quinta-feira, julho 31, 2014

ESTRANHO ENCONTRO

Uma prova de que o talento de Walter Hugo Khouri já nasceu praticamente no início de sua carreira, ESTRANHO ENCONTRO (1958) é uma obra que deve muito à cinematografia americana, especialmente aos filmes noir, mas que também carrega aquela aura que iria percorrer toda a filmografia khouriana. O filme serve até mesmo para provar aos detratores do diretor o quanto o cineasta domina a narrativa cinematográfica com esmero e que preferiu entrar no campo das experimentações em obras posteriores por vontade própria, cada vez mais se aproximando de um cinema autoral.

Seguindo um registro de suspense, ESTRANHO ENCONTRO já começa com o protagonista Marcos encontrando numa estrada deserta uma moça frágil. Ele para o carro e ela, Júlia, é levada por ele até uma casa de campo. Ela não explica a razão de estar fugindo, a não ser mais tarde, num interessante flashback. Enquanto a relação dos dois vai se estreitando a ponto de aumentar o sentimento de cumplicidade para uma paixão, o caseiro começa a achar estranho o comportamento de Marcos, que consegue esconder a moça o quanto pode. Como ele é casado e a mulher (rica e de quem ele depende economicamente) não está em casa, ele procura fazer tudo às escondidas, mas as circunstâncias só atrapalham seus planos.

Um dos pontos altos de um filme já cheio de pontos altos é o já citado flashback, no qual Julia conta seu horror em relação ao marido, que é mais psicológico do que puramente físico. O próprio marido, durante o flashback, não tem o seu rosto totalmente mostrado. A câmera sempre está num ângulo que o evita, tornando-o um personagem vilanesco. Mas não tanto quanto o caseiro, que se mostra a pior das ameaças.

A trilha sonora de Gabriel Migliori acentua os climas de horror ou de desespero mostradas no filme, combinando harmonicamente com os travellings ou close-ups, tão bem utilizados para que esses sentimentos se tornem próximos do espectador. E se a maior parte da filmografia de Khouri parece ser influenciada pelo cinema europeu, em especial por Bergman e Antonioni, ESTRANHO ENCONTRO mostra as suas influências hollywoodianas, até também por ser uma política da companhia Vera Cruz, de tornar o filme brasileiro próximo do cinema americano.

A bela fotografia em preto e branco de ESTRANHO ENCONTRO é de uma beleza singular e que é valorizada pela cópia em DVD, mais limpa do que a de filmes mais recentes do cineasta, que carecem urgentemente de uma restauração e de um lançamento digital. Um diretor tão importante e tão querido como Khouri não merece ter sua obra vista sempre em cópias ruins. Aguardemos a iniciativa da família ou dos produtores para que sua filmografia possa ser apreciada da melhor maneira possível.

Texto originalmente publicado em 27 de setembro de 2011 na Revista Zingu!.

quarta-feira, julho 30, 2014

FARGO - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Fargo - The Complete First Season)























Na época que FARGO (1996), o filme dos irmãos Coen, foi nomeado ao Oscar, a produção acabou perdendo para O PACIENTE INGLÊS, no que é mais uma das presepadas da Academia. Mas isso não tem muita importância, pois prêmio é o que não falta para este que é um dos trabalhos mais incensados dos célebres irmãos cineastas especialistas em humor negro e crime.

O que não se podia esperar é que, nessa nova onda de transformar filmes em séries de televisão, FARGO (2014) se destacasse tanto e fosse vista até mesmo bem mais brilhante e genial que o longa-metragem que o inspirou. Pra falar a verdade, nem lembro mais do longa e nem está entre os trabalhos dos Coen que eu mais aprecio – pelo que a memória afetiva e falha consta. Talvez até esteja na hora de rever, depois de quase 20 anos.

Mas nos concentremos na série (ou minissérie). Basta uma olhada no piloto para ficar impressionado com a qualidade da produção, com o modo como nos deixa tão estupefatos com a sucessão de mortes em tom de comédia de erros de humor negro, e no quanto Billy Bob Thornton está sensacional como o assassino Lorne Malvo. Sua chegada a uma pequena cidade do Minesota para executar um trabalho se estende, pois ele acredita que pode fazer justiça a um homem que sofre agressão e bullying de um valentão da cidade.

A situação até lembra a de PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock, já que o tal pequeno homem agredido (Martin Freeman) não deseja que seu desafeto seja assassinado. Mas o que fazer quando o destino prega essas peças? E o que fazer quando você não aguenta mais uma esposa que só te diminui em detrimento de outros e te humilha? Claro que matar não seria a resposta ideal, mas, com o acúmulo de frustrações, é isso que acontece. E as mortes não param por aí, causando uma série de efeitos-surpresa no espectador.

Martin Freeman, como o vendedor de apólices de seguro Lester Nygaard, é um personagem muito interessante. A princípio parece apenas um homem inseguro que comete um crime porque perdeu a cabeça, mas depois vemos o quanto ele é também inteligente, sabendo arquitetar bons planos, de modo que não seja preso ou assassinado. Lester é o personagem mais complexo da série, embora Freeman não seja exatamente um ator versátil. Seu jeito desajeitado no começo do filme até lembra seu papel na trilogia O HOBBIT.

No quesito interpretação, não podemos deixar de mencionar Allison Tolman, como a inteligente policial que tem suas teorias e sua vontade de investigar a fundo o caso das mortes sempre abortadas pelo chefe de polícia burro e ingênuo. Allison é provavelmente a maior revelação entre as intérpretes femininas do ano, além de compor uma personagem adorável. O policial da outra cidade, interpretado por Colin Hanks, fica apagado perto dela, embora o romance dos dois seja muito bonito de ver e há um episódio que destaca esse relacionamento que até contrasta um pouco com os demais, todos tão carregados de mortes.

FARGO é mais uma dessas novas séries que primam pela qualidade no texto, na dramaturgia, na fotografia e outros aspectos técnicos, na falta de pressa em contar uma história. O interessante é que se descobriu que esse tipo de show não aborrece as audiências. Andamentos rápidos e ganchos fortes não são mais garantia de se prender um bom público, e sim esse tipo de qualidade, o que já se confirmou em dramas como FAMÍLIA SOPRANO e A SETE PALMOS, mas que agora também estão presentes em comédias como GIRLS, em séries que misturam fantasia, violência e política, como GAME OF THRONES, e em séries baseadas em crimes, como TRUE DETECTIVE e FARGO, para terminar citando justamente as duas melhores estreias do ano na televisão.

Uma boa notícia é que FARGO foi renovada para uma segunda temporada, que se passará nos anos 1970, contando eventos da juventude do personagem de Keith Carradine, de quando ele era policial estadual. E falando em policial, há dois detetives do FBI que lembram bastante TWIN PEAKS, como se o criador e roteirista de todos os episódios, Noah Hawley, quisesse fazer uma espécie de homenagem à revolucionária série de David Lynch e Mark Frost.

terça-feira, julho 29, 2014

ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Ultimo Tango a Parigi / Last Tango in Paris / Le Dernier Tango à Paris)























Apesar de ser um filme intimista e cujos melhores momentos se passam em interiores, ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972) traz algo da grandiloquência que se faria presente em obras posteriores de Bernardo Bertolucci, como 1900 (1976), O ÚLTIMO IMPERADOR (1987) e O CÉU QUE NOS PROTEGE (1990). Isso se deve talvez à presença de um ator do porte de Marlon Brando, um gigante da atuação saído direto do sucesso estrondoso de O PODEROSO CHEFÃO, mas que aqui se mostra mais contido, como pede o personagem e o tom do filme.

ÚLTIMO TANGO EM PARIS é bastante citado pela antológica cena da manteiga, usada como lubrificante para o sexo anal entre os amantes vividos por Brando e Maria Schneider, e também pelas cenas de sexo de modo geral, mas não dá pra dizer hoje que se trata de um filme a ser visto pelo sexo. Um espectador provavelmente se sentiria frustrada se fosse vê-lo exclusivamente pelas cenas sensuais. Afinal, elas são importantes, mas não o que há de mais importante. Sem falar que o sexo no filme é agressivo, mais uma necessidade ou um vício do que um prazer.

Além do mais, a primeira cena dos dois é um estupro. Talvez nos dias de hoje o filme não fosse bem visto por isso. Nos anos 1970, uma cena de estupro como a de SOB O DOMÍNIO DO MEDO, de Sam Peckinpah, podia até mesmo trazer algo de dúbio no comportamento da moça agredida. Uma ousadia que raramente se encontra nos novos filmes.

A trama de ÚLTIMO TANGO EM PARIS é muito simples. Um homem à deriva e deprimido e uma jovem mulher que está prestes a casar disputam o aluguel de um apartamento decadente. No lugar vazio de móveis daquele primeiro dia, os dois trocam poucas palavras. Mas não demora muito para que Brando rasgue a calcinha da moça e faça sexo com ela de maneira quase animalesca. Seu corpo já perto da fase gorda parece que vai quebrar ao meio aquela jovem franzina, de rosto angelical, mas de seios fartos e belos.

E o filme bem que poderia se concentrar apenas nos encontros dos dois nesse mesmo apartamento, pois esses são justamente os melhores momentos. Não que as demais cenas, fora daquele ambiente fechado, não sejam também boas, mas aquele lugar, usado como uma espécie de fuga de suas vidas reais, em que os dois são estranhos que não conhecem o nome um do outro (faz parte do jogo imposto por ele), tivesse algo de muito especial. Como se fosse um lugar que não existisse no mundo real, um universo paralelo.

O fato de ela aparecer algumas vezes nua e ele não pode ter a ver com o fato de Brando não ter mais o mesmo corpo de galã dos anos 1950, mas, para a trama, faz mais sentido pensar que ela se desnuda mais para ele, ela está mais à sua disposição, como um objeto sexual pronto para receber as ordens dele. E esse universo só deles, seu abrigo, é bem valorizado pela fotografia em tons pastéis do fiel amigo e colaborador Vittorio Storaro.

O final pode parecer um tanto irreal/surreal, estranho, mas todo o filme parece carregado de um torpor que faz com que cada cena se assemelhe a um sonho. Especialmente as que mostram eles dois. As que mostram as vidas particulares de ambos – ele lidando com o suicídio da esposa; ela, com o namorado metido a cineasta (Jean-Pierre Léaud) – têm menos esse aspecto.

segunda-feira, julho 28, 2014

SUPER























Imaginar um mundo em que existam heróis fantasiados não é muita novidade. Alan Moore brincou com isso nos anos 1980 com Watchmen. Mais recentemente dois outros autores de quadrinhos, Mark Millar e John Romita Jr., criaram Kick-Ass, obra que foi rapidamente assimilada por Hollywood e teve a sorte de render duas excelentes adaptações. Assim como o atrapalhado Kick-Ass, que também ganhou uma parceira, a Hit-Girl, SUPER (2010), de James Gunn, nos apresenta a um sujeito desajeitado e ridicularizado que tem a ideia de se vestir de super-herói e sair combatendo o crime, mesmo não tendo nenhum superpoder.

Por mais que eu considere KICK-ASS – QUEBRANDO TUDO e KICK-ASS 2 mais bem resolvidos como filmes de ação, além de também saberem dosar o humor, SUPER possui elementos que o tornam especialmente adorável. Em parte pelo fato de o herói não ser nada bom da cabeça e capaz de cometer umas barbaridades usando uma arma improvisada, mas suficientemente pesada para matar alguns bandidos e aproveitadores de criancinhas.

Meu interesse por SUPER surgiu graças à estreia iminente de GUARDIÕES DA GALÁXIA, o mais arriscado filme dos Estúdios Marvel, e que já tem recebido umas críticas bem positivas de alguns amigos que puderam vê-lo em cabines de imprensa. Não duvido nada que seja um belo filme, tanto pelo trailer, quanto pela habilidade com que Gunn dirige SUPER.

Há também um belo uso de muito colorido na fotografia. Destaque para o vermelho do uniforme de Crimson Bolt (Rainn Wilson) e do verde e amarelo da roupa de Boltie (Ellen Page). Quanto à escalação do elenco, Wilson está perfeito como o sujeito que sofre o diabo depois de levar um pé na bunda da mulher (Liv Tyler) e ainda por cima saber que ela o trocou por com um traficante de drogas arrogante (Kevin Bacon). Wilson não está muito diferente do Dwight da série THE OFFICE, mas funciona que é uma beleza no papel.

Em seus delírios, enxerga como uma mensagem divina a ideia de se vestir como super-herói e isso acaba preenchendo o seu vazio interior. A entrada em cena de Ellen Page, como a vendedora de quadrinhos de uma comic shop é mais um ganho para o filme. E o curioso é que raramente as cenas engraçadas são realmente engraçadas.

Há um tom agridoce do início ao fim, como se aqueles personagens fossem todos uns pobres miseráveis necessitando de amor e reconhecimento. E chega uma hora que nem mesmo essas duas coisas parecem suficientes para acalmar o espírito. Não deixa de ser curioso isso dentro de um filme tão colorido.

domingo, julho 27, 2014

NA GARGANTA DO DIABO























Quanto mais conhecemos o cinema de Walter Hugo Khouri, mais o admiramos. NA GARGANTA DO DIABO (1960) era um desses filmes meio que perdidos do diretor, raríssimos de encontrar na internet, até que surge esta cópia dublada em inglês e que a turma faz questão de legendar com muito amor, para a nossa alegria. Engraçado termos que recorrer a uma cópia estrangeira para ter acesso a um filme brasileiro do maior de nossos cineastas.

Bem que podiam fazer o mesmo com A ILHA (1963), seu filme seguinte, que sofre de um problema sério: um áudio muito ruim, sendo muito difícil de entender o que os personagens estão falando. Nem me importaria tanto em ver também em cópia dublada em inglês, embora fosse sentir falta da voz de Eva Wilma. AMOR, ESTRANHO AMOR (1982), por exemplo, tem também como melhor cópia disponível atualmente uma versão estrangeira dublada em inglês.

Mas falemos de NA GARGANTA DO DIABO, um filme que parece o mais estranho da filmografia de Khouri, talvez por ser um filme de época (passa-se na época da Guerra do Paraguai) e com muitas cenas externas, embora as cenas em interiores sejam as de maior força dramática, potencializadas pela excelente fotografia em preto e branco a cargo de Rudolf Icsey, que já tinha um currículo bem extenso na Europa quando aportou no Brasil nos anos 1950, tendo feito parceria com Khouri em outras ocasiões.

Quanto ao belo trabalho de construção de tensão e suspense, o cineasta já havia provado a sua capacidade com a obra-prima ESTRANHO ENCONTRO (1958). Portanto, já era de se esperar uma câmera elegante e um domínio do espaço e dos personagens de fazer inveja aos demais cineastas brasileiros de sua época. Há uma poesia nos enquadramentos e na movimentação da câmera, seja em cenas exteriores, seja nas interiores.

O filme, aliás, se enamora da personagem de Edla Van Steen, atriz que consegue estar melhor e em mais destaque em cena do que Odete Lara, que faz a sua irmã mais velha. Elas duas, o pai e mais um ajudante cego tentam sobreviver em uma casa que já foi saqueada por outros homens que se aproveitaram da guerra para roubar, matar e lucrar. Quando os quatro desertores invadem o lugar, aquele grupo já não tem muito a oferecer. Um desses homens está sendo perseguido, inclusive, por uma tribo indígena, pelo assassinato de um pequeno índio.

Aliás, impressionante como esses elementos são um prato cheio para que se pudesse criar um ciclo de filmes daquele período, envolvendo índios, as maiores cataratas do mundo (Iguaçu), uma guerra sangrenta, desertores, mulheres e homens corajosos ou covardes se enfrentando etc. Diferente dos Estados Unidos, que souberam transformar uma época de sua História em um gênero forte, rico e bem constituído, o western, no Brasil, poucos quiseram se aventurar por essa linha. Pelo menos não nessa geografia.

Como Khouri não era exatamente um diretor de aventuras, até que se saiu muito bem neste trabalho. Afinal, a força maior está no magnetismo daquelas mulheres, as irmãs Miriam (Edla) e Ana (Odete), que logo se tornam objeto de desejo dos invasores, mas que têm no olhar um sentimento de desesperança que seria muito comum de se encontrar nos diversos personagens do mundo de Khouri, sejam homens ou mulheres. Isso ocorre principalmente pelo fato de todos ali já terem sofrido bastante, principalmente depois do assassinato do irmão delas, que é mostrado num lindo flashback.

Há um cuidado especial com o uso das sombras naquele ambiente sem energia elétrica. As cenas dentro da casa são belamente fotografadas, lembrando bastante o film noir americano, algo que já se notava em ESTRANHO ENCONTRO. Inclusive, pode-se dizer até que em NA GARGANTA DO DIABO essas sombras são mais estilizadas e mais belas do que no trabalho anterior de Khouri, embora trate-se de um filme menor, principalmente pela dramaturgia menos inspirada.

Em certo momento, a personagem de Odete Lara parece fugir do tom e o final feliz (ou agridoce) parece até uma concessão dada a produções hollywoodianas com o intento de agradar à audiência. Mas isso é até compreensível, já que a produtora era a Vera Cruz, que, se por um lado impôs uma qualidade técnica pouco comum no cinema brasileiro de então, copiou bastante o que se fazia nos Estados Unidos e na Itália.

Embora essas circunstâncias perturbem o que poderia ser mais um excelente filme de Khouri, não dá para negar a sua obrigatoriedade, especialmente para os fãs do cineasta, que vislumbrarão a assinatura do mestre em cada fotograma. E ainda se emocionarão com alguns momentos de uma beleza plástica admirável, além do sentimento de angústia que se tornaria tão presente nos trabalhos posteriores do cineasta.

sexta-feira, julho 25, 2014

INCH'ALLAH























Nada mais adequado e atual para esses tempos de novos conflitos entre israelenses e palestinos do que um filme que aborde o assunto, como é o caso de INCH’ALLAH (2012), de Anaïs Barbeau-Lavalette. Assim, o atraso do lançamento em nossos cinemas veio a calhar (o filme estreou em São Paulo em janeiro deste ano). O que não é bem-vindo mesmo é cópia digital de péssima qualidade e que ainda por cima desrespeita a janela do filme, que é originalmente em scope. Com a chegada pra valer de do DCP em várias salas de cinema da cidade, achava que tais mutilações já fossem coisa do passado, mas infelizmente ainda teremos que conviver por algum tempo com isso.

De todo modo, o filme é interessante, ainda que não seja necessariamente bom e nem suficientemente impactante. Retrata o drama de uma médica canadense (Evelyne Brochu, da série ORPHAN BLACK) que trabalha em um hospital situado na Faixa de Gaza e que começa a sofrer e a se solidarizar com os palestinos, ao mesmo tempo em que mora do lado dos israelenses e até tem uma amiga que é militar israelense.

O filme tem uma clara tendência em mostrar muito mais o drama dos oprimidos, os palestinos, como a realidade de uma catadora de lixo, uma mulher cuja gravidez ela acompanha. Também vemos pouco, até pelo fato de o filme nos mostrar o ponto de vista da protagonista, as maquinações para as tentativas desesperadas dos palestinos de se fazerem visíveis, nem que seja como mártires. As cenas dos funerais de tais mártires não deixam de ser impressionantes pela dor e pelo ódio que essas pessoas sentem.

INCH’ALLAH também mostra o rancor que as crianças palestinas já nutrem pelo outro. Ela, mesmo não sendo israelense, precisa agir de maneira hostil também com uma das crianças, que cospe no chão em sua frente. Ela faz o mesmo e ri para ele em seguida, ganhando o seu respeito e simpatia. São pequenos momentos que valem a apreciação do filme, principalmente em momento tão urgente.

Atualmente, com as redes sociais, nunca o Estado de Israel esteve em situação de tanta visibilidade no que se refere a suas atrocidades. Mesmo com um possível cessar-fogo em breve, sabemos que essa é uma batalha injusta e que precisa de uma intervenção externa urgente. O problema é que nem os Estados Unidos nem os países da Europa estão interessados em intervir com força para um desmantelamento urgente do Estado de Israel, que, segundo li e vi em alguns vídeos, não é apoiado por todos os judeus religiosos, apenas pelos sionistas. E o pior de tudo é que esses atos de Israel podem estar iniciando um novo antissemitismo. Por isso é preciso ter sempre muito cuidado.

quinta-feira, julho 24, 2014

THE TOOLBOX MURDERS























Olhando no IMDB o currículo como diretor de Dennis Donnelly, notamos que THE TOOLBOX MURDERS (1978) é o único trabalho dele para cinema. Tudo o mais que ele fez foi para a televisão, mais especificamente seriados. Deixando claro que isso não o desqualifica, é apenas uma curiosidade. De todo modo, esse seu único longa para cinema é um slasher razoavelmente eficiente e que traz alguns bons momentos.

O melhor deles é, sem dúvida, uma sequência de masturbação na banheira de uma das vítimas do tal assassino, com um belo trabalho de edição para emular o estado de êxtase da personagem. O que se segue também pode causar pulos de alegria nos fãs do gênero, com muito sangue e brutalidade nessa que é a sequência mais bem trabalhada. Infelizmente, a partir daí o filme cai bastante.

Curiosamente, apesar de não mostrar o rosto do assassino na primeira meia hora (a não ser usando uma máscara), não demora muito para sabermos a sua identidade, além do paradeiro da jovem sequestrada após uma série de assassinatos cometidos apenas a mulheres do mesmo condomínio. A mãe da jovem não sabe fazer outra coisa a não ser fugir de casa para trabalhar, enquanto o irmão fica dando uma de detetive, já que a polícia não progride muito nas investigações.

Uma pena que THE TOOLBOX MURDERS se torne chato após desvendarmos a identidade do assassino e que não saiba como lidar com as investigações de modo a parecer minimamente tenso. Ao contrário, depois do começo interessante, é aguentar até a conclusão, que também não é tão boa assim. Para ser levado a sério, o filme se apresenta como baseado em uma história real, especificando nos letreiros finais quando e onde os verdadeiros eventos ocorreram.

THE TOOLBOX MUDERS teve um remake lançado direto em DVD no Brasil e que recebeu o título genérico de NOITES DE TERROR (2004). É bem menos realista e mais próximo da trama de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA.

quarta-feira, julho 23, 2014

TRÊS FILMES BRASILEIROS INDEPENDENTES























Três filmes exibidos em mostras que têm a intenção de apresentar trabalhos mais ousados em suas propostas estéticas. Nem sempre são filmes que acertam em cheio em tudo, mas que têm o seu valor e fogem de alguma maneira dos formatos pré-estabelecidos. Pelo menos em parte. Os filmes foram exibidos nas mostras Outros Cinemas (Caixa Cultural) e Cinema de Garagem (Cinema do Dragão).

O EXERCÍCIO DO CAOS 

Já faz um tempinho que vi O EXERCÍCIO DO CAOS (2012, foto), de Frederico Machado, e lembro que na hora foi um filme um tanto cansativo, mas que acabou crescendo mais na memória afetiva. Trata-se de um exemplar raro de um cinema feito no Maranhão. E foi basicamente todo bancado pelo próprio Frederico Machado, que também é dono da Lume Filmes. Apreciador de cinema, não apenas criou um selo, mas quis também fazer o seu cinema com muito suor. Suor, aliás, bastante presente no filme, no trabalho braçal dos personagens que trabalham em um engenho de mandioca. Mas o mais importante é o formato de família que o filme mostra: um pai e três filhas, sendo que, com a ausência da falecida mãe, a mais velha passa a fazer as vezes de mãe até mesmo no que se refere a relações sexuais. É um filme que tem um atmosfera carregada, com uma fotografia em tons de terra que causa uma sensação de opressão e que mal dá espaço para que o espectador respire. Tudo muito intenso, ainda que as lacunas/elipses atrapalhem e confundam um pouco. Mas isso faz parte do charme de O EXERCÍCIO DO CAOS.

FEIO, EU? 

Perdi na Mostra Outros Cinemas, mas o filme acabou me perseguindo: vi no último dia da Mostra Cinema de Garagem. FEIO, EU? (2013), de Helena Ignez, é uma espécie de documentário que dá espaço também para a ficção, ao deixar que alguns personagens ganhem mais vida que outros, como é o caso da moça que é garota de programa, mas que sonha com o príncipe Harry. Ela é quem mais se destaca do grupo de atores e atrizes que saem da Oficina promovida pela própria Helena Ignez. A diretora/atriz aproveitou a oficina para a realização deste longa, que até daria um melhor média-metragem se não forçasse tanto a barra em alguns personagens pouco expressivos. Falta também um foco: o filme não sabe direito se quer lidar com esses jovens intérpretes e suas próprias criações ou se acompanha a diretora em sua viagem para a Índia, por exemplo. De todo modo, é um filme simpático e que tem os seus momentos.

PAIXÃO E VIRTUDE 

Eis um exemplo de obra bastante ousada em sua proposta. A partir de um conto de Gustave Flaubert e também inspirado em outras obras literárias, PAIXÃO E VIRTUDE (2014), o filme-testamento de Ricardo Miranda, traz uma interessantíssima mistura de cinema e literatura em sua estrutura narrativa. Isso faz com que ocorra um distanciamento maior entre personagem e ator e entre personagem e espectador. Principalmente porque o próprio ator é também responsável pela narração, como se estivesse recitando um romance. Uma vez que entendemos o jogo e as intenções do diretor, o filme passa de uma obra hermética e complicada para um projeto bem interessante. Na trama, um homem mais jovem se aproxima de uma mulher casada até o ponto de ela ficar perdidamente apaixonada por ele e acabar com o seu casamento. A intenção inicial dele é apenas conquistar mais uma mulher para sua coleção, mas depois ele foge com medo da paixão exacerbada da amante. Quem leu Madame Bovary pode achar esse enredo um tanto familiar. Mas o enredo importa menos que a forma como Miranda, morto no último mês de março, quis ilustrar sua história. O elegante filme de Miranda é dedicado ao amigo Paulo César Saraceni.

terça-feira, julho 22, 2014

PLANETA DOS MACACOS – O CONFRONTO (Dawn of the Planet of the Apes)























Bem mais sombrio que seu antecessor, PLANETA DOS MACACOS – O CONFRONTO (2014) destaca, desta vez, mais o ponto de vista dos símios do que o da raça humana, oferecendo mais chances para o espectador se solidarizar com essa raça estranha e fascinante. Aliás, desde o primeiro PLANETA DOS MACACOS (1968) que ocorreu uma febre no mundo inteiro por esses animais falantes agindo como homens e refletindo nossos defeitos e qualidades.

Depois de algumas continuações nos anos 1970, de uma série de televisão, de um desenho animado, de um remake por Tim Burton e de um recomeço, mostrando o início de tudo com PLANETA DOS MACACOS – A ORIGEM (2011), de Rupert Wyatt, sem falar em um programa humorístico brasileiro e em um filme dos Trapalhões, chega a vez de nós sabermos como se deu a vez dos símios na dominação mundial já refletida desde o primeiro e hoje clássico filme. Entender o fascínio do ser humano por eles pode ser ainda um mistério, mas o fato é que esse fascínio continua existindo.

E depois de CLOVERFIELD – MONSTRO (2008) e de DEIXE-ME ENTRAR (2010), o cineasta Matt Reeves ganhou a confiança dos produtores e mostrou que domina as ferramentas do gênero horror muito bem. Afinal, PLANETA DOS MACACOS – O CONFRONTO pode ter muito de aventura e drama, mas o horror está presente sim, tanto nas sequências de violência que chegam a impressionar, quanto na própria imagem tão perfeita dos macacos de diferentes espécies se comunicando e utilizando armas de fogo.

O clima opressivo do filme é potencializado pelo 3D envolvente e pelo som poderoso e às vezes perturbador. O responsável pela trilha sonora é Michael Giacchino, mais famoso pela música da série LOST e por sua parceria fiel com o cineasta J.J. Abrams. Foi parceiro também de Reeves em DEIXE-ME ENTRAR. O clima de amizade e confiança também transparece nas presenças em cena da bela Keri Russell, de FELICITY (1998-2002), série criada por Reeves, e do jovem Kodi Smith-McPhee, de DEIXE-ME ENTRAR.

Cesar, o símio inteligente de PLANETA DOS MACACOS – A ORIGEM, vivido novamente por Andy Serkis, é o protagonista e o personagem mais cativante dessa trama apocalíptica em que um grupo de humanos tenta negociar com o grupo de macacos a possibilidade de usar um pedaço do território deles para resgatar a energia elétrica, há anos desativada em São Francisco e em outros territórios próximos, e que faz com que esses homens se sintam como se tivessem voltado para a Idade da Pedra. Trata-se de uma situação bastante delicada, já que os macacos não confiam nos homens.

Quem trata de apaziguar a situação junto a um pequeno grupo é Malcolm (Jason Clarke), que com sua mulher (Keri) e filho (Kodi) e mais um sujeito bem menos pacífico, procuram negociar com o grupo de Cesar. Quanto a ele (Cesar), trata-se de mais um personagem marcante de Andy Serkis, que ficou mais famoso desde que assumiu interpretar o pequeno e miserável Gollum, da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS, de Peter Jackson. Desde então, ele já interpretou o macaco gigante de KING KONG, também de Jackson, o Capitão Haddock, de AS AVENTURAS DE TINTIM, de Steven Spielberg, novamente Gollum na trilogia O HOBBIT, e, por enquanto, duas vezes César, que ajuda a compor mais um rico personagem na galeria do ator, criado a partir da tecnologia da captura de movimento, que cada vez tem evoluído mais.

O olhar, em especial, é impressionante. Seja o olhar de compaixão de Cesar e de sua família, seja o olhar de ódio pela raça humana de Koda (Toby Kebbell), o macaco que foi torturado pelos humanos em experimentos científicos e que guarda muito rancor desde então. Koda não concorda com a convivência pacífica entre humanos e macacos proposta pelo líder Cesar, que no início do filme é o único que consegue falar a língua dos humanos.

A produção de PLANETA DOS MACACOS – O CONFRONTO é caprichadíssima e isso transparece em cada frame. Os efeitos especiais da composição dos animais (há também um urso e um cervo construídos em computador) se fundem de maneira orgânica com a presença dos humanos. Para se ter uma ideia do saldo da produção, podemos comparar o custo estimado do novo filme com o do anterior: A ORIGEM custou 93 milhões; O CONFRONTO, 170 milhões. E pelo sucesso de bilheteria que o filme já está causando nos Estados Unidos e outros países, além de uma nova continuação já confirmada, tudo leva a crer que uma nova febre dos macacos chegou com força.

O problema do filme talvez esteja justamente em suas qualidades, em sua perfeição técnica, que muitas vezes acaba diminuindo um pouco o impacto que certas cenas mais dramáticas poderiam gerar. Isso porque o espectador fica encantado ou impressionado com a produção. Assim, o sentimento de dor de Cesar, de seu filho, de seus seguidores, e dos próprios humanos que são também heróis da história, acabam sendo um pouco comprometidos por isso.

segunda-feira, julho 21, 2014

AMAR, BEBER E CANTAR (Aimer, Boire et Chanter)























E AMAR, BEBER E CANTAR (2014), o último filme de Alain Resnais (1922-2014), é novamente uma homenagem ao teatro. Ou ao menos uma prova da alta estima que o cineasta tinha por essa arte, a ponto de teatralizar o que já era teatral. O que não quer dizer que não seja também mais uma amostra do talento de seu realizador com o cinema, com rigor formal, cores lindas na fotografia, cenografia toda teatral e utilização de desenhos das casas para mudar de uma cena para outra.

Em certo momento, porém, o que começa como uma forma dinâmica de construção narrativa acaba por se tornar monótona. Além do mais, o humor nem sempre funciona, embora se possa dizer que é um tipo de humor que tem um público todo próprio, tão peculiar quanto seu diretor. Chega uma hora que parte do público prefere desistir do filme, dentro da sala quase lotada. Infelizmente o filme-testamento do cineasta tem cheiro de naftalina, assim como já tinha também BEIJO NA BOCA, NÃO! (2003), outra de suas comédias teatrais.

No caso de AMAR, BEBER E CANTAR (aliás, qual a razão desse título mesmo?), a peça que deu origem ao filme é do inglês Alan Ayckbourn, mesmo dramaturgo de SMOKING/NO SMOKING (1993) e MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (2006), dois trabalhos bem mais incensados de Resnais. Mais do que o título não combinar com o enredo, o que chama a atenção de muitos é a enigmática e até divertida aparição de uma toupeira de fantoche em meio a algumas cenas. Qual seria o seu significado?

Na trama, três casais com a vida conjugal um tanto infeliz têm suas vidas mexidas com a notícia de que George, um amigo em comum de todos, está com câncer e tem apenas cerca de seis meses de vida. Como George é muito querido por todos, a notícia abala geral e posteriormente acaba revelando para o espectador alguns segredos relacionados ao passado de George e alguns personagens.

O principal detalhe é que George não aparece em momento algum, o que acaba sendo um dos charmes da peça (e do filme). E George passa de grande amigo dos homens a provável inimigo quando começa a ser suspeito de estar se divertindo com suas três esposas. Assim, de doente terminal, o invisível George vira objeto de desejo das mulheres. No fim, é possível interpretar como sendo positiva sua intervenção na vida dessas pessoas. Por isso é uma pena que o filme pareça tão anacrônico (no pior sentido do termo), e, o pior de tudo, de narrativa tão arrastada, apesar dos esforços de parecer dinâmico.

O que acaba sendo um diferencial em AMAR, BEBER E CANTAR, dentre tantos outros filmes no circuito, inclusive o alternativo, é sua necessidade em ser excessivamente teatral, com exageros propositais no tom de voz dos personagens, enquanto saem das cortinas estilizadas que funcionam como fachadas para seus quintais. Resnais quer provar mais uma vez que o teatro cabe no cinema, mas acaba mais aborrecendo do que agradando boa parte da audiência. Ainda assim, ver o filme não deixa de ser uma boa oportunidade para se ver na telona uma obra, ainda que menor, de um dos diretores mais importantes do século XX.

P.S.: Deixo claro que Resnais está longe de estar entre os meus diretores favoritos. Prefiro ver um Godard bem hermético do que um filme seu. Mas talvez eu ainda aprenda a gostar de seus trabalhos. Há muitos que ainda não vi. Por enquanto, meu favorito continua sendo, de longe, o impactante documentário em curta-metragem NOITE E NEBLINA (1955).

sexta-feira, julho 18, 2014

BANG BANG























Pode até não ser um filme em que se sente prazer de assistir durante toda a sua metragem, mas BANG BANG (1971) é, sem dúvida, uma obra não apenas singular, mas também muito rica em seus simbolismos em plenos anos de chumbo da ditadura militar e que dizem também muito da própria realização. Quando vi as duas palestras do Andrea Tonacci em dois dias seguidos, uma na Vila das Artes, depois de uma exibição de BANG BANG, e outra no Dragão do Mar, depois de JÁ VISTO JAMAIS VISTO (2013), soube por ele que os arquivos liberados da censura apresentam os motivos de sua impossibilidade de levá-lo para ser exibido em outros países: perceberam o quanto seu trabalho utilizava metáforas para criticar o regime militar.

A falta de uma narrativa lógica e a ruptura com os padrões convencionais de trama e personagens acabam por espantar o público mais acostumado ao cinema clássico-narrativo. Pelo menos é o que pensamos enquanto o assistimos, mas achei muito curiosa e divertida a história que Tonacci contou de quando o filme chegou a passar num cinema de São Paulo e não tinha ninguém na sala. Ele chegou para comprar ingresso e a moça da bilheteria disse que só teria sessão se houvesse público mínimo de seis ou sete pessoas. Ele viu um grupo de garis sentado na calçada e perguntou se eles aceitavam entrar de graça na sessão. Se não gostassem, podiam sair na hora que quisessem. Para sua surpresa, os caras gargalharam o filme inteiro. Para ele, isso foi melhor do que qualquer prêmio ou reconhecimento através da bilheteria, já que o próprio pai havia se mostrado muito decepcionado com o filho depois de ver o filme.

Parece até uma história de filhos de roqueiros ou de homossexuais, mas talvez por isso, e pelo caráter tão humilde de seu orçamento que esse e outros filmes de realizadores do período tenham ganhado o rótulo de "cinema marginal". Que é um rótulo não muito aceito por alguns realizadores, mas que eu acho interessante e até elegante, além de flertar com o movimento punk, que ainda não tinha surgido oficialmente.

Além do mais, diferente da maioria dos músicos punks, que não sabiam tocar, mas tocavam, Tonacci sabia dirigir sim. Seu rigor formal já mostra o quanto o cineasta tinha um claro domínio da linguagem cinematográfica, o que pode ser visto no modo como ele dispõe a câmera, sempre muito bem enquadrada, seja em câmera parada, seja naquela cena em que Paulo Cesar Pereio (genial) conversa um papo muito desarticulado com uma mulher em um bar.

Falando em papo, um detalhe que Ismail Xavier comenta sobre o filme em um dos extras do DVD e que eu acho interessante é mesmo sua total falta de diálogo. Quer dizer, há diálogos sim, mas eles são ou quebrados e sem sentido ou mostram ruídos de comunicação, como nas cenas mais gostosas do filme, que são os dois takes dentro do taxi. Nas tais cenas, Pereio, o protagonista que é perseguido por uma trupe de bandidos patéticos, pega um taxi que não passa da segunda marcha. A discussão entre passageiro e motorista é divertidíssima e talvez a única cena realmente engraçada do filme, embora haja durante o filme inteiro uma homenagem à comédia. Seja a comédia hollywoodiana, seja a das chanchadas da Atlântida. Mas isso é apresentado numa chave parecida com a dos filmes de Godard, em que a estranheza perante os gêneros se faz presente e confunde ou perturba.

Trata-se de um filme que mais incomoda do que deixa o espectador confortável. Mesmo (ou principalmente) quando deixa de mostrar o grotesco para mostrar três cenas de dança com uma bailarina, BANG BANG não deixa de causar certo desconforto. A utilização de planos longos também pode incomodar um pouco, embora eu goste bastante da longa cena do carro na estrada. Mas talvez pelo simples fato de gostar de cenas de carros em estradas.

Pensar numa sinopse para BANG BANG é uma tarefa complicada, embora não seja impossível. Isso porque há quebras da estrutura narrativa, situações que começam e não continuam, há o personagem do macaco que ora é o Pereio, ora não é, levando em consideração que um macaco dirige um carro que o persegue numa das cenas finais do filme. Aliás, o macaco, o espelho e a câmera dão pano pra manga para diversas interpretações e viagens.

E o que é aquela última cena, hein? Que outro diretor faria a loucura de colocar uma cena de um homem se vestindo com a maior tranquilidade como na sequência final? Por isso deve-se dar o devido crédito e respeito a Tonacci por fazer uma obra tão corajosamente contrária às convenções narrativas, até mesmo utilizadas por alguns diretores de vanguarda.

quinta-feira, julho 17, 2014

O MELHOR LANCE (The Best Offer / La Migliore Offerta)























CINEMA PARADISO (1988) pode ser o filme mais famoso de Giuseppe Tornatore, mas alguns de seus melhores trabalhos apostam na tensão e no suspense. Foi o caso de UMA SIMPLES FORMALIDADE (1994) e de A DESCONHECIDA (2006). E é também o caso desta bela surpresa que é O MELHOR LANCE (2013), produção italiana, mas falada em inglês, como que para espantar um pouco esse fantasma da má fase do cinema italiano. Assim, quando menos se espera, eis que temos uma produção italiana de grande beleza e extremamente intrigante.

No começo, quando o filme apresenta o personagem Virgil Oldman, vivido brilhantemente por Geoffrey Rush, até dá para imaginar que O MELHOR LANCE é apenas um filme chato sobre a personalidade excêntrica de um colecionador de arte e leiloeiro de antiguidades e obras de arte. Trata-se de um homem antissocial e pouco simpático, que nunca teve um relacionamento físico com uma mulher e que coleciona dezenas de quadros valiosos em sua casa. Os conhecedores de pinturas certamente vão se emocionar ao ver tantas obras famosas juntas.

Sua vida muda quando uma mulher misteriosa liga para ele oferecendo-lhe a oportunidade de avaliar uma vasta coleção de arte e antiguidades. Trata-se de uma mulher difícil de ver, já que ela sofre de agorafobia, não saindo de dentro de seu próprio quarto. E exatamente por ser uma pessoa tão pouco acessível que esta mulher, Claire (a bela holandesa Sylvia Hoeks), acaba lhe despertando não só a curiosidade, mas um sentimento que até então ele não conhecia.

Paralelamente, dentro da casa ele encontra pedaços de engrenagem que ele supõe serem muito importantes. O jovem Robert (Jim Sturgess) é hábil na arte de reconstruir objetos e engenhocas e é ele quem o ajuda a montar o que ele acredita ser aquele mesmo autômato visto em A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, de Martin Scorsese. E se Scorsese presta tributo ao cinema de maneira mais explícita, Tornatore o faz ao trafegar de maneira genial pelo suspense hitchcockiano, como já havia feito em A DESCONHECIDA.

Aqui ele tem o apoio de outro mestre, Ennio Morricone, numa trilha sonora que convida o espectador a entrar com prazer naquela atmosfera de suspense e de situações inesperadas, principalmente quando nos identificamos com a obsessão do protagonista por aquela mulher. Tanto é que sofremos tanto quanto ele a cada visita à mansão de Claire, temendo a possibilidade de ela não estar mais lá ou novamente agir de maneira irracional, como é de seu feitio.

E quando conhecemos finalmente as feições de Claire e vemos o quanto ela é linda fisicamente, esse fascínio só tende a aumentar, embora suspeitemos o tempo inteiro que tudo pode ser fugaz, uma mera ilusão, possibilidade sugerida pelo personagem de Donald Sutherland, que diz para o amigo que até o amor pode ser simulado.

Há momentos de uma beleza visual impressionante, como a cena da chuva, ou as cenas de aproximação física de Virgil a seu objeto de desejo, que parece para ele, e para nós, cúmplices e solidários, como uma espécie de porcelana frágil e extremamente valiosa.

É Tornatore em plena forma em um de seus melhores trabalhos. Aqui ele retoma tanto o tema do sofrimento do herói, como em MALENA (2000), como a questão da ilusão, como em O HOMEM DAS ESTRELAS (1995). É um trabalho que brilha por si e ajuda também a valorizar o conjunto da obra deste homem apaixonado por cinema e que nos ajuda a sentir também essa paixão. Nem que seja com um coração partido.

quarta-feira, julho 16, 2014

ORPHAN BLACK – SEGUNDA TEMPORADA (Orphan Black – Season Two)























Curioso como uma série que parecia não ter mais fôlego para se sustentar dignamente como 24 HORAS conseguiu fazê-lo com louvor, enquanto uma série que começou muito bem sua primeira temporada, como ORPHAN BLACK, em seu segundo ano (2014) se perde em subtramas bobas e que parecem não levar a lugar nenhum e no aparecimento de novos e fracos personagens. Tudo isso só serve para passar a impressão de que querem mesmo é enrolar o espectador até onde der.

Nada contra séries abertas (não sei com certeza se é o caso de ORPHAN BLACK), mas há sempre o perigo de se perder, especialmente quando o formato pede uma conclusão. É preciso ter roteiristas muito hábeis para manter o interesse do espectador nesse labirinto de tramas envolvendo laboratórios de criação de clones.

Além do mais, se Tatiana Maslany continua merecendo o Emmy e o Globo de Ouro por sua interpretação de várias clones (e, no entanto, ela foi sequer indicada ao Emmy 2014), a série em si perdeu em qualidade de dramaturgia e texto, até mesmo para os padrões a que se pretendia. Além do mais, por mais que personagens ótimas como Sarah, Cosima e Alison sejam ótimas, quase perfeitas em sua criação, a perturbada Helena e a maquiavélica Rachel são superficiais e irritantes, servindo para ampliar o leque de personagens de Tatiana, mas também para diminuir o espaço dos demais, inclusive aqueles não interpretados pela talentosa atriz.

A trama em si evolui de maneira pouco animadora, com a continuação da fuga de Sarah e de sua filha dos vilões, da tentativa de Alison de se livrar do marido espião e do drama da doença terminal de Cosima. Quando os episódios trabalham apenas com este trio se saem muito melhor do que quando tentam ampliar o universo e não conseguem extrair metade da excitação gerada em toda a primeira temporada.

Trata-se de uma série que não tem tanto interesse em aprofundar de maneira filosófica a questão dos clones, mas apenas servir de entretenimento e passatempo para o espectador. Isso é pouco nos dias de hoje. E até para se fazer isso é preciso caprichar. Não importa se há um elenco de apoio muito bom, como Jordan Gavaris fazendo o irmão gay de Sarah, Matt Frewer como o Dr. Leekie, ou a adorável Evelyn Brochu (protagonista do drama INCH'ALLAH, de Anaïs Barbeau-Lavalette), como a namorada de Cosima. Tudo isso fica sem muita importância diante de uma série superficial e que se perdeu pelo caminho. ORPHAN BLACK foi renovada para a terceira temporada, mas eu paro por aqui.

terça-feira, julho 15, 2014

24 HORAS – VIVA UM NOVO DIA (24: Live Another Day)























E contrariando todas as expectativas, até mesmo daqueles que viram os dois primeiros episódios com um pé atrás e não se empolgaram tanto assim, 24 HORAS – VIVA UM NOVO DIA (2014) acabou sendo um sucesso. Claro que não dá para comparar com o que é realizado em algumas das melhores séries de canais como HBO e AMC em se tratando de sofisticação, mas a minissérie faz jus aos melhores momentos de 24 HORAS (2001-2010), que rendeu oito temporadas e um telefilme com dignidade e muita adrenalina.

A minissérie marca o retorno do invencível Jack Bauer, a principal figura heróica da televisão nos anos 2000, que volta da clandestinidade para salvar novamente o Presidente dos Estados Unidos e milhares de pessoas em Londres, que é onde se passa a história desta vez. Isso porque o presidente americano está na Inglaterra para fazer um acordo com o primeiro-ministro britânico vivido por Stephen Fry.

Aliás, um dos acertos da série é também o belo elenco, a começar pela presença brilhante e de encher os olhos de Yvonne Strahovski, que aqui faz o papel de Kate Morgan, uma agente da CIA que está se despedindo de seu emprego, mas que acaba estendendo bastante sua participação depois que percebe que Bauer não é nenhum terrorista como as autoridades acreditam, mas um homem que está ali para evitar uma catástrofe.

E assim como aconteceu em outras temporadas, em que Bauer se juntou a outra bela agente, 24 HORAS – VIVA UM NOVO DIA só tem a ganhar com a presença da lindíssima Yvonne, que curiosamente tem o sobrenome Morgan, que deve ter sido escolhido de brincadeira, pensando em sua participação marcante nas temporadas finais de DEXTER.

Assim, depois de nos tranquilizarmos com a qualidade do show, que com 12 episódios fica mais dinâmica do que com os tradicionais 24, é só correr para o abraço a cada novo capítulo, esperando sempre uma nova sensação de excitação, dessas de perder o sono mesmo. Além do mais, há uma ousadia que havia sido perdida desde a segunda e mais violenta temporada, que é mostrar uma violência gráfica e um Jack Bauer capaz de matar impiedosamente seus inimigos. Em tempos de casamento vermelho e popularização de GAME OF THRONES, o público já está mais do que preparado para esse tipo de coisa. Michelle Fairley, aliás, está no elenco como o maior vilão da temporada.

Bauer continua sendo aquele agente abnegado capaz de doar a própria vida para salvar a dos outros e essa característica importante desse homem que dessa vez sai um pouco da marginalidade para ganhar a confiança do Presidente dos Estados Unidos (William Devane) e mexer de novo com o coração de sua ex, Audrey (Kim Raver). Outra personagem importante e que também não pode deixar de estar presente é Chloe (Mary Lynn Rajskub), a especialista em informática que sempre o auxilia e que pode ser chamada de melhor amiga.

No mais, não faltam situações que já conhecemos de outras temporadas, como traidores dentro do Governo e de órgãos de segurança, bem como inimigos vindos de países do Oriente Médio e também da Rússia e da China. Pode ser uma visão simplista, mas tanto a Rússia como a China têm um histórico com Bauer que acaba justificando sua entrada também na trama.

No final, fica a saudade de Bauer e a torcida para que outra minissérie seja produzida com o herói. Ou a volta definitiva da série (o gancho no final pede isso). Não faltará o apoio dos fãs, que tiveram sua chama novamente acesa com a volta do cara mais invocado da televisão no século XXI. O rosto mais envelhecido de Kiefer Sutherland, inclusive, contribui ainda mais para a figura de um homem sofrido, mas plenamente capaz de enfrentar seus demônios interiores e ainda cuidar dos interesses de seu país e do mundo.

segunda-feira, julho 14, 2014

JUNTOS E MISTURADOS (Blended)























Adam Sandler não é exatamente um dos melhores comediantes do cinema americano. Raramente ele acerta um bom trabalho. Mas seu jeito todo próprio de fazer comédia já se caracteriza pela tranquilidade, pela certa preguiça que impregna seus personagens, que na verdade parecem ser sempre os mesmos em quase todos os filmes. Fazer uma terceira parceria com Drew Barrymore parece ter sido uma boa escolha para dar novamente a ele uma boa recepção de um público maior e até mesmo da crítica, já que AFINADO NO AMOR (1998) e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ (2004) são filmes bastante queridos por muitos. Principalmente o segundo.

Infelizmente JUNTOS E MISTURADOS (2014), de Frank Coraci, mesmo diretor de AFINADO NO AMOR e de CLICK (2006), não consegue o mesmo êxito, embora não seja de todo desprezível. E ainda que haja cenas que beiram o constrangimento e já se sinta o peso da idade de ambos os astros (principalmente de Drew), há algumas sequências bastante engraçadas. Destaque para a cena da loja, quando ambos se encontram com a difícil tarefa de comprar um absorvente (para a filha dele) e uma revista pornô (para o filho dela). Se todo o filme fosse tão engraçado quanto esta cena seria certamente uma das melhores comédias do ano. Como não é, nos contentamos com a irregularidade e com um humor bobo mas com alguns momentos simpáticos.

JUNTOS E MISTURADOS começa mostrando o primeiro encontro dos dois (num blind date), no qual ambos ficam totalmente constrangidos um com o outro. Ela está separada do marido; ele é viúvo. Ela tem dois filhos homens; ele tem três filhas, mas criadas por ele como se fossem meninos. Até no modo de se vestir e cortar o cabelo. O filme brinca bastante com isso até o ponto de não ter mais graça. Pelo menos isso tem uma razão de ser quando serve para mostrar a transformação da filha mais velha do personagem de Sandler.

Depois do fiasco que foi o primeiro encontro, os dois acabam se encontrando por acidente (na tal loja) e acidentalmente vão com toda a família, juntos, para umas férias na África do Sul. Destaque para um grupo de dançarinos africanos que aparece de vez em quando, fazendo gestos ridículos e ao mesmo tempo divertidos, justamente por serem tão ridículos. Se fosse uma comédia grega, esse grupo representaria o coro. Mas sequer mencionar tal comparação talvez não seja muito justo para com os gregos.

No mais, no que se refere mais especificamente ao relacionamento dos personagens de Sandler e Drew, trata-se de uma comédia romântica pra lá de convencional, apresentando o inicial sentimento de rejeição de ambos para, em seguida, mostrar o crescente amor que nasce durante as férias na África. Não é para se esperar muita coisa, mas fãs dos dois astros certamente gostarão de revê-los juntos, mesmo que em um filme bem meia-boca.

domingo, julho 13, 2014

FACES























E finalmente, depois de amargar duas decepções em Hollywood, John Cassavetes resolve voltar para sua cidade natal, Nova York, e fazer “cinema de guerrilha”, filmando apenas à noite e nos fins de semana e feriados, já que não havia dinheiro para pagar elenco e equipe técnica. FACES (1968) foi filmado entre os meses de janeiro e julho de 1965 e ainda carrega um pouco do espírito pré-contracultura da sociedade americana da época.

Ainda assim, levando em consideração o estilo moderno do diretor que já transparecia desde a estreia com SOMBRAS (1959), o seu trabalho destoa dessa fase de transição, e quando foi lançado nos cinemas já estava em sintonia com aquele novo momento histórico, apresentando, por exemplo, mulheres que resolvem sair à noite para se embriagar, já que seus maridos também o fazem, em busca de algo que ajude a aliviar um pouco a infelicidade gerada por casamentos cheios de frustrações.

Curiosamente, FACES foi realizado após os maus tratos que Cassavetes recebeu dos engravatados de Hollywood. Ele se perguntou como seria a vida dessas pessoas e se inspirou nelas para criar alguns dos personagens masculinos mais irritantes do cinema americano, como Richard Frost, vivido por John Marley. Chet (Seymour Cassel) poderia até ser simpático, representando um novo tipo de masculinidade, que problematiza a figura do homem conquistador de mulheres em festas ao chegar à casa de Maria (Lynn Carlin).

Cassavetes quis entender como seria a vida privada desses homens, representados no filme por Frost e por outros dois homens que ele encontra no apartamento da prostituta de luxo Jeannie (Gena Rowlands). Esses sujeitos, principalmente graças aos efeitos do álcool, são carregados de idiotice, falam muitas asneiras e riem à toa, como que para passar a imagem de que são poderosos, inteligentes e divertidos. Ao contrário, porém, o que mais sabem fazer é maltratar as mulheres.

Claro que por mais que achemos esse tipo de personagem irritante, podemos também nos identificar em parte com eles ao lembrarmos o quanto também já fomos (ou somos) capazes de sermos igualmente pulhas. E daí vem o fato de que Cassavetes não quer julgar. Esses personagens somos nós todos. E talvez ele só pegue mais leve com as mulheres por não ser mulher. Daí termos uma personagem tão adorável como a garota de programa Jeannie, que além de linda se faz de forte e sábia, mesmo estando em uma posição social mal vista.

O mesmo se poderia dizer da esposa de Frost, Maria, em especial quando ele diz a ela que quer o divórcio. A câmera nervosa (ou embriagada) procura, de maneira desnorteada, a expressão em seu rosto, que passa do riso à tristeza. Aliás, é bastante comum neste filme vermos pessoas em momentos constrangedores, o que só aproxima FACES da vida real e o distancia do cinema de gênero. Trata-se, portanto, de um belo retorno de Cassavetes ao cinema independente, que ainda renderia belos frutos no futuro.

sábado, julho 12, 2014

A MARCA DO MEDO (The Quiet Ones)























A Hammer Films tenta ressuscitar, mas por enquanto não tem sido fácil voltar à glória dos anos 1950-1970. Produções como DEIXE-ME ENTRAR (2010), A INQUILINA (2011) e A MULHER DE PRETO (2012) são bons exemplares, mas ainda é pouco em quantidade e em repercussão. A volta da Hammer tem se mostrado bem tímida. E se depender de filmes fracos como A MARCA DO MEDO (2014), então, é melhor nem assinar o nome da produtora inglesa.

O filme de John Pogue (de QUARENTENA 2, 2011) até tem uma boa direção de arte que remete ao tempo que se passa a história, os anos 1970. A MARCA DO MEDO lida com o velho tema "crença vs. ceticismo". Na trama, um professor universitário, Joseph Coupland (Jared Harris), tenta provar, através de experimentos, que o que parece ser um caso de possessão pode ser provado por vias racionais.

O Professor já conta com um casal de assistentes, Krissi (Erin Richards) e Harry (Rori Fleck-Byrne), e completa o time convidando o apaixonado por filmagens Brian (Sam Claffin), que será responsável em registrar os eventos ocorridos na casa que funciona como laboratório para os experimentos. A jovem atormentada, Jane, é vivida por Olivia Cooke, conhecida por seu adorável papel na série BATES MOTEL.

Como espectadores de filmes de horror, temos a experiência de que raramente o sobrenatural é desmascarado no final. Ao contrário, no gênero, o racionalismo e o ceticismo são massacrados por eventos verdadeiramente sobrenaturais, sejam eles representados por fantasmas, demônios ou outras entidades. Bem diferente, por exemplo, dos desenhos do Scooby-Doo.

Assim, em meio a sustos gratuitos auxiliados pelo som alto do cinema e ganhando a antipatia do espectador logo no começo, A MARCA DO MAL apresenta a história da menina que parece estar possuída por outra. Trancada em uma cela e privada de sono, ela é instigada a ficar irritada para trazer à tona essa personagem que ela supostamente criou, de acordo com o Professor. Porém, o que se manifesta é cada vez mais perturbador para não se acreditar em algo que vai além do que se poderia explicar por leis da Física.

O filme melhora pelo meio, quando a trama começa a ficar mais interessante e não precisa mais de sustos bobos, mas infelizmente se encaminha para um desfecho fraco. Ainda assim, alguns momentos bons se destacam, como algo que sai da boca de Jane durante uma das gravações. Também muito boa a cena da sessão espírita na mesa redonda, tentando falar com Evey, a suposta entidade.

Quanto ao fato de ser baseado em fatos reais, há um link bem interessante comentando sobre o que houve no Canadá e o que é mostrado no filme AQUI.

sexta-feira, julho 11, 2014

LUNCHBOX (The Lunchbox / Dabba)























Quando se pensa que a cota de filmes lindos do ano já acabou, eis que surge essa história de amor de tirar o fôlego chamada LUNCHBOX (2013), dirigida por Ritesh Batra. Trata-se de um romance agridoce que também poderia ser descrito com uma complexidade maior de sabores, até por também tratar de um assunto muito caro ao cinema: a culinária.

Há vários filmes sobre a arte de conquistar pelo paladar e até podemos acrescentar LUNCHBOX a esse grupo. Assim como pintores, cineastas ou escritores querem que seus trabalhos sejam vistos, reconhecidos e elogiados, uma pessoa que capricha nessa arte mais efêmera (será?) quer também reconhecimento. Vai ficar triste se alguém não gostar da comida e vai ficar feliz da vida quando alguém elogiar.

Assim, de um lado temos um homem triste, viúvo e de poucas palavras, Saajan Fernandes (Irrfhan Khan, de AS AVENTURAS DE PI), que trabalha na contabilidade de uma grande empresa, e de outro, temos uma mulher jovem e bela, Ila (Nimrat Kaur), que sofre com a indiferença do marido. Ela capricha no almoço que envia através de um sistema de entrega de marmitas de Mubai. Apesar de ter um sujeito que pega várias marmitas em uma humilde bicicleta e essas marmitas passam depois por outros meios de transporte daquela cidade caótica da Índia, esse sistema é considerado infalível.

Acontece que nada é infalível e as marmitas que deveriam ser endereçadas ao marido de Ila vão parar na mesa de trabalho de Saajan, que na hora do almoço estranha o quanto o sabor melhorou em comparação com o que ele estava acostumado, e assim ele acaba se correspondendo com bilhetes e depois com cartas com a pessoa responsável por aquele manjar dos deuses.

Trata-se de uma variação de uma história de amor à distância, que já aconteceu com tantas pessoas antes e depois do advento da internet. O bonito do filme é o quanto ficamos encantados com esse vai e vem de mensagens e o quanto torcemos pelo encontro final entre Saajan e Ila. O filme mexe mesmo com os corações, além de ser extremamente delicado no trato com os personagens e seus dramas.

As conversas ou trocas de mensagens entre os personagens são rápidas – inclusive entre Saajan e o funcionário novo que chega na empresa para ficar em seu lugar, – mas entre elas há um respiro de um sentimento forte, já que nos tornamos cúmplices desse relacionamento à distância.

Às vezes dá um pouco de raiva dos personagens, pelo fato de eles não trocarem telefones ou endereços, como Jesse e Celine em ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, mas obstáculos são elementos muito importantes para o sucesso de uma grande história de amor. E certamente podemos atribuir esse título a LUNCHBOX, com sua simplicidade e busca da beleza nas pequenas coisas da vida.

quarta-feira, julho 09, 2014

O CONGRESSO FUTURISTA (The Congress)























Às vezes precisamos de tempo para digerir certos filmes e entender os motivos que os levaram a fazer com que ele mexesse com nossas emoções. O ruim é quando deixamos para muito tarde, quando esse efeito já começa a se distanciar diante do efeito de filmes mais recentes. Daí até pensamos que poderia ser um alarme falso o que havíamos sentido. Não sei se esse é o caso de O CONGRESSO FUTURISTA (2013), de Ari Folman, mas estou aqui justamente para tentar repensá-lo, trazê-lo de minha memória ruim para procurar descrever suas qualidades e sua força.

O israelense Ari Folman chamou a atenção do mundo em grande escala com seu híbrido de animação com documentário VALSA PARA BASHIR (2008), que na verdade já era o seu terceiro trabalho na direção. O CONGRESSO FUTURISTA, adaptação do romance distópico de Stanislaw Lem, também aposta na mistura de gêneros ao juntar o filme em live action com um estilo de animação quase lisérgica para falar de perda. Aliás, talvez tenha sido isso, o sentimento de perda, que tenha me deixado tão angustiado ao ver este filme.

Na trama, Robin Wright vive a si mesma – ou pelo menos um alter-ego de si mesma – que está em decadência em Hollywood. Uma Hollywood que cada vez mais deixa de valorizar os atores veteranos, que são considerados obsoletos. No caso de Robin, ela é lembrada principalmente pela fantasia romântica A PRINCESA PROMETIDA, realizado em 1987, quando a atriz tinha apenas 21 e ainda podia se passar por adolescente.

Agora uma mulher madura e com dificuldades para encontrar trabalho num mundo que valoriza cada vez mais os atores e atrizes criados por computador, Robin, precisando de dinheiro para tratamento de saúde do filho, resolve se submeter a um contrato no qual ela seria eternamente jovem em sua versão computadorizada nos filmes, mas abdicaria de qualquer aparição em filmes, séries de televisão ou mesmo peças de teatro. Ela ganharia por tudo que a sua versão computadorizada e sempre jovem fizesse, mas deixaria de existir para o mundo.

O filme tem uma primeira parte em live action bem interessante, com a conversa nos bastidores envolvendo o tal contrato, em que Harvey Keitel é o seu empresário de confiança e Danny Huston é uma espécie de Mefistófelis, mas também se torna bem interessante quando dá um salto no tempo e a atriz é convidada a ingressar numa espécie de congresso em que todas as pessoas se transformam em desenho animado.

Daí entra a sensação de perda do corpo. Sua alma agora habita uma espécie de recipiente bidimensional com a sua caricatura. Outras pessoas, no entanto, preferem viver naquele mundo com a forma que escolherem. Trata-se de um mundo que também tem pessoas insatisfeitas e prontas para programar uma rebelião contra aquele sistema criado pelo homem e cada vez mais afastado do mundo real e das realidades sociais.

Em alguns momentos o filme prefere se perder naquele mundo de animação que parece ter saído da mente de alguém numa viagem de ácido, mas o sentimento de aflição da personagem está sempre presente, tanto na busca pelo filho, que pode ter ido para o mundo real, quanto pelo encontro de um amor no mundo animado. O CONGRESSO FUTURISTA acaba também pondo em discussão o conceito de alma ou espírito, que de uma forma ou de outra está sempre preso. E que pode se estender até mesmo para essa tendência da sociedade atual de se tornar cada vez mais virtual e perder o elo com o mundo material.

Para sair um pouco do tom sempre sério, há referências divertidas, como o modo como Tom Cruise é mostrado no mundo animado, entre outras citações do cinema, e momentos muito lindos, como quando Robin canta "If It Be Your Will", de Leonard Cohen, ou "Forever Young", de Bob Dylan.