quinta-feira, dezembro 14, 2017

OITO DOCUMENTÁRIOS

Acho que já deu pra perceber que eu perdi o controle dos filmes vistos x filmes comentados no blog. Já me disseram para relaxar, falar apenas sobre os títulos que me inspiram e tal, mas eu não me conformo quando vejo aquela listona gigante, que ainda está menor do que realmente é, por causa da perda de arquivos em uma virose cibernética. Enfim, falemos de alguns documentários vistos este ano e que poderiam ter tido mais espaço se o corpo aguentasse e o tempo permitisse.

DANADO DE BOM

Delícia de documentário que fala da história de um homem importante na história da música brasileira, mas que é praticamente esquecido. João Silva é um compositor de várias canções conhecidas. Eu mesmo nem sabia dele. João ficou famoso como um grande parceiro de Luiz Gonzaga na fase tardia do Rei do Baião e posteriormente fez músicas para muitos cantores e cantoras do Brasil. "Danado de bom" e "Pagode russo" devem ser as suas mais famosas. Alguns momentos são uma viagem, outros despertam um bocado na gente a tal nordestinidade. Mas o que mais encanta mesmo em DANADO DE BOM (2016), de Deby Brennand, é a graça de João Silva, sua esperteza e suas histórias pessoais, o modo como ele não se importa em falar sobre suas falhas, por exemplo.

GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY

Provavelmente o documentário GERMAN CONCENTRATION CAMPS FACTUAL SURVEY (2014) não seria tão comentado se não fosse a assinatura de Alfred Hitchcock como um dos diretores - o outro se chama Sidney Bernstein. Diziam que Hitchcock havia dirigido apenas dois filmes de horror, PSICOSE (1960) e OS PÁSSAROS (1963). Podemos dizer agora que são três, com este documentário lançado em versão estendida com imagens terríveis dos campos de concentração, de cadáveres espalhados, um horror inacreditável, de gente sendo resgatada à beira da morte por inanição e outras doenças. A maldade humana não tem limites. E é bom que as pessoas vejam isso, ainda mais nesses tempos de volta de neonazismo por parte de alguns idiotas por aí. O filme pode não ter a poesia de NOITE E NEBLINA, de Alain Resnais, mas creio que é porque é para ser duro e cru mesmo.

UM FILME DE CINEMA

É um filme meio torto, meio sem saber direito que caminho seguir. Aquela história de colocar o elenco de CINEMA PARADISO parece um enxerto. Vale mais pelas palavras dos vários cineastas sobre teorias e visões particulares do cinema, mesmo que nem sempre excitantes. Mas é muito bom ouvir o Julio Bressane, por exemplo. Bem interessante, principalmente para quem estuda cinema, ter a oportunidade de ver UM FILME DE CINEMA (2017), o mais novo trabalho de Walter Carvalho. Claro que com tanta gente boa envolvida a gente esperava algo melhor. Acaba sendo mais uma obra com pretensões que não se cumprem.

JERRY BEFORE SEINFELD

Certamente só vai interessar aos fãs de Jerry Selfeld. O que é o meu caso. Algumas piadas funcionam melhor, algumas são velhas conhecidas. A melhor parte é mesmo as cenas do Jerry fazendo stand-up comedy mesmo. A parte de contar a história da vida dele acabou ficando bem superficial. E talvez ele não quisesse contar mesmo muitos detalhes. JERRY BEFORE SEINFELD (2017), de Michael Bonfiglio, é uma produção original da Netflix. Mesmo não sendo tão bom, os fãs de Seinfeld, o homem e a série, agradecem.

EXODUS - DE ONDE EU VIM NÃO EXISTE MAIS (Exodus Where I Come from Is Disappearing)

Difícil se envolver com qualquer um dos sete personagens escolhidos, o que pra mim já é um grande problema deste filme que pretende ser poético e grandioso (na produção, sem dúvida é), mas que acaba incomodando, inclusive com a narração do Wagner Moura (mesmo sendo econômica e espaçada). Acho que o personagem mais interessante é o palestino. Daria um bom filme se fosse só a história dele. EXODUS - DE ONDE EU VIM NÃO EXISTE MAIS (2017), de Hank Levine, é uma obra que se perde em sua vontade de ser grandioso. Melhor mesmo é ver o novo trabalho de Aki Kaurismäki, O OUTRO LADO DA ESPERANÇA, que conta uma história parecida com a de um dos personagens deste documentário.

A GENTE

Muito boa essa busca de transformar o conteúdo documental em um drama tenso. É assim que vemos A GENTE (2013), trabalho de Aly Muritiba que demorou a entrar em nosso circuito depois de ter sido exibido em Brasília. Quem reclama da própria profissão é bom dar uma olhada neste filme. Ser agente penitenciário é um inferno na Terra, hein.. E olha que essa penitenciária aí de Curitiba deve ser melhor do que muitas outras espalhadas pelo Brasil. As cenas exteriores da prisão também ajudam a pensar nisso, já que o protagonista é um obreiro de uma igreja evangélica e, do jeito que é mostrada sua rotina, suas horas de lazer parecem tão incômodas e opressoras quanto as horas de trabalho.

A CIDADE É UMA SÓ?

Não sei se um dia eu vou entrar em sintonia com o cinema do Adirley Queirós. De todo modo, achei mais interessante este do que BRANCO SAI, PRETO FICA (2014). A cena do candidato pobre passando pelo comício da Dilma compensa um monte de passagens pouco envolventes. De todo modo, vale demais a pena poder ver A CIDADE É UMA SÓ? (2011), principalmente no cinema, que foi o meu caso. Visto com mais distanciamento, o filme cresce na memória e até dá vontade de rever com mais carinho.

CÂMARA DE ESPELHOS

Na primeira vez que CÂMARA DE ESPELHOS (2016), de Dea Ferraz, passou em Fortaleza eu não dei muita bola. Que besteira que eu fiz. A exibição com debate deve ter sido bem interessante. Mas o filme sozinho já se basta sem precisar fazer muita coisa além de colocar vários homens em um sofá numa sala para falar sobre diversos assuntos relacionados à mulher. É machismo a dar com pau, coisas absurdas que até alguns homens vão se sentir incomodados. Pode não ter sido tão feliz na montagem, mas de algum jeito a diretora tinha que coletar o seu material.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

THE MARVELOUS MRS. MAISEL - PRIMEIRA TEMPORADA (The Marvelous Mrs. Maisel - Season One)

E uma das melhores séries do ano surgiu, como quem não quer nada, em dezembro. Trata-se de THE MARVELOUS MRS. MAISEL (2017), de Amy Sherman-Palladino, conhecida por GIRLMORE GIRLS (2000-2007). Depois de dez anos de seu maior sucesso, a criadora, roteirista e diretora está de volta com uma comédia de época, que nos leva a um colorido e belo 1958, em um registro que lembra as screwball comedies, que fizeram a alegria na Hollywood dos anos 1930-50.

O registro de época pode ser comparado ao de outra série celebrada, MAD MEN, mas a intenção aqui parece ser um pouco menos pretensiosa. Mas só um pouco mesmo, já que as pessoas tendem a diminuir as comédias em detrimento dos dramas. E THE MARVELOUS MRS. MAISEL é um misto dos dois, pois opta pela duração de cerca de quase uma hora por episódio, normalmente uma duração de séries dramáticas.

Mas, deixando de lado essa bobagem de tentar separar a comédia do drama, quando eles parecem às vezes inseparáveis da obra de Sherman-Palladino, o que temos aqui é uma dessas séries tão boas que a gente lamenta quando está perto de acabar. Não queremos nos desgrudar da protagonista, Miriam 'Midge' Maisel, vivida brilhantemente por Rachel Brosnahan. É, certamente, o papel da vida da jovem atriz.

A série conta a história fictícia de uma dona de casa de família rica e judia que tem o prazer de ajudar o marido em sua vontade de ser um astro da comédia. O problema é que o sujeito, Joel (Michael Zegen), não tem a menor graça como comediante. Quando uma vez ele se vê diante do horror de não ser bem-recepcionado pela audiência, de não conseguir arrancar nenhum riso da plateia, ele volta para casa tão desanimado que faz algo impensável: largar a esposa devotada e carinhosa.

Midge, atribulada com a situação, já que ainda por cima o marido estava tendo um caso com a secretária, resolve sair de casa e se embriagar. É quando ela vai parar em um dos bares onde os comediantes costumam se apresentar. E dá um show de cair o queixo de muita gente, além de fazer e dizer coisas que a polícia local considerou indecentes. Resultado: ela vai parar no xadrez.

Esse é mais ou menos o resumão do piloto de THE MARVELOUS MRS. MAISEL. Um piloto que já nos conquista de imediato. Naquele momento em diante sabemos que aquela é uma série especial. E sabe o que mais? A série de Sherman-Palladino nem precisava melhorar. Mas melhora. Inclusive com uma season finale que traz um misto de sentimentos conflitantes, envolvendo ainda a questão marital de Midge e sua relação cada vez mais envolvente com o mundo da comédia, que mais parece alguma coisa muito proibida, e por isso mesmo muito excitante. Aliá, esse talvez seja o grande segredo de a série encantar tanto.

Midge, a personagem de Rachel Brosnahan, não chegou a existir, mas contracena com alguns personagens reais da época, como Lenny Bruce, controverso comediante que chegou a ser retratado por Dustin Hoffman no filme LENNY, de Bob Fosse. Mesmo assim, é como se estivéssemos acompanhando uma biografia, por mais que o colorido e as falas deliciosamente rápidas e um tanto teatrais fujam do que se espera de algo realista.

No mais, chamam atenção também a direção de arte, o figurino e a fotografia admiráveis, além também da personagem de Alex Berstein, que faz a agente de Midge, a mulher que a vê como um sucesso em potencial e que faz de tudo para que aquela dona de casa rica se torne uma comediante de grande sucesso. Alguns dos momentos mais engraçados da série vêm dela, e do modo como as pessoas enxergam o seu jeito meio másculo de se vestir e se comportar. Também vale destacar a beleza da performance de Tony Shahoub, como o pai de Midge.

Podemos dizer, portanto, que THE MARVELOUS MRS. MAISEL pode ser encarado como um belo presente de Natal para os fãs de séries bem pensadas e bem escritas. E a série já chegou chegando, com indicações aos Golden Globes nas categorias de melhor série de comédia e de melhor atriz de comédia para Rachel Brosnahan. Que maravilha!

sábado, dezembro 09, 2017

EXTRAORDINÁRIO (Wonder)

Quando Stephen Chbosky ficou famoso com seu emocionante retrato de jovens com sentimento de inadequação, AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (2012), causou surpresa com o fato de ele ser ao mesmo tempo o autor do romance e o roteirista e diretor. Revelou-se, então, um novo e sensível talento. EXTRAORDINÁRIO (2017) chega para confirmar que Chbosky sabe também pegar a obra de outra pessoa, no caso o romance homônimo de R.J. Palacio, e transformar em um filme que transborda amor.

EXTRAORDINÁRIO é capaz de deixar o espectador com vontade de abraçar os amigos, os familiares. É um tipo de cinema que pode ser visto como ultrapassado, mas que na verdade é um tipo de cinema arriscado, já que para perder a mão em um melodrama é muito fácil. Como o diretor já havia se mostrado um artista extremamente sensível no trato com as pessoas que se sentem excluídas ou diferentes, não foi tão difícil assim a tarefa de contar a história de um garotinho que nasceu com o rosto deformado e que encara pela primeira vez uma escola.

A estrutura do romance está bastante presente no modo como o filme apresenta carinhosamente os personagens e os aprofunda. Isso é tanto encantador quanto revelador. No começo, quando pensamos que é o filme é só sobre Auggie (Jacob Trembley), o garotinho, até podemos pensar que o filme é muito quadrado, mas a apresentação do ponto de vista da irmã do Auggie já mostra que há mais camadas, há mais a oferecer.

Claro que o sofrer de Auggie é diferente, ninguém quer estar na pele dele, mas ao mesmo tempo é muito bom a gente chegar até o final e ver o seu sentimento de gratidão, depois de ter passado por uma trajetória muito difícil numa escola que o recebeu principalmente com bullyings, mas depois com as amizades e as conquistas.

Podemos dizer, então, que EXTRAORDINÁRIO é um filme sobre conquistas. A cena final de Auggie, seu agradecimento, por mais que aquilo ali fuja de algo realista - na verdade, a melhor descrição é mesmo a de Mark Cousins, autor de História do Cinema, chamando o cinema hollywoodiano tradicional de "realismo romântico fechado", e não cinema clássico, como alguns preferem. Nesse realismo romântico fechado, há enfeites de maneira que tudo pareça mais bonito, para poder chegar a um fim, no caso, mostrar uma espécie de lição.

E isso não é nenhum demérito. Há quem esteja, inclusive, lembrando de clássicos como A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, de Frank Capra, e O SOL É PARA TODOS, de Robert Mulligan, em resenhas. De todo modo, sempre bom lembrar que uma das referências plasticamente mais associadas a EXTRAORDINÁRIO é MARCAS DO DESTINO, de Peter Bogdanovich, que trata de um adolescente que tem um rosto deformado, inclusive muito parecido com o rosto de Auggie.

Uma coisa que EXTRAORDINÁRIO nos faz lembrar é o quanto as amizades nos deixam mais fortes, o quanto estar sozinho ainda é muito difícil, principalmente para quem é jovem, para quem é criança ou adolescente. Você se sente mais forte quando você sabe que tem um amigo (ou amigos). E o filme trabalha de maneira muito pungente essa questão da amizade. Ou o quanto é doloroso se sentir traído por um amigo ou uma amiga.

O cinema, assim como a arte como um todo, é um instrumento que nos ajuda a nos tornamos pessoas melhores. Então, um filme como EXTRAORDINÁRIO talvez seja um dos exemplos mais explícitos desse tipo de obra que nos coloca no lugar do outro, traz o necessário sentimento de empatia, de compreensão do outro. E vale lembrar também que, antes de mais nada que estamos diante de um filme sobre vitórias. Não só a vitória do Auggie, mas também a vitória da mãe dele (Julia Roberts), da irmã (Izabela Vidovic), da amiga da irmã, e do quanto tudo isso é comovente e enriquecedor para a alma. Há uma cena em especial quando Auggie descobre que tem amigos. Não apenas um amigo ou dois, mas um grupo de amigos. Tratar essa história com tal sensibilidade é uma tarefa louvável.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

HISTÓRIAS DE AMOR QUE NÃO PERTENCEM A ESTE MUNDO (Amori Che Non Sanno Stare al Mondo)

Falar com saudade do glorioso cinema italiano de outrora já virou lugar comum sempre que se fala sobre novos exemplares vindos do país da bota. Então, pulemos este clichê e passemos direto ao filme de Francesca Comencini, o sentimental, divertido e comovente HISTÓRIAS DE AMOR QUE NÃO PERTENCEM A ESTE MUNDO (2017), que tem ganhado pouca repercussão, mesmo no circuito alternativo.

Isso é algo que não deveria acontecer, levando em consideração tanta coisa boa que a filha de Luigi Comencini nos presenteia neste seu novo filme. Francesca até já tem uma filmografia relativamente extensa, iniciada nos anos 1980, mas esta comédia romântica estrelada por Lucia Mascino é sua primeira produção a estrear em nosso circuito. Antes tarde do que nunca. Mesmo utilizando do velho expediente de colocar a palavra “amor” como um atrativo para o público.

De todo modo, há amor no título original também e o amor é o grande tema do filme. Acompanhamos a trajetória da professora Claudia (Lucia Mascino), uma mulher que não se conforma com a perda e o distanciamento do grande amor de sua vida, o também professor Flavio (Thomas Trabacchi). Ambos foram apaixonados por um bom período de tempo, mas a insistência de Claudia para ter um filho com Flavio e sua insegurança acabaram por complicar o relacionamento.

O filme é narrado pelo ponto de vista de Claudia e vemos algumas cenas em flashback que flagram alguns dos melhores e dos mais difíceis momentos da relação do casal. O filme não se frustra em mostrar a paixão desesperada da mulher, em detrimento da calma e tranquilidade de Flavio. Para ele, a separação não foi nenhum fim do mundo. Pareceu algo indiferente.

Porém, é interessante notar o quanto o mesmo homem se sente inseguro perto de outra mulher, uma moça bem mais jovem que ele, sua aluna. A bela e jovem garota, por sua vez, se sente segura, enquanto ele procura ser um ás na cama, o que normalmente acontece com homens depois dos 40, que se tornam menos egoístas e mais interessados em dar mais prazer à parceira, ainda que isso possa trazer também uma sensação de poder e contentamento. É até uma pena que o filme se detenha pouco nessa relação de Flavio com a jovem Nina (Valentina Bellè).

O que não quer dizer que não achemos também adorável e engraçada a desesperada protagonista Claudia, em sua insistência em ter esperança de que o homem que ama ainda voltará para ela. Sentimos um pouco de sua dor nessa dificuldade de virar a página. Só em conseguir isso já podemos louvar o trabalho de Francesca Comencini, que ainda conta com aspectos técnicos belíssimos. A fotografia e a direção de arte valorizam tanto os interiores quanto as lindas paisagens, e a trilha sonora e as canções são belas o suficiente para enternecer o espectador.

O diálogo final de Claudia com Flavio está entre os mais belos e agridoces do cinema recente. Mas é preciso passar pela confusão inicial da narrativa e, posteriormente, pelo apego com os personagens para entender aquele momento pelo caminho do coração. Até porque muitas pessoas poderão se identificar com um ou outro personagem ou com determinado momento de sua vida.

domingo, dezembro 03, 2017

BOM COMPORTAMENTO (Good Time)

Uma das mais gratas surpresas deste ano a entrar em cartaz em nosso circuito foi BOM COMPORTAMENTO (2017), dos irmãos Benny e Josh Safidie. Trata-se do trabalho da dupla que melhor chamou a atenção do público e também da crítica, até por ter saído um pouco mais do gueto dos filmes exibidos em circuito muito limitado. Ajudou também ter como protagonista o ótimo Robert Pattinson, que cada vez mais vem trilhando um caminho de bom gosto criativo e de valorização de sua imagem.

BOM COMPORTAMENTO possui algo que é difícil de encontrar em produções contemporâneas, uma vitalidade e uma energia envolventes. Certamente não é um filme que agradará a todo mundo, inclusive todo o público que circula o circuito de arte, por ser muito quente (nas cores e na temática) e muito barulhento. Assim, é uma produção que trafega em um perigoso caminho, o que é muito bom. Correr riscos é algo que todo grande cinema deveria buscar.

A primeira imagem do filme já chama a atenção, um close-up do rosto de um dos diretores, Benny Safdie, que interpreta Nick, o irmão com problemas mentais que está sofrendo em uma espécie de terapia. Para resgatá-lo daquele suplício chega o irmão que se considera a única pessoa no mundo que realmente se importa com Nick. Pattinson é Connie, um sujeito que está querendo conseguir um dinheiro e vai buscar de uma maneira não muito inteligente, assaltando um banco ao lado do irmão, que pensa lento e acaba funcionando como um peso na hora da perseguição.

Depois da cena do banco e da perseguição, que aliás acontecem logo no comecinho do filme, BOM COMPORTAMENTO é como uma montanha russa de emoções em que qualquer coisa pode acontecer. Esse sentimento de distanciamento de uma expectativa que possa ser criada pelo espectador só mostra o quanto os irmãos Safidie parecem estar brincando o tempo todo com a trama, como se fossem jazzistas improvisando.

"Improviso" é uma das palavras-chave do filme, já que tudo que Connie faz naquela noite maluca de tentativa de fuga da polícia e de resgate do irmão que é preso na perseguição pós-assalto, tudo que ele faz é improvisado, pensado de última hora. Como se o próprio roteiro não tivesse sido pensado com um final em mente, como se os personagens tivessem ganhado vida e encontrassem outros personagens vivos pelo caminho. Tal é a vivacidade do filme, que conta com uma fotografia nervosa e em tons bem quentes de Sean Price Williams e uma trilha sonora de sintetizadores bastante presente. Um baita filme de ação e suspense, mas com um elemento humano admirável e por vezes tocante, que dá voz a um grupo e a uma geografia marginalizados de Nova York.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

OS PARÇAS

Ultimamente vivemos um momento em que os sucessos de bilheteria em geral são bem recebidos tanto pelo público quanto pela crítica. Até pouco tempo atrás havia um abismo entre a preferência da audiência e a dos críticos. Esse tipo de abismo talvez retorne com OS PARÇAS (2017), que tem cara de ser um sucesso popular, herdeiro da tradição das antigas chanchadas, mas levando para São Paulo o humor cearense que conquistou a muitos com CINE HOLLIÚDY (2013), mas que perdeu um bocado da graça em O SHAOLIN DO SERTÃO (2016).

Coincidência ou não, Halder Gomes não destacou sua obra pregressa nas propagandas de sua nova comédia - temendo associações? - preferindo apostar na popularidade das imagens de Tom Cavalcante, Tirullipa e Whindersson Nunes, ou seja, um comediante já considerado veterano e dois da nova geração. Em se tratando dos dois novos, é bom dizer, nem se trata de um novo humor. É o mesmo humor um tanto rasteiro utilizado em shows de comédia para turista ver, mas que continua sendo eficaz e relaxante - embora talvez incômodo para certas audiências.

Aliás, em alguns momentos, é possível se sentir em um desses shows da comédia cearense, como na cena da piada sobre o menino cearense (de cabeça chata) e o menino paulista (de cabeça comprida). Nem é uma piada nova, inclusive, mas funciona bem naquele momento em que o filme já havia conquistado o espectador com seu humor próximo do ingênuo, mesmo falando de um grupo de picaretas.

Na trama, devido a uma confusão com o gerente de uma loja de eletrodomésticos, o vendedor Toinho (Tom Cavalcante) acaba correndo junto com um monte de gente, numa confusão que junta polícia, vendedores de rua, um rumor de que o rapa estaria chegando para tomar o material dos ambulantes, e, no meio disso tudo, os parceiros vigaristas Ray Van (Whindersson Nunes) e Pilôra (Tirullipa) se juntam a Romeu (Bruno de Luca) para trabalharem em uma firma de casamento fajuta, que teria como primeiro cliente a filha de um poderoso e perigoso mafioso local (Taumaturgo Ferreira). A filha é vivida pela bela Paloma Bernardi.

Um dos méritos de OS PARÇAS é saber conquistar o espectador que não tem preconceito com um tipo de humor mais vulgar a entrar na brincadeira. Ou seja, até mesmo as referências que o filme traz são extremamente populares, qualquer pessoa nascida no Brasil conhece, como é o caso de Fábio Jr. e É o Tchan, os artistas que supostamente estarão presentes no casamento do ano, como é assim considerado nos tabloides. Como se trata de uma comédia de confusões, há espaço para tudo, levando em consideração que os rapazes não têm grana para bancar um casamento chique e vão ter que improvisar.

E improvisar talvez seja um dos verbos que mais combinam com OS PARÇAS, já que o filme em si não parece ter sido bem pensado. Está mais para um encontro de amigos que topou fazer parte de um projeto descontraído e descompromissado, ainda que em alguns momentos seja possível lembrar de comédias americanas como A ÚLTIMA FESTA DE SOLTEIRO, como é o caso da cena do talco.

Também não é nenhuma novidade juntar quatro caras atrapalhados, sendo que um deles é o que se aproxima de um galã. Já se fazia isso em Os Trapalhões. Mas o bom é que a química do grupo funciona. Nenhum deles separado talvez rendesse um bom filme (o próprio Tom Cavalcante não teve um grande sucesso solo na televisão, como tiveram seus conterrâneos Renato Aragão e Chico Anysio), mas juntos conseguem fazer do novo trabalho de Halder uma diversão que pode até trazer de volta um público que esteve afastado do cinema brasileiro pelo mesmo motivo que deve afastar outro tipo de audiência: o preconceito.

segunda-feira, novembro 27, 2017

NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO

O novo filme de Felipe Bragança parece ser cheio de boas intenções. Gosto de como ele divide por capítulos a sua narrativa, com letras grandes e de destaque e títulos chamativos. A trilha sonora meio anos 80, com uso de sintetizadores, também contribui para algo elegante e retrô (está na moda, não é?). Mas tudo isso parece algo que funcionaria melhor com uma melhor condução na direção. A carreira de Bragança como cineasta até agora não emplacou, pelo menos não dentro de um circuito mais amplo. Mas é compreensível que ele queira um tom diferente, e nisso está a sua principal qualidade.

Seu NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO (2017) é uma obra irregular, que aproveita o talento e experiência de dramaturgia de Cauã Raymond, que manda muito bem nas cenas com a família (com o irmão menor e com a mãe), mas seu estilo de atuar acaba ficando um pouco contrastado com o trabalho menos naturalista de interpretação dos atores jovens e pouco experientes. O resultado é uma obra torta do ponto de vista da atuação, e que não chega a passar o sentimento que parece querer passar, seja o amor imenso do pequeno Joca (Eduardo Macedo) pela indiazinha paraguaia da fronteira (Adeli Gonzales), seja a relação de Fernando, o personagem de Cauã, com o ambiente hostil que o cerca.

Este ambiente hostil traz como cenário principal uma guerra entre gangues de motoqueiros: de um lado um grupo de brasileiros do Mato Grosso do Sul com pinta de fascistas; do outro, um grupo de paraguaios-guaranis que têm visto todos os dias corpos dos seus serem desovados no rio Apa, o rio que separa o estado brasileiro do país. Bragança parece querer dar à trama um ar de fábula, a exemplo do que havia feito com A ALEGRIA (2010), ainda mais estranho e menos palatável.

Essa história de amor e ódio tem os seus momentos. Há algo de ACOSSADO no momento em que o garotinho, inebriado pelo amor que sente pela jovem índia, conta algo sobre o irmão. Essa é uma das melhores cenas do filme. Mas é uma pena que ela pareça deslocada em uma obra que parece optar pelo distanciamento das emoções. Ou trazê-las através da estranheza, quem sabe.

sexta-feira, novembro 24, 2017

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night)

Hoje a notícia do casamento da mãe de uma amiga minha me fez lembrar deste filme que eu vi há algumas semanas. Também me fez lembrar de meu avô, que depois que minha avó morreu tratou de seguir em frente e não quis ficar sozinho: casou-se de novo. A solidão deve doer mais na terceira idade. Ainda não cheguei lá para saber, mas do jeito que o tempo passa rápido não deve demorar tanto assim. Pois bem. O filme em questão é NOSSAS NOITES (2017), de Ritesh Batra, lançado direto no Netflix.

O diretor indiano tem em seu currículo outra história de amor belíssima, LUNCHBOX (2013), envolvendo amor por correspondência. Em NOSSAS NOITES temos um homem e uma mulher, ambos idosos, ambos viúvos, que começam a dormir juntos. É até estranho falar a palavra "idoso" quando estamos falando de Robert Redford e Jane Fonda, mas acho que eles não se importariam. Até porque já assumiram o efeito do tempo. Redford, inclusive, parece curtir bastante suas rugas.

Na trama, Jane Fonda é Addie Moore, uma mulher que resolve ser direta. Vai até a casa de seu vizinho Louis Walters (Robert Redford) e faz a proposta: ele topa ou não topa passar a dormir na casa dela, pelo menos para efeito de experiência? A ideia nem é fazer sexo, mas apenas ter alguém junto na cama, para conversar antes de dormir, alguém que seja interessante. E ela acha Louis interessante. O sexo, o amor, e tudo o mais poderiam aparecer depois, se tudo funcionasse.

Louis fica um pouco chocado com a proposta, mas depois de muito pensar resolve entrar na casa de Addie, ainda que inicialmente pela porta dos fundos. É muito bom ver como o filme lida com a relação dos dois, esse tatear em busca de uma intimidade que nem existia antes, mas que deve passar a existir à medida que eles forem se conhecendo. Esse tipo de relação é mais comum do que se imagina e é feita por pessoas que sabem que não têm tempo a perder. Os mais jovens têm a mania de deixar escapar o tempo, gastando a energia bestamente.

NOSSAS NOITES não inventa a roda e não é uma história de amor fora do comum, do ponto de vista formal. Mas é tão bem conduzida em sua narrativa, com o cuidado já conhecido por Batra com as palavras e os silêncios, que vale ver. Além do mais, estamos falando de um filme estrelado por dois dos maiores astros da Nova Hollywood. Os dois já haviam trabalhado juntos em outros três trabalhos: CAÇADA HUMANA (1966), de Arthur Penn; DESCALÇOS NO PARQUE (1967), de Gene Saks; e O CAVALEIRO ELÉTRICO (1979), de Sydney Pollack. Não vi nenhum dos três. :/

quarta-feira, novembro 22, 2017

A TRAMA (L'Atelier)

Embora tenha uma filmografia relativamente curta, tem se percebido desde já o interesse de Laurent Cantet em questões sociais. Seu filme de maior fama é o que lhe deu a Palma de Ouro, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (2008), um retrato incômodo e barulhento da rotina de um professor de uma escola pública em uma França que convive com múltiplas etnias e que parece estar em constante atrito. O filme aconteceu antes dos vários ataques terroristas que se tornaram rotina no país.

Falar sobre etnias e ao mesmo tempo citar os ataques terroristas é por si só algo perigoso. Seria como se estivéssemos atribuindo a culpa dos vários atos criminosos aos mulçumanos em geral, ou aos árabes como um todo, e isso é discutido com certa intensidade em A TRAMA (2017), novo filme de Cantet.

Na trama, acompanhamos o trabalho de uma novelista, Olivia (Marina Foïs) em um workshop para a realização em conjunto de um possível romance com vários jovens de diferentes etnias e posicionamentos políticos e sociais. Um dos meninos, Antoine (Matthieu Lucci), se destaca nas discussões, devido principalmente à sua tendência ligada à extrema direita e que o torna um tanto agressivo com alguns colegas.

Quando ele traz uma das tarefas da professora, que é escrever algo que possa servir de base e de nova discussão para a elaboração do romance, sua escrita incomoda as pessoas mais sensíveis. Para muitos, seu pequeno trecho de ficção sobre um banho de sangue em um iate chega a ser quase criminoso. Alguém diz que é como se o rapaz tivesse prazer quase sexual ao estar escrevendo sobre algo tão violento.

Como não vemos o filme apenas pelos olhos de Olivia, mas também um pouco da rotina de Antoine, somos convidados a também relativizar a figura do rapaz, que gosta de crianças e que é um tanto enigmático em sua solidão, em sua preferência por estar só naquela cidadezinha costeira. Ou seria a sua solidão não uma opção, mas algo imposto pelo seu destino?

O filme brinca com as várias possibilidades de se contar uma história nas discussões entre professora e alunos. Aos poucos A TRAMA opta por uma virada no enredo, que o aproxima de um suspense. Uma decisão inteligente, já que a discussão que o filme estava trazendo até então não estava parecendo levar a lugar nenhum com tantos jovens de opiniões diferentes que freavam as tentativas de evoluir algum aprofundamento. O caso da casa de espetáculos Bataclan, em Paris, é citado apenas superficialmente.

Em seu filme, Cantet aproxima-se de um rapaz que, confuso e com ideias não muito saudáveis de ódio e de tentativa de resgatar a "Europa para os europeus", pareceria um psicopata ou um terrorista em potencial. Mas, ao mesmo tempo que o vemos como alguém que preferimos manter distância, as palavras finais do rapaz chamam a atenção para a necessidade de cuidar, no sentido mais afetivo do termo.

segunda-feira, novembro 20, 2017

COLO

Se o cinema é visto pela maior parte dos espectadores como uma distração, algo para fugir da realidade dura da vida, o que dizer desses filmes que não se importam em não apenas mostrar mas nos colocar também dentro de realidades extremamente duras e cheias de desesperança? Mas o mais belo de tudo é perceber o quanto, mesmo assim, somos gratos à realizadora portuguesa Teresa Villaverde pela experiência sentimental e sensorial tão singular que ela nos presenteia com seu novo filme, COLO (2017), ainda inédito em circuito comercial em Portugal.

O próprio título traz uma palavra que é própria da língua portuguesa. Algo que remete a uma necessidade de conforto em momentos de carência. Quando a vida bate muito forte e estamos perto de não mais aguentar, queremos colo, queremos um pouco de alento para continuar seguindo.

A primeira cena importante do filme é um pouco a síntese ou a semente do que veríamos ao longo da narrativa: a adolescente Marta (Alice Albergaria Borges) volta desamparada para casa à noite e procura pelos pais e por jantar. Em vez disso, encontra um desesperançado pai (João Pedro Vaz) dizendo que sua esposa provavelmente não voltará mais para casa, não voltará mais para ele. A cena é carregada de um misto de tensão, angústia e um ar intrigante, acentuado pelas cores dos interiores fotografados lindamente pelo veterano Acácio de Almeida.

A mãe (Beatriz Batarda) reaparece, contando ao marido o motivo do atraso: ela havia conseguido um novo emprego, à noite, que aquilo era uma notícia boa, pois traria um pouco mais de dinheiro para aquela casa, necessitada. O pobre homem desempregado e já perdido em um mundo de desesperança volta para casa sem conseguir ainda processar muito alívio pela volta da esposa.

Embora a mãe apareça como alguém forte, esforçada e que se torna, contra a própria vontade, a única provedora da família, trabalhando três turnos, é Marta e seu pai, em seus caminhos mais à deriva, que COLO acompanhará com mais ênfase. A menina está passando por uma fase difícil, pelo abandono do namorado, mas é pelo desarranjo familiar e o esfacelamento daquela instituição que ela se tornará mais triste. Ela pergunta à mãe o que está acontecendo com aquela família.

Enquanto isso, também vemos a jornada de declínio de um homem que é despido de sua honra masculina de provedor, não conseguindo emprego algum por muito tempo, e passando por situações de humilhação, que ele parece aceitar, como forma de atenuar algum sentimento de culpa que talvez atormente o espírito, já que o papel do homem da casa lhe está sendo negado. Sem dinheiro, sem amigos, sem contatos, com a ausência da esposa, ele consegue encontrar algum alívio na figura de outra adolescente, a colega de escola da filha que aparece grávida.

Ler tudo isso faz parecer que estamos diante de um filme carregado de exageros na sentimentalidade. De certa forma, até é possível lembrar de alguns trabalhos de realizadores que trabalham ricamente com o melodrama, como Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar, mas o que Teresa Villaverde faz é diferente. Ela prefere os silêncios aos diálogos. Os silêncios casam melhor com o sentimento que fica entalado na garganta, como se até o chorar fosse negado aos personagens e ao próprio espectador.

É admirável o modo como o filme constrói pinturas emmolduradas: as imagens dos quartos mostrados do lado de fora do apartamento; o que vemos através de janelas, como os animais vistos na casa da avó; ou a visão da paisagem vista de dentro da casinha onde vai parar a protagonista. As molduras parecem prisões, e prisões servem também para matar aos poucos. Como mata o pequeno passarinho de Marta, que fica doente na gaiola, talvez contaminado pelo clima pesado daquela casa.

O contraste entre a beleza da fotografia e da direção de arte e a dor e a desesperança dos personagens não é algo que incomode. Ao contrário: o mundo não deixa de ser belo quando as pessoas passam por situações de desencanto.O sentimento, aliás, fica ainda mais acentuado, como se alguém dissesse: o mundo é belo, mas tu não terás o direito de desfrutá-lo.

sexta-feira, novembro 17, 2017

21 CURTAS VISTOS NO 16º NOIA

Tive a honra pela segunda vez de fazer parte este ano do júri do Noia, o Festival Universitário de cinema que movimenta realizadores de universidades de vários estados do Brasil. Como demorei muito a escrever sobre os filmes, vou ter que me limitar a pequenos comentários. Peço desculpas mais uma vez, mas o tempo e a saúde não contribuíram muito com o bom andamento do blog. Mas não percamos tempo.

ADMIN/ADMIN

Um estudo interessante sobre as imagens de câmeras de segurança e como elas causam tensão dentro de um registro de cinema, ADMIN/ADMIN (2017) foi dirigido pelo coletivo composto por Augusto Daltro, Bebeto Junior, Camila Gregório, Iago Cordeiro Ribeiro, Erick Lawrence e Maria Clara Arbex. É inventivo no uso de imagens pré-existentes e no trabalho de montagem, embora não incomode tanto quanto talvez fosse a intenção.

SIMBIÓTICA

Os estudantes da UFC Gabriel Marques e Letícia Medina fizeram em SIMBIÓTICA (2017) uma espécie de ficção científica kitsch retrô muito bonita, com destaque para a direção de arte. Ainda brinca com o aspecto ridículo do mundo dos youtubers. Uma cena em particular remete a A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky. Eu entrei na viagem e curti a brincadeira.

MERCADORIA

A fotografia de MERCADORIA (2017, foto), de Carla Villa-Lobos, parece ser propositalmente suja, assim como todo o ambiente. Talvez para enfatizar o espírito um tanto incômodo de um ambiente de prostituição underground. Há uma intenção de pautar a discussão sobre a vida das profissionais do sexo. É um dos melhores curtas da seleção. Foi o escolhido pelo júri da crítica.

FERVENDO

O começo de FERVENDO (2017), de Camila Gregório, mostra imagens de celular da protagonista, uma jovem negra que passa o tempo todo dentro do banheiro tentando resolver um problema. Interessante o local escolhido e os embates com a geração do avô e as especificidades da nova geração e as tecnologias. Mesmo quando o drama é universal e quase atemporal.

POR QUE NÃO? 

O curta POR QUE NÃO? (2016), de Lucas Memória, trata da dificuldade de mercado de trabalho para os travestis. O filme tem a vantagem de ter conseguido duas personagens muito boas para entrevistar. Mas é estranho focar apenas em duas. Tem cara de render um longa melhor e mais bem acabado. A personagem Aila é fascinante. Em certo momento ela diz: "Como se adequar fisicamente ao que ela quer ser ganhando um salário mínimo?"

LUIZA

Um filme que cresce à medida que vamos entendendo a situação da menina com deficiência mental (não fica claro qual é o problema dela) e que está namorando um rapaz, LUIZA (2017), de Caio Baú, nos faz perguntar: a partir de que idade o namoro dessa menina pode evoluir para algo mais íntimo e quando será o momento para os dois casarem?

SAM

Filme de olhares e gestos e que também sabe ser sintético em suas intenções, em SAM (2017), de Miguel Moura e Julia Souza, a câmera se interessa mais pela menina calada e pelo amor/desejo que ela sente pela colega de escola. Há alguns momentos bem inspirados. E a cena de sexo, discreta, das duas meninas é bonita de ver.

ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO

Concentrando-se basicamente no drama de um jovem que encontra um homem mais velho e mantém uma relação de sexo, ALGUM ROMANCE TRANSITÓRIO (2017), de Caio Casagrande, aos poucos vai mostrando seu protagonista procurando seu lugar, sua liberdade e enfrentando as complexidades da vida. Interessante o diálogo/monólogo com a amiga. Quando ela fala e permanece sempre calado.

VELHA CASA

Acho que VELHA CASA (2016), de Pedro Clezar, foi um dos mais prejudicados pela projeção ruim. Tem tudo para ter uma dessas fotografia bem bonitas, com destaque para as paisagens. Gosto do quadro parado da casa, mas acho um pouco problemática a narrativa. Ainda assim, é bom de ver.

ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS

Interessante como exercício de falar sobre várias coisas ao mesmo tempo este ENQUANTO CALAM-ME OS AGUDOS (2017), de Laís Perini, Laysa Elias e Letícia Bina. Das estrelas no céu ao feminismo, passando por uma reflexão sobre a cidade de São Paulo. Podia ser mais focado, mas vai ver a intenção era ser assim plural mesmo. Sabe lá.

LUTO

Interessante a construção da atmosfera e o poder de síntese de LUTO (2017), de Edu Camargo, um curta bem curto dividido em três atos explicitamente intitulados. Gosto da cena da escuridão tomando de conta. Na parte técnica, porém, há problemas de som. Às vezes não dá pra entender o que as personagens estão dizendo. Umas legendas ajudariam.

PERAMBULAÇÃO

Brincadeira divertida sobre um sujeito que quer se livrar dos pesadelos recorrentes e estranhos. Pena que a gente só percebe que é uma comédia lá pelo meio. Mas tá valendo. PERAMBULAÇÃO (2017), de Samuel Peregrino, é um dos mais divertidos do festival, se a intenção for fazer rir.

HABILITADO PARA MORRER

Por falar em fazer rir, o que é este HABILITADO PARA MORRER (2017), hein? Um sarro. O filme de Rafael Stadniki Morato Pedreira começa bem estiloso e com uns efeitos especiais bem interessantes, tentando emular filmes policiais. Depois sacamos que é uma comédia bem escancarada e que rendeu uma das melhores cenas de sua noite. Podia ser menos atrapalhado na narração, tendo tantos personagens pra dar conta. Mas acho que isso não era preocupação do realizador.

DUMMIES

Apesar de um tanto incômodo, DUMMIES (2017), de Bruno Barrenha, é um filme bem divertido e engraçado. A busca por humanização dos bonecos usados para testes de acidentes de automóveis é bem inventiva. Há umas passagens geniais, eu diria. Pena que é irregular.

OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA)

Esse tinha torcida organizada e a porralouquice toma de conta. Para o bem e para o mal. OS ANOS 3000 ERAM FEITOS DE LIXO (QUANDO A DIGNIDADE DA RAÇA HUMANA SE AFOGOU NO CHORUME ESTÁTICO DA ARTE DA HIPOCRISIA), de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Ana All, é o tipo de filme que faz com que a gente pare de fazer anotações. Entenda isso como quiser. :)

TERREIROS

Embora seja bonito em algumas falas e cantos, falta foco em TERREIROS (2017), de Felipe Lovo e Maurício Santos . Não sabemos se é sobre a mãe de santo que foi para o Paraguai, sobre o orixá Exu ou sobre a cultura do candomblé em geral.

LAMBARI

O meu favorito do festival, embora não tenha sido o escolhido pelo júri. Acho que até a fotografia meio feia (ou era a projeção ruim, não sei) de LAMBARI (2016), de Rodrigo Freitas, contribui para o efeito de horror da lama tóxica que acabou com a rotina e a alegria de um senhor de uma cidadezinha. O filme tem as suas fragilidades, mas o diretor ainda compensa com o personagem principal cantando uma música do Lupicínio Rodrigues. Emocionante.

SINTERA

É triste ver essa movimentação bonita das ocupações nas escolas do ano passado não ter surtido efeito. Pelo menos não agora, já que o governo está fazendo o que quer nessas reformas do ensino. SINTERA (2017), o filme de Fellipe Farias, em si é um pouco sem força. Mas vale para lembrar de momentos mais esperançosos de nosso país.

MUROS

Criativa a ideia de pegar imagens do Google Earth para contar essa história do muro do Campus do Pici (UFC) que serve para afastar a universidade dos habitantes das imediações. MUROS (2016), de Pedro Palácio e Sunny Maia, procura meter o dedo na ferida do abismo de classes em Fortaleza e muitas vezes consegue.

FORA DE QUADRO

Um exemplo de filme com uma ótima ideia mas que renderia muito melhor se tivesse feito mais entrevistas e selecionado melhor seus personagens, esse FORA DE QUADRO (2016), de Txai Ferraz. A ideia de buscar memórias a partir de fotos e de dar espaço para a fala dos habitantes de um determinado lugar humilde do Recife é bem bacana. Lembra os pontos de partida de alguns filmes do Eduardo Coutinho. E gosto especialmente de uma das entrevistas.

VAZIO DO LADO DE FORA

É o mais sofisticado dos filmes exibidos (tanto que foi parar em Cannes), mas VAZIO DO LADO DE FORA (2017), de Eduardo BP, não me ganhou, embora valorize sua mise-en-scene e seu trabalho de direção de arte. Foi um filme bastante prejudicado pela projeção ruim da Caixa Cultural.

quinta-feira, novembro 16, 2017

LIGA DA JUSTIÇA (Justice League)

Não dá para disfarçar que a DC anda correndo desesperadamente em busca do tempo perdido, para tentar acompanhar o ritmo de sua arquirrival Marvel, que já está bem adiantada em seu universo compartilhado no cinema e já está podendo se dar ao luxo de produzir filmes sobre heróis pouco conhecidos do grande público, como o Doutor Estranho e o vindouro Pantera Negra, por exemplo. Enquanto isso, o máximo que a DC fez foi um filme (equivocado) do Esquadrão Suicida, meio que sem muita ligação direta com os outros três títulos do universo compartilhado, O HOMEM DE AÇO (2013), BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA (2016) e MULHER-MARAVILHA (2017).

A primeira aparição do trio que daria a origem à Liga da Justiça não foi muito bem aceita por muitos críticos e também por vários fãs. O que não quer dizer que não exista um seleto time de admiradores do filme de Zack Snyder, o principal diretor das produções da DC para o cinema. Inclusive, o diretor quase não assinou LIGA DA JUSTIÇA (2017) devido à morte de sua filha, no começo de 2017. Mas, devido a problemas nos bastidores com o substituto Joss Whedon, que aparece como um dos roteiristas creditados, acaba voltando para tomar conta deste passo tão importante para os heróis mais icônicos dos quadrinhos.

Há, porém, algo que diferencia LIGA DA JUSTIÇA dos outros filmes do Universo Compartilhado da DC: o humor. Ele surge como uma estratégia de convidar mais espectadores para o filme, inclusive crianças. A ideia de um mundo mais sombrio, que também é uma característica do próprio estúdio, a Warner, e que foi abraçada até mesmo no filme do Superman, e que é uma das marcas de Snyder (quase um inimigo das cores vivas), essa ideia passa a entrar em atrito com a necessidade de usar a mesma arma do inimigo, a Marvel, que tem conquistado muito espectadores com filmes bem-humorados.

Logo, se por um lado, Snyder parece se vender em prol dessa busca dessa necessidade de fazer um trabalho mais popular, por outro o humor em LIGA DA JUSTIÇA até funciona mais do que em muitos filmes da Marvel, que parece quererem forçar os risos do espectador (isso é muito presente nos dois GUARDIÕES DA GALÁXIA, por exemplo). Assim, se o humor já funcionou naturalmente bem em MULHER-MARAVILHA, também funciona nesta reunião do grupo.

Sim, LIGA DA JUSTIÇA acaba funcionando melhor quando brinca com a reunião do grupo. O filme é divertido nesses momentos. Infelizmente há um desses vilões chatos, genéricos e megalomaníacos que parecem só servir para cumprir a obrigação de haver um super-vilão em um filme de super-heróis na trama. Por mais que tenham resgatado o Lobo da Estepe da grande obra de Jack Kirby para o universo da DC dos anos 1970, essa informação infelizmente não o torna mais interessante. É tão ruim ou pior do que Ares no filme da Mulher-Maravilha.

Há coisas positivas em LIGA DA JUSTIÇA, porém. A primeira delas é Gal Gadot brilhando pela terceira vez como a princesa amazona. Quanta beleza, graça e nobreza essa atriz passa para a heroína. Outra coisa positiva está também na escalação do elenco: Ezra Miller, como Barry Allen, o Flash, funciona que é uma beleza como o palhaço involuntário da equipe. E há o memorável primeiro encontro do renascido Superman com a equipe, principalmente com o Batman. A piada interna relativa ao primeiro filme é de fazer o público rir e aplaudir. Bela sacada, provavelmente pensada por Whedon.

No mais, há também coadjuvantes bem luxuosos no elenco de apoio: Amy Adams, Jeremy Irons, J.K. Simmons, Connie Nielsen, Diane Lane, Billy Crudup. São mal aproveitados, claro, em um filme de apenas duas horas de duração, mas suas participações são bem-vindas nos papéis que lhes foram incumbidos. Ben Affleck como Bruce Wayne/Batman continua mandando muito bem. Já Henry Cavill está estranho: mais magro e às vezes o CGI que fizeram para retirar digitalmente a barba de seu rosto não funciona muito bem.

Entre prós e contras, LIGA DA JUSTIÇA é aquele filme que poderia ter sido glorioso se fosse melhor pensado e desenvolvido, mas que também não faz tão feio assim se as expectativas forem baixas, coisa que o próprio trailer meio que antecipa.

segunda-feira, novembro 13, 2017

A NOIVA (Nevesta)

Ver um filme de horror de gosto duvidoso (não necessariamente ruim) é uma arte que deve ser cultivada. O gênero é pródigo em trazer variedades de opiniões e intensas paixões. Lembro o quanto os hoje cultuados filmes de horror italianos eram tão mal recebidos: ou com pedradas ou com ignorância pela maior parte da crítica. Não era todo mundo que via um filme de Lucio Fulci, por exemplo, como uma obra-prima. Esse tipo de revisão veio acontecer com mais força na virada do milênio, principalmente, com o culto de vários especialistas do gênero e a cada vez maior aproximação da crítica.

Daí chegar em uma sala de cinema e ver um filme de terror russo dublado em inglês é algo quase inusitado. A dublagem em inglês, vale destacar, é tão vagabunda que percebemos as diferentes fontes de áudio em diálogos entre personagens pelos ruídos de fundo. Claro, queríamos que fosse diferente: por pior que possa ser A NOIVA (2017), terceiro longa-metragem de Svyatoslav Podgaevskiy, o filme poderia se beneficiar de seu áudio original em russo.

Entre seus acertos, só o ponto de partida já é carregado de uma morbidez perturbadora: o fato de certas famílias pintarem olhos nas pálpebras fechadas de seus mortos a fim de que, na fotografia, suas almas não os abandonem é de chamar a atenção. Não é o primeiro filme que fala de fotografias de mortos. Todos devem lembrar do ótimo OS OUTROS, de Alejandro Amenábar, que destacou esse costume que foi de fato celebrado no passado.

Mas A NOIVA é mais inventivo, ao colocar essa questão dos olhos pintados e da transferência dos espíritos para uma virgem. Assim, no prólogo do filme, que acontece no final do século XIX, há essa tentativa de transferência do espírito de uma noiva para uma outra jovem que é tomada à força de seu lar e enterrada viva, vestida de noiva. Essa história em si poderia ser melhor explorada e contada, como uma boa história gótica de horror. Em vez disso, o filme prefere dar um salto para o mundo contemporâneo.

Na trama principal, uma moça é convidada a finalmente conhecer a família de seu noivo, que até então evitara o contato com seus pais. O encontro com a família dele acontece em um vilarejo afastado e longe de tudo e logo percebemos que essa família guarda segredos bem peculiares, como um quarto onde mora uma pessoa que nunca sai de lá. Mas a coisa fica incômoda mesmo para a personagem quando o noivo desaparece e ela não sabe o seu paradeiro.

Um dos destaques positivos do filme é a forma como é explorada a casa, cheia de paredes falsas que supostamente seriam dutos de ventilação, mas que nos apresentam a um lugar maior e mais curioso. Outro momento que podemos listar como sendo bom é uma cena que ocorre à noite, quando a moça segue uma das familiares do noivo e acaba descobrindo o que não devia. O movimento de câmera e o sentimento de medo no ar poderiam muito bem caber em um filme de horror de melhor qualidade, até pela boa fotografia e direção de arte. 

Infelizmente, o ritmo pouco animador e os sustos fáceis inspirados em clichês do horror ocidental, acabam por tornar A NOIVA em algo tão vulgar quanto algumas das piores produções recentes. O que o torna diferente é justamente esse quê exótico que faz com que seja possível, com um pouco de boa vontade, enumerar uma série de momentos em que um bom filme poderia muito bem estar ali presente, caído entre as tantas falhas.

quinta-feira, novembro 09, 2017

O ESTADO DAS COISAS (Brad's Status)

Tem sido interessante essa virada na carreira de ator de Ben Stiller da comédia para o drama (ou para a dramédia, ao menos). Ele tem feito, em geral, tipos inseguros que funcionam como uma evolução no que ele já fazia nas comédias. Pode-se dizer que esta nova fase começou em A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY, dirigido pelo próprio Stiller, passou por ENQUANTOS SOMOS JOVENS, de Noah Baumbach, e chega agora com este novo O ESTADO DAS COISAS (2017), de Mike White, realizador que tem uma carreira mais extensa como roteirista e aqui se aventura em sua segunda experiência na direção.

É mais um filme em que Stiller interpreta alguém em crise de meia-idade. Na verdade, não há nada de errado com a vida de Brad Sloan (Stiller). Ele trabalha em uma empresa sem fins lucrativos, é casado com uma mulher encantadora (Jenna Fisher) e agora está ajudando o filho inteligente e educado (Austin Abrams) a entrar em um novo e excitante momento de sua vida: entrar na universidade. O problema de Brad é que ele tem a mania de ficar comparando suas realizações com as de seus colegas de escola, que se tornaram milionários e famosos.

O ESTADO DAS COISAS é um filme que deve ser visto sem muita expectativa, até por ser mesmo uma obra pequena e sutil em suas emoções. É também um filme bem engraçado, por mais que os pensamentos do protagonista sejam tão perturbadores para ele que cheguem a ser quase doentios. No entanto, é muito fácil encontrar espectadores que se identificarão de alguma forma com Brad Sloan.

Um dos destaques do filme – e que pode incomodar a alguns – é o uso intensivo do voice-over do protagonista, em um trabalho muito bom do fluxo de consciência, apresentando monólogos ora divertidos, ora amargos, sobre a vida. Um dos méritos do filme é saber ser honesto consigo mesmo, não deixando de explicitar as falhas de seu herói. Essas falhas estão ali à sua frente, como se houvesse um véu cobrindo seu olhar. Daí ele receber uma resposta tão boa da jovem garota universitária, que o considera um egocêntrico que não sabe a sorte que tem, ao ouvir suas lamúrias.

Entre os pensamentos de destaque do personagem, estão os momentos de sonho, ao visualizar, por exemplo, o filho sendo aceito na Universidade de Harvard em um momento de celebração em família; porém, o próprio personagem começa a ter pensamentos sombrios que o põem para baixo novamente, como a possibilidade de ele ter inveja do próprio filho, que poderá ser tão melhor do que ele jamais foi capaz de ser na vida.

As cenas de Brad desejando as jovens meninas também são hilárias, bem como o modo como ele imagina o amigo de escola que hoje vive aposentado e morando com duas garotas em uma praia havaiana. Curioso, aliás, como a praia sempre aparece como um lugar de sucesso na vida. Muito bom também o encontro com o agora famoso e arrogante apresentador de televisão vivido por Michael Sheen, um ator que funciona muito bem para fazer tipos assim, vide o recente DE VOLTA PARA CASA, com Reese Witherspoon.

Se há algum problema com o filme talvez seja a timidez com que o diretor utiliza as cenas dramáticas, talvez com medo de transformar o seu filme inteligente em um dramalhão, especialmente nos momentos de emoção intensa do personagem de Stiller. Ainda assim, do jeito que ficou, é um prazer do início ao fim poder ver uma obra como O ESTADO DAS COISAS.

quarta-feira, novembro 08, 2017

SETE COMÉDIAS BRASILEIRAS

Algo que está chamando a atenção atualmente é a quantidade de filmes brasileiros sendo lançados semanalmente no circuitão, ou seja, nos cinemas de shopping. Embora a preferência pelo público ainda seja a comédia, tem sido cada vez mais comum o ingresso de filmes dos mais diferentes gêneros. Mas falemos de sete comédias que estiveram em cartaz em 2017. Infelizmente, a maioria delas é ruim ou medíocre.

MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 - O FILME

A sequência de MINHA MÃE É UMA PEÇA - O FILME (2013) resultou melhor do que o esperado. O diretor César Rodrigues se saiu melhor do que seu antecessor na sequência MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 (2016), tornando a personagem de Dona Hermínia (Paulo Gustavo) não apenas mais simpática, mas muito mais divertida. Há algumas partes em que percebemos, inclusive, um cuidado bem especial com a direção de arte e um quê de Almodóvar na construção da comédia junto ao melodrama. Algumas tiradas são geniais, como a cena em que o filho diz que acredita que é heterossexual e a mãe fica logo revoltada. Embora Paulo Gustavo esteja inspirado como Dona Hermínia, Rodrigo Pandolfo e Mariana Xavier, como o casal de filhos, também brilham em diversos momentos. Por enquanto é o grande campeão de bilheteria de 2016/2017 e um dos maiores de todos os tempos no Brasil.

NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI

Há quem tenha gostado deste NINGUÉM ENTRA, NINGUÉM SAI (2017), de Hsu CHien Hsin, principalmente a crítica carioca, mas na verdade trata-se de uma grande bobagem que até surge de uma ideia simpática: um grupo de pessoas distintas estão presas em um motel, impedidas de sair. O problema do filme é o mesmo de tantas comédias que tentam fazer graça e não conseguem. Aí fica aquela sensação incômoda. Ao menos, há a participação especial de Sidney Magal, sempre muito simpático e trazendo alegria. No elenco, há dois atores do Porta dos Fundos que poderiam ter sido melhor aproveitados, Rafael Infante e Letícia Lima.

UM TIO QUASE PERFEITO

Para um filme que parece bem bobo, até que UM TIO QUASE PERFEITO (2017), de Pedro Antonio, é uma simpatia. O diretor é o mesmo de outra obra que merece a espiada, TÔ RYCA! (2016), que brinca também com a falta de dinheiro. Na trama do novo filme, Marcus Majella é o tal tio do título, um sujeito que vive a vida enganando os outros ou tentando maneiras criativas de ganhar alguns trocados, e que, para não ficar sem teto, acaba parando na casa da irmã, e começa a se relacionar (muito bem) com seus sobrinhos. As situações são divertidas e há até um bom momento mais dramático perto do final. Diria que o saldo é positivo.

MALASARTES E O DUELO COM A MORTE

Eis um dos filmes mais maçantes do ano. MALASARTES E O DUELO COM A MORTE (2017), de Paulo Morelli, ficou conhecido por ser a produção brasileira com o maior número de efeitos especiais. Mas de nada adianta se Morelli não consegue criar algo minimamente interessante. Quanto mais o filme adentra o território do fantástico, com Júlio Andrade como a morte, mais vai ficando enfadonho. Ao menos Isis Valverde combina bem com um tipo mais brejeira, mesmo não sendo a mais talentosa do elenco de estrelas. E Morelli nem tem a fama de ser um diretor ruim. Talvez não tenha é conseguido lidar com tanta produção e CGI neste projeto malfadado.

DIVÓRCIO

Um filme que agradou boa parte da crítica, DIVÓRCIO (2017, foto), de Pedro Amorim, não me convenceu, embora eu consiga ver algumas qualidades, principalmente com a presença cada vez mais à vontade de Camila Morgado em comédias. Na trama, ela e o marido vivido por Murilo Benício, enfrentam uma situação de rivalidade intensa no casamento. Pena que o melhor do filme esteja no trailer e não exista nada de realmente novo quando vamos vê-lo completo - talvez o prólogo criativo. Não deixa de ter uma boa condução narrativa, mas é muito pouco.

COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA

Quando pensamos que Danilo Gentilli, com sua crítica ao politicamente correto, vai trazer um filme que traga mais elementos das comédias clássicas de escola dos anos 1980, eis que o que vemos é algo imensamente tolo, e que ainda tem medo de mostrar nudez e coisas do tipo. Tudo bem que há uma cena perigosa envolvendo o personagem de Fábio Porchat, mas não chega a ser nada de mais, como ousadia. Engraçado é que os meninos protagonistas, até a chegada do personagem do Gentilli, estavam indo bem no filme. O personagem de Gentilli leva o filme para o precipício e a conclusão é tão besta que nem dá para acreditar. Mesmo assim, COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA (2017), de Fabrício Bittar, tem os seus momentos divertidos. É só não pedir muito.

A COMÉDIA DIVINA

Quem saiu indignado de uma sessão de COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA pode ficar impresssionado com A COMÉDIA DIVINA (2017), de Toni Venturi. Mas impressionado no pior sentido, já que o que vemos aqui chega a ser constrangedor, inclusive na forma. Uma pena, pois Monica Iozzi, com seu carisma e simpatia, merecia uma estreia nos cinemas melhor. Na trama, inspirada livremente no conto "A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, o "coisa-ruim" em pessoa resolve vir à Terra para fundar a sua própria igreja, vendo agora que ele está totalmente desacreditado pela humanidade. O que parece ser uma premissa ok se revela uma bobagem sem tamanho em questão de poucos minutos. E Murilo Rosa com o diabo é um horror. Tentando pensar em uma sequência boa do filme... não consigo destacar uma que seja. Quanto mais se pensa, pior fica.

segunda-feira, novembro 06, 2017

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

É difícil, diante desta nova adaptação do clássico romance de Jorge Amado, não se lembrar da primeira versão, a de Bruno Barreto, lançada nos cinemas em 1976. Ambos são reflexos e produtos de seu tempo. O filme de Bruno Barreto foi produzido em um momento em que o erotismo no cinema brasileiro já estava se encaminhando para o seu auge da ousadia, que ocorreria na primeira metade dos anos 1980. É também um filme que tenta ser um pouco mais livre do texto do escritor baiano e talvez por isso flua melhor. Ter Sônia Braga como Flor e José Wilker como Vadinho também ajudou bastante.

O novo DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (2017), dirigido por Pedro Vasconcelos, que tem no currículo vários trabalhos para a televisão, inclusive a última telenovela das nove da Rede Globo, é também produto de nosso tempo, por parecer um bocado mais comportado no quesito sexo e nudez, graças talvez à maior consciência da chamada objetificação do corpo da mulher. Além disso, diminuiu bastante a cultura de ir ao cinema para ver a estrela da novela nua nas telas, embora Juliana Paes apareça sim sem roupa, embora de maneira tímida.

Outra questão quente e que pode ser colocada em pauta é a violência contra a mulher, vista em uma sequência rápida mas bastante incômoda de Vadinho (Marcelo Faria) agredindo a esposa para conseguir dinheiro para o jogo. É apenas um aspecto mais sombrio da personalidade do personagem, mas que depõe muito contra a figura aparentemente simpática do malandro brasileiro. O personagem recupera sua simpatia em outras passagens posteriores, mas não deixa de parecer uma espécie de encosto depois de morto: ao mesmo tempo em que traz prazer físico e sexual para Flor, também a escraviza, de certo modo. É uma abordagem um pouco mais pesada do que a dos anos 1970, nesse aspecto.

É nos aspectos formais, porém, que o filme procura disfarçar suas deficiências e não consegue convencer: o jogo de luz e sombras que Pedro Vasconcelos e seu diretor de fotografia utilizam para compor os interiores, assim como um ou outro ângulo que distancie a obra de uma telenovela, parecem um tanto forçados, embora façam alguma diferença. Mas de que adianta se o diretor não consegue evitar a repetição de temas musicais, algo próprio desse tipo de mídia? Nem mesmo escolhem canções menos manjadas.

Curioso o quanto o filme opta por dar a Flor um protagonismo tão forte que deixa seus dois maridos bem secundários. Não que isso seja um problema em si, mas talvez o personagem do segundo marido, Teodoro (Leandro Hassum), merecesse ser mais do que um paspalhão, longe da nobreza que perpassa o personagem quando vivido por Mauro Mendonça. Leandro Hassum, com seu humor físico típico, parece ter perdido muito da graça depois da cirurgia bariátrica, mas continua apostando no que costumava fazer.

O foco do filme passa a ser, então, o esforço de Flor de se distanciar do espírito de Vadinho, ao mesmo tempo que não consegue se livrar da tentação do desejo que a consome e que não é nem de longe satisfeito com Teodoro. Porém, o modo como o filme torna tão comprido o diálogo entre os dois faz com que esta nova adaptação pareça uma peça filmada. O próprio Marcelo Faria fez o Vadinho na montagem teatral por alguns anos e está acostumado com o personagem. Isso pode ser bom, mas no filme não parece ter um resultado tão positivo, mesmo com o esforço do ator e de Juliana Paes.

sábado, novembro 04, 2017

MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS / CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Dr.)

Como a revisão de MULHOLLAND DRIVE - CIDADE DOS SONHOS (2001) se deu depois de alguns anos, e muitos já viram o filme, eu vou tomar a liberdade de escrever um texto mais com anotações bem livres sobre o impacto desta revisão no cinema em mim, que foi um tanto diferente da primeira vez. Logo, não é um texto para ser lido por quem nunca viu o filme.

Fazendo um breve resumo da história, só para o texto não ficar tão solto, CIDADE DOS SONHOS conta a história de Betty (Naomi Watts), uma jovem que almeja se tornar uma estrela de Hollywood, e que está muito feliz de sair de sua cidadezinha do interior no Canadá para a ensolarada Los Angeles. Lá ela encontra uma mulher desmemoriada (Laura Elena Harring) no apartamento que a tia lhe reservou. Paralelamente, também conhecemos um diretor de cinema (Justin Theroux) que está sendo obrigado por um mafioso a aceitar uma atriz para o papel principal, sob pena de perder tudo o que tem na vida.

Na primeira vez que vi CIDADE DOS SONHOS, título originalmente escolhido pela distribuidora anterior e que deverá ficar como título mais aceito, creio eu, o filme foi recebido por mim como principalmente uma história de horror. Um horror que não dava muito bem para entender o porquê, algo bem parecido com o que aconteceu com ESTRADA PERDIDA (1997). Mas isso acontece principalmente porque o drama da protagonista não está claro na primeira leitura.

Desta vez, a segunda no cinema, passados 15 anos, o que fica mais forte é a questão da perda do grande amor, mais do que o medo, embora o medo seja algo também muito forte e que já comparece de maneira bem perturbadora na sequência da lanchonete, com aqueles dois homens conversando: um deles contando ao outro sobre sonhos que ele teve sobre aquele mesmo lugar, sobre algo muito aterrador e maligno que estava trazendo o mal para aquele ambiente. Revendo, podemos fazer uma ligação desta cena com a queda espiritual da personagem de Naomi Watts, com as decisões que a levaram ao inferno de sua alma.

E esse medo é também o medo de descobrir a verdade, já que há toda aquela construção de um sonho. Sonho de chegar a uma cidade em que uma pessoa pode se tornar uma estrela. Afinal, para que lugar mais representativo da fama e do sucesso do que Hollywood? No começo, a protagonista chega ao aeroporto, junto com aquele casal de velhinhos sinistros, e encontra, dentro da casa da tia, uma mulher linda, perdida, nua, desorientada, desmemoriada, e que se torna o grande amor de sua vida, naquela história que a mente ou o espírito que não está querendo aceitar a condição de fim elabora.

Por isso, uma das cenas mais bonitas é quando as duas fazem amor e Betty diz que está apaixonada por ela, e é uma sequência muito sensual também. Há dois sentimentos muito fortes naquele momento: o amor e o desejo, os dois juntos e potentes. Mais adiante, quando formos levados a um flashback da intimidade das duas na realidade, quando Diane já estava sendo rejeitada por Camilla, percebemos o quanto havia de sexualidade intensa naquela relação.

E, nesse sentido, voltando à questão do medo. Para que medo maior do que aquele medo misturado com uma tristeza muito, muito profunda, que é o que é mostrado na cena mais poderosa do filme, a do Clube Silenzio, quando Rita acorda de madruga e fala para ambas irem àquele lugar, lugar onde no hay banda. Há algo muito bonito dentro dos simbolismos de não haver uma banda tocando e no entanto há som, mas o que há de mais devastadoramente lindo é quando Rebekah Del Rio canta a versão de "Crying", de Roy Orbinson, "Llorando", que se torna ainda mais triste nesta versão em espanhol, mais carregada de sentimentalidade, mais fundo do poço da tristeza e da amargura.

E por mais que já tenhamos visto tantas vezes David Lynch nos carregar para caminhos tão sombrios e tristes da alma, nada se compara a esta sequência arrepiante, embora a primeira vez que vemos CIDADE DOS SONHOS não entendamos direito o que é aquilo ali, no momento em que está acontecendo.

Porém, uma vez que temos o filme na memória, tendo visto uma, duas ou três vezes, e vemos novamente, sabemos que aquele momento é o momento da revelação dolorosa que a protagonista tanto temia e não sabia, o momento em que caem por terra todas as ilusões. Sobra apenas o horror, o horror do que ela foi capaz de fazer. E aí passamos a entender o motivo de aquela restaurante representar algo tão maligno, já que é lá que foi feita uma transação que, segundo disse o próprio assassino contratado, uma vez feita, não haveria mais volta.

Com relação aos simbolismos, algumas coisas são um pouco difíceis de serem decifradas, mas nem tanto. Há muitas pistas fáceis. E quem já está acostumado com os trabalhos de Lynch, principalmente quem viu o novo TWIN PEAKS - O RETORNO (2017), e também TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992), sabe que tem algo de especial com relação à cor azul. Sempre que o azul aparece, ele tem um indicativo de algo misterioso.

E em CIDADE DOS SONHOS há a antológica caixa azul, que pode representar tanto a realidade nua e crua tomando de assalto todos os sonhos e ilusões, quanto algo de maligno também. A figura daquele mendigo lembra os homens sujos de carvão de TWIN PEAKS - O RETORNO, que na série são agentes do mal ou algo do tipo.

Enfim, ainda há tanto a se falar sobre CIDADE DOS SONHOS, como a cena em que Betty desaparece, como se as duas (Betty e Rita) tivessem se fundido. Aliás, a loira e a morena, o mistério e a verdade, a vida e a morte são elementos muito próximos de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Eis um filme que não se esgota, e querer dar conta de decifrar os enigmas (como eu meio que tentei fazer, quase sem querer, pensando em voz alta) é querer diminuir uma obra cuja dor é o motor de partida.

terça-feira, outubro 31, 2017

JOGO PERIGOSO (Gerald's Game)

Foi a partir de O ESPELHO (2013) que Mike Flanagan passou a ser visto como um dos possíveis mestres do cinema de horror contemporâneo. Embora seus filmes não se enquadrem no que atualmente se chama de pós-horror, sendo até um pouco tradicionais na forma, há uma sofisticação visual admirável. Assim, mesmo quando pega um projeto já em andamento, como foi o caso de OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016), o cineasta transforma o que é apenas um filme esquecível em uma história de certa forma independente e além de tudo aterrorizante, sabendo muito bem aproveitar os clichês dos filmes de fantasmas e casas assombradas.

Aliás, que especial que foi o ano de 2016 para Flanagan, que compareceu com três filmes. Além do prequel de OUIJA, houve também o eletrizante HUSH – A MORTE OUVE (2016) e o sentimental e sobrenatural O SONO DA MORTE (2016). Se em 2017 sua produção diminuiu, ao menos a Netflix, agindo aqui como produtora também, promoveu uma bela adaptação de uma obra de Stephen King a cargo de Flanagan.

JOGO PERIGOSO (2017) já chama atenção desde o primeiro trailer veiculado. Na trama, Carla Gugino e Bruce Greenwood são um casal que está passando por uma crise no casamento e o marido resolve apimentar um pouco a relação, brincando de práticas de sadomasoquismo em uma casa afastada. A ideia dele seria algemar a esposa na cama para fazer sexo com ela. Quando a coisa começa a parecer com um estupro ela fica um bocado incomodada. Fica mais perturbada ainda quando o marido tem um ataque cardíaco e morre, sem poder tirá-la das algemas a tempo.

A personagem de Gugino não fica sozinha, porém. Tem o fantasma do marido para conversar com ela e ajudá-la a pensar friamente diante da situação que se tornaria muito pior caso ela não pensasse friamente. Afinal, a casa estava distante de qualquer outra, sendo impossível alguém ouvir os gritos da mulher aflita.

O filme sofre uma quebra de ritmo quando somos levados para um flashback da infância da personagem, quando ela lembra um momento nada agradável com o pai. Ao falar de um assunto tão espinhoso, mas ao mesmo tempo tão urgente quanto o abuso infantil, Mike Flanagan mais uma vez trata de contar histórias dolorosas de famílias, como vem sendo sua marca desde pelo menos ABSENTIA (2011).

Ao mesmo tempo em que esse flashback quebra o ritmo, ele ajuda a enriquecer um filme que parecia não se encaminhar para lugar nenhum, ou que seria apenas um thriller tenso e pouco memorável. Além do mais, há a presença de um ator que talvez só seja lembrado por causa de TWIN PEAKS, o gigante Carel Struycken, que reapareceu no "retorno" como uma das entidades do White Lodge. A presença dele em JOGO PERIGOSO é mais de natureza sobrenatural (ou uma alucinação da personagem). Outra presença marcante no elenco de apoio é Henry Thomas, perfeito no papel do pai da protagonista, em especial na cena do eclipse.

Assim, JOGO PERIGOSO, mesmo que fique um pouco atrás das obras para cinema de Flanagan, é um filme que merece atenção, mesmo por quem não acompanha o trabalho do diretor. A tensão e a temática adicional já são motivos mais do que suficientes para dar aquela espiada.

segunda-feira, outubro 30, 2017

MINDHUNTER - PRIMEIRA TEMPORADA (Mindhunter - Season One)

Não esperava que este ano ainda reservasse uma surpresa tão boa quanto MINDHUNTER (2017), a série que inicialmente chama a atenção por ter produção executiva de David Fincher, que ainda dirige quatro dos dez episódios desta primeira temporada. Eis uma série que conquista o espectador mais exigente logo em seus primeiros minutos e que consegue ficar cada vez mais envolvente à medida que vai se aproximando de seu final. Que não é bem um final (ainda bem), mas vale dizer que a season finale é de dar taquicardia.

MINDHUNTER é baseado no livro Mindhunter - O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John E. Douglas e Mark Olshaker. Pelo que andei escutando por aí, a primeira temporada dá conta da primeira metade do livro, que funcionaria como um ótimo complemento para a série criada por Joe Penhall, que tinha como produção mais expressiva até então o roteiro do drama pós-apocalíptico A ESTRADA (2009), de John Hillcoat.

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, MINDHUNTER não tem cenas de violência ou de perseguição ou coisa parecida. É investigação e psicologia, basicamente. E um texto tão bem trabalhado que é de dar gosto. Os personagens são tão ou mais envolventes do que a história, que trata do início dos trabalhos do FBI com o estudo dos casos de assassinos em série.

A série é baseada na vida de John E. Douglas e em seus encontros e entrevistas com assassinos famosos, como Ed Kemper, o sujeito que matou a própria mãe e fez sexo com sua cabeça decepada, e Jerry Brudos, o assassino do fetiche de sapatos. Vale destacar também que a interpretação dos atores para esses dois criminosos é admirável. A atmosfera de medo e tensão nas conversas com esses dois, em especial, é de deixar o espectador prendendo a respiração. Mas há outros casos resolvidos pelo próprio protagonista e seu parceiro que empolgam e instigam. Há também uma psicóloga estudiosa do caso que integra o trio.

O grupo é formado aos poucos no seu tempo dentro da narrativa. Antes da união de Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), acompanhamos o certinho Ford conhecendo a ousada Debbie (Hannah Gross), a mulher que o iniciará no caminho do sexo oral e de outras maneiras de melhor se viver. Além de tudo, ela ainda ouve as preocupações que ele faz questão de compartilhar de sua profissão. Mais à frente, Bill se une a Holden para darem aula sobre assassinos seriais em diversas cidades dos Estados Unidos. A presença de Wendy Carr (Anna Torv, de FRINGE) chega para enriquecer ainda mais o grupo.

O fato de a série também nos apresentar à vida privada de seus personagens principais ajuda bastante a nos aproximamos deles. Faz com que nos importemos com esses personagens, faz com que o que eles sentem e temem seja verdadeiro. Um dos melhores exemplos aparece no episódio de número oito, que é o que trata de um diretor de escola infantil que tem o costume de dar cócegas nos alunos.

O que parecia um episódio pouco brilhante diante dos demais acaba sendo um dos mais marcantes pelo mal estar com que passamos a carregar, junto com Holden, das responsabilidades e das decisões que ele resolve tomar, seguindo seus instintos, mas também com muitas dúvidas. Este oitavo episódio é tão marcante que é o único que termina sem música nos créditos finais.

Outro destaque da série é a direção de arte linda, que nos leva aos anos 1970 e a elegância das roupas, dos carros, dos prédios e casas. Há também detalhes importantes no modo como a fotografia é tratada em diferentes momentos, seja para passar uma sensação de bem estar em cenas diurnas com um belo dia de sol, seja para acentuar cenas tensas nos interiores. Na verdade, há tantas qualidades em MINDHUNTER que fica difícil destacar seus problemas. De longe, a melhor produção da Netflix até o momento.

domingo, outubro 29, 2017

O FORMIDÁVEL (Le Redoutable)

Michel Hazanavicius procurou saber de Jean-Luc Godard se ele havia visto o seu O FORMIDÁVEL (2017), se havia gostado ou desgostado do modo como ele foi caracterizado nesta comédia autobiográfica baseada no livro de uma das ex-esposas do cineasta da Nouvelle Vague, a alemã Anne Wiazemsky. Até onde eu sei, o jovem diretor não recebeu nenhuma resposta de seu "homenageado". Apesar das aspas, podemos dizer que o filme de Hazanavicius consegue ser ao mesmo tempo uma homenagem a Godard, emulando e trazendo à tona momentos importantes daquele recorte da vida e da obra do homem, como também um filme que tira sarro de Godard, aqui vivido por Louis Garrel.

O diretor do oscarizado O ARTISTA (2011) novamente fala sobre cinema e seus bastidores, mas o foco agora é o cinema francês da segunda metade dos anos 1960, quando muita coisa estava mudando no mundo. Em um ano em que tivemos uma comédia que também brinca com os bastidores do cinema francês, como é o caso do divertido ROCK’N ROLL - POR TRÁS DA FAMA, de Guillaume Canet, é bom também receber outro trabalho inteligente e espirituoso. O FORMIDÁVEL talvez exija menos do espectador pouco habituado a ver filmes franceses ou que não esteja a par do trabalho de Godard. É possível se divertir e até aprender um bocado sobre aquele momento tão particular da França.

Foi um momento de revolução para o país, e também de tentativa de revolução para um cinema que já era considerado revolucionário. Mas assim como aconteceu nos cinemas novos de outros países, inclusive o nosso, a década de 1960 foi de inquietação, e Godard estava em um momento tão radical de sua vida que rejeitava até mesmo os seus próprios filmes, colocava-os também na categoria de lixo burguês ou arte ultrapassada. Sua intenção era criar algo totalmente novo na forma e no conteúdo e ainda trazer muito da política que ele abraçava naquele momento, o maoísmo.

Uma das partes mais engraçadas do filme, aliás, é quando Godard fica sabendo que seu filme A CHINESA não foi nada apreciado pelos chineses. Segundo algumas fontes, os revolucionários chineses acharam que o diretor francês não entendeu nada da ideologia de Mao. Outras passagens bem engraçadas são as várias vezes que Godard está presente nas manifestações acirradas de 1968, quando havia briga entre a polícia e os estudantes. Godard, além de perder muitos óculos, sempre se saía mal quando ia para as discussões entre os estudantes comunistas.

Uma das melhores coisas do filme merece ser mencionada como destaque: Stacy Martin, a jovem francesa que encantou o mundo em NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, faz o papel da jovem esposa de Godard, Anne, que atura, com amor e paciência, as bobagens e os arroubos de arrogância daquele homem que se acha melhor do que todos. Com uma mulher tão doce quanto Anne, difícil não pensar no quanto Godard foi vacilão em ter deixado passar alguém tão especial na vida dele. E para acentuar ainda mais essa impressão, o filme a apresenta sem roupa diversas vezes, uma vez lembrando uma cena de O DESPREZO, em que a câmera de Godard passeia pelo corpo nu de Brigitte Bardot.

Quanto a Bérénice Bejo, a esposa de Hazanavicius, a bela e talentosa atriz aparece pouco, em papel de coadjuvante, como uma das amigas de Godard. É um papel pequeno, mas é sempre bom tê-la presente, como um amuleto de sorte, já que Bejo tem feito uma série de trabalhos muito bons.

quinta-feira, outubro 26, 2017

THOR - RAGNAROK

Quando o primeiro filme do Homem de Ferro aportou nos cinemas, um dos maiores destaques e um dos pontos mais apreciados pela audiência foi o bom humor. Nascia, então, uma fórmula que, guardada uma ou outra exceção (talvez apenas os dois primeiros filmes do Capitão América), seria a marca das aventuras de super-heróis do tão desejado Universo Compartilhado Marvel.

Porém, dois filmes do estúdio surgiram para brincar de maneira ainda mais escrachada com os heróis: HOMEM DE FERRO 3, de Shane Black, e GUARDIÕES DA GALÁXIA, de James Gunn. Em seguida, veio o ótimo HOMEM-FORMIGA, de Peyton Reed, provavelmente o produto mais bem-acabado da junção humor e aventura até o momento.

E eis que resolveram dar uma sacudida no deus do trovão, que ganhou dois filmes bem abaixo do que o personagem divino mereceria. O primeiro, THOR (2011), de Kenneth Branagh, é até um bom filme de introdução do personagem, mas é esquecível. Ter chamado Branagh só por ele ter dirigido filmes de Shakespeare não pareceu uma escolha lá muito sábia. O mesmo se pode dizer da escalação de Alan Taylor (diretor de episódios de GAME OF THRONES) para a sequência, THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013), ainda mais anódino.

Se a intenção é juntar os Guardiões da Galáxia com os Vingadores, o Homem-Aranha e um Doutor Estranho metido a engraçado em um mega-lançamento futuro, então, nada mais justo do que apimentar também com muito humor este terceiro e estranho THOR - RAGNAROK (2017), que pelo título poderia ser uma aventura bem dramática. Afinal, Ragnarok é o apocalipse de Asgard, a destruição do lar (e talvez da vida) dos deuses nórdicos.

Mas acontece que preferiram uma comédia. Muito bem. Aceita-se o filme como uma comédia. O que poderia ser mais bem resolvido seria o timing. Fazer comédia não é fácil. Comédia das boas, digo. Não que THOR - RAGNAROK não consiga entreter e divertir em alguns momentos. Consegue sim. Mas a cara de matinê também rima com um pouco de desinteresse com o destino dos personagens ou mesmo com a história.

Há algumas coisas que funcionam bem: Chris Hemsworth, o Thor, já havia provado ser um ótimo ator de comédia em CAÇA-FANTASMAS, de Paul Feig. Assim, seu herói bobão no novo filme funciona muito bem desde o começo, quando ele aparece preso em um lugar que depois saberemos se tratar do lar do infernal Surtur, entidade que vinha aparecendo de maneira recorrente nos sonhos do deus do trovão. Dar cabo de Surtur seria uma forma de evitar o Ragnarok.

Mas o que o deus abobalhado não sabia era que seu lar estaria prestes a ser invadido e tomado por Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte, e primogênita de Odin (Anthony Hopkins). Assim, a irmã que ele não sabia que existia será a grande ameaça para Asgard. Logo no primeiro embate com ela, Thor perde o martelo e é enviado para um planeta estranho chamado Sakaar, conhecido dos leitores da saga Planeta Hulk. E, sim, é lá que o verdão vai travar uma batalha com o protagonista.

Interessante essa avalanche de referências das histórias em quadrinhos da Marvel para tentar construir uma narrativa original. Por mais que seja uma narrativa com todo um jeitão de preguiçosa. Mas talvez seja essa a melhor maneira de ver THOR - RAGNAROK: totalmente relaxado, sem esperar nada além de uma boa comédia com alguns dos super-heróis da Marvel, e que ainda tem como bônus a bela fotografia bem colorida e visual e clima oitentistas. Para muitos, a estreia do neozelandês Taika Waititi, de trajetória pouco conhecida nos cinemas ocidentais, acabou sendo uma boa surpresa.

terça-feira, outubro 24, 2017

AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA

Difícil não se impressionar com as qualidades de AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA (1980), de José Miziara, principalmente sua meia-hora inicial, quando vemos uma edição em que se alternam cenas da protagonista vivida por Helena Ramos, a Analu do título, dirigindo um carro numa estrada escura com expressão aflita, enquanto vemos cenas do passado recente, de sua relação complicada com o marido vivido por Ênio Gonçalves. Para completar, a edição não mostra apenas o ponto de vista de Analu, mas também as escapulidas de seu marido, entre elas, a sequência em que Ênio transa com Matilde Mastrangi. Ela que, com seu corpo exuberante, tanto foi objeto de desejo dos marmanjos nos anos 1980. E dá até para sentir uma pontinha de inveja de Ênio, só de vê-lo realizar essa curta sequência.

AS INTIMIDADES DE ANALU E FERNANDA começa a se “acalmar” e a entrar numa aparente normalidade, com uma narrativa mais linear, quando Analu conhece Fernanda (Márcia Maria), que funciona como uma espécie de porto seguro para aquela mulher em busca de um pouco de tranquilidade depois de sofrer a pressão, as traições e a violência do marido. Ela aceita o convite de ficar na casa de praia de Fernanda em Ubatuba. E a partir desse instante começa a surgir um relacionamento mais íntimo entre elas. Mas as coisas não são tão simples assim e a felicidade das duas, que se revelam doentiamente apaixonadas uma pela outra, encontrará um terrível obstáculo.

Muitos veem a solução do segundo ato do filme como carregada de moralismo, semelhante ao americano ATRAÇÃO FATAL: mas em vez de uma amante psicopata que chega para acabar com um casamento tranquilo, estamos diante de uma lésbica psicopata, o que naturalmente pode atingir a um segmento de minorias que sofre mais preconceitos da sociedade. Porém, o filme vai além das questões moralistas e funciona incrivelmente bem como um suspense que bebe muito da fonte do film noir americano dos anos 1940, adicionado de toques apimentados de sexo e nudez. Vale destacar a atuação de Helena Ramos no papel de Analu: uma atriz de mão cheia que não tinha frescuras em desempenhar cenas mais ousadas nesse “cinema do corpo” que foi o cinema brasileiro dos anos 80. 

Quanto a Ênio Gonçalves, ele aparece pouco no filme, mas sua participação é fundamental para estabelecer a figura do homem canalha. E isso é mostrado em algumas curtas tomadas: o traumático bate-boca no apartamento; a transa no barco com Matilde Mastrangi; a cena no escritório com sua secretária; outra, num motel. E no final, o ressurgimento de seu personagem, para acentuar a visão de um mundo onde não há escapatória e a felicidade é só uma ilusão.

Texto publicado originalmente na Revista Zingu! em 21 de agosto de 2011