quarta-feira, janeiro 16, 2019

15 CURTAS BRASILEIROS

ESTAMOS TODOS AQUI

Pungente retrato da miséria e da luta de um grupo de pessoas que vive em barracos prestes a serem derrubados pela prefeitura. Foco em duas personagens LGBTs que precisam lutar ainda mais que as demais para ter um emprego ou um meio decente de sobrevivência. Há um ótimo trabalho de som. Direção: Chico Santos e Rafael Mellin. Ano: 2017. SP.

GUAXUMA

Quando a técnica e a delicadeza se unem para produzir uma obra de encher o coração. Como gosto muito de coisas que lidam com a memória, o filme acabou falando muito para mim, embora seja uma história bem pessoa da diretora. Ela contou com a ajuda de gente muito boa e também teve ideias muito boas para contar essa história com os mais diferentes meios de se fazer animação. Prêmio de melhor curta do júri Aceccine. Nara Normande. Ano: 2018. PE.

IMAGINÁRIO

Uma seleção de imagens e uma seleção de comunicados oficiais da história política do Brasil. Dá um certo mal estar em pensar que a nossa história gira em círculos, mas o fato de podermos estar vendo este filme com um pouco mais de consciência ajuda, até pelo prazer estético, pela inteligência com que foi pensado este filme. Direção: Cristiano Burlan. Ano: 2018. SP.

INCONFISSÕES

Uma sobrinha que faz uma espécie de recorte da vida do tio homossexual a partir de fotografias íntimas de sua vida antes e principalmente durante a estadia nos Estados Unidos. As cartas e as trocas de afeto são bem bonitas e dá o que pensar no quanto a vida pode ser um túmulo também depois que a pessoa morre. Direção: Ana Galizia. Ano: 2018. RJ.

KRIS BRONZE

Muito bacana esse universo do bronzeamento com fita, que eu só fui saber que existia graças à Anitta. O filme tem um olhar observador, como um documentário (seria um documentário), mas tem essa cara desses novos trabalhos contemporâneos, com cara de ficção, que trazem os personagens interpretando a si mesmos. Direção: Larry Machado. Ano: 2018. GO.

LIBERDADE

Não lembro onde foi que eu vi (foi em algum filme) que todo dia a gente aprende alguma coisa. Às vezes tem dias que eu acho que não aprendo nada. De todo modo, o que eu quero dizer é que neste Liberdade, dá pra, além de curtir o filme como obra de arte, também aprender sobre a história do bairro da Liberdade, em São Paulo. Coisas que eu não sabia, nem meus amigos de lá me disseram. O filme acompanha um rapaz africano em sua condição de estrangeiro no Brasil, em um bairro que antes abrigava mais asiáticos e que agora também tem abrigado gente de outros lugares do mundo. Direção: Pedro Nishi e Vinícius Silva. Ano: 2018. SP.

MESMO COM TANTA AGONIA

Um filme que procura captar a angústia da existência humana, mesmo quando alguns momentos são aparentemente de alegria, como é o caso da cena do aniversário da filha. Ou a saída para casa para pegar o metrô com a colega de trabalho. Direção: Alice Andrade Drummond. Ano: 2018. MG.

NOME DE BATISMO - ALICE

O fascínio de procurar saber mais sobre suas origens. Ainda mais sendo essas origens tão escondidas, como no caso da família da diretora, vinda de Angola. O filme acompanha sua viagem ao país de seus antepassados e sua tentativa de entender sua história. Há coisas um tanto sombrias, como a questão de sua família ser real e escravizar outros. Há o questionamento sobre como seria Angola antes da evangelização. Direção: Tila Chintunda. Ano: 2018. PE.

NOVA IORQUE

Bom ter uma atriz como Hermila Guedes para dar mais força e credibilidade às interpretações. Mas o filme também deve muito à sensibilidade da direção e ao ator mirim. Seu personagem acha uma caixa de música que lhe desperta a curiosidade e o aproxima da professora. Filme sobre sonhos e desencantos feito com muito carinho. Queria um desenlace mais impactante, mas do jeito que ficou está bem bom. Vale também destacar a edição. Mal dá pra sentir a duração. Direção: Leo Tabosa. Ano: 2018. PE. (Foto)

O ÓRFÃO

Filme bem redondo na condução narrativa e bem comovente na história do garoto que é levado do orfanato para tentar a sorte com um casal. Há um subtexto gay na história, mas é melhor não saber muita coisa antes de ver. Ótima participação de Clarisse Abujamra. Direção: Carolina Markovicz. Ano: 2018. SP.

PLANO CONTROLE

Um barato isso aqui. A ideia é bem inventiva e envolve viagens no tempo e no espaço. Como adoro essas coisas e o filme tem um senso de humor muito afiado e inteligente, me diverti à beça. Interessante o fato de ser a mesma diretora de Baronesa, que tem um senso de humor tão diferente. Direção: Juliana Antunes. Ano: 2018. MG.

REFORMA

Um rapaz gay e gordo incomodado com sua gordice e as dificuldades em manter relacionamentos estáveis. O filme é bom tanto nas cenas íntimas dele com os parceiros, quanto nas conversas que ele tem com a melhor amiga. Direção: Fábio Leal. Ano: 2018. PE.

CALMA

O próprio título do filme meio que pede paciência por parte do espectador, devido ao andamento bem lento da narrativa. Há uma bela sequência inicial, de uma mulher caminhando até uma casa pobre que é impressionante na construção do desenho de produção. E depois o filme se detém em explicitar o seu caráter de distopia brasileira, fazendo pontes com acontecimentos absurdos recentes e um futuro destruidor que pode estar se avizinhando. Direção: Rafael Simões. Ano: 2018. RJ.

CONTE ISSO ÀQUELES QUE DIZEM QUE FOMOS DERROTADOS

Vejo mais méritos neste filme como gesto político, como expressão de resistência, do que como cinema mesmo. Durante a metragem fiquei pensando no quanto certos curtas, ou a maioria dos mais sérios, são muito mais difíceis de digerir em grande quantidade do que longas. Mas isso vale para contos em oposição a romances também, creio eu. Direção: Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cris Araújo e Pedro Maia de Brito. Ano: 2018. MG/PE.

RETIRADA PARA UM CORAÇÃO BRUTO

Um desses filmes bem singulares, que enganam pelo que mostram a princípio. É a história de um senhor que perdeu sua companheira e que tenta levar a vida mesmo assim. Mas aí a trama segue por caminhos inusitados. Tá na cara que o diretor adora um rock. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2017. MG.

domingo, janeiro 13, 2019

HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO (Spider-Man: Into the Spider-Verse)

Que bom que a fonte de inspiração para os filmes da Marvel não secou nos anos 2000, já que a divertida animação HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO (2018) bebe principalmente da criação de Dan Slott publicada em 2014 mostrando diversos Homens-Aranhas de múltiplas realidades alternativas se encontrando. Para a versão para o cinema, produzida pela Sony Pictures Animation, tiveram que limar vários desses personagens, até para poder ficar minimamente possível a construção de uma trama em cerca de duas horas de narrativa.

A história se passa no universo de Miles Morales, o jovem adolescente negro que é picado por uma aranha radiotiva após Peter Parker, poucos antes desse morrer pelas mãos do Duende Verde. Essa também foi uma história inspirada nos quadrinhos, na famosa versão Ultimate do Aranha, nascida da mente de Brian Michael Bendis, e que chegou a contagiar até mesmo o filme anterior do cabeça-de-teia, HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR (2017), com um protagonista mais jovem e um melhor amigo gordinho.

Está havendo um hype curioso em relação a esta animação, que realmente deve ser vista como importante. Inclusive, talvez seja a melhor animação de super-heróis já feita para o cinema. Isso levando em consideração principalmente os aspectos técnicos, e não exatamente o modo como é desenvolvida a trama. A animação é muito boa, o conceito do aranhaverso é divertido por si só, mas o filme fica um tanto monótono ao optar por uma ação non-stop, faltando tempo para um respiro, inclusive para que certas passagens dramáticas ganhassem peso, como é o caso do que ocorre com um dos familiares de Miles Morales.

Mas tudo bem se a intenção é fazer um filme em que o entretenimento, aliado à inteligência e a uma vontade grande de dialogar com os fãs do personagem, estão à frente da dramaticidade e da profundidade dos personagens. Até porque há personagens demais para dar conta e o modo como cada um deles se apresenta é divertido e flerta com diferentes estilos, como é o caso de Peni Parker, explicitamente inspirada em um anime/mangá e se destacando da animação como um todo. Até mais do que o Porco-Aranha, que só por sua existência no filme já é um sarro. No mais, algumas piadas funcionam bem, como todas as que envolvem o Peter Parker barrigudo e loser.

Outro personagem divertido é o Homem-Aranha Noir, justamente pela voz de Nicolas Cage sendo tão fácil de ser reconhecida. Os demais atores famosos (Hailee Stenfield, Marheshala Ali, Zoë Kravitz, Chris Pine, Liev Schreiber) não têm uma voz tão facilmente reconhecíveis. Falando em Liev Schreiber, é ele quem faz a voz de Wilson Fisk, o Rei do Crime, que na animação é mostrada como uma homenagem explícita ao traço de Bill Sienkiewicz para a graphic novel clássica Demolidor - Amor e Guerra, de 1986, recentemente republicada.

Como vemos, são referências e homenagens (inclusive há uma participação do já saudoso Stan Lee) que por si só já valem a ida ao cinema, tanto para quem é leitor dos quadrinhos quanto para quem só conhece o herói pelo cinema e pela TV. E com o prêmio de melhor animação no Globo de Ouro, já não vai ser uma surpresa que ele ganhe o Oscar também. E quem sabe até uma sequência.

Atenção! Não saia do cinema antes dos créditos: há uma divertida cena extra.

+ TRÊS FILMES

VENOM

Pra quem não gosta nada do personagem e estava de saco cheio de ver o trailer, até que não achei tão ruim assim VENOM. Aliás, até pode ser ruim, mas o diretor consegue dar um andamento interessante a esse misto de filme de terror e sci-fi com filme de super-herói (ou super-vilão, no caso). O curioso é eles apostarem em uma continuação, a julgar pela cena extra. Direção: Ruben Fleischer. Ano: 2018.

AQUAMAN

James Wan, meu filho, volte para o cinema de horror, que não tá dando ficar ganhando muito dinheiro e sujando sua reputação, não. AQUAMAN é um dos filmes de super-heróis mais chatos ever e pelo visto ajudará a aumentar a ideia de uma maldição dos filmes do universo DC. E olha que eu gosto de BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA e de MULHER-MARAVILHA. Há uma parte do filme que me agradou, que é justamente quando Wan usa sua expertise de diretor de horror, que é a tal cena do barco, que é seguida por uma sequência visualmente linda. Quanto às encenações, eu até relevaria, mas não consigo imaginar que um roteiro como esse já não fosse deixado de lado desde o início. Tudo bem que os heróis da DC não têm muito essa aproximação com a humanidade e o lance é mais aventura, mas isso é mais um motivo para caprichar na empolgação das cenas de ação. Ano: 2018.

WIFI RALPH - QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet)

Achei bem melhor que o primeiro filme, pois as referências são mais próximas e feitas de maneira muito inteligente. Fora as brincadeiras com a internet, há também questões bem delicadas como a insegurança e a carência. Podiam ser melhor aprofundadas, mas até que ficou bem decente. Além disso, fica explícito o atual poderio da Disney em diversos momentos. Direção: Phil Johnston e Rich Moore. Ano: 2018.

sábado, janeiro 12, 2019

INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman)

O retorno de Spike Lee aos grandes holofotes depois de vários anos como um cineasta visto por um grupo seleto de cinéfilos e interessados em questões raciais se dá novamente com um filme de gênero - seu último grande sucesso de público foi O PLANO PERFEITO (2006). Seu novo trabalho, INFILTRADO NA KLAN (2018), é um filme policial com toques de humor baseado no livro de memórias do policial Ron Stallworth, interpretado no filme por John David Washington, filho de Denzel Washington, que foi durante um bom tempo um colaborador assíduo dos trabalhos de Lee.

O que há de extraordinário na história de Stallworth é o fato de ele ter conseguido, sendo ele negro, se infiltrar na Ku Klux Klan em 1979. Claro, ele teria que ter um agente branco em seu lugar. No filme, o agente branco e que na versão de Lee é também um judeu não-praticante é Flipp, vivido por Adam Driver. Stallworth foi o primeiro policial negro de Colorado Springs.

INFILTRADO NA KLAN brinca com o visual dos filmes da década de 1970, trazendo também referências fortes ao blaxploitation, com citações de filmes-chave do movimento, em uma agradável conversa do protagonista com seu interesse amoroso, Patrice (Laura Harrier), uma líder de um grêmio estudantil negro. Curiosamente, Spike Lee prefere não mostrar nada da intimidade física do casal.

Um dos momentos mais fortes do filme acontece quando Stallworth vai infiltrado a uma reunião de um grupo de jovens negros que trouxeram para uma palestra um importante ativista político, Kwame Ture (Corey Hawkins, em papel marcante). A cena é boa tanto pelas palavras do orador quanto pela bela edição, que enfatiza o impacto daquelas palavras para aqueles jovens, sobre ser negro e ser lindo. E Spike Lee toma cuidado para que de fato as pessoas mostradas no filme estejam mesmo muito bonitas, com destaque, obviamente, para Laura Harrier, que além de bela é um exemplo de mulher forte e convencida de suas ideias. O debate que ela tem com Stallworth sobre ter um negro dentro da polícia é interessante.

O que torna INFILTRADO NA KLAN uma obra muito bem-vinda para esses dias tão sombrios e absurdos, com homens perniciosos como Donald Trump, nos Estados Unidos, e agora Jair Bolsonaro, no Brasil, é que a história que Lee conta não é apenas a história do passado dos Estados Unidos, uma história que remonta ao século XIX e a alguns filmes clássicos, como E O VENTO LEVOU e O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, mas também a eventos recentes, mostrados ao fim da projeção, como que para nos alertar sobre os velhos perigos que têm voltado com um ódio acumulado de décadas. Como diz Renato Russo em uma de suas canções mais pungentes: "Estejamos alertas / Porque o terror continua / Só mudou de cheiro / E de uniforme".

+ TRÊS FILMES

PONTO CEGO (Blindspotting)

Sucesso de crítica no Festival de Sundance deste ano, PONTO CEGO vem engrossar os ótimos filmes que discutem questões raciais nos Estados Unidos. No caso, o tratamento diferenciado que um negro recebe, em comparação com um branco. É um drama com momentos de suspense tão fortes que é difícil não se colocar no lugar do protagonista, em seus últimos dias de liberdade condicional e com um medo terrível de que alguma merda venha a acontecer. Direção: Carlos López Estrada. Ano: 2018.

AS VIÚVAS (Widows)

A direção segura de Steve McQueen mantém sempre o interesse e o filme parece estar quase sempre acima da média - às vezes até bem mais do que isso -, mas tem uma coisa de querer ser um filme de prestígio que me incomoda um pouco, ainda mais quando vira uma espécie de versão pra Oscar de OITO MULHERES E UM SEGREDO. Mas há surpresas boas e momentos muito bons. Ano: 2018.

MY NAME IS NOW, ELZA SOARES

Não sou muito fã de Elza Soares. Na verdade, não conheço direito seu trabalho e nem me sinto atraído pelo pouco que vi. Acho o trabalho da diretora aqui muito harmônico com a personalidade e o tipo de música (ao menos das mais jazz que ela canta), já que o trabalho é de improviso. O problema é que, assim como a minha relação com a cantora, a relação com o filme é de também não me sentir convencido de que estou vendo boa arte. Mas isso pode ser só ignorância minha mesmo, não sei.. De todo modo, gostei da hora que ela canta uma canção do repertório da Núbia Lafayete. Direção: Elizabete Martins Campos. Ano: 2014.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

HOMECOMING - PRIMEIRA TEMPORADA (Homecoming - Season One)

É uma pena que Sam Esmail, um dos maiores talentos revelados na televisão, tenha feito tão pouca coisa para cinema. Digo isso porque seu trabalho é muito mais cinematográfico, ousado e estiloso do que a grande maioria dos filmes que são feitos direto para cinema. Sua obra máxima talvez seja ainda MR. ROBOT, sem data ainda para estrear a quarta temporada, mas com a popularidade de Rami Malek ganhou com BOHEMIAN RHAPSODY a série deve convidar uma audiência ainda maior, por mais exigente que ela seja com seu espectador.

Assim como acontece com MR. ROBOT, acontece também com HOMECOMING (2018), que demanda um pouco mais de atenção, especialmente em seus dois primeiros episódios, mas uma vez que estamos enredados juntos com a trama, estamos prontos para entrar na perturbadora história de uma mulher, Heidi Bergman (Julia Roberts), que trabalha supostamente como facilitadora na reabilitação de homens que voltaram da guerra. Ao mesmo tempo, em uma outra janela de aspecto, muito parecida com a câmera de um celular na vertical, acompanhamos o futuro da mulher, desta vez trabalhando como garçonete em um modesto estabelecimento de uma modesta cidadezinha da Califórnia. Ela é questionada por um homem estranho, que está investigando coisas sobre seu emprego anterior, na tal Homecoming do título. Ela diz para o homem que não conhece e nem lembra dos nomes que ele cita.

Presente e futuro vão se alternando nesta história baseada em um podcast, o que não deixa de ser algo original. Para quem está habituado com MR. ROBOT, já sabe que Sam Esmail gosta de câmeras colocadas em locais diferentes, fotografias com tonalidades distintas para passar certa atmosfera, entre outras coisas. Tod Campbell, mesmo diretor de fotografia de MR. ROBOT trabalha com Esmail nesta nova série. Mas até que em HOMECOMING ele não abusa tanto disso não.

Até porque a trama vai se tornando cada vez mais angustiante e empolgante e o espectador fica mais interessado em saber os segredos escondidos no passado daquela mulher e também o destino em particular de um de seus pacientes, vivido pelo ótimo Stephan James, que até dá um ar de CORRA! à narrativa, tanto pela interpretação quanto pelo que há de horror na trama. Mas quem rouba a cena mesmo é Bobby Cannavale, que interpreta o chefe de Heidi.

Cannavale já tinha se mostrado um ótimo personagem de poucos escrúpulos em MR. ROBOT. Em HOMECOMING, porém, ele ganha muito mais espaço para brilhar, com um papel maior. Destaque para o episódio em que ele tenta abordar a personagem de Roberts no futuro. Aliás, não posso terminar o texto sem elogiar a bela performance da atriz, que não se importa de mostrar suas marcas do tempo, em especial nas cenas que se passam no futuro. A idade chega para todos, mas com isso vem uma maior entrega e uma maturidade em lidar com personagens mais desafiadoras.

terça-feira, janeiro 08, 2019

HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA

Em PALÁCIO DE VÊNUS (1980), de Ody Fraga, um dos vários filmes mostrados em HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA, um velho cliente de um bordel pergunta a uma jovem profissional do sexo vestida de colegial o que mais lhe interessa nas histórias. A garota logo responde, em tom desavergonhado: "as sacanagens".

Eis o ponto de partida deste jogo em que a sensualidade e a liberdade sexual do cinema daquele período dão o tom neste trabalho da cineasta Fernanda Pessoa, em que são discutidos política e comportamento no Brasil dos anos 1970.

Logo em seguida, como que apresentando o "elenco", vemos títulos de alguns dos filmes que serão vistos no projeto. Quem conhece pelo menos um pouco desse cinema já fica salivando. Quem não conhece, fica intrigado e interessado em conhecer. Ou pelo menos deveria.

O fato de esses filmes terem sido realizados durante o regime militar é um prato cheio para as cenas que brincam com a perseguição ao comunismo ou com qualquer ideia contrária à do regime instituído. A Copa do Mundo de 1970 e certos ufanismos servem para mostrar a complexidade deste país cheio de contradições. Quantos sentimentos emanam da cena em que um grupo de jovens canta "Eu Te Amo, Meu Brasil", em DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM (1977), de David Cardoso?

Mas o mais interessante, além de ver as cenas que mostram o espírito festivo, galhofeiro e malandro do brasileiro, é perceber como o filme vai se costurando bem em eixos temáticos, às vezes inteligentemente mudados a partir de uma simples fala. Assim, entre os temas, há a mistura de classes sociais, a tortura, o abuso do corpo da mulher, o uso da maconha, a maior visibilidade dos grupos gays, a chegada da discotheque, o divórcio, o aborto, a economia, a agitação feminista, as greves e o início da discussão sobre a anistia aos presos políticos.

Tudo isso visto através de filmes considerados por muitos como menores ou vulgares, mas prontos a serem melhor apreciados ou descobertos. É cinema que se alimenta de cinema e que não tem interesse em ser didático, mas de mostrar uma sociedade de outrora que dialoga com essa em que estamos vivendo.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de 3 de setembro de 2018. Edição de uma versão maior, publicada na revista Movimento #1.

+ TRÊS FILMES

DUAS ESTRANHAS MULHERES


O primeiro segmento, Diana, é o melhor e mais instigante. Além do mais, Patricia Scalvi é sempre um espetáculo. Aqui ela é uma mulher que fica confusa com a dupla personalidade do marido. Baita história. A segunda história apela mais para a nudez gratuita, mas isso não é nada ruim. E há o surrealismo da trama, que é interessante. John Doo tem o seu carisma também. Direção: Jair Correia. Ano: 1981.

FELIZ ANO VELHO

É um filme sobre a perda, mas é impressionante como a maior perda que eu sinto vendo este filme nem é a perda da mobilidade do protagonista, devido a um acidente, mas a perda do amor de sua vida. E sendo este amor vivido por Malu Mader, esse peso se torna ainda maior. Malu era talvez a mais bela atriz brasileira dos anos 80. E sem precisar se esforçar em nada. As cenas em que ele briga com ela e rompe o relacionamento são muito mais dilacerantes que qualquer cena do acidente. Direção: Roberto Gervitz. Ano: 1987.

STELINHA

Finalmente, depois de anos e anos, consegui ver o famoso STELINHA, premiado em um tempo de vacas magras para o cinema brasileiro. O filme tem uma elegância que briga com a carência de recursos daquela virada de década. A história da cantora decadente que encontra um rapaz jovem e se apaixona é triste e um tanto desoladora. Roteiro ótimo do Rubem Fonseca, direção de arte simples e bonita, interpretações muito boas, direção do feria Faria Jr. Só não gostei das partes musicais. Ainda assim, um belo filme. Direção: Miguel Faria Jr. Ano: 1990.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

GLOBO DE OURO 2019

Foi uma das premiações mais entendiantes em muito tempo. Estava sentindo no ar um clima de pouca empolgação para essa, que costuma ser uma das festas mais divertidas da temporada de prêmios. Muitas vezes, melhor do que o Oscar. A melhor coisa da noite foi o prêmio Cecil B. DeMille para Jeff Bridges. Como o Globo de Ouro não costuma passar muitos trechos de filmes ou apresentações musicais, ao menos eles compensaram com um belo clipe que dá uma dimensão da ótima e rica carreira desse ator que é muitas vezes subestimado. Talvez por não ser tão versátil. Mas é só assistir o clipe que você logo vê que é digno de respeito, tendo trabalhado em filmes de grandes diretores. Inclusive, Jeff lembrou de Peter Bogdanovich e de Michael Cimino em seu discurso. Além de agradecer também aos irmãos Coen.

Quanto às premiações dos filmes do ano, o Globo de Ouro só confirmou sua característica mais pop (principalmente pela indicação de PANTERA NEGRA). Assim, os grandes vencedores da noite na categoria cinema foram BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e ROMA. Fiquei sem saber quem era Olivia Colman, a vencedora por A FAVORITA, mas é só questão de tempo para eu me familiarizar com essa atriz que parece ser bem talentosa.

Uma boa surpresa pra mim foi o prêmio para animação para HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que desbancou os filmes da Disney, da Pixar e do Wes Anderson, só para citar os mais populares. Confesso que meu interesse pelo filme aumentou. Eu que já estava animado para vê-lo.

Engraçado quando você começa a falar sobre uma noite de premiação e cita justamente os premiados, em vez das coisas que acontecem. É sinal de que não houve muita coisa interessante mesmo. E de fato, tirando o prêmio de Bridges e a beleza de várias atrizes da noite, pouca coisa me entusiasmou.

Quanto à categoria televisão, ela me interessa mais por me deixar com vontade de conhecer certos trabalhos que até então eu não sabia que existiam ou não tive tempo de pesquisar. Entre as séries e minisséries que me animaram a ver, a primeira delas que pretendo conferir é A VERY ENGLISH SCANDAL, minissérie em três episódios dirigida por Stephen Frears, sendo que meu interesse maior é pela presença do querido Hugh Grant. A minissérie ganhou o prêmio de ator coadjuvante para Ben Wishaw.

Outra minissérie que me deixou curioso foi ESCAPE AT DANNEMORA, de Ben Stiller, que ganhou prêmio de atriz para Patricia Arquette. É uma história de amor e de fuga de prisão. Não deve ser ruim, hein. Também bateu aquela vontade de conferir KILLING EVE, vencedora do prêmio de atriz para Sandra Oh.

No mais, a atriz que eu mais torcia na categoria televisão ganhou seu segundo prêmio: a incrível Rachel Brosnahan pela excelente THE MARVELOUS MRS. MAISEL, série que continuou ótima em sua segunda temporada.

Ao final, com BOHEMIAN RHAPSODY ganhando o prêmio mais cobiçado, e com a ausência de Bryan Singer, o diretor do filme, acusado de pedofilia e afastado durante as gravações, impressionante como ele não teve sequer uma citação por parte de quem esteve lá para fazer seus discursos. Enfim, não é questão de proteger o sujeito, mas fico um pouco incomodado com esse julgamento.

Falando nesses novos tempos, levando em consideração os vários discursos das mulheres vencedoras, nesse sentido, Regina King foi a que fez o discurso mais poderoso: falou que trabalharia a partir de então em equipes que tivesse mínimo de 50% de mulheres e teve apoio de algumas atrizes mais engajadas.
























Prêmios da noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): BOHEMIAN RHAPSODY
Melhor Filme (Comédia/Musical): GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Direção: Alfonso Cuarón (ROMA)
Melhor Ator (Drama): Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Christian Bale (VICE)
Melhor Atriz (Drama): Glenn Close (A ESPOSA)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Olivia Colman (A FAVORITA)
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Melhor Roteiro: GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Trilha Sonora: O PRIMEIRO HOMEM
Melhor Canção Original: "Shallow" (NASCE UMA ESTRELA)
Melhor Animação: HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Melhor Filme Estrangeiro: ROMA (México)

Televisão

Melhor Série (Drama): THE AMERICANS
Melhor Série (Comédia/Musical): THE KOMINSKY METHOD
Melhor Minissérie ou Telefilme: THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY
Melhor Ator de Série (Drama): Richard Madden (SEGURANÇA EM JOGO)
Melhor Ator de Série (Comédia): Michael Douglas (THE KOMINSKY METHOD)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Darren Criss (THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY)
Melhor Atriz de Série (Drama): Sandra Oh (KILLING EVE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Patricia Arquette (ESCAPE AT DANNEMORA)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Ben Wishaw (A VERY ENGLISH SCANDAL)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Patricia Clarkson (SHARP OBJECTS)

segunda-feira, dezembro 31, 2018

TOP 20 2018 E O BALANÇO DO ANO

1. ARÁBIA, de João Dumans e Affonso Uchôa
2. O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO, de Yorgos Lanthimos
3. À SOMBRA DE DUAS MULHERES, de Philippe Garrel
4. PARAÍSO PERDIDO, de Monique Gardenberg

5. AS BOAS MANEIRAS, de Juliana Rojas e Marco Dutra
6. EM CHAMAS, de Lee Chang-dong
7. TRAMA FANTASMA, de Paul Thomas Anderson
8. DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis

9. VERÃO, de Kirill Serebrennikov
10. ASAKO I & II, de Ryûsuke Hamaguchi
11. ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino
12. HEREDITÁRIO, de Ari Aster

13. LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig
14. CAFÉ COM CANELA, de Glenda Inácio e Ary Rosa
15. TULLY, de Jason Reitman
16. VINGADORES - GUERRA INFINITA, de Anthony e Joe Russo

17. CANASTRA SUJA, de Caio Sóh
18. A CÂMERA DE CLAIRE, de Hong Sang-soo
19. O AMANTE DUPLO, de François Ozon
20. O BEIJO NO ASFALTO, de Murilo Benício

Menções honrosas

AMANTE POR UM DIA, de Philippe Garrel
RASGA CORAÇÃO, de Jorge Furtado
CUSTÓDIA, de Xavier Legrand
PONTO CEGO, de Carlos López Estrada
SEVERINA, de Felipe Hirsch
PARIS 8, de Jean-Paul Civeyrac
UMA NOITE DE 12 ANOS, de Álvaro Brechner
EX-PAJÉ, de Luiz Bolognesi
MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT, de Christopher McQuarrie
FERRUGEM, de Aly Muritiba

2018 não foi um ano fácil. Foi um ano comprido e sofrido. A Copa do Mundo parece ter ocorrido há muitos meses. E as eleições foram por demais desgastantes, especialmente para aqueles que lutaram pela manutenção da democracia e por um governo que respeitasse mais a inteligência e a sensibilidade do que a estupidez e a brutalidade. Em vez disso, vamos torcer e lutar para que nossas conquistas sejam pelo menos mantidas ao longo desse processo que só Deus sabe como se dará.

Para minha vida pessoal também não foi fácil. Mas ao menos posso dizer que tentei, mesmo levando cabeçadas e nadando muitas vezes contra a maré. Quando portas pareciam se abrir, ou eu não sabia como lidar e estragava tudo, ou essas mesmas portas se fechavam rapidamente. Foi o ano em que comecei a fazer análise. Comecei tarde demais, eu diria. Mas acho que só isso já tem algum significado: ando querendo descobrir mais sobre mim, cuidar mais de mim. Tentar entender o que se passa e se passou. Também ando cuidando mais de mim do ponto de vista físico. 

Foi um ano também muito cansativo do ponto de vista do trabalho. Meu corpo cansado não aguentou e o blog acabou sendo prejudicado por isso. Nunca em nenhum outro ano eu escrevi tão pouco - houve um bloqueio criativo também para a criação de outros textos. Veio uma sensação de que meus escritos são ruins. E de que, no blog, só escrevo agora para mim. Mas, mesmo em tempos de decadência de blogs, até acho que estou resistindo. Cá estou fazendo a tradicional postagem de fim de ano, que preparo com alguma antecedência, pelo trabalho que dá. Alguém deve estar lendo, tenho certeza. Vamos aos filmes.

A melhor alegria deste ano para os cinéfilos foi a excelente safra de filmes brasileiros de alta qualidade. Se no ano passado nenhum filme brasileiro esteve presente em meu top 20, neste ano tenho seis filmes em minha lista. Este foi o ano em que eu tive certeza de que o cinema brasileiro é um dos melhores do mundo. Ajudou muito ler os livros da Andrea Ormond, mas também ajudou demais poder ver esses filmes maravilhosos no cinema e eles falarem tanto para o nosso momento.

Sim, pois, levando em consideração a situação política em que nos encontramos, cada gesto se reveste de uma importância imensa. Por isso ARÁBIA, da dupla João Dumans e Affonso Uchôa, encabeça minha lista de favoritos. É o filme que mais fala à classe trabalhadora, que mais tem um espírito de rebelião, mas também de certa melancolia poética poucas vezes vista em nosso cinema.
Nosso cinema em 2018 foi bem plural: tivemos um melodrama musical maravilhoso e romântico e que faz com que nos esqueçamos dos problemas do dia a dia para adentrar uma espécie de paraíso que nos enfeitiça e aquebranta nosso coração com o melhor da música feita sem medo de ser cafona ou exagerada. PARAÍSO PERDIDO, de Monique Gardenberg, só poderia ser brasileiro. Além de tudo, é um filme que louva toda forma de amar. 

Um dos melhores filmes de terror do ano também foi brasileiro, sim, senhor. AS BOAS MANEIRAS, de Juliana Rojas e Marco Dutra, conta uma história de lobisomem como se nunca viu antes. Dividido em lado A e lado B, no primeiro lado do disco temos uma relação de afeto entre duas mulheres de classes sociais distintas; e no outro lado, a história de amor entre mãe e filho, um filho que por acaso é um filhote de lobisomem.

Falando em afeto, como não gostar do baiano CAFÉ COM CANELA, de Glenda Inácio e Ary Rosa? É dessas obras que enchem o coração de amor e é feito com uma simplicidade que encanta ainda mais. CANASTRA SUJA, de Caio Sóh, é outra obra feita na raça, mas com atores conhecidos no elenco. Uma obra que vai fundo na desgraça de uma família, até lembrando Nelson Rodrigues. E, pra fechar os brasileiros, eis que no final do ano aparece uma surpresa linda: uma adaptação de uma peça de Nelson dirigida pelo estreante Murilo Benício. O texto original de O BEIJO NO ASFALTO foi lançado em 1960, mas o filme parece falar mais ainda para o cenário dos dias de hoje, um cenário de distopia crescente.

O cinema de horror aparentemente não foi tão cheio de grande obras, pelo menos dentre as que surgiram no circuito comercial, mas podemos destacar, além do já citado AS BOAS MANEIRAS, dois filmes tão distintos entre si e que poderiam ser muito bem classificados no rótulo pós-horror, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO, de Yorgos Lanthimos, e HEREDITÁRIO, de Ari Aster. O primeiro nem está aparecendo nas listas de horror por ser tão diferente, mas foi o filme que mais me meteu medo neste ano, pois lida com o medo irracional. Já a obra de estreia de Aster tem o mérito de nos apresentar à tragédia pessoal dos personagens (o que é a cena da crise alérgica, hein?) para só então adentrar o horror explícito mais próximo do convencional.

Tangenciando o horror e adentrando a seara do suspense, tivemos o maravilhoso EM CHAMAS, de Lee Chang-dong, que encanta com a delicadeza da direção e o impacto de vários momentos eletrizantes. O AMANTE DUPLO, de François Ozon, por sua vez, já é daqueles suspenses eróticos desavergonhados que costumavam produzir aos montes nos anos 90, mas que infelizmente andam meio sumidos. A diferença é que temos um cineasta que está sempre consciente do que está fazendo. Por isso é tão divertido. 

Dos filmes do Oscar, tivemos algumas belezuras: TRAMA FANTASMA, de Paul Thomas Anderson, é uma história de amor das mais sombrias já contadas, mas também das mais belas; ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino, é também uma história de amor, mas bem mais solar e com uma sexualidade pulsante; LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig, é a história do difícil amadurecimento da jovem Lady Bird e sua busca de sair de sua cidade natal, apesar dos obstáculos.

E se 2018 foi um ano sem um Woody Allen (triste isso), ao menos tivemos o prazer de ver duas obras de dois grandes cineastas da atualidade surgindo nos cinemas. Separei só uma de cada para este top 20: À SOMBRA DE DUAS MULHERES, do francês Philippe Garrel, que trata de relações sentimentais de forma mágica (como eu amo este filme!); e A CÂMERA DE CLAIRE, do sul-coreano Hong Sang-soo, desses diretores que não precisam se esforçar para parir uma pérola atrás da outra.   

E, pelo visto, tratar de relações ou da busca de um amor parece ser quase que um denominador comum dessa lista. Daí surge uma obra como DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, que trata da busca do amor romântico por parte de uma mulher madura divorciada. E o que dizer de ASAKO I & II, de Ryûsuke Hamaguichi, que lida de forma singular com a história da paixão de uma jovem por um rapaz e de uma posterior virada na sua vida? E tivemos um dos mais felizes exemplares do cinema russo, o delicioso VERÃO, de Kirill Serebrennikov, que fala de música pop, mas também de relacionamentos, de um triângulo amoroso. E pensar na vida íntima e no que o "eu do passado" pode dizer para o "eu do presente" traz uma obra tão surpreendente como TULLY, de Jason Reitman.

Para não dizer que não falei de blockbusters, destaque para o melhor filme do universo cinematográfico Marvel até o momento. VINGADORES - GUERRA INFINITA, dos irmãos Anthony e Joe Russo, faz tudo o que veio de HOMEMDE FERRO para cá ter valido a pena. Enquanto a DC come poeira tentando ser engraçada como a Marvel, a Casa das Ideias sabe trazer uma história sombria no momento certo. Na expectativa pela continuação.

Top 5 Piores do Ano

Acho que neste ano eu evitei ainda mais tranqueiras do que no ano passado. Infelizmente acabei perdendo, inclusive, vários filmes de horror que pintaram por aqui e que eu gosto de ver, mesmo os potencialmente ruins. Assim, até pensei em não incluir uma lista de piores. É a parte que menos me interessa. Mas só pra manter a tradição, segue abaixo o que vi de pior nos cinemas:

1. CINQUENTA TONS DE LIBERDADE, de James Foley
2. A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER, de Peter e Michael Spiering
3. ALGUÉM COMO EU, de Leonel Vieira
4. LUA DE JÚPITER, de Kornél Mundruczó
5. AQUAMAN, de James Wan

As séries e minisséries

Se no ano passado eu vi poucas séries, neste ano vi menos ainda. Por isso, nem acho justo numerar 10. Vamos numerar apenas cinco, então. Vale destacar que uma delas é maravilhosa, a que encabeça a lista, totalmente dirigida pelo jovem mestre Mike Flanagan.

Top 5 Musas do Ano

Quanto à beleza dos rostos femininos, uma das seções de que mais gosto de fazer para o blog funciona como um colírio para os olhos. Desta vez, temos duas brasileiras no mínimo apaixonantes em suas performances.

1. Bruna Linzmeyer (O GRANDE CIRCO MÍSTICO e O BANQUETE)

2. Kaya Scodelario (MAZE RUNNER - A CURA MORTAL)

3. Caroline Abras  (ALGUMA COISA ASSIM)

4. Matilda Lutz  (VINGANÇA)

Irina Starshenbaum (VERÃO)

Clássicos revisitados (ou vistos pela primeira vez) na telona

ACOSSADO, de Jean-Luc Godard
BAR ESPERANÇA (O ÚLTIMO QUE FECHA), de Hugo Carvana
LOUCURAS DE UMA PRIMAVERA, de Louis Malle
O ASSALTO AO TREM PAGADOR, de Roberto Farias
O HOMEM DA CAPA PRETA, de Sergio Rezende
SONATA DE OUTONO, de Ingmar Bergman
STELINHA, de Miguel Faria Jr.
STROMBOLI, de Roberto Rossellini
Z, de Costa-Gavras

Top 20 vistos (pela primeira vez) na telinha (em ordem alfabética)

A LEI DA FRONTEIRA, de Allan Dwan
A PATRULHA DA MADRUGADA, de Howard Hawks
A REGIÃO SELVAGEM, de Amat Escalante
ANTIPORNO, de Sion Sono
CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO, de Alan Oliveira
ELEGIA DE OSAKA, de Kenji Mizoguchi
FIRST REFORMED, de Paul Schrader
GATOS, de Ceyda Torun
INVERNO DE SANGUE EM VENEZA, de Nicolas Roeg
MULHER MOLHADA AO VENTO, de Akihiko Shiota
NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, de Murilo Salles
O CONTO, de Jennifer Fox
PERFUME DE MULHER, de Dino Risi
PRA FRENTE, BRASIL, de Roberto Farias
PROCURA INSACIÁVEL, de Milos Forman
RENDEZ-VOUS EM PARIS, de Éric Rohmer
REPÚBLICA DOS ASSASSINOS, de Miguel Faria Jr.
ROMA, de Alfonso Cuarón

SEM LEI E SEM ALMA, de John Sturges
TERROR CEGO, de Richard Fleischer

Revisões na telinha

BAR ESPERANÇA (O ÚLTIMO QUE FECHA), de Hugo Carvana
BETE BALANÇO, de Lael Rodrigues
CABO DO MEDO, de Martin Scorsese
CORAÇÃO SELVAGEM, de David Lynch
FELIZ ANO VELHO, de Roberto Gervitz
VIDA DE SOLTEIRO, de Cameron Crowe


Feliz 2019!

Lembrando de uma fala de George Constanza de SEINFELD, eu não quero mais ter esperança, minha meta agora é não ter mais esperança nenhuma. De certa forma, até faz algum sentido. Não que esteja sendo pessimista, embora o cenário ajude um bocado a ser, mas a questão é que às vezes esperamos demais e as coisas não acontecem e aí surgem as frustrações. O que não quer dizer que não devamos nos preparar, traçar planos e metas para nossa felicidade pessoal e daqueles que amamos.

Uma coisa que eu aprendi neste ano foi a dar valor às pequenas coisas, às coisas do cotidiano que há alguns anos eu achava pouco importantes, como dar comida ao Jorginho e vê-lo feliz balançando o rabo; dar atenção à minha mãe e às minhas irmãs, por mais que eu me ache pouco atencioso; sair sozinho ou com um amigo ou amiga para um bom cinema (se bem que isso, o cinema, eu não coloco como pequena coisa não); conversar com os poucos amigos mais chegados e estar imensamente grato pela confiança que eles me depositam; estar se sentindo bem fisicamente, já que dores não são nada legais. Enfim, acho que me fiz por entender e isso é até meio óbvio de se dizer, mas às vezes a gente esquece. Interessante a gente estar neste mundo para aprender, mas esquecer e quebrar a cara de novo tantas e tantas vezes, não é?

Para encerrar, desejo que 2019 seja uma surpresa muito positiva para nós em vários campos de nossa vida: afetiva, profissional, financeira, estudantil e que coisas boas como viagens e artes sejam mais presentes. E quem sabe até tenhamos uma reviravolta para melhor no campo da política. Dreaming is free, como diz a canção. Até breve, obrigado pela leitura e viva a arte, vida a resistência e viva o cinema brasileiro!