quarta-feira, julho 17, 2019

HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (Spider-Man - Far from Home)

Uma bela surpresa este HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (2019), segundo filme-solo do Aranha com o jovem e talentoso Tom Holland. Em sua primeira aparição, em CAPITÃO AMÉRICA - GUERRA CIVIL, pode não ter agradado a muitos, mas, ao que parece, neste novo filme, ele já conquistou a praticamente todo o seu público, causando admiração e maior aceitação. Não resta dúvida que incluir o herói adolescente é mais atraente para um público mais jovem, que pode se identificar bem mais com seus problemas e com suas preocupações do que com as de um adulto milionário e cínico como Tony Stark.

Aqui, a principal preocupação de nosso herói é conseguir se aproximar da garota por quem ele está apaixonado, a MJ (Zendaya). Aliás, a escalação de Zendaya como interesse amoroso tem dado o que falar: embora o nome da personagem seja Michelle, como dito no primeiro filme do Aranha, e não Mary Jane, como é conhecida a mais querida das namoradas de Peter Parker nos quadrinhos, o termo MJ costuma ser associado à belíssima ruiva dos quadrinhos, que até já foi personificada no cinema nos três filmes de Sam Raimi por Kirsten Dunst. Assim, a escalação de uma atriz negra não deixa de ser uma novidade.

Aliás, há várias mudanças poéticas no elenco deste filme em comparação com as HQs, mas é sempre bom respeitar os caminhos que o realizador e os roteiristas traçaram. Quadrinho é quadrinho, filme é filme. E aqui há mais liberdades do que a maioria dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel. Inclusive, não deixa de ser muito interessante ver uma Tia May tão jovem como a interpretada por Marisa Tomei.

Também é muito interessante como é introduzido Mysterio, que nas aventuras do amigão da vizinhança nos quadrinhos é um vilão de terceira categoria. Aqui se dá uma maior importância ao personagem, que não é apresentado exatamente como um vilão. Mas é também muito bom ver que o filme é muito mais do que o trailer dá a entender. Assim, todos aqueles monstros meio genéricos acabam ganhando algum sentido.

Mas o melhor do filme é mesmo o modo como ele dá mais destaque ao Peter Parker do que ao Homem-Aranha. É muito divertido vê-lo em um passeio com os colegas da escola por cidades da Europa. O melhor amigo dele, Ned (Jacob Batalon), é muito engraçado. Trata-se da influência da versão ultimate no personagem, com um amigo latino gordinho. Isso fez bem ao filme. Ah, e vale destacar a bem-vinda presença da jovem Angourie Rice, no papel de Betty Brant, colega de Peter na escola.

A questão "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades" até surge em algum momento, mas de maneira gradual, ao jovem Peter, que não queria, a princípio, dividir sua vida normal de adolescente para ser escalado para uma nova missão por Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Além de ser um filme muito bem-humorado e que consegue espantar a sombra da morte de Tony Stark nos grandes eventos dos filmes anteriores dos Vingadores, em comparação com HOMEM-ARANHA - DE VOLTA PRA CASA (2017), este segundo filme solo é melhor em diversos aspectos, embora não tenha cenas tão memoráveis como as das ameaças do vilão Abutre (Michael Keaton) ao herói. Aqui temos Jake Gyllenhaal como o Mysterio e não é bom dizer mais do que isso, a fim de não estragar as surpresas, mas podemos dizer que o ator se sai muito bem. As cenas de ação são ok, sem muitas novidades. Mas há que se dizer que a cena pós-créditos deste filme é a mais importante de todos os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, no sentido de não poder ser descartada do produto final.

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X-MEN - FÊNIX NEGRA (Dark Phoenix)

Um filme que parece todo errado desde o começo (desde escolhas de elenco, atuações, texto, criatividade para tecer uma trama minimamente interessante). Se eu já achava difícil engolir a J.Law como Mística, a ênfase à personagem da Sophie Turner só acentuou a fragilidade da escalação. Sem falar no menino Ciclope, com cara de bocó. O pior filme dos X-Men, que só não é tão chato quanto o primeiro Wolverine dentro da franquia da Fox, que aqui é morta e sepultada. Melhor sorte com a Marvel Studios aos nossos queridos mutantes. Direção: Simon Kinberg. Ano: 2019.

HELLBOY

Uma pena que este reboot de Hellboy só tenha servido para enterrar de vez o personagem nos cinemas. Se bem que parece que ele não foi feito para as telas. Não conheço os quadrinhos, mas é um trabalho muito querido o do Mike Mignola. Aqui Neil Marshall parece ter um bocado de ideias interessantes e quer brincar de fazer filme violento e chocante com rock no talo, mas no fim das contas com menos de meia hora a vontade que tudo acabe já chega. Imagina só ter que aturar as duas horas. Aliás, alguém lembra de quando o Neil Marshall era considerado um grande nome do novo horror no começo do novo milênio? Pois é.. Ano: 2019.

TURMA DA MÔNICA - LAÇOS

A direção de arte e fotografia são lindas, os meninos e meninas são uma boa escolha de elenco, mas confesso que eu lutei para segurar o sono. Os filmes infantis e animações mais tradicionais estão cada vez mais tendo esse tipo de efeito em mim. Não consegui ver com muita naturalidade e graça a atitude da Mônica com o coelho. Aliás, sobre certas características dos personagens, vemos que o cinema brasileiro pensa apenas no território nacional. A piada do sovaco do Cascão, por exemplo, não seria entendida pelo público estrangeiro, por mais que aos poucos a característica dele de não gostar de um banho seja explicitada. De todo modo, creio que atende o público infantil, que é o alvo principal. Ah, a cena com o Rodrigo Santoro eu achei um saco. Direção: Daniel Rezende. Ano: 2019.

domingo, julho 14, 2019

MEMÓRIAS DA DOR (La Douleur)

Impressionante como certos diretores têm uma carreira já relativamente longa, mas que são praticamente desconhecidos, até que certo filme chama a atenção de tal forma que passa-se a questionar a inabilidade das distribuidoras não darem o devido destaque aos trabalhos desse cineasta. É o caso de Emmanuel Finkiel, que teve seu longa-metragem de estreia, VIAGENS (1999), recebido com louvor, com premiação em Cannes e prêmio de melhor primeiro filme no César. Também alcançou prestígio internacional em diversos países, inclusive no circuito arthouse americano.

Além dos filmes como diretor e roteirista, Finkiel tem em seu currículo vários trabalhos como assistente de direção de cineastas de primeiro escalão, como Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski e Bernard Tavernier. Mas o que aconteceu é que os demais filmes de Finkiel como diretor meio que passaram batidos ao longo dos anos, por mais que cinéfilos atentos tenham visto seus trabalhos em mostras. NÃO SOU UM CANALHA (2015), seu filme anterior, ganhou algum destaque e já trazia Mélanie Thierry, que brilharia neste novo e magistral MEMÓRIAS DA DOR (2017).

Eis um filme que merece não só a atenção, mas uma especial reverência. O trabalho de construção da personagem, baseada na escritora Marguerite Duras, que faz uma espécie de bioficção ao contar da dor que foi o período em que ela passou esperando o marido voltar de um campo de concentração. E MEMÓRIAS DA DOR é basicamente sobre isso, embora seja rico o suficiente para ser também sobre culpa, desejo, e ser carregado de uma aura de desencantamento com a vida que só encontra paralelos em situações de terrível depressão.

Em determinado momento do filme, o amigo e amante vivido por Benjamin Biolay fala para que Marguerite tome banho; que ela está fedendo. Àquela altura, ela não estava mais conseguindo cuidar de si mesma. Na angústia de esperar, toma a decisão de falar com um perverso colaborador do nazismo na França ocupada. Como a história se passa entre os anos de 1944 e 1945, vemos a variação no comportamento e no grau de sentimento de segurança dessas pessoas que trabalhavam para os nazistas e que estavam acostumadas com tortura física e psicológica - isso, claro, na posição de torturadores.

Um dos aspectos que chama a atenção em MEMÓRIAS DA DOR é o modo como o diretor trabalha as sombras e também, com frequência, coloca a protagonista como único elemento não borrado, acentuando ainda mais seu sentimento de solidão e abandono naquele mundo de pesadelo. Há também destaque para a narração em voice-over de Marguerite. Uma narração pausada, que lembra e muito a narração usada em HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais, não por acaso uma obra roteirizada por Duras. Assim, os traços da obra literária da escritora estão explicitamente presentes, mas servindo não como muleta para a narração cinematográfica, mas para enriquecer ainda mais o trabalho visual.

Há algumas cenas que se destacam dentro de um conjunto que parece perfeito. E como a trilha sonora é usada apenas entre os espaços da cena, como para acentuar o clima de tristeza, os silêncios nas sequências dramáticas só enfatizam a grande performance de Mélanie Thierry. O que dizer das cenas finais de descoberta? Tanto da cena com a Mme. Katz quanto na cena mais arrepiante do filme? Ver MEMÓRIAS DA DOR é uma dessas experiências raras e recompensadoras, que só cresce na memória afetiva.

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MAYA

Depois de dois filmes que lidaram basicamente com a rotina de vida de personagens (EDEN e O QUE ESTÁ POR VIR), Mia Hansen-Løve volta novamente a usar esse recurso para contar a história de um repórter de guerra que tenta deixar sua vida nos eixos após uma traumática experiência. Para isso, ele viaja para a Índia e é lá que ele conhece a personagem-título. O nome, creio eu, também pode fazer referência à ilusão, mas não li nada a respeito - crítica ou entrevista da realizadora - que possa corroborar a minha suspeita. Gosto muito do andamento, de como é muito mais importante a construção dos personagens e sua profundidade do que uma história propriamente dita. Um belo filme. Ano: 2018.

MEU BEBÊ (Mon Bébé)

Este é o tipo de filme que eu não vejo sendo realizado por um homem, por mais que isso possa até soar sexista. E essa é uma das vantagens de se ter essas vozes múltiplas no cinema. Aqui a história é muito simples, mas importa menos a história e mais o sentimento. O sentimento da mãe em relação à filha mais nova, que está prestes a deixar o ninho e fazer faculdade no Canadá. Os pequenos flashbacks da infância dos filhos da protagonista também contribuem para enfatizar esse sentimento, que é recíproco pela filha, tão apegada à mãe, mas também tão consciente de que precisa aproveitar o momento de tomar o próprio rumo. Adorei a homenagem a O DESPREZO, de Godard. Direção: Lisa Azuelos. Ano: 2019.

CYRANO MON AMOUR (Edmond)

O lado positivo de ver o CYRANO de 1990 foi poder fazer uma dobradinha com este novo trabalho e saber exatamente do que se está falando. O filme foca na concepção de Cyrano de Bergerac até a noite de estreia. Passei a conhecer muita coisa sobre a obra que nem imaginava. E a impressão inicial de que a peça já nasceu velha se confirmou, por mais bem-sucedida que tenha sido ao longo dos anos. Direção: Alexis Michlik. Ano: 2018

quarta-feira, julho 10, 2019

SAMPA 2019

Sou um pouco preguiçoso e esse é talvez um dos motivos de eu não viajar mais vezes. Mas não há como negar o quanto as viagens me fazem bem. Ainda não experimentei viajar sozinho para o exterior, mas está na minha to do list. Deve ser uma experiência fascinante. Mas, por enquanto, quis voltar a São Paulo. A última vez em que lá estive foi em 2016, para o casamento de meu amigo Michel Simões, que mais uma vez me acolheu em seu lar. A ele e à Cris, sua esposa, deixo meu muito obrigado. E a vontade de poder retribuir quando for possível.

O blog, como vocês puderam notar, anda meio parado, por uma série de motivos. Mas esse é um mal que vem assolando todos os blogs que eu conheço. Por isso é bom quando um amigo incentiva a continuidade, como é o caso de Bruno de Alcântara, que lembra até mais do que eu de muitos eventos ocorridos em viagens passadas, devidamente contadas neste espaço.

Quinta-feira

A dormida no voo das 3h40 da manhã da Azul não foi das mais confortáveis. Esses aviões não nasceram para ser confortáveis, anyway. Ao chegar, São Paulo já estava carregada por um chuva constante, mas ainda suave. Fui de ônibus até uma estação de metrô e de lá cheguei à estação mais próxima da casa do Michel, a estação Ana Rosa. O problema é que logo foi se formando uma tempestade. Mesmo assim, achei que bastaria eu chamar um uber que ficaria tudo certo. Chamei o primeiro, que foi parar em um lugar que eu não sabia onde era. Com o segundo aconteceu a mesma coisa. Com o terceiro também. Já estava disposto a pegar um táxi e por isso atravessei a rua, sem guarda-chuva. Em vão: o táxi não estava à disposição. Sorte que o motorista do último uber, ao me ver naquela situação, todo encharcado e carregando uma mala, gritou pelo meu nome. Parou no acostamento e me explicou que em São Paulo o uber não funciona direito se você não colocar exatamente o local de partida. Parecia que eu estava vivendo uma cena de SUSPIRIA, o filme do Dario Argento.

Enfim, cheguei encharcado no prédio do Michel e ainda tive que verificar o número do apartamento na chuva, para que o pessoal da portaria pudesse liberar minha entrada. Mesmo assim, claro que foi bom poder chegar. A Cris ainda estava em casa, mas já apressada para ir trabalhar. Me conseguiu um guarda-chuva cor-de-rosa que me quebrou um galhão nos dias chuvosos.

No mais, consegui tirar um cochilo para ir ao combinado almoço com o amigo Eduardo Aguilar. Combinamos de nos encontrar na Estação Luz para em seguida partir para o restaurante que ele sugeriu. Muito bom, aliás. Comemos um bife à parmegiana excelente. Mas bom mesmo foi o papo, que durou cerca de quatro horas. Papo de muito cinema e de vida real. Com o Aguilar, nem dá tempo para pausas entre uma conversa e outra. Muito bom.

Em seguida, fui atrás de comprar um outro sapato, pois o que eu usava estava um tanto molhado. A intenção seria aproveitar para ficar um pouco mais sequinho e ver algum filme em uma sessão próxima. Mas a chuva não deixou. O sapato novo logo ficou mais encharcado que o velho. Então, a ideia de ver um filme àquela hora foi para o brejo. Tentei novamente pegar um uber e foi novamente frustrante. Acabei pegando um taxi para voltar para a casa do Michel, que estaria voltando do trabalho. Quando ele chegou, saímos para comer uns espetinhos no Boni. Muito bom. Especialmente o kafta.

Sexta-feira

A sexta-feira deveria ser o dia de ir a Jundiaí, para visitar os amigos Bia e Primati, mas achei melhor deixar para o sábado, devido a complicações nos horários de trabalho da Bia. Foi bom assim, já que a sexta-feira também foi um dia de muita chuva. Ainda que não tão tanto quanto a quinta. Depois de um café da manhã caprichado fiz um passeio pela Rua Augusta principalmente para visitar aquela loja de discos bacana, a Augusta Discos. Saí de lá todo feliz com quatro CDs: Radiohead: Amnesiac; Cat Power: What Would You Think the Community Think; mundo livro s/a: guentando a ôia; e Marina Lima, o disco homônimo de 1991. Queria mais, claro, mas não estava num desses dias em que me sentia rico, não.

Depois de um almoço ruim no Shopping Center 3 (escolhi mal, devido à pressa para pegar a sessão, talvez), fui ao Petra Belas Artes para comprar ingresso para o novo Almodóvar, o maravilhoso DOR E GLÓRIA, e o novo do Paulo Sacramento, A FACA E O OLHO. O do Almodóvar me tocou com força. Espero poder escrever sobre ele aqui em breve. O do Sacramento é um pouco cheio de falhas, mas tem sua força em causar angústia. De volta para casa, o Michel já estava por lá. Havia uma possibilidade de ir a um show da banda Del Rey, mas acabou não rolando. Como tínhamos mesmo que ver HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA, parecia uma boa oportunidade. A Cris também foi, um pouco cansada do trabalho. O novo filme do Aranha, aliás, é bem divertido.

Sábado

Felizmente o dia amanheceu sem chuva. Em compensação, foi um desses dias de muito frio. O termômetro chegou a marcar 7º C. Depois de um café da manhã rápido, que serviu para esquentar a barriga, peguei o metrô para em seguida pegar o ônibus para Jundiaí. Estava feliz em poder ir em direção a uma cidade do interior de São Paulo. A única vez que tinha saído da capital foi para ir a Campinas, mas não conta muito, pois dormi o caminho inteiro e o espaço em que fomos foi um mega shopping center. Chegando na casa do Primati e da Bia fui recebido calorosamente pelos dois. Conheci os vários gatos assustados, belos e simpáticos da casa, a estante admiravelmente cheia de livros interessantes - mesmo com a conversa boa, de vez em quando eu olhava para a estante, sou meio que fascinado por estantes. A Bia ainda não tinha feito o almoço, e fui com ela comprar uns ingredientes. Gostei bastante de um espaço onde se compra quase de tudo de ingredientes. Que eu saiba, não tem nada do tipo aqui em Fortaleza.

De volta para a casa, almoço e bate-papo. Curiosamente, o papo que mais se desenvolveu, além de coisas da vida real, Seinfeld, filmes e gatos, foi sobre música. Ouvimos muita música e falamos bastante de música. Senti-me à vontade com pessoas que também não se sentiam muito felizes com os caminhos da música pop do novo milênio. A Juliana também veio para me ver na hora do almoço e foi muito divertido o papo. Creio que a minha amizade com eles se solidificou ainda mais com essa visita. Até me arrependi de não ter ficado para dormir e ir no dia seguinte (é que eu achava que estaria abusando da hospitalidade se ficasse muito tempo). Como eles disseram, daria para aproveitar mais. Fica para a próxima oportunidade.

Muito do meu interesse para voltar para São Paulo veio da possibilidade de ver uma peça com a Alessandra Negrini em um teatro ali na Vila Mariana. Acabou dando certo a ida ao teatro, embora a peça não tenha nos agradado muito. Chama-se Uísque e Vergonha, com direção de Nelson Baskerville, baseado em um livro de Juliana Franck, escrito em 2016. O que mais me incomodou na peça foi o quanto o humor não serviu para fazer rir. Os palavrões acabaram parecendo gratuitos e apenas feitos para incomodar. A peça terminou com uma homenagem a João Gilberto, falecido naquele sábado. Antes disso, o jantar havia sido um hambúrguer caprichado na Jazz. Que lugar bacana, hein. E o sanduíche é ótimo. Para mim, que evito comer porco, é perfeito, então, já que o dono é adventista do sétimo dia.

Domingo

Dia de comemorar o aniversário fora de casa. Havia convidado outros amigos, entre os que estavam em Sampa (vários viajaram ou se mudaram para outros lugares do mundo), mas por motivos diversos eles não puderam ir. Estiveram presentes no restaurante Sujinho, além de Michel e Cris, Chico, Gustavo e o casal que eu conheço desde os primórdios do blog, Tiago e Denise, que trouxeram seu baby, o Benjamin. Na TV passava a final da Copa do Mundo feminina de futebol. A comida era boa - experimentei o salmão - e o papo fluiu bem. Depois do almoço, eu, Michel e Gustavo fomos caminhar um pouco pela Paulista, que estava fechada para os carros. Muito agradável poder sentir o prazer do calor do sol em dias frios. Até o sorvete pareceu mais gostoso. Se bem que o Michel falou que aquele é o melhor (ou um dos melhores) da cidade.

Depois de uma descansada em casa, Michel e eu fomos ver MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel. Que baita filme, meus amigos. E que performance arrasadora de Mélanie Thierry! É outro filme que eu preciso parar com calma para escrever e poder ampliar a experiência do cinema. Sem dúvida, um dos melhores títulos que eu vi neste ano. Já estava quase saindo de cartaz em São Paulo. Portanto, quem ainda não viu, corra para ver. Aqui em Fortaleza não chegou e eu nem sei se um dia vai chegar. Em seguida, fomos jantar em outro lugar excelente, o Prainha da Paulista. Impressionante a quantidade de comida boa que São Paulo oferece.

Segunda-feira

O dia amanheceu com a emoção de estar junto com a turma para o podcast Cinema na Varanda. Tiago não estava; viajou. Uma honra estar ao lado de Michel, Chico e Cris nesta segunda vez ao vivo com eles fazendo este programa, que eu gosto tanto e não perdi nenhum episódio até hoje. Os filmes em debate foram HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA, DIVINO AMOR e DEMOCRACIA EM VERTIGEM. Além disso, no Puxadinho da Varanda, ainda trouxemos à tona os filmes FORA DE SÉRIE, DESLEMBRO, MEMÓRIAS DA DOR e TURMA DA MÔNICA - LAÇOS. Quem quiser ouvir o episódio, ele já está disponível AQUI.

Depois do podcast, saímos para almoçar (aliás, anotem aí: Go Fresh; que comida gostosa a desse restaurante!) e encontrar o fella de Natal, Marcos Aurélio Felipe, outro cara fantástico que conheço já faz um longo tempo. Ele estava passando uns dias com a família em Sampa e foi ótimo ter essa possibilidade de encontrá-lo. Depois de conversar e almoçar, nós três saímos para ver SANTIAGO, ITÁLIA, o novo filme de Nanni Moretti. Não é um dos melhores do Moretti, com certeza, mas, nos dias de hoje, acaba sendo necessário. Após uma ida para trocar uma camiseta em uma loja que usa estampas bacanas de cinema e música, fomos ao café do Espaço Itaú conversar mais um pouco. Era o tempo de ir para a terceira parte da programação do dia, o karaokê na Liberdade.

Só não foi melhor do que a outra vez pois estava lotado e todo mundo queria cantar. Só consegui cantar duas músicas ("Never there", do Cake, e "The KKK took my baby away", dos Ramones) e nem acho que fui bem. Havia um grupo de especialistas, quase profissionais em karaokê, tanto na voz quanto nas coreografias. Outra coisa que percebi e que fez eu me sentir mais velho: a quantidade de canções novas no repertório que eu não conhecia. Mas fiquei feliz que o grande momento da noite veio da nossa turma: Cris e Chico cantaram "Shallow", a original de Bradley Cooper e Lady Gaga, não a horrível versão brasileira, claro. Cris mandou bem demais emulando a Gaga.

Ah, e o momento também foi muito importante para finalmente conhecer pessoalmente a Paula Ferraz, dessas pessoas que a gente já gosta mesmo de longe. Ela havia viajado para Jericoacoara e retornou naquele dia. Me presenteou com dois DVDs (O AMANTE DUPLO e EU, TONYA) e me deu aquele abraço acolhedor. Fiquei feliz demais de encontrá-la.

Terça-feira

Dia de voltar para casa. Mas antes Cris e Michel foram tão legais comigo que, além de me darem carona de volta até o aeroporto, ainda me levaram a um lugar muito interessante, uma espécie de cafeteria hipster com cadeiras de praia e um café-da-manhã gourmetizado. Chama-se Beth Bakery. Gostei de conhecer o lugar. O dia foi curto e a viagem até que foi rápida, embora tenha chegado bem cansado. De todo modo, foram cinco dias que valeram demais. Novamente, deixo novamente meu muito obrigado à acolhida dos amigos todos citados aqui, em especial, claro, Michel e Cris. Até a próxima, my friends!

sábado, junho 22, 2019

DESLEMBRO

É possível notar, mesmo sem saber nada de DESLEMBRO (2018), que se trata de um filme muito pessoal de sua diretora, Flavia Castro. Ao sabermos que ela conta novamente a história de seu pai desaparecido durante a ditadura, história contada no documentário DIÁRIO DE UMA BUSCA (2010), percebemos que ela é movida por uma necessidade de recontar essa história. O que impressiona é o quanto ela consegue ser tão bem-sucedida estreando no registro de ficção. A sensibilidade com que ela conta a história de uma jovem adolescente que é trazida da França para o Brasil na virada dos anos 70 para os 80, quando começou o processo de anistia política, é feita com uma vivacidade impressionante.

Nos primeiros minutos de DESLEMBRO vemos uma família dialogando em francês. A menina Joana (Jeanne Boudier, ótima) não quer sair da França e ir para um país em que se torturam e matam pessoas. Mas a mãe (Sara Antunes) prefere que a filha e seus outros dois filhos (na verdade, um deles é filho do seu companheiro com outra mulher) venham com ela para o Rio de Janeiro. O impacto da chegada ao novo país começa a trazer memórias fortes de um momento traumático na vida da pequena Joana. Lembranças escondidas em um canto seguro de sua memória.

Assim, essas lembranças - ou possíveis lembranças, já que não se sabe ao certo o que é verdade ou o que é construído como uma espécia de sonho - vão surgindo em flashbacks bem fragmentados. Às vezes, a diretora usa um recurso plasticamente muito bonito de nos mostrar uma imagem tão aproximada a ponto de não sabermos o que estamos vendo, como em um quadro de pintura abstrata com textura em alto relevo.

A inclusão de canções é também um acerto do filme. Lou Reed, Caetano Veloso, The Doors, Nelson Gonçalves (em uma canção de Noel Rosa que também aparece no maravilhoso ARÁBIA, de João Dumas e Affonso Uchôa, ainda que com um intérprete diferente), citações a David Bowie e Pink Floyd; além disso, o amor pelos livros por parte de Joana e a recitação de um poema de Fernando Pessoa, tudo isso faz com que o gosto pela vida, embora dolorosa pela falta trágica do pai, esteja o tempo todo presente.

E há também o amor no seio familiar. A família como mostrada no filme, tão fragmentada quanto as memórias da menina, é de encher o coração (o que são aquelas cenas no carro, meu Deus?). As questões de afetividade envolvendo a mãe, o padrasto chileno e os dois irmãos pequenos somam-se à avó da menina que mora no Rio, vivida com brilho por Eliane Giardini, A cena mais tocante do filme, aliás, talvez seja uma muito sutil, em que a avó e a menina estão sozinhas e a avó olha com lágrimas nos olhos para o rosto daquela garota que lembra o seu filho assassinado pela ditadura. Um exemplo de sensibilidade ímpar por parte da diretora e de seu belo elenco.

E já que estamos falando de amor, eis que o amor romântico também surge em DESLEMBRO de maneira muito bonita. Há, inclusive, uma cena de sexo muito discreta e muito elegante entre ela e o seu interesse amoroso, um rapaz que também é filho de exilados. Inclusive, esse aspecto romântico e a quantidade generosa de canções pop faz com que o filme dialogue com o ótimo CALIFÓRNIA, de Marina Person.

No que se refere às questões políticas, há diálogo com o momento atual, embora o filme tenha sido finalizado antes das últimas eleições presidenciais. O que não deixa de torná-lo ainda mais forte e mais urgente nos dias de hoje. Aliás, o que não parece urgente nos dias de hoje, quando o assunto é direitos humanos?

Assim, no mesmo fim de semana, temos dois filmes de duas cineastas mulheres que estão entre as melhores realizações brasileiras lançadas em circuito. O outro é DEMOCRACIA EM VERTIGEM, de Petra Costa, lançado diretamente na Netflix, e que por isso já tem alcançado um público bem maior. DESLEMBRO, por sua vez, restrito ao circuito alternativo, ganhará um público pequeno. Por isso, é importante que o boca a boca seja positivo e que atraia o público, a fim de que mais pessoas tenham a honra de ver esta pequena obra-prima no cinema, em toda sua glória.

+ TRÊS FILMES

LOS SILENCIOS

Muito bonito este segundo filme de Beatriz Seigner. Gosto especialmente da primeira metade do filme, com momentos em que os sons da natureza desempenham um papel muito forte na ambientação daquele lugar: uma ilha que fica na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Na história, Amparo é uma mulher que vai com os filhos para a tal ilha, fugindo de possíveis ataques dos inimigos da guerrilha de que o marido fazia parte. Mais um filme que vale ver também para nos aproximarmos dos nossos vizinhos sul-americanos. Ano: 2018.

MORMAÇO

Um quê de AQUARIUS com elementos cronenberguianos (também lembrei de Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra). Além de um importante trabalho sobre a destruição imposta pelo Estado (o Rio de Janeiro nas vésperas das Olimpíadas de 2016), é também um filme sobre uma doença misteriosa que aflige a protagonista. Os elementos realistas se harmonizam bem com uma linha mais fantástica. Ótima a Marina Provenzzano (tinha visto a moça em O GRANDE CIRCO MÍSTICO, mas não lembrava). Direção: Marina Meliande. Ano: 2018.

A SOMBRA DO PAI

Um filme que me trouxe sentimentos mistos. Ora achei bonito toda a homenagem aos filmes de terror que a diretora faz, ora curti a cara de filme de horror B de locadora dos anos 80, ora fiquei incomodado com o drama inquietante do pai e da filha, que vivem à mercê de situações extremamente desafiadoras, cada um lidando à sua maneira com o que lhes perturba. A menina tem um gosto por feitiços e coisas do tipo; o pai se fecha demais em sua vida desgraçada. Muito bom ver a evolução da diretora nesses longas. Direção: Gabriela Amaral Almeida. Ano: 2018.

sábado, junho 15, 2019

FORA DE SÉRIE (Booksmart)
























"Ser jovem é a experiência mais dolorosa e mais hilária", disse Olivia Wilde em entrevista para o jornal The Guardian. E de fato, por mais que FORA DE SÉRIE (2019), sua estreia na direção de longas-metragens, seja um filme para rir bastante, há uma profundidade e uma compreensão do que é ser jovem que falta na grande maioria dos filmes sobre jovens produzidos nos últimos vinte anos. E como vivemos em um momento em que tudo que fazemos tem um viés político, nem precisaríamos saber que Wilde é uma democrata entusiasmada que trabalhou duro durante as campanhas de Obama e cuja mãe é congressista.

Assim, FORA DE SÉRIE trata de situações em pauta nos dias de hoje, como a orientação sexual e a sororidade. O filme conta a história de duas garotas que são melhores amigas. Elas estão no último ano do ensino médio e prestes a ingressar em uma nova fase de suas vidas. Acreditam que deram o melhor de si, ralando muito nos estudos, diferente da grande maioria de seus colegas, que passaram o ano brincando, indo a festas etc.

Na verdade, a visão que temos da escola é quase caótica, mas muito divertida de ver. Em determinado momento parece a Escolinha do Professor Raimundo. Por isso, uma delas fica horrorizada ao saber que vários de seus colegas também vão para universidades conceituadas, mesmo não estudando tanto quanto ela. Daí a necessidade de, no último dia do ano, antes da entrega do diploma, elas resolverem ir a uma das festas malucas da turma. Isso se torna algo de fundamental importância, então.

Desde o começo o filme é um convite ao riso, ao mesmo tempo em que acompanhamos o aprofundamento no drama daquelas personagens - e até dos coadjuvantes que aparecem pouco e que seriam apenas funcionais na trama. Assim, a transição do riso para a dor pode ser sentida com mais força.

O que dizer da cena da piscina, uma das cenas mais belas do cinema recente? Ao mostrar a cena para Will Ferrell em um corte inicial do filme, o ator e comediante disse, em lágrimas: "essa é uma das mais belas cenas que eu vi na vida". E dá para imaginar que Olivia Wilde tenha fica emocionada com o apoio do amigo, e disse que muita gente queria cortar a cena. Dá para imaginar?

Um dos grandes méritos do filme é nos fazer sentirmos mais vivos ao nos levar de volta para esse momento de transição da vida. É semelhante ao que sentimos com LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig, só que com muito mais experimentação e estranheza, o que é muito bom. Assim, o que vemos é uma produção com um grau de frescor pouco visto no cinema independente recente. Afinal, o que é a cena das duas bonecas? E que maravilha que é a liberdade com que vemos os diálogos íntimos das duas amigas, como na revelação de um brinquedo de pelúcia para auxiliar na masturbação de uma delas.

As duas meninas, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), se amam e se apoiam mutuamente. Molly sofre por ser gordinha e acreditar que não tem chance com os garotos da escola; Amy, por outro lado, é gay e tem muita dificuldade em chegar perto de uma garota por quem ela se sente atraída.

O filme, ao mostrar tanto o doce e o amargo desses momentos da vida, encanta. A primeira experiência sexual de Amy, o baque de ver a pessoa amada beijando outra pessoa, a alegria com o sucesso da colega, a aproximação com colegas distantes através de pequenos diálogos que revelam mais aprofundadamente quem são aquelas pessoas, tudo isso é muito bonito. Uma das melhores surpresas do cinema em 2019, FORA DE SÉRIE é também um filme sobre ser jovem em 2019, o que o torna também uma espécie de documentário de uma época.

+ TRÊS FILMES

OITAVA SÉRIE (Eighth Grade)

O primeiro filme que vi em 2019 foi este trabalho bem sensível sobre a vida de uma adolescente tímida que se esforça muito para poder se socializar e se sentir pertencente em seu mundo. Me identifiquei com esta jovem e, como professor, visualizo também muitos que passam por essa fase complicada da vida. O legal do filme é que, mesmo insegura, ela faz uns vídeos de dicas de como enfrentar certos problemas da vida como adolescente. Um misto de sabedoria escondida em um corpo cheio de inseguranças. Direção: Bo Burnham. Ano: 2018.

O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST (The Miseducation of Cameron Post)

Serve como uma boa dobradinha para BOY ERASED. E diria que é menos intenso, até porque a figura dos disciplinadores da cura gay é menos odiosa e perversa. Mas o curioso é que o outro é baseado em uma história real e este parece que não. Mais do que um filme sobre a intervenção cruel à personalidade de pessoas, é um filme sobre amizade, uma amizade que a protagonista constrói com tipos marginais na instituição: uma jovem negra sem uma perna e um rapaz índio. Adoro a hora que toca "What's up", do 4 Non Blondes. E olha que eu nem gostava da música. Direção: Desiree Akhavan. Ano: 2018.

A CINCO PASSOS DE VOCÊ (Five Feet Apart)

Belo melodrama juvenil que deve falar bastante às novas gerações. Fiquei especialmente impressionado com o tanto de jovens chorando durante a sessão. Uma menina que estava perto de mim estava aos prantos ao final do filme, chorando no colo de quem parecia ser sua mãe. O filme pode ter seus problemas de seguir uma fórmula gasta, mas os protagonistas têm muito carisma e o drama deles é muito fácil de comprar. Afinal, quem não precisa de um abraço? Além do mais, é um filme que não tem medo de ser pesado no drama. Direção: Justin Baldoni. Ano: 2019.

quinta-feira, junho 13, 2019

CINCO SÉRIES E DUAS MINISSÉRIES

Em outros tempos eu teria falado com calma de cada uma dessas séries. Até porque todas merecem a nossa atenção. Mesmo aquela que patinou em sua conclusão. Infelizmente, por uma série de motivos que não valem a pena explicar aqui, não estou conseguindo seguir com a mesma regularidade que o blog estava tendo de 2002 a 2017. Assim, para não passar em branco, vamos logo tecer breves comentários sobre séries marcantes vistas recentemente. A primeira delas, pra vocês terem uma ideia, eu terminei de ver no final do ano passado.

THE MARVELOUS MRS. MAISEL – SEGUNDA TEMPORADA (The Marvelous Mrs. Maisel – Season Two)

Esta segunda temporada foi um pouco mais desafiadora que a primeira, que tinha sido só alegria. Nesta, há o desafio (bom) de ver uma série que se interessa ainda mais por questões formais, não só de emular o cinema dos anos 50 e as screwball comedies, mas também de brincar com o cenário de maneira inventiva. Sem falar nas cores vivas e lindas. Mas o que pega mesmo é o drama dos personagens, que se intensifica. O drama prevalece sobre a comédia agora, e os personagens coadjuvantes ganham mais espaço já no começo. Caso dos pais de Midge (Rachel Brosnahan), na série de episódios que se passam em Paris. Mas o que me fez gostar mesmo desta nova temporada foi a questão da dor dos personagens, cada um deles com um problemão pra enfrentar. A cena final é lindíssima, de tão tocante. É ver o que vem por aí na próxima. Episódio de destaque: “We’re Going to Catskills!” que mostra Midge e sua família indo para uma espécie de colônia de férias para famílias. No mínimo, curioso. Ano: 2018. Criadora: Amy Sherman-Palladino. Canal: Amazon.

BONECA RUSSA – PRIMEIRA TEMPORADA (Russian Doll – Season One)

Gosto muito da série a partir da metade, quando aparece um personagem importante. Até então, demorei a simpatizar com a heroína, mais parecida com uma versão feminina de Joe Pesci em OS BONS COMPANHEIROS. Mas os momentos brilhantes compensam e quase tornam a série ótima. Uma pena que eu não tenha me entusiasmado tanto, a não ser nos momentos em que as brincadeiras de paradoxo temporal o tornam diferente das cópias de FEITIÇO DO TEMPO. No mais, a história melhora quando muda de ponto de vista e surge certo personagem masculino. Curioso o fato de a temporada ser tão redondinha. Não consigo imaginar uma segunda temporada. Episódio de destaque: “Alan’s Routine”, justamente o que muda o foco da ação de Nadia para Alan. Ano: 2019. Criadoras: Lesley Headland, Natasha Lyonne e Amy Poehler. Canal: Netflix.

TRUE DETECTIVE – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (True Detective – The Complete Third Season)

A terceira temporada de TRUE DETECTIVE começa um tanto morna, mas vai melhorando a partir do terceiro episódio, quando as três linhas temporais passam a ser brilhantemente trabalhadas e ganham força, principalmente quando a série parece estar mais interessada na psicologia de seus personagens do que na trama de mistério, que desde o começo parece pouco envolvente, até por contar apenas com o caso de um garoto morto e uma garota desaparecida. Isso não deixa de ser uma tragédia, mas para uma série o que conta é o fato de isso se estender por tanto tempo (1979-1990-dias atuais). Incomoda um pouco certas coisas serem tão óbvias que os detetives deixaram passar. Curiosamente, os episódios mais fracos são os dirigidos por Daniel Sackheim, que dirigiu os primeiros e os últimos. Os dirigidos pelo criador da série são os melhores. Não sei se depois desta temporada a franquia vai contar com um quarto ano. Episódio que se destaca: “Now Am Found”, que lida mais dramaticamente com a situação de perda de memória na velhice de Wayne (Mahershala Ali). Ano: 2019. Criador: Nic Pizzolatto. Canal: HBO.

GAME OF THRONES - A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Game of Thrones – The Complete Eighth Season)

Não há como negar a influência e a força de GAME OF THRONES ao longo desta década. Foi a série mais popular e mais querida, mas aos poucos foi se tornando a mais frustrante, devido aos rumos que foi tomando à medida que se aproximava de sua conclusão. A sétima temporada já apontava para algo mais desleixado e embora o final da série tenha trazido algumas surpresas (não necessariamente boas, mas ao menos são surpresas), o final é desapontador, ficando um gosto azedo e a falta de vontade de nunca mais voltar à série. Até a Peter Dinklage foi dado um monólogo ruim no episódio final. Perderam a chance de criar um clássico. Ainda assim, são de Dinklage os melhores momentos da temporada, como quando ele sofre com a possibilidade de trair sua rainha; ou quando ele abraça o irmão Jaime, dizendo que ele foi o único na família que não o considerou um monstro. Episódio de destaque: “The Last of the Starks”, uma espécie de episódio de respiro e em quatro paredes, dando espaço para conversas à fogueira dos personagens sobreviventes à batalha da noite anterior. Canal: HBO. Ano: 2019. Criadores: David Benioff e D.B. Weiss. Canal: HBO.

FLEABAG – PRIMEIRA TEMPORADA (Fleabag – Season One)

Depois do hype dentro do círculo de críticos e apreciadores mais exigentes de séries, fui lá conferir a primeira temporada de FLEABAG, que nem sabia que existia até um dia desses. Sempre bom ter a oportunidade de conhecer novos talentos criativos, como é o caso de Phoebe Waller-Bridge, que cria, escreve e atua como protagonista desta série que se esconde como uma comédia com frequência, quando no fundo o que se sente mesmo é muita dor, arrependimento e uma dose de depressão. Em breve vejo a nova temporada. Episódio de destaque: o sexto e último episódio, que traz a revelação do que realmente aconteceu com a querida amiga de Fleabag. Ano: 2016. Criadora: Phoebe Waller-Bridge. Canal: Amazon.

CHERNOBYL

Dessas histórias tão aterradoras e arrepiantes que ficam com a gente até a hora de dormir. Impressionante o quanto a irresponsabilidade pode causar tanto prejuízo (mortes, doenças, perdas de animais, flora, uma cidade inteira). Um dos grandes méritos de CHERNOBYL é nos colocar de cara com a noite da explosão, para depois ver o horror só aumentando, e ao final ter aquela sensação de que ao menos algumas pessoas fizeram algo de bom para que aquilo não se repetisse. Episódio marcante: “Open Wide, O Earth”, que mostra os planos de Valery (Jared Harris) para descontaminar Chernobyl. Perturbador é pouco! Ano: 2019. Criador: Craig Mazin. Canal: HBO.

A VERY ENGLISH SCANDAL

Uma das coisas bacanas do Globo de Ouro é fazer com que eu me interesse por certas produções televisivas. No caso desta aqui, só em ter a presença de Hugh Grant, um de meus astros favoritos, já era motivo mais do que suficiente. Saber que se trata de uma ótima minissérie, então, melhor ainda. O formato em três episódios, característica das minisséries britânicas, funciona bem e a história é de fato fascinante. No campo das atuações, nunca vi Grant tão bem. Pena não ter levado o prêmio de melhor ator. A cena dele tentando desconversar sobre sua vida dupla com a segunda esposa é de dar dó. Mesmo sendo uma espécie de vilão, por assim dizer. Talvez seja o melhor trabalho de Frears na direção desde CHÉRI (2009). No mais, lembremos que seus primeiros sucessos para cinema abordavam a questão da homossexualidade, MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA (1985) e O AMOR NÃO TEM SEXO (1987). Ano: 2018. Direção: Stephen Frears. Canal: Amazon.

domingo, junho 02, 2019

TODOS JÁ SABEM (Todos Lo Saben)

Um de meus filmes favoritos deste ano é TODOS JÁ SABEM (2018), de Asghar Farhadi. Foi dessas obras que eu vi com mais prazer e interesse. Para minha surpresa, a repercussão entre a crítica, especialmente a brasileira, não foi tão favorável. Meus amigos do excelente podcast Cinema na Varanda também foram unânimes: não gostaram do filme.

Como eu coleciono cartazes dos filmes que vejo em minha página do Facebook e coloco cotação e um breve comentário do que acabei de ver, dei cinco estrelas para o filme de Farhadi, o que foi motivo de surpresa para muitos. E isso foi uma das razões de eu ter preparado uma defesa em áudio para TODOS JÁ SABEM, a pedido, inclusive, do Tiago, que me pediu para encaminhar o áudio quando comentei algo a respeito do filme e do veredito dos varandeiros.

Enfim, depois de várias semanas que vi o filme, fica cada vez mais difícil escrever a respeito, a não ser que através de uma revisão. Então, achei por bem transcrever a minha cola para o áudio enviado ao Cinema na Varanda, desde já os agradecendo por fazer com que eu pensasse o filme e os aspectos que me fizeram gostar tanto dele. Segue abaixo o texto que serviu de base para o áudio.

"Sabe quando você ouve alguém xingando aquela banda de que você gosta muito e você fica vermelho de raiva? Pois é. Ultimamente isso não tem acontecido muito com os filmes, mas isso depende muito do grau de pedradas que ele recebe. Pois é. Ouvindo o podcast sobre TODOS JÁ SABEM senti mais ou menos isso, embora entenda o quanto é individual a nossa apreciação de cada obra de arte.

Curiosamente, os filmes de Asghar Farhadi que eu mais gosto são justamente os trabalhos dele fora do Irã, O PASSADO (2013) e este novo, feito na Espanha. Embora goste bastante também de PROCURANDO ELLY (2009), que guarda muitas similaridades com a trama do novo filme.

TODOS JÁ SABEM me conquistou desde o início e me manteve interessado na trama e nos dramas de seus personagens até o final. Vi tudo com muito entusiasmo mesmo. O começo, com Penélope Cruz e Carla Compra, a jovem que interpreta sua filha mais velha, sorrindo, representando uma alegria de estar vivo naquele ambiente rural e lindo da Espanha. Senti-me como que levado para aquele vilarejo. E muito feliz por isso.

E esses momentos felizes são fundamentais para que se faça um contraste com o momento sombrio que acerca o filme logo após a notícia do sequestro da garota.

Se Farhadi não deixa um toque latino no filme, o que acho questionável, não vejo isso como um problema. É um filme de um cineasta estrangeiro, um dos grandes cineastas da atualidade, que tem uma habilidade em tratar de suspenses e dramas familiares como poucos de sua geração. De todo modo, Farhadi é iraniano, de um país que não tem as mesmas liberdades da Espanha, por exemplo, muito por causa da religião imposta e dos costumes de muitos anos. Assim, ele dá o que ele tem de melhor.

Além do mais, a fotografia de José Luis Alcaine, grande mestre, tendo vários trabalhos com Pedro Almodóvar, também confere à obra uma beleza toda própria.

O aspecto de novela do drama, envolvendo revelações de paternidade e dinheiro, pode mesmo incomodar a alguns, mas eu abracei com muito amor, junto com a trama de whodunit, que ganha força justamente por ser emoldurada pelos dramas individuais de cada personagem, seja o trio principal (Penélope, Bardem, Darín), sejam os coadjuvantes, cada um importante, já que qualquer um poderia estar envolvido no sequestro da garota.

E não, de jeito nenhum, eu vejo o filme como uma obra em que o roteiro é a mola principal. O comentário que eu fiz quando saí da sessão foi justamente esse: 'que diferença faz um grande diretor, não é?' Mas, claro, eu tinha adorado cada minuto do filme. Então, puxei sardinha para o nosso querido Farhadi. Enfim, não sei se defendi o filme como gostaria (sou péssimo debatedor, eu sei), mas acredito que falei o principal.

Abraços a todos!"

E foi essa a minha defesa do filme. Espero que alguns leitores concordem comigo. Há muitos aspectos que eu poderia ter enfatizado, modificando o texto, mas preferi não mexer.

+ TRÊS FILMES

ENTARDECER (Napszállta)

Achei muito difícil entrar neste filme. Ele demora demais a nos deixar a par da situação da protagonista e apresenta personagens masculinos demais, confundido muito. A certa altura não sabia mais quem era o tal irmão dela. O recurso de usar a câmera muito próxima à protagonista, como em O FILHO DE SAUL (2015), é repetido aqui, mas perdendo o frescor (se bem que já não era novidade no filme anterior, os Dardenne já haviam usado isso de forma parecida). O final traz algo que ajuda a dar um pouco de sentido à trama do filme, conectando-o com um evento histórico importante, mas acho que naquele momento já estava tarde demais para mim. As 2 horas e 20 demoram a passar. Direção: László Nemes. Ano: 2018.

BORDER (Gräns)

Um filme que me intrigou bastante no começo, mas que depois foi fazendo perder o meu interesse. E nem é pela forma como ele vai se mostrando o que de fato é, mas é como a conclusão me pareceu insatisfatória, principalmente por dar muito peso à questão criminal e um pouco menos à relação entre os dois personagens peculiares e no sentimento de autodescoberta da protagonista. Ainda assim é um filme bonito plasticamente. Direção: Ali Abbasi. Ano: 2018.

CAFARNAUM (Capharnaüm)

Acho que estou meio insensível ultimamente. Já vi alguns melodramas dignos de pessoas sensíveis e não chorei. (Quer dizer, acho que chorei um pouco no melodrama A CINCO PASSOS DE VOCÊ.) Enfim, CAFARNAUM pega pesado na exposição da miséria humana e na descida aos infernos de um garoto de cerca de 12 anos em uma cidade do Líbano. Há situações tão pesadas que a gente fica um tanto ressabiado com a diretora, pensando no quanto ela pode ter exagerado. Além do mais, fica difícil não fazer comparações com PIXOTE - A LEI DO MAIS FRACO, que é um filme tão mais cru e tão sem filtros, coisa que não falta neste filme da Nadine Labaki. De todo modo, o garotinho Zain Al Rafeea é fantástico. Ano: 2018.

quarta-feira, maio 29, 2019

FRONTEIRAS DO INFERNO (Lonesome Women)

Walter Hugo Khouri, o maior de nossos cineastas, depois de um flerte com o film noir americano no excelente ESTRANHO ENCONTRO (1958), conseguiu financiamento e apoio para uma produção com dinheiro estrangeiro, rodado, tanto em inglês como em português. Infelizmente a versão em português está dada como perdida, mas podemos comemorar o fato de que existe a versão em inglês, que pode não ser exatamente o FRONTEIRAS DO INFERNO (1959), mas sua versão irmã gêmea, LONESOME WOMEN. De todo modo, ter acesso a uma obra como essas já é uma bênção para quem é fã da obra do mestre.

Assim como a obra anterior, FRONTEIRAS DO INFERNO lembra mais cinema americano do que cinema europeu. A partir de NOITE VAZIA (1964), ele faria um cinema que lembraria tanto Ingmar Bergman quanto Michelangelo Antonioni. Aqui o que temos é uma espécie de western passado numa cidade pequena cujo principal motor econômico é o garimpo. Trata-se de uma cidade amaldiçoada, com as pessoas (principalmente as mulheres), sentindo-se como se estivessem vivendo numa espécie de inferno.

O filme começa com a presença de um homem idoso que encontra um diamante de tamanho generoso. Como é garimpeiro há anos, sabe que o dono das terras lhe pagaria apenas uma pequena quantia por aquela preciosa pedra, que poderia ser sua chance de sair daquele lugar com sua filha (Aurora Duarte). A chance de fugir dali vem quando surge na cidade um homem estrangeiro (Hélio Souto), cujo carro é capaz de passar por terras acidentadas. Logo aquele homem também será alvo da agressão e opressão do líder dos garimpeiros, que suspeita que ele está com a pedra, depois que o pobre velho morre, em seus braços.

Por mais que possa parecer um filme à moda antiga sobre um herói que vem de longe para salvar a mocinha, FRONTEIRAS DO INFERNO traz algo que seria uma das marcas do cinema de Khouri: a importância das personagens femininas. Aqui elas são várias e vivendo em diferentes realidades. Todas elas possuem motivos mais do que suficientes para fugirem daquele lugar e encontram na figura do forasteiro a chance. Como um filme sobre a cobiça, porém, já não é tão marcante. O cinema americano já fez exemplares tão melhores a respeito. Por isso, o que marca mesmo nesta produção de encomenda é o quanto de atmosfera khouriana já é possível perceber.

A cópia que chegou em minhas mãos é ripada de um VHS da Something Weird Video nos anos 1990. Está com as cores esmaecidas, mas já é uma surpresa ser um filme em cores. Com dinheiro brasileiro, Khouri só faria um filme em cores em 1970, com O PALÁCIO DOS ANJOS.

+ TRÊS FILMES

MINHA FAMA DE MAU

A gente torce para que o filme encontre o seu prumo, mas infelizmente há muita coisa sem tesão ou apresentada de maneira tão ruim que seria melhor que tivesse sido deletada, como a cena da apresentação da canção "Amigo", por exemplo. O filme ficaria menos falho sem essa parte. Aliás, o ator que faz o Roberto não convence (e canta mal, ainda por cima). Já o Chay Suede está bem como o Erasmo. Ele já havia se mostrado muito bem em RASGA CORAÇÃO. Falta também força nas canções, principalmente nas melhores dessa primeira fase da dupla Roberto-Erasmo. Direção: Lui Farias. Ano: 2019.

INTIMIDADE ENTRE ESTRANHOS

Antes de entrar para a sessão deste filme eu já estava pensando: antes ver um filme brasileiro fraco do que um americano fraco. E é assim mesmo que eu penso. No caso deste aqui, que conta com roteiro de Matheus Souza, é possível ver com algum prazer até o final, principalmente por causa da personagem de Rafaela Mandelli. Os dois homens da história são dois bocós, embora a gente se solidarize um pouco com o jovem que se apaixona pela mulher mais velha que ele, mas bastante atraente. O final é meio constrangedor e podia ser evitado, a partir do roteiro. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.

DIAMANTINO

Uma coisa não dá para negar de DIAMANTINO: sua singularidade. E é um filme que abraça o seu protagonista a ponto de se tornar um com ele. Ou algo próximo disso, já que há vários momentos em que apenas o espectador ri das situações. Diamantino não tem consciência do que está acontecendo, embora como narrador onisciente ele passe a ter. Há também as boas alfinetadas na extrema direita e no que o mundo vem se tornando. Direção: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Ano: 2018.

sexta-feira, maio 24, 2019

ALADDIN


Que bela surpresa este novo ALLADIN (2019)! Embora se trate de um remake da animação dos anos 90, representa mais do que isso, com um frescor impressionante, ao trazer de volta o fascínio pelo conto retirado do clássico As Mil e uma Noites. Me entusiasmei com as aventuras do jovem ladrão de ruas gentil e apaixonado pela princesa de seu reino.

Quanto às canções, para quem não gosta tanto de musicais, elas não apenas não incomodam, como são importantes para que o clima de fantasia e de magia contagie o espectador. Tudo pode acontecer em um filme em que um gênio sai de dentro de uma lâmpada. Quem espera um "senta, que lá vem música" bem chato já pode se animar, pois as canções emocionam tanto pela beleza da melodia quanto pelo conjunto da cena, como no momento em que Aladdin e Jasmine passeiam em cima do tapete mágico.

A Disney tem uma característica que pode ser vista como um defeito, mas também como uma qualidade: o fato de querer fazer filmes como se ainda estivesse na década de 1950. E por isso há quem ache algumas de suas produções, especialmente essas que lidam também com canções, como foi também o caso de A BELA E A FERA, de Bill Condon, como algo velho, embora uma obra excelente como MOGLI, O MENINO LOBO, de Jon Favreau, pareça bastante moderna em certos aspectos.

Em um ano em que temos três adaptações de clássicos da animação da casa do Mickey para live action - o primeiro foi DUMBO, de Tim Burton, e o próximo será O REI LEÃO, de Jon Favreau -, ALADDIN, dirigido pelo irregular Guy Ritchie, encanta com seu colorido à Bollywood, seu dinamismo narrativo e uma trinca de personagens principais bastante carismáticos: Will Smith, como o gênio da lâmpada; Mena Massoud, como o Aladdin; e Naomi Scott, como a princesa Jasmine.

E que princesa! Naomi Scott já havia aparecido em POWER RANGERS, mas é neste filme que sua beleza e brilho se destacam. E muito em breve vamos poder vê-la na nova versão de AS PANTERAS. Ela justifica o espectador torcer pelo Aladdin, ao se colocar em seu lugar na jornada. Afinal, quem nunca fantasiou sobre ter a possibilidade de ter direito a três desejos realizados em um passe de mágica?

Além do mais, ALADDIN é um filme sobre ter sabedoria na hora de exercitar os seus desejos, a fim de não se deixar levar pela ambição cega. Que é basicamente o caminho do personagem de Marwan Kenzari, que interpreta o vizir, o conselheiro do Sultão. Quanto à princesa, vale destacar o quanto ela é mais valorizada nesta versão em comparação com a animação. Isso se deve tanto ao roteiro quanto à própria atriz, que empresta um encanto muito bem-vindo à personagem.

Assim, a história de amor com Aladdin ganha força. Ainda que a aventura e a fantasia sejam talvez os elementos mais fortes do filme, o que leva o herói a fazer o que faz é o amor que ele sente pela princesa. Um amor que é recíproco, mas que tem como primeiro obstáculo o fato de que ela deve se casar, segundo a lei, apenas com um outro príncipe, não com um plebeu qualquer como Aladdin. Mas o que seriam das histórias de amor sem os obstáculos?

Quanto às canções, os clássicos de Alan Menken e Howard Ashman para a animação de 1992 retornam, mas há uma novidade feita especialmente para Jasmine, "Speechless", música de Menken, e letra de Pasek & Paul, cantada com entusiasmo e brilho pela própria Naomi Scott em um momento particularmente cheio de emoção. Pois é. Há muitos motivos para ficar entusiasmado com este filme que parecia ter um destino um tanto incerto.

+ TRÊS FILMES

NASCE UMA ESTRELA (A Star Is Born)

Gostei mais deste do que do filme do Minelli! Mas ainda tenho meus problemas com a parte musical. Queria ter gostado mais das canções, já que elas são tão importantes para o todo. E embora a presença de Lady Gaga seja ótima, a interpretação do Bradley Cooper é que está sensacional. Tocante, emocionante como o personagem do artista decadente. Bela estreia na direção também. Direção: Bradley Cooper. Ano: 2018.

PAPILLON

Filmes sobre tentativas de fuga de prisões quase sempre são bons de ver. Mas a intenção do novo PAPILLON parece ser mais ambiciosa. Infelizmente acabamos sentindo um pouco de indiferença pelos personagens, por mais que goste do personagem do Malek. E também gosto do fato de ser um filme sobre amizade. Mas depois de ver UMA NOITE DE 12 ANOS, o horror da prisão do Papillon até perde força. Direção: Michael Noer. Ano: 2017.

CEMITÉRIO MALDITO (Pet Sematary)

O legal desta nova versão de CEMITÉRIO MALDITO são as surpresas. Quem acha que vai ver a mesma história do filme de Mary Lambert vai ver algumas situações que tornam a obra até melhor. Embora a conclusão não tenha sido tão boa, não deixa de ser um belo trabalho sobre uma tragédia familiar de grandes proporções, a partir da atração pelo mal. Sempre bom ter um ator gigante como John Lithgow presente. E a garotinha também é muito boa. Não lembro se o anterior ou mesmo o romance de Stephen King (que eu adoro!) tem o flashback da irmã da esposa/mãe da família. Direção: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. Ano: 2019.

quinta-feira, maio 16, 2019

A GAROTA DE LUGAR NENHUM (La Fille de Nulle Part)

Faleceu no último sábado, 11, Jean-Claude Brisseau, 74, um dos cineastas mais brilhantes surgidos nas últimas quatro décadas, ainda que sua popularidade seja restrita a um círculo relativamente pequeno de apreciadores de cinema. O filme que escolhi para ver em sua homenagem foi um de seus últimos trabalhos, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), que até tem um sabor de filme-despedida, ao mesmo tempo em que é também um trabalho de satisfação no fim da vida.

Há uma série de questões filosóficas que são discutidas, inclusive de natureza judaico-cristãs, e há também um namoro com o sobrenatural, coisa que já havia sido abordada fortemente no anterior ERÓTICA AVENTURA (2008). Aqui, diferente do anterior, porém, o erotismo é praticamente deixado de lado. O que combina com a proposta do filme, mas ligado à filosofia, ao misticismo e às angústias existenciais (fala-se tanto nas possibilidades de comunicação com os mortos quanto em reencarnação).

Assim como em OS ANJOS EXTERMINADORES (2006), há algo hostil que ronda o protagonista, Michel Deviliers, vivido pelo próprio Brisseau. Fenômenos paranormais passam a acontecer em sua residência (a locação é o próprio apartamento do cineasta) a partir do momento em que ele abriga uma garota que estava sendo agredida em seu prédio. Dora (Virginie Legeay), a jovem, traz para aquele velho e amargurado professor mais gosto pela vida, embora a relação entre os dois seja mais de pai e filha, devido principalmente à grande diferença de idade.

Solitário, mas bastante à vontade com a própria solidão, tendo os estudos como aliado, principalmente depois da morte da esposa, Deviliers passa a perceber em Dora alguém com quem ele pode compartilhar seus pensamentos, que estão sendo transpostos para um livro, bem como ajudá-lo a se sentir menos só. Os diálogos entre os dois são tão ricos e densos que seria interessante parar o filme em determinados momentos para anotar e refletir a respeito de certas questões.

Algumas cenas são particularmente marcantes, seja do ponto de vista da ternura, como em uma cena aparentemente independente da trama principal, que mostra uma ex-aluna de Deviliers abordando-o na rua para agradecê-lo por ter sido tão importante para que ela abrisse os olhos para o cinema e para as artes; seja do ponto de vista do medo, como na cena do fantasma com uma faca na mão adentrando o quarto do protagonista. Há também uma muito interessante cena de sessão espírita que pode assombrar espectadores mais impressionados. Momentos marcantes não faltam para ficar na memória neste penúltimo filme de Brisseau.

+ TRÊS FILMES

VARDA POR AGNÈS (Varda par Agnès)

Seria muito bom se cada grande cineasta pudesse fazer em vida o que a Agnès Varda fez aqui, aos 90 anos, e perfeitamente lúcida e bem-humorada: fazer um balanço de sua carreira e de suas obsessões como artista. No caso de Varda, hoje considerada a maior das cineastas mulheres de todos os tempos, ela prefere contar sua história como diretora - e também como mulher - como num fluxo de consciência, não exatamente seguindo uma ordem cronológica. Assim o filme segue numa linha narrativa muito bonita. Uma pena que até entre os estudantes de cinema presentes em sua palestra, apenas alguns "gatos pingados" viram seu filme mais conhecido, CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962). Há muito a se descobrir, portanto. Falo por mim também, que só vi três de seus filmes. Ano: 2019.

SUPREMA (On the Basis of Sex)

Certas histórias merecem ser contadas e ao final da sessão em que estive houve até salva de palmas, mas uma pena que a história de Ruth Bader Ginburg tenha resultado em um filme tão quadradinho e monótono. A força está basicamente na protagonista e em sua luta para conquistar a igualdade de gênero nos Estados Unidos, ela que sofreu preconceito sendo mulher na faculdade de Direito em Harvard. Direção: Mimi Leder. Ano: 2018.

DIE BEISCHLAFDIEBIN

Terceiro trabalho de Christian Petzold para a televisão e que continuava sua obsessão por mostrar pessoas marginais em busca de um escape para a vida. Aqui acompanhamos uma mulher que ganha a vida executando golpes em homens durante primeiros encontros em bares e hotéis. O filme cresce quando ela parte para a casa da irmã e ocorre um dinamismo interessante entre as duas, que são bem diferentes. Há um misto de melodrama com algo próximo de UM CORPO QUE CAI, que seria algo que o diretor trabalharia em PHOENIX (2014) no futuro. Ano: 1998.

segunda-feira, maio 13, 2019

LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (Di Qiu Zui Hou De Ye Wan)

O cinema é a forma de arte que mais se aproxima do sonho, por mais que a intenção de boa parte dos cineastas seja a busca de uma impressão de realismo. E é até compreensível, levando em consideração que nem todos conseguem trabalhar de maneira satisfatória com o sonho no cinema. Ao falar de sonho lembra-se de Luis Buñuel, de David Lynch, de Alejandro Jodorowsky, de Alain Resnais, de Andrei Tarkovski, de Ingmar Bergman. São poucos, na verdade, os cineastas que conseguem transformar o cinema em matéria de sonho.

Eis que, do cinema chinês, que atualmente vem tratando mais de questões sociais e políticas em seus dramas, surge o jovem cineasta Gan Bi e seu impressionante LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (2018), que pega emprestado o título da peça de Eugene O’Neill, embora não guarde muita relação. O título é explicativo quando entramos na segunda metade do filme, que usa um longo plano-sequência para nos levar para uma jornada noturna em busca de uma mulher. Por mais que a primeira parte seja hermética e por vezes confusa, uma vez que passamos por ela, somos tragados por uma das mais fascinantes viagens já mostradas pelo cinema.

A primeira parte lida com o tempo escorregadio e o caráter vago da memória. A memória de quase duas décadas, quando o protagonista Luo Hongwu (Jue Huang) conheceu uma mulher misteriosa, Wan Qiwen (a bela Wei Tang, de DESEJO E PERIGO). Fragmentos de memória parecem se juntar a imagens de ficção ou de sonhos, como que de um filme visto por Hongwu que talvez tenha se misturado às lembranças.

Em entrevista à revista Cinema Scope, de setembro de 2018, Gan Bi disse que sempre se sentiu em perigo durante as filmagens, como se ele sempre estivesse prestes a destruir o filme, a fazer alguma decisão errada, ou a destruir a si mesmo. Algo parecido pode ser refletido no espectador, como uma espécie de angústia, ao mesmo tempo em que a sensação de se perder na noite é extremamente excitante.

É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante.

O que dizer da cena do ping-pong com o garoto na mina? E da raquete mágica? E a do encontro com a garota da sinuca? E a conversa com a mulher da tocha? São cenas tão cheias de elementos oníricos fortes que nos arrebatam como poucos. E ainda por cima há todo um cuidado visual. Há o vestido verde de Wan Qiwen: sempre que a cor aparece nos lembramos dela. Há um cuidado todo especial com cada enquadramento, cores e cenário, mesmo sendo tudo tão sombrio e noturno. Meus amigos, estamos diante de um dos grandes filmes do novo século.

Um detalhe curioso da carreira comercial de LONGA JORNADA NOITE ADENTRO é que o filme teve uma campanha de marketing na China semelhante à de um blockbuster (há a utilização de tecnologia 3D na segunda metade em algumas salas, o que ajuda), mas que ocasionou muitas reclamações. Afinal, ninguém estava preparado para um filme de arte. Assim, houve uma saída em peso de pessoas no meio dessas sessões iniciais. Assim, o filme acabou faturando bastante no dia da abertura, embora tenha caído nos dias seguintes. Ou seja, parte do público foi enganado, mas nem por isso deixou de ser, ainda que não admita, privilegiado.

+ TRÊS FILMES

YOUR NAME. (Kimi No Na Wa)

A trama desta bela animação lembra um pouco A CASA DO LAGO, de Alejandro Agresti. Começa com uma troca de corpos entre um menino e uma menina que moram em lugares diferentes do Japão. Ambos intervêm de alguma maneira na rotina do outro, da mesma forma que passam a conhecer a vida um do outro. Há uma reviravolta que eleva o filme e torna o que estava ficando repetitivo em algo valioso e urgente. Direção: Makoto Shinkai. Ano: 2016.

OS SONÂMBULOS

Acho importante que tenhamos filmes que discutam nossa situação política sombria, mas é ruim quando esses filmes têm uma linguagem um pouco mais próxima da audiência. Nada contra hermetismos, mas nesse caso aqui, dura quase duas horas e chega um momento que a narração tediosa convida ao sono. Além do mais, há o problema de o filme tratar de uma situação menos grave do Brasil, de quando o problema era apenas o país ter sido vítima de um golpe. Agora a situação é muito pior. Que novos filmes tenham a chance de falar a respeito. Direção: Tiago Mata Machado. Ano: 2018.

ALBATROZ

Não me lembro de ter visto na filmografia brasileiro um filme tão assumidamente lynchiano. Há referências explícitas a VELUDO AZUL e a trama é mais intrincada (deveria dizer, perdida, no caso) do que CIDADE DOS SONHOS e ESTRADA PERDIDA. É uma pena, pois a brincadeira começa até bem, mas vai se perdendo à medida que vai chegando perto da conclusão. Na verdade, bem antes disso. É bom que exista um filme como esse, um corpo estranho dentro de lançamentos brasileiros e num cinema de shopping, ainda por cima, mas que pena que um elenco tão legal tenha sido mal aproveitado em um enredo que apostou na confusão e achou que era o suficiente para ganhar o espectador que gosta de desafios. Direção: Daniel Augusto. Ano: 2019.

quinta-feira, maio 09, 2019

COMANDO NEGRO (Dark Command)

Que saudade do tempo em que eu conseguia fazer as chamadas peregrinações pelas obras de vários cineastas. Quem acompanhou este blog em seu auge deve lembrar do quanto eu me entusiasmei em ler e falar de obras de feras como Hitchcock, Ford, Hawks, Ray, Cukor, Truffaut, Rohmer. De preferência, de posse de um livro que abordasse suas obras, sejam livros de entrevistas ou livros de ensaios. Daí o livro Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich, ser tão importante pra mim. Sabiam que até hoje não terminei de ler o livro, só porque quero ver os filmes dos diretores que são entrevistados? Um deles é Raoul Walsh, o sujeito que roubou o cadáver de um amigo apenas para assustar o outro. Pois é, em Hollywood tinha dessas coisas.

Conhecido como o cineasta aventureiro, Walsh poderia ser tão adorado quanto Ford, até por ter dirigido mais filmes do que ele, e também ter tantos clássicos de variados gêneros em sua filmografia. Vários de seus filmes da fase silenciosa estão infelizmente perdidos, mas como são 139 títulos (de acordo com o IMDB), incluindo curtas e longas, creio que nunca conseguirei terminar de ver todos os filmes dele, a não ser que me dedicasse exclusivamente a ele. Sem falar que alguns desses trabalhos muito provavelmente não estão disponíveis tão facilmente. Digo, aqueles que não são dados como perdidos.

Mas o importante é que um filme como COMANDO NEGRO (1940) está à disposição. Engraçado a minha história com essa obra. Tenho interesse em vê-lo desde que vi sendo destaque de uma sessão de lançamentos em VHS da revista SET. Na época, a crítica o colocou ao lado de JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray. E são filmes bem diferentes, na verdade, embora ambos sejam westerns.

Walsh dirigiu COMANDO NEGRO logo após o sucesso de público e crítica do drama criminal HERÓIS ESQUECIDOS (1939), uma belezura que marcou a safra rica dos filmes de gângster de Hollywood. E COMANDO NEGRO marca a reunião de Walsh com John Wayne, com quem trabalhou em um dos títulos mais famosos da fase inicial da carreira do caubói, A GRANDE JORNADA (1930). Aliás, foi Walsh quem praticamente criou John Wayne, que antes desse filme de 1930 ainda não tinha adotado o seu nome - ainda se chamava Marion Morrison, um nome feminino, mas seu nome de batismo.

Infelizmente a entrevista contida no livro de Bogdanovich não chega a iniciar a fase falada de Walsh. COMANDO NEGRO se passa em um momento anterior à Guerra Civil Americana, quando o personagem de Wayne, um caubói iletrado, chega a uma cidadezinha com seu amigo médico picareta, para ganhar algum dinheiro: Wayne bateria nos homens, que por sua vez, iriam arrancar o dente com o amigo dele. A trapaça deixaria de fazer parte da vida do protagonista no momento em que ele se tornaria o xerife eleito da cidade, vencendo o professor (Walter Pidgeon) que posteriormente se mostraria o verdadeiro vilão, ao começar a roubar e matar usando fardas de soldado da confederação quando a guerra eclode.

O motivo do herói ficar na cidade é um só: uma bela mulher (Claire Trevor), de família nobre, e que é constantemente convidada a se casar com o professor. Mas seu coração balança pelo charmoso iletrado de bom coração que chegou à cidade. Algo acontece que os afasta do casamento e a história se desenvolve com uma rapidez característica das obras de Walsh, um homem que provavelmente faria sucesso nos dias rápidos de hoje também.

Há quem diga que os heróis de Walsh são homens em crise pessoal, homens que não têm nada com o que se agarrar. O herói de COMANDO NEGRO surge assim. Porém, ele sente que tem algo a que se apegar quando se apaixona. E depois quando se dedica à profissão de homem da lei. É um homem que se reinventa de fato, como diz o crítico americano Dave Kehr no ensaio "Crisis, Compulsion, and Creation: Raoul Walsh’s Cinema of the Individual", um dos mais belos textos sobre a personalidade dos filmes do diretor.

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DUMBO

Provavelmente seja um dos clássicos da Disney que mais envelheceu com o tempo. Feito após o sucesso de crítica de Fantasia, este filme tenta trabalhar com as possibilidades da animação sem necessariamente se preocupar tanto com a história, que aqui é um fiapo. Tanto que o filme só tem uma hora e poucos minutos de duração. A sequência em que Dumbo finalmente voa demora e eu esperava que fosse um pouco mais emocionante. Podiam ter explorado mais a tristeza da separação dele da mãe. E acho que os corvos hoje em dia talvez fosse uma escolha de gosto duvidoso, representado com vozes de negros. Mas, enfim, não deixa de ser um interessante retrato de uma época. Direção: Samuel Armstrong, Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts, Ben Sharpsteen, John Eliotte. Ano: 1941.

PERSONA/QUANDO DUAS MULHERES PECAM (Persona)

Ver PERSONA no cinema não tem preço. Foi minha primeira vez, embora já tenha visto o filme em casa três vezes. Mas é um filme tão etéreo, tão pouco palpável, que é como se fosse um sonho que a gente esquece. Um sonho importante e de imagens poderosas. E de texto poderoso. Como Bergman conseguia isso?! É impressionante. Cada quadro, cada cena merece um estudo à parte. E que valorização dos rostos das mulheres! Não sei se outro diretor era capaz disso. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1966.

SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the O.K. Corral)

Depois de ter visto o excelente A LEI DA FRONTEIRA, de Allan Dwan, fica difícil não fazer uma série de comparações com mais este filmes que trata de Wyatt Earp e Doc Holliday. Além de não trabalhar tão bem a amizade dos dois, o clímax chega a ser até enfadonho. O que eu mais gostei foi da parte técnica. A fotografia em technicolor é linda e a cópia em 720p dá uma dimensão do que deve ter sido ver esse filme no Vistavision, na época. Direção: John Sturges. Ano: 1957.

quarta-feira, maio 01, 2019

EM TRÂNSITO (Transit)

Alguns dos trabalhos dos grandes autores do cinema já têm em seu primeiro filme a semente do que veríamos quando o referido autor se torna um dos grandes. É o que acontece quando vemos, por exemplo, PINOTINNEN (1995), primeiro longa-metragem de Christian Petzold, feito para a televisão. Esse filme já antecipava o que veríamos em obras mais consagradas do cineasta, como a chamada trilogia do amor em tempos de sistemas opressivos, composta por BARBARA (2012), PHOENIX (2014) e o novo EM TRÂNSITO (2018).

O novo filme, inclusive, retoma o cenário dos personagens tristes e largados em cafés como ponto de partida, como podemos ver tanto no primeiro filme quanto no segundo, CUBA LIBRE (1996). Nesse segundo filme, aliás, também temos personagens em busca de lugares que sirvam como oásis para sua vida fracassada. Também como os primeiros filmes, EM TRÂNSITO tem um aspecto mais ensolarado no modo como destaca as principais cenas à luz do dia, contrastando com a ideia de que se trata de uma espécie de film noir, com vários elementos desse subgênero que teve o seu auge nas décadas de 1940 e 50, inclusive com o uso de uma voice-over, ainda que em terceira pessoa, dando um ar de fábula à narrativa.

Engraçado que quando comecei a ver o filme, talvez influenciado por alguma sinopse, jurava que se tratava de um drama de época. Mais especificamente nos tempos da ocupação alemã na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, só fui perceber que aquilo ali estava mais para uma distopia se passando numa espécie de presente ou futuro próximo depois de ver pequenas coisas mais modernas, como um telão de LED, e depois os carros, que não tinham nada de exemplares dos anos 40.

Como atualmente vivemos um período de ascensão da extrema direita e do neonazismo e também um momento de falta de sensibilidade para com os refugiados, vistos como ameaças por muitos, é fácil estabelecer uma conexão entre o filme e este mundo ensolarado para uns, mas bem triste para os demais, com a série crescente de absurdos acontecendo de modo que a cada dia fiquemos acostumados à violência. Há uma cena no filme em que os alemães buscam uma mulher refugiada de um apartamento e arrastam-na pelo corredor enquanto várias pessoas apenas testemunham, de certa forma aliviadas por aquilo não estar acontecendo com elas.

E até agora não falei do fio condutor principal, que faz do filme um melodrama. Temos a história de Georg (Franz Rogowski, ator que lembra fisicamente Joaquin Phoenix), um homem que vive uma vida despida de muito sentido. Quando ele entra em um apartamento e se apossa dos manuscritos e dos documentos de um escritor que cometeu suicídio, aquilo posteriormente será a chance para que ele mude de identidade e finalmente possa ir embora para outro lugar do mundo - o México ou os Estados Unidos.

Mas o grande impulso para Georg está em ter se apaixonado por uma mulher (Paula Beer, de FRANTZ), que embora viva com outro homem, tem como meta de vida encontrar o marido desaparecido. O peso do filme no triângulo amoroso confere à obra um tom mais universal, embora se distancie bastante das histórias de amor mais usuais. Petzold ainda prefere apostar na melancolia de personagens à deriva desse novo velho mundo do início do novo milênio.

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PILOTINNEN

É muito interessante descobrir as obras iniciais de um cineasta que agora está no seu auge. No caso de Christian Petzold, ele começou de maneira bem modesta mesmo: primeiro com vídeo e depois com uma série de filmes para a TV. Este foi o primeiro desses filmes. A narrativa é ágil, mas às vezes parece falhar em alguns momentos, como nas más explicações dos relacionamentos das duas mulheres e seus homens. Mas acho que deve ser proposital isso, já que os caras são mesmo uns pulhas. Ano: 1995.

FAMÍLIA SUBMERSA (Familia Sumergida)

Eis um filme que é um exemplo de resistência. Mais exatamente de resistência para quem assiste. Do público presente na sessão, mais da metade saiu no meio. Achei complicado o meu envolvimento com o drama da personagem de Mercedes Morán, que é ótima sim, mas devido aos experimentalismos deste trabalho o impacto de seu sofrimento parece confuso. Há um flerte com o cinema de horror em alguns momentos, com as imagens de possíveis fantasmas vistos por ela, mas isso também tem pouco impacto na criação de uma atmosfera de medo ou estranheza. Lembrei um pouco de alguns trabalhos de Lucrécia Martel, que também costumam me incomodar. Não por acaso a diretora foi atriz de A MENINA SANTA, de Martel. Direção: María Alché. Ano: 2018.

AYKA

Mais um desses filmes que exageram na dose do "quanto mais desgraça melhor". Mas ao menos este aqui não utiliza de música ao fundo para puxar à força a tristeza. Por isso o sucesso de premiações do filme, que tem destacado a atuação da protagonista. Até por ela estar tão presente no filme, inclusive nos momentos mais íntimos de sua rotina sofrida. Vemos aqui a história de uma imigrante clandestina que foge de uma maternidade depois de ter a criança e está devendo dinheiro à máfia, tendo que trabalhar em empregos pouco atraentes para conseguir sobreviver. Direção: Sergei Dvortsevoy. Ano: 2018.

domingo, abril 28, 2019

VINGADORES - ULTIMATO (Avengers - Endgame)

Acho bem complicado falar de VINGADORES - ULTIMATO (2019) evitando os spoilers. Portanto, já aviso que este texto deve ser lido apenas por quem já viu o filme, a fim de que não comprometa a apreciação da obra cinematográfica. A própria Marvel já vinha guardando a sete chaves o roteiro e o que de fato acontece nesta sequência de VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018). Os trailers disponibilizados não dão ideia do caminho que o filme trafegará e levará junto os espectadores. E isso é muito positivo, já que temos uma grande surpresa logo nos primeiros minutos.

Ora, quem conseguiria imaginar que a chegada da Capitã Marvel (Brie Larson) seria tão rápida e o reencontro dos heróis com seu algoz Thanos (Josh Brolin) ocorreria tão de imediato? Assim, depois de recolhermos nosso queixo do chão e nos adiantarmos cinco anos na narrativa, somos apresentados a heróis alquebrados, sentindo-se totalmente frustrados por não terem conseguido recuperar as joias do infinito e vivendo em um mundo tão calmo quanto um cemitério. É neste mundo terrível que reaparece do universo subatômico Scott Lang, o Homem-Formiga (Paul Rudd). E é justamente ele quem traz uma ideia meio maluca que pode ser a resposta para a resolução dos problemas da humanidade: e se pudéssemos voltar no tempo para reverter o que foi feito por Thanos?

E eis que estamos diante de mais um excitante filme sobre viagens no tempo, e que consegue aproveitar isso para homenagear os mais de dez anos de produções dos estúdios Marvel. Assim, até mesmo filmes menores, como THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013) e VINGADORES - ERA DE ULTRON (2015), podem ser reavaliados positivamente. Como, aliás, todo o conjunto da obra do estúdio, que contou com mais acertos do que erros nesse período celebrado pelos talentosos irmãos Anthony e Joe Russo, que saem de cena como gigantes depois de quatro bem-sucedidas produções para a Casa das Ideias.

Uma das características da Marvel, desde sua criação nos anos 1960, é conseguir apresentar heróis tão humanos que se torna fácil a identificação com o público leitor. O mesmo não se pode dizer da distinta concorrência, por exemplo, que eleva quase sempre à categoria de deuses os seus heróis. Aqui, no entanto, até mesmo um deus, Thor (Chris Hemsworth), se torna humano e fraco, especialmente quando sobre si está o peso maior de ter falhado em sua luta contra Thanos em momento tão decisivo. Daí ele se entrega à bebida e fica fora de forma. A figura patética de um Thor barrigudo é motivo de riso, mas ao mesmo tempo que rimos sabemos que aquele homem-deus está sofrendo e que merece a nossa solidariedade.

Aliás, um dos grandes méritos do filme (dentre vários) é saber lidar com a trajetória de seus três principais heróis: Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e o já mencionado Thor. Eles são a base dos Vingadores e a cena dos três avançando, já no terceiro ato do filme, para duelar contra Thanos, tem um significado simbólico muito forte.

Por isso, terminar a história com uma vitória com gosto amargo, devido à morte de dois heróis tão queridos, é também uma vitória da força da construção de personagens pelos quais nos importamos. Daí tanta gente estar saindo da sessão tão emocionada. Para quem é fã de quadrinhos, então, VINGADORES - ULTIMATO é um verdadeiro presente, algo jamais imaginado 15 anos atrás. Ainda mais quando pensamos na batalha final, trazendo tantos heróis juntos. Nem o grande número de efeitos digitais diminuem a empolgação e a torcida dos espectadores pelos heróis.

E isso acontece principalmente porque os roteiristas e os diretores sabem muito bem lidar com tantos personagens diferentes agindo em espírito de equipe no meio do caos daquela batalha. E se dizem que quadrinhos de super-heróis fazem as pessoas melhores, podemos dizer o mesmo de um filme como este, que prestigia tanto o heroísmo quanto o amor, em seu sentido mais amplo.

Falar de cada personagem aqui levaria tempo e tornaria o texto chato e sem unidade. Mas vale destacar que tivemos o melhor momento de Scarlett Johansson como a Viúva Negra; o melhor momento do Hulk (trazer o Hulk inteligente com a cara do Mark Ruffalo foi uma ideia genial, e mais genial ainda foi confrontá-lo com sua imagem no primeiro filme dos Vingadores); e o melhor momento também do Clint Barton (Jeremy Renner), como personagem atormentado - o filme começa com ele. Enfim, quem falou que três horas é demais é não pensar em quantos heróis os realizadores precisavam dar conta. E podemos dizer que o resultado foi glorioso. Eis um sério candidato a melhor filme de super-heróis já feito.

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DUMBO

Eu ando bem desanimado com o cinema de Tim Burton, embora não perca nenhum filme dele no cinema. É sem dúvida um autor, mas sua ligação direta com o cinema clássico estilo sessão da tarde modorrenta me cansa um bocado. Quem sabe se trocassem o trilheiro habitual o filme ganhasse o meu interesse. Eu gosto bastante da Eva Green e sua personagem, inclusive. E o Colin Farrell também está muito bem. Mas por que tudo parece pouco atraente? Ano: 2019.

CÓPIAS - DE VOLTA À VIDA (Replicas)

É um filme que eu torcia muito para que desse certo. E até que deu, em parte. A primeira metade, focando na angústia do personagem e na sua obsessão em trazer a família morta de volta, é muito boa. O personagem do rapaz que ajuda Keanu Reeves na missão secreta também é muito bom. O filme se perde quando tenta finalizar com uma trama de gato e rato que, além de começar quando a história já está perdendo o pique, não tem tempo para conquistar o sentimento de credulidade do espectador. Direção: Jeffrey Nachmanoff. Ano: 2018.

VINGANÇA A SANGUE FRIO (Cold Pursuit)

O mesmo diretor realiza a refilmagem de O CIDADÃO DO ANO (2014). Não vi o original, mas tenho impressão que deve ser melhor do que este aqui, mesmo com a boa presença de cena do Liam Neeson. O que me incomodou nem foi a frieza com que a morte é tratada, de todas as maneiras, inclusive por parte do protagonista, mas como a gente não dá a mínima para o que acontece com os personagens e nem torce para que ele se vingue dos responsáveis pela morte do filho. Destaca-se o humor negro e o personagem do garotinho, que podia ter um papel maior. Aliás, ridículo o papel dado a Laura Dern. Direção: Hans Petter Moland. Ano: 2019.

quarta-feira, abril 24, 2019

21 CURTAS BRASILEIROS


CARAMUJO-FLOR

Para se ver cinema-poesia é preciso estar em um estado de espírito bem apropriado. Acho que estava um pouco quando vi OLHO NU (2014), do Pizzini, longa-metragem que contou com Ney Matogrosso. Na época do longa, muito se falava deste curta, também com o Ney, mas com uma proposta totalmente distinta. Confesso que nem sei dizer sobre o que é o filme, mas gosto da força das imagens, tanto as primeiras, focadas na cidade grande, quanto as da natureza e dos corpos humanos e animais. Direção: Joel Pizzini. Ano: 1998.

CHÁ VERDE E ARROZ

Belo filme sobre exibidores japoneses de cinema itinerante no interior paulista. Quase todo falado em japonês, o filme se passa nos anos 50 e conta a história de um ex-benshi (narrador de filmes mudos) que agora tem a missão de exibir filmes japoneses para comunidades. O personagem do menino lembra um pouco o de CINEMA PARADISO, mas as condições aqui são mais precárias. Direção: Olga Futemma. Ano: 1989.

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DAS GENTES DE SANTOS

Época ainda em que os curtas brasileiros faziam sucesso lá fora, mesmo quando a retomada ainda estava iniciando. Havia também esse tipo de filme bem-humorado um pouco herdeiro da TV PIRATA, que brinca de maneira inteligente com o documentário para contar uma longa história da cidade de Santos desde a colonização até a redemocratização. Ney Latorraca aparece como diversos personagens. Direção: André Klotzel. Ano: 1996.

EL MACHO

Admirável animação que aborda a libido masculina frente a uma mulher com uma voluptuosidade digna de Druuna, mas ainda mais acentuada pelos exageros cartunescos. Ainda assim, o filme, ao mesmo tempo que tira onda do desejo masculino, também namora a moça no elevador, passando por baixo de seu vestido e acentuando os faróis acesos. Não conhecia e fiquei admirado. Só não gosto tanto da segunda metade, centrada na possessividade. Direção: Ennio Torresan. Ano: 1993.

BRASIL PITORESCO: VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES

Um filme que requer olhares curiosos sobre o Brasil dos anos 1920 e sobre o que há de registrado desse país em filme. Este é um filme de uma viagem do diretor à Bahia, passando primeiro por Salvador e depois adentrando outras cidades, com aspecto mais "exótico". Brigas de galos, pessoas subindo no coqueiro, a pesca etc. Curiosamente o final não tem cara de final. Ou então se perdeu no meio do caminho. Direção: Cornélio Pires. Ano: 1925.

DEUS É PAI 

Curta bastante anárquico sobre uma DR entre Deus e Jesus em um consultório de psicanálise. O diretor faz questão de deixar sua técnica de animação tão anárquica quanto as palavras do rebelde Jesus, que tem ressentimento do pai, que por sua vez lamenta certos atos do filho. Queria ter achado mais graça. Talvez depois de 20 anos a heresia tenha deixado de ser tão forte. Direção: Allan Sieber. Ano: 1999.

O ATAQUE DAS ARARAS 

O filme tem um clima anárquico e aparentemente descompromissado que parece não ter muito interesse em contar em detalhes sobre a viagem de Jairo Ferreira, acompanhando um grupo de teatro. Mesmo com a narração divertida de Carlos Reichenbach, a impressão que fica é que o grupo ali formado é do pessoal da Boca, já que são eles os citados. Gostaria de saber mais detalhes dos bastidores deste curta. Direção: Jairo Ferreira. Ano: 1975.

CANTOS DE TRABALHO

Além da ideia ser muito boa (selecionar cantos de trabalho de diferentes tipos de labuta e mostrar homens e mulheres trabalhando), as imagens de Humberto Mauro são sempre certeiras e poéticas, com uma montagem brilhante. Com o distanciamento temporal, é fácil achar tudo muito estranho: aquelas canções, as imagens etc, mas isso é normal. As canções já eram velhas em 1955. Leon Hirszman fez algo parecido posteriormente. Ano: 1955.

CARRO DE BOIS 

Filmaço este último trabalho de Humberto Mauro e o único colorido de sua carreira. Com narração linda de Hugo Carvana, o filme tem um tom de poesia dolorida. O próprio som do carro de bois já é um lamento em si, e ver aqueles animais passando pelos mais diversos obstáculos para fazerem aquele trabalho não é tão fácil. Em meio à dor, a poesia, a beleza tanto do trabalho quanto da inteligência do homem em saber lidar com aquilo que lhe é possível ter e fazer. Em algum momento, o filme tenta ser um tanto didático, mas só em algum momento. Em sua maior parte é poesia pura. Tanto em imagens quanto na palavra narrada. Ano: 1974.

HANDEBOL 

Pra quem viu e gostou de MATE-ME POR FAVOR vai gostar bastante de voltar ao universo escolar e juvenil de meninas tão atraentes quanto enigmáticas, tão violentas quanto doces. A primeira cena remete a Crepúsculo e achei que fosse entrar como uma versão melhorada do blockbuster, mas o filme nega isso e vai por um outro caminho, nunca deixando de ser intrigante. As imagens são lindas. Baita realizadora a Anitta. Direção: Anitta Rocha da Silveira. Ano: 2010. 

DOV'È MENEGHETTI? 

Passei muito tempo para finalmente ver este curta, que já era famoso antes mesmo de Beto Brant se tornar o cineasta prestigiado que se tornou. Hoje é um dos meus preferidos realizadores em atividade. Aqui ele faz um filme quase todo falado em italiano sobre um ladrão difícil de ser capturado pela polícia e que tem muita intimidade com os telhados. As cenas dos telhados com as imagens ao fundo são admiráveis do ponto de vista formal. Mas o filme não me empolgou, não. Fodas mesmo são os longas do Brant. Ano: 1988.

DI 

Impressionante como fiquei incomodado com o grau de irreverência com que Glauber Rocha se utiliza do velório do pintor Di Cavalcanti pra fazer seu filme. Tudo bem que não deixa de ser uma homenagem e espantar a tristeza pode ser uma ótima pedida, mas ainda assim a sobreposição de músicas com a narração em voice-over do próprio Glauber, com aquele jeito todo próprio de falar, como se estivesse vendendo mais uma vez o projeto do Cinema Novo, tudo é um bocado estranho. Como estranheza é algo bem-vindo no cinema, e Di é desses filmes cultuados, é obra imperdível sim. Eu é que tenho cisma com o diretor. Ano: 1977.

CARTÃO VERMELHO 

Havia esquecido que já tinha visto este filme. Não achei tão marcante, ainda mais que me incomoda no começo a menina ficar chutando bola nas bolas dos meninos. Mas isso tem uma razão de ser no conto, embora eu também ache questionável a conclusão, por mais que tenha sido pensado por uma mulher. Dá impressão que hoje a atitude de revanche dos meninos seria vista como quase um estupro, e extremamente traumatizante para a protagonista. Mas isso pode ser sinal de que o curta ainda segue forte. Direção: Laís Bodanzky. Ano: 1994.

CHAPELEIROS 

A princípio pode parecer um filme tedioso sobre operários trabalhando em uma fábrica de chapéus em Campinas-SP. E não há nenhum diálogo, apenas imagens do trabalho desses homens e dessas mulheres. Mas é preciso que a câmera insista nas imagens, inclusive na cena da saída da fábrica, para que finalmente possamos perceber o quanto é desumana a rotina de trabalho dessas pessoas. E isso faz com que o filme cresça muito na memória. Direção: Adrian Cooper. Ano: 1983.

O BANDO DOS TANGARÁS 

Eis um filme que vale mais pelo valor histórico, por ser a única imagem em movimento com Noel Rosa, e também por ter usado técnicas mais antigas de sincronização que as de O CANTOR DE JAZZ. A lata com o negativo foi descoberta em 1992 e o clipe foi restaurado. A música é "Vamo fallá do Norte" e Rosa fez parte do grupo por cerca de dois anos. Direção: Paulo Benedetti. Ano: 1930. 

DIAS DE GREVE 

Confesso que gostei mais deste curta do que dos longas seguintes de Adirley, embora reconheça que ele foi se tornando mais sofisticando e se mostrando cada vez mais preocupado com as desigualdades sociais. Não sei se por ser mais compacto, mais aqui Adirley consegue passar o sentimento de impotência do trabalhador diante do patrão, mesmo quando ele se vê no direito de fazer uma greve. A cena do desfile da escola de samba é bem representativa da realidade brasileira; do quanto o pobre tem aquele momento de alegria junto com o rico, mas fica que não fica muito além disso. Direção: Adirley Queirós. Ano: 2009.

BOCA ABERTA 

Muito boa a discussão que o filme traz sobre o cinema brasileiro que insistia em sobreviver em tempos de crise. Na época, foi com o advento do sexo explícito na Boca do Lixo. E por isso há dentre os quatro cineastas presentes um que defende o sexo explícito, Ody Fraga. Quem se manifesta mais saudoso da época de seu sucesso como realizador de bangue-bangues é Alex Prado, que apresenta para um pequeno público um de seus filmes. Ozualdo Candeias e Tony Vieira também entram na ótima discussão, que hoje em dia muda um pouco, mas o cinema continua em crise. Direção: Rubens Xavier. Ano: 1985.

CAROLINA 

Breve e contundente filme sobre Carolina de Jesus, a primeira (creio eu) escritora negra com obra publicada no Brasil. Vivendo na favela e com dificuldades imensas de manter a si e a filha pequena, ela consegue ainda assim esse feito. Os trechos da obra Quarto de Despecho são fortes, assim como as imagens de arquivo e a dramatização de Zezé Motta. Terminar com Racionais Mc's só aumenta o impacto da obra, já que a busca de igualdade social do negro ainda permanece até os dias hoje. Direção: Jeferson De. Ano: 2003.

ATÉ A CHINA 

Delícia de animação sobre a primeira viagem à China do diretor. Dá para gargalhar diversas vezes com as experiências pelo que o cineasta passou, e tudo narrado com um tom de conversa entre amigos. Isso porque a narrativa foi adaptada de e-mails que ele mandava diariamente para os amigos contando de sua experiência no país. Divertido demais. E a técnica de animação é muito legal, sem a limpeza dos rascunhos, deixando as imagens ainda mais bonitas. É coisa de se assistir com um sorriso de orelha a orelha do início ao fim. Não à toa ficou em 13º na lista da Abraccine de melhores animações brasileiras. Direção: Marão. Ano: 2015. (Foto)

BAILÃO 

Belo documentário sobre a vida um tanto escondida dos homens gays de meia-idade. O título do filme se refere a uma boate em que há predominância gay. Mas o forte do filme são os depoimentos de alguns homens que sofreram no passado com o preconceito e com a dificuldade de lidar com o seu desejo no trabalho, na família ou em outros ambientes públicos. Há bastante melancolia, mas há também uma sensação de liberdade muito bonita. Direção: Marcelo Caetano. Ano: 2009.

BRASÍLIA - CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA 

Um filme que ficou perdido durante muito tempo por conta de seu tom crítico em pleno regime militar, quando foi realizado. O documentário de Joaquim Pedro de Andrade só pôde ser conhecido mais recentemente, quando uma cópia foi encontrada no MAM e restaurada para lançamento no DVD de Macunaíma. O filme mostra o contraste daquela cidade muito nova, limpa e asséptica feita para abrigar os políticos e a realidade dos trabalhadores nas cidades satélites, gente que chegou lá para trabalhar na construção, mas que ficou sem emprego com a finalização da cidade. Destaque para a entrevista em um ônibus em direção à cidade, com mais nordestinos em um busca do sonho de uma vida digna. Ano: 1967.