sexta-feira, dezembro 25, 2009

CAFÉ LUMIÈRE (Kôhî Jikô)



Filmes como os de Hou Hsiao-hsien, que trazem uma estrutura bem mais incomum de direção de câmera, fazem com que a gente reflita mais sobre o papel da câmera, perceba mais certos detalhes que passam batidos no cinema mais ligado ao entretenimento. Não se tata de dizer que um é melhor do que o outro. Mas a verdade é que filmes que nos chamam a atenção para a reflexão sobre a própria natureza do cinema são muito mais interessantes para quem quer estudar a arte. Hitchcock falava da montagem como a essência do cinema e até subvalorizava um trabalho como FESTIM DIABÓLICO, por exemplo. Então, por que será que o plano-sequência ainda mexe com a gente? Talvez por captar mais a verdade do que uma cena toda recortada? Com certeza não é algo tão simples assim de responder.

Saindo um pouco do filme, mas continuando a divagação, dia desses assisti a um trecho da novela das oito, e vi uma cena na qual a personagem de Giovanna Antonelli conversava com a filha e a câmera não mostrava as duas de imediato. Mostrava suas vozes e a imagem da rua. Só depois de alguns segundos que vemos as duas chegando no carro. Esse tipo de coisa, eu nunca tinha visto antes em novela. Acho interessante. É como se a telenovela estivesse passando por um processo de sofisticação estética. O que normalmente vemos é o básico: plano geral, às vezes a paisagem do lugar, plano mostrando o ambiente e em seguida muitos closes, muito campo e contracampo. Será que essa mudança tem a ver com o tamanho dos aparelhos de tevê? É possível.

Voltando a Hou Hsiao-hsien, esse cineasta que até o nome eu tive de aprender a pronunciar procurando no Google, tive a primeira experiência com algo dele vendo um trecho de FLORES DE SHANGAI (1998), que o Ruy Gardnier, talvez o maior estudioso do cineasta no Brasil, passou num curso de crítica de cinema em 2008. CAFÉ LUMIÈRE (2003) é o primeiro trabalho que vejo do cineasta integralmente. Se normalmente o cinema produzido no Oriente ainda se constitui um enigma pra mim, imagina um filme como esse. Sem falar que eu nunca cheguei a ver um filme sequer de Yasujiro Ozu, o principal homenageado de CAFÉ LUMIÈRE. Naturalmente, o que absorvo é mais enigmático do que familiar.

Enigmático principalmente o momento em que um dos personagens mostra para a protagonista, na tela de seu laptop, a imagem de uma rede de trens e, no centro, algo parecido com um feto. A trama principal gira em torno do fato de a garota estar grávida de um namorado de Taiwan. Ela volta para o Japão e conta o fato para os seus pais adotivos. O pai fica impassível, sem saber o que fazer/dizer, enquanto a mãe exige dele uma posição. É semper mais difícil para o homem lidar com esse tipo de situação.

O grande barato de CAFÉ LUMIÈRE é mixar momentos corriqueiros da rotina, com gente conversando enquanto come em frente a uma câmera frequentemente imóvel e num lugar um tanto desconfortável para o espectador, com as paredes ou colunas do canto sempre à mostra. A soma desses momentos de rotina com outros ligados a algo próximo do sobrenatural, como os sonhos da protagonista e o modo como o cineasta os destaca, tornam o filme intrigante. Os movimentos leves e sutis de câmera também são pontos altos, bem como a movimentação dos personagens dentro e fora do nosso campo de visão.

Dia desses li um texto do início do século XX, de uma antologia organizada por Ismail Xavier, que falava da importância da chegada do cinema e de como os gestos - muito mais comuns no cinema mudo - trouxeram de volta a valorização da imagem. As civilizações, quanto mais sofisticadas fossem, menos gestos usavam, pois teriam no domínio das palavras toda a expressão de seus sentimentos e pensamentos. Talvez o povo oriental seja o que menos se utiliza de gestos ou de expressões faciais para mostrar suas emoções. Principalmente o povo japonês. Às vezes é um enigma tentar perceber o que eles estão pensando ou sentindo. Por exemplo, li num texto sobre o filme que dizia que a garota se apaixona pelo rapaz que grava os sons dos trens e eu, sinceramente, não percebi isso. Engraçado como ainda me sinto distanciado dos costumes orientais, de perceber suas sutilezas. Mas aos poucos eu vou me aproximando, acho eu.

Agradecimentos a Marcos Felipe, que há tempos me presenteou com uns filmes do cineasta e eu, de ingrato que sou, demorei esse tempo todo para ver um deles. Valeu, fella!

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