sexta-feira, agosto 12, 2016

REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (Rebecca)



Poder rever REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL (1940) no cinema é uma oportunidade imperdível. Como, aliás, seria a de ver qualquer dos filmes de Alfred Hitchcock. Podemos até dizer que a estreia do já celebrado cineasta inglês em Hollywood ainda não seria um trabalho que superaria algumas de suas produções feitas em seu país natal, como CHANTAGEM E CONFISSÃO (1929), O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1934) e OS 39 DEGRAUS (1935), para citar apenas três obras.

No entanto, REBECCA tem um brilho todo próprio, e apesar de ser em parte uma obra do produtor David O. Selznick, e de ter algumas fragilidades, especialmente na parte final, a marca de Hitchcock está lá, inclusive, lembrando uma obra de sua fase madura, UM CORPO QUE CAI (1958), na cena da heroína se apresentando vestida como a falecida. Sem querer, o mestre do suspense faria algo semelhante, trazendo alguém de volta à vida através do fetiche de uma vestimenta, 18 anos depois.

A primeira parte de REBECCA é bem interessante, e, por ter um pouco mais de humor, lembra mais um típico Hitchcock. Nessa primeira parte, a heroína (Joan Fontaine) está trabalhando como dama de companhia de uma mulher chata e arrogante em um hotel de luxo em Monte Carlo e lá conhece um milionário (Laurence Olivier) que vive atormentado com as lembranças de sua falecida esposa, uma mulher que nunca aparece no filme, a Rebecca do título.

Se por um lado ela não aparece, por outro, sua presença está em todo o lugar na mansão em Manderley, como um fantasma que atormenta a todos, consome a todos. A nova Mrs. de Winter, que nem primeiro nome tem, de tão destituída de autoconfiança que é apresentada, em contraponto com a presença onipresente da mulher confiante e descrita como uma das criaturas mais belas do mundo, e que parecia estar ainda mais forte agora que estava morta. Inclusive, tal descrição é mostrada com o recurso de um travelling para trás, fazendo com que a protagonista se torne ainda menor.

A culpa, um elemento-chave em toda a obra hitchcockiana, aparece em especial na parte final, quando se descortina o mistério em torno da morte da personagem-título, e o envolvimento ou não do marido com o ocorrido. Embora Hitchcock tenha deixado claro em entrevista a François Truffaut que Maxim, o personagem de Olivier, não sentia culpa pela morte da esposa, havia sim algo que ele havia feito que era um segredo, e, portanto, passível de ser levantado como um crime. Não deixa de ser um peso em sua consciência, de certa forma, que diminui com a cena do médico de Rebecca.

Não dá para falar de REBECCA sem mencionar a governanta, Mrs. Danvers (Judith Anderson), uma mulher que impõe medo à frágil heroína, que trata de esconder um vaso quebrado por acidente, com medo de ser descoberta, em determinada cena. Em uma das cenas-chave, Hitchcock destaca bem o semblante impassível da governanta e a expressão de horror de Mrs. de Winter.

REBECCA é uma obra de transição para Hitchcock. Não apenas por ser a primeira produção americana. Mas por ser o início também de uma briga entre diretor e produtor que duraria ainda alguns anos. O cineasta nem considera REBECCA como um filme seu, mas do produtor, que até ganhou o prêmio da Academia pelo filme, depois do sucesso retumbante de ...E O VENTO LEVOU no ano anterior.

Aos poucos, o mestre do suspense se imporia e chegaria ao seu auge na década seguinte, mas é muito interessante ver esta evolução acontecendo em uma obra em que o diretor não teve toda a liberdade que gostaria, por causa de tantas imposições de Selznick, mas que conseguiu deixar sua marca e fazer de um conto de fadas estilo Cinderella um conto gótico romântico que, mesmo passados tantos anos de sua produção, consegue se manter sólido e vibrante.

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