segunda-feira, junho 09, 2008

EM TERAPIA - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (In Treatment - The Complete First Season)























Quando soube dessa série, primeiramente através do amigo Renato Doho, fiquei logo interessado. Tinha dúvidas se não acharia uma série que mostra simplesmente pessoas conversando um pouco chata. Mas aí lembrei que adoro os filmes do Rohmer e que tenho um interesse pelos aspectos mais profundos da alma humana. E a dica do Renato não apenas serviu pra mim, mas sempre que falo da série pra alguém, a pessoa quase sempre fica interessada em conhecer. EM TERAPIA (2008), atualmente sendo exibida pela HBO brasileira, é uma experiência arriscada para a televisão, mas que certamente mexeu com as estruturas, saindo definitivamente do lugar comum das séries. Não há aqui espaço para flashbacks, há apenas o psicanalista e o paciente conversando. A primeira - e por enquanto única - temporada tem 43 episódios e é uma quantidade que pode inicialmente assustar o espectador que deseja se aventurar por essa vereda, mas é impressionante como a série é tão ou mais empolgante que uma série de ação e o que fica é a vontade de ver um episódio atrás do outro. Afinal, estamos lidando com sentimentos. Inclusive, uma das perguntas mais freqüentes de Paul, o psicanalista interpretado brilhantente por Gabriel Byrne, é: "o que você sentiu sobre isso"?

A série é uma experiência intensiva. Foi exibida de segunda a sexta-feira durante nove semanas nos Estados Unidos, e acredito que está sendo exibida dessa maneira aqui no Brasil também. EM TERAPIA segue um cronograma. Na segunda-feira, Paul trata de Laura (Melissa George), uma mulher apaixonada pelo próprio analista e que já vem se tratando com ele há algum tempo. Paul, como não é de ferro, se sente atraído por essa mulher, que ainda por cima faz questão de contar detalhes de sua vida sexual, só para atiçar ainda mais o pobre homem, que é casado, mas que está passando por uma crise no casamento. Na terça-feira, é a vez de Paul receber em seu consultório Alex (Blair Underwood), um militar cheio de si, que foi recomendado pelos militares a fazer terapia depois de ter tido uma parada cardíaca, pouco tempo depois de ele ter soltado uma bomba no Iraque. Na quarta-feira, é a vez de Sophie (Mia Wasikowska), uma adolescente que aparece no consultório pela primeira vez com os dois braços quebrados. Ela é uma ginasta que rejeita a mãe com quem vive, idolatra o pai ausente e tem uma estranha relação com seu treinador. Na quinta-feira, é a vez de Paul receber um casal em crise, Jake e Amy (Josh Charles e Embeth Davidtz). E pra completar, na sexta-feira, Paul, que também é humano e cheio de problemas e falhas, também começa a fazer terapia com uma velha amiga, Gina, interpretada por Diane Wiest.

EM TERAPIA não é uma série em tempo real, já que uma sessão de terapia levaria uns 50 minutos, enquanto cada episódio leva no máximo 25, mas como nem 24 HORAS consegue ser convincente como série em tempo real, podemos imaginar que aquele tempo que passou foi tão agradável que até parece que durou menos de meia-hora de conversa. E é assim na vida real, quando o papo está agradável e interessante, não é? No caso de EM TERAPIA (eu estou utilizando o título nacional, mas ainda estou achando estranho, pois desde que comecei a ver sempre tratei a série como IN TREATMENT), não se trata apenas de um bom papo, mas de personagens (ou deveria dizer pessoas, de tão reais que elas vão se tornando?) cujos corações e mentes estão machucados e que recorreram à terapia como forma de aliviar suas angústias, suas dores. Portanto, não é incomum ver um episódio em que um dos personagens passa o tempo todo chorando suas mágoas. E o choro, eventualmente, surge do lado de cá da tela também. Logo na segunda semana, eu chorei num episódio da garotinha, a Shophie, no momento em que ela abraça a esposa de Paul, num gesto de carência afetiva. Tanto ser abraçado quanto ver abraços sinceros em filmes ou séries me deixa em geral emocionado, não sei dizer porque. Quem sabe numa sessão de terapia... Mas os episódios que mais me deixavam ansiosos para assistir eram mesmo aqueles em que Laura chegava ao consultório de Paul. Meu Deus, como ter forças para não agarrar de vez aquela mulher?

Como a série tem cinco episódios por semana alguém pode estranhar o fato de só ter três episódios na nona semana. Mas essa surpresa, eu vou deixar pra quem quiser se aventurar por essa série, produzida e dirigida em sua maioria por Rodrigo Garcia, um cineasta que já mostrou possuir uma extrema sensibilidade em lidar com relações humanas. Tanto que ele tem um filme só com monólogos de mulheres chamado CONFISSÕES AMOROSAS (2001), além de ter dirigido alguns episódios excelentes de A SETE PALMOS. Nessa que pode ser considerada sua série mais pessoal, embora se trate do remake de uma série israelense, Garcia utiliza sutis jogos de câmera, para contrabalançar o uso mais constante e praticamente inevitável do campo/contracampo. De vez em quando vemos uma câmera passando por detrás de um personagem ou colocada em outro ângulo, ou detalhes de sons dos carros na rua ou dos pássaros. Na verdade, o silêncio daquela sala faz com que percebamos pequenos detalhes que normalmente não seriam notados.

Quanto à possibilidade de uma segunda temporada, ela está de pé, só que Garcia já demonstrou que não mais dirigirá tantos episódios (ou talvez nenhum), pois foi uma experiência bem exaustiva para ele. Afinal, não se trata apenas de entregar o script para o elenco e ligar a câmera, é preciso criar todo um clima apropriado para que aqueles episódios pareçam reais. E é por todo esse cuidado que a série foi um sucesso e se torna especial na memória afetiva de quem a acompanha. Uma coisa eu posso dizer: desde A SETE PALMOS que uma série não mexia tanto com os meus sentimentos, a ponto de eu sair arrasado ao final de vários episódios. E é impressionante como nós, seres humanos, somos susceptíveis a traumas de infância, a esconder as verdadeiras razões, mentindo para nós mesmos, a fazer auto-sabotagem, a agir de forma punitiva por causa de um sentimento de culpa ou por outra série de razões.

P.S.: Está no ar a nova edição da Zingu!! E se alguém achou estranho eu ter falado sobre dois filmes de Tinto Brass na mesma semana, eis a resposta. É que o Matheus Trunk me convidou para escrever um texto sobre a obra de Brass e como eu não tinha visto ainda nem SALÃO KITTY nem A CHAVE, dois dos filmes mais importantes do diretor, fiz questão de conseguir vê-los o mais rápido possível. Mas a nova edição está especial mesmo é pelo Dossiê Guilherme de Almeida Prado, um dos cineastas brasileiros que eu mais aprecio. Além de a revista trazer críticas de todos os seus filmes - e até de um roteiro seu para uma história em quadrinhos! - ainda há uma entrevista dele feita por Gabriel Carneiro e Marcelo Carrard. E por causa desse dossiê, eu fiquei sabendo de um dos principais motivos do longo afastamento de Almeida Prado das telas, só retornando agora com o novo ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?. Sem querer desmerecer as anteriores, esta edição talvez seja a melhor de todas que a Zingu! já produziu.

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