sábado, junho 22, 2019

DESLEMBRO

É possível notar, mesmo sem saber nada de DESLEMBRO (2018), que se trata de um filme muito pessoal de sua diretora, Flavia Castro. Ao sabermos que ela conta novamente a história de seu pai desaparecido durante a ditadura, história contada no documentário DIÁRIO DE UMA BUSCA (2010), percebemos que ela é movida por uma necessidade de recontar essa história. O que impressiona é o quanto ela consegue ser tão bem-sucedida estreando no registro de ficção. A sensibilidade com que ela conta a história de uma jovem adolescente que é trazida da França para o Brasil na virada dos anos 70 para os 80, quando começou o processo de anistia política, é feita com uma vivacidade impressionante.

Nos primeiros minutos de DESLEMBRO vemos uma família dialogando em francês. A menina Joana (Jeanne Boudier, ótima) não quer sair da França e ir para um país em que se torturam e matam pessoas. Mas a mãe (Sara Antunes) prefere que a filha e seus outros dois filhos (na verdade, um deles é filho do seu companheiro com outra mulher) venham com ela para o Rio de Janeiro. O impacto da chegada ao novo país começa a trazer memórias fortes de um momento traumático na vida da pequena Joana. Lembranças escondidas em um canto seguro de sua memória.

Assim, essas lembranças - ou possíveis lembranças, já que não se sabe ao certo o que é verdade ou o que é construído como uma espécia de sonho - vão surgindo em flashbacks bem fragmentados. Às vezes, a diretora usa um recurso plasticamente muito bonito de nos mostrar uma imagem tão aproximada a ponto de não sabermos o que estamos vendo, como em um quadro de pintura abstrata com textura em alto relevo.

A inclusão de canções é também um acerto do filme. Lou Reed, Caetano Veloso, The Doors, Nelson Gonçalves (em uma canção de Noel Rosa que também aparece no maravilhoso ARÁBIA, de João Dumas e Affonso Uchôa, ainda que com um intérprete diferente), citações a David Bowie e Pink Floyd; além disso, o amor pelos livros por parte de Joana e a recitação de um poema de Fernando Pessoa, tudo isso faz com que o gosto pela vida, embora dolorosa pela falta trágica do pai, esteja o tempo todo presente.

E há também o amor no seio familiar. A família como mostrada no filme, tão fragmentada quanto as memórias da menina, é de encher o coração (o que são aquelas cenas no carro, meu Deus?). As questões de afetividade envolvendo a mãe, o padrasto chileno e os dois irmãos pequenos somam-se à avó da menina que mora no Rio, vivida com brilho por Eliane Giardini, A cena mais tocante do filme, aliás, talvez seja uma muito sutil, em que a avó e a menina estão sozinhas e a avó olha com lágrimas nos olhos para o rosto daquela garota que lembra o seu filho assassinado pela ditadura. Um exemplo de sensibilidade ímpar por parte da diretora e de seu belo elenco.

E já que estamos falando de amor, eis que o amor romântico também surge em DESLEMBRO de maneira muito bonita. Há, inclusive, uma cena de sexo muito discreta e muito elegante entre ela e o seu interesse amoroso, um rapaz que também é filho de exilados. Inclusive, esse aspecto romântico e a quantidade generosa de canções pop faz com que o filme dialogue com o ótimo CALIFÓRNIA, de Marina Person.

No que se refere às questões políticas, há diálogo com o momento atual, embora o filme tenha sido finalizado antes das últimas eleições presidenciais. O que não deixa de torná-lo ainda mais forte e mais urgente nos dias de hoje. Aliás, o que não parece urgente nos dias de hoje, quando o assunto é direitos humanos?

Assim, no mesmo fim de semana, temos dois filmes de duas cineastas mulheres que estão entre as melhores realizações brasileiras lançadas em circuito. O outro é DEMOCRACIA EM VERTIGEM, de Petra Costa, lançado diretamente na Netflix, e que por isso já tem alcançado um público bem maior. DESLEMBRO, por sua vez, restrito ao circuito alternativo, ganhará um público pequeno. Por isso, é importante que o boca a boca seja positivo e que atraia o público, a fim de que mais pessoas tenham a honra de ver esta pequena obra-prima no cinema, em toda sua glória.

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LOS SILENCIOS

Muito bonito este segundo filme de Beatriz Seigner. Gosto especialmente da primeira metade do filme, com momentos em que os sons da natureza desempenham um papel muito forte na ambientação daquele lugar: uma ilha que fica na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Na história, Amparo é uma mulher que vai com os filhos para a tal ilha, fugindo de possíveis ataques dos inimigos da guerrilha de que o marido fazia parte. Mais um filme que vale ver também para nos aproximarmos dos nossos vizinhos sul-americanos. Ano: 2018.

MORMAÇO

Um quê de AQUARIUS com elementos cronenberguianos (também lembrei de Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra). Além de um importante trabalho sobre a destruição imposta pelo Estado (o Rio de Janeiro nas vésperas das Olimpíadas de 2016), é também um filme sobre uma doença misteriosa que aflige a protagonista. Os elementos realistas se harmonizam bem com uma linha mais fantástica. Ótima a Marina Provenzzano (tinha visto a moça em O GRANDE CIRCO MÍSTICO, mas não lembrava). Direção: Marina Meliande. Ano: 2018.

A SOMBRA DO PAI

Um filme que me trouxe sentimentos mistos. Ora achei bonito toda a homenagem aos filmes de terror que a diretora faz, ora curti a cara de filme de horror B de locadora dos anos 80, ora fiquei incomodado com o drama inquietante do pai e da filha, que vivem à mercê de situações extremamente desafiadoras, cada um lidando à sua maneira com o que lhes perturba. A menina tem um gosto por feitiços e coisas do tipo; o pai se fecha demais em sua vida desgraçada. Muito bom ver a evolução da diretora nesses longas. Direção: Gabriela Amaral Almeida. Ano: 2018.

sábado, junho 15, 2019

FORA DE SÉRIE (Booksmart)
























"Ser jovem é a experiência mais dolorosa e mais hilária", disse Olivia Wilde em entrevista para o jornal The Guardian. E de fato, por mais que FORA DE SÉRIE (2019), sua estreia na direção de longas-metragens, seja um filme para rir bastante, há uma profundidade e uma compreensão do que é ser jovem que falta na grande maioria dos filmes sobre jovens produzidos nos últimos vinte anos. E como vivemos em um momento em que tudo que fazemos tem um viés político, nem precisaríamos saber que Wilde é uma democrata entusiasmada que trabalhou duro durante as campanhas de Obama e cuja mãe é congressista.

Assim, FORA DE SÉRIE trata de situações em pauta nos dias de hoje, como a orientação sexual e a sororidade. O filme conta a história de duas garotas que são melhores amigas. Elas estão no último ano do ensino médio e prestes a ingressar em uma nova fase de suas vidas. Acreditam que deram o melhor de si, ralando muito nos estudos, diferente da grande maioria de seus colegas, que passaram o ano brincando, indo a festas etc.

Na verdade, a visão que temos da escola é quase caótica, mas muito divertida de ver. Em determinado momento parece a Escolinha do Professor Raimundo. Por isso, uma delas fica horrorizada ao saber que vários de seus colegas também vão para universidades conceituadas, mesmo não estudando tanto quanto ela. Daí a necessidade de, no último dia do ano, antes da entrega do diploma, elas resolverem ir a uma das festas malucas da turma. Isso se torna algo de fundamental importância, então.

Desde o começo o filme é um convite ao riso, ao mesmo tempo em que acompanhamos o aprofundamento no drama daquelas personagens - e até dos coadjuvantes que aparecem pouco e que seriam apenas funcionais na trama. Assim, a transição do riso para a dor pode ser sentida com mais força.

O que dizer da cena da piscina, uma das cenas mais belas do cinema recente? Ao mostrar a cena para Will Ferrell em um corte inicial do filme, o ator e comediante disse, em lágrimas: "essa é uma das mais belas cenas que eu vi na vida". E dá para imaginar que Olivia Wilde tenha fica emocionada com o apoio do amigo, e disse que muita gente queria cortar a cena. Dá para imaginar?

Um dos grandes méritos do filme é nos fazer sentirmos mais vivos ao nos levar de volta para esse momento de transição da vida. É semelhante ao que sentimos com LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig, só que com muito mais experimentação e estranheza, o que é muito bom. Assim, o que vemos é uma produção com um grau de frescor pouco visto no cinema independente recente. Afinal, o que é a cena das duas bonecas? E que maravilha que é a liberdade com que vemos os diálogos íntimos das duas amigas, como na revelação de um brinquedo de pelúcia para auxiliar na masturbação de uma delas.

As duas meninas, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), se amam e se apoiam mutuamente. Molly sofre por ser gordinha e acreditar que não tem chance com os garotos da escola; Amy, por outro lado, é gay e tem muita dificuldade em chegar perto de uma garota por quem ela se sente atraída.

O filme, ao mostrar tanto o doce e o amargo desses momentos da vida, encanta. A primeira experiência sexual de Amy, o baque de ver a pessoa amada beijando outra pessoa, a alegria com o sucesso da colega, a aproximação com colegas distantes através de pequenos diálogos que revelam mais aprofundadamente quem são aquelas pessoas, tudo isso é muito bonito. Uma das melhores surpresas do cinema em 2019, FORA DE SÉRIE é também um filme sobre ser jovem em 2019, o que o torna também uma espécie de documentário de uma época.

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OITAVA SÉRIE (Eighth Grade)

O primeiro filme que vi em 2019 foi este trabalho bem sensível sobre a vida de uma adolescente tímida que se esforça muito para poder se socializar e se sentir pertencente em seu mundo. Me identifiquei com esta jovem e, como professor, visualizo também muitos que passam por essa fase complicada da vida. O legal do filme é que, mesmo insegura, ela faz uns vídeos de dicas de como enfrentar certos problemas da vida como adolescente. Um misto de sabedoria escondida em um corpo cheio de inseguranças. Direção: Bo Burnham. Ano: 2018.

O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST (The Miseducation of Cameron Post)

Serve como uma boa dobradinha para BOY ERASED. E diria que é menos intenso, até porque a figura dos disciplinadores da cura gay é menos odiosa e perversa. Mas o curioso é que o outro é baseado em uma história real e este parece que não. Mais do que um filme sobre a intervenção cruel à personalidade de pessoas, é um filme sobre amizade, uma amizade que a protagonista constrói com tipos marginais na instituição: uma jovem negra sem uma perna e um rapaz índio. Adoro a hora que toca "What's up", do 4 Non Blondes. E olha que eu nem gostava da música. Direção: Desiree Akhavan. Ano: 2018.

A CINCO PASSOS DE VOCÊ (Five Feet Apart)

Belo melodrama juvenil que deve falar bastante às novas gerações. Fiquei especialmente impressionado com o tanto de jovens chorando durante a sessão. Uma menina que estava perto de mim estava aos prantos ao final do filme, chorando no colo de quem parecia ser sua mãe. O filme pode ter seus problemas de seguir uma fórmula gasta, mas os protagonistas têm muito carisma e o drama deles é muito fácil de comprar. Afinal, quem não precisa de um abraço? Além do mais, é um filme que não tem medo de ser pesado no drama. Direção: Justin Baldoni. Ano: 2019.

quinta-feira, junho 13, 2019

CINCO SÉRIES E DUAS MINISSÉRIES

Em outros tempos eu teria falado com calma de cada uma dessas séries. Até porque todas merecem a nossa atenção. Mesmo aquela que patinou em sua conclusão. Infelizmente, por uma série de motivos que não valem a pena explicar aqui, não estou conseguindo seguir com a mesma regularidade que o blog estava tendo de 2002 a 2017. Assim, para não passar em branco, vamos logo tecer breves comentários sobre séries marcantes vistas recentemente. A primeira delas, pra vocês terem uma ideia, eu terminei de ver no final do ano passado.

THE MARVELOUS MRS. MAISEL – SEGUNDA TEMPORADA (The Marvelous Mrs. Maisel – Season Two)

Esta segunda temporada foi um pouco mais desafiadora que a primeira, que tinha sido só alegria. Nesta, há o desafio (bom) de ver uma série que se interessa ainda mais por questões formais, não só de emular o cinema dos anos 50 e as screwball comedies, mas também de brincar com o cenário de maneira inventiva. Sem falar nas cores vivas e lindas. Mas o que pega mesmo é o drama dos personagens, que se intensifica. O drama prevalece sobre a comédia agora, e os personagens coadjuvantes ganham mais espaço já no começo. Caso dos pais de Midge (Rachel Brosnahan), na série de episódios que se passam em Paris. Mas o que me fez gostar mesmo desta nova temporada foi a questão da dor dos personagens, cada um deles com um problemão pra enfrentar. A cena final é lindíssima, de tão tocante. É ver o que vem por aí na próxima. Episódio de destaque: “We’re Going to Catskills!” que mostra Midge e sua família indo para uma espécie de colônia de férias para famílias. No mínimo, curioso. Ano: 2018. Criadora: Amy Sherman-Palladino. Canal: Amazon.

BONECA RUSSA – PRIMEIRA TEMPORADA (Russian Doll – Season One)

Gosto muito da série a partir da metade, quando aparece um personagem importante. Até então, demorei a simpatizar com a heroína, mais parecida com uma versão feminina de Joe Pesci em OS BONS COMPANHEIROS. Mas os momentos brilhantes compensam e quase tornam a série ótima. Uma pena que eu não tenha me entusiasmado tanto, a não ser nos momentos em que as brincadeiras de paradoxo temporal o tornam diferente das cópias de FEITIÇO DO TEMPO. No mais, a história melhora quando muda de ponto de vista e surge certo personagem masculino. Curioso o fato de a temporada ser tão redondinha. Não consigo imaginar uma segunda temporada. Episódio de destaque: “Alan’s Routine”, justamente o que muda o foco da ação de Nadia para Alan. Ano: 2019. Criadoras: Lesley Headland, Natasha Lyonne e Amy Poehler. Canal: Netflix.

TRUE DETECTIVE – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (True Detective – The Complete Third Season)

A terceira temporada de TRUE DETECTIVE começa um tanto morna, mas vai melhorando a partir do terceiro episódio, quando as três linhas temporais passam a ser brilhantemente trabalhadas e ganham força, principalmente quando a série parece estar mais interessada na psicologia de seus personagens do que na trama de mistério, que desde o começo parece pouco envolvente, até por contar apenas com o caso de um garoto morto e uma garota desaparecida. Isso não deixa de ser uma tragédia, mas para uma série o que conta é o fato de isso se estender por tanto tempo (1979-1990-dias atuais). Incomoda um pouco certas coisas serem tão óbvias que os detetives deixaram passar. Curiosamente, os episódios mais fracos são os dirigidos por Daniel Sackheim, que dirigiu os primeiros e os últimos. Os dirigidos pelo criador da série são os melhores. Não sei se depois desta temporada a franquia vai contar com um quarto ano. Episódio que se destaca: “Now Am Found”, que lida mais dramaticamente com a situação de perda de memória na velhice de Wayne (Mahershala Ali). Ano: 2019. Criador: Nic Pizzolatto. Canal: HBO.

GAME OF THRONES - A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones – The Complete Eighth Season)

Não há como negar a influência e a força de GAME OF THRONES ao longo desta década. Foi a série mais popular e mais querida, mas aos poucos foi se tornando a mais frustrante, devido aos rumos que foi tomando à medida que se aproximava de sua conclusão. A sétima temporada já apontava para algo mais desleixado e embora o final da série tenha trazido algumas surpresas (não necessariamente boas, mas ao menos são surpresas), o final é desapontador, ficando um gosto azedo e a falta de vontade de nunca mais voltar à série. Até a Peter Dinklage foi dado um monólogo ruim no episódio final. Perderam a chance de criar um clássico. Ainda assim, são de Dinklage os melhores momentos da temporada, como quando ele sofre com a possibilidade de trair sua rainha; ou quando ele abraça o irmão Jaime, dizendo que ele foi o único na família que não o considerou um monstro. Episódio de destaque: “The Last of the Starks”, uma espécie de episódio de respiro e em quatro paredes, dando espaço para conversas à fogueira dos personagens sobreviventes à batalha da noite anterior. Canal: HBO. Ano: 2019. Criadores: David Benioff e D.B. Weiss. Canal: HBO.

FLEABAG – PRIMEIRA TEMPORADA (Fleabag – Season One)

Depois do hype dentro do círculo de críticos e apreciadores mais exigentes de séries, fui lá conferir a primeira temporada de FLEABAG, que nem sabia que existia até um dia desses. Sempre bom ter a oportunidade de conhecer novos talentos criativos, como é o caso de Phoebe Waller-Bridge, que cria, escreve e atua como protagonista desta série que se esconde como uma comédia com frequência, quando no fundo o que se sente mesmo é muita dor, arrependimento e uma dose de depressão. Em breve vejo a nova temporada. Episódio de destaque: o sexto e último episódio, que traz a revelação do que realmente aconteceu com a querida amiga de Fleabag. Ano: 2016. Criadora: Phoebe Waller-Bridge. Canal: Amazon.

CHERNOBYL

Dessas histórias tão aterradoras e arrepiantes que ficam com a gente até a hora de dormir. Impressionante o quanto a irresponsabilidade pode causar tanto prejuízo (mortes, doenças, perdas de animais, flora, uma cidade inteira). Um dos grandes méritos de CHERNOBYL é nos colocar de cara com a noite da explosão, para depois ver o horror só aumentando, e ao final ter aquela sensação de que ao menos algumas pessoas fizeram algo de bom para que aquilo não se repetisse. Episódio marcante: “Open Wide, O Earth”, que mostra os planos de Valery (Jared Harris) para descontaminar Chernobyl. Perturbador é pouco! Ano: 2019. Criador: Craig Mazin. Canal: HBO.

A VERY ENGLISH SCANDAL

Uma das coisas bacanas do Globo de Ouro é fazer com que eu me interesse por certas produções televisivas. No caso desta aqui, só em ter a presença de Hugh Grant, um de meus astros favoritos, já era motivo mais do que suficiente. Saber que se trata de uma ótima minissérie, então, melhor ainda. O formato em três episódios, característica das minisséries britânicas, funciona bem e a história é de fato fascinante. No campo das atuações, nunca vi Grant tão bem. Pena não ter levado o prêmio de melhor ator. A cena dele tentando desconversar sobre sua vida dupla com a segunda esposa é de dar dó. Mesmo sendo uma espécie de vilão, por assim dizer. Talvez seja o melhor trabalho de Frears na direção desde CHÉRI (2009). No mais, lembremos que seus primeiros sucessos para cinema abordavam a questão da homossexualidade, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA (1985) e O AMOR NÃO TEM SEXO (1987). Ano: 2018. Direção: Stephen Frears. Canal: Amazon.

domingo, junho 02, 2019

TODOS JÁ SABEM (Todos Lo Saben)

Um de meus filmes favoritos deste ano é TODOS JÁ SABEM (2018), de Asghar Farhadi. Foi dessas obras que eu vi com mais prazer e interesse. Para minha surpresa, a repercussão entre a crítica, especialmente a brasileira, não foi tão favorável. Meus amigos do excelente podcast Cinema na Varanda também foram unânimes: não gostaram do filme.

Como eu coleciono cartazes dos filmes que vejo em minha página do Facebook e coloco cotação e um breve comentário do que acabei de ver, dei cinco estrelas para o filme de Farhadi, o que foi motivo de surpresa para muitos. E isso foi uma das razões de eu ter preparado uma defesa em áudio para TODOS JÁ SABEM, a pedido, inclusive, do Tiago, que me pediu para encaminhar o áudio quando comentei algo a respeito do filme e do veredito dos varandeiros.

Enfim, depois de várias semanas que vi o filme, fica cada vez mais difícil escrever a respeito, a não ser que através de uma revisão. Então, achei por bem transcrever a minha cola para o áudio enviado ao Cinema na Varanda, desde já os agradecendo por fazer com que eu pensasse o filme e os aspectos que me fizeram gostar tanto dele. Segue abaixo o texto que serviu de base para o áudio.

"Sabe quando você ouve alguém xingando aquela banda de que você gosta muito e você fica vermelho de raiva? Pois é. Ultimamente isso não tem acontecido muito com os filmes, mas isso depende muito do grau de pedradas que ele recebe. Pois é. Ouvindo o podcast sobre TODOS JÁ SABEM senti mais ou menos isso, embora entenda o quanto é individual a nossa apreciação de cada obra de arte.

Curiosamente, os filmes de Asghar Farhadi que eu mais gosto são justamente os trabalhos dele fora do Irã, O PASSADO (2013) e este novo, feito na Espanha. Embora goste bastante também de PROCURANDO ELLY (2009), que guarda muitas similaridades com a trama do novo filme.

TODOS JÁ SABEM me conquistou desde o início e me manteve interessado na trama e nos dramas de seus personagens até o final. Vi tudo com muito entusiasmo mesmo. O começo, com Penélope Cruz e Carla Compra, a jovem que interpreta sua filha mais velha, sorrindo, representando uma alegria de estar vivo naquele ambiente rural e lindo da Espanha. Senti-me como que levado para aquele vilarejo. E muito feliz por isso.

E esses momentos felizes são fundamentais para que se faça um contraste com o momento sombrio que acerca o filme logo após a notícia do sequestro da garota.

Se Farhadi não deixa um toque latino no filme, o que acho questionável, não vejo isso como um problema. É um filme de um cineasta estrangeiro, um dos grandes cineastas da atualidade, que tem uma habilidade em tratar de suspenses e dramas familiares como poucos de sua geração. De todo modo, Farhadi é iraniano, de um país que não tem as mesmas liberdades da Espanha, por exemplo, muito por causa da religião imposta e dos costumes de muitos anos. Assim, ele dá o que ele tem de melhor.

Além do mais, a fotografia de José Luis Alcaine, grande mestre, tendo vários trabalhos com Pedro Almodóvar, também confere à obra uma beleza toda própria.

O aspecto de novela do drama, envolvendo revelações de paternidade e dinheiro, pode mesmo incomodar a alguns, mas eu abracei com muito amor, junto com a trama de whodunit, que ganha força justamente por ser emoldurada pelos dramas individuais de cada personagem, seja o trio principal (Penélope, Bardem, Darín), sejam os coadjuvantes, cada um importante, já que qualquer um poderia estar envolvido no sequestro da garota.

E não, de jeito nenhum, eu vejo o filme como uma obra em que o roteiro é a mola principal. O comentário que eu fiz quando saí da sessão foi justamente esse: 'que diferença faz um grande diretor, não é?' Mas, claro, eu tinha adorado cada minuto do filme. Então, puxei sardinha para o nosso querido Farhadi. Enfim, não sei se defendi o filme como gostaria (sou péssimo debatedor, eu sei), mas acredito que falei o principal.

Abraços a todos!"

E foi essa a minha defesa do filme. Espero que alguns leitores concordem comigo. Há muitos aspectos que eu poderia ter enfatizado, modificando o texto, mas preferi não mexer.

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ENTARDECER (Napszállta)

Achei muito difícil entrar neste filme. Ele demora demais a nos deixar a par da situação da protagonista e apresenta personagens masculinos demais, confundido muito. A certa altura não sabia mais quem era o tal irmão dela. O recurso de usar a câmera muito próxima à protagonista, como em O FILHO DE SAUL (2015), é repetido aqui, mas perdendo o frescor (se bem que já não era novidade no filme anterior, os Dardenne já haviam usado isso de forma parecida). O final traz algo que ajuda a dar um pouco de sentido à trama do filme, conectando-o com um evento histórico importante, mas acho que naquele momento já estava tarde demais para mim. As 2 horas e 20 demoram a passar. Direção: László Nemes. Ano: 2018.

BORDER (Gräns)

Um filme que me intrigou bastante no começo, mas que depois foi fazendo perder o meu interesse. E nem é pela forma como ele vai se mostrando o que de fato é, mas é como a conclusão me pareceu insatisfatória, principalmente por dar muito peso à questão criminal e um pouco menos à relação entre os dois personagens peculiares e no sentimento de autodescoberta da protagonista. Ainda assim é um filme bonito plasticamente. Direção: Ali Abbasi. Ano: 2018.

CAFARNAUM (Capharnaüm)

Acho que estou meio insensível ultimamente. Já vi alguns melodramas dignos de pessoas sensíveis e não chorei. (Quer dizer, acho que chorei um pouco no melodrama A CINCO PASSOS DE VOCÊ.) Enfim, CAFARNAUM pega pesado na exposição da miséria humana e na descida aos infernos de um garoto de cerca de 12 anos em uma cidade do Líbano. Há situações tão pesadas que a gente fica um tanto ressabiado com a diretora, pensando no quanto ela pode ter exagerado. Além do mais, fica difícil não fazer comparações com PIXOTE - A LEI DO MAIS FRACO, que é um filme tão mais cru e tão sem filtros, coisa que não falta neste filme da Nadine Labaki. De todo modo, o garotinho Zain Al Rafeea é fantástico. Ano: 2018.

quarta-feira, maio 29, 2019

FRONTEIRAS DO INFERNO (Lonesome Women)

Walter Hugo Khouri, o maior de nossos cineastas, depois de um flerte com o film noir americano no excelente ESTRANHO ENCONTRO (1958), conseguiu financiamento e apoio para uma produção com dinheiro estrangeiro, rodado, tanto em inglês como em português. Infelizmente a versão em português está dada como perdida, mas podemos comemorar o fato de que existe a versão em inglês, que pode não ser exatamente o FRONTEIRAS DO INFERNO (1959), mas sua versão irmã gêmea, LONESOME WOMEN. De todo modo, ter acesso a uma obra como essas já é uma bênção para quem é fã da obra do mestre.

Assim como a obra anterior, FRONTEIRAS DO INFERNO lembra mais cinema americano do que cinema europeu. A partir de NOITE VAZIA (1964), ele faria um cinema que lembraria tanto Ingmar Bergman quanto Michelangelo Antonioni. Aqui o que temos é uma espécie de western passado numa cidade pequena cujo principal motor econômico é o garimpo. Trata-se de uma cidade amaldiçoada, com as pessoas (principalmente as mulheres), sentindo-se como se estivessem vivendo numa espécie de inferno.

O filme começa com a presença de um homem idoso que encontra um diamante de tamanho generoso. Como é garimpeiro há anos, sabe que o dono das terras lhe pagaria apenas uma pequena quantia por aquela preciosa pedra, que poderia ser sua chance de sair daquele lugar com sua filha (Aurora Duarte). A chance de fugir dali vem quando surge na cidade um homem estrangeiro (Hélio Souto), cujo carro é capaz de passar por terras acidentadas. Logo aquele homem também será alvo da agressão e opressão do líder dos garimpeiros, que suspeita que ele está com a pedra, depois que o pobre velho morre, em seus braços.

Por mais que possa parecer um filme à moda antiga sobre um herói que vem de longe para salvar a mocinha, FRONTEIRAS DO INFERNO traz algo que seria uma das marcas do cinema de Khouri: a importância das personagens femininas. Aqui elas são várias e vivendo em diferentes realidades. Todas elas possuem motivos mais do que suficientes para fugirem daquele lugar e encontram na figura do forasteiro a chance. Como um filme sobre a cobiça, porém, já não é tão marcante. O cinema americano já fez exemplares tão melhores a respeito. Por isso, o que marca mesmo nesta produção de encomenda é o quanto de atmosfera khouriana já é possível perceber.

A cópia que chegou em minhas mãos é ripada de um VHS da Something Weird Video nos anos 1990. Está com as cores esmaecidas, mas já é uma surpresa ser um filme em cores. Com dinheiro brasileiro, Khouri só faria um filme em cores em 1970, com O PALÁCIO DOS ANJOS.

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MINHA FAMA DE MAU

A gente torce para que o filme encontre o seu prumo, mas infelizmente há muita coisa sem tesão ou apresentada de maneira tão ruim que seria melhor que tivesse sido deletada, como a cena da apresentação da canção "Amigo", por exemplo. O filme ficaria menos falho sem essa parte. Aliás, o ator que faz o Roberto não convence (e canta mal, ainda por cima). Já o Chay Suede está bem como o Erasmo. Ele já havia se mostrado muito bem em RASGA CORAÇÃO. Falta também força nas canções, principalmente nas melhores dessa primeira fase da dupla Roberto-Erasmo. Direção: Lui Farias. Ano: 2019.

INTIMIDADE ENTRE ESTRANHOS

Antes de entrar para a sessão deste filme eu já estava pensando: antes ver um filme brasileiro fraco do que um americano fraco. E é assim mesmo que eu penso. No caso deste aqui, que conta com roteiro de Matheus Souza, é possível ver com algum prazer até o final, principalmente por causa da personagem de Rafaela Mandelli. Os dois homens da história são dois bocós, embora a gente se solidarize um pouco com o jovem que se apaixona pela mulher mais velha que ele, mas bastante atraente. O final é meio constrangedor e podia ser evitado, a partir do roteiro. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.

DIAMANTINO

Uma coisa não dá para negar de DIAMANTINO: sua singularidade. E é um filme que abraça o seu protagonista a ponto de se tornar um com ele. Ou algo próximo disso, já que há vários momentos em que apenas o espectador ri das situações. Diamantino não tem consciência do que está acontecendo, embora como narrador onisciente ele passe a ter. Há também as boas alfinetadas na extrema direita e no que o mundo vem se tornando. Direção: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Ano: 2018.

sexta-feira, maio 24, 2019

ALADDIN


Que bela surpresa este novo ALLADIN (2019)! Embora se trate de um remake da animação dos anos 90, representa mais do que isso, com um frescor impressionante, ao trazer de volta o fascínio pelo conto retirado do clássico As Mil e uma Noites. Me entusiasmei com as aventuras do jovem ladrão de ruas gentil e apaixonado pela princesa de seu reino.

Quanto às canções, para quem não gosta tanto de musicais, elas não apenas não incomodam, como são importantes para que o clima de fantasia e de magia contagie o espectador. Tudo pode acontecer em um filme em que um gênio sai de dentro de uma lâmpada. Quem espera um "senta, que lá vem música" bem chato já pode se animar, pois as canções emocionam tanto pela beleza da melodia quanto pelo conjunto da cena, como no momento em que Aladdin e Jasmine passeiam em cima do tapete mágico.

A Disney tem uma característica que pode ser vista como um defeito, mas também como uma qualidade: o fato de querer fazer filmes como se ainda estivesse na década de 1950. E por isso há quem ache algumas de suas produções, especialmente essas que lidam também com canções, como foi também o caso de A BELA E A FERA, de Bill Condon, como algo velho, embora uma obra excelente como MOGLI, O MENINO LOBO, de Jon Favreau, pareça bastante moderna em certos aspectos.

Em um ano em que temos três adaptações de clássicos da animação da casa do Mickey para live action - o primeiro foi DUMBO, de Tim Burton, e o próximo será O REI LEÃO, de Jon Favreau -, ALADDIN, dirigido pelo irregular Guy Ritchie, encanta com seu colorido à Bollywood, seu dinamismo narrativo e uma trinca de personagens principais bastante carismáticos: Will Smith, como o gênio da lâmpada; Mena Massoud, como o Aladdin; e Naomi Scott, como a princesa Jasmine.

E que princesa! Naomi Scott já havia aparecido em POWER RANGERS, mas é neste filme que sua beleza e brilho se destacam. E muito em breve vamos poder vê-la na nova versão de AS PANTERAS. Ela justifica o espectador torcer pelo Aladdin, ao se colocar em seu lugar na jornada. Afinal, quem nunca fantasiou sobre ter a possibilidade de ter direito a três desejos realizados em um passe de mágica?

Além do mais, ALADDIN é um filme sobre ter sabedoria na hora de exercitar os seus desejos, a fim de não se deixar levar pela ambição cega. Que é basicamente o caminho do personagem de Marwan Kenzari, que interpreta o vizir, o conselheiro do Sultão. Quanto à princesa, vale destacar o quanto ela é mais valorizada nesta versão em comparação com a animação. Isso se deve tanto ao roteiro quanto à própria atriz, que empresta um encanto muito bem-vindo à personagem.

Assim, a história de amor com Aladdin ganha força. Ainda que a aventura e a fantasia sejam talvez os elementos mais fortes do filme, o que leva o herói a fazer o que faz é o amor que ele sente pela princesa. Um amor que é recíproco, mas que tem como primeiro obstáculo o fato de que ela deve se casar, segundo a lei, apenas com um outro príncipe, não com um plebeu qualquer como Aladdin. Mas o que seriam das histórias de amor sem os obstáculos?

Quanto às canções, os clássicos de Alan Menken e Howard Ashman para a animação de 1992 retornam, mas há uma novidade feita especialmente para Jasmine, "Speechless", música de Menken, e letra de Pasek & Paul, cantada com entusiasmo e brilho pela própria Naomi Scott em um momento particularmente cheio de emoção. Pois é. Há muitos motivos para ficar entusiasmado com este filme que parecia ter um destino um tanto incerto.

+ TRÊS FILMES

NASCE UMA ESTRELA (A Star Is Born)

Gostei mais deste do que do filme do Minelli! Mas ainda tenho meus problemas com a parte musical. Queria ter gostado mais das canções, já que elas são tão importantes para o todo. E embora a presença de Lady Gaga seja ótima, a interpretação do Bradley Cooper é que está sensacional. Tocante, emocionante como o personagem do artista decadente. Bela estreia na direção também. Direção: Bradley Cooper. Ano: 2018.

PAPILLON

Filmes sobre tentativas de fuga de prisões quase sempre são bons de ver. Mas a intenção do novo PAPILLON parece ser mais ambiciosa. Infelizmente acabamos sentindo um pouco de indiferença pelos personagens, por mais que goste do personagem do Malek. E também gosto do fato de ser um filme sobre amizade. Mas depois de ver UMA NOITE DE 12 ANOS, o horror da prisão do Papillon até perde força. Direção: Michael Noer. Ano: 2017.

CEMITÉRIO MALDITO (Pet Sematary)

O legal desta nova versão de CEMITÉRIO MALDITO são as surpresas. Quem acha que vai ver a mesma história do filme de Mary Lambert vai ver algumas situações que tornam a obra até melhor. Embora a conclusão não tenha sido tão boa, não deixa de ser um belo trabalho sobre uma tragédia familiar de grandes proporções, a partir da atração pelo mal. Sempre bom ter um ator gigante como John Lithgow presente. E a garotinha também é muito boa. Não lembro se o anterior ou mesmo o romance de Stephen King (que eu adoro!) tem o flashback da irmã da esposa/mãe da família. Direção: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. Ano: 2019.

quinta-feira, maio 16, 2019

A GAROTA DE LUGAR NENHUM (La Fille de Nulle Part)

Faleceu no último sábado, 11, Jean-Claude Brisseau, 74, um dos cineastas mais brilhantes surgidos nas últimas quatro décadas, ainda que sua popularidade seja restrita a um círculo relativamente pequeno de apreciadores de cinema. O filme que escolhi para ver em sua homenagem foi um de seus últimos trabalhos, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), que até tem um sabor de filme-despedida, ao mesmo tempo em que é também um trabalho de satisfação no fim da vida.

Há uma série de questões filosóficas que são discutidas, inclusive de natureza judaico-cristãs, e há também um namoro com o sobrenatural, coisa que já havia sido abordada fortemente no anterior ERÓTICA AVENTURA (2008). Aqui, diferente do anterior, porém, o erotismo é praticamente deixado de lado. O que combina com a proposta do filme, mas ligado à filosofia, ao misticismo e às angústias existenciais (fala-se tanto nas possibilidades de comunicação com os mortos quanto em reencarnação).

Assim como em OS ANJOS EXTERMINADORES (2006), há algo hostil que ronda o protagonista, Michel Deviliers, vivido pelo próprio Brisseau. Fenômenos paranormais passam a acontecer em sua residência (a locação é o próprio apartamento do cineasta) a partir do momento em que ele abriga uma garota que estava sendo agredida em seu prédio. Dora (Virginie Legeay), a jovem, traz para aquele velho e amargurado professor mais gosto pela vida, embora a relação entre os dois seja mais de pai e filha, devido principalmente à grande diferença de idade.

Solitário, mas bastante à vontade com a própria solidão, tendo os estudos como aliado, principalmente depois da morte da esposa, Deviliers passa a perceber em Dora alguém com quem ele pode compartilhar seus pensamentos, que estão sendo transpostos para um livro, bem como ajudá-lo a se sentir menos só. Os diálogos entre os dois são tão ricos e densos que seria interessante parar o filme em determinados momentos para anotar e refletir a respeito de certas questões.

Algumas cenas são particularmente marcantes, seja do ponto de vista da ternura, como em uma cena aparentemente independente da trama principal, que mostra uma ex-aluna de Deviliers abordando-o na rua para agradecê-lo por ter sido tão importante para que ela abrisse os olhos para o cinema e para as artes; seja do ponto de vista do medo, como na cena do fantasma com uma faca na mão adentrando o quarto do protagonista. Há também uma muito interessante cena de sessão espírita que pode assombrar espectadores mais impressionados. Momentos marcantes não faltam para ficar na memória neste penúltimo filme de Brisseau.

+ TRÊS FILMES

VARDA POR AGNÈS (Varda par Agnès)

Seria muito bom se cada grande cineasta pudesse fazer em vida o que a Agnès Varda fez aqui, aos 90 anos, e perfeitamente lúcida e bem-humorada: fazer um balanço de sua carreira e de suas obsessões como artista. No caso de Varda, hoje considerada a maior das cineastas mulheres de todos os tempos, ela prefere contar sua história como diretora - e também como mulher - como num fluxo de consciência, não exatamente seguindo uma ordem cronológica. Assim o filme segue numa linha narrativa muito bonita. Uma pena que até entre os estudantes de cinema presentes em sua palestra, apenas alguns "gatos pingados" viram seu filme mais conhecido, CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962). Há muito a se descobrir, portanto. Falo por mim também, que só vi três de seus filmes. Ano: 2019.

SUPREMA (On the Basis of Sex)

Certas histórias merecem ser contadas e ao final da sessão em que estive houve até salva de palmas, mas uma pena que a história de Ruth Bader Ginburg tenha resultado em um filme tão quadradinho e monótono. A força está basicamente na protagonista e em sua luta para conquistar a igualdade de gênero nos Estados Unidos, ela que sofreu preconceito sendo mulher na faculdade de Direito em Harvard. Direção: Mimi Leder. Ano: 2018.

DIE BEISCHLAFDIEBIN

Terceiro trabalho de Christian Petzold para a televisão e que continuava sua obsessão por mostrar pessoas marginais em busca de um escape para a vida. Aqui acompanhamos uma mulher que ganha a vida executando golpes em homens durante primeiros encontros em bares e hotéis. O filme cresce quando ela parte para a casa da irmã e ocorre um dinamismo interessante entre as duas, que são bem diferentes. Há um misto de melodrama com algo próximo de UM CORPO QUE CAI, que seria algo que o diretor trabalharia em PHOENIX (2014) no futuro. Ano: 1998.