quarta-feira, agosto 12, 2020

UM RETRATO DE MULHER (The Woman in the Window)

É curioso o quanto a questão do sonho e o modo como Fritz Lang termina UM RETRATO DE MULHER (1944) ainda é motivo de controvérsia, de crítica, de desaprovação. Eu mesmo fiquei um tanto desapontado com a solução final, que soube que foi tomada pelo próprio Lang, mudando, assim, o final do romance no qual o filme se baseia. De todo modo, é bom lembrar que o título anterior de Lang foi QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), que tem uma atmosfera de sonho fascinante que permeia toda a obra, do início ao fim. E é justamente um dos motivos pelos quais o filme me agrada tanto. O problema de UM RETRATO DE MULHER é que tem um pé no realismo também e isso pode distorcer ou incomodar um pouco.

Deixando essa questão do final de lado, UM RETRATO DE MULHER é um dos mais representativos noirs do período, embora a figura da femme fatale aqui não seja de uma mulher perigosa, mas de uma mulher que desencadeia uma situação perigosa. Na trama, Edward G. Robinson é um professor de psicologia e especialista em criminologia que sai para dar uma volta à noite, enquanto a esposa e seus filhos estão viajando. Ele encontra uma bela mulher (Joan Bennett), justamente a mulher que foi modelo de uma linda pintura exposta em uma vitrine, que o convida para beber e depois ir até o apartamento dela. De repente, entra um sujeito na casa, o amante dessa mulher, e tenta estrangulá-lo. Ele consegue se defender, dando tesouradas nas costas do homem. A tesoura foi dada pela morena.

Os dois ficam perturbados com a situação e a tentação de esconder o corpo do homem surge como uma ideia. Eles acreditam que seriam desacreditados pela polícia se contassem a verdade. E, então, algumas das melhores cenas do filme ocorrem: quando Robinson se esforça para levar o cadáver até o carro e depois até um matagal distante. Como ele e a mulher e o morto não têm nenhuma relação em comum haveria chance de ninguém descobrir. E toda a ação que se desenrola na tentativa de se livrar do corpo é marcante em todos os detalhes. Mas o bacana é que o filme vai se tornando mais divertido quando o amigo de Robinson, um procurador de justiça vivido por Raymond Massey, revela a ele notícias sobre o andamento das investigações do morto, que é um homem mais importante e famoso do que ele imaginara.

Como é fácil se colocar na posição de preocupação do protagonista, o filme se desenvolve bem nesse aspecto, embora o ritmo seja um pouco prejudicado com a entrada em cena do chantagista (Dan Duryea). Aliás, o surgimento do chantagista e a mudança do ponto de vista para o da personagem de Bennett não deixam de ser uma espécie de contradição para o final proposto por Lang. No entanto, isso é algo que pode ser relevado. "Deixemos de lado, cuidemos da vida".

A dobradinha Edward G. Robinson e Joan Bennett deu tão certo que Lang repetiria no filme seguinte, ALMAS PERVERSAS (1945). E é importante lembrar que Bennett já havia trabalhado com Lang em O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), com a diferença que no filme anterior ela era uma mulher mais ingênua, enquanto aqui é uma mulher com ar sedutor, ainda que não tão segura de si. Bennett ainda apareceria em mais um Lang: O SEGREDO DA PORTA FECHADA (1947). Quanto a Robinson, é interessante vê-lo saindo do tradicional papel de homem malvado ou de gângster, que foi o que mais o marcou, desde que fez ALMA NO LODO, no começo dos anos 1930.

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TEOBALDO MORTO, ROMEU EXILADO

Acho que foi o filme mais chato e maçante que vi em 2016. Não quer dizer que tenha sido o pior, mas eu não entrei em sintonia em momento algum. Só queria que as duas horas se passassem logo. Chegou uma hora que estava pouco me importando para a lógica, para o drama ou para qualquer coisa. Das cerca de 10 pessoas em sala, só restaram eu e mais outro cara. Eu sou bravo e vou sempre até o fim. Direção: Rodrigo de Oliveira. Ano: 2015.

JOVENS INFELIZES OU UM HOMEM QUE GRITA NÃO É UM URSO QUE DANÇA

Acho difícil fazer um julgamento de bom ou ruim deste filme. É interessante e há uma passagem brincando com Becket, que é engraçadíssima. Sem falar que a estrutura é interessante, bem como o espírito anárquico, além do gesto de homenagem ao Carlão e também a Tonacci. Direção: Thiago B. Mendonça. Ano: 2016.

ATAQUE A LONDRES (London Has Fallen)

Eu comecei a desgostar do filme desde o começo, com sua edição e direção grosseiras e desleixada. Mas aí terminei o odiando, com o discurso imperialista do protagonista contra os terroristas. Os EUA são uma grande potência. Não precisam ficar alardeando isso, não. Ainda mais em filme ruim como esse. Pega mal. Detalhe: eu tinha gostado do primeiro filme, dirigido pelo Antoine Fuqua. Direção: Babak Najafi. Ano: 2016.

segunda-feira, agosto 10, 2020

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (The Unbearable Lightness of Being)

Na época que A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (1988) foi lançado nos cinemas, ele foi festejado como uma das produções americanas que melhor ousaram tratar do sexo de maneira tão aberta. Tanto que nem parece filme americano. A trinca de atores principais não é americana: Daniel Day-Lewis é inglês, Juliette Binoche é francesa e Lena Olin é sueca. Mesmo o diretor, Philip Kaufman, americano, depois deste filme, começou a namorar mais a cultura europeia, em HENRY & JUNE - DELÍRIOS ERÓTICOS (1990) e CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (2000). Seu filme mais celebrado pela crítica talvez ainda seja OS ELEITOS (1983), presente em diversas listas de melhores dos anos 1980.

Mas minha intenção era fazer um texto daqueles mais memorialistas, já que este filme foi um dos mais importantes para o início da minha cinefilia. Enquanto aguardava o lançamento nos cinemas (o filme estreou em minha cidade no saudoso Cine Fortaleza), eu lia o romance de Milan Kundera e ficava muito intrigado em como seria feita a adaptação, já que não se trata de um romance tão focado na trama, mas mais em discussões filosóficas. A trama e seus personagens são mostrados com o carinho devido, mas é como se fossem um meio para que o escritor tcheco pudesse nos apresentar discussões sobre o mito do eterno retorno, o kitsch, a representação da imagem de Deus, entre outros tantos debates interessantes.

Alguns desses debates são colocados no filme na boca dos personagens em alguns momentos, e até podem parecer por vezes artificiais, mas foi uma forma que Kaufman e o célebre roteirista Jean-Claude Carrière encontraram para colocar um pouco do muito que há de questões filosóficas no livro de Kundera. Por outro lado, há coisas no filme que são de natureza extremamente cinematográfica, como a linda cena em que as duas mulheres, Tereza (Binoche) e Sabina (Olin), fazem sessões fotográficas de seus corpos nus. Tereza sabia que Tomas (Day-Lewis) era amante de Sabina e ter a oportunidade de ver em detalhes o corpo nu daquela mulher provavelmente traria muitos sentimentos conflitantes em sua mente. E o filme explora isso de maneira muito bonita, destacando tanto a sensualidade e a autoconfiança de Sabina, quanto a timidez e a difícil entrega de Tereza à nudez.

Na época que vi o filme, em 1989 ou 1990, não lembro exatamente, estava na escola ainda e minha excitação em vê-lo se dava por diferentes motivos: havia já um texto excelente do Eugenio Bucci publicado nos áureos tempos da revista SET que me serviu como um aperitivo, havia o interesse pelos corpos nus daquelas mulheres lindas e pelo erotismo, havia a admiração pelo aspecto sedutor de Tomas e havia o interesse em fazer essa comparação entre a obra literária e a obra cinematográfica. Mal sabia eu que eu faria um mestrado em literatura comparada décadas depois e estudaria o assunto para a minha dissertação.

Rever o filme neste fim de semana foi novamente muito prazeroso, por mais que estivesse bem mais distante da memória da obra de Kundera. Ainda assim, admirei a sensibilidade com que Kaufman e Carrière fecharam a narrativa, antecipando a tristeza para, em seguida, nos deixar apenas com a eternidade da felicidade do casal Tomas-Tereza. Achei que deram muito pouco espaço para Franz, personagem importantíssimo do livro, mas talvez tivessem que fazer isso por causa da duração - o filme tem quase três horas, talvez muita coisa tenha ficado na mesa de edição, um problema comum em se tratando de adaptações de romances.

Uma coisa que ainda me deixa muito impressionado é o luxo do filme. E quando falo em luxo nem me refiro à direção de arte, que é sim muito boa, mas em poder contar com artistas de primeiro escalão como Daniel Day-Lewis, que na época ainda não tinha se consagrado com três Oscars e sido considerado um dos melhores do mundo; Juliette Binoche, que talvez ainda fosse só vista como um rosto (e corpo) bonito, mas que depois seria respeitada como uma atriz fantástica que é; e nomes de peso, tanto no roteiro (Carrière, mais conhecido como parceiro de Luis Buñuel na fase francesa), quanto na direção de fotografia (Sven Nykvist, colaborador habitual do grande Ingmar Bergman). Ou seja, não dava para dizer que eles não contavam com gente de primeiríssima linha na equipe.

O espírito do tempo (1968) é mostrado em cenas da invasão dos tanques às ruas estreitas da cidade, na mistura de cenas em preto e branco documentadas com cenas filmadas incluindo Tomas e Tereza, destacando as tentativas (vãs) da população de tirarem os invasores de seu país. A versão tcheca de "Hey Jude", dos Beatles, é cantada por Marta Kubišová, muito popular na época em seu país e com canções que se tornaram símbolos da resistência, tanto que seus álbuns foram todos banidos das lojas tchecas em 1969. Quem viu o filme NO INTENSO AGORA, de João Moreira Salles, vai logo se lembrar da cena dos tanques e da proibição das fotografias e filmagens no país.

Se eu fosse citar as cenas de que mais gosto, gastaria muito tempo aqui, embora já tenha destacado a cena da sessão de fotos. Mas toda a interpretação de Day-Lewis como Tomas é brilhante. Faz-nos ter um pouco de inveja dele, de seu personagem, de seu olhar capaz de, tão facilmente, levar para a cama mulheres dos mais variados tipos. No romance, a mulher que se encanta com ele enquanto ele está lavando janelas é citada como de pescoço de girafa. Ou seja, ele gostava também da variedade. As cenas de intimidade de Tomas, tanto com Sabina, uma amiga-amante adorável, quanto com Tereza, sua esposa um tanto triste com suas saídas com outras mulheres, mas lindamente carinhosa, são também destaques.

Adoro uma cena em que ela acorda de um sonho ruim e Tomas a abraça, dizendo: "Você pode dormir, durma em meus braços, durma como um passarinho". É lindo isso. E há a cena do retorno dele a Praga, mesmo um tanto contrariado com a fuga da esposa, com o fato de agora os dois estarem presos em um país com um regime totalitário cruel, agora que os russos tomaram de conta. O olhar dele, o dela. A cachorrinha Karenin correndo para buscá-lo na porta. Aliás, o quanto Karenin é representativa do amor que o filme traz, hein. Belíssima obra, que cresceu ainda mais na revisão, e mais ainda agora enquanto estou lhe dedicando essas linhas.

Agradecimentos à Paula, que mais uma vez topou ver um filme da minha "curadoria", em esquema simultâneo.

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EMMA.

Que bom que o pessoal do Cinema na Varanda resolveu escolhê-lo para a discussão da semana, já que foi o empurrãozinho que eu precisava para dar-lhe uma segunda chance (havia desistido depois de uma noite de impaciência). EMMA. é um filme que vai se tornando melhor à medida que a trama se desenrola, que os personagens deixam de se esconder atrás de afetações e leves arrogâncias para se mostrarem como realmente são. Como é o caso principalmente de Emma, tão lindamente interpretada por Anya Taylor-Joy, tão radiante quanto a bela fotografia, que destaca o amarelo das flores e o verde da grama. A maior parte das cenas se passa durante o dia, inclusive. Muito sol. Mas o filme me ganhou mesmo nas cenas em que alguns personagens mostram ao máximo suas fragilidades e uma diretora então especializada em videoclipes se mostra bem sensível aos espíritos apaixonados. Direção: Autumn de Wilde. Ano: 2020.

A CAUDA DO ESCORPIÃO

Não há como negar o charme deste belo giallo e as surpresas que ele traz com os caminhos que a trama vai tomando, à medida que os assassinatos vão se somando. O ideal é ver o filme sem saber nada a respeito, para não estragar um pouco essas surpresas. A trama inicialmente acompanha uma mulher que é beneficiada com uma soma em dinheiro de um milhão de dólares, do seguro deixado pelo marido, morto em um acidente aéreo. Curiosamente, este seria o filme que eu veria em homenagem a George Hilton, falecido no ano passado, mas que acabei não vendo por algum motivo. Foi bom só ter visto agora, pois só depois surgiram cópias restauradas. A cópia constante no box Giallo Vol. 6, da Versátil, está lindona. Há ainda dois extras sobre o filme para ver. Quanto às mulheres, destaque para a sueca Anita Strindberg, que no ano seguinte faria outro filme com Martino, NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Direção: Sergio Martino. Ano: 1971.

PEDRO SOB A CAMA

Filme pequeno, mas com potencial para gerar emoções fortes envolvendo a distância e a reaproximação de um pai na vida de seus dois filhos. Os meninos estão muito bem, e Fernando Alves Pinto também. Na trama, Pedro é um menino sonhador que não fala, abandonado pelo pai tão logo nasceu. Ao saber que o pai retornou à cidade, ele toma uma decisão ousada: invade a casa dele e se esconde debaixo da cama, a fim de acompanhar um pouco a rotina do homem que pouco conhece. Visto no Cine Ceará de 2017. Direção: Paulo Pons. Ano: 2017.

domingo, agosto 09, 2020

A MORTE CANSADA (Der Müde Tod)

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas.
(Cantares 8.6)


Continuando minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang utilizando o método de ir e voltar no tempo, por conta de minha dificuldade em adentrar os filmes silenciosos da mesma forma que os sonoros, chego agora em A MORTE CANSADA (1921), considerado por muitos como a primeira obra-prima de Fritz Lang. Ou pelo menos ou o seu primeiro grande filme. Foi a partir deste trabalho que o cineasta passou a ser valorizado como um dos mais importantes da Alemanha. Da Europa, na verdade.

Interessante notar o quanto o realismo tão presente no início do cinema falado não era exatamente uma característica do cineasta em seus filmes silenciosos, que traziam o romantismo (como é o caso deste filme aqui), o futurismo, histórias de espiões e de super-vilões extraordinários, como é o caso do Dr. Mabuse, que surgiria na produção seguinte do realizador, e este sim, eu posso considerar como sua primeira obra-prima.

Essa relação de seus heróis e heroínas com a morte, ele chegou a levar para LILIOM (1934), seu único filme francês, e que também traz um personagem conversando com pessoas do mundo espiritual, discutindo possibilidades pós-morte. Soube, lendo um texto de um livro sobre Lang  (de Lotte H. Eisner) que o cineasta, quando criança, enquanto esteve doente, teve um sonho sobre a morte chegando até ele de maneira atraente.

Em A MORTE CANSADA, então, surge essa figura da morte materializada em forma humana, como posteriormente veríamos em O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, inclusive no modo como a morte também negocia a vida de uma pessoa. Sendo que no filme de Lang é a vida de uma pessoa amada que está sendo negociada e não a própria. Uma jovem tem seu namorado levado pela morte e, ao tentar o suicídio, vai parar em um lugar em que faz esse trato com a morte: ela teria três chances de salvar pessoas que estão prestes a morrer em tempos e locais distintos. Se ela salvar uma dessas pessoas, a morte dará seu amado de volta.

Não sou muito fã da parte dos episódios. Talvez por que já fico imaginando que, pelo menos nas duas primeiras histórias, ela não conseguirá salvar a pessoa. A dúvida é se conseguirá na terceira. E, como essas histórias são responsáveis pela maior parte da duração do filme, acabei me desinteressando um pouco, embora admire muito os aspectos técnicos e o quanto Lang decidiu fazer uma obra de narrativa mais simples, mas enriquecendo nos detalhes, como efeitos visuais inovadores, cenografia impressionante, cenas que parecem de grandes produções etc. E há também a beleza plástica da fotografia e dos enquadramentos, que muitas vezes são valorizadas pelo efeito de tintura na fotografia, algo comum nos filmes da virada dos anos 1910 e 1920.

Quando à história, acho que o que mais me chamou a atenção foi o último ato, quando a mulher vai em busca de alguém que queira dar a vida por uma outra pessoa - a morte ainda dá essa colher de chá pra ela. Assim, ela faz o pedido a um velhinho mendigo, a um grupo de velhinhas que reclama da vida em um asilo e de outro idoso, mas nenhuma dessas pessoas têm a coragem de se desapegar da vida. E aí há a cena ótima do incêndio, em que um bebê corre perigo de vida e muda os rumos dos acontecimentos para a protagonista. Todo esse trecho tem um poder imenso. Não à toa que Luis Buñuel chegou a dizer que foi A MORTE CANSADA que abriu seus olhos para a expressividade poética do cinema.

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NASCIDA PARA O MAL (In This Our Life)

O filme escolhido por mim para homenagear Olivia de Havilland foi este, em que ela faz a irmã boa da família, enquanto Bette Davis, pra variar, é aquela mulher com o cão nos couros. Depois de roubar o marido da irmã e fazer outras presepadas, a personagem chega a cometer outros atos terríveis no meio do caminho. Incomodou-me um pouco a trilha sonora que não dá trégua, mas achei este melodrama noir bem interessante. Inclusive, há uma questão que eu não tinha notado em filmes dessa época, até então: uma visão mais crítica e progressista quanto à questão do negro nos Estados Unidos. Há um personagem negro que lava o carro da família e que tem a intenção de estudar direito e ser um advogado. Hattie McDaniel, a mulher negra que ganhou o Oscar por ...E O VENTO LEVOU novamente trabalha com Olivia num mesmo filme, em um papel, infelizmente, ainda muito semelhante ao que a projetou. Curioso como essa questão do racismo acaba sendo tão forte (em especial dentro da discussão atual), que superou, pra mim, a história principal. Este foi o segundo filme dirigido por John Huston, que teve um caso tórrido com Olivia durante as filmagens. Raoul Walsh, não creditado, assumiu as filmagens na última semana, por motivos não explicados. Ano: 1942.

THE ROOM

O filme é mesmo ruim pra cacete e não saberia de sua existência se não fosse James Franco. Por isso me diverti posteriormente vendo O ARTISTA DO DESASTRE. Foi pensando nisso que eu até curti THE ROOM em diversos momentos. É quase um filme pornô sem pornografia. Não à toa virou um objeto de culto. Direção: Tommy Wiseau. Ano: 2003.

COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (How to Train Your Dragon - The Hidden World)

Ah, eu e minha relação com as animações. Como elas geralmente despertam em mim um sono muito incômodo. Engraçado que alguns filmes da Disney e da Pixar são uma exceção. Mas esses da Dreamworks, meu Deus... Tive que gastar com pipoca pra me manter acordado. Engraçado que eu tenho pouca lembrança dos outros dois e não tenho uma relação de afeto como muitos têm. Enfim, não me arrependo de ter ido vê-lo, mas acho que se fosse ver o filme ruim da Jennifer Lopez talvez eu não tivesse passado por isso. Direção: Dean DeBlois. Ano: 2019.

sábado, agosto 08, 2020

QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE

Quem me conhece já deve imaginar que meu interesse pela obra de Jean-Claude Brisseau se deu através, inicialmente, por seus filmes mais eróticos dos anos 2000, os excelentes COISAS SECRETAS (2002), OS ANJOS EXTERMINADORES (2006) e ERÓTICA AVENTURA (2009). Mas como Brisseau também é um cineasta interessado na espiritualidade, os interesses mais densos do plano material se unem de maneira tal, que é quase como se ele conseguisse misturar água e óleo. Ele traz transcendência para o sexo, o elevando a uma experiência religiosa, inclusive com o uso da música, que de forma geral é usada de maneira econômica em seus filmes, nas sequências de diálogos.

Assim, como eu tenho uma lacuna considerável para preencher nos filmes das décadas de 1970-1990 do cineasta, sua visão de realismo social e de poeta dos subúrbios que vejo em alguns textos ainda me foge um pouco. Portanto, a relação que faço de seu filme de despedida do plano material, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE (2018), é com seus trabalhos realizados no novo milênio. Se em seu trabalho anterior, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), esse erotismo era deixado um bocado de lado, agora ele retorna para namorar novamente o aspecto espiritual.

A história começa em tons rohmerianos, com Camille (Fabiene Babe) esperando ônibus em um terminal e atendendo a ligação de um celular que se encontra no banco. Do outro lado da linha, uma outra mulher, Suzy (Isabelle Prim), pede para que ela guarde o telefone pra ela, leve-o com ela para sua casa, que logo ela passará para pegar. O primeiro encontro das duas mulheres, no apartamento, parece carregado de sexualidade logo de início, quando Camille, usando apenas um vestido confortável, se mostra atraída por aquela mulher bem mais jovem que ela que afirma ter vários amantes, e que o homem que envia vídeos eróticos para o seu telefone é uma pessoa que está perdidamente louca por ela.

Logo essa atração se torna mútua, com um diálogo que une o naturalismo com uma espécie de estranheza, Suzy mostra os vídeos que ela faz transando com estranhos em público, e Camille a apresenta seus vídeos eróticos caseiros, mas feitos com efeitos especiais e muito bem trabalhados como arte. O sexo entre as duas é inevitável. A dona do apartamento e amiga íntima de Camille, Clara (Anna Sigalevitch), chega, flagra as duas na cama e se junta a elas na festa. O sexo funciona como elo inicial entre aquelas três mulheres.

Clara tem ajudado Camille em uma difícil fase de depressão em sua vida. E Suzy depois se mostrará bem menos femme fatale do que se apresentara inicialmente. Seu único amante na verdade é um homem que a persegue na casa de Clara, Fabrice (Fabrice Deville). As outras mulheres ajudam-na a se livrar do homem, que fica bêbado, usa uma arma e faz uma confusão do lado de fora. Quem mais ajuda a contornar a situação é Clara, que se sente na obrigação de fazer com que Fabrice esqueça Suzy. A cena de Clara fazendo sexo com Fabrice é um dos momentos mais eróticos e também de exposição de fragilidades do cinema de Brisseau. Muito lindo.

O caminho das três mulheres se conduz de maneira diferente. Suzy encontra a espiritualidade com um senhor septuagenário que mora no quinto andar. E Clara encontra o amor romântico pela primeira vez na figura de Fabrice. Já Camille tem conseguido força espiritual e independência depois de tantos anos de necessidade da presença da amiga. Das três, a que mais me encanta é Clara, com sua beleza, sua generosidade, sua sensualidade e seu amor que se expande por todos os níveis.

Como um cineasta profundamente religioso, Brisseau nos traz em seu filme-testamento momentos de gratidão poucas vezes vistos em outras obras para cinema. Ele começa com o amor físico, carnal; depois vai para o amor mais próximo da amizade; depois o amor romântico, e em seguida o amor transcendental. O fato de termos personagens aquebrantados ajuda muito a nos identificarmos em com um ou mais deles.

Li em um ótimo texto sobre o filme que suas personagens femininas são representações das feridas do cineasta. E achei muito interessante essa interpretação. Assim como a ideia de que, em seus trabalhos mais maduros, do fim de sua vida, ele estaria mais interessado na cura do que na fúria, algo bem mais presente em suas obras iniciais, pelo que li e pelo que vi em UM JOGO BRUTAL (1983). É uma forma reconfortante de deixar o mundo material, ainda que continuando com um pé firme nos desejos e nos prazeres supostamente menos nobres.

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TRANSTORNO EXPLOSIVO (Systemsprenger)

Impressionante e comovente história de uma garotinha de nove anos que, por conta de um problema de explosão emocional constante, não consegue encontrar um lugar para ficar. Em alguns momentos é até possível ficar um tanto irritado com a garota, mas o filme tem um olhar muito carinhoso com ela e isso faz muita diferença. Apesar de a mãe não conseguir ficar com ela, seu sonho é voltar para a casa de sua mãe. E talvez isso seja o que mais emociona, assim como sua relação de afeto com outras pessoas, como o rapaz que se identifica com ela e tenta ajudá-la profissionalmente. Impressionante a garotinha, Helena Zengel. Daqueles casos de interpretação mirim que deixa a gente de boca aberta. Com o sucesso que teve, ela estará no próximo filme de Paul Greengrass, junto com Tom Hanks, em fase de pós-produção. Direção: Nora Fingscheidt. Ano: 2019.

VIVA - A VIDA É UMA FESTA (Coco)

Já não consigo mais diferenciar o que é Pixar e o que é Disney Animation, mas não tem problema. O que importa é que ver mais um acerto da Pixar/Disney é sempre um prazer. Este filme é daqueles que envolvem tanto e impressionam tanto com seu visual que merece todos os prêmios. Não sei o quanto os roteiristas roubaram da animação FESTA NO CÉU, mas é muito bom ver uma apropriação tão bonita de uma cultura alheia, como a mexicana, e o fascinante Día de los Muertos e a questão da lembrança como elemento de manutenção da vida no pós-vida. E tem também o amor pela arte e um certo ar de rebeldia do jovem protagonista. Tudo isso junto dá um caldo muito bonito. Sem falar no mundo dos mortos. Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina. Ano: 2017.

INSUBSTITUÍVEL (Médecin de Campagne)

Eu até que tinha gostado do filme anterior de médico de Thomas Lilti, HIPÓCRATES (2014), mas este me pareceu tão anêmico e sem graça. Não que seja ruim; só não me disse nada e nem oferece nenhuma novidade formal (mas disso eu já sabia). Na trama, depois que um médico é diagnosticado com câncer, um novo médico se junta a ele para atender seus pacientes em uma região rural da França. Ano: 2016.

quinta-feira, agosto 06, 2020

QUANDO DESCERAM AS TREVAS (Ministry of Fear)

Alguns filmes parecem feitos de um tipo diferente de matéria. Por mais que digam que o cinema é a forma de arte que mais se aproxima dos sonhos, certos filmes conseguem se aproximar ainda mais dessa sensação. E eu, por algum motivo, tenho uma especial atração por esse tipo de obra. Por isso fiquei tão encantado com QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), que eu esperava que fosse "apenas" o terceiro filme anti-nazista de Lang realizado em Hollywood, ainda no calor da Segunda Guerra Mundial Não esperava algo tão onírico, tão kafkiano, tão estranho e tão cheio de loucuras. 

E acho curioso o fato de Fritz Lang não gostar do filme. Na entrevista que o cineasta deu a Peter Bogdanovich contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, seu desdém com relação à obra é bem explícito. Conta que aceitou a proposta de dirigi-lo porque gostava de Graham Greene (o filme é uma adaptação do livro O Ministério do Medo, de 1943, do romancista inglês), mas que ficou chateado com o roteiro e com a impossibilidade de mudá-lo e que quis pular fora do projeto. Não conseguiu pois já havia assinado o contrato com a Paramount. E que bom que não conseguiu! O impressionante é Lang ter feito o filme sem tanto carinho e ainda ter resultado em algo tão bonito.

A minha primeira simpatia pelo filme foi de uma talvez acidental semelhança da imagem do protagonista, vivido por Ray Milland, com ERASERHEAD, de David Lynch, graças à projeção de uma sombra na cabeça de Stephen Neale, o personagem de Milland. Ele aguarda alguém e ficamos sabendo que ele estava preso e agora está livre. Quando sai dessa prisão, vemos o nome da instituição, um centro para doentes mentais. Mais tarde saberemos mais um pouco sobre o motivo de Neale ter parado ali, mas, por enquanto, não sabemos nada de seu passado, só de sua alegria por estar finalmente livre.

Sua alegria é tanta que não se importa em ir embora para Londres, o principal centro dos ataques de bombardeiros alemães. Sua atenção é voltada para uma festa que acontece ali perto, uma festa de senhoras, aparentemente bem familiar. É interessante a disposição dele para dizer sim a experiências novas, como adivinhar o peso exato de um bolo, entrar na tenda de uma vidente, ou, mais adiante, participar de uma sessão espírita. Aliás, a cena da sessão mediúnica é uma das melhores do filme, uma das que Lang melhor explora as sombras, e a que melhor justifica o título brasileiro. Mas antes mesmo dessa sessão, outras coisas malucas já haviam acontecido, como na cena do encontro com o "cego" no trem. É dessas cenas que me fazem arregalar os olhos para o que estou vendo e dar um sorriso de satisfação.

Mas é durante a tal sessão espírita que Neale passa a ser perseguido, tanto por espiões nazistas quanto pela polícia, depois que um homem é morto enquanto as luzes estão apagadas e Neale é acusado de tê-lo assassinado. Ajudado por um dos irmãos austríacos que conhecera antes, ele consegue fugir e é ajudado pela irmã austríaca (Marjorie Reynolds). Sim, a trama é confusa e bem maluca, mas isso faz parte da graça da obra. Diria que o filme perde um pouco a graça quando tenta trazer explicações e se transformar em um thriller de espionagem mais convencional a partir de determinado momento, mas mesmo assim há uma agilidade na narrativa que faz com que essas questões supostamente mais sérias sejam também motivo de diversão.

Diria que QUANDO DESCERAM AS TREVAS faz parte daquele tipo de filme noir que prefere se distanciar um pouco do realismo para adentrar um tipo de surrealismo, seja pela trama kafkiana, seja por alguns elementos de mistério. Poderia lembrar de A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, por causa do mistério que seria depois inspiração para Lynch; mas também poderia lembrar de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, cuja trama é incompreensível. E tudo bem. O senso de humor do filme de Lang se torna ainda mais evidente na última cena. E toda a combinação que o diretor alemão faz de realismo com fantasia, como ele já havia feito em DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) e em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), funciona que é uma beleza neste que é, aparentemente, um dos seus filmes mais subestimados.

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O PARAÍSO DEVE SER AQUI (It Must Be Heaven)

Em determinado momento deste novo filme de Elia Suleiman, ele está em um escritório de uma produtora de filmes, que nega o seu trabalho afirmando não ser suficientemente palestino. Ou seja, o que querem dele é algo mais próximo de uma visão exótica e sofrida. E não uma comédia, por mais agridoce que seja este novo trabalho. É praticamente um filme de esquetes, em que o próprio realizador testemunha o que lhe aparece pela frente sem expressar nenhuma palavra. Assim, é quase um filme mudo, em certo sentido. Mas há uma importância grande do som e também da música. Inclusive, em dois momentos que parecem videoclipes: quando toca Nina Simone e ele está em Paris, e quando toca Leonard Cohen e ele está em algum lugar dos Estados Unidos. A cena do supermercado é um sarro, assim como a cena com o Gael García Bernal. Senti muita vontade de saber mais sobre a questão da convivência entre palestinos e israelenses dentro do Estado de Israel. No caso do filme, em Nazaré. Ano: 2019.

TOY STORY 4

Este quarto filme da série mantém o padrão de qualidade, graças, principalmente, à força de seus personagens, principalmente de Woody e depois de Buzz. Mas aqui temos outros dois personagens de muita força e importância para a trama, a boneca de porcelana Beth e o garfinho, criado pela garotinha em momento de ócio gerado pela solidão na escolinha. Acho que o filme cansa um pouco em seu terceiro ato, com tantas mudanças de planos nas aventuras dos heróis, mas não dá para reclamar muito. Até porque há aqueles bonecos aterrorizantes de filmes de terror da loja de antiguidades. Direção: Josh Cooley. Ano: 2019.

FRANCOFONIA - LOUVRE SOB OCUPAÇÃO (Francofonia)

Continuo não sendo fã de Aleksandr Sokurov e seus filmes são um convite ao sono. Mas como vi o filme com um pouco de febre, é provável que gostasse em outras circunstâncias. Há algo de bastante interessante, nem que seja para pensar o papel do museu e o momento da ocupação alemã na França. Ano: 2015.

quarta-feira, agosto 05, 2020

O CONVITE AO PRAZER



Quem gosta (quem ama, na verdade) o cinema de Walter Hugo Khouri sente sempre a necessidade de voltar às suas obras. Elas funcionam tanto isoladamente quanto dentro do corpo de seu trabalho. E também mudam bastante, à medida que nossa compreensão de mundo também muda, como costuma acontecer com qualquer obra de arte. Porém, no caso das obras de Khouri que trazem nudez e cenas de sexo mais gráficas, como as da fase da Boca, essa diferença de visão da obra pode ser ainda mais sentida.

É o caso de O CONVITE AO PRAZER (1980), filme que antecipa a obra-prima EROS - O DEUS DO AMOR (1981) e que é geralmente considerado um filme menor do diretor. Pelo grande número de cenas de sexo e de mulheres lindas desfilando pela tela, a primeira impressão que eu tive do filme, na minha adolescência, quando o vi pela televisão, foi de uma obra cujo destaque maior é o sexo. Sim, o sexo é fundamental para o filme, mas não como um elemento de diversão, como pude ver agora, com os olhos da maturidade. E também com os olhos mais atentos com coisas como o machismo e a objetificação da mulher. 

Nesse sentido, O CONVITE AO PRAZER é um dos filmes mais masculinos de Khouri, embora ele soubesse também fazer muito bem obras totalmente centradas em mulheres. Não à toa é tido como o nosso Bergman. Mas não é o caso deste trabalho em particular, cuja primeira mulher apresentada, a jovem e lindíssima Sonia (Aldine Müller), é quase uma boneca de pano pronta para ser aproveitada sexualmente pelo dentista Luciano (Serafim Gonzalez) e depois por Marcelo (Roberto Maya, o melhor de todos os Marcelos de Khouri). Os dois transam com ela, uma garota de programa, na cadeira de dentista de Luciano.

O filme começa mostrando a rotina de trabalho desse personagem próximo do patético que é Luciano. Um homem que tem por hábito liberar a secretária para usar o seu espaço de trabalho para o prazer, sem precisar pagar mais por isso, como motel, bebidas etc. Além do mais, ele tem a preocupação de não chegar tão tarde em casa. Mesmo assim, sua relação com a esposa Anita, vivida por Helena Ramos, ainda continua firme e forte.

O mesmo não se pode dizer do casamento de Marcelo, que passa por uma crise terrível. Ele não suporta a esposa, embora diga que a ama para o amigo. A mulher, Ana (Sandra Bréa, cheia de charme, mais uma vez), já parece cansada de tudo, mas é ele que a provoca mais. Aliás, é interessante como a casa deles, um palácio, se parece com um lugar que exala tristeza, especialmente quando contrastada com o espaço que Marcelo reserva para as orgias, a sua garçonniére. Ali é um espaço de exacerbação dos sentidos, dos prazeres, das possibilidades do sexo. Um espaço sem paredes, onde quem está na cama de baixo pode muito bem assistir à performance de quem está na cama de cima e vice-versa.

O lugar é quase um personagem para o filme, mas nada que vá eclipsar a força da presença de Marcelo, um homem que se sente bem ao se mostrar um sábio cínico e pessimista, mas também muito rico e elegante, especialmente quando se espelha à frente do pouco sedutor Luciano, que está ali para aproveitar aquela oportunidade de ouro, mesmo já estando, como o próprio Marcelo observou, bastante judiado pelo tempo. Aliás, a presença quase simiesca de Luciano perto das mulheres lindas que aparecem pelo filme é de um contraste impressionante.

E quanto às mulheres, que elenco! Além das já citadas Helena Ramos, Sandra Bréa e Aldine Müller, o filme ainda conta com Kate Lyra, como a funcionária inglesa de Marcelo; Nicole Puzzi, como a amiga da filha do protagonista; Alvamar Taddei, como uma das garotas de programa mais atraentes; sem falar em outras famosas atrizes do cinema brasileiro do período que aparecem em papéis menores, como Patricia Scalvi e Rossana Ghessa. São tantas beldades que a comparação de Marcelo com o próprio Khouri acaba por ser bastante pertinente.

Mas CONVITE AO PRAZER também é um filme em que o sentimento de mal estar se sobressai. Marcelo é um personagem que não se importa em causar transtorno a pessoas que ele conhece no cotidiano, como na cena em que convida sua secretária Miss Harriet (Kate Lyra) para a sua garçonniére. E o problema maior nem parece ser a bela mulher transar com Marcelo e com Luciano em esquema de revezamento na mesma cama, ao mesmo tempo, parecendo estupro, mas ter que dar de cara com colegas de trabalho, logo em seguida, e ter toda a sua reputação perdida.

Quanto ao uso deslumbrante de luz e sombras no filme, é em Kate Lyra que elas recaem de maneira mais linda, ressaltando o seu sentimento conflitante e também o sentimento conflitante do espectador, diante de situação cujo grau de incômodo luta contra algum sentimento de prazer voyeurístico e de encantamento com a beleza que persiste.

E por isso cada obra de Khouri merece uma reavaliação constante. Um filme como este, cujos créditos se iniciam com a pintura Os Amantes, de René Magritte, e se encerra com a mesma pintura, tem muito a dizer. Na pintura, vemos dois amantes se beijando totalmente cobertos por um pano que os impede de tocarem os lábios um do outro. Pode haver uma infinidade de visões dessa pintura, mas creio que uma delas pode ser a quase impossibilidade de se alcançar o amor.

As orgias que Marcelo empreende não são suficientes para trazê-lo prazer, satisfação. Sua necessidade de sentir é tanta que ele se deixa ser agredido fisicamente pelo amigo em um dos momentos finais do filme, como se aquela surra fosse para ele um presente; fosse, enfim, uma forma de sentir a vida.

Agradecimentos à Paula, que topou ver o filme simultaneamente comigo.

+ TRÊS FILMES

BRASIL S/A


Quando um filme não nos pega a gente fica até desinteressado em tentar descobrir os signos, os simbolismos. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e BRASIL S/A. Mas é um filme interessante e bonito de ver, embora seja necessário um pouco mais de disposição por parte do espectador. Direção: Marcelo Pedroso.

MAIS FORTE QUE O MUNDO - A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO

É muita firula e muito efeito pra pouca emoção. Mas é interessante o modo como a questão paterna é colocada. O começo em Manaus também é interessante, mas toda a trajetória para chegar às vitórias são muito rápidas e parecem um trailer, além de parecer também com aqueles filmes publicitários que se costuma ver em academias de musculação. A personagem de Cleo Pires também é fraca. Se a atriz não tivesse uma beleza e um charme próprios ficaria ainda pior. Mas é um filme a se conferir. Direção: Afonso Poyart. Ano: 2016.

O OUTRO LADO DO PARAÍSO

Acho que tenho um pouco de problema com filmes protagonizados por crianças. Por algum motivo esses filmes me dão sono, em sua maioria. Embora este título em si seja correto e tal, não consigo enxergar nada além disso, mesmo levando em consideração o cenário de golpe de 2016. De todo modo, as cenas dos amores do garotinho são legais. Minha preferida é a cena do cinema. Direção: André Ristum. Ano: 2014.

terça-feira, agosto 04, 2020

MACABRO

Marcos Prado tem uma carreira como diretor bastante curiosa. Sua maior experiência é na produção, tendo sido, inclusive, produtor executivo dos dois Tropas de Elite, do José Padilha, além de outros dois documentários famosos desse cineasta. Mas seu trabalho na direção começou com o documentário. Seu primeiro documentário para o cinema, ESTAMIRA (2004), é o retrato de uma mulher que vive em um lixão do Rio de Janeiro, que tem problemas mentais e filosofa sobre o mundo. Confesso que esse filme me deixou um tanto perturbado. Fiquei ao mesmo tempo temeroso de entender o pensamento da personagem e olhar para seus olhos.

E é interessante ver que Prado, depois de uma primeira experiência na ficção, com PARAÍSOS ARTIFICIAIS (2012), tenha voltado a lidar com o medo (a experiência do medo que eu falei no parágrafo anterior é puramente subjetiva), desta vez deliberadamente, ao contar a história dos "irmãos necrófilos" de Nova Friburgo, que foram notícia nos jornais na década de 1990. MACABRO (2019) foi o primeiro filme inédito a ser lançado comercialmente nestes tempos de pandemia, no circuito dos drive-ins. E só por isso creio que já chame a atenção.

Por mais que não esteja sendo recebido com tapete vermelho pela crítica, diria que MACABRO tem a cara de filme que será, no futuro, reavaliado e visto como um exemplar de suspense/terror/policial marcante e com aspectos valorosos. Prado aproveita uma onda bastante positiva de filmes de gêneros que cresceram consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Sem falar que, em comparação com a maioria dos muitos exemplares de horror e suspense estrangeiros que têm chegado ao circuito, o filme de Prado ainda ganha pontos por nos aproximar dos acontecimentos.

O modo como o filme se inicia, com o protagonista vivido por Renato Góes, o Sargento Téo, cometendo um erro ao atirar em um homem em uma operação na favela, confundindo uma furadeira elétrica com uma arma (baseado em um incidente recente real), é uma maneira de o filme começar já abordando os erros da polícia e a situação de racismo e violência que marcam a sociedade brasileira e que, a partir do que veremos na trama propriamente dita, é um racismo que persiste de maneira muito forte no Brasil profundo. Talvez nem precisasse que o cabo vivido por Guilherme Ferraz dissesse duas vezes que ele era o único negro daquela cidade, além da família dos irmãos assassinos procurados, mas talvez sim, seja necessário, para tornar mais didática a situação.

Fosse em outra época, muito provavelmente, essa questão étnica não seria sequer abordada e o filme focaria especificamente na busca pelos assassinos e estupradores e também em seus atos brutais. Há um pouco de fragilidade no modo como o filme parece querer justificar os atos dos irmãos como atos de vingança após anos de maus tratos. Isso é compensado com a construção de uma atmosfera de medo herdada do cinema de horror, como nas cenas de ataque às vítimas, mostradas sempre no escuro e tornando a aparência de um deles próxima de um monstro, a partir também do depoimento de uma sobrevivente. Isso ajuda a enriquecer o mistério, ao trazer a feitiçaria para os crimes.

O filme é feliz ao estabelecer um vínculo entre dois personagens em especial: o do Sargento Téo e uma ex-namorada da adolescência, Dora (Amanda Grimaldi). Essa relação ajuda a nos aproximar dos personagens e a aumentar a dramaticidade na cena em que Dora é abordada por um dos irmãos. É uma das melhores cenas do filme. Destaco também a cena de briga de Téo com o coronel da região, com uso de câmera na mão. Há também que se destacar a beleza da fotografia, a cargo de Azul Serra (TURMA DA MÔNICA - LAÇOS), que enfatiza a exuberância da paisagem natural de Nova Friburgo.

+ TRÊS FILMES

O CHALÉ (The Lodge)

O novo filme da dupla de BOA NOITE, MAMÃE (2014) novamente brinca com o terror dentro de ambientes fechados. Um dos pontos mais fortes aqui é a capacidade de nos surpreender desde o início. Por isso, é o tipo de obra que é interessante ver sem saber nada a respeito. Vejo como problemática a descida à loucura da protagonista. Como se fosse necessário que o espectador entrasse em seus sapatos para que o resultado fosse mais eficiente. Quanto à culpa, o modo como ela é trabalhada é boa, mas também senti falta de mais força. Riley Keough é uma jovem atriz que tem bastante carisma e acho que isso ajuda. Outro ponto positivo são os ângulos de câmera dentro da casa. Em determinado momento, sentimos que a casa está se inclinando para o lado. De todo modo, ainda não foi dessa vez que eu comprei com todo o amor o trabalho da dupla de cineastas austríacos. Mas vou ficar de olho para os próximos. Direção: Severin Fialan e Veronika Franz. Ano: 2019.

O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)

Tim Burton juntou um monte de gente legal e ingredientes interessantes, mas não soube montar um bom trabalho. E quando o filme começa a ficar interessante, o sono já chegou e a vaca já foi pro brejo. Mas a Eva Green e o Asa Butterfield estão ótimos. A menina que voa é muito legal. Mas a verdade é que eu já vou ver Tim Burton com um pouco de má vontade. E olha que gostei dos dois anteriores. Ano: 2016.

SALA VERDE (Green Room)

Puxa, fazia um tempo que eu não via um filme tão tenso e tão "sangue nos zóio". Mas é melhor entrar nele sem saber nada da trama. O jovem e há pouco tempo falecido Anton Yelchin está sensacional. Na trama, uma banda de punk rock é forçada a lutar pela sobrevivência depois de testemunhar um assassinato em um bar neo-nazista. Direção: Jeremy Saulnier. Ano: 2015.