domingo, maio 31, 2020

AS ARANHAS - PARTE 2: O BARCO DE DIAMANTES (Die Spinnen, 2. Teil - Das Brillantenschiff)

A sequência de AS ARANHAS - PARTE 1: O LAGO DOURADO (1919) é decepcionante. Não que eu estivesse exatamente ansioso para ver o filme depois do interessante gancho que encerra o primeiro capítulo da série, já que, confesso, tenho um pouco de indisposição para o cinema mudo, mas a chance de ver uma história de vingança poderia me animar. Gosto de histórias de vingança. E era o mínimo que AS ARANHAS - PARTE 2: O BARCO DE DIAMANTES (1920) podia trazer. Quem imaginaria que Fritz Lang (também autor do roteiro) deixaria de lado o sentimento de luto do personagem para criar uma nova aventura baseada principalmente na rivalidade entre o playboy aventureiro Kay Hoog e sua arqui-inimiga Lio Sha, líder do grupo criminoso As Aranhas?

Pois é o que acontece. Assim, o que acompanhamos é essa aventura que traz um novo interesse para ambos, um lendário e precioso diamante conhecido como "cabeça de Buda". Sei que é possível estabelecer uma comparação desse filme com a série Indiana Jones, inclusive por Steven Spielberg também ser fã de aventuras à moda antiga como essa, mas é uma pena que, como cinema de entretenimento estilo montanha-russa, O BARCO DE DIAMANTES seja tão fraco. Acredito que nem é por ter envelhecido mal. Acredito que já na época o filme não teve muito sucesso popular; daí o cancelamento das posteriores duas sequências que estavam agendadas.

Ainda bem. Já basta Lang ter perdido a oportunidade de ter dirigido O GABINETE DO DR. CALIGARI, o grande clássico do expressionismo alemão, que foi parar nas mãos de Robert Wiene. E talvez tenha sido melhor assim, já que Wiene fez um trabalho brilhante e até hoje este clássico é algo que impressiona enormemente. Aliás, isso é uma prova de que meu problema não é exatamente com filme mudos, mas com filmes mudos que envelheceram mal ou que não são realmente bons.

Assim, foi difícil para mim chegar ao fim dos 104 minutos de O BARCO DOS DIAMANTES, por mais que em alguns momentos seja interessante ver algumas coisas de natureza mais fantástica, como um mestre dos disfarces (o John Quatro Dedos), o hipnotizador, o yogui que visualiza tudo, a tentativa do herói de entrar em um navio dentro de uma caixa, as mensagens secretas que levam a uma ilha do tesouro e, principalmente, a fascinante cidade subterrânea que fica debaixo do bairro de Chinatown.

E, por mais que fosse mesmo a intenção do filme de ser superficial, não deixa de ser ruim não ter o mínimo de profundidade para que estabeleçamos algum elo com os personagens. Assim, o próprio herói, ao praticamente não lembrar o assassinato de sua namorada no filme anterior, acaba parecendo tão frio e tão interesseiro quanto sua inimiga e os membros do grupo Aranhas. E se fosse isso mesmo, ter um herói próximo de um vilão, até que seria interessante, mas tudo faz parte do jogo de superficialidade desse "filme de sensação" que naufragou. Agora, vamos ver como me sairei com o próximo Lang. Dedos cruzados.

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MISTÉRIO NA COSTA CHANEL (Ma Loute)

Continuação espiritual de O PEQUENO QUINQUIN (2014), este novo filme é mais carregado na comédia, mas achei uma beleza. Pode até não ser melhor que o anterior, mas é mais engraçado. Especialmente porque os atores parecem estar se divertindo muito com seus papéis. E eu fiquei encantado com Raph!!! Que coisa linda essa moça! Direção: Bruno Dumont. Ano: 2016.

DEPOIS DAQUELA MONTANHA (The Mountain between Us)

Gosto de muita coisa do filme, embora nem sempre o casal pareça ter uma química dessas bem forte. Ainda assim, é um drama envolvente, tem uma cena de queda de avião ótima e a Kate Winslet é sempre uma maravilha de ver e de ouvir. A sessão de pré-estreia quase não rolou, com problemas técnicos que depois foram resolvidos. Mas teve gente que não teve paciência e foi embora. Direção: Hany Abu-Assad. Ano: 2017.

TERRA SELVAGEM (Wind River)

Há neste filme uma das melhores cenas do ano (de 2017), e gosto muito da personagem da Elizabeth Olsen, por mais que ela não seja tão aprofundada, e, claro, da ambientação, que lembra muito a de A QUALQUER CUSTO (2016). Mas não foi um filme que fez eu me esquecer dos meus problemas. Quem sabe em outras circunstâncias. Direção: Taylor Sheridan. Ano: 2017.

sábado, maio 30, 2020

AMOR MAIOR QUE A VIDA (Waking the Dead)

Adoro escrever textos a partir de estudos sobre cinema em livros e revistas, tomando conhecimento de coisas novas e excitantes sobre os filmes e seus autores. Mas é também muito agradável não ter que me apegar a artigos ou entrevistas e fazer um texto mais memorialístico e livre, mais apegado à minha relação de proximidade com o filme ou com o artista.

Fui checar se já havia escrito sobre o filme no blog e até tem um texto bem pequeno, de quando aluguei o VHS de AMOR MAIOR QUE A VIDA (2000) quando estava me recuperando de uma cirurgia de retirada das amígdalas. Isso foi no início de 2003. Meu interesse pelo filme veio através do amigo Renato Doho, que costumava até citar uma frase em suas assinaturas nos e-mails nas saudosas listas de discussão. A referida frase é dita pela personagem de Jennifer Connelly: "Sometimes meaningless gestures are all we have".

E tenho que confessar uma coisa: o meu interesse nesta revisão foi principalmente para rever a beleza no estado mais sublime e mais pleno de Connelly. Claro que ela sempre foi linda. Desde criança, com ERA UMA VEZ NA AMÉRICA já era um exemplo de beleza que se igualava ou até superava à de Brooke Shields, para citar uma estrela que começou muito cedo. Mas era uma criança. Como mulher, ela atingiu esse auge na virada do milênio. E AMOR MAIOR QUE A VIDA captura este momento. Lembrando que eu tenho essa coisa de querer ver ou rever filmes pela beleza das atrizes. De vez em quando pego pra rever um trabalho com a Demi Moore, por exemplo. É mais para ficar admirando, contemplando, mesmo.

No caso de Connelly em AMOR MAIOR QUE A VIDA, ela nem precisou se esforçar muito para que nos apaixonássemos por sua personagem. No momento em que o personagem de Billy Crudup chega para visitar um amigo em seu escritório e dá de cara com aquela secretária maravilhosamente linda, simpática e atenciosa, todo o jeito um tanto paspalho de ele querer chamar sua atenção se justifica.

Mas Sarah Williams, o nome da personagem de Connelly, é apaixonante não apenas pela beleza. Ela tem um interesse muito forte pelos direitos humanos. Como a história se passa no início dos anos 1970, quando a Guerra no Vietnã ainda estava rolando, o contexto histórico de maior crítica à política norte-americana estava presente. E em 1973 houve o golpe de Estado que depôs Salvador Allende, no Chile. E é lá que ela vai desaparecer da vida do protagonista e passar a viver apenas em suas memórias. A notícia da morte de Sarah ocorre logo no início do filme. A partir de então, passa a haver um revezamento entre a vida com Sarah e a pós-Sarah, com o personagem de Crudup em sua escalada para chegar a senador da república.

Eu sinto falta da presença de Sarah Williams. Quando ela aparece o filme traz novamente aquele ar de paixão intensa. Como ambos os personagens estão muito seguros do que desejam para suas vidas políticas, ainda que seguindo por caminhos distintos, isso acaba por separá-los um pouco, o que muito aflige o protagonista, que desejaria ter aquela mulher só para si, não ter que dividi-la com seu trabalho na igreja e em causas humanitárias.

Gosto muito de quando o filme traz a personagem de Sarah de volta, como uma espécie de fantasma assombrando o jovem político. Não assombrando no sentido de filme de horror. Ao contrário, ele, mesmo achando que poderia estar enlouquecendo, sente-se feliz em estar em contato novamente com Sarah, ouvindo vozes dela. E o momento de reencontro, ainda que ganhe ares de sonho, é de uma beleza que compensa algumas irregularidades de ritmo e de força do filme.

O diretor Keith Gordon hoje em dia ganha a vida dirigindo episódios de séries de televisão. Algumas delas eu gosto muito, como HOMELAND (2013-2020), FARGO (2015-2017) e THE KILLING (2011-2013). Mas antes deste filme ele havia dirigido um longa muito bom estrelado por Nick Nolte e Sheryl Lee, que aqui no Brasil se chamou VÍTIMA DO PASSADO (1996). Pena não ter vingado no cinema como autor.

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DE ENCONTRO COM A VIDA (Mein Blind Date mit dem Leben)

É difícil comprar a história do cara cego que quer trabalhar em um hotel servindo mesas, inclusive, mas quando a coisa parecia uma espécie de Mr. Magoo em live action. Depois ela muda para algo mais dramático, o que não melhora muito, mas fica mais respeitador com os deficientes visuais, ao menos. E qual o problema desse pessoal que bota nome de filme pra gente se esquecer logo, hein? Podiam botar algo que lembrasse blind date, como o título alemão, sei lá. Direção: Marc Rothemund. Ano: 2017.

AMANTE POR UM DIA (L'Amant d'un Jour)

É certamente um filme pequeno de Philippe Garrel, mas talvez seja um filme grande disfarçado de pequeno, não sei. O despojamento é proposital e todas as cenas são hipnotizantes. Adorei a atriz que faz a namorada do professor, Louise Chevillotte. Sem falar que é um privilégio entrar num cinema para ver um novo Garrel. Ano: 2017.

ESPLENDOR (Hikari)

Baita filme bonito sobre a perda. Tem uma sensibilidade à flor da pele que contagia, tanto a personagem da moça que trabalha fazendo audiodescrição para cegos, quanto do sujeito que está ficando cego e se apega ao que lhe resta. Eu me senti ao mesmo tempo tão grato, por estar vendo aquelas imagens lindas e por ter o cinema como um porto seguro para o coração, que até me senti mal por haver pessoas que não conseguem ver. Direção: Naomi Kawase. Ano: 2017.

sexta-feira, maio 29, 2020

O HOTEL ÀS MARGENS DO RIO (Gangbyeon Hotel)

O HOTEL ÀS MARGENS DO RIO (2018) é o décimo filme de Hong Sang-soo que vejo, mas o primeiro visto na telinha. Mesmo sendo um diretor de que eu gosto muito e que sempre me trouxe alegria nas minhas idas ao cinema, não havia tido disposição até então de ver um trabalho dele em casa, por mais que até já tenha deixado alguns títulos na agulha, prontinhos para ver. Agora que o novo trabalho dele teve um lançamento direto em streaming me vi na posição de que não há alternativa, neste atual momento de ser tão otimista quanto à abertura em um futuro próximo das salas de cinema, nas mesmas condições de antes, tão cedo. Sendo assim, o jeito é aproveitar a calma da madrugada para buscar adentrar a atmosfera tão própria de seus filmes.

O HOTEL ÀS MARGENS DO RIO pertence à nova leva de produções do diretor que aproxima mais suas obras da melancolia do que do humor, a exemplo do que ele fez em NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017) e O DIA DEPOIS (2017). Ambos os filmes e também este mais novo trabalho trazem a musa de Sang-soo, Kim Min-hee, pivô do fim de seu casamento. O novo filme tem mais um clima de O DIA DEPOIS, inclusive pela opção pela fotografia em preto e branco, que funciona muito bem em seus tons prateados com o branco da neve que impera nas cenas nos exteriores.

A repetição, algo que já se impôs como uma marca do autor, surge aqui menos na narrativa e mais para quem já é familiar às obsessões do cineasta, como a presença de artistas que adoram ser paparicados e reconhecidos por seus feitos, principalmente por pessoas do sexo oposto; os elogios um tanto bobalhões às mulheres; as atitudes masculinas imaturas; o álcool como catalisador das emoções contidas etc. Assim, podemos dizer que, uma vez que nos acostumamos e gostamos da experiência que é ver um filme de Sang-soo, ver esse tipo de repetição é muito agradável. Mal comparando, é como entrar em uma sessão de um Woody Allen e já sorrir ao ver os créditos em tela preta de preferência com um jazz tocando.

E até há quem diga que Sang-soo faz sempre os mesmos filmes, mas isso não é bem verdade. Ele pode se repetir e trazer a ideia da repetição como algo genial, inclusive, através de obras como A VISITANTE FRANCESA (2012) e CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015), que trazem as repetições como possíveis tentativas de acertar, diante dos tantos erros que se comete na vida. No entanto, cada obra sua carrega algo de novidade.

Em O HOTEL ÀS MARGENS DO RIO, o personagem mais amargurado é um poeta idoso que está morando no tal hotel do título. Ele tem tido pesadelos e marca encontro com os dois filhos. Ele não teve um contato maior com esses filhos depois da separação. E isso o perturba tanto quanto deixa nos filhos um sentimento de rejeição profundo, que só se torna mais evidente quando os três estão em uma mesa de um restaurante já bastante ébrios, prontos para verbalizar aquilo que tanto lhes incomoda. Outro detalhe curioso é o quanto este senhor tem pensado na morte, e o quanto ele imagina que ela está próxima de si.

Apesar do tema espinhoso e de ser um dos trabalhos mais melancólicos de Sang-soo, há ainda algum tipo de leveza própria do cineasta que faz com que as dores dos personagens ganhem certo distanciamento, para o bem e para o mal. No caso da personagem de Kim Min-hee, por exemplo, não sabemos ao certo o que aconteceu para que ela esteja de coração partido. O filme acaba por trazer mais presente o drama da família do poeta e seus filhos do que das duas amigas, gerando um certo desequilíbrio. Pode até ter sido proposital, mas acaba por comprometer um pouco a ligação personagem-espectador.

Se bem que é sempre bom levar em consideração o grau de sintonia com a obra. Se isso já é algo que deve ser considerado em qualquer obra, talvez em Hong Sang-soo seja um fator determinante para que a poesia do filme alcance quem o está vendo.

+ TRÊS FILMES DE HONG SANG-SOO

CONTO DE CINEMA (Geuk Jang Jeon)

Em comparação com os trabalhos mais recentes de Sang-soo, este CONTO DE CINEMA parece até um tanto amador. Mas estão lá o estilo e as obsessões do diretor, presentes em quase todas as obras seguintes. A figura do homem patético e inseguro e também a figura do diretor de cinema, os personagens buscando a saída da infelicidade no álcool, o zoom desconcertante etc. Confesso que o filme até me pareceu um pouco confuso, como se houvesse arestas a serem aparadas ainda. Ou então seria necessária uma revisão quase que imediata. As cenas de sexo são destaque, mas não por serem excitantes ou coisa assim, mas por também trazerem muito dessa sensação de desconforto que impregna os personagens e os filmes do diretor. Ano: 2005.

O FILME DE OKI (Ok-hui-ui Yeonghwa)

Uma diferença e tanto um Sang-soo de 2010. Aqui temos uma espécie de filme em episódios, mas com os personagens interpretando os mesmos papéis, em situações e pontos de vista distintos. O ideal é rever o filme, já que demorei um pouco para perceber a brincadeira do diretor. Embora seja um filme que mostre as angústias de seus personagens (como praticamente todos os outros), ainda não seria envolvido pela melancolia das obras a partir de 2015. O quarto e último segmento é um primor, tratando a repetição de maneira muito inventiva.

A MULHER É O FUTURO DO HOMEM (Yeojaneun Namjaui Miraeda)

Mais um filme da fase inicial de Sang-soo que talvez fosse beneficiado com uma revisão. Senti dificuldade em entrar na narrativa e de me aproximar dos personagens. Fica a impressão de algo etéreo (o fato de algumas cenas serem sonhos com marcação não exatamente definida ajuda isso) e com algum distanciamento da maturidade e da dimensão mais dramática das obras mais recentes do diretor. Ainda assim, é uma obra que traz muitas cenas que ficam gravadas na mente, especialmente as que envolvem sexo e violência. O modo como o diretor faz uma crítica às figuras masculinas é bem explícito e seriam uma marca em quase todos os seus outros filmes. Senão em todos. Ano: 2004.

quinta-feira, maio 28, 2020

BEM-VINDO A NOVA YORK (Welcome to New York)

Não tenho por hábito rever filmes com um intervalo de tempo relativamente curto. A primeira e última vez que vi BEM-VINDO A NOVA YORK (2014) foi no ano do lançamento mundial do filme, e, pelo que acabei de reler no que escrevi sobre a obra na época, gostei bastante. Na época, fiquei procurando compreender melhor aquilo que hoje pareceria um pouco mais fácil, já que tive a oportunidade, durante a quarentena, de ver e rever as obras de Abel Ferrara e ter um pouco mais de intimidade com suas obsessões. Então, acho até que não farei um texto melhor do que o que escrevi em 2014 (até por não estar me sentindo muito bem hoje), mas tentarei estabelecer elos de ligação entre o alto executivo viciado em sexo sr. Devereaux (Gérard Depardieu) e outros personagens saídos do universo do diretor.

A primeira semelhança que vemos, principalmente durante a primeira meia hora de filme, que corresponderia ao primeiro ato, é com o mau policial de VÍCIO FRENÉTICO (1992), só que muito menos consciente da culpa. O que há de comum entre os dois personagens é essa aproximação com os excessos. No caso de Devereaux, os excessos vêm de sua libido exacerbada. Como tem dinheiro, promove longas orgias com amigos e prostitutas em hotéis de luxo. Memorável a cena do milk shake feito com Cialis, sorvete e bebida alcoólica. Até lembra alguns filmes de Khouri, essa cena. Destaque também para a primeira cena de sexo no hotel com uma das prostitutas, acentuando o corpo gigante e rotundo de um Depardieu sessentão, que já teve seus momentos de galã no passado.

O ator não se importa de mostrar o corpo nu, gigante e frágil na cena em que precisa tirar a roupa para ser examinado por uma dupla de policiais, quando está preso. Mas isso já é o momento do segundo ato, que é o momento da prisão, acontecida após ter atacado uma camareira do hotel, forçando-a a fazer sexo oral. Com a ajuda da esposa (Jacqueline Bisset), ele tem chances de escapar da prisão por estupro.

O curioso de BEM-VINDO A NOVA YORK é que é muito menos um filme anti-estupro, em sintonia com os novos tempos, muito mais atentos aos direitos das mulheres agredidas e assediadas por homens perigosos, e mais uma reflexão sobre a compreensão ou incompreensão de seu personagem de seus próprios atos. Ao contrário da vampira estudante de filosofia de O VÍCIO (1995), o caminho dos excessos de Devereaux não o levou a uma compreensão de que algo deveria ser feito e, com isso, ir em busca de redenção/autodestruição. Devereaux talvez seja um dos vampiros mais complexos da obra ferrariana, já que pode ser tanto inconsciente de sua culpa, pelo menos no que se refere ao estupro, quanto parece ser consciente de sua maldade, especialmente quando fala diretamente para a câmera, quebrando a quarta parede.

O ataque que ele faz em nova tentativa de estupro a uma jornalista (Shanyn Leigh) é mais uma prova de que o monstro continua à solta, ao mesmo tempo que também vemos um flashback interessante, em que o personagem leva para a cama, consensualmente, uma jovem estudante de Direito, em uma cena tranquila e bonita, que traz equilíbrio para as ações de Devereaux, tornando-o, no fim, mais um escravo do desejo do que um agente do mal.

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O JOVEM AHMED (Le Jeune Ahmed)

Por mais que Jean-Pierre e Luc Dardenne tenham deixado de ser tão queridos pela crítica, diria que eles voltam aqui à boa forma com a história impressionante de um jovem muçulmano fanático que, uma vez tendo sofrido lavagem cerebral de um líder religioso local, um imã, que apresenta ao rapaz regras tão duras que ele é capaz de ver pecado em tudo. E, pior, é capaz de cometer atos terríveis em prol daquilo que ele acredita ser o certo. Os Dardennes contam sua história mais uma vez com a tradicional aproximação (ainda que nem tanto) da câmera no corpo do seu protagonista. Aqui somos chamados a acompanhar os seus atos, mas é impossível não julgá-lo (ou julgar aqueles que fizeram sua cabeça). Somos espectadores, não cúmplices. Isso faz um sentido e tanto para uma apreciação crítica da narrativa e do personagem. O filme foi vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes-2019.

O SEGREDO DE DAVI

Os maiores méritos deste filme são a beleza plástica e a interpretação do jovem Nicolas Prattes, como o jovem psicopata do título. O filme tem enganado muita gente com um visual que parece filme americano, com uma fotografia bem bonita e um jogo de luz e sombras bem cuidado. Só achei problemático no roteiro, que poderia ser mais caprichado, já que as ideias são boas. Mas é esperar pelo próximo trabalho de Diego Freitas. Pode ser muito bom. Ano: 2018.

ESCOBAR - A TRAIÇÃO (Loving Pablo)

Depois de NARCOS fica difícil a gente aturar um filme falado em inglês com sotaque. Ainda mais com dois feras como o Javier Bardem e a Penélope Cruz. E uma produção espanhola, ainda por cima. Isso que é querer agradar os americanos, hein. Além disso, o filme é um resumão mal feito da história fascinante e terrível de Pablo Escobar, ainda que focando mais na relação dele com a jornalista. Direção: Fernando León de Aranoa. Ano: 2017.

quarta-feira, maio 27, 2020

O ESTRIPADOR DE NOVA YORK (Lo Squartatore di New York / New York Ripper)

A leitura ontem de uma aventura excelente do gibi Júlia - Aventuras de uma Criminóloga (mais exatamente a história "Jerry Desapareceu") me trouxe uma vontade enorme de ver filmes policiais escritos e dirigidos por italianos. Foi quando eu vi meus boxes amarelos da coleção Giallo, da Versátil, dando sopa. Então, foi só escolher qual filme gostaria de ver. Apesar de ontem estar ainda mais inquieto do que o costume e ter tido muita dificuldade de dormir, optei por um filme curto (1h30). E por um filme de um diretor que admiro, mas cujo último título que vi foi há um bom tempo.

Lucio Fulci é daqueles cineastas que ainda hoje são menosprezados por parte de certa crítica mais tradicionalista e menos aberta a experiências extremas. O ESTRIPADOR DE NOVA YORK (1982) é um de seus filmes de que mais gostei. É uma espécie de giallo tardio, com influência forte dos slashers que estavam dominando o período, com uma pitada mais forte de sexo e com uma violência gráfica tão incômoda quanto bela. O que dizer da cena em que o assassino corta com a faca o mamilo de uma de suas vítimas? E a que atravessa um olho?

A exemplo de um giallo mais tradicional, por assim dizer, que vi no ano passado e que me deu muito prazer, O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano, o filme de Fulci também mostra um assassino que tem preferência em atacar diretamente o sexo da vítima. É a vagina o principal ponto do corpo das vítimas, sempre mulheres, que o serial killer prefere enfatizar em seus ataques, seja a faca, seja com uma garrafa quebrada. Mas o grande diferencial desse assassino é que ele tem uma voz de pato, como o Pato Donald. É assim que ele fala com as vítimas na hora dos ataques, é assim que ele se comunica por telefone com o detetive de polícia veterano vivido por Jack Hedley.

Fulci não tem muito interesse em desenvolver os personagens, nem mesmo o detetive, mas isso não chega a ser um problema para o filme. O interesse maior é mostrar as cenas dos ataques do assassino. E diferente de outros gialli, este aqui não traz o ponto de vista do vilão, através da câmera, mas da vítima mesmo. Vale destacar alguns personagens que surgem e que vão ganhando força na teia da trama. Primeiramente o psicólogo que ajuda o detetive a desvendar o crime. Depois, há um casal muito suspeito - em alguns momentos passamos a achar que um dos dois é o assassino, sendo que a jovem mulher foi uma sobrevivente de um ataque. Há também uma mulher que vai à procura de sexo em inferninhos e botecos de Nova York; e, finalmente, o principal suspeito, o homem de três dedos. A narrativa aos poucos vai ficando mais complexa e a lista de suspeitos vai aumentando.

O ESTRIPADOR DE NOVA YORK é desses filmes que prendem a atenção do início ao fim, longe de ser um convite a sair da poltrona, a não ser que o espectador seja muito sensível às cenas de violência, que são sim bem gráficas, mas é sempre bom lembrar que o trabalho de Fulci e de outros mestres italianos do horror tem uma preocupação muito forte com a beleza das imagens, com a fotografia e a direção de arte. E o vermelho forte do sangue que jorra na tela ajuda a tornar essas obras tão bonitas quanto quadros pós-modernos doentios.

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LOST GIRLS - OS CRIMES DE LONG ISLAND (Lost Girls)

Não fosse o destaque que o pessoal do Cinema na Varanda deu em um de seus episódios eu teria passado batido com este filme. Afinal, tenho os dois pés atrás com as produções da Netflix. Mas esse filme não é produção do serviço de streaming, pelo que entendi, mas um filme que passou em Sundance e que foi comprado para exibição na telinha. Por mais que tente ser uma obra diferente (e é, de certa forma), ao abordar a dor das mães das vítimas de um assassino serial à solta, e não nas investigações, o filme acaba não tendo força o suficiente para fazer com que aquele momento final, que é realmente muito bonito, seja um momento de catarse. Ainda assim, fiquei feliz quando vi a participação de Lola Kirke no elenco. É um papel pequeno, mas eu adoro essa menina. Se eu soubesse que ela estava no filme, já teria visto no dia que estreou. Direção: Liz Garbus. Ano: 2020.

O TORTURADOR

Senti dificuldade de entrar no espírito do filme, seu estilo galhofeiro, por mais que simpatize com o personagem do Otávio Augusto e suas frequentes brincadeiras com as canções de Roberto Carlos. Por mais que entendamos que é uma espécie de comédia, e também muito ousada em usar o tema da tortura tão abertamente em plena ditadura militar e ainda acrescentar uma cena de pegação gay, apesar disso tudo, seu senso de humor não me ganhou. Acho que a cena de que eu mais gosto é uma com Rejane Medeiros na cama com o Jece Valadão, que podia ser mais longa. E olha que eu adoro os dois filmaços que o Antônio Calmon fez antes deste: TERROR E ÊXTASE (1979) e EU MATEI LÚCIO FLÁVIO (1979). Ano: 1980.

NEVE NEGRA (Nieve Negra)

Como costumam dizer que o cinema argentino é muito bom em roteiros, acredito que este aqui é uma exceção. Falta uma construção melhor arquitetada da história e o filme acaba não se sustentando em outros aspectos. Nem o Darín fazendo cara de poucos amigos ajuda. Quem acaba se destacando é a bela Laia Costa. Deu até vontade de ver VICTORIA, só pra vê-la novamente. Direção: Martin Hodara. Ano: 2017.

segunda-feira, maio 25, 2020

JODOROWSKY'S DUNE

A leitura da biografia de David Lynch, Espaço para Sonhar, escrito a quatro mãos pelo próprio cineasta e por Kristine McKenna, me fez lembrar que eu ainda não tinha visto este documentário, que conta a história da produção do que é considerado por muitos como o melhor filme nunca feito, a adaptação de Duna, pelo cineasta, ator, quadrinista, romancista e bruxo chileno Alejandro Jodorowsky.

Já conhecia duas obras do diretor, justamente as mais aclamadas, EL TOPO (1970) e A MONTANHA SAGRADA (1973), respectivamente, seu segundo e seu terceiro longa. Foi graças à repercussão de A MONTANHA SAGRADA, aliás, que Jodorowsky foi recebeu do produtor francês Michel Seydoux carta branca para realizar o que quisesse. O diretor, então, diz que quer fazer Duna, a adaptação do celebrado romance de ficção científica de Frank Herbert. E ele falou isso sem sequer ter lido o romance, o que não deixa de ser curioso.

JODOROWSKY'S DUNE (2013), de Frank Pavich, conta a trajetória de pré-produção desse filme, que ganha muito com o entusiasmo do diretor em contar com prazer todo o processo. Há depoimentos de alguns cineastas mais jovens, como Nicolas Winding Refn e Richard Stanley, mas o mais importante é mesmo a fala de Jodorowsky e também daqueles que foram chamados para a produção. O diretor via aquela tarefa como uma grande missão religiosa e cada pessoa que ele convidava seria uma espécie de guerreiro espiritual.

Assim, é admirável que ele tenha conseguido tanta gente de peso para seu projeto, como o quadrinista Moebius, que fez todos os storyboards, o artista plástico H.R. Giger (que nunca tinha feito nada no cinema e ficaria famoso pelo visual da criatura em ALIEN, O 8º PASSAGEIRO), o então roteirista Dan O'Bannon (por Jodorowsky ter ficado empolgado com seu trabalho em DARK STAR, de John Carpenter), uma participação especial milionária do pintor surrealista Salvador Dalí, Orson Welles como um dos personagens, Mick Jagger, David Carradine, o desenhista Chris Foss, entre outros nomes de peso.

E não custa falar também de que Jodorowsky teve a coragem de dispensar o Pink Floyd para ser a banda responsável pela trilha sonora e também o supervisor de efeitos especiais de 2001 - UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, Douglas Trumbull. E lembremos que Pink Floyd era talvez a maior banda de rock daquele momento (1973) e 2001 era (ainda é, na verdade) o melhor exemplo do que se poderia fazer com a ficção científica no cinema. A ambição de Jodorowsky era superar o filme de Kubrick.

E é justamente essa ambição que me deixou um tanto incomodado ao ver toda essa preparação e convites para a realização do filme que o diretor queria que fosse o mais importante da história do cinema. O orçamento foi ficando cada vez mais gigante e foram procurar apoio em Hollywood. Nos Estados Unidos acharam tudo brilhante (tanto que muitas dos artistas e das ideias foram aproveitados em várias produções posteriores), mas tinha muitos pés atrás com o realizador. Sem falar que era uma produção muito complicada, cheia de referências esotéricas e as excentricidades características de Jodorowsky, o que afastou os executivos de Hollywood, que são geralmente bem pouco corajosos em projetos arriscados como esse. Jodorowsky sonhou alto demais, talvez. Ainda mais sem ter uma carreira longa e uma relação de proximidade com Hollywood, como era o caso de Kubrick, quando fez 2001.

É engraçada a cena em que ele conta do dia que foi ao cinema ver DUNA, de David Lynch, produzido por Dino De Laurentiis, e ficou feliz pelo fato de o filme ser uma droga. Foi um alívio para ele, mesmo ele gostando de Lynch e acreditar que o realizador era o cara certo para encarar a difícil missão de adaptar para o cinema o romance de Herbert. Ele atribui o fracasso como culpa dos produtores.

Enfim, está nos meus planos rever (talvez com certo sacrifício) o filme de Lynch, e aguardo com ansiedade a versão de Denis Villeneuve, um cineasta que eu muito admiro. Creio que ele finalmente conseguirá entregar um trabalho fantástico. Tomara que a pandemia tenha passado quando o novo DUNA estrear. Oremos.

+ TRÊS DOCUMENTÁRIOS

MARIELLE - O DOCUMENTÁRIO

Gosto muito de como o documentário se articula de maneira mais emotiva, centrando os dois primeiros episódios no impacto da morte na família e amigos e na figura em vida da vereadora assassinada. Os demais episódios se centram mais nas investigações. E até começam de forma empolgante, mas depois passam a adotar um estilo muito similar ao jornalismo do Fantástico, o que não é demérito, mas que diminui a obra formalmente falando. O que funciona muito bem e que é constantemente colado na edição são as cenas de mensagens no WhatsApp de Marielle com Monica Benicio, sua esposa. Há muita coisa inédita e muita coisa que eu não sabia, por não acompanhar ativamente as notícias, mas é um caso que torcemos que seja solucionado. Como o carro dos assassinos sumiu do radar das câmeras? E as maiores perguntas: quem mandou matar e por quê? Criadores: Caio Cavechini e Eliane Scardovelli. Ano: 2020.

O ESCÂNDALO CLOUZOT (Le Scandale Clouzot)

Curioso eu ter começado a conhecer a obra de Henri-Georges Clouzot a partir de dois documentários e não a partir de seus próprios filmes. Este doc para a televisão parece um bom extra de DVD, mas cai como uma luva para quem não conhece nada sobre o diretor. E para quem achava que Hitchcock era carrasco, precisa ver o que esse homem fazia no set de filmagens com seus atores. O filme dá uma geral nas principais obras do diretor. Eu fiquei particularmente curioso no filme que ele fez com a Bardot, A VERDADE. Muito interessante a questão do sadomasoquismo que era mostrado nos filmes e também na vida privada do diretor. Direção: Pierre-Henri Gibert. Ano: 2017.

DEMOCRACIA EM VERTIGEM

Uma das vantagens de se ter um filme como este lançado direto na Netflix é que há um público muito mais amplo do que se fosse lançado nos cinemas. Petra Costa adota um tom pessoal para contar a história recente do Brasil, trazendo fatos de sua vida e da vida de sua família para construir a narrativa, junto com a costura dos principais fatos, da eleição de Lula no início do século até a eleição de Bolsonaro, passando pelo horror que dá rever o processo de impeachment da Dilma e a tristeza intensa da prisão do maior personagem do filme e um dos mais importantes homens da história de nosso país. Ano: 2019.

domingo, maio 24, 2020

O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador)

Por esses dias, eu me desfiz de minha coleção de revistas SET. Eu tinha uma relação muito grande de amor por essa revista, que foi a minha principal referência de crítica cinematográfica nos meus primeiros anos de cinefilia. As primeiras 51 edições, as que têm um logotipo diferente das que se seguiriam, trazem, com exceção do primeiro número, uma seção maravilhosa chamada Filmoteca. Nela, críticos, cinéfilos, escritores, cineastas e artistas das mais diversas áreas são convidados para escrever sobre o seu filme favorito, ou sobre aquele que quisesse homenagear em um texto bem pessoal.

Talvez o texto que mais tenha me marcado tenha sido o de Guilherme Letsz, sobre O ANJO EXTERMINADOR (1962), de Luis Buñuel. No texto, Letsz fala sobre a dificuldade de encontrar companhia para ir ver filmes "de diretores complicados" como esse, sobre a chuva que cai ao sair de casa, sobre como a chuva é "tempo propício para sonhar", sobre chegar adiantado ao cinema, sobre procurar um cartão-postal de um filme brasileiro para enviar a uma amiga que mora em Paris, sobre as pessoas desconhecidas mas de rosto conhecido que costuma ver na Cinemateca, sobre o fato de estarem sozinhos, mas ao mesmo tempo juntos para uma espécie de celebração a uma obra de destaque para a história do cinema. Enfim, o ideal é ler o texto.

Recentemente, durante a quarentena, O ANJO EXTERMINADOR voltou a ser um filme bastante discutido por causa da situação em que os personagens se encontram. Na trama, um grupo de burgueses se encontra em uma mansão para um jantar após um espetáculo teatral. Tudo transcorre como planejado. Depois da refeição há até alguém que se propõe a tocar uma música ao piano no salão, mas o curioso disso tudo é que os criados, tanto os que trabalham na cozinha quanto os que cuidam da limpeza da casa, vão embora, saem meio que desesperados daquele lugar, por algum motivo que nem eles sabem. Dos empregados, apenas o mordomo fica presente. E, por algum motivo, aquelas pessoas não conseguem deixar aquele lugar (o salão da casa), por mais que queiram.

Buñuel brinca tanto com o surrealismo (a sua praia) quanto a fazer críticas aos valores burgueses (sua diversão), já que essas pessoas vão cada vez mais entrando em estado de decadência, à medida que falta comida, água, o calor bate, não há como trocar de roupa, pessoas morrem e os corpos ficam entrando em estado de putrefação, brigas acontecem com frequência. Enquanto isso, do lado de fora, as pessoas ficam sem saber o que está acontecendo e também não conseguem entrar, por causa dessa força misteriosa. Passam-se dias, semanas, perde-se a conta dos dias, na verdade.

No livro Meu Último Suspiro, sua autobiografia, Buñuel conta que se arrepende de ter feito O ANJO EXTERMINADOR no México e não em Paris ou em Londres, cidades em que o luxo poderia ser muito melhor destacado, tanto na produção quanto na própria imagem das pessoas. Buñuel conta que até escolheu atores cujo físico não evocasse tanto assim o México, mas padeceu com a precariedade das toalhas de mesa e outros elementos que poderiam ser mais sofisticados.

Buñuel conta em seu livro algo que eu já havia percebido em pelo menos três de suas obras. A questão da impossibilidade. Em ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO (1977), o protagonista não consegue se aproximar para fazer sexo com a mulher amada - ela sempre o rejeita. Acontece algo muito parecido com o casal de A IDADE DO OURO (1930). Em O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA (1972), os personagens querem jantar e não conseguem; em ENSAIO DE UM CRIME (1955), um homem tenta matar e não consegue. Esses são os exemplos que o próprio diretor destaca, mas que imagina haver outros em sua filmografia. Por esses e outros motivos, Luis Buñuel estará sempre na minha lista de cineastas mais queridos.

Clique no LINK para ler o citado texto da revista SET. (Só não consegui colocar em modo vertical. Então, quem quiser ler, terá que salvar a imagem em seu computador. :/ )

+ TRÊS FILMES

INFERNINHO

Acho mais simpático e belo plasticamente do que exatamente bom, no sentido de me ganhar, me agradar. Ou seja, vejo muitas qualidades no filme, mas eu gostaria mesmo era de me envolver. Talvez o corpo cansado tenha prejudicado, não sei.. Detalhe: quase não via o filme em sua pré-estreia. Todos os ingressos para as duas salas estavam esgotados quando cheguei. Depois de procurar por ingresso sobrando, uma moça que eu não conhecia e percebeu a minha aflição (não é pra tanto, na verdade), conseguiu um para mim. O bom disso tudo foi ver o For Rainbow mais forte do que nunca, nessa era Bolsonaro. A resistência vai crescer ainda mais. Quanto mais se bate, mais há motivo para a luta. Direção: Guto Parente e Pedro Diógenes. Ano: 2018.

O BANQUETE

Gosto muito da primeira metade do filme e do modo como os personagens são apresentados e o humor ácido vai se mostrando mais forte. Pena que depois a diretora não saiba construir a tensão necessária. Ainda assim, é um belo trabalho, que merece a atenção e que é visto com boas risadas pelo público. Fora o elenco marcante e muito bom. Direção: Daniela Thomas. Ano: 2018.

O BARCO

É um filme que ainda estou tentando processar e entender, mas gosto muito de seu mistério, de como o mar e o som e as falas são apresentados. A sensação de extensão do tempo ainda permanece uma forte marca do cinema de Petrus Cariry, assim como a intenção de seguir a sua marca autoral, sem fazer concessões. O tom de fábula lembra romances do realismo mágico. Por mais que ter visto na tela gigante do São Luiz tenha sido uma experiência muito boa para aumentar a força das imagens, acredito que o filme se beneficiaria de uma sala menor, como a do Dragão, que traria uma maior facilidade de imersão. No Cine Ceará o povo fica num entra e sai que me incomoda. Ano: 2018.