sexta-feira, dezembro 19, 2014

SHOWGIRLS



Ultimamente tem me dado uma nostalgia, uma vontade de rever filmes que vi no cinema em fins dos anos 1980 e durante a década de 1990. SHOWGIRLS (1995) era um desses filmes a que eu ansiava tanto rever, até para ver se continuava gostando dele quanto eu gostei na época. E por ser uma obra que é tão malhada quanto cultuada, tanto visto quanto lixo quanto como luxo. E esse paradoxo está presente no próprio tom do filme, que ora parece genial, ora parece vagabundo.

É como se Paul Verhoeven, o nosso querido holandês maluco, quisesse brincar com filmes como FLASHDANCE – EM RITMO DE EMBALO, que, não por acaso, também foi roteirizado por Joe Eszterhas, que estava em parceria com Verhoeven desde o sucesso de INSTINTO SELVAGEM (1992). Era um roteirista quente, tanto no sentido de que estava sendo valorizado pela indústria, quanto pelo fato de estar aproveitando a moda de thrillers eróticos para se dar bem na indústria. Porém, nessa brincadeira, SHOWGIRLS acabou sendo o filme que jogou uma pá de cal em sua carreira. Felizmente, não em Verhoeven, que ainda faria mais dois filmes em Hollywood, antes de ser queimado (por causa de O HOMEM SEM SOMBRA, 2000) e ficar em banho-maria em sua terra natal.

Verhoeven brinca com as noções de bom e de mau gosto em SHOWGIRLS, contando a história de Nomi Malone, uma jovem mulher (Elizabeth Berkley) que tenta a sorte como dançarina em Las Vegas. Depois de ser enganada por um cantor cover do Elvis, ela perde tudo o que tem, mas conhece uma moça que lhe garante um lugar para morar e muito apoio moral. Porém, para sobreviver, ela acaba aceitando o trabalho de stripper e dançarina de lap dance.

Elizabeth Berkley foi mais um achado de Verhoeven, que sempre soube escolher muito bem mulheres bonitas para seus filmes desde a fase holandesa. Berkley é impressionante: ganha o espectador desde o começo e quando nos é apresentada a cena de seu primeiro striptease, quase temos um treco. E eu achando que não ia sofrer mais esse tipo de coisa, passado tanto tempo que eu vi o filme. Outras sequências eróticas memoráveis: a lap dance com o personagem de Kyle MacLachlan, a cena da piscina e o ensaio com o personagem de Glenn Plummer. Verhoeven ainda brinca também com o modo sádico e erótico com que são tratadas as mulheres que dançam com os seios à mostra: eles precisam estar "acesos". Adorável o nível de taradice do diretor. E em plena careta Hollywood.

Curioso notar uma sequência de grande carga emocional, que é o momento em que Nomi entra pela primeira vez no palco para fazer parte de um espetáculo prestigiado. O ponto de vista dela do palco, antes de entrar, lembra, guardadas as devidas proporções, a chegada dos soldados no planeta assolado por assustadores insetos gigantes no sangrento TROPAS ESTELARES (1997). O medo da personagem ao se apresentar pela primeira vez em um espetáculo que lhe era um sonho profissional tinha algo de assustador. É como se pudéssemos sentir também o frio na barriga.

Alguns momentos são mesmo risíveis, como as cenas de ensaio à FLASHDANCE, mas faz parte da brincadeira. Além do mais, SHOWGIRLS pode ser visto como a luta por sobrevivência na própria Hollywood, embora nos seja mostrada Las Vegas. É que no mundo do entretenimento hollywoodiano, há sempre alguém tentando puxar o seu tapete. E isso é mostrado com intensidade logo que a personagem entra naquele grupo de dança e acaba sujando também as mãos, devido ao ódio que nutre pela personagem perversa de Gina Gershon.

Rever o filme e lembrar do primeira vez em que o vi no Cine São Luiz, além de me alegrar muito, trouxe uma pontinha de saudade dos catárticos anos 90. E desse tempo em que Hollywood gastou uma fortuna com uma produção deliciosamente de "mau gosto". :)

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