terça-feira, outubro 20, 2020

MISS MARX



Um filme que conta a história de Eleanor Marx, a filha de Karl Marx, já é suficientemente atraente, tanto para quem a conhece quanto para quem não sabe de sua história de vida, de sua luta. A escolha por um som punk rock para os créditos iniciais de MISS MARX (2020) me causou bastante simpatia. É algo parecido com o que Sofia Coppola fez em seu MARIA ANTONIETA. Ou seja, dá ao filme um quê de estranheza temporal, aproximando-o do nosso momento presente. Até porque a personagem é alguém muito à frente de seu tempo.

Como a própria diretora Susanna Nicchiarelli destacou em entrevista à Variety, Eleanor Marx não casou formalmente, decidiu não ter filhos e era muito dedicada à carreira política. Para aquela época, fim do século XIX, tudo isso era muito avançado, a sociedade inglesa não aceitava com tanta naturalidade. E falando em naturalidade, o que Nicchiarelli faz com sua direção, seu roteiro e seu elenco é admirável. Não há um engessamento nas falas, mesmo quando elas são transcritas diretamente de documentos históricos.

Quanto à narrativa adotada, me pareceu bem mais clássica do que à de seu longa anterior, NICO, 1988 (2017), outro filme da diretora que também traz um recorte da vida de uma pessoa real. Nicchiarelli, inclusive, achou tão fascinante fazer esse tipo de trabalho que disse que nem chega a pensar em trabalhar em outro projeto que também não seja uma biopic. O estimulante da experiência, segundo ela, é ter a liberdade de criar dentro de uma imposição histórica, já que não se pode mentir sobre a vida dessas pessoas reais.

Podemos destacar como um dos pontos altos do filme a interpretação de Ramola Garai. A atriz é a protagonista de ANGEL, de François Ozon, e foi indicada duas vezes ao Globo de Ouro por duas diferentes minisséries britânicas, EMMA e THE HOUR. Expressiva, Garai confere à protagonista o equilíbrio entre a força e a fraqueza, a dualidade em pregar os direitos das mulheres diante de multidões e ser mal tratada pelo marido, o dramaturgo e ativista Edward Aveling (Patrick Kennedy), um personagem curioso pelo modo como leva a vida, quase que sem ânimo de viver. Isso combina com os problemas de saúde que surgem mais adiante na narrativa.

Outro grande destaque de MISS MARX é o desenho de produção, que é de dar gosto, a cargo de Igor Gabriel (colaborador frequente dos irmãos Dardenne) e Alessandro Vanucci (que já havia trabalhado com a diretora em seus outros dois longas). Bem junto ao desenho de produção, a fotografia que destaca os tons bem vivos e coloridos é de Crystel Fournier, colaboradora tanto de Nicchiarelli quanto de outra cineasta importante, a francesa Céline Sciamma.

Talvez tenha faltado mais emoção ao abordar as paixões de Eleanor, tanto pelo companheiro quanto por seus ideais herdados do pai e trazidos para o feminismo, mas ainda assim é um filme bem digno e bonito e que tem tudo para ser sensação no circuito de filmes independentes quando acabar a Mostra de Cinema de São Paulo.

segunda-feira, outubro 19, 2020

LUA VERMELHA (Lúa Vermella)



Sucessão de imagens extraordinárias do mar e da lua. Lençóis cobrindo corpos formando imagens clássicas de fantasmas. A procura do corpo de um homem. Três bruxas no auxílio. O ganido muito estranho de um bode. Mortos e vivos convivendo em um estendido e parado tempo, em um luto que parece não ter fim. LUA VERMELHA (2020), de Lois Patiño, é cinema-poesia. É o tipo de filme que tem uma beleza plástica tão grande e um rigor formal tão admirável que lamentamos não estarmos vendo na telona de um cinema. Mas ao mesmo tempo nos sentimos gratos pela possibilidade de contemplar essas imagens e ouvir essas vozes.

Inclusive, há cenas interiores em que a iluminação também é igualmente impressionante. A história é um pouco difícil de compreender, mas trata-se de um filme mais para se sentir do que para entender. Não há interpretações no que estamos acostumados a entender pelo termo. Há imagens e vozes. Imagens que remetem à morte, vozes que trazem ao mesmo tempo paz e horror. As imagens dos fantasmas nos cenários da natureza também contribuem com o resultado. É o caso de filme que utiliza a singularidade das locações para construir sua trama, a partir da mitologia que o lugar dispõe.

E falando em locações, Patiño já havia feito um filme antes no mesmo lugar, Costa da Morte, no Nordeste da Galícia. Este novo trabalho é um retorno ao misterioso e fascinante local, a fim de, desta vez, contar a história de um mergulhador cujo corpo está desaparecido. O curioso é que a história desse homem surgiu apenas quando o cineasta estava no local, duas semanas antes de começar as filmagens, e assim transformou o que seria algo mais próximo de um documentário em um filme de ficção, envolvendo bruxas, monstros do mar e misticismo.

Como um cineasta que veio dos documentários, ainda que não seja do tipo naturalista, Patiño consegue aqui aliar o acaso dos processos que geralmente ocorrem nos registros documentais com um tipo de direção que parece ter em mente desde o início o que se deseja filmar. O resultado, com o áudio de diferentes pessoas agindo como mortos-vivos ou algo parecido, traz um ar de mistério e de beleza admiráveis. E há o trabalho de som, tanto o som da natureza quanto da música, que certamente em uma sala de cinema apropriada traria uma experiência ainda mais singular.

sábado, outubro 17, 2020

A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (The Haunting of Bly Manon)



Em tempos de resistência a séries de minha parte, só mesmo Mike Flanagan para fazer eu me empolgar com uma delas com todo carinho e entusiasmo, mesmo já esperando ser um trabalho inferior ao maravilhoso A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018), que é algo próximo de uma obra-prima e tem todos os episódios dirigidos por seu criador. Aqui Flanagan terceirizou: dirigiu apenas o primeiro, "The Great Good Place". Ainda assim ele conseguiu imprimir sua marca na série como um todo. A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (2020) guarda várias similaridades com a minissérie anterior, utilizando novamente o método de ir aprofundando e apresentando melhor os personagens a cada episódio.

No caso, temos personagens vivos e também há os vários mortos. Esses é que trazem as histórias mais fascinantes e angustiantes, como a mostrada no episódio 7, o meu favorito. Essa ampliação do universo da novela de terror A Volta do Parafuso, de Henry James, fez eu me interessar mais ainda pela obra literária e pelas outras versões cinematográficas (falta eu ver ATRAVÉS DA SOMBRA, de Walter Lima Jr., e OS ÓRFÃOS, de Floria Sigismondi). E sim, eu sei que o texto original serve apenas de base para a construção de um roteiro que usa muitas liberdades para contar sua própria história de amor e morte.

Aliás, uma coisa que me encantou bastante neste MANSÃO BLY foi o caráter essencialmente romântico da história. Mas por romântico, eu me refiro ao romantismo "raiz", aquele que envolve dor, morte, sofrimento, assombração. No já referido sétimo episódio, "The Two Faces, Part Two", ficamos sabendo dos planos terríveis de Peter Quinn (Oliver Jackson-Cohen) para conseguir se livrar do purgatório em que vive desde que foi assassinado pelo misterioso espírito de uma mulher que já assombrava a casa há vários anos.

Aliás, é no episódio 8, "The Romance of Certain Old Clothes", quase todo filmado em preto e branco, que saberemos toda a história dessa mulher do século XVII (vivida por Kate Siegel, esposa de Flanagan). E a história é tão fascinante que teria força muito bem para ser um longa-metragem independente. No entanto, como parte do conjunto da obra se torna ainda mais poderosa, pois mais uma vez nos mostra a morte como algo extremamente perturbador. Ou seja, o temor maior aqui não é de morrer, mas é ter essa consciência da morte. Isso já havia sido mostrado nos episódios que revelam a morte de Peter e de Rebecca (Tahira Shariff), a governanta anterior da mansão.

A história, assim como a trama clássica de OS INOCENTES, de Jack Clayton, se inicia com a nova governanta, Dani Clayton (Victoria Pedretti), conseguindo o emprego a partir de uma entrevista com Henry Wingrave (Henry Thomas). O maltratado homem é o atual responsável pela mansão e pelas crianças, depois que os pais dos meninos faleceram. As crianças, aliás, são responsáveis por muito da força da minissérie. Tanto a doce Flora (Amelie Bea Smith) quanto o às vezes assustador Miles (Benjamin Evan Ainsworth). Essas crianças sabem de coisas que a jovem governanta jamais imaginaria. Ela, por sua vez, também já é assombrada por um fantasma pessoal.

No mais, antes que eu me esqueça, há mais três personagens muito importantes na linha do tempo do presente da série, mas preciso destacar Hannah Grose (T'Nia Miller), uma mulher que cuida com muito carinho da casa, mas que possui uma habilidade de locomoção temporal muito interessante. Essa brincadeira com as idas e vindas no tempo já era algo muito bem trabalhado em RESIDÊNCIA HILL e é novamente explorado com brilhantismo em MANSÃO BLY.

Aguardando agora o próximo projeto de Flanagan, outra série para a Netflix, em fase de gravações, chamada MIDNIGHT MASS. Por enquanto ainda não há uma data de lançamento, mas tudo leva a crer que será ainda mais especial do que esta, já que nela todos os episódios são dirigidos por Flanagan. E isso é um ótimo sinal.

sexta-feira, outubro 16, 2020

METRÓPOLIS (Metropolis)



Ando bastante cansado ultimamente. Nesta semana principalmente. Os textos que escrevi sobre os filmes da Mostra vistos em cabine foram escritos com uma dificuldade imensa por causa do cansaço mental. Não sei o quanto isso se apresenta claro nas linhas. De todo modo, não deixa de ser uma alegria poder estar iniciando uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda que de forma remota, ainda que não nas melhores condições.

De todo modo, como eu estava me habituando a ver mais ou menos um Fritz Lang a cada dois dias, essa nova rotina atrapalhou um pouco minha peregrinação pela obra do cineasta austríaco. E até já faz alguns dias que vi METRÓPOLIS (1927), que é um filme que, confesso, não está entre os meus clássicos mais queridos. Nesta segunda vez, consegui gostar mais um pouco, principalmente porque a nova cópia remasterizada e com duração ampliada está de dar gosto, mas também porque passei a conhecer melhor a poética do cineasta.

Por outro lado, continuam me incomodando algumas coisas no filme, como o seu final, por exemplo. Para minha surpresa, o próprio diretor também acha o final ruim. Ele disse que na época não tinha a mesma consciência política que foi adquirindo aos poucos. Achei curioso, pois é um final que parece agradar mais a empresários. Não à toa, Adolf Hitler adorou e quis trazer Lang para ser o seu cineasta-nazi mestre. No tal final, há uma confraternização entre o capital e o trabalho.

Na trama, a jovem Maria é uma espécie de mediadora e pacificadora para os trabalhadores escravizados, os que ficam no subsolo. Ela acredita em uma visão um tanto religiosa de uma figura que virá para os salvar ou encontrar o caminho. Há um irritante subtexto de aceitação que essa Maria boa traz. Tanto que quando a Maria má surge e fala para os trabalhadores quebrarem tudo, até achei que eles estavam fazendo o certo sim. Talvez fazer um épico de rebeldia contra o sistema fosse demais até para Lang, que dirá para os nazistas que já estavam a postos àquela altura na Alemanha.

Porém, não há como negar a influência de METRÓPOLIS principalmente nos filmes de ficção científica, como GUERRA NAS ESTRELAS, de George Lucas; BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES, de Ridley Scott; BATMAN, de Tim Burton; o videoclipe de Madonna "Express yourself", dirigido por David Fincher, e até na criação de um certo super-herói que mora em uma cidade chamada Metrópolis. Ou seja, o que há de mais valoroso no filme não são as ideias políticas da roteirista Thea von Harbou, mas a genialidade de Lang na inovação visual, algo já bastante presente em obras anteriores, mas aqui mostrado explícito devido à produção muito mais cara. E acabou por render prejuízos financeiros.

Fracasso comercial, o filme levou quinze meses para ser rodado, empregou 36.000 extras e 200.000 figurinos, Lang passou oito dias filmando dez segundos de stop-motion da visão da cidade, foi o filme mais caro da UFA na era do cinema mudo. A rejeição do público fez com que os produtores cortassem o filme bastante e muito se perdeu. Encontraram uma versão integral na Argentina em 2008.

Outra coisa que me incomoda no filme são os personagens, fracos, unidimensionais. O mais interessante é o quanto se pode tirar deles do ponto de vista visual, como o aspecto vilanesco languiano do inventor maluco vivido por Rudolf Klein-Rogge, ou a exagerada performance de Brigitte Helm, especialmente quando ela aparece como o duplo malvado. Certamente, ela é, de longe, a melhor intérprete do filme. O que é aquela cena dela sendo queimada na fogueira, hein?! Outras estranhezas visuais fazem parte do charme do filme: o cientista louco com mão de ferro ou os trabalhadores que se arrastam em direção às mandíbulas de uma máquina que é também o antigo deus Moloch.

A excelente direção de fotografia é de Karl Freund, que havia trabalhado com Lang em AS ARANHAS (1919-1920). Ele, assim como Lang, passaria a morar nos Estados Unidos. Chegou a dirigir alguns filmes lá também, entre eles A MÚMIA (1932), para a Universal.

quinta-feira, outubro 15, 2020

O PROBLEMA DE NASCER (The Trouble of Being Born)



Fazer filmes com conteúdos sexuais e que envolvam crianças hoje é mexer num vespeiro. E foi o que aconteceu com a cineasta Sandra Wollner, que fez um filme sobre a relação de um homem com uma androide-criança. Embora seja um filme que coloque as questões de maneira muitas vezes implícita, elas acabam por se tornarem o centro das atenções, embora não sejam as únicas questões abordadas. Afinal, o filme é muito mais sobre a crise existencial dessa garota-androide e também sobre a confusão de sentimentos que ela acumula ao longo de seus anos de existência.

O PROBLEMA DE NASCER (2020), exibido e premiado em Berlim, na nova seção Encounters, é o segundo longa-metragem de Wollner, que havia tratado da construção do ego em seu primeiro longa, THE IMPOSSIBLE PICTURE (2016), e que agora trata de algo mais como o desaparecimento, a dissolução do ego neste novo filme. Essa distinção ela mesma fez em entrevista dada à revista Film Comment de março deste ano.

Na entrevista ela destaca uma diferença básica entre seu filme e outro a que costumam compará-lo: A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, de Steven Spielberg. O filme de Sbielberg baseado em ideia de Stanley Kubrick seria mais inspirado na história de Pinóquio, na vontade de um garoto criado artificialmente de se tornar alguém de carne e osso. No filme de Wollner, temos algo de certa forma ainda mais perturbador: a menina-androide queria apenas poder continuar fazendo a vontade de seu dono, continuar sendo seu objeto.

Como o filme trata dessa questão da objetificação, ainda que seja de uma criatura com inteligência artificial, mas com similaridades com humanos, ainda mais com uma garotinha, a questão do quanto o ser humano é capaz de trazer seus sentimentos mais sombrios para esses "brinquedos" vai se destacando. E a androide aos poucos vai demonstrando ter um tipo de consciência próxima da humana. Essa consciência, ou semi-consciência, se torna ainda mais próxima do espectador, pois é a própria robô que conta sua história, ainda que de maneira confusa e fragmentada. Como é fragmentada a própria narrativa.

Uma coisa que o filme destaca também é a sua fotografia com pouca iluminação, mesmo em cenas que se passam ao sol, na piscina. A sensação de meia luz acaba se tornando uma característica do filme e algo que combina com sua estranheza, com seu aspecto por vezes abstrato, especialmente quando Ellie, a androide, passa a conviver com uma senhora idosa e tem sua identidade mudada para a de um menino. Ellie, a jovem protagonista, passa a ser destituída de sua identidade anterior, mas as memórias, ainda que confusas, persistem, assim como a falta que ela sente do "pai". Nesse sentido, a voice-over no filme tem um papel muito feliz e importante.

Como se trata de um filme claramente de baixo orçamento, o aspecto de ficção científica passa a ser menos importante do que o aspecto dramático, da questão da identidade de Ellie, de suas angústias. Para dar um senso de estranheza à personagem, a diretora usou uma máscara de silicone na jovem atriz, que teve sua identidade preservada. Além do mais, a diretora fez questão de dizer que as cenas que mostram a garota nua não são dela mesma, mas de imagens geradas por computador. 

terça-feira, outubro 13, 2020

COZINHAR F*DER MATAR (Cook F**k Kill / Záby Bez Jazyka)



De início, demorei a me acostumar com o filme, até porque os primeiros dois capítulos deste COZINHAR F*DER MATAR (2019) são bastante apressados. E essa pressa passa a impressão de má realização. Essa impressão pode mudar a partir do terceiro capítulo, mais longo, mais lento e mais elaborado, inclusive com uma cena em tons teatrais e câmera estática (a cena do almoço). Cada capítulo apresenta diferentes versões da história errática de um homem com problemas familiares. E todos os capítulos tratam de violência doméstica de maneira, naturalmente, desconfortável. Aos poucos a tragédia e o pessimismo vão tornando o humor (negro) um pouco mais apagado e o filme vai adotando um tom mais sério.

Como a narrativa desta produção checa (e eslovaca) se inicia com um coro grego de mulheres do vilarejo em traje de banho, já se pode imaginar que não faltarão tragédias. Mas depois o filme chega com um tom de comédia, embora dificilmente vá arrancar risadas da plateia. Até porque, logo nos primeiros momentos, o protagonista quer convencer a mãe a passar o apartamento dela para ele (ao que parece, a esposa estaria chantageando o sujeito) e ainda a faz comer uma colher de pasta de amendoim, sendo que ela é alérgica. O resto do capítulo é ainda mais violento, tenso e incômodo, ainda que seja um tipo de violência diferente da vista em filmes de horror e afins. 

COZINHAR F*DER MATAR vai conquistando o interesse (por assim dizer) a partir dos terceiro e quarto capítulos, quando mais informações sobre os personagens nos são fornecidas. Assim, ficamos conhecendo o pai rico do protagonista Jaroslav (Jaroslav Plesl) e um pouco mais sobre a mãe de Blanka (Jazmína Cigánková), sua esposa. O filme vai apostando em situações que podem funcionar como um atrativo para a audiência, como a cena de sexo de Jaroslav com a própria sogra ou as tensões criadas em um supermercado. O choque também surge em uma cena envolvendo uma garotinha e uma rã. Ver também criança com arma na mão é outra coisa que incomoda.

O último capítulo traz uma realidade em que o protagonista é agora uma mulher. E imagina-se que com essa mudança de sexo se poderia mudar um pouco os padrões de comportamento danosos, as falhas de opção e as tendências à violência que surgem de todos os lados. Será?

O filme vem sendo comparado a CORRA, LOLA, CORRA, por razões óbvias, embora possa se pensar em FEITIÇO DO TEMPO também, embora aqui não haja consciência das múltiplas realidades e possibilidades por parte de nenhum dos personagens. E não há leveza. Não que essa fosse intenção da cineasta eslovaca.

segunda-feira, outubro 12, 2020

SUOR (Sweat)



É curioso ver um filme polonês contemporâneo e sentir uma diferença imensa em como se apresenta a sociedade de um país no intervalo de poucas décadas. Aqui vemos um cenário colorido e vibrante, muito distante, por exemplo, da Polônia cinza dos filmes de Kieslowski. O que não quer dizer que tudo seja exatamente feliz quanto se imagina a princípio. Em SUOR (2020), de Magnus von Horn, somos apresentados a uma jovem treinadora de ginástica famosa em seu país e bastante presente nas mídias sociais. Toda essa superficialidade dos dias de Instagram está lá, mas logo somos apresentados ao lado triste da personagem, Sylwia, às camadas por trás da fama, da beleza plástica e da rotina invejada por muitos.

SUOR foi um dos vários filmes selecionados para Cannes 2020, mas que, infelizmente, por causa da pandemia, tiveram que procurar outros meios de serem vistos. Com o selo de aprovação de Cannes (que tem um significado bastante importante), o filme chega agora à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, depois de exibições também na modalidade online em festivais na França, na Alemanha, na Suíça, na Islândia, no Canadá e nos Estados Unidos. O lado positivo desse meio de visualização é que aumenta consideravelmente as chances desses filmes serem vistos por muito mais espectadores.

SUOR é o segundo longa-metragem do sueco von Horn, mas quem brilha mesmo é a atriz, Magdalena Kolesnik, em seu primeiro papel como protagonista. A câmera não tira os olhos dela. Somos convidados a participar de sua intimidade, inclusive quando ela não precisa fingir o sorriso que normalmente usa diante das câmeras. E boa parte das vezes é ela mesma que se filma, fazendo seu shake, desembrulhando uma caixa que chegou com produtos de patrocinadores, ou mesmo desabafando sobre suas angústias. Um vídeo que a mostra chorando e triste por estar sozinha é objeto de repercussão nacional e um de seus patrocinadores chega a reclamar.

Há um momento que é o ponto de virada do filme, que é quando ela descobre um stalker estacionado perto de seu prédio. Incomodada com a situação, até porque o sujeito não é nada discreto na demonstração de sua admiração pela moça, ela conta o ocorrido em uma reunião de família e fica contrariada com a opinião da mãe sobre o sujeito - ele poderia ser uma pessoa boa, ela diz. Mais à frente, uma nova situação fará com que ela novamente reflita sobre a vida fora dos corpos bem definidos das academias e dos holofotes das redes sociais. E por mais que epílogo tenha me parecido frágil, não chega a comprometer o resultado e esse belo estudo de personagem.