quarta-feira, setembro 12, 2018

VIAGEM A FLÓRIDA

São tempos estranhos esses. Em 2015, quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, o cenário político-econômico brasileiro também estava muito ruim. Mas, desta vez, está tudo tão pior que dá até um sentimento de culpa de estar viajando para um lugar em que reina a prosperidade, enquanto o Brasil está passando por uma crise gigante. E também mexeu muito comigo o fato de o meu melhor amigo ter sido demitido e estar passando pelo que talvez seja a fase mais difícil de sua vida, em praticamente todos os aspectos, enfatizando agora a questão financeira.

Não teria feito a viagem se não fosse o convite tentador de meu cunhado Wandré, que utilizou suas milhas e chamou a mim e a minha irmã mais velha, a Ilinha, para viajarmos com ele e a Adaila para Orlando e Miami. A Ilinha, ainda por cima, conseguiu uma casa nota 10 lá em Orlando, com uma de suas clientes. A casa estaria garantida, de graça, durante o período, segundo a proprietária. Acontece que o visto da Ilinha foi recusado pela embaixada americana e tivemos que pagar o aluguel da casa, ainda assim muito mais baixo que as diárias em um hotel.

A intenção principal da viagem de Wandré e Adaila: comprar o enxoval do meu sobrinho que virá daqui a alguns meses. A presença da Ilinha seria ideal para que me acompanhasse durante os momentos de compras nas lojas de bebê, que renderiam várias horas. Sem a Ilinha, acabei desperdiçando algumas horas que poderia usar para mim, por não me organizar direito e também pelo fato de Orlando ser uma cidade com poucas opções além dos parques. Todos os estabelecimentos comerciais são distantes um do outro. Ainda assim, fiquei mais feliz que pinto no lixo quando adentrei a Barnes and Noble de lá, mesmo sendo tão menor que a de Los Angeles, que ainda tinha um departamento de música. Ao menos pude comprar umas revistas de cinema e uns livros e ficar algumas horas por lá.

Quanto aos parques, o que eu havia escolhido para conhecer acabou sendo o mais acertado, dentre os dois que visitamos. Wandré e Adaila já conheciam quase todos os outros. A minha preferência pelo Epcot foi pela parte dedicada à culinária de vários lugares do mundo, com a possibilidade de se deliciar com diferentes pratos, mas também de conhecer a parte futurista e tecnológica. Dois momentos marcantes dessa parte: o primeiro foi um brinquedo que nos leva em poucos minutos até Marte, com uma passada pela Lua. Que baita simulação. Confesso que gelei, saí de lá tremendo na base, mas ao mesmo tempo bastante impressionado com a perfeição da coisa. Principalmente na hora em que somos arremessados da Terra para a Lua. Só de lembrar já dá um frio na barriga. O outro brinquedo fantástico do parque é um passeio em que somos apresentados à evolução tecnológica do ser humano, desde a antiguidade até os dias de hoje. Este brinquedo fica exatamente dentro do globo branco que serve como cartão postal do parque. Antológico. Se eu for novamente a Orlando, vou querer ir lá nesse parque de novo.

Já o outro parque, o Animal Kingdom, não me conquistou, embora seja sim bem curioso, com a parte dos animais sendo vistos ao vivo. Porém, depois de eu ir a um brinquedo meio tosco que simula ataques de dinossauros e faz o carrinho balançar, fiquei até com medo de ir ao tal brinquedo do Avatar. Amarelei. E saímos do parque mais cedo do que o previsto para conhecer outras coisas de Orlando. Foi quando eu fui até a Barnes and Noble, enquanto o meu casal favorito fazia mais compras. Acabou sendo positivo e produtivo para todos.

Assim como foram muito positivos cada momento em que sentávamos para comer e conversar. Adoro comer e acho que restaurantes e lanchonetes são coisas essenciais em viagens. Como comíamos muito tarde, as visitas ao McDonald's e ao Burger King foram costumeiras. Por outro lado, foi uma beleza poder conhecer um restaurante de massas tão bom quanto o Olive Garden.

Apesar de ter curtido os momentos em Orlando, já estava ansioso pelos dias finais em Miami, por ser uma cidade gigante, com mais coisas para conhecer. Acontece que Miami também é uma cidade que não tem metrô e isso dificulta a vida de quem está a pé. Mas ainda assim fiquei fascinado por sua beleza. Ficamos no 18º andar de um edifício cuja janela dava para ver uma paisagem linda da cidade, tanto à noite quanto de dia. Lá na praia, em Miami Beach, tirei umas fotos lindonas também, mesmo em um dia com oscilações de sol e chuva. Lá nesse momento foi quando eu estava mais tranquilo e em paz comigo mesmo, com a companhia que tinha e aquele mar e aquele céu lindo.

No primeiro dia (ou melhor, à noite), fizemos um passeio tradicional em um Big Bus, só para dar uma geral pela cidade. O sujeito que apresentava a cidade no ônibus ficava imitando o Al Pacino em SCARFACE o tempo inteiro e fazendo graça com os passageiros. Depois comemos no Hard Rock Café lá de Miami Beach. Foi a minha primeira vez comendo lá e achei uma delícia o sanduíche gigante e também adorei o atendimento. Em Nova York, em 2015, apenas passei rapidamente para conhecer a área interna do lugar, mas desta vez pude saborear a comida.

No dia seguinte, já era o último dia da viagem, mas tínhamos um bom tempo ainda para curtir a cidade. Fomos ao maior shopping center da cidade, o Aventura. A ideia de ir ao shopping foi minha, já que não tinha outra ideia mesmo. Além do mais, tive a sorte de conhecer o maior multiplex que já vi, um que tem 24 salas de cinema. Vi lá JULIET, NAKED, de Jesse Peretz. O filme eu vi com muito prazer, tanto pela presença de Ethan Hawke, quanto pela beleza de Rose Byrne. Hawke talvez seja o ator que mais entra em sintonia comigo: tem mais ou menos a minha idade e está presente em pelo menos três dos filmes mais importantes da minha vida.

Entre os demais momentos agradáveis da viagem, as várias passagens de madrugada pelo Walmart foram marcantes, com aquela imensidão de produtos e aquela calmaria da madrugada. A casa de Orlando era tão boa que dava até pena de só estar lá para dormir. A cama, então, era uma delícia. Dava vontade de ficar muito tempo dormindo. Desconfortáveis mesmos só os voos, mas nem dá para reclamar muito, já que o avião é o meio mais rápido para chegar aos lugares. Foi bom voltar para casa, mesmo com uns quilos a mais depois de tanta junk food, mas depois de alguns dias já comecei a sentir saudade da lá de novo. Deve ser por isso que tantas pessoas são viciadas em viagens. Elas nos mudam internamente, trazem alegria para nossas vidas, ampliam nossos horizontes. Preciso fazer mais viagens. Seja só ou acompanhado. No Brasil ou no exterior.

quarta-feira, agosto 29, 2018

CAFÉ COM CANELA


Impressionante como um filme consegue ser ao mesmo tempo experimental em sua linguagem e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. CAFÉ COM CANELA (2017), o premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que também nos apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras e de diferentes idades e situações.

A jovem Violeta (Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno.

O contraste das duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta nos pega tão fortemente: que lindo que é vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor.

Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração: uma cena muito simples e que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violeta; o cantar de um dos personagens coadjuvantes em uma razão de aspecto diferente (uma dentre três diferentes); a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana; e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, como se não algo tão capaz de encher nossos corações de amor?

E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda temos um quase monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Além do mais, é um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia. No caso, as cenas de CAFÉ COM CANELA se passam no Recôncavo Baiano.

Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. Mas o que conta mesmo nem são esses detalhes - se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções da audiência. Um presente que se não tomarmos cuidado pode passar desapercebido, como tantas outras joias recentes do nosso cinema.

+ TRÊS FILMES

UNICÓRNIO

É até interessante de ver, mas impressionante como cansa, mesmo com toda a beleza e a linda fotografia em ultrascope. O diretor quer passar sensações e sentimentos através da imagem, mas não consegue, como nas cenas das angústias da garota no bosque. Mas curiosamente gosto da parte final, que lembra uma fábula. Pena que demora demais a chegar lá. Patrícia Pillar continua linda. Direção: Eduardo Nunes. Ano: 2017.

HILDA HILST PEDE CONTATO

Gosto bem mais da primeira parte do filme, que nos faz quase tão ávidos de boa literatura quanto a própria Hilda, além de ser mais interessante na questão da busca angustiante da escritora por vida além do plano terreno. É um filme bem singular. E a diretora tem um cuidado todo especial com os planos. Faz bem ver. Direção: Gabriela Greeb. Ano: 2017.

UMA QUASE DUPLA

É um filme que deve muito à Tatá Werneck a força que tem, ainda que não seja muita. Cauã está quase como um escada na dupla. É Tatá que fornece os momentos mais engraçados e memoráveis do filme. Que poderia ser menor e mais redondo. Faltou ao diretor timing para dominar a narrativa. Ainda assim é divertido e relaxante. Direção: Marcus Baldini. Ano: 2018.

quinta-feira, agosto 23, 2018

À SOMBRA DE DUAS MULHERES (L'Ombre des Femmes)


Grandes histórias de relacionamentos amorosos nem sempre precisam de trilhas sonoras grandiloquentes, atores com padrão Oscar de qualidade ou um tipo de direção cheia de virtuosismos. O que o veterano cineasta Philippe Garrel entrega em À SOMBRA DE DUAS MULHERES (2015) é justamente o contrário disso. E o que nos impressiona é o tanto de sensibilidade que ele é capaz de oferecer com textos aparentemente econômicos. Vale lembrar que o roteirista Jean-Claude Carrière, celebrado principalmente por sua parceria com Luis Buñuel, está entre os responsáveis pela construção dos diálogos naturalistas e tão capazes de nos envolver.

Na trama, acompanhamos a rotina de um casal de documentaristas, vividos por Stanislas Merhar e Clotilde Courau. Eles são, respectivamente, Pierre e Manon, um casal que já passou da fase da paixão e agora vive uma relação mais estável e de certa maneira monótona. O que faz com que Pierre acabe se interessando por outra mulher, Elisabeth (Lena Paugam), que preenche essa lacuna do desejo sexual que estava ausente na relação com Manon.

Elisabeth sabe que Pierre é casado, mas ainda tem esperança de que ele largue a esposa para ficar com ela. Uma oportunidade chega quando Elisabeth flagra Manon com outro homem em um encontro às escondidas. Ou seja, o que parecia apenas um triângulo amoroso em que só uma pessoa era a traída acaba se revelando uma espécie de quadrado de traições. Sem conseguir guardar essa informação por muito tempo, em um dos dias de crise entre os amantes, Elisabeth conta a Pierre do affair de sua mulher. A revelação cai como uma bomba.

Por mais que Pierre não tenha muita razão para reclamar da esposa - seria o sujo falando do mal lavado - não é assim que ele age. Há uma tradição machista já há muito enraizada de que se for o homem o traidor, tudo bem, já quando é a mulher... Assim, ele culpa Manon a ponto de a relação entrar em colapso, já que Pierre tem dificuldade em perdoar a mulher. Todo esse mal estar do casal é também sentido pela audiência, remetendo a um dos melhores trabalhos de François Truffaut, DOMICÍLIO CONJUGAL, que também trata da questão da infidelidade.

Ainda assim, o filme de Garrel mais lembra as cirandas de amor e desamor e os contos de natureza moral de Eric Rohmer, o que só torna a experiência de ver À SOMBRA DE DUAS MULHERES uma joia para os espectadores dos dias atuais, carentes de diretores que explorem tão bem tais questões. Aliás, por mais que possamos lembrar também do sul-coreano Hong Sang-soo nesse debate, são os franceses que aparentemente parecem ter mais expertise no assunto. Só lembrar de CIÚME – O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO, em que Claude Chabrol destrincha a mente perturbada de um homem atormentado pelo medo e insegurança de perder a bela mulher.

O que Garrel faz, porém, é fugir do registro over da dramaticidade e apontar para um caminho mais sutil, e talvez por isso mesmo capaz de despertar as emoções dos espectadores que provavelmente já viveram situações parecidas com aquelas dos personagens. Além do mais, o filme nos presenteia com a atuação sublime de Clotilde Courau, que faz a esposa traída e em busca também de prazer, fora de um casamento em que ela se sente infeliz pelo desinteresse do homem que ama.

Acompanhar seus dramas é uma tarefa tão dolorosa quanto deliciosa, já que a precisão da direção, da atuação, dos diálogos, da linda fotografia em preto e branco contribui para uma das mais pungentes experiências emocionais na sala escura dos últimos anos.

+ TRÊS FILMES

NOS VEMOS NO PARAÍSO (Au Revoir Là-haut)

Um filme que tem seus momentos, e que se destaca pela bela produção, pelas imagens. Queria mais cenas das trincheiras, mas o filme trata de outra coisa: a relação de amizade entre dois homens depois de uma situação na Primeira Guerra. Há um problema de música demais, de personagens pouco carismáticos, e isso complica um bocado. Direção: Albert Dupontel. Ano: 2017. 

PROMESSA AO AMANHECER (La Promesse de l'Aube)

Taí um filme que poderia não existir. Não que seja de todo ruim, mas é muito chato, muito aborrecido. A aventura do protagonista só falta não acabar mais. Há coisas interessantes, já que poucos filmes falam de uma figura materna tão presente, mas a trama se perde e se arrasta, mesmo tendo seus momentos. A mesma história foi filmada por Jules Dassin em 1970. Certamente deve ser muito melhor. Direção: Éric Barbier. Ano: 2017.

MARVIN (Marvin ou la Belle Éducation)

Anne Fontaine tem feito filmes bem diferentes, mas tenho gostado de todos os trabalhos dela. Este aqui trata com delicadeza da história de um rapaz que viveu a dificuldade de ser gay numa sociedade machista e que agora tem a chance de falar sobre isso em seu trabalho como ator e dramaturgo. Gosto do jeito como a diretora se arrisca e deixa o filme respirar. Muito bom o ator que faz o personagem criança também. Direção: Anne Fontaine. Ano: 2017.

domingo, agosto 19, 2018

DISTÚRBIO (Unsane)

Apesar da irregularidade e de parecer não haver tantos pontos claros em comum para uma análise de sua autoralidade, seja do ponto de vista temático, seja do formal, a carreira de Steven Soderbergh é uma das mais interessantes dentre os cineastas surgidos do cenário indie nos últimos 30 anos. Trata-se de um diretor que se mostrou interessado nos mais diversos assuntos, sendo suas obsessões bastante fragmentadas.

Surgir com uma história sobre um homem com dificuldades de se relacionar sexualmente com as mulhres (SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, 1989), para depois brincar com uma história envolvendo um célebre escritor tcheco (KAFKA, 1991) e depois partir para um drama mais convencional (O INVENTOR DE ILUSÕES, 1993) e embarcar depois de um tempo dentro de um cinema mais comercial, por assim dizer, fazer esse trânsito com frequência e ainda seguir sendo um caso interessante não é para qualquer um.

DISTÚRBIO (2018) é o segundo filme para cinema de Soderbergh depois de uma anunciada aposentadoria que não se concretizou. O anterior foi a divertida comédia LOGAN LUCKY – ROUBO EM FAMÍLIA (2017), que volta ao tema do roubo inteligente, celebrado em ONZE HOMENS E UM SEGREDO (2001). Em DISTÚRBIO o diretor volta a outro tema que lhe interessa: a questão da sanidade mental, abordada em um registro mais dramático em TERAPIA DE RISCO (2013). No novo trabalho, temos um suspense bem eficiente.

Na trama, Claire Foy é Sawyer Valentini, uma jovem mulher que sofre de uma fobia que só aos poucos vai sendo descortinada. Ela mora em uma cidade distante de sua família, a fim de fugir de um homem obcecado. Certo dia, após uma consulta com uma psicóloga, ela acaba assinando papéis em que concorda em ficar detida em um sanatório por um determinado período de tempo. Ao chegar lá, afirma que um dos funcionários é o tal homem que a persegue. Demora um pouco para sabermos se o que ela diz é fruto de sua imaginação ou algo real. Até então, a personagem segue em uma espiral de medo e perturbação que é acentuada por imagens às vezes desfocadas, às vezes em enquadramentos pouco usuais, filmadas em uma câmera de um iPhone 7 Plus.

+ TRÊS FILMES

TERROR CEGO (See No Evil)


Preciso conhecer mais o trabalho de Fleischer. Este TERROR CEGO é brilhante. A pobre da Mia Farrow faz um trabalho excepcional, inclusive físico, no papel de uma mulher cega e sozinha fugindo de um assassino. Já vi filme parecido, mas este talvez seja o melhor. Direção: Richard Fleischer. Ano: 1971.

HANNAH

Achei muito bom como um exercício de seguir uma personagem prestes a desabar. Mas o filme não me pegou, não me senti tocado pela personagem. Talvez por não haver uma maior clareza sobre o que de fato estava acontecendo entre ela e o filho e o que aconteceu com o marido. É muita responsabilidade nos ombros da Charlotte Rampling. Direção: Andrea Pallaoro. Ano: 2017.

RÉQUIEM PARA A SRA. J. (Rekvijem za Gospodju J)

Um interessante retrato da Sérvia, que ainda é uma nação em ruínas, pela visão de uma senhora com depressão e que planeja a própria morte. Pena que eu não me envolvi seu drama e achei mais interessante do ponto de vista formal apenas. Dá pra imaginar o Brasil com mais um ano de governo Temer vendo o filme. Direção: Bojan Vuletic. Ano: 2015.

quinta-feira, agosto 09, 2018

BAIXO GÁVEA

Ah se todos os filmes brasileiros que quiséssemos ver estivessem tão facilmente à mão. Com o cinema estrangeiro, principalmente o americano, tudo é tão mais simples. Ainda assim, não devemos reclamar tanto assim. Há meios para conseguir certas preciosidades que nem sequer estavam na lista de prioridades até pouco tempo atrás. É o caso de BAIXO GÁVEA (1986), de Haroldo Marinho Barbosa, que esteve entre os títulos que ganharam uma remasterização decente do Canal Brasil e que pode ser encontrado no mundo abençoado dos sites de compartilhamento também.

O meu interesse pelo filme aumentou depois que li o delicioso texto de Andrea Ormond publicado no livro Ensaios de Cinema Brasileiro – Os Anos 1980 e 1990. Vale dizer que cada texto deste livro nos faz querer ver o filme em questão imediatamente. Mesmo quando a autora diz que o filme tem problemas sérios. Vale dizer que não é o caso de BAIXO GÁVEA, que mesmo tendo uma cena de estupro muito mal encenada, nem isso chega a macular a beleza desta pequena pérola.

O filme trata da amizade de duas jovens mulheres que dividem o mesmo apartamento. Lucélia Santos (adorável!) é Clara, diretora de teatro; Louise Cardoso é Ana, atriz que está atuando no papel do poeta português Mário de Sá Carneiro em peça dirigida pela amiga sobre a vida de Fernando Pessoa. Só o fato de termos um filme que aborda a vida trágica do maior poeta da língua portuguesa já chama a atenção. E há várias cenas que se passam no teatro, nos ensaios.

Mas o que mais ganha o espectador mesmo é a vida real e contemporânea das duas amigas, principalmente de Clara, uma mulher em busca de amor e que acaba não tendo muita sorte com seus parceiros. No começo do filme ela amanhece na casa de um completo estranho, fruto de uma aventura regada a álcool na noite anterior. Sai de lá, um tanto aflita, direto para o trabalho, o teatro. Depois sabemos que Ana, apesar de amiga exemplar, tem uma queda pela amiga dramaturga e de vez em quando brinca, querendo levá-la para a cama. Como não há interesse mútuo, as duas compartilham diferentes tipos de solidão.

Essa busca de Clara por um amor lembra, inclusive, o recente DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, que traz Juliette Binoche no papel de uma mulher com fome de amor. Em uma de suas investidas, Clara encontra com um homem muito estranho, que a leva para seu apartamento. O tal homem é vivido por José Wilker, em participação especial, e em registro que une o cômico com o assustador.

BAIXO GÁVEA também tem o sabor de uma deliciosa máquina do tempo que nos leva para o Rio de Janeiro da década de 1980. Basta lembrar da cena em que Ana sai para dar uma passeada pelos bares do bairro, em busca de uma “gatinha”. Como é um filme mais de personagens e atmosferas do que de plot, o trabalho de Haroldo Marinho Barbosa tem um ritmo cadenciado, que não tem pressa em chegar a lugar algum, mas que ainda assim nos traz um misto de excitação e desespero, o que só prova que estamos diante de uma obra que fala às nossas almas por caminhos misteriosos. E que ainda dialoga com o teatro e a poesia de maneira muito bela, trazendo ainda um dos finais mais lindamente amargos do cinema brasileiro.

+ TRÊS FILMES

BETE BALANÇO

Certamente Lael Rodrigues não sabia a importância do filme que estava fazendo quando filmou BETE BALANÇO. Certamente não é um grande filme. Longe disso. Há um bocado de problemas. Mas só em ter Cazuza em música e como ator e o espírito daquele momento do rock brazuca dos 80 já é uma maravilha. Sem falar na Débora Bloch, que está encantadora. Pena que perderam a chance de incluir uma cena de sexo da Débora com a Maria Zilda. No mais, foi a primeira vez que eu ouvi a versão original de "Carente profissional" (pelo Barão Vermelho). Só conhecia a versão (muito melhor) da Marina Lima. Direção: Lael Rodrigues. Ano: 1984.

O GOSTO DO PECADO

Cláudio Cunha sabe caprichar nas cenas de sexo, mas este filme é bem irregular em sua narrativa. Poderia ser mais enxuto, mais dinâmico. O personagem do Jardel Mello é difícil de gostar. Mas aí tem a Simone Carvalho, que é apaixonante sem fazer muito esforço. Direção: Cláudio Cunha. Ano: 1980.

MULHERES ALTERADAS

Filme que se destaca bastante no quesito visual (gosto muito das cores e dos ângulos) e também por lidar com a questão da sororidade e de diferentes estilos de vida e posicionamentos em relação à vida. Queria mais Monica Iozzi. Fiquei feliz que ela finalmente esteve em um bom filme. Quem acaba tendo mais espaço no filme é Deborah Secco e Alessandra Negrini. Direção: Luis Pinheiro. Ano: 2018.

terça-feira, agosto 07, 2018

ANA E VITÓRIA

A primeira cena de ANA E VITÓRIA (2018) mostra um grupo de pessoas em uma festa intimista olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Essa mudança de hábitos que faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém, é mostrada em tom agridoce no que se refere ao sentimento.

Afinal, a solidão e a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano. O que pode ter mudado é a sensação falsa de estar menos só por causa das pessoas com quem se pode conversar no ambiente virtual. Há também uma mudança de valores muito interessante da juventude moderna. As duas meninas, Ana e Vitória, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo.

Mas ANA E VITÓRIA é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo BAIXO GÁVEA, de Haroldo Marinho Barbosa. Mas aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com uma familiaridade com a linguagem jovem no comando. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que estão fazendo um sucesso popular bem considerável.

Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira muito natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro.

O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens que começam a cantar juntas e a partir dessa união passam a fazer sucesso e a arrebanhar uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções do duo, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não são tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho e a beleza do filme.

No fim das contas, ANA E VITÓRIA apresenta mais uma história sobre chegas e partidas, encontros e desencontros amorosos do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.

+ TRÊS FILMES

TENTAÇÃO NA CAMA

Como história de crime é bem ruim. Já quando vai mostrar as cenas de sexo com as três mulheres, é bom de ver. Infelizmente a maior parte da história é sobre a trama chata que só é revelada lá pelo final e deixar tudo no suspense só piora as coisas. A participação de Ari Toledo contando duas piadas podia ser dispensada. No mais, dá pra entender por que David Cardoso chora de saudade sempre que fala de seus tempos áureos. Direção: Ody Fraga. Ano: 1984.

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES

Interessante fase do cinema brasileiro, que não precisava mais mostrar cenas de sexo para chamar a atenção, ainda que este aqui até possua. Mas o que mais importa mesmo é a espera, a eterna espera do garoto pelo pai envolvido com guerrilha na época da ditadura. Queria ter visto em melhores condições físicas. Direção: Murilo Salles. Ano: 1984.

SOL ALEGRIA 

Viva a anarquia! Abaixo a caretice! Uma beleza poder ter esses lemas em comum e ver SOL ALEGRIA. Por isso gosto tanto do miolo do filme, que se passa numa espécie de convento onde reina a depravação. Chega uma hora em que o sexo e a nudez estão tão naturais que se integram quase que sem estranhamento. Já acho problemática a terceira e última parte. Direção: Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira. Ano: 2018.

domingo, julho 29, 2018

MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (Mission: Impossible - Fallout)

Primeira vez que um filme da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL repete o diretor, o sexto filme da série traz mais uma parceria do produtor e ator Tom Cruise com o diretor Christopher McQuarrie, com quem havia trabalhado em JACK REACHER - O ÚLTIMO TIRO (2012) e em MISSÃO: IMPOSSÍVEL - NAÇÃO SECRETA (2015). A amizade, porém, deve ter surgido quando da produção de OPERAÇÃO VALQUÍRIA (2008), em que McQuarrie aparece como roteirista.

O caso de McQuarrie é interessante, pois nota-se um crescimento dele como cineasta, provavelmente a partir das exigências do Cruise produtor e homem cada vez mais centrado na adrenalina e nos filmes de ação. Pode-se dizer que o diretor e roteirista chegou ao status de excelência neste MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (2018), com cenas de ação de cair o queixo de tão boas. É possível que seja o melhor filme da franquia desde o primeiro, dirigido por Brian De Palma em 1996.

A brincadeira com as máscaras continuam e aumentaram ainda mais os perigos, presentes, inclusive, no set de filmagens, quando Cruise, ao rejeitar o uso de dublês nas cenas de ação, quebrou o próprio pé em uma sequência em que pula de um prédio para o outro. Toda essa sensação de verdade e de materialidade é sentida no filme, que se distingue bastante das atuais aventuras de ação que usam e abusam do CGI. Mesmo em uma sequência como a dos helicópteros, tudo parece muito palpável, pesado, real.

Por real, não há por que pensar que o filme é do tipo verossímil. Não há necessidade disso uma vez que se aceite o jogo, as brincadeiras que a franquia proporciona, como a velha tensão em cortar o fio de uma bomba nos últimos instantes. Aqui a diferença é que os realizadores intensificam esse momento, colocando não apenas uma, mas três bombas ao mesmo tempo, em um projeto de equipe.

E por falar em equipe, EFEITO FALLOUT talvez seja o filme que melhor soube trabalhar com a questão do grupo. Apesar de nunca deixar de ser o grande protagonista, Tom Cruise divide a tela com o "Superman" Henry Cavill desta vez, em participação muito importante - a cena do banheiro, com uma luta corpo a corpo entre eles dois e um asiático, é sensacional. E é quando surge também Rebecca Ferguson, que havia brilhado no filme anterior e que retorna como uma espécie de membro não filiada da equipe, já que ela é uma espiã de outra organização. Ving Rhames e Simon Pegg também retornam como fiéis parceiros de Ethan Hunt (Cruise) e Michelle Monaghan aparece pouco, como a ex-esposa que teve que sair da vida do agente por causa do perigo.

A sensação de familiaridade se dá não apenas pelo retorno de toda essa turma - até o vilão do filme anterior retorna - mas por uma parceria que foi azeitada para resultar em uma obra que merece figurar entre as melhores produções de ação do novo século. Assim, se a princípio alguém pode ficar triste com o fato de não haver um novo diretor para deixar a sua marca na franquia, esse sacrifício foi feito por um motivo justo. Além do mais, Cruise não anda querendo mais muitas intervenções de cineastas-autores em suas produções. Felizmente ele é um ótimo produtor e aqui pelo menos parece saber o que está fazendo.

A trama é talvez a mais intrincada dos seis filmes da série, mas isso não constitui um problema: até dá um charme a mais. Até porque é uma trama que não é difícil de acompanhar. E mesmo se fosse difícil, ficar perdido em filmes de espionagem faz parte do jogo. E no caso de EFEITO FALLOUT, então, temos tantas cenas de ação ótimas que mesmo que nada fizesse sentido o filme seria ótimo ainda assim. A cena do paraquedas, a já citada cena de luta no banheiro de uma boate, a cena de perseguição na moto, a corrida no prédio, a perseguição de helicópteros são os melhores exemplos. É quase um aviso para os produtores dos filmes do James Bond: pronto, agora façam melhor do que isso, se são capazes!

+ TRÊS FILMES

LUA DE JÚPITER (Jupiter Holdja)

Quando vi que este filme estava cotado para a Palma de Ouro em Cannes fiquei imaginando o porquê. Agora vi que foi por causa do sucesso de WHITE GOD (2014), que eu considero um filmão. Mas este aqui, meu Deus do céu, o que é isso? Essa fascinação por efeitos especiais e pela história do rapaz que é capaz de voar é de cansar a paciência. E há uma trama toda confusa que chega um momento que desisti de tentar entender. É um pouco longo, mas parece ainda mais longo. Direção: Kornél Mundruczó. Ano: 2017.

BASEADO EM FATOS REAIS (D'Après une Histoire Vraie)

O quanto desceu Roman Polanski, hein? Não dá nem pra imaginar que é baseado em um romance. O romance deve ser bem vagabundo, é o que dá para pensar. As atrizes nem estão de todo ruins, se a ideia é mesmo fazer um suspense tipo Supercine. Nesse sentido, dá pra se divertir com a Eva Green mais uma vez vilanesca. Ano: 2017.

GEMINI

Estou virando um stalker da Lola Kirke. Foi por ela que vi este GEMINI, que pintou nos torrents da vida e nem sei se vai aparecer nos streamings. O filme é mais charmoso do que realmente bom, com uma trama intrincada e que se perde e desaponta quando chega ao seu desfecho. Mas até lá é intrigante, explorando bastante a noite escura e as mansões luxuosas de Los Angeles/Hollywood. Direção: Aaron Katz. Ano: 2017.