quinta-feira, dezembro 31, 2015

TOP 20 2015 E O BALANÇO DO ANO


1. MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA, de George Miller
2. JAUJA, de Lisandro Alonso
3. SNIPER AMERICANO, de Clint Eastwood
4. NORTE, O FIM DA HISTÓRIA, de Lav Diaz
5. CORRENTE DO MAL, de David Robert Mitchell


6. 14 ESTAÇÕES DE MARIA, de Dietrich Brüggemann
7. O GORILA, de José Eduardo Belmonte
8. A TRAVESSIA, de Robert Zemeckis
9. A COLINA ESCARLATE, de Guillermo del Toro
10. O PRESENTE, de Joel Edgerton


11. NICK CAVE – 20.000 DIAS NA TERRA, de Iain Forsyth e Jane Pollard
12. EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ, de Sam Esmail
13. DOIS DIAS, UMA NOITE, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
14. QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert
15. CALIFÓRNIA, de Marina Person


16. RESPIRE, de Mélanie Laurent
17. A PAIXÃO DE JL, de Carlos Nader
18. WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, de Damien Chazelle
19. ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas
20. DE CABEÇA ERGUIDA, de Emmanuelle Bercot

Menções honrosas (ou filmes que quase entraram no top 20): 

O CONTO DA PRINCESA KAGUYA, de Isao Takahata; FORÇA MAIOR, de Ruben Östlund; CÁSSIA ELLER, de Paulo Henrique Fontenelle; IDA, de Pawel Pawlikowski; PONTE AÉREA, de Julia Rezende; PERMANÊNCIA, de Leonardo Lacca; ÚLTIMAS CONVERSAS, de Eduardo Coutinho; WINTER SLEEP, de Nuri Bilge Ceylan; SICARIO – TERRA DE NINGUÉM, de Denis Villeneuve; STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A., de F. Gary Gray.

2015 não foi um ano fácil. Na verdade, do ponto de vista global vai ficar marcado como um dos mais terríveis para muita gente. Aí a gente, pra não ficar se apegando a coisas negativas deve tomar a lição de George, o protagonista de A FELICIDADE NÃO SE COMPRA. Temos muita coisa valiosa para ficar reclamando e a vida não segue os planos que a gente quer, só porque a gente quer. Então, às vezes ficamos cegos àquilo que temos. Então, vamos falar o que teve de bom durante o ano: fora os filmes, posso dizer que os melhores momentos pra mim foram dois: uma viagem dos sonhos aos Estados Unidos e um show e um encontro e troca de conversa com a querida Fernanda Takai. Isso para citar coisas que fugiram à rotina e mexeram no bom sentido com o meu coração.

No território dos filmes, que é o principal ponto desta postagem, posso dizer que a melhor coisa que eu vi no cinema foi OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR, de Jacques Demy, exibido em uma linda mostra dedicada a clássicos do cinema francês. Foi uma experiência intensa, arrebatadora e que me apresentou a um filme extraordinário e que vai ficar agora entre os meus favoritos de todos os tempos.

Quanto aos filmes do circuito, não há como não deixar de falar do testemunho, da glória de ver o cinema em estado puro e cheio de som e fúria apresentada por George Miller em sua obra-prima MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA. Foi o evento cinematográfico do ano, embora não tenha sido tão bem recebido nas bilheterias como o novo capítulo de certa franquia. Já SNIPER AMERICANO, que causou certa controvérsia por ser considerado por alguns como uma produção reacionária, foi o maior sucesso de bilheteria de Clint Eastwood como diretor. E é também um de seus filmes mais marcantes e pungentes.

No campo dos filmes mais misteriosos e desafiadores, temos os maravilhosos JAUJA e NORTE, O FIM DA HISTÓRIA. Nesse território aí, o do chamado cinema de arte ou dos filmes com cara de festival de cinema e com pouca preocupação com o aspecto comercial, podemos também incluir o bressoniano 14 ESTAÇÕES DE MARIA e o debate sobre cinema comercial e teatro no jogo de interpretações de ACIMA DAS NUVENS.

O cinema de horror comparece em dois títulos tão diferentes quanto marcantes: o independente e cultuado CORRENTE DO MAL e a homenagem ao cinema de horror europeu e aos clássicos de Roger Corman dos anos 1960 A COLINA ESCARLATE, com sua paleta de cores tão linda que é difícil de descrever. Já o suspense O PRESENTE foi uma das grandes surpresas do ano. Veio como quem não quer nada e se mostrou um belíssimo exercício de estilo, além de lidar com um assunto em pauta atualmente, o bullying.

O cinema brasileiro comparece no top 20 com quatro belos títulos. O GORILA é um trabalho que me tocou muito por tratar com muita sensibilidade a questão da solidão, que é algo que ultrapassa e muito a subtrama de mistério que o filme também possui. Depois, temos o nosso filme de temática social mais contundente, QUE HORAS ELA VOLTA?, que também traz à tona a questão da maternidade. Tivemos também um lindo retrato de uma época ao mesmo tempo mais feliz e mais soturna, os anos 1980, com CALIFÓRNIA. E fora do circuito, por enquanto, o tocante documentário A PAIXÃO DE JL, sobre a vida de um dos nossos grandes artistas plásticos, José Leonilson.

A vida real serviu de inspiração também para a realização de um dos trabalhos mais magistrais já realizados com a tecnologia 3D, A TRAVESSIA, sobre um homem obcecado com a ideia de cruzar as Torres Gêmeas como um artista de circo. É um dos mais belos trabalhos sobre a arte como transgressão em muito tempo. Já a arte sendo invadida e confundida com a ficção aparece em NICK CAVE – 20.000 DIAS NA TERRA, que nos apresenta à intimidade de um dos mais inspirados cantores e compositores do rock.

O amor como obsessão esteve presente principalmente em dois trabalhos: na história de amor em cinco atos que se revezam EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ, do criador da série MR. ROBOT; e no perturbador e claustrofóbico RESPIRE, que se revela um filme de gênero com o andar da narrativa. Podemos incluir no pacote um outro tipo de amor como obsessão: o amor à arte, ao ofício, apresentado em WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, sobre um jovem disposto a se tornar o maior baterista de jazz do seu país.

E o melodrama, ainda que não necessariamente siga a cartilha do gênero, comparece com DOIS DIAS, UMA NOITE, mais um trabalho de mestres dos irmãos Dardenne, e o tocante DE CABEÇA ERGUIDA, talvez o maior exemplar do amor maior do ano, e da necessidade de insistir e insistir quando tudo parece não valer a pena.

Top 5 Piores do Ano

Sem necessidade de tecer maiores considerações, uma listinha breve daqueles filmes horrorosos que conseguiram transformar a experiência de ver filmes em uma sala de tortura.

1. CAMINHOS DA FLORESTA
2. O DESTINO DE JÚPITER
3. A GANGUE
4. LINDA DE MORRER
5. AMERICAN ULTRA – ARMADOS E ALUCINADOS

As séries

A partir deste ano, em vez de simplesmente listar todas as séries vistas, faço também um ranking das melhores séries do ano, ok? Segue:

1. FARGO (Segunda Temporada)
2. MR. ROBOT (Primeira Temporada)
3. THE WALKING DEAD (Quinta Temporada)
4. DEMOLIDOR (Primeira Temporada)
5. THE AFFAIR (Segunda Temporada)
6. GIRLS (Quarta Temporada)
7. WAYWARD PINES (Primeira Temporada)
8. BETTER CALL SAUL (Primeira Temporada)
9. GAME OF THRONES (Quinta Temporada)
10. NARCOS (Primeira Temporada)

Top 5 – Musas do Ano


Este ano foi difícil selecionar apenas cinco, mas creio que as que estão abaixo representam bem a beleza feminina presente na telona em 2015. A jovem brasileira presente, Leticia Colin, não é cota, é pela graça mesmo. O top 5 musas é uma espécie de homenagem a essas moças que nos fazem sair do cinema apaixonados. No caso de Emmy Rossum, por exemplo, o filme ajuda. No caso de Melissa Benoist, a Supergirl, ela conseguiu brilhar mesmo em papéis mínimos, de tão linda que é. No caso de nossa Furiosa Charlize Theron, é preciso dizer mais alguma coisa? É a melhor personagem feminina do ano. E Lola Kirke é aquela garota que aparece pela primeira vez e já chega chutando a porta com os dois pés.


1. Emmy Rossum (EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ)

2. Melissa Benoist (WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, NÃO OLHE PARA TRÁS e UMA LONGA JORNADA)

3. Charlize Theron (MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA)
4. Lola Kirke (MISTRESS AMERICA)
5. Leticia Colin (PONTE AÉREA)

Os 20 melhores filmes vistos na telinha

Fechemos, então, a lista daqueles filmes vistos em casa pela primeira vez. Vi menos filmes em casa do que gostaria, mas até que o saldo foi bem positivo. Em ordem alfabética, para descomplicar:

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, de Frank Capra
A PELE DE VÊNUS, de Roman Polanski
A TURBA, de King Vidor
A VÊNUS LOURA, de Josef von Sternberg
BÊNÇÃO MORTAL, de Wes Craven
CAMINHO PARA O NADA, de Monte Hellman
COPACABANA ME ENGANA, de Antonio Carlos Fontoura
CORPO DEVASSO, de Alfredo Sternheim
DE MENOR, de Caru Alves de Souza
ESPECIAIS EFEITOS, de Larry Cohen
EX-MACHINA – INSTINTO ARTIFICIAL, de Alex Garland
FRANCISCA, de Manoel de Oliveira
GREMLINS, de Joe Dante
HISTÓRIAS DE AMOR, de Josh Radnor
LÚCIA McCARTNEY, UMA GAROTA DE PROGRAMA, de David Neves
MAD MAX, de George Miller
MARROCOS, de Josef von Sternberg
NOSFERATU, de F.W. Murnau
PROFISSÃO MULHER, de Claudio Cunha
UM SONHO, DOIS AMORES, de Peter Bogdanovich

Revisões

ALIEN, O 8º PASSAGEIRO, de Ridley Scott
CANIBAL HOLOCAUSTO, de Ruggero Deodato
CINEMA PARADISO, de Giuseppe Tornatore
ELES NÃO USAM BLACK-TIE, de Leon Hirszman
ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de Sergio Leone
FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann
FOME DE VIVER, de Tony Scott
MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA, de George Miller
O BATEDOR DE CARTEIRAS/PICKPOCKET, de Robert Bresson
O DESPREZO, de Jean-Luc Godard
O EXTERMINADOR DO FUTURO, de James Cameron
S. BERNARDO, de Leon Hirszman

Feliz 2016!

Que o ano novo seja tudo menos aquilo que os pessimistas estão prevendo: que a felicidade e o bem estar não estejam presentes apenas nos melhores filmes (e nos livros, e na música), embora sempre queiramos mais desse combustível para a vida. Amor(es), paz, dinheiro, viagens, sonhos realizados, sucesso profissional e surpresas bem-vindas a todos nós neste ano que se inicia daqui a pouco.

terça-feira, dezembro 29, 2015

ZÉ DO CAIXÃO



Certamente quem leu a biografia Maldito, de André Barcinski e Ivan Finotti, ou mesmo quem tem um pouco mais de intimidade com os filmes do Mojica ficará um tanto frustrado com esta minissérie que leva o nome ZÉ DO CAIXÃO (2015), exibida recentemente no canal Space. O fato de querer condensar boa parte da vida e da obra de José Mojica Marins em apenas seis episódios de menos de uma hora não podia mesmo render bem, embora o trabalho de personificação de Matheus Nachtergaele seja ótimo.

Cada episódio centra em algum filme e em um momento específico da vida e da obra desse gênio do cinema brasileiro, embora a imagem que fique muitas vezes é de uma espécie de Ed Wood, alguém sem noção do que está fazendo. Não é nem o caso de comparar a minissérie com o filme de Tim Burton, pois aí é covardia. O que é vendido erroneamente ao longo dos seis episódios é sim de um homem que sabe pouco de cinema, embora muito criativo (a ideia de pintar os cavalos na falta de outros nas filmagens de A SINA DO AVENTUREIRO é genial) e que teve um momento de grande popularidade.

Uma boa maneira de curtir a série, na medida do possível, é esquecendo um pouco a vida real e os filmes dele e se deixando levar pela imagem quase trágica de um homem que cometeu uma série de erros por falta de orientação ou mesmo por falta de dinheiro, como quando ele vendeu os direitos de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA por uma ninharia e o filme rendeu horrores nas bilheterias. O nome “Zé do Caixão” ficou quente e marcante na cultura popular.

Uma pena que algumas escolhas tenham sido muito infelizes, como colocar na boca de um personagem chamado Chicão, uma homenagem ao Carlão Reichenbach, a idiotice de dizer que Mario Bava é giallo, e que giallo é lixo. Carlão teria ficado furioso se estivesse vivo. Se serve de consolo (não serve, eu sei), isso é dito quando Chicão questiona o fato de Mojica estar dirigindo algo ruim como AS MULHERES DO SEXO VIOLENTO quando fez uma obra-prima proibida pela censura como RITUAL DOS SÁDICOS. É mais para comparar o seu ponto máximo com as tranqueiras que ele dirigiu posteriormente e que acabou prejudicando sua imagem.

Curioso que, dentro dos filmes realizados na década de 1970, que foi um período até que bastante produtivo, ainda que de qualidade bem inferior aos anos 1960, a minissérie escolheu ESTUPRO como destaque. Talvez por causa da cena do mamilo ou por ter uma trama envolvendo uma mulher suspeita de assassinato financiando o filme, o que rende algumas cenas engraçadas com o Mário Lima, grande amigo de Mojica e parceiro para todas as horas.

Nessa corrida contra o tempo, o sexto episódio apresenta a decadência de Mojica nos anos 1980, quando ele adere aos filmes de sexo explícito, que passaram a ser febre na Boca do Lixo. Apesar de alguns momentos tristes, até que é um episódio engraçado, tanto pela cena do cachorro fazendo sexo com uma mulher, como pelo fato de ele ficar arrasado quando Nilse, sua mulher, lhe diz que se converteu a uma igreja evangélica. Disso eu não lembro no livro, mas minha memória não é mesmo muito boa.

Falando em livro, uma boa oportunidade de ler e de reler esse delicioso trabalho é o lançamento luxuoso em capa dura e com muitas páginas (666) pela Darkside. Ler o livro e ver os filmes oferece uma dimensão da vida e da obra de Mojica que a minissérie passa bem longe de apresentar. Porém, se a minissérie conseguir atrair espectadores para o cinema de Mojica, ela já prestou um baita serviço.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

HOMELAND – A QUINTA TEMPORADA COMPLETA (Homeland – The Complete Fifth Season)



A ideia de distanciar Carrie Mathison (Claire Danes) do fantasma de Nicholas Brody (Damian Lewis), que foi o foco das três primeiras temporadas, deu um novo gás a HOMELAND em sua quarta e excelente temporada. A ideia passou a ser, então, fazer uma temporada dedicada a uma aventura específica de Carrie, de preferência fora de seu país natal, os Estados Unidos. Assim, na temporada passada, ela esteve no Paquistão, um território perigoso e que rendeu muitas emoções, além de também mostrar Carrie como uma personagem capaz de atos bem cruéis, problematizando a heroína.

A quinta temporada (2015) se passa na Alemanha, lugar em que ela se estabeleceu para ter finalmente um pouco de paz e se desligar de vez da CIA. Com o salto temporal de alguns anos, agora ela trabalha numa empresa privada, mora junto com um cara que ama e cuida da filha pequena, ainda que tenha que lidar com seus sentimentos de culpa, que gerarão fantasmas ainda mais assustadores em determinado episódio, logo no começo da temporada.

Outro personagem muito querido da série, Peter Quinn (Rupert Friend) também é uma pessoa amargurada que agora trabalha como matador de aluguel da CIA: ele recebe o nome de uma pessoa em uma caixa postal e tem que dar cabo dela o mais rápido possível. Geralmente são pessoas associadas ao Islã. Ele executa os serviços sem culpa, com sangue frio. Enquanto isso, Saul Berenson (Mandy Patinkin), ex-chefe de Carrie, está passando por Berlim, justo quando acontece um vazamento de informações ultraconfidenciais da inteligência americana por uma dupla de hackers.

Embora a quinta temporada não tenha o mesmo vigor da anterior, ela está muito mais em sintonia com o que está acontecendo no mundo: o ataque terrorista a Paris é citado, tendo acontecido durante as gravações, bem como a situação política da Síria. Em um de seus melhores episódios – talvez o melhor –, Carrie é enviada por seu chefe ao Líbano, na fronteira com a Síria, a fim de ajudar um grupo de refugiados sírios. O episódio acaba se tornando um dos mais tensos e nos lembra o quanto a quarta temporada, ambientada em um país islâmico, foi boa. Destaque para o momento em que Carrie fala com um líder do Hezbollah, a fim de que ele a ajude com um inimigo em comum, o Estado Islâmico.

Pena que a série teve mais uma vez que botar a culpa nos russos, tradicionais vilões de filmes e séries desde a Guerra Fria. Em compensação, o time de atores alemães é muito bom:Miranda Otto, como a raposa Allison Car; Sebastian Koch, como o empresário Otto Düring; e Nina Hoss, como a agente Astrid. São novos personagem e novos ares que a série respira e a temporada se beneficia disso em vários episódios. Em algum momento, porém, a trama se perde, embora os conflitos se resolvam no final, sempre em tom amargo.

É torcer para que os roteiristas estejam mais inspirados para a sexta temporada. Carrie Mathison é uma personagem tão fascinante, adorável e representativa quanto Jack Bauer era no cenário das séries de espionagem para que seja desperdiçada em tramas fracas.

domingo, dezembro 27, 2015

AS SUFRAGISTAS (Suffragette)



Eis um filme que reflete bem o espírito de nossa época, dos últimos anos e em especial deste ano, que testemunhou o avanço do feminismo nas redes sociais e nas artes. O cinema, como reflexo da sociedade, não tem ficado atrás e mesmo filmes de ação de grande repercussão, que antes eram liderados apenas por homens foram protagonizados por mulheres, como foi o caso de duas super-produções, MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA e STAR WARS: EPISÓDIO VII – O DESPERTAR DA FORÇA.

AS SUFRAGISTAS (2015), dirigido por Sarah Gavron, escrito por Abi Morgan (roteirista de SHAME e A DAMA DE FERRO) e produzido por várias mulheres, sem falar em outras funções técnicas também assumidas por mulheres na produção, é um exemplo claro de que a mulher quer ter o direito de contar sua própria história de luta. E uma vez que o filme termina nos perguntamos por que há tão poucos trabalhos que se detêm sobre esse momento histórico tão importante. Afinal, se a mulher hoje pode votar, exercer o seu direito de cidadania e assumir cargos públicos é por causa do esforço e do sacrifício dessas pioneiras que perderam a família, os empregos e até mesmo a própria vida para que o sonho de uma vida digna fosse materializado.

O filme acompanha a jornada de Maud Watts, interpretada de forma inspirada pela bela e talentosa Carey Mulligan. Maud é uma jovem mulher que trabalha como lavadeira de roupas em uma empresa administrada por um homem acostumado a abusar sexualmente de suas jovens empregadas. Maud, ao chegar cansada do trabalho, ainda tem que cuidar do filho e do marido (Ben Wishaw).

Maud encontra uma razão para viver ao se aliar a um grupo de mulheres rebeldes que praticam a desobediência civil para chamar a atenção da sociedade. Se com palavras ninguém as ouve, por que não quebrar vidraças, incendiar caixas postais, e se necessário até mesmo ir para a cadeia por suas ações? O perigo que o filme corre, porém, é pintar os homens excessivamente maus. E é o que acontece, com exceção do farmacêutico, que apoia as ações da esposa (Helena Bonham Carter), uma das líderes do movimento das sufragistas.

Mas não deixa de ser interessante ver os investigadores de polícia, encabeçados pelo ótimo Brendan Gleeson, tratando as ações das mulheres como se fossem atos de extrema periculosidade, como se elas fossem espiãs internacionais ou algo do tipo. De certa forma, são mesmo ações perigosas para os homens que veem aqueles gestos como imorais ou criminosos, uma vez que para eles as mulheres têm que se manter passivas diante da lei e da cultura opressoras.

AS SUFRAGISTAS é um filme que poderia alcançar melhores resultados do ponto de vista artístico, ser ainda mais contundente nas emoções, embora a cena do aniversário do filho de Maud seja de cortar o coração, mas é a tal coisa: se o foco é contar uma história ainda que de forma convencional, mas que sirva como incentivadora de debate político não só sobre o passado, mas também sobre o quanto ainda deve ser conquistado no presente, a diretora Sarah Gavron até que se saiu muito bem, tanto na criação de suas adoráveis e corajosas personagens femininas quanto no cuidadoso trabalho de reconstituição de época.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It's a Wonderful Life)



Antes tarde do que nunca. Depois de décadas de cinefilia, só hoje peguei pra ver o grande clássico de fim de ano A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946), de Frank Capra. O porquê disso? Talvez por preconceito, por achar que fosse cafona (logo eu, que adoro melodrama, vejam só), ou por muitas vezes preferir algo mais alternativo ou diferente daquilo que é normalmente citado nas listas mais convencionais. O fato é que foi um erro meu, que felizmente tive tempo de desfazer.

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA é desses filmes que aquebrantam o coração e elevam a alma. Um exemplar de uma época mais inocente da humanidade e do cinema e com uma estrutura formal bem clássica e gostosa e de acompanhar, o filme se inicia com orações de diferentes pessoas pela vida de um homem, George Bailey, vivido por um dos atores mais queridos de Hollywood, James Stewart. Em seguida, vemos o ponto de vista dos anjos, que resolvem fazer a sua parte e enviar um de seus membros para ajudá-lo, um anjo de segunda categoria que nem asas tinha ganhado ainda. Salvar aquele homem seria a sua grande oportunidade.

Mas antes disso o filme volta no tempo até a infância de George, quando ele trabalhava em uma farmácia (as crianças já trabalhavam naquela época) e, acabou evitando que uma pessoa morresse envenenada. Na lista de suas atitudes bondosas iniciais também está o salvamento da vida de seu irmão pequeno. Nota-se que esse sujeito desengonçado que é George tem um coração enorme, bem característico de fábulas. E é bem o que esta obra-prima de Capra é, uma fábula, além de ser também um melodrama e um filme que dialoga com o espírito dos Estados Unidos do pós-guerra – provavelmente a paranoia da Guerra Fria ainda não houvesse se instalado.

E ao contrário do que se possa parecer, o filme não é também um libelo ao american way of life, no sentido de enaltecer o capitalismo, a não ser que seja de maneira muito sutil, pois os atos de George Bailey são bem autruísticos. Diferente do homem de negócios vivido por Lionel Barrymore, que desde o início se revela o grande vilão da história, uma espécie de diabo que tenta seduzir o nosso herói com dinheiro para que ele deixe de beneficiar as outras pessoas e pare de prejudicar os seus negócios.

No fim das contas, o dinheiro, apesar de ser um bem necessário para a realização de muitas coisas, inclusive trazer mais alegria, conforto e tranquilidade para sua esposa adorável (Donna Reed, apaixonante) e seus filhos, acaba sendo algo de pouca importância comparado com tudo o mais que ele havia conquistado e melhorado durante sua existência na Terra. Tudo fica muito claro a partir da ação do anjo vivido por Henry Travers. E nisso, A FELICIDADE NÃO SE COMPRA é um dos mais lindos libelos sobre o valor da vida que o cinema já criou.

Na época em que foi realizado, o filme dividiu opiniões dos críticos e é até fácil entender o motivo, já que se trata de uma obra que anda bem próxima do kitsch, mas que, com o passar dos anos, principalmente quando começou a ser reprisada na televisão, tornou-se um clássico de valor quase que incontestável. É o caso de obra que só fica melhor à medida que envelhece. E que, justamente por ser mais antigo, reverbera como a mensagem de um velho sábio que está ali para nos levantar o espírito e nos mostrar o quanto temos sorte.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

JESSICA JONES



E a Netflix acerta mais uma vez em sua segunda parceria com a Marvel. Depois de produzir DEMOLIDOR e elevar as séries de super-heróis para níveis inimagináveis, o principal serviço de streaming do mundo dá um passo ainda maior ao apostar em uma personagem pouco conhecida do Universo Marvel, a investigadora particular Jessica Jones, criada por Brian Michael Bendis e Michael Gaydos em 2001 para o selo adulto Marvel Max com o título de Alias.

Como já há uma série com este nome (a protagonizada por Jennifer Garner), nada mais justo que dar à série o nome de sua protagonista, JESSICA JONES (2015). A série faz parte de um projeto de quatro títulos que pretende trazer também o Punho de Ferro e o Luke Cage. Este último, aliás, já aparece de maneira bem generosa na série da Jessica (Krysten Ritter), como interesse romântico dela. Nos quadrinhos, o primeiro encontro erótico dos dois é antológico e o relacionamento deles rendeu até mesmo um casamento e uma gravidez, além de participações no grupo dos Vingadores.

A série, claro, teve que fazer algumas adaptações e não seguiu à risca a história em quadrinhos. Ainda que faça parte do mesmo universo Marvel do cinema – com sutil citação aos eventos de destruição da cidade de Nova York no filme dos Vingadores –, a intenção da série é adotar um estilo menos fantasioso. Por exemplo, o grande vilão, Killgrave (David Tennant), não precisaria aparecer com a pele toda roxa. Optou-se apenas pela camiseta com essa cor.

Também não temos a Miss Marvel como grande amiga, mas temos uma loira linda e que possui uma relação ainda mais próxima com Jessica, Trish Walker, vivida pela belíssima Rachel Taylor. Trish é não apenas a melhor amiga de Jessica, mas que cresceu com ela na mesma casa durante a infância e adolescência. São como irmãs.

JESSICA JONES segue uma tendência muito interessante do mundo contemporâneo, que tem dado mais papéis de destaque às mulheres do que o que antes lhes era relegado. Em vez de donzelas em perigo, mulheres independentes que não precisam tanto da ajuda do macho-alfa, embora ele esteja lá, representado principalmente por Luke Cage, mas como personagem secundário. O que mais importa é mesmo a questão do abuso, seja ele de natureza sexual ou de outra natureza também, o que é um acerto monstruoso da série, aproveitando um super-vilão que tem o poder de fazer com que as pessoas obedeçam a sua vontade.

Há, inclusive, o sentimento de culpa que a própria vítima sente ao pensar no tempo em que foi dominada pelo algoz. É o caso de Jessica, que tem uma história com Killgrave, uma história que encerrou de maneira trágica e a deixou na pior, alcoólatra, amarga, depressiva e nada sociável. Encontra em Luke Cage uma espécie de alma gêmea, nesse sentido.

Apesar de encher linguiça em alguns momentos de seus 13 episódios, o que a faz menos empolgante que DEMOLIDOR, as qualidades da série compensam. Há uma utilização de música muito interessante, com um piano suave que acompanha a narrativa, dando-lhe um ar jazzístico e neo-noir.

A violência não parece tão brutal quanto na série do Homem sem Medo, mas é também bem gráfica. Como a personagem tem super-força, alguns momentos requerem uma suspensão maior da descrença nas cenas de luta física. No mais, o desenvolvimento da luta dela com seu maior inimigo, que é malvado o suficiente para se querer a sua morte, é muito inteligente e criativo, especialmente nos dois episódios finais. Bom saber que a Marvel está em boas mãos. E torçamos para que as séries seguintes dessa parceria consigam manter a qualidade das duas primeiras.

terça-feira, dezembro 22, 2015

MACBETH – AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth)



A palavra tem poder. Até quem não é religioso acredita nisso. E MACBETH – AMBIÇÃO E GUERRA (2015) é um filme sobre a palavra usada para gerar maldição, ou o florescer do que há de pior na alma humana. As primeiras cenas, que remontam à direção de arte e figurino de CORAÇÃO VALENTE, de Mel Gibson, com os escoceses pintados e vestidos para a guerra contra os ingleses, são apenas um breve prelúdio para aquilo que realmente importa: o encontro de Macbeth (Michael Fassbender), um general do exército escocês, com as três bruxas que lhe contarão que ele será um rei.

Isso vira a cabeça do sujeito que, incentivado pela esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard), passa a aceitar que, para ele atingir a estatura de um rei, é necessário que ele assassine o rei vigente, o bondoso Duncan, vivido por David Thewlis. Ao contrário do que se esperava, esta versão de Justin Kurzel da tragédia de William Shakespeare não é tão sangrenta. Para o bem e para o mal, já que às vezes passa a impressão de que é um filme que tem medo de parecer vulgar.

E realmente “vulgar” não é um termo que se use para esta produção, tão bonita de se ver e com uma dupla de atores tão competentes, para dizer o mínimo. Mas acontece que transpor Shakespeare para o cinema não é para todo mundo. E se Kurzel acerta em alguns momentos, ele comete o pecado de assinar um Macbeth frio, sem muitas emoções, talvez pela intenção em usar o texto original do bardo inglês.

Voltando à questão da força da palavra brevemente comentada no primeiro parágrafo, o filme destaca muito bem essa marca da peça, principalmente quando vemos Lady Macbeth orando para as forças do mal dentro de uma igreja cristã, de tão disposta que estava em atingir o seu objetivo. A cena não deixa de ser um tanto assustadora e um dos melhores momentos do filme. Novamente, o chamado através das palavras contribui para o terrível pecado, que depois perturbará o espírito daqueles que o cometeram.

Ver uma nova adaptação de MACBETH, assim como ver qualquer outra adaptação de obra famosa, é já saber a história e apreciar o que ela apresenta de novo, percebendo também o quanto o trabalho literário continua forte passados já vários séculos de sua escritura. Neste ano mesmo, por exemplo, tivemos a chance de ver o brasileiro A FLORESTA QUE SE MOVE, de Vinícius Coimbra, que não muda tanto assim a trama original quanto se imagina. Portanto, o diretor, qualquer que seja, sabe que a história já é conhecida por muitos e que o filme será visto também por uma parcela de apreciadores de William Shakespeare. Logo, o novo filme vale pelo que ele traz de diferente.

O que Kurzel traz de novo nesta adaptação é, além da velha história contada através de atores novos, a bela fotografia que privilegia o vermelho em suas tonalidades  – o próprio céu é lindamente vermelho. Há também os silêncios que servem como contraponto para as palavras fortes e poéticas do texto. Servem também para imprimir uma atmosfera de crescente tensão, acentuada pela trilha sonora que utiliza instrumentos de percussão nos momentos mais intensos e violentos. Uma pena que todo esse cuidado não tenha trazido uma verdadeira catarse para o espectador, algo tão importante quando em se tratando de tragédias clássicas.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

THE AFFAIR – SEGUNDA TEMPORADA (The Affair – Season Two)



A primeira temporada de THE AFFAIR trouxe uma série de situações que traziam uma mistura de sentimentos: culpa, excitação, empolgação, medo, tudo relacionado ao que víamos através dos pontos de vista distintos e às vezes contraditórios de Noah (Dominic West) e Alison (Ruth Wilson), os responsáveis pelos fins dos seus respectivos casamentos ao resolverem, enfim, viverem juntos, deixando para trás muita dor.

O temor com o fato de a segunda temporada (2015) ser uma continuação direta dos eventos da primeira estava em não conseguir dar o mesmo tratamento da primeira. Felizmente, não é isso que acontece, já que o sentimento de angústia permeia toda a temporada, até porque, dessa vez, também nos é dada a chance de acompanhar a narrativa pelos pontos de vista de Helen (Maura Tierney) e Cole (Joshua Jackson), os traídos da história, enriquecendo, assim, a trama.

Enquanto a série nos apresenta diferentes versões dos fatos permeadas com suspense, ela também quebra um pouco isso quando retorna ao presente, ao momento em que Noah está sendo confrontado num tribunal por um crime que ele diz não ter cometido, o da morte por atropelamento na estrada de Scotty, o irmão de Cole. As respostas para essas perguntas serão dadas apenas no último episódio da temporada, de modo que saibamos a parcela da culpa de Noah ou de quem quer que seja.

A culpa também corrói Alison, que trai Noah uma noite com o próprio ex e isso trará consequências sérias para o relacionamento dos dois, embora tudo passe a ser pequeno diante da tragédia que ainda ocorrerá. Enquanto isso, ao longo da temporada, acompanhamos o rumo que Cole e Helen levam após o fim de seus casamentos, na tentativa de seguir em frente sozinhos até encontrar alguém para sarar a dor.

O interessante desses personagens é o quanto eles são tão intimamente ligados, a ponto de sentirem ainda uma ponta de amor pelos ex-companheiros, como acontece em um episódio em que Noah sai com a ex-esposa e lembra o quanto ela é adorável e divertida, ou quando se percebe o carinho que Cole ainda nutre por Alison, que só aumenta quando ele supera tudo ao conhecer Luisa, vivida por uma muita bem-vinda Catalina Sandino Moreno, que rouba a cena no episódio em que os dois ficam juntos pela primeira vez.

THE AFFAIR, ao lidar mais a fundo com os aspectos psicológicos de seus personagens, da dor que os separa, e do crime que os une, se mostra uma das séries mais interessantes e mais adultas produzidas atualmente nos Estados Unidos. Curiosamente, há um capítulo que se passa totalmente no divã de um analista e liga THE AFFAIR a outra série escrita/produzida pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem, a ótima EM TERAPIA (2008-2010).

Interessante notar que em algum momento a série corre o risco de tornar o personagem Noah quase insuportável, seja pelas mancadas que ele dá, seja pela superioridade psicológica das mulheres que passam por sua vida. Felizmente, ele vai alcançando um pouco de redenção perto do final, que ainda não é bem um final, já que há a arriscada terceira temporada. Boa sorte e um muito obrigado a todos os envolvidos.

domingo, dezembro 20, 2015

NORTE, O FIM DA HISTÓRIA (Norte, Hangganan ng Kasaysayan)



Certos filmes requerem uma predisposição por parte do espectador. E, no caso de NORTE, O FIM DA HISTÓRIA (2013), nem é tanto pelo andamento ou pelos chamados "tempos mortos", que até são poucos neste filme de Laz Diaz, primeiro do celebrado cineasta filipino a ser lançado comercialmente no Brasil, o que constitui um ato nobre e político por parte dos exibidores, num momento em que a força do dinheiro se mostra mais importante do que a arte.

O filme é uma adaptação livre do romance Crime e Castigo, de Dostoiévski, e tem uma narrativa bem intrigante que une três personagens. Temos Fabian, o sujeito que se orgulha de suas ideias pouco ortodoxas com relação à sociedade e à ética; Eliza, a mulher que, com muito sacrifício, procura sobreviver à pobreza e à maldade de uma agiota local; e o seu marido Joaquin, homem que é preso por um crime que não cometeu.

O trabalho de composição e rigor visual de Diaz é admirável, com uma tela larga que valoriza os planos médios e gerais, sendo assim um convite para que seja melhor apreciado no cinema, o que infelizmente é uma tarefa um tanto complicada para grande parte do público brasileiro, já que poucas salas ousaram exibi-lo.

O que pode pesar um pouco são os 250 minutos de duração e é isso que tem impedido que o filme alcance um público maior – no dia da estreia nacional, apenas Fortaleza e Niterói receberam o filme, ainda que já se previsse uma audiência pequena.

O que é uma pena, pois, NORTE, além de grande cinema que é, ainda se revela vitrine para uma cultura pouco conhecida no Brasil: a das Filipinas, país que ainda tenta se reerguer de um duro período de ditadura e cuja cultura se mostra bastante dominada pelo inglês no idioma local. Isso porque, depois de vários séculos de dominação espanhola, o arquipélago passou a ser território dos Estados Unidos durante algum tempo. Isso explica, em parte, o papo filosófico em inglês em um cyber cafe que abre o filme.

Os três personagens principais possuem seu rincão de cenas admiráveis: Fabian e o último encontro com a agiota e depois os momentos em que ele contracena com a irmã, ambos refletindo aspectos bastante trágicos de sua existência; Eliza e as tentativas de vender objetos e animais para sair da miséria, e logo depois seu posicionamento heróico frente à crise e ao fato de o marido estar preso; e Joaquin e sua redenção pela bondade durante a prisão, o que torna a curva de sua vida o extremo oposto do que ocorre com Fabian. Enquanto Fabian tem o espírito corroído pela culpa, Joaquin aceita a injustiça e mostra o espírito puro que chega, inclusive, a comover um presidiário extremamente cheio de maldade na alma.

Apesar disso, NORTE, O FIM DA HISTÓRIA não é bem um filme com uma mensagem do tipo faça o bem que você será recompensado e vice-versa. Os destinos dos personagens são diversos e apresentam a vida como uma sucessão de eventos que tendem a seguir um caminho totalmente diverso do que se veria em narrativas mais convencionais e arquetípicas sobre causa e efeito. Aqui todos são vítimas, sejam culpados ou não por seus atos.

sábado, dezembro 19, 2015

STAR WARS: EPISÓDIO VII – O DESPERTAR DA FORÇA (Star Wars – The Force Awakens)



Afirmar que STAR WARS: EPISÓDIO VII – O DESPERTAR DA FORÇA (2015) é um dos filmes mais esperados do ano não deixa de ser uma verdade, levando em consideração a massiva propaganda que invade os cinemas desde o ano passado, quando desembarcou o primeiro teaser trailer. Junte-se a isso toda uma tradição construída ao longo de quase 40 anos de existência da franquia, de culto à mitologia criada por George Lucas a partir de influências de Tolkien, principalmente.

O termo mitologia, aliás, se aplica muito fortemente à marca Star Wars, que se prolonga além dos filmes, através de séries animadas, quadrinhos e livros. O cinema em breve seguirá esse caminho também, trazendo filmes extras com aventuras passadas no universo da série em diferentes momentos da cronologia. A começar com ROGUE ONE: A STAR WARS STORY, de Gareth Edwards, diretor de GODZILLA (2014). A Disney, desde que comprou os direitos do Universo Star Wars está sabendo aproveitar essa mina de ouro, que estava um tanto parada devido à preguiça de seu criador.

O DESPERTAR DA FORÇA é uma aventura admirável, ainda que peque por manter a tradição do tipo de interpretação ruim bem característica dos trabalhos de Lucas e muito presente na segunda trilogia. É como se J.J. Abrams fosse obrigado a assumir o estilo do criador, a fim de não desvirtuar a franquia. E não é a primeira vez que J.J. se divide. Basta lembrar de SUPER 8 (2011), quando ele teve que ser ele e também Spielberg; e STAR TREK (2009), ao assumir o controle da Enterprise com direito à participação de Leonard Nimoy como o Spock da série clássica.

Curiosamente, O DESPERTAR DA FORÇA é também sobre divisão. No caso, a divisão entre o bem e o mal, que rasga a alma do personagem Kylo Ren, um jovem homem que assume a posição de um novo Darth Vader, mas que, veremos a seguir, é alguém que possui uma fagulha do lado bom da Força, graças ao treinamento que teve com um famoso e mítico mestre Jedi.

O bem e o mal em STAR WARS não possuem tons de cinza. E nisso é que a série se assume como algo ainda mais mitológico e épico. O que se aproxima mais disso é mesmo esse sentimento de perturbação no espírito, uma vez que se é tomado pelo mal, que tem forte ligação com o medo.

Falando dos personagens novos, como não gostar de Rey (Daisey Ridley) e Finn (John Boyega)? São duas pessoas saídas da marginalidade, por assim dizer. Ela é uma catadora de lixo, ele é um storm trooper que percebe que está do lado errado da guerra, e que não quer lutar do lado da terrível Primeira Ordem, a nova face do Império, e que assume aqui feições muito semelhantes às do nazismo. Os rebeldes da primeira trilogia agora fazem parte da Resistência, o que lembra o posicionamento da França na Segunda Guerra Mundial.

Mas voltando a Rey e Finn, um dos momentos mais bonitos do filme é quando eles se encontram e logo veem que têm uma conexão forte, quase instantânea. Ela é encantadora, forte e independente, ele é o cara que veio de baixo e quer passar a imagem de quem não é, a fim de conquistá-la, ainda que essa intenção não seja explicitada no filme, até por não se ter muito tempo de sair do modo ação. Essa relação lembra um pouco a do garoto de SUPER 8 em relação à menina bonita vivida por Elle Fanning.

A saída dos dois na Millennium Falcon e o posterior encontro com Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca são pontos altos também, pelo muito do que isso representa para os fãs e pelo tanto que os velhos personagens e a velha nave trazem de recordações para várias gerações. Mas algo se perde da metade para o final, com certo cansaço causado pelas cenas de ação e também por ser difícil engolir Adam Driver como um vilão daquele tipo sem ficar lembrando seu personagem na série GIRLS. É como se estivéssemos vendo Adam em um cosplay de STAR WARS.

Inclusive, há uma cena dramática, que deveria ser trágica e levar o espectador às lágrimas, que, devido às interpretações ruins acaba causando apenas indiferença. Incapacidade de Abrams em construir o drama? Culpa do roteiro? Necessidade de seguir a cartilha George Lucas de interpretação? Pressão da Disney? Não importa muito, depois que o mal está feito.

O que importa é que temos mais dois filmes pela frente da nova trilogia com dois personagens novos e carismáticos que podem fazer a diferença dentro de uma trama melhor elaborada que saiba situá-los no cenário junto com os personagens clássicos sem que isso pareça forçado. Isso é possível. Enquanto isso, a Disney ainda vai lucrar bastante com bonecos dos personagens, principalmente do robozinho fofo BB-8.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

FARGO – A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Fargo – The Complete Second Season)



O formato de minissérie ou de série fechada tem dado certo, como é o caso de AMERICAN HORROR STORY e também de TRUE DETECTIVE. Não é preciso que um espectador tenha acompanhado a temporada anterior para poder começar a apreciar a nova. E ainda há a vantagem de a produção se destacar das outras séries nas premiações, aumentando suas chances nas indicações. FARGO é outro bom exemplo dessa safra recente de séries fechadas. E felizmente das melhores que se tem notícia. Diria que a melhor.

A segunda temporada (2015) se passa cerca de 20 anos antes da primeira, tendo em comum um personagem coadjuvante da primeira, que agora aparece como principal, o policial Lou Solverson, agora vivido por Patrick Wilson, em atuação sóbria. Ele é um dos homens honrados da série, um sujeito que lutou no Vietnã, mas que conseguiu sair de lá são. Agora sua grande batalha é torcer pela luta de sua jovem esposa contra um câncer no seio.

Os demais personagens são sujeitos violentos, como os irmãos Gerhardt, que lutam para manter a grande propriedade e os negócios escusos em sua região, enquanto são ameaçados por forças rivais. Se do lado dos burros e desastrados Gerhardts quem ganha mais destaque é justamente um índio muito inteligente e sagaz (Zahn McClarnon), do outro lado da disputa, temos um sujeito negro que parece saído de um filme do Tarantino, o capanga Mike Milligan (Boken Woodbine).

Quem não é violento por natureza acaba sendo violento por força das circunstâncias, por assim dizer, e a segunda temporada não se chamaria FARGO se não trouxesse novamente mais um banho de sangue. Tudo bem que tudo começa com a atuação de um dos irmãos Gerhardt, mas o que desencadeia a série de efeitos dominó da série é a decisão da cabeleireira Peggy Blumquist, que atropela acidentalmente o caçula da família Gerhardt e sai arrastando o seu corpo ainda em vida no para-brisa do carro até a garagem da sua casa. O pobre do marido, um açougueiro, Ed Blumquist (Jesse Plemons), por amor à esposa, acaba tendo que destruir os restos mortais do bandido/vítima usando uma ferramenta de seu trabalho – um moedor de carne moída quebra um galhão nessas horas.

E em meio a esse humor negro todo especial, a segunda temporada ainda tem o mérito de trazer elementos dramáticos que a tornam tão ou mais especial do que a primeira, com personagens mais carismáticos e adoráveis. Sem falar que há um episódio tão fantástico (pense no uso que você quiser do termo), "The Castle", o penúltimo, que eleva FARGO à categoria de série cult.

Outro lindo destaque da série é a utilização da tela dividida das mais variadas maneiras, mexendo com o tempo e com as perspectivas, e trazendo um ar de ainda mais sofisticação para a série, que também se ressalta pela beleza da fotografia em cores fortes e pela direção de arte caprichada, que reconstrói o encanto dos anos 1970. Sem falar que de vez em quando ouvimos pérolas musicais da época, como "War pigs", do Black Sabbath tocando no último episódio.

Pra encerrar, mesmo tendo a convicção de que falei tão pouco da série, como não ficar arrepiado com o diálogo entre Peggy e Lou no carro de polícia no último episódio? Peggy é a personagem da vida de Kirsten Dunst, o auge de sua carreira até o momento, e que também surge em um momento particularmente interessante dos discursos feministas. E que bom que isso se dá em uma série de tão alto valor.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

QUATRO FILMES COM TEMÁTICA HOMOAFETIVA



Peço desculpas àqueles que acompanham o blog pela falta de postagens, mas é que eu ando passando por umas dificuldades na vida, tanto de saúde quanto profissional. Portanto, textos mais elaborados e que requerem um pensar mais afiado, ainda que dentro daquilo que satisfaz minimamente a mim mesmo estão fora de cogitação esses dias. Hoje, como não consegui cabeça para escrever um texto acadêmico, lá vamos nós para breves parágrafos sobre filmes. O tema aqui é a relação homoafetiva, que está cada vez mais comum no cinema contemporâneo, que é reflexo de uma maior liberdade conquistada pela sociedade ocidental.

THE NORMAL HEART

O nome de Ryan Murphy nem sempre é associado a coisas boas, mas com THE NORMAL HEART (2014, foto), que ele dirigiu para a HBO, baseado em uma peça de Larry Kramer, houve um resultado até que bastante positivo, muito por causa do ótimo elenco. O filme se passa durante o início dos anos 1980, quando a então chamada “praga gay” chegou para aterrorizar. THE NORMAL HEART apresenta os esforços de um grupo de pessoas, a maioria delas gay, vítima direta ou indiretamente do vírus HIV, em buscar ajuda e compreensão da sociedade americana, que costumava rotular e ter muito preconceito com essas pessoas. O ótimo elenco conta com Mark Ruffalo, Taylor Kitsch, Jim Parson, Julia Roberts e o premiado com o Globo de Ouro Matt Bomer.

O AMOR É ESTRANHO (Love Is Strange)

Ira Sachs já havia ganhado notoriedade com um trabalho bem independente, mas que chamou a atenção dos críticos franceses, DEIXE A LUZ ACESA (2012). Com O AMOR É ESTRANHO (2014) ele alcança o mainstream deixando de lado algumas cenas mais físicas do trabalho anterior e centrando no amor entre dois homens na terceira idade passando pela difícil situação de ter que viverem separados um do outro por circunstâncias financeiras, que por sua vez foram causadas por um problema de preconceito. John Lithgow e Alfred Molina são dois namorados que moram juntos e decidem se casar. O problema é que, devido à situação de desemprego de um deles, os dois precisam morar em casas diferentes de familiares, gerando transtornos para eles e para as famílias que os abrigam. O final é particularmente belo.

ENQUANTO VOCÊ NÃO VIA (While You Weren’t Looking)

O filme que abriu o festival For Rainbow deste ano foi o sul-africano ENQUANTO VOCÊ NÃO VIA (2015), de Catherine Stewart, que aborda duas relações entre mulheres enquanto também lida com a questão da desigualdade social do país. O filme é irregular justamente por acertar em algo e errar em outro: enquanto o relacionamento das duas mulheres mais velhas é contado de maneira morosa e pouco interessante, há fogo no modo como lida-se com o caso da menina rica com a moça que mora na favela e gosta de se vestir como homem. Entre altos e baixos, o filme ganha também importância como retrato de um país pouco visto em nosso circuito.

BEIRA-MAR

O filme que encerrou o festival foi o brasileiro BEIRA-MAR (2015), da dupla de então curta-metragistas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Trata-se de um belo trabalho, feito com delicadeza no trato com a câmera e com o sentimento de seus personagens jovens. Em alguns momentos, BEIRA-MAR lembra o trabalho dos irmãos Dardenne, mas tem estilo todo próprio e não deixa de ser admirável para um longa-metragem de estreia. A beleza da fotografia em scope, que captura os personagens muitas vezes muito de pertinho, é algo de dar gosto e faz com que o filme seja uma beleza de acompanhar, mesmo para quem não esteja muito interessado na história dos amigos.

sábado, dezembro 12, 2015

CALIFÓRNIA



Vontade de dar um abraço na Marina Person ao sair da sessão de CALIFÓRNIA (2015), sua estreia na direção de longas-metragens de ficção. O filme sintetiza muito bem os anos 1980, essa década que foi um misto de alegria e muita cor com algo de soturno e bem depressivo (inclusive com a chegada da AIDS). Por isso, a banda mais representativa do filme é The Cure, que além de comparecer com duas faixas na trilha sonora (em momentos bem especiais!), ainda conta com um personagem muito importante (e querido) que se veste um pouco como o seu ídolo Robert Smith e é o esquisitão da escola. The Cure se caracterizava por alternar canções depressivas com outras extremamente alegres em seus discos.

Do lado brasileiro temos os Titãs, que comparecem também com esses dois lados da moeda: toca a alegre “Sonífera ilha” e a versão acústica e noventista de “Não vou me adaptar”. E tem o Paulo Miklos lá, no papel de pai da protagonista Estela (Clara Gallo), uma moça cujo sonho maior é viajar para a Califórnia, lugar onde seu tio Carlos (Caio Blat) mora. Ele trabalha escrevendo sobre música pop, outra das paixões de Estela, que ainda novinha, descobrindo a vida, é fã de David Bowie.

O filme abre com uma cena bem importante para ela: o dia de sua primeira menstruação. A sexualidade, como é natural, é algo muito importante para ela e para as amigas, que falam sobre os romances com os meninos. Assim, enquanto a viagem para a Califórnia não chega, Estela tem uma queda por um rapaz da escola e vê nele o sujeito ideal para tirar a sua virgindade. As coisas não saem muito bem como ela quer, assim como a viagem para a Califórnia é adiada com a chegada-surpresa do tio Carlos, visivelmente abatido e sem expectativa de retornar para os Estados Unidos. Sim, o filme também trata da AIDS e de como ela trouxe consigo inúmeras tragédias familiares.

A aproximação e o amor de Estela pelo tio são bastante evidenciados e há um momento em especial que é bem emocionante: a cena do restaurante, quando os dois estão sós. Estela nada sabe do grave problema do tio e assim somos nós, espectadores, os convidados a sermos cúmplices daquele momento de nó na garganta, de preferir não trazer, afinal, mais tristeza ou preocupação para a cabeça daquela garota, cuja idade já é tão fácil de potencializar os sentimentos.

E que bom que o filme consegue potencializá-los, pois assim ganhamos com isso, com a paixão que aqueles personagens têm pela música, em especial pelo rock daquela época. Assim, há cenas em loja de discos, na casa cheia de discos (e livros e quadrinhos) de JM (Caio Horowicz), personagem que apresentaria a Estela livros e discos que considerava importantes. Fazia isso com muito carinho e talvez até sem saber o quanto estava ajudando na formação de uma pessoa. Ao mesmo tempo, acaba surgindo algo além da amizade entre os dois, o que já é algo aguardado pela estrutura da narrativa.

O que não quer dizer que não tenhamos uma sucessão de pequenas surpresas ao longo da jornada de autoconhecimento de Estela. Uma jornada que contará com corações partidos, um parente querido muito doente e a arte como forma não apenas de válvula de escape, mas também como identificação e razão de viver.

Embora Marina Person tenha dito que não se trata de um filme autobiográfico, sentimos como se ela estivesse ali, transportada numa espécie de túnel do tempo que, ora olhamos com certo distanciamento, ora experimentamos como se tivéssemos voltado aos 17 anos. Como já passamos por isso, sabemos o quanto é perturbador ter tanta energia, ter o mundo inteiro pela frente e não ter a menor ideia de como agir, seja na vida amorosa, seja na construção de seu futuro.

A vida é cheia de coisas lindas como a arte e o amor que convivem ao lado de tragédias e tristezas. Essa é a graça da coisa, na verdade, e por isso às vezes é necessário que um filme como CALIFÓRNIA nos ajude a lembrar disso. E ainda somos presenteados com uma seleção de canções de primeira escolhidas a dedo por Marina.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

SEIS FILMES BRASILEIROS MEDIANOS



Quem me conhece sabe o quanto eu sou entusiasta do cinema brasileiro. Mesmo os filmes que já chegam queimados pela crítica ou por boa parte dos amigos eu prefiro dá-los uma chance e acreditar que terão algo que me agradarão. E de fato têm. Eu tenho muito mais prazer em ver um filme mediano ou mesmo ruim produzido no Brasil do que um filme apenas razoavelmente bom produzido por nossos hermanos, por exemplo, por mais que isso possa parecer preconceito da minha parte. Por isso, vamos aos filmes medianos, mas que têm algo a oferecer.

O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN

Vendido como o nosso CINEMA PARADISO, O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN (2015), de Iberê Carvalho, é uma sucessão de tentativas. Não sabe nem mesmo aproveitar um gigante como Othon Bastos no elenco. No mais, não deixa de ser simpático, se não esperarmos muito. Na trama, jovem de nome Marlonbrando (Breno Nina) retorna a Brasília para acompanhar a mãe que está com câncer. Acaba visitando o pai (Bastos), que ainda mantém um caquético e abandonado cine drive-in (o último do Brasil). A ideia de Marlonbrando é de reformar o lugar e trazer a mãe para reviver os bons momentos do passado. Pena que o filme não seja suficientemente emotivo, embora a gente perceba que ele intenciona ser.

OBRA

Caso de filme mais interessante do que realmente bom, OBRA (2014), de Gregorio Graziosi, se destaca pela bela fotografia em preto e branco e pela interpretação sempre bem-vinda de Irandhir Santos. Ele interpreta um arquiteto que está prestes a ter o seu primeiro filho. Ele fica incomodado ao encontrar uma ossada na obra que está prestes a iniciar em São Paulo. Quer saber de quem são aqueles ossos, procura saber do pai, e é perturbado por um mestre de obras. Cada vez mais a tensão que ele sente na nuca aumenta e o filme segue rumos confusos e arrastados. Esse andamento acaba prejudicando um pouco, mas o filme tem o seu encanto.

ENTRANDO NUMA ROUBADA

André Moraes é um músico que estreia na direção de longas-metragens com ENTRANDO NUMA ROUBADA (2015), que até que começa bem, mas para seguir a cartilha dos filmes com câmera na mão estilo found footage é preciso pelo menos esconder a picaretagem. No caso deste suspense estrelado por Deborah Secco e Júlio Andrade, entre outros, ficamos sem entender quem está filmando o quê. Passa a impressão de que eles esquecem esse detalhe e adotam um narrador onisciente. Na trama, jovem ator ganha prêmio e chama antigo grupo para participar de um filme envolvendo assaltos a postos de gasolina. A diferença é que os assaltos e as perseguições são de verdade, ainda que boa parte do elenco não saiba disso.

OPERAÇÕES ESPECIAIS

Como atualmente temos poucos filmes policiais decentes no Brasil, até que OPERAÇÕES ESPECIAIS (2015), de Tomás Portella, é um exemplar bem-vindo. O filme aborda os primeiros dias de uma moça recém-aprovada em concurso da polícia civil (Cléo Pires) e que já tem que trabalhar em ação em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, logo após os conflitos no Complexo do Alemão, em 2010. Lá chegando, ela tem que enfrentar o medo da morte no dia a dia, o preconceito dos colegas com uma mulher como policial e também a questão da corrupção na instituição. É bastante coisa, mas até que Portella se sai bem e o resultado é pelo menos agradável e divertido de acompanhar, com algumas cenas de ação empolgantes.

DEPOIS DE TUDO

Alternando entre a década de 1980 e os dias atuais, DEPOIS DE TUDO (2015), de João Araújo, aborda a amizade desfeita entre Ney e Marcos (Marcelo Cerrado e Otávio Müller, nas versões maduras). Eles eram melhores amigos no passado, quando Marcos namorava Bebel (Maria Casadevall), mas certo dia um acidente os separa. Entre esse vácuo temporal, ficamos sabendo os destinos futuros dos personagens, enquanto a montagem alterna o passado e vamos descobrindo aos poucos o que realmente aconteceu. Mesmo quem não gosta do filme, mas gosta da Legião Urbana, vale ver a defesa apaixonada da sensacional “Soldados”, e principalmente ficar até os créditos finais e poder ouvir, no cinema, a canção integralmente.

A FLORESTA QUE SE MOVE

No intervalo aproximado de um mês dois filmes de Vinícius Coimbra chegaram aos cinemas. O novo A FLORESTA QUE SE MOVE (2015) e outro que há anos estava com problemas de liberação, A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA (2011), um trabalho superior e que deixaremos para comentar outra hora. Quanto ao thriller baseado na peça Macbeth, de William Shakespeare, é uma obra cheia de problemas, mas é agradável de ver, mesmo assim. Sem falar que todo o aspecto sangrento da tragédia está presente nesta versão, estrelada por Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arósio. Ele é um alto executivo de um banco que recebe uma promoção no emprego, uma promoção que havia sido prevista por uma mulher misteriosa. Arósio é a esposa ambiciosa que acredita que é possível até mesmo matar para conseguir aquilo que tanto almeja. Como era de se esperar, as coisas não poderiam sair piores para ambos.

domingo, dezembro 06, 2015

O PRESENTE (The Gift)



Quando muitos já estão fechando suas listas de melhores do ano de 2015, ainda é possível encontrar surpresas inimagináveis entrando no circuito, como este O PRESENTE (2015), estreia na direção em longa-metragem do ator Joel Edgerton, que recentemente se destacou como o policial corrupto de ALIANÇA DO CRIME. Seu primeiro longa é um trabalho aparentemente muito simples no conteúdo, embora mais à frente vejamos se tratar de uma obra mais ambiciosa. Mas o importante é o cuidado com que Edgerton tece a história e conduz a tensão.

Na trama, Rebecca Hall e Jason Bateman são Robyn e Simon, um jovem casal de mudança para uma cidade nova que é cumprimentado por um estranho, Gordon (Edgerton), um sujeito que já foi colega de escola de Simon, que demora a reconhecê-lo neste encontro. Gordon, ou Gordo, como era conhecido na escola, descobre facilmente onde o casal mora e passa a dar-lhes presentes e a visitá-los, embora fique no ar sempre uma sensação de desconforto com sua presença.

A primeira metade de O PRESENTE lembra PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock, por apresentar um personagem estranho e que ameaça a paz do casal. Mas nem tudo é preto no branco, como veremos mais adiante, já que a Robyn sofreu recentemente algo parecido com um colapso nervoso, e Simon não é esse exemplo de homem íntegro e bondoso.

Na verdade, sem querer entregar muito da trama e já entregando um pouco, um dos grandes méritos de O PRESENTE é também lidar com um assunto que vem sendo discutido bastante atualmente, a questão do bullying, e no quanto isto é capaz de mexer com a cabeça de alguém. Isso faz com que o trabalho de Edgerton transcenda o tradicional filme de psicopata, trazendo tons de cinza para os personagens.

Por outro lado, esse detalhe não seria tão significante se O PRESENTE não nos deixasse tensos, assustados e nos segurando na cadeira em vários momentos, tal a beleza de construção atmosférica que faz do filme um dos melhores exemplares do gênero da atualidade. E o que é impressionante é que o medo é construído apenas por causa de um único homem.

A escolha do elenco também foi muito acertada: tanto Jason Bateman, que tem cara de sujeito de pouca confiança, quanto Rebecca Hall, como mulher bela, adorável e psicologicamente frágil, combinam perfeitamente nos papéis. Edgerton também dá conta do homem estranho, loser e traumatizado.

Poder ver O PRESENTE, com sua linda fotografia em scope, em uma sala de cinema bem decente, com áudio original e som de qualidade, para potencializar os momentos de medo, é uma experiência que nos passa uma sensação de gratidão enorme pelo seu realizador e por todos aqueles que o ajudaram e o influenciaram. Neste caso, nem é preciso fazer trocadilho besta com o título do filme, não é?

sábado, dezembro 05, 2015

CHATÔ – O REI DO BRASIL



E depois de 20 anos de espera, CHATÔ – O REI DO BRASIL (2015) finalmente entra em cartaz nos cinemas brasileiros. Foi uma trajetória que daria certamente um grande documentário de bastidores, equivalente a O APOCALIPSE DE UM CINEASTA, sobre as filmagens de APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola, que, aliás, foi um dos homens que chegaram a fazer parte da parceria com Guilherme Fontes na criação deste suposto épico sobre o maior magnata das comunicações do Brasil. Coppola caiu fora do projeto, mas seu nome e de sua produtora aparecem nos créditos, até por ter contribuído em parte.

CHATÔ é filme irmão de CARLOTA JOAQUINA – PRINCESA DO BRASIL (1995), de Carla Camurati, considerado o filme-marco do início da chamada retomada do cinema brasileiro. Ambos são filmes de época contados com um toque de humor típico até de algumas bandas de rock dos anos 1990, embora Carla tenha sido bem mais feliz em sua empreitada. Além do mais, ambos os filmes são estreias de atores na direção. Ambos, principalmente CHATÔ, ao adotarem o tom de farsa, procuram se desviar da dificuldade que é tratar o tema com seriedade e maior competência. No caso de CHATÔ, o aspecto fragmentário da narrativa também tenta disfarçar as deficiências da narrativa, que se esconde na edição picotada.

O filme é narrado como um delírio de Assis Chateaubriand (Marco Ricca), depois de ter sofrido um AVC e começar a lembrar de momentos de seu passado e até de situações que nunca existiram, como o tal julgamento a que ele é submetido, quando ele reencontra as várias mulheres que ele chegou a ter alguma relação (e vários filhos), além do falecido Presidente Getúlio Vargas (Paulo Betti) em um programa de televisão nos moldes do Chacrinha.

Inclusive, a vontade de emular esse ar anárquico do "Velho Guerreiro" faz lembrar TERRA EM TRANSE, de Glauber Rocha, o que para muitos pode ser um bom motivo para agradar ou ser motivo de elogios, mas que no fim das contas só serve para aumentar ainda mais o histerismo que domina todo o filme. Se o corte final fosse mesmo de mais de três horas de duração seria uma obra insuportável, mas do jeito que ficou dá pra assistir principalmente como curiosidade, como um filme que veio do túnel do tempo, com todo mundo envelhecido 20 anos, e até atores que já morreram, como José Lewgoy e Walmor Chagas, embora suas participações neste corte final tenham sido apenas como pontas.

Na época, Marco Ricca não era ainda o grande intérprete que iria se tornar, nem Leandra Leal, que na época só tinha cerca de 13 anos de idade, e já fazendo o papel de uma das esposas de Chatô, esse que é um dos personagens mais odiosos da história de nosso país, e que em nenhum momento Fontes parece dar-lhe trégua ou torná-lo agradável aos olhos do espectador, ainda que não haja dúvida em admitir sua inteligência e tino comercial, na construção de uma imprensa escrita mais atraente e vendável. Seu papel no rádio e na televisão também é destaque. Como a televisão na época era filmada ao vivo, ele chega a interromper uma cena de uma telenovela a fim de deixar recados a seus desafetos.

Embora o filme destaque bastante a relação de Chatô e Getúlio, há algo que parece ser mais forte do que isso e até do que os fatos, que nem são levados tão a sério por causa do tom adotado: trata-se da personagem Vivi, interpretada por uma Andrea Beltrão que parece não envelhecer nunca (comparada com a atriz nos dias de hoje). Vivi é uma mulher que parece saída dos sonhos do protagonista, o amor inalcansável, quase como a Conchita de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel.

Como se vê, há toda uma tentativa de Fontes de se aproximar de grandes cineastas: Welles, Glauber, Coppola, Buñuel, Fellini, mas todas as tentativas resultam em uma obra que só vale mesmo a conferida pelo aspecto de curiosidade, de uma obra que vê a luz do dia já velha e moribunda, como o protagonista, no início e no final. Aliás, o filme vale pelo final também, mais uma vez, graças à participação de Andrea Beltrão.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

SEIS CURTAS DA MOSTRA PERCURSOS



Fui convidado para ser mediador do primeiro debate da Mostra Percursos, que reúne vários curtas-metragens cearenses produzidos neste ano. Foi uma oportunidade de conhecer e entrar em contato com jovens realizadores que futuramente ouvirei falar, quando de seus futuros trabalhos. Foi também uma oportunidade de exercitar o meu enfrentamento ao medo de falar em público, que continua me amedrontando. Felizmente, acredito que não me saí ruim. Se bem que nem tive muita chance de falar mesmo. Foi tudo muito rápido por causa do atraso para a exibição da segunda leva de títulos. Falemos um pouquinho dos filmes.

TODOS OS SENTIDOS

Curioso que durante a apresentação do diretor Fabrício Alves sobre TODOS OS SENTIDOS (2015) ele comentou sobre a ênfase que ele teria dado aos cinco sentidos para assinalar os depoimentos de seus entrevistados, entre eles nomes como Fausto Nilo e Eugênio Leandro. Eu não percebi esta ênfase, por descuido meu. Pra mim, o filme trata mais da questão da composição e do modo como esses homens constroem sua poesia em forma de música. Ou como letrista de música, como é o caso de "Cavalo Ferro", com letra de Fausto Nilo e música de Fagner. Interessante quando dois dos entrevistados falam desse aspecto misterioso da inspiração, como se fosse algo que vem de uma fonte desconhecida. Um bom trabalho, cujas falas são todas relevantes e interessantes.

VERMELHO

Em tom de fábula, usando inicialmente a força da palavra, matéria-prima deste gênero nascido da literatura, VERMELHO (2015, foto), de Camilla Osório, utiliza uma velocidade de ação que se assemelha a de VINIL VERDE, de Kleber Mendonça Filho, que a diretora afirmou ser mesmo uma influência. O filme de Camilla recebeu também um belo tratamento em cores vivas, principalmente nos momentos em que aparece o palhaço. Como o filme retrata também a melancolia do desaparecimento deste ser, que aqui é visto como mágico, muito dessa cor vai embora, quando o hiato nos mostra a pequena Alice crescida e “aparentando ser humana”. O uso do acordeão ajuda a compor a atmosfera de magia que o filme requer. Filme bonito em seu tom misterioso.

CORTINA A PAR

A poesia entra em CORTINA A PAR (2015), de Anio Tales Carin, na voz solitária do rapaz que trabalha de vigia noturno de um teatro. A solidão e a magia daquele lugar são um convite para que o protagonista dê asas à sua imaginação, finja-se de ator e entre numa disputa consigo mesmo em um curioso solilóquio. O filme capta o tédio da rotina do personagem e também sua luta para fugir da mediocridade. Uma de suas falas mais repetidas é “talvez nossa missão seja nascer, reproduzir e morrer”. Algo muito pouco para o que uma vida é capaz.

VÍSCERA

Creio ser o mais bem-sucedido dos seis curtas exibidos nesta sessão. VÍSCERA (2015), de Mateüs Bandeira, é de uma simplicidade e de uma beleza admiráveis. Tanto o poder da palavra (em lindo poema de Cecília Meirelles) quanto a beleza das imagens em preto e branco de uma mulher flagrada em close-ups de diversas partes do corpo e chorando bastante, tudo isso contribui para que este curta seja um dos mais interessantes da safra recente. A gente demora a aceitar que foi um homem que dirigiu, mas a voz de uma mulher, o corpo de uma mulher e o poema de uma mulher fazem a diferença. Mas Bandeira teve a sensibilidade para ir em busca da alma feminina.

CARTA À AURORA

A poesia está presente em CARTA À AURORA (2015), de Rafael de Jesus, principalmente ao lermos as fichas com uma carta japonesa do que parece ser a perda de um grande amor. Enquanto isso, somos apresentados a imagens de voos ou da geografia do que parece ser o Japão. A música nipônica também aparece de maneira discreta. Curiosamente, o cineasta contou que o seu filme só seria entendido por quem já viu o anterior, o que causou risos durante o debate. Mesmo não entendendo tudo, difícil não perceber a beleza deste trabalho.

ENTRETEMPOS

As primeiras imagens de ENTRETEMPOS (2015), de Lorie, já saltam aos olhos. Há um interessante jogo de espelhos que corta ao meio a imagem e a repete do outro lado. Temos a história de um cientista que acredita que há uma Terra paralela e ele está prestes a entrar em contato com o seu outro eu desta Terra. Enquanto isso, também acompanhamos o outro eu, travestido, de frente para um espelho, e também ciente disso. Há um pouco de gordura a partir da metade da narrativa, mas nada que tire o mérito da inventividade desta ficção científica que lida com a necessidade de transformação e descoberta.

domingo, novembro 29, 2015

STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A. (Straight Outta Compton)



Um dos grandes sucessos nos cinemas americanos este ano foi STRAIGHT OUTTA COMPTON – A HISTÓRIA DO N.W.A. (2015), cinebiografia do maior grupo de rap dos Estados Unidos, e que teve uma importância muito grande na luta pela liberdade de expressão e também pelo crescimento do poder aquisitivo de vários artistas negros do país, que passaram de jovens pobres da periferia de Los Angeles, para milionários em um intervalo de tempo até que bem pequeno.

Dos cinco nomes do N.W.A., os nomes mais famosos, até por depois trilharem carreira solo, foram Ice Cube, Dr. Dre e Eazy-E. E justamente por isso os três são mais iluminados na narrativa que mostra os primórdios da formação do grupo, quando Eazy-E se inspirou em gângsteres de verdade da região onde morava para construir letras sobre situações violentas, e muitas vezes assumindo o papel de bandidos no eu lírico das músicas. Com a ajuda dos demais e também o talento de Dr. Dre para construir a musicalidade do grupo, a história de glória, decadência, separação, retorno e algumas tragédias é contada de maneira acertada por F. Gary Gray, cineasta afro-amereicano que estava um pouco de molho nos últimos anos, mas que voltou a ser um nome quente em 2015.

STRAIGHT OUTTA COMPTON funciona como uma espécie de aula de história do gangsta rap e do hip hop californiano dos anos 1980 e 90, embora uma ou outra coisa possa não ser vista como verdadeira, já que se trata, no fim das contas de uma obra de ficção. Dizem, por exemplo, que Dr. Dre não era essa pessoa tão simpática e afetuosa como foi pintada no filme, que talvez tenha escondido os seus defeitos. Em compensação, Ice Cube é visto de maneira bem mais violenta, embora seja uma pessoa que aprendemos a gostar muito também. A turma que os interpreta é outro acerto do filme, sendo que um deles, O’Shea Jackson Jr., é filho de Ice Cube. A cara do pai.

Como o rap é um estilo musical que depende muito das letras – é talvez o maior exemplo do retorno da valorização das rimas no mundo contemporâneo – é fácil entender que esses artistas não tenham feito o mesmo sucesso no Brasil, já que nós temos os nossos próprios rappers cantando em português brasileiro, falando de realidades diferentes, embora possamos enxergar no trabalho de alguns deles traços em comum com o dos americanos. Ver o filme legendado e acompanhar o significado de algumas das letras é bem recompensador.

Gary Gray é um excelente narrador e o filme flui muito bem em suas quase duas horas e meia, que passam voando. E olha que muita coisa foi vista de maneira muito rápida e poderia ser melhor explorada. Mas o corte final foi muito feliz e não há muito do que reclamar do resultado final, como narrativa, principalmente para quem não conhece a fundo a história dos rappers. Há as tretas com os empresários, a dissolução do grupo, as festas, as drogas, a ligação com o tráfico, a violência, a censura, a luta de classes etc. Tudo isso narrado ao som de um batidão de primeira e letras cuspidas como balas de uma metralhadora.

sexta-feira, novembro 27, 2015

A VISITA (The Visit)



Quem aprecia o cinema de M. Night Shyamalan certamente torce por sua volta por cima, depois de ter aceitado participar de um projeto de encomenda como o massacrado DEPOIS DA TERRA (2013). O ÚLTIMO MESTRE DO AR (2010) também foi bastante criticado, mas trata-se de um belíssimo filme, um colírio para os olhos. É só aceitá-lo como é: uma bela fantasia infanto-juvenil estrelada por uma criança, com influências da cultura oriental e uma agradável atmosfera zen.

Lembrando desses dois filmes, até podemos entender que o novo A VISITA (2015) não é apenas o retorno de Shyamalan ao gênero que o consagrou: é também o final de uma espécie de trilogia de filmes com o ponto de vista de crianças e que tratam, em sua construção narrativa, da questão do apego e desapego e da necessidade impositiva de crescer diante das adversidades e de relacionamentos já muito cedo. Portanto, é interessante ver que os trabalhos do diretor são coerentes, por mais que algumas pessoas só enxerguem desvios. Coisa, portanto, de um verdadeiro autor.

A VISITA tem dividido opiniões e é até fácil entender o porquê. Shyamalan utiliza o já manjado recurso do found footage para contar essa história de dois irmãos que são enviados pela mãe para passar uns dias na casa dos avós que eles não conheciam. Aos poucos, eles vão percebendo um comportamento muito estranho no casal de idosos. Acontece que, apesar de haver um ou dois momentos que remetem à franquia ATIVIDADE PARANORMAL, o cineasta vai por um caminho estranho e diferente, evitando sustos gratuitos e usando seu tradicional cuidado com os enquadramentos, dentro do que se pode usar em um filme que utiliza muita câmera na mão.

Quem lembra dos requintados trabalhos de construção visual que o diretor fez em filmes como SEXTO SENTIDO (1999), A VILA (2004) e A DAMA NA ÁGUA (2006), para citar os mais plasticamente caprichados, percebe que ele filma como um pintor, além de usar o cinema de gênero para tratar de assuntos recorrentes, suas obsessões pessoais. Não é muito diferente em A VISITA, com o problema que esse seu perfeccionismo visual atrapalha um pouco o clima de horror.

No entanto, sendo A VISITA uma obra híbrida, algumas vezes não sabemos se estamos vendo uma comédia ou um filme que se leva a sério. Noutras vezes, há uma busca em tratar dos problemas pessoais dos personagens jovens com uma seriedade dramática que soa deslocada da narrativa, por mais que isso contribua, até positivamente, para a estranheza pretendida. O que dizer da beleza de uma das cenas finais, envolvendo as crianças e a mãe? Nesse momento, A VISITA alcança uma beleza catártica de arrepiar, isso depois das sequências que encerram a questão deles com seus velhinhos sinistros, que nem deve ser contada aqui, sob o risco de estragar as surpresas para quem ainda não viu o filme.

E que bom sair do cinema com um sorriso nos lábios, depois da divertida cena final, de uma simpatia impressionante. É Shyamalan voltando ao terror, em uma produção de baixo orçamento, e se reafirmando como grande autor que é. Só esperamos que esse seja apenas um ensaio para o que há de vir no futuro. Os fãs agradecem.

quinta-feira, novembro 26, 2015

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS



Na melhor tradição do chamado "filme de professor", que já nos deu exemplares comoventes como SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, O QUE TRAZ BOAS NOVAS, O SUBSTITUTO, MR. HOLLAND - ADORÁVEL PROFESSOR, entre outros, entra em cartaz nos próximos dias um exemplar brasileiro que dignifica o subgênero: TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS (2015), que conta a história real da formação da Orquestra Sinfônica Heliópolis, bem-sucedido trabalho de jovens da periferia de São Paulo que contou com a ajuda de um músico exigente.

Dirigido por Sérgio Machado (CIDADE BAIXA, 2005), o filme enfatiza o drama de Laerte (Lázaro Ramos), um jovem e dedicado violinista baiano que está em na capital paulista com fins mais ambiciosos, como entrar para a Osesp - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Logo no começo do filme, vemos o seu estado de completo nervosismo e travamento na hora de se apresentar em uma audição.

Vencido pelo medo e frustrado por também não estar conseguindo dinheiro para se manter adequadamente e ainda ajudar a família na Bahia, Laerte aceita trabalhar como professor de uma pequena orquestra bem desafinada de uma escola da periferia. Demora um pouco para ele perceber as dificuldades e os dramas daqueles jovens, bem como habituar-se ao encontro nada agradável com os traficantes do local, mas aos poucos aquela missão passa a se tornar tão nobre para ele do que o seu sonho de entrar na Osesp.

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS carrega um bocado no melodrama, e isso pode ser visto tanto como um defeito quanto como uma qualidade. Depende de quem o vê. Como a intenção do filme é de natureza mais popular, acaba sendo necessário que ele dialogue com um público maior e se afaste mais de hermetismos. Não que CIDADE BAIXA seja hermético, se formos comparar com outro trabalho de Machado, mas certamente se trata de uma obra mais sofisticada em sua dramaturgia e direção. Por outro lado, há um registro quase documental da briga de duas alunas no primeiro dia de aula com Laerte. Quem é professor de escola pública certamente vai se sentir tristemente familiarizado com aquela cena.

O filme protagonizado por Lázaro Ramos bebe na fonte da cartilha tradicional do melodrama americano de histórias de superação e relacionamento de amizade e respeito entre professor e aluno, mas de maneira bem eficiente. A música, especialmente a erudita, de Bach e Vivaldi, ajuda bastante a tornar a experiência de ver o filme em algo tocante. Vale destacar também o trabalho de Lázaro Ramos, ainda que apenas correto, mas principalmente de alguns jovens atores que compõem a orquestra da escola, seja o rapaz que tem uma sensibilidade especial para a música, seja o garoto-problema que alcança a superação depois de uma tragédia. E é nele que o filme mais ganha em emoção.

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS teve sua primeira exibição no Festival de Locarno, na Suíça, e teve uma exibição bem especial e calorosa no Festival do Rio. Agora é a vez de encarar o nosso circuito. Como se trata de um filme do bem, torcemos pelo seu sucesso.

terça-feira, novembro 24, 2015

A IMPERATRIZ GALANTE / A IMPERATRIZ VERMELHA (The Scarlett Empress)



Dentre os filmes dirigidos por Josef von Sternberg protagonizados por Marlene Dietrich, o que eu mais tinha altas expectativas era este A IMPERATRIZ GALANTE (1934), já que ele foi citado por Martin Scorsese em seu livro Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano. E embora eu tenha me decepcionado, trata-se, no mínimo, de uma obra bem especial.

Já no início dá para entender o porquê de Scorsese ter gostado tanto do filme: há uma cena de nudez e violência no primeiro ato, ainda que seja visto em um cenário nebuloso, como uma visão dos infernos pela pequena protagonista. Mas o cineasta americano destaca o estilismo barroco, o mundo onírico, voluptuoso, carinhosamente construído nos estúdios da Paramount. E cita outra sequência, ainda que também seja uma cena embebida em desejo sexual e atitude venenosa.

E de fato o filme é bastante carregado no barroquismo, tanto no que se refere à direção de arte espetacular do castelo da Rússia, onde se passa a maior parte da história, quanto no sentimento exacerbado dos personagens. No caso de Catarina, vivida por Marlene Dietrich, trata-se de uma personagem inocente que aprende as maquinações da política e do sexo para atingir o seu objetivo.

O problema, pra mim, é que desde o início eu não consegui comprar a interpretação de Dietrich como garotinha inocente. Como inocente, se fosse uma mulher crescida tudo bem, mas como uma garotinha, chega a ser incômodo de ver. E a atriz nem era velha: tinha 30 e poucos anos. Mas é que suas feições já são de mulher madura desde O ANJO AZUL. Por isso interpretar mulheres amargas e de passado doloroso lhe cai melhor.

Claro que admiro uma cena como a do banquete do casamento de Catarina com o rei louco, com imagens grotescas ajudando a embelezar o quadro em movimento e uma câmera que atua de maneira fantástica neste momento, em especial. No todo, porém, confesso que prefiro trabalhos mais simples, menos estilizados, mas muito mais efetivos na construção das emoções, como foi o caso do filme anterior de Sternberg, A VÊNUS LOURA (1932), até o momento o meu favorito da dupla.

A IMPERATRIZ GALANTE (ou A IMPERATRIZ VERMELHA, como passou a ser chamado quando lançado em DVD) conta a história de Catarina II, a Grande, desde a sua infância, quando era uma pequena princesa alemã, passando pela adolescência na corte russa, até a ascensão como rainha, depois de cornear e destronar o rei louco. Trata-se do penúltimo trabalho de Dietrich com Sternberg.

domingo, novembro 22, 2015

MISTRESS AMERICA



O novo filme de Noah Baumbach é mais um exemplar do quanto ele parece deixar nas mãos de Greta Gerwig o peso (ou seria a leveza?) de seu trabalho. Os dois fizeram juntos o roteiro de MISTRESS AMERICA (2015) com um fiapo de enredo que se constrói no que parece ser tudo improvisado, embora toda a parte em que a turma está na casa de Mamie-Claire (Heather Lind) pareça ser uma excelente adaptação de uma peça teatral maluca.

Em certo momento do filme, Tracy, a jovem de 18 anos interpretada por Lola Kirke, reclama ao telefone com a mãe, dizendo que estar em Nova York, lugar onde está iniciando os estudos na faculdade, é como estar em uma festa o tempo inteiro. Com a diferença que é uma festa em que você está o tempo todo se sentindo sozinho, deslocado. E é fácil compreender esse sentimento. Muitas pessoas, tímidas ou não, já passaram por isso.

A situação muda para Tracy quando ela entra em contato com uma moça que será a sua meia-irmã, ou seja, o pai dela irá se casar com sua mãe. O nome dela é Brooke (Greta Gerwig) e ela tem cerca de 30 anos. Acontece que Tracy ama Brooke, acha-a a mulher mais divertida que ela já conheceu e, dentro de sua curta vida até então, passou a a mais divertida das noites com ela em uma festa. Brooke sabe se divertir como ninguém, tem uma atitude prática (não parece ligar para faculdade ou coisa do tipo) e está planejando montar um restaurante com o namorado.

Tracy acaba aproveitando bastante dessa personalidade sem igual de Brooke para se inspirar e escrever um conto que seria enviado para um clube de leitura e ter a possibilidade de ser publicado em um livro com outros vários jovens escritores. A vida real, afinal, é tantas vezes objeto de inspiração para a construção de obras fantásticas, não é mesmo?

MISTRESS AMERICA tem um estilo despojado de narrar a sua história, importando-se mais em tecer as personalidades de suas protagonistas. Brooke e Tracy não chegam a ser opostas. Brooke contém traços de personalidade que Tracy gostaria de ter para si, mas ao mesmo tempo Tracy se sente bastante confiante no que ela é e no que é capaz de construir para sua vida, tendo 12 anos a menos que Brooke. Já Brooke esconde muito de suas inseguranças em uma personalidade aparentemente forte, mas as fragilidades começam a vir à tona e a amiga e quase irmã faz questão de estar ali para lhe dar apoio moral.

Se MISTRESS AMERICA é melhor ou não que FRANCES HA (2012), isso talvez não seja tão importante. São filmes com propostas diferentes – o anterior tem uma pegada europeia maior –, mas a verdade é que ambos se beneficiam bastante da presença de Greta Gerwig, tão encantadora que não chega a ser exatamente eclipsada por Lola Kirke, que também é linda e brilhante. Um achado. O fato é que ambas as personagens se tornam ainda mais adoráveis quando expõem os seus defeitos e suas fragilidades, como se nos convidassem para um abraço, embora vivendo em um mundo que parece frio demais para carinhos desse tipo.

P.S.: Como neste ano eu pude conhecer Nova York e subi aquela escada da iluminada Times Square, senti uma pontada de alegria e saudade ao ver Greta Gerwig descendo maravilhada os degraus daquele lugar tão singular.

sexta-feira, novembro 20, 2015

NINGUÉM AMA NINGUÉM... POR MAIS DE DOIS ANOS



Nelson Rodrigues é um dramaturgo e contista tão interessante que adaptá-lo para as telas (ou para os palcos) é quase sinônimo de sucesso certo. Então, por que diminuíram a quantidade de obras dele adaptadas para o cinema? A última havia sido a segunda versão de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA, de Moacyr Góes, que contém uma sucessão de equívocos que só mesmo um diretor como o Góes era capaz de perpetrar. Pelo menos trouxe à luz a beleza de Letícia Colin, ainda que bem verde. Além de Leandra Leal, claro. Mas é um trabalho que passa longe da antológica versão de Braz Chediak (1981).

NINGUÉM AMA NINGUÉM... POR MAIS DE DOIS ANOS (2015), de Clovis Mello, já é cheio de acertos, embora esteja longe de ser perfeito. A começar pelos belos e provocadores cartazes, que emulam o estilo dos desenhos da virada das décadas de 1950 e 60, que é justamente o tempo em que se passam as histórias presentes no longa.

Como se trata de uma adaptação de várias pequenas histórias numa tentativa de amarrá-las numa única narrativa, difícil não lembrar de A VIDA COMO ELA É..., a série de pequenos e deliciosos episódios produzidos por Daniel Filho e exibidos no Fantástico. Perceber que aqueles episódios são ainda muito mais ousados e picantes que o novo filme não deixa de ser um pouco desanimador, mas pelo menos é recompensador ir ao cinema para rir novamente desse universo rodrigueano, de mulheres safadas (no bom sentido) ou mandonas e de homens cornos ou cafajestes.

Nesse universo atrevido, algumas histórias se destacam e ficam mais vivas na memória, enquanto outras se resolvem de maneira tão rápida que caberiam num curta de dez minutos, como o caso da mulher que tem o desejo de transar com o melhor amigo do marido. Aliás, há duas situações desse tipo. Só que uma termina em tragédia, enquanto a outra é levada para o território do humor. Trata-se da história interpretada por Gabriela Duarte, que aparece aqui bem ousada e cheia de sex appeal.

Mas a melhor história é mesmo a estrelada por Marcelo Faria, que interpreta um sujeito pobre que casa com uma garota rica, mas que com o tempo passa a mandar demais na vida dele. Há dois momentos em especial que provocam boas gargalhadas, justamente os momentos em que o personagem chuta o balde. No meio disso tudo, há um caso com a bela empregada doméstica. Aliás, o filme tem uma generosidade em relação à sensualidade feminina e à beleza anatômica de seus corpos que é de deixar a gente feliz. Afinal, o cinema brasileiro anda muito bem comportado quando não faz muito tempo era o cinema mais sensual do mundo.

O que houve de lá pra cá? Perdemos a ginga? Ficamos mais hipócritas? Copiamos demais o modelo americano? Ou o sexo passou a ser aquele defeito que muitos diziam do nosso cinema? De todo modo, sopros de sensualidade e sem-vergonhice como esses, ainda que tímidos em comparação com os de nosso passado glorioso, são bem-vindos.