quinta-feira, junho 26, 2008

A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (L'Histoire d'Adèle H.)
























"Não sei por que faço um filme assim, tão triste. Mas a idéia fixa tem algo de vertiginoso, e creio ter sido tomado por essa vertigem. Desde o início, mostro que é inútil: o tenente jamais amará Adèle. "
(François Truffaut)


Talvez o mais triste filme de Truffaut, A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (1975), mesmo assim, não chegou a me emocionar tanto quanto DOMICÍLIO CONJUGAL (1970) - que me fez chorar e muito, mesmo sendo uma comédia dramática - e o pouco elogiado A SEREIA DO MISSISSIPI (1969). O que marca esse bom filme estrelado por Isabelle Adjani - não tão bela quanto em A RAINHA MARGOT, mas talvez de propósito, já que ela interpreta uma mulher rejeitada - é novamente o amor, o tema central dos filmes de Truffaut. No caso de A HISTÓRIA DE ADÈLE H., temos o caso da filha do célebre escritor Victor Hugo, que em 1863 vai até Halifax, no Canadá, em busca do homem que ama, um jovem militar que não corresponde a seu amor. As tentativas de Adèle de se mostrar humilhada diante dele acabam por dificultar ainda mais a sua situação. Em certo momento, ela chega a pagar uma prostituta para que ela fosse até o quarto do rapaz para dar-lhe prazer físico. Para ela, pouco importava se ele ficasse com ela sem amá-la ou quais fossem as condições que ele porventura oferecesse. Ela amaria o bastante pelos dois. Porém, não é assim que funciona a engrenagem do amor. E, apesar de tantas humilhações, Adèle se recusa a sair da cidade - contrariando os pedidos do pai - enquanto o rapaz estiver na cidade. Para isso, ela inventa mentiras para seu pai, que manda a ela dinheiro, que às vezes ela até doa para o ingrato soldado.

A fotografia de Nestor Almendros procura não trazer cores vivas para a tela, enfatizando a cor marrom como a mais presente, uma escolha acertada, dado o tom deprimente da história, que foi construída a partir das cartas da própria Adèle Hugo. Almendros já havia feito um belo trabalho na fotografia em tons esmaecidos de AS DUAS INGLESAS E O AMOR (1971), filme que guarda uma certa familiaridade com A HISTÓRIA DE ADÈLE H., principalmente por serem filmes excessivamente sérios e de amores exacerbados. Mas pelo menos AS DUAS INGLESAS E O AMOR ainda contava com a presença simpática e animadora de Jean-Pierre Léaud. Neste, só temos a expressão sempre triste, desesperada e em certo momento até zumbiesca de Adjani, que parece entregar-se com vontade ao papel, não se importando em parecer uma mendiga a certa altura do filme.

Truffaut dizia em entrevista constante do livro O CINEMA SEGUNDO FRANÇOIS TRUFFAUT que os personagens colocados afetiva e moralmente à margem da sociedade o fascinavam. Ele sempre teve essa atração pelos marginais, como se pode notar desde o seu primeiro filme, e acho isso muito interessante. Ele mesmo chegou a confessar que sente até uma identificação pelos criminosos, talvez por ter feito algo considerado errado pela sua família e pela sociedade diversas vezes durante a infância, desde matar aula para ir ao cinema ou ler livros na biblioteca, até a dormir na rua. E é interessante ler essas entrevistas de Truffaut, pois parece até que estamos lendo uma sessão de psicanálise, pois ele não se importa em nenhum momento de se expor ao público, o que eu acho bonito e acredito que também costumo fazer, ainda que em menor quantidade, nesse meu espaço virtual. A certo momento, dá a entender que a sua necessidade de realizar esse filme se deve a uma identificação com a protagonista, que era uma filha pouco querida e sentia-se rejeitada pela família, comparada às outras duas filhas de Victor Hugo.

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