domingo, julho 31, 2016

FREE THE NIPPLE



O meu interesse por esse filme não foi pela temática. Que é até interessante e louvável, mas o meu interesse é mesmo por Lola Kirke. Fiquei gamado nessa menina quando a vi em MISTRESS AMERICA e depois a acompanhei na excelente série MOZART IN THE JUNGLE, que eu fico torcendo para que tenha uma terceira temporada a caminho. Oremos. Enquanto isso, fui buscar outros trabalhos da atriz. E este me chamou a atenção.

FREE THE NIPPLE (2014) é um filme dirigido e estrelado por Lina Esco e é um trabalho com fortes tintas políticas, embora mesmo quem não seja feminista pode querer dar uma conferida no filme por motivos óbvios, embora possa se decepcionar, caso o interesse for apenas ver os seios das moças. Até porque o filme, apesar de mostrar vez ou outra, não explora isso. Muito provavelmente por ser uma diretora no comando.

Lina Esco interpreta With, uma jornalista freelancer que fica bastante interessada em uma manifestação de um grupo de moças que reivindica a liberdade de poder sair na rua sem a parte de cima da roupa, como um homem tem direito. Inclusive, isso já é direito em vários estados americanos, embora a sociedade não saiba e continue tratando como atentado ao pudor ou coisa parecida.

A líder da turma é Liv, uma moça ousada e disposta a liderar o movimento. Logo na cena de abertura do filme, ela se destaca em meio às outras colegas corajosas em uma manifestação nas ruas de Nova York. Logo elas são presas. Quando soltas, With quer que Liv lhe dê uma entrevista. Seria uma matéria interessante para o jornal onde esta estava trabalhando. O problema é que ninguém se interessa pelo assunto. E elas começam uma luta para chamar a atenção em todo o país.

Uma pena que o filme pareça tão inofensivo quando poderia ser mais transgressor – embora eu ainda não saiba como. Há também um pequeno problema de personagens pouco interessantes. O filme foca mais na relação de amizade entre Liv e With, mas nem mesmo essa amizade é explorada com mais profundidade. Poderia render ao menos bons momentos. De todo modo, é sempre bom lembrar que exibir fotos com seios expostos no Facebook continua sendo proibido, o que é uma vergonha.

sábado, julho 30, 2016

JASON BOURNE



A rejeição do público ao spin-off O LEGADO BOURNE (2012), único filme da franquia não estrelado por Matt Damon, ajudou os produtores a ressuscitarem o que parecia já muito bem encerrado em O ULTIMATO BOURNE (2007). De qualquer maneira, podemos dizer que Jason Bourne ainda é o novo espião que mais deu certo no novo milênio. E o que mais representa o próprio momento, diferente dos filmes de James Bond, que variam bastante e ainda mantêm o pé no passado.

Paul Greengrass ter assumido a franquia em A SUPREMACIA BOURNE (2004), com sua câmera nervosa e sua montagem frenética, tornou a marca ainda mais representativa dos novos tempos. Afinal, trata-se de um espião desmemoriado. Mais ou menos como o mundo atual, dos smartphones, de informações rápidas e descartáveis, de pessoas que têm perdido o hábito de acompanhar pacientemente obras mais lentas no cinema, embora a televisão tenha provado o contrário já faz alguns anos.

Curiosamente, o público que paga para ver JASON BOURNE (2016) fica caladinho e respeitoso ao ver o thriller, que não apresenta nenhum espaço para o humor, o que não chega a ser um problema, na verdade. Isso mostra que a franquia conquistou uma audiência que respeita esse produto. Ah se o público que costumeiramente vai às sessões dos filmes de terror fosse assim...

No novo filme, Jason Bourne está de volta, agora com a memória viva, mas ainda sem saber de várias coisas de seu passado, como quem era o seu pai e os motivos de ele, Bourne, ter sido escalado para ser um assassino treinado pelo programa secreto da CIA. Na trama, que não é baseada em nenhum livro de Robert Ludlun, mas em um roteiro original, o manda-chuva é o diretor da companhia de inteligência americana Robert Dewey, vivido por Tommy Lee Jones.

Ele e sua equipe ficam sabendo do paradeiro da parceira de Bourne, Nicky Parsons (Julia Stiles), e logo em seguida do próprio espião, que estava vivendo de apostas em lutas clandestinas de rua, com seus vários nomes falsos e passaportes falsos. Os outros dois novos peões de destaque no jogo são o assassino contratado vivido por Vincent Cassel e a agente da CIA Heather Lee (Alicia Vikander), que provavelmente pode voltar num próximo filme, caso haja continuidade. Ela funciona muito bem na trama e é uma das personagens mais interessantes.

Há várias sequências bem orquestradas. A primeira delas se passa durante uma manifestação em Atenas. É também o primeiro momento que o assassino da CIA é enviado para matar os dois inimigos do Governo. Há também outra subtrama que acaba funcionando bem, envolvendo um rapaz que desenvolve um programa de computador que oferece privacidade ao usuário, coisa que os novos tempos estão cada vez mais nos privando. Inclusive, a sequência em Las Vegas envolvendo este rapaz é outro ponto alto do filme, bem como a perseguição nas ruas.

Não há como negar a eficiência do trabalho de Greengrass e sua equipe e do quanto o filme tem o poder de deixar a plateia tensa. Também é bom sair da sessão novamente ao som de "Extreme Ways", cantada pelo Moby. Se o filme é, de alguma maneira, especial, já são outros 500, já que tudo parece um tanto requentado.

quinta-feira, julho 28, 2016

SENHORITA OYU (Oyû-sama)

Pra quem já tinha achado A VIDA DE O'HARU (1952) bem triste, talvez SENHORITA OYU (1951), o filme anterior de Kenji Mizoguchi, seja mais ainda, embora não seja um compêndio de desgraças na vida de uma pessoa, mas um filme sobre negações que tornam a vida de três pessoas um tormento. Tudo começa por causa de um casamento arranjado para um rapaz chamado Shinnosuke (Yûji Ori). O rapaz não tem muito hábito de ter muitos relacionamentos e por isso sua tia tenta ajudá-lo a encontrar uma esposa.

Acontece que no dia que sua pretendente chega ele só tem olhos para outra mulher, a Senhorita Oyu (Kinuyo Tanaka) do título. Na verdade, ele acha que ela é que é sua pretendente. Depois que sabe que é a outra, mais jovem, rejeita a moça, mas a Senhorita Oyu, na verdade chamada de Senhora Oyu, por ter casado e ter um filho do casamento com um homem que morreu, não sai de sua cabeça.

Ao procurar estabelecer vínculos com ela, aos poucos, a própria mulher também começa a se afeiçoar ao rapaz, embora esse amor não pareça, a princípio, evidente. Só saberemos quando o rapaz, a pedido de Oyu, e para se manter perto dela, aceita se casar com a sua bela irmã mais nova Shizu (Nobuko Otawa). Esta, por sua vez, logo na noite de núpcias, pede que ele só mantenha as aparências, que a tenha apenas como uma irmã, para que ele não magoe o coração da irmã mais velha, que ele tanto ama.

Este é o grande momento de revelação do filme, quando ele se mostra maior do que o que inicialmente aparenta, com uma trama carregada de dor, que até lembra a de alguns melodramas hollywoodianos, mas que traz uma carga muito maior de negações, seja pelos próprios personagens, seja pelas regras de conduta do Japão daquele momento. Nessa hora, a música do filme se mostra mais presente e o tom grave toma de conta.

É bom lembrar que quando os personagens dos filmes de Mizoguchi tentam fugir às convenções, os castigos são muito piores, que é o que acontece com a personagem rebelde de A VIDA DE O'HARU, que é também o que acontece com o protagonista do horror CONTOS DA LUA VAGA (1953). Ou seja, ao que parece, não há escapatória. No início de SENHORITA OYU, o rapaz até planeja fugir com a mulher que ama, em um sentimento de impulso. Confidencia isso à tia, que logo diz se tratar de uma ideia louca, algo que deve ser abandonado.

No entanto, ao aceitar as condições da jovem esposa, que se vê presa a uma situação muito ruim por amor e devoção à irmã mais velha, o rapaz acaba aceitando tornar a todos os três infelizes. Mesmo quando ele descobre que finalmente ama a esposa, já é tarde demais, e o filme termina em um tom muito amargo. Há que se pensar que o cineasta seja extremamente cruel com seus personagens, mas o sentimento que fica é mais de solidariedade, de entender a dor deles.

quarta-feira, julho 27, 2016

TRÊS FILMES BRASILEIROS DE GÊNERO



Tem sido muito saudável o cinema brasileiro contemporâneo estar, vez ou outra, produzindo obras que fogem ao que se costuma esperar, fugindo das tradicionais comédias globais e de filmes que vão parar apenas em festivais e em um circuito bem restrito. Se o resultado de tais produções é satisfatório, já são outros quinhentos. O que importa é que esses realizadores abaixo tiveram a coragem de trazer algo diferente para as telas de cinemas de shopping.

REZA A LENDA

Logo que vimos o trailer de REZA A LENDA (2016), a primeira coisa que pensamos é em MAD MAX, principalmente levando em consideração à memória recente do último filme de George Miller. Homero Olivetto estreia na direção de longas com um trabalho no mínimo interessante. Aproveita bem os rostos conhecidos de Cauã Reymond, Humberto Martins, Júlio Andrade, Jesuíta Barbosa e Sophie Charlotte, e ainda traz uma ótima novidade: Luisa Arraes, muito bem no papel da moça que sofre um acidente na estrada e é tida como isca pela gangue de motoqueiros liderada pelo personagem de Cauã Reymond. Na verdade, a gangue é formada por pessoas de boas intenções. Tudo que eles querem é uma santa de gesso que supostamente tem o poder de fazer chover naquele mundo largado por Deus em um futuro distópico. Há boas cenas de ação, uma fotografia lindona e um final surpreendentemente bom e decente. Mereceria ser tratado com mais carinho.

O ESCARAVELHO DO DIABO

A adaptação do livro infanto-juvenil que encantou gerações até que rendeu um trabalho bem interessante. O ESCARAVELHO DO DIABO (2016), de Carlo Milani, consegue trazer o aspecto de terror, suspense e mistério para um filme que também pode ser apreciado por uma plateia mais jovem. Afinal, os jovens são o principal foco deste trabalho com ar inocente e um andamento narrativo atraente. Na trama, um assassino serial ataca em uma cidade, mostrando preferência por ruivas e ruivos e cabe a um garoto e um detetive com problema de memória resolverem o caso, antes que mais vítimas apareçam. O escaravelho do título se refere a um presente que é dado às vítimas, antes de elas serem executadas. O final não é tão bom, mas ao menos une as pontas soltas com eficiência.

EM NOME DA LEI

Quem acaba salvando EM NOME DA LEI (2016) de ser um filme ruim é Chico Díaz, como o grande vilão da trama, um mafioso que faz o que bem entende em uma cidade que fica na fronteira com o Paraguai. Até o dia que chega um novo juiz na cidade, vivido por Mateus Solano, que resolve acabar com sua festa. O que o tal juiz não sabia é o quão difícil essa tarefa seria. Com a ajuda da policial vivida por Paolla Oliveira, ele tenta o impossível. Engraçado o fato de que justamente os protagonistas do filme são os pontos mais fracos deste policial que até tem os seus momentos. E Paolla Oliveira é dessas atrizes tão belas que quase nos faz esquecer que não é tão boa assim como intérprete. EM NOME DA LEI é um dos filmes mais fracos da carreira irregular mas até que bem interessante de Sergio Rezende.

terça-feira, julho 26, 2016

EXCITAÇÃO



Um dos cineastas brasileiros mais inventivos e mais esquecidos até por grande parte da crítica é Jean Garrett. Ele é o autor de obras no mínimo interessantes, como AMADAS E VIOLENTADAS (1975), POSSUÍDAS PELO PECADO (1976), MULHER, MULHER (1979) e A MULHER QUE INVENTOU O AMOR (1979), entre outros títulos ainda não vistos por este que vos escreve. EXCITAÇÃO (1976) é mais outro belo filme de gênero realizado em uma das épocas mais felizes para o cinema brasileiro, um tempo em que havia uma produção industrial que conseguia se manter e que continha um sem número de cineastas talentosos. Garrett era um nome que se destacava.

Diferente de muitos de seus companheiros da Boca do Lixo, como Antonio Meliande e Ody Fraga, por exemplo, que tinham uma natural malícia em seus filmes, Garrett utilizava a nudez e o erotismo como uma necessidade comercial para a construção de um cinema bastante vinculado aos gêneros de horror e suspense, muitas vezes se apropriando de convenções bastante conhecidas especialmente do cinema americano. Mas ele fazia isso com um jeito todo próprio.

Em EXCITAÇÃO, temos Kate Hansen como Helena, uma mulher que se muda com o marido Renato (Flávio Galvão) para uma casa nova, de frente para o mar. A casa é a mesma do prólogo do filme, que mostra um homem se enforcando. Helena está ali para se restabelecer psicologicamente de um problema, mas aos poucos ela começa não só a ver o tal homem enforcado, como a casa começa a se comportar de forma assustadora, como em filmes sobre poltergeist ou ataques de espíritos malignos.

Enquanto isso, a cada vez que ela conta o que houve para o marido, mas ele vê motivos para insinuar que ela está louca. E mais ele se aproxima da vizinha, com quem começa a ter um caso. Seus encontros com ela são à noite, à beira-mar. O som das ondas passa um clima que contribui para que o filme não só encontre um mistério sobrenatural, mas que esse mistério ganhe contornos mais abrangentes. Afinal, não sabemos ao certo o que está acontecendo com Helena.

Um bocado desse mistério é quebrado quando surge a personagem da irmã da vizinha e o filme adota um tom mais solar, o que prejudica um pouco o seu andamento. Porém, esta nova personagem terá a sua importância no enredo, num clímax inesperado e que ajuda a elevar o filme. EXCITAÇÃO é mais um híbrido de horror e erotismo que se tornou uma marca do brilhante cinema de gênero produzido no Brasil nas décadas de 1970 e 1980.

segunda-feira, julho 25, 2016

STRANGER THINGS – PRIMEIRA TEMPORADA (Stranger Things – Season One)



Um fenômeno recente de entusiasmo nas redes sociais foi a série em oito episódios STRANGER THINGS (2016), produzida e disponível no serviço de streaming Netflix. Não cheguei a engrossar o grupo dos fanboys da série – achei um tanto maçante em alguns momentos –, mas aos poucos eu fui começando a gostar (a partir do terceiro episódio, mais ou menos). É o tipo de série que tem mesmo o sabor dos filmes dos anos 1980 que pretende evocar, embora falte algo a mais, como fazer com que nos importemos mais com os personagens.

Não que eles não sejam simpáticos. Gosto da trupe de meninos andando de bicicleta por aí e tentando desvendar o desaparecimento do amiguinho Will, que acontece logo no prólogo do primeiro episódio. No primeiro episódio também somos apresentados à mãe de Will, vivida por Winona Rider, em um papel um tanto over, mas que aos poucos a gente se acostuma. Também há um xerife meio decadente (David Harbour) que ganha o espectador aos poucos.

O eixo da trama é o desaparecimento de Will, mas isso é só o começo para uma série de eventos que envolvem uma história de conspiração governamental, o aparecimento de uma estranha garotinha que depois se junta à turma de meninos, uma subtrama sobre um casal de jovens na escola que depois terão forte importância na conclusão do enredo.

Já existem por aí vídeos feitos por fãs da série que mostram as várias referências a filmes como E.T. – O EXTRATERRESTRE, O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU, OS GOONIES, POLTERGEIST – O FENÔMENO, TUBARÃO, ALIEN, O 8º PASSAGEIRO etc. Logo, dá pra perceber que a série puxa pela junção dos gêneros terror, ficção científica e aventura juvenil. Mas, como uma série ou um filme não se faz só de referências, às vezes falta um pouco de identidade própria a STRANGER THINGS.

De todo modo, não deixa de ser bem inventiva no modo como une essas referências e influências, principalmente quando trata do chamado mundo invertido, que é talvez a parte mais empolgante da história. O fato de a série valorizar as crianças como principais descobridores do lugar onde Will está também contribui em trazer mais simpatia. No caso, a busca pelo garoto desaparecido é fortalecida pelo amor tanto dos seus amiguinhos quanto da mãe de Will, que não aceita que seu filho tenha morrido e nunca desiste, não importando se as pessoas considerem-na louca.

A segunda temporada já está garantida. Resta saber o que vão fazer agora. Se vão manter os mesmos personagens ou partir para outra cidade e outra história.

domingo, julho 24, 2016

DOIS CARAS LEGAIS (The Nice Guys)



Não é fácil trazer humor para o film noir, ser bem-sucedido e parecer esperto, inteligente. Nem Paul Thomas Anderson conseguiu, com seu VÍCIO INERENTE, por mais que haja defensores de seu filme e ele tenha escolhido adaptar uma obra difícil. Shane Black até teve mais sorte, já que o trabalho dele consiste em usar a atmosfera de mistério e de um materialismo pouco palpável característico do subgênero e trazer para o clima dos filmes policiais dos anos 1970.

Mas, por mais que a trama se passa nos loucos anos 1970, e que lide bem com a questão da decadência de Los Angeles, em parte por causa da ascendência crescente da indústria pornográfica, Shane Black é o sujeito por trás dos roteiros da franquia MÁQUINA MORTÍFERA (1987-1998), ou seja, seu estilo não encontra muita sintonia com os bons policias da década de 1970 e seus detetives durões, mas com uma junção do humor e uma violência moderada, que era bem própria dos policiais da dupla Riggs e Murtaugh. O que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, é até bem-vindo.

Acontece que DOIS CARAS LEGAIS (2016) é um filme que tenta ser mais esperto do que consegue, e que por mais que seja cool e tenha uma série de momentos bem divertidos e gere algumas boas risadas, poderia ser mais redondinho, menos "barrigudo". Mas, agora que Richard Donner se aposentou (tudo indica), Shane Black parece ser o seu sucessor. E não deixa de ser, como diretor, um sujeito interessante, que gosta de transgredir certas regras, como já havia feito, inclusive, em HOMEM DE FERRO 3 (2013). Para o bem e para o mal.

Em DOIS CARAS LEGAIS, temos a história de dois detetives particulares picaretas, Jackson Healey (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), que acabam unindo forças para resolver o mistério do desaparecimento de uma jovem envolvida em uma produção pornográfica. Como é comum em produções que bebem do film noir, toda a investigação leva a caminhos nebulosos, e cada caso bem-sucedido deles é fruto de pura sorte. Ou, no caso, da ajuda da filha de March, Holly, vivida pela garota-revelação Angourie Rice. Ela rouba a cena sempre que aparece. É dessas jovens atrizes que a gente torce para que tenha uma carreira longa e bem-sucedida no cinema.

Uma coisa que pode incomodar no filme talvez seja essa tentativa o tempo todo de ser esperto mas falhar no desenvolvimento da relação de amizade entre Healey e March, algo que acaba ficando na superfície. Mas, se a intenção era mesmo focar na trama meio labiríntica, no senso de humor relaxado e nas várias cenas movimentadas, podemos dizer que DOIS CARAS LEGAIS cumpre relativamente bem o seu papel, e acaba se destacando no cenário atual americano, carente de bons filmes policiais.

sábado, julho 23, 2016

MÃE SÓ HÁ UMA



Na época de É PROIBIDO FUMAR (2009) muitas críticas citavam o aspecto lado A e lado B presente no filme, algo que aparecia de maneira mais clara em DURVAL DISCOS (2002), o longa-metragem de estreia de Anna Muylaert. Do mesmo modo, tem se buscado uma associação entre QUE HORAS ELA VOLTA? (2015) e o novo MÃE SÓ HÁ UMA (2016). Em comum, logo de cara, o tema da maternidade está novamente presente na obra desta que já se apresenta como um dos cineastas mais interessantes do Brasil atualmente.

A comédia que dava mais o tom em QUE HORAS ELA VOLTA? desta vez aparece de maneira mais discreta, dando mais espaço para o absurdo drama da perda da mãe e da busca de identidade de Pierre (Naomi Nero), um rapaz que costuma ter uma vida tranquila com a mãe (Daniela Nefussi) e sua irmã pequena (Lais Dias). Seu mundo cai quando ele descobre que foi roubado na maternidade, que sua mãe está presa por isso, e que ele será obrigado a se adaptar ao novo lar, o lar de seus pais biológicos, vividos por Matheus Nachtergaele e também pela mesma atriz que faz a outra mãe de Pierre, o que ajuda a acentuar a confusão mental do rapaz, bem como a enfatizar o próprio título do filme.

Interessante o modo como Muyalert constrói sua narrativa, com umas elipses interessantes e necessárias, já que a intenção é contar a história de convivência de Pierre com sua nova família em um intervalo de tempo não determinado, mas que passa a impressão de ser no mínimo de um mês. Tudo isso em enxutos 82 minutos de duração. Aliás, a edição é tão acertada que MÃE SÓ HÁ UMA é daqueles filmes que passam voando, que poderia ter se esticado mais um pouco, mas que, por outro lado, termina no momento certo. E dessa vez seguindo uma cartilha menos clássico-narrativa do que o trabalho anterior da diretora.

Outra coisa muito importante para o filme é a construção do personagem Pierre/Felipe. Seu mundo vira de cabeça pra baixo justo quando ele está em processo de descoberta de sua identidade de gênero, que, aliás, o filme trata de fazer questão de não simplificar. Desde o começo, ele é mostrado como um rapaz que gosta de usar calcinha e maquiagem, mas que não deixa de transar com garotas por isso. Ele até faz muito sucesso com elas. Uma das cenas mais interessantes do filme acontece quando ele vai provar uma roupa com seus pais biológicos, que querem moldá-lo à maneira deles. Em determinado momento, ele fala: "é só uma roupa!", ao procurar fazê-los entender a bobagem que é discutir sobre aquilo.

Uma coisa que pode incomodar um pouco os espectadores é o modo como Muylaert, mais uma vez, coloca alguns personagens quase como caricaturas, como é o caso dos pais biológicos de Pierre, o que lembra um pouco os pais de Fabinho em QUE HORAS ELA VOLTA?. Porém, esse tipo de representação pode ser visto também como uma provocação da diretora com o modelo tradicional da família brasileira, em uma continuação do que havia sido visto em seu trabalho anterior. O que importa é que estamos diante de mais uma obra sólida e consistente de uma diretora que tem ajudado a enriquecer a nossa cinematografia nacional.

sexta-feira, julho 22, 2016

ENTRE IDAS E VINDAS



Assim que ALEMÃO (2014), o maior sucesso de público de José Eduardo Belmonte, chegou aos cinemas, o diretor já estava filmando este road movie intitulado ENTRE IDAS E VINDAS (2016), que na época tinha um outro nome menos genérico. Em comum, está o traço de aproximação do grande público que esses dois filmes têm, principalmente se levarmos em consideração a filmografia mais autoral do diretor do ótimo O GORILA (2012).

A leveza e alguns problemas de roteiro e escolhas pouco interessantes na trama de ENTRE IDAS E VINDAS podem até incomodar alguns espectadores mais exigentes, mas a verdade é que se trata de um filme que é difícil não ter certa simpatia. Poderia ser um filme melhor se fosse só a trajetória das quatro mulheres que trabalham com telemarketing, ou se tivesse também o encontro com os personagens de Fábio Assunção e seu filho João Assunção, mas sem forçar a barra no relacionamento amoroso de Fábio com a personagem de Ingrid Guimarães.

É justamente aí que reside o principal problema do filme: quando ele parte para ser quase uma cópia de uma comédia romântica hollywoodiana. Ao menos, o diretor brasiliense tem bom gosto, sabe filmar, e há um trio de mulheres de tirar o chapéu dentro daquele motor home: as amigas vividas por Alice Braga, Rosanne Mulholland e Caroline Abras. Além do mais, se a intenção é mesmo copiar o estilo do gênero, até que Belmonte não fez feio.

Como se trata de um filme com personagens passando por dores geradas por relacionamentos complicados, o melhor da trama está justamente nas cenas em que essas dores são problematizadas, seja nos belos momentos entre pai e filho (o filho quer saber mais de sua mãe, uma mulher que os abandonou há seis anos, mas que o pai não consegue esquecer e por isso vive na fossa).

Mas nessa questão das dores, a melhor cena é a da roda de apostas sobre quem tem uma história mais triste. É quando nos solidarizamos com cada um deles – embora seja muito difícil comprar a história de Rosanne. De todo modo, é neste momento que o filme se engrandece por alguns minutos. A química dos personagens funciona muito bem, e por mais que Caroline Abras seja mal aproveitada, cada vez que ela aparece na tela, é como se um dia nublado passasse a ser um dia de sol. E não só porque ela é muito bonita, mas por conseguir passar essa sensação.

Algumas cenas na praia, filmadas com outras lentes, também são belas de ver e ajudam a tirar o filme do ar ordinário. No entanto, mesmo com tanta beleza natural (das meninas, do garoto inteligente que se apaixona por uma delas, da natureza, das locações etc.), o romance do casal principal continua sendo uma pedra no meio do caminho de um road movie que tinha potencial para um dos bons trabalhos de Belmonte.

Agora é torcer para que ele continue revezando trabalhos mais autorais, como A CONCEPÇÃO (2005), SE NADA MAIS DER CERTO (2008) e O GORILA (2012) com filmes com apelo mais comercial. É mais ou menos assim que funciona a lógica de Hollywood como um todo. É ver se essa lógica pode dar certo na filmografia de um diretor no Brasil.

quarta-feira, julho 20, 2016

O CONTO DOS CONTOS (Il Racconto dei Racconti – Tale of Tales)



Matteo Garrone pegou muita gente de surpresa quando, depois de fazer filmes de temática mais realista, e de ficar mundialmente famoso, pelo menos dentro do circuito alternativo e de festivais, com GOMORRA (2008), resolveu dirigir um filme de fantasia. Mas vale dizer que não é um filme de fantasia convencional. É uma fantasia para adultos.

Se bem que muitos contos infantis mais antigos têm uma característica bastante cruel e até violenta. A preocupação com o medo que esses contos poderiam gerar nas crianças é que fez com que alguns desses contos infantis fossem um pouco atenuados. A própria Bíblia, inclusive, cheia de sangue por todos os lados, é também atenuada quando contada para as crianças.

O CONTO DOS CONTOS (2015), baseado na obra de Giambattista Basile (1566-1632), junta três histórias que se entrecruzam. Histórias bem estranhas que acontecem em três reinados diferentes. A primeira das histórias envolve uma rainha que quer muito ter filhos, mas que não consegue. A rainha é vivida por Salma Hayek, o rei por John C. Reilly. A única esperança de ela engravidar viria de um homem estranho e até assustador, que diz que ela engravidará se comer o coração de uma besta do mar. E esse coração deverá ser cozido por uma virgem. O que ocorre a seguir é mesmo fantástico. Uma pena que este núcleo se perca ao longo da narrativa, embora tenha um final até bonito.

A outra história é talvez a melhor, a de um rei (Vincent Cassel) que se apaixona pela voz de uma mulher simples de seu povoado. Ele julga se tratar de uma jovem donzela, mas a tal mulher é bastante idosa. E, nesse sentido, o filme não economiza nos aspectos grotescos, principalmente quando mostra a pele envelhecida da mulher e sua tentativa de enganar o rei e atraí-lo para uma noite de sexo, apesar de todas as circunstâncias não ajudarem. Felizmente o filme vai além disso, ao adicionar um tempero mágico em sua trama.

A terceira história é a que parece menos interessante a princípio, mas que vai ganhando força em seu desenrolar: Toby Jones é um rei que tem uma filha adolescente que já sente uma vontade enorme de casar e de sair daquele castelo. No dia em que ela canta uma canção para o pai, o velho entra em contato com uma estranha pulga, que passa a ser seu animal secreto de estimação. A história da pulga, felizmente, funcionará como link para outra história melhor.

É comum sair da sessão de O CONTO DOS CONTOS sem saber direito se se gostou ou não do filme. Trata-se de uma obra estranha, mas que tem uma fotografia e uma direção de arte que se destacam, além de um elenco internacional bem interessante. E embora talvez falte alguma coisa para que o filme alcance o carinho da audiência, não deixa de ser um daqueles trabalhos que, só pela estranheza e pela singularidade, já vale a conferida.

Curiosamente assisti a este filme no cinema duas vezes. E acabei gostando mais da segunda vez, graças, principalmente, à excelente companhia.

terça-feira, julho 19, 2016

A ÚLTIMA MULHER (La Dernière Femme / L'Ultima Donna)



Durante as décadas de 1970 e 1980 (e até boa parte da década de 90 também), Ornella Muti era uma das mulheres mais lindas do mundo. E que possuíam um apelo sexual muito bem explorado pelos filmes que costumava fazer. Sua estreia no cinema já foi avassaladora e já foi comentada aqui no blog, com POR AMOR OU POR VINGANÇA, de Damiano Damiani, em 1970. Quando fez A ÚLTIMA MULHER (1976), de Marco Ferreri, ela já tinha alcançado uma fama tão grande quanto a de seu parceiro francês com quem contracenaria, Gerard Depardieu.

Curiosamente, por mais que hoje se questione a exploração da nudez da mulher nos filmes, os trabalhos que Ornella fez tem, de certa forma, um viés feminista. Ou ao menos trazem à tona uma discussão sobre o papel machista do homem na sociedade, ou então o quanto ele se apequena frente à paixão por mulheres fortes, como também são os casos de A GAROTA DE TRIESTE, de Pasquale Festa Campanile, e CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO, este último também dirigido por Marco Ferreri.

A ÚLTIMA MULHER é uma das várias coproduções entre França e Itália que eram bastante comuns na época. Inclusive, não havia muita preocupação com a dublagem estar sincronizando com os lábios dos atores. Fazia parte da cultura da época isso. Principalmente na Itália, onde se produzia muitos filmes de gênero para o mercado internacional, como westerns, policiais, filmes de horror etc.

A ÚLTIMA MULHER entraria na classificação de dramas com conteúdo erótico, ou que chamava a atenção do espectador com alguma coisa chocante. Ferreri já havia deixado o público sair depressivo do cinema quando fez A COMILANÇA (1973) e neste trabalho ele aborda um amor obsessivo que leva a uma perda que, para os homens, representa um pesadelo.

Na trama, Gerard Depardieu é um jovem engenheiro que foi deixado pela esposa com um filho pequeno. Ele cuida do bebê sozinho e costuma deixá-lo na creche quando vai trabalhar. Lá fica apaixonado pela bela funcionária do lugar, que até já tem um amante, vivido por Michel Piccoli, que é um sujeito estranho, que parece esconder o ciúme que sente por ela ao deixar que ela seja livre para viver com o novo namorado.

Se o filme parece grosseiro e demasiado explorador da violência em seu final, pode-se dizer que ele funciona muito bem enquanto lida com as várias discussões de relacionamento entre o casal e o modo muito livre com que trata de sua intimidade. No território do erotismo, porém, recomendaria outro filme muito mais agradável para o espírito, A CARNE (1991), já da fase tardia de Ferreri. Mas se a intenção é, principalmente, ver Ornella Muti no esplendor da beleza, eis mais uma excelente chance.

segunda-feira, julho 18, 2016

FLORENCE – QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins)



Recentemente um filme franco-belga de nome MARGUERITE passou nos cinemas. Foi produzido um ano antes e conta basicamente a mesma história, da pior cantora do mundo. Mas enquanto MARGUERITE muda o nome da protagonista e um pouco da história, FLORENCE – QUEM É ESSA MULHER? (2016) tem a missão de contar a história da verdadeira Florence Foster Jenkins, a americana apaixonada por ópera e que sonha em ser uma cantora de verdade. O problema é que ela tem uma voz horrível, para dizer o mínimo.

O interessante de ambas as comédias dramáticas é que elas, a princípio, induzem o espectador a rir da protagonista, na versão britânica vivida por Meryl Streep, para depois nos sentir na pela dela, ou quase isso, talvez na pele de quem estava mais próximo dela, como o marido (Hugh Grant) ou o pianista (Simon Helberg). Os dois, aliás, estão ótimos. O jovem Helberg, conhecido de quem vê a série THE BIG BANG THEORY, é o pianista que fica feliz com a boa remuneração que recebe daquela mulher excêntrica, mas que também tem medo de passar por ridículo em uma apresentação pública.

Hugh Grant, por mais que não seja um grande ator, sempre será muito querido pelos papéis que fez em várias comédias românticas das décadas de 1980-2000. A lacuna que ele deixou jamais foi preenchida por qualquer outro. Ao que parece, por já ter mais de 50 anos, ele não se sente muito à vontade com esse tipo de papel, mas isso é uma bobagem. Ao menos, ele tem dado o ar de sua graça e faz aqui o papel de um marido amável com a mulher mais velha e doente, mas que tem a sua namorada às escondidas.

A propósito, comparando novamente com o filme francês, a versão britânica é muito mais implacável na caracterização da personagem. Florence Foster Jenkins é uma personagem carregada de tragicidade, com sua doença, que só aos poucos o filme vai nos revelando. A felicidade que ela tem se deve principalmente à ilusão que os outros lhe oferecem como uma consolação, de modo que ela não entre em depressão e morra logo.

Um dos grandes méritos do filme, além de poder contar com mais uma boa interpretação de Meryl Streep, uma das maiores atrizes das últimas décadas, é saber lidar com o patético de maneira respeitosa, embora tenha lá suas falhas, principalmente no modo como termina, em tom melodramático, mas sem conseguir emocionar tanto quanto parece querer.

Ou talvez essa seja uma marca de Stephen Frears, cineasta que nos últimos anos tem se especializado em filmes sobre mulheres, como A RAINHA (2006), CHÉRI (2009) e PHILOMENA (2013). Enquanto isso, seus filmes protagonizados por homens têm passado em branco nas telas. Por que será? De todo modo, apesar da decadência do diretor, que no passado era tido como um autor de futuro brilhante, FLORENCE – QUEM É ESSA MULHER? pode se juntar a mais um êxito dele. Ou quase.

domingo, julho 17, 2016

CAÇA-FANTASMAS (Ghostbusters)



Curioso o fato de que um dos filmes mais controversos do ano seja justamente uma comédia boba e inofensiva como CAÇA-FANTASMAS (2016), de Paul Feig. Tudo pela “polêmica” em torno da substituição de homens (dos filmes originais de Ivan Reitman) por mulheres e uma vontade da parte de seus realizadores de provocar um pouco, mostrando uma inversão de papéis dentro de uma sociedade ainda machista, que não aceita bem a mulher em lugares de destaque, ainda que percebamos que as coisas progrediram muito se compararmos com a década de 1980.

Quem se incomodou com isso e não quer ver o filme está fazendo uma grande bobagem. Na verdade, CAÇA-FANTASMAS, ainda que esteja longe de ser um entretenimento de alta qualidade, possui vários pontos positivos, como o fato de ter quatro boas comediantes em ação. Paul Feig ainda não conseguiu superar o seu melhor trabalho, o divertidíssimo MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (2011), que também contava com a presença de Kristen Wiig e Melissa McCarthy, que se tornaria estrela bastante presente de outros de seus filmes.

Mas mesmo com Melissa McCarthy e Kristen Wiig novamente em ação em CAÇA-FANTASMAS, quem rouba a cena mesmo é uma atriz que é conhecida por quem acompanha o SATURDAY NIGHT LIVE atualmente. Ela se chama Kate McKinnon, e desde o primeiro momento ela deixa todas as outras comerem poeira, com sua beleza, charme, sensualidade, e além de tudo em saber ser engraçada. Kate tem ganhado muitos fãs desde então e o futuro parece brilhante para ela, a julgar pelos próximos projetos. Podemos dizer que ela é o melhor motivo para se ver o filme.

Kate chega a ofuscar Kristen Wiig, que até está um pouco apagada como uma cientista e professora de universidade que anos atrás escreveu um livro supostamente científico sobre fantasmas. O que ela não sabia era que a coautora do livro (McCarthy) havia disponibilizado novamente a obra e ainda estaria desenvolvendo um trabalho de captura de fantasmas junto com uma nova parceira (McKinnon). Eis o motivo para as três de encontrarem.

E o primeiro motivo para elas entrarem em ação é o fato de que uma mansão famosa de Nova York está assombrada e elas terão a chance de oferecer seus serviços e finalmente ver o primeiro fantasma. Os efeitos visuais dos fantasmas são dignos de destaque, principalmente se o espectador optar em ver o filme em IMAX 3D, com efeitos que ultrapassam o quadro, entre outras surpresinhas bem-vindas, especialmente no final.

O problema do filme como aventura é que tem uma estrutura bastante viciada de narrativa, com um clímax que não chega a ser ruim, mas é tão aborrecido quanto o da maioria dos filmes de aventura com estrutura convencional. No caso, a parte em que elas terão que enfrentar uma horda de fantasmas lançados em Nova York, como num ataque terrorista.

No mais, o filme ainda conta com uma boa participação de Chris Hemsworth como o secretário das Caça-Fantasmas, em outra inversão de valores. Sai o estereótipo da loura burra e entra o estereótipo do sujeito bonito e malhado que não tem muita coisa na cabeça, e que serve mais para encantar a personagem de Kristen Wiig.

sábado, julho 16, 2016

JANIS – LITTLE GIRL BLUE



Incomoda bastante no documentário JANIS – LITTLE GIRL BLUE (2015) o modo como a diretora Amy J. Berg expõe de maneira tão enfática a dor e a solidão de Janis Joplin, tanto através das letras das canções, simples, mas que sempre falavam da falta de alguém ou de relacionamentos em geral. Inclusive, há uma cena em que Janis fala, antes de começar a cantar "Cry baby", sobre o caso recente que teve do sujeito que ela conheceu no Brasil e que resolveu ir embora porque não aguentava vê-la envolvida com heroína. O fato de ela dizer, pra todo mundo ouvir, que estaria ali esperando por ele é tocante, mas ao mesmo tempo incômodo.

As entrevistas que ela dava à imprensa também não ofereciam muita coisa. Demonstrava mais sua insegurança e os repórteres sabiam disso e tocavam na ferida. Assim como iam buscar nos dias ruins de escola e faculdade, quando ela sofria bullying por ser diferente e estar fora dos padrões de beleza vigentes naquela cidadezinha do Texas que ela preferiu deixar pra trás em busca da alegria de ser uma grande cantora em San Francisco e além. E isso ela conseguiu em bem pouco tempo, quando integrou a Big Brother Holding Company. Ela acabou ficando maior do que a banda e se lançou em carreira solo depois de poucos discos com sua primeira banda.

A relação com as drogas passa um certo ar de déjà vu, já que vimos algo parecido em outros documentários recentes e superiores sobre outras cantoras fantásticas: AMY, de Asif Kapadia, e CÁSSIA ELLER, de Paulo Henrique Fontenelle. Comparado a estas duas obras, o filme sobre Janis fica até pequeno, tanto porque sua história de vida não é tão bem explorada, quanto pelas imagens de arquivo não serem suficientemente ricas. Ao menos as cartas de Janis, vez ou outra, funcionam como um elemento pessoal bem-vindo.

Ao enfatizar o lado bem pessoal de Janis, acaba faltando espaço para que o documentário explorasse um pouco mais a força de sua música, mais canções de destaque. As únicas que mereceram espaço no documentário – e merecidamente, por serem lindas – foram "Summertime", que tem aquele solo de guitarra maravilhoso e uma interpretação fantástica de Janis, numa reinvenção genial do clássico de George Gershwin, e "Me and Bobby McGee", composição de Kris Kristofferson e Fred Forster, já da última fase da cantora, quando ela conheceu um produtor que soube ensiná-la a trabalhar melhor o vocal. Por isso é uma canção menos gritada e mais sutil.

No mais, não há como não ficar comovido com o caso do telegrama ao final do filme, o que mostra mais uma dessas histórias de que o amor está prestes a bater à sua porta, mas às vezes não temos paciência e botamos tudo a perder. E, no caso dela, então, é de se lamentar mesmo. Morrer é fácil. Viver é que é difícil.

sexta-feira, julho 15, 2016

LÚCIO FLÁVIO – O PASSAGEIRO DA AGONIA



Tempos tenebrosos estes, meus amigos. A vida particular não anda lá essas coisas, mas quando eu vejo o que tem acontecido na vida de amigos e familiares e também com essa tragédia toda que tem acontecido lá fora, eu percebo que eu tenho que me contentar, pelo menos por enquanto, com o que tenho e buscar paz dentro do caos, para alimentar um futuro melhor e mais saudável e bonito. Por isso a tarefa de parar para escrever um texto sobre um filme que assisti também sob circunstâncias não lá muito boas não é também muito fácil. Mas faço questão de deixar registrado aqui.

Mais um cineasta se foi neste mês de julho: Hector Babenco, o argentino que escolheu o Brasil para ser o seu lar e que nos representou muito bem aqui e lá fora. Graças a PIXOTE – A LEI DO MAIS FRACO (1981) ele alcançou repercussão mundial, chegando a fazer, logo em seguida, três produções hollywoodianas, a começar por O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985), mas sem abandonar o interesse por imagens sujas e por pessoas marginalizadas.

Isso já fica bastante notável em LÚCIO FLÁVIO – O PASSAGEIRO DA AGONIA (1977), um dos grandes filmes policiais e de crime já realizados no Brasil, baseado na história real do lendário assaltante de bancos. É o tipo de obra rara em nossa produção dentro do gênero, pela qualidade impressa na direção e nas interpretações. Há também um cuidado com a direção de arte. Por mais que possa parecer tudo muito cru, as cores e o modo como o cineasta dispõe seus personagens no quadro faz às vezes o filme parecer uma pintura.

O filme é também bastante louvável por retratar uma polícia corrupta, que negocia o lucro dos bandidos que assaltam bancos. É o caso da gangue que opera em conjunto com o bando de Lúcio Flávio, aqui em interpretação inspirada de Reginaldo Faria. Desde a primeira cena, em que ele e um colega do bando matam dois traidores do grupo, já vemos que ele não está pra brincadeira. A crueza da cena já dá o tom do que viria.

O elenco de apoio é outro ponto bem positivo do filme. Seja a namorada de Lúcio, vivida por Ana Maria Magalhães, o policial corrupto "132" (Milton Gonçalves), um dos chefões da máfia (Paulo César Peréio, roubador de cenas profissional), um dos líderes das sessões de tortura (Ivan Cândido, premiado em Gramado pelo papel) e Grande Otelo, como um preto velho amigo de Lúcio.

E falando em sessões de tortura, essa é outra ferida que Babenco teve coragem de mostrar como prática da polícia, ainda que aqui não se esteja falando de crimes políticos, mas de criminosos assumidamente bandidos. Aliás, como não se espantar, no bom sentido, com a fala de Lúcio Flávio para a câmera, falando da pouca diferença entre ele e os hipócritas que se dizem agentes da lei? É um momento de quebra da quarta parede, um recado muito bem dado naquele momento triste e delicado por que passava o nosso país.

E Babenco sai de cena deixando um legado de filmes respeitáveis. Poucos, já que enfrentou uma série de dificuldades para se filmar aqui e no exterior, além de um câncer linfático que quase o levou na década de 1990, e que pode ser acompanhado em seu filme-testamento, MEU AMIGO HINDU (2015).

quarta-feira, julho 13, 2016

CINCO FILMES SOBRE LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA



Há vários filmes sobre lutas sobre a sobrevivência, mas nos últimos dois anos a quantidade de títulos com essa temática aparecendo no circuito tem se destacado. A seleção que reuni abaixo é mais para tentar diminuir o meu débito na quantidade de filmes vistos e não comentados aqui no blog. De qualquer maneira, aqui é o caso de obras que não mereceriam mesmo análises mais apuradas, ainda que sejam bons filmes – ou ao menos medianos. Então, não me incomodo em deixá-los juntos, em uma única postagem.

EVERESTE (Everest)

Em EVERESTE (2015), o que vemos não é exatamente um caso de acidente. Seus personagens, baseados em pessoas reais, são homens que já sabiam dos riscos de escalar a maior montanha do planeta. Já sabiam que poucos sobreviveram ao tentar atingir o pico. O filme de Baltasar Kormákur traz alguns nomes bem conhecidos no elenco em papéis de destaque, como Jason Clarke, Jake Gyllenhaal, Josh Brolin e Keira Knightley. A história se passa em 1996 e mostra dois grupos de alpinistas que se unem na tentativa de escalar o Evereste. O drama se mostra às vezes eficiente, até porque a história é um tanto desesperadora mesmo, mas ficaríamos felizes se o resultado fosse algo mais intenso. De todo modo, serve ao menos para não recomendar o lugar para se passar as férias.

MAZE RUNNER - CORRER OU MORRER (The Maze Runner)

Quando MAZE RUNNER – CORRER OU MORRER (2014) passou nos cinemas eu não cheguei a ver. Não me interessei muito. Mas quando sua continuação estreou, resolvi baixar este primeiro filme para ver em casa. Trata-se de uma das melhores franquias juvenis da atualidade. Até porque a maioria é ruim mesmo. Além do mais, MAZE RUNNER pode ter revelado um novo astro, Dylan O’Brien. Na trama, em um mundo pós-apocalíptico (essa é a moda agora, o futuro distópico), o jovem Thomas é abandonado em uma comunidade isolada formada por garotos, assim como ele, com a memória apagada. Há um labirinto com monstros que torna o filme bem interessante e que é responsável por algumas das melhores e mais tensas cenas. Thomas acaba se tornando o mais corajoso do grupo, pois é o único que quer abandonar a vida naquele espaço e ultrapassar as barreiras. Os bons o seguem.

OS 33 (The 33)

Esta sim é uma baita história de sobrevivência, baseada no que aconteceu com um grupo de mineiros chilenos em agosto de 2010. Eles ficaram soterrados dentro de uma mina durante 69 dias, com racionamento de comida e com a esperança de saírem vivos cada vez menor. O ideal seria uma produção falada em espanhol com atores latinos, de preferência todos (ou quase todos) chilenos. Em vez disso, temos gente de várias nacionalidades, como Antonio Banderas, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche, James Brolin, Lou Diamond Phillips e Oscar Nuñez. OS 33 (2015) tem a vantagem de trazer a melhor interpretação de Antonio Banderas em muito tempo. Ele interpreta o líder do grupo de mineiros e o responsável pelos ânimos e por uma série de coisas que ocasiona a possibilidade de sobrevivência do grupo. A diretora mexicana Patricia Riggen dirigiu recentemente um melodrama cristão chamado MILAGRES DO PARAÍSO (2016), que acabei não vendo.

NO CORAÇÃO DO MAR (In the Heart of the Sea)

Ron Howard é daqueles diretores sem muita personalidade, embora tenha no currículo alguns títulos muito bons. NO CORAÇÃO DO MAR (2015) é o caso de filme mediano, que tenta se equilibrar principalmente na sua produção, mas que acaba não funcionando bem como registro da luta pela sobrevivência de um homem em um baleeiro atingido por uma baleia feroz. Pra começar, Chris Hemsworth não tem muito carisma para segurar um filme, por mais que Hollywood queira fazer com que a gente o engula. Mas há um elenco de apoio bom, formado por gente como Benjamin Walker, Cillian Murphy, Brendan Gleeson e Ben Wishaw. A história se passa em 1820 e supostamente serviu de base para que Herman Melville escrevesse o clássico Moby Dick (1951). Pelo que aparece no filme, Melville deu uma suavizada em algumas cenas mais perturbadoras, envolvendo pessoas tendo que comer carne humana para continuarem vivas.

HORAS DECISIVAS (The Finest Hours)

Eis um exemplar bem típico da Disney sobre uma história de bravura e sobrevivência. Quase não há personagens femininas, mas a única delas, a que se interessa e luta pelo resgate de seu noivo (Chris Pine), é bem interessante. No mais, o filme de Craig Gillespie contém mais personagens masculinos mesmo. Destaque para Casey Affleck, Ben Foster e Eric Bana. Em HORAS DECISIVAS (2016, foto), uma grande nevasca leva uma plataforma de petróleo a se rachar, lançando 84 tripulantes ao mar. Enquanto a tempestade dificulta a sobrevivência do grupo, uma equipe de guardas costeiros busca resgatar as vítimas. Como o filme se passa em 1952, há que se dar um desconto pelo ar um tanto antiquado e inocente que predomina em toda a sua metragem, inclusive em seu desfecho. Pelo visto, a Disney parece querer que o tempo tenha parado na década de 1950.

segunda-feira, julho 11, 2016

MADAME BOVARY



Na virada dos anos 2011 para 2012 eu tive o prazer de conhecer o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Foi um livro que me pegou de um jeito tão forte que eu tomei as dores de Emma, a jovem protagonista cheia de defeitos, mas também cheia de anseios e frustrações. Por que a vida teria que ser do jeito que a sociedade a define? Tudo bem que não é lá muito bonito sair traindo o marido por aí, mas esses julgamentos vão ficando cada vez mais de lado. E o próprio destino da heroína acaba não sendo dos mais felizes, o que não é novidade em romances que lidam com o tema do adultério.

Mais ou menos nesta época também li um capítulo de um livro de Robert Stam, A Literatura através do Cinema, sobre literaturas que anteciparam a linguagem cinematográfica. Madame Bovary é um desses casos. E também foi nesta época que quis ver todos os filmes disponíveis que foram adaptações do clássico de Flaubert. Assim, me deparei com obras dirigidas por Jean Renoir (1933), Vincente Minnelli (1949), Hans Schott-Schöbinger (1969), Claude Chabrol (1991), Ketan Mehta (1993) e Manoel de Oliveira (1993). A maioria é de filmes muito bons.

Passadas algumas décadas, entra em cena uma nova adaptação da história de Emma, MADAME BOVARY (2014), da americana Sophie Barthes. O curioso neste filme é o quanto a personagem parece ser tão destituída de nuances, ficando muito fácil julgá-la como irresponsável e traidora, por mais que não tenha sido essa a intenção da obra literária e as demais adaptações cinematográficas tenham sido felizes em dar complexidade a Emma.

Pra começar, a diretora e o seu roteirista (que aqui aparece com um pseudônimo feminino) preferem começar o filme do ponto de vista de Emma mesmo, deixando de lado o ponto de vista inicial do médico Charles, em sua vontade de desposar a bela jovem. Até aí tudo bem, mas a coisa começa a ficar bem problemática quando o personagem do alfaiate, vivido por Rhys Ifans, se torna mais importante que os amantes da protagonista. Ele é o grande vilão do filme e as cenas em que ele inicialmente tenta a personagem com as roupas em vendas a crédito para depois procurar destruir sua vida ganham tanto espaço que acabam por sufocar a trama, que deveria privilegiar as paixões proibidas de Emma por outros homens que não fossem o seu marido.

Charles aparece até como um esposo quase ideal, em sua bondade, tornando o julgamento de Emma ainda mais fácil, por parte do público. Não deixa de ser estranho para um filme dirigido por uma mulher, que poderia aproveitar para fazer uma obra mais feminista. Ou talvez a obra literária já tenha nascido feminista à sua maneira, quando Flaubert chegou a ir à corte por causa dos escândalos que o seu romance causou, e ele disse a famosa frase "Emma Bovary sou eu", quando os juízes o perguntaram quem teria sido o modelo da personagem.

No mais, é uma pena que uma atriz talentosa como Mia Wasikowska tenha se envolvido em um projeto tão fraco. Talvez o convite tenha chegado a ela pelo fato de ela estar em outros filmes de época mais bem-sucedidos. Sem falar no fato de ser também um dos maiores destaques entre as atrizes de sua geração. Mas, como não depende só dela o sucesso dos filmes, mas principalmente de seus realizadores, há sempre riscos.

domingo, julho 10, 2016

VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES



Um filme projetado para o futuro e vindo do passado. Algo parecido como a descrição sobre o anoitecer em certo momento do filme pelo casal visitante da casa onde se passa a ação: é como se não estivéssemos nem vivos nem mortos. Assim é VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES (1993/2015), de Manoel de Oliveira, obra póstuma rodada em 1982, e que fala do próprio cineasta e da casa que ele é forçado a abandonar, por causa de problemas financeiros, depois de 40 anos lá vivendo.

Por ordem do diretor, o filme só poderia ser lançado após sua morte. Então com 73 anos, Manoel de Oliveira talvez imaginasse que estaria no fim da vida, que faria bem poucos filmes. Ele já era um autor consagrado por filmes como AMOR DE PERDIÇÃO (1979) e FRANCISCA (1981), mas jamais imaginaria que chegaria à estatura de gigante, que sua fase mais rica e brilhante ainda estaria por vir, já que continuaria a fazer cinema até os 106 anos de idade.

Já se percebe a poesia presente em sua obra desde as primeiras imagens, quando o casal cujos rostos nunca são mostrados, apenas as suas vozes, Teresa Madruga e Diogo Dória (ambos de FRANCISCA), fala de detalhes como as árvores que rodeiam a casa, como aquela que possui uma magnólia ou a árvore com aspecto pouco simpático, que funciona como guardião daquele lugar. Os belos diálogos são da escritora Agustina Bessa-Luís, parceira de Manoel de Oliveira em filmes brilhantes como o já citado FRANCISCA, o maravilhoso VALE ABRAÃO (1993) e o misterioso ESPELHO MÁGICO (2005), ainda que nos três casos ela tenha sido a autora das obras literárias que inspiraram as adaptações cinematográficas.

O texto poético de Agustina entra em sintonia perfeitamente com as imagens captadas na câmera subjetiva e em movimento do diretor, que explora inicialmente o exterior da casa, mas que ganham ar de algo sobrenatural e fantasmagórico quando adentram o lugar vazio, mas apesar de tudo cheio dos móveis e de fotografias de pessoas que a narradora-visitante diz parecer conhecer de algum lugar. Em certo momento, um deles fala sobre a natureza falsa das fotografias, que sempre procuram captar os momentos felizes, quando deveriam capturar a imagem das pessoas após as tormentas por que elas passam na vida.

Em paralelo, o registro mais próximo do documentário do filme ocorre quando vemos Manoel de Oliveira conversando conosco, nos apresentando sua casa, sua família, pequenos trechos de filmes, fala sobre projetos futuros, de sua experiência traumática na época da ditadura, de suas crenças e visões de mundo que parecem antiquados diante daqueles tempos mais modernos.

VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES é um filme muito simples. Mas ao mesmo tempo possui algo de muito especial no modo como lida com as memórias e a poesia das imagens e das palavras. Além do mais, o fato de ter sido apresentado somente após a morte do autor, depois de ele ter se tornado um cineasta de tão alta estirpe, dá ao filme um ar solene, o que é compreensível diante de tudo que Manoel de Oliveira nos deixou de obras a serem visitadas e revisitadas.

sábado, julho 09, 2016

JULIETA



A carreira de Pedro Almodóvar é tão rica que, depois de sair maravilhado da sessão de um de seus filmes, dizer com convicção que acabou de ver um de seus melhores trabalhos é algo um tanto difícil. Mas pode-se dizer, com alegria, que é o caso de JULIETA (2016), que é tão belo em sua estrutura quanto na maneira delicada como explora a dor de sua personagem-título, apresentada aqui em duas fases, a fase madura (Emma Suárez) e a fase jovem (Adriana Ugarte).

A estrutura narrativa lembra a de filmes hollywoodianos da década de 1950, sejam os melodramas de Douglas Sirk ou os suspenses de Alfred Hitchcock. A acertada trilha sonora de Alberto Iglesias acentua isso, dando um ar de thriller em alguns momentos, ainda que o filme não apresente assassinatos ou coisas do tipo. Não há crimes, mas não quer dizer que não haja mortes, e que essas mortes não surjam para causar não apenas luto, mas um sentimento forte de culpa, uma das forças motrizes do filme.

JULIETA começa com a protagonista, em idade madura, se preparando para acompanhar o namorado em uma viagem possivelmente sem volta para Portugal. Ela acaba mudando de ideia quando encontra uma amiga de sua filha. Esse encontro mexe tanto com Julieta que ela se sente forçada a escrever uma carta para a filha, contando tudo aquilo que tinha ficado guardado em seu peito. E esse desabafo angustiado acaba funcionando como uma maneira de contar, de maneira bem clássica, a história de sua juventude desde o momento em que ela conheceu o pai de sua filha.

Desta forma, a memória vai invadindo o presente, e somos convidados a acompanhar essa história, contada por um autor de primeira grandeza do cinema contemporâneo. Cada detalhe, cada momento do filme é rico em significado, desde a cena em que Julieta, então uma jovem professora substituta de Literatura, fala para seus alunos sobre o mar e a trajetória rumo ao desconhecido de Ulisses, passando pelas impressionantes sequências dentro do trem – o homem estranho, o cervo, o encontro com o namorado, a morte e o sexo –, tudo isso já causa um prazer imenso no espectador que aprecia uma boa história. E só estamos no começo.

O real motivo pelo qual o título anterior do filme era "Silêncio", por exemplo, só será entendido a partir, pelo menos, dos eventos mostrados na segunda metade da narrativa, que envolverá morte, luto, depressão e a ausência de uma pessoa querida. E não é preciso ser mãe para entender a dor da protagonista. Almodóvar passa sua dor sem a necessidade de lágrimas. As lágrimas seriam até um alento para a personagem e isso não lhe é concedido. Almodóvar não queria lágrimas, ele queria uma imagem forte de seu abatimento, o acumulado de anos e anos de dor. Quem, por exemplo, já passou, ou está passando, pela necessidade de ter que esquecer alguém que amou muito pode entender um pouco do que a personagem sente.

E Almodóvar nos entrega este presente numa embalagem muito bonita, de cor vermelha, como sempre, mas desta vez sem as tradicionais perversões presentes em outras de suas obras. Há quem vá dizer que é um exemplar mais contido de sua carreira. E é mesmo. Mas essa contenção é também necessária para que o choro fique entalado na garganta durante toda a duração de mais esta obra especial.

quinta-feira, julho 07, 2016

A ILHA DO MILHARAL (Simindis Kundzuli)



O cinema é uma arte que parece mais universal do que as outras, por lidar com imagens em movimento que se mostram menos propensas a se perderem na tradução e de ter maiores chances de alcançar os mais diversos países do mundo. Vendo A ILHA DO MILHARAL (2014), de George Ovashvili, essa impressão se amplifica, tanto pelo domínio excepcional da direção, quanto pela opção por contar uma história com a menor quantidade de diálogos possível.

Até eu, que sou tão apegado à palavra, não senti falta dela vendo este filme que conta com bem poucos personagens que ficam o tempo todo dentro de uma ilha muito pequena, lutando para sobreviver naquele espaço restrito, que vez ou outra acaba servindo de fogo cruzado entre dois povos inimigos.

O fato de não haver diálogos não significa dizer que o filme funcionaria perfeitamente na época do cinema mudo. Aliás, até que seria um sucesso e tanto, mas o som é muito importante para impor uma atmosfera tanto de quase calmaria quanto de perturbação. O som das águas do rio, da chuva, da palha do milho plantado, do telhado de palha e da própria casa de madeira que eles constroem naquele lugar, tudo isso é muito importante e muito bem trabalhado para a construção da trama.

O filme começa com uma cartela informando que os camponeses daquela região da Geórgia aproveitam, anualmente, a diminuição do nível da água para se estabelecerem em pequenas ilhas e assim poderem trabalhar na plantação de milho. É uma tradição e é algo que se sabe que é provisório.

Na trama, um camponês idoso se muda para a ilhota com sua neta, uma menina que está desabrochando para a vida adulta ainda, e, por isso, ainda que bastante interessada em seguir os conselhos e a tradição do homem velho, também se vê tentada em atender o chamado do corpo, que aparece principalmente quando um homem ferido é acolhido pelo patriarca na casa até que fique restabelecido.

Sem a necessidade de dar nomes aos personagens, até por serem poucos, o filme vai ganhando ares de fábula em sua construção narrativa, que sempre se mostra intrigante a cada cena. A força do filme se apresenta desde o primeiro fotograma e se sustenta até o final, numa impressionante aula de direção deste homem até então desconhecido nosso, o georgiano George Ovashvili.

Há um clima de tensão constante que permeia o lugar que seria aparentemente tranquilo. Na verdade, desde o começo, por chegar àquele espaço, o homem velho sente que poderá ter sua paz perturbada a qualquer momento. E este sentimento permeia todo o longa e faz com que não desgrudemos os olhos das imagens, tão belas quanto fascinantes.

Há quem diga que é um filme contemplativo, mas isso talvez se dê mais pela beleza da paisagem e pela pouca pressa em se contar a história, mas a verdade é que o filme até que é bastante compacto em suas tomadas, podendo agradar um público bem grande que se permitir a apreciá-lo. Uma pena que é o tipo de filme que alcança uma audiência pequena por não ter um apelo comercial e por causa de uma distribuição bem escassa. Ainda assim, apesar de ser bem melhor apreciado na tela grande, é um filme que também deve ser descoberto por meios alternativos, como qualquer outra grande obra do cinema.