quinta-feira, outubro 20, 2016

DEMÔNIO DE NEON (The Neon Demon)



Um cineasta que se caracteriza por ser arrogante e bastante pretensioso acaba despertando um pouco a antipatia de algumas pessoas. Principalmente quando o que ele tem para oferecer é uma arte um tanto superficial no conteúdo, ainda que com um apelo forte no estilo, na imagem. DEMÔNIO DE NEON (2016) só acentua ainda mais a impressão que se tinha em DRIVE (2011) ou até mesmo em filmes da fase dinamarquesa de Nicolas Winding Refn, como O GUERREIRO SILENCIOSO (2009).

Assim, o que é valorizado por uns em seu cinema pode muito bem ser visto como algo negativo por outros. No caso de DEMÔNIO DE NEON, o cineasta não deixa de fazer um filme intrigante e com algum mistério, embora boa parte da tensão fique diluída em sua busca pelo estilo, pela beleza plástica. De certa forma, isso não chega a ser ruim para o filme, que fala justamente da beleza exterior, de pessoas e coisas superficiais mesmo.

Uma coisa que pode incomodar é a semelhança, pelo menos no início, com CIDADE DOS SONHOS, a obra-prima máxima de David Lynch, já que ambos os filmes mostram protagonistas em estado de deslumbramento ao chegar a Los Angeles. Mas, enquanto uma obra é cheia de excitação, encantamento, sexo, violência, lágrimas e dor, Refn opta (ou talvez não consiga nunca trazer este turbilhão de emoções mesmo) por um namoro contínuo com a imagem. Uma imagem próxima de um comercial de bebidas, é bom destacar.

A vantagem aqui é que esse deslumbramento que a personagem de Elle Fanning tem ao chegar na cidade para fazer sessões de fotos e se tornar, possivelmente, uma das grandes modelos de fotografia de moda do mundo também se manifesta do lado de cá da tela. Ou seja, também ficamos encantados com sua beleza. Nesse sentido, a jovem atriz foi uma escolha perfeita, já que mesmo em filmes em que ela aparece em ainda mais tenra idade, como UM LUGAR QUALQUER e SUPER 8, ela já antecipa o que seria mais explorado no futuro.

Como filme de horror, DEMÔNIO DE NEON é bem atípico. O diretor não tem interesse em abraçar os clichês do gênero, o que poderia ser visto como algo positivo, já que não apela para sustos fáceis. Por outro lado, as cenas que deveriam ser chocantes acabam não causando nenhuma reação ao espectador. Ou seja, aos poucos também somos contaminados pelo jeito blasé do filme, de seu diretor esteticista e de suas personagens. E uma vez que não nos importamos com a protagonista, importa muito pouco o que acontece com ela no final, a não ser para ajudar a compor um retrato ainda mais fútil daquele mundo. Além, claro, de trazer ainda mais beleza mórbida para a tela. Dependendo das intenções do diretor, o filme tanto pode ser encarado como um êxito ou como um fracasso. Confesso que ainda não me decidi.

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