domingo, junho 09, 2024

OS OBSERVADORES (The Watchers)



“Try not to die.”
(Darwin) 

Em outras circunstâncias eu estaria aqui escrevendo um relato do show a que fui ontem com minha amada, de Anavitória e Nando Reis, no Iguatemi Hall. São artistas de que gosto muito, embora não seja fã o suficiente para conhecer a maior parte de suas canções. Esse quesito não quer dizer que o show vá ser mais ou menos interessante para o espectador. É possível ir a um show musical sem conhecer nada de um artista e ficar encantado com seu trabalho. Pois bem. O problema maior do show de ontem foi técnico. Os artistas falavam em seus microfones crentes que estavam sendo ouvidos, mas não era isso que acontecia. Eu e a Giselle estávamos nas cadeiras lá do fundão, mas mesmo quando fomos ficar de pé lá no meio, mais próximo do palco, não era ainda possível compreender bem frases inteiras ditas por Nando e as meninas.

Na minha vida toda de ida a shows em vários espaços, nunca vi nada parecido. E ainda por cima, como podem cobrar tão caro dentro de um espaço tão luxuoso para oferecerem um som tão aquém (para não dizer tão cocô)? Ainda cheguei a reclamar em algumas postagens do Iguatemi Hall no Instagram, mas apenas uma ou outra pessoa aparece concordando comigo (depois vi que mais pessoas reclamaram). Existe uma espécie de negação ou de falta de percepção da qualidade técnica nos espaços. Estou acostumado a ser o reclamão das projeções de cinema e não quero ser o sujeito que reclama dos shows. 

Uma possível explicação: aquela espécie de colchão que funciona como teto do espaço pode estar interferindo na reverberação sonora (já que às vezes o som dos instrumentos ficou bem alto, tão alto que incomodava e distorcia, o que aliás é outro problema). A segunda explicação é mesmo o aparato técnico dos artistas, mas acho pouco provável, não sei. Pois bem, na falta de um registro do show hoje e usando o “prefiro não opinar” da Glória Pires, vamos de filme.

Estava há pouco dando uma olhada na repercussão crítica de OS OBSERVADORES (2024) no Rotten Tomatoes e, para minha surpresa, o filme está cheio de críticas negativas. Pelo menos lá fora a recepção não foi boa, o que de fato me surpreendeu pela riqueza e elegância visual que enxerguei nesta estreia na direção de longas-metragens de Ishana Night Shyamalan, filha do nosso querido M. Night Shyamalan, que está com filme novo chegando, hein.

Quem viu a excelente série SERVANT (2021-2023) deve ter prestado atenção nos diferentes diretores que comandavam alguns episódios – Shyamalan e o criador Tony Basgallop convidaram jovens cineastas como Severin Fiala e Veronika Franz, de BOA NOITE, MAMÃE; Kitty Green, de A ASSISTENTE; Julia Docournau, de TITANE; Isabela Eklöf, de HOLIDAY; Carlo Mirabella-Davis, de DEVORAR. E havia também os episódios dirigidos pela filha. E eu notava que os episódios dirigidos por Ishana eram tão ou até mais caprichados e exuberantes na construção visual que os do próprio pai; sendo que ela que não havia dirigido sequer um curta-metragem antes. SERVANT acabou servindo de laboratório para ela começar seu ofício.

Por isso, quando fiquei sabendo do primeiro filme dirigido por ela, logo esperei algo no mínimo bom e digno. E fui ainda mais surpreendido, com um tipo de terror que procura trazer algo novo (e encontra), por mais que não consiga fugir de todos os clichês – o que é quase impossível e nem sei se gostaria disso. OS OBSERVADORES é o tipo de terror pagão, em contraponto ao terror católico de uma obra como A PRIMEIRA PROFECIA, para citar um bom exemplo recente.

E isso acaba por trazer coisas novas, trazidas da rica mitologia irlandesa – as locações são no interior da Irlanda (lindas!). Podemos dizer, sim, que é um conto de fadas, mas um dos mais sombrios. Dakota Fanning é uma jovem que fica presa numa floresta cuja saída é aparentemente impossível de encontrar. Até que ela encontra alguém em condições semelhantes, vivendo num lugar chamado de poleiro, no meio daquela floresta totalmente fechada.

Gosto muito das regras que ela recebe, impostas pela líder do grupo de sobreviventes da floresta, o que faz lembrar alguns filmes do Shyamalan pai (A VILA, A VISITA), mas há uma vivacidade na condução narrativa que nem o pai tem conseguido em certos filmes mais recentes. Ou seja, não há nenhum momento para ir ao banheiro, um momento menos importante. É sentar na cadeira e ficar interessado na trama, nos personagens, nos mistérios, e no quanto o filme muito elegantemente trata de trabalhar o medo, a escuridão e o desconhecido. Dakota está ótima, mas os outros três atores também estão, inclusive Georgina Campbell (vista no ótimo NOITES BRUTAIS). Não é um filme de grandes diálogos, o foco está mais na riqueza visual e em alguma possível metáfora sobre espelhos e espetáculos.

Filme visto numa projeção excelente da sala 10 do UCI Iguatemi. Algo me diz que é projetor novo, de dar gosto, e o som também estava excelente.

P.S.: Depois da sessão, eu e meu sobrinho experimentamos o horror da vida real. Estávamos voltando depois das 11 da noite de carro através de uma rua sinuosa que vai dar na Av. Pontes Vieira. Eu percebo que um homem corre e se aproxima do carro à nossa frente. Depois outro homem se aproxima. Falei para o Lucas: é um assalto que tá rolando. Como a rua é uma subida, gosto de deixar o meu carro 1.0 com o ar condicionado desligado e o freio de mão puxado e com uma distância razoável do carro à frente. Em seguida, outro homem sai de um muro, das sombras e se aproxima da gente. O Lucas grita: “vai!, vai!”, e eu contorno o carro e acelero, sem me importar se vou atropelar ou não o terceiro assaltante que se aproximava da gente, não sei se com uma arma na mão ou não. Meu sobrinho até faz um gesto de apontar uma arma (imaginária) para ele, gesto que não cheguei a ver, só depois ele me disse. Não olhei para o rosto desse homem – para mim, os três continuarão a ser sombras. Só queria sair dali, buscar uma saída aproveitando inclusive que o sinal estava verde. E saí cantando pneu.

Sempre usei essa rua de nome comprido (Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face) em muitas décadas e nunca vi tal coisa acontecendo antes. Não sei se isso é sinal de que nossa segurança está pior, pois não vimos um carro da polícia sequer no caminho de volta para casa, ainda com a adrenalina agindo no corpo. Mesmo assim, respirando fundo, consegui cantar uma canção no caminho de volta: “Long line of cars”, do Cake. Adoro essa música.

+ TRÊS FILMES

IMACULADA (Immaculate)

A primeira coisa que me incomodou em IMACULADA (2024), de Michael Mohan, foi a fotografia. E isso veio lá desde a projeção ruim do cinema que cheguei a abandonar, passando pela tentativa de ver em melhor qualidade numa cópia 4K (em vão, pois a TV deixa um brilho incômodo) e em seguida fechando numa cópia 1080p apenas razoável para o que se podia aproveitar das intenções das imagens, no terço final. E olha, chequei: a diretora de fotografia tem coisas bem legais no currículo, como COLUMBUS e A CASA SOMBRIA. Eis que tento prestar atenção na trama e também demoro a ver algo que não seja uma repetição de tantos outros filmes que seguem essa linha de terror dentro dos muros de um convento. Tem a tal freira se atirando lá de cima, o pombo que se atira na janela de vidro, as figuras soturnas no meio da noite, gente malvada cometendo atrocidades e contando seus planos diabólicos. Aliás, comecei a achar interessante no momento que o filme ganha mais em violência e sangue, mas não o suficiente para não torcer para que acabasse logo. Mesmo assim, tenho que reconhecer que a cena final de entrega na interpretação de Sydney Sweeney foi espetacular. Chega a se aproximar, pelo menos neste momento, da excelência que é Nel Tiger Free em A PRIMEIRA PROFECIA, o filme-irmão mais elegante. De todo modo, gosto do final de ambos, embora eu veja o de IMACULADA como tanto um ato de rebeldia muito bem justificado, quanto uma espécie de autodestruição de algo que talvez tenha falhado.

IMAGINÁRIO – BRINQUEDO DIABÓLICO (Imaginary)

Se visto como uma fábula, ou uma fantasia, e não como um filme de horror, talvez este novo trabalho de Jeff Wadlow possa ser melhor aceito. Mas só um pouco, pois quando começam a explicar demais (e há uma personagem que entra na história só para isso) IMAGINÁRIO – BRINQUEDO DIABÓLICO (2024) começa a ir ainda mais fundo em sua trajetória descendente. A princípio, pode-se pensar que é um filme estilo BRINQUEDO ASSASSINO, mas felizmente (ou não, na verdade) trata-se de algo totalmente diferente. Aliás, quando o filme se apresenta como algo diferente e parece enveredar por um caminho mais psicológico, por assim dizer, eu achei que fosse para o seu bem. Mas nada depois consegue funcionar. Talvez eu coloque um pouco mais de destaque à personagem da adolescente (Taegon Burns), pois ela parece estar levando um pouco mais a sério o filme. E eu até diria que, mesmo com um roteiro problemático como esse, uma boa direção conseguiria salvar algo. Lá por perto do final, o filme mais parece um teatrinho de escola, com uma referência visual a Coraline, do Neil Gaiman, mas isso acaba não fazendo muita diferença a seu favor.

MADAME TEIA (Madame Web)

Eu fico sem entender como gente que até tem uma reputação a zelar se arrisca a entrar num desses projetos da Sony/Marvel, mesmo sabendo que todos resultaram em fiascos vergonhosos. Como sei que vergonha é roubar e não poder carregar e que é preciso ter bom humor para quase tudo nessa vida, é justamente por isso que não acho que seja completa falta de tempo ver MADAME TEIA (2024), de S.J. Clarkson. Até porque você pode juntar os amigos só para rir das linhas de textos ruins, das ideias que só podem ter saído de alguém que estava chutando o balde. E quando a gente pensa que o filme não pode ficar mais ridículo, damos de cara com as cenas finais, que não acredito que possam ter sido criadas com seriedade por parte do time de roteiristas. As cenas da Dakota Johnson com as três atrizes que fazem as adolescentes são cheias de graça. E pelo menos é um filme de super-herói em que a heroína não tem poderes tão explícitos nem sai fantasiada o tempo todo, o que é algo diferente, mesmo que o vilão, Ezequiel, apareça com uma roupa muito similar à do Homem-Aranha. Na trama, Dakota Johnson é uma jovem que trabalha como paramédica numa ambulância, quando começa a prever o futuro.

domingo, junho 02, 2024

LADY BLUE SHANGHAI



Uma das grandes vantagens de ter David Lynch como um dos cineastas mais queridos é que sua obra é quase inesgotável. Isso porque, mesmo que você já tenha visto todos os seus filmes e séries, o que é difícil, pois ele fez muita coisa, há uma série de enigmas e mistérios que ainda seguem assombrando e encantando a cada nova revisão de suas obras. Sem falar no senso de humor e no amor que transborda de seu trabalho. Sua última grande obra foi TWIN PEAKS – O RETORNO (2017) e mesmo que ele não lance mais nenhum filme ou série, é sempre possível voltar a TWIN PEAKS. Sem falar que há uma série de novos cineastas que se inspiram em Lynch para construir obras quase lynchianas e há também a descoberta de filmes antigos que trazem relações surpreendentes com o cinema de Lynch, como, por exemplo, A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, ANJO OU DEMÔNIO?, de Otto Preminger, ou ESCRAVAS DO MEDO, de Blake Edwards. E há também curtas-metragens em caráter promocional para algumas marcas, como um suposto filme publicitário, mas que ele embebe de sua poética.

É o caso de LADY BLUE SHANGHAI (2010), que eu só fui descobrir a existência um dia desses. Trata-se de um curta de 16 minutos que o cineasta fez para a empresa de moda Dior, estrelado por Marion Cotillard. Imagina só: existe um filme de Lynch estrelado por Cotillard! O filme ficou disponível inicialmente no site da Dior até outubro de 2010 e hoje é possível encontrar no YouTube e em alguns sites de compartilhamento. O visual lembra muito aquele digital um pouco borrado de IMPÉRIO DOS SONHOS (2006) e contém inúmeras referências a obsessões do cineasta, como o mistério da cor azul. Inclusive, há uma rosa azul dentro da bolsa também azul; lembremos que a rosa azul aparece em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) como algo que vai além das interpretações, como algo quase proibido de ser interpretado. E isso é dito por um dos personagens, como uma espécie de brincadeira metalinguística de Lynch. Quanto à cor azul, ela aparece como destaque pelo menos desde VELUDO AZUL (1986) na filmografia do diretor, mas sei que se formos procurar direitinho, ela já aparece nos primeiros curtas. 

Na trama de LADY BLUE SHANGHAI, Cotillard adentra os corredores de um hotel, enquanto o som de um velho tango parece aumentar à medida que ela se aproxima de seu apartamento. Ao chegar ao apartamento, o som está quase ensurdecedor a ponto de distorcer as caixas de som. Ela tira a agulha da vitrola e imediatamente vê luzes surgirem como relâmpagos no quarto. E uma fumaça atravessa a bolsa azul que está no meio da sala. Ela sabe, de alguma maneira, que há algo dentro daquela bolsa. E quando os funcionários do hotel chegam ela conta que já esteve ali antes, como numa sensação de déjà vu. Aos poucos, ela lembra de algo importante, de um homem chinês que ela conhecera. 

É quando o filme consegue se tornar ainda mais onírico do que já estava e ganha mais cores, com efeitos de luzes coloridas que borram e pintam a noite dos amantes que correm pelas ruas de Shanghai. Uma das coisas mais bonitas é quando o homem diz que não deveria estar ali. Que ama aquela mulher, mas não deveria estar ali. Como se, de alguma maneira, ele tivesse entrado num sonho proibido. No final, quando Cotillard agarra com carinho a bolsa contendo a rosa azul, é como se estivesse abraçado aquele homem com quem trocou juras de amor. 

Lynch, quando fala de amor é também incrível, com uma carga dramática que é capaz de causar sentimentos que nenhum outro cineasta é capaz. Basta lembrar o drama trágico das amantes de CIDADE DOS SONHOS (2001) ou os anos de espera para ficarem juntos Big Ed e Norma em TWIN PEAKS – O RETORNO. 

Para a produção de LADY BLUE SHANGHAI, a Dior deu total liberdade criativa para Lynch, com a condição de que ele mostrasse a bolsa Lady Dior, a Torre Pérola Oriental e as antigas ruas de Shanghai. Condições bem fáceis para Lynch criar uma belezura que infelizmente está quase invisibilizada até para quem tem o costume de ver seus filmes.

+ TRÊS FILMES

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Ao saber que Luiz Fernando Carvalho adaptaria o livro de Clarice Lispector, comprei-o há algumas semanas (ou meses, nem sei), e de cara percebi que a leitura não seria das mais fáceis logo nas primeiras páginas. O tom nem sempre doce da prosa de Lispector se apresenta nesta obra, especificamente, ainda mais desafiador. E adaptar um livro como esse é duplamente desafiador. Não sei se fiquei incomodado com a interpretação de Maria Fernanda Cândido ou se a quase impenetrabilidade do texto acaba fazendo com que as mais de duas horas de projeção sejam difíceis, talvez para que nos cansemos tanto quanto a narradora/personagem G.H., que se multiplica em várias em sua via crúcis. Em alguns momentos, A PAIXÃO SEGUNDO G.H. (2023) só não vira teatro pois LFC é um homem de cinema, mas o texto é excessivo e fiquei me perguntando se ele chegou a cortar algo do texto original ou fez apenas recortes. Não me entendam mal: o texto é genial, mas é algo que eu leria devagarinho, ao longo de vários dias, como boa prosa poética que é, e não da maneira que ficou. Quem sabe um dia eu retorne ao filme e passe a gostar mais.

A MATÉRIA NOTURNA

Há um filme excelente dentro deste A MATÉRIA NOTURNA (2021), de Bernard Lessa. Trata-se da primeira meia-hora, ou primeira parte, antes do personagem de Welket Bungué entrar na trama. Antes disso, havia uma espécie de mistério quase lynchiano e uma personagem fascinante em sua tristeza, vivida com talento por Shirlene Paixão. O diretor sabe captar momentos em que um simples vento ou a movimentação de uma câmera para o lado fazem a diferença. Ou mesmo a captação do anoitecer quando a moça precisa passar por um portão fechado para voltar para a casa da amiga. Nos momentos com Bungué, destaco algumas cenas de intimidade dos dois, em que eles se agigantam como pessoas lindas no meio das dificuldades econômicas e um certo ar de incerteza e hostilidade que começa sutilmente a se manifestar. Uma pena que o filme tenha optado por essa mudança de rumo. Não sei o quanto isso foi deli

BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS

Divertida e inventiva, ainda que irregular, animação. A trama de BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS (2023), de Marão, é tão cheia de coisas fantasiosas que o meio é o ideal para se contar essa história sobre uma mulher em busca de algo. Para isso, essa mulher, que tem superpoderes bem estranhos (tipo, sua bunda vira um gorila gigante!) conta com a ajuda de uma pequena nuvem com incontinência pluviométrica e uma tartaruga com TOC. A tartaruga é o personagem mais legal e o diretor e roteirista soube muito bem criar trejeitos divertidos para ela, como o fato de ela passar a mão pela cabeça com frequência, especialmente quando está irritada. Há um momento em que a narrativa cansa um pouco, mas há outro momento de seriedade muito bonito. Gosto dos traços simples e das escolhas das cores, e também quando o mundo em preto e branco se torna predominante.

sábado, junho 01, 2024

A DAMA DE PRETO (Park Row)



Ainda estou lendo o capítulo “5. A Moral é uma questão de travellings – A crise fulleriana da cinefilia francesa (1953-1965)”, do livro Cinefilia, de Antoine de Baecque, e estou cada vez mais fascinado por Samuel Fuller, mesmo sabendo ainda tão pouco, mesmo apenas iniciando a minha peregrinação por sua obra e, por isso mesmo, não entendo muito bem a polêmica em torno de ele ser considerado fascista por parte da crítica francesa, uma parte hoje mais esquecida. Ao que parece, isso se apresentaria um pouco mais evidente na trama de ANJO DO MAL (1953), que é justamente o próximo trabalho que verei do realizador.

Por enquanto podemos nos concentrar em A DAMA DE PRETO (1952), que vejo como uma obra um pouco mais convencional na narrativa, mas até nesse sentido isso pode ser enganoso, pois há algo de estranho às vezes nas composições visuais e nas escolhas da montagem. Engraçado que no texto de Baecque, principalmente quando ele passa a fazer citações do crítico Luc Moullet, aparece uma referência à questão da feiura, que é algo que talvez tenha me incomodado a princípio no filme. A própria Mary Welch, a personagem feminina, não tem o mesmo ar de glamour de outras estrelas de Hollywood da época. Talvez por que estejamos diante de uma produção de baixo orçamento, mas deixo claro que não estou dizendo que a atriz é feia.

Vejamos o que diz o livro sobre esse aspecto:

É nesse instante que o crítico assinala a incongruência e a loucura do olhar em Fuller, essa maneira de mostrar com insistência o que outros descartam deliberadamente de seus filmes, a desordem, a sujeira, o inexplicável, a barba por fazer, “uma espécie de feiura fascinante do rosto do homem”. Ponto de vista que Moullet caracteriza como o do “primário”, mas um primário inteligente, dotado de olhar, para quem “o espetáculo do mundo físico, o espetáculo da terra, é a melhor testemunha de inspiração”. (p. 234-235)

(Eis o motivo de eu sentir dificuldade de encontrar imagens belas do filme para ilustrar a postagem que tivessem uma beleza mais clássica.)

A DAMA DE PRETO é um filme que faz um elogio ao jornalismo que busca a verdade e que luta por aquilo que considera correto. E também um elogio àquilo que é criado em circunstâncias precárias, como o próprio cinema de baixo custo de Fuller. O personagem de Gene Evans, anteriormente visto em CAPACETE DE AÇO (1951) e BAIONETAS CALADAS (1951), é um jornalista que logo no começo do filme se recente de sua patroa, a chefe do jornal The Star, que supostamente foi responsável pela morte condenação de um homem à morte. Por causa disso, ele é demitido ou se faz demitir do jornal e ganha o apoio de um homem que tem equipamento suficiente para fundar um outro jornal. A qualidade do papel teria que ser de qualidade bem inferior (de embrulho), a quantidade de páginas menor, mas o preço seria barato o suficiente, assim como o formato atraente para um público mais popular, com direito a um cartunista ilustrando a capa, algo novo naquela época, na década de 1880. 

Com a popularidade de seu jornal, chamado The Globe, o protagonista passa a ser atacado duramente por pessoas ligadas ao The Star, administrado pela personagem de Mary Welch, a tal dama de preto do título brasileiro (o título original se refere à rua onde se localizam os dois jornais). Em alguns momentos, o filme parece uma história de gângsteres, em outros, um melodrama bem carregado, em outros parece se perder quando a câmera corre violentamente pelas ruas e nos deixa atordoados em uma cena de violência confusa que acaba funcionando bem num filme de baixo orçamento como este.

Gostei muito de ver as dificuldades de botar um jornal no ar, naquela época em que teria que juntar os tipos um a um (o homem que trabalha com os tipos, inclusive, é analfabeto!). Há também uma questão envolvendo a Estátua da Liberdade, nos momentos em que ela estava prestes a ser erguida, mas o que mais gosto é do personagem de Evans, de sua nobreza, e do quanto, com frequência, a química entre ele e a dona do outro jornal se dá, de maneira explosiva, por mais que essa questão mais romântica entre eles possa parecer uma espécie de concessão para tornar o filme atraente para um número maior de espectadores.

+ TRÊS FILMES

DO LODO BROTOU UMA FLOR (Ride the Pink Horse)

Segunda incursão na direção de Robert Montgomery, depois do experimental e muito citado A DAMA NO LAGO (1946), que eu nunca vi até hoje, DO LODO BROTOU UMA FLOR (1947) também foge um bocado às convenções do noir daquele período, até por se passar numa cidadezinha da fronteira com o México, onde o herói um tanto amoral vivido pelo próprio Montgomery chega para fazer uma chantagem ao homem que matou seu melhor amigo e sair de lá com um bom dinheiro. Mas, logo que chega, ele encontra uma jovem com aparência meio indígena e também semelhante a uma santa. Ela tem uma visão da morte desse homem e faz questão de ser seu anjo da guarda, por mais que ele tente se afastar dela. O filme tem uma cena de violência tão brutal que eu jamais imaginaria ver numa produção dessa época: trata-se da brilhante cena do carrossel. O fato de a violência ser infligida a um personagem tão simpático e querido, o Pancho (Thomas Gomez), só a torna ainda mais dolorosa para o espectador. E ainda tem o olhar de pânico das crianças no carrossel. Foi nesta cena que eu percebi o quanto o filme havia me ganhado. Se bem que, logo que a narrativa começa, os movimentos de câmera de Montgomery olhando para o próprio protagonista já chamam a atenção para a direção. Já mostram que estamos diante de uma obra fora do comum. Filme visto no box Filme Noir Vol. 3.

ANJO OU DEMÔNIO? (Fallen Angel)

Recém-saído da obra-prima LAURA (1944), Otto Preminger adentra novamente o mundo das sombras, dos mistérios e dos desejos do film noir com esta história sobre homem trambiqueiro que se apaixona por uma mulher, mas que se casa com outra para obter dinheiro de modo a conquistar a primeira. Achei incrível essa ideia e me saltou aos olhos cada imagem e cada ação dos personagens, inclusive a de Alice Faye, como a mulher rica que se apaixona por Dana Andrews, mesmo sabendo de sua fama. Já Linda Darnell, ela é um exemplo de femme fatale que foge ao padrão, pois é uma mulher de certa forma inocente, embora consciente de sua beleza e sensualidade. E muito à frente de seu tempo, no modo como não se importa com as convenções sociais, fazendo o que deseja. O filme pode ser facilmente dividido em três partes e essas três partes trazem tramas quase distintas: o médium, a luta para conquistar a mulher e a morte, seguida de investigação, de uma personagem. Cheio de surpresas e reviravoltas, de imagens que valorizam as sombras e o movimento da câmera e a angústia dos personagens, ANJO OU DEMÔNIO? (1945) ainda tem créditos de abertura que podem ter inspirado David Lynch com seus créditos de ESTRADA PERDIDA. Além do mais, Preminger também lida com a presença de uma ausência, assim como faz em LAURA. Sensacional. Presente no box Filme Noir – Femme Fatale (primeiro volume).

O PRANTO DE UM ÍDOLO (This Sporting Life)

Assistir a filmes com uma ponta de angústia no peito pode funcionar quando damos de cara com obras que exploram as aflições ou o processo confuso de compreender a vida, como é o caso do personagem de Richard Harris, que aqui interpreta um jogador de rugby temperamental que tem com frequência explosões de fúria, mesmo com as pessoas que ama, como é o caso da personagem de Rachel Roberts, a mulher que aluga o quarto de sua casa para ele morar. Quando ele passa a ser um profissional bem-remunerado e pode trazer mais conforto para a mulher que ama, suas explosões de raiva até aumentam e o filme é tanto uma obra que denuncia a hoje chamada masculinidade tóxica, quanto nos convida a ter empatia por esse homem, apesar ou até por causa dos erros. Embora O PRANTO DE UM ÍDOLO (1963), de Lindsay Anderson, seja uma obra muito mais voltada ao protagonista e a sua relação de hostilidade com os mais ricos, há cenas bem realistas dos jogos. No mais, Richard Harris está brilhante. Filme visto no box Nouvelle Vague Britânica – Vol. 2.

sábado, maio 25, 2024

DOMINO



Se formos em busca de críticas sobre DOMINO (2019), o por enquanto último filme de Brian De Palma, vamos encontrar um apanhado de textos prontos para bater sem dó neste thriller da fase decadente de um dos maiores cineastas vivos. No The Guardian dizem que o diretor chega ao fundo do poço num suspense criminal com aparência amadora; o Indiewire diz que o filme é trashy e que ele prova que já passou de sua melhor fase (ao menos o texto diz que o filme foi montado sem a aprovação do diretor); The Globe and Mail diz que se trata do pior trabalho do cineasta e o Variety fala mal até da trilha sonora de Pino Donaggio. Mas até que há mais reviews positivas do que eu esperava.

Acredito que se o filme não tivesse o peso da assinatura do realizador seria um daqueles filmes lançados diretamente na telinha que estaria presente na lista de obras a serem descobertas com carinho, apesar do roteiro e da montagem problemáticos. O nome Brian De Palma é poderoso o suficiente para criar expectativa, por mais que o século XXI não tenha sido tão gentil com o cineasta. Se bem que ele não teve muita paz em sua carreira profissional, quase sempre atribulada pelos produtores ou mesmo por críticas negativas que incompreendiam suas obras, posteriormente alçadas a obras-primas.

Para quem demorou anos para ver este filme por causa da expectativa baixa e para não ver um diretor tão querido como o De Palma chegar a um estado de decadência tão lastimável, até que achei DOMINO bem decente. Todas as marcas da autoralidade do mestre estão lá, prejudicadas um bocado pelo orçamento precário (e talvez por um grau menor de inspiração), mas com o charme de produções de gênero europeias. Aliás, o próprio cinema do De Palma sempre foi muito influenciado pelo cinema europeu; italiano, principalmente, e aqui não é diferente – seu filme anterior, PAIXÃO (2012), é uma homenagem aos gialli.

E não poderia faltar homenagens a Hitchcock. Uma das primeiras grande cena de ação do filme, de uma perseguição no telhado, lembra UM CORPO QUE CAI. O fato de o herói estar desprovido de sua arma é uma espécie de indicação de castração, assim como é castrado também o personagem de James Stewart em JANELA INDISCRETA, outra obra também homenageada em DOMINO.

E há autorreferências, como a de OLHOS DE SERPENTE (1998), na cena da tourada, ainda que bem longe de ser tão bem orquestrada, por razões óbvias. A cena em que o mercenário está matando o colega de trabalho do protagonista lembra a cena de tortura de SCARFACE (1983) e a cena em que a colega do herói está perto do homem-bomba faz lembrar a trágica cena da morte do interesse amoroso de John Travolta em UM TIRO NA NOITE (1981). Todas essas lembranças podem parecer sombras ao vermos um filme tão menor como DOMINO, mas é o que temos para hoje.

Senti falta de uma maior força na vontade de vingança por parte do protagonista. Ele age como se não soubesse direito o que fazer, enquanto a mulher, ela sim, tem desejo de vingança e motivação para matar o sujeito que assassinou seu amado. O que acaba motivando mais o filme são as boas cenas de ação e suspense que contrastam um pouco com os momentos um pouco mais mortos.

O filme traz dois astros de GAME OF THRONES, o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau e a holandesa Carice van Houten, meio que tentando surfar um pouco no sucesso da série. Porém, infelizmente, DOMINO talvez seja o maior fracasso da carreira do realizador. Tanto que até agora, nenhum outro filme seu foi lançado e DOMINO ganhou essa pecha de maldito.

Dois excelentes colaboradores dão aquela força ao cineasta: o músico italiano Pino Donaggio, que faz sim um belíssimo trabalho, e o diretor de fotografia espanhol José Luis Alcaine, com suas cores quentes habituais.

+ DOIS FILMES

ESCRAVAS DO MEDO (Experiment in Terror)

É interessante perceber a mudança por que a sociedade americana atravessou na virada para a década de 1960, especialmente do ponto de vista comportamental. E é impressão minha ou a sociedade dessa primeira metade dos anos 1960 era menos durona e mais frágil do que a vista nas produções das décadas anteriores? De todo modo, ESCRAVAS DO MEDO (1962), de Blake Edwards, conta com um dos melhores inícios de filme que já vi, seja pelo suspense, seja pela belíssima construção visual em preto e branco, valorizando as brumas do bairro de Twin Peaks (a-há!), em São Francisco, mas principalmente por já estabelecer o tom, no momento em que o criminoso pega a personagem de Lee Remick por trás no escuro de sua garagem e traz-lhe a "proposta" de que ela, caixa de um banco, roube para ele 100 mil dólares, sob pena de ser morta e de ter sua irmã mais nova também assassinada. Sendo uma obra daquele período, o ritmo é um pouco mais lento do que eu gostaria (filmes do gênero de décadas passadas, especialmente noir, costumam ser mais dinâmicos), mas é importante também valorizarmos os momentos de respiro que o filme tem, inclusive para apresentar com carinho o personagem do agente do FBI vivido por Glenn Flord. Outros méritos de ESCRAVAS DO MEDO estão na excelente fotografia em preto e branco de Philip Lathrop e na ótima trilha de Henry Mancini, ambos parceiros de Blake Edwards vindos do sucesso de BONEQUINHA DE LUXO (1961). Filme visto no box Filme Noir – Neo-Noir Anos 60.

A MARCA DA BRUTALIDADE (Prime Cut)

Eis um filme incrível. E incrível no sentido de que quase não se pode acreditar no que se está vendo na tela. Dessas obras estranhas e únicas saídas de uma década igualmente única e cheia de liberdade. Em A MARCA DA BRUTALIDADE (1972), de Michael Ritchie, Lee Marvin é o matador profissional contratado para cobrar o dinheiro de um empresário do ramo de carnes vivido por Gene Hackman, ou matá-lo, se for preciso. Esse plot é muito simples; o que importa é o que vemos no meio de tudo, incluindo jovens mulheres escravizadas à venda em pequenos currais, os maiores vilões sendo matadores de animais que transformam seus inimigos em salsicha, e uma visão aterrorizante do Kansas, numa feira aparentemente ingênua, quase como uma antecipação do lado doentio da América profunda de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. Lee Marvin está fantástico como o homem de poucas palavras, muita ação e muita coragem e Hackman está mais uma vez perfeito como vilão. Sissy Spacek é a personagem feminina mais importante do filme, que representa a inocência, mas que também tem um estranho espírito de aceitação de seu destino como pessoa objetificada. As cenas de ação são de tirar o fôlego, principalmente uma que acontece num espaço aberto. Deixaria o Hitchcock de INTRIGA INTERNACIONAL orgulhoso. Filme visto no box Cinema Policial VII.

domingo, maio 19, 2024

BEBÊ RENA (Baby Reindeer)



Dias difíceis. Aliás, semanas. No mês de abril estive doente todos os dias. E passei poucos dias em casa descansando, de modo que não repousei o bastante para que ficasse curado e logo ficava doente novamente de outra virose ou coisa parecida. E, em maio, posso até estar melhor dessas gripes e alergias, mas a conta de não ter me tratado adequadamente chegou sob forma de aumento de irritabilidade, ansiedade e angústia. A quantidade de vezes em que estou tento acessos de raiva durante as aulas tem aumentado e isso tem me deixado preocupado. Porém, acredito que isso pode ser bom para que eu fique atento para me policiar, respirar fundo ou buscar mais ajuda profissional.

No meio desse cenário, opto por ver uma minissérie nada adequada para quem anda tendo (ou já teve) problemas de ansiedade, autoestima ou até algo mais grave, como é o caso da questão central da obra, criada, escrita e protagonizada por Richard Gadd. Ele interpreta a si mesmo, conta sua história dramática de assédio, abuso, profunda inquietação espiritual e insegurança. Enfim, ele se expõe, agora para todo o mundo, depois de se expor para o Reino Unido, tudo aquilo que o assombrou. E, para surpresa dele, e de muitos, BEBÊ RENA (2024) está sendo um sucesso estrondoso.

Graças ao burburinho, ao tanto de exposição e de debate nas redes, acabei não resistindo e finalmente vendo – tenho evitado ver séries, pois fico sempre achando que estou perdendo de ver os filmes. Não é das obras mais agradáveis de ver, do ponto de vista do bem-estar espiritual que traz, mas acho que é justamente por isso (e também por todo um trabalho bem desenhado de roteiro e atuações) que BEBÊ RENA deve ser visto.

Há tempos não vejo algo tão psicologicamente incômodo. E quando o rumo da história parece não trazer algo pior para o protagonista, eis que um poderoso flashback, no antológico quarto episódio, o joga no fundo do poço. Em alguns momentos fiquei pensando se o filme não estaria sendo um pouco gordofóbico ao pintar a personagem de Martha (Jessica Gunning) daquela maneira, mas imagino que não poderia ser diferente, levando em consideração o interesse em torná-la semelhante também fisicamente à verdadeira stalker.

Para quem não sabe, a série conta a história de um barman e aspirante a comediante (na verdade, um comediante fracassado) que começa a ser perseguido por uma mulher com antecedentes criminais por causa de situação semelhante. No começo, ele a vê como uma mulher triste no bar e oferece uma bebida para ela. Em troca, ela retribui com sorriso e muitos elogios àquele homem que se via como alguém desprovido de talento. Mas o mais assustador é o tanto que aquela mulher passou a enviar centenas de mensagens de e-mail para ele todos os dias. E o que poderia ser algo fácil de se encerrar, graças às ações dele, acaba tomando contornos gigantescos e assustadores. 

O que mais dói na minissérie é o quanto é uma obra sobre duas pessoas que têm uma autoestima muito baixa, a ponto de se perderem em suas vidas. Depois de terminar de ver, é preciso desintoxicar, buscar algo mais leve. Ou talvez parar para escrever sobre a série, pensando, talvez, até no quanto temos de comum com um daqueles dois personagens. E pensar isso não deixa de ser também perturbador e assunto para muitas sessões de terapia.

+ UMA MINISSÉRIE, UMA TEMPORADA DE SÉRIE E UM ESPECIAL

A QUEDA DA CASA DE USHER (The Fall of the House of Usher)

Uma tristeza para quem é fã do trabalho de Mike Flanagan ver esta minissérie que parece se arrastar sem fim enquanto a vemos (eu passei meses para conseguir acabar). O próprio último capítulo parece interminável. E olha que não é pelo fato de ter muitos diálogos, muito texto. Afinal, MISSA DA MEIA-NOITE (2021), a provável obra-prima maior de Flanagan, também tem. Desde os primeiros capítulos que comecei a achar que o problema de A QUEDA DA CASA DE USHER (2023) é a falta de algo que está muito presente na obra do diretor e roteirista: o amor. Esse sentimento que nutrimos por seus personagens é visto com muita força especialmente em A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), mas aqui ele resolve fazer uma obra com personagens odiosos. Até aí não vejo exatamente um problema, estamos acostumados com isso, em outras séries, ou outros filmes. Mas ele não consegue fazer algo bom disso, mesmo aproveitando as várias homenagens a Edgar Allan Poe, que aos poucos acabam ficando irritantes e prolongadas. No fim das contas, a melhor impressão que guardei da série foi a reinvenção de Mark Hammil, como o faz-tudo da família Usher. No mais, claro que desejo boa sorte a Flanagan, que está agora em nova casa, depois de encerrar seu contrato com a Netflix.

LOKI – SEGUNDA TEMPORADA (Loki – Season 2)

Um caso muito especial o de LOKI, uma série feita com tanto cuidado e com tanto carinho que pode até ser vista independente dos filmes e de conexões com os quadrinhos. Se pensarmos no quanto a Marvel tem pisado na bola, então, LOKI, em especial nesta segunda temporada (2023), acaba se destacando mais ainda. É tudo de alto nível. Os atores são incríveis (Tom Hiddleston, Owen Wilson, Sophia Di Martino, Wunmi Mosaku, Jonathan Majors, Gugu Mbatha-Raw), o roteiro é ótimo (inclusive os diálogos), a direção de arte e fotografia são lindas etc. A história é diferente de tudo que já vi: uma sci-fi com abertura para a fantasia sobre livre arbítrio, multiverso e redenção (sacrifício). E todo o carinho com os personagens e com o visual retrô se manifesta dos créditos à música. Confesso que não estou ligando muito para a relação da série com o futuro da Marvel. Mas vai que eles acertam. Até porque Michael Waldron, o criador, roteirista e showrunner de LOKI será roteirista também de alguns projetos importantes do estúdio.

INVENCÍVEL - ATOM EVE (Invicible – Atom Eve)

Nem sabia da existência deste episódio especial de INVENCÍVEL centrado em Samantha, a Eve Atômica, mais especificamente suas origens. E o interessante é que, pelo que pude ver nos primeiros episódios da segunda temporada, que ainda não terminei, a personagem começou a ganhar mais espaço. Apresentar suas origens é uma maneira de nos apresentar ao passado doloroso da personagem, que nasceu de um experimento científico e foi parar na casa de um casal normal. A história de INVENCÍVEL - ATOM EVE (2023) acontece antes de Mark Grayson descobrir seus poderes. Como sendo uma história de adolescente, a questão do sentimento de inadequação se mostra presente, ainda mais sendo Samantha alguém que se vê totalmente sozinha no início de sua jornada pessoal. O estilo do desenho é o mesmo da série, bem simplificado e sem tanto capricho. Não que isso faça tanta diferença. Gosto das cenas de luta perto do final e do quanto elas funcionam para enfatizar o teor dramático da história.

quarta-feira, maio 08, 2024

LOVE LIES BLEEDING – O AMOR SANGRA (Love Lies Bleeding)



Para uma semana que se pretendia normal, acabo não indo trabalhar nesta quarta-feira por perder a hora. Ontem cheguei tão exausto, que o desgaste do dia  provocou um cansaço enorme o bastante para que eu não acordasse nem com o som do despertador. Deve ser ainda efeito das enxurradas de viroses que tive no mês de abril e das crises alérgicas mais intensas e que ainda seguem incomodando. Odeio quando isso acontece, até porque morro de vergonha em dar essa notícia (tarde demais) aos gestores da escola e em procurar explicar o ocorrido, embora saiba que é uma questão de saúde, sim.

Aproveito esta manhã um tanto tensa e tento escrever um pouco sobre um dos filmes que mais ficou em minha memória afetiva nos últimos dias, o segundo longa-metragem de Rose Glass, LOVE LIES BLEEDING – O AMOR SANGRA (2024), que tem causado uma repercussão boa no circuito alternativo – eu vejo este filme como um claro exemplar de obra que poderia se sair bem também no circuitão, mas infelizmente esse tipo de produção que saia um pouco mais da casinha tem cada vez menos espaço no circuito de shopping. Estive conversando sobre o filme com o meu amigo personal trainer, que não tem hábito de ir a sessões mais arthouse, e ele achou interessante as cenas que descrevi, pelo caráter fantástico e singular. Inclusive, perguntei a ele sobre os efeitos de muitas injeções de anabolizantes no corpo. 

O fato de a diretora Rose Glass vir do terror faz toda a diferença na hora de construir esta história de amor cheia de sangue e violência (e body horror) e que opera numa chave próxima da comicidade, embora esses elementos cômicos também possam ser vistos com seriedade, pois funcionam como representações dos sentimentos das personagens femininas, como é o caso da última cena, do agigantamento.

O filme já me ganhou nas primeiras imagens, com a fotografia em cores vivas e estouradas numa tela scope, remetendo às fitas mais baratas dos anos 1980 – inclusive, até achei que o filme havia sido filmado em película, mas foi em digital mesmo, mas com um tratamento que deixa as cores e os tons mais quentes. Além do mais, como a história se passa nessa década, e muito dela dentro de uma academia de musculação, há uma valorização dos corpos vestidos no tipo de roupa mais curta da época.

O filme não é sutil nem quer ser. Assim que começa, o olhar de tesão de Kristen Stewart por Katy O'Brien é evidente, assim como é evidente o que acontecerá entre as duas, pelo menos do ponto de vista do romance. Mas surpresas acontecem e, por causa de uma situação de violência doméstica, a história delas tomará novos rumos. O filme faz referência à série O INCRÍVEL HULK (aquela com o Lou Ferrigno) e traz uma atuação ótima de Ed Harris, como um líder do tráfico de armas que tem a polícia da cidadezinha nas mãos. Pode não ser a perfeição que queríamos que fosse, mas é uma obra singular. E só por isso merece ser exaltada. (Aliás, sobre a Kristen Stewart, que currículo de respeito que ela está construindo, hein!)

Também vale destacar o fato de termos uma cineasta mulher brincando com os padrões e clichês dos filmes de gênero e virando isso do avesso. Aqui vemos mulheres que representam a força bruta e que agem através da ação para a dinâmica da trama. Os homens seguem sendo figuras tóxicas, mas não há nenhum que represente um herói ou salvador ou algo do tipo. Essa apropriação feminina de filmes de gênero é um fenômeno que merece ser estudado com atenção.

+ DOIS FILMES

MALÍCIA (Malice)

É ao mesmo triste e curioso como a década de 1990 foi a que pior fez uso da tradição do filme noir. E não me refiro, claro, à obra-prima INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, ou a um outro exemplar bem-sucedido. Aliás, o filme de Verhoeven acabou por fazer nascer um monte de thrillers eróticos baratos, alguns lançados direto em vídeo, e outros que eram bem a cara do Supercine. MALÍCIA (1993) não é dos mais baratos, do ponto de vista do orçamento. Tem até gente que virou estrela em papel mínimo (Gwyneth Paltrow) e outras estrelas do passado (Anne Bancroft, George C. Scott) fazendo bons papéis pequenos. Mas o filme é mesmo de Nicole Kidman, que na época estava decolando com sua bela pele pálida e seus olhos azuis. A trama é uma grande bagunça, envolvendo uma mulher casada (Kidman) que está supostamente tentando uma gravidez de risco. Ela vive com um professor (Bill Pullman) e o casal acaba conhecendo o cirurgião mulherengo vivido por Alec Baldwin (na verdade, ex-colega de escola de Pullman). Enquanto isso, rola uma subtrama de um assassino e estuprador, talvez para tirar a atenção da trama principal, ou talvez tenha sido resquício de algo que foi deixado na sala de montagem. O diretor Harold Becker vinha do ótimo VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (1989) e é lamentável que tenha caído tanto. Mas ao menos MALÍCIA é um filme que surpreende, que tem suas viradas de roteiro bem interessantes. Só não sabe o que fazer com elas. Gosto da música de Jerry Goldsmith, que remete às vezes à sua composição para INSTINTO SELVAGEM.

O FUGITIVO SANGUINÁRIO (Autostop Rosso Sangue)

Há uma infinidade de filmes de gênero italianos ainda a serem melhor conhecidos. Minha opção por este O FUGITIVO SANGUINÁRIO (1977), de Pasquale Festa Campanile, veio de um cansaço mental ocasionado por uma gripe. Ou seja, não adiantava eu pegar um filme que requeresse um pouco mais de meu intelecto. Na trama, um casal de turistas italianos (Franco Nero e a francesa Corinne Cléry) viaja pelo deserto da Califórnia levando consigo seu trailer. O erro deles é dar carona a um psicopata (David Hess) que vem colecionando assassinatos pelo caminho e transforma a vida dos dois num inferno. O filme de Campanile é cheio de crueldade e cinismo, principalmente por parte dos personagens masculinos, e de sensualidade natural por parte de Corinne, advinda do sucesso de A HISTÓRIA DE ‘O’. De uma beleza estonteante, fico admirado que essa moça não tenha sido erguida à categoria de estrela de primeira grandeza no cinema europeu. Filme visto no box Cinema Exploitation 3.

domingo, maio 05, 2024

BAIONETAS CALADAS (Fixed Bayonets!)



Quando vi BAIONETAS CALADAS (1951) e postei o textinho rápido e no calor do momento, como costumo fazer sempre, para o Facebook e para o Letterboxd, o amigo e crítico Humberto Silva destacou uma questão envolvendo uma certa reputação, a princípio, pouco favorável a Samuel Fuller, que era tido como anticomunista e, para os mais exaltados, até fascista. Humberto me falou que havia (há) um capítulo dedicado à questão Fuller e a crítica francesa no livro Cinefilia, de Antoine de Baecque, que até hoje não li por completo, pois fico pensando em ler enquanto acompanho um pouco as obras dos principais nomes da Nouvelle Vague, mas hoje sei que isso é bobagem e se for esperar ver tudo de Godard, Rivette, Rohmer, Varda etc, não vou ler o livro nunca. Logo…

De todo modo, essa menção que o Humberto fez desse capítulo em especial do livro foi maravilhosa, pois jamais pensei que Fuller teria sido de tanta importância para chegar a fazer um racha na crítica cinematográfica francesa de então. Acontece que um dos mais influentes críticos do início dos anos 1950, Georges Sadoul, era comunista e tinha um posicionamento bem radical em relação ao cinema produzido nos Estados Unidos. Segundo ele, só valia a pena ver os filmes dos chamados “dez de Hollywood”, homens de esquerda que se insurgiram contra o senador McCarthy. Sadoul chegou a chamar nomes como McCarey, Hitchcock, Hawks, Preminger, Cukor etc. de bibelôs hollywoodianos (imagina só!) e chamou Samuel Fuller, especificamente, de o McCarthy do cinema.

Quando os “jovens turcos” passaram a defender mais e mais Fuller, Sadoul ficou deveras indignado e sequer aceitou participar de uma edição especial dos Cahiers du Cinéma, já numa época em que essa nova turma, os jovens hitchcock-hawksianos, era a que estava mandando na crítica francesa (e logo mais no próprio cinema francês). E aí surgiu uma questão: essa nova crítica era de direita? A questão é que eles eram adeptos da política dos autores, de um neoformalismo, ou “fullerismo” (vejam bem: até esse termo surgiu, em homenagem à polêmica Fuller). Citando Bacque,

Ser “desengajado”, em meados dos anos 1950, isto é, preferir a forma do estilo à mensagem ideológica, as invenções da mise em scène ao teor do roteiro, os pequenos aos grandes temas, os filmes americanos às produções soviéticas ou de “Qualidade Francesa”, é ser engajado contra tudo o que constitui, em sua diversidade, a cultura de esquerda: Sartre, Les Temps Modernes, Camus, Combat, Jean Vilar e a “Action Culturelle”, Bazin, “Travail et Culture”, Esprit, Sadoul, Aragon, Les Lettres Françaises e os comunistas.”

Ou seja, os jovens foram atrevidos, e estavam mesmo dispostos a fazer uma ruptura com a crítica e o pensamento até então vigente. O capítulo tem mais de 50 páginas e há muitos detalhes das discussões entre os protagonistas, mas o mais interessante é que Samuel Fuller, enquanto isso, só continuou a fazer seus filmes.

Fuller foi um combatente de guerra. E deixa muito claro seu respeito e sua dedicação para honrar os esforços e os sacrifícios dos soldados americanos, talvez até mais que o próprio John Ford. Pelo menos, tive essa impressão nesse primeiro momento. 

Ainda rolava a Guerra da Coreia (1950-1953) quando Fuller, num mesmo ano, lançou dois filmes de natureza mais heroica sobre o conflito. Em BAIONETAS CALADAS (1951), tanto quanto em CAPACETE DE AÇO (1951), o foco está mais na sobrevivência dos homens em território hostil e estrangeiro do que em estratégias militares ou situações de violência brutal. 

No caso de BAIONETAS CALADAS, a maior parte da trama se passa numa colina congelada onde um grupo de apenas 48 homens se estabelece, boa parte das vezes dentro de uma caverna, com a missão de segurar e enganar um exército coreano, numa estratégia de guerra. Eles sabiam que provavelmente estariam ali para ser aniquilados pelo exército coreano, de modo que a maior parte dos homens, 15.000, pudesse atravessar uma ponte com tranquilidade.

Fuller mais uma vez usa tintas muito humanas para pintar esses homens. Todos são imperfeitos e todos são também muito dignos de respeito e consideração. Como se o cineasta fosse uma espécie de portador do amor, mesmo quando trata de um cenário tão embrutecedor como a guerra. E faz isso sem apelar para sentimentalismos baratos.

Falando em barato, BAIONETAS CALADAS é mais um exemplo do cinema de baixo orçamento do diretor, agora trabalhando para um grande estúdio, a 20th Century Fox, mas com custos de produção reduzidos, e filmado em apenas 20 dias. Foi o primeiro de uma acordo de sete filmes entre o realizador e o estúdio de Darryl F. Zanuck.

Visto no box O Cinema de Samuel Fuller.

+ DOIS FILMES

GODZILLA MINUS ONE (Gojira -1.0)

O que salta aos olhos logo que começa GODZILLA MINUS ONE (2023), de Takashi Yamazaki, é o visual. O avião sobrevoando a ilha, os tons de cores que remetem aos filmes coloridos mais antigos, a visão de um Japão que acabou de ser derrotado pela guerra mais traumatizante do país. Para o piloto de aviões que fugiu do dever de kamikaze, há também a culpa, que é agravada com a chegada do Godzilla à ilha em que ele está. Gosto de como o filme vai se aprofundando mais nos dramas dos personagens, desse rapaz e depois de uma mulher que ele conhece quando retorna a Tóquio. Mais até do que das cenas com o monstro, embora elas sejam muito bonitas de ver e também um tributo ao GODZILLA de 1956, inclusive com o modo de andar e de olhar do monstro. Não sei se o desencanto que o filme passa em relação ao governo japonês está relacionado apenas à época do pós-guerra ou se está também vinculado à atual situação política do país, mas é algo que chama a atenção. No mais, o tom de heroísmo que adotado parece destoar do que estamos acostumados a ver, parecendo também um retorno a um espírito do passado, de tempos mais inocentes, embora não exista inocência alguma depois de se atravessar uma guerra daquelas. A inocência talvez esteja simbolizada na criança que o protagonista cria como filha, representante do futuro. Uma surpresa e tanto o lançamento deste filme no Brasil. É importante que as pessoas o prestigiem, para que o cinema japonês, seja o autoral, seja o de gênero, volte a comparecer com força em nosso circuito exibidor.

GUERRA CIVIL (Civil War)

Quarto filme do cineasta inglês Alex Garland, um artista bem divisivo no gosto dos cinéfilos, mas que ganhou aqui a carta branca de comandar a produção mais cara da A24, até o momento. Para os brasileiros, GUERRA CIVIL (2024) ainda tem o atrativo de trazer Wagner Moura, como um jornalista que quer entrevistar o presidente dos Estados Unidos em Washington, quando o país atravessa uma guerra civil muito provavelmente nascida da polarização política. Senti falta de mais política no filme sendo explicitada, mas fica, de certa forma, claro o lado de Garland, principalmente na melhor cena do filme, a que mostra Jesse Plemons (não creditado) na pele de um soldado monstruoso, meio trumpista e muito xenófobo, ameaçando com uma arma os jornalistas. É uma cena de causar um mal estar imenso, mas é a mais poderosa, sem dúvida. De tirar o chapéu. Aliás, Garland tem a sorte aqui de trabalhar só com grandes atores. Kirsten Dunst está ótima como a fotógrafa de olhos mortos e fatigados, Wagner Moura como o homem que se alimenta e se alegra com a guerra, e a jovem Cailee Spaeny (PRISCILLA) como a fotógrafa iniciante que pega carona no grupo, junto com o jornalista veterano vivido por Stephen McKinley Henderson. GUERRA CIVIL é uma espécie de road movie. E como um road movie, é um filme de autodescobertas e transformações durante o processo. Acho bons os tempos de respiro, como as paradas para conversar, ou a ida a uma lojinha de roupa, mas aos poucos esses respiros vão ficando menos respiráveis, o que de certa forma é positivo para o que filme se propõe. Ainda assim, mesmo sendo um trabalho irregular em seu andamento e se mostrando um pouco hesitante em dar nomes aos bois na trama, é uma obra quase tão boa quanto MEN – FACES DO MEDO (2022), o controverso trabalho anterior do diretor.