domingo, julho 13, 2014

FACES























E finalmente, depois de amargar duas decepções em Hollywood, John Cassavetes resolve voltar para sua cidade natal, Nova York, e fazer “cinema de guerrilha”, filmando apenas à noite e nos fins de semana e feriados, já que não havia dinheiro para pagar elenco e equipe técnica. FACES (1968) foi filmado entre os meses de janeiro e julho de 1965 e ainda carrega um pouco do espírito pré-contracultura da sociedade americana da época.

Ainda assim, levando em consideração o estilo moderno do diretor que já transparecia desde a estreia com SOMBRAS (1959), o seu trabalho destoa dessa fase de transição, e quando foi lançado nos cinemas já estava em sintonia com aquele novo momento histórico, apresentando, por exemplo, mulheres que resolvem sair à noite para se embriagar, já que seus maridos também o fazem, em busca de algo que ajude a aliviar um pouco a infelicidade gerada por casamentos cheios de frustrações.

Curiosamente, FACES foi realizado após os maus tratos que Cassavetes recebeu dos engravatados de Hollywood. Ele se perguntou como seria a vida dessas pessoas e se inspirou nelas para criar alguns dos personagens masculinos mais irritantes do cinema americano, como Richard Frost, vivido por John Marley. Chet (Seymour Cassel) poderia até ser simpático, representando um novo tipo de masculinidade, que problematiza a figura do homem conquistador de mulheres em festas ao chegar à casa de Maria (Lynn Carlin).

Cassavetes quis entender como seria a vida privada desses homens, representados no filme por Frost e por outros dois homens que ele encontra no apartamento da prostituta de luxo Jeannie (Gena Rowlands). Esses sujeitos, principalmente graças aos efeitos do álcool, são carregados de idiotice, falam muitas asneiras e riem à toa, como que para passar a imagem de que são poderosos, inteligentes e divertidos. Ao contrário, porém, o que mais sabem fazer é maltratar as mulheres.

Claro que por mais que achemos esse tipo de personagem irritante, podemos também nos identificar em parte com eles ao lembrarmos o quanto também já fomos (ou somos) capazes de sermos igualmente pulhas. E daí vem o fato de que Cassavetes não quer julgar. Esses personagens somos nós todos. E talvez ele só pegue mais leve com as mulheres por não ser mulher. Daí termos uma personagem tão adorável como a garota de programa Jeannie, que além de linda se faz de forte e sábia, mesmo estando em uma posição social mal vista.

O mesmo se poderia dizer da esposa de Frost, Maria, em especial quando ele diz a ela que quer o divórcio. A câmera nervosa (ou embriagada) procura, de maneira desnorteada, a expressão em seu rosto, que passa do riso à tristeza. Aliás, é bastante comum neste filme vermos pessoas em momentos constrangedores, o que só aproxima FACES da vida real e o distancia do cinema de gênero. Trata-se, portanto, de um belo retorno de Cassavetes ao cinema independente, que ainda renderia belos frutos no futuro.

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