quinta-feira, novembro 08, 2018

VIDA DE SOLTEIRO (Singles)

Certos filmes precisam de um distanciamento temporal para que possam envelhecer bem. Como acontece com os discos. Na primeira vez que vi VIDA DE SOLTEIRO (1992), em VHS, não me empolguei muito. Mesmo já sendo um entusiasta da turma de Seattle, do grunge. Se bem que eu gostava bem mais do Nirvana do que de Alice in Chains, Pearl Jam e Soundgarden. E Nirvana não chega a tocar no filme. Em compensação, toca a linda “Drown”, dos Smashing Pumpkins, minha banda do coração número 1 daquela década de 90, que não é grunge, mas que havia alguma semelhança naquele primeiro momento.

Não que o longa-metragem que deu visibilidade a Cameron Crowe tenha se revelado uma pérola. Talvez o saudosismo,r em poder voltar àqueles tempos tenha me feito um pouco mais feliz nesses dias difíceis. Além do mais, as histórias de amor são boas. Ou ao menos uma delas é muito boa e envolvente, que é a história de Steve (Campbell Scott) e Linda (Kyra Sedgwick). A história deles dois lida muito com regras de namoro, sobre a maneira como o casal deve se comportar para ser mais feliz ou para fazer a relação dar certo. Por mais que as novas gerações posem de descomplicadas, isso ainda não mudou, gera identificação.

A outra história importante é a do casal Cliff (Matt Dillon) e Janet (Bridget Fonda). Ela é louca por ele, um vocalista de uma banda de garagem sem muito tutano. Ele infelizmente a esnoba, não lhe dá o devido valor. Aos poucos, ela percebe que precisa se desprender daquela relação. Dar amor sem receber em troca. E já até dá para imaginar o que acontece. Mas essa história, por mais que Bridget Fonda esteja apaixonante, acaba sendo pouco atraente, justamente por não ser aprofundada e também pelo fato de o personagem de Dillon ser um tanto bocó.

Uma coisa que nos deixa pensando ao ver agora à distância a carreira de Cameron Crowe é que é um cineasta que precisa muito de laços afetivos e da força da memória para que seus trabalhos sejam memoráveis. Como foi o caso de QUASE FAMOSOS (2000). Seus trabalhos que parecem ser de encomenda, por mais interessantes que sejam, como JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996) e VANILLA SKY (2001), carecem de brilho e de amor. E nem falemos de seus últimos trabalhos para não dar vexame.

+ TRÊS FILMES

DO JEITO QUE ELAS GOSTAM (Book Club)

Um filme que eu vi com certa preguiça. Mas o elenco é de respeito e dá pra dar uma relevada em algumas coisas, se a intenção for ver uma comédia leve com atrizes na chamada "melhor idade". Diane Keaton continua sendo muito querida. E é a trama dela a mais interessante das quatro. Direção: Bill Holderman. Ano: 2018.

ANNA KARENINA – A HISTÓRIA DE VRONSKY (Anna Karenina. Istoriya Vronskogo)

É ruim não ter visto uma adaptação boa do romance clássico vinda da Rússia. As que eu gostei foram justamente em língua inglesa: a versão com a Greta Garbo e a com a Keira Knightley. Esta parece aqueles filmes do Hallmark, com a diferença que é um pouco mais classuda. Era para a personagem da Anna ficar insuportável de chata mesmo? Estava nos planos? É o tipo de filme em que a gente sente sempre vontade de mudar os rumos dos acontecimentos, para ver se dá jeito. Direção: Karen Shakhnazarov. Ano: 2017.

JULIET, NUA E CRUA (Juliet, Naked)

Só em ter visto em Miami já foi marcante, mas já era um filme que eu queria muito ver, pelo casal de protagonistas. Acho que Ethan Hawke é o ator com quem eu melhor me identifico, por ter mais ou menos a minha idade e ter no currículo filmes muito especiais pra mim. Já a Rose Byrne, é por ser encantadora mesmo. Há muito humor e sensibilidade nesta comédia romântica simples. O diretor é conhecido de quem acompanhou a série GIRLS. Direção: Jesse Peretz. Ano: 2018.

quarta-feira, novembro 07, 2018

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting of Hill House)

Talvez o cineasta especializado no gênero horror mais brilhante da nova geração, levando em consideração a quantidade e a qualidade de seus trabalhos, Mike Flanagan encontra na minissérie (ou seria mesmo uma série?) A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018) o seu ponto alto, por mais que encontremos no desenvolvimento da narrativa, principalmente em sua conclusão, uma ou outra irregularidade. Mas é muito pouco mesmo diante de tanta segurança e tanta sensibilidade na condução da obra.

O traço de autoralidade de Flanagan se apresenta de maneira explícita em seu interesse por questões familiares, já presentes em filmes como O ESPELHO (2013), O SONO DA MORTE (2016) e JOGO PERIGOSO (2017), também uma produção da Netflix e talvez seu trabalho menos inspirado, mas, ainda assim, uma obra que, mesmo sabendo lidar com o medo muito bem, traz um debate sobre o abuso sexual infantil como principal elemento.

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL impressiona por convidar o espectador para ver uma história de terror, mas que o segura mesmo pelo excelente roteiro que privilegia os dramas dos personagens, que são apresentados e aprofundados um a um ao longo dos episódios. Além de ter o mérito de conseguir lidar com tantos personagens, há duas ou três linhas temporais sendo contadas. Há a história no passado, ligada à tragédia e ao mistério que puseram fim à vida da matriarca da família (Carla Gugino), e há a história no presente, com todos os personagens já adultos.

Tanto os atores crianças quanto os mais jovens são muito bons. Especial destaque para Kate Siegel, atriz presente em vários trabalhos de Flanagan. Ela interpreta Theo, que desde criança percebe que tem uma sensibilidade nas mãos, é capaz de saber o que aconteceu apenas tocando em algo. Por isso usa sempre luvas. Ela também prefere evitar abraços ou aproximações físicas, o que prejudica sua vida íntima e a torna muito solitária.

Não é apenas Kate Siegel que apareceu em filmes de Flanagan. Henry Thomas e Carla Gugino, que interpretam os pais da família, estiveram em JOGO PERIGOSO; e Lulu Wilson e Elizabeth Reaser, a Shirley nos estágios criança e adulto, estão ambas em OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016). Assim, o clima de familiaridade também se estende aos rostos dos atores e atrizes da série.

A trama, cheia de idas e vindas no tempo, mostra as consequências nas vidas de uma família depois de um evento sobrenatural ocorrido em uma casa mal assombrada, a Residência Hill do título. Assim, aos poucos vamos conhecendo os eventos a partir dos pontos de vista de cada um dos membros da família, até que o quebra-cabeças se solucione. Embora todos os episódios sejam muito bons, é possível destacar alguns dos mais impressionantes: “A Moça do Pescoço Torto”, que lida com o mistério da assombração que atormenta a caçula da família, Nell; e o episódio em que toda a família se reúne pouco antes do sepultamento da irmã, em uma noite tempestuosa. Esse possui um trabalho de câmera magnífico.

Se no ano passado, a melhor série da Netflix foi o thriller MINDHUNTER, neste ano o serviço de streaming surpreende com uma séria candidata a melhor série de horror já produzida.

+ TRÊS SÉRIES

BETTER CALL SAUL – QUARTA TEMPORADA (Better Call Saul – The Fourth Season)

E depois de três acertadas temporadas, a história de Jimmy McGill começa a desandar e a ficar desinteressante neste quarto ano. Uma pena. Ainda assim, a melhor coisa da série continua sendo Kim. As tramas envolvendo os traficantes começam a ficar chatas, mesmo tendo um personagem tão cativante quanto o Mike. Quem sabe se recupere na quinta, que parece será a última. Criadores: Vince Gilligan e Peter Gould.

OBJETOS CORTANTES (Sharp Objects)

Muito interessante o andamento lento de SHARP OBJECTS. Muitos chegaram a dizer que era uma série sobre nada. Mas creio que foi necessário. Esse tipo de andamento combina com o ar de falta de vontade de viver da personagem de Amy Adams, de volta à sua cidade natal para fazer uma matéria sobre um assassinato de uma garota. O final é surpreendente e mórbido o bastante pra gente respeitar a série. Sem falar que o trio de protagonistas, a mãe e as duas filhas, são excepcionais. Criador: Marti Noxon.

THE AFFAIR – QUARTA TEMPORADA (The Affair – The Fourth Season)

Depois de uma terceira temporada fraca, THE AFFAIR volta com força e trazendo desafios imensos para seus personagens. É tudo muito intenso: morte, gravidez, câncer terminal, reencontro familiar, crise matrimonial. Vida de adulto consegue ser pior do que só pagar boleto e controlar peso. Há uma grande surpresa que mexe muito com o espectador, mas não chega a ser tão traumático, como o que aconteceu com um dos protagonistas de A SETE PALMOS, por exemplo. Ainda assim, a série está mais caprichada nos textos e na sensibilidade com que lida com os personagens. Criadores: Hagai Levi e Sarah Treem.

quinta-feira, outubro 25, 2018

LEGALIZE JÁ - AMIZADE NUNCA MORRE


É raro uma cinebiografia acertar a mão. Muitas tentam dar conta da vida completa do artista ou da pessoa em questão e acabam por tornar tanto a narrativa quanto o personagem rasos. Não é o caso de LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE (2018), dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que faz um recorte destacando a amizade entre Marcelo D2 e Skunk, responsáveis pela criação de uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro dos anos 1990, o Planet Hemp.

Bastava estar vivo naquela década para lembrar o que o rolava nas rádios e nas televisões: era o boom do pagode e do axé. O surgimento de novas bandas da turma de 94 foi crucial para dar uma oxigenada no rock daquele período, ainda que as bandas da década anterior ainda estivessem ativas e interessantes. Mas era preciso sangue novo e essa nova turma em geral soube lidar com a transgressão de maneira muito mais efetiva do que a turma anterior. Colocar a legalização da maconha como principal bandeira por si só já foi um trunfo. Mas o Planet Hemp tinha muito a oferecer no que se refere à qualidade de sua música.

Uma coisa que muita gente não sabia, inclusive eu, era a importância de Skunk para a criação do conceito da banda. Marcelo não acreditava em si mesmo, embora as letras tenham partido dele desde o começo. Skunk, soropositivo, tentou lidar com a doença até onde deu. Na época, os coquetéis para combater o avanço do HIV eram muito desconfortáveis e tinham efeitos colaterais bem desagradáveis.

LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE ganhou este subtítulo justamente por ser mais um filme de amizade do que um filme sobre criação musical. As linhas paralelas das vidas de Marcelo e Skunk, com Marcelo trabalhando de camelô vendendo camiseta de banda de rock na rua, e Skunk morando com um amigo argentino dono de um bar e com uma espécie de mini-estúdio caseiro, se cruzam em um momento em que o rapa aparece para desmontar as bancas de alguns vendedores de rua.

Chega a ser tocante ver a aproximação e a ótima química entre os dois, com Skunk sempre sendo o cara que motiva Marcelo a acreditar em si, em pensar grande com a ideia de montar uma das melhores bandas de rock do país. O filme tem uma pegada leve, apesar de haver aspectos dramáticos muito fortes devido às situações nada fáceis da vida de ambos, com cenas bem divertidas, como a da igreja ou a do guitarrista chegando ao estúdio. E há também os momentos musicais, que são de arrepiar. O que dizer da primeira vez em que ouvimos “Phunky Bhuda”? O que é esse riff de guitarra, essa energia?

Vale destacar aqui as excelentes performances dos atores. Tanto Renato Góes como Marcelo quanto Ícaro Silva como Skunk estão ótimos. Principalmente o segundo, que exala um carisma impressionante. Quanto ao um dos diretores, Johnny Araújo já havia se mostrado muito interessado em rock desde seu debute, com O MAGNATA (2007), com roteiro de Chorão e participação do Marcelo Nova, e DEPOIS DE TUDO (2015), uma espécie de ode à canção “Soldados”, da Legião Urbana.

+ TRÊS FILMES

A FÁBRICA DE NADA

Coragem do pessoal do Dragão de exibir um filme tão pouco usual e com uma duração até que bem longa. A FÁBRICA DE NADA dialoga com o nosso ARÁBIA, sobre a questão do trabalho e do capitalismo, mas é um bocado mais teórico. Olhei para os relógios várias vezes, mas acho que meu mal era a fome, já que fiz dobradinha com o uruguaio UMA NOITE DE 12 ANOS . Direção: Pedro Pinho. Ano: 2017.

DJON ÁFRICA

Acho excelente a primeira metade: passa um prazer grande dentro do subgênero road movie, por mais que adote um registro realista e quase documental, com uso de não-atores. Acho que lá pelo meio dá impressão de que os diretores não sabiam o que fazer com o personagem, ou não souberam como terminar sua história. Eu teria que pegar umas entrevistas e saber mais sobre o processo criativo e os rumos do projeto para saber o que aconteceu. De todo modo, é quase uma passagem de ida e volta para Cabo Verde. E custa baratinho, hein. Direção: João Miller Guerra e Filipa Reis. Ano: 2018.

10 SEGUNDOS PARA VENCER

já fizeram tantos filmes de boxe que muitas vezes esta cinebiografia do Éder Jofre parece imitar ROCKY, UM LUTADOR sem querer disfarçar. Ou outro parecido. Só que as cenas de luta são chatas e as de preparação também. O que mais conta mesmo é a relação pai e filho e a problematização quanto à questão de ser um campeão, o significado disso. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.

quinta-feira, outubro 04, 2018

FERRUGEM

A carreira de Aly Muritiba, nascido no interior da Bahia, é bastante curiosa. Diretor interessado na temática do presídio, até por ter trabalhado como agente penitenciário por sete anos, chegou a ganhar visibilidade nos festivais com a maneira pungente com que tratava aquele ambiente e as pessoas que lá trabalhavam, cumpriam pena ou as que visitavam os presos, como no curta A FÁBRICA (2011). Mas a virada na carreira de Muritiba se deu mais recentemente, quando ele mudou o foco de suas atenções, a partir do thriller PARA MINHA AMADA MORTA (2015) e do horror TARÂNTULA (2015).

Se em PARA MINHA AMADA MORTA o conteúdo de um vídeo seria o catalisador do destino do protagonista – ele descobre que sua esposa falecida tinha um caso com outro homem através de uma fita VHS -, no novo FERRUGEM (2018) é também um vídeo o responsável pelo estrago que acontece na vida dos dois protagonistas.

O vídeo em questão foi filmado com câmera de celular e mostra um momento de intimidade entre dois adolescentes colegiais. A primeira parte do filme foca em Tati (Tiffany Dopke), que terminou um namoro recentemente e começa a conversar com um rapaz mais tímido e arredio, Renet (Giovanni de Lorenzi). O filme parece dar a impressão de que a partir da conversa que os dois têm vai surgir uma história de amor, mas a garota fica logo assustada quando seu aparelho celular desaparece.

No entanto, isso não é nada perto do que se transformará a sua vida no dia seguinte, ao saber que o vídeo íntimo presente no celular foi viralizado e ela passa a ser vista por toda a escola como vadia ou algo parecido. Ao abordar em especial esta parte do filme, Muritiba deixa bem claro o modo diferente com que o vídeo atinge os presentes: o ex-namorado de Tati leva tudo na brincadeira. Para ela, porém, o vídeo representa um pesadelo insuportável.

Acabei lembrando do que uma professora amiga minha falou sobre a necessidade de as mulheres se unirem para ajudar a desestruturar a sociedade machista instituída e principal motor para tragédias como a mostrada no filme. Afinal, na trama, as próprias garotas se afastam de Tati, a família é ausente em apoio e as famílias das colegas incentivam o afastamento de suas filhas dessa menina de comportamento impróprio. Hipocrisia e falta de empatia imperam.

A segunda parte do filme, mais longa, mais angustiante e mais contemplativa, lança seus holofotes para Renet, o jovem com quem Tati havia conversado na primeira parte. O papel do pai de Renet, vivido pelo excelente Enrique Diaz, ganha mais força nesta segunda parte, enfatizando o aspecto. A história dessa vez se passa em uma cidade litorânea, e há a importante visita da mãe até então ausente de Renet, que aparece grávida.

Essa questão da gravidez da mãe e o fato de ela ter abandonado os filhos para viver a sua vida não é algo visto com bons olhos por Renet. Ao contrário, o rapaz evita atender os telefonemas da mãe ou qualquer contato com ela. Eis mais um elemento importante para dar pano para a manga no que se refere à maior cobrança das mulheres na sociedade machista, que vive em um momento de crescimento com a onda conservadora, na contramão de uma linha mais progressista que vinha até então se formando.

FERRUGEM pode não ser o tipo de filme que agrada imediatamente durante a metragem, mas que aos poucos vai ganhando força na memória afetiva, tanto pela beleza da construção das cenas, quanto pelas discussões que levanta.

+ TRÊS FILMES

O NOME DA MORTE

Um filme herdeiro de um tipo de cinema que se fazia muito bem no Brasil dos anos 1970. Uma pena que deve acabar sendo visto por poucas pessoas, pois tem uma narrativa muito enxuta e fluida e um veneno bem próprio nascido do drama do personagem pistoleiro. O título internacional do filme é 492, o número de mortes do protagonista. Baseado em uma história real. Direção: Henrique Goldman. Ano: 2017.

ALGUMA COISA ASSIM

Acho o curta mais redondinho e mais bem resolvido, mas o longa traz mais coisas para a discussão, como a questão do aborto. A brincadeira com os três tempos também ficou boa, ainda que não tão boa quanto gostaríamos. O problema do filme talvez seja o personagem masculino, já que Caroline Abras arrasa de novo. Nos três tempos. Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos. Ano: 2017.

A DESTRUIÇÃO DE BERNADET

Considerado por muitos como o maior crítico de cinema do Brasil, Jean Claude Bernadet ganha aqui mais um filme em torno de si. Provavelmente o mais importante, no sentido de ser um longa-metragem sobre ele, mas também sabendo brincar com a ficção, com a performance. Achei o monólogo final um pouco cansativo, mas talvez esteja ali muito do significado do filme. Por isso é importante prestar bem atenção. Direção: Claudia Priscilla e Pedro Marques. Ano: 2016.

quarta-feira, outubro 03, 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS (La Noche de 12 Años)

Nós, brasileiros, estamos vivendo um dos momentos mais perigosos de nossa História, com a possibilidade de eleição de um candidato à presidência que flerta com a ditadura militar e com os torturadores, tendo deixado isso bem claro em diversas declarações. Por isso que a primeira coisa que eu pensei ao sair da sessão de UMA NOITE DE 12 ANOS (2018), de Álvaro Brechner, foi: este filme deveria passar numa Tela Quente da vida, para que a maior quantidade possível de brasileiros pudesse assistir. É lamentável que ele fique relegado ao pequeno circuito, um espaço que costuma já ser frequentado por pessoas de linha progressista.

O filme conta uma história que foi repetida em quase todos os países da América Latina: o surgimento de ditaduras militares nos anos 1960 e 1970, patrocinadas pelo governo americano, com medo de uma possível transformação desses países em repúblicas comunistas. Os tempos eram outros, mas atualmente a falta de noção domina e o velho discurso anticomunista volta à tona com a ascensão da extrema direita no mundo.

Por isso a urgência de uma obra como UMA NOITE DE 12 ANOS, desde já candidato do Uruguai ao Oscar de filme estrangeiro. Muito do interesse do filme se dá pela presença de um personagem muito importante e querido dos sistemas democráticos recentes, José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Ele e mais dois amigos foram presos e torturados durante 12 anos e o filme acompanha esse processo com muita desenvoltura narrativa. Não que seja um filme novo do ponto de vista formal. É até bastante tradicional. Mas isso é até positivo, para alcançar um público maior.

Na trama, Mujica, (Antonio de la Torre), o poeta Mauricio Rosencof (Chino Darin) e o político e jornalista Eleutério Fernández Huidobro (Alfonso Tort) passam por várias prisões diferentes ao longo dos anos, impossibilitados de se comunicar um com o outro ou com qualquer outra pessoa. São tratados como se fossem elementos extremamente perigosos para o sistema implantado. Uma vez que o ódio aos comunistas era comum entre os militares, o tratamento que eles recebiam era proporcional a esse ódio.

A cada contagem dos dias e da mudança dos espaços, sentimos a perda da esperança daqueles homens. Dos três, Mujica foi o que mais se aproximou de enlouquecer, já que não obteve um elo de comunicação como os dois outros conseguiram em determinado momento, através de batidas na parede, criando códigos. Para não ficar tão carregado de tragédia, Brechner até traz um pouco de humor, embora o riso surja às vezes do ridículo da situação, como na cena em que um dos prisioneiros está algemado e não consegue sentar na privada para defecar. Os militares imbecis não conseguem tomar uma decisão sem perguntar a seus superiores.

Rosencof até conquistou a simpatia de um sargento ao ajudá-lo a conquistar a mulher que ele desejava, através da escrita de cartas. São esses talvez os momentos mais leves do filme, cujo tom é de uma escuridão tão penetrante que até sentimos uma diferença enorme na fotografia sempre que vemos as poucas imagens de exteriores. Há uma cena em que um deles pede para que lhe tire por favor as vendas, de modo que ele possa pelo menos olhar para o céu por um minuto.

À medida que o tempo da ditadura se aproxima do fim, a partir de um plebiscito, assim como aconteceu também no Chile, vamos ganhando um pouco mais de alegria e esperança, embora esse sentimento mais positivo seja nublado pelo fato de que os 12 anos que aqueles homens perderam na prisão jamais serão recuperados novamente. Ainda assim, não deixa de haver um sentimento agridoce de vitória, principalmente quando lemos sobre os destinos desses três homens no campo da política e das artes. Mas, como o tempo é cíclico, a luta continua. As ameaças também.

+ TRÊS FILMES

Z

O começo do filme é confuso pra caramba, mas depois, com as investigações, tudo passa a fazer mais sentido. O tom de confusão do começo era pra ser mesmo. Era o tom da França em 1968. E o filme se parece demais com o mundo de hoje. Inclusive com o Brasil de hoje. Impressionante. Direção: Costa-Gavras. Ano: 1969.

CAMOCIM

Da série de documentários que se constroem como dramas e que têm enriquecido o cinema brasileiro contemporâneo, CAMOCIM tem sua urgência, pois apresenta a imagem do Brasil dividido a partir das eleições municipais de uma pequenas cidade de Pernambuco. Ótima a protagonista, cabo eleitoral de um vereador. Bom também ver o ridículo de ambos os lados e o quanto o povo vira fantoche fácil dos políticos. Direção: Quentin Delaroche. Ano: 2017.

UMA QUESTÃO PESSOAL (Una Questione Privata)

Fui com muito interesse e muita boa vontade ver o último filme dos irmãos Taviani, mas infelizmente achei muito difícil de me sensibilizar ou mesmo de me envolver com a obra. Até fico me perguntando novamente se é uma espécie de mal do cinema italiano contemporâneo. Este filme em particular tem o problema de não trazer envolvimento emocional nas cenas de flashback do protagonista com a garota que ele ama. Acerta um pouco no que há de maior, que é a questão da guerra, enquanto ele passa por essa busca interior. Direção: Paolo Taviani. Ano: 2017.

quarta-feira, setembro 12, 2018

VIAGEM A FLÓRIDA

São tempos estranhos esses. Em 2015, quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, o cenário político-econômico brasileiro também estava muito ruim. Mas, desta vez, está tudo tão pior que dá até um sentimento de culpa de estar viajando para um lugar em que reina a prosperidade, enquanto o Brasil está passando por uma crise gigante. E também mexeu muito comigo o fato de o meu melhor amigo ter sido demitido e estar passando pelo que talvez seja a fase mais difícil de sua vida, em praticamente todos os aspectos, enfatizando agora a questão financeira.

Não teria feito a viagem se não fosse o convite tentador de meu cunhado Wandré, que utilizou suas milhas e chamou a mim e a minha irmã mais velha, a Ilinha, para viajarmos com ele e a Adaila para Orlando e Miami. A Ilinha, ainda por cima, conseguiu uma casa nota 10 lá em Orlando, com uma de suas clientes. A casa estaria garantida, de graça, durante o período, segundo a proprietária. Acontece que o visto da Ilinha foi recusado pela embaixada americana e tivemos que pagar o aluguel da casa, ainda assim muito mais baixo que as diárias em um hotel.

A intenção principal da viagem de Wandré e Adaila: comprar o enxoval do meu sobrinho que virá daqui a alguns meses. A presença da Ilinha seria ideal para que me acompanhasse durante os momentos de compras nas lojas de bebê, que renderiam várias horas. Sem a Ilinha, acabei desperdiçando algumas horas que poderia usar para mim, por não me organizar direito e também pelo fato de Orlando ser uma cidade com poucas opções além dos parques. Todos os estabelecimentos comerciais são distantes um do outro. Ainda assim, fiquei mais feliz que pinto no lixo quando adentrei a Barnes and Noble de lá, mesmo sendo tão menor que a de Los Angeles, que ainda tinha um departamento de música. Ao menos pude comprar umas revistas de cinema e uns livros e ficar algumas horas por lá.

Quanto aos parques, o que eu havia escolhido para conhecer acabou sendo o mais acertado, dentre os dois que visitamos. Wandré e Adaila já conheciam quase todos os outros. A minha preferência pelo Epcot foi pela parte dedicada à culinária de vários lugares do mundo, com a possibilidade de se deliciar com diferentes pratos, mas também de conhecer a parte futurista e tecnológica. Dois momentos marcantes dessa parte: o primeiro foi um brinquedo que nos leva em poucos minutos até Marte, com uma passada pela Lua. Que baita simulação. Confesso que gelei, saí de lá tremendo na base, mas ao mesmo tempo bastante impressionado com a perfeição da coisa. Principalmente na hora em que somos arremessados da Terra para a Lua. Só de lembrar já dá um frio na barriga. O outro brinquedo fantástico do parque é um passeio em que somos apresentados à evolução tecnológica do ser humano, desde a antiguidade até os dias de hoje. Este brinquedo fica exatamente dentro do globo branco que serve como cartão postal do parque. Antológico. Se eu for novamente a Orlando, vou querer ir lá nesse parque de novo.

Já o outro parque, o Animal Kingdom, não me conquistou, embora seja sim bem curioso, com a parte dos animais sendo vistos ao vivo. Porém, depois de eu ir a um brinquedo meio tosco que simula ataques de dinossauros e faz o carrinho balançar, fiquei até com medo de ir ao tal brinquedo do Avatar. Amarelei. E saímos do parque mais cedo do que o previsto para conhecer outras coisas de Orlando. Foi quando eu fui até a Barnes and Noble, enquanto o meu casal favorito fazia mais compras. Acabou sendo positivo e produtivo para todos.

Assim como foram muito positivos cada momento em que sentávamos para comer e conversar. Adoro comer e acho que restaurantes e lanchonetes são coisas essenciais em viagens. Como comíamos muito tarde, as visitas ao McDonald's e ao Burger King foram costumeiras. Por outro lado, foi uma beleza poder conhecer um restaurante de massas tão bom quanto o Olive Garden.

Apesar de ter curtido os momentos em Orlando, já estava ansioso pelos dias finais em Miami, por ser uma cidade gigante, com mais coisas para conhecer. Acontece que Miami também é uma cidade que não tem metrô e isso dificulta a vida de quem está a pé. Mas ainda assim fiquei fascinado por sua beleza. Ficamos no 18º andar de um edifício cuja janela dava para ver uma paisagem linda da cidade, tanto à noite quanto de dia. Lá na praia, em Miami Beach, tirei umas fotos lindonas também, mesmo em um dia com oscilações de sol e chuva. Lá nesse momento foi quando eu estava mais tranquilo e em paz comigo mesmo, com a companhia que tinha e aquele mar e aquele céu lindo.

No primeiro dia (ou melhor, à noite), fizemos um passeio tradicional em um Big Bus, só para dar uma geral pela cidade. O sujeito que apresentava a cidade no ônibus ficava imitando o Al Pacino em SCARFACE o tempo inteiro e fazendo graça com os passageiros. Depois comemos no Hard Rock Café lá de Miami Beach. Foi a minha primeira vez comendo lá e achei uma delícia o sanduíche gigante e também adorei o atendimento. Em Nova York, em 2015, apenas passei rapidamente para conhecer a área interna do lugar, mas desta vez pude saborear a comida.

No dia seguinte, já era o último dia da viagem, mas tínhamos um bom tempo ainda para curtir a cidade. Fomos ao maior shopping center da cidade, o Aventura. A ideia de ir ao shopping foi minha, já que não tinha outra ideia mesmo. Além do mais, tive a sorte de conhecer o maior multiplex que já vi, um que tem 24 salas de cinema. Vi lá JULIET, NAKED, de Jesse Peretz. O filme eu vi com muito prazer, tanto pela presença de Ethan Hawke, quanto pela beleza de Rose Byrne. Hawke talvez seja o ator que mais entra em sintonia comigo: tem mais ou menos a minha idade e está presente em pelo menos três dos filmes mais importantes da minha vida.

Entre os demais momentos agradáveis da viagem, as várias passagens de madrugada pelo Walmart foram marcantes, com aquela imensidão de produtos e aquela calmaria da madrugada. A casa de Orlando era tão boa que dava até pena de só estar lá para dormir. A cama, então, era uma delícia. Dava vontade de ficar muito tempo dormindo. Desconfortáveis mesmos só os voos, mas nem dá para reclamar muito, já que o avião é o meio mais rápido para chegar aos lugares. Foi bom voltar para casa, mesmo com uns quilos a mais depois de tanta junk food, mas depois de alguns dias já comecei a sentir saudade da lá de novo. Deve ser por isso que tantas pessoas são viciadas em viagens. Elas nos mudam internamente, trazem alegria para nossas vidas, ampliam nossos horizontes. Preciso fazer mais viagens. Seja só ou acompanhado. No Brasil ou no exterior.

quarta-feira, agosto 29, 2018

CAFÉ COM CANELA


Impressionante como um filme consegue ser ao mesmo tempo experimental em sua linguagem e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. CAFÉ COM CANELA (2017), o premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que também nos apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras e de diferentes idades e situações.

A jovem Violeta (Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno.

O contraste das duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta nos pega tão fortemente: que lindo que é vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor.

Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração: uma cena muito simples e que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violeta; o cantar de um dos personagens coadjuvantes em uma razão de aspecto diferente (uma dentre três diferentes); a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana; e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, como se não algo tão capaz de encher nossos corações de amor?

E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda temos um quase monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Além do mais, é um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia. No caso, as cenas de CAFÉ COM CANELA se passam no Recôncavo Baiano.

Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. Mas o que conta mesmo nem são esses detalhes - se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções da audiência. Um presente que se não tomarmos cuidado pode passar desapercebido, como tantas outras joias recentes do nosso cinema.

+ TRÊS FILMES

UNICÓRNIO

É até interessante de ver, mas impressionante como cansa, mesmo com toda a beleza e a linda fotografia em ultrascope. O diretor quer passar sensações e sentimentos através da imagem, mas não consegue, como nas cenas das angústias da garota no bosque. Mas curiosamente gosto da parte final, que lembra uma fábula. Pena que demora demais a chegar lá. Patrícia Pillar continua linda. Direção: Eduardo Nunes. Ano: 2017.

HILDA HILST PEDE CONTATO

Gosto bem mais da primeira parte do filme, que nos faz quase tão ávidos de boa literatura quanto a própria Hilda, além de ser mais interessante na questão da busca angustiante da escritora por vida além do plano terreno. É um filme bem singular. E a diretora tem um cuidado todo especial com os planos. Faz bem ver. Direção: Gabriela Greeb. Ano: 2017.

UMA QUASE DUPLA

É um filme que deve muito à Tatá Werneck a força que tem, ainda que não seja muita. Cauã está quase como um escada na dupla. É Tatá que fornece os momentos mais engraçados e memoráveis do filme. Que poderia ser menor e mais redondo. Faltou ao diretor timing para dominar a narrativa. Ainda assim é divertido e relaxante. Direção: Marcus Baldini. Ano: 2018.