domingo, junho 25, 2023

OS CINCO DIABOS (Les Cinq Diables)



Tenho impressão que este ano de 2023 está mais fraco que os anteriores em quantidade de ótimos lançamentos, embora eu saiba que isso pode estar relacionado a filmes que não chegaram nos cinemas locais e ao fato de eu não estar tendo tempo de examinar de perto os melhores filmes que entraram nos streamings. Além do mais, quando estou em casa, tenho mais vontade de pegar um filme antigo para ver do que me arriscar com um novo, mesmo que se trate de uma obra com boa repercussão crítica. Quem sabe no segundo semestre…

Um dos poucos filmes novos que vi em casa foi este OS CINCO DIABOS (2022), de Léa Mysius. Trata-se do segundo longa-metragem da diretora. O primeiro foi AVA (2017), sobre garota que descobre que perderá a visão em breve. Este segundo trabalho também lida com um dos cinco sentidos, e talvez o menos valorizado, o olfato. Na trama, a menina Vicky (Sally Dramé) tem o dom de identificar com uma sensibilidade ímpar os cheiros de qualquer coisa. E há os cheiros preferidos dela, que ela guarda em recipientes, como por exemplo o cheiro de sua mãe Joanne (Adèle Exarchopoulos), por quem tem grande adoração. É pela via dos aromas que a pequena Vicky acaba se tornando uma pequena bruxa, e conseguindo a habilidade de viajar no tempo através de poções mágicas que ela mesma cria.

Essas poções a levam a momentos importantes da vida de sua mãe, de sua então namorada (Swala Emati) e de seu pai (Moustapha Mbengue). A narrativa segue no mistério, mas também na elucidação e compreensão dos fatos e, consequentemente, da amplitude de sabedoria por parte da criança, diante da vida, como um coming of age com pitadas de terror. Exarchopoulos está mais uma vez muito bem, muitas vezes se distanciando da facilidade que seria explorar mais sua beleza física. O filme trafega pelos aspectos mais perturbadores da alma humana, para em seguida poder oferecer um pouco de paz agridoce.

OS CINCO DIABOS é tanto um filme sobre viagem no tempo, uma história de amor lésbico, uma fita de horror, um estudo sobre a memória, uma obra sobre preconceito de cor e de gênero, ou um drama de descoberta de uma criança acostumada a sofrer bullying na escola pela cor da pele e pelo seu cabelo (ela é a única criança negra da turma).

+ DOIS FILMES

ONDE A VIDA COMEÇA (Tu Choisiras la Vie / Alla Vita)

O ator Stéphane Freiss (O AMOR EM 5 TEMPOS) estreia na direção de longas-metragens com este filme que vai ganhando o espectador aos poucos. Gosto de suas escolhas em vários momentos (como não usar trilha sonora) e também de algumas composições visuais, especialmente quando ele adentra os interiores das casas. O filme conta a história de uma jovem (Lou de Laâge, de RESPIRE e que estará no próximo Woody Allen) que acompanha a família de judeus (franceses) ortodoxos anualmente numa região da Itália afastada dos grandes centros. Ela está passando por um momento de crise em aceitar como destino um pretendente que seus pais desejam para ela. Ao mesmo tempo, sente-se atraída por um homem mais maduro do vilarejo (Riccardo Scamarcio, TRE PIANI), a única pessoa com quem ela passa a conversar durante aqueles dias. As conversas nem sempre são livres, pelas amarras da religião que ela ainda teme. Um dos momentos mais bonitos de ONDE A VIDA COMEÇA (2022) é um em que ela conversa com Deus pedindo a Ele para o abandonar. Há outro momento de explosão (a maioria das conversas é aparentemente tranquila) em conversa com o personagem de Scarmacio. A tensão funciona, ainda que não o suficiente para gerar uma obra tão memorável quanto gostaríamos, mas é um bom primeiro filme do diretor. Filme presente na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano.

A ESTRANHA COMÉDIA DA VIDA (La Stranezza)

Posso culpar minha crise alérgica por não ter gostado nada deste filme que conta uma história do dramaturgo Luigi Pirandello, mas desde o começo já não estava me interessando por nada e achado o humor totalmente sem graça. E o curioso é que um ator do porte de Toni Servillo não consegue nem se destacar, já que seu papel é muito apagado. Os verdadeiros protagonistas são a dupla de atores e aspirantes a dramaturgos vividos por Salvo Ficarra e Valentino Picone, cujos dramas e situações são muito pouco envolventes. O que temos é um daqueles filmes de época tão maçantes quanto burocráticos, tão mornos quanto desprovidos de vitalidade. Talvez se o filme já nos adiantasse a novidade trazida por Pirandello, que surge já perto da conclusão, talvez isso trouxesse um interesse maior, mas apenas pela curiosidade mesmo, e não pelo talento do diretor e de seus roteiristas em saber conduzir a narrativa de maneira atraente. A ESTRANHA COMÉDIA DA VIDA (2022), de Roberto Andò, faz parte da programação do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano.

sábado, junho 24, 2023

VAMPIROS DE ALMAS (Invasion of the Body Snatchers)



“Todos nós endurecemos um pouquinho nossos corações, ficamos insensíveis. Só quando temos de lutar para continuar humanos percebemos como isso é precioso para nós, como é estimado e importante.”
Dr. Miles J. Bennell (Kevin McCarthy), protagonista de VAMPIROS DE ALMAS

Os livros temáticos que a Versátil Home Video tem publicado e lançado inicialmente junto com seus pacotes também temáticos têm me ajudado a priorizar certos filmes que são destacados nos livros. E alguns desses filmes eram até então desconhecidos por mim, até mesmo de ter ouvido falar, casos de vários títulos de sci-fi, que aparentemente é um gênero ainda mais nichado que o terror, e talvez mais marginalizado ainda. O caso de VAMPIROS DE ALMAS (1956), de Don Siegel, no entanto, é diferente. Sempre foi um filme muito lembrado e eu já havia visto no início de minha cinefilia. Eu diria, inclusive, que, dos dez filmes destacados no livro Clássicos Sci-Fi – Dez Filmes Essenciais da Coleção (de capa linda!), o filme de Siegel é o mais famoso e popular.

Talvez a popularidade do filme tenha se dado, em parte, ao fato de que sua história parece estar sempre viva. Cada nova versão dela – INVASORES DE CORPOS (1978), de Phillip Kaufman, OS INVASORES DE CORPOS – A INVASÃO CONTINUA (1993), de Abel Ferrara, e INVASORES (2007), de Oliver Hirschbiegel – fala a um momento específico e sociopolítico da humanidade, ou pelo menos da sociedade ocidental. Além disso, há sempre o fascínio da própria premissa: imagine que as pessoas que você conhece – amigos e familiares – passassem a se comportar de maneira tão estranha que você teria absoluta certeza que eles não são realmente eles, mas alguém ou alguma coisa que assumiu seus corpos, que a essência do que eles são houvesse desaparecido.

A grande vantagem do filme de Siegel é que essa sensação vai acontecendo de maneira gradual, e sendo uma obra de baixo orçamento, não há tanto investimento assim em efeitos práticos, embora tudo que seja mostrado usando esses efeitos seja perfeitamente crível, até porque as vagens parecem mesmo plantas. Além do mais, o preto e branco ajuda bastante a disfarçar possíveis falhas, se é que podemos chamar assim esse tipo de limitação técnica da época ou do que o dinheiro poderia comprar. O que mais importa é o quanto o filme mexe com a gente e o quanto o suspense vai se construindo de maneira gradual até chegar ao terror que é o terceiro ato.

A primeira vez que vi VAMPIROS DE ALMAS foi numa fita VHS que trazia a versão colorizada por computador, moda na época. Fiz questão de retirar a cor da televisão de modo a ver o filme no seu preto e branco original. Em apenas 80 minutos, Siegel conta esta história incrível sobre um médico de uma pequena cidade da Califórnia que começa a ficar intrigado com alegações de pessoas do local de que familiares não são mais eles mesmos. Encarado inicialmente como uma espécie de histeria coletiva por um psiquiatra, a situação ganha ares de horror na cena que mostra o casal de protagonistas vê um corpo em formação, prestes a assumir a identidade de um dos amigos deles.

VAMPIROS DE ALMAS é uma aula de como fazer cinema sci-fi de baixo orçamento, com poucos recursos, de invasão alienígena, sem precisar de grandes efeitos ou produção luxuosa. Produções boas e baratas eram o forte de Siegel, que se aventurou em westerns, filmes de guerra e policiais, tanto os filmes noir dos anos 1940-50, quanto alguns clássicos setentistas marcantes, no final de sua carreira. O diretor, aliás, fez uma belíssima transição da Velha Hollywood para a Nova.

Além do mais, seu filme pode ser tanto um novo exemplar do cinema sci-fi daquela década sobre a ameaça comunista, como uma obra antimacarthista, já que há o temor de se tornar alguém que pensa igual ao coletivo, perdendo seu ego, sua individualidade. Inclusive, Ryan Lambie, em seu livro O Guia Geek de Cinema, destaca o fato de que um dos roteiristas do filme é Daniel Mainwaring, o mesmo de O FUGITIVO DE SANTA MARTA, dirigido pelo esquerdista e Joseph Losey, e persona non grata naquela Hollywood da caça às bruxas. Conta-se que Mainwaring costumava emprestar seu nome ao trabalho de autores impedidos de trabalhar por estarem na lista negra.

Por isso, talvez seja mais provável pensar em VAMPIROS DE ALMAS como um filme crítico à política americana do que sobre o medo de uma ameaça comunista. E é compreensível que naquela época o filme precisasse ser no mínimo ambíguo para poder ser lançado e visto nos cinemas.

+ DOIS FILMES

MACABRO

A direção de Lamberto Bava não é creditada em SCHOCK (1977), mas muitos consideram seu primeiro filme na direção. O pai, Mario Bava, considerava o projeto muito mais do filho do que dele. E, curiosamente, MACABRO (1980) guarda algumas semelhanças com essa sua primeira experiência na direção, embora a ideia tenha surgido do amigo Pupi Avati, que lhe mostrou a macabra história real que inspirou a trama deste filme, que vai ficando mais interessante à medida que seus personagens vão apresentando seus segredos. O ideal é ver o filme sem ter visto o trailer ou lido nada, pois as surpresas contribuem para valorizar a obra. Há, evidentemente, uma influência de Hitchcock, especialmente de PSICOSE, mas já estamos em outro momento do terror, que aqui namora o gótico, mas se aproxima bastante do horror mais contemporâneo. Situações de assassinatos envolvendo crianças costumam trazer inquietações e incômodos e aqui não é diferente. Na trama, mulher sai de casa para fazer sexo com o amante, e a filha pequena, para se vingar dos atos de adultério da mãe, mata o irmão caçula. Daí para outra tragédia acontecer é um pulo. Gosto muito das ambientações interiores da casa, do personagem cego (Stanko Molnar) e de como suas intervenções deixam as situações ainda mais tensas, justamente pela sua deficiência física. A atriz Bernice Stegers (A CIDADE DAS MULHERES) está muito bem no papel, levando em consideração o estilo de filme, que requer aquele tipo de dramaturgia mais carregada. Visto no box Obras-Primas do Terror - Horror Italiano.

MEDUSA DELUXE

Um amigo meu disse que achava que MEDUSA DELUXE (2022) seria uma versão estendida de MEDUSA, da Anita Rocha da Silveira. Antes fosse. De todo modo, o filme de estreia de Thomas Hardiman tem a sua personalidade, o seu charme, ao brincar com o uso do único plano-sequência para contar uma história que se passa poucas horas depois do assassinato de um cabeleireiro de sucesso. Às vezes o divertido está em seguir pessoas diferentes com a câmera e ir conhecendo a geografia do lugar e os diferentes personagens, embora seja mais natural se deixar perder e curtir a beleza das cores da fotografia de Robbie Ryan (A FAVORITA). O problema é que esse recurso começou a me cansar já na metade do filme. Além do mais, saber quem é o assassino não é a coisa mais importante para um filme mais interessado na forma.

domingo, junho 18, 2023

THE FLASH



Enquanto via THE FLASH (2023), o mais recente lançamento da DC/Warner, percebia o tanto de referências que o filme tem, e o quanto os filmes de super-heróis estão cada vez mais destinados a uma parcela (enorme, no caso) de pessoas que acompanham esses títulos há muitos anos. Ou que conseguiram, de certa forma, no caso de pessoas mais jovens, principalmente, correr atrás dos filmes lançados antes de seus nascimentos. Uma pessoa como minha mãe, por exemplo, que talvez nem tenha visto SUPERMAN – O FILME, de Richard Donner, ficaria sem compreender muita coisa. E se isso vale para os filmes da DC, imagina para os filmes da Marvel.

Mas o mais importante é que THE FLASH, dirigido por Andy Muschietti (IT – A COISA, 2017), é um acerto e traz dignidade tanto à era Zack Snyder quanto a outros momentos da história da DC no cinema, especialmente pela presença brilhante de Michael Keaton, o Batman/Bruce Wayne dos filmes de Tim Burton. De certa forma, THE FLASH funciona para a DC como HOMEM-ARANHA – SEM VOLTA PARA CASA funcionou para a Marvel. Ou seja, é quase uma desculpa para brincar com as possibilidades de um multiverso e o filme traz tantas conexões com obras passadas que fica quase incompreensível para quem não viu nenhum dos filmes citados.

Mas a desculpa em THE FLASH é até melhor: Barry Allen (Ezra Miller) quer usar seu poder para voltar no tempo e desfazer o assassinato de sua mãe, ocorrido em sua infância. Assim, há espaço até para momentos bem comoventes (como a cena do supermercado!). Além do mais, a inclusão de um rosto novo, como é o caso da Supergirl de Sasha Calle, é muito bem-vindo, funcionando muito bem com as presenças mais familiares. Como aventura de ação, o filme também é bem divertido, quando vemos aquela Liga da Justiça improvisada agindo.

O filme não esconde a semelhança com a trilogia DE VOLTA PARA O FUTURO, de Robert Zemeckis, e justamente por isso, por ser um filme sobre viagens no tempo e suas consequências, mais do que um filme sobre o multiverso ou sobre embates entre heróis e vilões (o general Zod é só um coadjuvante), justamente por isso é tão gostoso de acompanhar. O que não quer dizer que as cenas de ação não sejam atraentes, especialmente quando vemos o Batman em ação. Por não ter aqueles superpoderes como seus colegas de equipe, e ainda ser um homem idoso, fica no ar a sensação contraditória de fortaleza e fragilidade. 

Parte da surpresa relativa à qualidade de THE FLASH se deve também às gravações bastante tumultuadas por causa de Ezra Miller, que, depois de toda a confusão gerada, reconheceu seus problemas de saúde mental e se desculpou pelo mau comportamento. Isso inclui ter sido preso duas vezes pela polícia do Havaí, ter jogado uma cadeira que foi parar na cabeça de uma mulher, que teve um ferimento na testa, um suposto assédio num karaokê, uma invasão ao apartamento de um casal, um roubo de pertences desse mesmo casal etc.

Não sei o que seria o etc., na verdade, pois não acompanhei com atenção as notícias, mas certamente é coisa suficiente para gerar um filme de bastidores bem interessante. Além do mais, o fato de Miller interpretar duas versões de Barry Allen, a conhecida da Liga da Justiça e uma versão como um adolescente bobão, ajuda até mesmo a trazer luz para as falhas e as bobagens que as pessoas, sendo elas humanas, costumam cometer.

Com relação à colisão dos mundos, uma referência direta ao evento “Crise nas Infinitas Terras”, acontecido nos quadrinhos da DC nos anos 1980, acredito que não ter lido os quadrinhos não vá prejudicar a compreensão da coisa no terceiro ato do filme (eu mesmo não cheguei a ler). A Marvel depois usaria o mesmo conceito na fase dos Vingadores de Jonathan Hickman. O que importa é que THE FLASH é um dos mais leves e divertidos filmes da DC. Uma bela sessão da tarde.

+ DOIS FILMES

HOMEM-ARANHA – ATRAVÉS DO ARANHAVERSO (Spider-Man – Across the Spider-Verse)

A animação é um primor e tem um jogo de variações nos traços e brincadeiras visuais com os próprios quadrinhos (e até com os filmes), que traz prazer. Por outro lado, a rapidez excessiva da ação (para o meu gosto) acaba cansando um pouco (e me dá sono). Então, tenho minhas reservas, embora também valorize todo o cuidado que é feito com personagens que são novos (falo dos que surgiram na brincadeira Aranhaverso, nos anos 2010) e alguns nem tanto, como Miguel O'Hara, o Homem-Aranha 2099. Ter a Spider-Gwen (chamada de Mulher-Aranha, no filme) como uma das protagonistas, e logo abrindo o filme, foi uma escolha acertada, dando tanto peso para ela quanto para Miles Morales. O roteiro é inteligente ao trazer um dos traumas do Aranha, que foi a perda de seu tio Ben, e do quanto isso também teve semelhanças em outros Aranhas habitantes de outros mundos. Só não estava esperando um gancho que me deixasse na mão. HOMEM-ARANHA – ATRAVÉS DO ARANHAVERSO (2023) é assinado por três diretores: Joaquim dos Santos, Kemp Powers e Justin K. Thompson.

A ESSÊNCIA DA MALDADE (The Creeping Flesh)

A vantagem de ver esses filmes clássicos produzidos por produtoras derivadas da Hammer é que a gente aprende a conviver tanto com seus problemas quanto com suas qualidades. Os problemas talvez estejam no andamento pouco atraente. É preciso ter um pouco de paciência para entender para onde a trama vai se encaminhar. Entre as qualidades de A ESSÊNCIA DA MALDADE (1973), de Freddie Francis, há as inúmeras viradas na mesma trama, o que acende o interesse e a curiosidade para o que virá. Na trama, Peter Cushing e Christopher Lee são dois cientistas "malucos". Cushing acaba de voltar de uma viagem trazendo um esqueleto de um espécime raro. Acontece que, durante uma limpeza no tal esqueleto, o bicho começa a criar carne sobre o osso. No meio disso tudo, há a filha dele, que tem um problema de não ter convivido com a mãe, experiências que ele fará que serão fatais, e a história do personagem de Lee, que corre em paralelo, mas desde o início sendo sempre a força antagônica de Cushing. Os efeitos do monstro ficaram bem datados, mas provavelmente pelo fato de a produção ser barata. Não chega a ser um problema, na verdade. Visto no box Obras-Primas do Terror 18.

sexta-feira, junho 09, 2023

FEMME FATALE



E cheguei ao momento em que já temos texto de filme de Brian De Palma (visto no cinema na época) no blog. Inclusive, até eu fiquei surpreso com minha recepção com o filme, tendo o colocado em meu top 20 de 2003 – FEMME FATALE (2002) estreou aqui em janeiro de 2003. E achei até divertido ler o meu texto sobre o filme da época, pois o blog tinha um caráter ainda mais de diário despretensioso do que nos dias de hoje. Por outro lado, o que eu reclamei, de maneira tímida, do filme, que é a falta de emoção, já representa um ponto negativo que também senti nesta revisão.

A verdade é que o século XXI não começou muito bem para De Palma. Embora tenha dividido opiniões com o belo MISSÃO: MARTE (2000), a volta a seu estilo mais característico de produção, com sensualidade, voyeurismo, homenagens explícitas a Hitchcock, split-screens e uma música orquestrada que evidencia o mistério (novamente a cargo do grande Ryuichi Sakamoto), não é tão bom quanto seus grandes trabalhos de suspense das três décadas passadas. Ainda por cima, mesmo tendo custado apenas 35 milhões de dólares, não arrecadou nem a metade nas bilheterias, o que representou um golpe para um cineasta que já não estava conseguindo apoio de Hollywood.

Na revisão, incomodou-me seu roteiro fraco (especialmente as falas dos personagens) e um casal de atores que não tem química. Também senti falta de um teor mais perverso por parte da protagonista, como as femme fatales clássicas. Além do mais, a cena de striptease no bar carece de tesão. No entanto, vendo como um filme sobre segundas chances, FEMME FATALE tem, sim, uma importância na evolução do trabalho de Brian De Palma.

Para começar, vale destacar a questão da rivalidade entre os irmãos Brian e Bruce, que assombra boa parte da filmografia do diretor. Assim como ele já anteciparia em MISSÃO: MARTE, o tom adotado agora é de reconciliação familiar. Temos a figura do duplo, no caso duas mulheres, Laure, a protagonista, vivida por Rebecca Romijn-Stamos, e uma sósia dela, Lily, que Laure testemunhará impassível enquanto a jovem tira a própria vida com uma bala de revólver. Laure se aproveita da situação para lhe tomar a identidade, de modo a se livrar de seus perseguidores, após o orquestrado roubo no banheiro de uma sala de cinema luxuosa do Festival de Cannes. 

Na referida cena, uma das mais memoráveis (e uma das poucas que guardei lembranças), vejo mais erotismo por conta da modelo com braceletes e sutiã de ouro e diamantes, que não se importa de caminhar pelos corredores do local com os mamilos à mostra e excitada pelo convite da suposta fotógrafa sensual para o encontro secreto. É como se De Palma estivesse tentando ressuscitar a volúpia de filmes como VESTIDA PARA MATAR (1980) e DUBLÊ DE CORPO (1984), e falhando no processo. Claro que isso é uma visão que hoje tenho do filme; na época do lançamento, não cheguei a reclamar de forma alguma. A cena do roubo traz toques de espionagem e lembra as agruras de Ethan Hunt em MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996).

Depois desse momento, FEMME FATALE perde um pouco o ritmo e causa certo desinteresse, até ficar novamente interessante quando a protagonista vai parar na casa de sua sósia, confundida por um casal de idosos. Na primeira vez que eles a viram, Laure usava uma peruca morena, por cima de seu cabelo loiro, como no disfarce de Madeleine em UM CORPO QUE CAI.

Para uma obra que tenta homenagear os filmes noir, a começar por uma cena do essencial PACTO DE SANGUE, de Billy Wilder, o que FEMME FATALE nos apresenta é algo que a princípio não lembra tanto assim os velhos clássicos do período – não que fosse uma obrigação dele. Na verdade, em entrevista, De Palma confessa que queria mesmo virar do avesso as convenções do gênero e transformar uma mulher perversa e autodestrutiva, com algo de fálico e masculino, numa mulher com capacidade de ter empatia e união entre seus pares. E o que temos é um final feliz, algo bizarro em se tratando de Brian De Palma. E mais uma amostra do quanto o cineasta queria usar o cinema para encontrar a própria redenção e se livrar da culpa de se sentir passivo em relação a uma situação envolvendo seu irmão mais novo, Barton.

Na época do lançamento de FEMME FATALE, muitas comparações foram feitas com CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch. E de fato, há similaridades e paralelismos. Ambos os filmes se passam quase que inteiramente num sonho. Mas, se o sonho de Lynch era uma fuga da realidade terrível, no filme de De Palma, o sonho é um pesadelo que funciona como uma dica para uma segunda chance e uma melhor sorte na vida real. Porém, apesar dessas semelhanças narrativas, em termos de força e impacto, é até covardia fazer comparação entre os dois.

No mais, é bom destacar que eu escrevi o texto até o momento sem sequer mencionar o personagem e a atuação de Antonio Banderas, tão apagado que está no papel – aliás, não me lembro de outro papel dele fora do cinema espanhol que tenha sido um grande sucesso. De todo modo, seu personagem é o segundo mais importante e conta com algumas cenas memoráveis. Ele, assim como sua contraparte feminina, tem algo do homem Brian De Palma, que agora muda de perspectiva e tem uma visão mais iluminada da vida. A última imagem do filme é uma colagem feita com fotografias tiradas por Barton De Palma, seu irmão mais novo. 

+ DOIS FILMES

TERRIFIER

Sujo, sangrento, sem uma explicação ou origem do comportamento violento do palhaço e quase sempre mantém o interesse do espectador, especialmente na primeira metade. Depois disso, há uma queda no ritmo e os exageros de violência gráfica doentia aparentemente já haviam ultrapassado todos os limites em determinada cena, que de fato é um tanto perturbadora. É interessante que TERRIFER (2016), de Damien Leone, é um filme que só ficou mais famoso por causa de sua sequência, que estreou nos cinemas americanos no ano passado e causou um rebuliço pelos excessos de violência do palhaço. Aliás, muito bem pensado o visual do vilão, com o rosto pintado de preto por baixo da máscara em preto e branco. Agora é ver se o filme é representativo de uma nova tendência de ressurgimento dos slashers, até porque este aqui tem uma pegada bem oitentista, só que bem mais violento que a grande maioria dos exemplares da fase áurea do subgênero.

TERRIFIER 2

Muito boa a sensação que certos filmes produzidos recentemente estão trazendo, ao usar o tom dos filmes de horror dos anos 1980, com direito a uma fotografia mais suja, uma trilha sonora com sintetizador e um excesso de violência gráfica que já passa pelo filtro de nossa experiência com o torture porn dos anos 2000. Assim, acabamos ficando um pouco anestesiados com esse tipo de violência tão exagerada que se aproxima mais do delírio do que do realismo. Até porque, como visto no primeiro filme, o palhaço Art não é exatamente uma figura que morre facilmente. Semelhante a Jason Voorhees e Michael Myers, ele é praticamente imortal. Por isso, Damien Leone utiliza a fantasia para trazer uma intervenção possível da suposta final girl do filme, Sienna (Lauren LaVera), como oposição ao palhaço maníaco e sádico. Interessante notar que Leone já havia derrubado as regras/expectativas das final girls de slashers no primeiro TERRIFIER. Então já sabemos que tudo é possível nesta sequência, que explora mais a cidadezinha e também amplia o mito de Art, sem se preocupar com alguma origem ou coisa do tipo. Curiosamente, como o próprio filme se vende como extremamente chocante, este segundo acabou provocando menos choque em mim do que o primeiro, embora seja mais longo e com mais cenas de violência com membros e pele arrancados. Um dos trunfos de TERRIFIER 2 (2022) é não ter medo de voar em seu clímax, e isso tira um bocado de vulgaridade da obra. Ah, e há uma cena pós-créditos relativamente longa que eu quase perdi.

quinta-feira, junho 08, 2023

OS NOVOS CENTURIÕES (The New Centurions)



Uma das desvantagens de ver uma dessas obras-primas que nos deixam tão emocionados quanto impressionados, tão tristes quanto felizes (por ter visto algo de tal estatura), tão extasiados quanto melancólicos, é que não poderemos fazer um texto à altura de tal obra, não poderemos prestar a devida homenagem a um dos filmes que mais nos impactou nos últimos tempos, quiçá na vida. E aí entra também outra série de questões pessoais de um cinéfilo que deseja ver não apenas os filmes de grandes autores, mas também filmes menores de gêneros do coração, e que não tem o devido tempo para se dedicar a eles. E que deixou de conferir praticamente a filmografia completa de Richard Fleischer (1916-2006), embora tenha visto dois de seus filmes tardios e menos inspirados no cinema em tempos de pré-cinefilia, casos de CONAN, O DESTRUIDOR (1984) e GUERREIROS DE FOGO (1985), por ser na época um leitor de quadrinhos da Marvel.

A culpa disso talvez seja dos primeiros críticos a que cheguei a acompanhar. No caso, a revista SET, se não me engano, nunca chegou a enaltecer a obra de Fleischer; Peter Bogdanovich não escolheu Fleischer para ser entrevistado em seu livro Afinal, Quem Faz os Filmes; a turma da Cahiers du Cinéma não o adorava, e isso acabou repercutindo bastante mundo afora. Ao que, parece, mais recentemente é que tem se buscado uma revisão de suas grandes obras e de seu trabalho como autor, ainda que procurar elementos em comum entre seus filmes pareça ser um desafio, pelo que andei lendo. Agora mesmo, lendo um texto do português João Palhares, publicado na postagem do Making Off de OS NOVOS CENTURIÕES (1972), fiquei arrepiado diversas vezes. Tanto pela forma poética como o crítico presta tributo à obra, quanto pelas lembranças emocionantes de várias cenas do filme que ele destaca.

Antes de tentar falar do filme à minha maneira, quero deixar registrado aqui meus agradecimentos a Fernando Brito, da Versátil Home Video, que vem prestando um trabalho fantástico não apenas na curadoria dos títulos presentes nas variadas coleções da empresa, mas no trabalho atual de publicação de livros temáticos. O fato de certos filmes serem destacados em tais livros chama uma atenção maior para eles. E eu não teria visto OS NOVOS CENTURIÕES na semana passada se o filme não tivesse sido escolhido para integrar um dos 14 títulos essenciais da coleção Cinema Policial, embora o filme em questão tenha sido lançado no box A Arte de Richard Fleicher. No livro, há um belíssimo texto sobre o filme escrito por Sérgio Alpendre que complementa a experiência de ver a obra-prima de Fleischer. Não que o filme não fosse ficar em nossa lembrança por um bom tempo por conta própria, mas certas obras merecem uma extensão maior de tempo em nosso ruminar.

Com OS NOVOS CENTURIÕES, Richard Fleischer conquista meu respeito pra valer. O filme é tão impressionante em sua busca pelo realismo que não consigo encontrar muitos paralelos, mesmo no cinema produzido depois dos anos 1980. Nem mesmo entre os dirigidos por Michael Mann. O título é mais um exemplo do quanto o cinema americano setentista estava impregnado da melancolia e do pessimismo da sociedade daquele tempo e do quanto o cinema, que como toda arte é uma antena, acabou saindo beneficiado.

Não há uma trama em si no filme e por isso é até difícil formular uma sinopse. O que temos são várias histórias de seus personagens, sendo os principais, o mais velho vivido por George C. Scott e o mais novo na corporação interpretado por Stacy Keach. Scott e Keach, ou melhor, Kilvinski e Fehler, são aqueles que mais acompanharemos como policiais em seus trabalhos pelas ruas de Los Angeles, principalmente à noite. Ser policial, no filme, é como uma espécie de sacerdócio pela dedicação integral, e algo que traz infelicidade, traumas e, com frequência, destrói famílias, seja pela separação, seja pela morte desses policiais.

Há várias situações que nos pegam de surpresa e que surgem como que do nada, sem uma antecipação óbvia, como é o caso do tiro que o personagem de Keach recebe, ou da morte de um homem acidentalmente por um policial (acho que foi a primeira cena que me deixou abalado e comovido), ou do comportamento das prostitutas dentro do camburão, ou do caso envolvendo um bebê que estaria sendo machucado pela própria mãe. OS NOVOS CENTURIÕES é uma espécie de crônica da vida desses homens e que traz uma carga humanista que o diferencia da tendência mais à direita dos filmes policiais da época.

Somos convidados a nos solidarizarmos com policiais, criminosos, prostitutas, as esposas dos policiais, enfim, todas as pessoas que se apresentam como vítimas desse moedor de carne que é o sistema de autoridade das ruas. Como esquecer a chegada da esposa de Fehler ao hospital, lutando entre a raiva e a tristeza, ao ver o marido sofrendo depois de levar um tiro no estômago e ser consolada por Kilvinski, seu parceiro na viatura, que antes era tido como uma figura paterna para Fehler, mas que com o tempo foi virando um irmão? Aliás, que sensibilidade de Fleischer ao trazer aquela cena da despedida de Kilvinski da corporação, quando ele se aposenta, e nos mostrar o olhar triste e nos fazer sentir o nó na garganta do amigo Fehler, que não sente ares de festejo no momento, já que sabe que sentirá falta do amigo. Depois, saberemos que Kilvinski, viciado em sua profissão, não saberá seguir em frente na vida, noutra cena que nos pega de surpresa e funciona como outro soco no estômago.

Sobre as amizades masculinas no filme, eu até pensei em fazer comparações com o trabalho de Howard Hawks, mas talvez Hawks seja ainda mais duro no quesito “homem não chora”. Fleischer nos permite ver seus personagens chorando, seja pelo fato de ter matado um homem por acidente, seja pelo fato de estar perdendo a própria vida, logo quando ele agora tinha encontrado a felicidade. As palavras de Fehler, “Can’t happen now, I was beginning to know…”, são doloridas e ajudam a encerrar o filme com um gosto bem amargo.

Quanto a George C. Scott, recentemente o havia visto em HOSPITAL, de Arthur Hiller, como um médico amargo, papel que lhe deu uma quarta indicação ao Oscar, mas não estava preparado para vê-lo como um personagem tão apaixonante quanto Kilvinski. Aliás, é interessante pensar em Scott como um ator com um tipo de ética muito particular. Quando ganhou o Oscar por PATTON – REBELDE OU HERÓI, em 1971, ele recusou receber o prêmio por não se ver em nenhuma competição com outros atores.

No fim das contas, não deixa de ser um gesto nobre e humano, que combina com Kilvinsky e com OS NOVOS CENTURIÕES, cuja cena mais progressista apresenta a chegada de dois policias numa favela habitada por imigrantes latinos ilegais, vivendo em condições subumanas para poder pagar um aluguel alto demais para o lugar e para seus salários. Na cena, quem acaba levando uma dura dos policias é o sujeito que aluga o espaço. No filme de Fleischer, vemos a polícia que gostaríamos que fosse notícia, mas que talvez exista e tenha se tornado invisibilizada pela má fama gerada por uma parcela considerável de seu contingente.

+ DOIS FILMES


ELES VIVEM (They Live)

Um prazer poder rever ELES VIVEM (1988), de John Carpenter, em BluRay com um som DTS HD límpido e maravilhoso e imagem remasterizada. O filme nasceu depois de um momento de forte queda da bolsa, seguido de triste recessão. E isso é visto logo de cara no começo do filme, com a chegada do personagem de Roddy Piper naquela cidade, a fim de ter o mínimo para sobreviver. Mas hoje em dia, com as fake news e a queda das máscaras de pessoas de más intenções da era pós-Trump (e Bolsonaro), o filme ganha conotações políticas até mais interessantes, mas sem nunca perder de vista o prazer de ver um belo filme de ação/sci-fi B dirigido por um mestre do cinema fantástico. Como só havia visto o filme em VHS lá no início dos anos 90, foi um prazer rever como se fosse a primeira vez, e finalmente captando a referência (explícita) que Kleber Mendonça Filho usou em BACURAU. Ainda estou me devendo ver todos os extras presentes no belo tijolinho lançado pela Versátil.

VELOZES E FURIOSOS 10 (Fast X)

A ideia de dar um fim à franquia com um certo tom dramático (embora isso não se materialize de fato) me soa interessante. VELOZES… é uma cinessérie de altos e baixos que, pelo menos para mim, começou a ficar interessante a partir do quarto filme (2009), quando o grupo passou a ganhar mais força, embora não tenha deixado de ser aquele estilo de ação tosca disposta a ser ruim no roteiro e nas caracterizações sempre que possível. Mas é preciso ser ruim dentro de certo limite, e infelizmente eles chegaram ao fundo do poço no nono filme (2021), que considero um horror. Em VELOZES E FURIOSOS 10 (2023), com direção agora do francês Louis Leterrier (O INCRÍVEL HULK, 2008), após treta entre o diretor Justin Lin e Vin Diesel, não consegui ver muitas mudanças formais. Os diálogos atravessados, o humor sem graça, as lutas coreografadas sem muita inspiração e a montagem picotada, tudo está lá. Assim como estão personagens/atores de filmes anteriores, que reaparecem para dar um tom grandioso, de come back, a esta primeira parte do fim. Se pensarmos que temos quatro atrizes vencedoras do Oscar (Charlize Theron, Brie Larson, Helen Mirren e Rita Moreno) dando um pouco de prestígio à produção, que possui um orçamento estimado de 340 milhões de dólares, é fácil entender o motivo de a Universal estar apostando tanto suas fichas em novos filmes estrelados por Toretto e família. Há algumas boas cenas envolvendo carros, sendo que várias delas seguem brincando com a verossimilhança, o que contribui para a diversão, na verdade. Ainda assim, já faz um tempo que não me conecto com esses filmes, e o eixo dramático é tão qualquer coisa que sigo desanimado. Ainda mais depois de ter visto um filme de família tão cheio de coração como GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3. Enfim, o problema dos filmes da franquia se resolveria com um bom diretor? Ou Vin Diesel e os demais produtores é que mandam no tom que os filmes devem manter, mesmo com a mudança de realizadores? Antes que eu esqueça: Jason Momoa está bem divertido como o novo vilão alucinado. Antes que eu esqueça 2: por que uma produção tão cara não quer pagar atores brasileiros para interpretarem brasileiros, e em vez disso optam por portugueses?

domingo, junho 04, 2023

TITÃS ENCONTRO: TODOS AO MESMO TEMPO AGORA – FORTALEZA, 3 DE JUNHO DE 2023



Foi difícil ir ao show de reencontro dos Titãs e não pensar no impacto do tempo em nossos corpos. Meu primeiro show da banda foi em 1995, na turnê do álbum Domingo, na Barraca Biruta, palco de tantos espetáculos antológicos naqueles anos finais do século XX. Eu estava nos meus twenties, cheio de energia para queimar em shows mais rock com guitarra no talo, e fiquei muito impressionado com a performance da banda. Era definitivamente a banda brasileira mais incrível em se tratando de apresentações ao vivo. Pelo menos quando se pensa num rock mais pedrada e também mais transgressor. Hoje em dia acho que essa aura transgressiva fica um pouco dissipada pelo tempo, mas acredito que eles ainda conseguem arrepiar algumas pessoas mais religiosas com certas canções. Quanto a meu corpo, saí com saudades de quando tinha o gás de anos atrás.

O impacto do tempo também estava presente no palco, com Branco Mello, com uma voz no mínimo muito diferente, após ter sobrevivido a um câncer de garganta e agora ter que se reinventar para cantar as faixas que lhe cabiam na banda. A ausência de Marcelo Fromer também é sentida, assim como sua presença, quando surge em cena sua filha, Alice Fromer, para representá-lo e cantar duas canções junto com Arnaldo Antunes. O peso do tempo é claramente visível, embora tenha ficado impressionado com a jovialidade e a energia de Sérgio Britto, por exemplo.

A produção do espetáculo é de tirar o chapéu, com três telões e um jogo de luzes que valoriza cada momento, e isso é sentido logo no início, quando só vemos suas silhuetas surgindo ao fundo, e depois se aproximando, enquanto os primeiros acordes de “Diversão”, no sintetizador, são ouvidos, antes de a guitarra de Toni Bellotto e a bateria de Charles Gavin trazerem empolgação para este coração, junto com o vocal de Paulo Miklos. “A vida até parece uma festa, tem certas horas que isso é que nos resta” são as frases iniciais dessa canção que tem um ar de melancolia e de certo desencanto até com as válvulas de escape da juventude, frente à solidão, à angústia e à insatisfação.

É a primeira das três faixas do clássico Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987) que abrem o show. As próximas seriam “Lugar Nenhum”, cantada por Arnaldo Antunes, e “Desordem”, cantada por Sérgio Brito. Perfeito. Entra Branco Mello, com sua voz rouca e diferente para cantar a primeira da série de quatro faixas do essencial Cabeça Dinossauro (1986), “Tô cansado”. Ele se apresenta, fala de seu drama recente, da cirurgia que salvou sua vida, e de uma maneira que pareça uma vitória. E de fato é: ele venceu o câncer e se sente muito vivo. O público manifesta apoio e grita “Branco! Branco! Branco”, carinhosamente.

Chega a vez do quinto vocalista, Nando Reis, cantando a arrepiante “Igreja”, que lembro de ter me perturbado bastante na minha juventude, por causa de certos versos. Ao mesmo tempo, fica tão difícil não gostar da paulada que é a música e daquela guitarra do Bellotto... “Homem Primata” e “Estado Violência” seguem esse bloco de canções do mais clássico dos álbuns da banda.

O show vai fornecendo um pouco mais de calma com “O Pulso”, seguido de “Comida”, ambas cantadas por Arnaldo, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e “Nome aos Bois”, cantadas por Nando. Essa última, inclusive, incluiu o nome de um certo presidente da república recente. Em seguida, entra “Eu Não Sei Fazer Música”, a única do controverso álbum Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991), e “Cabeça Dinossauro”, com aquele solo bonito de Charles Gavin, que oferece um dos poucos momentos de sorriso ao longo do show. Posteriormente, as imagens de videotapes caseiros que aparecem no telão, provavelmente presentes no documentário TITÃS – A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA (2008), trazem um ar de saudade, de reflexão sobre o peso do senhor Saturno nas vidas de oito pessoas.

E assim, após esses vídeos dos jovens Titãs, ficou perfeito ouvirmos “Epitáfio”, a canção mais inspirada da banda do século XXI, lançada no disco A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana (2001). Há quem não tenha nenhum arrependimento na vida, mas imagino que sejam poucas. É uma canção de amadurecimento, de repensar “os problemas pequenos”, de ver a importância de “morrer de amor”, de ver o sol se pôr. Linda, de fato, e antecipou o bloco de canções inspiradas no Acústico MTV (1997), quando a banda alcançou o auge da popularidade, fazendo algumas concessões para isso, como tornar seu som mais palatável, de modo a atingir um público maior. Na época, não me agradou muito (eu sentia falta das guitarras e do barulho), mas vejo que foi fundamental para a história da banda, além de ter trazido, principalmente posteriormente, no Volume Dois (1998), arranjos bem bonitos para canções mais antigas.

No bloco acústico, eles tocam “Os Cegos do Castelo” e “Pra Dizer Adeus” (canção que acho brega e meio pobre em letra e música). Alice Fromer aparece com Arnaldo e canta lindamente “Toda Cor” e “Não Vou Me Adaptar”, duas faixas que ganhariam versões bem bonitas no referido Volume Dois. O tom mais família do show segue com “Família”, “Go Back” e “É Preciso Saber Viver” e voltam as guitarras distorcidas com “32 Dentes”, “Flores”, “Televisão”, “Porrada” e principalmente com “Polícia”, “AA UU” e “Bichos Escrotos”. Pelo menos eu já tinha recuperado minhas energias com a parte mais calminha do show para poder me esbaldar com essa trinca deliciosa, que encerra o show antes do bis.

No bis, “Miséria”, “Marvin” (eu não aguento mais ouvir essa música) e o clássico do primeiro disco (1984) “Sonífera Ilha”, uma dessas canções que não enjoa nunca e que funciona perfeitamente para encerrar o show num tom positivo e alto astral, dando aquele quentinho no coração. Valeu, turma! E obrigado por tudo! 

Agradecimentos ao amigo Zezão e à amiga Daisy pela companhia durante esta reunião de gigantes que ficará para a história.

sábado, junho 03, 2023

O CORINGA DO CINEMA



É interessante como alguns filmes menores acabam falando muito mais forte a nosso espírito do que certos trabalhos mais sofisticados e de produção mais luxuosa. É o caso de O CORINGA DO CINEMA (2019), de Sérgio Kieling. Interessou-me tanto como a apresentação da carreira profissional de um técnico que esteve ligado a um número alto de produções importantes e históricas da cinematografia brasileira, em especial a paulistana, mas também me interessou a figura humana, o homem comum, já que o personagem-título é uma pessoa que não é exatamente uma celebridade, ou seja, não é um cineasta ou um ator profissional, costumeiramente objetos mais presentes em documentários e cinebiografias.

O filme conta um pouco da história de vida de Virgílio Roveda, mais conhecido como Gaúcho, um homem que atuou em diferentes funções no cinema, seja na produção, fotografia, distribuição e até mesmo na condução de uma sala de cinema de rua. Roveda já havia rendido um belo livro de Matheus Trunk, que nos créditos aparece como um dos roteiristas (o outro é o diretor Sérgio Kieling), e, como também estou me devendo ler o livro (já comecei, aliás), a leitura será complementada em minha mente por lembranças deste documentário: imagens da voz às vezes embargada do Gaúcho, que é como ele é chamado; imagens do brilho no olhar do homem quando relembra de momentos importantes de sua vida.

O CORINGA DO CINEMA opta por não se limitar apenas à carreira profissional do Gaúcho, mas também entramos em contato com sua intimidade, o fazer a barba, o tratamento carinhoso com a esposa, o depoimento da filha que sentiu sua ausência na infância e também é uma viagem no tempo para ele conversar com pessoas que fizeram parte de sua história, como atores, diretores e outros técnicos, além de visitar lugares que hoje não são mais nem o espaço de encontro da Boca, nem o cinema que ele mantinha, agora, uma academia de musculação.

É muito bonito poder ver alguns trechos de filmes importantes em que ele trabalhou, como ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967), de José Mojica Marins (como maquinista), O JECA MACUMBEIRO (1974), de Amácio Mazzaropi e Pio Zamunner (como assistente de câmera), AS PIPAS (1981), de José Vedovato (como produtor), AOPÇÃO OU AS ROSAS DA ESTRADA (1981), de Ozuado R. Candeias (como produtor), O MENINO DA PORTEIRA (1976), de Jeremias Moreira Filho (como diretor de produção), 24 HORAS DE SEXO EXPLÍCITO (1985), de José Mojica Marins (como diretor de fotografia), entre outros. Ou seja, daria para contar muito mais coisas do que nesses quase 80 minutos de duração. E há coisas que acabam sendo muito difíceis de contar, como a experiência durante o regime militar.

Entre as pessoas que conversam com o Gaúcho estão: David Cardoso, Toni Cardi, Débora Muniz, o diretor Marcelo Colaiacovo, com que o Gaúcho trabalhou já nos anos 2000, e vários amigos que trabalharam como técnicos em produções que Gaúcho esteve presente. De certa forma, O CORINGA DO CINEMA faz um passeio pelas produções paulistanas da Boca, desde os anos 1960, com os filmes do Mojica, passando pelo auge nos anos 1970, até chegar ao cinema de sexo explícito em meados dos anos 1980, que é algo que geralmente é falado em tom de tristeza por quase todos os presentes, por representar o fim da mais bem-sucedida indústria cinematográfica brasileira.

Além do mais, O CORINGA DO CINEMA pode ser visto, de certa forma, como uma continuação do ótimo trabalho de Matheus Trunk na saudosa Revista Zingu!, que valorizava todos os profissionais do cinema em suas edições mensais.

+ DOIS FILMES

IL BUCO

Ver IL BUCO (2021), de Michelangelo Frammartino, no cinema é um privilégio e tanto. Especialmente nos momentos em que o grupo espeleológico adentra a caverna de profundidade assustadora do título. Trata-se de um filme muito contemplativo, que se beneficia dos sons e das imagens da natureza para educar nosso olhar com seu andamento lento e pouco interessado no que tradicionalmente chamamos de trama. Em paralelo com os trabalhos na caverna situada no sudoeste da Itália, vemos também o personagem que mora na região, a primeira figura humana que aparece em close-up, um homem cheio de marcas do tempo. O olhar de Frammartino (AS QUATRO VOLTAS, 2010) emociona. Destaco um momento em que um personagem é tirado de dentro da casa e a câmera está dentro dessa referida casa, agora tendo apenas, como luz, o que as frestas das portas permitem entrar. É um tipo de filme que, assim como a bruma que se aproxima ao final, vai nos ganhando tanto cada vez mais, seja pela calma e espiritualidade, seja por um sentimento muito próximo do medo.

CORDELINA

Dentre os filmes exibidos no Festival de Aruanda, CORDELINA (2022), de Jaime Guimarães, é o que mais explicita seu amor pela figura do artista itinerante. O documentário acompanha Odília Nunes, uma mulher que peregrina por estradas do interior de Pernambuco e da Paraíba, levando o que chama de tesouro numa caixa. Não fiquei tão encantado pelo filme quanto muitos ficaram, pois a personagem e sua criação me pareceram mais atraentes para crianças, mas sei que isso diz mais de mim do que do filme, que tem, sim, uma personagem muito interessante e imagens de encanto de pessoas do interior em seu primeiro contato com a boneca gigante de Odília, a Cordelina. O filme saiu do festival com dois prêmios importantes: melhor longa nordestino e melhor atriz.