segunda-feira, junho 30, 2008

SILIP - DAUGHTERS OF EVE (Silip)























Para entrar em sintonia com a Sessão do Comodoro desse mês, que vai acontecer na próxima quarta-feira, 2 de julho, resolvi me antecipar e ver durante o final de semana a produção filipina SILIP - DAUGHTERS OF EVE (1985), de Elwood Perez. Infelizmente meus planos para estar em Sampa nesse mês de julho não deram certo, mas fica pra próxima. Foi a primeira vez que vi um filme produzido nas Filipinas e se todo filme daquelas bandas for tão bom quanto esse - o que eu duvido -, eu quero é mais. :)

Agora, o que dizer de SILIP? Antes de mais nada, trata-se de uma experiência inédita pra mim. É um filme que lembra um pouco os mais sacanas exemplares das pornochanchadas brasileiras, mas que também tem algo de Mondo Macabro, pelas cenas de violência, começando, inclusive com uma seqüência explícita de um búfalo sendo morto a marretadas, enquanto as crianças, aos prantos, pedem para que o personagem chave da trama, Simon, não faça isso. Obviamente essa cena em especial deve desagradar muita gente, já que uma cena como essa não é mais comum nos dias de hoje, na era do politicamente correto. Aliás, é até proibida. Hoje em dia, pra se ter uma idéia, nos comentários em áudio de O PODEROSO CHEFÃO, Coppola teve que se explicar sobre a cena da cabeça do cavalo, dizendo que o cavalo já estava morto e tal. Mas estamos falando de uma outra realidade: e se serve de consolo, aposto que a carne daquele búfalo foi muito bem aproveitada pelos filipinos que participaram do filme ou doada para as famílias mais pobres.

Mas o filme não é apenas sexo e violência. SILIP tem um ar de tragédia que vai num crescendo até a catarse final. O que pode incomodar algumas pessoas que preferem uma interpretação mais "realista" ou "naturalista" é que os atores, principalmente os homens, não são mesmo profissionais e parecem bem canastrões. Acredito que o diretor deve ter escolhido a maior parte do elenco - se não todos - do próprio vilarejo ou de algum vilarejo próximo. E, paradoxalmente, de certa maneira, isso dá um ar até de realismo, o fato de todos os rostos serem desconhecidos e de parecerem mesmo membros de uma comunidade primitiva e não mulheres brancas pintadas para parecerem índias como eu já vi em alguns filmes - não que eu também me incomode com isso, ao contrário.

O filme trata de um triângulo amoroso (ou seria um quadrado?), envolvendo duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem, o citado Simon. O cara é feio feito a peste, mas é desejado feito galã de novela das oito pelas meninas. Uma delas, Tonya, é professora de religião para crianças e procura a todo custo não se render aos cada vez mais fortes desejos carnais. Quando o calor sobe pelo corpo, por exemplo, ela toma um banho gelado ou chega até mesmo a jogar sal na própria vagina. E isso está meio que enlouquecendo Tonya, que vê o desejo sexual como algo demoníaco. Do outro lado, temos sua irmã Selda. Recém-chegada de uma viagem pelo exterior e trazendo um rapaz inglês a tiracolo, ela traz valores que chocam aquela comunidade primitiva - no rádio que ela traz, ouvimos "Like a Virgin", da Madonna, exemplo dos valores culturais ocidentais e canção que estava bombando na época. Apesar de muito mais liberada, incomoda-se com o fato de sua irmã andar o tempo todo com aqueles trapos e sem usar calcinha, o que, cá pra nós, torna a voltagem erótica do filme ainda mais elevada. Acontece que o tal de Simon, o matador de búfalos, é um sujeito que já está vivendo com outra mulher, que tem muito ciúme do seu parceiro. Paralelo a isso, o filme mostra a comunidade, já catequisada pela Igreja Católica e que construiu valores sociais que não toleram as inovações e o jeito "vulgar" de Selda. O filme se constrói também em cima da tensão entre as duas irmãs, não apenas por ambas gostarem do mesmo homem, mas pelo fato de elas terem crenças e valores diferentes. Ou pelo menos, uma delas não quer dar o braço a torcer e se liberar, digamos assim.

Trata-se de um filme exploitation e por isso mesmo deve-se curtí-lo como ele é, sem preconceitos. Mas não é porque é exploitation que não vai ter a sua mensagem, o seu momento de reflexão final, que lida, principalmente, com intolerância e com o que a raiva coletiva é capaz de gerar. Já vimos isso num filme classe A hollywoodiano, a obra-prima CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William A. Wellman, mas SILIP não fica muito atrás em seus momentos finais, especialmente quando eu me vi torcendo pelas duas moças. Mas melhor eu não falar muito da trama para não estragar as surpresas. O que eu acredito que posso adiantar é que o erotismo do filme quase chega ao limite do hardcore, de tão forte e belo que é. E é por isso que o filme é tão bom. Imaginem um filme sobre luxúria e desejos carnais sem passar ao espectador toda a voluptuosidade e sensualidade que lhe é exigido. Não teria a menor graça, certo?

SILIP vai ser exibido na Sessão do Comodoro com o título AS FILHAS DE EVA e quem for de São Paulo e perder é mulher do padre.

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