terça-feira, outubro 20, 2020

MISS MARX



Um filme que conta a história de Eleanor Marx, a filha de Karl Marx, já é suficientemente atraente, tanto para quem a conhece quanto para quem não sabe de sua história de vida, de sua luta. A escolha por um som punk rock para os créditos iniciais de MISS MARX (2020) me causou bastante simpatia. É algo parecido com o que Sofia Coppola fez em seu MARIA ANTONIETA. Ou seja, dá ao filme um quê de estranheza temporal, aproximando-o do nosso momento presente. Até porque a personagem é alguém muito à frente de seu tempo.

Como a própria diretora Susanna Nicchiarelli destacou em entrevista à Variety, Eleanor Marx não casou formalmente, decidiu não ter filhos e era muito dedicada à carreira política. Para aquela época, fim do século XIX, tudo isso era muito avançado, a sociedade inglesa não aceitava com tanta naturalidade. E falando em naturalidade, o que Nicchiarelli faz com sua direção, seu roteiro e seu elenco é admirável. Não há um engessamento nas falas, mesmo quando elas são transcritas diretamente de documentos históricos.

Quanto à narrativa adotada, me pareceu bem mais clássica do que à de seu longa anterior, NICO, 1988 (2017), outro filme da diretora que também traz um recorte da vida de uma pessoa real. Nicchiarelli, inclusive, achou tão fascinante fazer esse tipo de trabalho que disse que nem chega a pensar em trabalhar em outro projeto que também não seja uma biopic. O estimulante da experiência, segundo ela, é ter a liberdade de criar dentro de uma imposição histórica, já que não se pode mentir sobre a vida dessas pessoas reais.

Podemos destacar como um dos pontos altos do filme a interpretação de Ramola Garai. A atriz é a protagonista de ANGEL, de François Ozon, e foi indicada duas vezes ao Globo de Ouro por duas diferentes minisséries britânicas, EMMA e THE HOUR. Expressiva, Garai confere à protagonista o equilíbrio entre a força e a fraqueza, a dualidade em pregar os direitos das mulheres diante de multidões e ser mal tratada pelo marido, o dramaturgo e ativista Edward Aveling (Patrick Kennedy), um personagem curioso pelo modo como leva a vida, quase que sem ânimo de viver. Isso combina com os problemas de saúde que surgem mais adiante na narrativa.

Outro grande destaque de MISS MARX é o desenho de produção, que é de dar gosto, a cargo de Igor Gabriel (colaborador frequente dos irmãos Dardenne) e Alessandro Vanucci (que já havia trabalhado com a diretora em seus outros dois longas). Bem junto ao desenho de produção, a fotografia que destaca os tons bem vivos e coloridos é de Crystel Fournier, colaboradora tanto de Nicchiarelli quanto de outra cineasta importante, a francesa Céline Sciamma.

Talvez tenha faltado mais emoção ao abordar as paixões de Eleanor, tanto pelo companheiro quanto por seus ideais herdados do pai e trazidos para o feminismo, mas ainda assim é um filme bem digno e bonito e que tem tudo para ser sensação no circuito de filmes independentes quando acabar a Mostra de Cinema de São Paulo.

segunda-feira, outubro 19, 2020

LUA VERMELHA (Lúa Vermella)



Sucessão de imagens extraordinárias do mar e da lua. Lençóis cobrindo corpos formando imagens clássicas de fantasmas. A procura do corpo de um homem. Três bruxas no auxílio. O ganido muito estranho de um bode. Mortos e vivos convivendo em um estendido e parado tempo, em um luto que parece não ter fim. LUA VERMELHA (2020), de Lois Patiño, é cinema-poesia. É o tipo de filme que tem uma beleza plástica tão grande e um rigor formal tão admirável que lamentamos não estarmos vendo na telona de um cinema. Mas ao mesmo tempo nos sentimos gratos pela possibilidade de contemplar essas imagens e ouvir essas vozes.

Inclusive, há cenas interiores em que a iluminação também é igualmente impressionante. A história é um pouco difícil de compreender, mas trata-se de um filme mais para se sentir do que para entender. Não há interpretações no que estamos acostumados a entender pelo termo. Há imagens e vozes. Imagens que remetem à morte, vozes que trazem ao mesmo tempo paz e horror. As imagens dos fantasmas nos cenários da natureza também contribuem com o resultado. É o caso de filme que utiliza a singularidade das locações para construir sua trama, a partir da mitologia que o lugar dispõe.

E falando em locações, Patiño já havia feito um filme antes no mesmo lugar, Costa da Morte, no Nordeste da Galícia. Este novo trabalho é um retorno ao misterioso e fascinante local, a fim de, desta vez, contar a história de um mergulhador cujo corpo está desaparecido. O curioso é que a história desse homem surgiu apenas quando o cineasta estava no local, duas semanas antes de começar as filmagens, e assim transformou o que seria algo mais próximo de um documentário em um filme de ficção, envolvendo bruxas, monstros do mar e misticismo.

Como um cineasta que veio dos documentários, ainda que não seja do tipo naturalista, Patiño consegue aqui aliar o acaso dos processos que geralmente ocorrem nos registros documentais com um tipo de direção que parece ter em mente desde o início o que se deseja filmar. O resultado, com o áudio de diferentes pessoas agindo como mortos-vivos ou algo parecido, traz um ar de mistério e de beleza admiráveis. E há o trabalho de som, tanto o som da natureza quanto da música, que certamente em uma sala de cinema apropriada traria uma experiência ainda mais singular.

sábado, outubro 17, 2020

A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (The Haunting of Bly Manon)



Em tempos de resistência a séries de minha parte, só mesmo Mike Flanagan para fazer eu me empolgar com uma delas com todo carinho e entusiasmo, mesmo já esperando ser um trabalho inferior ao maravilhoso A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), que é algo próximo de uma obra-prima e tem todos os episódios dirigidos por seu criador. Aqui Flanagan terceirizou: dirigiu apenas o primeiro, "The Great Good Place". Ainda assim ele conseguiu imprimir sua marca na série como um todo. A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (2020) guarda várias similaridades com a minissérie anterior, utilizando novamente o método de ir aprofundando e apresentando melhor os personagens a cada episódio.

No caso, temos personagens vivos e também há os vários mortos. Esses é que trazem as histórias mais fascinantes e angustiantes, como a mostrada no episódio 7, o meu favorito. Essa ampliação do universo da novela de terror A Volta do Parafuso, de Henry James, fez eu me interessar mais ainda pela obra literária e pelas outras versões cinematográficas (falta eu ver ATRAVÉS DA SOMBRA, de Walter Lima Jr., e OS ÓRFÃOS, de Floria Sigismondi). E sim, eu sei que o texto original serve apenas de base para a construção de um roteiro que usa muitas liberdades para contar sua própria história de amor e morte.

Aliás, uma coisa que me encantou bastante neste MANSÃO BLY foi o caráter essencialmente romântico da história. Mas por romântico, eu me refiro ao romantismo "raiz", aquele que envolve dor, morte, sofrimento, assombração. No já referido sétimo episódio, "The Two Faces, Part Two", ficamos sabendo dos planos terríveis de Peter Quinn (Oliver Jackson-Cohen) para conseguir se livrar do purgatório em que vive desde que foi assassinado pelo misterioso espírito de uma mulher que já assombrava a casa há vários anos.

Aliás, é no episódio 8, "The Romance of Certain Old Clothes", quase todo filmado em preto e branco, que saberemos toda a história dessa mulher do século XVII (vivida por Kate Siegel, esposa de Flanagan). E a história é tão fascinante que teria força muito bem para ser um longa-metragem independente. No entanto, como parte do conjunto da obra se torna ainda mais poderosa, pois mais uma vez nos mostra a morte como algo extremamente perturbador. Ou seja, o temor maior aqui não é de morrer, mas é ter essa consciência da morte. Isso já havia sido mostrado nos episódios que revelam a morte de Peter e de Rebecca (Tahira Shariff), a governanta anterior da mansão.

A história, assim como a trama clássica de OS INOCENTES, de Jack Clayton, se inicia com a nova governanta, Dani Clayton (Victoria Pedretti), conseguindo o emprego a partir de uma entrevista com Henry Wingrave (Henry Thomas). O maltratado homem é o atual responsável pela mansão e pelas crianças, depois que os pais dos meninos faleceram. As crianças, aliás, são responsáveis por muito da força da minissérie. Tanto a doce Flora (Amelie Bea Smith) quanto o às vezes assustador Miles (Benjamin Evan Ainsworth). Essas crianças sabem de coisas que a jovem governanta jamais imaginaria. Ela, por sua vez, também já é assombrada por um fantasma pessoal.

No mais, antes que eu me esqueça, há mais três personagens muito importantes na linha do tempo do presente da série, mas preciso destacar Hannah Grose (T'Nia Miller), uma mulher que cuida com muito carinho da casa, mas que possui uma habilidade de locomoção temporal muito interessante. Essa brincadeira com as idas e vindas no tempo já era algo muito bem trabalhado em RESIDÊNCIA HILL e é novamente explorado com brilhantismo em MANSÃO BLY.

Aguardando agora o próximo projeto de Flanagan, outra série para a Netflix, em fase de gravações, chamada MIDNIGHT MASS. Por enquanto ainda não há uma data de lançamento, mas tudo leva a crer que será ainda mais especial do que esta, já que nela todos os episódios são dirigidos por Flanagan. E isso é um ótimo sinal.

sexta-feira, outubro 16, 2020

METRÓPOLIS (Metropolis)



Ando bastante cansado ultimamente. Nesta semana principalmente. Os textos que escrevi sobre os filmes da Mostra vistos em cabine foram escritos com uma dificuldade imensa por causa do cansaço mental. Não sei o quanto isso se apresenta claro nas linhas. De todo modo, não deixa de ser uma alegria poder estar iniciando uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda que de forma remota, ainda que não nas melhores condições.

De todo modo, como eu estava me habituando a ver mais ou menos um Fritz Lang a cada dois dias, essa nova rotina atrapalhou um pouco minha peregrinação pela obra do cineasta austríaco. E até já faz alguns dias que vi METRÓPOLIS (1927), que é um filme que, confesso, não está entre os meus clássicos mais queridos. Nesta segunda vez, consegui gostar mais um pouco, principalmente porque a nova cópia remasterizada e com duração ampliada está de dar gosto, mas também porque passei a conhecer melhor a poética do cineasta.

Por outro lado, continuam me incomodando algumas coisas no filme, como o seu final, por exemplo. Para minha surpresa, o próprio diretor também acha o final ruim. Ele disse que na época não tinha a mesma consciência política que foi adquirindo aos poucos. Achei curioso, pois é um final que parece agradar mais a empresários. Não à toa, Adolf Hitler adorou e quis trazer Lang para ser o seu cineasta-nazi mestre. No tal final, há uma confraternização entre o capital e o trabalho.

Na trama, a jovem Maria é uma espécie de mediadora e pacificadora para os trabalhadores escravizados, os que ficam no subsolo. Ela acredita em uma visão um tanto religiosa de uma figura que virá para os salvar ou encontrar o caminho. Há um irritante subtexto de aceitação que essa Maria boa traz. Tanto que quando a Maria má surge e fala para os trabalhadores quebrarem tudo, até achei que eles estavam fazendo o certo sim. Talvez fazer um épico de rebeldia contra o sistema fosse demais até para Lang, que dirá para os nazistas que já estavam a postos àquela altura na Alemanha.

Porém, não há como negar a influência de METRÓPOLIS principalmente nos filmes de ficção científica, como GUERRA NAS ESTRELAS, de George Lucas; BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott; BATMAN, de Tim Burton; o videoclipe de Madonna "Express yourself", dirigido por David Fincher, e até na criação de um certo super-herói que mora em uma cidade chamada Metrópolis. Ou seja, o que há de mais valoroso no filme não são as ideias políticas da roteirista Thea von Harbou, mas a genialidade de Lang na inovação visual, algo já bastante presente em obras anteriores, mas aqui mostrado explícito devido à produção muito mais cara. E acabou por render prejuízos financeiros.

Fracasso comercial, o filme levou quinze meses para ser rodado, empregou 36.000 extras e 200.000 figurinos, Lang passou oito dias filmando dez segundos de stop-motion da visão da cidade, foi o filme mais caro da UFA na era do cinema mudo. A rejeição do público fez com que os produtores cortassem o filme bastante e muito se perdeu. Encontraram uma versão integral na Argentina em 2008.

Outra coisa que me incomoda no filme são os personagens, fracos, unidimensionais. O mais interessante é o quanto se pode tirar deles do ponto de vista visual, como o aspecto vilanesco languiano do inventor maluco vivido por Rudolf Klein-Rogge, ou a exagerada performance de Brigitte Helm, especialmente quando ela aparece como o duplo malvado. Certamente, ela é, de longe, a melhor intérprete do filme. O que é aquela cena dela sendo queimada na fogueira, hein?! Outras estranhezas visuais fazem parte do charme do filme: o cientista louco com mão de ferro ou os trabalhadores que se arrastam em direção às mandíbulas de uma máquina que é também o antigo deus Moloch.

A excelente direção de fotografia é de Karl Freund, que havia trabalhado com Lang em AS ARANHAS (1919-1920). Ele, assim como Lang, passaria a morar nos Estados Unidos. Chegou a dirigir alguns filmes lá também, entre eles A MÚMIA (1932), para a Universal.

quinta-feira, outubro 15, 2020

O PROBLEMA DE NASCER (The Trouble of Being Born)



Fazer filmes com conteúdos sexuais e que envolvam crianças hoje é mexer num vespeiro. E foi o que aconteceu com a cineasta Sandra Wollner, que fez um filme sobre a relação de um homem com uma androide-criança. Embora seja um filme que coloque as questões de maneira muitas vezes implícita, elas acabam por se tornarem o centro das atenções, embora não sejam as únicas questões abordadas. Afinal, o filme é muito mais sobre a crise existencial dessa garota-androide e também sobre a confusão de sentimentos que ela acumula ao longo de seus anos de existência.

O PROBLEMA DE NASCER (2020), exibido e premiado em Berlim, na nova seção Encounters, é o segundo longa-metragem de Wollner, que havia tratado da construção do ego em seu primeiro longa, THE IMPOSSIBLE PICTURE (2016), e que agora trata de algo mais como o desaparecimento, a dissolução do ego neste novo filme. Essa distinção ela mesma fez em entrevista dada à revista Film Comment de março deste ano.

Na entrevista ela destaca uma diferença básica entre seu filme e outro a que costumam compará-lo: A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, de Steven Spielberg. O filme de Sbielberg baseado em ideia de Stanley Kubrick seria mais inspirado na história de Pinóquio, na vontade de um garoto criado artificialmente de se tornar alguém de carne e osso. No filme de Wollner, temos algo de certa forma ainda mais perturbador: a menina-androide queria apenas poder continuar fazendo a vontade de seu dono, continuar sendo seu objeto.

Como o filme trata dessa questão da objetificação, ainda que seja de uma criatura com inteligência artificial, mas com similaridades com humanos, ainda mais com uma garotinha, a questão do quanto o ser humano é capaz de trazer seus sentimentos mais sombrios para esses "brinquedos" vai se destacando. E a androide aos poucos vai demonstrando ter um tipo de consciência próxima da humana. Essa consciência, ou semi-consciência, se torna ainda mais próxima do espectador, pois é a própria robô que conta sua história, ainda que de maneira confusa e fragmentada. Como é fragmentada a própria narrativa.

Uma coisa que o filme destaca também é a sua fotografia com pouca iluminação, mesmo em cenas que se passam ao sol, na piscina. A sensação de meia luz acaba se tornando uma característica do filme e algo que combina com sua estranheza, com seu aspecto por vezes abstrato, especialmente quando Ellie, a androide, passa a conviver com uma senhora idosa e tem sua identidade mudada para a de um menino. Ellie, a jovem protagonista, passa a ser destituída de sua identidade anterior, mas as memórias, ainda que confusas, persistem, assim como a falta que ela sente do "pai". Nesse sentido, a voice-over no filme tem um papel muito feliz e importante.

Como se trata de um filme claramente de baixo orçamento, o aspecto de ficção científica passa a ser menos importante do que o aspecto dramático, da questão da identidade de Ellie, de suas angústias. Para dar um senso de estranheza à personagem, a diretora usou uma máscara de silicone na jovem atriz, que teve sua identidade preservada. Além do mais, a diretora fez questão de dizer que as cenas que mostram a garota nua não são dela mesma, mas de imagens geradas por computador. 

terça-feira, outubro 13, 2020

COZINHAR F*DER MATAR (Cook F**k Kill / Záby Bez Jazyka)



De início, demorei a me acostumar com o filme, até porque os primeiros dois capítulos deste COZINHAR F*DER MATAR (2019) são bastante apressados. E essa pressa passa a impressão de má realização. Essa impressão pode mudar a partir do terceiro capítulo, mais longo, mais lento e mais elaborado, inclusive com uma cena em tons teatrais e câmera estática (a cena do almoço). Cada capítulo apresenta diferentes versões da história errática de um homem com problemas familiares. E todos os capítulos tratam de violência doméstica de maneira, naturalmente, desconfortável. Aos poucos a tragédia e o pessimismo vão tornando o humor (negro) um pouco mais apagado e o filme vai adotando um tom mais sério.

Como a narrativa desta produção checa (e eslovaca) se inicia com um coro grego de mulheres do vilarejo em traje de banho, já se pode imaginar que não faltarão tragédias. Mas depois o filme chega com um tom de comédia, embora dificilmente vá arrancar risadas da plateia. Até porque, logo nos primeiros momentos, o protagonista quer convencer a mãe a passar o apartamento dela para ele (ao que parece, a esposa estaria chantageando o sujeito) e ainda a faz comer uma colher de pasta de amendoim, sendo que ela é alérgica. O resto do capítulo é ainda mais violento, tenso e incômodo, ainda que seja um tipo de violência diferente da vista em filmes de horror e afins. 

COZINHAR F*DER MATAR vai conquistando o interesse (por assim dizer) a partir dos terceiro e quarto capítulos, quando mais informações sobre os personagens nos são fornecidas. Assim, ficamos conhecendo o pai rico do protagonista Jaroslav (Jaroslav Plesl) e um pouco mais sobre a mãe de Blanka (Jazmína Cigánková), sua esposa. O filme vai apostando em situações que podem funcionar como um atrativo para a audiência, como a cena de sexo de Jaroslav com a própria sogra ou as tensões criadas em um supermercado. O choque também surge em uma cena envolvendo uma garotinha e uma rã. Ver também criança com arma na mão é outra coisa que incomoda.

O último capítulo traz uma realidade em que o protagonista é agora uma mulher. E imagina-se que com essa mudança de sexo se poderia mudar um pouco os padrões de comportamento danosos, as falhas de opção e as tendências à violência que surgem de todos os lados. Será?

O filme vem sendo comparado a CORRA, LOLA, CORRA, por razões óbvias, embora possa se pensar em FEITIÇO DO TEMPO também, embora aqui não haja consciência das múltiplas realidades e possibilidades por parte de nenhum dos personagens. E não há leveza. Não que essa fosse intenção da cineasta eslovaca.

segunda-feira, outubro 12, 2020

SUOR (Sweat)



É curioso ver um filme polonês contemporâneo e sentir uma diferença imensa em como se apresenta a sociedade de um país no intervalo de poucas décadas. Aqui vemos um cenário colorido e vibrante, muito distante, por exemplo, da Polônia cinza dos filmes de Kieslowski. O que não quer dizer que tudo seja exatamente feliz quanto se imagina a princípio. Em SUOR (2020), de Magnus von Horn, somos apresentados a uma jovem treinadora de ginástica famosa em seu país e bastante presente nas mídias sociais. Toda essa superficialidade dos dias de Instagram está lá, mas logo somos apresentados ao lado triste da personagem, Sylwia, às camadas por trás da fama, da beleza plástica e da rotina invejada por muitos.

SUOR foi um dos vários filmes selecionados para Cannes 2020, mas que, infelizmente, por causa da pandemia, tiveram que procurar outros meios de serem vistos. Com o selo de aprovação de Cannes (que tem um significado bastante importante), o filme chega agora à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, depois de exibições também na modalidade online em festivais na França, na Alemanha, na Suíça, na Islândia, no Canadá e nos Estados Unidos. O lado positivo desse meio de visualização é que aumenta consideravelmente as chances desses filmes serem vistos por muito mais espectadores.

SUOR é o segundo longa-metragem do sueco von Horn, mas quem brilha mesmo é a atriz, Magdalena Kolesnik, em seu primeiro papel como protagonista. A câmera não tira os olhos dela. Somos convidados a participar de sua intimidade, inclusive quando ela não precisa fingir o sorriso que normalmente usa diante das câmeras. E boa parte das vezes é ela mesma que se filma, fazendo seu shake, desembrulhando uma caixa que chegou com produtos de patrocinadores, ou mesmo desabafando sobre suas angústias. Um vídeo que a mostra chorando e triste por estar sozinha é objeto de repercussão nacional e um de seus patrocinadores chega a reclamar.

Há um momento que é o ponto de virada do filme, que é quando ela descobre um stalker estacionado perto de seu prédio. Incomodada com a situação, até porque o sujeito não é nada discreto na demonstração de sua admiração pela moça, ela conta o ocorrido em uma reunião de família e fica contrariada com a opinião da mãe sobre o sujeito - ele poderia ser uma pessoa boa, ela diz. Mais à frente, uma nova situação fará com que ela novamente reflita sobre a vida fora dos corpos bem definidos das academias e dos holofotes das redes sociais. E por mais que epílogo tenha me parecido frágil, não chega a comprometer o resultado e esse belo estudo de personagem.

quarta-feira, outubro 07, 2020

QUATRO DOCUMENTÁRIOS



Quem está acompanhando as últimas postagens do blog está percebendo que os documentários têm se mostrado mais presentes. Fico pensando se é por que a vida real está me chamando mais atenção ultimamente. E não é por causa do festival É Tudo Verdade, que aconteceu recentemente na modalidade virtual, pois só cheguei a ver um único filme neste festival, que foi o sobre os Paralamas. Como gosto de colocar coisas pessoais nos textos, senti necessidade de falar sobre o doc sobre o Sidney Magal, sobre o Caetano Veloso e sobre os cinéfilos de Nova York - esse último foi o que mais reverberou em mim, que me fez pensar na vida e também no documentário como gênero. Sobre os quatro filmes a seguir, o ideal é que eu falasse sobre eles de maneira mais demorada, mas infelizmente o meu tempo anda curto. Façamos o que é possível, então.

AS MORTES DE DICK JOHNSON (Dick Johnson Is Dead)

Este documentário que estreou recentemente na Netflix muito me fez pensar sobre a finitude da vida, sobre a velhice e, em especial, sobre o quanto é doloroso ver um familiar querido perdendo a memória aos poucos por causa da demência ou do Alzheimer. Kirsten Johnson, a diretora de AS MORTES DE DICK JOHNSON (2020), afirma, logo nos minutos iniciais do filme, sobre o quanto teme o momento em que ela perderá a pessoa que mais ama no mundo, seu pai, o Richard Johnson do título. Então, ela resolve se preparar para esse momento. Seu método é no mínimo curioso: encenar com o próprio pai e com a ajuda de dublês diferentes mortes possíveis para o idoso. O objetivo seria tanto ela quanto o pai se prepararem para a partida. Em alguns momentos, a brincadeira fica na fronteira do mau gosto, mas não deixa de ser bem curioso, especialmente o final. Há vários momentos bem tocantes e tristes que equilibram outros mais bem humorados.

NEVILLE D'ALMEIDA - CRONISTA DA BELEZA E DO CAOS

Neville d'Almeida é um cineasta com quem eu simpatizo bastante já faz alguns anos. Tanto gostava de ver as reprises de seus filmes na televisão, quanto cheguei a locar umas três vezes o VHS de MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA (1991) - por que será?. Mal sabia eu que havia rolado uma confusão em Gramado, quando da exibição deste filme, pois a Cláudia Raia foi uma apoiadora do Collor de Mello e acabou levando vaia junto com a equipe do filme, antes mesmo da exibição. Neville não deixou barato e brigou com o pessoal. Essa e outras histórias são contadas em NEVILLE D'ALMEIDA - CRONISTA DA BELEZA E DO CAOS (2018), de Mario Abbade, que também conta com depoimentos de várias pessoas que se relacionam de alguma forma com o cineasta, como atores e atrizes (Lima Duarte, Regina Casé, Joel Barcellos, Paulo César Pereio, Bruna Linzmeyer, Denise Dumont) e cineastas (Cacá Diegues, Marco Altberg, Cláudio Assis, entre outros). Sonia Braga, pelo visto, ficou sem falar com o diretor por causa do que achou ter sido uma super-exposição em A DAMA DO LOTAÇÃO (1978). As histórias mais interessantes são as que giram em torno de RIO BABILÔNIA (1982), tanto das loucuras das filmagens quanto da batalha para conseguir livrá-lo das garras da censura. Muito legal também tudo que se liga a Nelson Rodrigues, nos bastidores. Fiquei muito interessado nos primeiros trabalhos de Neville, JARDIM DE GUERRA (1970) e MANGUE BANGUE (1971). O primeiro já consegui; o segundo é bem maldito. Vamos ver se acho por aí. No mais, sigo na torcida por novos filmes do cineasta, mesmo sabendo que o cenário não está nada amigável.

OS QUATRO PARALAMAS

Engraçado que na década de 1980 os Paralamas do Sucesso, dentro do cenário das bandas de rock brasileiras, era a minha favorita. Até tive em fita K7 o álbum Big Bang (1989). Depois foi que outras bandas foram ganhando mais a minha simpatia, talvez por que as experimentações com um tipo de som mais brasileiro não me interessavam tanto assim naquele momento. Tanto que voltei a me interessar pela banda quando do retorno pós-acidente, com o excelente Longo Caminho (2002). O documentário OS QUATRO PARALAMAS (2020), de Roberto Berliner e Paschoal Samora, conta a história da banda destacando também a importância de José Fortes, o empresário da banda desde o início, desde quando começou a divulgar fitas demo e a agendar os primeiros shows em locais pequenos. Para o bem e para o mal o filme traz algumas canções inteiras. O videoclipe de "Alagados", por exemplo, é mostrado do início ao fim. Como eu já tinha visto algumas vezes, fiquei um pouco entediado. Como retrato da amizade dos quatro e de uma reflexão sobre a passagem do tempo, o filme é suficientemente forte.

O SAMBA É PRIMO DO JAZZ

Os documentários sobre artistas do cenário musical brasileiro continuam sendo muito bem-vindos. No caso de O SAMBA É PRIMO DO JAZZ (2020), de Angela Zoé, a artista homenageada é Alcione. E pra mim, que nunca fui fã ou mesmo observador da carreira da cantora, foi uma bela surpresa ver todo o seu percurso. Acho interessantes as cenas da atualidade, dos ensaios e da força e da mão-de-ferro de Alcione na condução do seu processo criativo, mas o melhor mesmo pra mim foi ver as imagens de arquivo, com a cantora aparecendo em diferentes visuais, desde a sua juventude. Também não sabia que ela tinha começado a carreira como cantora de jazz nos bares. Tanto que, quando ela foi chamada para gravar o seu primeiro disco, a gravadora estava querendo uma cantora de samba para rivalizar com Clara Nunes e Beth Carvalho, e Alcione falou: "olha, eu não canto samba." Ela acabou sendo convencida e gravou, depois foi se tornando também uma sambista, mas não exclusivamente. Faltou mais emoção ao documentário, mas, mesmo assim, foi bastante enriquecedor.

sábado, outubro 03, 2020

GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS (American Guerrilla in the Philippines)



Por mais que a maior flexibilização no distanciamento social tenha me animado um pouco, principalmente agora com a volta do Cinema do Dragão, que está promovendo uma saborosa mostra retrospectiva do Krzysztof Kieslowski, ainda fica aquela sensação de se estar vivendo perigosamente, mesmo cumprindo todos os requisitos de segurança e de distanciamento. De todo modo, está sendo interessante visualizar este mundo meio apocalíptico. Ontem, ao sair do cinema, dois bares no entorno do Dragão estavam funcionando e todas as pessoas estavam lá sem máscara. Então, não sei o que esperar. Ou se podemos nos alegrar por isso. Mas não estou com inspiração nem tempo para falar de nenhum Kieslowski por ora. Quero cumprir com a missão de escrever sobre todos os Langs vistos. Vamos a um de seus trabalhos menos inspirados.

GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS (1950) foi feito para pagar as contas, como o próprio Lang dizia. Ele estava precisando de dinheiro, assim como todo profissional. "Até um diretor precisar comer", dizia Lang, quando muitos o perguntavam sobre o motivo de ele ter aceitado fazer este filme. Ele já havia feito quatro filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, quatro filmes anti-nazistas. Este aqui seria o quinto, mas abordando o conflito no Pacífico.

Uma coisa que me fez estranhar este drama de guerra foi o fato de ser bem distinto das obras anteriores do cineasta, todas realizadas em estúdio, em fotografia em preto e branco muito bonita e estilizada. Em GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS, Lang adota uma fotografia em technicolor um tanto descuidada em comparação até com seus outros trabalhos em cores, nos westerns A VOLTA DE FRANK JAMES (1940) e OS CONQUISTADORES (1941). Nota-se, portanto, um grau muito menor de interesse e de entusiasmo.

Ainda assim, é possível traçar paralelos com outros filmes de Lang que lidam com heróis que lutam contra um inimigo que está em todos os lugares, como nos filmes anti-nazistas O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943), QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944) e O GRANDE SEGREDO (1946). E aqui também o protagonista tenta meios de inteligência para vencer os inimigos, no caso, os japoneses que invadiram as Filipinas. O herói é vivido por Tyrone Power, um dos oito sobreviventes de um bombardeio de aviões japoneses. Eles estavam em um barco a motor. E acabam por desembarcar na ilha, um deles muito ferido, pedindo ajuda aos habitantes em um momento em que o exército americano estava prestes a se render aos japoneses.

O personagem de Power decide, então, fugir para a Austrália, em vez de ser feito prisioneiro. No entanto, a jangada improvisada não vai muito longe e ele acaba retornando e ajudando a resistência. Há um interesse amoroso também, mas acredito que ele mais atrapalha do que ajuda na história. Quando o esposo da mulher morre, fica aquela sensação de "graças a Deus, agora podemos ficar juntos". Nada contra, mas não sei se o público da época pensou nessa situação.

O filme se constrói a partir de episódios, de situações por que passam os soldados americanos, ao se esconder no meio da selva ou a procurar lugares onde possam se ocultar. Há o caso da cirurgia que o protagonista tenta fazer, em vão, por falta de médicos; as formigas nos pés de um deles enquanto o sujeito se esconde na selva de um soldado japonês; o trabalho de guerrilha usando rádio; o dinheiro falsificado que é criado pelos próprios oficiais americanos etc. E há a melhor cena, do ponto de vista gráfico: os soldados americanos armados escondidos dentro da igreja.

Dado o resultado para os padrões do cineasta, é possível entender por que Lang sequer comentou uma linha sobre o filme na entrevista dada a Peter Bogdanovich. Se bem que o próprio entrevistador pode ter preferido não comentar nada a respeito, tendo ele mesmo diminuído a importância da produção.

quinta-feira, outubro 01, 2020

CINEMANIA



Acho que a gente gosta de se olhar no espelho, mesmo quando não nos achamos tão bonitos assim. Ver CINEMANIA (2002), documentário de Angela Christlieb e Stephen Kijak, é como se ver no espelho em alguns momentos. E saber rir do ridículo. Mas estou falando de cinéfilos, não de pessoas normais, por assim dizer. O cinéfilo como uma espécime a ser estudada, mas com todo o carinho. É assim que o filme de apenas 83 minutos (podia ser maior) se propõe (ou se revela). Por mais que deixe um gosto um tanto amargo com relação ao estilo de vida solitário e obsessivo-compulsivo dos personagens, não quer dizer que eles sejam infelizes.

O filme apresenta cinco cinéfilos bem diferentes que moram em Nova York, uma cidade excelente para quem gosta de variedade de filmes. O primeiro apresentado é justamente o mais interessante, Jack, que já começa dizendo que teme perder as estreias e por isso muitas vezes chega a ver quatro ou cinco filmes por dia. “Toda minha vida gira ao redor disso”, ele diz.

Já Bill é um sujeito que tem um gosto maior por filmes de relacionamentos. E pelo cinema francês pós-Nouvelle Vague. Segundo Bill, “filme é um substituto para a vida, é uma forma de vida”. É engraçado vê-lo se preparando para as sessões, a pouca importância que dá à alimentação, as preocupações em estar sempre o mais confortável possível em uma sessão, a fim de ter a melhor experiência fílmica.

Harvey é talvez o menos marcante dos personagens. Mas ele é ótimo em memorizar as durações dos filmes e tem uma bela coleção de trilhas sonoras em vinil. Já Eric tem uma preferência por filmes clássicos e não tem muita paciência para filmes mais cabeçudos, como os de Alain Resnais. Roberta, como a única mulher dos cinco, é talvez a mais excêntrica. Talvez por ter adquirido o hábito de acumular papel, o que muito me lembrou o Seu Wilson Baltazar, meu amigo parceiro de cinema que faleceu neste ano com a vinda do Corona Vírus.

Assim como Bill, eu também quero estar totalmente confortável durante a sessão. E muitas vezes compro analgésicos quando estou sentindo alguma dor no corpo. Ou café para não ficar com sono. Assim como Bill, deixo de frequentar alguns espaços que têm a projeção ruim. Tenho essa coisa meio preciosista, querendo que o cinema ofereça o seu melhor para a apreciação da obra.

Quanto ao amor pelas estrelas do cinema, curiosamente nesta semana surgiu uma brincadeira no Facebook com a pergunta "com qual personagem do cinema você desejaria transar?". Eu fiz uma lista generosa. Copiando aqui. “Grace Kelly em LADRÃO DE CASACA. Ou Jean Seberg em ACOSSADO. Ou Natalie Wood em ESTA MULHER É PROIBIDA. Ou Sharon Stone em INSTINTO SELVAGEM. Ou Demi Moore em SOBRE ONTEM À NOITE. Ou Jennifer Connelly em AMOR MAIOR QUE A VIDA. Ou Emmanuelle Seigner em LUA DE FEL. Ou Ludivine Sagnier em SWIMMING POOL. Ou Denise Dumont em EROS - O DEUS DO AMOR. Ou Claudia Cardinale em O LEOPARDO. Ou...”

Claro que isso tudo é uma brincadeira, mas um dos personagens fala algo que se deve levar muito a sério, que é a questão do padrão que ele cria de beleza. Jack chega a dizer que, ao sair da sessão de A DAMA DE SHANGHAI, de Orson Welles, fantasiou com a Rita Hayworth. Mas com a personagem em preto e branco, uma espécie de fetiche. Por isso acho Jack o personagem mais interessante, por expor isso de maneira aberta, inclusive quando fala de seu fracasso sexual.

Uma coisa que fez eu me identificar muito com Jack foi vê-lo falando de sua lista de filmes anotados em seu caderninho. E de como a memória de cada filme também traz a lembrança das circunstâncias de cada momento da vida, dos problemas românticos etc. É Jack também que fala da questão do choro, do quanto chorou quando viu OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR, de Jacques Demy, algo que também aconteceu comigo de maneira muito intensa.

Enfim, haveria muito o que falar sobre o filme, mas, quem se identificou de alguma maneira, deixo essa bela recomendação. Foi algo que me fez ganhar o dia. Quase me esqueci dos problemas.