quarta-feira, setembro 28, 2016

MR. ROBOT – TEMPORADA 2 (Mr. Robot – Season 2)



O que dizer desta segunda temporada de MR. ROBOT (2016)? Não dá pra dizer que não foi surpreendente em muitos sentidos. Mas ficou uma pontinha de desapontamento no modo como a série deixou de me entusiasmar da mesma maneira que a primeira conseguiu. Isso se deve à coragem de seu criador, Sam Esmail, que dirigiu todos os episódios também, e fez algo ainda mais ousado na segunda parte da história do hacker Elliot Alderson (Rami Malek).

Na primeira temporada descobrimos quem era Mr. Robot e vimos os planos de sua equipe de afundar o sistema econômico mundial, deixando a sociedade em colapso, sem poder acessar suas contas. O mundo da segunda temporada já é esse mundo sombrio (ou de libertação, depende do ponto de vista), e há uma série de novos personagens estranhos que aparecem, às vezes só no cantinho do quadro, pois Esmail também faz questão de desconstruir o que normalmente se espera de um programa televisivo. Ou seja, não é pra esperar os tradicionais close-ups e tantos campos e contracampos.

Há muitos planos gerais, tomadas em que os personagens aparecem bem no canto da tela, às vezes à distância, e cenas de tiroteio (poucas, mas empolgantes) de um ponto de vista bem estranho. Nada de deixar o espectador se sentindo privilegiado com a melhor visão de um tiroteio, por exemplo. Mas isso não diminui o impacto das duas cenas a que me refiro, especialmente a segunda, que acontece no episódio 10, um dos melhores da breve história da série. As duas envolvem a detetive do FBI Dominique DiPietro, muito bem interpretada por Grace Gummer (filha de Meryl Streep).

Ela já aparece na segunda parte do episódio duplo que dá início à segunda temporada e no começo eu demorei a perceber que ela era uma nova adição para a série. Isso porque é preciso, pelo menos, rever o último ou talvez o penúltimo episódio da temporada passada, a fim de não ficar um pouco perdido na trama. Esmail faz questão de deixar a gente confuso. E uma prova da qualidade da série é quando deixamos de lado o episódio por algum motivo, e, ao recomeçarmos, percebemos o quanto ele é bom e ousado, precisando ser visto com mais atenção do que a grande maioria das séries de televisão, que tem apenas o intuito de entreter.

Há também um clima de melancolia na série, principalmente quando foca em Angela Moss (Portia Doubleday), a melhor amiga de Elliot, que aqui aparece trabalhando para seus inimigos, da E Corp, a fim de se vingar, de alguma maneira do que eles fizeram a sua família. Ela acaba sendo peão dos amigos de Elliot em certo momento, para executar uma das ações perigosas. Destaque para uma cena em que Angela aparece cantando "Everybody wants to rule the world", do Tears for Fears, em um karaokê.

A segunda temporada também nos deixa no chão em pelo menos dois momentos, ao mostrar surpresas sobre Elliot e os demais personagens, como o desaparecido Tyrell (Martin Wallström). E enquanto ele está desaparecido, a série dá espaço à sua bela e intrigante esposa, Joanna (Stephanie Corneliussen), que mantém um relacionamento com um jovem amante, que usa apenas para exercitar seus gostos extravagantes por sexo com dominação.

Haveria muito o que comentar sobre os demais personagens, que se tornam quase tão importantes quanto Elliot no enredo, principalmente Darlene (Carly Chaikin), que com o sumiço de Elliot por uns tempos acaba assumindo a liderança da equipe de hackers por um tempo. No mais, é uma série que talvez se beneficie de uma revisão mais atenta, mas cujas ousadias de Esmail podem lhe custar caro, por mais que haja um hype em torno de si. Vamos ver o que acontece na temporada seguinte.

terça-feira, setembro 27, 2016

LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO (La Corrispondenza / Correspondence)



Alguns filmes têm uma pegada tão sentimental que é até compreensível que chegue a ser alvo de ódio de alguns espectadores. Ainda mais os de hoje, que são menos tolerantes a sentimentalidades. Pode ser muito bem o caso de LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO (2016), novo trabalho de Giuseppe Tornatore. O filme é um exemplar perfeito de um cinema canceriano por excelência (algo que não via desde ROCKY BALBOA, de Sylvester Stallone), derramando romantismo exacerbado por todos os lados e com personagens trocando juras de amor, ainda que a situação em si seja bastante complicada para os dois.

Até o símbolo do caranguejo aparece em pelo menos duas vezes no filme, seja isso uma coincidência ou não, intenção ou não do diretor. Mas há também a questão do guardar, da força das palavras de afeto, seja em cartas, seja em vídeo. Com a impossibilidade do amor físico dos personagens, o que sobra são as cartas – no caso, ou principalmente, os e-mails recebidos numa tentativa de enfrentar a morte até o último respiro de vida. Uma das coisas que mais pode incomodar, até mesmo para aqueles que curtem a proposta estética do filme é o clima carregado que fica no ar, como de um luto prolongado.

Tornatore leva o tema do amor impossível – pelo menos o amor carnal e presente – a um novo patamar. Aqui não é exatamente uma família que impede o amor do casal, como em Romeu e Julieta, para citar um exemplo clássico, mas algo maior. E esse algo maior é desafiado pelos personagens. E embora seja um filme que fala sobre questões existenciais ligadas à física, à ciência, há também uma carga de mistério e de espiritualidade, ainda que apareça de maneira quase sutil, como na cena do cachorro.

Acho especialmente tocante a primeira sequência, quando o casal de amantes vivido por Jeremy Irons e Olga Kurylenko está se beijando e se abraçando calorosamente antes de se despedirem. Há, naquele momento, um descompasso entre os dois discursos. Ele quer que ela lhe conte um segredo; ela quer focar no amor físico, fala que quer uma camisa dele para sentir o seu cheiro quando dormir. Aquele amor adquire um tom de urgência poucas vezes impresso no cinema recente.

Lembremos que a atriz ucraniana já esteve em uma espécie de filme-ensaio sobre o amor, no arriscado AMOR PLENO, de Terrence Malick. E ela tem uma aura de beleza e um olhar que passa uma melancolia que combina para esse tipo de papel. No caso do filme de Tornatore, vemos Amy, sua personagem, quase sempre desolada, em busca de migalhas deixadas pelo amor de sua vida. Pequenas mensagens, pequenos e-mails rápidos, mas que demonstram uma paixão intensa daquele homem por ela. O fato de ele saber tudo sobre ela, onde estaria em determinado momento é um indicativo de que o mundo dele girava em torno dela, por mais que os encontros fossem escassos para tão grande amor.

Pra completar, o filme ainda conta com trilha sonora do grande Ennio Morricone, este senhor de quase 90 anos que ainda está ativo e fazendo temas tão lindos. A presença da música do maestro é fundamental para a construção deste melodrama que não tem medo de ser melodrama. Algumas notas até lembram o que o músico fez em parceria com Tornatore em sua obra mais conhecida, CINEMA PARADISO (1988). São dois artistas mais uma vez tratando da saudade.

segunda-feira, setembro 26, 2016

SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94



Quem viveu com intensidade os anos 1990 sabe o quanto foi empolgante acompanhar o surgimento de bandas como Raimundos, Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi, Pato Fu, Skank, mundo livre s/a, Maskavo Roots, Little Quail and the Mad Birds, Graforréia Xilarmônica, entre outras. SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94 (2015), de Ricardo Alexandre, fala justamente deste momento em que o rock brasileiro chegou com uma mistura maior de ritmos e de preferência com muito peso e barulho, pois era o espírito daquela época em que o grunge ainda definia muito do que se fazia no campo mundial.

Vendo o documentário, tendo ido a shows de algumas dessas bandas, tendo comprado alguns de seus discos e sendo leitor da Bizz, ficamos sabendo o quanto a revista foi fundamental para o surgimento até um pouco tardio dessa nova geração de bandas da década de 90. Graças, principalmente, a Carlos Eduardo Miranda, que resolveu ir atrás de coisas novas e empolgantes naquele período de entressafra, quando a maior parte dos críticos da revista já estavam cansados das bandas dos anos 80, chegando a chamar os Titãs de dinossauros.

O documentário já começa dando uma ideia de como era o Brasil no começo daquela década, com o Collor derrubando muita coisa de nossa cultura e Daniela Mercury tocando no rádio junto com muita música sertaneja. Era o que estava no gosto popular naquele momento tenebroso. Mas, por outro lado, uma série de bandas independentes começou a surgir por todos os lugares do Brasil.

Naquela época, sem internet e telefone celular, o contato do artista com as grandes gravadoras era muito complicado. E conseguir que uma das grandes (a Warner) desse carta branca para a produção de um disco como o primeiro dos Raimundos foi quase um milagre. Miranda teve que inventar uma matéria mentirosa para a Folha de S. Paulo para que a major finalmente aceitasse a criação do famoso selo Banguela, que trouxe também o mundo livre s/a, o Maskavo Roots e o Little Quail and The Mad Birds, embora essas duas bandas não tenham acontecido de maneira tão intensa quanto os Raimundos.

De outro lado, outras gravadoras lançavam artistas como Pato Fu, Skank (que chegou um pouco antes dessa turma), Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi e O Rappa (que é injustamente ignorada no documentário, mesmo sendo de vital importância para aquela época). Até entendemos que algumas dessa bandas não sejam devidamente exploradas, mas isso acontece porque elas não fizeram parte ativa do selo Banguela. Porém, deixar totalmente de fora O Rappa foi um vacilo dos realizadores.

Sobre o Planet Hemp, há um pouco da história da polêmica da banda e seu tema espinhoso; sobre o Chico Science, há o impacto de sua música e da força de seu líder; sobre o Skank, há pouco, mas há Samuel Rosa filosofando do começo ao fim sobre o que foi aquela época. Dos Titãs, as falas de Nando Reis e Charles Gavin são fundamentais para entender aquele momento. Como os Titãs foram também responsáveis pela criação do selo, nada mais justo que dois dos melhores pensadores da banda, mesmo não estando mais na banda, contem suas histórias e até um pouco de suas indignações, como quando Nando Reis fala de se sentir incomodado com as acusações de eles (os Titãs e a geração dos anos 80) serem menos brasileiros que a nova geração que surgia.

No mais, há tanta coisa que o documentário fala que não vai caber nesse espaço: o surgimento da MTV, o quanto o Sepultura foi uma banda que impulsionou outras a tentarem um caminho em inglês, o surgimento do Abril pro Rock, entre outras coisas. Mas o principal foco do filme é mesmo a gravação dos discos de três bandas do selo: Raimundos, mundo livre s/a e Little Quail and the Mad Birds. As demais ficam em segundo plano.

Mas o que mais me deixou empolgado foi poder relembrar alguns momentos especiais, como quando ouvi “Puteiro em João Pessoa” pela primeira vez, na Biruta, em 1994; quando ficava animado com os videoclipes que passavam na MTV daquelas bandas novas; de como era bom se sentir meio guerrilheiro e roqueiro em um momento em que as rádios só tocavam sertanejo, axé e pagode; das dicas de ouro da Bizz, que traziam resenhas tão boas que faziam a gente dar aquele pulinho na loja de discos, mesmo sendo tão difíceis aqueles tempos. Foi uma época gloriosa que durou poucos anos. A década seguinte já chegou com uma cara diferente – nem melhor, nem pior –, mas certamente bem menos empolgante que a catártica década final do século XX.

domingo, setembro 25, 2016

O SILÊNCIO DO CÉU (Era el Cielo)



2016 tem sido um ano muito positivo para o cinema brasileiro. Talvez o melhor ano em muito tempo. E sair da sessão de O SILÊNCIO DO CÉU (2016), o novo trabalho de Marco Dutra (QUANDO EU ERA VIVO, 2014), só amplifica essa impressão. Isso porque, do início ao fim, o filme nos pega pelo braço e, com sua narrativa intrigante, sua história de pessoas atormentadas pelo medo, pela culpa ou por alguma coisa que deixa a angústia entalada na garganta, faz com que o silêncio do título brasileiro também se conserve durante a sessão, com os espectadores atentos, curiosos, tensos com o desenrolar dos acontecimentos e também com o modo como o diretor e seus roteiristas esquadrinham seus personagens através de uma voice-over que os aprofundam.

O melhor a fazer é ver o filme sabendo o mínimo ou praticamente nada, para ir se envolvendo com as surpresas que acontecem tanto na narrativa, quanto nas opções formais de Dutra ao apresentar os personagens. No caso, através de uma apresentação mais aberta do personagem de Leonardo Sbaraglia – a maior parte do filme é contada através de seu ponto de vista – e de uma maneira mais misteriosa a personagem de Carolina Dieckmann.

Ela é a esposa que é estuprada por dois homens logo no início do filme. Vemos muito pouco, mas a imagem é incômoda. O uso do som abafado na mixagem de som, como um efeito de perturbação psicológica de Diana, sua personagem, acentua essa impressão durante boa parte do início do filme. O ponto de vista de Mario (Sbaraglia) e o posterior ajuste no som não diminuem a dor daquela situação, já que o horror de ver a mulher sendo violentada e não conseguir fazer nada é bastante revoltante (para ele, principalmente).

O embate interior de Mario em ser o homem que gostaria de ser – longe de todos os medos, todas as fobias que o atormentam (ele tem medo de avião também) – é um dos grandes pontos fortes do filme. E o ator argentino desempenha com louvor esse papel de homem frágil que finge ser forte. Muito da força do filme está em seu personagem, mas também no que nos é apresentado de herança da obra literária, na narração do personagem, que usa o espectador como um confessionário.

De certa forma, tanto as fobias de Mario quanto a perseguição aos atores do crime torpe são elementos que aproximam O SILÊNCIO DO CÉU de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Claro que há uma infinidade de suspenses psicológicos que são devedores desta obra-prima, mas de vez em quando alguns filmes se aproximam mais, por causa de alguns aspectos específicos. No caso do filme de Dutra, essa influência não se manifesta como em DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, em forma de homenagem explícita, mas de forma mais natural, sem tanta natureza de hipertexto.

Tanto que é possível esquecer esse detalhe da influência hitchcockiana e se deixar levar pela trama, pelo desejo do protagonista de enfrentar, de alguma maneira, não apenas os homens que atacaram a sua esposa e a deixaram em estado de choque e tornaram ainda mais complicada a relação conjugal, mas, principalmente, talvez, enfrentar seus demônios interiores, aqueles que o assombram desde sempre, que o fazem sentir-se menos homem do que gostaria de ser.

Entre as cenas com Carolina Dieckmann, há duas bem especiais: uma envolvendo a fábula da cegonha e o porco-espinho e outra em que ela está na cama com o marido, os dois do lado oposto da linda fotografia em scope. Mas talvez um dos melhores momentos de Diana no filme seja o momento de enfrentamento, na casa de um dos estupradores. A opção pela imagem dela à meia-luz subindo a escada parece remeter a vários clássicos hollywoodianos do passado, vários filmes noir, por exemplo, embora o andamento mais lento do suspense faça lembrar também os filmes de tonalidade mais misteriosa de Walter Hugo Khouri. O fato é que sair do cinema depois de tanta poesia visual faz bem demais ao espírito, por mais doloroso que seja o drama dos personagens.

quinta-feira, setembro 22, 2016

O HOMEM NAS TREVAS (Don’t Breath)



Não dá pra negar a eficiência do cineasta uruguaio na condução narrativa e na construção de uma atmosfera de suspense em O HOMEM NAS TREVAS (2016), da mesma forma como era admirável a sua reconstrução de um clássico do cinema de horror em A MORTE DO DEMÔNIO (2013), sua estreia em Hollywood. Talvez, inclusive, estejamos presenciando a chegada de um grande diretor de gêneros que andam em baixa nos Estados Unidos. Não que tenham deixado de lucrar, mas que não se manifestam em abundância e excelência como em décadas passadas.

O problema de O HOMEM NAS TREVAS é que é difícil torcer pelo grupo de personagens que são vítimas dos ataques do homem cego. Afinal, foram eles que entraram naquela casa para roubar. E roubar um homem cego. Isso não quer dizer que estejamos nos sentindo juízes daqueles jovens infratores, mas que o cineasta não foi suficientemente capaz de nos colocar em seus sapatos, como fez tão bem Hitchcock em PSICOSE, para citar o exemplo mais clássico, ou tantos outros diretores.

A coisa começa a pender um pouco mais nada balança, contra o tal homem cego, quando descobrimos mais sobre ele; sobre o que ele esconde. E isso já é um pouco antecipado logo na primeira cena do filme, em que o vemos carregando, em um plano geral, o corpo de uma mulher. Mas essa é uma dessas cenas que costumam ser esquecidas pelo espectador quando a narrativa opta por apresentar, em uma estrutura tradicional, os personagens que fazem pequenos roubos em casas.

Os dois rapazes e a moça não são muito diferentes de tantos outros personagens marginais e ladrões de bancos que aprendemos a gostar ao longo desses mais de cem anos de cinema. Mas talvez por Alvarez não estar muito interessado em lhes dar profundidade, isso pode ter sido um dos motivos de o filme não ter atingido o grau de excelência que gostaríamos.

Mas não dá também para reclamar muito. Quando o homem cego entra em ação como uma ameaça assustadora, somos jogados em uma espécie de filme de monstro, com a diferença que o monstro aqui é uma pessoa de carne e osso e com uma deficiência física, ainda que com uma força e uma agilidade admiráveis. Ele é um ex-fuzileiro do exército que ficou cego durante uma guerra e que ainda mantém o vigor da juventude.

Aos poucos, o tal "filme de monstro" vai se tornando também uma espécie de mata-mata, com a qualidade de não haver muitos personagens e de ter várias sequências de fazer o espectador ficar caladinho e com os braços agarrados à cadeira. A sobriedade do filme é outro aspecto que merece ser louvado, além de ser mais uma bem-sucedida obra a usar as trevas e o medo do escuro como um de seus eixos. No mais, merecem palmas, em seu desempenho, tanto Stephen Lang, como o homem cego, quanto Jane Levy, como a garota ladra.

quarta-feira, setembro 21, 2016

DE PALMA



Tem sido triste ver essa diminuição no ritmo dos filmes de Brian De Palma, e a não chegada em nossos cinemas de filmes como GUERRA SEM CORTES (2007) e PASSION (2012). Para vê-los, tive que apelar para meios alternativos. O que é ruim, levando em consideração que ver um filme do De Palma no cinema é algo muito especial. Ao menos eu tive a sorte de ver seis dele na telona: de O PAGAMENTO FINAL (1993) a DÁLIA NEGRA (2006).

E ver O PAGAMENTO FINAL no extinto Cine Fortaleza foi algo que me deixou quase paralisado de emoção. Sair daquela experiência e encarar a rua deserta do Centro da cidade enquanto pensava no filme foi muito impactante pra mim. E engraçado que no documentário DE PALMA (2015), de Noah Baumbach e Jake Paltrow, o próprio diretor conta que ao ver o próprio filme em um festival afirmou para si mesmo que jamais conseguiria fazer algo melhor do que aquilo. E de fato o drama estrelado por Al Pacino pode ser o seu ápice, embora eu coloque UM TIRO NA NOITE (1981) um pouco à frente.

O documentário é narrado apenas pelo próprio cineasta, o que confere à produção um status que o diferencia de um extra de DVD, embora eu prefira muito mais alguns extras de vários DVDs da Universal do Hitchcock. Não sei se DE PALMA funcionaria bem para um não fã do cineasta, já que os filmes são vistos de maneira muito rápida e até um pouco fria, embora seja muito interessante saber algumas histórias de bastidores, como David Koepp sendo demitido da produção de MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996), De Palma não gostando nada do ator de TRÁGICA OBSESSÃO (1976), o cachê milionário de Robert De Niro em OS INTOCÁVEIS (1987), etc.

Aliás, engraçado que De Niro estreou no cinema graças a De Palma, com QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (1968), fazendo outro longa com ele, em seguida. Depois é que foi se tornando famoso pela parceria com Martin Scorsese. O documentário de vez em quando mostra algum paralelo entre a obra do De Palma com a de seus colegas da Nova Hollywood (Scorsese, Spielberg, Coppola, Lucas) e outros filmes marcantes.

Legal vê-lo rindo das ousadias que foi capaz de fazer, como colocar cenas de nudez e muito sangue em CARRIE, A ESTRANHA (1976) e também de DUBLÊ DE CORPO (1984). Este segundo, inclusive, contou com uma ajudinha de uma atriz pornô famosa, Annette Haven, que serviu de modelo para a construção da personagem de Melanie Griffith.

DUBLÊ DE CORPO também foi mais um filme do diretor acusado de ser um tanto misógino, por mostrar, com requintes de crueldade, uma morte bem sangrenta de uma mulher por um homem portando uma enorme furadeira elétrica. E bota enorme nisso. O vermelho de muitos filmes do De Palma, com isso, acabam por aproximá-lo dos gialli de Dario Argento, de certa forma.

Quanto à influência explícita de Alfred Hithcock nas obras do diretor americano, o documentário trata logo de começar com uma cena de UM CORPO QUE CAI, que teria sido o filme que primeiro inspirou De Palma a seguir de maneira obsessiva por esse caminho do suspense não apenas hitchcockiano, mas de homenagem direta ao mestre do suspense. De Palma fez questão de mostrar esse débito, esse tributo, em vários filmes.

O final do doc é um tanto melancólico, pois mostra um cineasta que se diz cansado e que acredita que uma pessoa que chega a sua idade não produz mais grandes filmes, citando, inclusive, o caso de Hitchcock e suas obras tardias. Podemos ainda discordar dele, e torcer para que seu próximo filme, LIGHTS OUT, ainda em pré-produção, seja especial.

terça-feira, setembro 20, 2016

TRÊS COMÉDIAS BRASILEIRAS



Por mais que muitos reclamem das comédias brasileiras feitas para um grande público, até que elas têm o seu grau de interesse. Algumas, como é o caso do primeiro filme assumidamente do coletivo Porta dos Fundos, até ganharam fama de péssimo por muitos, quando, na verdade, há algo de interessante nelas. E nem falo em um sentido atropológico ou de um estudo das tendências do humor e da sociedade brasileira contemporâneos, mas em termos formais e narrativos mesmo. Falemos um pouco desses três filmes.

PORTA DOS FUNDOS - CONTRATO VITALÍCIO

Ian SBF já havia sido visto no cinema, na direção da comédia dramática ENTRE ABELHAS (2015), estrelada por Fábio Porchat e que trazia alguns membros do Porta dos Fundos em papéis pequenos. PORTA DOS FUNDOS – CONTRATO VITALÍCIO (2016) até tinha chances de ter sido um bom filme, mas, ao que parece, o grupo ainda não aprendeu a fazer algo que não fosse em esquetes. Como se trata de uma narrativa mais longa, em certo momento, ela perde a graça. Mas a primeira metade é divertida, bem conduzida, e tem os talentos do Porchat e do Gregório Duvivier encabeçando um projeto ambicioso, mas que ao mesmo tempo não deseja sair do território nacional, com suas piadas que só brasileiros entendem. Na história, os dois são amigos que trabalharam juntos em um filme que foi premiado em Cannes. Acontece que, na noite da premiação, Duvivier desaparece misteriosamente, só reaparecendo vários anos depois, para virar a vida do amigo de cabeça pra baixo, com a ideia de um filme maluco, sobre sua experiência em ter sido sequestrado por seres que vivem nas profundezas da Terra.

UM NAMORADO PARA MINHA MULHER

Infelizmente este filme vai ser lembrado também por causa da morte recente de Domingos Montagner, que interpreta o "Corvo", um sujeito cuja especialidade é conseguir acabar com o casamento dos outros, uma vez que ele seja contratado. Na trama, Caco Ciocler é um sujeito que não aguenta mais o jeito chato e rabugento da mulher, vivida por Ingrid Guimarães. Acontece que ele não tem coragem de pedir o divórcio ou a separação. Por isso aceita essa sugestão de um amigo. Assim, a mulher conheceria outro homem e ela mesma pediria a separação. Um dos pontos positivos de UM NAMORADO PARA MINHA MULHER (2016) é a direção segura de Julia Rezende, que já provou que sabe lidar tanto com comédias quanto com dramas mais sérios, como PONTE AÉREA (2015). Pena que o roteiro não ajude muito, no caso deste novo filme. Ainda assim, dá pra sair do cinema mais leve, depois de dar umas boas risadas. Além de o elenco de apoio ser muito simpático (Miá Mello, Paulo Vilhena, Marcos Veras), o papel caiu como uma luva para Ingrid Guimarães. E como desgostar de um filme que começa com "What a wonderful world" cantada por Joey Ramone?

DESCULPE O TRANSTORNO

A primeira vez que eu vi a Clarice Falcão foi na comédia EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA, de Matheus Souza. Era um filme menor, mas que já explorava bastante a simpatia dessa moça, que seria melhor vista como humorista do Porta dos Fundos e como cantora também. A presença dela no coletivo certamente se devia à parceria com Gregório Duvivier, que foi seu marido, mas ela tinha brilho próprio, ótimo senso de humor, além de ser bela em sua estranheza. Acabou saindo do grupo, provavelmente por causa da separação do casal. DESCULPE O TRANSTORNO (2016, foto) parece mais um filme do coletivo, já que traz o então casal e mais outros dois membros da turma em papéis menores. O filme trata de um sujeito que manifesta dupla personalidade, conforme suas idas ao Rio ou a sua casa em São Paulo. O engraçado é o gatilho para a transformação do personagem em Duca, o "monstro" da história (se compararmos com O Médico e o Monstro). Novamente aqui a turma utiliza referências bem brasileiras, como a novela MULHERES DE AREIA, o que restringe um pouco o filme ao mercado local, mas ao menos o número de piadas internas é menor. A direção de Tomas Portella é que é um pouco frouxa e a história não desenvolve bem uma conclusão. Ainda assim, rende uma sessão da tarde descompromissada e agradável, se você gosta dos atores.