sexta-feira, junho 20, 2008

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the Devil Knows You're Dead)























Não deixa de ser curioso ver ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (2007) uma semana depois de O SONHO DE CASSANDRA, de Woody Allen. Os dois filmes têm um tema em comum, ambos são tragédias que lidam com pessoas desesperadas por dinheiro e que por isso utilizam-se de medidas desesperadas. E ambos, desde o começo, já mostram que o crime não compensa, mas não de uma maneira didático-moralista, o que é de se esperar levando-se em consideração os responsáveis por tais obras. Falando um dia desses sobre essas peregrinações que eu faço em cima da obra de alguns cineastas, o Renato me perguntou: "por que você não faz uma de Sidney Lumet?". Aí eu respondi que era porque Lumet tinha uma carreira muito extensa. Mas pra quem já fez uma de John Ford, não seria uma má idéia fazer um bom apanhado da carreira de um cineasta tão importante quanto Lumet.

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO é um de seus mais brilhantes filmes. Provavelmente o melhor trabalho do diretor desde O PESO DE UM PASSADO (1988). Talvez melhor até. Na trama, Andy (Philip Seymour Hoffman) e Hank (Ethan Hawke) são dois irmãos passando por situações financeiras complicadas. O primeiro é um contador que utiliza o dinheiro da empresa onde trabalha para manter um padrão de vida relativamente elevado e ainda sustentar o seu vício em heroína. O segundo é mais pobre, vive devendo o dinheiro da pensão à ex-esposa (Amy Ryan) mas faz sempre o possível para conseguir pelo menos pagar a mensalidade da escola de sua filha. Ao saber que haverá uma auditoria na empresa, Andy fica logo desesperado e tem uma idéia para conseguir dinheiro fácil e logo tenta convencer o irmão caçula a aceitar. A idéia é assaltar a loja de jóias de seus próprios pais, que tem seguro contra roubos. Assim, quem sairia prejudicado com esse assalto seria apenas a seguradora. Mas, como é de esperar, as coisas não saem bem como planejado.

Ao utilizar diferentes pontos de vista e uma montagem de idas e vindas no tempo, tendo o assalto sempre como centro da trama, Sidney Lumet fez um trabalho magnífico, desses que a gente assiste e fica empolgado a cada cena, a cada revirada da trama. E o melhor é que o filme não se sustenta apenas na trama, mas também no drama dos personagens. Sobre os personagens, vale destacar a sexy Marisa Tomei no papel da esposa de Andy - o filme, inclusive, abre com uma surpreendente cena de sexo dos dois, passando férias no Brasil -; e Albert Finney, como o pai dos rapazes. Com o desenvolvimento da trama a partir da junção dos diversos pontos de vista, em camadas, vamos tendo uma privilegiada visão desse quadro trágico e regido sempre pela Lei de Murphy. Quando você pensa que as coisas não podem piorar, pode ter certeza de que elas pioram. E Lumet mostra isso, utilizando uma fotografia escura, com sombras que servem tanto como metáfora das coisas escondidas da família prejudicada pela ação, quanto para dar um clima quase "diabólico" ao filme, para utilizar um adjetivo derivado do título. Sem dúvida, um dos melhores do ano.

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