domingo, dezembro 07, 2014

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (sex, lies, and videotape)



Quase 25 anos depois de ver SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) no cinema, no saudoso Cine Center Um, de poltronas confortáveis, projeção linda e programação perfeita, bateu uma enorme vontade de revê-lo, até para ver se as sensações e os sentimentos que bateram forte em mim na primeira apreciação persistiriam. E o filme continua batendo forte sim nas emoções, embora já não seja tão excitante (no sentido erótico/físico mesmo) quanto foi quando eu era adolescente. O que é natural. Mas é excitante emocionalmente, principalmente nas conversas do personagem de James Spader e as duas mulheres, tão adoráveis quanto diferentes.

Embora Graham (Spader) seja o primeiro personagem a aparecer em cena, em seu carro, vestindo sempre uma camisa preta de manga longa e uma calça jeans azul (lembro que me identifiquei com ele por gostar de me trajar daquela forma também – aliás, até hoje gosto), a primeira cena pra valer é de Ann (Andie McDowell) conversando com o seu psicanalista. No pouco que ouvimos da conversa entre os dois, ela é muito retraída no que se refere ao sexo. Não acha grande coisa e diz que conseguiria viver sem. O marido, John (Peter Galagher), depois descobrimos, tem um caso com a fogosa irmã de Ann, Cynthia (Laura San Giacomo).

Embora o filme pinte John como um cafajeste – e, naturalmente, um mentiroso nato – não dá para resistir aos encantos de Cynthia, e de suas propostas tão excitantes, como transar no quarto da irmã, por exemplo. Mas esse caso extraconjugal e os problemas no casamento de Ann não são nada perto do que viria com a chegada de Graham, um sujeito com um pequeno problema: ele se diz impotente. Não consegue mais ter ereção perto de outra pessoa. Por isso filma depoimentos de mulheres sobre sexo (vida, desejos, memórias, fantasias etc.) para depois usar essas gravações para se masturbar.

Steven Soderbergh bem que poderia ter continuado a fazer filmes assim, intimistas, e ganhar um status mais forte de autor, como o diretor a quem ele homenageia, John Cassavetes. A falta de pressa na construção dos planos e dos diálogos lembra bastante o cinema do pai dos cineastas independentes americanos, embora já se perceba um minimalismo típico dos anos 1980. O que, de certa forma, ajuda bastante na fluidez do filme. Em nenhum momento os diálogos cansam. Ao contrário: o diretor até poderia estendê-los que seriam bem-vindos. Principalmente os momentos em que Ann e Cynthia se despem para a câmera de Graham. É fácil sentir o coração bater mais forte nesses momentos. Não apenas pelo fetiche de estar sendo filmado por um estranho, mas por envolver também outras emoções.

E no caso específico de Ann, então, a inversão de papéis chega a mexer demais com os sentimentos do espectador. Estamos diante de duas pessoas que têm sérios problemas de relacionamento e de se permitir doar para outras pessoas e que sabem que sentem atração um pelo outro. O filme deixa claro isso desde os primeiros momentos em que os dois conversam e Graham olha para ela com interesse e carinho. O final parece um tanto brusco e pouco realista, mas a ternura da cena final encanta gerações e gerações de apreciadores deste belo drama. SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE segue sendo o melhor filme de Steven Soderbergh até hoje.

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