco febril, a apreciação do filme acabou sendo menos prazerosa.

Mas não deixa de ser uma realização admirável desde o começo, quando acompanhamos Fernando em seu trabalho como cientista observador de pássaros. Sua vida muda quando seu caiaque é tragado pela correnteza de um rio. Ele é resgatado por duas chinesas católicas que o salvam e dizem precisar de sua ajuda para chegar no caminho de Santiago. Em vez disso, porém, elas o amarram e têm planos sádicos para o rapaz.

Fernando desde o começo se mostra ateu. Afirma para as chinesas que não existem demônios, nem existe Deus. Seu encontro com a espiritualidade acontece de maneira curiosa. Acontece uma total conversão, com a rejeição total da vida que leva, da identidade e até das próprias feições. Suas novas feições aos poucos são percebidas pelo ponto de vista das aves. É quando vemos seu outro eu, Antônio, vivido pelo próprio cineasta João Pedro Rodrigues.

Completam o rol de bizarrices um trio de amazonas nuas da cintura pra cima que falam latim, o encontro com um homem morto, um grupo de homens fantasiados para um ritual ao mesmo tempo macabro e idiota, e uma pomba branca, que deve ser a representação do Espírito Santo. Nessa brincadeira entre o sagrado e o profano, João Pedro Rodrigues ganha o espectador com cada elemento intrigante que surge pelo caminho de Fernando. O personagem, por mais que o vejamos com algum distanciamento, é o único elo com o espectador da normalidade do mundo dito real em comparação com o mundo místico que Fernando encontra pelo caminho.

sábado, abril 15, 2017

O NOVATO (Le Nouveau)























A ótima safra de filmes da edição passada do Festival Varilux de Cinema Francês continua gerando bons frutos no circuito brasileiro. Agora é a vez de O NOVATO (2015), longa-metragem de estreia de Rudi Rosemberg, que conta, de maneira sensível, a história de um garoto tímido que tem dificuldade em conseguir amizade na nova escola e acaba por se apaixonar por uma linda garota sueca, que também encontra dificuldade em se socializar, até por não falar direito o francês.

O NOVATO não tem nada de tão diferente entre as tantas comédias que lidam com amores da juventude. Até lembra um pouco o ótimo e mais romântico ABC DO AMOR, de Mark Levin. Mas aqui não há uma intenção de focar tanto assim no amor do garoto pela menina. As amizades que ele faz até ganham mais importância, assim como as questões do bullying e da rejeição, tão comuns no perverso universo estudantil.

Na trama, Benoît (Réphaël Ghrenassia) acaba de entrar em uma nova escola e os pais o incentivam a fazer amizade com os colegas da turma. Acontece que pra ele a coisa não é tão simples. A timidez e a total falta de sensibilidade da maioria dos meninos e meninas acabam prejudicando a sua socialização. Quem primeiro quer sua amizade são justamente garotos que também já têm fama de serem rejeitados por não se enquadrarem nos padrões, como o jovem nerd Constantin (Guillaume Cloud-Roussel) e o gordinho Joshua (Joshua Raccah). Mas quem traz alegria e palpitação para o coração de Benoît é a também recém-chegada sueca Johanna (Johanna Lindsteadt). Junte-se a beleza da garota com a carência afetiva de Benoît e temos aí um caso de fácil identificação e solidariedade do espectador com o personagem. Afinal, quem nunca passou por algo parecido?

Vale destacar a excelente direção de atores do elenco jovem, quase toda composta por estreantes. Quem não é estreante do grupo principal é a garota que faz a deficiente física, Aglaée (Géraldine Martineau), que já contava com uma carreira sólida para a idade. Sua personagem, aliás, traz algo de muito interessante por nunca se fazer de vítima devido a sua deficiência. Ao contrário, tem uma autoestima incrível e que ajuda a compor sua fortaleza. A presença de Aglaée também acentua o caráter marginal do grupo.

Há vários momentos de riso ao longo do filme, o que faz com que O NOVATO seja uma dessas obras que encantam o espectador também pela leveza da condução narrativa. No final, o que temos é uma bela história de amizade e superação em um momento bastante difícil da vida humana, que é a adolescência. Vale destacar, no elenco adulto, a presença do tio de Benoît, que dá algumas dicas para que ele consiga se sair bem na obtenção de seus sonhos e objetivos.

sexta-feira, abril 14, 2017

PERDER A RAZÃO (À Perdre la Raison)























Que bom seria se os filmes ficassem mais tempo com a gente, que a memória fosse mais fácil de buscar as cenas. Vejo muitos filmes e com o tempo eles vão sumindo de meu HD cerebral. As lembranças começam a ficar escassas. E se os vemos em casa, a impressão que temos é de que a apreensão se torna mais difícil ainda, mas até quanto a isso eu não tenho tanta certeza. Mas falemos de PERDER A RAZÃO (2012), de Joachim Lafosse, filme que já vi há alguns meses e de um cineasta que eu nem sabia que existia até ver o maravilhoso A ECONOMIA DO AMOR (2016) e colocá-lo na minha lista de favoritos do ano passado.

PERDER A RAZÃO é um pouco mais problemático e bem menos sutil, mas é mais um filme que trata de uma família em crise. Mas em um registro mais próximo da tragédia. Enquanto A ECONOMIA DO AMOR vai nos matando aos poucos com a tensão dramática da vida daquele casal que na verdade já se separou mas que vive ainda em um mesmo teto, PERDER A RAZÃO mostra a degradação de uma família a partir da pressão psicológica sofrida por Murielle, a personagem de Émilie Dequenne (mais lembrada por ROSETTA, dos Irmãos Dardenne).

O tom trágico já se apresenta no prólogo que mostra o futuro da história, com a protagonista em uma cama de hospital falando sobre "enterrá-los no Marrocos". Enterrar quem? Essa pergunta até sai um pouco da memória quando o filme parte para o ponto de partida e já que o andamento da trama é suficientemente envolvente. Vemos o progressivo e rápido namoro e casamento de Murielle com o marroquino Mounir (Tahar Rahim, que esteve em papel de destaque em O PASSADO, de Asghar Farhadi). Logo eles começam a ter vários filhos desse casamento.

Eles passam a morar na casa do pai adotivo de Mounir, André Pinget (Niels Arestrup), um médico que combina generosidade com uma alta dose de manipulação emocional. A casa é dele e ele faz questão de que o casal more com eles. A presença de Pinget é bastante incômoda naquela casa e as coisas se complicam ainda mais para o casal com a depressão que passa a abater Murielle. Nisso, a atriz foi muito feliz em dar um tom de desespero que nos contagia.

Por mais perturbador que isso seja, não deixa de ser uma prova de que estamos diante de uma obra que incomoda e sufoca. Principalmente quando os personagens estão dentro da casa. Uma viagem para o Marrocos, por exemplo, já traz um pouco mais de estabilidade emocional para a personagem. É, certamente, o caso de ver outros filmes de Joachim Lafosse e conferir se estamos diante de um especialista em inferno domiciliar.

quinta-feira, abril 13, 2017

METROPOLITAN























Para alguns cinéfilos, a escolha do primeiro filme visto no ano se torna uma espécie de ritual complicado que se confunde com uma superstição. Passamos a acreditar que começar com um belo filme vai ser sinal de que começamos o ano com o pé direito. Daí não arriscamos muito: preferimos a revisão de uma obra de que gostamos muito ou uma obra já consagrada pela crítica. Claro que a vontade de ver tal filme também influencia na escolha. E eis que METROPOLITAN (1990), de Whit Stillman, foi o primeiro filme que vi em 2017.

Trata-se do primeiro de apenas cinco filmes desse cineasta americano que costuma agradar bastante no circuito indie. METROPOLITAN lembra um pouco os trabalhos de Woody Allen, principalmente aqueles feitos com mais esmero e cuidado, e a ciranda de amores tanto faz lembrar alguns filmes da década de 1980 (especialmente os de John Hughes) quanto os romances de Jane Austen. Aliás, há uma interessante discussão sobre uma obra específica de Austen entre dois personagens principais do filme, Tom (Edward Clements) e Audrey (Carolyn Farina).

Conversando sobre obras literárias preferidas, Audrey afirma que uma de suas obras preferidas de Austen é Mansfield Park, e Tom, agindo de maneira bem pouco educada, afirma que este livro é horrível, que é considerado ruim até pelos fãs da escritora etc. Mais tarde saberemos que ele sequer leu o livro; apenas uma crítica literária dele. Tom é desses caras que talvez acredite que ler um romance é perder tempo. E apesar de vermos o filme pelo seu ponto de vista na maior parte das vezes, não nos furtamos a considerá-lo um personagem de atitudes estúpidas.

Tom é um rapaz pobre que é convidado por uma turma de jovens ricos a fazer parte daquele clube. Audrey se apaixona por ele, mas ele ainda nutre uma paixão antiga por Serena (Ellia Thompson, que aparece muito pouco na história, mas é bastante citada). Por outro lado, um dos caras da turma é louco por Audrey, o que faz com que tudo pareça uma grande armação do destino. Seja para tornar a vida daquelas pessoas mais interessantes para nós ou torná-las mais miseráveis para eles.

Há uma espécie de anacronismo no filme. O comportamento deles parece de pessoas que vivem no século XIX, mas que pode muito bem ser contemporâneo, da virada dos anos 1980 para os 90, ou até dos anos 1950, já que eles se vestem de maneira bem elegante, de acordo com as convenções sociais requeridas pela classe a que pertencem – exceto Tom, que procura se adequar à turma, embora não disponha de roupas boas o suficiente para tal e acabe encontrando apoio em Nick (Chris Eigeman).

Trata-se de um filme que se preocupa mais com os personagens e a beleza dos diálogos (houve uma indicação ao Oscar de roteiro) do que com um plot, e isso talvez o torne mais especial para quem está à procura de filmes com personagens com profundidade, imperfeitos – nenhum deles parece dono da razão, todos têm defeitos. Também podemos destacar a beleza da fotografia granulada e da direção de arte discreta e bem cuidada.

Fiquei ainda mais interessado em ver METROPOLITAN – e outros filmes de Stillman – depois de ver no cinema o ótimo AMOR & AMIZADE (2016), esse sim uma adaptação de uma obra de Jane Austen. Uma pena que o cineasta filme tão pouco.

quarta-feira, abril 12, 2017

VELOZES E FURIOSOS 8 (The Fate of the Furious)























Quem lembra de UMA SAÍDA DE MESTRE (2003), um belíssimo filme de assalto estrelado por Charlize Theron e Jason Stathan? Pois bem. O diretor desse filme no mesmo ano dirigiu também O VINGADOR, com Vin Diesel. Recentemente, o homem que comandou esses dois filmes, F. Gary Gray, voltou a ser um nome quente em Hollywood com a aclamação de público e de crítica de STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A. (2015), que não é exatamente um filme de ação, e sim uma volta às suas origens de filmar dramas dos negros americanos, mas foi o suficiente para chamar a atenção para o seu nome novamente. Além de ser a chance de ter um ótimo diretor de filmes de ação (e não só) à frente de uma franquia que não prima por ótimos cineastas no comando – por mais que James Wan seja muito bom, ele é perfeito mesmo é como diretor de filmes de horror.

Assim, VELOZES E FURIOSOS 8 (2017) começou com o pé direito, depois da tragédia que foi a morte de Paul Walker durante as filmagens de VELOZES & FURIOSOS 7. E como VELOZES é, atualmente, a galinha dos ovos de ouro da Universal, é natural que haja um investimento considerável no orçamento e tudo pareça cada vez mais inchado e megalomaníaco. Se já estava acontecendo isso nos trabalhos anteriores, no novo filme esse fenômeno se percebe explicitamente. Não apenas na produção mais luxuosa, mas também nas várias locações e no elenco de celebridades, que não só conta com uma vilã maravilhosa (Charlize Theron), como com uma coadjuvante de luxo pra lá de elegante (Helen Mirren).

Uma coisa que se percebe neste oitavo filme é que ele é pensado a partir das cenas de ação. Mais do que no fiapo de história, que até que é interessante, já que traz a discórdia para a família de Dominic Toretto (Diesel). Na trama, o personagem é tragado por uma megaterrorista (Charlize) que o tem em suas mãos para executar seus planos diabólicos. Conta muitos pontos positivos para o filme o fato de a vilã não ser nada estereotipada, o que poderia tornar tudo muito chato. Lembremos que Charlize já fez o papel de bruxa má duas vezes e se saiu muito bem. Ajudam também sua beleza, sua elegância e sua sensualidade natural, mas a verdade é que a atriz é uma força da natureza, que o diga seu maravilhoso papel em MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA, de George Miller.

Entre as tais cenas de destaque, algumas vão ficar grudadas na memória, como a cena dos carros desgovernados, a da perseguição no gelo, a da fuga da prisão dos personagens de Dwayne Johnson e Jason Stathan e o prólogo, em Cuba (trata-se do primeiro filme de Hollywood filmado na ilha de Fidel), que serve para lembrar ao público e aos próprios criadores e demais envolvidos na franquia que VELOZES ainda continua sendo um filme sobre corridas de carros nas ruas - a inclusão de moças com pouca roupa nessas cenas talvez tenha sido mais para não perder o hábito.

A trama ganha ares de thriller de espionagem, com heróis e vilões tendo o poder de visualizar eventos em qualquer lugar do mundo, graças às maravilhas da tecnologia. O problema é que, com a ânsia de ser sempre uma cinessérie que prima pela ação ininterrupta, não há tempo para um respiro e as tentativas que o filme traz de causar impacto emocional, como a própria separação de Toretto do grupo, bem como outra cena mais brutal, acaba não sendo levada a sério por ninguém. E talvez essa seja mesmo a intenção, já que Deckard, o personagem de Stathan, é aceito pelo grupo numa boa, mesmo tendo assassinado um deles em outro filme passado.

É esse espírito leve (junto com o gosto por carros, ação e a noção ampliada da família) que faz com que VELOZES continue sendo uma franquia apreciada pelo grande público. Mesmo tendo personagens divertidos e que encontraram seu espaço garantido no grupo, a franquia se beneficia mesmo é pelo show de pirotecnia, barulho e efeitos especiais cada vez melhores, a serviço de boas cenas envolvendo carros.