domingo, março 29, 2020

CIDADE DO MEDO (Fear City)

Falemos um pouco de um dos filmes menos queridos da filmografia de Abel Ferrara, CIDADE DO MEDO (1984). O próprio diretor não queria fazê-lo, já que o roteiro havia sido pensado por ele e por Nicholas St. John, seu parceiro criativo, em 1975, e ele acreditava que havia ficado datado, que seria melhor um novo projeto. Porém, o estúdio queria fazer esse filme e ele deu o melhor de si para que a obra se materializasse.

Como sou da linha que acredita na teoria dos autores, costumo adotar a máxima que os piores filmes de grandes cineastas são melhores que pelo menos a imensa maioria dos melhores filmes de cineastas sem assinatura. E assinatura não falta em CIDADE DO MEDO. Tudo aquilo que se tornaria arquétipo nos filmes de Ferrara comparece neste neo noir que conta a história de um gerenciador de strippers para um clube, vivido por Tom Berenger, e uma stripper viciada em cocaína. E é também a história do quanto suas vidas são tocadas a partir do surgimento de um assassino serial que caça suas vítimas, na grande maioria mulheres, nas ruas.

O retalhador impiedoso tem vontade de matar, mas principalmente vontade de infligir dor e terror às mulheres. A primeira vítima não morre, embora fique, obviamente traumatizada. Esse personagem, que não tem nome (o próprio ator não aparece nos créditos finais, por algum motivo), assim como a jovem muda de SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981), se torna escravo de sua pulsão sexual, e também de sua noção distorcida de moral e pecado.

O erotismo no corpo masculino, associado à violência (o assassino treina artes marciais e uso de facas nu) e no feminino, associado ao prazer e ao contentamento, como podemos ver na cena de striptease da personagem de Melanie Griffith, está presente no filme como associado ao pecado.

O catolicismo de Ferrara se mostra aqui também no personagem de Berenger, que é atormentado por uma culpa do passado, de quando era lutador de boxe e matou um homem no ringue. A culpa, na trama, porém, acaba funcionando mais como um catalisador para que o personagem, no terceiro ato, encontre um motivo forte para voltar a usar de violência ou até a matar um homem novamente.

Há também a brincadeira com os gêneros. O exagero na forma como o diretor pinta tanto o herói quanto o vilão, e principalmente o embate final entre os dois, que parece saído dos mais vagabundos filmes de ação da década de 1980, é tão enfatizado que, saindo de Ferrara, só pode ter sido proposital.

CIDADE DO MEDO foi o primeiro filme com um elenco hollywoodiano de Ferrara e que só não foi distribuído pela Fox porque o estúdio deu para trás quando percebeu que o filme tinha doses generosas de sexo (que nem é tanto assim, na verdade) e violência, e o vendeu para uma distribuidora independente.

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ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out)

Elegante filme de mistério sobre um assassinato cometido por um dos membros de uma família que muito lembra os romances de Agatha Christie (ou os filmes baseados nos romances/novelas). O que me surpreendeu positivamente é que temos como protagonista, no meio de tantos atores e atrizes renomados, a personagem de Ana de Armas, o verdadeiro coração do filme. Ela é a cuidadora do patriarca da família e tem um problema de não conseguir mentir. O legal é que o filme vai entregando boa parte do que aconteceu na noite da morte do velho logo nos minutos iniciais, o que passa a impressão de que tudo está mais ou menos resolvido. Um elenco bacana, diálogos bem construídos, uma direção de arte lindona (pena que na sala que eu vi a projeção não era lá essas coisas), mas a mim me deixa um pouco cansado esse tipo de filme. Mas só um pouco. Direção: Rian Johnson. Ano: 2019.

JOHN WICK 3 - PARABELLUM (John Wick: Chapter 3 - Parabellum)

Um lado A extremamente excitante e um lado B um tanto desapontador. Ainda assim, ao lembrar das melhores cenas, presentes na primeira metade, há que se sentir uma ponta de alegria pela chance de ver um espetáculo desses no cinema. A cena da biblioteca, a primeira luta de facas com artes marciais, a cena de ação com a Halle Berry, tudo isso é muito bom. Direção foda do Chad Stahelski. Pena que no roteiro não souberam dar uma conclusão satisfatória e sem um vilão memorável. Ano: 2019.

CRIMES OBSCUROS (Dark Crimes)

Uma obra meio torta, mas que não deixa de ser eficiente em muitos aspectos. Jim Carrey está muito bem como um detetive de polícia obstinado, perturbado e rejeitado; a atmosfera da Polônia é de frieza até a alma; e a trama é boa, ainda que pareça ter alguns furos. A trilha, ainda que repetitiva, não deixa de contribuir a favor do filme. Mesmo que não resulte em um bom filme, vale ver essa experiência em língua inglesa do grego que dirigiu MISS VIOLENCE (2013). Direção: Alexander Avranas. Ano: 2016.

sábado, março 28, 2020

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

Interessante como há filmes que parecem ao mesmo tão pouco palpáveis e tão atraentes, que a sensação que temos é querer entrar na tela, querer tocar os personagens, tocar aquele universo criado, experimentar todas as sensações possíveis. Eu sei que ver no cinema torna isso mais próximo de se materializar, e por isso lamento muito não ter visto A LIBERDADE É AZUL (1993) na telona. Eu acredito que o filme chegou a ser exibido nos cinemas de Fortaleza, sim, mas, por algum motivo, algum vacilo de minha parte, eu não saí de casa para vê-lo. Por isso, minhas primeiras boas memórias de tê-lo visto foi de uma fita VHS. Rever agora, mesmo com o coração em constante estado de inquietação, foi muito especial, ainda que talvez não o ideal. É como se houvesse sempre uma necessidade de voltar ao filme.

O trabalho de Krzysztof Kieslowski aqui é denso. Tão denso que seu filme, de duração curta para uma obra com um andamento lento, ainda que com tomadas relativamente curtas, parece atingir a perfeição. Cada cena, cada detalhe, é importante, seja para dar contornos mais profundos à trama e à protagonista vivida por Juliette Binoche, seja para oferecer algo que ajude a montar o quebra-cabeças da história. Não que se trate de um filme "de roteiro" - a direção é que é mais importante -, mas há uma preocupação sim nesse aspecto; há um rigor formal perceptível.

Eu costumava comparar A LIBERDADE É AZUL com O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan. Ambos são filmes que tratam do luto, da perda. Mas a abordagem dos dois diretores é completamente distinta. Kasdan, por mais belo que seja o seu trabalho, se aproxima mais da narrativa mais clássica, enquanto Kieslowski traz com seus simbolismos e sutilezas um meio um pouco menos direto de se chegar ao âmago de sua história e dos sentimentos que ela traz consigo.

Na trama, Juliette Binoche é Julie, uma jovem mulher que é a única sobrevivente de um acidente de automóvel que mata seu marido, um famoso compositor, e sua filha de cinco anos de idade. Atormentada pela dor da perda do marido e da filha, inicialmente, ainda no hospital, Julie tenta o suicídio com o uso de pílulas. Não consegue, e em seguida resolve tomar algumas medidas que algumas pessoas, inclusive um dos melhores amigos de seu marido (Olivier, vivido por Benoít Régent), acredita ser uma loucura, como se livrar da casa, doar todo o dinheiro deixado pelo marido e ir embora, de preferência para alguma lugar que ninguém a conheça.

A partir da nova vida que surge, Julie nada em uma piscina, faz amizade com uma prostituta no prédio que passa a residir, tenta se livrar dos ratos que estão em seu apartamento, visita a mãe com Alzheimer, passeia pela cidade, procurando sentir alguma paz interior - e em certo momento é até possível vê-la experienciando essa paz. O passado, porém, vem à tona, principalmente na descoberta de que seu marido tinha uma amante e que ela está grávida. Isso acaba por mudar muito da percepção de Julie da vida e do modo como ela deseja lidar com a nova situação, inclusive na vontade que tem de ajudar Olivier na continuidade do projeto ambicioso do marido - o filme deixa indícios de que Julie era uma espécie de escritora fantasma e ajudou muito o marido quando ele estava sem inspiração.

Uma das coisas mais belas no filme, além da beleza extraordinária de Binoche, então com 29 anos, está na paleta de cores da fotografia do polonês Slawomir Idziak, que havia trabalhado com Kieslowski em A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991). O diretor de fotografia destaca, obviamente o azul desde os primeiros frames. Como a cor azul costuma ser associada à tristeza em algumas culturas, não é nada difícil fazer essa associação com o filme também.

Outro aspecto maravilhoso de A LIBERDADE É AZUL está na música do também polonês Zbigniew Preisner, um colaborador assíduo do cineasta e provavelmente um grande amigo. Seu trabalho aqui é o de romper com os silêncios tão presentes no filme e em alguns momentos essa música surge como algo bastante desconcertante, como nas cenas em que a tela fica totalmente preta e a música se torna o elemento único por alguns segundos. Isso se dá em algumas conversas de Julie com outros personagens.

Quem sabe um dia essa obra seja relançada em cópia remasterizada nos cinemas e possamos nos aproximar mais daquilo que parece tão pouco palpável, mas que tem uma beleza fantasmagórica maravilhosa.

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FELIZ ANIVERSÁRIO (Fête de Famille)

Curioso como este filme vem passando em branco, recebido com certa frieza até. Como exemplar de filmes sobre famílias com problemas, é um dos mais felizes que eu vi há um bom tempo. Lembrei do brasileiro DOMINGO, de Fellipe Barbosa e Clara Linhart, mas lembrei também de um dos trabalhos mais verborrágicos de Olivier Assayas, HORAS DE VERÃO. Este FELIZ ANIVERSÁRIO, além de ter uma fauna de personagens muito interessante e um ótimo elenco, ainda traz um crescendo de perturbação que se mistura com um grau de tranquilidade com que a matriarca e aniversariante (vivida por Catherine Deneuve) sempre lida com os problemas. Emmanuelle Bercot está mais uma vez fantástica como a maluca da família. Entre os rostos novos, gostei da jovem Isabel Aimé González-Sola, que faz a namorada do personagem de Vincent Macaigne, ator que sempre conquista minha simpatia nos filmes. Certamente, muita gente vai se identificar com a família. Direção: Cédric Kahn. Ano: 2019.

O PROFESSOR SUBSTITUTO (L'Heure de la Sortie)

Um filme estranho. E por isso mesmo merece ser visto com atenção. No começo, parece um filme de professor como qualquer outro, ao vermos um profissional sendo confrontando pelas dificuldades impostas por uma turma de alunos da elite intelectual da escola. Pode não agradar um pouco como a narrativa se desenrola a partir de certo momento, quando o professor passa a seguir os passos dos alunos, para investigá-los, mas não dá para negar que, ao final, não é um filme que abandona o espectador ao fim da projeção. Isso é muito bom. Direção: Sébastien Marnier. Ano: 2018.

A REVOLUÇÃO DE PARIS (Un Peuple et Son Roi)

Em geral, esses dramas de época franceses são bem chatos e acadêmicos. Esse não foge à regra, embora tenha sido recebido com interesse por um público grande do Cinema do Dragão, que lotou tanto a sala, que teve gente sentado nos degraus. E olha que o ar condicionado estava com defeito. O elenco do filme é cheio de rostos conhecidos, de gente talentosa vista em tantos outros filmes. Mas quem brilha mais é Adèle Haenel, ainda que seu papel nem seja assim tão bom. A ideia de contar a história da Revolução Francesa pelo ponto de vista do povo não deixa de ser boa e funciona até certo ponto. Achei impressionante crianças participando de um evento tão sangrento. Direção: Pierre Schoeller. Ano: 2018.

sexta-feira, março 27, 2020

SEDUÇÃO E VINGANÇA (Ms .45)

Encontrei em SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981) o cineasta cuja obra mais me deu vontade de peregrinar, até por ter muitas lacunas em sua relativamente longa filmografia e por ele ser um cineasta um tanto complexo e mais digno de ser visto com atenção e estudo. A leitura ajuda muito a complementar a experiência do filme, e por enquanto estou utilizando o ótimo catálogo Abel Ferrara - A Religião da Intensidade, organizado por Ruy Gardnier em 2012. Este segundo (ou terceiro, se considerarmos o pornô de Ferrara como a sua estreia) longa-metragem do diretor ganha, inclusive, bastante destaque no catálogo.

O filme impressiona por ser um dos primeiros do subgênero rape and revenge e ainda assim se antecipar aos que viriam, transgredindo as normas vindouras. E por mais que um filme como DESEJO DE MATAR, de Michael Winner, já tivesse sido feito anos antes, aqui a transformação da heroína numa máquina de matar depois que ela sofre dois estupros num mesmo dia é muito diferente. Ferrara procura torná-la menos vítima possível. Inclusive dando a ela o poder de matar um de seus estupradores, esquartejando seu corpo na banheira e guardando os pedaços na geladeira para, friamente, ir deixando aos poucos em diversos locais de Nova York.

É interessante notar o quanto a cidade é mostrada suja e violenta, como devia ser mesmo na época, mas também é enfatizado a hoje tão comentada cultura do estupro. Já no começo do filme vemos uma série de homens tentando abordar de maneira bem pouco educada as mulheres na rua. E depois dos dois estupros e da atitude de certos homens que se tornariam vítimas da misteriosa assassina da .45, podemos perceber o quanto a categoria estava mesmo precisando mudar.

Mas uma coisa começa a confundir o espectador quando Thana (Zoë Tamerlis) passa a matar homens aparentemente inocentes, ou que cometem pequenas falhas com as namoradas, para depois passar a escolher homens de modo puramente aleatório. Na cena da festa de halloween, quando ela está lindamente vestida de freira, basta ser homem para se tornar alvo.

Seria então um filme sobre uma mulher que fica perturbada depois do trauma do estupro (e que sua mudez é provavelmente também advinda de um outro trauma) e se torna uma assassina? Também, mas o barato do trabalho de Ferrara é como ele torna tudo complexo, não precisando ser isso ou aquilo. Pode ser isso e aquilo também. Toda discussão é bem-vinda, portanto.

Visualmente falando, uma das coisas que dá prazer de acompanhar no filme é a mudança de roupa de Thana a cada novo assassinato. Ela passa a se vestir de maneira cada vez mais ousada, deixando de lado o estilo de doce garota de convento até a se vestir como prostituta de luxo, dominatrix e, ao final, uma freira sexy com uma arma amarrada à coxa.

Do ponto de vista psicológico, é interessante também notar a evolução da personagem a partir do momento em que ela mata o segundo estuprador em seu apartamento e parece estar chegando ao êxtase quando esquarteja seu corpo. O sadismo é percebido também nas preliminares da aproximação das vítimas. Mas é importante lembrar que estamos vendo um filme de Ferrara, onde o prazer transforma-se em dor ou mistura-se à dor com frequência. Talvez o exemplo mais representativo seja o de VÍCIO FRENÉTICO (1992).

Assim, há um momento em que a sexualidade parece lhe ser recusada: a aparição do primeiro estuprador após o esquartejamento acontece quando Thana tenta se ver nua no espelho, ensaiando uma espécie de sentimento erótico após o ocorrido. Porém, aos poucos ela vai ganhando uma espécie de empoderamento ao estar de posse do objeto fálico.

Outra coisa que dá prazer ao ver o filme está no quanto ele é imprevisível. Só o fato de não sermos apresentados à personagem, de não sabermos nada sobre seu passado, de não ouvirmos sequer alguma coisa de sua boca (por ela ser muda e por não haver uma voice-over), de darmos de cara com a invisibilidade de Thana no início, tudo isso contribui para que cada cena que se segue seja algo surpreendentemente novo.

Fiquei tão animado com o filme, que já estou pegando o longa-metragem seguinte do diretor e quero ver os demais. Qualquer coisa para trazer um pouco de alegria para esse momento já está valendo. E não estamos falando de qualquer coisa, mas de obras de arte.

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AS DIABÓLICAS (Les Diaboliques)

O fato de eu já conhecer a história e as surpresas da trama atrapalhou um pouco a completa apreciação do filme. Aí fiquei pensando se ele é tão resistente a revisões quanto certas obras (lembrei, por razões óbvias, de PSICOSE, de Hitchcock). Mas claro que é uma beleza visualmente falando também, com imagens que ficam guardadas de maneira forte em nossa memória. A trama de duas mulheres planejando a morte de um homem que é marido e amante das duas não deixa de ainda manter o seu fascínio. Até por ser gostoso de ver. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1955.

SONATA DE OUTONO (Höstsonaten)

Um privilégio poder ver um Bergman tão intenso e em restauração tão perfeita na telona. Minha primeira vez com SONATA DE OUTONO e fiquei impressionado. Aliás, quase sempre fico impressionado com Bergman. Como o maior cineasta canceriano, vejo neste filme a essência disso: a questão de guardar. No caso, a filha que guarda as mágoas do mal causado pela mãe durante muitos anos. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1978.

REVANCHE REBELDE (Roadracers)

Melhor filme de Robert Rodriguez, ao lado de PLANETA TERROR (2007). O diretor se sai muito bem quando homenageia os gêneros de que gosta. Este aqui é uma beleza, brincando com os filmes de jovens rebeldes dos anos 50 e com um veneno forte na violência e na personalidade dos personagens. Foi uma produção para a televisão, junto com a de outros diretores, projeto Rebel Highway. Não vi os outros filmes. Melhores cenas: o cabelo pegando fogo, o rinque de patinação e o sexo à beira do lago. Ano: 1994.

quinta-feira, março 26, 2020

A FORTALEZA (Fortress)

Quarentena, dia 9. Ontem até que eu estive bem, conseguindo conter a ansiedade e a aflição, mas hoje eu não consegui canalizar minha energia durante a manhã e estou tentando, desesperadamente, fazer isto agora. Creio que vai ajudar. Ontem também foi dia da notícia da morte de um cineasta muito querido de quem aprecia o cinema de horror, Stuart Gordon, 72, o maior especialista em adaptação de H.P. Lovecraft para as telas. Baseado em Lovecraft ele fez RE-ANIMATOR (1985), DO ALÉM (1986), HERANÇA MALDITA (1995), DAGON (2001) e DREAMS IN THE WITCH-HOUSE (2005), feito para a série-antologia MASTERS OF HORROR.

Logo, estamos falando de um sujeito que era um apaixonado pelo horror e pela ficção científica também na literatura (há dois títulos dele inspirados em obras de Edgar Allan Poe também). Além do mais, ao lado de gente como Carpenter, Romero, Cohen, Hooper, Dante, Landis e vários outros que se mostraram muito fieis ao gênero especialmente durante a década de 1980.

A lembrança que eu tinha de A FORTALEZA (1992) era de uma exibição na televisão em meados dos anos 1990. Eu tinha começado a assistir e estava curtindo muito, mas por algum motivo nunca aluguei para ver em casa. Com a notícia da morte de Gordon, este foi o filme que me pareceu mais adequado para homenageá-lo, mesmo em se tratando mais de um thriller de ficção científica, ação e suspense sobre fuga da prisão em um cenário futurista distópico. Como eu adoro filme de prisão e fuga e também de distopia estaria matando dois coelhos com uma só cajadada.

A FORTALEZA tem aquele espírito gostoso dos filmes B produzidos nos anos 1980 e muitas vezes encontrados em fitas nas locadoras. A diferença é que é um B-zão com um pouco mais de dinheiro. E embora Christopher Lambert tenha trabalhado algumas poucas vezes com cineastas de primeiro escalão, como Michael Cimino e Claire Denis, foi no cinema de ação mais despretensioso que ele solidificou sua carreira.

E Gordon, ao escalá-lo para estrelar o seu filme, não pensa em pedir uma boa interpretação ou nada do tipo. Inclusive, não faz falta e é até charmoso da parte do filme esse tipo de atuação mais canastrona, tanto dele quanto do elenco de apoio. Gosto muito do vilão do filme, vivido por Kurtwood Smith, assim como gosto muito da personagem da esposa dele, a bela Loryn Locklin, que infelizmente não teve uma carreira bem-sucedida.

Na história, que se passa no futuro, no ano de 2017, as pessoas são impedidas de ter um segundo filho. E o governo tem uma máquina que é capaz de descobrir isso. Tentando driblar a máquina, mas depois descoberta, ambos são presos e levados para a tal fortaleza, uma prisão de segurança máxima enorme e de alta tecnologia. Os detentos são monitorados por câmeras-robôs e tem, dentro de seus intestinos, um aparelho que tanto pode explodir quanto provocar dor. O filme até exagera ao colocar também um controle dos sonhos dos detentos. Nem ter sonhos eróticos eles podem.

O filme fica ainda mais divertido quando começa a rolar uma conspiração para que haja uma tentativa de fuga, assim como fica divertido também quando mostra as brigas entre os detentos. Uma dessas brigas chega a ser eletrizante. Creio se tratar de um filme querido por muitos, mas ao mesmo tempo é geralmente subvalorizado, inclusive pelos fãs de Gordon. Mas pode ser que seja só impressão minha.

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CRIME SEM SAÍDA (21 Bridges)

Dentro do que parece ser um momento de carência de bons filmes policiais, este filme é bem-vindo. É elegante, traz um ator que promete ser uma espécie de novo Denzel Washington, tem um jeitão de film noir moderno. Ainda assim, a trama me pareceu um pouco comum e a personagem da Sienna Miller é tão apagada que é quase um fantasma dentro da narrativa. Não sei qual é o problema dessa atriz. Quanto ao diretor, sua experiência maior é na televisão e por isso o filme está sendo vendido com o nome de seus produtores, os irmãos Russo. Direção: Brian Kirk. Ano: 2019.

AS PANTERAS (Charlie's Angels)

Acredito que uma vez que ficamos (mal) acostumados com um tipo de filme de ação com coreografia bem conduzida, como os da série JOHN WICK, filmes feitos sem muito capricho acabam perdendo pontos. E há também aqui, no caso deste novo filme da série AS PANTERAS problemas de ritmo que fazem que depois de uma hora já fiquemos um tanto aborrecidos. Nem mesmo a beleza das três jovens mulheres ajudam a contrabalançar neste sentido. Não deixa de ser um filme simpático e de ter as suas qualidades, como o desejo de trazer o protagonismo ainda mais para as mulheres, mas isso não é o bastante. Direção: Elizabeth Banks. Ano: 2019.

CASAL IMPROVÁVEL (Long Shot)

Esperava mais desta comédia estrelada por dois astros tão cheios de carisma (adoro a Charlize Theron). O que eu senti falta foi uma maior tensão erótica por parte do casal. A relação começa cedo demais, atrapalha um pouco o timing. Ainda assim, há uma cena que é lindona: a de "Must have been love", clássico do Roxxette. Como é comédia com o Seth Rogen, tem que ter algo de grosseiro também, mas tá valendo e é bem-vindo. Direção: Jonathan Levine. Ano: 2019.

quarta-feira, março 25, 2020

SANTA JOANA (Saint Joan)

Assisti a LAURA (1944) dias atrás e percebi o quanto se trata de uma das obras mais perfeitas da história do cinema. Talvez seja a grande obra-prima de Otto Preminger, mas afirmar isso talvez seja precipitado, já que o diretor tem uma filmografia de cerca de 40 títulos e vi apenas uma meia dúzia deles. Mas não quero falar sobre LAURA ainda. Hoje preferi escrever sobre uma obra considerada menor do diretor, SANTA JOANA (1957).

Trata-se de um dos quatro títulos do cineasta presentes no catálogo da Amazon Prime - os outros três são INGÊNUA ATÉ CERTO PONTO (1953), O HOMEM DO BRAÇO DE OURO (1955) e O FATOR HUMANO (1979), seu último longa-metragem. É importante que divulguemos isso, já que o sistema de busca desse serviço de streaming não é tão facilitador.

Joana D’Arc é uma das personagens mais fascinantes da História, tanto pela trajetória que inclui coisas de natureza fantástica, como as vozes que ela dizia ouvir, quanto pelo sucesso diante dos enfrentamentos com o exército inglês na Guerra dos Cem Anos, e também pelo cruel processo, seguido do trágico fim na fogueira em 1431.

Os filmes anteriores sobre a santa guerreira traziam mulheres mais velhas interpretando a personagem. Preminger quis fazer diferente e por isso escalou a jovem Jean Seberg, de então 18 anos para viver a santa guerreira. Foi uma decisão acertada e catapultou para o estrelado Jean, que também se tornaria uma forte ativista política, mas que hoje é mais lembrada por seu papel marcante em ACOSSADO, de Jean-Luc Godard.

A história de vida de Seberg é trágica e conturbada, tendo como fim um suposto suicídio, algo diversas vezes tentando pela atriz. Diz-se "suposto" pelas circunstâncias estranhas em que foi encontrado seu corpo: totalmente nua no banco traseiro de um carro escondido em meio a folhas. Nesta entrevista há muita coisa a respeito de sua vida e morte.

Quanto à sua relação com Preminger, ela o chamava de "o führer", dado o modo extremamente autoritário e agressivo com que o cineasta se comportava com seus atores e equipe. É interessante ler o prólogo da entrevista que Peter Bogdanovich fez com o cineasta presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, e ver o quanto ele se surpreende ao dar de cara com um idoso amável e generoso, algo que contrariava a fama do diretor. Talvez por ele estar já velhinho e no fim da vida, tendo experimentado alguns fracassos e rejeições dos estúdios, da crítica e da nova geração de Hollywood.

Há quem diga que ele tenha queimado de propósito Jean na cena da fogueira para que ela tivesse um resultado melhor na atuação. Dizem que ela ficou um tanto perturbada desde então. Ouvi sobre isso em um podcast americano.

Quanto a SANTA JOANA, trata-se da adaptação da peça de sucesso de Bernard Shaw. É interessante ter essa informação antes de ver o filme, até para se preparar para uma obra mais teatral e centrada nos diálogos. Ainda assim, há uma estrutura narrativa bem convencional da Hollywood da época, com a entrada em cena do fantasma de Joana para o Rei da França e depois um flashback com os acontecimentos em ordem cronológica, a partir do momento de um milagre e, em seguida, a entrada da jovem no exército francês.

O momento mais comovente, pra mim, é quando Joana, ao perceber que ficará presa em um espaço confinado para o resto da vida, abdica dessa vida para ser queimada na fogueira. Segundo ela, não haveria sentido viver sem ver o céu, sem sentir o cheiro das flores, sem experimentar o ar puro. Ela fala de coisas básicas, e por isso emociona tanto.

A cena da fogueira é até rápida e menos dolorosa que a de O PROCESSO DE JOANA D’ARC, obra-prima de Robert Bresson, mas ainda assim é suficientemente dolorosa, mesmo em se tratando de um filme que flerta mais com a racionalidade do que com o aspecto milagroso da vida da personagem.

Há pelo menos três motivos para ver SANTA JOANA: Jean Seberg, Otto Preminger e a própria trajetória misteriosa de Joana D’Arc. Há poucos filmes que oferecem tantos aspectos atraentes para o espectador.

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MIAMI VICE

Uma das coisas que mais ficou em minha memória quando vi este filme no cinema foi o sentimento de excitação provocado pelo romance proibido entre os personagens de Colin Farrell e Gong Li. A cena da lancha indo para Cuba à noite. Aliás, a noite escura era outro elemento de grande excitação e frio na barriga. As cenas de sexo, ainda que discretas, ganham contornos fortes, por causa do uso da digital. Infelizmente a imagem para os dias de hoje ganha uma baixa definição, que para alguns pode parecer charme, mas ainda continua sendo algo que me incomoda. O mesmo aconteceu comigo com IMPÉRIO DOS SONHOS, de Lynch, na revisão. Mas adorei rever MIAMI VICE, curtir o estilo do diretor em lidar com as fronteiras entre o que é legal e o que não é. A cena do resgate de um membro do grupo de policias infiltrados também é um momento forte. Minhas impressões sobre o filme da época em que o vi podem ser lidas AQUI. Direção: Michael Mann. Ano: 2006.

RELÍQUIA MACABRA / O FALCÃO MALTÊS (The Maltese Falcon)

Lembro de ter visto este filme no começo dos anos 1990, em VHS, naquelas edições que tinham o símbolo da Warner em prata. Não gostava muito do visual daquelas fitas, mas aquela coleção só tinha coisa boa. RELÍQUIA MACABRA não é dos meus filmes noir favoritos, e só pude perceber agora, mas há muitas qualidades e muitos motivos de ele ser considerado o ponto de partida do gênero. Antes de mais nada, Bogart como Sam Spade é perfeito. E eu gosto dos coadjuvantes também, embora a femme fatale da vez pareça frágil demais. E nem é tão atraente assim. Direção: John Huston. Ano: 1941.

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the Road)

Engraçado essa coisa de listas, de como elas são importantes para nos deixar intrigados e interessados em determinado filme. A lista do Filipe Furtado dos melhores filmes de 1967 trazia este lindo filme de Stanley Doney na segunda colocação. E de fato é um belo trabalho, tanto na construção inteligente da montagem de quatro momentos na vida de uma casal, quanto nos sentimentos contraditórios que surgem, ora de alegria, com o início da relação, ora de mal estar, com as discussões, que é o que dá o toque de cinema europeu. Se bem que aqui é um filme inglês, ainda que com um cineasta hollywoodiano. Audrey Hepburn apaixonante, Albert Finney ótimo. Pena que vi o filme em pedaços, por causa da cópia que ficava o tempo todo travando.

segunda-feira, março 23, 2020

FIM DE FESTA

Quarentena, dia 6. Estou tendo dificuldade grande de ver filmes, de me concentrar neles. Ainda não encontrei nenhum que fosse capaz de me fazer esquecer da realidade, da situação em que nos encontramos. Na verdade, os filmes até têm aumentado minha angústia, em comparação com algumas leituras (livros, quadrinhos, revistas), que têm sido mais eficientes em confortar o meu espírito. Também estou encontrando um tanto de alívio na escrita de textos para o blog, não importando se os textos saem como gostaria que saíssem. O importante agora é deixar que o misto de informação, sentimento pela obra e exercício de memória trabalhem juntos.

E o título que gostaria de falar a respeito hoje é FIM DE FESTA (2019), de Hilton Lacerda, um dos filmes que prometiam uma nova leva de ótimos lançamentos brasileiros que surgiriam no momento pós-Oscar. Mas aí veio o Corona-vírus e estragou tudo. Ou estragou o semestre, digamos assim. Sejamos ao menos otimistas de que no próximo semestre entraremos em uma era gloriosa de recuperação do prazer do cinema como espaço coletivo.

Pensar em FIM DE FESTA é também pensar em abraços, em afagos, em carinho. É pensar no modo carinhoso com que o policial Breno vivido por Irandhir Santos trata o filho Breninho (Gustavo Patriota). A aproximação dos corpos é algo muito presente no filme e embora haja sim sexo, inclusive uma cena de sexo grupal, o que mais lembramos é da aproximação dos corpos como afeto entre pai e filho nas cenas lindas em que o Breno pai conversa com o Breno filho na sacada do apartamento enquanto compartilham um baseado, massageando o pé do outro e falando sobre suas angústias, suas frustrações. Principalmente da parte do policial, que retorna de férias na quarta-feira de cinzas e parece viver um constante estado de ressaca, com sua voz sempre pausada e expressão cansada.

O Carnaval hoje é um símbolo muito associado à esquerda, nesses tempos de polarização. E, diferente de TATUAGEM (2013), o longa-metragem anterior de Lacerda, que passava um clima de liberdade transgressora muito bonita, este novo é bastante contaminado pelos novos tempos. Filmado durante a tensa campanha eleitoral de 2018 que traria Bolsonaro para a presidência, o clima não podia ser dos mais felizes.

O filme acompanha duas histórias paralelas: temos a história de vida tranquila pós-Carnaval dos jovens, Breninho e seus amigos, que ocupam o apartamento do pai, promovem a suruba e o amor livre e bissexual, vão à praia, aproveitam o momento enquanto estão juntos, já que em breve se separarão.

Há, inclusive, uma cena na praia que se destaca e que é reflexo da polarização. A menina Penha (Amanda Beça) pratica o top less e é logo hostilizada por um grupo de pessoas que advoga para si as boas maneiras. Uma mulher até diz que quer o seu país de volta. É o Brasil se preparando para o que viria. A outra história acompanha o policial tentando desvendar o assassinato de uma turista alemã durante o Carnaval, mas os detalhes das investigações acabam sendo pouco importantes para o filme, que se constrói muito melhor em climas, atmosfera e nos gestos de seus personagens.

No mais, há que se destacar a única cena com participação de Hermila Guedes, conversando com o personagem de Irandhir. Muito boa. Dessas que fazem o público prender a respiração para curtir os silêncios e as falas desses grandes intérpretes, que ajudam a elevar ainda mais o já belíssimo cinema produzido em Pernambuco.

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MEIO IRMÃO

O que mais impressiona neste filme é a performance da jovem estreante Natália Molina. Ela dá um show e sempre que o filme fica sem sua presença cai um pouco. O que mais importa é o seu drama. O drama de uma menina cuja mãe saiu de casa há vários dias e não voltou. De estar se sentindo tão rejeitada quanto agredida pelo mundo. O momento em que ela diz que prefere não ter filhos, pois eles crescem para se tornarem escrotos, é bem representativa desse sentimento de desencanto. Aí temos o meio irmão dela, cuja trama é um pouco menos interessante, envolvendo uma filmagem de dois rapazes gays dando uns amassos e sendo depois espancados por uns caras homofóbicos. A união das duas histórias acaba não dando muita liga, mas o filme tem inúmeros momentos inspirados. Direção: Eliane Coster. Ano: 2018.

SOLTEIRA QUASE SURTANDO

Mina Nercessian é a razão de assistir a esta comédia romântica leve, que até lembra os trabalhos feitos por Mônica Martelli. Mina é uma mulher de 35 anos que descobre que está com menopausa precoce e tem poucos meses para engravidar e realizar o sonho de ser mãe, que até então era algo que ela não fazia questão de ser. É um filme para ser visto relevando os problemas de dramaturgia, as atuações, alguns diálogos e procurando se divertir com o que o filme tem de melhor para oferecer. E o melhor é Mina, com um carisma admirável. Se esse filme for um sucesso, ainda que pequeno, pode ser que ela ganhe novas chances de brilhar. Caco Souza é diretor de 400 CONTRA 1: UMA HISTÓRIA DO CRIME ORGANIZADO (2010), pouco visto, mas com um elenco bem interessante. Ano: 2020.

SÓCRATES

A comparação que o Merten faz deste filme com MOONLIGHT, de Barry Jenkins, no cartaz, tem a sua razão de ser, tanto por abordar a vida de um jovem negro e homossexual, quanto pelas dificuldades por que ele passa. Mas são dificuldades muito maiores, mais apropriadas à dura realidade brasileira. E por mais que pareça exagero mostrar o personagem pegando comida do lixo para aplacar a fome, sabemos que isso é realidade. Um dos méritos (ou curiosidades) do filme está em não mostrar o personagem enveredando por uma vida de crime, o que seria bem compreensível, afinal, em momentos desesperados, atitudes desesperadas e urgentes se fazem necessárias. Acaba sendo um filme sobre moral também. Confesso que não me ganhou totalmente, mas tem seus méritos. Direção: Alexandre Moratto. Ano: 2018.

domingo, março 22, 2020

JOIAS BRUTAS (Uncut Gems)

Que bom quando eu consigo, em meio a este período tão difícil, me concentrar na leitura de alguma coisa e que, ainda por cima, vai ajudar a repensar e a relembrar as sensações e pensamentos que tive quando vi JOIAS BRUTAS (2019), quarto longa-metragem dos irmãos Bennie e Josh Safdie, e que foi lançado no Brasil e na maior parte dos países do mundo diretamente na Netflix, no início desde fatídico 2020.

Eu acredito que ter visto na Netflix, em vez de em uma boa sala de cinema, pode ter prejudicado um pouco minha apreciação. Afinal, o filme é bastante irritante, claustrofóbico, incômodo. Embora tudo isso seja deliberado, uma vontade de seus realizadores, no cinema eu ficaria mais disposto a embarcar, sem pausas, nessa viagem, por mais que saísse da sala um pouco tonto.

Hoje aproveitei o dia para ler o que saiu sobre o filme nas revistas Cinema Scope (ed. 81) e Film Comment (vol. 55). Na Cinema Scope saiu uma apresentação seguida de uma entrevista com os irmãos de seis páginas. Muito esclarecedora e agradável de ler. A Film Comment fez apenas uma crítica de duas páginas, mas também muito boa. Sinto falta demais de boas revistas de cinema impressas no Brasil. Essas eu consegui, aproveitando a ida de minha irmã e meu cunhado aos Estados Unidos no início do ano. Então, ler esse material e conseguir me concentrar foi muito recompensador, assim como está sendo escrever a respeito aqui, tentando ignorar um pouco o mal estar do momento.

Na entrevista da Cinema Scope, os irmãos Safdie começam falando bastante sobre basquete, e como não sou um fã de esportes e sou totalmente alheio ao mundo da NBA, procurei aprender um pouco, mas só as informações mais básicas. Soube que JOIAS BRUTAS é o filme mais centrado na NBA desde SPACE JAM - O JOGO DO SÉCULO, de 1996. Em JOIAS BRUTAS, fui apresentado a Kevin Garnett, que agora está aposentado, mas que em 2012, que é quando se passa a história, ainda é um dos grandes astros do basquete. Ele é essencial para a trama e interpreta a si mesmo, por assim dizer.

O foco do filme é mesmo Adam Sandler, que teve uma interpretação elogiadíssima, coisa que não acontece talvez desde sua parceria com Paul Thomas Anderson em EMBRIAGADO DE AMOR, em 2002. Sandler, ao longo dos anos, ganhou a fama de estrelar comédias de gosto duvidoso e por isso foi um presente para ele e para nós vermos o quanto o ator é capaz de ser muito bom. Eu, pelo menos, esqueci que era o Sandler, e comprei o personagem do judeu viciado em jogo e dono de uma joalheria Howard Ratner.

O filme tem uma introdução no mínimo interessante, começando com imagens do acidente em uma mina na Etiópia e indo literalmente para dentro do protagonista, que está fazendo um exame de colonoscopia. Ele tem medo de estar com um câncer. Depois disso, é tudo muito delirante, muito estonteante, já que somos arremessados no meio da ação, dentro da joalheria de Howard, e em um tipo de narrativa que parece embebida de cocaína.

Nesse início, Howard recebe a encomenda preciosa (a tal joia bruta do título) quando o Kevin Garnett está em sua loja. Ele aceita que Garnett, que fica fascinado com a pedra multicolorida, deseja ficar com ela para dar sorte. O jogador acredita que ela tem um poder derivado de seus ancestrais. Ele poderia ficar com ela por uma noite apenas. Howard pega como caução o anel do jogador, e o penhora por U$ 21.000 em cash para apostar. É importante lembrar que muito do desconforto e da ansiedade que o filme provoca vem não apenas do uso da câmera inquieta, mas principalmente do modo histérico com que os personagens lidam com as coisas da vida, a começar pelo onipresente protagonista.

Nesse sentido, o filme lembra bastante a obra de John Cassavetes, talvez o cineasta que mais tenha influenciado os irmãos Safdie. Há essa agressividade presente a todo momento, mas também essa força nas atuações e na dramaturgia e no estudo de personagem. No caso, o que há de mais fascinante em Howard é o quanto ele é um homem infantilizado, ao querer tudo e não se dar por satisfeito em perder ou nas consequências de seus atos, um homem que não vê o valor em nada - objetos, dinheiro, pessoas - se ele não pode arriscar perdê-los.

Algo que me deixou muito intrigado ao ler a entrevista dos Safdie foi quando eles mencionaram o aspecto anticapitalista da filmografia de Sandler, e como isso casou como uma luva para o filme. Como sou pouco conhecedor da filmografia do ator/comediante, lembrei logo de filmes como CLICK, A HERANÇA DE MR. DEEDS e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, títulos que trazem uma espécie de lição moral sobre o que realmente importa na vida, muito além do materialismo. Os irmãos Safdie, porém, estão longe de tratar o assunto com sentimentalismo.

Enfim, há muito o que falar e o que lembrar do filme, mas acho importante deixar uma menção à ótima participação da estreante Julia Fox, que interpreta Julia, a amante de Howard. Algumas das melhores cenas são com Julia, especialmente uma em que eles brigam na rua e a câmera passa a segui-la e não ele. Por um momento passamos a acreditar que o filme mudaria de ponto de vista. Mas isso dura pouco.

Podemos ainda lembrar das dez pragas do Egito na reunião da família judaica tradicional, do cunhado mafioso vivido por Eric Bogosian, da participação do cantor The Weeknd como ele mesmo, inclusive em um show seu, e em mais uma série de cenas. Por isso, por mais que a nossa relação com o filme, enquanto o vemos, não seja uma relação prazerosa, depois percebemos o quanto se trata de uma obra digna de respeito.

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INOCÊNCIA ROUBADA (Les Chatouilles)

Segundo filme do festival que trata do assunto "pedofilia", este aqui é mais eficiente do que o do Ozon (GRAÇAS A DEUS), embora a comparação não seja muito justa, já que são bem diferentes. Aqui vemos uma jovem mulher que enfrenta os fantasmas do passado, envolvendo um homem, amigo de sua família, que a violou inúmeras vezes. O trabalho da atriz, diretora e bailarina Andrea Bescond é ótimo e o filme entra num crescendo de emoções que comove, sem ter que apelar para uma trilha sonora onipresente. O final é lindo. Direção: Andrea Bescond e Eric Metayer. Ano: 2018.

O TRADUTOR (Un Traductor)

É um bom filme para assistir, mas fica a impressão de que os diretores superestimaram a história. Não que não seja importante alguém ser impactado por sua passagem pela ala infantil de câncer, mas, do jeito que o filme mostra, a emoção é minimizada por pura incompetência de seus realizadores. Rodrigo Santoro até que se esforça e o seu personagem é bastante simpático. Outra curiosidade é ver o estrago que o fim da União Soviética causou de imediato na ilha de Fidel. Direção: Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso. Ano: 2018.

A NOITE DO JOGO (Game Night)

Talvez seja mesmo a comédia do ano de 2018, mas acredito que GRINGO seja mais eficiente em provocar mais risos. Este, porém, é mais inteligente em sua proposta, nos diálogos afiados, em ter uma Rachel McAdams encantadora demais e na direção de tirar o chapéu. Fora a direção de arte, foda também. Talvez o problema seja umas gorduras, problema de montagem. Tem hora que o filme parece se exceder e perde um pouco o ritmo. Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Ano: 2018.