segunda-feira, junho 30, 2008

SILIP - DAUGHTERS OF EVE (Silip)























Para entrar em sintonia com a Sessão do Comodoro desse mês, que vai acontecer na próxima quarta-feira, 2 de julho, resolvi me antecipar e ver durante o final de semana a produção filipina SILIP - DAUGHTERS OF EVE (1985), de Elwood Perez. Infelizmente meus planos para estar em Sampa nesse mês de julho não deram certo, mas fica pra próxima. Foi a primeira vez que vi um filme produzido nas Filipinas e se todo filme daquelas bandas for tão bom quanto esse - o que eu duvido -, eu quero é mais. :)

Agora, o que dizer de SILIP? Antes de mais nada, trata-se de uma experiência inédita pra mim. É um filme que lembra um pouco os mais sacanas exemplares das pornochanchadas brasileiras, mas que também tem algo de Mondo Macabro, pelas cenas de violência, começando, inclusive com uma seqüência explícita de um búfalo sendo morto a marretadas, enquanto as crianças, aos prantos, pedem para que o personagem chave da trama, Simon, não faça isso. Obviamente essa cena em especial deve desagradar muita gente, já que uma cena como essa não é mais comum nos dias de hoje, na era do politicamente correto. Aliás, é até proibida. Hoje em dia, pra se ter uma idéia, nos comentários em áudio de O PODEROSO CHEFÃO, Coppola teve que se explicar sobre a cena da cabeça do cavalo, dizendo que o cavalo já estava morto e tal. Mas estamos falando de uma outra realidade: e se serve de consolo, aposto que a carne daquele búfalo foi muito bem aproveitada pelos filipinos que participaram do filme ou doada para as famílias mais pobres.

Mas o filme não é apenas sexo e violência. SILIP tem um ar de tragédia que vai num crescendo até a catarse final. O que pode incomodar algumas pessoas que preferem uma interpretação mais "realista" ou "naturalista" é que os atores, principalmente os homens, não são mesmo profissionais e parecem bem canastrões. Acredito que o diretor deve ter escolhido a maior parte do elenco - se não todos - do próprio vilarejo ou de algum vilarejo próximo. E, paradoxalmente, de certa maneira, isso dá um ar até de realismo, o fato de todos os rostos serem desconhecidos e de parecerem mesmo membros de uma comunidade primitiva e não mulheres brancas pintadas para parecerem índias como eu já vi em alguns filmes - não que eu também me incomode com isso, ao contrário.

O filme trata de um triângulo amoroso (ou seria um quadrado?), envolvendo duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem, o citado Simon. O cara é feio feito a peste, mas é desejado feito galã de novela das oito pelas meninas. Uma delas, Tonya, é professora de religião para crianças e procura a todo custo não se render aos cada vez mais fortes desejos carnais. Quando o calor sobe pelo corpo, por exemplo, ela toma um banho gelado ou chega até mesmo a jogar sal na própria vagina. E isso está meio que enlouquecendo Tonya, que vê o desejo sexual como algo demoníaco. Do outro lado, temos sua irmã Selda. Recém-chegada de uma viagem pelo exterior e trazendo um rapaz inglês a tiracolo, ela traz valores que chocam aquela comunidade primitiva - no rádio que ela traz, ouvimos "Like a Virgin", da Madonna, exemplo dos valores culturais ocidentais e canção que estava bombando na época. Apesar de muito mais liberada, incomoda-se com o fato de sua irmã andar o tempo todo com aqueles trapos e sem usar calcinha, o que, cá pra nós, torna a voltagem erótica do filme ainda mais elevada. Acontece que o tal de Simon, o matador de búfalos, é um sujeito que já está vivendo com outra mulher, que tem muito ciúme do seu parceiro. Paralelo a isso, o filme mostra a comunidade, já catequisada pela Igreja Católica e que construiu valores sociais que não toleram as inovações e o jeito "vulgar" de Selda. O filme se constrói também em cima da tensão entre as duas irmãs, não apenas por ambas gostarem do mesmo homem, mas pelo fato de elas terem crenças e valores diferentes. Ou pelo menos, uma delas não quer dar o braço a torcer e se liberar, digamos assim.

Trata-se de um filme exploitation e por isso mesmo deve-se curtí-lo como ele é, sem preconceitos. Mas não é porque é exploitation que não vai ter a sua mensagem, o seu momento de reflexão final, que lida, principalmente, com intolerância e com o que a raiva coletiva é capaz de gerar. Já vimos isso num filme classe A hollywoodiano, a obra-prima CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William A. Wellman, mas SILIP não fica muito atrás em seus momentos finais, especialmente quando eu me vi torcendo pelas duas moças. Mas melhor eu não falar muito da trama para não estragar as surpresas. O que eu acredito que posso adiantar é que o erotismo do filme quase chega ao limite do hardcore, de tão forte e belo que é. E é por isso que o filme é tão bom. Imaginem um filme sobre luxúria e desejos carnais sem passar ao espectador toda a voluptuosidade e sensualidade que lhe é exigido. Não teria a menor graça, certo?

SILIP vai ser exibido na Sessão do Comodoro com o título AS FILHAS DE EVA e quem for de São Paulo e perder é mulher do padre.

domingo, junho 29, 2008

WALL-E



Uma grata surpresa este WALL-E (2008), que eu a princípio não estava recebendo com bons olhos por causa de tanto marketing em torno do robozinho. Uma certa revista de cinema, por exemplo, pôs fotos do robozinho em praticamente um quinto de suas páginas. Se isso não for propaganda, eu não sei o que é. O que importa é que o filme é mesmo uma graça, tem uma inteligência rara nos desenhos animados e é bem mais adulto do que os outros filmes produzidos pela Pixar. Não apenas pela homenagem à 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, a obra-prima de Kubrick, mas por mexer com temas ecológicos de uma maneira inteligente e por ser quase um filme mudo e se sustentar durante boa parte de sua metragem com apenas os dizeres "Eva" e "Wall-E". Por isso, ver o filme dublado não faz muita diferença. Outra coisa, nunca pensei que uma barata, o inseto talvez mais odiado do mundo, pudesse se mostrar tão simpática quanto nesse desenho animado. Mas se Hollywood conseguiu fazer um filme onde um rato é um chefe de cozinha, nada é impossível. WALL-E foi dirigido por Andrew Stanton, o mesmo do genial e emocionante PROCURANDO NEMO (2003). Só que PROCURANDO NEMO tinha um apelo infantil maior do que essa nova e sofisticada empreitada de Stanton, a quem eu fiz a besteira de confundir com outro Andrew, o Andrew Adamson, de SHREK, o que só aumentou o meu pré-conceito para com a obra, antes mesmo de conferí-la. Devia ter confiado mais no pedrigri da Pixar no comando e menos em minha mente confusa.

Na trama de WALL-E, vemos o robozinho do título desempenhando solitariamente a sua função com que foi criado, antes de o planeta ter se tornado inabitável e de a humanidade ter se mudado para outro lugar. Os prédios em escombros se confudem com os prédios de lixo empilhados de maneira bastante organizada por Wall-E, que tem como único companheiro, uma baratinha, que ele alimenta com o que encontra no lixo. Aliás, nem precisaria, já que dizem que, mesmo que numa explosão atômica, apenas as baratas sobreviverão. Pois bem. Certo dia, Wall-E encontra uma plantinha viva, um milagre naquele deserto onde nenhuma forma de vida biológica - além de baratas - poderia existir. Isso coincide com a chegada posterior de uma nave espacial contendo a robô-sonda de nome Eva, enviada para verificar se há alguma forma de vida na Terra. Wall-E se sente imediatamente atraído pelo visual fantástico daquela robozinha, que desperta algo naquele coração de metal. E mais uma vez o cinema se rende à idéia de que uma forma de vida artificial pode ter sentimentos, como os seres humanos. E os dois olhos de Wall-E, que mais se parecem com os de um cãozinho carente, são tão expressivos que fica difícil não acreditar. Quanto à Eva - cujo nome não deve ter sido escolhido em vão -, ela tem uma força destruidora que assusta Wall-E, mas mesmo assim ele tenta uma aproximação. E isso é basicamente o início do primeiro ato do filme, que segue por outros rumos e traz mais informações sobre onde estão os descendentes do nosso desolado planeta.

Algumas das cenas de WALL-E são musicadas e a escolha das músicas são bem interessantes, como “La Vie em Rose”, na voz de Louis Armstrong, e “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, na cena em que o filme mais se parece com o clássico de Kubrick, onde um certo robô quer assumir o controle da situação, só para ficar nas canções mais conhecidas. Curiosamente, Andrew Stanton já havia germinado a idéia de WALL-E antes mesmo de realizar o seminal TOY STORY (1995). Mas foi com PROCURANDO NEMO que ele resolveu mudar da água para o ar e criar seqüências belíssimas dos dois robôs no espaço sideral. E é com esse misto de alegria, encantamento e melancolia - essa, surge logo de cara, assim que o filme começa -, que WALL-E já ganha o seu espaço como mais um grande salto na história da animação. De bônus, antes de o filme começar, a Pixar apresenta mais um de seus inspirados e divertidos curtas: PRESTO, sobre um mágico e o seu coelho esfomeado. O curta tem um ar de desenho dos anos 40/50, como as produções da Warner da época e por isso fala a todas as gerações.

sábado, junho 28, 2008

SEINFELD - 6ª TEMPORADA (Seinfeld - Season 6)




A falta de tempo e a prioridade que eu dei a outras séries acabou por tornar a apreciação dessa sexta temporada de SEINFELD (1994/1995) praticamente interrompida e a finalização bem mais demorada que as anteriores. O fato de os episódios não serem, em média, tão bons quanto os das temporadas anteriores também contribuiu um pouco para isso. A série já sinalizava um certo cansaço, principalmente da parte de Larry David, que roteirizou bem menos episódios nessa temporada. Ainda assim, a sexta temporada reservou alguns clássicos, como os episódios "The Jimmy", sobre um rapaz que sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa; "The Secretary", "The Big Salad" e "The Switch". Lembrando que esses não são necessariamente os meus favoritos da temporada.

Um dos atrativos desse box é o especial de uma hora mostrando cenas hilariantes dos primeiros 99 episódios da série. Não tem como não gargalhar de alegria e de cumplicidade e de sentir um carinho especial pelos personagens e pelos demais envolvidos na série. Quanto aos episódios em si, houve uma ausência sentida de Larry David - que roteirizou apenas 5 episódios dos 23 da temporada -, mas ele esteve presente duas vezes em pontas. Uma delas, inclusive, bastante marcante, no papel de um misterioso homem de capa que é visto conversando com o pai de George. E por falar no personagem de Jerry Stiller (que até o ano passado eu não sabia que era pai do Ben Stiller), impressionante o quanto ele é engraçado. Jerry Seinfeld sempre comenta nas entrevistas do quanto ele não tem noção de quão engraçado ele é. O último episódio da temporada ("The Understudy"), inclusive, tem uma participação engraçadíssima dele, quando Elaine fica sabendo que ele é fluente em coreano por ter trabalhado como comerciante pelo oriente na juventude e, como ela suspeita que as suas manicures coreanas estão falando mal dela, aproveitando-se que ela não entende a língua, ela pede ao sr. Constanza que sirva de espião e lhe diga o que as manicures estão dizendo.

No mais, na sexta temporada descobrimos o primeiro nome de Kramer (Cosmo), o chefe de Elaine inventa a moda de comer barras de chocolate com garfo e faca, George é flagrado pegando comida do lixo e compra um carro que já pertenceu a Jon Voight, Elaine fica apaixonada por um rapaz gay, George fica indignado quando descobre que o colega de quarto de uma de suas namoradas é um homem, Jerry se submete a um detector de mentiras, Kramer inventa um sutiã masculino e mais um monte de coisas de uma série que tem a fama de ser sobre nada. :)

O meu top 5 da temporada:

1. "The Couch". A parte mais engraçada desse episódio, que envolve também Elaine interessada no cara que entrega o novo sofá de Jerry é George entrando num clube de leitura de livros. Como ele não consegue ler o livro, tenta alugar o filme adaptado do romance para enganar no debate sobre o livro e não consegue na locadora. Ele consegue o endereço da pessoa que alugou o vídeo e tem a cara de pau de ir até lá assistir o filme com a família de estranhos.

2. "The Switch". Esse é o episódio em que descobrimos o primeiro nome de Kramer, mas o melhor está na tentativa de Jerry de fazer "a troca". Isto é, ele descobre que a colega de quarto de sua namorada é muito mais simpática (ela ri de suas piadas, enquanto a outra está sempre séria) e bonita que a namorada e quer fazer uma troca. Seguindo um "plano perfeito" de George, ele arrisca pedir à namorada que os três façam um ménage à trois, a fim de que a namorada fique indignada com a proposta e desista dele para que ele fique com a outra.

3. "The Doorman". Jerry vai pegar Elaine no escritório do sr. Pitt, mas tem de encarar um porteiro que fica enchendo o saco, dizendo que Jerry o considera inferior por ser um porteiro e tal. O porteiro acaba por colocar Jerry numa encrenca.

4. "The Big Salad". Eis um clássico. Duas situações importantes acontecem: Jerry descobre que sua namorada atual já foi namorada de Newman e que foi Newman quem terminou a relação. Mas o que gera a tensão é o fato de Elaine e George entrarem em atrito por causa de uma salada que Elaine pediu.

5. "The Fusilli Jerry". Kramer faz um boneco de Jerry feito com pasta de macarrão, Kramer consegue sua licença para dirigir de volta, mas pega uma placa de carro por engano com o nome "Assman", Jerry fica puto quando descobre que o atual namorado de Elaine está utilizando suas técnicas de agradar uma mulher sexualmente na cama, que ele considera como sendo de sua autoria e, pra completar, acontece um pequeno incidente com o pai de George, fato que gera boas risadas até nos extras e nas cenas deletadas.

quinta-feira, junho 26, 2008

A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (L'Histoire d'Adèle H.)
























"Não sei por que faço um filme assim, tão triste. Mas a idéia fixa tem algo de vertiginoso, e creio ter sido tomado por essa vertigem. Desde o início, mostro que é inútil: o tenente jamais amará Adèle. "
(François Truffaut)


Talvez o mais triste filme de Truffaut, A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (1975), mesmo assim, não chegou a me emocionar tanto quanto DOMICÍLIO CONJUGAL (1970) - que me fez chorar e muito, mesmo sendo uma comédia dramática - e o pouco elogiado A SEREIA DO MISSISSIPI (1969). O que marca esse bom filme estrelado por Isabelle Adjani - não tão bela quanto em A RAINHA MARGOT, mas talvez de propósito, já que ela interpreta uma mulher rejeitada - é novamente o amor, o tema central dos filmes de Truffaut. No caso de A HISTÓRIA DE ADÈLE H., temos o caso da filha do célebre escritor Victor Hugo, que em 1863 vai até Halifax, no Canadá, em busca do homem que ama, um jovem militar que não corresponde a seu amor. As tentativas de Adèle de se mostrar humilhada diante dele acabam por dificultar ainda mais a sua situação. Em certo momento, ela chega a pagar uma prostituta para que ela fosse até o quarto do rapaz para dar-lhe prazer físico. Para ela, pouco importava se ele ficasse com ela sem amá-la ou quais fossem as condições que ele porventura oferecesse. Ela amaria o bastante pelos dois. Porém, não é assim que funciona a engrenagem do amor. E, apesar de tantas humilhações, Adèle se recusa a sair da cidade - contrariando os pedidos do pai - enquanto o rapaz estiver na cidade. Para isso, ela inventa mentiras para seu pai, que manda a ela dinheiro, que às vezes ela até doa para o ingrato soldado.

A fotografia de Nestor Almendros procura não trazer cores vivas para a tela, enfatizando a cor marrom como a mais presente, uma escolha acertada, dado o tom deprimente da história, que foi construída a partir das cartas da própria Adèle Hugo. Almendros já havia feito um belo trabalho na fotografia em tons esmaecidos de AS DUAS INGLESAS E O AMOR (1971), filme que guarda uma certa familiaridade com A HISTÓRIA DE ADÈLE H., principalmente por serem filmes excessivamente sérios e de amores exacerbados. Mas pelo menos AS DUAS INGLESAS E O AMOR ainda contava com a presença simpática e animadora de Jean-Pierre Léaud. Neste, só temos a expressão sempre triste, desesperada e em certo momento até zumbiesca de Adjani, que parece entregar-se com vontade ao papel, não se importando em parecer uma mendiga a certa altura do filme.

Truffaut dizia em entrevista constante do livro O CINEMA SEGUNDO FRANÇOIS TRUFFAUT que os personagens colocados afetiva e moralmente à margem da sociedade o fascinavam. Ele sempre teve essa atração pelos marginais, como se pode notar desde o seu primeiro filme, e acho isso muito interessante. Ele mesmo chegou a confessar que sente até uma identificação pelos criminosos, talvez por ter feito algo considerado errado pela sua família e pela sociedade diversas vezes durante a infância, desde matar aula para ir ao cinema ou ler livros na biblioteca, até a dormir na rua. E é interessante ler essas entrevistas de Truffaut, pois parece até que estamos lendo uma sessão de psicanálise, pois ele não se importa em nenhum momento de se expor ao público, o que eu acho bonito e acredito que também costumo fazer, ainda que em menor quantidade, nesse meu espaço virtual. A certo momento, dá a entender que a sua necessidade de realizar esse filme se deve a uma identificação com a protagonista, que era uma filha pouco querida e sentia-se rejeitada pela família, comparada às outras duas filhas de Victor Hugo.

quarta-feira, junho 25, 2008

CLEÓPATRA























Desde que me entendo por cinéfilo, não lembro de ter visto um filme de Júlio Bressane passando nos cinemas da cidade. Eles simplesmente não chegam. Quando dou por mim, lá estão os filmes nas locadoras. Aconteceu com SÃO JERÔNIMO (1999), DIAS DE NIETSZCHE EM TURIM (2001) e FILME DE AMOR (2003). Portanto, não deixa de ser motivo de comemoração ver que a mais recente obra dele, o massacrado e vaiado CLEÓPATRA (2007), estreou no Espaço Unibanco local. Foi o meu primeiro Bressane no cinema! E é impressionante o quanto as pessoas esquecem o passado glorioso e a importância de certos cineastas na história do cinema brasileiro e sequer tentam entender as intenções do cineasta ao optar por fazer o seu trabalho à sua maneira. É importante lembrar que Júlio Bressane é um dos mestres do chamado Cinema Marginal, surgido no final dos anos 60. Mesmo assim, o que choveu de críticas negativas em cima desse novo filme não é brincadeira. Até por chamar mais a atenção do público que os outros trabalhos dele por causa do elenco de celebridades "globais" envolvido no projeto. Mas Bressane parece não estar nem aí. E com sua formação erudita e sua coragem em fazer "filme de época" com poucos recursos, num país que não mais valoriza ousadias e experimentações, tão comuns no cinema brasileiro de outrora, o diretor dá a cara à tapa.

A princípio, o principal atrativo do filme de Bressane, principalmente para o público masculino, é a presença de Alessandra Negrini, no auge da beleza e da gostosura, em cenas de nudez e sexo, fazendo o papel de uma das mais importantes mulheres da História da humanidade. Aliás, pensando nisso, venho com uma pergunta: quais seriam as mulheres mais importantes da História? Agora me vem à cabeça Cleópatra, Joana D'Arc, a Rainha Elizabeth, Helena Blavatsky... Quem mais faria parte desse time? O fato é que Cleópatra, não por acaso, desperta até hoje um certo facínio, e não apenas devido à facilidade com que ela atraía os homens, mas também por conta de sua inteligência - dizem que ela falava sete ou oito línguas - e de seus conhecimentos em ocultismo, fato que gerou alguns dos momentos mais interessantes e até lynchianos do filme de Bressane. Destaque para a cena em que a câmera se desloca por uma cortina, pára em uma janela e um personagem diz que algo fora do normal está acontecendo naquele momento. A cena que mostra Júlio César (Miguel Falabella) tendo um ataque epiléptico é estranhíssima, bem como as diversas vezes em que Cleópatra treme ao ouvir o nome de Alexandre Magno. Ou quando ela se utiliza de suas habilidades místicas.

Quanto a Miguel Falabella, fiquei surpreso positivamente com sua interpretação. A princípio, não gostei de sua escalação, mas até que ele fez um bom Júlio César. A cena erótica envolvendo os dedos de Cleópatra é provavelmente o que mais dá o que falar ao final da sessão. Bem como a cena, aparentemente gratuita, em que Bressane mostra o close de uma vagina totalmente depilada e pintada de preto, com a câmera dando um giro de 180º formando um triângulo. Seria a intenção do diretor fazer uma relação do Egito, cujo maior símbolo são as pirâmides, com a genitália feminina? O poder da vagina seria, portanto, um dos principais temas de CLEÓPATRA. No papel de Marco Antônio, e fazendo um trabalho mais másculo que Falabella, aparece Bruno Garcia. Sei que sou meio suspeito e costumo gostar de filmes que mostram a beleza da anatomia feminina, mas o fato é que eu também curti os momentos mais políticos, de decisões estratégicas tanto por parte dos romanos, quanto dos egípcios. E claro, dos momentos mais misteriosos e da bela fotografia em scope de Walter Carvalho. Senti-me um privilegiado de ter podido ver esse filme no cinema. E deu vontade de rever CLEÓPATRA, de Joseph L. Mankiewicz, mesmo sabendo que se trata de uma obra mais acadêmica. É que o filme despertou em mim uma curiosidade maior em relação à figura de Cleópatra.

terça-feira, junho 24, 2008

LES GIRLS























Estava achando que passar por LES GIRLS (1957) não ia ser uma experiência muito agradável pra mim na minha peregrinação pela obra de George Cukor, principalmente por se tratar de um musical, o gênero que eu menos gosto. E não apenas por isso, mas por eu não ter gostado do musical anterior de Cukor, o famoso e ambicioso NASCE UMA ESTRELA (1954). Das três uma: ou eu assisti NASCE UMA ESTRELA no momento errado, ou não vou com a cara de Judy Garland, ou LES GIRLS é mesmo um filme superior e bem mais agradável. Nem as seqüências musicais (que são poucas, outro motivo para eu ter gostado mais do filme) me incomodaram, talvez pelo fato de as canções terem sido escritas por Cole Porter. O filme marcou a despedida de Gene Kelly dos musicais da MGM, empresa com quem ele tinha contrato desde 1943. Porém, LES GIRLS foi "vendido" principalmente como mais um musical de Cole Porter - ALTA SOCIEDADE, musical com Grace Kelly e Frank Sinatra, havia feito muito sucesso. Ainda assim, o sucesso de LES GIRLS foi uma grata surpresa para os executivos da Metro, já que eles achavam que o público já estaria cansado de musicais. O que provou ser um engano, pelo menos naquela época. Nos anos 60 é que os musicais começaram a rarear e a saírem de moda, embora ainda possamos citar alguns importantes do período.

Mas o que eu mais gostei em LES GIRLS foi que, assim como o próprio Cukor disse, o filme não é uma comédia musical, mas uma comédia com música. E outra coisa: o filme é uma espécie de RASHOMON dos musicais, isto é, mostra três histórias diferentes narradas de diferentes pontos de vista, dentro de um tribunal. E mais: eu imaginava que o filme iria enfatizar a fama, coisa que Cukor já havia feito em DEMÔNIO DE MULHER (1954) e no já citado NASCE UMA ESTRELA. Vendo o filme, porém, é que eu percebi que não era bem esse o caminho pretendido. Na trama, Sybil (Kay Kendall) publica um livro contando detalhes de sua vida no show business, no tempo em que ela participava de um espetáculo que rodou toda a Europa chamado "Les Girls". No espetáculo, Barry Nichols (Gene Kelly) cantava e dançava junto com três mulheres. Uma delas, Angèle (Taina Elg), fica bastante incomodada com o conteúdo do livro, que a mostra como uma mulher apaixonada por Nichols, traindo, portanto, o seu noivo, além de ter tentado o suicídio. Como ela acha que a ex-colega está denegrindo a sua imagem, resolve ir a julgamento por danos morais. Assim, o filme é dividido em três partes, sendo a primeira a versão da história de Sybill, a segunda, a versão de Angèle, e a terceira, de um terceiro envolvido, que eu não vou contar aqui pra não estragar a surpresa, mas que só poderia ser o próprio Nichols ou a terceira garota, Joy, a americana, interpretada por Mitzi Gaynor.

Difícil dizer qual das três histórias é a melhor. Talvez a terceira, que ainda conta com uma cena de coreografia bem interessante, com um visual todo vermelho e branco, com Gene Kelly parodiando o visual de Marlon Brando em O SELVAGEM. Aquilo, no technicolor e em cinemascope (ou metroscope), ficou muito bonito. Claro que se fosse a Cyd Charisse no lugar de Mitzi, eu teria gostado mais, mas Mitzi tem o seu charme e é mesmo a mais bonita das três. Já Kay Kendall, soube através do pequeno documentário constante no dvd que ela estava com leucemia durante o filme e morreu dois anos depois. LES GIRLS também representou o adeus de Cole Porter dos musicais. Conta-se que ele nunca mais compôs nenhuma outra canção depois de 1958. Além do minidocumentário, o dvd da Warner ainda conta com um simpático curta-metragem em animação chamado CIRCO DE PULGAS (1954), de Tex Avery, o criador do Pernalonga. Das canções presentes no filme, a única que se tornou popular foi "Ca, C'est L'amour".

segunda-feira, junho 23, 2008

AGENTE 86 (Get Smart)



Saiu melhor do que a encomenda esta adaptação para o cinema da série de tv dos anos 60 AGENTE 86 (2008). A série que durou cinco temporadas, de 1965 a 1970, ganhou inúmeros prêmios e fez bastante sucesso no Brasil. Minha memória é curta, mas lembro de ter visto vários episódios, sendo que a seqüência de abertura é inesquecível, com Maxwell Smart passando por várias portas até chegar no seu ambiente de trabalho, uma agência secreta do Governo Americano, a Control (que seria uma paródia da CIA). O principal objetivo da organização é combater a K.A.O.S, uma organização terrorista que tem como principal objetivo fazer o mal. Simples assim. A série foi feita como uma sátira de James Bond.

O filme foi dirigido por Peter Segal, diretor da ótima comédia romântica COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ (2004) e da comédia escrachada CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 33 E 1/3 (1994). A opção pela escalação de Steve Carell foi mais do que acertada, principalmente levando em consideração que a opção inicial para o personagem alguns anos atrás era Jim Carrey. Tudo bem que Carell também passa um pouco de Michael Scott (THE OFFICE) para o seu Agente 86, mas não dá pra imaginar outro ator melhor para o papel. E é bom lembrar que boa parte das piadas foram criadas pelo próprio Carell, que foi modelando o filme à sua maneira. A lista de piadas boas que o filme tem já justifica a sua inclusão, destaque para a cena do banheiro, onde Smart precisa ouvir o que os russos estão dizendo, enquanto está "tirando água do joelho".

Porém, o filme não seria bem sucedido se a Agente 99 também não fosse igualmente sexy e não tivesse uma boa química com Carell. Anne Hathaway, a garota inocente de O DIABO VESTE PRADA, nunca esteve tão sensual e por isso chega a surpreender e a encantar a audiência. Hathaway está vestida para matar no filme. Quanto às cenas de ação, como se trata de uma superprodução para cinema, AGENTE 86 tem efeitos especiais e um tom que faz lembrar às vezes AS PANTERAS, principalmente na seqüência do pára-quedas. Entre os coadjuvantes (também de luxo), temos Terence Stamp, como o vilão Siegfrid; Dwayne Johnson (ex-The Rock), como o Agente 23; Alan Arkin, como o chefe; e James Caan como o Presidente da República. Que não chega a ser tão engraçado quanto Leslie Nielsen em TODO MUNDO EM PÂNICO 3, mas dá pro gasto, até porque sempre é bom tirar sarro do Bush na escola lendo livros para as criancinhas. Para fãs de HEROES (se é que ainda sobrou algum), tem a presença de Masi Oka. No mais, o filme é correto, divertido, mas não o suficiente para considerarmos memorável. Mas eu não me incomodaria em assistir uma continuação.

P.S.: Esqueci de comentar, mas a Liga dos Blogues Cinematográficos já divulgou o resultado do ranking anos 2000. Quem ainda não viu, dêem uma checada nos filmes eleitos.

sexta-feira, junho 20, 2008

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the Devil Knows You're Dead)























Não deixa de ser curioso ver ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (2007) uma semana depois de O SONHO DE CASSANDRA, de Woody Allen. Os dois filmes têm um tema em comum, ambos são tragédias que lidam com pessoas desesperadas por dinheiro e que por isso utilizam-se de medidas desesperadas. E ambos, desde o começo, já mostram que o crime não compensa, mas não de uma maneira didático-moralista, o que é de se esperar levando-se em consideração os responsáveis por tais obras. Falando um dia desses sobre essas peregrinações que eu faço em cima da obra de alguns cineastas, o Renato me perguntou: "por que você não faz uma de Sidney Lumet?". Aí eu respondi que era porque Lumet tinha uma carreira muito extensa. Mas pra quem já fez uma de John Ford, não seria uma má idéia fazer um bom apanhado da carreira de um cineasta tão importante quanto Lumet.

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO é um de seus mais brilhantes filmes. Provavelmente o melhor trabalho do diretor desde O PESO DE UM PASSADO (1988). Talvez melhor até. Na trama, Andy (Philip Seymour Hoffman) e Hank (Ethan Hawke) são dois irmãos passando por situações financeiras complicadas. O primeiro é um contador que utiliza o dinheiro da empresa onde trabalha para manter um padrão de vida relativamente elevado e ainda sustentar o seu vício em heroína. O segundo é mais pobre, vive devendo o dinheiro da pensão à ex-esposa (Amy Ryan) mas faz sempre o possível para conseguir pelo menos pagar a mensalidade da escola de sua filha. Ao saber que haverá uma auditoria na empresa, Andy fica logo desesperado e tem uma idéia para conseguir dinheiro fácil e logo tenta convencer o irmão caçula a aceitar. A idéia é assaltar a loja de jóias de seus próprios pais, que tem seguro contra roubos. Assim, quem sairia prejudicado com esse assalto seria apenas a seguradora. Mas, como é de esperar, as coisas não saem bem como planejado.

Ao utilizar diferentes pontos de vista e uma montagem de idas e vindas no tempo, tendo o assalto sempre como centro da trama, Sidney Lumet fez um trabalho magnífico, desses que a gente assiste e fica empolgado a cada cena, a cada revirada da trama. E o melhor é que o filme não se sustenta apenas na trama, mas também no drama dos personagens. Sobre os personagens, vale destacar a sexy Marisa Tomei no papel da esposa de Andy - o filme, inclusive, abre com uma surpreendente cena de sexo dos dois, passando férias no Brasil -; e Albert Finney, como o pai dos rapazes. Com o desenvolvimento da trama a partir da junção dos diversos pontos de vista, em camadas, vamos tendo uma privilegiada visão desse quadro trágico e regido sempre pela Lei de Murphy. Quando você pensa que as coisas não podem piorar, pode ter certeza de que elas pioram. E Lumet mostra isso, utilizando uma fotografia escura, com sombras que servem tanto como metáfora das coisas escondidas da família prejudicada pela ação, quanto para dar um clima quase "diabólico" ao filme, para utilizar um adjetivo derivado do título. Sem dúvida, um dos melhores do ano.

quinta-feira, junho 19, 2008

RENATO RUSSO - ENTREVISTAS























Eu ia escrever um post sobre o filme novo do Lumet, mas como hoje o dia está me parecendo um pouco mais cinza do que eu esperava, acredito que estou mais em sintonia com o saudoso e atormentado cantor e compositor Renato Russo. Recentemente, aluguei o dvd RENATO RUSSO - ENTREVISTAS (2007), que possui mais de duas horas de entrevistas e boa parte do material é inédito. Das três entrevistas constantes no dvd, a única que eu tinha visto na televisão era a que ele tinha dado para o Zeca Camargo, que fazia parte do programa "A Entrevista", do tempo em que a MTV ainda falava para a minha geração. Hoje, sempre que ligo no canal, dou de cara com algum programa estúpido. Não quero falar mal da nova geração, dessa juventude que já nasceu com a internet formada, mas às vezes - na maioria das vezes, na verdade -, a impressão que eu tenho é que essa nova geração, essa que fica massacrando a língua portuguesa nos scraps do Orkut, é uma geração perdida. E aquela frase de Renato Russo da canção "Aloha", quando ele diz: "que se faça o sacrifício/ e cresçam logo as crianças" fica parecendo decepcionante. Mas vai ver fui eu que virei um daqueles velhos saudosistas que acham que as coisas boas já passaram. Se bem que eu tenho ouvido Pitty ultimamente e tenho achado suas letras e sua música bastante relevantes para os tempos atuais. Mas voltemos a Renato Russo.

Do dvd, a melhor e mais interessante entrevista, até por causa da duração, é a primeira, que mostra Renato dando uma geral na carreira da Legião Urbana dos tempos do Aborto Elétrico até o álbum V. Parece que foi ontem que eu ouvi esse disco pela primeira vez. E como ouvi. O disco é de 1991, que foi um dos anos mais tristes para minha vida pessoal, mas que foi um dos anos mais importantes para a história do rock. Era um ano de transição e enquanto lá fora bandas relevantes da década anterior se superavam e se reinventavam com obras como ACHTUNG BABY (U2) e o "black album" (Metallica), e obras novas e importantes como o NEVERMIND do Nirvana e o GISH dos Smashing Pumpkins surgiam, aqui no Brasil as bandas de rock da década de 80 tentavam sobreviver de alguma maneira em tempos de Collor. Enquanto Paralamas e Titãs vinham com discos fracos (OS GRÃOS e TUDO AO MESMO TEMPO AGORA, respectivamente) e Kid Abelha mantinha-se constante com o seu TUDO É PERMITIDO, a Legião Urbana continuava sua trajetória de excelência, graças à genialidade e sensibilidade de Renato Russo.

Renato, como bom ariano com ascendente em Peixes, seguia tanto pelo impulso quanto pela intuição o seu caminho. E ele era um cara que tinha consciência de que, de uma hora para a outra, a inspiração podia acabar. O poço seca um dia, que o digam os caras do Led Zeppelin. No território da música, especialmente do rock, isso é muito comum. É uma forma de arte bem diferente do cinema ou da literatura. Um cineasta, por exemplo, pode ficar cada vez melhor com o tempo, enquanto que um compositor musical pode perder totalmente a inspiração e definhar a sua arte. No caso da Legião Urbana, eu lembro que ao ouvir pela primeira vez "Vamos fazer um filme", do disco O DESCOBRIMENTO DO BRASIL, eu pensei comigo mesmo: "esse cara nunca vai fazer um disco ruim na vida." E quando saiu o disco solo STONEWALL CELEBRATION CONCERT, eu pensei: "e se fizer, ele pode continuar fazendo esses discos maravilhosos de covers e virar um intérprete de canções alheias que já iria me agradar bastante."

Mas voltando a falar sobre essa falta de inspiração, ele mesmo diz numa das entrevistas que, de uma hora pra outra, a Legião Urbana em determinado momento poderia deixar de ser relevante, que o Pato Fu, por exemplo - ele citou a banda mineira - poderia se tornar mais interessante que a Legião e falar melhor às novas gerações. Mal sabia ele que o Pato Fu acabaria se tornando uma banda independente e pouco apreciada pelo grande público, apesar dos poucos hits. Na verdade, depois do fim da Legião, não houve nenhuma banda que repetisse o sucesso e a qualidade da banda de Renato. A própria geração de bandas dos anos 90 (Raimundos, Planet Hemp, O Rappa, Chico Science & Nação Zumbi, Skank, Jota Quest, mundo livre s/a), se não acabaram, deixaram de ser importantes. Só o Pato Fu, que sempre foi um estranho no ninho e tinha um jeitão mais oitentista, que permaneceu fazendo bons e interessantes trabalhos nessa fraca primeira década do século XXI.

Dos melhores momentos da entrevista, eu destacaria aquele em que Renato mostra para Zeca Camargo um disco de uma banda desconhecida, que ele chama de proto-gay. Ou quando ele conta de quando ele foi para um show dos Ramones e ficou gritando pelo Joey, seu ídolo. Ou quando ele fala do quanto o homossexualismo é velado nos Estados Unidos, citando o caso de Henry Rollins, cujo namorado morreu em seus braços. Ou quando Renato diz que não quer ser mártir do rock e cita profeticamente Kurt Cobain - "ih, esse aí, vai embora cedo", ele diz. Mas ao mesmo tempo, Renato Russo sabia que sua condição aparentemente estável de viciado em drogas poderia ser totalmente revertida no dia seguinte. Ele usa o lema do "só por hoje", usado nos A.A.s da vida. E "Só por hoje" acabou se tornando o título de uma das mais tristes e belas canções da Legião, que fala sobre tentativa de suicídio e de tentativa de colocar em ordem uma vida infeliz. Infelizmente, não pudemos assistir ou ouvir nenhuma entrevista de Renato Russo sobre o depressivo álbum A TEMPESTADE, mas talvez nem precisasse, pois Renato pouco usou de metáforas, nunca foi tão direto, quanto nesse seu disco-testamento. Nunca haverá outro Renato Russo.

P.S.: Pra não fechar o post de maneira assim tão triste, vamos de notícia boa. Pra quem não sabe, em julho será lançado o disco O TROVADOR SOLITÁRIO, com onze faixas da fase de Renato Russo, voz e violão, no período entre o Aborto Elétrico e a Legião Urbana. Mais detalhes, neste link.

terça-feira, junho 17, 2008

TRÊS DIAS DO CONDOR (Three Days of the Condor)























Em minha homenagem tardia a Sydney Pollack (1934-2008), aluguei nesse final de semana TRÊS DIAS DO CONDOR (1975), thriller que sempre aparecia em diversas listas como um dos mais interessantes filmes de espionagem já feitos, mas que talvez pela própria natureza "complicada" do gênero, eu sempre fui postergando a apreciação. Ainda bem que depois de Hitchcock, e de seu conceito de mcguffin, eu deixei de quebrar a cabeça com esses filmes. E felizmente, o dvd da Warner traz o filme em widescreeen (scope), com uma imagem belíssima, que dá a impressão de estarmos vendo um filme novinho em folha - o fato de o dvd ser de dupla camada e não possuir nenhum extra ajuda bastante. Nem parece que já se passaram mais de trinta anos de sua realização. Sem falar que o filme dialoga bastante com essa nova safra de filmes mais políticos que voltaram a ser realizados em Hollywood. Inclusive o astro do filme, Robert Redford, é bastante ligado a questões políticas, tendo estrelado recentemente o intimista e reflexivo LEÕES E CORDEIROS.

Na trama de TRÊS DIAS DO CONDOR, Robert Redford é um agente da CIA que que tem um trabalho bem interessante: ele lê. Lê livros de todo o mundo, seja romances ou livros técnicos, sondando possíveis ligações com ataques inimigos. Como nos anos 70 ainda imperava a Guerra Fria, os comunistas deviam ser os inimigos, embora isso não seja explicitado. Tudo no filme é meio nublado. TRÊS DIAS DO CONDOR pode ter sido uma inspiração para os livros que deram origem à trilogia Bourne, já que vemos um agente totalmente confuso com a situação. Não que ele esteja desmoriado, mas acontece que todos os seus colegas de trabalho foram mortos, assim que ele saiu para comprar comida. Na volta, ao tentar apoio dos chefões da CIA, ele passa a ser visto como ameaça e a ser atacado. O que ele tenta fazer na sua luta pela sobrevivência é fugir. E procurar um lugar seguro para colocar as idéias em ordem e descobrir o que está acontecendo. Desesperado, ele faz uma refém (Faye Dunaway) e conta a ela a verdade, mesmo sabendo que a mulher não tem a obrigação nenhuma de acreditar nele.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é a forma como é mostrada a tecnologia de ponta utilizada na época, com aqueles computadores primitivos e sistemas de telefonia antiquados, comparados com os dias de hoje. Isso não deixa de ser um dos pontos mais interessante de TRÊS DIAS DO CONDOR, essa viagem ao passado. Sem falar que a década de 70 é uma das décadas em que o cinema americano produziu obras mais interessantes e adultas. No caso desse filme de Pollack, a questão do petróleo, muito antes de SYRIANA - A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO, já estava sendo abordada. E com muita propriedade. Mas não adiantaria muito o filme ser "apenas" inteligente sem ter aquela tensão e aquele clima de filme de espionagem que prende a atenção do espectador, tanto nos momentos de calmaria, quanto nos momentos de tensão e principalmente na cenas de tiroteio. Definitivamente, um dos melhores trabalhos do legado de Pollack.

Este é o quarto de sete filmes que Robert Redford fez com Pollack. Os outros foram o excelente drama ESTA MULHER É PROIBIDA (1966), o western no gelo MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (1972), o romance NOSSO AMOR DE ONTEM (1973), e os menos brilhantes O CAVALEIRO ELÉTRICO (1979), ENTRE DOIS AMORES (1985) e HAVANA (1990).

segunda-feira, junho 16, 2008

O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk)























Felizmente, O INCRÍVEL HULK (2008), a segunda tentativa da Marvel de trazer com sucesso o Gigante Esmeralda para os cinemas, me agradou bem mais do que o HOMEM DE FERRO, de Jon Favreau. Tudo bem que o novo filme não tem a mesma sofisticação visual do HULK (2003) de Ang Lee, mas o diretor francês Louis Leterrier foi uma boa e eficiente escolha para que a Marvel possa deslanchar nesse projeto de trazer para o cinema os principais personagens da Casa de Idéias. Desde criança que eu sou apaixonado pelo universo Marvel, mas na maioria das vezes fiquei frustrado com as adaptações para o cinema, que costumam pecam por querer colocar muitos elementos e muitas subtramas no mesmo filme, entre outros equívocos.

O INCRÍVEL HULK de Leterrier, diretor de filmes de ação bem legais como os dois CARGA EXPLOSIVA (2002, 2005) e CÃO DE BRIGA (2005), é uma sucessão de acertos. A começar por esquecer esse negócio de contar a origem do personagem, preferindo mostrar isso em poucos minutos durante os créditos iniciais. A origem do Hulk, além de já ter sido contada - e de maneira um pouco complexa - no trabalho de Ang Lee, já é bastante conhecida do público. Em segundo lugar, o filme já começa com ação, com Bruce Banner escondido na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, trabalhando gerenciamento de raiva com um instrutor brasileiro, sendo perseguido pelos homens do General Ross (William Hurt) e inevitavelmente se transformando na criatura. Aliás, é muito divertido ver um filme de um super-herói da Marvel se passando no Brasil. Eis o segundo ponto positivo do filme. O terceiro ponto, e justamente o que eu acreditava que seria o mais arriscado, foi a escalação de Edward Norton para viver o atormentado Banner. Como não via Norton como um sujeito de aspecto suficientemente fraco para viver o personagem, tinha minhas dúvidas se daria certo, por mais talentoso que seja o ator. Mas eis que o filme vem com uma idéia genial: por que Banner tem que ser tão fraco assim? Ou "fracote", como diz o Hulk dos quadrinhos? Desse modo, vemos o Banner saltando pelos telhados das favelas com uma agilidade digna dos heróis dos filmes de ação de Leterrier.

Quanto a Liv Tyler, se não é nem tão bela nem tão convincente como cientista quanto Jennifer Connelly, ela desempenha bem o papel de mulher apaixonada, principalmente no momento em que ela reencontra o sumido Banner, depois de meses sem vê-lo. Outra bola dentro de O INCRÍVEL HULK está em homenagear a série dos anos 70/80, inclusive com uma participação especial e divertida de Lou Ferrigno e com direito a um trecho da melancólica música-tema da série. Mas como todo filme do Hulk tem que ter um super-vilão, o da vez foi o Abominável, uma criatura monstruosa, nascida de experiências com o personagem de Tim Roth. Por mais que esse terceiro ato não seja tão bom quanto os outros dois, pra mim foi bem mais divertido do que a briga do Homem de Ferro com o Monge de Ferro. E melhor que a briga do Hulk com o Homem-Absorvente no longa do Ang Lee.

No final, O INCRÍVEL HULK ainda conta com a participação especial de Tony Stark (Robert Downey Jr.), o que não chega a ser uma surpresa, mas que foi agradável de ver. Esperava mais uma aparição do Nick Fury (Samuel L. Jackson), mas não foi dessa vez - ou então a cena foi cortada. Quanto à apresentação do Hulk em CGI, ela sofreu uma melhora substancial com um visual mais sujo. Outra coisa: os roteiristas até arranjaram uma explicação lógica e plausível para que Banner não ficasse pelado sempre que se transformasse no monstro: primeiro, diferente do longa de Ang Lee, esse Hulk aqui fica num tamanho fixo; e segundo, Bruce Banner está sempre comprando umas calças enormes pra não passar vexame por aí. Lembrando desse detalhe das calças, lembrei agora do sempre simpático Stan Lee, que dizia que esse problema das calças do Hulk que não se rasgavam era só um detalhe. No fim das contas, começo a achar que a opção dos produtores da Marvel tenha sido a mais acertada mesmo: colocar cineastas eficientes no lugar de verdadeiros autores. Pelo menos por enquanto.

domingo, junho 15, 2008

FIM DOS TEMPOS (The Happening)



Já repararam que mesmo aqueles que não gostam dos trabalhos de M. Night Shyamalan têm sempre que dar um pitaco sobre algum filme dele? Que basta falar em seu nome que aparecem apreciadores e detratores para comentar? Mesmo sendo o maior saco de pancadas da atualidade, o diretor continua "remando seu barco", nem que seja para ter seu último trabalho tratado como lixo ou para dizerem (mais uma vez) que ele chegou ao "fundo do poço". Isso vem acontecendo desde SINAIS (2002), na verdade. E mais uma vez estou aqui para defender o trabalho de Shyamalan, definitivamente o mais controverso cineasta da atualidade. E dentro de sua curta mas marcante filmografia, é de SINAIS que FIM DOS TEMPOS (2008) mais se aproxima, tanto pela temática apocalíptica, quanto pela forma séria com que ele trata o assunto. Aliás, essa seriedade, assim como em SINAIS, é ambígua. Já vi gente dizendo por aí que um dos problemas do filme é se levar a sério demais. Mas talvez a temática do filme, que remete à ecologia não seja mesmo motivo de piada, ainda que possa haver alguma forma sutil de humor dentro da estrutura dramática do filme. Ou talvez Shyamalan seja um diretor que queira emular os filmes de ficção científica e de terror da década de 50.

O que é importante é que depois do balde de água fria que foi A DAMA NA ÁGUA (2006), pra mim, FIM DOS TEMPOS, ainda que longe de ser uma obra-prima como A VILA (2004), é um retorno do diretor ao seu velho estilo, é um filme com a sua cara. Mesmo assim, há quem diga que Shyamalan se rendeu à indústria, que FIM DOS TEMPOS é um filme de concessão. No entanto, pelo que eu li a respeito, a idéia do filme já havia sido pensada antes de o diretor ter cortado relações com a Disney. E como se trata também de um filme escrito, produzido e dirigido por ele mesmo, o máximo que Shyamalan pode ter feito em termos de concessões foi ter aceitado alguns cortes para deixar a obra mais enxuta - 90 minutos de duração. Há um quê de GUERRA DOS MUNDOS nesse novo filme, inclusive na forma drástica como termina. Só que sem muito dinheiro envolvido, sem muitos efeitos especiais. É uma obra bem mais modesta, como se Shyamalan quisesse por um momento não ser levado tão a sério, como se fosse um filme feito para "baixar a poeira". Ao que parece, mais uma vez isso não ocorreu.

Na trama, em pleno Central Park, um grupo de pessoas passa a se suicidar misteriosamente. Logo depois, os fenômenos vão surgindo em outras áreas, atingindo praticamente todo o noroeste americano. Mark Wahlberg (cada vez melhor como intérprete) é um professor de Ciências que, devido a esse evento extraordinário, tenta levar sua esposa (Zooey Deschanel) para longe de Nova York. O pânico das pessoas é seguido das inúmeras teorias que vão surgindo a respeito do evento - desde um ataque terrorista até a de que se tratam de toxinas vindas das próprias árvores que destroem o instinto de preservação da raça humana. Enquanto não se descobre o que realmente está acontecendo, Walhberg, sua esposa, seu amigo (John Leguizamo) e a filha dele procuram sair o mais rápido possível da zona de perigo. A semelhança com A VILA está na atmosfera opressiva do vento e das árvores no momento do "ataque". Para quem gosta de seqüências mais gore, essas estão presentes no filme, ainda que sejam poucas, mas o suficiente para me deixar um pouco surpreso. Quanto à motivação do diretor e o significado (quase óbvio) da "mensagem" do filme, considero até louvável a sua intenção. Mas o que será mais importante em FIM DOS TEMPOS: a mensagem que o filme quer passar (e que pode muito bem não ser exatamente o que todo mundo acha), o clima de suspense, terror e aventura, misturado com uma boa dose de melodrama e romance, ou a chamada mise-en-scene, ou seja, a maneira como ele dirige? Não sei. Só sei que fiquei feliz de ter visto o filme e acredito que Shyamalan ainda vai fazer muito barulho.

P.S.: Antes da exibição de FIM DOS TEMPOS, passou o trailer do novo Mojica: ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO! Foi emocionante! Acreditam que teve gente que bateu palmas? Outros, surpresos, perguntavam a si mesmos: é terror? é brasileiro? Mal posso esperar para ver a recepção do filme, quando de sua estréia em agosto.

quinta-feira, junho 12, 2008

MELHORES FILMES DOS ANOS 2000 (ATÉ 2007)



1. CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch
2. ANTES DO PÔR-DO-SOL, de Richard Linklater
3. A VILA, de M. Night Shyamalan
4. KILL BILL VOL. 1, de Quentin Tarantino
5. KILL BILL VOL. 2, de Quentin Tarantino



6. FALE COM ELA, de Pedro Almodóvar
7. COISAS SECRETAS, de Jean-Claude Brisseau
8. A ESPIÃ, de Paul Verhoeven
9. ELEFANTE, de Gus Van Sant
10. ESPIONAGEM NA REDE, de Olivier Assayas



11. 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, de Cristian Mungiu
12. CÃO SEM DONO, de Beto Brant e Renato Ciasca
13. A PAIXÃO DE CRISTO, de Mel Gibson
14. TERROR EM SILENT HILL, de Christopher Ganz
15. O LABIRINTO DO FAUNO, de Guillermo Del Toro



16. O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, de Zhang Yimou
17. MIAMI VICE, de Michael Mann
18. O HOSPEDEIRO, de Bong Joon-ho
19. LÚCIA E O SEXO, de Julio Medem
20. A SÉTIMA VÍTIMA, de Jaume Balagueró

Nunca pensei que fosse tão difícil elaborar uma lista dos vinte filmes favoritos entre os anos 2000 e 2007. Pois foi essa a proposta que a Liga dos Blogues Cinematográficos fez dessa vez. Apesar de não ter completado uma década inteira ainda, achei interessante essa idéia para ver com antecedência quais são atualmente os filmes mais amados e que possivelmente se tornarão cânones. Achei interessante antecipar essa lista, ver o resultado final, que será a média de uma turma de bom gosto, ainda que nem sempre tenha os mesmos gostos ou o mesmo background.

O que mais doeu foi ver que à medida que eu ia escolhendo os filmes mais queridos, ia percebendo que não cabiam, no pequeno número de 20, trabalhos maravilhosos de cineastas queridos como Eric Rohmer, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Carlos Reichenbach, Walter Hugo Khouri, Claude Chabrol, Woody Allen e Jacques Rivette. Os filmes que ficaram de fora são provavelmente tão queridos quanto os vinte selecionados acima, por isso a "dor" que eu tive daria para comparar com a "escolha de Sofia", aquele filme com a Merryl Streep, em que ela tem que escolher um dos filhos, durante o Holocausto.

Mas falemos um pouco dos vinte. O primeiro lugar era a única certeza que eu tinha. CIDADE DOS SONHOS (2001) foi uma experiência insuperável na minha vida de cinéfilo e até hoje tenho dificuldade de verbalizar o que aconteceu dentro daquela sala escura, naquela noite inesquecível de 08 de junho de 2002. Se CIDADE DOS SONHOS me pegou pelo aspecto metafísico, sensorial ou até irracional, ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004) representa o meu lado mais romântico, embora seja um trabalho mais realista do que romântico. Trata-se da continuação de um dos filmes mais marcantes e queridos da década de 90, ANTES DO AMANHECER. E o reencontro dos amantes, nove anos depois da vez em que eles se conheceram é uma espécie de outro lado da moeda. O realismo no lugar do romantismo, o dia no lugar da noite, a triste realidade no lugar das aspirações e sonhos juvenis. Talvez seja o grande filme sobre o desencanto dos últimos anos.

A VILA (2004) entraria na lista até se fosse "apenas" um filme de horror, mas além de tudo, Shyamalan fez uma espécie de fábula sobre os Estados Unidos da era Bush e uma bela estória de amor. O ambicioso projeto KILL BILL (2003/2004), um grande filme dividido em dois volumes com tons e ritmos distintos mas com igual valor, é a obra-prima de Quentin Tarantino, o momento em que ele atingiu o seu ápice como diretor, além de ser a maior das homenagens a filmes populares (filmes de kung fu dos Shaw Brothers, western spaghetti, horror gore, exploitation, filmes de samurai) que se tem notícia. Tarantino louva os homenageados e é louvado pelos fãs como o grande mestre do cinema pop da nossa era.

Aliás, não foi apenas Tarantino que atingiu o seu máximo. Vários outros cineastas de renome chegaram ao pico de suas carreiras nesse período: Almodóvar, com FALE COM ELA (2002); Gus Van Sant, com ELEFANTE (2003); Beto Brant, com CÃO SEM DONO (2007); Mel Gibson com A PAIXÃO DE CRISTO (2004); Michael Mann, com MIAMI VICE (2006); Zhang Yimou, com O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (2004); Guillermo Del Toro, com O LABIRINTO DO FAUNO (2006). E falando em filme fantástico, o que é O HOSPEDEIRO (2006), hein? De deixar muita gente com queixo caído e comprovando o grande momento do cinema sul-coreano atual.

O cinema europeu está muito bem representado por obras de apelo erótico forte, como COISAS SECRETAS (2002) e LÚCIA E O SEXO (2001). O retorno de Paul Verhoeven à Holanda foi igualmente louvado com o maravilhoso A ESPIÃ (2006). De um país de pouca tradição cinematográfica como a Romênia também surgiu um trabalho de alta tensão como 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007), de Cristian Mungiu. Olivier Assayas, com seu cinema globalizado, flerta com o fetiche, o submundo do sexo e a tecnologia com ESPIONAGEM NA REDE (2002).

Entre os trabalhos mais controversos e nem sempre elogiados pela crítica e pelo público, resolvi colocar na lista dois filmes que eu considero excepcionais, mas que pouca gente dá o devido valor. São dois filmes de horror: TERROR EM SILENT HILL (2006) e A SÉTIMA VÍTIMA (2002), ambos dirigidos por cineastas europeus, ainda que falados em inglês e protagonizados por um elenco americano. Resolvi colocar esses filmes na lista não apenas por amá-los, mais também por achar que eles devem ser valorizados e destacados nesse tipo de lista. Além do mais, como diria Truffaut, um pouco de polêmica não faz mal a ninguém.

Os filmes que quase entraram, em ordem alfabética, completando o número de 50 títulos:

A CASA DO LAGO, de Alejandro Agresti
A DAMA DE HONRA, de Claude Chabrol
A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN, de Jacques Rivette
A INGLESA E O DUQUE, de Eric Rohmer
A ÚLTIMA NOITE, de Spike Lee
AMOR EM JOGO, de Peter & Bobby Farrelly
AS FERAS, de Walter Hugo Khouri
CARANDIRU, de Hector Babenco
CLOSER - PERTO DEMAIS, de Mike Nichols
DEPOIS DO CASAMENTO, de Susanne Bier
ELEIÇÃO 2: A TRÍADE, de Johnny To
FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach
GOTAS D'ÁGUA EM PEDRAS ESCALDANTES, de François Ozon
GUERRA DOS MUNDOS, de Steven Spielberg
MENINA DE OURO, de Clint Eastwood
MUNIQUE, de Steven Spielberg
O AVIADOR, de Martin Scorsese
O CÉU DE SUELY, de Karin Aïnouz
O INVASOR, de Beto Brant
O SOBREVIVENTE, de Werner Herzog
O ÚLTIMO BEIJO, de Gabriele Muccino
ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, de Joel & Ethan Coen
ORGULHO E PRECONCEITO, de Joe Wright
OS DONOS DA NOITE, de James Gray
OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS, de Wes Anderson
OS OUTROS, de Alejandro Amenábar
PACTO DE JUSTIÇA, de Kevin Costner
PONTO FINAL - MATCH POINT, de Woody Allen
PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim
SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson

quarta-feira, junho 11, 2008

O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra's Dream)



Ver filme de Woody Allen no cinema é uma “obrigação” pra mim desde o início de minha cinefilia, quando tive o prazer de ver o meu primeiro filme do diretor na telona: o intenso CRIMES E PECADOS (1989). De lá pra cá, só perdi dois filmes de Allen no cinema: NEBLINA E SOMBRAS (1992), porque não chegou a passar nos cinemas locais e tive de me contentar em vê-lo na televisão, e IGUAL A TUDO NA VIDA (2003), que foi quando comecei a criar o hábito de baixar filmes da internet e fiz a besteira de ver esse filme no computador, perdendo mais da metade do prazer de ver a obra. Desde então, ver um Woody Allen no cinema é tão importante pra mim quanto ver um Lynch, um De Palma ou um Scorsese, por mais que os detratores do cineasta procurem motivos para diminuir a importância de sua obra.

Sabemos que Allen não é nenhum Kubrick ou Malick no quesito rigor e exigência. Tanto que, sobre O SONHO DE CASSANDRA (2007), Colin Farrell chegou a dizer que a quantidade de takes que ele fez para o filme inteiro foi praticamente a mesma que ele fez para cada cena de MIAMI VICE, de Michael Mann. Com essa declaração de Farrell, e sabendo que Allen faz um filme novo todo ano – graças a Deus! – notamos que Allen procura ser o mais objetivo possível na realização de seus trabalhos. Eu, particularmente, estou adorando essa fase européia de Woody, que tem promovido uma renovada em sua carreira, construindo mais um capítulo em sua já bastante rica filmografia. Depois do retorno à comédia com o delicioso SCOOP – O GRANDE FURO (2006), Allen faz esse “filme-irmão” do elogiado e bem sucedido PONTO FINAL – MATCH POINT (2005), que demonstrou a sua habilidade também no trato com o suspense à Chabrol ou à Hitchcock.

E falando nos grandes mestres e na já conhecida homenagem de Allen a cineastas como Bergman e Fellini, dessa vez até Robert Bresson pode ser adicionado a essa lista, tanto pelo aspecto seco, cenas curtas e utilização de pouca música - a trilha dessa vez foi moleza para Philip Glass -, quanto pelo uso das elipses. Nas cenas que Farrell ganha nos jogos, por exemplo, o filme não o mostra ganhando. Nem mesmo essa alegria efêmera é compartilhada com o espectador. O que vemos é apenas ele passando por uma situação ruim durante o jogo (seja nas corridas de cachorros, seja nas cartas) e conseguindo dinheiro emprestado para dar a "grande virada". Depois, corte para as cenas em que ele conta para o irmão (Ewan McGregor) que ele ganhou uma bela soma nos jogos e que tem dinheiro suficiente para comprar o sonhado barco, que leva o título do filme. Como O SONHO DE CASSANDRA não mostra seus momentos de sorte no jogo, fica a estranha impressão de que ele está mentindo. Impressão que passa quando ele conta para o irmão que está passando por dificuldades financeiras e que está devendo uma pequena fortuna aos agiotas. (Impressionante como é mais fácil acreditarmos em situações ruins do que em situações boas.)

Enquanto isso, o personagem de McGregor está deslumbrado e apaixonado por uma belíssima atriz de teatro (Hayley Atwell) e recorre à mentira, escondendo o fato de trabalhar no restaurante do pai e fingindo ser um rico empresário do ramo de hotéis. E como ele está louco por essa mulher, para manter o rico padrão de vida que ela deseja e imagina que ele possa lhe oferecer, ele também está precisando de muito dinheiro. Talvez até mais do que o próprio irmão endividado. A solução viria na figura do tio (Tom Wilkinson), que até se dispõe a ajudá-los, mas sob a condição de que eles também o ajudem a sair de uma tremenda encrenca. O problema é que o favor que ele lhes pede não é tão simples assim. Como ele cometeu atos corruptos, tem um sujeito que sabe disso e está prestes a denunciá-lo. A solução para livrá-lo da cadeia seria dar cabo do indivíduo. Claro que esse favor não vai ser tão fácil assim e do jeito que o filme traz um tom fatalista desde o início, sabemos que as coisas não devem acabar exatamente bem.

No que se refere a tragédias, Woody Allen já havia demonstrado que dá conta do recado muito bem desde o já citado CRIMES E PECADOS. Cassandra, personagem da mitologia grega que já havia aparecido em PODEROSA AFRODITE (1995), é uma mulher que tem o poder de ver o futuro, geralmente catástrofes ou desgraças, mas que devido a uma maldição do deus Apolo, ninguém acredita em suas profecias. Assim, o nome Cassandra ganhou essa conotação pessimista. Além de O SONHO DE CASSANDRA ser quase perfeito em sua condução, o filme pode agradar também àqueles que se incomodam com os alter-egos de Allen que absorvem seus tiques e falam como ele quando está nervoso. Dos dois irmãos, então, o que mais se aproxima disso é o personagem de Colin Farrell, que é o que mais fica perturbado com a difícil situação de ter de matar uma pessoa e conviver com isso.

terça-feira, junho 10, 2008

DEMÔNIO DE MULHER (It Should Happen to You)




Continuando a peregrinação pela filmografia de George Cukor, chego a este DEMÔNIO DE MULHER (1954), que no Brasil recebeu esse título horrível e que não faz jus ao filme, mas que era bem comum de se ver na época. Acho que havia nos anos 50 essa tendência de satanizar a mulher, colocar nas suas costas a culpa de todas as desgraças do homem. Bom, algumas vezes isso pode até ser verdade, tanto é que isso é tema para um monte de canções de blues. Mas não justifica ver tantos títulos brasileiros que falam da mulher como algo satânico ou pecaminoso. Alguns exemplos: SÓ A MULHER PECA, de Fritz Lang, O PECADO MORA AO LADO, de Billy Wilder, A MULHER SATÂNICA, de Josef Von Stenberg, O DIABO FEITO MULHER, outro de Fritz Lang. Tenho certeza de que existem outros títulos, mas não consegui me lembrar nem soube procurar. E olha que nenhum desses títulos é de um filme de terror. Mas como não costumo ignorar os títulos nacionais, falemos então de DEMÔNIO DE MULHER, que se trata de um dos melhores trabalhos de Cukor, que vinha de uma bela parceria com o roteirista Garson Kanin, que com ele realizou A COSTELA DE ADÃO (1949), NASCIDA ONTEM (1950), A MULHER ABSOLUTA (1952) e DA MESMA CARNE (1952), todos eles já comentados aqui no blog. DEMÔNIO DE MULHER é também o último filme da parceria de Cukor com a estrela que ele ajudou a criar: Judy Holliday.

Diferente do que ela fez em DA MESMA CARNE, mostrando que podia fazer um trabalho mais dramático e de tom documental e realista, DEMÔNIO DE MULHER é o retorno de Judy ao tipo que a tornou famosa, o da loura burra. Aliás, nem tão burra assim. Na verdade, tanto em NASCIDA ONTEM quanto neste filme, a personagem de Judy é inteligente. Só não tem noção disso. A trama de DEMÔNIO DE MULHER é bem interessante e lida com o tema da fama. No começo do filme, vemos Judy encontrando Jack Lemmon - que estava começando sua carreira no cinema - no Central Park. Ele, com sua câmera de cinema, trata de flagrar no parque momentos interessantes para o documentário que pretende realizar. Ele achou interessante ver aquela mulher sem muita classe se sentando num banco da praça, tirando fora seus sapatos para descansar os pés, sem se incomodar com o que os outros pensam. Talvez tenha sido isso, essa naturalidade, que o deixou tão interessado nessa jovem, que, assim como ele, veio do interior para fazer a vida em Nova York. Na primeira conversa que os dois travam, ela comenta o fato de não "ter um nome". Ela acreditava que para ser alguém na vida é preciso ter um nome, ser conhecida, famosa. Então, num de seus momentos sozinha, ela imagina o seu nome escrito em letras enormes no maior outdoor da cidade. Com essa idéia fixa, ela vai até a agência dona dos outdoors e paga apenas para ter o seu nome escrito naquele espaço por seis meses. Apenas seus nome, nada mais.

O resultado é que isso acaba gerando uma curiosidade nas pessoas, sobre quem ou o que seria Gladys Glover (o nome de sua personagem), já que ela acaba negociando com um empresário muito interessado naquele outdoor e, depois de muito esforço, consegue negociar uma troca com ela. Ela teria o seu nome escrito em seis outdoors localizados em outros lugares da cidade. Enquanto isso, o personagem de Jack Lemmon fica tão encantado pela moça desde a primeira vez que a viu que acaba indo morar no mesmo prédio que ela, só pra facilitar as suas investidas. Mas não é tão fácil disputar com a fama e o dinheiro que passam a perseguir Gladys, como se ela fosse um desses recém-saídos participantes do Big Brother. Dá pra notar que o próprio enredo do filme é por si só bastante divertido e atraente e por mais que não seja uma dessas comédias de causar gargalhadas, percebe-se a inteligência e a graça do roteiro, o qual Cukor, muito modestamente, atribui todo o sucesso do filme. Mas o que eu notei nessa série de filmes de sucesso de Cukor, do fim dos anos 40 para o meio dos anos 50 foi uma certa sofisticação no trato com os personagens e com os temas que parece anteceder a revolução que viria no cinema americano, a partir do final dos anos 60. Eu senti isso principalmente nos primeiros minutos do filme, justamente na cena do primeiro encontro de Judy e Lemmon.

segunda-feira, junho 09, 2008

EM TERAPIA - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (In Treatment - The Complete First Season)























Quando soube dessa série, primeiramente através do amigo Renato Doho, fiquei logo interessado. Tinha dúvidas se não acharia uma série que mostra simplesmente pessoas conversando um pouco chata. Mas aí lembrei que adoro os filmes do Rohmer e que tenho um interesse pelos aspectos mais profundos da alma humana. E a dica do Renato não apenas serviu pra mim, mas sempre que falo da série pra alguém, a pessoa quase sempre fica interessada em conhecer. EM TERAPIA (2008), atualmente sendo exibida pela HBO brasileira, é uma experiência arriscada para a televisão, mas que certamente mexeu com as estruturas, saindo definitivamente do lugar comum das séries. Não há aqui espaço para flashbacks, há apenas o psicanalista e o paciente conversando. A primeira - e por enquanto única - temporada tem 43 episódios e é uma quantidade que pode inicialmente assustar o espectador que deseja se aventurar por essa vereda, mas é impressionante como a série é tão ou mais empolgante que uma série de ação e o que fica é a vontade de ver um episódio atrás do outro. Afinal, estamos lidando com sentimentos. Inclusive, uma das perguntas mais freqüentes de Paul, o psicanalista interpretado brilhantente por Gabriel Byrne, é: "o que você sentiu sobre isso"?

A série é uma experiência intensiva. Foi exibida de segunda a sexta-feira durante nove semanas nos Estados Unidos, e acredito que está sendo exibida dessa maneira aqui no Brasil também. EM TERAPIA segue um cronograma. Na segunda-feira, Paul trata de Laura (Melissa George), uma mulher apaixonada pelo próprio analista e que já vem se tratando com ele há algum tempo. Paul, como não é de ferro, se sente atraído por essa mulher, que ainda por cima faz questão de contar detalhes de sua vida sexual, só para atiçar ainda mais o pobre homem, que é casado, mas que está passando por uma crise no casamento. Na terça-feira, é a vez de Paul receber em seu consultório Alex (Blair Underwood), um militar cheio de si, que foi recomendado pelos militares a fazer terapia depois de ter tido uma parada cardíaca, pouco tempo depois de ele ter soltado uma bomba no Iraque. Na quarta-feira, é a vez de Sophie (Mia Wasikowska), uma adolescente que aparece no consultório pela primeira vez com os dois braços quebrados. Ela é uma ginasta que rejeita a mãe com quem vive, idolatra o pai ausente e tem uma estranha relação com seu treinador. Na quinta-feira, é a vez de Paul receber um casal em crise, Jake e Amy (Josh Charles e Embeth Davidtz). E pra completar, na sexta-feira, Paul, que também é humano e cheio de problemas e falhas, também começa a fazer terapia com uma velha amiga, Gina, interpretada por Diane Wiest.

EM TERAPIA não é uma série em tempo real, já que uma sessão de terapia levaria uns 50 minutos, enquanto cada episódio leva no máximo 25, mas como nem 24 HORAS consegue ser convincente como série em tempo real, podemos imaginar que aquele tempo que passou foi tão agradável que até parece que durou menos de meia-hora de conversa. E é assim na vida real, quando o papo está agradável e interessante, não é? No caso de EM TERAPIA (eu estou utilizando o título nacional, mas ainda estou achando estranho, pois desde que comecei a ver sempre tratei a série como IN TREATMENT), não se trata apenas de um bom papo, mas de personagens (ou deveria dizer pessoas, de tão reais que elas vão se tornando?) cujos corações e mentes estão machucados e que recorreram à terapia como forma de aliviar suas angústias, suas dores. Portanto, não é incomum ver um episódio em que um dos personagens passa o tempo todo chorando suas mágoas. E o choro, eventualmente, surge do lado de cá da tela também. Logo na segunda semana, eu chorei num episódio da garotinha, a Shophie, no momento em que ela abraça a esposa de Paul, num gesto de carência afetiva. Tanto ser abraçado quanto ver abraços sinceros em filmes ou séries me deixa em geral emocionado, não sei dizer porque. Quem sabe numa sessão de terapia... Mas os episódios que mais me deixavam ansiosos para assistir eram mesmo aqueles em que Laura chegava ao consultório de Paul. Meu Deus, como ter forças para não agarrar de vez aquela mulher?

Como a série tem cinco episódios por semana alguém pode estranhar o fato de só ter três episódios na nona semana. Mas essa surpresa, eu vou deixar pra quem quiser se aventurar por essa série, produzida e dirigida em sua maioria por Rodrigo Garcia, um cineasta que já mostrou possuir uma extrema sensibilidade em lidar com relações humanas. Tanto que ele tem um filme só com monólogos de mulheres chamado CONFISSÕES AMOROSAS (2001), além de ter dirigido alguns episódios excelentes de A SETE PALMOS. Nessa que pode ser considerada sua série mais pessoal, embora se trate do remake de uma série israelense, Garcia utiliza sutis jogos de câmera, para contrabalançar o uso mais constante e praticamente inevitável do campo/contracampo. De vez em quando vemos uma câmera passando por detrás de um personagem ou colocada em outro ângulo, ou detalhes de sons dos carros na rua ou dos pássaros. Na verdade, o silêncio daquela sala faz com que percebamos pequenos detalhes que normalmente não seriam notados.

Quanto à possibilidade de uma segunda temporada, ela está de pé, só que Garcia já demonstrou que não mais dirigirá tantos episódios (ou talvez nenhum), pois foi uma experiência bem exaustiva para ele. Afinal, não se trata apenas de entregar o script para o elenco e ligar a câmera, é preciso criar todo um clima apropriado para que aqueles episódios pareçam reais. E é por todo esse cuidado que a série foi um sucesso e se torna especial na memória afetiva de quem a acompanha. Uma coisa eu posso dizer: desde A SETE PALMOS que uma série não mexia tanto com os meus sentimentos, a ponto de eu sair arrasado ao final de vários episódios. E é impressionante como nós, seres humanos, somos susceptíveis a traumas de infância, a esconder as verdadeiras razões, mentindo para nós mesmos, a fazer auto-sabotagem, a agir de forma punitiva por causa de um sentimento de culpa ou por outra série de razões.

P.S.: Está no ar a nova edição da Zingu!! E se alguém achou estranho eu ter falado sobre dois filmes de Tinto Brass na mesma semana, eis a resposta. É que o Matheus Trunk me convidou para escrever um texto sobre a obra de Brass e como eu não tinha visto ainda nem SALÃO KITTY nem A CHAVE, dois dos filmes mais importantes do diretor, fiz questão de conseguir vê-los o mais rápido possível. Mas a nova edição está especial mesmo é pelo Dossiê Guilherme de Almeida Prado, um dos cineastas brasileiros que eu mais aprecio. Além de a revista trazer críticas de todos os seus filmes - e até de um roteiro seu para uma história em quadrinhos! - ainda há uma entrevista dele feita por Gabriel Carneiro e Marcelo Carrard. E por causa desse dossiê, eu fiquei sabendo de um dos principais motivos do longo afastamento de Almeida Prado das telas, só retornando agora com o novo ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?. Sem querer desmerecer as anteriores, esta edição talvez seja a melhor de todas que a Zingu! já produziu.

domingo, junho 08, 2008

SEX AND THE CITY - O FILME (Sex and the City)



A primeira impressão que eu tive assim que saí da sessão de SEX AND THE CITY - O FILME (2008) foi a de que o filme parecia final de novela da Globo, mas que, mesmo assim, valeu ter visto, foi divertido. Sabemos que a maior parte das séries de tv americanas têm mesmo essa cara de telenovela, mas SEX AND THE CITY, a série (1998/2004), nem sempre se apoiava em ganchos e continuidade, mas em temas, pelo pouco que pude assistir. Antes de ver o filme, como não havia visto as últimas temporadas, pedi para alguns amigos me passarem um rápido resumão do que aconteceu no final da série, mas depois vi que isso não chegou a ser necessário, já que os fatos mais importantes são mencionados no filme. Mesmo assim, ainda acho que ter visto a série, ou pelo menos alguns poucos episódios, e entrar em contato com as personagens e suas distintas personalidades, ajuda bastante a apreciar o filme, que, assim como a série, foca sua atenção em Carrie (Sarah Jessica Parker, praticamente a dona do projeto). Quanto à minha favorita da turma, Charlotte (Kristin Davis, que na vida real provou que não era tão "santinha" quanto na série, tendo em vista os escândalos recentes), acabou se casando com um sujeito que se parece com o Dr. Evil, o inimigo de Austin Powers. Felizmente, o filme deu pouco espaço para ele, pois cada vez que ele aparecia, eu ficava esperando surgir também o Mini-Me.

E já que eu mencionei o marido de Charlotte, falemos então de como a série deixou suas personagens e de como o filme começa. Carrie passou a viver junto com o carismático Big (Chris Noth), mas dessa vez numa relação bem mais estável; Charlotte, casou com o "Dr. Evil", digo, com um sujeito bem sucedido financeiramente, adotou uma garotinha japonesa e vive, como sempre, feliz da vida; Samantha (Kim Cattral) mora em Los Angeles com um rapaz boa pinta, modelo de sucesso, mas como não gosta muito de "Lost Angeles" vive sempre pegando um vôo para Nova York, para visitar as amigas; e Miranda (Cynthia Nixon) acabou se casando com o persistente Steve. E é assim que encontramos o quarteto. Como o filme tem 140 minutos de duração, alguma coisa tem de acontecer que não seja apenas as quatro conversando sobre roupas e sexo, certo? Então, o eixo principal do filme gira em torno do casamento de Carrie com Big, um sujeito cuja boa parte do charme está em não conseguir ser sentimental, por mais que saibamos o quanto ele ama Carrie. O fato é que depois de dois casamentos frustrados, Big ficou com trauma de casamentos. Embora não recebam o mesmo espaço na trama que sua amiga escritora, as outras três mulheres lidam com os seus próprios problemas, mas o filme acaba arranjando sempre boas desculpas para reuní-las.

O problema do filme está em ser, vez ou outra, excessivamente "de mulherzinha", se é que você me entende. Por exemplo, a cena em que Carrie faz uma espécie de desfile de moda para as amigas, como um bota-fora das roupas velhas e fora de moda de seu guarda-roupa antes de se mudar para o novo apartamento, chegou a me deixar constrangido. Eis uma cena que eu cortaria sem dó nem pena da edição final. Mas como o filme é feito mais para as mulheres do que para os homens, não sou eu quem tem que decidir isso. No mais, as coisas não são muito diferentes da série, que por ser da HBO já era bem liberal nos quesitos sexo e nudez. O que diferencia e dá o que pensar quando saimos da sessão é a questão da idade das protagonistas. Se na série, ver quatro trintonas (ou quarentonas, no caso de Samantha) independentes e bem sucedidas já era novidade, no filme, ver, por exemplo, Samantha completando 50 anos e ainda tendo o mesmo gás e tesão por tudo quanto é homem, é algo para se refletir nesse novo mundo em que vivemos. Um mundo em que as pessoas vivem mais. Os 50 anos de hoje são os 40 de ontem. Apesar de não ser um mundo fácil de se viver, a expectativa de vida aumentou e as pessoas endinheiradas têm como conseguir manter uma aparência jovem com mais facilidade - embora o excesso de botox e cirurgias plásticas possa tornar às vezes algumas dessas pessoas em pequenos monstros. Mas o que eu achei mais bonito no filme foi justamente essa demonstração de vitalidade das personagens, principalmente de Charlotte, que com seus gritinhos de menina adolescente mostrou que não é preciso necessariamente se comportar de acordo com a idade que a sociedade lhe impõe. Os tempos são outros. No mais, por mais que alguém também possa se incomodar com o excesso de interesse das personagens por marcas de bolsas, de vestidos, de sapatos, de desfiles de moda etc, a intenção da série é mostrar, sem julgamento, o mundo em que aquelas pessoas vivem.

sexta-feira, junho 06, 2008

A CHAVE (La Chiave / The Key)























Depois de obras ambiciosas e envolvendo muito dinheiro, como SALÃO KITTY (1976) e CALÍGULA (1979), e de ter recebido uma recepção negativa com ACTION (1980), Tinto Brass finalmente encontrou o tom certo com o ótimo A CHAVE (1983), o filme que definiu de vez o seu estilo. E dessa vez com uma atriz de primeiro escalão, a exuberante Stefania Sandrelli, que trabalhou com cineastas do porte de Ettore Scola e Bernardo Bertolucci. Mas nenhum desses "bam-bam-bans" do cinema italiano chegou a aproveitar tão bem a gostosura de Sandrelli quanto Brass nesse filme, que pode ser considerado um marco não apenas na carreira da atriz, como do cinema italiano em geral. Se bem que eu tenho curiosidade de ver O CONFORMISTA (1970), que também mostra sua nudez.

Como Brass parece ter interesse pelos anos 40, o filme se passa mais uma vez naquela época, quando o nazismo e o fascismo caminhavam de mãos dadas na Itália, mais exatamente em Veneza, que é onde a estória se passa. Mas isso, apesar de dar um ar classudo à obra, com uma direção de arte bem cuidada, não é de importância vital. É mero pano de fundo para as curvas do corpo da maravilhosa Stefania Sandrelli - na época com 37 anos - que no início do filme é uma esposa recatada de um homem velho. A filha de seu marido, que tem idade para ser sua irmã, namora um jovem fotógrafo, que sente mais atração por Teresa do que por sua namorada. Algo bem justificável, levando em consideração de quem estamos falando. E ela acaba por se render às investidas do rapaz, enquanto o marido, enfermo, por amor à sua esposa, permite em silêncio, desejando sempre a felicidade de sua amorosa e carinhosa mulher. E até auxiliando-a a romper com suas repressões.

Uma das cenas mais memoráveis do filme acontece quando Teresa (Sandrelli) passa mal durante um jantar e, como o marido não tem muita segurança em aplicar seringas, o namorado da filha faz questão de executar o trabalho. Nem é preciso dizer onde é que é aplicada a injeção. E é com esse filme que Brass passa a demonstrar mais explicitamente sua preferência por mulheres de glúteos avantajados. Porém, em A CHAVE, a heroína de Brass não é apenas um corpo. Brass a humaniza, conseguindo passar o carinho e a vontade da mulher de agradar a ambos os homens. Teresa seria um típico exemplo de mulher que tem muito amor para dar, assim como a protagonista de TODAS AS MULHERES FAZEM (1992), outro dos meus favoritos trabalhos do cineasta. E assim como o citado filme, A CHAVE também mostra o quanto o ciúme pode aquecer o amor de um homem. Brass mostra o quanto esse sentimento, que na maioria das vezes leva à raiva, ao rancor e até mesmo a situações extremas e trágicas, pode ser canalizado de maneira benéfica.

Diferente dos filmes mais recentes de Brass, que precisam ir direto ao ponto, isto é, mostrar logo cenas de sexo para não aborrecer o espectador mais ansioso dos dias de hoje, a sensualidade de A CHAVE é crescente e é preciso ter um pouco de paciência para se chegar aos momentos de maior voltagem erótica do filme, que assim como os melhores trabalhos do diretor, tem um uso de espelhos dos mais bem trabalhados, chegando às vezes a elaborar cenas que mais parecem quadros, pinturas. Com direito a moldura e tudo.

Pra fechar, meu top 10 Tinto Brass, so far:

1.TODAS AS MULHERES FAZEM (1992)
2.A CHAVE (1983)
3.O VOYEUR (1994)
4.A PERVERTIDA (2000)
5.PAPRIKA (1991)
6.CAPRICCIO (1987)
7.MONAMOUR (2005)
8.MIRANDA (1985)
9. MONELLA, A TRAVESSA (1998)
10.FAÇA ISTO! (2003)

quarta-feira, junho 04, 2008

LADY CHATTERLEY



Presente em várias listas de melhores filmes exibidos no ano passado, LADY CHATTERLEY (2006) era o tipo de filme que eu fazia questão de ver no cinema. Até por ser descrito como um filme extremamente sensorial. E nada como ver na telona, para captar melhor essas sensações, não apenas o erotismo, mas também os detalhes dos sons e das imagens produzidos pela natureza, como o farfalhar das folhas, o vento, a chuva. E isso a diretora Pascale Ferran capta muito bem nesse seu marcante e ambicioso trabalho. Trata-se de uma versão de quase três horas de duração do romance de D.W.Lawrence, que tanto escândalo causou na época de seu lançamento, sendo proibido por algumas décadas na Inglaterra. Talvez o que mais incomodou a sociedade da época - e que talvez ainda incomode nos dias de hoje - seja a entrega sem a mínima culpa de uma mulher casada com um homem impotente e paralítico por causa da guerra que sente uma forte atração física por outro homem de uma classe social considerada inferior. Essa atração vai aos poucos se transformando em amor, em afeto. O guarda-caças, objeto de desejo da mulher, é um homem rude e com um corpo de lutador de luta livre, que vive sozinho em sua casa de madeira, cuidando de pássaros e cortando lenha.

A versão de Ken Russel, de 1993, com Joely Richardson no papel principal, já havia me deixado bastante entusiasmado - digamos assim -, especialmente na famosa cena da chuva, que no filme de Russell me pareceu mais erótica e fetichista. Na versão de Ferran, a cena da chuva é mais naturalista, representando mais um grito de liberdade às convenções sociais e de alegria por ter chegado a um momento tão especial da vida do casal de amantes. Por isso, quem for assistir LADY CHATTERLEY pelo erotismo pode se decepcionar um pouco, até porque a primeira hora de duração do filme trata exclusivamente de mostrar a rotina tediosa de Constance (Marina Hands), que para não ficar deprimida tendo que estar sempre cuidando do marido inválido, trancada dentro de casa, é encorajada pela simpática empregada da casa a fazer uns passeios pela floresta para entrar em contato com a natureza, um santo remédio para os males da alma. A primeira hora de duração até parece um daqueles filmes mais idílicos de Eric Rohmer. E é nesses passeios revigorantes que ela vai parar na casa de Parkin (Jean-Louis Coulloc'h), o guarda-caças. Sua primeira visão de Parkin foi dele sem camisa, lavando-se do lado de fora da casa. A visão do corpo do homem provoca em Constance um sentimento forte de tesão, que faz com que ela retorne outras vezes até aquele lugar, até chegar o dia em que o sexo seria inevitável.

Mas o sexo seria inicialmente envergonhado, sem nudez. Aos poucos é que eles vão se despindo de suas vergonhas. E uma das cenas mais sexualmente intensas do filme é o momento em que ela sente a necessidade de tocar o corpo dele, o que provoca nele uma sensação até então desconhecida. E aos poucos o grau de intimidade entre os dois vai crescendo, e essa gradação justifica a duração do filme. Interessante saber que Pascale Ferran, antes de começar a filmar, ensaiou intensivamente durante seis semanas com os atores, de modo que eles ficassem mais à vontade nas cenas mais explícitas. A técnica funcionou, embora eu não tenha simpatizado muito com o ator. Mas como o filme é narrado do ponto de vista de Constance e os poucos closes do filme são de seu rosto em êxtase ou em estado de desejo, isso sobrepõe qualquer pequena antipatia que possa eventualmente ocorrer. Até porque o personagem de Coulloc'h (que sobrenome mais esquisito) é bem convincente como homem de pouca instrução.

terça-feira, junho 03, 2008

LONGE DELA (Away from Her)



Um dos problemas desses filmes com "cara de Oscar" é que parece que eles têm um certo prazo de validade. É como se depois de passado aquele período de hype em torno da premiação, eles já não tivessem mais tanta graça ou importância. Foi o que eu senti vendo este LONGE DELA (2006), estréia na direção de longa-metragem da jovem atriz Sarah Polley. Acredito que se eu tivesse visto o filme na época da premiação, junto com os outros indicados, talvez eu o valorizasse mais. Mas o filme só chegou em Fortaleza agora e por mais que seja um trabalho bem conduzido e com interpretações muito boas tanto da estrela quase esquecida Julie Christie (que tinha fama de ser muito exigente nos anos 70) e do pouco conhecido Gordon Pinsent, o filme parece ter uma intenção de emocionar ou de ser tocante de uma forma que sinceramente não funcionou comigo. Aconteceu o mesmo com outro filme sobre o mal de Alzheimer: IRIS (2001). Mas acredito que menos pelo tema e mais pela qualidade e sensibilidade dos citados filmes. Se bem que se comparar os dois, fico com o filme da Sarah Polley.

Quanto à doença, claro que ninguém quer sofrer com esse mal, que deve ser desesperador pra quem começa a ter consciência de sua condição e desolador para os familiares que sofrem com algo que só tende a piorar. Eu mesmo tenho dois amigos que sofrem bastante com familiares com esse mal. Não sei se estou sendo insensível, mas de acordo com as minhas crenças, nós, quando viemos a este mundo, esquecemos de onde viemos e de nossas vidas pregressas. Logo, morrer com esse mal não deixa de ser uma antecipação desse longo esquecimento.

Quanto ao filme, ele trata da relação entre Fiona (Julie Christie) e Grant (Gordon Pinsent), casados há quarenta anos e vivendo na fria província de Ontário, no Canadá. No começo, Fiona começa a esquecer as coisas ou a fazer coisas estranhas como guardar panelas vazias na geladeira ou algo do tipo. Menos mal que Fiona aceita essa condição com bom humor, preferindo ela mesma se transferir para uma clínica do que tornar-se um estorvo para o seu marido, que, ao contrário, não quer ficar um momento sequer longe dela. Por isso ele não aceita muito bem a política da clínica de o paciente ser obrigado a ficar sem receber nenhuma visita durante um período de 30 dias. As coisas se complicam pra ele quando a esposa começa a gostar de um paciente lá da clínica. Falando em Ontario, elejo como o melhor momento do filme a cena em que o casal de sexagenários dança ao som da lindíssima "Harvest Moon", de Neil Young, um dia antes dela partir para a clínica. Uma pena o filme ter atingido esse grau de excelência num instante e depois retornar à sua morosidade, mas ao menos essa cena me lembrou o quanto essa canção é linda. Preciso procurar a versão original dela por aí - só a tenho na versão do álbum Unplugged MTV.