quarta-feira, novembro 20, 2019

O IRLANDÊS (The Irishman)

Cineastas católicos costumam lidar com a culpa de maneira muito intensa. Alfred Hitchcock, Abel Ferrara, Clint Eastwood, Robert Bresson, Éric Rohmer são alguns desses exemplos. Basta citar seus nomes para lembrar da temática da culpa em alguns de seus trabalhos mais marcantes. Mas Martin Scorsese, que vem tratando do peso dos próprios atos de seus personagens, e possivelmente dele mesmo, como espelho desses alter-egos, conseguiu chegar a um desses exemplares definitivos em que o remorso acompanha também o espectador, até pela duração e pelo andamento mais pausado e de certa forma pesado de O IRLANDÊS (2019).

Se em alguns filmes de máfia do diretor havia alguns momentos de euforia e alegria dentro daquele universo em que havia também muitas mortes, Scorsese também era mestre em nos mostrar o fundo do poço, a descida aos infernos de seus personagens. Isso acontece tanto em OS BONS COMPANHEIROS (1990) quanto em O LOBO DE WALL STREET (2013), uma espécie de atualização dos filmes de máfia. Porém, o que temos em O IRLANDÊS é algo de natureza distinta, feita com carta branca da Netflix, que investiu os 159 milhões de dólares necessários para a realização deste projeto de mais de dez anos.

O projeto nasceu quando Robert De Niro leu o livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, e ficou fascinado. Comentou com Scorsese, que percebeu o entusiasmo do amigo. Isso aconteceu na época em que De Niro dirigiu O BOM PASTOR (2006). Importante lembrar que Scorsese não se reunia com De Niro e Joe Pesci desde CASSINO (1995). Logo, a expectativa de ver a reunião dos três e mais Al Pacino era grande.

O livro de Brandt conta a história de Frank Sheeran, um hitman da máfia que foi guarda-costas do líder sindical Jimmy Hoffa, e que contou sua própria versão dos fatos envolvendo a misteriosa morte do sindicalista, desaparecido em 30 de julho de 1975, e declarado morto 10 anos depois. É importante não saber detalhes disso para não estragar as surpresas e principalmente o impacto que o filme provoca.

Para viver os personagens na fase mais jovem da vida, agora que todos estão na casa dos 70 anos, Scorsese recorreu a uma tecnologia de rejuvenescimento digital. Até o momento, trata-se do mais bem-sucedido uso dessa tecnologia, embora algumas pessoas reclamem que os rostos ficam jovens, mas o corpo continua se movimentando como o de um velho. No entanto, uma vez que você aceita a brincadeira, é fácil ficar não apenas envolvido, mas também muito impressionado com a interpretação daquelas versões mais jovens de De Niro, Pesci e Pacino.

Especialmente De Niro e Pesci estão sublimes. E pensar que Pesci só aceitou sair da aposentadoria depois de muita insistência de Scorsese e De Niro... Aqui ele faz um papel distinto do que estamos acostumados a vê-lo fazer, geralmente muito elétrico. Em O IRLANDÊS ele é um chefão da máfia gentil, doce até. E com uma fala mais mansa e pacificadora, mesmo lidando com situações em que matar uma pessoa é só parte do jogo.

A narrativa atravessa seis décadas, e isso era um problema difícil de contornar para Scorsese. Ele acreditava que colocar atores jovens para interpretar De Niro e Pesci seria algo inconcebível, levando em consideração o fato de esses atores conhecerem a Nova York da época como a palma da mão e este fato ser importantíssimo para seu filme. E a utilização de próteses e maquiagem nem sempre funciona muito bem. O próprio De Niro fez isso em ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de Sergio Leone, quando teve que envelhecer na base da maquiagem.

Interessante notar que estamos em um ano em que dois cineastas veteranos estão trazendo filmes que denotam um estado de espírito mais reflexivo em torno da velhice. Por isso alguns críticos têm feito comparações de O IRLANDÊS com DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar. Ambos os filmes são trabalhos que lidam com o envelhecer, com a dor, com os arrependimentos, com as mudanças provocadas pelo tempo em seu modo de ver a vida.

Outra coisa que não deixa de ser impressionante no filme de Scorsese é o quanto o diretor tinha em mãos atores do porte de Harvey Keitel e Bobby Cannavale e se dá ao luxo de utilizá-los tão pouco. O mesmo poderia ser dito da personagem de Anna Paquim, que vive um das filhas de Frank Sheeran, mas sua interpretação com uma ausência de falas bem explícita é compensada com o olhar e com uma espécie de confronto que ela faz com o pai. Aquilo é forte o suficiente para magoar o coração de um homem velho cheio de pesos do passado nos ombros.

Um peso que o personagem leva como uma cruz. Velhinho, ele precisa de muletas, cai em uma cena. O filme mostra sua decadência física, seu desaparecimento. Como se ele precisasse daquela trajetória toda para que compensasse, de algum modo, o mal que fez no passado. Saímos do cinema diferentes de quando entramos. E não apenas por termos acabado de ver uma obra-prima.

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ALMA EM SOMBRAS (The Clay Pigeon)

Um dos primeiros longas de Richard Fleischer foi um film noir curtinho, de 63 minutos, e bem movimentado. Conta a história de um ex-soldado da marinha que acorda de um coma desmemoriado e descobre que está prestes a ir à corte marcial por ter matado um colega. Ele foge do hospital em busca de provar a própria inocência e acaba encontrando uma série de obstáculos. Interessante que há várias cenas diurnas. A mais movimentada, a da perseguição dos capangas ao protagonista acontece à luz do dia, o que foge um pouco ao que geralmente se vê nos filmes desse período. Ano: 1949.

AMOR ATÉ AS CINZAS (Jiang Hu Er Nü)

Provavelmente é o filme que menos gostei do Jia Zhangke, mas ainda assim é admirável em muitos aspectos. Gosto especialmente quando ele foca na solidão da personagem feminina, e menos quando está em cena a sua contraparte. É sempre bom viajar no tempo e espaço para uma cultura tão diferente com a chinesa e é assim que nos sentimos a maior parte do tempo, embora eu ache que tenha faltado mais força na maneira como nós nos importamos com os personagens.

MONSIEUR & MADAME ADELMAN

Gosto muito da primeira metade do filme, quando os personagens estão jovens. A coisa vai ficando meio chata com a velhice. Se a intenção for mostrar que a velhice é chata para um casal, deu certo. Mas não creio que foi isso. Adorei o sorriso lindo de Doria Tillier. Na trama, no funeral do marido, após uma união de 45 anos, a esposa passa a contar a um jornalista a história de sua relação com o renomado escritor que foi seu marido incluindo segredos bastante íntimos e capazes de destruir a memória do morto. Direção: Nicolas Beldos. Ano: 2017.

quarta-feira, novembro 13, 2019

TÓKIO EM DECADÊNCIA (Topâzu)

Na década de 1990, no auge dos meus twenties, a minha sede por filmes eróticos, com temas abordando a sexualidade e certas fantasias sexuais era bem forte. É fácil entender pela idade, com os hormônios transbordando, mas sei que esse tipo de interesse em erotismo/pornografia não é algo comum a todos. Pra mim continua sendo, aliás, ainda que de maneira um pouco mais suave.

Embora não seja uma novidade da década em si o erotismo no cinema (sempre existiu, em menor ou maior grau, dependendo da censura e da cultura de cada país), podemos dizer que INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, foi um divisor de águas e trouxe uma chuva de softcores nas locadoras, no cinema e na programação das TVs.

TÓKIO EM DECADÊNCIA (1992), mesmo sendo do mesmo ano do filme estrelado por Sharon Stone, chegou ao Brasil apenas três anos depois. Não lembro se chegou a passar em alguma sala de cinema na cidade – talvez não – e o vi pela primeira vez em VHS. Como se trata de um filme japonês, já se espera algo um pouco mais bizarro e incomum de nossos irmãos nipônicos.

Abordando o universo S&M, o filme de Ryû Murakami, romancista autor de AUDIÇÃO (1999), de Takashi Miike, foi adaptado da obra do próprio Murakami. Pelo que eu li pela internet ele adaptou cinco histórias e a transformou na narrativa de Ai, uma jovem pura e inocente, vivida por Miho Nikaido, uma atriz que fez eu me lembrar de uma personagem de um filme recente de Kiyoshi Kurosawa, O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO.

A cena que minha memória tratou de tornar mais forte é uma das primeiras. Ai é contratada por um gângster da Yakuza para satisfazer os seus desejos sádicos. Ela deve ficar na janela de um grande edifício seminua, dançando sensualmente, se contorcendo, até que aquela situação de humilhação se torne tão excitante que ela fique bem molhada. E passam-se horas, a noite chega, e aquela pobre menina ficou de fato muito excitada. O gângster a apalpa para verificar.

Como fantasia erótica S&M, achei isso fabuloso. E nem foi a única coisa que Ai fez durante aquele período de prestação de serviços com esse homem. Mais situações aparecerão durante a longa noite, principalmente quando chega a esposa do sujeito. Mas foi aquela cena da janela que me pegou que não saiu da minha memória e me fez querer ver o filme de novo, desta vez em uma ótima cópia.

E uma coisa que eu reparei nesta revisão é que o filme ganha ainda mais força no aspecto humano, no quanto a obra aprofunda os dramas existenciais de Ai, sua vontade de encontrar um grande amor, mesmo tendo que trabalhar para esse tipo de cliente. Se o filme fosse apenas uma sucessão de cenas excitantes e exploratórias já seria muito bom. Consegue transcender esse aspecto, com suas cenas mais longas e contemplativas.

A primeira cena, da injeção, passa uma sensação de impotência, de uma impossibilidade de sair do jogo, uma vez entrando e já dá o tom de algo sombrio. E também vale destacar a cena da dominatrix humilhando o seu cliente, que age feito um cachorrinho e é obrigado a beber urina. Não é bem obrigado, na verdade. Ele estava curtindo aquilo, foi para isso que ele contratou os serviços dessa outra moça, que enricou com esse negócio. Por tabela, o filme também acaba falando do vazio existencial desses homens, sejam eles sádicos ou masoquistas. E o Japão talvez seja um misto de sociedade doente, mas ao mesmo tempo em que tem conseguido se libertar de certos tabus através da arte (cinema, mangás, literatura etc.).

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LÁMEN SHOP (Ramen Teh)

Que filme bonito, hein! Além de tratar da comida de maneira quase espiritual (como é comum de ver em algumas obras japonesas), tem toda uma questão familiar que acaba falando mais forte e traz muita emoção. Fui ver o filme achando apenas ser ok e acabei me comovendo bastante. Há uma questão política envolvendo a relação Japão/Singapura também e que pode passar batido por quem não conhece nada dos países. Mas o forte é mesmo a relação familiar e a questão da comida. Por mais filmes do Eric Khoo no circuito! Ano: 2018.

AFTER

É melhor do que eu esperava. Muito por causa da atriz, uma graça chamada Josephine Langford. Ela lembra tanto a Sarah Michelle Gellar quanto uma versão teen de Cybill Shepherd. E por isso muito do interesse do filme jaz em sua personagem e no modo como ela vê a vida como algo muito excitante, já que ainda é virgem e está bem apaixonada pelo rapaz que conhece na faculdade. Não há cenas de nudez, mas as cenas de amor/sexo são bem sensuais e bonitas. Interessante ver Peter Gallagher, que eu conheci em SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, fazendo um papel pequeno em um filme como esse, que lembra tanto CREPÚSCULO quanto CINQUENTA TONS DE CINZA em diversos aspectos. Direção: Jenny Gage. Ano: 2019.

RAINHA DE COPAS (Dronningen)

É um filme interessante para causar reflexões sobre o caso apresentado: mulher passa a fazer sexo com o enteado de 17 anos. Confesso que fiquei sem entender se o filme é moralista, ou se pensar que é moralista já denota alguém com problema. De todo modo, é um drama tenso e envolvente, com uma ótima atriz dinamarquesa fazendo um papel forte em uma história controversa, com direito a uma cena de sexo bastante ousada (ainda que curta) para os dias de hoje. Direção: May el-Toukhy. Ano: 2019.

segunda-feira, novembro 11, 2019

IMPÉRIO DO CRIME (The Big Combo)

Recentemente fiz uma farra de compras com os descontos nos boxes da Versátil na Livraria Cultura. Acabei comprando cinco caixas da série Filme Noir, talvez a que apresente mais títulos. O filme que escolhi para inaugurar os boxes foi este O IMPÉRIO DO CRIME (1955), de Joseph H. Lewis, que já estava nos meus planos de ver um tempo atrás, mas por alguns motivos que nem me lembro mais, acabei deixando para outro dia.

Uma das coisas que me encantam no gênero é o quanto aquele universo parece irreal, mas muito representativo da realidade. As ruas e as casas mal iluminadas, os tons um tanto acima dos diálogos, o fato de termos personagens que borram a fronteira entre o bem e o mal, como o charmoso vilão, vivido por Richard Conte, ou sua namorada, a loira platinada vivida por Jean Wallace, que não resiste à lascívia do amante, mesmo sabendo que ele é um gângster. E há a figura do herói capaz de peitar o chefão, vivido por Cornel Wilde. Ele é o policial obcecado em prender o mais poderoso gângster da cidade.

Em entrevista a Peter Bogdanovich, o diretor Joseph H. Lewis afirmou que gosta do filme, embora não tanto quanto de MORTALMENTE PERIGOSA (1950). E de fato concordo com ele. Mas IMPÉRIO DO CRIME não ganhou título de clássico por acaso. Ele foi o primeiro filme americano a "mostrar" uma cena de sexo oral (para desespero de Cornel Wilde, marido de Jean Wallace) e foi muito inventivo, para dizer o mínimo, na hora de mostrar a morte de um dos bandidos. E o que dizer da cena da tortura?

O filme também brinca muito com o roteiro intrincado, envolvendo uma mulher misteriosa (só o seu nome é inicialmente citado), suspeitas fortes de assassinato que serviriam de prova para finalmente incriminar o Mr. Brown (Conte), um capitão de um navio que tem algo a esconder, entre outras coisas que vão surgindo, como se luzes fossem sendo acendidas na escuridão. Mais ou menos como faz a personagem de Jean Wallace, apontando um dos faróis de um carro para o grande vilão.

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O ASSASSINO MORA NO 21 (L'Assassin Habite... au 21)

Primeiro filme de Henri-Georges Clouzot, feito durante a ocupação alemã por uma empresa dos nazistas. A fotografia lembra um bocado o expressionismo alemão e se não fosse tão exagerado na quantidade de diálogos seria um filme melhor, com mais tempo para respirar. Ainda assim, funciona em muitos aspectos, principalmente no quesito humor. É uma espécie de whodunit em que um detetive de polícia tenta descobrir quem é o assassino serial dentro de uma pensão cheia de tipos exóticos. Ano: 1942.

TARTUFO (Tartüff)

Não é todo dia que se tem a chance de ver um F.W. Murnau no cinema. O Cine São Luiz está com um projeto de filmes mudos. Vi que são exibições em DVD, mas a qualidade de projeção não deixa nada a desejar. Ainda mais para filmes em preto e branco dessa época. E é impressionante como TARTUFO se mantém atual nesses dias de hoje, em que impera a hipocrisia e a intenção de ganhar dinheiro com a ingenuidade e a fé dos outros. O filme é bem compacto, curto, ainda mais que carrega uma estrutura de filme dentro do filme, mas funciona que é uma beleza. É o menos inspirado dentro os trabalhos do genial diretor que eu vi até o momento, mas ainda assim é uma beleza. Depois deste filme, ele faria FAUSTO (1926) e depois sua obra-prima máxima, AURORA (1927). Ano: 1925.

ELEGIA DE OSAKA (Naniwa Erejî)

Dizem que foi a primeira obra de mestre de Kenji Mizoguchi. Não sei se é verdade. Há tantas outras feitas anteriores a esta. De todo modo, além de mais uma história sobre a mulher sofrendo em um mundo injusto e preconceituoso, é também um filme que tem algo de inventivo no campo formal, como as cenas que mostram a ação do lado de fora da casa. Ainda assim, dos Mizoguchis que eu vi até agora foi o menos brilhante. Ano: 1936.

domingo, novembro 03, 2019

SEGREDOS OFICIAIS (Official Secrets)

Uma beleza este thriller político na tradição dos melhores produzidos pela Nova Hollywood nos anos 70, mas com aquele toque de maior realismo das produções britânicas. Em SEGREDOS OFICIAIS (2019), temos o caso real de uma jovem mulher, Katharine Gun, vivida com brilhantismo por Keira Knightley, que trabalhou em uma agência de inteligência da Inglaterra e que obteve um memorando bombástico que mostrava uma tentativa dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido de pressionar demais países a aderir à guerra contra o Iraque em 2003, tendo como principal desculpa a existência das famosas armas de destruição.

O filme é narrado com uma maestria impressionante, ainda que de maneira bem clássica. Talvez o maior mérito seja do roteiro do que da direção (o diretor Gavin Hood é um dos roteiristas), que consegue amarrar tão bem todos os personagens, que são apresentados nos momentos certos e a trama se costura de uma forma envolvente.

É interessante como certos filmes, mesmo tratando de eventos ocorridos com uma distância temporal relativamente grande, ainda fala ao momento atual. Afinal, estamos vivendo um momento em que vazamentos de informações estão cada vez mais nas manchetes dos jornais. Na Inglaterra, pelo que o filme mostra, o sistema é muito mais seguro e opressivo do que nos Estados Unidos, havendo, possivelmente por isso, muito menos casos de pessoas que têm a coragem de vazar informações.

SEGREDOS OFICIAIS não mostra Gun como uma heroína, mas como uma pessoa comum que sente a necessidade de impedir uma guerra (infelizmente os Estados Unidos iniciam o ataque, mesmo sem o apoio da ONU) e que tem sua vida virada de cabeça para baixo. Seu marido, inclusive, por ser imigrante, corre o risco de ser deportado, e ela corre o perigo de ser presa.

O enredo vai sendo tecido com cuidado e esmero. Após a apresentação da personagem de Keira Knightley e as ações fundamentais para que o memorando ganhe o mundo, somos apresentados aos jornalistas do The Observer, principalmente àquele que escreveria a história, Martin Bright (Matt Smith). Depois entra em cena o advogado Ben Emmerson, vivido por Ralph Fiennes, que será responsável pela defesa da jovem.

O excelente trabalho dos atores e o modo como o filme lida de forma realista o mundo da redação dos jornais e da mídia e todo o drama de ordem kafkiana de Gun, tudo isso contribui para que SEGREDOS OFICIAIS não fique atrás de obras como SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy; CONSPIRAÇÃO E PODER, de James Vanderbilt, ou THE POST - A GUERRA SECRETA, de Steven Spielberg. E para quem não conhece a história real de Katharine Gun, melhor não ler nada, pois o final é surpreendente.

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DOWNTON ABBEY

Pena não ter visto a série para ter podido aproveitar melhor este filme. Não que não dê para entender, mas o segredo, percebe-se, está nas entrelinhas. E há uma vasta quantidade de personagens. Ao menos a trama envolvendo a chegada do rei e da rainha à mansão é divertida, ajuda a manter a agitação pelo lugar e a trazer sentimentos contraditórios: para muitos, há a nostalgia de uma Inglaterra aristocrática e extremamente elitista; para outros a imagem de um bando de pessoas que se fartam da miséria humana para viverem no luxo. Não que isso seja mostrado, mas achei difícil não pensar. Direção: Michael Engler. Ano: 2019.

GUERRA FRIA (Zimna Wojna)

Mais um belo filme de Pawel Pawlikowski. Depois de IDA (2013), a gente fica um pouco mais familiarizado com seu estilo visual, mas não exatamente preparado para tanta beleza nas imagens. O que é isso, meu Deus? Não estou conseguindo me lembrar de outro filme em preto e branco tão bonito visualmente. Quanto à parte dramática, queria ter me apaixonado pela personagem feminina tanto quanto o protagonista. Um pouco menos de frieza ajudaria a nos aproximar. Mas é tudo muito bom e de dar gosto. O céu mais uma vez é destaque. Ano: 2018.

A FESTA (The Party)

O elenco em si já chama a atenção. Onde podemos ver um baita elenco desses em um filme pequeno? E por mais que a diretora Sally Potter não tenha conseguido ser engraçada em cada momento, ela consegue em vários momentos. E todo mundo ali parece estar se divertindo muito. Um barato o personagem do Bruno Ganz. Já a Patricia Clarkson parece estar fazendo o mesmo papel da minissérie SHARP OBJECTS, só que com mais senso de humor (negro). Ano: 2017.

segunda-feira, outubro 28, 2019

O REI DA COMÉDIA (The King of Comedy)

Uma das coisas que têm me deixado triste nos últimos anos é o fato de eu não poder mais ler livros velhos. A laringite alérgica tem incomodado bastante e basta eu pegar um livro empoeirado ou com qualquer coisa que faça minha garganta formigar que eu já vejo que aquilo é material para eu manter distância. Para quem tem uma mini-biblioteca com livros de cinema e quadrinhos, entre outros gêneros (romances, poesia, livros sobre música, espiritualidade etc.), isso é motivo para algum desânimo.

Por isso estava demorando para ir lá no "quarto dos livros" buscar o meu livro de entrevistas do Martin Scorsese, por Richard Schickel, a propósito de ter assistido a O REI DA COMÉDIA (1982) recentemente, muito por culpa da turma do Cinema na Varanda, mas também, por tabela, pelo efeito CORINGA. E para poder ler com tranquilidade as páginas em que o diretor trata do filme eu as fotografei. Que bom que ao menos os dias de hoje oferecem algum tipo de compensação: certas facilidades que um smartphone pode trazer, por exemplo.

Quanto à entrevista, o que me incomodou foi que o aspecto desagradável que o filme passa em nos colocar no lugar do personagem de Robert De Niro também se apresenta em toda a entrevista do Scorsese. É como se ele tivesse guardado todo o mal estar provocado por aquele período das filmagens e o materializasse para aquele momento. O fato de ele ter lembrado de um momento das gravações, quando Jerry Lewis o chama para conversar e lhe pedir para avisar quando não precisar dele naquela gravação, e como isso o deixou um pouco transtornado, tudo isso tem a ver com o que o filme passa.

O conceito de vergonha alheia talvez nunca tenha sido tão bem explorado por outro diretor. E se nos filmes de gângster do diretor isso aparece poderosamente (basta lembrar da cena do Joe Pesci sendo lembrado que foi engraxate em OS BONS COMPANHEIROS), aqui essa vergonha é elevada à enésima potência. Não basta apenas o sujeito chegar com uma fitinha para visitar o seu ídolo e ser reconhecido como ótimo comediante a ponto de ser apresentado na televisão; é preciso que ele seja tão inconveniente que passa a humilhação de ser jogado para fora pelos seguranças.

O personagem me lembrou muito um colega meu, da época do estágio no Banco do Nordeste. O sujeito, com o tempo, foi cada vez mais trazendo delírios sobre ter tido contado com tal artista, ou diretor, ou produtor, que iria viajar para os Estados Unidos para fazer curso de cinema etc. Um dia, encontrei-o na rua e ele falou que tinha acabado de tomar um café com a Norah Jones. É o tipo de coisa que me deixa bem perturbado, já que todos nós temos sonhos e temos frustrações, mas há pessoas que não conseguem lidar com a realidade. Talvez ela seja dura demais para elas.

No caso de Rupert Pupkin, o personagem de De Niro, ele nem se mostra engraçado em momento algum. A montagem do filme também não oferece nenhum momento que justifique o fato de ele ser minimamente engraçado ou inteligente (a inteligência e o humor andam lado a lado). Talvez apenas quando ele não se dá conta de sua doença, ao conversar com fotos em tamanho grande de Liza Minelli e Jerry Langford (o personagem de Jerry Lewis). Mas talvez nem seja realmente engraçado, apenas patético.

No mais, impressionante ver o filme e notar o tanto de citações e referências explícitas usadas por Todd Phillips para compor o seu CORINGA. Ou seja, o que Phillips fez foi uma nova versão de O REI DA COMÉDIA, ainda que menos brilhante e mais explícito na violência - o filme de Scorsese, por sua vez, eu tinha a má recordação de que era mais tenso na cena do sequestro.

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VICE

Acabei gostando mais do que de A GRANDE APOSTA, talvez por já saber o que me esperava. E também por tratar de um assunto mais importante, no sentido de ter uma repercussão maior no mundo como um todo. E também por mostrar os bastidores do jogo de poder nas últimas décadas. Gosto da primeira metade do filme e acho que ele perde a força quando se aproxima do final. A gente fica um pouco esgotado do ritmo, aborrecido um pouco. E às vezes o diretor parece querer só mostrar que é inteligente ou engraçado. Se bem que eu até que gostei de algumas brincadeiras. Então tá valendo. Direção: Adam McKay. Ano: 2018.

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don't Worry, He Won't Get Far on Foot)

Gosto do filme, mas não sei por que Gus Van Sant optou por uma cinebiografia tão convencional. Por outro lado, a entrega emocional que ele pretende fazer do personagem vivido por Joaquin Phoenix é muito bonita. Não há o menor pudor em lidar com seus problemas, seus traumas, etc. Jonah Hill está quase tão bom quanto Phoenix aqui. E Rooney Mara está mais uma vez apaixonante. Ano: 2018.

DENTE CANINO (Kynodontas)

Depois de apreciar tanto os últimos filmes de Yorgos Lanthimos, é natural querer conhecer um pouco de sua obra pregressa. Acabei não entrando muito no clima deste DENTE CANINO, mas é um filme coerente com o que se veria depois. O diretor gosta de brincar com o patético e de mostrar histórias que lidam com regras bem bizarras. Ano: 2009.

domingo, outubro 27, 2019

QUATRO SÉRIES

Em outras circunstâncias eu teria facilmente dedicado um tempo para escrever textos maiores para cada uma destas séries, mas nem é preciso mais dizer os motivos. Então, vamos de texto menores, mas tentando não ser tão sucinto assim. São duas séries da HBO e duas da Netflix. Com a Netflix eu costumo ser bem mais seletivo, já que eles lançam muito lixo, mas de vez em quando temos obras que são ótimas e que merecem a nossa atenção até mais que as da HBO. Como tempo virou artigo de luxo e como eu sou mais consumidor de filmes do que de séries (pelo menos quero ser assim), as séries precisam ser bem escolhidas.

EUPHORIA - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Euphoria - The Complete First Season)

Que final foi esse dessa série, hein? Acabei me lembrando do final de NEON GENESIS EVANGELION. Tanto por ser sombrio quanto por ser diferente e cheio de simbolismos. Ainda tem o fato de nos confundir. Como fiquei bastante encantado com Jules, a personagem de Hunter Schafer, fui primeiro procurar saber mais sobre a atriz. Gostei, mas acabei entrando em um desses vídeos explicativos do final da série. Se eu tinha achado tudo muito estranho e menos atraente do que toda a temporada, essa teoria acabou fazendo com que a série ganhasse mais pontos. E Zendaya está ótima como a jovem viciada em drogas Rue. Gosto também de como ela narra as histórias dos outros jovens. E de como a série é capaz de criar um personagem tão odioso como o Nate (Jacob Elordi), representante comum de um tipo de homem homofóbico e que tem problemas com sua masculinidade, no caso, talvez um pouco herdado do pai. Trata-se de uma série importante também para entendermos um pouco mais essa nova geração, suas angústias e suas alegrias, embora a série foque mais nas angústias, nos infernos pessoais. Muito a fim de uma segunda temporada. Alguns momentos são dignos de lembrança: a cena de Rue com uma depressão tão imensa que não tem coragem de sair da cama para ir ao banheiro, segurando o xixi até ficar muito doente. Outra: Jules, ansiosa para descobrir o admirador secreto que tem lhe enviado mensagens pelo whatsapp, vai até lá se encontrar com ele. Outra: Rue totalmente desesperada para falar com a amiga depois que não consegue aguentar e lhe dá um beijo. Enfim, é uma série que só cresce no meu conceito. Dos oito episódios, cinco são dirigidos pelo criador, Sam Levinson. Ah, e quanto a Zendaya, se eu não havia gostado tanto dela como MJ nos filmes do Homem-Aranha, passei a amar esta menina extraordinária nesta série. Baita atriz.

MINDHUNTER - SEGUNDA TEMPORADA (Mindhunter - Season Two)

A segunda temporada mantém o bom nível da primeira, ainda que eu tenha sentido falta da atriz que interpretou a namorada de Holden (Jonathan Groff) na primeira (Hannah Gross). Simplesmente fazem de conta que a personagem nunca existiu, privando Holden de uma vida privada, ao contrário de seus parceiros Bill (Holt McCallany) e Wendy (Anna Torv). A pegada diferente desta nova temporada está menos nas entrevistas a assassinos seriais e mais no caso dos meninos desaparecidos em Atlanta, a história principal que os detetives do FBI terão que resolver, já que são eles os grandes especialistas no assunto. Em paralelo, há um caso envolvendo o filho pequeno de Bill e a inclusão de uma namorada para Wendy, que procura ser discreta na exposição de suas preferências sexuais. Ainda gosto bem mais da primeira, mas se essa série conseguir manter a constância, continuará sendo uma das melhores produções da Netflix. Quanto aos assassinos entrevistados, os que chamam a atenção nesta temporada são Charles Mason (vivido pelo mesmo ator que fez o personagem em ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD) e o Filho de Sam. Não destaco nenhuma cena em particular, mas todas as sequências tensas que se passam em Atlanta são ótimas.

BIG LITTLE LIES - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Big Little Lies - The Complete Second Season)

Pode até não ser tão boa quanto a primeira temporada, mas é nesta aqui que o amor que sentimos pelas personagens ganha força, se solidifica. Reese Witherspoon está maravilhosa, sua personagem ganha muito com uma situação dramática no lar e que acaba sendo um dos pontos altos da temporada. E aquilo que quase me fez chorar no final. E o que dizer do duelo de Celeste (Nicole Kidman) e Mary Louise (Meryl Streep)? Além de tenso e empolgante, traz um debate sério, sobre a agressão doméstica. A série aprofunda ainda mais o sentimento de sororidade que já se manifestava na primeira, já que aqui temos as cinco de Monterey, unidas por um segredo. Ainda achei que a personagem de Shailene Woodley ficou pequena e sem muita força em comparação com as demais. E Laura Dern é aquela força da natureza. Bom demais. Dos homens da série, como não são muitos, destaque, de longe, para o Ed (Adam Scott). Personagem que a gente respeita. Aguardemos uma possível terceira temporada. Difícil é juntar esse time de novo, hein? Haja grana e agendas que não conflitem. Momento de destaque: quando Ed descobre a traição de Madeline e as repercussões. Atriz de destaque: Meryl Streep como a odiosa sogra de Madeline, pronta para descobrir o que de fato aconteceu com o filho, morto em circunstâncias estranhas. No mais, David E. Kelley capricha nos textos.

BLACK MIRROR - QUINTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 5)

A menos inspirada das temporadas de BLACK MIRROR, esta quinta tem, inclusive, um segmento que eu acho difícil de comprar deste o começo, embora seja divertido: "Rachel, Jack and Ashley Too". Exageram no vilanismo da tia da cantora pop (vivida por Miley Cyrus) e não gosto da solução que elas encontram para resolver o problema da rebeldia da cantora. Afinal, para fabricar uma cantora pop basta uma equipe de compositores boa. O melhor episódio é "Smithereens", e nem é pela inventividade no que se refere ao uso da tecnologia como elo de ligação de todos os capítulos. O tal aplicativo viciante acaba sendo apenas um detalhe em uma trama de suspense e tensão normal, ainda que bem conduzida. Já a história "Striking Vipers" lida com a questão da realidade virtual, e traz uma boa reflexão sobre sexo dentro de um ambiente usado principalmente para jogar. Não deixa de ser divertido ver os personagens questionando sua heterossexualidade. Uma pena ter caído tanto de qualidade, em comparação com a temporada anterior, que, inclusive, contou com o dobro de episódios. Parece que Charlie Brooker não está mais conseguindo ter tantas ideias boas como antes. Mesmo assim, para quem nunca viu a série, não ligue para o efeito-modinha e veja principalmente as demais temporadas - as primeiras não tiveram nenhum dinheiro da Netflix envolvido.

quinta-feira, outubro 24, 2019

CORINGA (Joker)

O tempo vai passando, o corpo cansando devido à dura labuta e eu me peguei hoje lendo textos meus escritos para o blog em 2010. Era um tempo em que eu também reclamava da falta de tempo, de prazos para cumprir etc., mas tinha uma disciplina maior de escrever algo que justificasse a ida diária dos leitores ao espaço. Infelizmente, não é o que tem acontecido nos últimos anos por uma série de fatores. O maior deles, creio que seja o cansaço de estar dando aula durante dois turnos e o corpo ter reclamado bastante disso. Como estou também fazendo musculação, um dos outros motivos é o cansaço da academia, principalmente após um longo dia de trabalho.

Estou devendo meus dois tostões sobre um dos filmes mais badalados do ano. Confesso que me deu até um pouco de preguiça de escrever e mesmo refletir sobre, por mais que eu veja no filme várias qualidades. CORINGA (2019), de Todd Philips, chamou a atenção desde os primeiros trailers, mas, mais ainda, quando venceu o Leão de Ouro em Veneza. Afinal, não é todo dia que um filme de super-herói (super-vilão, no caso) ganha o prêmio máximo de um festival que tem o arthouse como produto principal.

Mas a verdade é que CORINGA não é um filme de super-herói como outro. Na verdade, Phillips poderia muito bem ter utilizado a imagem de qualquer palhaço que não o arquiinimigo do Batman para contar a sua história, derivada de O REI DA COMÉDIA. Aliás, só revendo o filme de Martin Scorsese que eu percebi o quanto CORINGA é devedor. É quase um remake ou uma reinvenção, inclusive com a participação especial de Robert De Niro, desta vez em um papel inverso, o papel de um comediante e apresentador de televisão famoso, e não o perseguidor maluco. Quem não reviu O REI DA COMÉDIA, veja. É impressionante a semelhança.

Mas CORINGA tem um ar mais trágico, é mais violento, e o sofrimento do protagonista, vivido com brilhantismo por Joaquin Phoenix, é até um pouco além da conta. Afinal, não basta sofrer bullying e ser rejeitado, ele também é espancado duas vezes no início do filme, em sequências que querem trazer o espectador para um sentimento de solidariedade, embora, nesse sentido, não seja bem-sucedido.

Afinal, por mais que possa haver uma identificação do público com o personagem, o que o filme parece querer é justificar os atos do personagem. Não necessariamente na primeira vez que ele mata, na cena no metrô, mas nas sequências mais próximas do final.

Por outro lado, a estranheza de certas cenas que parecem tentar trazer um pouco de glamour ou no mínimo dignidade para o personagem é um de seus maiores trunfos, e também o que mais deixa o espectador sem entender as motivações do realizador, como se o psicopata tivesse todo o direito de ser alçado a herói, com direito a canções e danças que remetem à velha Hollywood. A famosa cena da escada é um desses momentos bizarros.

Mas o que fica forte mesmo na memória do espectador é a risada de Arthur Fleck, uma risada que sai da dor e vem nos momentos mais inapropriados, como quando ele quer chorar e não consegue parar de rir. Isso acontece pelo menos umas três vezes em momentos bastante tensos do filme. Isso gera um desconforto impressionante. CORINGA também tem o mérito de trazer riso do público minutos após um momento de violência brutal, como na cena com o anão no apartamento. Enfim, é possível mesmo que CORINGA seja essa obra extraordinária que tantos críticos andam afirmando. O tempo dirá.

+ TRÊS FILMES

PROJETO GEMINI (Gemini Man)

Minha primeira experiência com high frame rate e em 3D. Muito interessante, mas acho que talvez a incompatibilidade com os novos aparelhos de projeção compliquem um pouco: às vezes gera má sincronia nos diálogos. Pelo menos foi o que aconteceu aqui, mesmo sendo numa sala ótima a que eu vi (uma XPlus da UCI). A trama é tão mais ou menos que imagina-se que ela tenha sido criada apenas depois da decisão de fazer um filme com a tal tecnologia e também de ter pensado os efeitos especiais de transposição de uma versão jovem do Will Smith. E ainda falham lá perto do final, com uns efeitos toscos. Mas gosto de um bocado de coisas do filme, desde os diálogos de filme de espionagem B, passando pela cena meio videogame com as motos, e os diálogos tortos do Smith com a Mary Elizabeth Winstead. Vale a ida ao cinema, especialmente para ver em 3D. É um dos poucos filmes recentes que valem a pena ver com essa tecnologia. Direção: Ang Lee. Ano: 2019.

SILVIO E OS OUTROS (Loro)

Acho tão difícil gostar de verdade dos filmes do Paolo Sorrentino. Mas não há como não negar uma marca, uma obsessão do diretor, o que não quer dizer que isso seja agradável. Ao menos é bom de ver pelo visual, pela beleza dos corpos femininos nus e seminus, pelo contraste entre velhice e juventude já bastante explorada em sua obra. Mas é também importante a gente ver pelo contexto político atual, de governantes de extrema direita. Perto de um tosco Bolsonaro, Silvio Berlusconi é de uma elegância fascinante. Fiquei na dúvida, aliás, se Sorrentino queria torná-lo patético. Toni Servillo, ótimo ator, acabou lhe dando até um pouco de honradez. Destaque também para uma outra ótima performance de Riccardo Scamarcio. Ano: 2018.

O GÊNIO E O LOUCO (The Professor and the Madman)

Eis um daqueles filmes acadêmicos chatos que só mesmo a presença de Mel Gibson e Sean Penn faz com que a gente fique até o fim da projeção. Há também o curioso caso da realização de um dicionário ambicioso, com o intento de congregar todas as palavras da língua inglesa. Gibson faz o estudioso de línguas escocês que lidera a difícil missão; Penn é o prisioneiro louco que o ajuda bastante, apesar das tantas dificuldades que sofre, inclusive pelo peso da culpa de uma morte. As cenas mais supostamente dramáticas são as que mais atestam a incapacidade do filme de funcionar. Direção: Farhad Safinia. Ano: 2019.