quarta-feira, julho 19, 2017

MEMÓRIAS SECRETAS (Remember)

Outra perda noticiada e lamentada nesse último domingo (a morte foi no sábado) foi a do prolífico ator Martin Landau, que teve como um de seus últimos papéis marcantes o de MEMÓRIAS SECRETAS (2015), de Atom Egoyan. Vi-o em maio do ano passado e é curioso eu justamente estar falando dele com a memória fraca, dada a distância de tempo, e sendo um filme sobre um personagem com Alzheimer.

Com 177 títulos no currículo como ator, Martin Landau começou sua carreira na televisão na década de 1950 e já na mesma década teve a honra de estar em um filme de Alfred Hitchcock, INTRIGA INTERNACIONAL. Mas ele acabou se notabilizando pelos trabalhos na televisão e brilhou na série MISSÃO: IMPOSSÍVEL nos anos 1960. No cinema dos anos 1970-80 se dedicou a alguns filmes B de terror e ficção científica.

As coisas melhoraram para Landau quando surgiram papéis importantes, como os de TUCKER - UM HOMEM E SEU SONHO, de Francis Ford Coppola, e seu desempenho excepcional em CRIMES E PECADOS, de Woody Allen. Mas sua coroação veio com ED WOOD, de Tim Burton, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, interpretando de maneira comovente e engraçada um Bela Lugosi decadente.

Em MEMÓRIAS SECRETAS, Landau é um nonagenário sobrevivente de Auschwitz que prepara uma vingança contra o nazista responsável por matar sua família nos campos de concentração. O problema é que ele não tem como fazer isso estando em uma cadeira de rodas. A não ser que ele peça ajuda a seu melhor amigo, vivido por Christopher Plummer, vítima dos mesmos carrascos.

Acontece que o personagem de Plummer, de nome Zed, tem um outro problema sério: o mal de Alzheimer. Assim, sua tarefa para fugir da casa de repouso e procurar a casa do tal nazista para, enfim, executá-lo, não é nada fácil. E isso acaba se tornando algo divertido e ao mesmo tempo angustiante para o espectador. O veterano Plummer, quase um nonagenário também, está ótimo em seu personagem desmemoriado, mas com disposição para executar o ato.

Talvez o filme fosse mais memorável se estivesse nas mãos de outro cineasta, já que Atom Egoyan anda fazendo uns filmes bem mais ou menos já faz algum tempo. Se bem que o último trabalho dele que vi foi O PREÇO DA TRAIÇÃO (2009), mas a maior parte dos críticos não tem gostado muitos de seus filmes, não. Principalmente levando em consideração que ele começou muito bem nos anos 1990, com EXÓTICA (1994) e depois ganhando a Palma de Ouro em Cannes com O DOCE AMANHÃ (1997). Seria o caso de diretor que perdeu a mão ou de um picareta que enganou a todos? De todo modo, MEMÓRIAS SECRETAS não é um filme que se deve deixar de lado.

segunda-feira, julho 17, 2017

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (Night of the Living Dead)

E foi aqui que tudo começou. Toda essa explosão de zumbis em filmes, livros, séries, quadrinhos, games, peças e até em passeatas. Tudo começou com este filme dirigido por um jovem de 28 anos chamado George A. Romero. Diferente de seus zumbis, ele preferiu não seguir vivo após a luta contra o câncer de pulmão. Mas o impacto de A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (1968) na história do cinema (não apenas de horror) vai ficar pra sempre. Ou pelo menos até o dia em que aparecer uma epidemia de zumbis e todos esses filmes forem, de alguma maneira, perdidos.

Romero não foi apenas o criador dos zumbis modernos que continuam sendo copiados e explorados até a exaustão. Alguns outros filmes de impacto também tiveram seu nome à frente, como foi o caso de suas parcerias com Stephen King, CREEPSHOW - SHOW DE HORRORES (1982) e A METADE NEGRA (1993), e com Dario Argento, para adaptar Edgar Allan Poe em DOIS OLHOS SATÂNICOS (1990). Ou de suas originais histórias de vampiro (MARTIN, 1978) e de animal assassino (INSTINTO FATAL, 1988). Sem falar nos outros cinco filmes de zumbis que também foram um reflexo no contexto social e político em que foram realizados.

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS talvez não tenha sido o primeiro filme de horror a usar sua história como alegoria para fazer uma crítica social, mas certamente é o mais lembrado. Em 1968, os negros lutavam pela igualdade social em uma América cheia de preconceitos. Muitos morreram lutando, inclusive alguns líderes como Martin Luther King e Malcolm X, covardemente assassinados. E Romero ainda teve a coragem de colocar um protagonista negro, Ben (Duane Jones), como o homem mais sensato e centrado entre os sobreviventes da casa, enquanto os brancos ou pareciam catatônicos, caso de Barbra (Judith O'Dea), ou totalmente egoístas, caso do senhor careca que quer medir forças com Ben, vivido por Karl Hardman, também um dos produtores do filme.

Umas das coisas que mais impressiona em A NOITE DOS MORTOS-VIVOS é seu ritmo ágil que até hoje nos deixa com a adrenalina lá em cima. E isso começa já nos primeiros 10 minutos de duração, quando surge o primeiro zumbi no cemitério e ataca Barbra e seu irmão. A partir daí a brincadeira de pega-pega só para quando o filme termina, e tudo passa com uma rapidez e fluidez narrativa impressionante e em um registro cru da luta pela sobrevivência daquelas pessoas dentro daquela casa.

E tudo o que se aprendeu sobre os zumbis está aí, nesta espécie de manual. Até então os zumbis que eram vistos nos filmes tinham raízes no Haiti ou imediações, a partir de feitiços. Zumbis que comem carne humana e só morrem com um tiro ou pancada forte na cabeça nasceram aqui. Curiosamente, Romero vai tornando seus zumbis mais inteligentes ao longo de seus demais filmes. Já neste primeiro filme vemos alguns deles pegando pedaços de pau para quebrar a casa, coisa que não se vê em THE WALKING DEAD, por exemplo.

E assim Romero fez história matando três coelhos com uma só cajadada. Ao mesmo tempo em que criou os zumbis modernos (mesmo sem utilizar o nome zumbis em momento nenhum do filme), ele também popularizou o cinema de horror como crítica social. Mas tudo seria apenas uma nota nos livros se A NOITE DOS MORTOS-VIVOS não fosse também um baita filme cheio de suspense e horror que nem o tempo nem o baixo orçamento tratou de diminuir. Ao contrário: o primeiro longa de Romero só cresceu ao longo dos anos. Este gigante (até na estatura) vai fazer uma falta imensa, mas seu legado está aí, crescendo-se e multiplicando-se.

domingo, julho 16, 2017

O FUTURO PERFEITO (El Futuro Perfecto)

É muito bom poder se deparar com um filme tão estranho quanto atraente quanto O FUTURO PERFEITO (2016), da diretora alemã radicada na Argentina Nele Wohlatz. Isso porque o tom às vezes bressoniano de interpretação dos intérpretes (e um elenco formado por não-atores) acaba se tornando familiar até para um público menos familiarizado com um tipo de cinema mais hermético. Isso porque tanto pode lembrar os role-playing games das aulas de línguas, quanto a vida de uma pessoa inocente em uma terra distante, o que até lembra, em alguns momentos, a Macabeia, de A HORA DA ESTRELA.

Mas o caso de Xiaobin, que adota na Argentina o nome Beatriz, é ainda mais complicado, já que ela chega àquela terra estranha sem saber nenhuma palavra do espanhol. Seus pais não se interessam em se integrar àquela sociedade, pois planejam ganhar dinheiro e voltar para a China e por isso só falam em mandarim, na empresa de lavanderia que cuidam. Mas a menina de 17 anos não: ela quer se adaptar àquele mundo novo. E para isso ela procura empregos simples e também cursos para aprender o espanhol. Até porque no primeiro trabalho ela não entendia nada o que os clientes estavam falando e isso lhe custou um emprego.

É possível também se identificar com a personagem se em algum momento da sua vida você já se sentiu excluído ou um peixe fora d´água. Daí é possível entender um pouco a atração que Beatriz sente pelo rapaz indiano que demonstra interesse nela. Os dois estão unidos pela exclusão social. A cena do cinema, quando ele pede para casar com ela e ambos dizem que não estão entendendo o filme, é bem representativa dessa situação incômoda.

Interessante notar que Beatriz vai se tornando mais inteligente e mais esperta à medida que suas aulas de espanhol progridem. Se antes tudo era muito simples nas aulas, como dizer o nome de objetos ou das partes do corpo humano ou de eventos relacionadas ao passado ou ao presente dela, a coisa se tornaria mais complexa quando a professora introduz o estudo do condicional, com o verbo no que a gente chama em português de futuro do pretérito.

Assim, o futuro passa a ser visualizado em uma série de possibilidades. E se o rapaz indiano for casado, o você faria? E se seus pais descobrirem e não gostarem do rapaz, o que aconteceria? E se você viajar para a Índia, como seria? Assim, as imagens surgem na tela quase como verdades, embora saibamos que estamos diante de jogos de imagem a partir dos pensamentos de Beatriz.

Interessante vermos mais um filme que mostra o quanto a linguagem é capaz de modificar o futuro das pessoas. Vimos recentemente uma obra ambiciosa sobre o tema no registro de ficção científica, A CHEGADA, de Denis Villeneuve. Agora temos um filme bem mais modesto, principalmente em seu orçamento, minúsculo, mas que ganha uma dimensão enorme no que tange à reflexão sobre as influências da linguagem na vida e na mente de uma pessoa, no quanto isso pode aumentar as fronteiras. Claro que também não é só isso, pois há toda uma angústia que sentimos ao ver a história pela ponto de vista de Beatriz. E terminar do jeito que terminou também faz com que O FUTURO PERFEITO fique conosco após a projeção.

sábado, julho 15, 2017

JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody Wants Some!!)

A filmografia de Richard Linklater é bem irregular. Às vezes fico me perguntando por que o homem que dirigiu obras tão intensas quanto a trilogia ANTES DO AMANHECER (1995), ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) e ANTES DA MEIA-NOITE (2013) tem em seu currículo alguns filmes até inexpressivos e que muitas vezes passam batido. Porém, não dá pra dizer que ele é um diretor que não tem a sua marca e as suas obsessões impressas em suas obras.

Uma delas, como dá para perceber pela citada trilogia, é a sua preocupação com a passagem do tempo, em pensar sobre o tempo como algo fugaz e por isso mesmo tão valioso. JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (2016) é uma continuação espiritual de JOVENS, LOUCOS E REBELDES (1993), que mostrava as aventuras de um grupo de estudantes do ensino médio no último dia de aula, em 1976, com todo aquele espírito dos anos 1970 impresso. O novo filme traz outro grupo de jovens, desta vez em seu primeiro dia no ambiente universitário, antes de as aulas começarem, no ano de 1980.

A virada da década está presente nos figurinos, no comportamento, na bem selecionada trilha musical, na direção de arte, na fotografia colorida e no espírito festivo do filme. O que pode incomodar um pouco, especialmente aos fãs do cineasta que gostam de conversas de cunho mais aprofundado, é o quanto a filosofia é vista de maneira mais leve pelos olhos dos vários personagens que passeiam pela tela, especialmente se pensarmos que estamos diante de um filme do mesmo diretor de WAKING LIFE (2001).

Mas também sabemos que Linklater é o cara que dirigiu ESCOLA DE ROCK (2003) e que também gosta de pura diversão, sem muitas pretensões intelectuais. O olhar principal do filme é o de Jake Bradford (Blake Jenner). É pelos seus olhos que vamos conhecendo os demais membros da turma que fará parte dessa importante etapa de sua vida. Cada um deles tem a sua importância em um filme que não se preocupa com um plot, mas que prefere deixar seguir seu caminho com naturalidade e leveza, como se estivéssemos testemunhando aquele momento e olhando com carinho para aquelas pessoas, sem nenhuma preocupação com uma conclusão. Afinal, a vida está mal começando.

São jovens que estão mais interessados em jogar beisebol, namorar e brincar do que exatamente estudar. E é muito bom ver essa turma com o olhar de alegria de alguém que está acabando de chegar àquele ambiente e conhecendo aqueles novos tipos. Para aqueles jovens, estar ali era uma questão de autoafirmação. Por isso em muitos momentos fica parecendo um clube do Bolinha com pouca sensibilidade, quase machista, embora haja algumas personagens femininas bem marcantes e encantadoras (principalmente a personagem de Zoey Deutch). A alegria está no ar pela liberdade que finalmente é dada aos jovens, depois do tanto que lhes é proibido durante o colegial. E uma vez que nós deixemos que essa alegria e esse relaxamento nos contagie, JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (título brasileiro tosco e nada a ver, eu sei) pode ser uma experiência muito gostosa.

sexta-feira, julho 14, 2017

SEIS FILMES INDICADOS AO OSCAR 2017

Os dias se passaram tão rapidamente que até mesmo aqueles filmes mais badalados, os indicados ao Oscar, e que chegaram por aqui no início do ano, por volta de fevereiro, meio que não tiveram chance de ter uma postagem digna aqui no blog. E talvez seja melhor falar um pouco sobre esses filmes logo, antes que a memória deles se torne ainda mais nublada.

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic)

Belo filme que nos faz pensar sobre o tipo de educação que se recebe e sobre o quanto ela sempre vai ser deficitária em algum aspecto. Em CAPITÃO FANTÁSTICO (2016, foto), de Matt Ross, temos uma família que cresce no meio do mato, com uma educação centrada no pai, que ensina aos filhos valores distantes do que ensina o mundo capitalista que ele tanto abomina. As cores do filme são lindas e adoro as cenas ao ar livre, com os filhos do personagem do Viggo Mortensen em atividade, e também mostrando sua educação, o interesse deles e, como era de se esperar, também uma vontade de conhecer o mundo e deixar a família por parte de algum. A questão afetiva pesa bastante também, até pela morte da mãe. A cena com "Sweet child o'mine" é muito bonita. A execução podia ter ficado melhor, é verdade, mas dentro do contexto é emocionante. A canção já se provou forte o suficiente, aliás, sem a guitarra do Slash, em outras versões. CAPITÃO FANTÁSTICO é o primeiro filme de destaque de Matt Ross como diretor. Indicado ao Oscar de melhor ator (Viggo Mortensen).

A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge)

Uma beleza de animação esta A TARTARUGA VERMELHA (2016), do holandês Michael Dudok de Wit. De encher os olhos. Lembrei da obra-prima A ILHA DO MILHARAL, de George Ovashvili, pela capacidade de contar a história sem diálogos e em um espaço físico pequeno, mas exuberante. Fiquei ainda sem entender algumas coisas, mas o mistério faz parte do charme do filme. Uma pena que, como acontece com boa parte das animações, em certo momento eu comecei a cochilar. Ainda estou para entender esse meu problema com filmes de animação e fantasia. Ainda assim, a lembrança que fica de A TARTARUGA VERMELHA é muito positiva. Apesar de ser uma coprodução entre França, Bélgica e Japão, o filme é uma produção dos Estúdios Ghibli. Indicado ao Oscar de melhor longa-metragem de animação.

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal Animals)

Agradou-me bastante este ANIMAIS NOTURNOS (2016), segundo filme de Tom Ford. Aliás, é incrível que ele tenha feito um filme tão bom nesse relativamente longo espaço de tempo de seu primeiro e até então único longa, DIREITO DE AMAR (2009). A história dentro da história é bem boa e até chega a superar a história "principal" no que mais interessa. Ou seja, no quanto funciona como suspense perturbador, quase próximo de um filme de horror. E a outra, protagonizada pela dona da galeria de arte vivida por Amy Adams, tem um grau de dor e angústia que contagia. O filme me tirou o sono numa madrugada dessas. É empolgante. O mundo dela é frio mas (justamente por isso?) acho que dá pra sentir o arrependimento da personagem de ter deixado o ex (Jake Gyllenhaal). E é muito legal quando as memórias sentimentais dela se misturam, de certa forma, com a narrativa do livro. Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante (Michael Shannon).

EU NÃO SOU SEU NEGRO (I Am Not Your Negro)

Documentário quase tão incisivo quanto James Baldwin e suas palavras, sejam as lidas por Samuel L. Jackson, sejam as que foram registradas em programas de televisão. EU NÃO SOU SEU NEGRO (2016) chega em um momento particularmente importante para se discutir o quanto a sociedade ainda deve muito ao negro. A americana, em especial, no que ela tem de mais insana e inacreditável. O cineasta haitiano Raoul Peck faz um filme tão poderoso e amargo (e com razão de ser amargo) que ficamos até sem palavras. O fato de existir um filme como este é uma das grandes vantagens desse ano, em que temas sobre a questão negra tiveram mais espaço para vir à luz. Indicado ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem. Teria ganhado, se não fosse pelo tamanho e a força de O.J.: MADE IN AMERICA, de Ezra Edelman, que está mais para uma minissérie de televisão, mas tudo bem.

O LIMITE ENTRE NÓS (Fences)

E falando sobre filmes de temática negra, infelizmente este terceiro longa de Denzel Washington na direção, O LIMITE ENTRE NÓS (2016), não me encantou. Aliás, eu achei o filme chato pra caramba. Tem algo de interessante no texto, mas a emoção não me veio. E olha que eu já estava preparado para um filme mais teatral. É possível que vendo no cinema a experiência seja muito melhor, mas em casa é um filme maçante. E pouco envolvente como cinema, parecendo teatro filmado mesmo. E nem gostei tanto da caracterização de Viola Davis assim, no papel de esposa do personagem de Denzel. Ver em casa foi meu ato de rebeldia por terem colocado o filme para estrear uma semana depois da cerimônia do Oscar. Para não dizer que não gostei de nada, o papel do filho mais novo do Denzel é bom, poderia ter rendido mais. Há uma sequência poderosa: o diálogo duro do Denzel com o filho. Aquilo dói pra caramba. Vencedor do Oscar de melhor atriz coadjuvante para Viola Davis. Indicado a outras três categorias (filme, ator e roteiro adaptado)

O APARTAMENTO (Forushande)

É o menos criativo e bonito filme de Asghar Farhadi, dentre os quatro que vi do diretor. Creio que o meu preferido ainda é O PASSADO (2013), realizado na França. Mas O APARTAMENTO (2016), de volta ao Irã, é também muito bom de ver. Só peca lá pelo final, infelizmente. Gostei muito do casal de protagonistas. E do quanto é incômodo ver aquela situação de difícil comunicação após um ato de violação do corpo de uma mulher, especialmente quando estamos falando de uma mulher de uma cultura ainda mais complicada no que se refere aos costumes e aos tabus. Dá para lembrar de O SILÊNCIO DO CÉU, de Marco Dutra, que eu acho um filme muito mais bem resolvido, mas a situação em O APARTAMENTO é mais delicada justamente por causa da religião e dos costumes do povo iraniano. A cena em que o marido consegue desmascarar o sujeito que agrediu e estuprou sua esposa mexe, ao mesmo tempo, com nossos sentimentos de revolta e de pena. Tudo misturado. Vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

quarta-feira, julho 12, 2017

A UM PASSO DA LIBERDADE (Le Trou)

Em todos esses anos como cinéfilo não tive tanto interesse em conhecer a obra de Jacques Becker. Muito provavelmente por ele ser um diretor que não foi tão badalado quanto contemporâneos seus como Robert Bresson e Alain Resnais, mas também por não integrar o corpo de cineastas que formaria a Nouvelle Vague. Uma pena, pois a força deste seu último filme, A UM PASSO DA LIBERDADE (1960), finalizado pouco antes de sua morte, é impressionante. E só pela forma como ele trata de estender o tempo já se percebe que ele era tão vanguardista quanto seus colegas conterrâneos citados.

A UM PASSO DA LIBERDADE é também um deleite para quem gosta de filmes sobre tentativas de fuga. É curioso, aliás, por que não fazem mais filmes desse subgênero, já que boa parte de obras desse tipo, como FUGINDO DO INFERNO, UM SONHO DE LIBERDADE, ALCATRAZ - FUGA IMPOSSÍVEL, PAPILLON, A GRANDE ILUSÃO, O SOBREVIVENTE etc. têm bastante apelo popular. Incluo nessa categoria o meu favorito, UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU, de Robert Bresson.

O filme de Bresson é o que é mais frequentemente comparado ao A UM PASSO DA LIBERDADE. Tanto pelo intervalo pequeno de tempo de cada produção quanto pelo fato de ambos os filmes não terem um viés tão comercial. No caso do filme de Becker, a trama se passa quase que exclusivamente em um cubículo, a cela onde convivem quatro prisioneiros que planejam uma fuga e mais um novato que acabou de chegar e que deixa os demais desconfortáveis: eles devem desistir do plano ou contar ao rapaz? Será ele de confiança?

Pouco sabemos sobre Gaspard (Marc Michel), mas, como o filme começa sendo narrado pelo seu ponto de vista (ou quase isso), é de se esperar que ele seja um personagem de confiança, embora saibamos muito pouco dos motivos de ele estar na prisão e também do porquê de ele ter sido transferido de cela. De todo modo, ele parece se integrar bem ao grupo, ainda que seja sempre tratado de maneira diferente pelos demais.

Um dos aspectos bem curioso de A UM PASSO DA LIBERDADE é que todo o elenco é composto por então não-atores e que um deles, Jean Keraudy, o Roland do filme, interpreta a si mesmo. Ele esteve naquela prisão (recriada em estúdio) e foi o grande mentor dessa tentativa de fuga que inspirou a realização de um romance escrito por José Giovanni e que posteriormente se transformaria neste fantástico filme tão cheio de tensão, dirigido por Becker.

É também uma obra que trata de camaradagem masculina, comparável a muitos exemplares de Howard Hawks. A UM PASSO DA LIBERDADE até poderia explorar mais a tensão que é viver junto em um único cubículo, dormindo no chão e compartilhando aquele pequeno espaço, mas a intenção também é outra, já que todos estavam unidos por um objetivo único: sair dali. E difícil não torcer por eles. E o que dizer da cena da rua? Quase sentimos o ar da liberdade e o cheiro da noite naquele momento. Esses e outros detalhes fazem deste um filme singular.

terça-feira, julho 11, 2017

A GAROTA OCIDENTAL - ENTRE O CORAÇÃO E A TRADIÇÃO (Noces)

Certos filmes se fazem necessários menos por suas implicações estéticas e mais por sua necessidade de mostrar ao mundo certas injustiças sociais. Afinal, vivemos na era da informação e certas coisas que a mulher tem suportado durante séculos e séculos precisam ser, a princípio, conhecido de todos, para que então algo possa ser feito, mesmo em se tratando de uma cultura muito resistente, que é a cultura muçulmana, que se subdivide em variados povos, etnias e crenças, mas que em qualquer lugar que se vá, vemos a mesma situação que coloca a mulher como a que mais sofre violência, abuso e falta de liberdade.

No caso de A GAROTA OCIDENTAL - ENTRE O CORAÇÃO E A TRADIÇÃO (2016), de Stephan Streker, somos apresentados à história de Zahira (Lina El Arabi), uma jovem paquistanesa que é obrigada pela tradição familiar a escolher um homem paquistanês, mesmo morando em uma moderna cidade belga e bastante disposta a se opor às vontades de sua família. Para piorar ainda mais a situação da pobre moça, ela está grávida de um rapaz que não quer assumir a paternidade. Ela tenta, em algum momento, fazer o aborto, mas é impedida por sua consciência. Ela pede para que o procedimento seja interrompido.

Um dos grandes méritos do filme é nos colocar no lugar de Zahira, já que desde o começo do filme sentimos uma angústia que permanece até o fim da projeção. Aliás, que permanece um bom tempo depois que os créditos sobem e voltamos às nossas casas, um bocado tristes pela situação de uma entre tantas mulheres paquistanesas (ou de outra nacionalidade mesmo) que acabam tendo o mesmo fim. E será que a culpa do destino de Zahira (que eu não disse qual foi) é da religião e da cultura, que aprisionam as pessoas, ou há algo que se aproxima de maldade pura nisso? Sei que no que é mostrado no filme é uma questão complexa, mas não deixamos de fazer esse tipo de questionamento.

O filme tem uma aproximação tão forte com a protagonista que quase se aproxima de um registro documental, com uso de câmera na mão em diversos momentos. Mesmo os momentos em que Zahira tenta se libertar, fugindo de casa ou mesmo da cidade, com um rapaz que diz gostar dela, parece inquietante, pois há sempre uma impressão de algo muito ruim que está prestes a acontecer. Isso demonstra a força da direção de Streker, este cineasta belga que está tendo sua primeira obra lançada no Brasil em circuito comercial. E talvez tenha chamado atenção dos distribuidores justamente pela temática mais apelativa, no bom sentido do termo.

domingo, julho 09, 2017

CERTAS MULHERES (Certain Women)

Entre os filmes que não chegaram aos cinemas brasileiros, CERTAS MULHERES (2016), de Kelly Reichardt, talvez seja o que mais fez falta na telona. Não que seja uma obra de muitos planos gerais ou coisas do tipo. É justamente essa aproximação mais requerida entre personagem e espectador que seria importante na telona. Porém, na falta de uma telona, ver o filme com o espírito tranquilo, numa madrugada dessas, também funciona que é uma beleza. Inclusive para nos deixar desconfortáveis com suas histórias, sendo que a minha preferida e mais impactante, no sentido de trazer dor e angústia para o lado de cá, é a que traz Kristen Stewart como uma professora de Direito e Lily Gladstone como a vaqueira de jeito simples que fica encantada com aquela jovem mulher que leva quatro horas para chegar até aquela cidadezinha.

A beleza de cada palavra não dita, os momentos em que os olhares se encontram e principalmente não se encontram – Kristen é ótima em fazer o tipo tímida e imaginem ela dentro de uma sala de aula, toda desconcertada –, tudo neste terceiro segmento contribui para que seja uma leve e gentil facada no peito. E este segmento é o que mais torna a obra de Reichardt valiosa e muito parecida com alguns contos modernistas que lidam com problemas simples e do dia a dia de certas mulheres. É possível se lembrar de Clarice Lispector, Katherine Mansfield ou Virginia Woolf. O que, aliás, é muito bom, levando em consideração que muitas vezes o cinema parece estar um pouco parado no tempo, em sua estrutura convencional.

As demais histórias, ainda que menos impactantes, não deixam de ter também o seu valor, principalmente pela força das atrizes que as interpretam. A primeira traz a grande Laura Dern como uma advogada que tenta ajudar um cliente frustrado. É a história em que mais coisas acontecem, ainda que o tom seja exatamente o oposto de um filme de plot, levando em consideração que há uma situação envolvendo polícia e refém.

Numa dessas histórias em que nada parece estar acontecendo, vemos Michelle Williams fazendo um papel bem distinto do visto em MANCHESTER À BEIRA-MAR. O tom é mais sutil, mas ela traz igualmente aquele sorriso sem graça que lhe caracteriza há algum tempo. Ela está acampando com o marido e a filha adolescente e percebemos que há um atrito entre ela e a filha. Mas o que mais torna a história incômoda é a conversa que ela tem com um senhor que mora isolado. Ela deseja comprar dele umas pedras que remontam a tempos históricos dos Estados Unidos. O velho senhor não parece muito feliz com a proposta, embora não negue doar as pedras. No fim do segmento, fica aquele gosto amargo. Mal sabíamos que um amargo maior ainda estaria por vir no melhor segmento, o que traz a já citada história estrelada por Kristen Stewart, que está cada vez mais se mostrado uma atriz de primeira grandeza. De dar gosto mesmo.

Quanto à diretora Kelly Reichardt (vou demorar um pouco para aprender a escrever o nome dela) , é bem o caso de ir atrás de outras de suas obras, até porque este é apenas o sexto longa-metragem dela. Um deles, inclusive, WENDY AND LUCY (2008), traz Michelle Williams como protagonista.

sexta-feira, julho 07, 2017

HOMEM-ARANHA – DE VOLTA AO LAR (Spider-Man – Homecoming)

O novo filme do Homem-Aranha chega, dessa vez, em parceria com os estúdios Marvel, o que, em parte, é algo bom. O ideal seria se todos os heróis da Marvel pudessem fazer parte desse Universo Compartilhado, embora toda essa coisa tenha uma aspecto comercial que acaba exigindo do espectador um conhecimento de todos os outros filmes do estúdio. Afinal, todos eles estão conectados.

No caso de HOMEM-ARANHA – DE VOLTA AO LAR (2017), do pouco conhecido Jon Watts, a principal conexão é com CAPITÃO-AMÉRICA – GUERRA CIVIL (2016), que trouxe a primeira aparição do personagem dentro desse universo. E o interessante é que a intenção é mostrar um Aranha/Peter Parker mais próximo das histórias de Stan Lee e Steve Ditko, ou seja, um adolescente desajeitado e com pouca popularidade na escola.

Ao mesmo tempo, há uma simbiose com a versão Ultimate do personagem, já que temos aqui a figura de um melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), um gordinho trazido da versão de um universo alternativo criada pelo roteirista Brian Michael Bendis para o personagem. Como Ned é um personagem simpático, não deixa de ser bem-vindo. O problema é que ele, assim como tantos outros elementos do filme, são feitos para fazer o público rir e não são eficientes nesse sentido. O que, aliás, é quase uma constante em grande parte dos filmes da Marvel, mas que aqui sofre muito mais com esse problema.

Só para efeito de comparação, MULHER-MARAVILHA, de Patty Jenkins, sem se esforçar muito para fazer o público rir, consegue fazer isso com muito mais naturalidade e alcança um público muito maior. Sabemos que são dois estúdios diferentes e rivais, mas com a distância de lançamento tão curta entre os dois filmes, fica inevitável a comparação, levando em consideração esse quesito pouco ou nada eficiente. Aliás, também não funcionam em quase nenhum momento as cenas de ação, sem impacto.

Então, o que afinal funciona em DE VOLTA AO LAR? Funciona Michael Keaton no papel do Abutre. Genial, aliás, terem escalado o ator, logo depois de ele ter interpretado um super-herói alado, Birdman, no premiado filme de Alejandro González Iñárritu. Sem falar que Keaton já foi o Batman também. Aqui seu personagem está presente duas das poucas cenas que realmente funcionam bem no filme: a cena da visita à casa de Liz (Laura Harrier), o interesse amoroso de Peter; e a cena no carro, em conversa com Peter. Ambas trazem elementos de suspense que até então o filme não havia explorado. Vendo a filmografia do diretor, temos pelo menos dois filmes dos gêneros suspense e terror, CLOWN (2014) e A VIATURA (2015), e é bem provável que isso seja o forte de Watts.

Então, é possível que estejamos diante de um jovem diretor talentoso que, tendo que se submeter às regras de um grande estúdio para fazer um filme de ação sem tempo para o público pensar ou sentir, prejudica a si e à sua realização milionária. A ideia da realização não é ruim. Vendo os créditos finais, com imagens de desenhos parecidos com os de uma criança e ao som de "Blitzkrieg Bop", dos Ramones, nota-se que a vontade de voltar às origens do herói falou forte, embora, paradoxalmente isso tenha que conviver com a alta tecnologia do traje criado por Tony Stark (Robert Downey Jr.), o que faz com que às vezes pensamos estar vendo um filme de um Homem de Ferro mais desastrado.

Mas isso não deveria ser um obstáculo. Afinal, as aparições do Homem de Ferro são apenas pontuais, e o Homem-Aranha muitas vezes procura enfrentar situações mais corriqueiras do seu bairro, como ladrões pouco perigosos ou coisas do tipo. A luta com o Abutre, que demora tempo demais para acontecer, é, portanto, seu batismo de fogo. Há outros vilões conhecidos dos fãs do herói aracnídeo no filme, mas suas aparições são mais discretas e, quem sabe, funcionem como um aperitivo para um segundo filme.

No mais, também podemos ver como um acerto a controversa escalação de Marisa Tomei como a Tia May. É inusitado ver uma mulher tão jovem e bonita fazendo o papel de uma personagem clássica representada nos quadrinhos tradicionalmente como uma senhora idosa. A May de Marisa Tomei funciona até mesmo para que o mulherengo do Tony Stark lhe faça uma piada/elogio em uma cena no início do filme. Outras opções curiosas envolvem uma cota de etnias que muda a caracterização de alguns personagens de apoio. De todo modo, o mais importante é que os produtores consigam acertar de verdade no segundo filme. Senão, os pedidos de "volta, Sam Raimi!" só tenderão a aumentar.

quarta-feira, julho 05, 2017

O TURISTA ACIDENTAL (The Accidental Tourist)

Considero 1989 o ano do início da minha cinefilia, quando comecei a ir ao cinema toda semana. Foi no início deste ano que comecei a comprar a então ótima revista SET – lembro da primeira que comprei, com o Clint Eastwood na capa, em uma matéria sobre o último filme da série Dirty Harry. E foi nessa época também que surgiram os candidatos ao Oscar, que pra mim foram marcantes até hoje, já que é a única edição que eu lembro de todo os candidatos à categoria principal. Junto com O TURISTA ACIDENTAL (1988), de Lawrence Kasdan, concorriam LIGAÇÕES PERIGOSAS, de Stephen Frears, MISSISSIPI EM CHAMAS, de Alan Parker, UMA SECRETÁRIA DE FUTURO, de Mike Nichols, e o grande vencedor da estatueta, RAIN MAN, de Barry Levinson.

O TURISTA ACIDENTAL era o único que eu não tinha visto por completo, mas tinha uma boa recordação dos trechos que vi numa madrugada na televisão. Vai saber o motivo de eu não ter tentado vê-lo integralmente até a noite de ontem. Mas, antes tarde do que nunca. E foi muito gostoso entrar nessa máquina do tempo e voltar a esse momento tão especial para mim e também ter a chance de ver mais um belo filme de Kasdan, um dos cineastas mais interessantes dos anos 1980, e também um grande roteirista, que é como ele costuma ser lembrado hoje.

O TURISTA ACIDENTAL é mais um acerto de um cara que começou chutando a porta na direção, com o neonoir quente CORPOS ARDENTES (1981), que também contava com o casal William Hurt e Kathleen Turner. Em O TURISTA ACIDENTAL, porém, a participação de Kathleen é bem menor do que se imagina, levando em consideração o nome dela aparecer em segundo lugar nos créditos, antes de Geena Davis, que aparece bem mais e que levou o Oscar de atriz coadjuvante. Aliás, foi um desses casos de atriz coadjuvante que não engrenou em Hollywood, por mais que neste filme sua personagem seja mesmo adorável em sua estranheza.

Temos aqui uma narrativa que fala de um casal que sofre há mais de um ano a perda do filho. O homem é um escritor de livros de viagem (Hurt). Logo no começo, ele sofre com a surpresa da esposa (Turner), que quer o divórcio, pois não consegue mais ver sentido na relação dos dois depois do ocorrido e depois que a depressão tomou conta dela. Ele fica sem chão, embora o personagem de Hurt já seja um tanto sem entusiasmo desde o começo da narrativa. Aliás, esse tipo de personagem costuma combinar com o ator.

O interessante de O TURISTA ACIDENTAL é que o filme não se atém a esse aspecto do fundo do poço dos personagens. Trata-se mais de uma história de reerguimento da vida de um homem, principalmente depois que ele conhece outra mulher (Davis), que é completamente o oposto dele, no que se refere a uma abordagem. Ela, com muito bom humor e bastante transparente; Ele, por sua vez, é o agente complicador da relação. Relação que fica mais bonita ainda quando entra em cena o filhinho dela.

Outra coisa bacana de assistir a esses filmes dos anos 1980 e 90 é ver alguns atores mais jovens. Aqui temos Bill Pullman, dez anos antes de estrelar a obra-prima A ESTRADA PERDIDA, de David Lynch. Em O TURISTA ACIDENTAL ele é o jovem editor que se apaixona pela irmã do personagem de Hurt. Vê-se, mais uma vez, que o filme brinca com essa coisa de unir tipos diferentes, saídos de realidades distintas, fazendo par com pessoas estranhas ou geralmente não muito benquistas por uma sociedade que vê mais a superfície. E o filme de Kasdan trata isso com tanta delicadeza que chega a encher o coração ver aquele final, tão sutil, mas ao mesmo tempo tão carregado de sentimento.

segunda-feira, julho 03, 2017

Z – A CIDADE PERDIDA (The Lost City of Z)

Para um filme de James Gray, não deixa de sentirmos um tantinho de desapontamento com este novo Z – A CIDADE PERDIDA (2016), por mais que seja, no fim das contas, um trabalho que possa se beneficiar com o tempo, como acontece com muitas outras obras de grandes cineastas. Isso é o meu lado fã de James Gray falando forte e torcendo para que não seja um sinal de um declínio na excelência que se via em seus filmes desde o primeiro longa, FUGA PARA ODESSA (1994).

Como tema comum a outros títulos do diretor está a questão da fuga (ou tentativa de fuga) da família por parte do protagonista. Isso se vê de forma forte em AMANTES (2008), em que a família é vista como algo opressivo. Mas Z – A CIDADE PERDIDA acaba trilhando um caminho da grandiloquência épica que ERA UMA VEZ EM NOVA YORK (2013) já sinalizava, com uma história um tanto intimista, mas contada em tom grandioso e trágico.

Os horizontes geográficos são ampliados em Z, que nos apresenta a Percy Fawcett (Charlie Hunnam), um coronel do exército britânico vivido que desapareceu na selva amazônica nos anos 1920 à procura de uma cidade inexplorada que renderia para ele e para o Império Britânico um feito inédito. Na primeira expedição ele quase morre sob o ataque de uma tribo de índios canibais, mas tem a sorte de conseguir dialogar com os nativos e de voltar para casa, ainda que por pouco tempo, dizendo, junto com seu fiel escudeiro Henry Costin, vivido por um irreconhecível Robert Pattinson, que tinha motivos mais do que suficientes para retornar àquele lugar perigoso, a fim de encontrar enfim a tal cidade perdida.

O que chega a incomodar um pouco é mais uma vez a performance um tanto apagada de Sienna Miller, como a esposa de Fawcett. Ela é mais uma vez a esposa do sujeito que vive perigosamente, mas que continua cuidando da casa e dos filhos. Esse papel lembrou o de SNIPER AMERICANO, de Clint Eastwood. Não sei o que acontece com a atriz, mas ela costuma ser tão bela quanto esquecível. E neste filme de Gray não é diferente.

Por outro lado, o jovem Tom Holland, que será mais famoso a partir desta semana como o novo Peter Parker, está muito bem no papel do filho que tem ao mesmo tempo raiva do pai (por sua ausência) e uma admiração e vontade de seguir seus passos como explorador. Sua passagem pelo filme é breve, mas marcante. Ainda mais porque ele entra em um momento em que a narrativa parece estar cansando e funciona para dar um novo gás em seu momento final. Vale dizer que o melhor é ver Z sem saber nada sobre a história da vida de Fawcett, até para aproveitar também os momentos de surpresa, tensão e aventura que o filme proporciona.

sábado, julho 01, 2017

DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (Les Demoiselles de Rochefort)

Que sorte a minha poder ver no cinema duas obras fundamentais de Jacques Demy, ainda que com um espaçamento considerável. Minha experiência com OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (1964) foi tão intensa que alçou o filme a uma categoria muito difícil para alguém que já tem quase 30 anos de cinefilia: em recente lista solicitada pelo amigo Chico Fireman para uma enquete em seu belo blog, ele pediu a várias pessoas que listassem seus 20 filmes favoritos de todos os tempos. Nem pensei duas vezes em incluir o premiado musical de Demy entre eles.

Diferente da produção romântica vencedora da Palma de Ouro em Cannes, o filme seguinte de Demy é muito mais solar, quase que como um contraponto ao anterior. Se OS GUARDA-CHUVAS fez milhões de pessoas chorarem com o drama da separação de um casal, DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (1967) foi feito como uma celebração da vida e dos amores. E ainda mais devedor dos musicais de Hollywood, com direito até mesmo a uma participação muito especial de Gene Kelly. E que bom que é ver Kelly em cena neste filme!

Ver DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS pela primeira vez neste momento é também constatar o quanto LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES, de Damien Chazelle, bebeu da fonte do filme de Demy. A primeira cena, com vários carros parados antes de entrar na cidade de Rochefort, é bem similar à vista em LA LA LAND. Mas se o filme de Chazelle é feito para abarcar as quatro estações e diversos estados de espírito, DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS é puro verão, com muita luz e muitas cores, e muita gente dançando como se as coisas ruins do mundo não existissem. Aliás, a guerra até é citada, mas aquela pequena cidade funciona como um oásis de felicidade, por mais que as pessoas prefiram sair de lá e ir para Paris. Ali é só um porto, onde os mais jovens não devem se demorar muito.

Na segunda de três colaborações com Jacques Demy – a terceira seria em PELE DE ASNO (1970) –, Catherine Deneuve está muito à vontade no papel de uma das talentosas irmãs que moram em Rochefort à procura do amor perfeito. A outra é a irmã de Deneuve, Françoise Dorléac, que teve carreira curta. Ela morreu em um acidente de carro em Nice com apenas 25 anos justamente no ano de lançamento de DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS, o que não deixa de ser uma nota muito triste para se falar de um filme que exalta tanto a alegria.

Este trabalho de Demy também conta com a excepcional música de Michel Legrand, que tanto emocionou em OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR. Aqui, seu desafio é sair das lágrimas do filme anterior e partir para uma felicidade contagiante, e dessa vez tentando emular um pouco mais o espírito dos musicais americanos. O trabalho de coreografia, pelo menos, é bem parecido e sabemos o quanto os franceses foram (e são) admiradores dos cineastas americanos por mais diferenças que tenham entre si.

Em um momento em que os musicais estavam chegando ao fim em Hollywood (com o advento da contracultura era natural que isso acontecesse), Demy presta um tributo lindo ao gênero, fazendo algo que os americanos achariam imperfeito, já que seus bailarinos não têm a mesma precisão dos vistos em musicais americanos. Essa imperfeição, no entanto, faz parte do charme do filme, e acaba lembrando outro musical por assim dizer imperfeito, o belo TODOS DIZEM EU TE AMO, de Woody Allen, feito cerca de 30 anos depois.

sexta-feira, junho 30, 2017

FILHOS E AMANTES


Confesso que meu principal interesse em rever FILHOS E AMANTES (1981) era ter a chance de novamente apreciar a beleza de Lúcia Veríssimo, que tão pouco cinema fez. Na época da realização deste filme de Francisco Ramalho Jr. ela não era tão conhecida e por isso seu nome aparece apenas como terceiro nos créditos, logo após o título e logo após os nomes de Denise Dumont e Nicole Puzzi. A Nicole, por mais brilhante que seja, inclusive, nem tem um papel tão marcante, mas justamente por ter fama maior foi a única que apareceu no cartaz. Lembrando que foi em um filme com Nicole Puzzi, o ótimo ARIELLA, de John Herbert, que Lúcia primeiro apareceu no cinema, creditada com outro nome. (Corrijam-me, por favor, se a informação não proceder.)

Curiosamente, as três atrizes, principalmente Nicole Puzzi, abrilhantaram filmes de Walter Hugo Khouri. Denise Dumont esteve na obra-prima EROS – O DEUS DO AMOR (1981) e Lúcia apareceu em cena muito especial de AS FERAS (1995/2001). Quanto a Nicole Puzzi, ela teve a honra de estar em quatro trabalhos do nosso maior cineasta, começando por O PRISIONEIRO DO SEXO (1978). Mas qual é o sentido de falar tanto assim de Khouri, senão o amor que temos por ele? Creio que o fato de FILHOS E AMANTES possuir muitas das características vistas no cinema mais psicológico de Khouri, embora mostre o sexo como algo muito mais livre e sem estar tão ancorado em angústias.

As angústias são sentidas por Silvia (Veríssimo), que está grávida do namorado Roberto (André de Biasi) e que teme contar a ele a notícia, para que isso não estrague as férias que eles passarão em uma casa de campo em Itatiaia, no sul do Rio de Janeiro. É inverno e quase sentimos o frio também, principalmente na cena em que os personagens vão tomar banho nus em uma cachoeira, e acabam por mexer com ciúmes, desejos e situações complicadas, o que é natural para pessoas tão jovens, belas e cheias de vida, mas ao mesmo tempo tão griladas.

As anfitriãs da casa são a simpática Marta (Denise Dumont) e a reservada Bebel (Nicole Puzzi). A casa acaba também recebendo outro casal em uma visita surpresa, um ex-namorado de Marta, Dinho (Hugo DellaSanta), e sua atual namorada Carminha (Rosina Malbouisson). Diria que por mais que a presença desses dois seja importante para tornar ainda mais interessante a ciranda amorosa que circulará ao longo do filme, é nas subtramas dos dois que o filme se perde um pouco. Principalmente quando tenta emular o estado de espírito lisérgico de Dinho, viciado em drogas injetáveis.

Essas situações perigosas e dolorosas da vida (inclua-se aí a questão do aborto, que é debatida sem tomar partido) contribui para o aprofundamento dos personagens. E nisso é muito bem-vinda a cena em que Silvia e Dinho conhecem um casal mais velho, vivido por Walmor Chagas e Renée de Vielmond. Ele está com câncer terminal e abraça os instantes de vida que lhe restam com muito prazer. O encontro com esse casal e os momentos especiais desse encontro trazem algo de muito positivo para nosso espírito, tornando os demais problemas até banais, e o gosto pela vida e pelos pequenos prazeres de fundamental importância.

Daí a cena de sexo entre Marta e Roberto ser tão bonita e tão representativa desse desapego com as coisas que não importam. A própria Denise Dumont está muito bem nesse papel de mulher disposta a se libertar das amarras que a sociedade às vezes impõe. "Não vamos misturar as coisas" e "eu tenho um carinho muito grande por você" são coisas que ela diz sorrindo para o encantado Roberto.

FILHOS E AMANTES pode até não ser um filme perfeito, mas cada vez que penso nele, mais fico encantado com algumas memórias que ele traz. Claro que a admiração pela beleza próxima à perfeição de Lúcia Veríssimo contribui bastante para o nosso constante interesse, mas sabemos que não é só isso, que Francisco Ramalho Jr. e seu belo elenco conseguiram fazer um trabalho que merece ser visto e revisto com prazer.

quinta-feira, junho 29, 2017

BETTER CALL SAUL – 3ª TEMPORADA (Better Call Saul – Season Three)


Finalmente uma série, dentre as mais recentes, que não teve curva descendente neste ano de 2017. Ao contrário, a terceira temporada de BETTER CALL SAUL (2017) chega a se equiparar, muitas vezes, aos melhores momentos de sua "série mãe", BREAKING BAD (2008-2013). Até porque, cada vez mais, o destino de seus personagens se encaminha para onde os conhecemos na cultuada série de Vince Gilligan.

E, se no começo, acreditava-se que os únicos personagens já conhecidos a serem explorados com profundidade no spin-off seriam apenas Jimmy/Saul (Bob Odenkirk) e Mike (Jonathan Banks), na terceira temporada, temos a alegria de ver também a entrada em cena de Gus (Giancarlo Esposito) e Nacho (Michael Mando), ambos do bloco mais ligado à vida perigosa do tráfico de drogas e do rastro de mortes que esse mundo traz. Sem esquecer, claro, do velho Hector Salamanca (Mark Margollis), antes de aparecer imobilizado em BREAKING BAD. Deste modo, o aspecto mais criminoso da série caminha em paralelo com as intrigas entre advogados.

Com tanta gente boa entrando novamente em cena, é até natural que as subtramas envolvendo Mike tenham sofrido um pouco, embora o personagem continue despertando admiração e tenha ganhado alguns ótimos momentos. Os criadores e roteiristas, porém, tomaram o devido cuidado para que o protagonista da série não fosse eclipsado pelas novidades, como de fato não foi. A trajetória de Jimmy continua empolgante de acompanhar. Ainda mais agora que vamos conhecendo mais do lado mais sombrio de sua personalidade, quase o aproximando de Walter White, mais ainda dotado de uma bondade de coração que compensa sua tendência a fazer com que as pessoas caiam em ciladas, para benefício próprio.

No caso do irmão, o arrogante Chuck (Michael McKean), o que Jimmy faz com ele no tribunal chega a ser perturbador. O que deveria trazer um bom gosto de vingança sai como um tiro pela culatra. Ao menos no espectador. E também em Kim (Rhea Seahorn), que não fica tão animada assim com o fato de ter vencido um homem doente no tribunal, por mais que esse homem doente não tenha se mostrado nada amoroso com o irmão. Quanto a Kim, é uma personagem cada vez mais adorável em sua seriedade e delicadeza.

A terceira temporada potencializa os problemas de Chuck com eletricidade, tornando-o um personagem até capaz de despertar empatia no espectador. O que não quer dizer que deixemos de torcer por Jimmy. As cenas dele prestando serviço comunitário recolhendo lixo e tentando conseguir dinheiro para pagar o aluguel da firma de advocacia são exemplos disso. Assim como a admiração que temos por alguém que consegue resolver de maneira inteligente tantos problemas que a vida lhe reserva, por mais que a saída não seja de natureza tão ética.

Vale dizer que muito da força de BETTER CALL SAUL vem da elegância das filmagens, do excelente trabalho de direção de arte, e também dos bem cuidados diálogos e da vontade de aprofundar a psicologia de seus personagens. A série está bem longe de ser uma qualquer dentro da atual safra. Em vez disso, o que esperamos é que a evolução continue.

Melhores episódios: "Chicanery", com uma emocionante e tensa disputa entre Jimmy e Chuck no tribunal; "Expenses", com Jimmy suando muito para quitar suas dívidas das maneiras mais criativas; "Fall", com Kim enfrentando desafios no trabalho; e "Lantern", com o colapso de Chuck.

sábado, junho 24, 2017

AO CAIR DA NOITE (It Comes at Night)


E temos um belo e fresco filme sobre o fim do mundo como o conhecemos, um mundo devastado por uma doença contagiosa e mortal. Não é novidade o tema, mas é novidade o modo como a história é contada. Na trama, só o que conhecemos é uma pequena família. Depois um outro personagem adentra a casa e uma nova família é apresentada. Novamente o diretor Trey Edward Shults, de KRISHA (2015), trata de estruturas familiares.

AO CAIR DA NOITE (2017) se distancia do que normalmente se vê de mais vulgar no gênero. Há muito pouco gore e os sustos são bem discretos. É um filme que não se apoia em sustos, aposta na atmosfera, no medo do desconhecido, no que está escondido na floresta, no que está invisível aos nossos olhos, mas visível aos olhos dos personagens, como é o caso de algo que Travis (Kelvin Harrison) vê e a câmera nos nega a visão. Os pesadelos de Travis, sua natureza, são baseados naquilo que lhe impressiona: os medos, os desejos, os traumas.

Uma das primeiras cenas é extremamente cruel. O avô moribundo, pai de Sarah (Carmen Ejogo), é levado em um carro de mão para ser abatido e enterrado longe, na floresta. O neto Travis está junto com o pai, Paul (Joel Edgerton), o chefe da família que toma medidas desesperadas para manter a si e os seus vivos diante naquele cenário de fim de mundo.

Esse tom mórbido e apocalíptico contrasta com a beleza das imagens (seja dos exteriores, seja de interiores), tão bem enquadrados pela câmera de Shults. Mesmo quando não há nada no fundo, apenas a escuridão, como na cena do primeiro jantar sem a presença do avô, até a escuridão funciona como um trabalho de direção de arte admirável. Mais adiante, de dia, teremos vislumbres da casa, que possui uma intrigante porta vermelha, que se destaca do restante da mobília.

Há uma cena exterior digna de nota: Paul leva Will (Christopher Abott) à bordo da caminhonete para buscar a mulher e o filho pequeno para morarem juntos com sua família. Mas o clima de tensão faz com que Paul fique constantemente olhando para Will no retrovisor da caminhonete. O que se segue a seguir é quase esperado, mas é adicionado a algo mais, que serve para mostrar um pouco daquele mundo sem amigos e com racionamento de água e alimentos. Quase um THE WALKING DEAD, mas sem zumbis.

Cada cena de AO CAIR DA NOITE tem a sua importância, em um filme em que pouca coisa de fato acontece: não há monstros ou coisas do tipo. Mas é justamente por isso que o segundo filme de Shults é cheio de tanta classe, já que tem um pé no arthouse, embora já distante do drama tenso KRISHA. É cinema de gente grande, desses que restabelece a fé na renovação do gênero horror.

Quanto às últimas cenas, um spoiler, quem prestar atenção nas mudanças de janela vai perceber que são semelhantes às janelas usadas nos pesadelos de Travis. O que pode significar que aquilo tudo, aquela série de cenas mais movimentadas, é um pesadelo do rapaz que tomou conta da realidade (uma ideia interessante). Porém, há algo que desmonta ou perturba essa teoria, o que também eleva AO CAIR DA NOITE a forte candidato a melhor filme de horror do ano. E em um ano que já teve CORRA!, de Jordan Peele.

sábado, junho 17, 2017

A MÚMIA (The Mummy)

E a Universal tenta mais uma vez trazer seus monstros clássicos de volta. Foram um sucesso gigantesco nas décadas de 1930-40 e tiveram uma revitalização pelos estúdios Hammer nos anos 1960-70. A tentativa de fazer filmes mais sérios e supostamente mais fieis a suas origens literárias na década de 1990, com DRÁCULA DE BRAM STOKER, de Francis Ford Coppola, e FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY, de Kenneth Branagh, foram da rival Columbia e o segundo filme acabou não agradando muito. Por isso, este novo A MÚMIA (2017), estranhamente estrelado por Tom Cruise, tem mais em comum mesmo com outra produção da Universal: justamente a aventura bem-humorada A MÚMIA (1999), de Stephen Sommers.

Daí vem a justificativa de ter um ator de filmes de ação como Tom Cruise encabeçando o elenco desta superprodução com sabor de filme B. Ou seja, encarando o filme como mera diversão escapista e nada mais, é possível gostar um pouco de A MÚMIA, de Alex Kurtzman, que brinca, inclusive, com a inclusão de outro monstro clássico na trama, ainda que isso conte mais pontos negativos do que positivos à produção.

O curioso é essa necessidade de encher o filme de efeitos especiais e de gente correndo o tempo todo. Isso acaba tornando, paradoxalmente, o filme com visual falso e andamento por vezes maçante. E pensar que é bom o A MÚMIA (1932), o original de Karl Freund, que não precisava disso. De todo modo, não devemos nos prender a propostas antigas, mas às novas, aceitando o novo filme como ele é, ou seja, uma brincadeira inofensiva com os gêneros terror, aventura e comédia e que contam com um ator que, apesar de estar em baixa, ainda é considerado do primeiro time de Hollywood. Sem falar na participação de Russell Crowe em um papel que deve render novas aventuras futuras, caso ele tenha se comprometido com o personagem em contrato.

Há pelo menos uma cena digna de nota em A MÚMIA: depois que os personagens de Tom Cruise, Jake Johnson e Annabelle Wallis (do horror ANNABELLE) conseguem descobrir um sarcófago egípcio em pleno Iraque, o plano deles é levá-lo para investigação. Acontece que a múmia que ficou presa por milhares de anos agora tem o poder de fazer um avião cair e trazê-los até onde estão outros objetos necessários para a finalização da maldição da múmia (Sofia Boutella). E a tal cena do avião é quase tão empolgante quanto as ótimas cenas de avião de filmes dos anos 1930. Pelo menos para alguma coisa o orçamento milionário serviu, além de pagar o salário de Cruise e de apostar em efeitos visuais genéricos.

Aliás, vale destacar que A MÚMIA, ao contrário de quase todas os filmes recentes protagonizados por Cruise, não foi produzido por ele. O astro foi convidado a interpretar o tipo que ele já está acostumado a fazer em seus filmes de aventura e ação e não um personagem mais desafiador, como o vampiro Lestat, no hoje cultuado drama de horror ENTREVISTA COM O VAMPIRO, de Neil Jordan.

De todo modo, mesmo com a recepção crítica ruim de A MÚMIA, já estão engatilhados pela Universal novos filmes com outros personagens clássicos do meio, como o Lobisomem, o Médico e o Monstro, Van Helsing, Frankenstein, o Homem Invisível etc. Se a moda agora é trabalhar com universos compartilhados, que o digam os sucessos da Marvel, da DC e até de Star Wars, então, o tal Dark Universe pode ser uma nova galinha dos ovos de ouro nascendo.

sexta-feira, junho 16, 2017

FRANTZ


Às vezes achamos que ver uma adaptação de certa obra que será refilmada pode atrapalhar um pouco sua apreciação, diminuir bastante suas surpresas, por exemplo. Felizmente, não é o que acontece com FRANTZ (2016), do prolífico François Ozon. Isso porque, mesmo depois de se ter visto recentemente NÃO MATARÁS (1932), de Ernst Lubitsch, as surpresas não param de saltar em inúmeros plot twists, ora feitos para nossa diversão, ora feito para machucar ainda mais os personagens e também a nós, espectadores.

No filme de Lubitsch, sabemos desde o início quem é o francês que está naquela cidadezinha alemã que está em luto logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Sabemos que ele está ali para conhecer e pedir perdão à família de Frantz, o rapaz que ele matou no front, durante a guerra. No drama de Ozon, porém, as motivações do jovem francês se constituem um mistério durante boa parte da narrativa.

Ozon, muito habilmente, manipula as expectativas do espectador, ao mesmo tempo que também brinca com subtextos homoeróticos, uma vez que há claramente uma tendência a se acreditar que Adrien (Pierre Liney) tinha algo mais do que uma amizade com Frantz, a partir de imagens em cores que surgem como possíveis flashbacks que mostram alguns bons momentos que os supostos amigos de países inimigos tiveram na França. O jogo de cores, aliás, é muito bonito, e geralmente elas surgem quando há algum momento de paz na trama.

E se não temos um patriarca tão amoroso quanto Lionel Barrymore em NÃO MATARÁS, é porque o cineasta francês opta por enfatizar ainda mais a relação dos jovens: o atormentado Adrien e a moça que casaria com Frantz, Anna (Paula Beer). Há uma cena que traz uma carga gay que torna mais complexa a relação entre Adrien e Anna: Adrien tem a ideia de tirar a roupa para nadar em um lago ali perto, durante uma caminhada com Anna. Sendo Ozon um cineasta que costuma integrar elementos queer em seus filmes com certa frequência, esse não seria o único momento em que poderíamos pensar em Adrien como um rapaz apaixonado não por Anna, mas pelo falecido Frantz.

Ozon, tendo já transitado por diversos gêneros e sabendo lidar tão bem com sentimentos e personagens mais profundos em títulos como O AMOR EM 5 TEMPOS (2004), O TEMPO QUE RESTA (2005) e O REFÚGIO (2009), mais uma vez nos coloca no lugar de uma personagem especialmente atraente. E não é Adrien, mas Anna. Afinal, é pelos olhos dela, principalmente, que vemos o filme. E é pelos olhos dela apenas que o ato final coloca este trabalho como um dos mais brilhantes e mais tocantes da carreira do cineasta francês.

O caminho que a heroína percorre na meia hora final diferencia o trabalho de Ozon completamente do filme de Lubitsch, que até se torna muito mais alegre e simples na comparação com a nova adaptação da peça de Maurice Rostand. No mais, vale deixar registrado: ouvir "A Marselhesa" cantada pelos franceses com sangue nos olhos é de arrepiar. Assim como o destino final dos atormentados personagens. Grande filme.

quinta-feira, junho 15, 2017

ROCK'N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (Rock'n Roll)


A grande surpresa da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês talvez seja a comédia ROCK’N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (2017), de Guillaume Canet. No filme, Guillaume Canet é Guillaume Canet e Marion Cotillard é Marion Cotillard. Pra não mencionar os tantos outros atores e atrizes que interpretam a si mesmos. Pelo menos supostamente. Só por isso, o filme já se torna bastante atraente. Além de se tornar um produto convidativo para que conheçamos mais do cinema francês contemporâneo, já que há várias piadas que só quem conhece as pessoas citadas vão entender melhor.

ROCK’N ROLL é desses filmes que acaba se encaminhando para algo totalmente diferente do que imaginaríamos, o que de certa forma é muito bom. O efeito surpresa é fundamental para que o filme seja apreciado ou até mesmo odiado. A primeira parte do filme nos apresenta a Guillaume Canet, um ator na faixa dos 40 anos que percebe que já não está mais na turma dos jovens astros em ascensão. Isso acontece principalmente em uma entrevista que ele dá com a sua colega de filme vivida por Camille Rowe, belíssima jovem modelo e atriz que interpreta sua filha no filme dentro do filme.

Indignado, Canet não acha nada legal estar fazendo o papel do pai daquela garota. E mais indignado ainda quando sabe de uma lista de atores “pegáveis” do cinema francês e que ele está lá no fim da relação. Quer dizer, não adianta ser um cara estabelecido e ainda por cima casado com Marion Cotillard, a juventude acaba se tornando uma obsessão para ele.

Marion Cotillard parece estar se divertindo muito no papel de uma atriz que tem mania de usar o método de imersão para dar força a seus papéis. É assim que, depois de convidada para atuar em um filme de Xavier Dolan (o não citado É APENAS O FIM DO MUNDO), cisma que precisa estudar e ficar falando no francês de Quebec. E isso não é nada bom para o marido que queria ao menos desfrutar de uma noite de sexo com a esposa.

E aí começam as mudanças de comportamento: se ele não é do tipo que bebe e usa drogas, passa a querer provar para os outros que pode sim entrar nessa vida desregrada, o que acaba rendendo algumas situações engraçadíssimas, como a cena da paralisia facial. Aos poucos, vamos percebendo que o próprio Canet aparece mais envelhecido de propósito para compor esse personagem decadente. Mais a frente, os trabalhos de maquiagem se tornarão fundamentais para a segunda e mais ousada parte do filme.

ROCK’N ROLL é um filme que faz uma crítica a esse modelo de comportamento de querer ser "forever young", mas o faz de maneira muito espirituosa, divertida e sem parecer estar dando uma lição de moral ou coisa parecida. Os excessos são abraçados pelos personagens e a sensação de estranheza acaba sendo mais do que bem-vinda. E se antes não tínhamos tanto motivo para acompanhar a carreira de Guillaume Canet, em detrimento da carreira de sua muito mais famosa esposa, eis o cartão de visita ideal.

segunda-feira, junho 12, 2017

PARIS PODE ESPERAR (Paris Can Wait)


Curiosa a trajetória de Diane Lane. Embora tenha aparecido e se destacado em filmes importantes quando jovem (seu primeiro filme é de 1979), foi com INFIDELIDADE, de Adrian Lyne, já com as pequenas rugas aparecendo, que ela de fato chamou a atenção como protagonista. Em seguida, pôde ser vista em duas comédias leves e agradáveis, SOB O SOL DE TOSCANA e PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS. Tudo isso dentro do curto espaço de 2002-2005. O melodrama NOITES DE TORMENTA, de 2008, em que ela reencontra Richard Gere, talvez tenha sido seu último trabalho de destaque. Na verdade, nem são grandes filmes, mas que se tornam dignos de atenção por causa de Diane.

PARIS PODE ESPERAR (2016) é o seu retorno ao mundo das viagens na Europa e também a uma possível infidelidade, a uma tentação, durante uma viagem de carro de Cannes a Paris. Na trama, ela é Anne, esposa de um produtor de Hollywood (Alec Baldwin) que o acompanha no Festival de Cannes (edição de 2015). Acontece que ela está sofrendo de dores no ouvido e alguém sugere que ela não viaje de avião - o marido está indo a Budapeste antes de ir a Paris. A solução seria encontrar o marido em Paris e um francês amigo do marido, Jacques (Arnaud Viard), se oferece para levá-la à capital.

Há quem vá achar que PARIS PODE ESPERAR é só mais um filme sobre turismo, mas pode ser uma experiência maior e melhor do que se espera. A matriarca Eleanor Coppola se aventura na direção de seu primeiro filme de ficção e sabe acentuar bem não apenas as diferenças entre americanos e franceses, mas também suas afeições mútuas. Vem de muito longe o namoro entre Estados Unidos e França e da mesma forma que tantos cineastas franceses homenagearam obras e diretores americanos, os franceses são apreciados em muitos aspectos pelos americanos, por sua maior sofisticação cultural e culinária.

Enquanto Jacques é o homem que crê que a vida deve ser muito bem vivida a cada momento e cada sabor, Anne é uma mulher essencialmente visual. Ela está sempre tirando fotos de tudo que encontra pelo caminho, da comida, inclusive. Não que isso seja uma simplificação do que hoje se vê nas redes sociais. Suas fotos são mesmo obras de arte, como bem destaca Jacques, sempre elevando o astral de Anne e fazendo-a perceber o quanto ela é uma mulher especial.

Esse francês galanteador tornará a viagem de Anne memorável, embora não se saiba o futuro dos dois. De todo modo, PARIS PODE ESPERAR não é exatamente sobre a relação desse casal e uma possível infidelidade, mas como esse percurso é importante para ambos, como, aliás, é tarefa de todo road movie de vergonha. E também como deve ou deveria ser toda viagem que fazemos, enriquecendo nossa alma através do contato com novas pessoas, novos lugares e novos sabores. Nós, espectadores, ganhamos em um filme como esse um passeio baratinho pela França, além de um olhar de cumplicidade para aqueles personagens. Que o diga o olhar final de Diane Lane para a câmera-espectador.

quinta-feira, junho 08, 2017

BEIJO NA BOCA


Um dos maiores méritos desses filmes brasileiros produzidos no início da década de 1980 é que eles estão mais inundados de uma voltagem erótica e uma maior nudez gráfica que permitem que sejam até hoje muito mais excitantes do que a grande maioria dos filmes pornográficos e com a vantagem de que isso não atrapalhe o andamento e o interesse da trama. É possível dizer isso pegando como exemplo um filme apenas mediano como BEIJO NA BOCA (1982), de Paulo Sérgio de Almeida.

Essas produções realizadas no Rio de Janeiro ainda tinham a vantagem de contarem com grandes nomes da teledramaturgia brasileira, como é o caso aqui do casal vivido por Cláudia Ohana e Mário Gomes, para citar apenas os protagonistas. Ambos funcionam muito bem nos papéis de dois jovens que querem viver uma vida fácil e dedicada principalmente ao prazer, mais especificamente ao sexo, sem qualquer preocupação com trabalho ou coisa do tipo. No entanto, há um preço a se pagar por isso e o filme mostra isso sem parecer moralista. De qualquer maneira, nem é preciso sair por aí dizendo que não se deve matar os ex-namorados da mulher que ama.

Aliás, o interessante do filme está mais em sua primeira metade, que explora a relação dos dois, que, principalmente na primeira cena, no motel, traz uma cena erótica bastante convincente e cheia de sensualidade. O modo como Cláudio Ohana se despe para subir tirando a roupa em cima do corpo de Mário Gomes passa uma vontade, um desejo, que transpira sexo. As demais cenas sensuais não serão tão boas ou convincentes, mas essa compensa as demais.

"Você não sabe o que passa pela cabeça de uma mulher com 21 anos de idade", diz Joana Fomm, no papel da mãe de Celeste, personagem de Ohana, ao marido, um militar linha-dura vivido por Milton Moraes. Esta frase, junto com a apresentação da personagem logo no início, tomando banho em casa depois de um quentíssimo sol de verão na praia, ajudam a dar o tom do calor da personagem e do modo como ela está disposta a entrar de cabeça nas relações físicas.

E é quando ela conhece um sujeito meio malandro em um planetário. Mário, personagem de Mário Gomes, não precisa se esforçar muito para ganhar uma nova namorada. E o modo como ele ama Celeste é de natureza bem carnal. Mário não diz que está apaixonado por ela, ele diz que está completamente tarado por ela. A paixão sobe à cabeça, assim como o ciúme, e Celeste acaba entregando algumas coisas do seu passado, sem saber do potencial de psicopata de Mário.

É quando o filme começa a desandar, embora seja bastante incômoda a cena na praia, em que Mário encontra um ex de Celeste. A cena é violenta e um tanto perturbadora. Nesse sentido, por mais chulo que a obra pareça no desenvolvimento dessa parte criminal, tem como mérito esse sentimento de mal estar provocado por essa cena em particular.

Pode-se dizer que o principal autor do filme é Euclydes Marinho, o roteirista que assinou a minissérie A VIDA COMO ELA É... (1996) e os longas para cinema PRIMO BASÍLIO (2007) e SE EU FOSSE VOCÊ 2 (2009), todas obras dirigidas por Daniel Filho. Enquanto isso, o diretor Paulo Sérgio de Almeida amargaria um fim de carreira triste com alguns horrorosos filmes da Xuxa.

segunda-feira, junho 05, 2017

TWIN PEAKS – O MISTÉRIO (Twin Peaks – The Entire Mistery)



TWIN PEAKS (1990-1991), a série original de David Lynch, nunca deixou de ser vista e revista ao longo de todos esses anos. Tanto por ser cultuada e querida quanto por ser criação (ou co-criação, já que não podemos deixar Mark Frost de fora) de um dos mais admiráveis cineastas de todos os tempos. Mas desde àquela época que nunca se falou tanto em Twin Peaks.

Isso se deve, claro, ao chamado TWIN PEAKS – O RETORNO (2017), um dos maiores eventos cinematográficos do ano. Mesmo sendo feito para a televisão, os dois primeiros episódios foram exibidos em Cannes e foram o maior sucesso do festival, superando em recepção todos os demais filmes, seja os da mostra competitiva, seja os da Un Certain Regard.

Não podia deixar de me preparar para o grande e enigmático retorno de TWIN PEAKS sem rever tudo o que fosse possível da série. Ou seja, as duas temporadas completas, o filme TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) e a grande pérola do box em BluRay, TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES (2014), as cenas deletadas do filme e que estavam, até então, inéditas. A surpresa é constatar que se trata de material de primeiríssima qualidade, talvez superando até mesmo o filme, por mais que isso possa parecer um exagero vindo de algo que depende de outras duas obras – filme e também série – para se compor.

Mas há algo em tudo que Lynch faz – ou quase tudo, pelo menos – que dá impressão de que cada cena dirigida por ele é como um presente para os amantes do grande cinema. E é assim que nos sentimos, mesmo tendo que passar por momentos tediosos e fora dos trilhos da segunda temporada da série, justamente por ter sido abandonada por ele durante um tempo.

TWIN PEAKS – A SÉRIE ORIGINAL

Rever a série original, além de se apaixonar de novo por Audrey, claro, é como visitar um lugar que você ama muito e que não cansa de revisitar. Principalmente o piloto, que eu já havia assistido várias vezes em uma cópia em VHS, e depois em cópias em DVD. È um trabalho que consegue unir ao mesmo tempo diversos gêneros – melodrama, história de detetive, suspense, terror, comédia etc. – e conseguir ser bem-sucedido em todos os aspectos. Foi uma revolução na época, algo que mudou para sempre a televisão, mas disso todo mundo já sabe.

O que teria, então, para acrescentar a uma série de que eu mesmo já falei aqui? Talvez apenas reforçar o quanto o piloto continua sendo a produção feita para a televisão mais impressionante de todos os tempos. Tantas cenas e tantos sentimentos e sensações ficam gravadas em nossa mente e nosso coração. A música maravilhosa de Angelo Badalamenti, o adorável e divertido Agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), o modo como aquela cidadezinha é introduzida aos poucos, com todo o mistério e toda a graça. As mulheres lindas da série (Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Mädchen Amick, Lara Flynn Boyle, Peggy Lipton), o mistério (que infelizmente teve que ser solucionado antes do tempo por causa da pressão da emissora), a ideia de um mundo alternativo que abriga entidades um tanto assustadoras, as inúmeras referências a vários clássicos do cinema. Tudo isso e muito mais fazem parte do encantamento da série.

David Lynch só dirigiu seis episódios para a série original, sendo que dois deles são o piloto e a series finale. E embora seja complicado deixar muita coisa nas mãos de diversos diretores claramente menos brilhantes, acompanhar a série, principalmente até o momento da revelação e do consequente fim do assassino de Laura Palmer, é muito bom. Por esses dias, graças à leitura de um livro sobre a série, acabei sabendo de detalhes de bastidores que me ajudaram a entender muita coisa que aconteceu ali, como as intervenções dos próprios atores para o andamento da trama, com o fato de Kyle MacLachlan não ter aceitado ser par de Audrey (Sherilyn Fenn) por achar que ela era uma colegial e isso não ia cair bem para ele. Ou que Sherilyn Fenn recusou usar fazer parte do concurso de Miss Twin Peaks por achar ridículo ficar ali de maiô, junto com as outras. São pequenas coisas que a gente percebe que vão modificando uma obra em aberto.

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (Twin Peaks – Fire Walk with Me)

Rever o filme desta vez, imediatamente após ver a série, me deu uma estranha sensação, pela primeira vez, de que se trata de uma obra quase redundante, algumas vezes. De todo modo, é possível ver de outra maneira, a cada vez que vemos certas cenas que já havíamos criado em nossa mente, através da série, materializadas ali, quando o tempo volta e somos convidados a adentrar novamente naquele universo. E dessa vez Lynch podia ser mais ousados na violência e incluir algumas cenas de nudez, inclusive de sua estrela Laura Palmer (Sheryl Lee).

Mas o que mais dá para admirar em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é a construção visual. Fico exatamente triste de não ter tido a chance de ver esta obra no cinema e ver agora em BluRay não muda essa falta. Acho que não chegou a passar nos cinemas da cidade, pois lembro de ter visto CORAÇÃO SELVAGEM (1990) no cinema e já nessa época era fã de Lynch. Deve ter tido uma distribuição pequena, não sei.

Há pelo menos duas cenas bem assustadoras, envolvendo o assassino Bob na casa dos Palmer. E uma delas surge para tornar aquilo que já havíamos achando extremamente perturbador na série ainda mais intenso: o fato de que estamos diante de uma história de abuso sexual envolvendo pai e filha. Isso é terrível. É quando o horror do sobrenatural perde espaço para o horror da vida real.

Mas o filme é também uma espécie de tentativa de Lynch de trazer paz para o espírito de Laura, levando-a para uma espécie de paraíso, com direito a um anjo protetor. Assim, é mais um filme sobre redenção de uma alma sofrida, como O HOMEM ELEFANTE (1980) também foi.

TWIN PEAKS – THE MISSING PIECES

Ter acesso ao material não incluso na versão para cinema de TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é ter acesso a uma joia escondida. Embora seja uma obra incompleta, ela se torna completa à medida que a somamos com o que já conhecemos. Assim, a edição, feita na mesma ordem da narrativa do filme, faz dessas cenas deletadas uma obra à parte, com brilho próprio.

Algumas cenas são extremamente tocantes, como uma sequência simples de Norma (Peggy Lipton) e Big Ed (Everett McGill) na caminhonete. Naquele momento, ambos estavam procurando paz em um mundo que lhes negava, ou ao menos dificultava o amor. Também gosto muito da cena de Laura no porão da casa de Bobby (Dana Ashbrook), pedindo um pouco de cocaína. Ele percebe que ela não gosta de verdade dele, que está com ele por causa das drogas. É uma das mais bonitas humanizações do personagem. No filme, a cena é mostrada de maneira bem curta e pouco impactante.

THE MISSING PIECES é também a chance de rever alguns personagens que não tinham tanta relação com a história de Laura, mas que tinham bastante importância na série. Em separado, essas cenas são uma delícia de ver. Há, também, mais de David Bowie, o enigmático agente especial Phillip Jeffries. Aliás, é importante destacar que as cenas com Jeffries são o elo perdido entre a série e a nova revolução de Mr. Lynch. Sem falar que é também um trabalho que tem um compromisso maior em fazer conexão com o fim da série em 1991.

OS EXTRAS

São poucos os extras que merecem menção especial, e alguns deles já podiam ser vistos na edição em DVD de TWIN PEAKS. Vale destacar a descrição de Angelo Badalamenti do processo criativo de "Laura Palmer's Theme". Cheguei a ver algumas vezes e me peguei chorando de emoção com aquilo. No mínimo, arrepiante. Assim como também é arrepiante ouvir de Julee Cruise falando do quanto lhe era difícil cantar "Falling", como ficava sem energia, dada a carga intensa de emoção. Ah, dos depoimentos de atores, vale destacar o testemunho de Al Strobel de quando ele perdeu o braço. È no mínimo impressionante. O ator interpreta o misterioso Mike, o homem de um só braço que também habita o Black Lodge.

Do material inédito, o que vale destacar mesmo são duas entrevistas que o próprio Lynch faz com os Palmer: primeiro com os três reaparecendo envelhecidos e contando como estão no mundo dos vivos ou dos mortos. Em seguida, há a entrevista de fato com os atores, que se mostram extremamente gratos e ansiosos em trabalhar novamente com Lynch. Talvez naquele momento a ideia de um retorno já estivesse na mente do mestre.

sábado, junho 03, 2017

MULHER-MARAVILHA (Wonder Woman)


Como começar a falar sobre MULHER-MARAVILHA (2017)? Pelos seus acertos ou pelas suas falhas? Comecemos pelos acertos. E o maior deles é a escolha de Gal Gadot para interpretar a mais icônica das super-heroínas já criadas. Ela dá luz tão bem à princesa amazona que deixamos de imaginar outra atriz para o papel. É como se a atriz e modelo israelense tivesse nascido para ser a Mulher-Maravilha.

Outra coisa que funciona relativamente bem é o modo como a princesa é apresentada, na Ilha Paraíso. O problema da origem da personagem é que não há maiores explicações sobre como ela recebeu seus poderes ou detalhes sobre a relação das amazonas com os deuses gregos. A história é contada em um longo flashback a partir de uma foto enviada pelo Batman à Mulher-Maravilha no final de BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA, de Zack Snyder. A foto, que mostra Diana com um grupo de homens durante a Segunda Guerra Mundial, será o catalisador não só das lembranças de Diana e sua relação com um desses homens, vivido por Chris Pine, como da própria introdução da princesa amazona no mundo do patriarcado.

E é de se imaginar o impacto que é adentrar o mundo dos homens justo quando o mundo parece estar ruindo, devido a uma guerra que levou à morte milhões de pessoas. Para Diana, sua missão é encontrar Ares, o deus da Guerra, o grande responsável pelo que está acontecendo naquele momento. Vale lembrar que, do ponto de vista da astrologia, essa ideia não é de todo infundada, já que, no período de 1909 a 1944, o grande regente foi Marte.

Esse aspecto da busca de Diana é tratado com certa ambiguidade no início. Afinal, existe mesmo esse tal deus Ares ou aquilo é só mais um dos elementos que fazem parte das características inocentes e, justamente por isso, igualmente adoráveis da personagem? Enquanto a resposta não vem, embora quem conheça os quadrinhos já possa antecipar, é muito gostoso poder ver esses momentos de descoberta de Diana junto ao primeiro homem que ela encontra na vida, Steve Trevor (Pine).

Cada momento de Diana com Steve eleva o filme a pontos altos. A cena em que ela o encontra no banho; a conversa no barco; o momento de comprar novas roupas; a cena da dança (“É isso que os homens fazem quando não estão guerreando?”); a dramática cena do avião. Que, aliás, poderia ser mais dramática, mais eficiente nesse sentido, já que acompanhamos aqueles personagens desde o momento em que se conheceram.

Acontece que aquilo que é uma das coisas mais esperadas no filme, as cenas de ação com a heroína, acabam não sendo tão boas assim, muito por culpa do excesso de efeitos especiais, efeitos que não são tão bons, na verdade. Em alguns momentos, até é possível imaginar que algumas cenas, como as dos aviões no ar, foram feitas com a intenção de imitarem as antigas cenas de batalhas no céu em filmes das décadas de 1930 e 40, sem, no entanto, conseguirem ter o mesmo impacto de fazer com que sintamos que estamos no céu e em perigo, a bordo de um daqueles teco-tecos.

Mas o que incomoda mesmo é a conclusão, com a grande disputa épica da princesa com o deus Ares, que é mais um daqueles vilões excessivamente chatos e grandiloquentes que já cansaram há tempos, embora não seja muito diferente do Ares apresentado nos quadrinhos na série de histórias escritas por George Pérez, por exemplo, para citar um dos autores mais importantes na história dos quadrinhos da Mulher-Maravilha.

Como filme sobre a Segunda Guerra Mundial que apresenta um super-herói, MULHER-MARAVILHA é equivalente a CAPITÃO AMÉRICA – O PRIMEIRO VINGADOR, da Marvel, que é um trabalho muito melhor e que consegue nos fazer acreditar que o Capitão é mais do que um sujeito com um escudo na mão. Acreditar na Mulher-Maravilha e em seus poderes é um ato mais de aceitação do que de convencimento por parte da direção de Patty Jenkins e do roteiro Allen Heinberg.

E muito dessa aceitação se dá mais pela beleza divina e encantadora de Gal Gadot e por seu carisma do que pelo roteiro. Há, inclusive, um excesso de metragem que faz com que o filme se prolongue e se torne, muitas vezes, maçante. Não é o tipo de obra que queiramos ver novamente tão cedo, diferente do tão malhado BATMAN VS SUPERMAN, cujas falhas são bastante visíveis, mas que possui uma fluidez narrativa muito mais eficiente e atraente.

Pesando prós e contras, o filme da Mulher-Maravilha pode ser considerado um sucesso e um alívio para a DC/Warner, que, depois de ter amargado dois filmes considerados ruins pela crítica e por boa parte dos próprios decenautas, alcança redenção e esperança no futuro através de um filme que ainda tem o mérito de ser visto à parte dos demais, por se passar em outra época e ter uma cara própria.

quinta-feira, junho 01, 2017

A GAROTA DESCONHECIDA (La Fille Inconnue)


Embora A GAROTA DESCONHECIDA (2016) tenha sido recebido com alguma frieza e seja encarado como uma obra menor ou mesmo um deslize na filmografia dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, não há como negar que se trata de uma obra que carrega explicitamente o DNA dos criativos irmãos, e um filme que dialoga bastante com seus trabalhos anteriores, especialmente o imediatamente anterior, DOIS DIAS, UMA NOITE (2014), inclusive pela estrutura semelhante.

Troca-se a busca desesperada pelo emprego perdido em um mundo cruel em que o capital está acima dos valores humanos pelo mesmo mundo cruel, mas um mundo cruel que, dessa vez, trata imigrantes pobres como lixo. Por mais que saibamos que não tenha sido essa a intenção de Jenny Davin, a personagem de Adèle Haenel (FACES DE UMA MULHER), tratar como lixo a mulher que aparece em seu consultório médico após o horário de encerramento do expediente, há toda uma questão social que vem à tona e Jenny se transforma numa espécie de representação do que seria a culpa de toda uma sociedade rica europeia frente aos imigrantes pobres, que só estão ali porque seus locais de origem foram saqueados e destruídos por essas pessoas que agora vivem em situação mais abastada.

Não abrir a porta para aquela garota desconhecida resultou em seu assassinato. Ela estava fugindo de alguma pessoa e agora Jenny se sente culpada e quer ao menos descobrir a identidade dessa mulher para que a família seja notificada e e jovem falecida não seja enterrada como indigente. A busca de Jenny é de natureza exagerada até, chegando até mesmo a correr risco de ser morta, caso dê de cara com o responsável pelo assassino em sua caminhada, que vai ficando muito mais importante do que sua rotina de trabalho como médica.

A trajetória de Jenny lembra um pouco também a do menino Cyrill, de O GAROTO DA BICICLETA (2011), na busca pelo pai. Tão próximos um dos outro, os três filmes até formariam uma espécie de trilogia da busca dos cineastas belgas. E, assim como esses e os demais trabalhos dos realizadores, A GAROTA DESCONHECIDA também opta por um registro muito simples na direção de arte e no uso bastante econômico da música. Aliás, o fato de quase não haver música nessas obras contribui bastante para que elas conquistem o interesse do espectador através do desconforto e da tensão gerada por esses silêncios. Não há também um interesse, por parte dos Dardennes, em criar falas memoráveis. As falas são próximas da vida real, sem floreios, mas tão contundentes quanto uma pedrada.

A GAROTA DESCONHECIDA foi mais um dos títulos da excelente safra apresentada no Festival de Cannes do ano passado.