sábado, setembro 21, 2019

RAMBO - ATÉ O FIM (Rambo - Last Blood)

Sylvester Stallone perdeu a chance de fazer um baita filme de vingança com o novo RAMBO - ATÉ O FIM (2019), dirigido por Adrian Grunberg, de PLANO DE FUGA (2012). As motivações que ele tem depois que membros de um cartel mexicano sequestram sua filha adotiva são suficientes para esquecermos o quão estereotipados eles são mostrados. O resgate de um familiar sequestrado já é algo que estamos acostumados a ver nos filmes de ação estrelados por Liam Neeson. O diferencial aqui é colocar o lendário John Rambo no encalço dos bandidos.

E também há um diferencial na questão da vulnerabilidade. Stallone não é como Tom Cruise, por exemplo, que quer sempre sair bem na fita nos filmes de ação, com um ego gigante. Stallone parece não se importar, por exemplo, em aparecer levando uma surra de dezenas de homens e ficar no chão. Afinal, seu surgimento foi levando muita porrada no lindo ROCKY, UM LUTADOR.

John Rambo só quer ficar em paz, mas as pessoas não deixam. Isso, aliás, é basicamente o plot do pequeno clássico RAMBO - PROGRAMADO PARA MATAR (1982). Ele só queria curtir a sua solidão em paz. Em ATÉ O FIM ele aparece ainda mais pacífico, bem mais velho e morando com uma família formada por uma garota órfã de mãe e abandonada pelo pai biológico. Ele é o Tio John, mas é o mais próximo de um pai que a garota tem. Há também uma senhora mexicana que cuida da casa e funciona como uma espécie de mãe.

A garota, na ânsia de conhecer o pai biológico, vai parar no México, contra a vontade de John, e acaba sendo raptada e colocada em um grupo de mulheres forçadas a se prostituir. John Rambo vai até lá com o intuito de resgatá-la. E é com essa simplicidade de trama que se constrói RAMBO - ATÉ O FIM.

E dá-lhe cenas de violência gráfica explícita, que até há alguns anos poderia ser mais celebrada pelos fãs de filmes de ação e terror, mas que não parecem chocar a audiência dos dias de hoje. Mas o problema é mesmo a falta de uma melhor solução para a trama, que leva o personagem para o velho exército de um homem que não empolga e esfria o interesse pela vingança, esse elemento tão fácil de gerar a solidariedade do espectador. No mais, o filme poderia ter aproveitado melhor a personagem de Paz Vega, que parece saída de algum filme dos anos 70. Falta de sensibilidade e inteligência dos realizadores, nesse sentido? Talvez.

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RAINHAS DO CRIME (The Kitchen)

Estreia na direção da roteirista Andrea Berloff. Não chega a ser um filme ruim, mas é meio problemático na incapacidade de trazer sentimentos de angústia e incômodo tanto pelas cenas violentas quanto pela mudança radical de vida das três mulheres, que passam a chefiar a máfia da Cozinha do Inferno depois que os três maridos são presos. O filme tem uma veia feminista forte e isso é um de seus méritos. Também gosto das três atrizes, mas sempre acho injusto quando surge uma Elisabeth Moss para humilhar as demais. Se bem que a Tiffany Haddish está ótima também. Podia ser algo melhor nas mãos de um bom diretor, talvez. Ano: 2019.

VELOZES & FURIOSOS - HOBBS & SHAW (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw)

No começo, este spin off da galinha dos ovos de ouro da Universal parece até ser bem bacana, com uma boa maneira de unir novamente os dois protagonistas que se odeiam para uma missão. Há um paralelismo bem interessante, assim como temos uma Vanessa Kirby pra lá de sensual e carismática. Mas depois o filme se estende por tempo demais e quando chega na parte de Samoa a gente quer que tudo termine. Outro problema desses filmes de ação sem muita novidade é que eles ficaram muito para trás depois do evento John Wick, pelo menos dentro do cinema ocidental contemporâneo. Também incomoda um pouco o modo como a franquia foi se distanciando da fisicalidade para ingressar em um pastiche de James Bond com toques de ficção científica no meio. E sem conseguir um resultado bacana com isso. Direção: David Leitch. Ano: 2019.

ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL (Hotel Mumbai)

Interessante que aqui não temos a Índia colorida de O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. A intenção é mesmo provocar um choque de contraste entre a extrema miséria das ruas de Mumbai e o luxo de cair o queixo do hotel onde se passa a história. É um thriller envolvente e eficiente feito por um diretor iniciante para longas. Os atores estão bem como heróis nascidos das circunstâncias; todo os cinco atores principais. E até os terroristas  saem um pouco do preto no branco na cena da ligação de um deles para o pai. No fim, todos são vítimas. Atenção para a bela iraniana Nazanin Boniadi. Já tinha visto a moça em HOMELAND, mas não sabia de onde a conhecia. Direção: Anthony Maras. Ano: 2018.

sexta-feira, setembro 20, 2019

O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (Tabi no Owari Sekai no Hajimari)

Considerado por muitos um dos maiores cineastas de cinema de horror da atualidade, Kiyoshi Kurosawa tem, com frequência, demonstrado interesse em variar. Basta lembrar que um de seus mais recentes trabalhos, PARA O OUTRO LADO (2015), por mais que adentre o terreno do espiritual, não opta pelo medo como fator principal, é sobre um grande amor que retorna da morte, tudo de maneira muito serena. O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO (2019), seu mais recente filme, exibido no Festival de Locarno, é de uma delicadeza impressionante. É, desde já, um dos melhores lançamentos deste ano.

O filme nos apresenta a uma repórter de um programa de variedades do Japão que está com sua equipe no Uzbequistão para gravar a história de um lendário peixe de dois metros de comprimento que habita, supostamente, um lago. Como não conseguem gravar o tal peixe, a equipe procura alguma coisa que possa ser interessante para o tal programa. Enquanto passa esse tempo em território estrangeiro, a protagonista de nome Yoko procura conhecer os pontos turísticos do lugar, ao mesmo tempo que lida com a solidão e o sentimento de saudade do namorado e uma forte insegurança também, tendo em vista que em determinado momento ele deixa de retornar suas mensagens.

Yoko é protagonizada por Atsuko Maeda, em terceira colaboração com Kurosawa. A primeira foi, inclusive, em outro filme ambientado fora do Japão, com ela como protagonista. Trata-se de O SÉTIMO CÓDIGO (2013). Outra informação muito interessante sobre Atsuko é que ela é uma cantora famosa no Japão, uma cantora que se tornou atriz, e que em O FIM DA VIAGEM.. canta em duas lindas cenas. Ela canta uma versão em japonês de "Hino ao Amor" nas duas cenas, mas o sentido da canção muda de acordo com o que acontece na vida da personagem e com o fluxo de seus sentimentos.

Impressionante como o filme nos faz próximos de Yoko. Sentimos medo quando ela sente medo; sentimos solidão quando ela se sente só; sentimos o seu mal estar diante do trabalho quando ela assim se sente; o sentimento de não pertencimento etc. Só por isso o filme já é louvável. Por isso o diretor não economiza elogios a Atsuko, que consegue passar aquilo que sente estando sozinha em cena. E há muitas cenas em que ela está sozinha naquele país estrangeiro e estranho.

Há uma cena especialmente tocante: ela tem a ideia de rodar uma matéria sobre um bode que está preso em uma casa e ela deseja libertar o animal. Como a equipe compra a ideia, eles vão em busca de realizar esta ação. E as cenas de Yoko com o bode e o reencontro são tão cheias de ternura que só aumentam ainda mais o grau de quase inocência que a personagem transmite. De vez em quando personagens assim fazem bem para nosso espírito. E por isso filmes assim são tão valiosos.

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RETRATO DO AMOR (Photograph)

Uma baita decepção este novo trabalho de Ritesh Batra, depois do lindo LUNCHBOX e do muito bom NOSSAS NOITES. Aqui a história de amor parece não funcionar em momento algum. Faltam tanto ao rapaz quanto à moça carisma e também química entre os dois. Talvez o excesso de "sutileza" tenha resultado em algo quase nulo. A trama fica tão morna que nem mesmo cheguei a torcer pelos dois. O filme não traz tanto do habitual caos nas ruas tão comuns nos filmes indianos. É mais focado na relação entre os dois e na mentira que criam para a avó do sujeito. Se bem que não deixa de ser um diferencial ver um personagem homem e heterossexual sofrendo a pressão de ter que casar. Geralmente só vemos isso em personagens femininas. Ano: 2019.

VISION

É o tipo de filme que a gente quer gostar, que contém cenas muito bonitas e um enredo complicado e que é meio que a cara de filmes japoneses de ficção científica e de alguns animes cabeça, mas que se revela um problema ao final da projeção. Naomi Kawase parece desde o começo puxar um sentimentalismo através de imagens (as lágrimas da personagem de Juliette Binoche ao presenciar o espaço geográfico milenar japonês), mas que precisa de uma maior conexão com o espectador para que se efetive. Gosto das duas cenas discretas de sexo, mas isso é mérito principalmente da beleza e da sensualidade de Binoche. É algo que já estamos acostumados a ver em filmes franceses. No final, a tal erva vision me pareceu bem pouco compreensível. Mas como eu acho que cinema é mais para sentir do que para entender, nem foi esse o problema. Ano: 2018.

BANGLA

E, ao que parece, nasce um novo talento das comédias românticas. O jovem Phaim Bhuiyan dirige e protagoniza esta história de amor sobre um jovem bengali que se apaixona por uma italiana. Como sua religião não permite sexo antes do casamento, isso começa a perturbá-lo, e muito. Um dos méritos do filme é nos fazer torcer pelo romance dos dois, entender os obstáculos, se apaixonar pela moça (que adorável que é Carlotta Antonelli!) e saber que toda grande história de amor traz obstáculos para que a tensão se estabeleça e a união seja possível. Saí do cinema leve. Se a vida real não está sendo tão gentil, às vezes é o cinema que traz um desses sonhos materializados. Ou quase. Ano: 2019.

quarta-feira, setembro 11, 2019

PACARRETE

A edição do festival Cine Ceará deste ano foi talvez a mais bonita, a mais bem-sucedida, a que mais encheu a nossa alma de amor e orgulho. Amor nestes tempos de ódio e intolerância; orgulho do nosso cinema brasileiro, e do nosso cinema cearense, especificamente, que nunca esteve em fase tão boa, tanto em quantidade quanto em qualidade. Não por acaso, tivemos um filme de um diretor cearense abrindo o festival, o premiado A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz; um que ganhou a mostra competitiva, GRETA, de Armando Praça; e o filme que encerrou o festival, PACARRETE (2019), de Allan Deberton. E é deste filme, que chegou com oito kikitos de Gramado, que falaremos agora.

Conheço o trabalho de Deberton desde o ótimo curta DOCE DE COCO (2011), que já mostrava um cineasta que tinha uma sensibilidade muito especial para lidar com questões humanas, com pessoas passando por situações de fragilidade. O curta apresenta uma garota que engravida de um rapaz conquistador de sua cidadezinha. O filme seguinte, O MELHOR AMIGO (2013), trata do amor platônico que um rapaz sente pelo amigo; depois veio OS OLHOS DE ARTHUR (2016), um trabalho que lida com um personagem autista. Ou seja, já dá para ver que desde os seus trabalhos iniciais, Deberton procura fazer uma espécie de defesa de pessoas incompreendidas.

Não é diferente com PACARRETE, sua estreia em longa-metragem no cinema. O que temos aqui é a história de uma mulher considerada louca pela cidade em que mora. A personagem é baseada na verdadeira Pacarrete, uma senhora excêntrica e espalhafatosa de Russas-CE que tentava mostrar o valor da arte e da dança para o povo simples da cidade. A verdadeira Pacarrete se chamava Maria Araújo Lima.

Quem encarna a versão para o cinema da personagem é a ótima Marcélia Cartaxo (prêmio de melhor atriz em Berlim por A HORA DA ESTRELA, de Suzana Amaral, entre outros vários prêmios). Ela esteve presente no curta de estreia de Allan Deberton e novamente se mostra um amuleto de sorte para o jovem cineasta.

É normal ficar um pouco incomodado a princípio com o tom que é dado à personagem. O filme começa com Pacarrete varrendo a calçada de sua casa dançando, lembrando um bocado os musicais da velha Hollywood, especialmente CANTANDO NA CHUVA. O belo colorido da fotografia, com auxílio da luz forte do Ceará, emula o technicolor dos anos de ouro do cinema americano. Depois vemos o quanto a personagem é exagerada na fala, o tom sempre acima. É quando vemos que estamos diante de uma comédia popular, pronta para ser apreciada por um público maior do que o dos festivais.

E, uma vez que nos acostumamos e aceitamos os trejeitos de Pacarrete, fica fácil gostar da personagem, de se solidarizar com ela. Inclusive, há uma fala que ela cita a falta de interesse das pessoas por arte que fez com que o Cine São Luiz em peso batesse palmas.

No elenco, há um personagem que representa uma espécie de contraponto para Pacarrete, o amoroso comerciante Miguel, vivido por João Miguel. Ele tem um carinho todo especial pela bailarina aposentada e isso faz com que ela nutra por ele um sentimento de amor platônico. Pacarrete mora sozinha com a irmã mais velha Chiquinha que vive em uma cadeira de rodas, vivida por Zezita Matos. Ela é outra personagem que traz uma sobriedade que equilibra as falas de Pacarrete. Há também a empregada da casa, Maria, vivida por Soia Lira.

Pacarrete tem interesse em aproveitar a comemoração dos 200 anos da cidade de Russas para apresentar à cidade o seu número de balé, que há tempos ela se dedica em casa, desde que voltou de Fortaleza, para cuidar da irmã mais velha. Porém, ela não é bem recebida pelos funcionários da prefeitura, que acreditam que seu trabalho não é de interesse do público, que quer mesmo uma festa com forró. Sem falar, que não acreditam na sanidade dela.

Em algum momento do filme, o melodrama entra forte e arrepiante. É louvável a transição tranquila que o cineasta consegue fazer da comédia para o melodrama e vice-versa. E muitas vezes de uma hora para outra, como se quisesse emprestar muito da molecagem cearense para o seu filme, como em certo momento muito triste que logo é seguido de uma piada que fez a plateia chorar de rir.

Entre o choro breve e o riso farto, PACARRETE é um dos mais bonitos exemplares recentes do nosso cinema. E chega em um momento muito necessário. Assim como a bailarina que não deixou de lado o seu sonho, precisamos seguir em frente nestes tempos difíceis para a cultura e para a própria sanidade mental. O filme deve estrear em todo o Brasil no primeiro trimestre de 2020.

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MARIA DO CARITÓ

Filme simpático, mas que talvez falhe em buscar cenas engraçadas nem sempre sendo bem-sucedido. O mais interessante do filme é o absurdo da situação, da moça vitalina em busca de marido, mas cujo pai a guardou para um santo. Depois veremos que o filme também funciona como uma metáfora da situação política atual no Brasil. Aliás, quase todo filme brasileiro nos faz lembrar da realidade, por mais inocente que pareça. Curiosamente, é um filme que dialoga com A VIDA INVISÍVEL, ao abordar a questão das mulheres sendo enganadas pelos homens, geralmente os pais, representando um patriarcado decadente. Direção: João Paulo Jabur. Ano: 2019.

CANÇÃO SEM NOME (Canción sin Nombre)

Duas histórias paralelas que se cruzam: a da jovem mulher em busca do filho recém-nascido sequestrado e a do jornalista que procura, em um Peru ainda sob domínio da ditadura militar (1988), ajudar aquela mulher. O maior destaque é visual. A fotografia, em 4x3 e em preto e branco, lembra bastante o cinema mudo dos anos 20, com uso de muitas sombras e uma sensação de opressão o tempo inteiro. Ainda assim, há muitas imagens lindas, especialmente as feitas em exteriores. Senti falta de uma maior conexão com o drama dos personagens, mas isso pode ser mais problema meu do que do filme. Direção: Melina Léon. Ano: 2019.

RAFIKI

Senti muita falta de me envolver com as personagens, de me importar com o destino e a união das duas. E isso já diz muito do filme para mim. Por mais que haja a intenção de abordar o tema do preconceito em um país extremamente preconceituoso como o Quênia, não me empolgou em momento algum. Ainda assim, gosto das meninas, que estão muito bem em seus papeis. Direção: Wanuri Kahiu. Ano: 2018.

sexta-feira, agosto 30, 2019

BACURAU

Você quer viver ou morrer? Essa pergunta é feita por um dos vários personagens de BACURAU (2019), filme-coral de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, em uma de suas cenas mais intensas. Escolher entre viver é a ideologia dos habitantes da cidadezinha que dá título ao filme, um lugar que é um exemplo de resistência em um Brasil distópico futurista que guarda algumas similaridades com o momento atual.

O interessante é que Kleber Mendonça Filho tem dito em entrevistas e debates que não é separatista, apesar de enaltecer o Nordeste com entusiasmo em seu filme. Seu trabalho, ainda que exibido apenas em 2019, provavelmente não deve ter antecipado a eleição de Jair Bolsonaro, que não venceu nos estados da região Nordeste. E por isso tem havido um movimento, ainda que muito tímido e às vezes em tom de brincadeira, em memes, de separar a região do restante do Brasil.

Como BACURAU flerta também com os filmes do cangaço e há momentos de banho de sangue, a chamada para reagir de forma violenta pode ser uma mensagem e tanto. E eis o seu potencial de dinamite, até por se vestir de uma roupa de filme de gênero, que muito provavelmente agradará a um público muito maior do que seus dois trabalhos mais art-house anteriores, O SOM AO REDOR (2012) e AQUARIUS (2016). Assim, a ambição do filme não é apenas de natureza formal ou no trato com a mensagem, mas ao saber de seu maior diálogo com o grande público.

A história começa com a ida de Teresa (Bárbara Colen, ótima) ao povoado. Ela está de carona no caminhão-pipa e usando um jaleco. O que ela carrega são vacinas, como iremos saber mais adiante, quando ela chega ao velório de sua mãe, a matriarca do vilarejo. Até o momento dessa chegada, muitas informações nos são passadas. E o filme demora um bom tempo nessa apresentação de personagens, até entrar efetivamente no suspense, quando eles percebem que estão sendo atacados.

Sônia Braga é uma médica no vilarejo e aparece inicialmente bastante transtornada no velório daquela senhora tão querida. Mas aos poucos vamos notando que, mesmo com uma rixa ou outra, aquele pequeno pedaço de civilização é formado por pessoas bem próximas e unidas. E essa união se torna ainda mais intensa quando eles se percebem vítimas de um ataque. Para nós, espectadores, ao ingressarmos em um universo novo e em uma cidade à margem dos grandes centros e do que está acontecendo no resto do Brasil, cada detalhe é interessante e muito bem recebido.

Como os diretores optaram por fazer um filme de ação bem próximo do cinema oitentista (não faltam referências a John Carpenter), há um tanto de caricatura nos vilões, em especial o alemão Udo Kier, um ícone do cinema europeu, com uma filmografia invejável e muitos filmes de terror também no currículo (ele até já foi o Conde Drácula na produção de Andy Warhol). E é trazendo Kier para essa mistura maluca que BACURAU se mostra como uma obra com um inegável senso de humor. É como se pudéssemos ver o sorriso no rosto de seus diretores em várias cenas, principalmente as que envolvem os estrangeiros, os vilões.

Por isso é possível ver BACURAU como uma grande aventura de mocinho contra bandido, um western feijoada moderno. Dessas que inspiram palmas do público em determinados momentos da narrativa. Quase um RAMBO, só que com vários personagens. Aliás, se olharmos para o cartaz do filme após vê-lo veremos o quanto cada personagem é importante para o enredo.

Dentre esses personagens, ainda não citei o cearense Silvero Pereira, que interpreta o fora-da-lei Lunga, amigo do pessoal de Bacurau, mas que vive escondido das autoridades. Até o momento em que ele finalmente surge, com uma aparência muito curiosa, com um misto de macho com queer. Isso faz com que o filme se aproxime tanto dos dias atuais quanto dos heróis parrudos dos filmes da década de 1980.

Outro cearense que não tem sido mencionado com frequência nas críticas é Rodger Rogério, compositor e intérprete da primeira geração do chamado Pessoal do Ceará. Ele interpreta uma espécie de cantador que está presente em uma das cenas mais divertidas do filme, quando do aparecimento dos forasteiros sudestinos. O diálogo dele com essas pessoas é impagável.

Como se vê, há tanto o que se falar sobre o filme, sobre cada personagem/ator/atriz, que até pode-se imaginar que BACURAU é uma obra de trama intrincada. Na verdade, o plot é muito simples e parece muitas vezes feito com ar de brincadeira. Porém, em se tratando de Kleber Mendonça Filho e do momento político brasileiro, pode haver uma interpretação de convite à luta.

Se ARÁBIA, outro dos filmes recentes de nossa cinematografia que vem conclamado as pessoas à luta, é uma obra com um tom bem melancólico; BACURAU transforma a melancolia em raiva, em ação, em luta. Não que o povo de lá seja de guerra. Mas a placa já diz tudo: "Bacurau: se for, vá em paz".

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ESPERO TUA (RE)VOLTA

Mais um documentário que ajuda a pensar e lembrar de eventos importantes da história política brasileira. Este filme muito bem editado foca na ocupação dos estudantes nas escolas públicas secundaristas quando da ameaça do fechamento de várias pela secretaria de educação do estado de São Paulo. O filme volta no tempo em alguns anos e tenta pensar o papel dos jovens na luta, de 2013 até o início de 2019, com a eleição de Bolsonaro. As melhores partes são dos embates dos jovens com a polícia. Ótimos registros. Direção: Eliza Capai. Ano: 2019.

PASTOR CLÁUDIO

Desses filmes que a gente assiste e não acredita, por mais que já saibamos dos horrores que aconteceram nos porões da ditadura. Mas ouvir e ver alguém que participou de execuções e de sumiços de corpos de pessoas contrárias à ideologia do Estado é aterrorizante. Por mais que Cláudio Guerra diga ser agora um pastor evangélico que reconhece os erros do passado e colabora com a comissão da verdade, como de fato vem colaborando, é muito difícil tanto para quem o encara quanto para ele mesmo ouvir/contar aquilo tudo. E há coisas que ele conta por alto, envolvendo sociedades secretas que ainda existem. A elite brasileira. E tudo passa a fazer sentido no que se refere ao apoio de um cara como Bolsonoro. O desejo de poder e o pouco caso pela vida do outro ainda impera. Direção: Beth Formaggini. Ano: 2017.

DIVINO AMOR

Um filme que despertou em mim sentimentos mistos. Embora tenha me incomodado o modo como eles retrataram os evangélicos, como, aliás, é natural de se ver na maioria dos filmes brasileiros (acho que a exceção que eu vi foi em uma cena de CARANDIRU, do Babenco), ainda assim, o encaminhamento do filme torna-o mais complexo e interessante. A segunda metade é melhor no que traz. Plasticamente é muito bonito e gosto da ousadia das cenas de sexo (BOI NEON já tinha uma cena ousada e boa). Ainda estou pensando nas alegorias com o Brasil da era Bolsonaro a partir do final, mas ainda não cheguei a uma conclusão. O que, de certa forma, é bom. Direção: Gabriel Mascaro. Ano: 2019.

segunda-feira, agosto 19, 2019

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a Time in… Hollywood)

Cada novo filme de Quentin Tarantino é um acontecimento que movimenta tanto cinéfilos assíduos quanto esporádicos. Eis o motivo de seus filmes serem tão populares. Claro que a capacidade do cineasta de trazer astros do primeiro escalão também ajuda bastante. Ter Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie no mesmo filme, sem falar em participações muito especiais, como a de Al Pacino, é um chamariz e tanto. Um luxo e tanto. Mas as pessoas vão ao cinema principalmente para ver o novo filme do cineasta, certamente.

Seu novo trabalho, ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (2019), é seu melhor filme desde BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) e tira um pouco do gosto amargo que ficou com OS OITO ODIADOS (2015). Seja através dos diálogos sem pressa, seja com o modo como Tarantino brinca com o tempo mais uma vez, estendendo-o às vezes para causar suspense, como na cena de Cliff Booth (Brad Pitt) em um cenário rodeado pelos hippies liderados por Charles Manson; seja na sequência final, que nos leva à fatídica noite do dia 9 de agosto de 1969, quando ocorreu a chacina que pôs fim a vida de Sharon Tate; em todos os momentos do filme, Tarantino é dono do tempo e do espaço.

Um espaço que ele recria a partir de um já existente, o da Los Angeles do final dos anos 1960. Lembrando que boa parte de seus filmes se passam em um tempo indeterminado, mas com uma aura de apego ao passado muito intensa. O melhor exemplo disso é o de PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994). Aqui há um misto de eventos e pessoais reais com criações puramente tarantinescas. Em especial os protagonistas, o ator decadente Rick Dalton, vivido por DiCaprio, e seu dublê, o já mencionado personagem de Pitt.

Há um clima de bromance entre os dois que lembra alguns filmes da Velha Hollywood, como os dirigidos por Howard Hawks, ainda que a amizade dos dois se manifeste da maneira bruta de Tarantino. Cada pessoa oferece o afeto da sua maneira. Mas isso não quer dizer que não se veja amor no filme. Há bastante. Especialmente amor pelo cinema. Seja o cinema de Hollywood, seja o cinema feito na Itália para exportação, por mais que o personagem de DiCaprio ache que está chegando ao fundo do poço por não conseguir espaço melhor nos Estados Unidos e encontrar um caminho aberto no cinema italiano de gênero, para ele considerado muito inferior. Engraçada a cena em que o personagem de Al Pacino lhe explica que Sergio Corbucci é o segundo melhor diretor de western spaghetti do mundo.

Quanto à já famosa violência tarantinesca, seja por causa da pressão dos novos tempos, seja por maturidade mesmo, o novo filme do cineasta é o que menos busca uma violência gráfica, dentre todos os seus trabalhos. Aqui o que mais conta é a beleza do ir e vir dos carros, as ruas movimentadas com centenas de cinemas de rua, tudo muito lindo de ver com a exuberante fotografia de Robert Richardson, colaborador de Tarantino desde KILL BILL – VOLUME 1 (2003).

Falando em beleza, que acerto a escolha de Margot Robbie para viver Sharon Tate, hein! Linda demais a cena dela no cinema, satisfeita com a ótima recepção do filme em que trabalha por parte do público. Há quem ache que sua presença em cena é muito pequena, quase não lhe é dado texto, mas isso acaba tornando-a próxima de uma deusa, justamente por isso. E sua personagem é tão cheia de graça que é difícil não se encantar com seu sorriso, com sua alegria de passear pelas ruas e de dançar. Como se Tarantino quisesse nos mostrar o quanto a morte de uma mulher como essa é abominável.

Por isso a polêmica e incrível aposta do cineasta pela sua conclusão é tão bem-vinda. No mais, há também um elogio à inocência e à infância na figura da atriz mirim Julia Butters, a menina que dá uma lição no decadente astro Rick Dalton.

Está havendo uma confusão de percepções sobre a questão hippie. Não há por que acreditar que o diretor tem uma visão negativa dos hippies. Aqueles hippies em especial, os envenenados pelas mensagens de Charles Mason, esses sim representam o mal. E, nesse sentido, Tarantino não se furta de querer mostrar o mal como definitivamente mal, como fez com os nazistas em BASTARDOS INGLÓRIOS. Pode ser uma visão simplista, mas o modo como o diretor lida com isso é de uma beleza que transcende a necessidade de maiores problematizações.

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LISA E O DIABO (Lisa e il Diavolo / Lisa and the Devil)

Pelo pouco que eu li de bastidores este parece ser o SOBERBA do Mario Bava, com a vantagem que foi um filme que conseguiu ter a suposta versão do diretor lançada posteriormente, já quando o cineasta faleceu. É uma obra estranha, bem delirante, que me lembrou CARNIVAL OF SOULS. Engraçado isso, já que CARNIVAL havia me lembrado um dos Bavas. Aqui se tem em comum a mulher perambulando perdida, a presença dos mortos que ressurgem, muitas cenas de climão, mas soma-se aí muitas cores na fotografia (bonita mesmo) e um romantismo que eu não esperava, lá pelo final. Romantismo no sentido amplo do termo, digo. Destaque para a participação da Alida Valli. Por mais que, de interpretação mesmo, só dê para destacar a naturalidade do Telly Savalas mesmo. Ano: 1973.

DUAS RAINHAS (Mary Queen of Scots)

Boa estreia de Josie Rourke, diretora mais ligada ao teatro. Ao contrário do que se pensa (inclusive pelo título brasileiro), a grande figura do filme é mesmo Saoirse Ronan. A rainha Elizabeth de Margot Robbie tem um papel importante, mas menor na trama, que tem o seu peso trágico, graças à própria história, aqui contada com muito mais minúcias do que no filme do John Ford. Ano: 2018.

SEVEN - OS SETE CRIMES CAPITAIS (Se7en)

Impulsionado pelo pessoal do Cinema na Varanda fui rever SEVEN, que tinha visto no cinema uma vez e outra em VHS. Mal lembrava do filme em si, só lampejos e do final impactante. Aliás, é engraçado isso: eu geralmente costumo esquecer dos finais dos filmes, menos dos impactantes. Com o tempo virou mesmo um clássico, embora eu ache que falte algo para se tornar excelente, não sei.. Mas é muito bom de ver e a trilha do Howard Shore é uma das mais felizes de sua carreira. Dramática e tensa, especialmente no final. Direção: David Fincher. Ano: 1995.

segunda-feira, agosto 12, 2019

BLOQUEIO

Quentin Delaroche já havia dirigido um ótimo filme sobre o cenário político recente do Brasil, CAMOCIM (2017), que funcionou como uma espécie de espelho da sociedade brasileira. Em BLOQUEIO (2018), somos reapresentados a um caso que aconteceu no ano passado e que gerou uma forte repercussão, a paralisação nacional dos caminhoneiros. E tem acontecido tanta coisa de 2018 para cá que quase esquecemos este momento em que o Brasil quase parou. O filme também lembra que o comportamento de boa parte dos grevistas era muito próximo de um bolsonarismo, como se aquela ação, de modo não deliberado, tivesse ajudado a chocar o ovo da serpente.

Assinado por Delaroche e por Victória Álvarez, o filme tem uma estrutura bastante simples: os diretores, ao verem que aquela situação poderia ser interessante o suficiente para gerar um filme para cinema, se dirigiram até um dos locais de concentração. Como o documentário é o gênero cinematográfico que mais depende do acaso para seu sucesso, podemos dizer que um dos problemas de BLOQUEIO está na ausência de personagens marcantes.

O que o documentário mais enfatiza na luta dos caminhoneiros por melhores condições de trabalho é o que há de mais controverso em seu discurso: o socorro através de uma intervenção militar. E isso acaba se tornando ridículo quando eles são forçados a encerrar a greve devido à chegada da polícia do exército. O próprio diretor pergunta a um deles, que é mal tratado por um dos militares: mas não é a eles que vocês estão pedindo socorro?

Depois de discursos desse tipo e orações de grupos evangélicos, um sopro de sobriedade surge quando dois professores chegam para discutir com o grupo, tratando justamente da questão da intervenção militar como solução para todos os problemas do Brasil, para o fim da corrupção etc. Ordem e progresso, a bandeira do Brasil, o Hino Nacional, todos esses símbolos que acabaram sendo apropriados pela direita, são abraçados pelos grevistas. E há um sentimento misto na cena em que eles cantam o Hino Nacional. Que momento esse em que vivemos, hein.

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O OLHO E A FACA

Quanta mudança de RIOCORRENTE (2013), tão cheio de alegorias visuais, para este novo trabalho de Paulo Sacramento, um pouco mais simples na forma, mas que aposta no tom de opressão. Opressão no trabalho, opressão na família do personagem de Rodrigo Lombardi. O diálogo com Caco Ciocler é perturbador; a cena de sexo com Débora Nascimento é animadora, as cenas com a família são incômodas, mas muito boas. Algo parece ter se perdido, mas ainda assim é um filme que merece ser visto com interesse. Ano: 2019.

MARCIA HAYDÉE – UMA VIDA PELA DANÇA

Eu, como leigo que sou em matéria de dança, desconhecia a existência da maior bailarina do Brasil (pelo que entendi no documentário). Bom ter um documentário exibido nos cinemas para nos apresentar a ela, por mais que o formato seja um tanto quadrado. Acredito que seja um filme mais apreciado pelos fãs de ballet e dança moderna também, já que ela foi uma que "contaminou" o ballet clássico com a modernidade. Direção: Daniela Kullman. Ano: 2018.

FEVEREIROS

Faltam-me identificação e sentimento de proximidade para gostar mais deste filme. Já que nem sou de família católica e nem do candomblé, acho que acabei vendo tudo com muito distanciamento. Ainda assim, com algum interesse, principalmente pelo fato de a personagem em questão ser Maria Bethânia e o filme também tratar de sua infância (dela e de Caetano Veloso, que me interessa mais). E tem o fato de a Bahia ser um mundo singular. Direção: Marcio Debellian. Ano: 2017.

quinta-feira, agosto 08, 2019

DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)

Um dos momentos mais bonitos de DOR E GLÓRIA (2019) acontece quando o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), em clara emoção, percebe o quanto tocou positivamente a vida de alguém ao resgatar uma pintura escrita por um jovem rapaz a quem ele alfabetizou já quando criança. Pode ser também uma cena representativa do quanto somos gratos ao próprio Pedro Almodóvar pelo tanto que ele nos proporcionou ao longo de três décadas de cinema. Um cinema transgressor e transbordante de emoções.

Curiosamente, o novo trabalho do mais popular dos cineastas espanhóis é um dos mais contidos no que se refere à sua tradicional veia intensa na dramaticidade, que se traduz tanto no uso das cores fortes quanto, principalmente, nas interpretações e nos sentimentos. Daí ele se encontrar na categoria de cineasta que ganhou um adjetivo: almodovariano.

Desde A FLOR DO MEU SEGREDO (1995), sua filmografia tem passado por mudanças que já sinalizavam um estilo mais maduro, com uma tendência a fazer menos comédias e mais dramas um pouco mais sóbrios. A única exceção dessa fase recente foi OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), curiosamente não muito bem recebido por vários fãs e por boa parte da crítica.

Se esses filmes de 1995 pra cá representam uma fase madura, DOR E GLÓRIA transparece ainda mais, inclusive por ser costumeiramente chamado de bio-ficção, por misturar supostamente eventos da vida pessoal do cineasta com histórias e personagens fictícios. A questão dos problemas de saúde de Salvador é um dos primeiros pontos que o filme trata, e o modo como isso é mostrado é muito inteligente e divertido, mas também algo com que possamos tanto nos identificar quanto nos solidarizar com o personagem.

Paralelamente, as memórias de infância de Salvador nos são apresentadas, com um especial carinho pela figura da mãe do cineasta, na fase mais jovem interpretada por Penélope Cruz, e na fase idosa por Julieta Serrano. Essas memórias irão entrecortar toda a narrativa fílmica, enquanto vemos o avanço daquele momento de quase aposentadoria de Salvador, quando ele se vê cansado e doente o suficiente para não se sentir capaz de voltar a um set de filmagens.

O filme, então, passa a tratar de reencontros. O reencontro com um ator com quem ele não trabalhava há mais de vinte anos (Asier Etxeandia) e, de maneira mais emocionante, o reencontro com uma paixão da juventude (Leonardo Sbaraglia). O primeiro representou a busca do protagonista por uma nova experiência, a heroína; o segundo trouxe lembranças boas e a certeza de que os momentos em que estiveram juntos foram positivamente essenciais para a vida e a obra do artista.

Mas nada mais emocionante que a questão da mãe, ao final do filme. Os diálogos de Salvador com a mãe, próxima da morte e já dizendo como gostaria de ser enterrada, além de falar sobre questões sobre aceitação, no que concerne principalmente à orientação sexual do diretor, e à dificuldade do relacionamento entre os dois na fase adulta, tudo isso chega em um crescendo sutilmente intenso. Almodóvar trata isso com tanta delicadeza que as lágrimas descem de maneira também sutil.

Quanto a Antonio Banderas, ele vive o personagem de sua vida em DOR E GLÓRIA. E tendo em Almodóvar o principal responsável por apresentá-lo ao mundo, com filmes como MATADOR (1986), A LEI DO DESEJO (1987) e ATA-ME (1989), nada melhor do que tê-lo novamente, e que até então se mostrava um tanto limitado, dessa vez em um papel lindo e comovente como o de Salvador Mallo. Seu prêmio de melhor ator em Cannes foi mais do que merecido.

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GRAÇAS A DEUS (Grâce à Dieu)

François Ozon tem domínio narrativo, mas, embora este filme pareça uma espécie de cruzamento entre SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS e 120 BATIMENTOS POR MINUTO, não tem o mesmo dinamismo do primeiro nem a mesma paixão do segundo. Também pode remeter ao MÁ EDUCAÇÃO, do Almodóvar, pela temática. Em outros tempos, poderia causar polêmica, mas hoje em dia os escândalos envolvendo padres pedófilos já se tornaram, infelizmente, comuns. O lado positivo é que as pessoas estão contando mais e se livrando um pouco mais de seus demônios pessoais. Bom o fato de o filme ter vários núcleos, sendo três os personagens mais importantes. Ano: 2018.

JORNADA DA VIDA (Yao)

Um filme que conecta os sentimentos que tivemos de algo de nossa vida a partir de cenas simples e ternas. A história do menino Yao que resolve ir de sua vila no meio do deserto do Senegal até Qatar para conhecer o ator famoso vivido por Omar Sy. Destaque para a química entre os dois, para os sorrisos que passam uma alegria de viver contagiante. Sy já é desses atores que esbanjam carisma. Um papel como esse lhe cai como uma luva. Mas o menino também é ótimo. Direção: Philippe Godeau. Ano: 2018.

QUERIDO MENINO (Beautiful Boy)

Gosto de muitas coisas do filme, mas ele não funciona direito como um todo. Acaba dependendo demais de seus atores e atrizes (adorei ver Maura Tierney na telona - baita atriz!). Queria ter me emocionado tanto quanto me emocionei com ALABAMA MONROE, o filme do diretor na Bélgica. Steve Carell cada vez mais à vontade em papéis sérios. Nesse eu não lembrei em nenhuma vez do Michael de THE OFFICE. Direção: Felix van Groeningen. Ano: 2018.

quarta-feira, agosto 07, 2019

FAIXA VERMELHA 7000 (Red Line 7000)

Mais um filme de Howard Hawks visto. Ainda bem que ele tem uma obra tão vasta que costuma faltar um ou outro para ver pela dificuldade de achar. FAIXA VERMELHA 7000 (1965) estava entre as minhas lacunas e é uma de suas obras menos inspiradas e mais problemáticas. Ele admite isso na entrevista a Peter Bogdanovich, presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes. Reclama da atriz que faz a moça azarada (Gail Hire), que quis dar uma de estrela nas filmagens depois que passou no teste e atrapalhou muito, fala que o filme não presta, embora seja uma obra tida entre os melhores trabalhos do cineasta por muitos críticos europeus.

No meu caso, é o seguinte: percebo que é um filme problemático, mas o fato de ser uma autêntico Hawks, por mais torto que seja, traz um prazer de ver especial. Além do mais, há cenas muito boas, especialmente as protagonizadas pelo jovem James Caan, um talentoso piloto de corridas, e por Marianna Hill, que faz a francesa que ingressa naquele novo mundo da velocidade e dos constantes acidentes automobilísticos.

O fato de o filme não ter uma trilha sonora acaba sendo um aspecto interessante. As cenas de corrida dão destaque para o arranque do motor e para o som dos freios e das batidas dos carros. Senti falta de mais emoção nas sequências dos pilotos dentro dos carros. Não nos sentimos lá. Bem diferente dos filmes de aviação de Hawks, que nos fazem entrar naqueles aviões frágeis e sentir um frio na barriga. Mas tudo bem, já que sabemos que as filmagens das corridas são autênticas e as dos pilotos dentro dos carros são coisas de estúdio.

Uma característica bem hawksiana que aparece também aqui é o fato de haver a presença da morte seguida de uma espécie de celebração da vida. Ou seja, mesmo depois que determinado personagem morre, como acontece logo no começo, todos os demais lamentam, ficam tristes, mas tentam jogar a tristeza para o alto e seguir vivendo a vida da melhor maneira possível. É a atitude que eles tomam. Por isso dois desses colegas temem conversar com a namorada do piloto falecido, mas acabam se surpreendendo com a moça ouvindo música alta no quarto, como se estivesse em uma festa.

Uma personagem que me agrada é a de Laura Devon, que interpreta uma mulher um tanto insegura. Gosto da cena em que ela está na cama com o namorado (John Robert Crawford) e faz rodeios para perguntar se ele a acha sexy, ou tão sexy quanto as outras mulheres que ele já encontrou na vida. Essas cenas de intimidade entre os personagens acabam sendo os pontos altos do filme, especialmente perto do final, com uma maior aproximação dos personagens de Caan e Hill.

Felizmente Hawks ainda faria mais outros dois filmes antes de encerrar sua carreira, mais dois westerns com John Wayne, EL DORADO (1967) e RIO LOBO (1970), encerrando, assim, uma das mais brilhantes obras do cinema mundial.

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O PASSAGEIRO (The Commuter)

Impressionante este novo filme da parceria Jaume Collet-Serra/Liam Neeson. Ao mesmo tempo, parece muito ruim, graças aos seus diálogos e os efeitos especiais um tanto estranhos, mas é também muito admirável, do ponto de vista da direção, que inclusive tem a coragem de fazer uma cena tão incrível quanto a da cena da guitarra. Ano: 2018.

MIB: HOMENS DE PRETO - INTERNACIONAL (Men in Black - International) 

O que salva o filme, em alguns aspectos, é apenas a química entre Chris Hemsworth (que encontrou o seu tom através da comédia) e Tessa Thompson, representando um novo momento para a franquia. Mas é uma franquia que nunca me agradou de fato. E este filme eme especial não tem um momento sequer que segure o espectador no chão. Tudo é contado de maneira tão descontraída que não nos importamos com nada ou ninguém. É filme para esquecer rapidinho. Direção: F. Gary Gray. Ano: 2019.

JOGADOR Nº 1 (Ready Player One)

Só pela homenagem genial a certo filme de Stanley Kubrick o filme já mereceria os aplausos. Há coisas que não me animaram tanto, como alguns excessos nas cenas de ação em animação, mas em outros momentos ficava maravilhado. Além do mais, nunca vi o próprio Steven Spielberg tão bem retratado em um protagonista de seus filmes como no personagem de Tye Sheridan. E vai ser nerd assim lá na casa do Chico, Spielba! Ano: 2018.

segunda-feira, agosto 05, 2019

NO CORAÇÃO DO MUNDO

No cinema brasileiro contemporâneo é possível dizer que, se há uma cidadezinha que se tornou presente com bastante frequência em muitos filmes, é a cidade de Contagem, localizada próximo a Belo Horizonte, tendo aparecido em filmes diversos, especialmente os de André Novais Oliveira. Junto com André, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia, eles encabeçam a produtora Filmes de Plástico, que rendeu obras importantes como ELA VOLTA NA QUINTA (2015), TEMPORADA (2018) e vários curtas de sucesso de crítica e com participação em festivais nacionais e internacionais. Neste ano, a produtora está comemorando 10 anos de existência.

E o filme de comemoração desses 10 anos é um dos melhores da safra dessa turma de Contagem. NO CORAÇÃO DO MUNDO (2019), da dupla Gabriel Martins e Maurílio Martins, parece um trabalho de dois cineastas veteranos, tal a segurança narrativa. E não é fácil ter que dar conta de tantos personagens, lhes dar dimensões suficientemente profundas, trabalhando tanto com atores experientes quanto com iniciantes.

Mas NO CORAÇÃO DO MUNDO vai além de ser apenas um filme bem-feito. O que temos aqui é um trabalho que lida com questões sociais, econômicas e existenciais dos moradores de uma pequena cidade, feito por gente com intimidade na geografia humana do local. Até temos alguns momentos em que o sotaque e o jeito naturalista com que os atores/personagens dialogam soam um pouco difícil para ouvidos não-mineiros, mas aos poucos nos acostumamos.

A trama básica de golpe lembra um pouco a de COMO É CRUEL VIVER ASSIM, de Julia Rezende, mas o golpe em si, ainda que um dos pontos bem altos da trama, não é o mais importante. O filme constrói bases firmes para que nos importemos com personagens, mesmo sabendo que estão fazendo uma burrada atrás da outra. Um personagem como Marcos (Leo Pyrata), por exemplo, é incrivelmente interessante, mesmo sendo tão questionável do ponto de vista do caráter.

O filme começa com a comemoração do aniversário de Marcos. Sua noiva, a trocadora de ônibus Ana (Kelly Crifer), o surpreende com uma daquelas declarações de amor constrangedoras com carros de som. Isso já dá o tom do ambiente de periferia, que se explicita ainda mais quando adentramos as casas e os estabelecimentos comerciais daquelas pessoas. Todos os personagens vivem em função de trabalhos que rendem muito pouco para sua subsistência; outros tentam uma saída através de golpes, como é o caso do já citado Marcos.

O grande golpe, no entanto, terá como mentor intelectual Selma (Grace Passô), que, consciente de sua condição de negra, acredita que, para o melhor sucesso de seu plano, será necessária a presença ativa de Ana, a namorada de Marcos, que até então nunca havia participado das tretas dele. As cenas de suspense da tal cena do golpe são de prender a respiração.

No mais, como não destacar as cenas da cantora e ativista MC Carol, em suas conversas com Marcos? E as participações afetivas de dois atores já consagrados? E a presença de personagens tão carismáticos como Beto (Renato Novaes), Miro (Robert Frank) e Rose (Bárbara Colen)? Não é todo dia que vemos um filme como este. Não é sempre que vemos o cinema brasileiro tão pulsante, surgindo em um momento de tanto desmanche cultural. Sigamos em frente, que o futuro pode ser ainda mais brilhante.

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PRAÇA PARIS

O filme inicialmente traz um interessante contraste entre o estilo de vida burguês da terapeuta vivida pela portuguesa Joana de Verona e da mulher (Grace Passô) que sofre na pele as dores da desigualdade social brasileira. Pena que depois o filme vai se transformando em outra coisa, acentuando os medos da portuguesa do Brasil. Isso chega a incomodar bastante, especialmente quando o filme se aproxima de sua conclusão. Aí o fado que inicia o filme e nos anima a ver a obra não tem o mesmo sabor quando encerra a história nos créditos finais. Melhor filme que eu vi da Lúcia Murat até agora foi o doc EM TRÊS ATOS (2015), mas não cheguei a ver muito de seu trabalho. Ano: 2017.

DESTERRO

Gosto de como o filme tem liberdades que não se vê em tantas obras. É uma obra intimista, feminina, com um pé no passado (a máquina de escrever) e outra no presente. Fiquei sem entender as cenas com os animais em ampliação do mundo micro em macro, mas talvez seja para ampliar os sentidos e sensações. As cenas retiradas de imagens de arquivo da família da diretora são ótimas e funcionam bem na colagem com as cenas novas, que se passam no Rio, no Ceará e na Paraíba. Só fiquei querendo me conectar mais com o sentimento da protagonista, mas não consegui. Mas isso vai de cada um. Direção: Caroline D'Ávila e Sandro Langer. Ano: 2019.

COMO É CRUEL VIVER ASSIM

Talvez o filme mais plasticamente bonito da Julia Rezende. E o que tem um compromisso menor com o comercial. A história é de um grupo de cabeças de vento que planejam um sequestro como forma de sair da merda. E o filme tem um ar de comédia misturado com tristeza que o torna bem único. Acredito que se visto no cinema eu teria me envolvido mais, tanto no aspecto cômico quanto no dramático. Excelente o elenco. Já conhecia bem a Fabiula Nascimento, mas fiquei impressionado com o Marcelo Valle. Não lembro dele de outro filme. Outro ponto positivo do filme é o quanto ele transgride o filão dos filmes de sequestro. Ano: 2018.

domingo, agosto 04, 2019

O BAR LUVA DOURADA (Der Goldene Handschuh)

Um dos grandes méritos de O BAR LUVA DOURADA (2019), o novo trabalho de Fatih Akin, é conseguir contar a história de um psicopata levando o espectador para um universo que muito se assemelha a um inferno na Terra, ao mais fundo que um ser humano pode chegar. Não apenas o drama do assassino alemão Fritz Honka (Jonas Dassler, soterrado em uma camada de próteses para compor a figura disforme do personagem), mas também as figuras que frequentam o tal bar que dá título ao filme.

A fotografia do filme, sem muitos filtros embelezadores, ajuda a tornar tudo muito feio. Assim, as mulheres que se prostituem no lugar são senhoras idosas dependentes de álcool que transam por uma ou mais doses. É assim que algumas delas vão parar na casa fétida de Honka. O mau cheiro se deve ao cheiro dos corpos das vítimas em estado de putrefação. Ele, por ser visto como um homem muito feio, é rejeitado por algumas mulheres. Outras não veem isso como um problema.

O filme já começa com uma cena em que Honka tenta se desfazer do corpo de uma delas, cortando em pedaços com um serrote. As imagens não são muito gráficas como em A CASA QUE JACK CONSTRUIU, de Lars von Trier, ou outros filmes mais explícitos, mas o mal estar é constante devido ao caráter grotesco das cenas e principalmente do próprio personagem, que responde com ainda mais violência sempre que se mostra frustrado sexualmente. Importante lembrar que a única personagem que aparece em um registro de beleza de modelo é uma moça loira que Honka encontra e que passa a povoar os seus sonhos.

Diferente do que acontece em um outro filme de serial killer recente, TED BUNDY - A IRRESISTÍVEL FACE DO MAL, de Joe Berlinger, que faz com que o público simpatize com o assassino, o assassino de O BAR LUVA DOURADA é totalmente despido de glamour. É ridicularizado em sua busca por mulheres que não consegue ter, no seu físico corcunda e em seu estrabismo, nas suas tentativas de ter uma ereção com fotos de mulher nua estampadas na parede de sua casa para penetrar, em vão, suas clientes/vítimas, e no modo violento com que trata em especial uma das mulheres que chega em sua casa para trabalhar para ele.

Ainda assim, há um olhar humano do diretor para o próprio Honka e principalmente para os outros personagens, todos eles solitários, desvalidos, alcoólatras, esquecidos pelo resto da humanidade. O Bar Luva Dourada parece uma espécie de oposto ao que se chama de oásis. Mesmo quando o filme muda de tom e Honka arranja um emprego de vigilante, as novas pessoas que se apresentam também são almas muito tristes, embora a ambientação mude positivamente, com uma luz mais clara do ambiente de trabalho.

Fatih Akin havia filmado algumas cenas do passado de Honka, de modo a mostrar os abusos que ele sofreu na infância, mas depois resolveu retirar essas cenas da edição final por achar que isso soasse como uma desculpa para uma pessoa se tornar um assassino serial. Assim o filme não tem essa preocupação em contar uma história do personagem nos moldes tradicionais, mas apenas de um determinado recorte no tempo.

Assim, por mais que saiamos do cinema sem saber direito se gostamos ou não do filme, o importante é que é dessas obras cujas imagens não sairão com muita facilidade de nossa memória.

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TED BUNDY - A IRRESISTÍVEL FACE DO MAL (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile)

Uma surpresa positiva pra mim este filme sobre Ted Bundy, um dos mais famosos serial killers de todos os tempos. Conhecia muito pouco de sua história e aprendi bastante com este filme, que surpreende por até mesmo dar um benefício da dúvida sobre os crimes de Bundy durante praticamente toda sua duração. E por ser tanto um drama de tribunal, quanto um drama sobre a situação triste de uma mulher apaixonada. No caso, a mulher de Bundy, interpretada por Lily Collins. Zac Efron está muito bom como o sujeito bonito e conquistador. O diretor Joe Berlinger é especializado em documentários; fez, inclusive, aquele sobre o Metallica, SOME KIND OF MONSTER. James Hetfield aparece numa cena. O elenco de apoio também é cheio de curiosidades. Ano: 2019.

OBSESSÃO (Greta)

Um filme curioso em muitos aspectos, até pela presença de Isabelle Huppert no papel de uma psicopata. É mais um terror psicológico do que físico e nisso o diretor, um decadente Neil Jordan, se inspira um tanto em PACTO SINISTRO, de Alfred Hitchcock. Mas a semelhança acaba em determinado momento, quando a narrativa segue um outro caminho, mais interessante. Confesso que achei que o filme fosse dar um salto mais positivo, mas ao menos trouxe algo que não esperava apenas daquilo que o trailer apresenta. Ano: 2018.

UTøYA - 22 DE JULHO (Utøya 22. Juli)

O uso de um único plano-sequência com câmera na mão para contar a história de um ataque que pôs fim à vida de dezenas de jovens na ilha de Utøya em 2011 chega a impressionar como recurso técnico. E a atriz principal é ótima e dá pra ficar imaginando o trabalho que deu para montar tudo isso. Há também um filme de Paul Greengrass, que procura abordar o ocorrido de maneira mais convencional. No mais, nunca mais vou ouvir "True Colors" do mesmo jeito. Direção: Erik Poppe. Ano: 2018.

quinta-feira, agosto 01, 2019

14 CURTAS BRASILEIROS

EU QUERIA SER ARREBATADA, AMORDAÇADA E, NAS MINHAS COSTAS, TATUADA

Uma das coisas de que eu mais gostei neste filme foi da cena de sexo, não pelo sexo em si, mas pelo fato de os atores estarem tão bem, dialogarem de maneira dramática e intensa durante o ato. A trama me pareceu um tanto confusa, mas como é um curta, nada que uma revisão não possa ajudar na compreensão. Temos aqui a história de uma mulher cansada da vida que leva e precisa tomar alguma atitude urgente. Direção: Andy Malafaia. Ano: 2015. (foto)

AQUELES DOIS

Belo documentário sobre a situação de duas pessoas trans, a questão da aceitação perante à família e à sociedade, tudo isso mostrado com muita sensibilidade pelo diretor. Os relatos das mães e familiares às vezes entram em choque com a necessidade da identidade dos rapazes, mas por isso mesmo é importante que estejam presentes, especialmente nos dias de hoje, em que a intolerância está tão explícita. Direção: Émerson Maranhão. Ano: 2018.

AZUL VAZANTE

Um dos aspectos mais interessantes deste filme é o que ele causa de estranheza, inclusive para as pessoas que passam pela Praça da Sé, em São Paulo, onde fica deitada em uma cama de hospital uma mulher (alguns perguntam: é um homem ou uma mulher?) enquanto algumas pessoas supostamente chegam para cuidar dela. Demorei a entrar no filme e a comprar sua proposta, mas não há como negar que é uma obra que faz a gente ficar pensando depois. Direção: Julia Alquéres. Ano: 2018.

CATADORA DE GENTE

Um documentário extremamente simples, apenas contando com o depoimento de uma senhora que trabalha como catadora de lixo. Aos poucos vamos conhecendo e vendo o quanto essa mulher progrediu através da leitura e o quanto ela mudou as vidas das pessoas ao seu redor. É uma pedrada ouvir o que ela diz e vê-la ainda tentando sorrir e mostrar o quanto deixou de ser tão bruta como era antes. Direção: Mirela Kruel. Ano: 2018.

MAIS TRISTE QUE CHUVA NUM RECREIO DE COLÉGIO

Um filme que causa um mal estar intenso, sobrepondo imagens da reconstrução do Maracanã e também de um homem brincando com uma bola com áudios terríveis da história recente do Brasil. Desses que deixam a gente inconformado. Diria que ver isso condensado em um curta de 14 minutos foi muito mais incômodo para mim do que ver o longa da Petra Costa. Não tá fácil, Brasil. Direção: Lobo Mauro. Ano: 2018.

ADEUS À CARNE

Carnaval, diversão, maconha, tesão, tá tudo muito bom, tá tudo muito bem. Mas aí acontece algo para cortar o barato das três amigas. Um filme que engrossa o coro de obras que lidam com a questão da sororidade. Uma das meninas eu conhecia de CONFISSÕES DE ADOLESCENTE - O FILME. Direção: Julia Anquier. Ano: 2017.

ABISMO

Filme perfeito para quem tem medo de elevador: nunca mais vai querer entrar novamente. Com uns dois minutos a menos ficaria perfeito. Gosto muito da sensação de aflição em que se encontra o porteiro do prédio. O diretor sabe construir uma atmosfera de pesadelo admirável. Direção: Ivan de Angelis. Ano: 2018.

ALMA BANDIDA

Interessante como o filme consegue unir um tipo de dramaturgia próxima do documentário, como nos filmes vindos de Minas Gerais, com algo um pouco mais tecnológico, com a inclusão do videogame. Mas nem é por exibicionismo não, mas serve à narrativa de tentativa de vencer na vida do protagonista. Pena que eu não consegui comprar a proposta. Fiquei curioso para saber a repercussão internacional do filme lá em Berlim. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2018.

DE VEZ EM QUANDO, QUANDO EU MORRO, EU CHORO

Um filme que tem um quê de suspense na relação que surge a partir do encontro de dois completos estranhos para uma relação sexual. Boa a conversa inicial, bom o prólogo para o ato, e também gosto do modo simples como termina, embalado por uma melancolia. Mas o suspense parece ficar mais na tentativa ou ensaio, não sei. Talvez fosse eu tentando imaginar um filme que se tornaria algo diferente. Direção: R.B. Lima. Ano: 2017.

ALMAS

O poema "Não sei quantas almas tenho", de Fernando Pessoa, dá o tom de profundidade a esta animação. Mas também não podemos desmerecer o filme pela grandiosidade da obra que lhe serviu de inspiração. É tão bonita a animação, pintada e que cabe nos versos de Pessoa. Destaque também para a música de Zeca Baleiro. São apenas três minutos. Dá vontade de mais. Direção: Marco Faria. Ano: 2018.

BOLHA

Que filme bonito e viajante. Um claro exemplo do quanto se pode abstrair usando a animação, com resultados lindos. A história parte da descoberta de algo estranho no pescoço do protagonista. A partir daí o filme tanto segue por um caminho de paranoia dentro da sua vida cotidiana até chegar a uma viagem astral pelo universo ao som de uma música que muito lembra Pink Floyd. Não por acaso, a banda está entre os agradecimentos do diretor ao final dos créditos. Outro da lista de agradecimentos é Franz Kafka. Imagina-se o porquê. Direção: Mateus Alves. Ano: 2018.

CELULOUKOS

Animação bem divertida sobre dois celulares antigos relembrando os velhos tempos e reclamando do fato de estarem sendo abandonados. Além de a animação ser bem cuidada, ainda que simples, traz uma história com algumas situações bem engraçadas. Lembrei de quando eu parei de anotar os telefones das pessoas numa agenda de papel pois havia agora o celular. Mas depois corria-se o risco de perder tudo ao perder o celular. Direção: Oziel Pereira. Ano: 2018.

DISEXTA

Mais um filme que faz um apanhado dos absurdos da história política recente no Brasil, desde 2013 até 2018. Não fala de Bolsonaro, mas já se pode imaginar para onde ia chegar tudo aquilo. A animação é inspirada nas manchetes e chamadas dos telejornais e mostra alguns fatos marcantes, como a conversa de Aécio sobre matar fulano de tal, além de outras barbaridades que não deram em nada nesse país que parece não ter jeito. Direção: André Catoto. Ano: 2018.

SONDER

Um encontro de um menino "normal" e um outro cheio de estranhos símbolos no rosto e no corpo. A animação é simples mas bonita, com um apelo para a sentimentalidade por causa da música pianinho e um caminho para uma compreensão de mundo dos meninos. Cabe metáforas várias, mas que chegariam ao mesmo ponto, creio eu. Direção: Nicole Janér. Ano: 2018.

terça-feira, julho 30, 2019

ASCENSOR PARA O CADAFALSO (Ascenseur pour l'Échafaud)

Entre as coisas que eu mais sinto falta atualmente no Brasil estão as revistas de cinema. Falo das realmente boas e regulares, com matérias bem escritas e entrevistas ótimas com cineastas. Na viagem rápida à Flórida no ano passado pude obter três delas: uma Film Comment, uma Cineaste e uma Cinema Scope. Todas com material que tem me servido como combustível para aumentar minha vontade de ver filmes e também trazer informações boas. Costumo dizer que no dia que ganhar na loteria uma coisa que eu vou fazer, não importando se dá dinheiro ou não, é uma excelente revista de cinema no Brasil. E como eu já conheço muita gente boa na crítica brasileira, então ótimos nomes não faltarão. O problema é que quase nunca eu jogo na loteria.

Enfim, tudo isso para falar de que foi de um texto da Cineaste que surgiu uma vontade imensa de ver, finalmente, ASCENSOR PARA O CADAFALSO (1958), estreia brilhante em longa-metragem de ficção de Louis Malle. Antes ele tinha codirigido O MUNDO SILENCIOSO (1956) com Jacques Costeau, que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes e um Oscar de melhor documentário, e havia trabalhado como assistente de direção para Robert Bresson na obra-prima UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU. Ou seja, já começou a carreira chutando os dois pés na porta.

Por isso é um tanto curioso que seu filme, que chegou antes de OS INCOMPREENDIDOS, de Truffaut, e de ACOSSADO, de Godard; e ainda antes dos dois primeiros do Chabrol, NAS GARRAS DO VÍCIO e OS PRIMOS; é curioso que ele não seja costumeiramente chamado de marco zero da nouvelle vague. Afinal, ASCENSOR estreou meses antes dos filmes de Chabrol. Talvez o fato de ele não ser crítico de cinema da Cahiers du Cinema tenha pesado. De todo modo, o importante é que o filme é uma obra-prima e que Malle soube muito bem usar o que aprendera com Bresson e o quanto queria prestar homenagem a Hitchcock.

O filme começa com trocas de juras de amor por telefone entre o casal Julien Tavernier (Maurice Ronet) e Florence Carala (Jeanne Moreau). Os dois tramam assassinar o marido de Florence em um crime muito bem orquestrado, e poderiam ficar juntos, livres e endinheirados. E tudo estava correndo como o planejado até a hora que, depois de matar o sujeito, e sair do escritório como se nada tivesse acontecido, esquece algo e acaba preso no elevador. A partir daí uma série de outros eventos se sucedem e um outro casal passa a ganhar peso na trama.

E por mais que a trama seja uma delícia, o filme não é tão dependente dela, já que há uma atmosfera noturna excitante, ao som da música de Miles Davis. Inclusive, um filme recente utilizou parte da trilha do filme em uma sequência linda. Refiro-me a EM CHAMAS, de Lee Chang-dong. Pois é essa música lindona que embeleza boa parte do filme, que também sabe muito bem utilizar os silêncios para construção de tensão.

As cenas de Jeanne Moreau passeando pelas lojas de Champs-Élysées foram feitas com a câmera em cima de um carro de bebê. O diretor de fotografia, Henri Decaë, foi parceiro de Jean-Pierre Melville e depois seria o homem por trás das câmeras dos primeiros trabalhos de Chabrol e de Truffaut. Ou seja, há muita coisa interligada entre a turma. Inclusive, Jeanne Moreau.

Sem dúvida, ASCENSOR PARA O CADAFALSO foi um dos filmes que mais me deu prazer neste ano. E pensar que há tantos filmes de primeira grandeza para ver ainda. Já me disseram que TRINTA ANOS ESTA NOITE (1963) também é uma maravilha de Malle. Já está devidamente engatilhado. Aliás, a pessoa que me recomendou disse que Malle é puro Khouri. E eu notei que é verdade, vejam só. Daí o fato de eu ter gostado tanto. Há tanto o que ver e o que aprender ainda.

+ TRÊS FILMES

SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA

Vendo pela primeira vez este grande clássico do cinema brasileiro, achei estranho notar tanto as semelhanças quanto as grandes diferenças com os filmes de outro diretor famoso por pintar a cidade de São Paulo com amor e ódio. Mais amor, no caso de Khouri. Aqui, São Paulo é uma espécie de cidade que enlouquece. Ou o pobre protagonista vivido por Walmor Chagas é apenas um homem fraco e que não sabe direito ainda o que fazer da vida. Não fica contente com o casamento aparentemente perfeito com a personagem de Eva Wilma, mulher correta, carinhosa e que pensa no sucesso financeiro do casal. Ainda é um filme que eu preciso pensar mais a respeito. Direção: Luiz Sérgio Person. Ano: 1965.

TRÁGICO ÁLIBI (My Name Is Julia Ross)

De Joseph H. Lewis só havia visto duas obras-primas, MORTALMENTE PERIGOSA (1950) e REINADO DO TERROR (1958). Este film noir aqui que lembra um pouco À MEIA LUZ, de George Cukor, na trama, é bem curtinho e dinâmico (65 minutos que passam voando). A história é envolvente e eu só senti mais falta de ficar mais tenso com a situação da protagonista, presa em uma trama macabra. Caso de filme pequeno que se fez com pouco dinheiro e exibido em sessões duplas, mas que acabou ganhando força pela boa recepção dos críticos. Ano: 1944.

O HOMEM DA CAPA PRETA

Engraçado eu nunca ter tido tanto interesse em ver este filme, por mais que tenha visto tantas vezes sua propaganda na Rede Manchete, que o distribuiu em VHS. A cópia masterizada está lindona e é um filme com uma produção muito caprichada, inclusive com o uso do som e da dublagem, um elemento que na época não era muito levado em consideração. E falando do filme em si, é curioso como acabamos chegando a um momento histórico parecido com o do final. A história é circular. Direção: Sergio Rezende. Ano: 1986.

segunda-feira, julho 29, 2019

O MISTÉRIO DE CANDYMAN (Candyman)

Certo dia, conversando com um amigo sobre tal filme que ele deveria ver, ele fala que ultimamente não é ele quem está indo em busca dos filmes, mas os filmes que vão até ele. Algo do tipo. E, de fato, é mais ou menos assim que as coisas acontecem em boa parte das vezes. Recentemente li o livro Candyman, de Clive Barker, lançado pela editora Darkside. Trata-se de uma reedição do conto "O Proibido", já lançado no Brasil na coleção Livros de Sangue. Aqui, no entanto, o importante é dar destaque justamente a este personagem de Barker que se tornou um ícone do horror, especialmente no cinema. Como o livro conta com um posfácio do crítico e pesquisador do cinema de horror Carlos Primati, e que fala bastante do filme e de suas continuações, a vontade de rever O MISTÉRIO DE CANDYMAN (1992) foi irresistível. Ainda bem que é um filme fácil de encontrar por aí.

Na minha lembrança, na época em que o vi em VHS, ele não tinha me deixado muito impressionado. Na verdade, o personagem-título em si, é um tanto fantasioso para se comprar. Mas hoje em dia, e depois de ter lido o conto, é que percebo o quanto esse seu aspecto é justamente um de seus trunfos. Afinal, no início da década de 1990, o cinema ainda se curvava a Clive Barker pela sua obra-prima HELLRAISER - RENASCIDO DO INFERNO.

Claro que não é só o personagem que conta. É o modo como o filme é contado e como o trabalho de Bernard Rose aqui envelheceu bem. Quem também se destaca em O MISTÉRIO DE CANDYMAN é a bela Virginia Madsen, que aqui lembra as loiras platinadas dos anos de ouro de Hollywood. Em uma das cenas finais, a fotografia fica um tanto fora de nitidez, passando a imagem de filme antigo em um close-up da atriz.

Na trama, Madsen é Helen Lyle, uma estudante universitária que está escrevendo uma tese sobre lendas urbanas. Acaba conhecendo a história de Candyman, um sujeito que, com um gancho no lugar da mão, aparece para matar quem fala seu nome no espelho cinco vezes. A ideia nem é nova e não consta no conto de Barker (essa parte do espelho), mas foi muito inteligente incluir no filme para a ampliação da mitologia do personagem.

A primeira parte da trama mostra Helen e sua amiga Bernadette (Kasi Lemmons) investigando em um gueto um tanto perigoso para brancos ricos os locais onde supostamente ocorreram os assassinatos cometidos por Candyman. O lugar que elas pesquisam é cheio de pichações e bastante abandonado, mas é lá que Helen encontrará uma mulher que será muito importante para o que virá a seguir.

A composição do monstro é muito boa, assim como sua personificação, pelo ator Tony Todd, um dos primeiros atores negros a entrar em uma galeria de monstros do cinema de horror. Algumas cenas são bem memoráveis, como a sequência do banheiro, os encontros iniciais com Candyman, e as cenas no hospital psiquiátrico. Uma delas é bem surpreendente, inclusive.

Recentemente surgiu uma notícia de que Jordan Peele está produzindo uma nova versão da história. Sendo de Peele, ainda que não seja dirigido por ele, é bem-vindo. É esperar para ver se o sucesso do monstro se perpetuará nesta encarnação futura.

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ANNABELLE 3 - DE VOLTA PARA CASA (Annabelle Comes Home)

Embora seja inferior aos dois primeiros filmes em diversos aspectos, como domínio narrativo, por exemplo, este filme tem o seu charme, tanto pela boa recriação de época quanto pelo fato de se passar quase que inteiramente na residência dos Warrens, com um trio de meninas que protagonizam a trama. Destaque para a jovem Madison Iseman, que tem potencial para fazer sucesso em outros filmes futuros. Gosto em especial da cena do reflexo na televisão. Direção: Gary Dauberman. Ano: 2019.

A MALDIÇÃO DA CHORONA (The Curse of La Llorona)

Em comparação com A FREIRA, este A MALDIÇÃO DA CHORONA é uma pequena obra-prima. Há elegância nos planos, na ambientação da época (anos 70), no modo como ele utiliza recursos manjados de maneira interessante. Mas não há nada de novo e a trama é tão fraca que parece que não teve um final efetivamente pensado. É mais a coisa "vamos fazer um filme sobre a lenda da Chorona" e pronto. A atriz principal, Linda Cardellini, é bem carismática. Curiosamente, ela fez a Velma no filme do Scooby-doo, que aparece na televisão em uma breve cena. De todo modo, é bom o James Wan parar com esses derivativos. Ele já se queimou bastante. Direção: Michael Chaves. Ano: 2019.

SUSPÍRIA - A DANÇA DO MEDO (Suspiria)

Não deixa de dar uma ponta de decepção com esse novo SUSPIRIA. Ainda assim, há algumas ousadias boas, Dakota Johnson está ótima e pra quem gosta de dança moderna o filme oferece muitas cenas. Agora faltou o principal: atmosfera de filme de terror. O diretor Luca Guadagnino tem uma sensibilidade muito boa para dramas românticos, mas aqui o máximo que conseguiu de horror foi um gore bonito e uma direção de arte que remete ao horror italiano dos anos 70. Não entendi a necessidade de contextualizar historicamente a trama, que acaba não tendo muita utilidade final. A personagem de que eu mais gostei foi Sara, vivida por Mia Goth. Talvez por ser a que mais se aproxima do espectador. A atriz está em A CURA, que eu não vi, e em um papel pequeno de NINFOMANÍACA - VOLUME 2. Ano: 2018.

sábado, julho 20, 2019

O CÓDIGO PENAL (The Criminal Code)

Saudade dos anos 2005-2008, que foi o período em que eu mais vi filmes do Howard Hawks, um dos cineastas mais queridos da casa. No primeiro ano, eu comecei a pegar pelo acervo da Distrivídeo, que tinha uma boa quantidade de filmes do diretor. Depois, tive a chance de conseguir por vias alternativas, o que foi uma maravilha. No entanto, alguns filmes até então continuavam inéditos para mim, por falta de legenda, principalmente. Três deles surgiram recentemente, devidamente legendados na rede: A PATRULHA DA MADRUGADA (1930), já resenhado neste espaço; FAIXA VERMELHA 7000 (1965), ainda a ser visto; e este O CÓDIGO PENAL (1930), segundo filme falado do mestre.

Trata-se do filme de prisão de Hawks. Os elementos tão presentes em seus filmes não se manifestam de maneira tão forte aqui, mas há o senso de camaradagem, o código ético que os presos têm, como, por exemplo, não se deve delatar o colega para os guardas ou para o diretor da penitenciária. Há também uma cena que é a cara do Hawks, que é quando o protagonista, Robert Graham, vivido por Phillips Holmes, recebe a notícia de que sua irmã falecera, enquanto está jogando damas com os colegas de cela.

Assim como acontece nos demais filmes do cineasta, a reação para esse tipo de situação triste é engolir o choro. E é impressionante como isso aumenta o potencial dramático. Isso seria muito melhor explorado em O PARAÍSO INFERNAL (1939), o grande filme de aviões do diretor. Em O CÓDIGO PENAL, o colega de cela o incentiva a continuar jogando.

Na trama, Graham é um rapaz que mata uma pessoa acidentalmente, mas que, por ter um advogado fraco, acaba sendo alvo fácil do procurador público Mark Brady, vivido com brilhantismo por Walter Huston. Lembremos que o bom ator faria um dos papéis mais memoráveis da velha Hollywood em O TESOURO DE SIERRA MADRE, 18 anos depois, dirigido pelo filho, John Huston.

Aqui ele investe seu personagem de uma nobreza que nos faz esquecer um pouco seu jeito durão e muitas vezes impiedoso com várias das pessoas que passaram por ele e foram parar na cadeia. A roda gira quando, anos depois, Brady é nomeado diretor da penitenciária e reencontra o jovem Graham, em frangalhos, precisando de ajuda. Ele o transfere para um lugar muito melhor de trabalhar, junto a ele, ajudando em diversas coisas da família, e tendo o prazer de conhecer a filha de Brady, a bela Mary, vivida por Constance Cummings.

E o que vemos então é uma habilidade incrível de Hawks em conseguir juntar tudo isso: filme de prisão com suspense, drama do presidiário e uma história de amor e conseguir ser bem-sucedido em tudo. O que dizer dos vinte minutos finais, tão cheios de apreensão? Curiosamente não é dos filmes mais queridos do diretor e nem é creditado a ele, conforme informação no IMDB. Se não é tão bom quanto o anterior, A PATRULHA DA MADRUGADA, serve de ótima escada para uma de suas obras mais famosas, SCARFACE - A VERGONHA DE UMA NAÇÃO (1932).

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OS MENINOS (¿Quién Puede Matar a un Niño?)

Foi preciso morrer Serrador para que eu finalmente visse este clássico do horror europeu. O que aconteceria se as crianças passassem a matar os adultos? Esse ponto de partida aterrorizante é o coração da trama deste filme, que estabelece uma ligação com os inúmeros genocídios ocorridos em diversas tragédias da humanidade, em que são as crianças as principais vítimas. Como uma espécie de vingança da parte delas. Destaque também para a bela fotografia solar de José Luis Alcaine. Direção: Narciso Ibáñez Serrador. Ano: 1976.

CYRANO (Cyrano de Bergerac)

Quando a gente não respeita ou simpatiza com o protagonista, fica muito difícil torcer por ele. Na verdade, além de ter ficado muito velho, a própria peça original já nasceu velha, com um romantismo que já havia acabado naquele final do século XIX. O personagem é tão chato que demora demais até para morrer, naquele seu monólogo final. Depardieu, gigante que é, podia ter deixado passar esse filme. Direção: Jean-Paul Rappeneau. Ano: 1990.

O PORTEIRO DA NOITE (Il Portiere di Notte / The Night Porter)

Um dos poderes das grandes obras é desafiar convenções e subverter regras, como trazer romantismo para uma história de sentimentos mistos. O filme conta o grande amor entre uma judia que passou pelo campo de concentração e seu torturador. Liliana Cavani trafega por caminhos que a gente não imaginaria trilhar a partir do começo, que mais parece uma história de vingança. A trama no presente é enriquecida pelas lembranças do tempo da guerra. Interessante ver Chatlotte Rampling tão jovem, eu que já a conheci idosa. Ela é linda, mas a imagem de seu rosto envelhecido não parava de vir à minha mente enquanto olhava para ela. Ano: 1974.

quarta-feira, julho 17, 2019

HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (Spider-Man - Far from Home)

Uma bela surpresa este HOMEM-ARANHA - LONGE DE CASA (2019), segundo filme-solo do Aranha com o jovem e talentoso Tom Holland. Em sua primeira aparição, em CAPITÃO AMÉRICA - GUERRA CIVIL, pode não ter agradado a muitos, mas, ao que parece, neste novo filme, ele já conquistou a praticamente todo o seu público, causando admiração e maior aceitação. Não resta dúvida que incluir o herói adolescente é mais atraente para um público mais jovem, que pode se identificar bem mais com seus problemas e com suas preocupações do que com as de um adulto milionário e cínico como Tony Stark.

Aqui, a principal preocupação de nosso herói é conseguir se aproximar da garota por quem ele está apaixonado, a MJ (Zendaya). Aliás, a escalação de Zendaya como interesse amoroso tem dado o que falar: embora o nome da personagem seja Michelle, como dito no primeiro filme do Aranha, e não Mary Jane, como é conhecida a mais querida das namoradas de Peter Parker nos quadrinhos, o termo MJ costuma ser associado à belíssima ruiva dos quadrinhos, que até já foi personificada no cinema nos três filmes de Sam Raimi por Kirsten Dunst. Assim, a escalação de uma atriz negra não deixa de ser uma novidade.

Aliás, há várias mudanças poéticas no elenco deste filme em comparação com as HQs, mas é sempre bom respeitar os caminhos que o realizador e os roteiristas traçaram. Quadrinho é quadrinho, filme é filme. E aqui há mais liberdades do que a maioria dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel. Inclusive, não deixa de ser muito interessante ver uma Tia May tão jovem como a interpretada por Marisa Tomei.

Também é muito interessante como é introduzido Mysterio, que nas aventuras do amigão da vizinhança nos quadrinhos é um vilão de terceira categoria. Aqui se dá uma maior importância ao personagem, que não é apresentado exatamente como um vilão. Mas é também muito bom ver que o filme é muito mais do que o trailer dá a entender. Assim, todos aqueles monstros meio genéricos acabam ganhando algum sentido.

Mas o melhor do filme é mesmo o modo como ele dá mais destaque ao Peter Parker do que ao Homem-Aranha. É muito divertido vê-lo em um passeio com os colegas da escola por cidades da Europa. O melhor amigo dele, Ned (Jacob Batalon), é muito engraçado. Trata-se da influência da versão ultimate no personagem, com um amigo latino gordinho. Isso fez bem ao filme. Ah, e vale destacar a bem-vinda presença da jovem Angourie Rice, no papel de Betty Brant, colega de Peter na escola.

A questão "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades" até surge em algum momento, mas de maneira gradual, ao jovem Peter, que não queria, a princípio, dividir sua vida normal de adolescente para ser escalado para uma nova missão por Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Além de ser um filme muito bem-humorado e que consegue espantar a sombra da morte de Tony Stark nos grandes eventos dos filmes anteriores dos Vingadores, em comparação com HOMEM-ARANHA - DE VOLTA PRA CASA (2017), este segundo filme solo é melhor em diversos aspectos, embora não tenha cenas tão memoráveis como as das ameaças do vilão Abutre (Michael Keaton) ao herói. Aqui temos Jake Gyllenhaal como o Mysterio e não é bom dizer mais do que isso, a fim de não estragar as surpresas, mas podemos dizer que o ator se sai muito bem. As cenas de ação são ok, sem muitas novidades. Mas há que se dizer que a cena pós-créditos deste filme é a mais importante de todos os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, no sentido de não poder ser descartada do produto final.

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X-MEN - FÊNIX NEGRA (Dark Phoenix)

Um filme que parece todo errado desde o começo (desde escolhas de elenco, atuações, texto, criatividade para tecer uma trama minimamente interessante). Se eu já achava difícil engolir a J.Law como Mística, a ênfase à personagem da Sophie Turner só acentuou a fragilidade da escalação. Sem falar no menino Ciclope, com cara de bocó. O pior filme dos X-Men, que só não é tão chato quanto o primeiro Wolverine dentro da franquia da Fox, que aqui é morta e sepultada. Melhor sorte com a Marvel Studios aos nossos queridos mutantes. Direção: Simon Kinberg. Ano: 2019.

HELLBOY

Uma pena que este reboot de Hellboy só tenha servido para enterrar de vez o personagem nos cinemas. Se bem que parece que ele não foi feito para as telas. Não conheço os quadrinhos, mas é um trabalho muito querido o do Mike Mignola. Aqui Neil Marshall parece ter um bocado de ideias interessantes e quer brincar de fazer filme violento e chocante com rock no talo, mas no fim das contas com menos de meia hora a vontade que tudo acabe já chega. Imagina só ter que aturar as duas horas. Aliás, alguém lembra de quando o Neil Marshall era considerado um grande nome do novo horror no começo do novo milênio? Pois é.. Ano: 2019.

TURMA DA MÔNICA - LAÇOS

A direção de arte e fotografia são lindas, os meninos e meninas são uma boa escolha de elenco, mas confesso que eu lutei para segurar o sono. Os filmes infantis e animações mais tradicionais estão cada vez mais tendo esse tipo de efeito em mim. Não consegui ver com muita naturalidade e graça a atitude da Mônica com o coelho. Aliás, sobre certas características dos personagens, vemos que o cinema brasileiro pensa apenas no território nacional. A piada do sovaco do Cascão, por exemplo, não seria entendida pelo público estrangeiro, por mais que aos poucos a característica dele de não gostar de um banho seja explicitada. De todo modo, creio que atende o público infantil, que é o alvo principal. Ah, a cena com o Rodrigo Santoro eu achei um saco. Direção: Daniel Rezende. Ano: 2019.

domingo, julho 14, 2019

MEMÓRIAS DA DOR (La Douleur)

Impressionante como certos diretores têm uma carreira já relativamente longa, mas que são praticamente desconhecidos, até que certo filme chama a atenção de tal forma que passa-se a questionar a inabilidade das distribuidoras não darem o devido destaque aos trabalhos desse cineasta. É o caso de Emmanuel Finkiel, que teve seu longa-metragem de estreia, VIAGENS (1999), recebido com louvor, com premiação em Cannes e prêmio de melhor primeiro filme no César. Também alcançou prestígio internacional em diversos países, inclusive no circuito arthouse americano.

Além dos filmes como diretor e roteirista, Finkiel tem em seu currículo vários trabalhos como assistente de direção de cineastas de primeiro escalão, como Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski e Bernard Tavernier. Mas o que aconteceu é que os demais filmes de Finkiel como diretor meio que passaram batidos ao longo dos anos, por mais que cinéfilos atentos tenham visto seus trabalhos em mostras. NÃO SOU UM CANALHA (2015), seu filme anterior, ganhou algum destaque e já trazia Mélanie Thierry, que brilharia neste novo e magistral MEMÓRIAS DA DOR (2017).

Eis um filme que merece não só a atenção, mas uma especial reverência. O trabalho de construção da personagem, baseada na escritora Marguerite Duras, que faz uma espécie de bioficção ao contar da dor que foi o período em que ela passou esperando o marido voltar de um campo de concentração. E MEMÓRIAS DA DOR é basicamente sobre isso, embora seja rico o suficiente para ser também sobre culpa, desejo, e ser carregado de uma aura de desencantamento com a vida que só encontra paralelos em situações de terrível depressão.

Em determinado momento do filme, o amigo e amante vivido por Benjamin Biolay fala para que Marguerite tome banho; que ela está fedendo. Àquela altura, ela não estava mais conseguindo cuidar de si mesma. Na angústia de esperar, toma a decisão de falar com um perverso colaborador do nazismo na França ocupada. Como a história se passa entre os anos de 1944 e 1945, vemos a variação no comportamento e no grau de sentimento de segurança dessas pessoas que trabalhavam para os nazistas e que estavam acostumadas com tortura física e psicológica - isso, claro, na posição de torturadores.

Um dos aspectos que chama a atenção em MEMÓRIAS DA DOR é o modo como o diretor trabalha as sombras e também, com frequência, coloca a protagonista como único elemento não borrado, acentuando ainda mais seu sentimento de solidão e abandono naquele mundo de pesadelo. Há também destaque para a narração em voice-over de Marguerite. Uma narração pausada, que lembra e muito a narração usada em HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais, não por acaso uma obra roteirizada por Duras. Assim, os traços da obra literária da escritora estão explicitamente presentes, mas servindo não como muleta para a narração cinematográfica, mas para enriquecer ainda mais o trabalho visual.

Há algumas cenas que se destacam dentro de um conjunto que parece perfeito. E como a trilha sonora é usada apenas entre os espaços da cena, como para acentuar o clima de tristeza, os silêncios nas sequências dramáticas só enfatizam a grande performance de Mélanie Thierry. O que dizer das cenas finais de descoberta? Tanto da cena com a Mme. Katz quanto na cena mais arrepiante do filme? Ver MEMÓRIAS DA DOR é uma dessas experiências raras e recompensadoras, que só cresce na memória afetiva.

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MAYA

Depois de dois filmes que lidaram basicamente com a rotina de vida de personagens (EDEN e O QUE ESTÁ POR VIR), Mia Hansen-Løve volta novamente a usar esse recurso para contar a história de um repórter de guerra que tenta deixar sua vida nos eixos após uma traumática experiência. Para isso, ele viaja para a Índia e é lá que ele conhece a personagem-título. O nome, creio eu, também pode fazer referência à ilusão, mas não li nada a respeito - crítica ou entrevista da realizadora - que possa corroborar a minha suspeita. Gosto muito do andamento, de como é muito mais importante a construção dos personagens e sua profundidade do que uma história propriamente dita. Um belo filme. Ano: 2018.

MEU BEBÊ (Mon Bébé)

Este é o tipo de filme que eu não vejo sendo realizado por um homem, por mais que isso possa até soar sexista. E essa é uma das vantagens de se ter essas vozes múltiplas no cinema. Aqui a história é muito simples, mas importa menos a história e mais o sentimento. O sentimento da mãe em relação à filha mais nova, que está prestes a deixar o ninho e fazer faculdade no Canadá. Os pequenos flashbacks da infância dos filhos da protagonista também contribuem para enfatizar esse sentimento, que é recíproco pela filha, tão apegada à mãe, mas também tão consciente de que precisa aproveitar o momento de tomar o próprio rumo. Adorei a homenagem a O DESPREZO, de Godard. Direção: Lisa Azuelos. Ano: 2019.

CYRANO MON AMOUR (Edmond)

O lado positivo de ver o CYRANO de 1990 foi poder fazer uma dobradinha com este novo trabalho e saber exatamente do que se está falando. O filme foca na concepção de Cyrano de Bergerac até a noite de estreia. Passei a conhecer muita coisa sobre a obra que nem imaginava. E a impressão inicial de que a peça já nasceu velha se confirmou, por mais bem-sucedida que tenha sido ao longo dos anos. Direção: Alexis Michlik. Ano: 2018