quarta-feira, agosto 31, 2016

A GRANDE ILUSÃO (La Grande Illusion)



Há mais de um ano, quando o Cinema do Dragão exibiu uma série de grandes clássicos do cinema francês (na verdade, grandes obras-primas), eu tive o prazer de ver dois filmaços de Jean Renoir. O primeiro foi este A GRANDE ILUSÃO (1937), geralmente celebrado não apenas como um dos melhores trabalhos do diretor, mas como uma das grandes obras do cinema francês de todos os tempos.

O filme se passa na Primeira Guerra Mundial, mas já prevê algo que virá na muito pior guerra seguinte, que chegaria em breve, e que a França, diferente deste primeiro momento, preferirá não entrar em atrito com a Alemanha. Claro que não é tão simples assim, já que houve uma resistência forte de alguns heróis, mas o Governo optou sim por deixar os nazistas ocuparem o país, a fim de evitar maiores tragédias.

Na Primeira Guerra Mundial, porém, os dois países eram arqui-inimigos. Os filmes que mostram a luta sangrenta nas trincheiras, como GLÓRIA FEITA DE SANGUE, de Stanley Kubrick, por exemplo, dão o tom daquele momento. Jean Renoir, porém, em A GRANDE ILUSÃO, prefere fazer algo menos espetacular e mais centrado no aspecto humano e nos brilhantes diálogos de seus ricos e complexos personagens.

O filme nos apresenta a um grupo de prisioneiros franceses em um campo de concentração alemão em 1916. A GRANDE ILUSÃO tem uma leveza especial no modo como trata os dramas e as relações entre esses homens, que muitas vezes é possível rir com o que é mostrado. É possível ver as cenas de tentativa de cavar um túnel para fugir da prisão de maneira tão divertida quanto ver em filmes como FUGINDO DO INFERNO, embora o tom aqui seja, naturalmente, outro.

O humanismo de Renoir se mostra claramente quando vemos a relação de respeito entre o Capitão Rauffenstein (Erich von Stroheim) e os principais prisioneiros franceses, em especial o vivido por Jean Gabin, ator que apareceria em outras obras de Renoir. O diretor mostra o quanto a guerra é um ato imbecil que separa homens que são iguais, apesar de diferentes.

Um dos momentos mais interessantes do filme é a sequência em que dois fugitivos vão parar na casa de uma generosa mulher alemã, e ela se apaixona por um deles. Esta cena, inclusive, só pôde ser mostrada na década de 1950, quando o filme seria redescoberto e se tornado objeto de culto ainda maior.

A GRANDE ILUSÃO é desses filmes que pedem uma revisão, para que certas cenas sejam mais uma vez apreciadas. Eu gostaria muito de poder revê-lo, de preferência novamente no cinema. É uma obra que se diferencia em muito de outros filmes de época do mesmo período, especialmente se compararmos com os filmes americanos ou ingleses, mas é justamente aí que entra o diferencial de Renoir, com seu realismo poético, sua aparente simplicidade, e seu modo singular de nos levar para um outro momento da História.

segunda-feira, agosto 29, 2016

THE NIGHT OF



Interessante notar que pelo menos duas das melhores séries (ou minisséries) do ano são dramas de tribunal. THE NIGHT OF (2016) é uma pequena joia da televisão, mais uma bola dentro do currículo da HBO. É mais uma dessas séries que os americanos gostam de importar e refazer à sua maneira, e que geralmente conseguem fazer, sim, um belo trabalho. No caso, trata-se do remake da série britânica CRIMINAL JUSTICE (2008-2009).

Alguém pode estranhar o nome de James Gandolfini entre os produtores, já que o ator faleceu há alguns anos. O fato é que ele não era apenas um dos produtores, mas chegou a filmar o piloto. Era ele o advogado de porta de cadeia John Stone, papel que passou a ser de John Turturro, depois que Robert De Niro desistiu por problemas de agenda. Mas, uma vez que vemos Turturro como intérprete, não conseguimos imaginar outro ator encarnando tão bem o advogado decadente e com sérios problemas alérgicos.

Antes de ele entrar em cena, porém, é o jovem paquistanês Nasir Khan (Riz Ahmed) quem seguimos, em sua aventura proibida pela noite nova-iorquina, depois de ter levado às escondidas o taxi do próprio pai, a fim de chegar a uma festa de colegas da faculdade. Sua intenção é a mesma de tantos outros jovens da mesma idade: divertir-se e encontrar uma garota lá.

O rapaz é confundido com um verdadeiro taxista e não consegue tirar de seu carro a bela Andrea Cornish (Sofia Black-D’Elia). Ela é bela e atraente demais para ser dispensada. Além de ser promessa para uma noite agradável. Possibilidades como essa não surgem sempre. E a noite dos dois é memorável, principalmente para Naz, em sua inocência e sua vontade de experimentar coisas novas, ainda que perigosas e proibidas. Porém, o que era doce fica amargo, e a garota aparece morta a facadas.

Todo o piloto é marcado por essa desventura de Naz, essa tragédia em torno de algo que ele não tem completa convicção de ser inocente, já que ele não se lembra do que aconteceu depois do sexo e das drogas com a moça. Ela, certamente, passava por problemas e estava em busca de alguém que a ajudasse a fugir um pouco da realidade. Ele passa de bom rapaz de família para assassino da noite para o dia. E a polícia não ajuda muito. Tudo é feito com muita pressa, e como a família não dispõe de muito dinheiro, é difícil conseguir um bom advogado para o caso. Por isso inicialmente John Stone se mostra a pessoa ideal, embora nem ele mesmo acredite em sua capacidade nos tribunais.

O jeitão loser de Stone e a aparência de cordeiro de Naz formam o eixo da minissérie, embora mais adiante sejamos apresentados a outra personagem fascinante, a advogada Chandra Kapoor (Amara Karan), que terá participação fundamental na defesa de Naz, que, nesse ínterim, tenta sobreviver da melhor forma possível àquele ambiente hostil, auxiliado por Freddy (Michael Kenneth Williams), o homem mais temido da penitenciária, e também responsável por trazer drogas para o lugar.

Um dos pontos bem positivos de THE NIGHT OF é não pintar os personagens como essencialmente bons ou maus, mas pessoas passíveis de erros. Os tons de cinza são trazidos pelo roteiro cuidadoso, pelo texto econômico, pela fotografia com realce nas sombras e pela direção acertada, quase sempre de Steve Zaillian, realizador cujo nome é ligado a algumas ótimas produções e ótimos roteiros para cinema.

domingo, agosto 28, 2016

NERVE – UM JOGO SEM REGRAS (Nerve)



A ideia do filme, baseada em um romance de Jeanne Ryan, é até interessante e poderia ter rendido melhor, mas infelizmente NERVE – UM JOGO SEM REGRAS (2016) se perde ao longo de sua narrativa e conclui de maneira pouco satisfatória, embora possamos vê-lo até com certo prazer, graças, principalmente, ao carisma do par central, vivido por Emma Roberts e Dave Franco.

Quem gostou do trabalho da dupla Henry Joost e Ariel Schulman em ATIVIDADE PARANORMAL 3 (2011), o melhor filme da franquia, pode até ter ficado com uma ponta de expectativa positiva com o novo trabalho, que de certa forma não se distancia tanto assim da febre dos filmes de found footage, que assolou principalmente o gênero horror ao longo dos últimos anos. Isso porque a câmera como elemento consciente está presente no novo trabalho da dupla, ainda que de maneira diferente, dentro de uma estrutura mais convencional.

O filme nos apresenta a Vee (Roberts), uma moça tímida que costuma ficar na dela e sofre bullying da amiga Sydney (Emily Meade), uma garota que gosta de se mostrar e por isso adere como jogadora no jogo sensação daquele ano de 2020, o Nerve, em que as pessoas que assistem acompanham os jogadores, que devem chamar o máximo da atenção da maior parte da audiência, a fim de ganhar mais pontos e um bom dinheiro no banco.

O jogo não deixa de lembrar um pouco a sede de curtidas nos facebooks e youtubes da vida dos dias atuais. Logo, envolve uma carência de atenção por parte de quem se aventura a se mostrar para o mundo. Como o jogo é uma espécie de truth or dare mais radical, logo, no começo, somos pegos de surpresa com a Sydney fazendo uma pequena ousadia, que deixa Vee de boca aberta.

Mal sabe ela que, em poucos minutos, ela mesma ganhará impulso para ser também uma jogadora do Nerve, encontrará um sujeito que lhe despertará certo fascínio (Franco), e fará coisas muito mais ousadas do que sua amiga. Uma pena que, à medida que a brincadeira vai ficando mais pesada, mais o filme vai se tornando menos atraente, com uma trama que vai perdendo o interesse de modo crescente. Talvez um pouco mais de criatividade por parte dos diretores e da roteirista Jessica Sharzer pudesse salvar o filme. Do jeito que ficou, merece mesmo o esquecimento.

Além do mais, em um tempo em que o terror gerado pela tecnologia se mostra de forma tão brilhante em uma série de televisão (BLACK MIRROR), temos mesmo que ser pouco tolerantes com quem apresenta um resultado bem inferior na telona.

sexta-feira, agosto 26, 2016

CAFÉ SOCIETY



Interessante perceber esta tendência mais amena e romântica que Woody Allen tem colocado em suas obras recentes, desta década, em particular. De VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (2010) ao novo CAFÉ SOCIETY (2016), apenas BLUE JASMINE (2013) se destaca como uma obra essencialmente amarga em relação à vida, além de contar com um senso de humor bem menos presente do que os demais. Mesmo um filme como HOMEM IRRACIONAL (2015) traz a história de um homem que passa a ver sentido em sua vida depois de encontrar motivações não muito recomendáveis.

CAFÉ SOCIETY tem sido recebido com muito mais entusiasmo pela crítica internacional do que os três trabalhos anteriores, mas não significa que seja uma das obras mestras do velho Woody. Claro que é muito bom ouvir a voz do próprio diretor contando a história, assim como é adorável ter um objeto de desejo como Vonnie, vivida por Kristen Stewart. Nem sempre uma unanimidade, Kristen se mostra como a razão de ser não apenas da vida do jovem Bobby (Jesse Eisenberg, mais um a assimilar os trejeitos de Allen em outro de seus alter-egos), mas do próprio filme, embora mais à frente vejamos a Veronica de Blake Lively representando a estabilidade emocional necessária para o protagonista.

Um dos problemas de CAFÉ SOCIETY é a tentativa de Allen em construir uma fauna generosa de tipos que acaba atropelando e atrapalhando a trama principal, ou seja, a ciranda de amores envolvendo quatro personagens. Assim, todas as questões envolvendo a máfia nova-iorquina acabam tornando o filme menos interessante, embora se destaquem alguns diálogos afiados, como o sobre Judaísmo não ter a vida após a morte em seus dogmas, passando, assim, a perder pontos para o Catolicismo.

Porém, mesmo com essa irregularidade, o novo trabalho de Allen conta com uma fotografia de Vittorio Storaro tão especial que vale a pena ser destacada como uma das mais importantes dos filmes de Allen dos últimos 20 anos, pelo menos. Conhecido por sua brilhante parceria com Bernardo Bertolucci, o veterano diretor de fotografia homenageia os filmes das décadas de 1930-40, especialmente nos close-ups de Kristen Stewart, trazendo uma espécie de véu sobre sua imagem, dando-lhe um ar de semideusa. O belo uso da luz no filme é percebido logo de cara, com tonalidades que variam de cores dessaturadas, em Nova York, para cores mais quentes, nas cenas passadas em Hollywood.

CAFÉ SOCIETY é mais uma história sobre como as paixões acabam gerando memórias ao mesmo tempo agradáveis e dolorosas, além de tornarem as pessoas mais fortes, como acontece com Bobby, depois de ter conhecido Vonnie. O reencontro dos dois em Nova York pode ser visto como o grande momento do filme, bem como as cenas que marcam sua conclusão. Na obra agridoce de Allen, não há espaço para um final exatamente feliz, como no adorável e subestimado MAGIA AO LUAR (2014), mas um sorriso triste de quem deve ficar satisfeito com o rumo dos acontecimentos trazidos por escolhas pessoais. Dependendo do estado do espectador, é possível sair do cinema suspirando e lembrando aquela paixão que marcou sua vida, e se solidarizar facilmente com os personagens.

quarta-feira, agosto 24, 2016

TRÊS FILMES SOBRE HERÓIS LENDÁRIOS



Recentemente alguns filmes de heróis (ou anti-heróis) famosos ganharam novas repaginadas, embora não tenham sido muito bem-sucedidos em suas empreitadas, por mais que contassem com cineastas talentosos em seus comandos. O motivo de seus fracassos, ou quase isso, não sabemos ao certo, mas podemos refletir a respeito. Só não sei se vou conseguir este feito com estes textos pequenos.

PETER PAN

É sempre bom lembrar que Joe Wright também erra. Nem só de ORGULHO & PRECONCEITO (2005), DESEJO E REPARAÇÃO (2007) e ANNA KARENINA (2012) se faz seu cinema. PETER PAN (2015) mais parece um filme de Bazz Luhrmann, de tão histérico, colorido e até cafona que é. E parece que há mesmo a intenção de fazer algo bem parecido com MOULIN ROUGE em determinados momentos, como quando os meninos cantam "Smells like teen spirit", do Nirvana. Mas o problema principal é que em nenhum momento o filme empolga, mesmo para quem quer ver algo bem carregado nas tintas. O que acaba contando pontos a favor é a tentativa do cineasta de recriar o personagem, trazer algo de novo para um herói que já é bastante famoso, principalmente pelo desenho da Disney. Outro problema é que PETER PAN é muito escuro em sua versão em 3D e isso já compromete um bocado a apreciação de qualquer filme, principalmente se ele procura destacar tão bem as suas cores. No elenco, destaque para Hugh Jackman e Rooney Mara.

VICTOR FRANKENSTEIN

Outro cineasta perdido por Hollywood, Paul McGuigan deveria ser lembrado sempre pelo que fez de melhor, que foi PAIXÃO À FLOR DA PELE (2004), um filme que nem chegou a passar nos cinemas, mas que foi descoberto quando lançado em DVD. Depois de amargar alguns anos dirigindo só produções para a televisão, a oportunidade de voltar ao cinema veio para McGuigan justamente deste VICTOR FRANKENSTEIN (2015), um exemplar que faz jus ao aspecto picotado do monstro criado em laboratório por um cientista maluco. Mas não há a menor intenção do realizador em ser fiel à obra de Mary Shelley aqui. E se achamos que trazer algo de novo e diferente poderia ser um trunfo da produção, aos poucos vemos o quanto cada decisão ousada do enredo acaba sendo uma autossabotagem de seus realizadores. O filme centra na figura problemática do cientista louco (James McAvoy) e é narrado pelo ponto de vista de seu assistente (Daniel Radcliffe, como um corcunda encontrado no circo). Não é de todo ruim, e diria que dá para ver como uma experiência diferente e bem torta, mas é também digno de nosso esquecimento.

A LENDA DE TARZAN (The Legend of Tarzan)

Outro herói dos mais populares, que teve uma longa série de filmes para cinema nas décadas de 1930-40, e que também é bastante conhecido por uma legião de gerações seguintes, o personagem de Edgar Rice Burroughs retorna ao cinema em uma produção bem luxuosa dirigida por David Yates e que também tenta trazer uma nova abordagem, um pouco mais adequada aos novos tempos, com uma Jane (Margot Robbie) mais valente e um personagem negro em papel de destaque (Samuel L. Jackson). Porém, no fim das contas, A LENDA DE TARZAN (2016, foto) acaba trazendo o herói branco, vivido por Alexander Skarsgård, como um ser quase divino, capaz de lutar com um gorila enorme na selva, além de saber falar com os bichos e essas coisas fantásticas que fizeram a fama do personagem. Até o famoso grito é trazido de volta aqui. O que o diferencia dos demais que tentam resgatar o personagem é que não há a intenção de recontar a sua origem. E isso é bom para o filme, cuja primeira metade é interessante, mas que depois vira filme de aventura chato e convencional da metade para o fim. Uma pena.

terça-feira, agosto 23, 2016

QUANDO AS LUZES SE APAGAM (Lights Out)



Não basta ter o nome de um diretor de prestígio no cartaz. Principalmente se ele aparece só como produtor. Nem M. Night Shyamalan conseguiu a proeza de ser um bom produtor no esquecível, embora não exatamente ruim, DEMÔNIO. Aqui o nome como grife é do maior nome do horror contemporâneo, James Wan, de SOBRENATURAL (2010), INVOCAÇÃO DO MAL (2013) e suas respectivas sequências.

Se Wan interferiu na produção, de alguma maneira, isso já nem importa. Se sim, é sinal de que não ajudou muito. Se não, é prova de que sua contribuição não foi no âmbito artístico em QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016), que mais parece um daqueles projetos feitos sem pensar muito. Como, aliás, Hollywood vem se especializando em fazer atualmente. Mal comparando, é como se pegassem um boneco ou boneca e tivessem a ideia de fazer um filme sobre ele o mais rápido possível, sem a construção de um roteiro minimamente criativo.

Tire o boneco e substitua pelo curta-metragem LIGHTS OUT (2013), um ótimo exercício de tensão e medo, que chegou a viralizar na internet. QUANDO AS LUZES SE APAGAM é baseado na ideia do curta e dá uma esticada de modo a criar uma história para essa criatura que habita as trevas e que só aparece na escuridão. Isso poderia ter rendido um filme bem interessante. Lembremos de outra obra que lida com a escuridão de maneira genial e assustadora, OS OUTROS, de Alejandro Amenábar.

Na trama de QUANDO AS LUZES SE APAGAM, o garotinho Martin (Gabriel Bateman) vive às voltas com o comportamento estranho da mãe, Sophie (Maria Bello), que passa por um período de luto e depressão depois da morte do marido. Mas o pior de tudo é que ela sempre conversa com alguém invisível em seu quarto, que depois ela diz se tratar de Diana, uma moça estranha que ela conheceu na juventude.

Mas quem é o protagonista mesmo da história é Rebecca, vivida por Teresa Palmer. Ela é a jovem filha adulta de Sophie e até já saiu de casa por causa do comportamento da mãe. O garotinho a procura e pede ajuda a ela, que resolve passar uma noite na casa assombrada pelo fantasma de Diana. A trama parece um tanto esquemática e falta ao diretor David F. Sandberg a mesma capacidade de assustar que ele parece ter em seu curta-metragem. Com um andamento preguiçoso, QUANDO AS LUZES VOLTAM tem um ou outro momento interessante e inventivo, como o uso de uma luz negra para perceber a presença de Diana, em um dos ápices do filme.

No geral, é aquele tipo de filme que pouco assusta, e que talvez por isso possa ser visto ao menos como pouco vulgar, mas ao mesmo tempo também pode ser considerado um exemplar medíocre do que vem sendo produzido atualmente no gênero. Infelizmente, no que se refere ao terror que chega às nossas salas, estamos vivendo tempos de vacas magras.

segunda-feira, agosto 22, 2016

A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ



Há algo de bem maldito na obra de Neville de Almeida, por mais que ele tenha no currículo sucessos gigantes de bilheteria, como A DAMA DO LOTAÇÃO (1978) e OS SETE GATINHOS (1980). Acontece que esses filmes foram feitos em uma época em que ser transgressor estava na moda, e rendia muito mais nas bilheterias. Aos poucos, o aspecto desbocado dos diálogos e o cenário sujo foram sendo rejeitados pelo grande público, principalmente com a mudança de cenário para o chamado Cinema da Retomada, em meados da década de 1990.

Por isso NAVALHA NA CARNE (1997), até então seu último filme, não foi bem-recebido. Depois de um hiato de quase 20 anos, eis que o saudoso Neville retorna com A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ (2015), novamente em uma adaptação de uma peça teatral, escrita por Mario Bortolotto. O aspecto teatral é bem visível e o cineasta não parece se importar muito com isso. A trama se passa quase toda em um único lugar, com exceção de duas sequências, e mais aquelas que mostram o grupo de moças e rapazes ricos saindo de suas casas em direção ao morro carioca, a fim de diversão.

O grupo formado pelas três e mais dois rapazes alugam uma laje na favela e promovem festas regadas a sexo, álcool e drogas. Curiosamente, por mais que o filme seja bem desbocado, o sexo e a nudez, que se faziam presentes de forma mais gráfica e generosa em obras anteriores do cineasta, aqui aparecem bem tímidos, como que sinal dos tempos, ou necessidade de se adaptar de alguma forma aos novos rumos de nossa cinematografia, que, com raras exceções, se mantém muito mais comportada do que nas décadas em que Neville estava no auge.

Quem se destaca no elenco de A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ é Bruna Linzmeyer, que interpreta uma jovem marginal que é aceita pelo grupo de playboys e patricinhas, mesmo não tendo dinheiro e às vezes chegando até a aceitar fazer programa para conseguir mais uma dose. Não sabemos direito qual é o drama de vida de Amsterdan, nome de sua personagem, mas é fácil aceitá-la como alguém mais digno do que qualquer outro que está ali naquele lugar. Até porque o cineasta carrega um pouco nas tintas no terço final, quando exagera na composição maniqueísta dos demais, em comparação com a nobreza decadente de Amsterdan. É como se ela fosse o alter-ego do cineasta, alguém maldito que está tentando jogar o jogo sujo de quem tem dinheiro.

A verdade é que, por mais que a fotografia pareça mais bonita e mais limpa do que estamos acostumados a ver nas obras de Neville (linda a visão do Rio de Janeiro vista do alto), seu retorno foi muito bem-vindo, por mais que tenha sido em um filme imperfeito e que aparentemente faz algumas concessões. Mas talvez as concessões sejam só aparência mesmo. Provavelmente, dentro de um espaço de tempo consideravelmente grande entre uma obra e outra, seria inevitável uma mudança no estilo e no comportamento do cineasta. Que continua incomodando, sim. Basta deixar a televisão ligada em um volume mais alto (sim, o filme já chegou em DVD) para perceber o quanto os diálogos vão incomodar ou horrorizar os familiares ou a vizinhança. E se Neville continua incomodando, é sinal de que ele continua relevante.

domingo, agosto 21, 2016

CORAÇÃO DE CACHORRO (Heart of a Dog)



Laurie Anderson, uma artista que já trafegou por tantos diferentes tipos de arte, abre seu coração e expõe, com seu talento, seus sentimentos de luto sobre a perda de sua cachorra, Lolabelle, e sobre outras perdas que a afligiram, de uma maneira ou de outra, como a perda da mãe ou o sentimento que atingiu todos os americanos depois do ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. A associação que a diretora faz com sua cachorra conscientizando-se sobre ser presa de um falcão em determinada cena é bem inteligente.

CORAÇÃO DE CACHORRO (2015) é um desses trabalhos singulares, que adota um tom ensaístico que até lembra um pouco o de Jean-Luc Godard em ADEUS À LINGUAGEM, mas que tem uma identidade bem própria, até por ser mais acessível e as referências a filósofos como Kirkegaarde e Wittgenstein serem mais ilustrativas. Não funcionam exatamente como hipertextos, já que o que mais importa é o sentimento das histórias de Anderson.

E essas histórias são fascinantes. Não apenas a de Lolabelle, os seus últimos dias na Terra e a ligação que a diretora faz, de modo fascinante com o Livro Tibetano dos Mortos, entre outros momentos memoráveis; mas também o que ela fala sobre momentos de sua infância e adolescência, experiências que ela costura de maneira muito sutil e elegante ao longo da narrativa.

Às vezes ficamos um pouco confusos sobre o porquê de determinados assuntos serem abordados, como a questão das câmeras escondidas, do quanto os Estados Unidos guardam de dados sobre todos os cidadãos americanos, mas aos poucos vamos percebendo o quanto isso se liga com a história de Lolabelle. Ainda assim, acredito que algumas coisas ficam um pouco soltas na teia que ela constrói, como a morte dos irmãos gêmeos amigos dela. Ainda assim, isso ajuda a passar a ideia de que o filme adota um fluxo de consciência, semelhante ao usado por escritores como Virginia Woolf, James Joyce e Clarice Lispector. Esse deixar fluir o pensamento, ainda que possa ser apenas aparente, é um dos maiores trunfos do filme.

Outra coisa: a mistura de música (também de autoria de Anderson, exceto a canção final, de Lou Reed) com poesia escrita e também visual de CORAÇÃO DE CACHORRO é admirável, bem como a delicadeza com que ela trata assuntos tão espinhosos, como o fato de ela não gostar da própria mãe e não saber o que dizer para ela quando ela está prestes a morrer. No fim das contas, a reconciliação que ela faz com a mãe, a partir de uma forte lembrança de infância acaba sendo um dos momentos mais líricos e emocionantes do filme.

No mais, além de o uso da fotografia e do som serem tão sofisticados, há tanta coisa que o filme nos ensina ou nos lembra: sobre o bardo, sobre o olhar dos cães, sobre as lembranças que nós mesmos tratamos de apagar por serem muito dolorosas, e o mais bonito de tudo: sobre a morte ter uma ligação direta com o amor. Isso é maravilhoso.

sábado, agosto 20, 2016

BEN-HUR



Por mais que seja tentador, é melhor nem tentar comparar BEN-HUR (2016), de Timur Bekmambetov, com a versão grandiosa de 1959, dirigida por William Wyler. O próprio diretor cazaque tentou partir para uma direção mais humilde com uma produção de 100 milhões de dólares, mas que parece muitas vezes com uma produção feita para a televisão. Até pelos efeitos especiais pouco caprichados, ainda que funcionem para dar uma dimensão da grandeza do Império Romano, e isso é importante para o filme.

Uma vez que esquecemos a versão memorável de Wyler, vinda de um momento em que as produções épicas atingiram uma dimensão inigualável até hoje, é possível perceber algumas qualidades na nova versão, embora seja muito difícil não sair do cinema até mesmo envergonhado com algumas cenas, em especial as que trazem Rodrigo Santoro como Jesus. Seria preferível não ter dado mais enfoque a Jesus na história, pois a cada vez que vemos e ouvimos Santoro falando algumas palavras, mais o filme nos lembra de suas imensas falhas.

Bekmambetov, cujo melhor filme talvez ainda seja O PROCURADO (2008), opta para uma produção bem menos ambiciosa, a começar pela duração. Enquanto o filme de Wyler tinha quase quatro horas de duração, o remake, ou melhor, a nova adaptação do livro de  Lew Wallace, tem pouco mais de duas, tornando-se economicamente viável no mercado atual. Imagine a plateia ter que aguentar quatro horas de cinema ruim.

Mas ao menos BEN-HUR não é daqueles filmes ruins que nos convidam a cada minuto a sair da sala, como foram os casos recentes de INDEPENDENCE DAY – O RESSURGIMENTO e de ESQUADRÃO SUICIDA. O fato de ser um filme que tem uma edição rápida e de ser mais centrado na ação não cansa a plateia. Além do mais, há ao menos um momento empolgante: quando o herói é levado como escravo e passa anos remando em uma galé. Há uma sequência de choque entre duas embarcações que chega a ser emocionante. A partir daí, porém, o filme só derrapa. O que é uma pena.

De todo modo, o momento mais esperado, que é o da vingança de Judah Ben-Hur (Jack Huston) do irmão Messala (Toby Kebbell), responsável por sua injusta prisão, bem como de sua mãe e irmã, é cercado por alguma expectativa pelo público. A vingança se dá em uma corrida de bigas, a tal corrida que ficou famosa na versão de Wyler (e também na versão muda, de 1925), e que aqui tem sua duração aumentada, mas não sua intensidade dramática. Na verdade, o sentimento que temos é de quase apatia. Algo, porém, chama a atenção quando Judah vence o irmão: as palavras de Pôncio Pilatos, ao afirmar que o povo hebreu agora também é romano, comemorando a vitória de seu representante em um esporte violento.

E é talvez o momento que mais traz alguma reflexão, pois vivemos em um país em que as pessoas também vivem conformadas com vitórias no esporte ou até no Carnaval, de modo que nos esquecemos de lutar por algo verdadeiramente importante para nossas vidas e para o futuro do país. Por isso, este seria o momento ideal – ou quase ideal – para que o novo BEN-HUR acabasse.

Pois, depois desta sequência, quando o realizador e seus dois roteiristas tentam apelar para o aspecto religioso da redenção e nova visão de vida de Judah, a partir do encontro com Jesus, o que já era ruim consegue se tornar infinitamente pior, trazendo uma série de momentos que estão entre os mais constrangedores das grandes produções hollywoodianas em um bom tempo. É ir ao cinema e não esquecer do saco para cobrir a cabeça.

quarta-feira, agosto 17, 2016

PHOENIX



Um dos melhores filmes lançados no circuito nacional no ano passado infelizmente não alcançou as telas cearenses. Acabei sendo forçado a ver PHOENIX (2014) por vias alternativas, o que definitivamente deve ter diminuído bastante o impacto da obra em mim. Até porque eu continuo preferindo BARBARA (2012), o filme anterior de Christian Petzold, que chegou a ser lançado comercialmente por essas terras. Só a lembrança do vento na copa das árvores em BARBARA não me sai da cabeça.

No entanto, PHOENIX é um filme que tem um poder maior, ainda mais para cinéfilos que têm em UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock, um dos grandes filmes de todos os tempos. Não seria exagero dizer que PHOENIX é o UM CORPO QUE CAI dos nossos tempos. Não exatamente por sua excelência, mas por ter muitos pontos em comum na forma como reconstrói e traz de volta a figura de uma mulher suposta morta. O que há é basicamente uma alteração do ponto de vista.

Na trama, Nina Hoss, em sexta parceria com o diretor, é Nelly Lenz, uma mulher que sobreviveu ao holocausto nazista e que teve seu rosto desfigurado enquanto esteve presa. De volta a uma Alemanha devastada pela guerra, ao final do conflito, com faixas cobrindo todo o rosto, ela está com uma amiga, uma militante sionista que auxilia judeus sobreviventes do holocausto. E a ajuda no período em que ela estiver se adaptando ao novo rosto que a cirurgia de reconstrução facial trará. Mas, por mais que os médicos tenham se esforçado para deixá-la parecida com quem ela era, aquela nova mulher que nasceu da cirurgia é uma desconhecida.

E é como desconhecida que ela vaga pelos escombros da cidade em busca do marido Johnny (Ronald Zehrfeld), um sujeito de caráter questionável, que passa a vê-la como uma mulher que poderia se passar por sua falecida esposa, e assim ele poderia faturar uma grana com a família dela. Aos poucos, então, Johnny vai tentando transformar aquela estranha que ele encontrou em Nelly. Aos poucos, também, ela vai descobrindo que o marido teve uma importante participação em sua prisão.

Daí PHOENIX ser também um filme sobre redenção e renascimento. Como o próprio título indica, é sobre uma mulher que renasce das cinzas. E o modo como ela finalmente renasce, na cena final, em que canta "Speak low" é uma das mais arrepiantes do cinema contemporâneo. Nesse sentido, o filme de Petzhold é também bastante devedor dos melodramas de Rainer Werner Fassbinder, que tão bem lidou com personagens femininas sobreviventes do caos em que o país mergulhou após o fim da Segunda Guerra Mundial.

terça-feira, agosto 16, 2016

KIDS



A memória de quando vi KIDS (1995) no cinema – provavelmente no mesmo ano de seu lançamento nos Estados Unidos – era a de um filme tão excitante quanto proibido. Ou excitante justamente por ser proibido. Revê-lo pouco mais de vinte anos depois pode ter mudado bastante minha percepção do filme. Até porque minhas lembranças de minha primeira vez são nebulosas – o que não esquecia mesmo era da cena da piscina, do beijo das meninas, e também do exame de HIV da personagem de Chloë Sevigny, em sua estreia no cinema. Vinte anos com carinha de quinze. Perfeita para o papel.

O filme também foi a estreia na direção de Larry Clark, que desde então ganhou a fama de cineasta controverso, que mantém até hoje. Era também a estreia do roteirista e futuro cineasta Harmony Korine, então com apenas 19 anos. A idade dessa turma envolvida na produção de KIDS ajudou o filme a entrar em sintonia com aquela nova juventude, e intimidade para falar dos garotos misóginos e das meninas vítimas da escrotidão deles.

Um momento marcante do filme é uma edição que mostra o contraste entre as diferentes conversas sobre sexo entre meninos e meninas. A edição mostra a conversa sobre a experiência sexual dos meninos, com uma visão mais misógina e também necessitada de estar sempre confiante e dono da situação, e a das meninas, mais sincera e confessional.

Quanto à sensação de estar vendo algo proibido, isso se estabelece logo na primeira cena: nela, vemos dois adolescentes na cama, prestes a transar. A garota é virgem, o menino a beija e diz que o sexo vai ser muito bom, que ele vai ser muito gentil com ela. O fato de vermos dois jovens na pré-adolescência fazendo sexo e em closes de beijos tão próximos provoca ainda uma reação mista de excitação, repulsa e indignação, já que percebemos o mau caráter do menino, sua intenção de colecionar virgens e abandoná-las. E o pior: passando o vírus HIV para elas.

O drama da menina, Jenny (Sevigny) que transou pela primeira vez com ele é até hoje bastante tocante. Naquela época, meados dos anos 1990, ter o vírus da AIDS ainda era o fim do mundo, embora já houvesse medicamentos que ajudavam a pessoa a ter uma vida quase normal. Era preciso ser forte, portanto. E ver a personagem no final da narrativa, naquela festa regada a muita bebida, drogas e sexo, sem saber o que fazer da vida, e tentando alertar uma garota que seria a nova vítima do menino soropositivo, chega a passar uma sensação de desesperança imensa.

segunda-feira, agosto 15, 2016

AMOR & AMIZADE (Love & Friendship)



Para um cineasta com 25 anos de carreira, ter apenas cinco longas-metragens é muito pouco. E lamenta-se mais ainda se for um cineasta de destaque, que já iniciou sua carreira com uma obra até hoje cultuada, como METROPOLITAN (1990). O seu mais recente filme é a adaptação da única comédia escrita por Jane Austen em forma epistolar, a novela Lady Susan, que não chegou a ser publicada pela própria autora em vida. Era ousada demais para a época, ao mostrar uma mulher como uma predadora fria e sem escrúpulos.

Esse tipo de visão da mulher destoa bastante das personagens vistas em obras como Orgulho e Preconceito e Razão e Sentimento, para citar os mais lembrados romances da escritora inglesa. Em comum com estas obras, há a dificuldade das mulheres em encontrarem um lugar ao sol em um tipo de sociedade que não as permitia viver por conta própria. A saída era mesmo através de um casamento, de preferência com alguém de posses.

Kate Beckinsale interpreta com elegância e veneno Lady Susan, uma viúva que tem fama de ser ótima em flertes, e por isso é mal vista pela sociedade. Até mesmo a amiga Alicia Johnson (Chloë Sevigny) é proibida pelo marido (Stephen Fry) de se relacionar com pessoa de reputação tão ruim. No entanto, como ela é uma mulher muito inteligente, ela sabe reverter sua situação desfavorável através de vivência, inteligência. Quem fica logo apaixonado por ela é o jovem Reginald DeCoursy (Xavier Samuel). Mas quem acaba roubando a cena, como o homem bobão mas com posses, é Tom Bennett, no papel de Sir James Martin.

O filme tem uma estrutura que já chama a atenção desde o começo, apresentando muito rapidamente cada personagem, mesmo os de menor importância na trama, com seus nomes e suas funções e características. Isso aproxima deliberadamente o filme da obra literária, o que não chega a ser um aspecto negativo. Aliás, até convida o espectador para uma revisão da obra. Ou, melhor ainda, para uma leitura da novela de Jane Austen.

No entanto, pode-se dizer que AMOR & AMIZADE (2016) tem vida independente, ainda que seja obviamente devedor da obra literária. O orçamento limitado – a produção custou apenas três milhões de dólares – é compensado com uma beleza fulgurante na fotografia, nos figurinos, na direção de arte, na boa escolha do elenco, e nos diálogos afiados, especialmente os da protagonista, cheios de veneno, sendo que aos poucos vamos percebendo a fragilidade de suas tentativas de parecer sempre sábia, com suas citações a Salomão e a um dos Dez Mandamentos.

Interessante também o uso de elipses que escondem momentos de maior intimidade gráfica dos personagens. Destaque para a cena de um dos amantes de Lady Susan se aproximando da carruagem. Faz lembrar um tipo de comédia feito no início do século XX, com edição de certas cenas consideradas impróprias. Mas isso acaba depondo a favor do filme, dando-lhe a elegância e a fineza necessárias.

domingo, agosto 14, 2016

ÁGUAS RASAS (The Shallows)



Já faz pouco mais de 40 anos que Steven Spielberg trouxe um novo conceito de blockbuster, com o seu TUBARÃO. De lá pra cá, vários filmes em que o mais feroz animal do mar ataca suas vítimas foram realizados, embora poucos sejam dignos de lembrança, sendo que a grande maioria é composta por filmes B de gosto duvidoso. De produções marcantes que passaram no cinema nos últimos vinte anos, podemos contar nos dedos. Temos MAR ABERTO, de Chris Kentis, e DO FUNDO DO MAR, de Renny Harlin, por exemplo.

ÁGUAS RASAS (2016), de Jaume Collet-Serra, tira a maldição do filme ruim de tubarão, e sem fazer muito esforço. Há uma simplicidade na trama que é louvável, especialmente quando o que mais importa é feito com esmero: o clima de tensão envolvendo a surfista solitária vivida por Blake Lively e o tubarão impiedoso e sangrento.

É bom lembrar que Collet-Serra tem mantido uma média de bons filmes desde o início de sua carreira no cinema, com A CASA DE CERA (2005), e sempre pendendo para o terror e para o suspense, o que é uma iniciativa muito bem-vinda, levando em consideração a geração contemporânea pouco inspirada de realizadores de filmes de horror, em comparação com a geração dos anos 1970-80.

Uma das coisas que salta aos olhos logo no início de ÁGUAS RASAS é a paisagem linda da praia secreta onde a heroína vai parar. Dá para curtir a beleza das ondas gigantes quando a protagonista passa por várias delas até chegar às grandes. O embate da garota de biquíni contra o tubarão não deve frustrar as expectativas, especialmente pelo filme ser tão simples e tão eficiente em sua condução narrativa e na criação de uma atmosfera de tensão de deixar o sangue intoxicado.

E não deixa de ser admirável que o sucesso do filme esteja nas mãos praticamente de seu diretor talentoso, de uma atriz que convence bastante na pele de uma garota em perigo, mas também de uma moça ousada e cheia de coragem, e de efeitos especiais bem caprichados, mal dando para perceber que o tubarão foi gerado por computador. Há quem vá reclamar de uma dose maior de realismo no modo como a heroína lida com o seu algoz no final, mas o mesmo poderia ser dito com a personagem de Mary Elizabeth Winstead, em RUA CLOVERFIELD, 10, outro thriller de primeira estrelado por poucos atores e uma protagonista feminina forte.

Porém, enquanto o filme de Matt Reeves tem uma estrutura mais complexa, Collet-Serra opta pela simplicidade espartana, pela objetividade. Claro que há um contexto dramático que nos apresenta um pouco à intimidade da personagem de Lively, mas isso acaba funcionando mais como agente adicional do drama, uma maneira de fazer com que nos importemos com a personagem. Se bem que ele consegue fazer isso também com personagens que só aparecem em poucos minutos e que são vítimas potenciais do tubarão. Uma prova de que o diretor catalão domina a gramática do cinema muito bem. E talvez ÁGUAS RASAS seja o seu melhor trabalho.

sexta-feira, agosto 12, 2016

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca)



Poder rever REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (1940) no cinema é uma oportunidade imperdível. Como, aliás, seria a de ver qualquer dos filmes de Alfred Hitchcock. Podemos até dizer que a estreia do já celebrado cineasta inglês em Hollywood ainda não seria um trabalho que superaria algumas de suas produções feitas em seu país natal, como CHANTAGEM E CONFISSÃO (1929), O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1934) e OS 39 DEGRAUS (1935), para citar apenas três obras.

No entanto, REBECCA tem um brilho todo próprio, e apesar de ser em parte uma obra do produtor David O. Selznick, e de ter algumas fragilidades, especialmente na parte final, a marca de Hitchcock está lá, inclusive, lembrando uma obra de sua fase madura, UM CORPO QUE CAI (1958), na cena da heroína se apresentando vestida como a falecida. Sem querer, o mestre do suspense faria algo semelhante, trazendo alguém de volta à vida através do fetiche de uma vestimenta, 18 anos depois.

A primeira parte de REBECCA é bem interessante, e, por ter um pouco mais de humor, lembra mais um típico Hitchcock. Nessa primeira parte, a heroína (Joan Fontaine) está trabalhando como dama de companhia de uma mulher chata e arrogante em um hotel de luxo em Monte Carlo e lá conhece um milionário (Laurence Olivier) que vive atormentado com as lembranças de sua falecida esposa, uma mulher que nunca aparece no filme, a Rebecca do título.

Se por um lado ela não aparece, por outro, sua presença está em todo o lugar na mansão em Manderley, como um fantasma que atormenta a todos, consome a todos. A nova Mrs. de Winter, que nem primeiro nome tem, de tão destituída de autoconfiança que é apresentada, em contraponto com a presença onipresente da mulher confiante e descrita como uma das criaturas mais belas do mundo, e que parecia estar ainda mais forte agora que estava morta. Inclusive, tal descrição é mostrada com o recurso de um travelling para trás, fazendo com que a protagonista se torne ainda menor.

A culpa, um elemento-chave em toda a obra hitchcockiana, aparece em especial na parte final, quando se descortina o mistério em torno da morte da personagem-título, e o envolvimento ou não do marido com o ocorrido. Embora Hitchcock tenha deixado claro em entrevista a François Truffaut que Maxim, o personagem de Olivier, não sentia culpa pela morte da esposa, havia sim algo que ele havia feito que era um segredo, e, portanto, passível de ser levantado como um crime. Não deixa de ser um peso em sua consciência, de certa forma, que diminui com a cena do médico de Rebecca.

Não dá para falar de REBECCA sem mencionar a governanta, Mrs. Danvers (Judith Anderson), uma mulher que impõe medo à frágil heroína, que trata de esconder um vaso quebrado por acidente, com medo de ser descoberta, em determinada cena. Em uma das cenas-chave, Hitchcock destaca bem o semblante impassível da governanta e a expressão de horror de Mrs. de Winter.

REBECCA é uma obra de transição para Hitchcock. Não apenas por ser a primeira produção americana. Mas por ser o início também de uma briga entre diretor e produtor que duraria ainda alguns anos. O cineasta nem considera REBECCA como um filme seu, mas do produtor, que até ganhou o prêmio da Academia pelo filme, depois do sucesso retumbante de ...E O VENTO LEVOU no ano anterior.

Aos poucos, o mestre do suspense se imporia e chegaria ao seu auge na década seguinte, mas é muito interessante ver esta evolução acontecendo em uma obra em que o diretor não teve toda a liberdade que gostaria, por causa de tantas imposições de Selznick, mas que conseguiu deixar sua marca e fazer de um conto de fadas estilo Cinderella um conto gótico romântico que, mesmo passados tantos anos de sua produção, consegue se manter sólido e vibrante.

quinta-feira, agosto 11, 2016

VAN GOGH



Quando no ano passado eu pude ver uma série de clássicos do cinema francês na telona, em cópias restauradas, acabei não tendo tempo para colocar "no papel" minhas impressões sobre boa parte desses filmes. Uma dessas obras, que agora estou puxando pela memória, um pouco com a ajuda de críticas brasileiras e estrangeiras, foi VAN GOGH (1991), de Maurice Pialat. Foi o meu primeiro Pialat, vale destacar, mas, pelo que andei lendo em um dos textos a respeito do diretor, seus trabalhos não são tão marcadamente impressos de uma assinatura óbvia, como o de seus antecessores da Nouvelle Vague. Logo, cada filme seu seria bem singular, embora eu um dia vá querer voltar a este especificamente quando fizer uma peregrinação pela obra do cineasta.

Uma das coisas marcantes em VAN GOGH é a maneira antidramática e antirromântica com que o diretor lida com os últimos dias da vida de um dos pintores mais famosos do mundo, mas que manteve a fama de maldito até o fim da vida, quando se suicidou, aos 37 anos. Como Pialat foi pintor antes de ser cineasta, VAN GOGH é um filme de pintor para pintor, com a fotografia emulando a pintura impressionista de um Renoir ou de um Manet.

É também tido como uma espécie de filme-testamento do cineasta, já que ele também foi um tanto maldito, tendo começado a dirigir o seu primeiro longa-metragem, INFÂNCIA NUA, só em 1968, depois de quase duas décadas dirigindo apenas curtas, e deixado de dirigir dizendo que as pessoas não iam sentir falta de seu cinema. Nota-se, já a princípio, uma identificação de sua biografia com a vida do famoso pintor holandês.

O filme se passa na pequena cidade de Auvers-sur-Oise, em 1890, quando o Van Gogh passou uma temporada na casa do Doutor Gachet (Gérard Sety) e teve relações amorosas com sua filha, Margueritte (Alexandra London) . Não há, aqui, nenhum compromisso com a verdade e o filme nem tem cara de cinebiografia. O que já podemos ver como algo bem positivo, sem querer diminuir outro trabalho que se debruça sobre o pintor de maneira mais convencional, SEDE DE VIVER, de Vincente Minnelli. Até porque eu nem vi ainda o filme do Minnelli.

VAN GOGH é também um filme sem música, despojado, com uma atuação econômica de Jacques Dutronc no papel principal. Poderia ser uma obra que adotasse um tom dramático ou até mesmo trágico, levando em consideração não apenas o destino final do pintor, mas principalmente sua personalidade instável e seu desequilíbrio mental, que é, de certa forma, atenuado pelo tom sóbrio da direção de Pialat. É certamente um filme que eu pretendo rever em um futuro próximo. E então escrever algo mais próximo do que a obra merece.

quarta-feira, agosto 10, 2016

NEGÓCIO DAS ARÁBIAS (A Hologram for the King)



A carreira do cineasta alemão Tom Tykwer é marcada por filmes bastante distintos entre si. Ele ganhou notoriedade internacional com o divertido CORRA LOLA CORRA (1998), trabalhou em um dos filmes de um projeto deixado por Krzysztof Kieslowski, PARAÍSO (2002), dirigiu a adaptação de um best-seller de prestígio, PERFUME – A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006), e fez parceria com os irmãos Wachowski no ambicioso A VIAGEM (2012). Isso para citar os seus filmes mais conhecidos.

Há muito pouco em comum entre todos esses filmes. A não ser um apuro ao aspecto plástico, que se apresenta evidente em todos os seus trabalhos. Fazer parceria com os Wachowski, então, só torna ainda mais complicada a tarefa de um crítico que queira incluí-lo na teoria dos autores. Ou incluí-lo como um autor. De qualquer maneira, isso não é preciso. Cada filme é um projeto único e pode ser visto de forma totalmente independente. Principalmente no caso de um diretor como Tykwer. 

NEGÓCIO DAS ARÁBIAS (2016) é o seu mais recente trabalho para o cinema. Traz de volta Tom Hanks, com quem o diretor havia trabalhado em A VIAGEM. Mas trata-se de um filme um tanto torto em sua condução narrativa desde as primeiras imagens, um tanto rápidas, quase lisérgicas, dando a entender que o filme trará algo parecido com o que seu início promete.

Não que NEGÓCIO DAS ARÁBIAS seja uma obra lenta e contemplativa. Na verdade, é um filme até que bastante dinâmico no modo como apresenta o dia a dia de Alan (Tom Hanks), um executivo falido que deixa o seu arruinado país, os Estados Unidos, para tentar a sorte na Arábia Saudita, lugar que tem crescido bastante. A imagem que vemos dos Estados Unidos, inclusive, é bem pequena e pobre, em contraste com a vastidão dos desertos e dos prédios gigantescos daquele lugar de cultura estranha.

Há um homem que serve de motorista e de guia turístico para Alan, o divertido Yousef (Alexander Black). Mas é curioso como ele, apesar de se destacar, aparece sempre em cenas curtas. Como, aliás, todos os demais personagens que rodeiam Alan. Mesmo a médica por quem ele se interessa, vivida por Sarita Choudhury, e que ganha mais espaço no final, parece um apêndice na vida do protagonista. A médica, inclusive, até parece um pouco deslocada na história, como se quisessem incluir um interesse amoroso na história a fórceps. Não que não seja simpático e não gere uma cena memorável, mas nem parece uma personagem saída de um romance.

Outra coisa que desaponta é a tal apresentação que ele vai fazer para o Rei da Arábia, em um holograma. Do jeito que é mostrada, não causa o menor fascínio no espectador. Principalmente porque criamos grande expectativa em relação a ela. Mesmo assim, NEGÓCIO DAS ARÁBIAS é aquele tipo de filme bem agradável de ver, apesar de frágil, sem precisarmos analisar muito para perceber.

segunda-feira, agosto 08, 2016

OS AMANTES CRUCIFICADOS (Chikamatsu Monogatari)



Tem sido muito gratificante entrar em contato, ainda que aos poucos, com a obra de Kenji Mizoguchi. O que eu percebo é que preciso estudar melhor o trabalho dele, para que também comece a perceber os aspectos formais que ainda não se tornaram tão evidentes para mim. Por enquanto, o que eu percebi foram mesmo os aspectos temáticos, e a preferência do cineasta por grandes tragédias humanas.

OS AMANTES CRUCIFICADOS (1954) não foge a essa regra. As circunstâncias em que se encontram os heróis da historia são bem trágicas. Novamente, são pessoas que lutam contra um sistema de convenções opressor. No caso, temos um senhorio que trata com mão de ferra seus empregados, que ganham uma ninharia, mas que acabam se sujeitando às suas regras, por falta de opções.

O sujeito, além de procurar trair a esposa, assediando a jovem namorada de um funcionário seu, Mohei (Kazuo Hasegawa), é extremamente hipócrita. Ao ver um casal de amantes crucificados que passa pela rua, prestes a serem executados em público por cometerem adultério, ele afirma que eles merecem, que esta é a lei para quem desobedece. As coisas se complicam para os personagens quando um irmão de sua esposa pede dinheiro emprestado e é Mohei quem vai tentar salvar a situação, ainda que através de meios ilícitos.

Ao confessar o que ia fazer, Mohei prejudica não apenas a si, mas faz sofrer tanto sua namorada oculta, quanto a própria esposa de seu senhor, que o quer bem, e fica revoltada com a atitude do marido em relação ao empregado. Ao fugirem os dois de casa, a mulher, Osan (Kyôko Kagawa), e Mohei, mexem não apenas com o clã do poderoso homem, mas também com seus próprios sentimentos adormecidos.

E é então que o filme ganha contornos bem românticos, ou ultrarromânticos. A cena de Mohei e Osan no barco é uma das mais belas dos filmes de Mizoguchi. Porém, diferente de um contido SENHORITA OYU (1951), que traz a tragédia para um território fechado e opressivo para os personagens, OS AMANTES CRUCIFICADOS opta pela catarse, pelo sentimento de quase bem-estar com o fato de deixar os sentimentos aflorarem com força. Mesmo que isso custe a sua vida. É quase uma visão cristã, em que é necessário perder a vida para ganhar a alma.

OS AMANTES CRUFICICADOS flagra Mizoguchi em pleno domínio de seu ofício, pouco tempo depois de ter lançado o que talvez seja sua obra-prima máxima, CONTOS DA LUA VAGA (1953). E poder ter o privilégio de acompanhar essa evolução, ainda que de maneira um pouco desordenada, é maravilhoso.

domingo, agosto 07, 2016

ESQUADRÃO SUICIDA (Suicide Squad)



E a coisa não está nada bem para a DC/Warner. Depois do recentemente massacrado BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA, eis que a mais tradicional casa de super-heróis falha feio com um projeto ousado para quem ainda está tateando em busca de um universo cinematográfico compartilhado, à semelhança do que a Marvel já vem fazendo muito bem há alguns anos. ESQUADRÃO SUICIDA (2016) seria, portanto, um projeto bem arriscado, levando em consideração que se trata de um filme centrado em supervilões.

Uma pena que tenha resultado em uma obra totalmente equivocada, um rascunho feio que se desenha logo de início, com a apresentação dos personagens, incluindo trilha sonora de canções bem famosas e clássica, que dentro da colagem mais parece o trabalho de um DJ sem qualquer criatividade. E o pior é que depois dessa apresentação irritante o filme consegue piorar muito mais, especialmente quando é delineada a ameaça para o grupo de vilões.

David Ayer, o diretor do bom drama de guerra CORAÇÕES DE FERRO (2014), se mostra muito perdido em procurar dar liga a um roteiro que ele mesmo assina, mas que certamente teve dedo dos produtores para que a montagem e o tom fossem modificados ao longo da pós-produção, já que queriam que o filme não fosse tão sério como o trabalho anterior da DC, e mais próximo da leveza e do humor da Marvel. Não funciona nem como uma coisa, nem como outra.

Quanto aos personagens, o destaque é mesmo para Margot Robbie como a Arlequina. A caracterização é bonita, tanto pelo figurino colorido quanto por ela ser uma atriz extraordinariamente bela. Mas isso não basta se o texto é ruim e força a moça a entrar em mais uma barca furada recente – a anterior foi A LENDA DE TARZAN.

A origem da personagem, por sua vez, ligada ao Coringa, é passada muito por cima, mas talvez tenha sido melhor assim. Já que se o filme fosse parar para contar a história de todos ali, conseguiria talvez ser ainda pior. Quanto ao Coringa do Jared Leto, é o pior de todos. Nem é preciso comparar com a performance gigante de Heath Ledger em BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS. Qualquer Coringa de qualquer filme do Homem-Morcego é melhor do que este apresentado. Tentam dar um ar de gângster e só conseguem criar uma caricatura ruim.

Will Smith é outro que se esforça para dar credibilidade ao Pistoleiro, mas como é um ator limitado, a sua cara de cachorro triste é sempre a mesma. E a lembrança do horrível UM HOMEM ENTRE GIGANTES continua firme na memória. Os demais personagens são ainda menos interessantes, embora possamos dar um desconto para Joel Kinnaman, como o líder da missão. Nem Viola Davis convence, como a chefe geral da operação.

Mas o ridículo mesmo é ver Cara Delevigne (CIDADES DE PAPEL) como a bruxa responsável pela grande ameaça a ser combatida. Aliás, toda a ideia dessa ameaça, com homens transformados em massas escuras de modelar é digna de nosso mais profundo desprezo. Ou da mais profunda admiração, pois é impressionante alguém vender isso, gastar milhões e ninguém se opor na pré-produção. No mais, ainda dá pra torcer para que MULHER-MARAVILHA seja um bom filme. Se não for, pode representar o fim das ambições da DC para o cinema.

sexta-feira, agosto 05, 2016

QUATRO DOCUMENTÁRIOS BRASILEIROS



Vamos a mais uma postagem rápida e rasteira sobre alguns filmes, para ir desaguando a quantidade de títulos não comentados ainda, por algum motivo ou outro. Todos os filmes foram produzidos no Brasil, sendo que o único que ganhou grande alcance, por razões óbvias, foi o sobre o Chico Buarque. Ainda assim, ao menos aqui, passou pouco tempo em cartaz.

CHICO - ARTISTA BRASILEIRO

Nem sei mais quanto tempo faz que vi CHICO – ARTISTA BRASILEIRO (2015), de Miguel Faria Jr., mas certamente foi no ano passado. É um documentário musical que presta tributo a um dos nossos maiores artistas. Embora não esteja exatamente entre os meus favoritos, tenho um respeito enorme pelo seu trabalho, por sua militância política, pela sensibilidade com que ele cria canções feitas para serem cantadas por mulheres, pela sua capacidade de se outrar que poucos grandes artistas possuem aqui no Brasil. Gosto das cenas de depoimento confessional dele, sobre o fim do casamento com Marieta Severo e de depois não ter encontrado mais ninguém, mas que se sente feliz estando sozinho em seu ócio criativo. Acho interessantes os arquivos do passado. Uma entrevista em que perguntam se ele é homossexual é hilária. Também muito interessante a história envolvendo o meio-irmão dele, que acabou rendendo um livro. E no meio de tudo há algumas canções cantadas por ele exclusivamente para o filme. A opção por não escolherem só as mais famosas foi acertada.

PARATODOS

Como não sou um fã de esportes, fui ver PARATODOS (2016), de Marcelo Mesquita, um pouco desinteressado. Acho até que algumas cenas são um pouco chatas, como o segmento dos cegos jogadores de futebol, mas mesmo esta parte tem o seu grau de interesse. O que mais conta é mesmo a lição de vida dessas pessoas que driblam as adversidades para se tornarem campeãs em diversas categorias dos jogos paralímpicos. Algumas cenas são particularmente comoventes, como a da nadadora que tem uma doença degenerativa. Ela sabe que a cada mês está pior e por isso a categoria dela vai sendo modificada. Também muito curioso o caso do rapaz do BBB que ficou paralítico depois de um acidente de carro e que agora dá tudo de si na canoagem. Ou do rapaz que não tem mãos e que pratica natação. São pessoas que já são campeãs. O filme tem umas barrigas, mas nos ajuda a valorizar mais a nossa própria vida.

DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO

Extremamente simpático este documentário sobre estudantes de outros países que foram colonizados por Portugal que vêm estudar na Unilab, na cidade de Redenção-CE, localizada a cerca de duas horas de Fortaleza. DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO (2015), de Daniele Ellery e Márcio Câmara, é uma produção cearense que consegue captar as dificuldades e as alegrias dessas pessoas, suas experiências em ter que abandonar o país natal e chegarem a um lugar que elas nem sabiam que era racista. Comentam sobre a imagem que elas tinham do Brasil, basicamente formado pelas telenovelas da Rede Globo, e do quanto se sentiram enganadas. Destaque também para o modo como os diretores exploram a própria imagem contraditória da cidade de Redenção, que é vendida como a primeira do país a libertar os escravos. No entanto, aquelas imagens de escravos negros ainda acorrentados, ou da mulher negra nua que estampa o cartão postal de lá, pode ser um tanto ruim para os africanos que chegam de lá e que já têm a questão do escravismo como algo ultrapassado, como um deles comenta. Gosto das cenas dos dois casais que tiveram a sorte de encontrarem o parceiro ideal.

MENINO 23 - INFÂNCIAS PERDIDAS NO BRASIL

Difícil esquecer os olhos tristes do seu Aloísio Silva, o menino 23, do título deste documentário que investiga o caso de um sítio nazista que, na década de 1930, era usado como local de trabalho escravo para crianças negras. MENINO 23 – INFÂNCIAS PERDIDAS NO BRASIL (2016, foto), de Belicario Franca, mostra o quanto ainda há de feio para sabermos sobre a história do nosso país. O caso foi descoberto depois que tijolos com a suástica foram encontrados no local. Descobre-se, então, dois homens que foram vítimas dessa história horrível. Cada um deles tomou um rumo diferente na vida. O seu Aloísio é o que mais guarda rancor dessa época, enquanto o outro conseguiu fugir e mudar sua situação e até o modo mais alegre como encara o passado. Há também o curioso caso de um desses meninos, que foi criado dentro da casa, junto com a família rica do sítio. Mas o que mais fica na memória mesmo é o olhar do seu Aloísio, e de ouvi-lo dizer que jamais recebeu carinho de mãe ou de pai. É duro.

quarta-feira, agosto 03, 2016

POLYTECHNIQUE



Antes de encantar multidões com INCÊNDIOS (2010) e de depois ficar mundialmente conhecido em Hollywood com OS SUSPEITOS (2013), Denis Villeneuve já tinha dito a que veio com POLYTECHNIQUE (2009), um filme que poderia ser muito bem encarado como o seu ELEFANTE, levando em consideração a semelhança temática com a obra-prima de Gus Van Sant. Para muito, inclusive, principalmente os detratores da obra do cineasta canadense, POLYTECHNIQUE é o seu melhor e talvez único grande filme. O que eu vou discordar, mas que não vem ao caso agora.

Pra mim, este filme teve uma coincidência terrível: no dia seguinte em que o vi, assisti a uma entrevista no programa Altas Horas, de uma garota que sobreviveu a um massacre ocorrido em uma escola em Realengo, interior do Rio de Janeiro, em 2011. E o mais curioso de tudo foi eu ter me esquecido deste caso tão terrível, depois de passados apenas cinco anos de sua veiculação maciça na mídia. Para vermos o quanto somos egoístas quanto à dor alheia. A garota que deu entrevista não foi uma das 12 pessoas mortas, mas levou um tiro que a deixou sem o movimento das pernas.

O massacre apresentado em POLYTECHNIQUE ocorreu em 1989 em uma escola em Montreal, no Canadá. Foi o maior da história de um país que tem fama de ser pacífico. 14 estudantes do sexo feminino foram mortas neste dia por um psicopata que odiava as feministas. E o pior de tudo é que vivemos em um momento tão particularmente delicado que não será nenhuma surpresa se algo desse tipo acontecer novamente. O mundo está mais perigoso e mais cheio de pessoas desse tipo.

Denis Villeneuve teve a boa ideia de filmar sua obra em preto e branco, de modo que o sangue derramado não adquira uma tonalidade tão brutalmente realista. Lembra um pouco a decisão estética de Hitchcock em PSICOSE, mas aqui, especificamente, funciona como uma busca por respeitar as vítimas da tragédia. E ainda traz um final tão lírico e emocionante, com a carta de uma das moças sobreviventes à mãe do homem que matou suas amigas. As últimas palavras são de arrepiar e fecham de maneira extraordinária este filme que a todo instante procura adotar um tom não muito elevado.

Essa elegância na demonstração contida dos sentimentos e do respeito à dor das pessoas envolvidas está em cada momento do filme. Está na angústia do rapaz que tentou ajudar e que falhou no dia. Está na economia de gestos que o filme prefere adotar, a fim de dar à obra um tom seco e pungente, mas bem longe do sensacionalismo.

segunda-feira, agosto 01, 2016

O BOM GIGANTE AMIGO (The BFG)



Podemos dizer que O BOM GIGANTE AMIGO (2016) é o mais tedioso filme de Steven Spielberg desde AMISTAD (1997). Aliás, consegue ser muito mais chato para quem não curte muito o gênero fantasia, embora tenha um sabor de filmes antigos e inocentes feitos para crianças na Velha Hollywood. É bem a cara da Disney, nesse sentido, uma empresa que deseja que o mundo tivesse parado na primeira metade dos anos 1960.

Já fazia algum tempo que Spielberg não dedicava um filme às crianças. O último foi o também horrível HOOK – A VOLTA DO CAPITÃO GANCHO (1991). Isso porque não devemos encarar o divertido AS AVENTURAS DE TINTIM (2011), sua animação, como um filme infantil, mas uma aventura para todas as idades. Inclusive, pensando em um público mais velho que já conhece o herói dos quadrinhos.

Curiosamente, O BOM GIGANTE AMIGO é daqueles filmes que tenta ser dinâmico, mas que acaba não conseguindo dinamizar muita coisa, já que depois que o gigante misterioso (Mark Rylance, também conhecido como o sujeito que tirou o Oscar de Sylvester Stallone na última premiação) rapta a garotinha (Ruby Barnhill) de um orfanato para a terra dos gigantes, pouca coisa interessante acontece.

Ao contrário do que a garotinha esperta e insone pensa, o gigante não faz dela uma refeição, mas a prende com medo de que ela fale para os outros da existência dele e isso se tornaria um problema para ele e os demais gigantes da ilha. Aos poucos, vamos conhecendo os outros gigantes, os malvadões, que gostam de aplicar bullying no gigante menor, e é curioso como o filme trabalha com essas relações de tamanho. O que parecia já enorme passa a ser ainda maior quando vemos os gigantes valentões que gostam de comer seres humanos.

A história é basicamente sobre a tentativa do bom gigante de esconder a garota dos demais e apresentá-la ao seu mundo, já que ele é também uma espécie de mago dos sonhos. É possível que o filme tenha algum efeito positivo nas crianças, em criar uma imagem de encantamento que para a maioria dos adultos não funciona. Lembrando que Spielberg conseguiu deixar pessoas de todas as idades completamente maravilhadas quando apresentou as primeiras imagens dos dinossauros em JURASSIC PARK (1993).

Agora que o público já está anestesiado de tantos efeitos especiais, o que é mostrado em O BOM GIGANTE AMIGO acaba não surtindo muito efeito. Além do mais, a história, adaptada do livro de Road Dahl, parece muito esticada. Até a garota e o gigante arranjarem uma maneira de se livrarem dos seus inimigos, indo até o castelo da rainha, boa parte do público já fica impaciente. O final não deixa de dar uma melhorada na narrativa, mas Spielberg precisa aprender a fazer filmes de uma hora e meia quando for necessário. Ou então perceber que o tempo de fazer aventuras infantis já passou pra ele.