quarta-feira, julho 11, 2018

CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO

Chega a ser impossível ver este documentário e não sentir saudade da época das videolocadoras, mesmo sabendo que hoje, em termos de qualidade de som e imagem e de oferta, as coisas estão muito melhores. E nós mesmos, tão entusiastas de uma era, fomos de certa forma responsáveis pelo fim das lojas. Eu mesmo há tempos não fazia uma visita a uma locadora. A oferta e a qualidade dos arquivos para download eram tentadores demais.

Mas o que sentimos vendo CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO (2017), de Alan Oliveira, é difícil até de por em palavras, já que vêm à mente um entusiasmo muito grande. Eu, por exemplo, ficava tão alegre ao entrar em uma grande locadora, como a King Vídeo ou a Distrivídeo, ou mesmo em uma que tinha aqui no bairro vizinho, que tinha uma oferta até generosa, que batia até uma dor de barriga, tal era o entusiasmo. É como deixar uma criança em uma loja de doces e dizer que ela pode ficar à vontade e escolher muitos para levar.

Eu já lia revistas sobre cinema e vídeo e cheguei a ler a revista do Rubens Ewald Filho também, a Video News, antes mesmo de ter um aparelho de videocassete. O primeiro que eu tive só foi em 1992, com o dinheiro das minhas primeiras férias. Então, não cheguei a ver essa coisa de fita pirata em locadoras, embora todas as fitas que eu alugasse já falassem bastante da questão da obrigatoriedade das fitas seladas.

O documentário acaba sendo gostoso pois nos faz viajar no tempo, desde os primórdios das primeiras videolocadoras, que começaram de uma maneira bem ousadas, muito fruto da vontade e do amor dessas pessoas. A história da Omni Vídeo, por exemplo, a primeira de São Paulo e possivelmente do Brasil, é para dar boas risadas. Assim, conhecemos as primeiras locadoras e também acompanhamos as primeiras emocionadas histórias e, depois, as primeiras distribuidoras oficializadas.

Também não deixa de ser emocionante ver os depoimentos do crítico Christian Petermann, falecido prematuramente no ano passado. Ele passa uma paixão em suas memórias de consumidor de vídeo que deve contagiar até mesmo o pessoal da geração do novo milênio, que não chegou a acompanhar esse processo, ou que chegou já em um momento em que essas lojas estão em extinção.

Por essas e por outras razões, como a bela montagem e a ótima escolha de pessoas a entrevistar, além do forte toque de emoção, já que as pessoas entrevistadas dedicaram muitos anos (décadas) de suas vidas unindo negócio e prazer, que CINEMAGIA é uma das produções brasileiras mais bem-vindas da atualidade, especialmente nesses tempos de streaming e novos hábitos de consumo de filmes. É sempre bom lembrar que as coisas já foram bem diferentes. E quem viveu aqueles momentos viveu momentos mágicos.

+ TRÊS FILMES

LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA (Lumière)

É bom que o espectador vá ao cinema preparado para ver 108 curtas de 50 segundos dos irmãos Lumière. Mas mesmo com a possibilidade de cansar, a edição é muito boa, e a análise do diretor é excelente. Se fossem apenas os filmes para serem vistos e sem comentário algum certamente deixaríamos de prestar atenção em muitas coisas. Legal que a sala tinha bastante gente e muita gente se divertiu e riu de vários curtas. Ah, e eu achei incrível aquele com uso de três cinemascopes numa só imagem. Direção: Thierry Frémaux. Ano: 2016.

GATOS (Kedi)

Pra quem gosta de gatos é uma beleza. Mas o filme tem algo de muito interessante em mostrar Istambul, uma cidade cheia de gatos por todos os lados. Tem até o seu lado triste, pois muitos deles vivem nas ruas, sem donos. Muito bonitos os depoimentos de pessoas que conseguiram superar problemas sérios graças aos gatos. Sem falar que eles são de uma beleza incrível. É como um dos entrevistados diz: é como se eles fossem super-heróis. Admiráveis no que conseguem fazer e ainda serem tão elegantes. Gosto também de uma moça, que fala sobre a questão de os gatos permitirem ser belos e elegantes mas não permitirem que qualquer pessoa os toque. Direção: Ceyda Torun. Ano: 2016.

SPIELBERG

Levei meses para terminar de ver este documentário, pois ele não é tão fluido, é meio truncado, não sei. Mas há muita coisa a se aprender sobre o homem e o artista vendo este filme. Alguns filmes passaram batido, mas acho que a maior parte das escolhas foi acertada. Talvez o problema seja de montagem. Direção: Susan Lacy. Ano: 2017.

segunda-feira, julho 09, 2018

VINGANÇA (Revenge)

O fato de VINGANÇA (2017) ser um filme de estupro e vingança dirigido por uma mulher nos dias de hoje faz bastante diferença na hora de perceber detalhes importantes, principalmente se já temos como referência outros filmes desse subgênero em mente, como A VINGANÇA DE JENNIFER, de Meir Sarchi, e seu remake DOCE VINGANÇA, de Steven M. Monroe, THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, SEDUZIDA AO EXTREMO, de Robert M. Young, entre outros.

Em comum em todos esses filmes está o aspecto exploitation. São menos feitos para fazer uma reflexão sobre o ato terrível perpetrado pelos estupradores e mais feitos para mostrar as cenas violentas, às vezes até com um pouco de sadismo. O exemplar que leva essa característica às últimas consequências talvez seja IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, ainda que seja uma obra que, ao nos fazer olhar por vários minutos todo o estupro, também traz um sentimento de mal estar enorme.

De todo modo, ao vermos VINGANÇA, primeiro longa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, entendemos o fato de ela não mostrar a cena do estupro em si. Acaba não sendo necessário, já que o mal estar provocado pela tensão provocada pelo estuprador nos momentos imediatamente anteriores à ação já é motivo mais do que suficiente para que torçamos por sua vingança. Até porque o que acontece em seguida só torna os seus motivos ainda mais aceitáveis.

Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra dirigida por uma mulher e feita em tempos em que se procura não mais objetificar o corpo feminino, VINGANÇA destaca sim o belo corpo de sua protagonista, vivida pela italiana Matilda Anna Ingrid Lutz. Assim como traz motivo para algum espectador chegar e dizer: "mas ela não deu motivo para o estuprador fazer o que fez?". Aí é que está: a protagonista, ao brincar e se sentir desejada por aqueles três homens, tinha o direito de esbanjar sensualidade e beleza. Então, o que temos aqui é também uma espécie de filme-manifesto sobre esse direito.

Trazer esses questionamentos em uma embalagem de um filme de suspense sangrento (e haja sangue!) e cheio de filtros e com fotografia estilizada é um mérito que VINGANÇA tem. É possível ver o filme empolgado com o jogo de gato e rato e também se divertir com certas cenas que vão parecer bem inverossímeis, como as duas que envolvem um isqueiro. Ainda assim, não deixam de ser inteligentes no modo como encontram uma solução para que a vingança da jovem mulher fosse efetuada no calor do momento, e não um prato que se come frio, como se costuma dizer em provérbio popular.

Outro elemento muito importante que o filme destaca é a ênfase dada à covardia do estuprador (Vincent Colombe). Ele é covarde não só em ser um estuprador, mas é covarde também quando tem que enfrentar aquele anjo de vingança que escapa da morte para persegui-lo. Esses e outros detalhes contam nesta produção que sabe brincar com um tipo de história tantas vezes narrada por um homem e que traz consigo tanto a vulgaridade quanto a leitura rica e as questões tão em voga nos dias de hoje.

+ TRÊS FILMES

7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)

Acho que este filme do José Padilha vale mais por apresentar uma história real impressionante de maneira até decente do que pelo modo como a narrativa se dá efetivamente. Gosto de como o casal principal trabalha com os conflitos internos. Do ponto de vista político, será que Padilha quis ser imparcial? Ano: 2018.

AOS TEUS OLHOS

Uma das boas surpresas dentre os filmes brasileiros a estrear neste ano. AOS TEUS OLHOS também se beneficia em saber lidar com um assunto muito presente nos dias de hoje, que é o julgamento que se faz de alguém a partir da internet. Aliás, não só esse tema. Carolina Jabor consegue manter um clima de tensão do início ao fim. Ano: 2017.

COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR

Como dá para ver o filme como sendo uma produção B de ação, acaba parecendo aquelas produções feitas diretas para vídeo nos tempos do VHS, embora a curiosidade esteja no fato de ser um filme basicamente moçambicano. É possível perceber tanto as falhas quanto as qualidades, mas não consegui me envolver e fiquei ligado mais nas falhas mesmo. E na falta de mais força dramática. Diretor: Licínio Azevedo. Ano: 2016.