domingo, outubro 16, 2016

PROMISCUIDADE – OS PIVETES DE KÁTIA



Há filmes que nos passam a sensação de estarmos vendo algo muito proibido. E há filmes que são proibidos mesmo. Ou que se tornaram proibidos com o passar dos tempos. É o caso de PROMISCUIDADE – OS PIVETES DE KÁTIA (1984), de Fauzi Mansur. Ou quase isso. Como na época de sua realização não havia ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente e o país estava em polvorosa, com a democracia prestes a se formar, com uma liberdade de expressão crescente, era até natural que um filme que contivesse cenas de uma mulher fazendo sexo com vários pré-adolescentes existisse, por mais absurdo que possa parecer nos dias de hoje. Lembrando que àquela altura Walter Hugo Khouri já havia feito o controverso AMOR, ESTRANHO AMOR, que hoje é proibido de ser exibido comercialmente no país.

O diferencial é que a versão original de OS PIVETES DE KÁTIA, a que foi aos cinemas, continha cenas de sexo explícito, embora hoje, com a versão editada sem as tais cenas, que foi liberada e está sendo exibida no Canal Brasil já faz alguns anos, não saibamos direito até que ponto o grafismo envolvendo os meninos estava presente. Mas o fato é que a versão editada é tão cheia de cortes bruscos nas cenas de sexo, seja explícito ou não, que o filme ganha um aspecto de objeto proibido só por causa disso.

É possível inferir o que acontece após cada "elipse", mas percebe-se que o filme perde muito de sua força com essa edição forçada, mesmo nas cenas envolvendo adultos, que se constitui a maioria, vale dizer. Logo, por mais que seja feio dizer isso, não deixa de ser frustrante ver esta edição, quando Mansur poderia ao menos ter optado por um filme softcore tão bom quanto vários realizados na primeira metade dos anos 1980.

OS PIVETES DE KÁTIA conta com uma história bem absurda, envolvendo uma família que deseja matar um homem. O filme já começa com uma tentativa dessa família de dar cabo do marido de Kátia (Kristina Keller), vivido por Enio Gonçalves. O homem, de nome Mauro, porém, sobrevive ao "acidente", mas fica impotente e se entrega ao álcool, por isso. Impaciente com o marido, que virou um bêbado chato, a mulher procura garotinhos para iniciá-los sexualmente e, assim, fugir do tédio. Enquanto isso, a família continua procurando maneiras de matar Mauro a todo custo.

A trama do filme parece ser desprovida de lógica, ou pelo menos de alguma lógica razoável, mas uma vez que esqueçamos desse detalhe, é possível valorizar o que há de melhor, ou seja, o modo como Mansur pinta essa família disfuncional, toda reunida em uma casa próxima a um lago. Todos os irmãos e irmãs de Kátia têm relações sexuais às escondidas com outras pessoas da família. Há até cenas de lesbianismo, que, muito provavelmente, serviram para, na versão integral exibida nos cinemas, alegrar o público heterossexual ávido por erotismo.

O que incomoda é quando a trama se encaminha para um suspense, com o encaminhamento do assassinato de Mauro, que vai descambar em uma sequência tenebrosa em um trem. O que há de grotesco e até de cansativo nessa sequência não está no gibi. Mas ao menos é algo que só confirma o aspecto singular deste trabalho que é um objeto estranho em nossa filmografia. E olha que a história do nosso cinema, principalmente o produzido na Boca do Lixo, é cheia de causos incríveis. Nesse e em outros sentidos, OS PIVETES DE KÁTIA é sim um filme incrível. Principalmente no sentido de ter sido pensado e realizado.

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