A morte de Chadwick Boseman na última sexta-feira, 28, foi um baque e tanto, não apenas para cinéfilos e fãs do herói Pantera Negra. O filme da Marvel teve um impacto imenso na sociedade, trazendo uma representatividade negra inédita dentro de blockbusters. E Boseman parte em um ano em que também atua como um símbolo de heroísmo em DESTACAMENTO BLOOD, de Spike Lee. Enquanto isso, os Estados Unidos estão pegando fogo com um presidente racista, assassinatos de negros por policiais e protestos em várias partes do mundo em plena pandemia.
Falar disso antes de falar mais especificamente de QUEEN & SLIM (2019), estreia na direção de longas-metragens da diretora de videoclipes Melina Matsoukas, é importante para nos lembrar do momento em que estamos vivendo. O filme estreou nos Estados Unidos no final do ano passado e teve pouca repercussão, por mais que a dupla de atores esteja ótima. Tanto Daniel Kaluuya quanto Jodie Turner-Smith. Havia um burburinho sobre possibilidades de indicação ao Oscar e uma maior visibilidade ao filme. Uma pena que não ocorreu. Aqui no Brasil, nem chegou aos cinemas, sendo lançado direto em VOD (AppleTV e Looke), sem muito alarde.
Além da bela atuação de Kaluuya e Turner-Smith, o filme de Matsoukas se destaca por uma valorização da estética black, seja na construção das imagens, muito bem cuidadas na fotografia de Tat Radcliffe, que traz um viés muito próprio para a beleza dos corpos, seja na trilha musical sensual e quente. Aliás, vale destacar que o diretor de fotografia também foi o responsável pelo primeiro episódio de LOVECRAFT COUNTRY, nova série em cartaz na HBO. E é impressionante como ambos os trabalhos têm elementos em comum - são quase gêmeos.
Em ambos os trabalhos vemos personagens negros vivendo em um país extremamente racista. E por mais que a série de Jordan Peele e Misha Green se passe na década de 1950, quando havia separações de banheiros para brancos e pretos, espaço reservado nos ônibus para brancos e pretos, QUEEN & SLIM se passa nos dias atuais. Ainda assim, sentimos imediatamente o horror da protagonista ao saber que ter o carro abordado por um policial branco é sim motivo de muita preocupação.
Na trama, Queen & Slim (os nomes reais dos personagens nunca são citados) se encontram pela primeira vez em um restaurante para um encontro via Tinder. "Por que você escolheu este restaurante?", ela pergunta. "O dono é negro", ele responde. Isso já ajuda a nos colocar dentro de um território perigoso, o tal país da liberdade, os Estados Unidos da América. E aí, quando os dois voltam do encontro e de uma conversa não muito animada, eles são parados pelo citado policial. Algo ruim acontece e eles acabam sendo fugitivos da lei, passando pelo vasto território americano e ganhando ares de heróis, já que o policial já havia matado um homem negro antes.
Por mais que o filme não se mantenha tão bom em sua segunda metade e tenha uma conclusão sem muita inventividade, estamos diante de um filme que merece uma maior atenção, tanto por suas várias qualidades, quanto pela representatividade negra e feminina/feminista (a força da personagem Queen, ter uma diretora negra). Além do mais, há cenas que certamente vão continuar firmes na memória, como o momento em que os dois entram em uma festa e são reconhecidos e saudados por várias pessoas. E há também o prazer que road movies costumam trazer ao mostrar as transformações por que passam os personagens ao longo da jornada.
A arte segue sendo uma das formas mais bonitas de resistência.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
CARANGUEJO REI
Na falta de INABITÁVEL (2020), o curta que vem chamado a atenção durante o Kino Fórum, que não consegui ver por problemas técnicos, consegui cópia deste trabalho anterior da dupla de diretores, que segue uma pegada de cinema de terror muito interessante. Aqui, a cidade de Recife está sendo dominada por caranguejos por todos os lados, ao mesmo que tempo que um homem de negócios (Tavinho Teixeira, de O CLUBE DOS CANIBAIS) vê seu corpo se transformando a cada dia. É mais um filme de gênero que vem trazendo questões sociais e ecológicas de maneira inteligente. Ótimo uso da fotografia em cenas noturnas. Direção: Enock Carvalho e Matheus Farias. Ano: 2019.
MAURO, HUMBERTO
Gosto muito do doc recente HUMBERTO MAURO (2018), de André Di Mauro, que nos faz sair do cinema bastante impressionados com a genialidade do cineasta pioneiro, a partir da amostra de algumas de suas obras. Este curta de David Neves já havia feito algo muito similar, e com a vantagem de ainda poder entrevistar o diretor, em sua casinha de campo, na maior tranquilidade. Acho curioso o comentário de Glauber Rocha, ao dizer que Mauro seria um precursor do Cinema Novo, como se o Cinema Novo fosse o marco zero do nosso cinema. Mas pode ser implicância minha com o Glauber. No mais, rever a cena do rapaz e da moça no jogo de pega-pega em GANGA BRUTA (1933) é sempre um deleite. Como ele conseguiu captar com tanta beleza, sensualidade e espontaneidade aquela cena? Um absurdo de tão lindo. Ano: 1975.
DIÁRIO DE UM CINÉFILO
Comentários sobre filmes por Ailton Monteiro, cinéfilo de Fortaleza.
segunda-feira, agosto 31, 2020
sábado, agosto 29, 2020
18 FILMES EM 18 ANOS
Aniversário de 18 anos deste blog. Como o número 18 é um número especial - o blog atingiu a maioridade -, achei que seria interessante fazer uma postagem diferente, ainda que não necessariamente inédita. O que temos aqui são trechos de escritos que fiz desde o primeiro ano do blog até o presente momento, ou seja, dos anos 2002-3 até 2020. Não são necessariamente os melhores filmes vistos nos referidos anos (há clássicos e revisões), nem mesmo os melhores textos, mas os filmes são todos muito queridos e acredito que selecionei partes das postagens que dizem bastante de mim - mais do que dos filmes, embora diga deles também. No fim, parece que foi bom o Diário de um Cinéfilo ter nascido sob um signo de terra.
LUCIA E O SEXO (Lucía y el Sexo)
Uma cena, entre várias, me chamou a atenção: Lucía está na ilha e a câmera desce e mostra uma tomada dela com a lua ao fundo (a lua é uma constante no filme e personagem da história). Sublime. LUCIA E O SEXO mexe com a cabeça, com o pau, com os poros e com o coração. É um turbilhão de sentimentos e sensações que intoxica o corpo e nos faz querer estar vivos. Quem ainda não viu, não deixe de ver por nada. A não ser que você conheça alguma Lucía pelo caminho. Aí tá perdoado. (Julio Medem, 2001).
OS PÁSSAROS (The Birds)
Lembro que quando eu ia A uma igreja evangélica na infância e adolescência, o pastor de vez em quando comentava que cada vez mais se via menos aves no céu. Que elas estavam se preparando para o dia da grande tribulação, quando o planeta iria viver os dias do Apocalipse. Aquilo, junto com a história do arrebatamento da igreja, me deixava aterrorizado. Nem sei se tem na Bíblia essa história dos pássaros surgirem pra atacar o homem, mas no filme de Hitchcock o tom apocalíptico não encontra concorrente à altura. (Alfred Hitchcock, 1963).
O HOMEM ELEFANTE (The Elephant Man)
Como não ficar comovido com a cena em que Merrick é levado para conhecer a esposa do personagem de Hopkins? Me emociono só de lembrar. Na minha vida, assisti poucos filmes assim tão cheios de humanidade quanto esse. O personagem de Hopkins é de uma extrema nobreza, principalmente quando questiona suas reais intenções em relação a Merrick. Seria ele igual ao homem que maltrava o pobre coitado, o exibindo como atração de circo, preso numa jaula? A diferença talvez estivesse na gentileza e nos bons tratos que ele prestava a um homem que nem mesmo dormir deitado podia. Vendo o filme, nos questionamos a respeito de nossos atos: o que faríamos se nos encontrássemos com alguém como Merrick? Provavelmente agiríamos com horror e repulsa. Infelizmente. (David Lynch, 1980).
A PALAVRA (Ordet)
Lembro que quando eu era criança, ao ouvir uma conversa entre meus pais, fiquei sabendo que meu pai estava muito doente. Não lembro muito bem de que era, acho que era de pneumonia. Ele começou a fumar muito cedo, desde os nove anos, e foi o cigarro que o acabou matando. O fato é que eu fiquei preocupado com a doença de meu pai. Achava que ele ia morrer e fiz um acordo com Deus: pedi a Ele que curasse o meu pai em troca de uma gripe em mim mesmo. No dia seguinte, eu estava gripado. E perguntei à minha mãe sobre meu pai e ela falou que ele estava praticamente bom. Quando eu era criança, eu tinha mesmo fé. Hoje só sobrou o pessimismo e uma certa indiferença budista, que só tem servido para minimizar as frustrações. Hoje estou mais para Woody Allen que para Carl Dreyer. (Carl Th. Dreyer, 1955).
CÃO SEM DONO
Cheguei ao cinema não muito bem. Estava com um aperto no peito, uma espécie de aflição. Mas aos poucos fui me acalmando, esquecendo de mim e me concentrando no drama daqueles dois personagens: Ciro e Marcela. Se bem que é costume a gente se identificar com o protagonista, especialmente quando tem uma moça tão linda na jogada. A gente meio que sonha ter a mesma sorte que ele e acaba se colocando em seu lugar, gozando as alegrias e sofrendo as tristezas. E foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. E o mais interessante de tudo é que CÃO SEM DONO foi realizado num registro quase bressoniano, sem uso de música para forçar a emoção e com cenas curtas e objetivas. Impressionante a sensibilidade com que Brant e seu parceiro, Renato Ciasca, juntam o texto e a interpretação dos atores para construir essa história de amor e de encontro com a vida, no que ela tem de melhor e de pior. (Beto Brant, 2007).
NA CIDADE DE SYLVIA (En la Ciudad de Sylvia)
Como se trata de um filme enigmático, ao final, restam mais perguntas do que respostas, o que eu acho ótimo, pois promove uma reflexão e abre um leque de opções para o espectador. Seria a memória que engana o rapaz ou estaria ele delirando? Será que se trata de um filme sobre a memória ou do quanto o amor por uma pessoa pode transcender o aspecto físico? Mas se o amor era tão grande assim, por que ele demorou tanto para voltar para a mesma cidade? Assim como na sequência da perseguição, vamos nos perdendo nesse labirinto da memória e do amor, dois temas muito caros a mim. O fato de as pessoas do filme não ganharem nomes só mostra o quanto NA CIDADE DE SYLVIA vai além do mundo material. Afinal, quem sabe o nome da própria alma? (José Luis Guerín, 2007).
JANELA INDISCRETA (Rear Window)
A sexualidade também está presente em momentos bem menos explícitos em JANELA INDISCRETA, em especial na cena do beijo de Grace Kelly. O famoso beijo-surpresa, cuja sequência em câmera lenta foi recuperada anos depois. Confesso que a primeira vez que vi a Grace Kelly neste filme, com os hormônios a mil da adolescência, digamos que o meu corpo reagiu instantaneamente. E ainda mexe comigo até hoje. Parece com um sonho. O personagem de Stewart está dormindo e quando acorda vê aquela deusa se aproximando dele. Ele, quase sem poder se esquivar, devido à sua condição de acidentado. Mas para que se esquivar? Aliás, como alguém não quer se casar com Grace Kelly? Talvez esse seja o maior absurdo do filme. (Alfred Hitchcock, 1954).
A MOSCA (The Fly)
O fato de Cronenberg lidar com detalhes horrendos do processo de transformação, como as unhas, os dentes e as orelhas caírem, além de toda aquela gosma que sai da boca quando Jeff Goldblum passa a se alimentar como uma mosca, tudo isso contribui para que o filme se torne bem mais do que um horror convencional. Trata-se de uma obra inédita e feita com seriedade. Havia uma preocupação do diretor para que o público não achasse que os resultados do filme fossem vistos como engraçados. Por isso ele teve que pegar pesado. O diretor gosta de dizer que o seu filme seria uma espécie de horror metafísico. Disse ele em entrevista contida no livro Cronenbeg on Cronenberg: "Me agrada fazer isso, mostrar o que o gênero pode fazer, especialmente numa época em que para a maior parte das pessoas filme de horror era SEXTA-FEIRA 13 ou HALLOWEEN." (David Cronenberg, 1986).
AS CANÇÕES
O fato de os entrevistados se sentarem no escuro ajuda bastante a criar um clima no qual eles fiquem mais à vontade para contar suas histórias e cantar as suas canções. Os momentos mais bonitos são aqueles de mulheres desprezadas pelos homens de suas vidas. Vê-las dizendo o quanto ainda amam esses homens, apesar de tudo o que passaram, são motivos suficientes para que lágrimas rolem. O senhor militar que pede para que seja chamado de comandante e que no passado agiu tantas vezes como um cafajeste e hoje tenta se redimir com a esposa idosa é outro momento muito bonito. Também destaco o sujeito que veio da favela, que escolheu "Que nega é essa?", do Jorge Ben-Jor, e que conta com muita desenvoltura a sua história com a mulher que ama. São histórias como a dele que ajudam a renovar a fé num relacionamento conjugal. (Eduardo Coutinho, 2011).
DELÍRIO DE LOUCURA (Bigger than Life)
Esse misto de melodrama familiar com filme de horror perpetrado por Ray ainda tem múltiplas possibilidades de visão. Segundo Geoff Andrew, o filme pode ser visto como uma história edipiana (o filho quer matar o pai), uma alegoria (quando Ed quer desafiar o poder de Deus), uma tragédia (Ed é um mortal que se vê como divino), um horror psicológico (Ed como uma monstruosidade) e como um melodrama (ao mostrar em tons carregados a doença de Ed e como ela afeta a família). (Nicholas Ray, 1956).
A VISITANTE FRANCESA (Da-reun Na-ra-e-seo)
Um modo de encarar essas diversas histórias é imaginá-las como pequenas variações e repetições de um universo paralelo (adoro a moça da pousada, que sempre empresta a Anne um guarda-chuva). No caso, um universo criado por um deus representado por uma jovem roteirista. Que, não por acaso, é abandonada ao final do filme. Uma espécie de narradora marginal. Isto é, coerente com personagens que se sentem estrangeiros em seu próprio país. (Hong Sang-soo, 2012).
SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (sex, lies and videotape)
Steven Soderbergh bem que poderia ter continuado a fazer filmes assim, intimistas, e ganhar um status mais forte de autor, como o diretor a quem ele homenageia, John Cassavetes. A falta de pressa na construção dos planos e dos diálogos lembra bastante o cinema do pai dos cineastas independentes americanos, embora já se perceba um minimalismo típico dos anos 1980. O que, de certa forma, ajuda bastante na fluidez do filme. Em nenhum momento os diálogos cansam. Ao contrário: o diretor até poderia estendê-los que seriam bem-vindos. Principalmente os momentos em que Ann e Cynthia se despem para a câmera de Graham. É fácil sentir o coração bater mais forte nesses momentos. Não apenas pelo fetiche de estar sendo filmado por um estranho, mas por envolver também outras emoções. (Steven Soderbergh, 1989).
A COLINA ESCARLATE (Crimson Peak)
A beleza das cenas sangrentas e violentas não encontra paralelos com o que é filmado no horror contemporâneo. Se quisermos estabelecer comparações nesse sentido teremos que buscar mesmo na Hammer, em Bava ou em Argento. E lembrando de Bava e de Argento, lembramos também da personagem de Jessica Chastain, a irmã fria e malévola que rouba a cena a cada instante em que aparece. Para muitos, Chastain faz uma composição exagerada; para outros, como eu, trata-se da melhor personagem do filme, a que mais se aproxima de um mal equiparado ao de bruxas de contos de fadas clássicos ou de filmes de horror góticos. Como não amar a sequência final de Chastain enfrentando a heroína num duelo mortal? (Guillermo del Toro, 2015).
OS AMANTES CRUCIFICADOS (Chikamatsu Monogatari)
E é então que o filme ganha contornos bem românticos, ou ultrarromânticos. A cena de Mohei e Osan no barco é uma das mais belas dos filmes de Mizoguchi. Porém, diferente de um contido SENHORITA OYU (1951), que traz a tragédia para um território fechado e opressivo para os personagens, OS AMANTES CRUCIFICADOS opta pela catarse, pelo sentimento de quase bem-estar com o fato de deixar os sentimentos aflorarem com força. Mesmo que isso custe a sua vida. É quase uma visão cristã, em que é necessário perder a vida para ganhar a alma. (Kenji Mizoguchi, 1954).
APESAR DA NOITE (Malgré la Nuit)
(...) falar da trama de APESAR DA NOITE talvez diminua um pouco a impressão da natureza do filme, de sua forma única, ainda que remeta às vezes a Lynch e a Claire Denis, de narrar, de compor com mistério os planos e as sequências. Trata-se também de um filme que nos faz sentir dor. Muitas vezes uma dor física mesmo pelos atores/personagens em circunstâncias desagradáveis. Inclusive, o filme de Grandrieux tem uma estreita relação com o gênero horror. E aqui temos um horror que passa longe de provocar uma sensação de segurança e bem-estar familiar como geralmente sentimos com o gênero. O que temos é cinema de gente grande. Poético, desesperador, apaixonado, assustador, intenso. (Philippe Grandrieux, 2015).
PARAÍSO PERDIDO
Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções. (Monique Gardenberg, 2018).
LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (Di Qiu Zui Hou De Ye Wan)
É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante. (Gan Bi, 2018).
UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood)
O papel de Mr. Rogers (e deste filme que procura se moldar aos seus ensinamentos, à sua sabedoria e até ao seu estilo à moda antiga) é nos tirar da carapaça dura de autoproteção que nos torna mais cínicos e distantes de quem fomos um dia na infância, como se estivéssemos em um consultório de psicanálise e precisássemos lidar com nosso lado mais fragilizado para nos tornarmos mais fortes. (Marielle Heller, 2019).
LUCIA E O SEXO (Lucía y el Sexo)
Uma cena, entre várias, me chamou a atenção: Lucía está na ilha e a câmera desce e mostra uma tomada dela com a lua ao fundo (a lua é uma constante no filme e personagem da história). Sublime. LUCIA E O SEXO mexe com a cabeça, com o pau, com os poros e com o coração. É um turbilhão de sentimentos e sensações que intoxica o corpo e nos faz querer estar vivos. Quem ainda não viu, não deixe de ver por nada. A não ser que você conheça alguma Lucía pelo caminho. Aí tá perdoado. (Julio Medem, 2001).
OS PÁSSAROS (The Birds)
Lembro que quando eu ia A uma igreja evangélica na infância e adolescência, o pastor de vez em quando comentava que cada vez mais se via menos aves no céu. Que elas estavam se preparando para o dia da grande tribulação, quando o planeta iria viver os dias do Apocalipse. Aquilo, junto com a história do arrebatamento da igreja, me deixava aterrorizado. Nem sei se tem na Bíblia essa história dos pássaros surgirem pra atacar o homem, mas no filme de Hitchcock o tom apocalíptico não encontra concorrente à altura. (Alfred Hitchcock, 1963).
O HOMEM ELEFANTE (The Elephant Man)
Como não ficar comovido com a cena em que Merrick é levado para conhecer a esposa do personagem de Hopkins? Me emociono só de lembrar. Na minha vida, assisti poucos filmes assim tão cheios de humanidade quanto esse. O personagem de Hopkins é de uma extrema nobreza, principalmente quando questiona suas reais intenções em relação a Merrick. Seria ele igual ao homem que maltrava o pobre coitado, o exibindo como atração de circo, preso numa jaula? A diferença talvez estivesse na gentileza e nos bons tratos que ele prestava a um homem que nem mesmo dormir deitado podia. Vendo o filme, nos questionamos a respeito de nossos atos: o que faríamos se nos encontrássemos com alguém como Merrick? Provavelmente agiríamos com horror e repulsa. Infelizmente. (David Lynch, 1980).
A PALAVRA (Ordet)
Lembro que quando eu era criança, ao ouvir uma conversa entre meus pais, fiquei sabendo que meu pai estava muito doente. Não lembro muito bem de que era, acho que era de pneumonia. Ele começou a fumar muito cedo, desde os nove anos, e foi o cigarro que o acabou matando. O fato é que eu fiquei preocupado com a doença de meu pai. Achava que ele ia morrer e fiz um acordo com Deus: pedi a Ele que curasse o meu pai em troca de uma gripe em mim mesmo. No dia seguinte, eu estava gripado. E perguntei à minha mãe sobre meu pai e ela falou que ele estava praticamente bom. Quando eu era criança, eu tinha mesmo fé. Hoje só sobrou o pessimismo e uma certa indiferença budista, que só tem servido para minimizar as frustrações. Hoje estou mais para Woody Allen que para Carl Dreyer. (Carl Th. Dreyer, 1955).
CÃO SEM DONO
Cheguei ao cinema não muito bem. Estava com um aperto no peito, uma espécie de aflição. Mas aos poucos fui me acalmando, esquecendo de mim e me concentrando no drama daqueles dois personagens: Ciro e Marcela. Se bem que é costume a gente se identificar com o protagonista, especialmente quando tem uma moça tão linda na jogada. A gente meio que sonha ter a mesma sorte que ele e acaba se colocando em seu lugar, gozando as alegrias e sofrendo as tristezas. E foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. E o mais interessante de tudo é que CÃO SEM DONO foi realizado num registro quase bressoniano, sem uso de música para forçar a emoção e com cenas curtas e objetivas. Impressionante a sensibilidade com que Brant e seu parceiro, Renato Ciasca, juntam o texto e a interpretação dos atores para construir essa história de amor e de encontro com a vida, no que ela tem de melhor e de pior. (Beto Brant, 2007).
NA CIDADE DE SYLVIA (En la Ciudad de Sylvia)
Como se trata de um filme enigmático, ao final, restam mais perguntas do que respostas, o que eu acho ótimo, pois promove uma reflexão e abre um leque de opções para o espectador. Seria a memória que engana o rapaz ou estaria ele delirando? Será que se trata de um filme sobre a memória ou do quanto o amor por uma pessoa pode transcender o aspecto físico? Mas se o amor era tão grande assim, por que ele demorou tanto para voltar para a mesma cidade? Assim como na sequência da perseguição, vamos nos perdendo nesse labirinto da memória e do amor, dois temas muito caros a mim. O fato de as pessoas do filme não ganharem nomes só mostra o quanto NA CIDADE DE SYLVIA vai além do mundo material. Afinal, quem sabe o nome da própria alma? (José Luis Guerín, 2007).
JANELA INDISCRETA (Rear Window)
A sexualidade também está presente em momentos bem menos explícitos em JANELA INDISCRETA, em especial na cena do beijo de Grace Kelly. O famoso beijo-surpresa, cuja sequência em câmera lenta foi recuperada anos depois. Confesso que a primeira vez que vi a Grace Kelly neste filme, com os hormônios a mil da adolescência, digamos que o meu corpo reagiu instantaneamente. E ainda mexe comigo até hoje. Parece com um sonho. O personagem de Stewart está dormindo e quando acorda vê aquela deusa se aproximando dele. Ele, quase sem poder se esquivar, devido à sua condição de acidentado. Mas para que se esquivar? Aliás, como alguém não quer se casar com Grace Kelly? Talvez esse seja o maior absurdo do filme. (Alfred Hitchcock, 1954).
A MOSCA (The Fly)
O fato de Cronenberg lidar com detalhes horrendos do processo de transformação, como as unhas, os dentes e as orelhas caírem, além de toda aquela gosma que sai da boca quando Jeff Goldblum passa a se alimentar como uma mosca, tudo isso contribui para que o filme se torne bem mais do que um horror convencional. Trata-se de uma obra inédita e feita com seriedade. Havia uma preocupação do diretor para que o público não achasse que os resultados do filme fossem vistos como engraçados. Por isso ele teve que pegar pesado. O diretor gosta de dizer que o seu filme seria uma espécie de horror metafísico. Disse ele em entrevista contida no livro Cronenbeg on Cronenberg: "Me agrada fazer isso, mostrar o que o gênero pode fazer, especialmente numa época em que para a maior parte das pessoas filme de horror era SEXTA-FEIRA 13 ou HALLOWEEN." (David Cronenberg, 1986).
AS CANÇÕES
O fato de os entrevistados se sentarem no escuro ajuda bastante a criar um clima no qual eles fiquem mais à vontade para contar suas histórias e cantar as suas canções. Os momentos mais bonitos são aqueles de mulheres desprezadas pelos homens de suas vidas. Vê-las dizendo o quanto ainda amam esses homens, apesar de tudo o que passaram, são motivos suficientes para que lágrimas rolem. O senhor militar que pede para que seja chamado de comandante e que no passado agiu tantas vezes como um cafajeste e hoje tenta se redimir com a esposa idosa é outro momento muito bonito. Também destaco o sujeito que veio da favela, que escolheu "Que nega é essa?", do Jorge Ben-Jor, e que conta com muita desenvoltura a sua história com a mulher que ama. São histórias como a dele que ajudam a renovar a fé num relacionamento conjugal. (Eduardo Coutinho, 2011).
DELÍRIO DE LOUCURA (Bigger than Life)
Esse misto de melodrama familiar com filme de horror perpetrado por Ray ainda tem múltiplas possibilidades de visão. Segundo Geoff Andrew, o filme pode ser visto como uma história edipiana (o filho quer matar o pai), uma alegoria (quando Ed quer desafiar o poder de Deus), uma tragédia (Ed é um mortal que se vê como divino), um horror psicológico (Ed como uma monstruosidade) e como um melodrama (ao mostrar em tons carregados a doença de Ed e como ela afeta a família). (Nicholas Ray, 1956).
A VISITANTE FRANCESA (Da-reun Na-ra-e-seo)
Um modo de encarar essas diversas histórias é imaginá-las como pequenas variações e repetições de um universo paralelo (adoro a moça da pousada, que sempre empresta a Anne um guarda-chuva). No caso, um universo criado por um deus representado por uma jovem roteirista. Que, não por acaso, é abandonada ao final do filme. Uma espécie de narradora marginal. Isto é, coerente com personagens que se sentem estrangeiros em seu próprio país. (Hong Sang-soo, 2012).
SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (sex, lies and videotape)
Steven Soderbergh bem que poderia ter continuado a fazer filmes assim, intimistas, e ganhar um status mais forte de autor, como o diretor a quem ele homenageia, John Cassavetes. A falta de pressa na construção dos planos e dos diálogos lembra bastante o cinema do pai dos cineastas independentes americanos, embora já se perceba um minimalismo típico dos anos 1980. O que, de certa forma, ajuda bastante na fluidez do filme. Em nenhum momento os diálogos cansam. Ao contrário: o diretor até poderia estendê-los que seriam bem-vindos. Principalmente os momentos em que Ann e Cynthia se despem para a câmera de Graham. É fácil sentir o coração bater mais forte nesses momentos. Não apenas pelo fetiche de estar sendo filmado por um estranho, mas por envolver também outras emoções. (Steven Soderbergh, 1989).
A COLINA ESCARLATE (Crimson Peak)
A beleza das cenas sangrentas e violentas não encontra paralelos com o que é filmado no horror contemporâneo. Se quisermos estabelecer comparações nesse sentido teremos que buscar mesmo na Hammer, em Bava ou em Argento. E lembrando de Bava e de Argento, lembramos também da personagem de Jessica Chastain, a irmã fria e malévola que rouba a cena a cada instante em que aparece. Para muitos, Chastain faz uma composição exagerada; para outros, como eu, trata-se da melhor personagem do filme, a que mais se aproxima de um mal equiparado ao de bruxas de contos de fadas clássicos ou de filmes de horror góticos. Como não amar a sequência final de Chastain enfrentando a heroína num duelo mortal? (Guillermo del Toro, 2015).
OS AMANTES CRUCIFICADOS (Chikamatsu Monogatari)
E é então que o filme ganha contornos bem românticos, ou ultrarromânticos. A cena de Mohei e Osan no barco é uma das mais belas dos filmes de Mizoguchi. Porém, diferente de um contido SENHORITA OYU (1951), que traz a tragédia para um território fechado e opressivo para os personagens, OS AMANTES CRUCIFICADOS opta pela catarse, pelo sentimento de quase bem-estar com o fato de deixar os sentimentos aflorarem com força. Mesmo que isso custe a sua vida. É quase uma visão cristã, em que é necessário perder a vida para ganhar a alma. (Kenji Mizoguchi, 1954).
APESAR DA NOITE (Malgré la Nuit)
(...) falar da trama de APESAR DA NOITE talvez diminua um pouco a impressão da natureza do filme, de sua forma única, ainda que remeta às vezes a Lynch e a Claire Denis, de narrar, de compor com mistério os planos e as sequências. Trata-se também de um filme que nos faz sentir dor. Muitas vezes uma dor física mesmo pelos atores/personagens em circunstâncias desagradáveis. Inclusive, o filme de Grandrieux tem uma estreita relação com o gênero horror. E aqui temos um horror que passa longe de provocar uma sensação de segurança e bem-estar familiar como geralmente sentimos com o gênero. O que temos é cinema de gente grande. Poético, desesperador, apaixonado, assustador, intenso. (Philippe Grandrieux, 2015).
PARAÍSO PERDIDO
Como não gostar de um filme que já começa com uma bela interpretação de "Impossível acreditar que perdi você", de Márcio Greyck? E a música tem até mais espaço do que a fala ao longo da narrativa. A música, além de muito querida por todos os personagens, é parte integrante e fundamental para que a experiência de ver o filme seja arrebatadora, com vários momentos de arrepiar, em especial quem não tem preconceito com canções mais populares e mais carregadas nas emoções. (Monique Gardenberg, 2018).
LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (Di Qiu Zui Hou De Ye Wan)
É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante. (Gan Bi, 2018).
UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood)
O papel de Mr. Rogers (e deste filme que procura se moldar aos seus ensinamentos, à sua sabedoria e até ao seu estilo à moda antiga) é nos tirar da carapaça dura de autoproteção que nos torna mais cínicos e distantes de quem fomos um dia na infância, como se estivéssemos em um consultório de psicanálise e precisássemos lidar com nosso lado mais fragilizado para nos tornarmos mais fortes. (Marielle Heller, 2019).
sexta-feira, agosto 28, 2020
OS NIBELUNGOS - A MORTE DE SIEGFRIED (Die Nibelungen - Siegfried)
Interessante que o título brasileiro já denuncia o destino do herói. Mas, para os alemães, a história dos Nibelungos é tão famosa quanto a história de Jesus. Além do mais, no próprio cartaz original alemão, vemos Siegfried tendo seu corpo perfurado pela lança que porá fim à sua vida. OS NIBELUNGOS - A MORTE DE SIEGFRIED (1924) é a primeira de duas partes da saga dos Nibelungos, uma das histórias mais míticas do folclore alemão. Fritz Lang, depois de ter feito um trabalho fenomenal com DR. MABUSE, O JOGADOR (1922), talvez sua grande obra-prima da fase silenciosa, foi encarregado de mais uma outra produção bem ambiciosa.
Na época que li a graphic novel O Anel do Nibelungo, adaptação da ópera de Richard Wagner por P. Craig Russell, tive bastante vontade de ver estes dois filmes de Lang, que na verdade não têm história nenhuma de anel. Então, não sei o quanto houve de licenças poéticas, ou se Lang se inspirou menos em Wagner e mais na literatura que tenta contar a mitologia da saga. Pelo que li rapidamente a respeito da ópera de Wagner, há diferenças bem significativas, além do fato de a história contada na ópera cobrir um período de tempo muito maior.
De todo modo, há de comum o herói Siegfried, um jovem loiro filho de um rei, mas criado por anões especialistas em forjar espadas e outros materiais. Ele ganha uma espada especialmente feita para ele e se vê empolgado em deixar seu povoado para conhecer o mundo. No meio do caminho, ele encontra um dragão enorme que solta fogo. Ele enfrenta e mata o dragão e um pássaro lhe diz que se ele se banhar no sangue do dragão, ele terá um corpo impenetrável. Durante o banho, uma folha cai de uma árvore em suas costas. Aquela parte do corpo seria sua única parte sensível, o que lembra bastante a lenda grega de Aquiles.
Demorei um pouco a me interessar pela história, mas aos poucos o filme vai nos conquistando, com sequências empolgantes e até mesmo alguns efeitos especiais que impressionam para a época, como a cena em que os anões da caverna do tesouro junto com o anão deformado que lhe introduz o lugar se transformam em pedra. Naquele momento, Siegfried já estava de posse de uma touca que tanto pode torná-lo invisível quanto transformá-lo em quem ele desejar.
Isso faz com que a história de Siegfried se torne tão fascinante e fantasiosa quanto histórias de super-heróis. Essa impressão aumenta ainda mais quando o herói se encarrega de ajudar o rei Gunther de vencer uma valquíria, Brunhild. O rei deseja se casar com ela, mas ela é uma mulher forte, que vive com as amazonas e não tem a menor intenção de ser mulher daquele rei. Só um herói invencível como Siegfried conseguiria vencê-la, mas é o próprio rei que terá que se mostrar hábil de vencê-la em três desafios a ele impostos. Siegfried, invisível, trapaceia para ajudar o rei na disputa. Aliás, curioso isso, já que é uma trapaça, algo não muito nobre para um herói.
Mais à frente, veremos outras situações bem interessantes, até porque Brunhild não se dá por satisfeita, já que não se sente casada, mas uma prisioneira. E ela acaba se transformando em um dos vilões do filme. Até poderiam dizer que isso seria fruto da suposta famosa misoginia de Lang, mas é bom lembrar que quem fez o roteiro foi sua esposa Thea von Harbou, e, muito provavelmente, inspirada na própria história mitológica, essa sim herdeira do machismo de longa data. Esse sentimento se intensifica quando pensamos que são as duas mulheres, principalmente, as responsáveis pela ruína dos dois reis, Siegfried e Gunther. A esposa de Siegfried, Kriemhild, porém, comete erros mais por ingenuidade.
Aliás, fico pensando como será o segundo filme, agora sem Siegfried e com Kriemhild preparando sua vingança. Será ela uma personagem boa o suficiente para segurar um filme inteiro? É ver para saber. Quanto a este filme, há uma coisa no começo que me incomoda, levando em consideração o nazismo ascendente: o fato de o filme ser dedicado ao grande povo alemão. Esses excessos de nacionalismo sempre devem ser vistos com desconfiança, que o diga o novo momento político brasileiro.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
BY THE KISS
Um curta de cinco minutos em que vemos uma mulher num beco escuro sendo beijada por várias pessoas. Em vez de conforto, aos poucos, sua expressão é de dor, de desesperança, de tormenta até. Fui olhar a sinopse oficial do filme, exibido em Cannes, e é a seguinte: Os diversos relacionamentos de uma mulher ao longo da vida. E isso fez com que o filme se tornasse ainda mais doloroso e intenso. A música ajuda muito a intensificar, especialmente se ouvindo em um som alto na TV ou som. Direção: Yann Gonzalez. Ano: 2006.
MULHERES DA BOCA
Interessante registro da zona de prostituição da chamada Boca do Lixo, em São Paulo. Há um momento desconfortável, com dramatização, de um cafetão agredindo psicologicamente uma profissional do sexo. Mas talvez o mais interessante mesmo seja o depoimento da dona de um bordel, falando de seu negócio e do quanto necessita tratar bem os clientes. Depois, vemos imagens de um clube noturno de strip-tease com aquele clima disco decadente do início da década de 80. Podia ser melhor.
Na época que li a graphic novel O Anel do Nibelungo, adaptação da ópera de Richard Wagner por P. Craig Russell, tive bastante vontade de ver estes dois filmes de Lang, que na verdade não têm história nenhuma de anel. Então, não sei o quanto houve de licenças poéticas, ou se Lang se inspirou menos em Wagner e mais na literatura que tenta contar a mitologia da saga. Pelo que li rapidamente a respeito da ópera de Wagner, há diferenças bem significativas, além do fato de a história contada na ópera cobrir um período de tempo muito maior.
De todo modo, há de comum o herói Siegfried, um jovem loiro filho de um rei, mas criado por anões especialistas em forjar espadas e outros materiais. Ele ganha uma espada especialmente feita para ele e se vê empolgado em deixar seu povoado para conhecer o mundo. No meio do caminho, ele encontra um dragão enorme que solta fogo. Ele enfrenta e mata o dragão e um pássaro lhe diz que se ele se banhar no sangue do dragão, ele terá um corpo impenetrável. Durante o banho, uma folha cai de uma árvore em suas costas. Aquela parte do corpo seria sua única parte sensível, o que lembra bastante a lenda grega de Aquiles.
Demorei um pouco a me interessar pela história, mas aos poucos o filme vai nos conquistando, com sequências empolgantes e até mesmo alguns efeitos especiais que impressionam para a época, como a cena em que os anões da caverna do tesouro junto com o anão deformado que lhe introduz o lugar se transformam em pedra. Naquele momento, Siegfried já estava de posse de uma touca que tanto pode torná-lo invisível quanto transformá-lo em quem ele desejar.
Isso faz com que a história de Siegfried se torne tão fascinante e fantasiosa quanto histórias de super-heróis. Essa impressão aumenta ainda mais quando o herói se encarrega de ajudar o rei Gunther de vencer uma valquíria, Brunhild. O rei deseja se casar com ela, mas ela é uma mulher forte, que vive com as amazonas e não tem a menor intenção de ser mulher daquele rei. Só um herói invencível como Siegfried conseguiria vencê-la, mas é o próprio rei que terá que se mostrar hábil de vencê-la em três desafios a ele impostos. Siegfried, invisível, trapaceia para ajudar o rei na disputa. Aliás, curioso isso, já que é uma trapaça, algo não muito nobre para um herói.
Mais à frente, veremos outras situações bem interessantes, até porque Brunhild não se dá por satisfeita, já que não se sente casada, mas uma prisioneira. E ela acaba se transformando em um dos vilões do filme. Até poderiam dizer que isso seria fruto da suposta famosa misoginia de Lang, mas é bom lembrar que quem fez o roteiro foi sua esposa Thea von Harbou, e, muito provavelmente, inspirada na própria história mitológica, essa sim herdeira do machismo de longa data. Esse sentimento se intensifica quando pensamos que são as duas mulheres, principalmente, as responsáveis pela ruína dos dois reis, Siegfried e Gunther. A esposa de Siegfried, Kriemhild, porém, comete erros mais por ingenuidade.
Aliás, fico pensando como será o segundo filme, agora sem Siegfried e com Kriemhild preparando sua vingança. Será ela uma personagem boa o suficiente para segurar um filme inteiro? É ver para saber. Quanto a este filme, há uma coisa no começo que me incomoda, levando em consideração o nazismo ascendente: o fato de o filme ser dedicado ao grande povo alemão. Esses excessos de nacionalismo sempre devem ser vistos com desconfiança, que o diga o novo momento político brasileiro.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
BY THE KISS
Um curta de cinco minutos em que vemos uma mulher num beco escuro sendo beijada por várias pessoas. Em vez de conforto, aos poucos, sua expressão é de dor, de desesperança, de tormenta até. Fui olhar a sinopse oficial do filme, exibido em Cannes, e é a seguinte: Os diversos relacionamentos de uma mulher ao longo da vida. E isso fez com que o filme se tornasse ainda mais doloroso e intenso. A música ajuda muito a intensificar, especialmente se ouvindo em um som alto na TV ou som. Direção: Yann Gonzalez. Ano: 2006.
MULHERES DA BOCA
Interessante registro da zona de prostituição da chamada Boca do Lixo, em São Paulo. Há um momento desconfortável, com dramatização, de um cafetão agredindo psicologicamente uma profissional do sexo. Mas talvez o mais interessante mesmo seja o depoimento da dona de um bordel, falando de seu negócio e do quanto necessita tratar bem os clientes. Depois, vemos imagens de um clube noturno de strip-tease com aquele clima disco decadente do início da década de 80. Podia ser melhor.
quarta-feira, agosto 26, 2020
JOGADA DE RISCO (Hard Eight / Sydney)
Primeiro dos sete longas (por enquanto) de Paul Thomas Anderson, um dos mais celebrados cineastas surgidos nos anos 1990, mas também um cineasta, às vezes, de difícil penetração - não é todo filme dele que me ganha fácil, por exemplo. Mas não dá para negar que seus filmes não sejam todos, de uma forma ou de outra, impressionantes, cada um a sua maneira. E o interessante é que ele lida com universos muito distintos. Não é o tipo de cineasta que gosta de repetir mundos.
Foi muito bom rever JOGADA DE RISCO (1996), seu longa de estreia, visto pela primeira vez em VHS não lembro quando. E na época não curti muito. Creio que saiu em home video depois do sucesso de BOOGIE NIGHTS - PRAZER SEM LIMITES (1997), se não me engano. Mas também não tenho certeza. Rever agora traz uma série de pontos positivos, como o fato de ver em uma cópia 1080p encontrada por aí, respeitando a janela scope. Com certeza é um filme que perdeu muito com a mutilação das chamadas "telas cheias" que eram o padrão nos lançamentos em VHS.
Ao contrário do que acontece com muitos cineastas talentosos estreantes, JOGADA DE RISCO não é um filme cheio de amostras de genialidade técnica e narrativa. É uma obra mais discreta e por isso mesmo pode ser melhor apreciada hoje do que foi na época de seu lançamento. Hoje podemos traçar paralelos com o cineasta mítico que Paul Thomas Anderson se tornou, inclusive com o excelente trabalho com os atores.
Aqui já chama a atenção o fato de ele trazer à frente um ator já maduro. Philip Baker Hall já tinha 65 anos quando interpretou Sydney, este enigmático homem que faz uma boa ação, ao tirar da miséria um rapaz que estava sem dinheiro até mesmo para pagar o enterro do pai e via como uma possibilidade de conseguir algum dinheiro tentando a sorte em Las Vegas. E como ajuda de estranhos é algo fácil de desconfiar, esse rapaz, John, vivido por John C. Reilly, demora a acreditar, mas aos poucos vê que as dicas de se ganhar dinheiro no cassino, com apenas 50 dólares (depois 150), foram o início de uma amizade que se formaria a partir dali. Um tipo de amizade que se parece muito com a relação entre pai e filho.
Completando o trio principal, temos Gwyneth Paltrow fazendo uma atendente de bar que ganha uns extras com prostituição e que se envolve afetivamente com John. A personagem de Gwyneth tem uma doçura e uma vulnerabilidade adoráveis. As cenas em que ela conversa com Sydney são magníficas. Aliás, Philip Baker Hall talvez nunca mais tenha tido um trabalho tão bom em sua carreira - falo isso sem conhecer sua carreira inteira, mas esta estreia de PTA foi um presente e tanto para o ator.
Sydney tem uma classe, uma elegância, passa uma segurança e uma autoconfiança e também uma sabedoria que ele soube ganhar com a maturidade, que talvez só pudemos comprar, como espectadores, por não acompanhar as suas falhas anteriores, que só seriam reveladas no último ato, em conversa também antológica e cheia de silêncios com o personagem de Samuel L. Jackson, o quarto elemento da trama. Ou seja, talvez tivéssemos um julgamento distinto dele se víssemos o que ele fizera antes. Como não é o caso, suas falhas são aceitáveis, perdoáveis e humanas, principalmente se comparadas com a de uma pessoa que está fazendo uma chantagem.
Assim, JOGADA DE RISCO é também um filme sobre culpa e redenção, algo que veríamos em MAGNÓLIA (1999). E há também uma espécie de crítica ao capitalismo americano, ao modo de ganhar a vida através de jogos. Porém, diferente de um tipo muito mais intenso de cobiça, como o visto em SANGUE NEGRO (2007), aqui temos algo muito mais mesquinho. Pra que cena mais triste do que a dos 300 dólares? Fazer uma grande besteira na vida por causa de 300 dólares. Aliás, baita cena, que revela também uma das melhores atuações de Gwyneth Paltrow.
Quanto a Paul Thomas Anderson, creio que preciso rever toda sua obra. É um cineasta por quem eu tenho um respeito imenso, mas que me parece, muitas vezes, um mistério. Falta a mim estudar mais sua obra e ver seus filmes com mais atenção.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
ZÉZERO
Desconcertante este filme. Um exemplar de cinema feito com a intenção de se aproximar da precariedade do seu tema, que são pessoas que vivem em situação de extrema miséria, saindo da condição de pedinte para a de trabalhador de construção, assinando com o dedo para ganhar os seus trocados, sobreviver. Mas a sofisticação do cineasta é tanta que ele usa essa falta de recursos a seu favor. Os próprios créditos são escritos em papéis rasgados. E há aquele caráter também de revolta imenso, de mandar tomar no cu, com todas as letras e com um close no final. Há sexo agressivo, brutal, o homem em busca da satisfação física. Há uso de som de maneira muito própria. E é curioso como a meia hora passa rápido, curioso como um filme de natureza assim experimental nos ganha tão rapidamente. Recomendo que leiam a excelente crítica de Sérgio Alpendre para o livro Curta Brasileiro - 100 Filmes Essenciais. Excelente! Direção: Ozualdo R. Candeias. Ano: 1974.
MEOW!
Animação realizada nos tempos em que fazer animação no Brasil era uma trabalheira dos diabos, este filme se tornou um clássico, tanto pela boa técnica empregada (chegou até a ganhar prêmio em Cannes!), quanto pela crítica política da colonização americana no Brasil, que chega a fazer até mesmo um gato trocar o seu leite pela Coca-Cola através de uma espécie de lavagem cerebral. O filme é simples e nos leva a rir diversas vezes. As expressões do felino são sensacionais. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1981.
Foi muito bom rever JOGADA DE RISCO (1996), seu longa de estreia, visto pela primeira vez em VHS não lembro quando. E na época não curti muito. Creio que saiu em home video depois do sucesso de BOOGIE NIGHTS - PRAZER SEM LIMITES (1997), se não me engano. Mas também não tenho certeza. Rever agora traz uma série de pontos positivos, como o fato de ver em uma cópia 1080p encontrada por aí, respeitando a janela scope. Com certeza é um filme que perdeu muito com a mutilação das chamadas "telas cheias" que eram o padrão nos lançamentos em VHS.
Ao contrário do que acontece com muitos cineastas talentosos estreantes, JOGADA DE RISCO não é um filme cheio de amostras de genialidade técnica e narrativa. É uma obra mais discreta e por isso mesmo pode ser melhor apreciada hoje do que foi na época de seu lançamento. Hoje podemos traçar paralelos com o cineasta mítico que Paul Thomas Anderson se tornou, inclusive com o excelente trabalho com os atores.
Aqui já chama a atenção o fato de ele trazer à frente um ator já maduro. Philip Baker Hall já tinha 65 anos quando interpretou Sydney, este enigmático homem que faz uma boa ação, ao tirar da miséria um rapaz que estava sem dinheiro até mesmo para pagar o enterro do pai e via como uma possibilidade de conseguir algum dinheiro tentando a sorte em Las Vegas. E como ajuda de estranhos é algo fácil de desconfiar, esse rapaz, John, vivido por John C. Reilly, demora a acreditar, mas aos poucos vê que as dicas de se ganhar dinheiro no cassino, com apenas 50 dólares (depois 150), foram o início de uma amizade que se formaria a partir dali. Um tipo de amizade que se parece muito com a relação entre pai e filho.
Completando o trio principal, temos Gwyneth Paltrow fazendo uma atendente de bar que ganha uns extras com prostituição e que se envolve afetivamente com John. A personagem de Gwyneth tem uma doçura e uma vulnerabilidade adoráveis. As cenas em que ela conversa com Sydney são magníficas. Aliás, Philip Baker Hall talvez nunca mais tenha tido um trabalho tão bom em sua carreira - falo isso sem conhecer sua carreira inteira, mas esta estreia de PTA foi um presente e tanto para o ator.
Sydney tem uma classe, uma elegância, passa uma segurança e uma autoconfiança e também uma sabedoria que ele soube ganhar com a maturidade, que talvez só pudemos comprar, como espectadores, por não acompanhar as suas falhas anteriores, que só seriam reveladas no último ato, em conversa também antológica e cheia de silêncios com o personagem de Samuel L. Jackson, o quarto elemento da trama. Ou seja, talvez tivéssemos um julgamento distinto dele se víssemos o que ele fizera antes. Como não é o caso, suas falhas são aceitáveis, perdoáveis e humanas, principalmente se comparadas com a de uma pessoa que está fazendo uma chantagem.
Assim, JOGADA DE RISCO é também um filme sobre culpa e redenção, algo que veríamos em MAGNÓLIA (1999). E há também uma espécie de crítica ao capitalismo americano, ao modo de ganhar a vida através de jogos. Porém, diferente de um tipo muito mais intenso de cobiça, como o visto em SANGUE NEGRO (2007), aqui temos algo muito mais mesquinho. Pra que cena mais triste do que a dos 300 dólares? Fazer uma grande besteira na vida por causa de 300 dólares. Aliás, baita cena, que revela também uma das melhores atuações de Gwyneth Paltrow.
Quanto a Paul Thomas Anderson, creio que preciso rever toda sua obra. É um cineasta por quem eu tenho um respeito imenso, mas que me parece, muitas vezes, um mistério. Falta a mim estudar mais sua obra e ver seus filmes com mais atenção.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
ZÉZERO
Desconcertante este filme. Um exemplar de cinema feito com a intenção de se aproximar da precariedade do seu tema, que são pessoas que vivem em situação de extrema miséria, saindo da condição de pedinte para a de trabalhador de construção, assinando com o dedo para ganhar os seus trocados, sobreviver. Mas a sofisticação do cineasta é tanta que ele usa essa falta de recursos a seu favor. Os próprios créditos são escritos em papéis rasgados. E há aquele caráter também de revolta imenso, de mandar tomar no cu, com todas as letras e com um close no final. Há sexo agressivo, brutal, o homem em busca da satisfação física. Há uso de som de maneira muito própria. E é curioso como a meia hora passa rápido, curioso como um filme de natureza assim experimental nos ganha tão rapidamente. Recomendo que leiam a excelente crítica de Sérgio Alpendre para o livro Curta Brasileiro - 100 Filmes Essenciais. Excelente! Direção: Ozualdo R. Candeias. Ano: 1974.
MEOW!
Animação realizada nos tempos em que fazer animação no Brasil era uma trabalheira dos diabos, este filme se tornou um clássico, tanto pela boa técnica empregada (chegou até a ganhar prêmio em Cannes!), quanto pela crítica política da colonização americana no Brasil, que chega a fazer até mesmo um gato trocar o seu leite pela Coca-Cola através de uma espécie de lavagem cerebral. O filme é simples e nos leva a rir diversas vezes. As expressões do felino são sensacionais. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1981.
segunda-feira, agosto 24, 2020
O GRANDE SEGREDO (Cloak and Dagger)
O menos brilhante dos filmes anti-nazistas de Lang, O GRANDE SEGREDO (1946) se aproxima mais da aventura, e fica melhor quando Lilli Palmer entra em cena, como interesse amoroso de Gary Cooper. É interessante que é um filme feito após o fim do conflito e lida justamente com um tema muito sensível naquele momento, que é a bomba atômica. Porém, ao que parece, o pensamento que o filme dá a entender é de que era preferível os Estados Unidos terem a bomba do que os nazistas. Não deixa de ser algo para encobrir um grande pecado, mas o filme não escolhe esse caminho da culpa.
Na verdade, existe uma história meio suja por trás. Os produtores da Warner destruíram o final original do filme, cenas inteiras, contendo algo que seria bastante incisivo com relação ao discurso anti-bomba atômica. Nas cenas cortadas/destruídas, Cooper diz algo como "Este é o Ano I da Era Atômica, e Deus nos ajude se imaginamos que conseguiremos ficar com isto para nós e esconder do resto do mundo." Isso é possível de ver no roteiro original. Mas não é de ficar indignado? Eu teria ficado, no lugar de Lang, que aceitou embarcar no projeto justamente por causa dessa questão suprimida pela produtora.
O que ficou foi mais uma aventura de espionagem em que Cooper, um cientista americano, é escalado para uma missão na Europa durante a guerra. Como é comum nesses filmes de espionagem, algumas coisas me pareceram pouco claras. Mas tudo bem. Ele é recrutado pela OSS para entrar em contato com um médico húngaro que está na Itália trabalhando para os nazistas. Disfarçado de oficial alemão, Cooper entra no escritório do médico e descobre que ele trabalha para os nazistas e fascistas pois eles raptaram sua filha. Então, a nova missão dos heróis passa a ser trazer de volta a filha do médico para que ele possa ser também resgatado.
Na verdade, a trama parece mais complicada do que isso, mas é mais ou menos assim. No meio da jornada, o protagonista conhece uma mulher italiana de luta (Palmer), por quem se apaixona. Eu até diria que a presença de Palmer ajuda a tornar o filme muito mais interessante e envolvente. Antes, a troca de pessoas que auxiliam o protagonista estava me deixando ainda mais confuso. E, enquanto Palmer tinha aquela imagem de mulher fria, o que ajudou bastante para o papel, Cooper tinha uma imagem de homem de confiança. Ele até fez, durante a Guerra, um papel bem pacifista, SARGENTO YORK, de Howard Hawks. Mas Lang achava que ele poderia ser pouco crível no papel de um cientista, já que interpretou vários caubóis e militares anteriormente. Como homem de ação funcionou perfeitamente. E é mais isso que o filme pede, afinal.
Enquanto os demais filmes anti-nazistas de Lang realizados em Hollywood - O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943) e QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944) - tinham algo de mais romântico no dever dos heróis, aqui há algo bem menos preto no branco, há uma consciência de que dentro da guerra, você está sujo também, mesmo que esteja do lado certo. É mais ou menos algo que a personagem de Lilli Palmer diz em determinado momento. Do mesmo modo, tanto os nazistas quanto os fascistas são vistos de modo menos palpável e vago do que nos filmes anteriores.
A melhor cena de ação do filme (ou melhor cena do filme): os nazistas cercando a casa do pessoal da resistência, enquanto os heróis tentam salvar o médico, descendo por um alçapão que vai dar em um poço. Mas também acho fascinante a cena de Cooper lutando com um fascista, uma luta difícil e silenciosa, lembrando uma cena que Hitchcock faria em CORTINA RASGADA, vinte anos depois. O não uso da música, fez uma diferença enorme para a construção da tensão. Mas isso já é algo que Lang já fazia com maestria desde M - O VAMPIRO DE DUSSELDÖRF (1931).
+ DOIS FILMES (CURTOS)
SOCORRO NOBRE
Curioso como fiquei mais interessado no polonês Frans Krajcberg do que na presidiária Socorro Nobre que dá título ao filme. Só hoje que fui saber que Walter Salles já havia realizado um curta sobre o artista polonês que mora em uma cidadezinha do litoral baiano. Mas é muito interessante o contraste que o diretor faz do modo como filma os dois personagens: enquanto Frans é visto em planos abertos (há uma cena linda de câmera em movimento, dele correndo pela praia), as cenas com Socorro, dentro da prisão, são claustrofóbicas, em closes, não nos deixando ver o que está ao redor da mulher, apenas seu rosto e o que ela tem para dizer, sua relação com a esperança de sair da prisão. Na época de CENTRAL DO BRASIL (1998), muito se falou deste curta, principalmente pelo fato de as cartas serem um ponto em comum. E aqui, de fato, a carta de Socorro para Frans é muito bonita e tocante. O curta é mais simples do que eu pensei que fosse, na verdade, assim como é simples (e emocionante) a cena do encontro dos dois. Ano: 1996.
O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA
Não sei se é impressão minha, mas este curta não envelheceu muito bem. Há muitas coisas que se veem em outros curtas brasileiros da década de 1980, como brincadeiras metalinguísticas, referências cinematográficas etc. Mas há algo de muito interessante, que é a questão humanista, anti-racista e também anti-militarista. Tudo bem que já havia chegado a redemocatização, mas ainda rolava uma censura resquício da ditadura. "Milico e merda é a mesma coisa", diz o preso Dorival, em frente aos quatro militares. As questões raciais seriam novamente trabalhadas em obras futuras de Furtado, como O HOMEM QUE COPIAVA (2003) e MEU TIO MATOU UM CARA (2004). Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart. Ano: 1986.
Na verdade, existe uma história meio suja por trás. Os produtores da Warner destruíram o final original do filme, cenas inteiras, contendo algo que seria bastante incisivo com relação ao discurso anti-bomba atômica. Nas cenas cortadas/destruídas, Cooper diz algo como "Este é o Ano I da Era Atômica, e Deus nos ajude se imaginamos que conseguiremos ficar com isto para nós e esconder do resto do mundo." Isso é possível de ver no roteiro original. Mas não é de ficar indignado? Eu teria ficado, no lugar de Lang, que aceitou embarcar no projeto justamente por causa dessa questão suprimida pela produtora.
O que ficou foi mais uma aventura de espionagem em que Cooper, um cientista americano, é escalado para uma missão na Europa durante a guerra. Como é comum nesses filmes de espionagem, algumas coisas me pareceram pouco claras. Mas tudo bem. Ele é recrutado pela OSS para entrar em contato com um médico húngaro que está na Itália trabalhando para os nazistas. Disfarçado de oficial alemão, Cooper entra no escritório do médico e descobre que ele trabalha para os nazistas e fascistas pois eles raptaram sua filha. Então, a nova missão dos heróis passa a ser trazer de volta a filha do médico para que ele possa ser também resgatado.
Na verdade, a trama parece mais complicada do que isso, mas é mais ou menos assim. No meio da jornada, o protagonista conhece uma mulher italiana de luta (Palmer), por quem se apaixona. Eu até diria que a presença de Palmer ajuda a tornar o filme muito mais interessante e envolvente. Antes, a troca de pessoas que auxiliam o protagonista estava me deixando ainda mais confuso. E, enquanto Palmer tinha aquela imagem de mulher fria, o que ajudou bastante para o papel, Cooper tinha uma imagem de homem de confiança. Ele até fez, durante a Guerra, um papel bem pacifista, SARGENTO YORK, de Howard Hawks. Mas Lang achava que ele poderia ser pouco crível no papel de um cientista, já que interpretou vários caubóis e militares anteriormente. Como homem de ação funcionou perfeitamente. E é mais isso que o filme pede, afinal.
Enquanto os demais filmes anti-nazistas de Lang realizados em Hollywood - O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM (1943) e QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944) - tinham algo de mais romântico no dever dos heróis, aqui há algo bem menos preto no branco, há uma consciência de que dentro da guerra, você está sujo também, mesmo que esteja do lado certo. É mais ou menos algo que a personagem de Lilli Palmer diz em determinado momento. Do mesmo modo, tanto os nazistas quanto os fascistas são vistos de modo menos palpável e vago do que nos filmes anteriores.
A melhor cena de ação do filme (ou melhor cena do filme): os nazistas cercando a casa do pessoal da resistência, enquanto os heróis tentam salvar o médico, descendo por um alçapão que vai dar em um poço. Mas também acho fascinante a cena de Cooper lutando com um fascista, uma luta difícil e silenciosa, lembrando uma cena que Hitchcock faria em CORTINA RASGADA, vinte anos depois. O não uso da música, fez uma diferença enorme para a construção da tensão. Mas isso já é algo que Lang já fazia com maestria desde M - O VAMPIRO DE DUSSELDÖRF (1931).
+ DOIS FILMES (CURTOS)
SOCORRO NOBRE
Curioso como fiquei mais interessado no polonês Frans Krajcberg do que na presidiária Socorro Nobre que dá título ao filme. Só hoje que fui saber que Walter Salles já havia realizado um curta sobre o artista polonês que mora em uma cidadezinha do litoral baiano. Mas é muito interessante o contraste que o diretor faz do modo como filma os dois personagens: enquanto Frans é visto em planos abertos (há uma cena linda de câmera em movimento, dele correndo pela praia), as cenas com Socorro, dentro da prisão, são claustrofóbicas, em closes, não nos deixando ver o que está ao redor da mulher, apenas seu rosto e o que ela tem para dizer, sua relação com a esperança de sair da prisão. Na época de CENTRAL DO BRASIL (1998), muito se falou deste curta, principalmente pelo fato de as cartas serem um ponto em comum. E aqui, de fato, a carta de Socorro para Frans é muito bonita e tocante. O curta é mais simples do que eu pensei que fosse, na verdade, assim como é simples (e emocionante) a cena do encontro dos dois. Ano: 1996.
O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA
Não sei se é impressão minha, mas este curta não envelheceu muito bem. Há muitas coisas que se veem em outros curtas brasileiros da década de 1980, como brincadeiras metalinguísticas, referências cinematográficas etc. Mas há algo de muito interessante, que é a questão humanista, anti-racista e também anti-militarista. Tudo bem que já havia chegado a redemocatização, mas ainda rolava uma censura resquício da ditadura. "Milico e merda é a mesma coisa", diz o preso Dorival, em frente aos quatro militares. As questões raciais seriam novamente trabalhadas em obras futuras de Furtado, como O HOMEM QUE COPIAVA (2003) e MEU TIO MATOU UM CARA (2004). Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart. Ano: 1986.
sábado, agosto 22, 2020
A VERDADE (La Vérité)
Fico curioso para ver a experiência de diretores "estrangeiros", especialmente os orientais, em países estranhos a eles. Em geral, costumo gostar do resultado. Gostei de ver Wong Kar-Wai nos Estados Unidos (UM BEIJO ROUBADO); de ver Abbas Kiarostami na França (CÓPIA FIEL) e no Japão (UM ALGUÉM APAIXONADO); de ver Asghard Farhadi na França (O PASSADO) e na Espanha (TODOS JÁ SABEM); de ver Hou Hsiao-Hsien na França (A VIAGEM DO BALÃO VERMELHO). E a gente percebe, vendo esses exemplos, o quanto a França é carinhosa com os autores, tão receptiva a obras que terão seus espaços garantidos em festivais internacionais, mas que não necessariamente terão boas bilheterias.
E mais uma vez a França se mostra interessada em um diretor estrangeiro, o japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor da Palma de Ouro com ASSUNTO DE FAMÍLIA (2018). Em Cannes, ele já havia ganhado prêmios importantes antes, com PAIS & FILHOS (2013), que ainda acho o mais bonito dele. Minha primeira experiência com Kore-eda foi com o drama espiritual DEPOIS DA VIDA (1998). De lá pra cá, ainda que perdendo alguns de seus filmes, também pude conferir parte de sua obra e ver o quanto a família lhe é tão cara como tema. Não sei se ele chega a ser comparado com Yasujiro Ozu por causa disso ou se as questões familiares são temas caros aos japoneses de modo geral.
E é tratando de família que ele traz um argumento que estava guardado há alguns anos para filmar e faz nascer A VERDADE (2019), seu primeiro filme não falado em japonês, com Juliette Binoche, Catherine Deneuve e Ethan Hawke. Ludivine Sagnier também aparece no filme, mas em um papel um tanto apagado. Em entrevista ao site Filmed in Ether, Kore-eda conta que não teria como fazer este filme no Japão, pois lá não existe uma estrela do porte de Catherine Deneuve para ser tão representativa desse poder e dessa fama.
Inclusive, o filme brinca com elementos reais da vida/obra de Deneuve, como o fato de ela ter de fato quase filmado com Alfred Hitchcock. Fiquei curioso e procurei saber: Hitchcock ficou encantado com ela em A SEREIA DO MISSISSIPI, de François Truffaut, mas, por algum motivo, o projeto não foi adiante. Até porque, na década de 1970, o mestre do suspense estava com a saúde bem frágil e realizou apenas dois filmes antes de morrer. E embora Binoche seja hoje uma estrela de um porte tão grande (ou quase) quanto Deneuve, há ainda essa relação de adoração maior a Deneuve, por ter uma filmografia mais longa, desde os anos 1960.
Mas acho que gosto mais ainda da Binoche, talvez por ter acompanhado sua carreira desde os anos 1980 e vê-la envelhecer linda e radiante ainda neste momento pós-50's. Ou seja, ela é o caso de atriz bela cujo tempo lhe foi muito gentil. Além do mais, ela tem um cuidado muito especial com os cineastas com quem trabalha. Basta bater o olho em sua filmografia para perceber isso. Nem é preciso citar exemplos. E é interessante vê-la pela primeira vez ao lado de Deneuve, talvez hoje em dia uma espécie de primeira dama do cinema francês.
Binoche é Lumir, uma mulher casada com um ator americano de segundo escalão (Ethan Hawke) e que tem uma filha pequena adorável. A bela família, a princípio sem defeitos, chega para visitar a mãe, Fabienne (Deneuve), uma estrela de cinema que já teve os seus tempos mais gloriosos, se preparando para fazer o papel de coadjuvante em um novo filme. As duas não se entendem muito bem e há traumas na relação, atritos que ressurgem no retorno ao convívio, incluindo a história de alguém que morreu e que foi muito importante para as duas.
Gosto muito da familiaridade de Hawke com aquele ambiente, por mais que ele seja o elemento estranho. Isso talvez se deva às viagens à Europa para fazer a (por enquanto) trilogia de Jesse e Celine com Richard Linklater. Então, ele passa essa imagem de pessoa que equilibra o ambiente, trazendo um pouco de tranquilidade quando o clima às vezes está tenso entre as duas mulheres. E por mais que ele guarde um problema seu, o modo carinhoso com que ele trata a filha também passa bastante ternura.
A VERDADE é um filme de sutilezas. Diria que mais sutil do que qualquer outro filme realizado no Japão (pelo menos, dentre os que vi). E provavelmente menos poderoso também. Ainda assim, é uma delícia de ver. O tempo passa rapidamente em uma trama que não se mostra nem um pouco apressada. Senti falta de algumas cenas para unirem determinados momentos, mas isso não chega a ser um grande problema.
É interessante também ver o "filme dentro do filme", uma espécie de mix de sci-fi com melodrama, em que Deneuve interpreta a filha de uma mulher que vai ao espaço e não envelhece. Assim, há cenas curiosas de uma mulher em seus 70 anos (Deneuve) chamando uma mulher jovem de mamãe. A situação um tanto surreal lembra um pouco os diálogos do pós-vida de DEPOIS DA VIDA, do Kore-eda, mas trazem também reflexões sobre o envelhecimento e a passagem rápida da vida humana, bem como a questão da ausência materna. Enquanto isso, na vida real, Fabienne e Lumir vão descobrindo coisas do passado que elas até então não sabiam.
Agradecimentos à Paula, pela companhia e pela conversa após o filme.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
GLAURA
Adoro os filmes do Guilherme de Almeida Prado, lamento o fato de ele estar "parado" e sonho em poder um dia ver a sua obra de estreia, AS TARAS DE TODOS NÓS (1981), realizada na Boca. Foi bom ver este curta com um elenco estelar e com característica de conto literário de linha mais ou menos tradicional. Júlia Lemmertz é uma mulher insatisfeita com a vida que leva, com a cantoria da vizinha, com o fato de ter que levar o sogro cadeirante para a missa aos domingos, enquanto o marido (Alexandre Borges) vai para o futebol. Mas o foco do filme é a questão da felicidade, não apenas no olhar a vida do outro (como o velho vivido por José Lewgoy diz), mas a própria vida mesmo. É talvez o mais despretensioso dos trabalhos do diretor. Ah, e a direção de fotografia é de Carlos Reichenbach! Ano: 1995.
MEU COMPADRE ZÉ KETI
Linda homenagem que Nelson Pereira dos Santos fez ao seu compadre, o grande compositor de sambas e marchinhas de carnaval Zé Keti, que já havia comparecido na trilha sonora de RIO, 40 GRAUS (1955), primeiro longa do cineasta, com "A voz do morro". Aliás, é impressionante a quantidade de clássicos de Zé Keti, que eu só fui conhecer de nome graças à Fernanda Takai, quando ela gravou "Diz que fui por aí" tão lindamente em seu álbum dedicado ao repertório de Nara Leão. As canções de Zé Keti estão tão entranhadas em nossa memória coletiva que é como se elas já existissem há séculos. E a homenagem é bonita e simples: Nelson apenas filma um grupo de amigos do compositor que cantam seus sucessos tomando cerveja, enquanto se prepara uma feijoada. Aqui a alegria supera a tristeza. Ano: 2001.
E mais uma vez a França se mostra interessada em um diretor estrangeiro, o japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor da Palma de Ouro com ASSUNTO DE FAMÍLIA (2018). Em Cannes, ele já havia ganhado prêmios importantes antes, com PAIS & FILHOS (2013), que ainda acho o mais bonito dele. Minha primeira experiência com Kore-eda foi com o drama espiritual DEPOIS DA VIDA (1998). De lá pra cá, ainda que perdendo alguns de seus filmes, também pude conferir parte de sua obra e ver o quanto a família lhe é tão cara como tema. Não sei se ele chega a ser comparado com Yasujiro Ozu por causa disso ou se as questões familiares são temas caros aos japoneses de modo geral.
E é tratando de família que ele traz um argumento que estava guardado há alguns anos para filmar e faz nascer A VERDADE (2019), seu primeiro filme não falado em japonês, com Juliette Binoche, Catherine Deneuve e Ethan Hawke. Ludivine Sagnier também aparece no filme, mas em um papel um tanto apagado. Em entrevista ao site Filmed in Ether, Kore-eda conta que não teria como fazer este filme no Japão, pois lá não existe uma estrela do porte de Catherine Deneuve para ser tão representativa desse poder e dessa fama.
Inclusive, o filme brinca com elementos reais da vida/obra de Deneuve, como o fato de ela ter de fato quase filmado com Alfred Hitchcock. Fiquei curioso e procurei saber: Hitchcock ficou encantado com ela em A SEREIA DO MISSISSIPI, de François Truffaut, mas, por algum motivo, o projeto não foi adiante. Até porque, na década de 1970, o mestre do suspense estava com a saúde bem frágil e realizou apenas dois filmes antes de morrer. E embora Binoche seja hoje uma estrela de um porte tão grande (ou quase) quanto Deneuve, há ainda essa relação de adoração maior a Deneuve, por ter uma filmografia mais longa, desde os anos 1960.
Mas acho que gosto mais ainda da Binoche, talvez por ter acompanhado sua carreira desde os anos 1980 e vê-la envelhecer linda e radiante ainda neste momento pós-50's. Ou seja, ela é o caso de atriz bela cujo tempo lhe foi muito gentil. Além do mais, ela tem um cuidado muito especial com os cineastas com quem trabalha. Basta bater o olho em sua filmografia para perceber isso. Nem é preciso citar exemplos. E é interessante vê-la pela primeira vez ao lado de Deneuve, talvez hoje em dia uma espécie de primeira dama do cinema francês.
Binoche é Lumir, uma mulher casada com um ator americano de segundo escalão (Ethan Hawke) e que tem uma filha pequena adorável. A bela família, a princípio sem defeitos, chega para visitar a mãe, Fabienne (Deneuve), uma estrela de cinema que já teve os seus tempos mais gloriosos, se preparando para fazer o papel de coadjuvante em um novo filme. As duas não se entendem muito bem e há traumas na relação, atritos que ressurgem no retorno ao convívio, incluindo a história de alguém que morreu e que foi muito importante para as duas.
Gosto muito da familiaridade de Hawke com aquele ambiente, por mais que ele seja o elemento estranho. Isso talvez se deva às viagens à Europa para fazer a (por enquanto) trilogia de Jesse e Celine com Richard Linklater. Então, ele passa essa imagem de pessoa que equilibra o ambiente, trazendo um pouco de tranquilidade quando o clima às vezes está tenso entre as duas mulheres. E por mais que ele guarde um problema seu, o modo carinhoso com que ele trata a filha também passa bastante ternura.
A VERDADE é um filme de sutilezas. Diria que mais sutil do que qualquer outro filme realizado no Japão (pelo menos, dentre os que vi). E provavelmente menos poderoso também. Ainda assim, é uma delícia de ver. O tempo passa rapidamente em uma trama que não se mostra nem um pouco apressada. Senti falta de algumas cenas para unirem determinados momentos, mas isso não chega a ser um grande problema.
É interessante também ver o "filme dentro do filme", uma espécie de mix de sci-fi com melodrama, em que Deneuve interpreta a filha de uma mulher que vai ao espaço e não envelhece. Assim, há cenas curiosas de uma mulher em seus 70 anos (Deneuve) chamando uma mulher jovem de mamãe. A situação um tanto surreal lembra um pouco os diálogos do pós-vida de DEPOIS DA VIDA, do Kore-eda, mas trazem também reflexões sobre o envelhecimento e a passagem rápida da vida humana, bem como a questão da ausência materna. Enquanto isso, na vida real, Fabienne e Lumir vão descobrindo coisas do passado que elas até então não sabiam.
Agradecimentos à Paula, pela companhia e pela conversa após o filme.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
GLAURA
Adoro os filmes do Guilherme de Almeida Prado, lamento o fato de ele estar "parado" e sonho em poder um dia ver a sua obra de estreia, AS TARAS DE TODOS NÓS (1981), realizada na Boca. Foi bom ver este curta com um elenco estelar e com característica de conto literário de linha mais ou menos tradicional. Júlia Lemmertz é uma mulher insatisfeita com a vida que leva, com a cantoria da vizinha, com o fato de ter que levar o sogro cadeirante para a missa aos domingos, enquanto o marido (Alexandre Borges) vai para o futebol. Mas o foco do filme é a questão da felicidade, não apenas no olhar a vida do outro (como o velho vivido por José Lewgoy diz), mas a própria vida mesmo. É talvez o mais despretensioso dos trabalhos do diretor. Ah, e a direção de fotografia é de Carlos Reichenbach! Ano: 1995.
MEU COMPADRE ZÉ KETI
Linda homenagem que Nelson Pereira dos Santos fez ao seu compadre, o grande compositor de sambas e marchinhas de carnaval Zé Keti, que já havia comparecido na trilha sonora de RIO, 40 GRAUS (1955), primeiro longa do cineasta, com "A voz do morro". Aliás, é impressionante a quantidade de clássicos de Zé Keti, que eu só fui conhecer de nome graças à Fernanda Takai, quando ela gravou "Diz que fui por aí" tão lindamente em seu álbum dedicado ao repertório de Nara Leão. As canções de Zé Keti estão tão entranhadas em nossa memória coletiva que é como se elas já existissem há séculos. E a homenagem é bonita e simples: Nelson apenas filma um grupo de amigos do compositor que cantam seus sucessos tomando cerveja, enquanto se prepara uma feijoada. Aqui a alegria supera a tristeza. Ano: 2001.
sexta-feira, agosto 21, 2020
AS 6 MULHERES DE ADÃO
O nosso cinema já foi muito sexualizado. Tanto que chegou a incomodar muita gente. Muita gente hipócrita, eu diria. Mas também era um cinema que oferecia muita munição para aqueles que só diziam que o cinema brasileiro só tinha palavrão e mulher pelada. Embora não fosse só isso mesmo, o cinema produzido na Boca do Lixo tinha essa necessidade de ser apelativo, pois tinha que se auto-sustentar. Foi, aliás, um momento em que o nosso cinema conseguiu de fato ser uma indústria gloriosamente bem-sucedida. Claro que alguns diretores que queriam se expressar de maneira diferente acabavam tendo que jogar o jogo, mas isso fazia parte daquele momento.
Estava dando uma olhada no site da Ancine, na lista dos filmes mais vistos no cinema dos ano de 1980 e 1981, e é impressionante como praticamente só tinham filmes eróticos. O sexo explícito, inclusive, estava chegando ao nosso cinema. E David Cardoso, Ody Fraga e cia. tentaram aproveitar um pouco o momento, naqueles primeiros anos da década, ainda que ainda usando o sexo simulado. AS 6 MULHERES DE ADÃO (1981) tem pelo menos uma cena de sexo explícito logo no início: com o próprio diretor/produtor/protagonista recebendo um blow job de uma moça enquanto atende uma ligação. Ou seja, muito antes de Vincent Gallo fazer polêmica com BROWN BUNNY e aquela famosa cena de felação, David Cardoso saiu na frente.
Os filmes com David Cardoso tinham essa característica de usar muito sua imagem de galã bonito e homem musculoso para talvez ajudar a atrair também públicos interessados no corpo masculino. Também parecia haver algo de bastante narcisista ali. Ao mesmo tempo, Cardoso adorava brincar com sua fama nos filmes. Ele estaria em uma brincadeira semelhante em um segmento de A NOITE DAS TARAS Nº 2 (1982), interpretando a si mesmo e sendo assaltado por uma trupe de mulheres fãs.
Ter Ody Fraga como roteirista ajuda bastante a tornar os filmes de David Cardoso melhores, com uma voltagem erótica muito boa e ideias boas, mesmo com um enredo simples. AS 6 MULHERES DE ADÃO tem um fiapo de trama que se sustenta principalmente com as boas cenas de sexo. Cenas curtinhas, mas eficientes, em sua maioria. Na trama, um grupo de mulheres que já passaram pelas mãos do personagem de Cardoso se junta para uma festa-surpresa para o homem objeto do desejo delas, mas também objeto da ira. E é lá nessa casa (é a casa de Ronnie Von, soube hoje), elas ficam nuas, tomando banho de sol na piscina - isso era regra da dona da casa, mas certamente o único motivo de isso fazer sentido é mostrá-las todas nuas na piscina para nós, espectadores.
É lá que elas relembram suas experiências eróticas com o protagonista. E é através desses flashbacks que vamos conhecendo algumas dessas histórias. Gosto muito da cena do carro com Ely Cardoso (é uma das mais sexualmente intensas). E gosto também da cena em que Luiz Carlos Braga leva o nosso garanhão para transar com a própria esposa enquanto ele assiste - uma variação de algo que o próprio ator faria em MULHER TENTAÇÃO, de Ody Fraga, que também traz a bela Sandra Graffi. Creio que Sandra é a mulher mais famosa do elenco.
Quanto à tal surpresa, não é das melhores que elas preparam para o personagem. Na verdade, é um pesadelo para qualquer homem. É saindo dos flashbacks e trazendo Adão/Cardoso para a casa com todas as mulheres que a narrativa toma um novo rumo. Não necessariamente para melhor, mas faz parte da diversão despretensiosa de um filme que quer apenas divertir e animar. Imagino que muitas pessoas que saíram do cinema reclamando de problemas no filme no fundo se divertiram bastante.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
NELSON CAVAQUINHO
Os filmes do Leon Hirszman, inclusive seus curtas, estão entre os raros que tiveram a sorte de ser remasterizados e reaparecer como novos. É o caso deste aqui, que valoriza a fotografia linda em preto e branco de Mário Carneiro. Tenho bem pouca aproximação com a música de Nelson Cavaquinho, mas do pouco que ouvi gostei. Gosto do tom triste e sombrio de canções como "Luz negra" e "A flor e o espinho". Neste curta, nem o diretor nem o cantor/compositor tentam disfarçar a pobreza do ambiente. Sua casa é um entra-e-sai de gente, com menino bebendo cerveja na boca da garrafa, galinhas no chão, um colchão sujo no chão no quarto, posteriormente visitado pela câmera ao final. E há as músicas de Nelson, as palavras um tanto tristes dele, o semblante envelhecido para quem tinha apenas 58 anos. Ele conta rapidamente de quando tinha 8 anos e viu caminhões carregando cadáveres. Provavelmente por causa da gripe espanhola, algo que ganha outro sentido nesses tempos de pandemia. Ano: 1969.
MARANHÃO 66
O que eu achei mais incrível neste curta foi a coragem de Glauber Rocha de fazer um trabalho totalmente distinto do que seria uma peça de propaganda. Ao contrário, colocar imagens de José Sarney discursando em sua posse no governo do Maranhão para uma multidão e incluir imagens de extrema pobreza do povo nas favelas, doentes e com esgoto a céu aberto não seria nada interessante para o político que inauguraria ali um novo reinado de populismo no estado. Tanto que resolveram engavetar o curta. Ainda bem que ele sobreviveu e serviu como uma espécie de ensaio para TERRA EM TRANSE (1967), que Glauber faria no ano seguinte. E dói um bocado ver este filme nos dias de hoje. Não por termos vivido os difíceis anos de Sarney como presidente, mas com o presente mesmo. Ano: 1966.
P.S: Hoje o crítico Raphael Camacho postou em seu blog (Guia do Cinéfilo), que atualmente está trazendo entrevistas com cinéfilos, uma entrevista minha. Quem quiser ler, só clicar AQUI.
Estava dando uma olhada no site da Ancine, na lista dos filmes mais vistos no cinema dos ano de 1980 e 1981, e é impressionante como praticamente só tinham filmes eróticos. O sexo explícito, inclusive, estava chegando ao nosso cinema. E David Cardoso, Ody Fraga e cia. tentaram aproveitar um pouco o momento, naqueles primeiros anos da década, ainda que ainda usando o sexo simulado. AS 6 MULHERES DE ADÃO (1981) tem pelo menos uma cena de sexo explícito logo no início: com o próprio diretor/produtor/protagonista recebendo um blow job de uma moça enquanto atende uma ligação. Ou seja, muito antes de Vincent Gallo fazer polêmica com BROWN BUNNY e aquela famosa cena de felação, David Cardoso saiu na frente.
Os filmes com David Cardoso tinham essa característica de usar muito sua imagem de galã bonito e homem musculoso para talvez ajudar a atrair também públicos interessados no corpo masculino. Também parecia haver algo de bastante narcisista ali. Ao mesmo tempo, Cardoso adorava brincar com sua fama nos filmes. Ele estaria em uma brincadeira semelhante em um segmento de A NOITE DAS TARAS Nº 2 (1982), interpretando a si mesmo e sendo assaltado por uma trupe de mulheres fãs.
Ter Ody Fraga como roteirista ajuda bastante a tornar os filmes de David Cardoso melhores, com uma voltagem erótica muito boa e ideias boas, mesmo com um enredo simples. AS 6 MULHERES DE ADÃO tem um fiapo de trama que se sustenta principalmente com as boas cenas de sexo. Cenas curtinhas, mas eficientes, em sua maioria. Na trama, um grupo de mulheres que já passaram pelas mãos do personagem de Cardoso se junta para uma festa-surpresa para o homem objeto do desejo delas, mas também objeto da ira. E é lá nessa casa (é a casa de Ronnie Von, soube hoje), elas ficam nuas, tomando banho de sol na piscina - isso era regra da dona da casa, mas certamente o único motivo de isso fazer sentido é mostrá-las todas nuas na piscina para nós, espectadores.
É lá que elas relembram suas experiências eróticas com o protagonista. E é através desses flashbacks que vamos conhecendo algumas dessas histórias. Gosto muito da cena do carro com Ely Cardoso (é uma das mais sexualmente intensas). E gosto também da cena em que Luiz Carlos Braga leva o nosso garanhão para transar com a própria esposa enquanto ele assiste - uma variação de algo que o próprio ator faria em MULHER TENTAÇÃO, de Ody Fraga, que também traz a bela Sandra Graffi. Creio que Sandra é a mulher mais famosa do elenco.
Quanto à tal surpresa, não é das melhores que elas preparam para o personagem. Na verdade, é um pesadelo para qualquer homem. É saindo dos flashbacks e trazendo Adão/Cardoso para a casa com todas as mulheres que a narrativa toma um novo rumo. Não necessariamente para melhor, mas faz parte da diversão despretensiosa de um filme que quer apenas divertir e animar. Imagino que muitas pessoas que saíram do cinema reclamando de problemas no filme no fundo se divertiram bastante.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
NELSON CAVAQUINHO
Os filmes do Leon Hirszman, inclusive seus curtas, estão entre os raros que tiveram a sorte de ser remasterizados e reaparecer como novos. É o caso deste aqui, que valoriza a fotografia linda em preto e branco de Mário Carneiro. Tenho bem pouca aproximação com a música de Nelson Cavaquinho, mas do pouco que ouvi gostei. Gosto do tom triste e sombrio de canções como "Luz negra" e "A flor e o espinho". Neste curta, nem o diretor nem o cantor/compositor tentam disfarçar a pobreza do ambiente. Sua casa é um entra-e-sai de gente, com menino bebendo cerveja na boca da garrafa, galinhas no chão, um colchão sujo no chão no quarto, posteriormente visitado pela câmera ao final. E há as músicas de Nelson, as palavras um tanto tristes dele, o semblante envelhecido para quem tinha apenas 58 anos. Ele conta rapidamente de quando tinha 8 anos e viu caminhões carregando cadáveres. Provavelmente por causa da gripe espanhola, algo que ganha outro sentido nesses tempos de pandemia. Ano: 1969.
MARANHÃO 66
O que eu achei mais incrível neste curta foi a coragem de Glauber Rocha de fazer um trabalho totalmente distinto do que seria uma peça de propaganda. Ao contrário, colocar imagens de José Sarney discursando em sua posse no governo do Maranhão para uma multidão e incluir imagens de extrema pobreza do povo nas favelas, doentes e com esgoto a céu aberto não seria nada interessante para o político que inauguraria ali um novo reinado de populismo no estado. Tanto que resolveram engavetar o curta. Ainda bem que ele sobreviveu e serviu como uma espécie de ensaio para TERRA EM TRANSE (1967), que Glauber faria no ano seguinte. E dói um bocado ver este filme nos dias de hoje. Não por termos vivido os difíceis anos de Sarney como presidente, mas com o presente mesmo. Ano: 1966.
P.S: Hoje o crítico Raphael Camacho postou em seu blog (Guia do Cinéfilo), que atualmente está trazendo entrevistas com cinéfilos, uma entrevista minha. Quem quiser ler, só clicar AQUI.
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