domingo, junho 07, 2026

MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe)

 
Na minha adolescência, eu tinha por hábito ver o desenho do He-Man todas as manhãs. Mas era aquele tipo de programa que eu via e achava ruim, tosco, e nem me perguntava por que via mesmo assim. Era excessivamente maniqueísta. Os bons eram muito bons e sem imperfeições; os maus eram feios (o vilão tinha o rosto de esqueleto), seus comparsas eram monstruosos e havia uma vilã chamada Maligna. Acho que nunca entendi direito a mitologia. É como se a criação de uma mitologia não fosse uma intenção, como se aquelas aventuras toscas tivessem só a intenção de vender mais os bonecos da Mattel. Acho que nem cheguei a ver o primeiro live-action para o cinema, o MESTRES DO UNIVERSO de 1987, estrelado por Dolph Lundgren. Então, via a produção deste novo filme como um grande desafio por parte dos produtores, do realizador, dos roteiristas, que aqui são vários.

O espectador de hoje é um pouco mais exigente com desenvolvimento de roteiro e de personagens e nesse sentido acredito que foi um acerto e tanto transformar este novo MESTRES DO UNIVERSO (2026), dirigido por Travis Knight, numa espécie de aventura com muito humor, um pouco ao estilo dos filmes do MCU, mas com uma diferença: com a compreensão do ridículo da produção original, a primeira leva das animações, de 1983-85. E, nesse sentido, tirar onda da risada maquiavélica do Skeletor (não era Esqueleto mesmo o nome do vilão?) e de fazer troça de uma possível origem do mal do personagem, foi outro ponto positivo. Inclusive, quem faz a divertida voz (e interpretação) do vilão é Jared Leto. Ficou muito bom, assim como a movimentação do rosto do vilão.

Outro ponto positivo: o ator que faz o Príncipe Adam, Nicholas Galitzine, foi uma ótima escalação, conseguindo fazer essa expressão de bobão em praticamente toda a narrativa, o que serve tanto como motor para a comédia quanto como uma aproximação com o espectador, que se identifica mais com alguém desengonçado do que com um suposto “homem mais poderoso do universo”. A cena da tentativa dele de beijar Teela (Camila Mendes, série RIVERDALE) é bem divertida. Aliás, Mendes é a atriz que mais se impõe como uma heroína de fato desde sua primeira aparição, lutando contra um monstro e resgatando Adam do planeta Terra.

Na trama, Skeletor domina o reino de Eternia, aprisionando o rei e a rainha. O menino Adam, porém, consegue escapar com a espada do poder, graças a um encanto da Feiticeira (Morena Baccarin), que lança o menino na Terra, e ele fica por lá durante 15 anos, até a idade adulta. Nesse período, ele é visto por amigos e colegas de trabalho como um louco alucinado, que inventa histórias sobre um planeta distante, um vilão com cara de esqueleto e uma espada mágica desaparecida e alvo de obsessão de sua parte. A espada aparecer numa loja de brinquedos, aliás, e se parecer com um brinquedo, é outro acerto do filme.

O que surpreende em MESTRES DO UNIVERSO é a relativa violência da ação. Muito maior do que eu esperava. E se He-Man na animação original não matava nem féria ninguém, aqui ele acaba por fazer isso. O que eu achei bem-vindo. Assim como é bem-vinda a trilha sonora rock retrô oitentista. Muito melhor do que uma trilha orquestrada e sonolenta, além de muito coerente com o espírito dos anos 1980, o período de lançamento e popularidade da série de TV. Popular principalmente no Brasil: nos Estados Unidos o filme está fracassando nas bilheterias, enquanto aqui está sendo um sucesso, com o público vibrando durante a sessão, e aplaudindo ao final.

+ TRÊS FILMES 

DEVORADORES DE ESTRELAS (Project Hail Mary)

Eu já estava bem cismado com todo o hype que este DEVORADORES DE ESTRELAS (2026) vem recebendo por parte de alguns críticos e influenciadores. Também fiquei muito surpreso com as sessões lotadas na sala IMAX, e de certa forma me deu uma pontinha de alegria em ver mais gente contrariando a lógica do dono da Netflix. Além do mais, fiquei pensando se os diretores de TÁ CHOVENDO HAMBÚRGUER (2009) e UMA AVENTURA LEGO (2014) dariam conta de criar um drama de ficção científica épico aos moldes de INTERESTELAR, de Nolan. Infelizmente meus temores se confirmaram, ao menos para mim, já que todos os momentos de interação entre Grace e Rocky me pareceram sem força dramática, embora tenham, sim, seus momentos de graça, de diversão. Mas é um tipo de diversão mais “fofa”, com uma intenção de pegar o público mais juvenil, mesmo com a parte “científica” da história não sendo tão simples assim. Além do mais, me irritava aquela trilha sonora insistentemente “épica”, como se quisesse nos fazer crer que aquele filme era mais do que aparentava ser. De todo modo, o resultado positivo deve muito ao carisma de Ryan Gosling, que passa boa parte do tempo sozinho – nos flashbacks, destaque para a presença sempre boa de Sandra Hüller. Há também que se dar o devido crédito à apresentação de um herói sem tanto heroísmo assim, mas não creio que seja algo inédito.

PÂNICO 7 (Scream 7)

Mesmo sendo de longe o pior filme da franquia, é possível se divertir com este PÂNICO 7 (2026), que conta com o retorno de Neve Campbell como Sidney, depois da ausência sentida no filme anterior (2023). Percebe-se que Pânico, uma das poucas franquias de terror a manter uma boa regularidade, finalmente chega a esse momento de clara decadência e busca tirar leite de pedra com o que sobrou dos personagens originais e da nostalgia que ainda parece ser a aposta para a manutenção. Bem que a dupla Bettinelli-Olpin e Gillett tentou passar o bastão para uma nova geração, mas situações nos bastidores deste novo filme fizeram com que tudo mudasse. Primeiro, a dupla de diretores pulou fora, depois houve a polêmica de Melissa Barrera apoiar a causa palestina nas redes sociais, o que ocasionou sua demissão pela produtora Spyglass. Em solidariedade a Barrera, Jenna Ortega também pediu demissão. O novo diretor contratado, Christopher Landon, acabou saindo também, com tanta confusão envolvida. O resultado, com o roteirista Kevin Williamson assumindo a direção, é um filme frio, desinteressante, pobre no enredo e na forma, além de nos deixar sem o menor interesse de torcer pelos personagens. Até tem algumas cenas mais gráficas do ataque do vilão (ou vilões), mas nada que provoque horror. Aliás, o filme até ganha mais interesse quando parece uma novelona, com pouco espaço para o humor, chave para a graça da franquia. Do elenco, gostei de Anna Camp, a coadjuvante que rouba a cena. Quanto a Isabel May, que faz a filha da Sidney, lhe falta o carisma que Melissa Barrera tinha. E agora?

WICKED – PARTE II (Wicked – For Good)

Ainda continuo achando um saco, pelo menos na maior parte das vezes, as cenas musicais do filme, embora goste do último dueto entre Ariana Grande e Cynthia Erivo. Na verdade, estava curioso mesmo era para saber o desfecho com relação à amizade e posterior fim da amizade entre as heroínas. Pois, no fim das contas, Wicked é sobre isso: amizade, mais exatamente amizade feminina, muito mais do que uma história de bruxas ou um prequel de O MÁGICO DE OZ. Falando no filme de 1939, é nesta sequência que a trama do clássico invade a trama de WICKED II, e gosto muito de como isso é desenvolvido. A última cena das duas amigas/inimigas conversando a partir da resolução de Elphaba é de fato emocionante e o recurso da tela dividida foi uma sacada muito boa do realizador. Serve tanto para tornar uma delas mais protegida enquanto a outra está (bem) mais exposta. Wicked é uma bela história sobre sacrifícios, dor e crescimento emocional. Poderia até ter gostado mais, mas acredito que o gênero e a falta de boas canções me afastam um pouco. Ariana Grande passa muito bem a angústia e a complexidade de seu papel.