domingo, janeiro 19, 2020

18 CURTAS E DOIS MÉDIAS BRASILEIROS



THINYA

O que mais me impressiona neste filme é o quanto ele é capaz de causar medo lá perto do final, simplesmente usando fotos de gente normal, uma música ao fundo e a narração de uma indígena. Todo o filme são fotos e narração de uma índia. Ao final, se diz de onde é que aquilo é tirado, mas ao longo de todo o filme fica o desconforto sobre as pessoas apresentadas e a narração. Mas isso é positivo e o filme é uma experiência única. Principalmente em seus minutos finais. Acredito que a nossa consciência do quanto o homem branco foi capaz de matar/roubar/estuprar para obter o que obteve faz toda a diferença. Quem são os selvagens? Direção: Lia Letícia. Ano: 2019.

TEORIA SOBRE UM PLANETA ESTRANHO

Que filme lindo! Já me ganhou com a primeira cena, com o casal de protagonistas saindo entusiasmados para tomar banho de chuva em lugar paradisíaco do interior mineiro. Acontece algo abrupto e depois somos levados para o que parece ser o passado recente, imagens que parecem saídas de um filme do Malick, inclusive com um bocado de experimentação no uso das câmeras, das imagens, mais uma vez valorizando a beleza da natureza, mas também a beleza do rosto e dos sorrisos dos namorados/noivos. O detalhe da deficiência auditiva da personagem feminina é outro acerto e joga poesia também em algumas cenas, brincando com o áudio, o ir e vir. Considero um dos trabalhos de curta-metragem mais bonitos dos últimos anos. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2019.

JODERISMO

Continuação de MAMATA (2017), filme anterior de Marcus Curvelo, este aqui consegue ser mais perturbador ainda, já que retrata este momento de desesperança que estamos vivendo, passando agora do primeiro ano de um governo de extrema direita. Claro que o retrato que é pintado no Brasil é ainda mais doentio, mas é também um reflexo do estado emocional do protagonista, solitário e sentindo-se abandonado pela namorada, fugindo para uma deserta Brasília, pois é onde os imóveis são mais baratos e porque todos os seus amigos se suicidaram. Há uma dramaticidade intensa, mas há também um senso de humor muito próprio. Muito engraçada a cena em que o protagonista liga para os pais. E o que é a cena da música do Lula, hein?! Ano: 2019.

AINDA ONTEM

Retrato bonito de uma juventude que procura encontrar seu rumo em uma cidade/país que não oferece muitas opções para pessoas menos favorecidas da sociedade. É um filme que se destaca pelo carinho com que os personagens são tratados, mesmo que tenhamos apenas 20 minutos para conhecê-los. Especialmente o protagonista. O namoro com o mundo do hip-hop se mostra como uma maneira de abraçar o sentimento de deslocamento desses jovens frente à parcela rica dos curitibanos, algo que se explicita na cena da festa. Direção: Jessica Candal. Ano: 2019.

FARTURA

Um estudo sobre a importância da comida nas festas em famílias negras, em especial em famílias que adotam religiões de matriz africana. O que mais me chamou a atenção foi a questão foi a minha maneira de me comportar geralmente em festas e de como me sinto desconfortável na grande maioria delas. Mas esse é um problema meu. Nos aspectos estéticos, a escolha por apresentar apenas fotos e imagens de arquivo (a maioria de VHS) foi acertada, assim como os depoimentos em voice-over. Também gostei de ver a questão da família oferecendo comida para todos, de portas abertas, algo muito mais comum de ver em famílias pobres. Nas famílias ricas, come-se de portas fechadas. E a comida não falta. Direção: Yasmin Thayná. Ano: 2019.

GUARÁ

Um filme de lobisomem em que em vez de um lobo temos um guará e a ação acontecendo dentro do espaço de Goiânia. O espaço geográfico faz toda a diferença, tanto no sentido visual quanto nas falas dos personagens, algumas delas se demorando bastante, como a cena dos dois policiais dentro da viatura. O visual do monstro é interessante. Como é claramente uma produção de baixo orçamento, as escolhas estéticas para representar as mortes são muito felizes, como a cena em que vemos o sangue descendo em cima do distintivo de um soldado. O último plano-sequência também é muito bom. Ao final, um simbolismo que traz ao filme uma carga política que havia sido esquecida logo no início, quando vemos informações sobre a quantidade imensa de estupros cometidos no Brasil. Direção: Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista. Ano: 2019.

TUDO QUE É APERTADO RASGA

A questão do papel do negro na sociedade brasileira e nas artes ainda vai durar muito tempo para se esgotar. Se é que um dia vai. Inclusive, com um governo retrógrado desses. Este curta traz imagens de filmes brasileiros protagonizados por negros e dá especial destaque, em entrevistas de arquivo, para dois grandes da dramaturgia, Grande Otelo e Zezé Motta. Há também Ruth de Souza, mas aparece bem menos. A estrutura do filme parece prometer algo maior, mas as imagens e as palavras daquelas pessoas são tão fortes que já são suficientes para que vejamos este filme. Direção: Fabio Rodrigues Filho. Ano: 2019.

ESPECIAL DE NATAL - PORTA DOS FUNDOS: A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO

Assisti em duas partes este filminho cujo única qualidade é usar sua liberdade para transgredir, brincar. Pena que o pessoal do Porta dos Fundos não consegue fazer algo bom fora do território das esquetes, que é de onde eles têm obtido mais sucesso, ainda que de maneira irregular. De todo modo, o sucesso deste aqui é de popularidade (ou de falta de) devido ao modo como brinca com os personagens do Novo Testamento. O roteiro é preguiçoso e não há timing. Talvez a piada que melhor funcione seja a de Deus se aproximando de Maria. Ainda assim, nada que faça rir. Direção: Rodrigo Van Der Put. Ano: 2019.

O BANDO SAGRADO

Outro trabalho corajoso de Breno Baptista. Já tinha visto MONSTRO (2015), que também trata das relações homoafetivas e do impulso intenso do desejo, e também utilizando imagens de impacto. Aqui há cenas de felação e outras situações de intimidade entre dois homens, o que é interessante para que esse tipo de cena se naturalize. Por mais que seja um trabalho que seja visto por um número pequeno de espectadores, ser um filme LGBT e ser o nome de Baptista cada vez mais forte nos festivais ajuda a aumentar esse número. Aqui há o interessante paralelo entre um sonho relativo a um grupo de guerreiros homossexuais do passado e o desejo e o encontro de Breno com um rapaz. Ano: 2019.

REVOADA

Outro filme LGBT de cujo realizador eu já havia visto um filme em 2015 (De Terça pra Quarta). Este tem um lirismo muito bonito, com uma narração em voice-over do protagonista lembrando de tanajuras na infância, ao mesmo tempo em que passeia por Fortaleza com o seu paquera. A geografia é explorada, assim como as conversas simples e as entrelinhas que eventualmente ficam entre os diálogos dos dois. O preconceito dos transeuntes não passa batido, mas isso não parece perturbar muito os personagens, que seguem cuidando daquilo que lhes interessa mais. E seguem felizes. Direção: Victor Costa Lopes. Ano: 2019.

ONDE A NOITE NÃO ADORMECE

Certos filmes são importantes serem vistos principalmente para entendermos nossa ignorância em se tratando de alguns assuntos. No caso, a minha ignorância quando o assunto é religiões afrobrasileiras. Neste curta temos a presença de três personagens que passam a noite executando rituais e/ou oferendas a entidades do candomblé, creio eu. Falta em mim a capacidade de perceber a beleza nessa cultura, principalmente pela minha formação religiosa. Aí acabo vendo com algum distanciamento e às vezes até com certo desconforto. Mas antes essa sensação era muito mais acentuada. Direção: Paolla Martins e Rodrigo Ferreira. Ano: 2018.

NEGRUM3

Um filme que tem força tanto estética quanto como um lugar de fala dos negros, em especial dos negros LGBT, de sua reivindicação por direitos iguais, pelo respeito aos seus corpos. Quanto à parte técnica, chegam a impressionar os enquadramentos, os movimentos de câmera, a direção de arte, as cores, a valorização da melanina diante das cores escolhidas. Direção: Diego Paulino. Ano: 2018.

CAETANA

Bela realização paraibana sobre a morte não dita, mas percebida, de alguém, e a reunião de pessoas em torno de seu velório. Flagra as conversas paralelas das pessoas na casa, sempre tentando evitar a fala sobre o morto ou a morta, mas o sentimento/a sensação fica ali no ar. Uma maneira de trazer, ao mesmo tempo, um sentimento de respeito e de mostrar que a vida continua. Pequenos detalhes são importantes, como o uso dos celulares (ou a hora em que eles são impróprios), a brincadeira no ônibus etc. Direção: Caio Bernardo. Ano: 2019.

CARNE

Acho incrível como ideias aparentemente simples podem render obras tão maravilhosas. É o caso deste Carne, curta de animação realizado em São Paulo, sobre o corpo da mulher. Em sua maioria, o corpo que sofre algum tipo de preconceito ou rejeição. Seja o corpo da mulher gorda, ou da transexual negra, ou da mulher idosa (a exceção talvez seja da moça que acabou de menstruar). E tudo contado apenas com os áudios dessas mulheres e diferentes tipos de animação (lindas) passando pela tela para ajudar a contar essas histórias, esses depoimentos. Adorei! Direção: Camila Kater. Ano: 2019.

APNEIA

A animação brasileira chegou a um estágio em que não fica nada a dever a nenhum outro país. Pena que pouca gente entre em contato, já que as melhores produções ainda são no formato de curta-metragem, em geral acessado principalmente pelos frequentadores dos festivais. E são animações adultas. Apneia, produzido no Paraná, segue uma pegada existencial e por um caminho de se perder no próprio ser. A protagonista é uma menina que nasceu sob o signo de peixes e o filme é lotado de água (o mar é onipresente) e dos elementos próximos (a casa dela fica ao redor de um aquário). Muita coisa achei confusa, mas acho coerente com uma proposta pisciana de se perder no oceano de sentimentos. Aqui há literalmente alguém se perdendo, sentindo-se confusa, mas talvez também se sentindo um tanto especial. "Mãe, quem é de Peixes veio mesmo do mar?". Direção: Carol Sakura e Walkir Fernandes. Ano: 2019.

DEUSA OLÍMPICA

Belo documentário que tenta resgatar a vida e a obra de uma artista plástica trans que tinha uma atração muito forte pela Igreja, pelos seus simbolismos, seus sacramentos e sua história. O filme já começa com imagens de pinturas em uma igreja, depois temos os diretores entrevistam a mãe da artista, assim como padres. Há uma curiosa entrevista que a artista deu no programa do Lúcio Brasileiro. O que fica é a impressão de que, mesmo nos dias de hoje, ela ainda seria maltrada como foi até sua morte, em 1998. Direção: Emília Schramm, Jéssika SOuza, Pedro Luis Viana e Rafael Brasileiro. Ano: 2018.

SETE ANOS EM MAIO

Quem se apaixonou por ARÁBIA (2017) e pelo ator de si mesmo Rafael dos Santos certamente vai ficar feliz em ver este SETE ANOS EM MAIO. Feliz talvez não seja a palavra certa, já que o filme se mostra basicamente como um monólogo de Rafael, contando do quanto sofreu depois de ter sido torturado por policiais e ter fugido para não morrer. A história é sofrida e talvez algo no meio do processo tenha sido mudado pela direção de Affonso Uchôa ou pelo próprio Rafael, mas a essência está ali, toda sua dor, sua raiva, sua tristeza. E o desejo de se vingar dos donos do poder, como no final de Arábia. Ano: 2019. (foto)

A MULHER QUE SOU

Belo filme sobre recomeços. Muito envolvente, com personagens que encantam no ato. Tanto a mãe e a filha quanto o vendedor, vivido por Renato Novaes, conhecido de quem acompanha os filmes de Contagem-MG. A cena das carícias dos personagens é bem criativa, tem um trabalho de experimentação que combina tanto com o jazz que ouvimos quanto com a cor de suas peles. Dá uma sensação de que poderia render mais, que fica algo no ar, mas isso acaba sendo positivo também. Sinal de que é um filme gostoso de ver. Direção: Nathália Tereza. Ano: 2019.

OCEANO

Adorei a simplicidade e a maestria narrativa deste curta. Às vezes não precisa inventar muita coisa para fazer uma bela obra. E as duas diretoras sabem o que fazem com a câmera em mãos e uma sensibilidade muito aguçada para transformar a ideia em imagens e sons. Temos a história de uma moça que pega um ônibus na rodoviária de Fortaleza para uma cidade do interior e acaba tendo que arranjar outros meios para chegar a seu destino. Lindo tudo: a representação do lugar longe de tudo, os personagens, e especialmente o final. Direção: Amanda Pontes e Michelline Helena. Ano: 2019.

SANGRO

Bela animação que narra a dor de quem se descobre soropositivo. Apesar de haver medicações que fazem com que o vírus não seja mais uma ameaça de morte, ainda há a questão do preconceito, que segue forte, até porque há um silenciamento entre as pessoas. Aqui temos um depoimento real, mas a animação, o modo como são dispostas as imagens, como num oceano de emoções, fazem toda a diferença. Uma belezura. Direção: Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR. Ano: 2019.

sexta-feira, janeiro 10, 2020

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la Jeune Fille en Feu)

A relação que temos com alguns filmes é semelhante ao tempo de uma história de amor vivida: queremos que o filme fique um pouco mais com a gente, que aqueles sentimentos experienciados durante a sessão permaneçam não só na memória afetiva, mas também em nosso próprio corpo.

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (2019), de Céline Sciamma, narra de maneira lenta e gradual a história de amor de duas jovens mulheres. Uma delas, Marianne (Noémie Merlant), é a pintora e chega a uma ilha afastada para pintar o retrato de uma mulher que está prometida a um homem italiano. A mulher, a que dá título ao filme, é Héloïse (Adèle Haenel), e, a princípio, o sentimento que mais passa no olhar e nos gestos dessa jovem é de raiva. Casar com um homem que sequer viu na vida não lhe parece algo muito agradável.

A missão de Marianne é acompanhar Héloïse em caminhadas e, a partir do olhar, ir formando a memória do rosto e do corpo de seu objeto de estudo. O olhar de Marianne, porém, acaba se confundindo com um olhar de desejo. Como o filme não deixa claro os pensamentos de cada uma (a voice-over é usada apenas para introduzir e encerrar a história), muito do que captamos estão nos gestos. E é curioso como esses gestos são verbalizados pelas duas protagonistas em determinada cena, quando elas já se conhecem um pouco.

Essa verbalização também é um ponto crucial para a criação de uma das cenas mais lindas do filme: aquela em que as duas falam da memória de sua história de amor vivida. Compartilhar essas experiências vividas é um privilégio que poucos casais têm. E eis o motivo de tal cena, tão impregnada de melancolia, ser também um momento de alegria.

Um detalhe importante neste trabalho de Céline Sciamma é que praticamente não há homens na narrativa. Mesmo o sujeito que engravida a empregada não aparece. Aquele espaço é das mulheres, e por isso há tantas cenas em que elas compartilham tanto a alegria (jogando cartas, ouvindo um coral ao redor de uma fogueira etc) quanto a dor, como na cena do aborto. Aliás, a tal cena foi construída de tal maneira que a dor sentida fosse muito além da dor física. A diretora de fotografia, Claire Maton, que contribui muito para a criação de texturas belíssimas, semelhantes a pinturas, é a mesma de UM ESTRANHO NO LAGO e ATLANTIQUE, para citar dois filmes consagrados pela crítica.

Quanto ao envolvimento afetivo das duas mulheres, cada plano é de fundamental importância, por mais que as duas, lá no final, digam que perderam tempo, ao se demorarem na aproximação. Essa verbalização serve mais para deixar claro o sentimento mencionado no primeiro parágrafo: o de querer permanecer mais tempo ao lado da pessoa amada.

Como um filme escrito e dirigido por uma mulher e também como um exemplar deste momento de conscientização mais clara de que o papel da mulher na história da sociedade foi apagado ou sabotado pelos homens, RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS é uma das obras mais importantes do cinema recente, conseguindo ser tanto uma história de amor impossível (e por isso tão bela quanto as mais belas tragédias clássicas) quanto um gesto político.

+ TRÊS FILMES

ADAM

Um filme que cresce muito mais quando se apresenta como um filme sobre a maternidade do que quando passa boa parte de sua metragem tratando da amizade entre as duas mulheres. Não que não funcione, mas ADAM cresce muito quando passa a tratar do drama pós-gravidez da mulher que chega sem ter onde ficar em uma região muito tradicional do Marrocos. Há o peso de ela estar carregando um "filho sem pai", algo que pesa naquele lugar, naquela época. Não sei o quanto o filme vai cativar as plateias de hoje, principalmente as dos países ocidentais, que vivem uma nova realidade. No mais, eu não lembro de nenhum outro filme que tenha mostrado de maneira tão focada as primeiras horas/dias após o parto. Por isso foi tão importante ter sido dirigido e roteirizado por uma mulher. Direção: Maryam Touzani. Ano: 2019.

AS GOLPISTAS (Hustlers)

Difícil entender o hype que esse filme vem provocando, a não ser por uma campanha de marketing forte e também pela questão da sororidade, e o filme quase mostrar isso de forma comovente. É como se houvesse dois filmes em um: aquele em que temos mulheres golpistas e impiedosas prontas para tirar até o último centavo dos homens; e o que as apresenta como uma espécie de família e procura mostrar o aspecto mais frágil das personagens. Falha principalmente no segundo aspecto. E há também a intenção de vender o filme como uma dessas fitas com times de criminosos com tipos característicos diferentes. Acontece que, além de Constance Wu e Jennifer Lopez, apenas a loirinha que vomita ganha alguma visibilidade. Mesmo com esses poréns, é um filme bem conduzido e gostoso de ver. Direção: Lorene Scafaria. Ano: 2019.

PAPICHA

Custei um pouco a me envolver com o drama das personagens (talvez por causa do envolvimento com moda, não sei), mas sei sim que é um filme importante dentro deste momento em que o mundo parece estar cada vez mais tentando voltar à Idade Média. O que eu não me conformava, vendo o filme, era com o fato de a protagonista não querer sair daquele país, mesmo presenciando mortes e barbaridades cada vez mais intensas. O filme é bom em provocar um desconforto com alguns ângulos de câmera fora do comum. Direção: Mounia Meddour. Ano: 2019.

segunda-feira, janeiro 06, 2020

GLOBO DE OURO 2020

"Foi uma das premiações mais entendiantes em muito tempo. Estava sentindo no ar um clima de pouca empolgação para essa, que costuma ser uma das festas mais divertidas da temporada de prêmios. Muitas vezes, melhor do que o Oscar. A melhor coisa da noite foi o prêmio Cecil B. DeMille...". Assim começava minha descrição para o blog da premiação do Globo de Ouro do ano passado. Fiquei surpreso, pois, neste ano, a coisa se repetiu, inclusive no que se refere ao Cecil B. DeMille, que foi para Tom Hanks.

Diria que este ano foi melhor por causa da apresentação muito pessoal de Charlize Theron, que contou de quantas vezes assistiu ao VHS de SPLASH - UMA SEREIA EM MINHA VIDA (1984), o primeiro grande sucesso de Tom Hanks. Ela dizia que, ali na África do Sul, ela sonhava ser a sereia que seria salva por aquele rapaz comum, mas adorável. Algo do tipo. Também contou da vez em que fez uma audição e quem a entrevistou foi justamente Tom Hanks, que lhe deu a chance de estar no elenco de THE WONDERS - O SONHO NÃO ACABOU (1996). E aí tivemos o belo e emocionado discurso de Hanks, que ainda deu uma aula para aquelas pessoas todas, agora que é um ator veterano. Interessante como esta premiação do Globo de Ouro foi marcada pelo respeito que os mais jovens têm pelos mais velhos.

Porém, mais uma vez, não foi uma festa exatamente memorável. O tom já foi dado no começo, quando Rick Gervais, o apresentador, demonstrou um bocado de desdém em seu discurso: "puxa, ainda é o primeiro prêmio?", como que para dizer que a noite chata mal estava começando. Na verdade, não consigo achar chato, já que já faz um tempo que assisto a essas premiações trocando ideias com os amigos nas redes sociais. E os prêmios são entregues de maneira tão rápida que mal dá tempo de aproveitar a glória de tal premiação.

O maior vencedor da noite foi ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD, que ganhou três prêmios: melhor filme (comédia), melhor ator coadjuvante para Brad Pitt e melhor roteiro para o próprio Quentin Tarantino. Aliás, chamar a linda (acho que não havia mulher mais linda na festa) Margot Robbie para entregar o prêmio de roteiro já era uma deixa. Por mais que Tarantino, nesse filme em especial, se destaque mais na direção do que no roteiro, muitos ligam o seu cinema como cinema de roteiro, por causa dos diálogos singulares e tal.

Em seguida, 1917, de Sam Mendes venceu os prêmios de melhor filme (drama) e melhor direção. Outros que também faturou dois prêmios importantes foi CORINGA, que ganhou melhor ator para Joaquin Phoenix e melhor trilha sonora para a islandesa Hildur Guðnadóttir. Ela já havia subido ao palco no ano passado, no Emmy, pela trilha de CHERNOBYL.

Falando em CHERNOBYL, esta minissérie fantástica da HBO foi uma das vencedoras da noite, ganhando os prêmios de melhor minissérie e melhor ator coadjuvante para Stellan Skarsgård. Outras produções para a TV que ganharam dois prêmios foram FLEABAG (melhor série - comédia e melhor atriz para a criadora Phoebe Waller-Bridge) e SUCCESSION (melhor série - drama e melhor ator para Brian Cox).

As premiações de TV funcionam como belas dicas de séries e minisséries que merecem a nossa atenção, mas que, infelizmente, acabam não recebendo por falta de tempo e pela necessidade (no meu caso) de priorizar os filmes. Mas há sempre algumas séries/minisséries que me conquistam graças ao empurrãozinho da premiação. Neste ano, eu fiquei muito interessado em FOSSE/VERDON (prêmio de melhor atriz para Michelle Williams), THE ACT (prêmio de atriz coadjuvante para Patricia Arquette) e INACREDITÁVEL, que não ganhou nenhum prêmio, mas traz no elenco Kaitlyn Dever e Toni Collette, para citar as mais conhecidas.

No mais, a noite também ficou marcada pela esnobada que deram na Netflix. Das 34 indicações, o serviço de streaming só ganhou duas. Para quem entrou na festa achando que os prêmios para O IRLANDÊS eram garantidos, perdeu feio. Vamos ver como eles se sairão no Oscar agora.



Prêmios da noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): 1917
Melhor Filme (Comédia/Musical): ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD
Melhor Direção: Sam Mendes (1917)
Melhor Ator (Drama): Joaquin Phoenix (CORINGA)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Taron Egerton (ROCKETMAN)
Melhor Atriz (Drama): Renée Zellweger (JUDY)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Awkwafina (THE FAREWELL)
Melhor Ator Coadjuvante: Brad Pitt (ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD)
Melhor Atriz Coadjuvante: Laura Dern (HISTÓRIA DE UM CASAMENTO)
Melhor Roteiro: ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD
Melhor Trilha Sonora: CORINGA
Melhor Canção Original: "I'm Gonna Love Me Again" (ROCKETMAN)
Melhor Animação: LINK PERDIDO
Melhor Filme Estrangeiro: PARASITA (Coreia do Sul)

Televisão

Melhor Série (Drama): SUCCESSION
Melhor Série (Comédia/Musical): FLEABAG
Melhor Minissérie ou Telefilme: CHERNOBYL
Melhor Ator de Série (Drama): Brian Cox (SUCCESSION)
Melhor Ator de Série (Comédia): Ramy Youssef (RAMY)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Russell Crowe (THE LOUDEST VOICE)
Melhor Atriz de Série (Drama): Olivia Colman (THE CROWN)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Phoebe Waller-Bridge (FLEABAG)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Michelle Williams (FOSSE/VERDON)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Stellan Skarsgård (CHERNOBYL)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Patricia Arquette (THE ACT)


domingo, janeiro 05, 2020

O CASO RICHARD JEWELL (Richard Jewell)

Em tempos de fake news e de maquinações de autoridades governamentais, é interessante perceber que justamente um cineasta republicano e de linha mais conservadora exponha de maneira tão intensa uma injustiça cometida a um cidadão comum dos Estados Unidos. Este cineasta é Clint Eastwood, que vem se especializando nos últimos anos a contar histórias reais de pessoas comuns que se tornaram heróis (ou anti-heróis).

Tem sido um prazer acompanhar os filmes recentes de Eastwood, ainda que, por muitos, sejam vistos como inferiores aos das décadas anteriores. Os cinco últimos trabalhos do diretor trataram de pessoas comuns que agiram como heróis (ou quase isso). Foi assim com SNIPER AMERICANO (2014), com SULLY - O HERÓI DO RIO HUDSON (2016), com 15H17: TREM PARA PARIS (2018), com A MULA (2018), e agora com este O CASO RICHARD JEWELL (2019).

E esse tema do heroísmo já é recorrente na filmografia de Clint há um bom tempo. Este mais recente filme é um de seus trabalhos mais felizes, no quanto é capaz de envolver, e no quanto é capaz de nos deixar indignados com a história de um segurança que salva dezenas de vidas em um atentado terrorista durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, é tido como herói pela imprensa, mas que depois tem sua vida virada de cabeça pra baixo.

A relação de Richard Dewell (o desconhecido e excelente Paul Walter Hauser) com a mãe, vivida por Kathy Bates, é comovente, assim como a amizade dele com o advogado, interpretado por um inspirado Sam Rockwell. Pode ser um pouco problemática a personagem de Olivia Wilde, a jornalista em busca de furos, custe o que custar, mas mesmo assim o filme, à sua maneira, procura trazer uma espécie de redenção para a personagem. Há também outro personagem que procura caminhos mais curtos para ganhar boa reputação no trabalho, que é o do agente do FBI vivido por Jon Hamm. Não são exatamente vilões, mas funcionam como algo próximo disso dentro da trama que mudará a imagem de Richard Jewell aos olhos da sociedade.

Assim como o piloto Sully do filme de 2016, Jewell é alvo de desconfiança e precisa provar sua inocência. Antes, vale destacar que Jewell representa bem o loser americano conservador e apreciador de armas e caça e que tem um respeito enorme por figuras de autoridade. Ele já foi da polícia e, em 1996, quando ocorre o ataque terrorista em uma festa em Atlanta, ele trabalha como segurança particular. Vale destacar o aspecto rotundo de Jewell. Seu corpo é alvo de chacota, desde muito cedo ele é costumeiramente vítima de bullying.

Isso é importante para a construção do personagem e, mais à frente, para delinear sua relação de amizade com o advogado vivido por Sam Rockwell. Há também o fato de ele não ter namorada e morar com uma carinhosa e protetora mãe. Na verdade, ele mesmo sofre com o fato de não poder dar à mãe mais do que ela merece, devido aos empregos de baixa remuneração que ele conseguia.

Clint Eastwood não tem medo de carregar nas tintas no registro do melodrama para contar sua história - basta lembrar do quanto emocionou as plateias quase na mesma proporção que as incomodou com o grau de dramaticidade do oscarizado MENINA DE OURO (2004). Por isso cenas como a coletiva de imprensa da mãe de Dewell e seus dois últimos encontros com os agentes do FBI são tão fortes, mas ao mesmo tempo incômodas para quem prefere um tipo de dramaturgia mais sutil.

Para quem compra a proposta, porém, O CASO RICHARD JEWELL é um filme valioso, com o coração tão grande quanto o de uma mãe. E ainda alfineta órgãos governamentais americanos, a imprensa marrom e os julgamentos apressados da sociedade. Estamos diante do mesmo sistema injusto que fez com que um veterano da Guerra da Coreia acabasse entrando no mundo do crime (A MULA), encaminhou diversas vezes um homem para a guerra no Oriente Médio em missões enlouquecedoras (SNIPER AMERICANO) ou tentou sujar a imagem de um piloto de avião que salvou diversas vidas. Clint Eastwood parece estar dedicando sua fase tardia de vida e carreira na direção para não fazer apenas grande cinema, mas também resgatar a imagem de pessoas vitimadas pelo sistema.

+ TRÊS FILMES

A MULA (The Mule)

Sempre uma alegria poder ver cada filme de Clint Eastwood, por mais que eu esteja estranhando uma dramaturgia mista em seus filmes, como se ele não estivesse muito interessado em fazer uma obra realista (lembra certos filmes europeus, nesse sentido), mas um conto moral aparentemente simples, mas cheio de significados mais profundos. E como é bom ver o próprio Clint em ação novamente, como ator. Sobre a questão da idade, desde os anos 1980 que ele brinca com isso. Agora ele tem mais motivo, mas tomara que ele consiga chegar à idade do Manoel de Oliveira. E estando ativo, claro. Ano: 2018.

15H17 - TREM PARA PARIS (The 15:17 to Paris)

Controverso filme de Clint Eastwood que não chegou a entrar em cartaz nos cinemas de Fortaleza e que eu fui adiando várias vezes para ver em casa por achar o início muito ruim. Felizmente, depois de meia hora o filme fica bem interessante, por mais que a conclusão seja um tanto desanimadora. Mas é curioso como se trata de mais uma história de heroísmo de pessoas comuns tratado como num filme pequeno. E aqui é pequeno mesmo, embora eu tenha achado SULLY também um filme pequeno, de certa forma. Aqui, porém, ganha ares de filme europeu, inclusive na dramaturgia. Não consegui comprar as interpretações "ruins" de Jenna Fisher e Judy Greer como as mães dos personagens centrais. Mas parece que era de propósito. Ano: 2018.

OS INVISÍVEIS (Die Unsichtbaren)

Não fiquei muito apegado aos personagens e vi com um pouco de distanciamento, mas, por outro lado, fica muito difícil ver o filme e não imaginar uma distopia acontecendo no Brasil. Imagina você ser da oposição e ser obrigado a dizer "Salve Bolsonaro" para não ser assassinado? É terrível. E o filme conta a história de quatro pessoas que conseguiram não ir para os campos de concentração e se misturaram à multidão de alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Direção: Claus Räfle. Ano: 2017.

sábado, janeiro 04, 2020

VIAGEM A ICARAÍ DE AMONTADA

Em determinado momento da viagem a Icaraí de Amontada me bateu um sentimento tão grande de gratidão que eu não experimentava há muito tempo. Foi na volta do passeio pelo Rio Aracatiaçu, em Moitas. A turma já tinha rido bastante, brincado bastante e estava em silêncio, contemplando a paisagem. Era o nosso último dia lá e eu senti que poderia ficar mais tempo ali, com aquela turma, feliz por mais alguns dias.

A viagem surgiu com o convite da Valéria, minha amiga de muitos anos, e uma agregadora de pessoas fantásticas. Foi confiando nela que eu topei fugir da minha rotina recente de passar o reveillon em casa para passar com uma turma nova. A maioria das pessoas eu não conhecia. Mas eu sabia que era justamente algo de que eu precisava: conhecer novas pessoas, conversar com pessoas interessantes. As pessoas que eu conhecia na casa eram apenas a Valéria e a Bárbara, outra amiga querida de muito tempo.

Partimos de carro no domingo. No carro da Val ia a Bárbara e mais duas pessoas que eu não conhecia, o Jamieson, um pastor pra lá de heterodoxo (conhecendo a Val, ela jamais ia se envolver com gente religiosamente convencional), e a Zilmara, amiga dele. Durante a viagem de cerca de três horas fomos nos conhecendo aos poucos. Ao chegar na casa, já vi que tinha muito em comum com o Jamieson: ele conheceu quadrinhos na infância e cresceu numa família evangélica. Passamos a noite na casa só nós cinco, à espera dos demais, que viriam só na segunda-feira.

O casal que ia dividir o quarto comigo, Thiago e Roberta, chegaram, junto com Clarisse. Assim como Erlon e Saulo, e Rai e Alice. A Val dizia que eu ia me identificar com o Thiago, e de fato temos muito em comum, tanto por sermos das Letras, quanto por gostarmos de algo na linha da espiritualidade (ele é budista), mas acabei conversando mais com a Roberta, uma dessas pessoas que eu queria ter conhecido há mais tempo.

Roberta é da área de jornalismo e foi fundamental para que a viagem fosse especial, já que trouxe temperos e tipos de comida novos para a casa. Como ela é vegetariana, começou há algum tempo a pesquisar alternativas de alimentação e, junto com isso, vieram novos sabores. Então, experimentar aqueles sabores que ela trouxe foi algo extremamente prazeroso, abriu minha mente para aquele universo de comida vegana, me fez repensar muita coisa, além de, pelo fato de estar experimentando tanta coisa gostosa, voltar a pensar no quanto estar neste mundo pode sim ser uma dádiva. Afinal, o paladar, sentir os variados sabores, é exclusividade de quem habita este planeta, creio eu.

Rai e Saulo representaram a alegria da casa, sempre eufóricos e fazendo a gente rir. Fizemos uma espécie de ritual de apresentação (a Valéria chamava de mística de apresentação, mas como eu não sabia o que era isso ficava pensando em mulheres dançando nuas ao redor de uma fogueira). Na verdade, aquilo era mais uma brincadeira e ocorreu na pracinha da cidade, antes da pizza. Foi uma forma interessante de nos conhecermos, através de perguntas muito ou pouco pessoais que todos deveriam responder. Foi o momento de maior comunhão, digamos assim, da turma, estando ela toda reunida. Uma das perguntas que surgiu na praça foi "O que te dá mais prazer?". Respondi que era cinema, que sexo era superestimado e tal. Mas depois pensei que poderia ter respondido "beijar estando apaixonado".

A praia estava ótima, mas infelizmente chegou, junto com a gente, aquele óleo que vazou e que já havia contaminado boa parte das praias do Nordeste. No dia seguinte, o Thiago me mostrou a matéria que saiu no jornal O Povo. O óleo havia chegado às praias de Itapipoca e Amontada. Algumas pessoas estavam com saquinhos, recolhendo parte da gosma preta que chegara na areia da praia.

Na noite do dia 30, enquanto alguns da turma resolveram ir a um forró, a maioria quis ficar em casa para acordar cedo e ir à Lagoa de Flexeiras (o que só ocorreria no dia seguinte, devido a uma chuva-surpresa). O Thiago havia trazido três jogos e um deles era o Dixit, que jogamos naquela noite, todo mundo junto, na sala de jogos (na verdade, uma mesa com pouca iluminação na parte de fora da casa). O jogo, eu já tinha jogado na casa da Bia, mas tinha bem pouca lembrança das regras. Lida com imagens que parecem saídas de quadros de Salvador Dalí. Eu e Clarisse ficamos entre os vencedores no final (houve empate de duas duplas).

Chega o dia 31 de dezembro. O dia foi tranquilo e eu fui aquietando meu espírito a ponto de conseguir ler tanto prosa quanto quadrinhos. Esse dia, na verdade, não é muito tranquilo pra mim, já que tenho bem poucas lembranças de finais de ano realmente felizes. Como a turma da Valéria é muito bacana, ela acabou atraindo mais pessoas, de outras turmas, de outras casas, para a ceia de reveillon, que mesmo faltando energia por horas, foi um sucesso. Ailton Lopes, que teve meus votos para vereador e para prefeito em eleições passadas, era um dos presentes na ceia. Simpático, me chamava sempre de xará. A ceia estava uma beleza, com sua pluralidade de sabores. Até resolvi dar um chega pra lá nas leis de Moisés e no amor não correspondido com o chocolate. Estava de férias dessas restrições.

E aí chega o momento mais melancólico, que é o da virada do ano. Depois da ceia, fomos à praia. Foi bom brindar ao ano novo, rir um pouco, ouvir "I've got a woman" em um sonzinho na praia, abraçar pessoas que eu amo e respeito (Israel, amigo de longa data também estava por lá), ver os fogos (eu dizia que eram presentes do nosso prefeito de Fortaleza), sentar na areia olhando para o mar, ir até o mar e sentir a água nos pés.

A ideia da Valéria de ir até uma barraca que tocava um tipo de forró e música menos contemporânea foi boa, fiquei lá por uns minutos, mas estava me sentindo deslocado e sozinho. Resolvi voltar logo pra casa. Mas não estava exatamente triste. Sentia-me feliz com a liberdade, com as possibilidades que o futuro me reservava, mas, especialmente, estava curtindo o cheiro do mar e da noite antes de quebrar à esquerda e entrar na rua que dava à "nossa casa". A ideia era chegar lá, tomar um banho e me meter entre os lençóis para ler. Finalmente 2019 tinha passado.

No penúltimo dia fomos à Lagoa de Flexeiras. Diria que foi um dos pontos altos da viagem, tanto pelos momentos ali na lagoa, extremamente agradáveis - havia duas redes lá para quem quiser tirar fotos e tal, parecidas com aquelas que há em Jericoacoara - quanto pelo alto astral da turma em si. Algumas pessoas estavam indo embora. Alice, Rai e Zilmara já haviam ido e Erlon e Saulo estavam indo também. A casa sentiu falta da alegria contagiante dos dois.

Mesmo assim, o melhor momento ainda viria, no dia seguinte, quando fomos a um passeio no Rio Aracatiaçu, em Moitas. Que beleza de lugar, que deslumbrante a paisagem que se descortinou aos nossos olhos. Aquele grupo de cinco pessoas (eu, Val, Bárbara, Roberta, Jamieson e Clarisse) estava muito feliz com aquele momento. Falar assim parece soar superficial, mas não é. Tanto é que foram esses momentos que me trouxeram àquela sensação tão especial que eu citei lá no primeiro parágrafo: a do silêncio de todos no retorno de barco para casa, quando meu coração se encheu de gratidão.

Creio que é importante deixar este registro para mim e para os amigos que estiveram juntos. Mas, principalmente, para o Ailton do futuro, que lerá este relato e reviverá as emoções, já que não dá para confiar na nossa memória. E costumo dizer que registros escritos são mais valiosos que registros fotográficos, no sentido de que captam aquilo que os olhos não podem ver.


sábado, dezembro 28, 2019

TOP 20 2019 E O BALANÇO DO ANO



1. LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, de Bi Gan
2. DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar
3. O IRLANDÊS, de Martin Scorsese
4. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO, de Kiyoshi Kurosawa

5. ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD, de Quentin Tarantino
6. DESLEMBRO, de Flavia Castro
7. A NOSSA ESPERA, de Guillaume Senez
8. SYNONYMES, de Nadav Lapid

9. 3 FACES, de Jafar Panahi
10. MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel
11. INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee
12. TODOS JÁ SABEM, de Asghar Farhadi


13. BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
14. FORA DE SÉRIE, de Olivia Wilde
15. UM AMOR IMPOSSÍVEL, de Catherine Corsini
16. O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente

17. VINGADORES - ULTIMATO, de Anthony e Joe Russo
18. PARASITA, de Boon Joon-ho
19. O MAL NÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR, de Ari Aster
20. UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK, de Woody Allen

Menções honrosas 

21. UM HOMEM FIEL, de Louis Garrel
22. ASSUNTO DE FAMÍLIA, de Hirokazu Koreeda
23. VARDA POR AGNÈS, de Agnès Varda
24. A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz
25. LEMBRO MAIS DOS CORVOS, de Gustavo Vinagre
26. GUERRA FRIA, de Pawel Pawlikowski
27. UM ELEFANTE SENTADO QUIETO, de Bo Hu
28. O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA, de Letícia Simões
29. VERMELHO SOL, de Benjamín Naishtat
30. A FAVORITA, de Yorgos Lanthimos

Já virou até um clichê todo final de ano dizermos que não foi um ano fácil. Mas 2019 foi, no mínimo, bem diferente. As circunstâncias políticas no Brasil e no mundo fizeram toda a diferença e, inclusive, refletiu em alguns dos filmes mais representativos deste ano, que trataram de expor a questão da luta de classes. Os filmes que mais lidam com esse assunto, dentre os 20, são o brasileiro BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e o sul-coreano PARASITA, de Boon Joon-ho. Os dois passaram no Festival de Cannes e foram ambos premiados. Cada um a sua maneira trata de meter o dedo na ferida da má distribuição de renda. No caso de BACURAU, a má intenção dos poderosos é tema. 

O cinema cearense também tratou da luta de classes em um filme de horror, o ótimo O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente, que apresenta ricos, literalmente, comendo os pobres e invisíveis. SYNONYMES, de Nadav Lapid, também trata com sensibilidade da questão do abismo social, o caso dos imigrantes em países desenvolvidos. 

Assim, ao longo do ano, fomos cada vez mais vendo que o cinema, assim como outras formas de arte, estava revestido de um gesto político. É por isso que um filme como INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee, que expõe, com muito bom humor mas com uma raiva represada também, a questão do racismo nos Estados Unidos, é tão urgente, tão importante, em pleno século XXI. É que certas coisas óbvias parece que deixaram de ser tão óbvias. Por isso é sempre bom lembrar também dos anos de chumbo da ditadura no Brasil, e DESLEMBRO, de Flavia Castro, faz isso de maneira encantadora. 

Temos também as questões do machismo e da violência sexual, presentes de maneira impactante em UM AMOR IMPOSSÍVEL, de Catherine Corsini, que conta a história de uma mulher que se deixa levar, pela paixão, pelo homem que acredita ser o amor de sua vida e que é pai de sua filha, mas que, no entanto, vai se tornando cada vez mais ausente. 

Falando em ausência, como não lembrar da tristeza imensa que MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel, é capaz de traduzir em imagens e sons? Temos aqui o caso de uma mulher que aguarda notícias do marido, preso durante a Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação alemã na França. Provavelmente ele estaria em um campo de concentração, mas não saber se ele está vivo ou morto é mais angustiante do que saber de sua morte. Temos uma das melhores interpretações femininas do ano aqui, a de Mélanie Thierry. 

Falando em grandes interpretações dentro de grandes filmes, o que foram os novos trabalhos de Pedro Almodóvar e Martin Scorsese, hein? Esses dois realizadores trouxeram novas obras-primas para seus currículos, DOR E GLÓRIA e O IRLANDÊS, trabalhos que representam momentos particularmente maduros de suas carreiras. Como grandes autores que são, suas vidas são espelhadas em suas obras. No caso de Almodóvar, mais ainda, já que o personagem de Antonio Banderas vive seu alter-ego, cheio de problemas de doenças e questões afetivas pendentes. Já Scorsese realizou um projeto de longa data, reunindo uma trupe dos mais brilhantes atores da Nova Hollywood, todos na sua faixa de idade, para repensar o mundo da máfia sob nova luz e trazer à tona mais uma vez a culpa, um dos temas mais frequentes na obra do cineasta americano. 

Outro cineasta americano da Nova Hollywood que compareceu também nos cinemas, mas com um filme que estava, até então, embargado por causa de problemas legais envolvendo a Amazon, a produtora e distribuidora e uma acusação não comprovada de abuso sexual. UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK parece um filme como qualquer outro de Woody Allen, mas a distância de dois anos fez com que a saudade de ver suas obras no cinema fizesse uma falta tremenda. E ele aqui traz um filme novamente com dois jovens personagens vivendo situações desafiadoras diferentes em suas vidas. E aprendendo com isso. 

Quem também soube lidar com as questões da juventude foi a estreante Olivia Wilde, que com seu FORA DE SÉRIE, narrou os dramas e as angústias de duas meninas CDF de uma escola, que resolvem tirar um dia para tirar o atraso do tempo que deixaram de curtir em festas etc., como seus colegas "normais". É também um lindo filme sobre amizade e sororidade. Possivelmente o mais bonito. Além de ser também muito engraçado. 

Quanto ao amor romântico, o melhor exemplar exibido no ano não foi uma comédia romântica fácil de ver, mas um pesado drama noir sobre a busca de um homem por uma mulher. Temos em LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, de Gan Bi, um tipo de cinema que se apoia no sonho para se elevar, tratando também do aspecto escorregadio da memória. O que é a cena do voo? Impressionante como o cinema continua sendo essa fábrica de sonhos que mexe com nossos corações. 

Quem também tratou de diminuir na violência e aumentar no amor neste ano foi Quentin Tarantino. E deu muito certo. ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD não é apenas uma declaração de amor ao cinema, mas também à arte de modificar a realidade (como ele já havia feito uma vez em certo filme de guerra). Passada a polêmica besta envolvendo Bruce Lee, o que ficou foi a presença do nono filme de Tarantino em centenas de listas de melhores do ano. Nada mais justo. 

E falando em filmes lindos, o que dizer de A NOSSA ESPERA, de Guillaume Senez? O filme quase não dá tempo para o choro, deixando a emoção à flor da pele, ao contar a história de um homem que é abandonado pela esposa e trata de cuidar com muito amor dos filhos. Interpretação linda de Roman Duiris. Lá do Japão veio o maravilhoso O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO, de Kiyoshi Kurosawa, que é um dos melhores exemplos de como ser capaz de nos colocar no lugar de uma personagem que se sente extremamente frágil, mas também impressionantemente corajosa. 

Dois cineastas iranianos comparecem no meu top 20: Jafar Panahi, que consegue tirar leite de pedra, mesmo estando proibido de filmar pelo governo de seu país. Em 3 FACES, ele adentra o Irã rural para contar uma história que cheira tanto à realidade que o filme parece um documentário. Já Asghard Farhadi optou por uma narrativa mais convencional, mas ainda coerente com sua obra, tratando novamente de questões familiares. A experiência de filmar TODOS JÁ SABEM na Espanha não agradou a tantos, mas eu achei o filme saborosíssimo. Uma espécie de thriller com fortes toques de melodrama e um elenco ibero-americano de dar gosto.

Falando em filme de gênero, um dos títulos mais aguardados do ano foi o novo trabalho de Ari Aster. E talvez por ser muito aguardado acabou despertando sentimentos mistos. Mas a verdade é que ver O MALNÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR passa aquela impressão de que estamos vendo algo muito especial. E essa sensação é muito boa. Além do mais, há tantas cenas de beleza plástica e outras tantas memoráveis que as chances de este filme se tornar um clássico são bem grandes. 

Para terminar, lembremos do melhor filme dos Estúdios Marvel, VINGADORES - ULTIMATO, dirigido pelos irmãos Joe e Anthony Russo, que fecharam com chave de ouro uma trajetória muito bem orquestrada. Quem foi/é fã dos quadrinhos da Marvel quando criança, adolescente ou adulto, viu aqui a materialização de um sonho, a realização de uma grande ópera espacial com dezenas de super-heróis, sem nunca perder o lado humano no processo. Isso é quase um milagre. E talvez este filme seja mesmo isso tudo, um milagre. 

É por causa de filmes como esses vinte citados (claro que poderia ter citado muitos mais) que o cinema ainda continua sendo uma forma de arte que vai além do mero entretenimento, que nos eleva espiritualmente e nos faz pessoas melhores. Pelo menos, quero acreditar que sim, por mais que ver muitos filmes seja uma tarefa que possa sacrificar um pouco a vida social. 

Top 5 - Piores filmes do ano

É a tal coisa: a cada ano eu tenho sido mais seletivo na escolha dos filmes, por mais que ainda continue indo bastante ao cinema. O caso de CATS é especial, já que entramos no cinema já esperando o pior, mas infelizmente isso acontece com filmes que a gente torce que dê certo. 

1. CATS, de Tom Hooper
2. STAR WARS - A ASCENSÃO SKYWALKER, de J.J. Abrams
3. X-MEN - FÊNIX NEGRA, de Simon Kinberg
4. KARDEC, de Wagner de Assis
5. HELLBOY, de Neil Marshall

Top 5 - Musas do Ano

Tenho um especial apreço por esta seção, que parece ser um tanto controversa nos dias de hoje. Mas a verdade é que a apreciação da beleza feminina fala mais forte e acredito que simplesmente deixar de lado esta seção seria uma espécie de autocensura. Assim, deixo aqui a lembrança e as imagens de cinco atrizes que são não apenas colírios para os olhos, mas calor para o coração, encantamento para o espírito... 

1. Margot Robbie (ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD)

2. Juliette Binoche (QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU, VISION e VIDAS DUPLAS)

3. Elle Fanning (ESPÍRITO JOVEM e UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK)

4. Josephine Langford  (AFTER)
5. Naomi Scott (ALADDIN e AS PANTERAS)

Clássicos revisitados ou vistos pela primeira vez na telona em ordem alfabética

A MULHER É O FUTURO DO HOMEM, de Hong Sang-soo
AS DIABÓLICAS, de Henri-Georges Clouzot
CONTO DE CINEMA, de Hong Sang-soo
CYRANO, de Jean-Paul Rappeneau
FILHA DE NINGUÉM, de Hong Sang-soo
JUVENTUDE TRANSVIADA, de Nicholas Ray
O ASSASSINO MORA NO 21, de Henri-Georges Clouzot
O FILME DE OKI, de Hong Sang-soo
O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
O MISTÉRIO DE PICASSO, de Henri-Georges Clouzot
O MISTÉRIO DE PICASSO, de Henri-Georges Clouzot
O SALÁRIO DO MEDO, de Henri-Georges Clouzot
PERSONA, de Ingmar Bergman
TARTUFO, de F. W. Murnau
Top 20 vistos pela primeira vez na telinha em ordem alfabética

A FORÇA DOS SENTIDOS, de Jean Garrett
A GAROTA DE LUGAR NENHUM, de Jean-Claude Brisseau
DEMOCRACIA EM VERTIGEM, de Petra Costa
FRONTEIRAS DO INFERNO, de Walter Hugo Khouri
FULANINHA, de David Neves
KARINA - OBJETO DE PRAZER, de Jean Garrett
LISA E O DIABO, de Mario Bava
O CÓDIGO PENAL, de Howard Hawks
O FOTÓGRAFO, de Jean Garrett
O PARQUE MACABRO, de Herk Harvey
O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano
OITAVA SÉRIE, de Bo Burnham
OS MENINOS, de Narciso Ibáñez Serrador
PAIXÃO E ACASO, de Domingos Oliveira
RIO BABILÔNIA, de Neville d'Almeida
SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA, de Luiz Sérgio Person
TCHAU AMOR, de Jean Garrett
TRÊS IRMÃOS, de Teresa Villaverde
UM CAMINHO PARA DOIS, de Stanley Doney
UMA CANTA, A OUTRA NÃO, de Agnès Varda

Revisões na telinha

OMISTÉRIO DE CANDYMAN, de Bernard Rose
O REI DA COMÉDIA, de Martin Scorsese
REVANCHE REBELDE, de Robert Rodriguez
SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS, de David Fincher
TOKIO EM DECADÊNCIA, de Ryû Murakami

As séries e minisséries - Top 5

1. CHERNOBYL
2. MR. ROBOT - QUARTA TEMPORADA
3. EUPHORIA - PRIMEIRA TEMPORADA
4. MODERN LOVE - PRIMEIRA TEMPORADA
5. FLEABAG - PRIMEIRA TEMPORADA


Feliz 2020!

Assim, deixo meus votos de um excelente 2020 para todos nós, tanto na vida social, quanto na arte, nos filmes em especial. Que possamos prosseguir lutando pelo nosso direito ao acesso à arte. Que pessoas ignóbeis como alguns que estão no poder tenham seus interesses de destruição frustrados e nosso cinema brasileiro alcance um status ainda maior - é preciso que ele chegue com mais força ao público. Enfim, muita paz, amor, saúde, diversão e arte. Grande abraço e um muito obrigado aos leitores deste espaço.

domingo, dezembro 22, 2019

14 CURTAS E UM MÉDIA-METRAGEM

PLANETA FÁBRICA

Pra quem viu o excelente CHAPELEIROS (1983), de Adrian Cooper, não faz muito tempo, o impacto deste PLANETA FÁBRICA talvez seja menor. Ainda assim, revisitar as imagens poderosas do filme original e ver as imagens mais recentes da fábrica de chapéus passa sentimentos confusos, conflitantes. Acho que mudei a impressão um pouco do filme original, do quanto eu achava a fábrica um ambiente de quase escravidão e sofrimento e agora vejo que pode ter sido um espaço de muito prazer para todos que lá trabalharam ou fizeram parte. Direção: Julia Zakia. Ano: 2019.

A FELICIDADE DELAS

Não gosto tanto da primeira parte, mas ela é parte importante para a segunda parte e o final incrível, com as duas meninas. Fiquei na dúvida sobre o final, mas imagino que seja representativo de uma espécie de morte que se confunde com um êxtase. O que é a mesma coisa, levando em consideração os arquétipos de sexo e morte. Há todo um trabalho muito bem pensado de decupagem nas cenas das duas mulheres em momento íntimo no meio de uma fuga da polícia, intensificando a excitação. Curiosamente, Julia Zakia, do curta que eu vi anteriormente, é diretora de fotografia deste aqui. Direção: Carol Rodrigues. Ano: 2019.

ANIMAL INDIRETO

O diretor tem a ideia de fazer um filme (um média-metragem) a partir de sua experiência com o transtorno de ansiedade, que em seu caso foi seguido de um período de depressão. Assim, ele resolve filmar, à sua maneira, suas viagens para Cuba e Haiti, a fim de encontrar uma cura ou algum sentido para a vida. Queria que o filme tivesse me tocado mais, já que tenho um histórico de transtorno de ansiedade também, mas não houve tanta identificação. Ou vai ver o acaso não foi tão generoso com ele, a ponto de trazer-lhe bons personagens e situações extraordinárias. De todo modo, é bom perceber que a intenção dele muitas vezes parece ser focar no presente, a fim de se desviar das angústias. Assim, há muita câmera parada filmando a natureza. Direção: Daniel Lentini. Ano: 2019.

MIRAGEM

Um filme que eu poderia ficar vendo por horas, mas que dura apenas cerca de 20 minutos. Aqui a diretora cria uma atmosfera de intimidade nas entrevistadas (sua mãe e a atriz Gilda Nomacce) para alcançar momentos e sentimentos que venham de memórias bem antigas, e memórias em que as pessoas estivessem sozinhas. Isso é importante no processo. É um tipo de cinema mais sensível, feminino, que não tem medo de atingir fundo nas emoções para provocar o choro. Gosto demais desse tipo de cinema. Destaque para uma imagem "do futuro" descrita por Gilda. Quase uma cena de horror de um filme do Bergman (me lembrou MORANGOS SILVESTRES). Direção: Flora Dias. Ano: 2019. FOTO.

OLHAR E SENSAÇÃO

Um filme que ajuda a explicitar a posição de Carlão entre os três cineastas que melhor representam a cidade de São Paulo, ao lado de Khouri e Person. Aqui temos uma alternância de imagens de natureza triste (animais enjaulados) e uma megalópole em ritmo bem acelerado. Há ainda espaço para recordações de infância e uma música composta pelo próprio diretor inspirada em Bach. Direção: Carlos Reichenbach. Ano: 1994.

ESTA RUA TÃO AUGUSTA

Paródia dos filmes institucionais, celebrando a Rua Augusta (e São Paulo, por tabela), mas não sem também celebrar a figura de um artista, no caso um pintor maldito que anda de saia e pinta cristos de saia entre outras brincadeiras com a religião cristã. Carlos Reichenbach, em seu primeiro filme, já mostrando o humanista que sempre seria. Ano: 1968.

SANGUE CORSÁRIO

Um dos mais bonitos curtas de Carlos Reichenbach, SANGUE CORSÁRIO lida com a palavra em seu estado mais belo: a poesia. Aqui não é um documentário, mas uma ficção experimental em que o poeta Orlando Parolini, também ator de três obras importantes do diretor, interpreta um poeta visionário, um homem à frente de seu tempo. É filme para ver mais vezes, até para absorver as palavras escolhidas por Carlão. Ano: 1979.

O M DA MINHA MÃO

Se no curta de 68, Carlos Reichenbach homenageou um pintor (e uma rua), aqui temos a homenagem a um outro artista, um músico cego que toca acordeom. Há mais recursos metalinguísticos e há mais respiro para se ouvir a música nesse filme de mais interiores que exteriores. M lembra também o filme de Lang, um dos ídolos de Carlão. Ano: 1979.

TEA FOR TWO

Muito bom ter a oportunidade de ver um belo curta de estreia dentro de uma sessão com um longa. No caso, LEMBRO MAIS DOS CORVOS, de Gustavo Vinagre. Este curta dirigido pela atriz e amiga de Vinagre é uma espécie de comédia romântica meio melodrama sobre corações partidos e novos encontros. Achei muito bom, especialmente pela presença forte de Gilda Nomacce. Que gigante que é essa mulher! Direção: Julia Katharine. Ano: 2018.

BAO

Curta interessante que abre OS INCRÍVEIS 2 e que trata da questão da maternidade e outras coisas até um tanto sombrias. Queria ter me envolvido mais, na verdade, mas acho que estava um pouco desligado, e a narrativa é muito rápida. Direção: Domee Shi. Ano: 2018.

LINKLATER: ON CINEMA AND TIME

Uma pequena homenagem ao cinema de Richard Linklater e a uma de suas maiores obsessões: o tempo. Quem é fã, difícil não se emocionar ou ficar com os olhos marejados, principalmente nas cenas envolvendo Jesse e Celine. Dá pra ver várias vezes com prazer. Direção: Kogonada. Ano: 2017.

ANT HEAD

É o caso de rever e entender melhor este curta de David Lynch. A primeira parte requer um bocado de concentração do espectador, mesmo não acontecendo muita coisa. A segunda já parece ter alguma relação com a teoria de Lynch sobre o mal que está cercando o nosso mundo contemporâneo. A investigação mais detalhada de um mal ainda maior e poderoso, como mostrado em TWIN PEAKS - O RETORNO (2017). Ano: 2018.

ALGUMA COISA ASSIM

Que filme bonito e com gosto de quero mais. Mas nem é tanto assim pelo drama do personagem masculino, ainda em busca de reafirmar sua sexualidade, mas de sua amiga, vivida pela Caroline Abras. Que graça essa menina. E talentosa pra caramba. Não à toa ela quem ganhou prêmio por esse curta em Gramado. Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos. Ano: 2006.

SER O QUE SE É

Curta que trata da valorização do corpo da mulher, da aceitação. E também da atração entre duas mulheres. Curiosamente passou antes da exibição de TRAFFIK, e foi muito prejudicado pela sala ruim, escura. A cópia do filme também não parecia ajudar. Direção: Marcela Lordy. Ano: 2018.

THE CHORUS

Um filme que antecipa a angústia de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987). Impressionante como Abbas Kiarostami trabalha de maneira tão sofisticada com os recursos mais simples de que dispõe. Pode ser um filme sobre a necessidade de ouvir e de ser ouvido. Ou tem alguma conotação política que ainda não peguei. Ano: 1982.