sexta-feira, junho 30, 2006

CLUBE DA LUA (Luna de Avellaneda)



Confesso que quando fui assistir a CLUBE DA LUA (2004), imaginei que se tratava de mais um filme argentino choramingando a crise econômica que assola o país já faz alguns anos. Vários filmes vindos da terra do Maradona, ao menos os que chegaram por aqui, têm se caracterizado por mostrar explicitamente os problemas sociais resultantes dessa crise. Mesmo os que não se propunham a isso, acabavam de uma forma ou de outra apresentando essas questões. Não digo que isso não seja importante e que filmes melancólicos não sejam do meu agrado, mas chega uma hora que isso pode cansar a audiência. Interessante notar que o cinema brasileiro, por exemplo, nunca deixou a impressão de apresentar algum tipo de auto-piedade. Ao contrário, o brasileiro parece encarar as dificuldades da vida com muita coragem e senso de humor. A boa notícia é que CLUBE DA LUA parece ser a obra definitiva sobre a crise financeira argentina. E senso de humor não falta. O filme usa um clube de dança como metáfora dos problemas do próprio país e de como a sociedade lida com isso.

Juan José Campanella trabalha novamente com o excelente Ricardo Darín, que já havia trabalhado com o diretor em UM MESMO AMOR, UMA MESMA CHUVA (1999) e O FILHO DA NOIVA (2001). Darín é um dos líderes de um tradicional clube de dança que está em decadência, mas que já teve momentos gloriosos no passado. A seqüência inicial do filme nos dá uma idéia de como era o clube no passado. Essa seqüência lembra, inclusive, Fellini, com aqueles exageros e aquele tom onírico. Depois, corta para os dias atuais, com Darin lavando o chão de um ginásio. A situação difícil em que se encontra o clube é conseqüência do arrocho salarial e do desemprego.

Com tempo tão nublado, para não tornar CLUBE DA LUA um filme pesado, há diversos momentos engraçados. Destaque para a cena em que Darin sai à procura de um perfume barato. A cena dele tentando arrancar o aparelho dos dentes do filho também é de dar boas gargalhadas. No geral, é um belo filme, ainda que não tenha nenhuma cena tão comovente quanto a cena da reconciliação de O FILHO DA NOIVA. A longa duração (143 minutos) não chega a comprometer, já que o filme vai conquistando o espectador aos poucos. Lá pelo meio é que começamos de fato a simpatizar com os personagens. Quanto ao clube em si, não me pareceu algo tão importante a ponto de eu me solidarizar com a causa do grupo. A comparação com a situação da Argentina é que acaba tornando o filme grandioso. Ou quase.

P.S.: Falando em cinema argentino, soube pelo blog do Guilherme que morreu ontem Fabián Bielinsky, diretor de NOVE RAINHAS, que também trazia Ricardo Darín no elenco. É impressão minha ou nesse ano a quantidade de óbitos ocasionados por paradas cardíacas tem mesmo aumentado?

quinta-feira, junho 29, 2006

FESTIVAL VAN DAMME



Parece que vem uma gripe por aí. Estou com aquela faringite que antecede as gripes e com o corpo dolorido. Deveria ter ficado em casa descansando e vendo uns filmes em vídeo. Até porque não tenho muito o que fazer aqui no trabalho. Mas já que eu estou aqui, melhor esquecer o conforto da minha cama e procurar me ocupar. Ontem terminei de ver o quarto filme de Jean-Claude Van Damme que faltava eu ver dos que eu tinha gravado da televisão. Os filmes foram gravados da Globo e da Record.

VENCER OU MORRER (Nowhere to Run)

O melhor dos quatro e, com certeza, um dos melhores da carreira do belga. Trata-se de uma tentativa de trazer o astro para o cinema classe A. Chamaram Robert Harmon, de A MORTE PEDE CARONA (1986), para dirigir e Rosanna Arquette para estrelar o filme ao lado de Van Damme. E a fórmula até que funcionou. VENCER OU MORRER (1993) é um belo filme. Diria que a mais bem sucedida tentativa de fazer de Van Damme um herói. O final me pareceu tão emocionante que eu quase chorei. E chorar em filme do Van Damme é algo inédito pra mim. Um dos melhores momentos do filme é aquele em que Van Damme apaga o fogo de uma casa usando uma caixa d'água. Gostei também do garotinho, interpretado por Kieran Culkin.

REPLICANTE (Replicant)

Esse é um dos três filmes de Ringo Lam estrelados por Van Damme - os outros foram RISCO MÁXIMO (1996) e HELL (2003). REPLICANTE (2001) é o mais fraco dos três. Foi o último trabalho de Van Damme a passar nos cinemas. Depois desse, seus filmes passaram a ser lançados diretamente em video. O grande barato de REPLICANTE é a trama totalmente improvável. No filme, temos dois Van Dammes: um é psicopata, o outro é um clone criado a partir de células do primeiro a fim de auxiliar no trabalho da polícia na caça ao psicopata, cuja especialidade é matar mães solteiras. Simplesmente ridícula a idéia, não? Mas é a tal coisa: uma vez que a gente releva isso, até que dá pra ver o filme numa boa. Michael Rooker faz o papel do policial que trabalha com o clone.

A IRMANDADE (The Order)

Sheldon Lettich, que já dirigiu Van Damme em DUPLO IMPACTO (1991) e no novo THE HARD COPS (2006), fez essa espécie de primo pobre de O CÓDIGO DA VINCI com ecos de Indiana Jones. Em A IRMANDADE (2001), Van Damme é um ladrão de relíquias cujo pai, um arqueologista, é seqüestrado. Ele vai até Israel para resgatá-lo. A estória é uma bagunça que só piora à medida que se aproxima do final. Salva-se uma seqüência de ação com Van Damme dirigindo uma moto e a presença de Sofia Milos, conhecida pelos fãs de CSI: MIAMI. Charlton Heston tem uma participação pequena e totalmente ridícula. Pra quem já foi Moisés e Ben-Hur, o homem está numa decadência...

VINGANÇA (Wake of Death)

Era para ser mais um filme dirigido por Ringo Lam, mas o chinês abandonou o projeto depois de algumas semanas filmando no Canadá. Entrou um substituto que logo foi demitido. Philippe Martinez assumiu, então, a direção. VINGANÇA (2004) começa bem. Até parece que Lam dirigiu as seqüências iniciais. Na trama, Van Damme, depois que sua mulher é brutalmente assassinada, parte para a vingança contra as tríades chinesas. Apesar de o filme em si não ser lá grande coisa, vale destacar a performance de Van Damme, em sua melhor interpretação. Principalmente na cena em que ele chora a morte da esposa. Pra quem gosta de filmes estilosos, vale dar uma conferida.

quarta-feira, junho 28, 2006

DIAS DE IRA (Vredens Dag)



"Não há nada tão calmo quanto um coração que parou de bater."
(Rev. Absalom Pederssøn)

O que dizer de DIAS DE IRA (1943)? Que é uma obra incomparável, que é uma das maiores obras-primas da história do cinema? Dizer isso é chover no molhado. As palavras não teriam força suficiente para convencer às pessoas que ainda não viram o filme de quão poderosa é essa maravilha de Carl Th. Dreyer. Foi o primeiro trabalho de Dreyer que realmente me deixou de queixo caído. Adoro A PAIXÃO DE JOANA D'ARC (1927), mas como eu tinha acabado de ver O PROCESSO DE JOANA D'ARC, de Bresson, o filme de Dreyer acabou me envolvendo menos.

DIAS DE IRA é uma história sombria de feitiçaria e intolerância. Mas o que mais me deixou chocado é que talvez a intolerância não seja o principal tema do filme. Há um sentido ambíguo no drama de Ann (Lisbeth Movin), uma jovem mulher que é dada em casamento a um velho pastor especializado em queimar bruxas na fogueira - estamos na Europa do século XVII. A primeira personagem a aparecer no filme é uma velha senhora acusada de bruxaria que, fugindo dos fanáticos, procura abrigo na casa de Ann. Anos atrás, a velha havia ajudado a mãe de Ann a escapar da fogueira. Ann possui uma beleza enigmática, olhos que brilham como fogo. A chegada do filho do pastor à casa já dá um sinal de que ali se formará um perigoso triângulo amoroso. Completando o caldeirão fervente, na casa mora também a sogra de Ann, que não vê com bons olhos o casamento do filho com uma moça tão jovem.

A cena da velha sendo levada à fogueira é mais forte do que a de Joana D'Arc morrendo em A PAIXÃO DE JOANA D'ARC, já que agora há a utilização do som. DIAS DE IRA foi o segundo longa-metragem sonoro de Dreyer. Mas até poderia ser considerado o primeiro, já que O VAMPIRO (1932) é quase um filme mudo. E Dreyer usa o som com maestria. Os diálogos são praticamente sussurrados, contrastando com os gritos e com o barulho da cena da tempestade.

O DVD da Magnus Opus traz duas entrevistas de cerca de quinze minutos, cada, com Lisbeth Movin e Preben Lerdorff Rye, o ator que faz o filho do reverendo. Bem interessantes as entrevistas, especialmente a de Lisbeth. Ela lembra do dia em que fez a cena do velório do pastor, conta da atmosfera criada e da interrupção das filmagens num momento crucial. Essa seqüência é um daqueles casos raros de suspensão do tempo. O que me deixou mais intrigado com essa seqüência foi a sugestão de que Dreyer estaria acreditando que as bruxas do filme eram mesmo agentes a serviço de Satanás e não meras vítimas da repressão. Mas claro que existem várias interpretações para o filme.

Agradecimentos a Carol Vieira que fez a gentileza de emprestar sua coleção de Dreyer.

terça-feira, junho 27, 2006

TRISTÃO & ISOLDA (Tristan + Isolde)



Meu primeiro contato com a história de Tristão e Isolda foi através da mini-série em quadrinhos CAMELOT 3000. Nos quadrinhos, o roteirista Mike Barr torna difícil a relação entre os dois amantes ao fazer com que eles reencarnem, ambos, em corpos femininos. Em algumas histórias envolvendo o casal, Tristão é apresentado como um dos cavaleiros do Rei Arthur. Não é o caso de TRISTÃO & ISOLDA (2006), o filme de Kevin Reynolds. Em compensação, o filme apresenta um triângulo amoroso envolvendo Tristão, Isolda e o rei Marke semelhante ao famoso triângulo Arthur-Guinevere-Lancelot. A história do casal também lembra a tragédia de Romeu e Julieta, já que os dois vêm de países inimigos (Inglaterra e Irlanda).

James Franco e Sophia Myles foram os escolhidos para viverem os personagens-título nesse filme que peca pela frieza, um problema sério em se tratando de uma história arrebatadora de amor e violência. Provavelmente, o problema está na direção pouco inspirada de Reynolds, diretor do massacrado WATERWORLD (1995). O outro problema é a interpretação ruim de James Franco. Por outro lado, a presença de cena e a beleza reluzente de Sophia Myles justificam a ida ao cinema. Quem gostou dela já pode ficar de olho: a moça poderá ser vista no novo filme de Terry Zwigoff, ART SCHOOL CONFIDENTIAL. Sophia tem um aspecto angelical, como a Emilie de Ravin, de LOST.

Acredito que hoje em dia os filmes de época que trazem cenas de batalha não podem se dar ao luxo de abdicar das cenas de violência. Um dos méritos de CORAÇÃO VALENTE, de Mel Gibson era justamente o de mostrar as batalhas agressivas e sangrentas. Reynolds optou por um registro mais tradicional, à moda antiga, o que seria até perdoável. Mas se o diretor não tem competência para elaborar um filme delicado, sutil e com pouca violência nos dias de hoje - como Terrence Malick fez em O NOVO MUNDO, outra história de amor impossível -, talvez apelar para os excessos fosse uma boa saída. Agora já era.

P.S.: Coluna nova no CCR: Futebol no Cinema Nacional.

segunda-feira, junho 26, 2006

POSEIDON



Não cheguei a acompanhar o ciclo dos disaster movies da década de 70. Tive a chance de ver vários desses filmes na televisão, mas não deu muita vontade de ver. Por isso, não tenho como comparar O DESTINO DE POSEIDON (1972) com essa refilmagem sob a batuta de Wolfgang Petersen, diretor acostumado a fazer filmes que se passam dentro d'água - O BARCO - INFERNO NO MAR (1981) e MAR EM FÚRIA (2000). POSEIDON (2006) é um de seus melhores trabalhos.

Quando vi o trailer do filme, imaginei que se tratava de um sub-TITANIC. E de certa maneira, é mesmo. O mérito do filme está, principalmente, em não deixar a peteca cair em nenhum momento. O filme de Petersen tem uma duração até menor do que o original e não se preocupa em dar um pouco mais de profundidade aos personagens. Ainda assim, é possível simpatizar com vários deles, escolher os favoritos, lamentar pela morte de alguns, festejar a sobrevivência de outros. Ver pessoas em momentos de dificuldade e agindo em equipe para salvar a si mesmo e aos outros é sempre algo que me deixa comovido.

O primeiro nome a aparecer nos créditos é o de Josh Lucas, ator de pouco brilho, mas que aos poucos ganha a simpatia por seus atos heróicos. Algo parecido acontece com o personagem de Richard Dreyfuss, um homossexual deprimido e rejeitado que pensa em suicídio justo na hora em que a onda gigante se aproxima do navio. Quem eu gostei logo de início foram das mulheres. Especialmente de Mía Maestro, a latina Elena. A jovem Emmy Rossum, que faz a filha do ex-prefeito Kurt Russell, pode-se considerar quase uma veterana dos novos disaster movies, já que esteve no elenco de O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, na minha opinião, o melhor dessa nova safra. Não podia faltar um personagem antipático, aquele que a gente torce para que morra logo, como é o caso de Kevin Dillon.

A cena da chegada da onda e a conseqüente destruição progressiva do navio foram feitas com capricho pela produção. Tudo bem que com um orçamento de US$ 140 milhões não poderia ser diferente, mas não é nenhuma novidade a gente ver Hollywood torrando milhões em produções que nem ao menos oferecem o básico para o espectador. POSEIDON traz seqüências de deixar a gente com falta de ar e outras que dão aquele calafrio causado pelo alívio depois da sensação de perigo. Para quem esperava alguns bocejos e efeitos digitais frios, POSEIDON me deixou até bastante satisfeito.

Quanto aO DESTINO DE POSEIDON, o original, o filme está sendo lançado numa edição especial em DVD duplo.

sexta-feira, junho 23, 2006

HATED - G.G. ALLIN AND THE MURDER JUNKIES























G.G. Allin foi uma figura incomparável na história do rock. Não houve sujeito tão agressivo, violento e nojento quanto ele. Lembro que a primeira vez que ouvi falar nele foi através de uma nota na revista Bizz. A nota falava do que ele costumava fazer nos shows: cantava totalmente nu e drogado, cagava no palco, comia as próprias fezes e ainda jogava parte delas no público. A nota da Bizz ainda falava sobre o fato de ele enfiar o microfone no próprio ânus e de bater o microfone na cabeça, terminando os shows sempre ensangüentado. Pra completar, Allin havia prometido cometer suicídio em um de seus shows, o que não aconteceu pois ele morreu de overdose de heroína acidentalmente. O engraçado é que ele morreu numa festa e as pessoas que estavam lá não sabiam inicialmente que ele havia morrido, pensavam que ele estava apenas dormindo, e até tiraram algumas fotos com o corpo já sem vida dele.

Todd Philips, diretor da divertida comédia CAINDO NA ESTRADA (2000), dirigiu HATED (1994), o documentário que já tem a seu favor o tema bombástico e as loucuras de um homem que vivia dos excessos. O documentário traz trechos de shows de Allin e vários depoimentos de membros da banda Murder Junkies e de fãs do cantor. O documentário mostra também que, em alguns shows, ele às vezes pegava um espectador e metia a porrada no coitado. Geralmente seus shows só duravam dez minutos pois eram interrompidos com a confusão e a polícia chegava logo ao local. Quer dizer, quem ia para os shows de Allin corria o risco de sair de lá todo arrebentado e fedendo a merda.

Lendo sobre Allin na internet, soube que ironicamente seu nome de batismo era Jesus Christ Allin. O pai de Allin foi quem lhe deu esse nome, pois, segundo ele, um anjo o havia visitado e lhe dito que o seu filho iria se tornar um grande homem. Um outro detalhe que eu achei interessante é que o perturbado pai de Allin proibia qualquer conversa à noite em sua casa, uma cabana sem água e eletricidade. O velho era mentalmente perturbado.

Como vi o filme sem legendas e no computador (o dvd player não rodou o arquivo), não consegui entender boa parte dos depoimentos. Colocava o volume das minhas caixinhas de som mixurucas no máximo para tentar ouvir melhor, mas com certeza devo ter perdido várias coisas importantes. Eu, além de ter um listening skill ruim, sou meio surdo. O arquivo que peguei, via torrent, veio com um extra de duração maior que o filme, contendo a performance dele na Gas Station, pouco antes de morrer. Porém, ontem fui tentar rever trechos do filme e continuar a ver esse extra, mas deu erro de codec. Vai entender.

quinta-feira, junho 22, 2006

FUGINDO DO INFERNO (The Great Escape)



FUGINDO DO INFERNO (1963) foi um dos filmes mais marcantes da minha infância. Devo ter visto umas duas ou três vezes. Na época eu não era um entusiasta por filmes e nem sabia quem era John Sturges, Steve McQueen ou Charles Bronson, mas o filme, sempre que passava, me deixava com os olhos grudados na tela. Acho que o meu gosto por filmes de prisão nasceu com FUGINDO DO INFERNO, que eu considero até hoje o grande clássico desse subgênero. Sem esse filme não existiria uma série foda como PRISON BREAK.

Sturges é mais famoso por seus westerns revisionistas. Os mais célebres são SEM LEI E SEM ALMA (1957), DUELO DE TITÃS (1959) e SETE HOMENS E UM DESTINO (1960). Desses, só cheguei a ver o terceiro e, embora goste bastante do elenco e da trilha sonora antológica de Elmer Bernstein, não está entre os meus westerns favoritos. Sou bem mais os clássicos de Ford e Hawks, que falam mais ao meu coração. Mas claro que não dá pra negar a importância de Sturges e não pretendo deixar passar a oportunidade de ver mais de seus filmes.

Há, inclusive, uma estreita ligação entre SETE HOMENS E UM DESTINO e FUGINDO DO INFERNO. Além de os dois filmes compartilharem da mesma direção de Sturges e do mesmo compositor (Bernstein), três atores integram o elenco desses filmes: Steve McQueen, Charles Bronson e James Coburn, três astros do chamado cinema de macho.

A trama é simples: grupo de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial tenta escapar de uma prisão de segurança máxima administrada pelos alemães. Em comparação com outros filmes de prisão que vi, esse até que pega leve com os prisioneiros. UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU, do Bresson, por exemplo, passa uma visão muito mais dark da coisa. Aqui os prisioneiros até se divertem e não eram executados a não ser que fossem pegos tentando fugir. O maior castigo era a chamada "geladeira", uma espécie de solitária onde o personagem de McQueen passa boa parte do tempo, brincando com sua bola de beisebol. Cada personagem é especialista em alguma coisa: um é especialista em túneis, outro cuida da falsificação de documentos, outro consegue material para a fuga etc. A idéia dos líderes da fuga é liberar mais de duzentos presos através dos túneis.

Interessante que Steve McQueen era um ator bastante vaidoso. Ele só aceitou participar do filme se o seu personagem tivesse bastante destaque e que ele ainda pudesse demonstrar suas habilidades na moto - as cenas de moto não existem no livro no qual o filme se baseia. O livro foi baseado em fatos reais. O autor havia presenciado uma fuga na época em que foi prisioneiro dos alemães. Donald Pleasance também foi prisioneiro dos nazistas.

Pena que a edição que eu comprei do DVD não foi a dupla, mas a simples, que está sendo vendida a preço de DVD de banca nas Lojas Americanas. No segundo disco da edição especial parece que vem um bom documentário, mas não sei qual a duração, nem se vem com legendas. De qualquer maneira, o lançamento do filme em DVD é motivo para comemoração. Poder ver essa maravilha em sua janela correta (2,35:1) não tem preço.

P.S.: No Balaio Vermelho, blog de Moacy Cyrne, foi publicado hoje o top 20 dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Ruim é que, sempre que eu olho para a lista, dá vontade de modificar. :)

terça-feira, junho 20, 2006

BANDE À PART



Depois do luxuoso O DESPREZO (1963), realizado em cinemascope, technicolor, uma estrela gostosona e muito dinheiro envolvido, Jean-Luc Godard retorna às origens mais humildes com BANDE À PART (1964). Há algumas semelhanças com ACOSSADO (1959). Ambos são filmes baratos de crimes; ambos trazem uma mulher como eixo fundamental da trama. No caso de BANDE À PART, Anna Karina, a musa maior de Godard. Pelo visto, o cineasta era mesmo interessado em histórias de crime. Além de o filme ser baseado num romance barato do gênero, há uma cena em que os dois protagonistas lêem em voz alta trechos de notícias do caderno policial de um jornal.

Quanto a Anna Karina, depois de interpretar uma stripper doida pra casar em UMA MULHER É UMA MULHER (1961) e uma prostituta desiludida em VIVER A VIDA (1962), nada melhor do que mudar um pouco. Em BANDE À PART, Karina é uma jovem inocente que é persuadida por dois sujeitos, colegas de um curso de inglês, a assaltar a casa onde ela trabalha.

Eu adoro filmes de assalto. Mas não dá pra esperar algo convencional de Godard. A história leva meia hora para chegar a algum lugar. Dos momentos anteriores ao assalto, gosto bastante da cena dos três dançando no bar ao som de um ótimo jazz. Godard tem grande talento para seqüências musicais. Karina já havia feito uma cena de dança memorável num bar em VIVER A VIDA. Outra coisa que me agradou no filme foi a narração poética do próprio Godard. Essa narração parece oferecer uma dissonância com o que é mostrado na tela. Na maioria das vezes, as imagens, pelo menos até pouco antes do final, não parecem ter o grau de melancolia que o texto recitado por Godard sugere. Um dos momento mais geniais dessa narração acontece justamente na seqüência da dança no bar, quando o diretor nos revela o que cada um estaria pensando. Ele pára a música e insere os pensamentos dos personagens. Genial. Começo a suspeitar que a cena da dança é a melhor de todo o filme. Parece que a tal cena da dança foi homenageada por Tarantino em PULP FICTION. Fora o fato de que Tarantino nomeou a sua produtora de Band à Part. Mas, se não engano, Godard não foi muito gentil com o Tarantino.

Pena que a cópia que eu vi, em divx, estava pulando, travando ou ficando com problema de sincronia. Não sei se o problema era do divx ou se meu aparelho de DVD já está começando a cansar e a rejeitar o formato. Acho que se eu visse o filme em melhores condições, teria gostado mais. E, ao contrário do que eu imaginava, o "triângulo amoroso" não é muito bem explorado. Mas vai ver não era mesmo a intenção do diretor de enfatizar a relação dos três. Poderia ficar muito parecido com JULES E JIM, do Truffaut.

P.S.: Finalmente recebi meu exemplar da Paisà #3. A seção de DVDs dessa vez está bem mais gordinha. E a revista destaca mais os clássicos.

segunda-feira, junho 19, 2006

IMPULSIVIDADE (Thumbsucker)



Felizmente a programação do Cinema de Arte está melhorando. Depois de alguns meses exibindo filmes pouco atraentes, o meu interesse pela programação se renovou. Depois de IMPULSIVIDADE (2005), estão programados para as próximas semanas: O CLUBE DA LUA, de Juan José Campanella, CACHÉ, de Michael Haneke, APENAS UM BEIJO, de Ken Loach, O HOMEM URSO, de Werner Herzog, e CRIME FERPEITO, de Alex de la Iglesias, não necessariamente nessa ordem.

IMPULSIVIDADE é mais uma interessante produção do cinema independente americano, que tem a tendência de trazer à tona assuntos pouco comuns. O filme de Mike Mills conta a história de um rapaz que não consegue largar o vício de chupar o dedo. Seu relacionamento com os pais é bem pouco convencional. Ele os trata pelo primeiro nome por sugestão deles mesmos, que não querem se sentir velhos. Seu ortodontista (interpretado por Keanu Reeves) lhe sugere uma hipnose a fim de acabar com a vontade de chupar o dedo. O problema é que a falta dessa válvula de escape no rapaz faz com que ele se torne violento e irritadiço. As coisas começam a se resolver um pouco quando lhe é receitado pílulas para administrar a sua capacidade de concentração. Mas outro problema ocorre: ele fica viciado nas drogas.

Se eu não tivesse tão impaciente para sair da sala de cinema, até teria ficado para o debate que teve no final da sessão, com a presença de psicólogos. Se bem que tenho minhas dúvidas se a psicologia é mesmo convicente na explicação desses casos. Porém, independente do que a psicologia possa dizer sobre os problemas do protagonista, o filme fala de um assunto universal, o de se aceitar ou não as diferenças, as esquisitices. Qualquer coisa que esteja distante da normalidade imposta pela sociedade deve ser ajustada. É assim que as coisas são. O final do filme tende a criticar essa busca pela normalidade, pelo ajuste.

Mike Mills, antes de se dedicar a esse filme, era diretor de videoclipes. Mills contribui mais uma vez para a tirar a idéia de que um diretor de videoclipes deve, naturalmente, fazer filmes com montagem picotada e uso exagerado de filtros. O que não é verdade, vide os belos trabalhos de Mark Romanek (RETRATOS DE UMA OBSESSÃO), Jonathan Glazer (REENCARNAÇÃO) e Mark Pellington (O SUSPEITO DA RUA ARLINGTON), só pra citar três exemplos.

domingo, junho 18, 2006

BOLEIROS 2 - VENCEDORES E VENCIDOS



No jogo de hoje, Brasil x Austrália, Fred entrou faltando poucos minutos para acabar o jogo e, mal entrou, fez logo um gol. Para a alegria da enorme torcida brasileira, com sede de gols. Em BOLEIROS - VENCEDORES E VENCIDOS (2006), aparece uma história parecida, só que com um final bem menos feliz. O novo filme de Ugo Giorgetti pode não ter as mesmas boas estórias de BOLEIROS - ERA UMA VEZ O FUTEBOL (1998), mas há muitos bons momentos. Esse que eu citei acima é um deles, a história de Barbosa (Duda Mamberti), o assistente de técnico que sonhava em se tornar técnico de futebol.

O grupo de amigos freqüentadores do bar do Aurélio reaparece nesse segundo filme. É sempre bom conferir mais uma vez o talento de craques como Adriano Stuart e Flávio Migliaccio, além de outras gratas presenças, como Sócrates, Otávio Augusto, Sílvio Luiz, Cássio Gabus Mendes, Lima Duarte, Fulvio Stefanini, Denise Fraga. Há também o ator revelação Paulo Miklos no papel de empresário canalha e a presença da eterna Tiazinha Suzana Alves. Eu já tinha percebido, vendo uma cena da moça na mini-série MANDRAKE, que ela é mais do que um corpinho bonito.

Entre as melhores estórias do filme, destaco a de Nestor, o homem que supostamente teria retornado depois de dar um chá de sumiço durante anos, quando partiu para jogar no México. O sujeito que aparece está muito diferente do Nestor que a mulher e os amigos conheciam. Pra completar, ele não está de posse de nenhum documento. A mulher o leva, então, para ver Naldinho (Flávio Migliaccio), seu amigo no passado. Quem sabe ele o reconheça. O desenrolar desse episódio é dos mais divertidos.

Há uma crítica às mudanças, à modernidade, logo no início do filme, quando Migliaccio reclama das inovações que o bar está promovendo. O bar está sendo reinaugurado e está com um novo sócio, Marquinhos (José Trassi), o herói do penta, possivelmente, representando Ronaldo. Dos vários personagens do filme, não entendi o que representariam aquele casal de ladrões de carteira. Mas no geral, é um filme bastante agradável de se ver, embora falte episódios tão bons quanto àquele do Paulinho Majestade, do primeiro BOLEIROS. Aquele, sim, foi de arrepiar.

P.S.: Não deixem de comprar o livro "Ugo Giorgetti - O Sonho Intacto", de Rosane Pavam. Faz parte daquela série de livros baratinhos lançados pela Imprensa Oficial. Dessa coleção, comprei também os de Carlos Reichenbach, Anselmo Duarte e Guilherme de Almeida Prado. E, mais recentemente, também comprei a coletânea de críticas de Jairo Ferreira.

sábado, junho 17, 2006

NO RASTRO DA BALA (Running Scared)



Belíssima surpresa este NO RASTRO DA BALA (2006), que teve pouca repercussão de bilheteria nos EUA e foi lançado direto em vídeo no Brasil. O filme teria passado batido por mim se não fossem os comentários elogiosos do pessoal da Canibal e a resenha da SET desse mês que trazia o aval entusiasmado de Quentin Tarantino. Há até alguma semelhança desse filme com a obra do "queixada" (Leandro, peguei emprestado o apelido que você deu ao homem!) e de seu parceiro Robert Rodriguez. Se Wayne Kramer não consegue ser um Tarantino, ele dá de rasteira no Rodriguez.

NO RASTRO DA BALA acompanha o desespero de um homem (Paul Walker) envolvido com a máfia à procura da arma que matou um policial. Um garoto (Cameron Bright, de REENCARNAÇÃO) havia pegado a arma para atirar no seu padrasto. Assim, o filme acompanha a jornada desse homem num ritmo alucinante. Algo como a série 24 HORAS, só que concentrado em duas horas e com muito mais violência e palavrões por segundo. Não dá nem tempo de piscar, tal o domínio narrativo de Kramer, diretor de THE COOLER - QUEBRANDO A BANCA (2003) - disponível em DVD e já anotado para pegar numa próxima visita à videolocadora.

O curioso é que o momento que mais me empolgou no filme é justamnete aquele que não traz Paul Walker, mas Vera Farmiga, que faz a esposa dele, tentando resgatar o garoto de um casal de pedófilos! Pode-se dizer que o filme foi a primeira bola dentro de Paul Walker, que até então não havia tido a sorte de mostrar que tinha algum talento. Walker está surpreendentemente bem no filme. Mas quem merece mais aplausos é mesmo o diretor. Wayne Kramer dirigiu, roteirizou e usou muito bem vários efeitos de câmera, tendo surgido comparações até com gente como Sam Peckinpah e Walter Hill.

Se há algum senão no filme, eu diria que talvez seja aquele final, que passa uma impressão de que foi feito às pressas e com o objetivo de agradar parte da audiência. Mas nada que vá macular as qualidades desse belo thriller.

sexta-feira, junho 16, 2006

CHARLES BRONSON EM DOIS FILMES



Charles Bronson foi um dos grandes astros do cinema de ação. Isso é indiscutível. Pena que a partir da década de 80 ele ganhou má fama por fazer alguns filmes de ação vagabundos, produzidos pela Cannon Group, companhia israelense que lucrou um bocado com o filão. Foi nos anos 70 que Bronson realizou os melhores filmes, tendo trabalhado muito na Europa. Esses dois filmes são dois exemplares dessas fases distintas do nosso saudoso Charlie.

VIOLENT CITY / A FAMÍLIA (Città Violenta / Cité de la Violence / The Family)

O DVD de VIOLENT CITY (1970), eu comprei graças à dica do Heráclito. Ainda é possível encontrá-lo nos balaios de 9,99 das Americanas. A capa está meio vagabunda, mas o DVD foi feito a partir da excelente cópia da Anchor Bay. A imagem está lindíssima em widescreen 2,35:1. Só o som que eu achei um pouco baixo. A direção é de Sergio Sollima, um dos três sergios que fizeram o policial e o faroeste italianos brilharem durante as décadas de 60 e 70. Esse foi o primeiro filme que vi dirigido por ele e fiquei impressionado com sua maestria. A seqüência de perseguição que dura uns quinze minutos sem nenhum diálogo do início do filme e a cena que mostra Charles Bronson atirando num elevador panorâmico são os dois melhores exemplos da excelência da direção de Sollima. Se tem algo que pode incomodar um pouco a quem não está acostumado com o cinema italiano de gênero são as pontas soltas na história. Há uma lógica toda particular na narrativa desses filmes. Alguns deles são tão belos esteticamente que a gente nem liga se não tiver entendendo a trama. Os astros de VIOLENT CITY, além de Bronson, são Jill Ireland, a sra. Bronson fazendo um papel ambíguo, e o eterno Kojac Telly Savalas no papel do chefe da máfia. A trilha sonora de Ennio Morricone torna o filme ainda mais saboroso.

ASSASSINATO NOS ESTADOS UNIDOS (Assassination)

Esse filme marca a última parceria no cinema de Charles Bronson com sua esposa Jill Ireland. Na época, ela já estava lutando contra o câncer que poria fim a sua vida em 1990. É uma divertida aventura dirigida por Peter R. Hunt, diretor de PERSEGUIÇÃO MORTAL (1981), com Bronson e Lee Marvin. Na trama, Bronson é um agente do serviço secreto que trabalha diretamente com o Presidente da República. De volta ao trabalho depois de um afastamento que não é muito bem explicado, ele passa a trabalhar como guarda-costas da primeira dama (Jill Ireland), uma mulher que acha que pode ir para onde quiser e do jeito que quiser. Depois de várias tentativas de assassinato, ela percebe que está correndo perigo. ASSASSINATO NOS ESTADOS UNIDOS (1987) é desses filmes que deve ser assistido sem muita expectativa e nenhuma exigência. É uma diversão rasteira que funciona muito bem principalmente para quem gosta de Charles Bronson. Carisma não falta no homem. O filme lembra ROTA SUICIDA, de Clint Eastwood, que também trazia um sujeito durão ao lado da esposa. Claro que não é tão brilhante quanto o filme do Clint, mas dá pro gasto. Gravado da Globo.

quarta-feira, junho 14, 2006

O VAMPIRO (Vampyr - Der Traum des Allan Grey)



Avisaram-me, mas como sou teimoso, lá fui eu alugar o DVD de O VAMPIRO (1932), primeiro filme falado de Carl Theodor Dreyer. Realmente a cópia está horrível, mas, a julgar pelos comentários que li no IMDB, a cópia americana também está tão ruim quanto à que foi disponibilizada pela Continental. Inclusive, li reclamações até das mesmas barras pretas cobrindo boa parte da tela na hora das legendas.

Um dos melhores momentos do filme é a cena vista pelo ponto de vista do protagonista, morto dentro de um caixão, em vias de ser enterrado, assistindo ao próprio funeral. Há também interessantes efeitos especiais na cena em que o espírito de Allan Grey sai do corpo e dá um passeio. Só esses dois momentos já são suficientes para perceber que a obsessão do diretor pela morte, um de seus temas recorrentes, está fortemente presente nesse filme.

Confesso que me perdi um pouco na trama. (Na verdade, "um pouco" é eufemismo.) Isso prejudicou, junto com a precariedade da cópia, minha apreciação do filme. Mas como o que deixo aqui são só impressões, prefiro deixar registrado esse meu primeiro contato com O VAMPIRO. Quem sabe no futuro eu volto a assistí-lo numa cópia melhor.

Como o cinema falado ainda estava engatinhando, O VAMPIRO ainda se parece muito com cinema mudo. É que O VAMPIRO havia sido produzido originalmente como um filme mudo. Só depois que foram acrescentados os poucos diálogos, que aparecem no filme de uma maneira um pouco anti-natural e arrastada, contribuindo para a atmosfera horripilante pretendida. Há poucos diálogos e vários textos para preencher a história, principalmente no começo do filme.

O VAMPIRO foi baseado numa obra de Sheridan Le Fanu, escritor tão célebre quanto Bram Stoker no que se refere a livros sobre vampiros.

Próximo Dreyer da fila: DIAS DE IRA (1943).

terça-feira, junho 13, 2006

LADY VINGANÇA (Chinjeolhan Geumjassi / Sympathy for Lady Venegance)



LADY VINGANÇA (2005), o terceiro filme da "trilogia da vingança" de Chan-wook Park, se não é tão bom quanto os dois primeiros, me passou a impressão de ser, dos três, o de maior beleza plástica. O diretor de fotografia é Jeong-hun Jeong, mesmo de OLDBOY (2003). O problema desse terceiro filme se deve mais à frieza com que a trama é tecida. E essa sensação acontece muito por causa da complexidade da narrativa, cheia de personagens, de diferentes narrações em off, de flashbacks que às vezes confundem a nossa noção de tempo. Assim, em nenhum momento nos sentimos solidários à causa da protagonista. Nem mesmo no final, quando descobrimos mais detalhes dos crimes cometidos pelo professor. Diferente de filmes como KILL BILL, THRILLER - A CRUEL PICTURE, DESEJO DE MATAR, OLDBOY ou mesmo SENHOR VINGANÇA (2002), embora esse último apresente a vingança como algo mais complexo em que todos são vítimas.

Em LADY VINGANÇA, mulher vai presa e se finge de boazinha para conseguir logo a sua liberdade condicional. Ela até participa de uma igreja evangélica. Mas é tudo fingimento. Ela na verdade está preparando uma cruel vingança ao homem responsável pela sua prisão e pelo assassinato de várias crianças. Falando assim, tudo parece muito simples, mas a narrativa deixa a situação um pouco mais complicada.

As cenas mais empolgantes são as do final, quando a tal vingança é executada. O filme pertence a essa leva de obras que causam controvérsia por causa da violência. O diretor até já foi acusado de sádico. Soube que quando da exibição desse filme numa mostra internacional, várias pessoas riram nos momentos finais, como se estivessem vendo uma demonstração de sadismo. Eu não vejo dessa maneira. Pra mim, o filme é narrado com bastante seriedade. A bela música barroca de Antonio Vivaldi contribui para isso. Lembrando que em OLDBOY, Park havia usado trechos de "As Quatro Estações", de Vivaldi.

Quero ver outros filmes de Park, longe dessa temática da vingança para ver se o seu estilo muda. Parece que ZONA DE RISCO (2000), lançado recentemente em DVD no Brasil, é bem diferente. Ouvi dizer que o filme lembra até John Woo.

Filme visto em divx. A qualidade da cópia está tão boa (dois arquivos de cerca de 700 Mb) que eu não acredito que o DVD nacional - se um dia vier - será tão bom.

P.S.: Tem Coluna nova no Cinema com Rapadura. Dessa vez, eu roubei um pouco a idéia do Milton e falei sobre minha experiência com o VHS. Valeu, Milton! :)

segunda-feira, junho 12, 2006

TOP 20 ANOS 70



1. DOMICÍLIO CONJUGAL (François Truffaut)
2. MANHATTAN (Woody Allen)
3. O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (Don Siegel)
4. BARRY LYNDON (Stanley Kubrick)
5. O PODEROSO CHEFÃO (Francis Ford Coppola)



6. O CASAMENTO DE MARIA BRAUN (Rainer Werner Fassbinder)
7. TRISTANA (Luis Buñuel)
8. A VIDA DE BRIAN (Terry Jones)
9. SONHOS DE UM SEDUTOR (Herbert Ross)
10. O JOELHO DE CLAIRE (Eric Rohmer)



11. A MORTE NÃO MANDA RECADO (Sam Peckinpah)
12. FRENESI (Alfred Hitchcock)
13. UM DIA DE CÃO (Sidney Lumet)
14. A RAINHA DIABA (Antonio Carlos da Fontoura)
15. SUSPIRIA (Dario Argento)



16. UM DIA MUITO ESPECIAL (Ettore Scola)
17. SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (Pier Paolo Pasolini)
18. OS 5 VENENOS DE SHAOLIN (Chang Cheh)
19. ROMA (Federico Fellini)
20. CHINATOWN (Roman Polanski)

Quase entraram: O PASSAGEIRO - PROFISSÃO REPÓRTER, ÂNSIA DE AMAR, CAMINHOS PERIGOSOS, O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II, ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, TRAMA MACABRA, O QUARTO VERDE, A NOITE AMERICANA, APOCALYPSE NOW, IRMÃS DIABÓLICAS, SOLARIS.

Queria ter tido tempo de rever O PODEROSO CHEFÃO e O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II para saber se eles continuam sendo tão bons quanto parecem na minha memória. O mesmo valendo para MANHATTAN, UM DIA DE CÃO ou O CASAMENTO DE MARIA BRAUM. Mas como não posso rever todos eles por enquanto, já vou adiantando o meu ranking da década de 70, uma das mais férteis do cinema em todo o mundo.

Continua valendo a regra das outras listas que fiz, isto é, não pode entrar dois filmes do mesmo diretor. Se bem que eu acabei trapaceando, já que coloquei dois filmes de Woody Allen entre os vinte - apesar de ter sido dirigido por Herbert Ross, SONHOS DE UM SEDUTOR é um autêntico filme de Woody Allen. Se eu pudesse colocar mais de um filme por diretor, o nome de Francis Ford Coppola e Luis Buñuel poderiam aparecer mais vezes. O maior cineasta da Espanha aparece na lista com o genial TRISTANA, com a musa Catherine Deneuve.

O único exemplar do cinema brasileiro foi A RAINHA DIABA. Uma pena eu não ter visto muitos filmes brasileiros dessa década, que, acredito eu, deve ter sido das melhores do nosso cinema. Há também um exemplar do cinema chinês, o excelente OS 5 VENENOS DE SHAOLIN, que conheci recentemente graças à influência de Quentin Tarantino. Outro filme que só fui conhecer dia desses foi o maravilhoso O JOELHO DE CLAIRE, de Eric Rohmer.

O filme que se apresenta no topo da lista, DOMICÍLIO CONJUGAL, de François Truffaut, aparece por razões estritamente pessoais. Inclusive, ele é considerado por muitos o mais fraco da pentalogia de Antoine Doinel. Mas pra mim, trata-se de um filme muito, mas muito, especial.

O genial Stanley Kubrick comparece com BARRY LYNDON, sua obra mais emocional. Quem diria que Kubrick, um cineasta tão cerebral, me faria um dia chorar. Outro filme de causar catarse é a obra-prima O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, de Don Siegel, que traz uma performance excepcional de Clint Eastwood.

Alfred Hitchcock, nos anos 70, já estava muito velhinho e em fim de carreira, mas o cara ainda mandava muito bem. Sua ausência no cinema ainda hoje é bastante sentida. Dos seus dois filmes da década, optei por FRENESI por ser melhor resolvido e mais redondo, mas também gosto muito de TRAMA MACABRA.

Falando em filmes violentos, um dos grandes mestres da violência, Sam Peckinpah, comparece com um de seus filmes mais líricos e românticos, A MORTE NÃO MANDA RECADO. Por outro lado, a overdose de violência e escatologia de SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA fica na memória da gente forte demais para ser ignorado. Ironicamente, um cineasta que eu nem gosto tanto aparece com uma obra que me deixou impressionado: Federico Fellini e seu ROMA. Ver filme no cinema é outra coisa, hein. Aliás, dos vinte filmes da lista, apenas três eu vi no cinema, graças a exibições especiais.

A lista foi feita por ocasião das votações para melhores das décadas na Liga dos Blogues Cinematográficos.

sábado, junho 10, 2006

A PROFECIA (The Omen / The Omen 666)



Quando um filme é xingado a torto e a direito, a tendência que a gente tem é mesmo ir ao cinema achando que vai ver um lixo. Às vezes essa expectativa negativa acaba funcionando como vantagem para o filme. É o caso de A PROFECIA (2006), de John Moore, remake do hoje clássico de Richard Dooner. Quando o filme começou, eu confesso que estava com um pouco de má vontade. Aquela criança no começo não me convenceu de jeito nenhum como o anticristo e a trama me pareceu bastante forçada. Mas chega uma hora que o filme se ergue e os sustos aparecem. O drama do pai que tem que matar o próprio filho para livrar o mundo do demônio acabou por me deixar bastante envolvido. Diria que mais até do que o filme original. Claro que o fato de eu ter visto o original apenas em DVD contribui muito. Quanto ao garotinho, lá perto do final ele se torna mesmo assustador. E tem aquele cachorro preto que fica dentro da casa, que é de arrepiar tudo quanto é cabelo.

Interessante que normalmente eu me sinto incomodado com filmes que trazem profecias sobre o Apocalipse. Alguns são extremamente ridículos. O caso mais gritante seria o de FIM DOS DIAS, aquele lixo que trazia o Schwarzenegger enfrentando o capeta e que se aproveitava do fim do milênio. Dessa vez, eu até achei interessante o roteirista ter comparado eventos atuais como a queda das torres gêmeas e o tsunami na Ásia com trechos do Apocalipse. Se bem que eu sei que essas interpretações devem ter sido copiadas das idéias de alguma igreja evangélica.

Quem substitui Gregory Peck e Lee Remick nesse remake são Liev Schrieber e Julia Stiles. Julia aparece um pouco mais gordinha, mas gostei muito da entrega dela à personagem. Deu pra ver que ela estava levando a sério o filme na cena em que ela chora com medo do próprio filho. Ela não sabe que o menino não é seu filho biológico, mas sabe que ele possui uma natureza maligna. (Suspeito que uma mãe que planeja adotar uma criança, deve desistir da idéia depois de ver o filme.)

Um dos maiores problema desse novo A PROFECIA é mesmo o excesso de reverência à obra original. Muito pouco foi mudado, mas algumas coisas foram mudadas para melhor. Por exemplo, a seqüência da tempestade que vai por fim à vida do padre vivido por Pete Postlethwaite é um primor de construção atmosférica. Chamarem Mia Farrow para interpretar a babá também foi uma boa sacada, já que depois de dar à luz o filho do capeta em O BEBÊ DE ROSEMARY, nada mais natural do que ajudar na criação do Anticristo. Claro que muita coisa poderia ser melhorada ou acrescentada no filme, mas acredito que John Moore fez um bom trabalho. Engraçado que eu fui um dos poucos que gostaram de um filme anterior do diretor, ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS (2001). Pela lógica, acho que vou gostar de O VÔO DA FÊNIX (2004) também.

sexta-feira, junho 09, 2006

UMA VIDA ILUMINADA (Everything Is Iluminated)



E hoje começa a Copa do Mundo 2006. Será que o blog vai diminuir o ritmo por causa disso? Ainda não sei. É possível. Devo substituir alguns filmes vistos em casa por alguns jogos. Costumo sempre dizer que eu só gosto de futebol de quatro em quatro anos. Se eu não assistir nem nessa época é melhor eu me mudar logo de país.

Hoje estava pretendendo mandar um post com o ranking dos 70's, mas não fui trabalhar e o meu arquivo contendo os códigos para os mini-cartazes dos filmes está lá na empresa. Então, para não ficar sem atualizar, o filme de hoje vai ser UMA VIDA ILUMINADA (2005).

A estréia na direção de Liev Schrieber é um caso típico de filme dividido. A primeira parte tenta ser uma comédia e a segunda, um drama sério sobre encontros com a verdade e com o passado distante. A primeira parte do filme é bem chatinha e deu para perceber nas cenas deletadas que vêm no DVD que a decisão de diminuir a comédia foi acertada.

Na trama, Elijah Wood é um jovem que tem a mania obsessiva de guardar coisas. Ele tem uma parede cheia de coisas de seus familiares, como uma forma de se fazer um registro histórico de sua família. Seu avô morre e tudo que ele tem dele é uma pequena jóia e uma foto dele com uma mulher que o escondeu dos nazistas. Levando a sério esse seu "hobbie", ele parte para a Ucrânia em busca dessa mulher para agradecê-la e aprender mais sobre o seu avô. Chegando na Ucrânia, ele é recebido por um jovem fã da cultura pop americana e por um velho que se finge de cego e anda com um cão-guia.

O filme me deixou com uma leve curiosidade para saber o que levou o diretor (Liev Schrieber) a adaptar algo que parece ser tão pessoal. Soube que Schrieber era muito próximo de seu avô, que era um imigrante ucraniano, e a morte dele o levou a escrever um livro sobre suas memórias. No meio do caminho, ele leu um trecho do romance de Jonathan Safran Foer e se identificou bastante. Ele achou tão bom o material de Foer que ele desistiu de escrever o seu próprio livro e resolveu adaptar para o cinema o romance.

Um dos destaques do filme é a fotografia, que valoriza a bela paisagem. Que não é da Ucrânia, mas da República Tcheca. O amarelo das flores é o que mais fica na memória.

quinta-feira, junho 08, 2006

A DAMA E O VAGABUNDO (Lady and the Tramp)



A estória de A DAMA E O VAGABUNDO, eu já conhecia desde criança. Lembro que eu tinha a quadrinização do filme. Mas nunca havia visto o longa-metragem e não sabia de sua real importância para a história da animação. O filme foi o primeiro desenho animado realizado em CinemaScope. Felizmente, a Edição Especial em DVD respeita o formato original do filme. Como muitos cinemas da época ainda não possuíam equipamentos para rodar o filme nesse formato, foram produzidas duas versões, sendo que a outra, no formato tradicional (1,33:1?). Na época o cinema estava prevendo um desaparecimento provocado pela chegada da televisão. Felizmente isso não aconteceu.

A DAMA E O VAGABUNDO foi muito importante para Walt Disney pois foi inspirado em Marceline, Missouri, uma cidadezinha do interior onde Walt passou boa parte de sua infância. Ele costumava dizer que os melhores anos de sua vida foram nessa pequena cidade. A rotina de vida pacata é mostrada com extrema sensibilidade nesse filme visto pelo ponto de vista de uma cachorrinha, a Lili, uma bela cocker spaniel tratada muito bem por seus donos. A cena da chegada de Lili num caixinha e a tentativa dela de dormir no mesmo quarto dos seus donos é um dos momentos de maior ternura que eu já vi. A jovem cachorrinha irá ainda ter sua rotina mudada com a chegada do bebê do casal, da sogra e de seus dois gatos e, principalmente, com o aparecimento de um viralata por quem ela se apaixona. A cena mais clássica do filme é a dos dois cães comendo espaguete ao som da canção "Bella Notte", momento dos mais belos e românticos da história do cinema. Os personagens de Joca e Fiel, os cães amigos de Lili são também bastante carismáticos.

Impressionante como A DAMA E O VAGABUNDO ainda consegue agradar (e muito) nos dias de hoje, tão carregados de cinismo e violência. Nesse sentido, A DAMA E O VAGABUNDO está em situação de vantagem em relação a filmes de contos de fadas como CINDERELA, A BELA ADORMECIDA ou BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES, embora esses estejam no imaginário popular de maneira mais profunda. O filme foi um dos primeiros clássicos a trazer uma estória nova e não adaptada de clássicos da literatura universal.

Procurando por Walt Disney na internet li sobre uma lenda urbana que dizia que ele havia sido congelado numa câmera criogênica para que no futuro, com os avanços da medicina e da tecnologia, ele pudesse ser reavivado. Mas a verdade é que ele faleceu em 1966 e seu corpo foi cremado.

O DVD de A DAMA E O VAGABUNDO vem com um excelente documentário de mais de quarenta minutos sobre a realização do filme. Vale a pena conferir.

Grandes Clássicos Disney:
BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)
PINÓQUIO (1940)
FANTASIA (1940)
DUMBO (1941)
BAMBI (1942)
ALÔ AMIGOS (1942)
VOCÊ JÁ FOI À BAHIA? (1945)
COMO É BOM SE DIVERTIR (1947)
AS AVENTURAS DE ICHABOD E SR. SAPO (1949)
CINDERELLA (1950)
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1951)
PETER PAN (1953)
A DAMA E O VAGABUNDO (1955)
A BELA ADORMECIDA (1959)
A ESPADA ERA A LEI (1963)
MOWGLI - O MENINO LOBO (1967)

quarta-feira, junho 07, 2006

ALIAS: CODINOME PERIGO - SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Alias - The Complete Second Season)



Na falta de LOST, eu acabo pegando uns episódios de ALIAS para ver. Devargarinho consegui terminar de ver a segunda temporada (2002/2003) em DVD. Até estava cogitando parar por aqui e não ver mais nenhum episódio, já que dizem que a série cai bastante a partir do terceiro ano, mas depois do gancho do final dessa temporada eu não sei se vou conseguir me segurar.

O que me incomodava na primeira temporada era justamente a repetição. Não via muita graça naquelas missões que todo mundo sabia que ia ser fichinha para a heroína. Mas a série conseguiu usar a repetição a seu favor, quando resolve na primeira metade da segunda temporada jogar quase tudo para cima com o fim da SD-6, a companhia de espionagem que Sydney Briston (Jennifer Garner) pretende destruir. No entanto, o grande vilão da série, Arvin Sloane (Ron Rifkin) continua trabalhando por fora. E o tal mistério envolvendo Rambaldi continua sendo alimentado, ainda que só de vez em quando. Outra atitude corajosa dessa temporada foi finalmente botar os dois agentes - Sydney e Michael Vaughn (Michael Vartan) - para namorar e acabar logo com aquela síndrome de ARQUIVO X.

Sobre Jennifer Garner, ela é o tipo de garota que não combina no papel de mulher fatal. Ela acaba ficando ridícula quando põe uma peruca de outra cor e anda de maneira vulgar. Acho isso um dos pontos fracos da série. Tenho certeza que outra atriz desempenharia até melhor essa função. Mas por outro lado, é inegável a simpatia que Jennifer passa quando está em trajes mais comuns, além da extrema competência nas cenas de luta. Um dos personagens que eu mais gosto da série é Will Tippin (Bradley Cooper), que faz o amigo da Sydney que descobre que ela é na verdade uma agente supertreinada da CIA. Tanto que chego a ficar triste quando ele leva uma facada e corre o risco de morrer no final da temporada. A idéia do clone foi uma boa sacada. Uma das marcas dessa segunda temporada é a participação ativa de Lena Olin, no papel da suspeitíssima Irina Derevko, mãe de Sydney e provável traidora dos Estados Unidos. Aliás, posso até desagradar os fãs de Sydney, mas acho Lena Olin mais sexy que Jennifer Garner. Talvez porque, pra mim, Lena vai ser sempre a Sabina de A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER.

Impressionante como o final do último episódio se parece com KILL BILL - VOL. 1. Suspeito que Quentin Tarantino, como fã da série, tenha se inspirado na luta de Sydney e Francie (Merrin Dungey) para fazer a luta de Uma Thurman com Vivica A. Fox. Claro que Tarantino teve resultados muito melhores, mas comparar os dois também é covardia. Até porque um seriado de tv tem prazos para cumprir e menos dinheiro envolvido. Mesmo assim, dá para se dizer que J.J.Abrams é um ótimo diretor. Engraçado que só agora que eu notei o quanto ALIAS bebeu na fonte de MISSÃO IMPOSSÍVEL, sejam os longas ou a série original. Por isso, nada mais justo que J.J. tenha sido escolhido para dirigir o terceiro filme da franquia.

Agora, com relação ao gancho do final da temporada: que coisa, hein. Foi a primeira vez que eu me senti realmente instigado com a série, coisa que só tinha acontecido com LOST. J.J. fala no making of que vem no disco 6 da caixa que sua série favorita é ALÉM DA IMAGINAÇÃO. E achei muito legal ele colocar esse clima de mistério dentro de uma série de espionagem, que lida mais com o raciocínio lógico e com a adrenalina.

segunda-feira, junho 05, 2006

A GRANDE TESTEMUNHA (Au Hasard Balthazar)



Quem acompanha o blog já percebeu que os cineastas cujos filmes eu mais tenho falado recentemente são Jean-Luc Godard, Carl T. Dreyer e Robert Bresson. Dos três, o meu favorito por enquanto é Bresson, e acho uma pena ser ele, dos três, o que tem a filmografia menor - apenas treze longas. Algumas das premissas de seus filmes são por si mesmas interessantes. É o caso de A GRANDE TESTEMUNHA (1966), visto pelo ponto de vista de um jumento.

Bresson tem uma simpatia por mártires, como pode-se notar em filmes como DIÁRIO DE UM PADRE (1950) e O PROCESSO DE JOANA D'ARC (1962). O mártir dessa vez é um jumento, animal que carrega consigo uma história de participação no nascimento de Jesus e é também um símbolo de humildade e resistência, valores da era de peixes, da era cristã. Valores esses que estão sendo substituídos por outros nos dias de hoje.

Tive dificuldades de assimilar as intenções do diretor e de alguns personagens do filme. Há um tom geral de pessimismo em relação à raça humana. O único puro do filme é o Balthazar, o pobre jumento que passa por vários donos, a começar pela jovem Marie, que demonstra em algumas cenas amar o jumento mais do que a todos a seu redor. Depois que ela passa por um processo de sofrimento e sadomasoquismo nas mãos do malvado Gérard, a moça começa a se distanciar mais do animal. Gérard chega a tocar fogo no rabo de Balthazar para que ele saia do lugar.

O filme se passa ao longo de muitos anos, cobrindo do nascimento à morte de Balthazar. Aliás, não sei quantos anos dura em média um jumento. Na verdade, nem mesmo sei se Balthazar é um jumento. Qual a diferença entre burro, mula e jumento? Excetuando a cena do circo, soube que o animal não chegou a ser realmente treinado para o filme.

A GRANDE TESTEMUNHA é um filme que deve ser visto mais de uma vez para ser melhor assimilado. Os saltos no tempo, a mudança na vida dos personagens e a aparição de novos me deixou um pouco perdido. Se em UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (1956) ouvimos Mozart, em A GRANDE TESTEMUNHA na trilha sonora se tem Schubert.

Próximo Bresson da fila: MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA (1967)

domingo, junho 04, 2006

TODO MUNDO EM PÂNICO 4 (Scary Movie 4)



Uma das piores coisas em se assistir a uma comédia ruim é que você fica com a impressão de que está de mau humor. Mas aí é que está: uma comédia realmente boa é capaz de tirar o mau humor do pior dos ranzinzas. Por mais que eu goste do trabalho do trio ZAZ nos anos 80, não aprovei a entrada de David Zucker na série TODO MUNDO EM PÂNICO na terceira edição da franquia (2003). Uma das maiores qualidades (ou defeitos, se preferir) dos dois primeiros filmes era a ênfase na escatologia e nas piadas de mau gosto. Isso se perdeu um pouco no terceiro filme, mas é recuperado em TODO MUNDO EM PÂNICO 4 (2006). Ainda que a direção continue sendo de David Zucker, não faltam nesse novo filme cenas de flatulências, melecas no nariz e babas escorrendo.

Os "homenageados" da vez são A VILA, GUERRA DOS MUNDOS, O GRITO e JOGOS MORTAIS. Mas há também brincadeiras em cima de MENINA DE OURO e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. Aliás, uma das melhores piadas do filme é a dos dois negões dentro da barraca. O filme também não perde a chance de curtir com a cara de Tom Cruise, fazendo uma sátira da histórica participação dele no programa da Oprah Winfrey. "Michael Jackson", como fez sucesso no terceiro filme, reaparece nesse quarto.

Anna Faris continua sendo a musa da franquia. Não dá pra perder uma pessoa como ela, que não tem medo de parecer ridícula nem de ficar estigmatizada no papel de loura burra. A gostosíssima Carmen Electra reaparece satirizando a cega de A VILA. E, como não poderia deixar de ser, ela não precisou ficar o tempo todo com aquelas roupas do século XVI. Dois atores fundamentais para a historia da comédia besteirol dos anos 80 aparecem em participações especiais: Charlie Sheen, que surge num dos melhores momentos do filme - na piada do Viagra -, e o grande Leslie Nielsen no papel do Presidente da República que, enquanto o mundo está sendo atacado por alienígenas, ele faz questão de terminar de ouvir a historinha do pato numa escola para crianças. A última seqüência de gags com Nielsen também é boa. Lembra os bons tempos de CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ. Pode-se dizer que eles conseguiram melhorar nesse quarto filme. Só não dá para esperar uma grande comédia.

P.S.: Reparei que no ingresso do North Shopping - que agora está custando exorbitantes R$ 6,70 (meia!) - tem especificado: valor da entrada 6,53; direito autoral 0,17; valor do ingresso 6,70. Só assim pra eu ficar sabendo quanto de cada sessão vai para os autores.

P.P.S: Quem ainda não viu, não deixe de conferir o Tom Cruise recebendo uma pegadinha. No bom sentido, quero dizer.

sábado, junho 03, 2006

O MUNDO DE JACK & ROSE (The Ballad of Jack & Rose)























Os últimos dias não têm sido fáceis. Ando meio nervoso e com dificuldade de controlar a ansiedade. Ontem quase não agüentei a pressão lá no trabalho. Hoje, tirando o curso de espanhol pela manhã e a ida à locadora e à comic shop, passei o resto do dia trancafiado em casa. A fim de acalmar o aperto no peito, uma injeção de rock and roll (The Doors, Smashing Pumpkins, U2, Nirvana) com o volume alto trouxe certo alívio. Não tive coragem, ânimo ou disposição de ir ao Cine Ceará. Além de não ter me animado nada com esse novo formato - ibero-americano -, o festival não deixa de ser um evento social. E imagina só: eu, ansioso do jeito que estou, me sentar para ver documentário peruano ou equatoriano! E eu fico com medo de não me sentir bem estando sozinho num evento social, em que é de praxe contar com o atraso na exibição dos filmes. Dói mais sentir-se solitário no meio da multidão. Acho que estou passando pelo chamado inferno astral, período que antecede o mês do meu aniversário. Enquanto isso, vou me agüentando por aqui. A leitura de "A Semente de Mostarda" tem ajudado.

Entre os filmes que aluguei está O MUNDO DE JACK & ROSE (2005), belo trabalho de Rebecca Miller, filha do dramaturgo Arthur Miller e um dos principais nomes do cinema independente americano na atualidade. Esse é o seu terceiro filme na direção. Os primeiros - ÂNGELA - NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO (1995) e O TEMPO DE CADA UM (2002) - vi em vídeo e no cinema, respectivamente. A diretora está mostrando uma evolução a cada trabalho. Os belos travellings introdutórios ao som de "I put a spell on you" não me deixam mentir. A canção aparece tanto na versão do Creedence Clearwater Revival quanto na de Nina Simone. Nesse terceiro longa, Miller conta ainda com a excepcional interpretação de Daniel Day Lewis, com a beleza jovem e inocente de Camilla Belle (que está ainda mais bela em QUANDO UM ESTRANHO CHAMA) e o talento de Catherine Keener.

Na trama, pai (Day Lewis) e filha (Camilla), isolados numa ilha que nos anos 60 fora uma comuna, têm a sua rotina mudada quando uma mulher (Keener) e seus dois filhos são convidados a viver juntos na mesma casa. Day Lewis faz um homem com problemas no coração e que sabe que não vai ter muito tempo de vida. A filha ama tanto o pai que costuma dizer que no dia em que o pai morrer, ela morrerá junto. Há uma sexualidade reprimida na relação entre pai e filha.

Acho interessante essa idéia de comuna. Talvez por influência dos livros do Osho. Embora muitas tentativas de se criarem comunas tenham ido por água abaixo, creio que a idéia não deveria ser posta de lado, apesar de todas as dificuldades e embargos impostos pela sociedade capitalista e pelos governantes.

Quanto ao filme - e resumindo - apesar das qualidades, ainda falta um pouco para que a diretora apresente um filme de fato excelente. Pena que o DVD está em tela cheia. Ao menos a qualidade da imagem está boa, fazendo jus a belíssima fotografia. Outro problema do DVD (da Imagem Filmes) é que a gente é obrigado a assistir os trailers para só então podermos acessar o menu.

sexta-feira, junho 02, 2006

ENSINA-ME A VIVER (Harold and Maude)



Meu interesse por esse filme se deve mais à sua importância dentro da década de 70 do que propriamente a uma atração pelo tema ou pela obra do diretor Hal Ashby. Aliás, Ashby, assim como Bob Rafelson, pertencem àquela categoria de cineastas que me dão sono, tirando uma ou outra exceção. Não vi AMARGO REGRESSO (1978), mas achei A ÚLTIMA MISSÃO (1973) e MUITO ALÉM DO JARDIM (1979) um pouco chatos. Além de não me dizerem nada. Vale mais pela boa performance de seus astros.

ENSINA-ME VIVER (1971) foi um dos títulos destacados no documentário A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA do qual eu falei recentemente aqui no blog. Se eu não achei o filme nenhuma obra-prima, não há dúvidas de que se trata de um autêntico produto da década. A filosofia hippie, a valorização da natureza, a atitude rebelde, isso é muito a cara dos anos 70.

Na trama, jovem rapaz - cuja principal diversão é ir a funerais e simular suicídios para assustar a própria mãe - conhece uma senhora alegre de oitenta anos que lhe mostra uma nova forma de encarar a vida. A história dos dois é contada ao som de muito Cat Stevens, autor da trilha sonora. Aliás, está aí uma outra característica que define o filme como produto setentista. Não chega a causar o mesmo prazer que foi ouvir Leonard Cohen em QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS, de Robert Altman, mas as canções acústicas de Stevens, sem dúvida, tornam o filme mais charmoso.

Gravado da Band.

P.S.: Engraçado esse cartaz da direita que quer vender o filme como uma comédia rasgada. Propaganda enganosa para arrebanhar outro tipo de público.

quinta-feira, junho 01, 2006

O JOELHO DE CLAIRE (Le Genou de Claire)



Não tinha contato com os filmes de Eric Rohmer desde 2004, quando tive o prazer de assistir no cinema a cinco filmes do diretor: os quatro "Contos das Estações" e A INGLESA E O DUQUE (2001). Por causa dessa maravilhosa experiência anterior na sala escura, acreditava que seus filmes perderiam muito se vistos em vídeo. E, de fato, perdem, mas nem tanto. Mesmo assim, fico imaginando como deve ser bom poder ver no cinema a cena-chave de O JOELHO DE CLAIRE (1970) - a tempestade, a tensão, as lágrimas, o joelho.

O JOELHO DE CLAIRE se assemelha um pouco com LIGAÇÕES PERIGOSAS em suas diversas versões. Como no romance de Laclos, os personagens de Jean-Claude Brialy (de UMA MULHER É UMA MULHER, de Godard) e Aurora Cornu são amigos que se divertem brincando com a vida e com os sentimentos dos mais jovens. Aurora propõe ao amigo que se envolva com a adolescente mais nova, Laura, para depois lhe contar o que rolou, a fim de que isso sirva como material para o seu romance - ela é escritora. A principal diferença entre os personagens rohmerianos e os maquiavélicos Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil é que os protagonistas do filme de Rohmer são mais humanos, menos autoconfiantes. O personagem de Brialy, inclusive, é tímido e nunca teve a sorte de desejar uma mulher e obter o seu objeto do desejo. Ele nunca teve a coragem de abordar uma mulher, sem ter certeza de que ela está interessada por ele. Por isso, acabei me identificando com ele, facilitando, assim, o meu envolvimento com o filme. O fato de Claire, a adolescente do título, ser bonita e ter belas pernas também ajuda ao espectador - principalmente se ele for homem - a se envolver e a se colocar um pouco no lugar do protagonista.

A estrutura de O JOELHO DE CLAIRE é bem peculiar, como se fosse dividido em capítulos bem curtos, sendo que cada capítulo é um dia das férias de Brialy. Como em CONTO DE OUTONO (1998), o gosto pela natureza é acentuado nas cenas em que os personagens colhem frutas e as saboreiam. Poucos filmes passam um prazer de viver tão grande quanto as obras de Rohmer. Uma coisa que me passou pela cabeça como uma possível falha do filme talvez esteja no fato de a personagem Laura, a adolescente mais nova, aparentar ser muito madura para sua idade. Mas como sei que as mulheres amadurecem de maneira precoce, melhor não subestimá-las. Talvez o que tenha me incomodado um pouco seja o fato de os personagens serem muito conscientes de suas falhas e desejos. Laura, por exemplo, diz que acredita que o seu interesse por homens mais velhos se deve ao fato de ela ter uma carência paterna. Mas esse "problema" é o de menos, e eu adoro esses filmes que trabalham com a psicologia dos personagens, vide os maravilhosos ANTES DO AMANHECER e ANTES DO PÔR-DO-SOL, do melhor dos herdeiros de Rohmer, Richard Linklater.

O JOELHO DE CLAIRE é o quinto filme da série de seis "Contos Morais". Os filmes dessa série mostram pessoas passando por crises morais e sofrendo as tentações da infidelidade. Os outros filmes da série são A PADEIRA DO BAIRRO (1962), A CARREIRA DE SUZANNE (1963), A COLECIONADORA (1967), MINHA NOITE COM ELA (1969) e AMOR À TARDE (1972). Espero ainda viver bastante para conferir essas pérolas.

Agradecimentos ao amigão Renato Doho, que fez a gentileza de me gravar esse filme, quando da exibição no canal TV5.