quarta-feira, fevereiro 19, 2020

O GRITO (The Grudge)

Ao final de cada ano, vemos interessantes listas de melhores filmes de terror. Não é nenhuma surpresa perceber que a maior parte dos títulos presentes nessas listas se encontra inédita nos cinemas brasileiros, ou foi lançado de maneira discreta ou quase invisível em algum serviço de streaming. Enquanto isso, o número de filmes do gênero de baixa qualidade que chegam aos cinemas tem aumentado bastante.

Só neste ano tivemos AMEAÇA PROFUNDA (que é meio sci-fi e meio filme de ação também), A POSSESSÃO DE MARY, OS ÓRFÃOS e, nesta semana, O GRITO (2020), de Nicolas Pesce. Todos esses são filmes recebidos sem entusiasmo pela crítica e pelo público. Não comento coisas mais alternativas como O FAROL e ANTOLOGIA DA CIDADE FANTASMA, pois são filmes que são mais da linha arthouse, exibidos em festivais internacionais e selecionados por distribuidoras independentes que costumam fazer uma curadoria de suas aquisições.

Por que não existem distribuidoras independentes que se preocupam com a qualidade das obras a serem exibidas e ganham um bom nome, em vez de trazerem apenas tranqueiras? Tudo bem que para quem é fã de horror, as tranqueiras também são bem-vindas, mas não precisam exagerar. No caso de O GRITO, temos pelo menos dois motivos para sua chegada: primeiro, a boa popularidade da franquia na primeira metade dos anos 2000; e segundo, o fato de ser distribuído por uma major. O nome de Nicolas Pesce também poderia ser uma boa desculpa, já que seus filmes anteriores, OS OLHOS DA MINHA MÃE (2016) e PIERCING (2018), tiveram algum sucesso entre os fãs do gênero. Não deixa de causar uma curiosidade sua primeira incursão em uma produção de orçamento maior.

O GRITO não é uma refilmagem da produção americana de 2004 estrelada por Sarah Michelle Gellar, mas apresenta uma história diferente, ambientada no mesmo universo e naqueles anos de 2004-2006. É ao mesmo tempo uma sequência e um reboot. É um filme que tem os seus acertos, como a não vulgarização dos sustos, a preferência por uma atmosfera de angústia e desconforto na condução da trama, e uma interessante teia de linhas temporais. Além da linha principal, com a presença de Andrea Riseborough como uma detetive de polícia viúva que se interessa pelo caso e pela casa amaldiçoada, há duas outras linhas temporais: uma em 2004 e outra em 2006.

Outro ponto positivo do filme está na presença de duas atrizes que funcionam muito bem para o gênero horror: Jacki Weaver, que esteve presente em BIRDBOX, de Susanne Bier, e em A FACE DO MAL, de Mac Carter; Lin Shaye, rosto conhecido de quem viu a franquia SOBRENATURAL. Ambas têm um rosto muito expressivo para filmes de casa assombrada.

O mal estar que o novo O GRITO cria é de duas naturezas, sendo que uma delas é louvável, já que o mal gerado pela maldição que parece não ter fim depois que atormenta suas vítimas é um tanto perturbador mesmo. Nisso, o diretor tem os seus méritos. O outro mal estar se mostra presente no andamento tedioso da trama, que, com tantos personagens, alguns até bem interessantes, com o do corretor vivido por John Cho, não consegue fazer o espectador se encantar ou se importar com o filme. Uma pena. Mesmo assim, não é um filme que mereça o desprezo, não.

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ELI

Um dos méritos deste filme é seguir por um caminho que a gente jamais imaginaria que fosse seguir. Ao mesmo tempo, parece tudo muito forçado. Uma pena, já que o começo do filme é bem instigante e o foco no drama do garoto que tem fortes problemas alérgicos às voltas com uma casa/hospital estranho é bem interessante. O diretor é o mesmo do subestimado A ENTIDADE 2, um desses filmes que eu lembro de ter adorado ver na época, mas que ninguém nunca deu bola. Direção: Ciarán Foy. Ano: 2018.

ANTOLOGIA DA CIDADE FANTASMA (Répertoire des Villes Disparues)

Eis um filme que custou muito a me ganhar. Em certo momento, lembra um pouco LES REVENANTS, a série francesa. Mas o tom aqui é mais de mistério e terror, ainda que o medo esteja mais presente nos personagens e suas reações do que na atmosfera pretendida. Certamente, há metáforas que não percebi, mas, é o que sempre digo: filme de gênero, por mais arthouse que seja, precisa conquistar o espectador primeiro na forma e na narrativa, para depois ganhar no que ele apresenta abaixo da superfície. Na trama, uma cidade tem sua rotina mudada depois de um acidente (?) de carro que ocasionou a morte de um jovem de 21 anos. Direção: Denis Côté. Ano: 2019.

SEM SEU SANGUE

Vejo como um dos principais acertos do filme, por mais que eu não tenha embarcado na viagem, é o fato de ele ir se transformando aos poucos. Ou pelo menos não entrega sua proposta na primeira metade. Há desde o início uma relação forte com o mar, coisa que se potencializará em sua conclusão, mas a princípio o que vemos é uma história de amor que se transforma em uma história de luto, que depois se transforma em algo totalmente inesperado. Nem sempre vejo como acertadas as escolhas e, como filme com simbolismos, até pode ser bastante rico, mas parece faltar mais força na construção da atmosfera. Ainda assim, é um filme que merece ser visto quando entrar em cartaz. Direção: Alice Furtado. Ano: 2019.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

AVES DE RAPINA - ARLEQUINA E SUA EMANCIPAÇÃO FANTABULOSA (Birds of Prey - And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn)

A DC/Warner parece não ter se incomodado muito com as críticas negativas de ESQUADRÃO SUICIDA (2016), quase uma unanimidade entre os piores filmes do universo de super-heróis já feitos ultimamente. Como a presença de Margot Robbie no papel de Arlequina foi um dos poucos - se não o único – acertos do filme, o estúdio resolveu investir em um novo filme que trouxesse a personagem, que no anterior aparece como a namorada do Coringa, aqui mais tratado como Mr. C (ou Mr. J, no original).

Já na época do ESQUADRÃO SUICIDA, muito foi falado sobre a questão do relacionamento abusivo e tóxico dos dois, e AVES DE RAPINA – ARLEQUINA E SUA EMANCIPAÇÃO FANTABULOSA (2020) começa justamente com a separação dos dois, o sofrimento de Arlequina e sua posterior volta por cima, com um misto de bom humor e violência. Aliás, é curioso como as cenas de violência parecem uma fusão da violência cartunesca dos antigos desenhos da Warner, como Pernalonga, e a violência dos próprios filmes de gângster do estúdio.

Ou seja, o que temos aqui é uma versão atualizada e hipercolorida desses filmes que fizeram a fama do estúdio. As cenas de Arlequina quebrando as pernas de seus inimigos - são duas que se destacam - são até bastante gráficas, embora não vejamos sangue. Ainda assim, há uma leveza na personagem, apesar de isso ser um tanto contraditório com parte de seus atos, como entrar com uma arma caracterizada ao seu estilo. Como as cenas de ação são apenas o.k., não trazendo nada de mais, o que acaba se destacando é a força do carisma de Margot, mesmo com uma personagem com diálogos fracos.

AVES DE RAPINA, aliás, começa até interessante, com uma narração que lembra um pouco os primeiros filmes de Quentin Tarantino, com idas e vindas no tempo, a partir do ponto de vista de Arlequina. Como ela é a personagem principal, as demais personagens femininas que se juntam para um bem comum no último ato do filme, acabam tendo bem menos força. A personagem de Mary Elizabeth Winstead, por exemplo, é uma pena que seja tão fraca. Outra personagem muito querida nos quadrinhos é a detetive de polícia Renee Montoya, vivida no filme por Rosie Perez, mas que também, infelizmente, não é nada carismática na versão para cinema. E aí temos a Canário Negro (Jurnee Smollet-Bell), que faz o papel da motorista do gângster vivido por Ewan McGregor (um desperdício para uma personagem tão icônica).

Por falar em McGregor, é impressionante como seu personagem é irritante. Até dá para relevar, levando em consideração o tom debochado do filme, mas esse deboche é tanto que passa aquela impressão de desprezo do estúdio pela própria produção, uma das menos hypadas dos filmes de super-heróis recentes. Será que isso já aponta para uma diminuição na popularidade dessas produções? É possível. Tudo chega ao fim.

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A GRANDE MENTIRA (The Good Liar)

Só em ter dois grandes atores como Helen Mirren e Ian McKellen, já passando da casa dos 70, em papel ótimo e muitas vezes físico, este filme já merece a atenção. Além de tudo, ainda é um belo thriller sobre um golpe perpetrado pelo personagem de McKellen, embora seja algo além de apenas isso. Acho que o filme perde um pouco o ritmo no momento do flashback, mas não poderia também ter deixado de lado. Acho que o problema é que os jovens atores não tinham o mesmo carisma dos veteranos. Talvez tenha sido isso. No mais, a produção também é muito bem cuidada. Direção: Bill Condon. Ano: 2019.

AMEAÇA PROFUNDA (Underwater)

Primeira produção de 2020 a chegar em nossos cinemas, o grande chamariz do filme é sem dúvida a presença de Kristen Stewart. Queria mesmo era vê-la em SEBERG, mas nem sei se este estreará nos cinemas. Aqui temos uma obra que parece um ALIEN debaixo d'água. Até mesmo a heroína com roupas de baixo, a exemplo de Ripley, nós temos. Mas o mais importante, que é a questão do envolvimento com o suspense, o mistério e as cenas de ação, tudo isso vai se perdendo ao longo da narrativa. Até começa bem e interessante, mas aos poucos o diretor vai perdendo a mão, mostrando que ele não tem nada de novo para apresentar. Uma pena. Direção: William Eubank.

EXTERMINADOR DO FUTURO - DESTINO SOMBRIO (Terminator – Dark Fate)

Vale mais pelas cenas de ação, pela novidade de trazer duas novas personagens femininas, por ser um filme protagonizado por mulheres e em que as mulheres são as donas da situação e por ter um Arnoldão ainda sabendo lidar com o humor. Melhores cenas: primeira perseguição na rodovia; embate 3 contra 1; a cena de ação dentro do avião (essa, na verdade, eu nem sei se é mesmo boa, mas vale pela coragem). Gostei da Mackenzie Davis. Ela é a loirinha de San Junipero, talvez o melhor episódio de BLACK MIRROR. No mais, na torcida para que não façam mais filmes de TERMINATOR. Já chega, né? Direção: Tim Miller. Ano: 2019.

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

OSCAR 2020

Foi sem dúvida uma das premiações mais importantes do Oscar em muito tempo. Não era exatamente uma novidade a presença de um candidato estrangeiro na lista dos melhores do ano. Já havia acontecido antes com A VIDA É BELA, de Roberto Benigni, AMOR, de Michael Haneke, e O TIGRE E O DRAGÃO, de Ang Lee, que não conseguiram o prêmio principal. Por isso foi uma surpresa e tanto ver o então favorito 1917, de Sam Mendes, sendo batido por PARASITA, o celebrado filme de Bong Joon Ho, que já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes e estava presente na maioria das listas de críticos de melhores do ano.

De fato, não parecia ter muito sentido premiar 1917. Por quê? Apenas pela proeza técnica? Algo que nem é nem uma novidade? Hitchcock já fizera essa experiência lá em 1948 com FESTIM DIABÓLICO, Aleksandr Sokurov fez isso em 2002 com ARCA RUSSA, e mais recentemente tivemos o filme norueguês UTOYA - 22 DE JULHO, de Erik Poppe.

Como o Oscar costuma seguir uma espécie de narrativa, não havia um motivo atual para que um filme que tivesse tão pouco a oferecer, como 1917, dentro da atual situação política mundial, ser o título laureado nos Estados Unidos (na Inglaterra, com o Bafta, até fez algum sentido). Houve, inclusive, uma matéria da Variety que falava justamente isso: o porquê de 1917 ser o último filme que deveria ganhar o Oscar. Ou seja, todos os demais candidatos pareciam mais relevantes, inclusive a premiação de cineastas consagrados como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, que entregaram obras lindas.

A cerimônia de ontem corria um pouco tediosa, sem nenhuma surpresa - os quatro prêmios para os atores e atrizes eram certos e foram confirmados - e aos poucos fomos vendo que era verdade que O IRLANDÊS sairia dali sendo o único dos nove indicados a melhor filme sem nenhuma estatueta. Assim, a grandeza de Scorsese ao menos seria reconhecida pela homenagem que Bong Joon Ho faria ao receber o prêmio principal no final da festa, quando todos pareciam impressionados com o feito da produção sul-coreana.

Quanto à cerimônia, as apresentações musicais das canções indicadas foram um tanto monótonas. Se bem que o show de Janelle Monáe abrindo com "Won't you be my neighbor?", de UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA, e depois fazendo referências a outros filmes, como NÓS, MIDSOMMAR e CORINGA, foi de dar gosto. No mais, foi no mínimo estranha a apresentação fora de roteiro de Eminem. Fiquei sem entender o motivo e, ao que parece, foi uma espécie de dívida da Academia, ou do própria artista, sendo paga. Mas ficou feio, principalmente porque o clipe musical com algumas canções marcantes exibido antes foi bem ruim.

Ajudou a tirar o gosto ruim a apresentação linda de Billie Eilish na seção In Memoriam, cantando "Yesterday", dos Beatles. A escolha da jovem cantora foi um acerto dos organizadores e ela conseguiu imprimir um tom de melancolia adequado àquele momento, de despedida respeitosa a artistas como Terry Jones, Agnès Varda, Danny Aiello, Stanley Doney, Anna Karina, Bibi Andersson, Doris Day, Rutger Hauer, Peter Fonda, Kirk Douglas, e tantos outros que se foram neste último ano.

Quanto aos discursos, o mais poderoso foi o de Joaquin Phoenix, cheio de amor e de gratidão para com aqueles que lhe deram segundas chances quando ele parecia não merecer. Algo que vai contra à atual cultura do cancelamento.

Para nós, brasileiros, a presença de DEMOCRACIA EM VERTIGEM entre os indicados a melhor documentário foi um presente, por mais que torcer por ele fosse um sonho e mais uma vontade de aumentar ainda mais a visibilidade do filme. De todo modo, a Netflix já fez um belo trabalho, tornando-o popular e disponível em várias partes do mundo, em muitos e muitos lares. Venceu o documentário produzido pelo casal Obama, INDÚSTRIA AMERICANA, que também tem sua relevância política.

A pergunta que fica no ar ao final da premiação e passado toda a surpresa é: a premiação de PARASITA representa uma abertura da Academia para o cinema internacional? O Oscar se tornará mais aberto e menos uma premiação quase exclusiva do cinema americano? Será o início de uma nova era para a academia? Ou haverá um recuo protecionista? É esperar para ver.

Os Premiados

Melhor Filme – PARASITA
Direção – Bong Joon Ho (PARASITA)
Ator – Joaquin Phoenix (CORINGA)
Atriz – Renée Zellweger (JUDY - MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS)
Ator Coadjuvante – Brad Pitt (ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD)
Atriz Coadjuvante –Laura Dern (HISTÓRIA DE UM CASAMENTO)
Roteiro Original – PARASITA
Roteiro Adaptado – JOJO RABBIT
Fotografia – 1917
Montagem – FORD VS. FERRARI
Trilha Sonora Original – CORINGA
Canção Original - "(I'm Gonna) Love Me Again", de ROCKETMAN
Mixagem de Som – 1917
Edição de Som – FORD VS. FERRARI
Efeitos Visuais – 1917
Design de produção – ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD
Figurino – ADORÁVEIS MULHERES
Maquiagem e cabelos – O ESCÂNDALO
Filme Estrangeiro – PARASITA (Coreia do Sul)
Longa de Animação – TOY STORY 4
Curta de Animação – HAIR LOVE
Curta-metragem – THE NEIGHBOR'S WINDOW
Documentário – INDÚSTRIA AMERICANA
Curta Documentário – LEARNING TO SKATEBOARD IN A WARZONE (IF YOU'RE A GIRL)

sábado, fevereiro 08, 2020

SYNONYMES

Um dos filmes mais marcantes do ano passado e o grande vencedor do Festival de Berlim, SYNONYMES (2019), de Nadav Lapid, é uma dessas obras que provocam reações distintas na audiência, muitas vezes reações de dúvida sobre o que acabaram de ver, ou sobre o quanto gostaram ou não gostaram do filme. Trata-se do terceiro longa-metragem de Lapid, que se inspirou em sua própria experiência de israelense morando em Paris, para construir uma história sobre negação da pátria para reconstrução da própria identidade, ou de uma nova identidade.

Já chama a atenção o modo como começa SYNONYMES, ao apresentar o protagonista, o jovem Yoav (o estreante Tom Mercier), nu em um grande apartamento, e tendo suas roupas roubadas. É como se Yoav tivesse sido jogado em uma pátria totalmente estranha de para-quedas, e sem roupas. Ele corre nu pelo prédio, com frio, desesperado, tentando se aquecer depois na banheira, e quase morrendo de frio. Um detalhe: essa cena foi a primeira gravada por Tom Mercier, e deixou Lapid e sua equipe impressionados com a performance do ator.

Para Lapid, seu cinema e sua crítica à Israel vão além de questões relacionados ao exército israelense e ao tratamento dado aos palestinos. Em entrevista à revista Cinema Scope, ele diz declarar guerra à própria essência da alma israelense. Daí ele trazer um personagem que quer esquecer todo o seu passado, mas também apresenta um outro judeu que vive em Paris e que provoca passageiros no metrô cantando o hino de Israel, acreditando que todos os europeus são antissemitas.

Um dado curioso e que aproxima o filme e Israel do Brasil e do nosso atual momento político: Israel atualmente conta com uma ministra da cultura extremamente repressiva e de extrema direita, que naturalmente não apoiou o filme e que ficou sem entender se se tratava ou não de uma peça anti-israelense. Por outro lado, quando foi noticiado que o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, todos os jornais do país pararam sua programação e noticiaram o fato, o que muito alegrou Lapid.

SYNONYMES tem uma estrutura que muito lembra uma sucessão de grandes cenas sem uma coesão muito visível, quase como se fosse uma excelente coleção de esquetes. Nesse sentido, é como se fosse possível você selecionar de maneira aleatória uma ou outra cena de modo a apreciá-la separadamente. Algumas são muito empolgantes, como a cena da danceteria, tocando "Pump up the jam", do Technotronic. Ver esta cena no cinema, com o som no talo, é uma experiência singular. Além do mais, é uma cena muito divertida. Ao contrário de outras tantas, que adentram de maneira intensa a mente confusa de Yoav, mesmo sem uso de voice-over ou nada do tipo, o que só aumenta nossa admiração com o trabalho essencialmente de cinema do cineasta.

Sua tentativa do personagem de se livrar do passado é inútil, já que várias memórias costumam assombrá-lo. Mesmo quando ele tenta falar apenas em francês, há quem queira que ele diga algo em hebraico (vide a cena do "bico"). A propósito, a cena de Yoav declamando a letra da Marselhesa é outro momento de intensidade, de destaque dessa dicotomia agressividade/sensibilidade do protagonista. Assim, por mais que ele tente se tornar menos israelense, mais ele percebe que é israelense. E aí chegamos àquela cena final fantástica, da porta. Que bom que o Festival de Berlim resolveu premiar este filme para chamar a atenção do mundo para o trabalho de seu diretor.

+ TRÊS FILMES

ATLANTIQUE

Aproveitei a oportunidade de ver no cinema um filme que muitos já viram na Netflix. É um belo filme, embora, dentre os premiados vistos até o momento da safra Cannes-2019 foi o que menos me impactou. O que mais eu gostei foi do visual, que equilibra tanto o aspecto fantástico do filme quanto seu realismo social. A fotografia é de Claire Mathon, a mesma do maravilhoso RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS. A textura que essa diretora de fotografia dá às suas obras é impressionante. Aqui quase sentimos o sal do mar, lugar tão presente e tão importante para a trama. Como história de amor talvez não seja tão bom, mas como filme fantástico é interessante e bonito. Mas, assim como vários filmes de 2019, é também um retrato da divisão de classes no mundo. O Senegal tem um abismo social gigante, pelo que podemos ver pelo filme. Direção: Mati Diop. Ano: 2019.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced)

Um filme envolvente e que trata com carinho das angústias de seu protagonista, um rapaz que faz parte de uma importante escola de balé e que se apaixona por um colega recém-chegado. Isso numa Geórgia ainda muito preconceituosa e antiquada. O que me faltou foi uma maior identificação com o personagem e também um maior interesse/conhecimento em dança, para saber valorizar as coreografias. Também achei que o filme perde um pouco o foco, ou parece não encontrar o que deseja. Mas talvez isso seja coerente com o estado um tanto perdido do protagonista. Direção: Levan Akin. Ano: 2019.

A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS (Ahlat Ağacı)

É sempre bom ir preparado para um filme do Nuri Bilge Ceylan. Em WINTER SLEEP (2014) já se falava bastante. Neste aqui o diretor também não economiza nos diálogos. Em alguns momentos até parece excessivo, mas isso depende muito do grau de interesse no assunto. Há profundidade neles. A minha cena preferida é a do encontro do protagonista com uma garota da juventude, a cena da árvore, com o vento e tal. Aquilo é lindo demais. Uma das melhores cenas do ano. O registro das estações do ano através das imagens também é lindo. Há uma delicadeza comovente no modo como se dá o relacionamento do rapaz com seu pai e com sua mãe. O que incomoda é que o filme se arrisca em trazer um protagonista tão cheio de erros e um tanto arrogante e nada simpático. Ano: 2018.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood)

Há dias em que estamos particularmente mais sensíveis. E há filmes que, por uma razão ou outra, têm o poder de encontrar essa brecha mais frágil e nos levar por caminhos emocionais que jamais imaginávamos ir. Foi o caso, para mim, de UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (2019), filme que tem como destaque Fred Rogers, lendário apresentador de um programa infantil americano que já foi objeto de estudo do ótimo documentário WON'T YOU BE MY NEIGHBOR?, de Morgan Neville, e que neste filme é interpretado por Tom Hanks, especialista em tipos humanos mais próximos da bondade e da honestidade. Não há nenhum problema nisso, nessa escolha, e a interpretação de Hanks não é o que podemos chamar de uma imitação de Rogers. Mas a voz suave está lá. Tão suave e tão acolhedora que fala fundo a quem se permitir.

Embora o filme tenha me ganhado desde o começo com a proposta de emular o programa de Mr. Rogers, com a apresentação do próprio em tela quadrada, com um visual VHS e com cenários antiquados (usados desde o fim dos anos 1960 até o início do novo milênio) e pequenas miniaturas em forma de brinquedos de casas, prédios, carros e ruas; e a história do personagem principal, o jornalista Lloyd Vogel (Mathew Rhys), seja interessante e tocante, foi um momento, em particular, que me fez chorar quase convulsivamente. (Quem ainda não viu o filme, eu acho que deveria parar de ler por aqui, e só depois voltar.)

Trata-se do momento em que Mr. Rogers e Lloyd estão em um café. O jornalista já havia tirado sua carapaça mais cínica em relação a Mr. Rogers e já se considerava, diante de seu entrevistado, um ser pertencente ao grupo das "broken people", depois do que acabara de acontecer com seu pai e do longo período de mágoa. Mr. Rogers pede para que ele faça um pequeno exercício: dedique um minuto de silêncio para pensar em todas as pessoas que o amaram, que foram responsáveis por moldar seu caráter e sua personalidade.

Como que por um passe de mágica, todos no café também ficam calados e reflexivos. As lágrimas vêm. E aquele exercício pedido por Mr. Rogers é também um exercício que pode ser feito pelo espectador. E que eu fiz. Eu, que também tive meus problemas com meu pai. Pensei em minha família - minha mãe, minhas irmãs, em especial - e pensei também no meu grande amigo que estava ali do meu lado, vendo o filme. Não se tratava, portanto, de apenas se solidarizar com o personagem, mas de se fundir a ele, de certa forma. E é como se tudo o mais se tornasse pequeno, como se o amor recebido e o amor dado fossem o que há de mais importante em nossas vidas e um imenso sentimento de gratidão, de compreensão da vida e de amor nos abraçasse.

Claro que para chegar neste momento intenso, que acontece após uma hora de filme, é preciso acompanhar a trajetória de vida do personagem e também um pouco de seu encontro com esse homem tão especial, que é vegetariano, que faz orações diárias para pessoas com quem se importa, e que pede a pessoas que estão "mais próximas de Deus" que orem por ele. Isso, aliás, pode ser visto em uma determinada cena do filme, mas também podemos ler no artigo publicado na Esquire pelo jornalista.

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA pode ser visto como uma obra sobre perdão - curiosamente o filme anterior da cineasta se chama PODERIA ME PERDOAR? (2018), que ainda não vi -, mas pode ser mais do que isso, pode até mesmo ser uma obra que resgata a nossa esperança na humanidade, resgata a nossa fé em coisas que são possíveis de se fazer sem que machuquemos o outro ou a nós mesmos. A cena final que mostra Mr. Rogers ao piano demonstra o quanto ele se esforça para fazer isso, o quanto é também um ser imperfeito e necessitado de uma força imensa que ele parece possuir naturalmente.

Claro que tudo isso pode ser deixado de lado, pensar que o filme é uma bobagem sentimental, uma sucessão de clichês batidos de melodramas, ver tudo de maneira mais crítica, no sentido ruim da palavra. Também sabemos que há um limite para o que aceitamos ou não dentro de um filme que se utiliza de recursos emocionais mais intensos, e isso varia de pessoa para pessoa. Felizmente o filme também traz algo de estranheza, de algo quase surreal (para uma obra que se propõe ser uma versão de fatos) - o que dizer da cena do metrô? - e isso pode ser um elemento atraente para muitos.

O papel de Mr. Rogers (e deste filme que procura se moldar aos seus ensinamentos, à sua sabedoria e até ao seu estilo à moda antiga) é nos tirar da carapaça dura de autoproteção que nos torna mais cínicos e distantes de quem fomos um dia na infância, como se estivéssemos em um consultório de psicanálise e precisássemos lidar com nosso lado mais fragilizado para nos tornarmos mais fortes.

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JUDY - MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS (Judy)

Uma obra um tanto acadêmica, meio quadrada, mas vale demais, tanto para embarcar um pouco nos sentimentos de Judy Garland naquele momento decadente de sua carreira, quanto pela performance de Renée Zellweger, especialmente quando está no palco. Marcada pela maldade humana desde a infância para se tornar uma estrela de Hollywood, Judy Garland cresceu viciada em drogas para inibir o apetite (e tirar o sono) e álcool. Muito bonita a cena final. E muito bela a atriz que faz a assistente de Judy em Londres (Jessie Buckley). Direção: Rupert Goold. Ano: 2019.

O ESCÂNDALO (Bombshell)

Interessante ver o passado recente dos Estados Unidos e nesse clima de fim dos silenciamentos das mulheres que foram abusadas. Como vivemos algo muito parecido com o que aconteceu com a eleição de Trump, há coisas que são assustadoramente parecidas, como os fanáticos de direita gritando o nome de seu candidato e agindo de maneira violenta, até a questão dos grupos separados, o fato de ter uma emissora essencialmente republicana como a Fox News, que queimava o filme de suas repórteres com tendências democratas (ótimo o exemplo da personagem de Kate McKinnon). A ascensão na importância da personagem de Margot Robbie é bem evidente e rendeu pelo menos uma cena emocionante. Já Charlize Theron representa o lado mais brutal do trio. O uso de próteses às vezes parece estranho, especialmente nas mulheres. Já no John Lithgow ficou perfeito. Ajudou a construir uma espécie de monstro por fora também. Jabba the Hut, como bem diz ele. Aguardando agora o filme sobre os escândalos de Harvey Weinstein. Será que alguém já está fazendo? Direção: Jay Roach. Ano: 2019.

DOIS PAPAS (The Two Popes)

O filme só perde a força quando conta eventos do passado do Papa Francisco, através de flashbacks. No mais, chega a ser hipnotizante acompanhar as conversas entre Francisco e Bento XVI, principalmente quando o argentino vai visitá-lo pela primeira vez. Anthony Hopkins e Jonathan Pryce estão assustadoramente parecidos com os retratados. E é sempre bom poder acompanhar os bastidores de algo que parece tão cheio distante de nossas realidades. Talvez seja o melhor trabalho de Fernando Meirelles, depois de CIDADE DE DEUS (2002). Ano: 2019.

domingo, fevereiro 02, 2020

MARISA MONTE NO I'MUSIC - FORTALEZA, 31 DE JANEIRO DE 2020

Marisa Monte é provavelmente a cantora brasileira que mais pessoas consegue reunir sempre que faz um show. Mais até do que grandes estrelas, como Maria Bethânia e Gal Costa. Ela consegue ser ao mesmo tempo muito popular, graças ao flerte com canções mais pop e também com algumas de dor de cotovelo, e uma sofisticação tanto nos arranjos, quanto nas escolhas de canções e parceiros nas composições. Foi assim desde o seu segundo disco de estúdio, Mais (1991).

Mesmo estando distante dos shows, por não me sentir mais à vontade em multidões, estava especialmente interessado em ir a este, dada a minha admiração por Marisa. Por isso quis me unir à minha amiga Natércia para vermos o espetáculo. Juntou-se à gente os meus amigos Júnior e Ane, que se demonstraram interessados em ir também. Uma turma que me fez bem o suficiente para eu me sentir à vontade.

Os artistas deste primeiro dia do festival confirmados eram Giulia Be (jovem artista iniciante de aparentemente um único hit), Silva e terminando com Marisa. Giulia Be tenta animar o público, mas talvez tenha agradado mais ao pessoal que estava mais próximo do palco. As pessoas, que estavam ali pela Marisa e provavelmente também pelo Silva, não se animaram tanto com as poucas canções da bela jovem. Ela se esforçou para grudar em nossos ouvidos o sucesso "Menina solta". De todo modo, vai que ela nos surpreende um dia e lança um baita álbum.

Falando em surpresa, que belo show o Silva fez, hein. Eu comecei a dançar com o único objetivo de disfarçar as minhas dores nas costas (não posso ficar de pé e parado durante muito tempo, sem ter uma dor na lombar). Então, dançar, me mexer, se fez necessário para diminuir ou anular as dores. E deu certo. E comecei a dançar com gosto mesmo quando Silva começou cantar canções de Caetano Veloso ("Me larga", "A luz de Tieta", "Meia lua inteira"), Gilberto Gil ("Toda menina bahiana") e Paralamas do Sucesso ("Uma brasileira"), entre outras.

Por mais que ele seja um grande artista e eu desconheça a obra dele, me ficou a impressão que essa nova geração (ele incluso) nunca alcançará a excelência de caras como Caetano e Gil, realmente gigantes, e a quem ele deve o crédito de ter conseguido incendiar a plateia quando cantou essas canções. A semelhança da voz de Silva com a de Caetano os aproxima. Achei estranho, porém, ele não ter cantado nada da Marisa Monte, já que fez um disco inteiramente dedicado a ela (Silva Canta Marisa Monte, 2016).

E eis que ela entra, infelizmente com o som um pouco baixo (coisa que não aconteceu no show do Silva) e com os telões ao lado pifados (logo no show dela!). É sempre assim: segunda vez que vejo um show dela e uma dificuldade de me aproximar, uma multidão imensa impedindo uma melhor visibilidade. E agora essa chateação de gente filmando o tempo todo com seus celulares atrapalhando a visão. É muito irritante. Se ao menos fosse só para tirar suas fotos. Mas não: filmam, postam em seus stories, filmam de novo e de novo. Um horror. Ao menos no cinema a gente pode reclamar disso.

Marisa Monte começa com "Maria de verdade", faixa que eu nem gosto muito, mas que foi marcante por abrir o histórico álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão (1994). Em seguida, parte para algo mais novo milênio, com "Infinito particular", "Vilarejo" e "Ilusão". Nessa época, eu havia parado de acompanhar ativamente o trabalho de Marisa, de comprar seus álbuns, não sei bem o motivo. Talvez tenha sido erro da minha parte.

Volta para os anos 90 para começar uma dupla de canções de dor de cotovelo, "Dança da solidão" e "Depois", para depois cantar a que talvez seja a minha favorita dela, "Beija eu", de seu segundo disco. Acho uma canção com uma simplicidade e uma delicadeza tão únicas. E tem aquela guitarra do Arto Lindsay, genial.

Anima o público com a popular "Velha infância", primeira dos Tribalistas que ela canta, depois voltar no passado com "Diariamente", que rendeu aplausos efusivos ao final. Aliás, por ser uma canção mais para ouvir do que para cantar, foi o único momento em que as vozes do público se calaram para apreciar a voz única e maravilhosa de Marisa Monte, que tem a generosidade de elogiar a voz do coro e de querer que as pessoas cantem junto. Ao contrário de certos artistas, que mudam a canção só para não deixar as pessoas cantarem junto (alô, Roberto Carlos!).

As próximas faixas, "Preciso me encontrar" (linda!) e "A sua" antecipam aquela que me deixaria arrepiado, "Ainda bem", dessas faixas do novo milênio que ganharam muitos corações. E é uma canção sobre um momento de alegria intensa, embora deixe um tanto triste aqueles que ainda não encontraram sua cara-metade. Ela continua com "Baião do mundo", "Segue o seco" (foi mundo bom ouvir novamente essa canção tão marcante), "Eu sei (na mira)" e "Carnavália".

Quando estava reclamando que ela não tinha cantado nada do Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000), disco que representa a fase mais feliz de minha vida, ela entra com a deliciosa "Não vá embora", para encerrar o show com "Passa em casa".

Como ela estava com o pé torcido (quase não veio, mas teve que ficar o tempo todo ali no banquinho por causa disso), ela brincou que o bis seria sem fazer o charminho de sair e voltar. Cantou uma versão mais curta de "Amor, I love you". Manda chamar novamente o Waldonys para cantar de novo "Velha infância" (por que não foi outra?) e fechar com mais uma dos Tribalistas, "Já sei namorar". Essa grande quantidade de faixas dos Tribalistas no show se justifica talvez pela turnê recente de reencontro dela com o Carlinhos Brown e o Arnaldo Antunes.

As pessoas não param de pedir mais, porém a banda já vai embora. Como consolo, Marisa começa a cantar à capela "Bem que se quis", e vai embora, deixando o público cantando sozinho essa que foi seu primeiro hit. Faltou muita coisa boa, mas não se pode ter tudo. Belo show de uma grande e querida artista. Não é todo dia que ganhamos um presente desses, não.

quinta-feira, janeiro 30, 2020

ADORÁVEIS MULHERES (Little Women)

Saudade de quando eu escrevia sobre quase todos os filmes que eu via, não importando se o texto ia ficar bom ou ruim. Hoje em dia, o intervalo entre cada postagem está tão grande que eu chego a achar que desaprendi aquilo que eu julgava ter aprendido. Perde-se o ritmo, a coragem, o tempo e a energia. Mesmo os filmes do Oscar, eu dava um jeitinho de arranjar tempo para falar sobre cada um. É uma temporada que eu costumo apreciar, pois é um momento em que até os cinemas de shopping exibem filmes mais adultos. Na opção de escolher entre alguns dos títulos de que mais gostei nesta temporada de premiações, não posso deixar de dar uma atenção maior para a nossa querida Greta Gerwig, que muito me alegrou recentemente com LADY BIRD – A HORA DE VOAR (2017).

Diferente de seu primeiro filme solo, temos em ADORÁVEIS MULHERES (2019) uma escolha de Greta Gerwig por um estilo mais clássico-narrativo, talvez para se adequar melhor a um romance do século XIX, embora uma coisa não tenha exatamente a ver com a outra. Mas é importante dizer que há, dentro desse registro mais clássico, umas pequenas transgressões, brincadeiras com uso de metalinguagem, com a inteligente fusão da personagem Jo (Saoirse Ronan, como sempre ótima) com a escritora do romance, Louisa May Alcott.

ADORÁVEIS MULHERES não é o filme perfeito que gostaríamos, mas há tanta delicadeza e a personagem de Saoirse é tão querida, que se torna fácil amar a obra de Greta, por mais que a personagem de Emma Watson, Meg, não esteja tão bem. Quem também se destaca dentre as quatro irmãs é Florence Pugh, como Amy, a mais impulsiva da família e a principal rival de Jo, inclusive nas questões amorosas – ela ama o garoto que é apaixonado por Jo, Laurie (Timothée Chalamet). Para completar o quarteto de irmãs, temos a mais jovem Beth (Eliza Scanlen), que é responsável por uma das cenas mais emocionantes do filme. Refiro-me ao momento em que ela agradece a um senhor rico pelo piano que ganha de presente (ela tem uma inclinação musical).

As quatro, aliás, tem inclinações artísticas: Jo é escritora, apesar da dificuldade do mercado literário em aceitar escritos de mulheres; Meg pensa em ser atriz; Amy é pintora e Beth é apaixonada por música. Jo é a mais rebelde, mais feminista. Não aceita o fato de que a mulher daquela época (Estados Unidos da época da Guerra Civil), para não ficar pobre teria apenas duas opções: ou casar com alguém com dinheiro ou montar um bordel. Isso quem afirma é a tia March, vivida por Meryl Streep, que é solteira, mas diz que ela é uma exceção por ser rica.

A rebeldia de Jo e a rejeição dela ao garoto rico Laurie, que ela tem apenas como um bom amigo, são os elementos que mais fervilham nas emoções do filme. Há também a presença de outro rapaz, vivido por Louis Garrel, mas seu personagem é pequeno e parece feito apenas para cumprir um papel. Quanto a Meg, ela, por ser o extremo oposto de Jo, aceita casar com um professor pobre e deixa de lado as pretensões de ser atriz para abraçar uma vida de família e filhos.

Uma das características da narrativa de ADORÁVEIS MULHERES de Greta Gerwig, diferente das versões anteriores, de George Cukor (1933), Mervyn LeRoy (1949) e Gillian Armstrong (1994), está na utilização de duas linhas temporais paralelas, numa montagem que apresenta dois momentos das vidas das personagens. Às vezes, inclusive, é possível se confundir se o que estamos vendo faz parte da linha mais do passado ou mais do presente. É uma novidade em relação às outras versões do livro de Alcott.

Gerwig fecha seu filme com brilhantismo, ao brincar com os clichês de comédias românticas e do que se espera do destino das personagens femininas – morrer ou casar, como diz o editor vivido por Tracy Letts – e a rebeldia de Jo e sua vontade de se entregar à carreira de escritora acima de tudo.

ADORÁVEIS MULHERES foi indicado aos Oscar de filme, atriz (Saoirse Ronan), atriz coadjuvante (Florence Pugh), roteiro adaptado, figurino e trilha sonora original.

+ TRÊS FILMES

JOJO RABBIT

O tipo de humor do diretor Taika Waititi parece estranho a princípio, mas é mais pelo fato de se estar tratando de uma história, inicialmente cômica, lidando com o nazismo, tendo Hitler como um ídolo e amigo imaginário de um menino de 10 anos. Pra mim, o filme se torna mais interessante (e até mais palatável) a partir do encontro com a jovem judia que está escondida em sua casa, e que o deixa balanceado na questão de ser um fanático pelo nazismo e de entender a desumanidade da situação. Indicado aos Oscar de filme, atriz coadjuvante (Scarlett Johansson), roteiro adaptado, figurino, desenho de produção e edição. Ano: 2019.

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari)

James Mangold é aquele diretor que costuma entregar uns trabalhos bons, mas não costuma passar disso. Eu, pelo menos, não costumo me entusiasmar de verdade com nenhum filme dele. Esse é um dos mais caprichados em termos de produção. Há também o interesse que o tema provoca, ligando a entrada da Ford no ramo de corridas de automóvel na época das 24 Horas de Les Man, uma corrida maluca que dura 24 horas (eu nunca me dei conta deste detalhe até então). Boas performances de Matt Damon e Christian Bale e uma presença luxuosa de um cara como Tracy Letts. Esperava mais cenas de desastre de automóveis, mais caos. Indicados aos Oscar de filme, edição, mixagem de som e edição de som. Ano: 2019.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story)

Bonito e um tanto doloroso filme de Noah Baumbach sobre separação conjugal. Vemos o incômodo processo de fim de uma relação, sem que os dois realmente estivessem com raiva um do outro. Pelo menos, a princípio, é essa a impressão que fica, embora depois vejamos que há um misto de mágoa com amor, carinho e respeito, mas também de necessidade de ser a si mesmo, especialmente na personagem da Scarlett Johansson. As cenas com os advogados se digladiando e tornando tudo ainda pior para os dois são bem incômodas. E falando em advogado, destaque para uma fala da Laura Dern sobre Deus e a mulher. Sensacional. No mais, Adam Driver tem mostrado cada vez mais sua excelência como ator. Indicados aos Oscar de filme, atriz (Scarlett Johansson), ator (Adam Driver), atriz coadjuvante (Laura Dern), roteiro original, trilha sonora original. Ano: 2019.

terça-feira, janeiro 21, 2020

VITALINA VARELA

Há uma frase clássica de Hitchcock em que ele diz: "alguns filmes são pedaços da vida, os meus são pedaços de bolo." Por mais que a afirmação do mestre do suspense seja muito feliz e que, certamente, se aplique à delícia que é ver seus filmes, diria que a grande maioria dos filmes que existem são feitos para trazerem certo prazer e contentamento, sejam eles mais ou menos valiosos. Talvez não seja exatamente o caso de VITALINA VARELA (2019), do cineasta português Pedro Costa. Difícil, duro, sem concessões. Não há espaço para a fé, nem para a esperança .

Envolto em sombras, seus personagens caminham como fantasmas em um mundo escuro e desprovido de alegria. Como se confinados em uma espécie de umbral ou purgatório. Até ouvimos o som de música em algum lugar, mas mesmo isso parece ser apenas um pequeno alento para personagens que nem são mostrados. O próprio padre do lugar, vivido por Ventura, ator-fetiche do cineasta, afirma, em sua igreja abandonada e de cadeiras quebradas, que nós somos formados por sombras.

Em quase todo o filme, desde o início, com um grupo de pessoas aparecendo do breu de um cemitério, depois de enterrar um amigo, até quase perto do final, a luz é muito pouca. E isso é muito desafiador para o espectador desacostumado ou despreparado para o cinema de Costa. Com relação à luz, até poderíamos lembrar também do cinema de Val Lewton, dos anos 1940, como SANGUE DE PANTERA ou A MORTA-VIVA, mas estaríamos falando de um tipo de cinema muito mais próximo do prazer, do entretenimento. Em Val Lewton é possível sorrir de satisfação, algo que passa um pouco longe de VITALINA VARELA.

Há a questão da lentidão também, algo que se assemelha um pouco aos trabalhos de Tsai Ming-Liang e Béla Tarr, mas isso também pode ser percebido em variados filmes arthouse. Portanto, o que incomoda mesmo (no bom sentido) é a falta de luz. A maior parte das cenas se passa à noite, uma noite muito pouco iluminada. E quando é dia, a luz que sai pelas frestas da casa é minúscula.

No entanto, o que Pedro Costa nos apresenta em cada cena, com a câmera na maioria das vezes parada, lembram pinturas renascentistas. Ele transforma a miséria e a tristeza em beleza, com o uso de cores e um tipo de direção de arte singular, como a arquitetura dos casebres, ou o céu ao fundo. Seu fotógrafo é o colaborador habitual Leonardo Simões, com quem trabalhou nos anteriores JUVENTUDE EM MARCHA (2006) e CAVALO DINHEIRO (2014).

Pouco antes do título do filme surgir nos créditos, somos apresentados à protagonista, Vitalina Varela (mesmo nome da atriz), que vem de Cabo Verde para o funeral do ex-marido em Portugal. Ela é recepcionada por algumas poucas mulheres, que a aconselham a voltar para sua terra, que ali não tem nada para ela. Conselho não aceito, ela segue até a casa do ex-marido, já enterrado há poucos dias. Na casa, habitavam alguns amigos, que precisam agora deixar aquele espaço para ela.

Assistir VITALINA VARELA - e os outros filmes de Costa sobre a questão dos migrantes de Cabo Verde - é perceber o quanto somos em geral ignorantes ao que aconteceu e que ainda reverbera na vida desse povo. É preciso saber sobre os conflitos, sobre a situação dessas pessoas, sobre como Portugal lida com essa dívida com uma de suas ex-colônias mais pobres. E há também a questão da língua, que é algo bastante importante na trama, inclusive, como elemento de desvalorização do dialeto falado pelos povos mais pobres de Cabo Verde. Em determinado momento, o padre de mão trêmula diz que o espírito do marido de Vitalina só a ouvirá se ela conversar com ele em português, e não em crioulo. Assim, percebemos que há ali um pensamento de colonizador vindo até mesmo de um cabo-verdiano.

Outras questões importantes surgem, mas a forma do filme é tão impactante que até parece ser mais essencial que o conteúdo. Claro que isso pode ser apenas uma impressão de alguém que tem pouco conhecimento, pouca aproximação com esse país.

+ TRÊS FILMES

AMA-SAN

Creio que se fosse em casa talvez eu desistisse deste filme antes da metade de sua duração. Mas no cinema a gente procura curtir mais, prestar atenção nas pequenas coisas, aproveitar a experiência ao máximo. E o filme lida com as pequenas coisas do cotidiano, algo que já é muito comum na cultura e no cinema japoneses. Aqui temos uma cineasta portuguesa disposta a adentrar os costumes de um grupo de mulheres que mergulham no mar para pescar mariscos e coisas do tipo. Fazem como um ritual, mas também como um trabalho importante para a subsistência de suas famílias e da economia daquele lugar, pelo que entendi. Mas a melhor cena, pra mim, está perto do final, uma cena em que as várias mulheres se encontram em um karaoke bar para conversar, comer, beber e rir bastante. O momento que eu ri com elas. Poética também a cena dos vagalumes. É um filme que cresce mais na memória do que durante a apreciação. Direção: Cláudia Varejão. Ano: 2016.

ANTÓNIO UM DOIS TRÊS

O filme lembra tanto Sang-soo quanto Resnais, mas o que lembra mesmo é o próprio cinema do Mouramateus, pra quem já viu alguns de seus curtas. As festas, as brigas, as conversas, tudo muito gostoso de ver. Acho que tem algo pelo meio que parece travar um pouco a narrativa, mas no geral é uma beleza. Começa e termina bem. Deborah Viegas, a atriz que faz a personagem Débora, é apaixonante. E isso ajuda muito a gente a comprar essa história de amor de universos paralelos. Direção: Leonardo Mouramateus. Ano: 2017.

SAUDADE

A premissa é simples: discursar sobre o significado da palavra saudade em países de língua inglesa, contando com o depoimento de inúmeros artistas das mais diversas áreas. Há passagens lindíssimas e bem poucos momentos que eu não me encantei. Acho que estava in the mood. Direção: Paulo Caldas. Ano: 2017.

domingo, janeiro 19, 2020

18 CURTAS E DOIS MÉDIAS BRASILEIROS



THINYA

O que mais me impressiona neste filme é o quanto ele é capaz de causar medo lá perto do final, simplesmente usando fotos de gente normal, uma música ao fundo e a narração de uma indígena. Todo o filme são fotos e narração de uma índia. Ao final, se diz de onde é que aquilo é tirado, mas ao longo de todo o filme fica o desconforto sobre as pessoas apresentadas e a narração. Mas isso é positivo e o filme é uma experiência única. Principalmente em seus minutos finais. Acredito que a nossa consciência do quanto o homem branco foi capaz de matar/roubar/estuprar para obter o que obteve faz toda a diferença. Quem são os selvagens? Direção: Lia Letícia. Ano: 2019.

TEORIA SOBRE UM PLANETA ESTRANHO

Que filme lindo! Já me ganhou com a primeira cena, com o casal de protagonistas saindo entusiasmados para tomar banho de chuva em lugar paradisíaco do interior mineiro. Acontece algo abrupto e depois somos levados para o que parece ser o passado recente, imagens que parecem saídas de um filme do Malick, inclusive com um bocado de experimentação no uso das câmeras, das imagens, mais uma vez valorizando a beleza da natureza, mas também a beleza do rosto e dos sorrisos dos namorados/noivos. O detalhe da deficiência auditiva da personagem feminina é outro acerto e joga poesia também em algumas cenas, brincando com o áudio, o ir e vir. Considero um dos trabalhos de curta-metragem mais bonitos dos últimos anos. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2019.

JODERISMO

Continuação de MAMATA (2017), filme anterior de Marcus Curvelo, este aqui consegue ser mais perturbador ainda, já que retrata este momento de desesperança que estamos vivendo, passando agora do primeiro ano de um governo de extrema direita. Claro que o retrato que é pintado no Brasil é ainda mais doentio, mas é também um reflexo do estado emocional do protagonista, solitário e sentindo-se abandonado pela namorada, fugindo para uma deserta Brasília, pois é onde os imóveis são mais baratos e porque todos os seus amigos se suicidaram. Há uma dramaticidade intensa, mas há também um senso de humor muito próprio. Muito engraçada a cena em que o protagonista liga para os pais. E o que é a cena da música do Lula, hein?! Ano: 2019.

AINDA ONTEM

Retrato bonito de uma juventude que procura encontrar seu rumo em uma cidade/país que não oferece muitas opções para pessoas menos favorecidas da sociedade. É um filme que se destaca pelo carinho com que os personagens são tratados, mesmo que tenhamos apenas 20 minutos para conhecê-los. Especialmente o protagonista. O namoro com o mundo do hip-hop se mostra como uma maneira de abraçar o sentimento de deslocamento desses jovens frente à parcela rica dos curitibanos, algo que se explicita na cena da festa. Direção: Jessica Candal. Ano: 2019.

FARTURA

Um estudo sobre a importância da comida nas festas em famílias negras, em especial em famílias que adotam religiões de matriz africana. O que mais me chamou a atenção foi a questão foi a minha maneira de me comportar geralmente em festas e de como me sinto desconfortável na grande maioria delas. Mas esse é um problema meu. Nos aspectos estéticos, a escolha por apresentar apenas fotos e imagens de arquivo (a maioria de VHS) foi acertada, assim como os depoimentos em voice-over. Também gostei de ver a questão da família oferecendo comida para todos, de portas abertas, algo muito mais comum de ver em famílias pobres. Nas famílias ricas, come-se de portas fechadas. E a comida não falta. Direção: Yasmin Thayná. Ano: 2019.

GUARÁ

Um filme de lobisomem em que em vez de um lobo temos um guará e a ação acontecendo dentro do espaço de Goiânia. O espaço geográfico faz toda a diferença, tanto no sentido visual quanto nas falas dos personagens, algumas delas se demorando bastante, como a cena dos dois policiais dentro da viatura. O visual do monstro é interessante. Como é claramente uma produção de baixo orçamento, as escolhas estéticas para representar as mortes são muito felizes, como a cena em que vemos o sangue descendo em cima do distintivo de um soldado. O último plano-sequência também é muito bom. Ao final, um simbolismo que traz ao filme uma carga política que havia sido esquecida logo no início, quando vemos informações sobre a quantidade imensa de estupros cometidos no Brasil. Direção: Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista. Ano: 2019.

TUDO QUE É APERTADO RASGA

A questão do papel do negro na sociedade brasileira e nas artes ainda vai durar muito tempo para se esgotar. Se é que um dia vai. Inclusive, com um governo retrógrado desses. Este curta traz imagens de filmes brasileiros protagonizados por negros e dá especial destaque, em entrevistas de arquivo, para dois grandes da dramaturgia, Grande Otelo e Zezé Motta. Há também Ruth de Souza, mas aparece bem menos. A estrutura do filme parece prometer algo maior, mas as imagens e as palavras daquelas pessoas são tão fortes que já são suficientes para que vejamos este filme. Direção: Fabio Rodrigues Filho. Ano: 2019.

ESPECIAL DE NATAL - PORTA DOS FUNDOS: A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO

Assisti em duas partes este filminho cujo única qualidade é usar sua liberdade para transgredir, brincar. Pena que o pessoal do Porta dos Fundos não consegue fazer algo bom fora do território das esquetes, que é de onde eles têm obtido mais sucesso, ainda que de maneira irregular. De todo modo, o sucesso deste aqui é de popularidade (ou de falta de) devido ao modo como brinca com os personagens do Novo Testamento. O roteiro é preguiçoso e não há timing. Talvez a piada que melhor funcione seja a de Deus se aproximando de Maria. Ainda assim, nada que faça rir. Direção: Rodrigo Van Der Put. Ano: 2019.

O BANDO SAGRADO

Outro trabalho corajoso de Breno Baptista. Já tinha visto MONSTRO (2015), que também trata das relações homoafetivas e do impulso intenso do desejo, e também utilizando imagens de impacto. Aqui há cenas de felação e outras situações de intimidade entre dois homens, o que é interessante para que esse tipo de cena se naturalize. Por mais que seja um trabalho que seja visto por um número pequeno de espectadores, ser um filme LGBT e ser o nome de Baptista cada vez mais forte nos festivais ajuda a aumentar esse número. Aqui há o interessante paralelo entre um sonho relativo a um grupo de guerreiros homossexuais do passado e o desejo e o encontro de Breno com um rapaz. Ano: 2019.

REVOADA

Outro filme LGBT de cujo realizador eu já havia visto um filme em 2015 (De Terça pra Quarta). Este tem um lirismo muito bonito, com uma narração em voice-over do protagonista lembrando de tanajuras na infância, ao mesmo tempo em que passeia por Fortaleza com o seu paquera. A geografia é explorada, assim como as conversas simples e as entrelinhas que eventualmente ficam entre os diálogos dos dois. O preconceito dos transeuntes não passa batido, mas isso não parece perturbar muito os personagens, que seguem cuidando daquilo que lhes interessa mais. E seguem felizes. Direção: Victor Costa Lopes. Ano: 2019.

ONDE A NOITE NÃO ADORMECE

Certos filmes são importantes serem vistos principalmente para entendermos nossa ignorância em se tratando de alguns assuntos. No caso, a minha ignorância quando o assunto é religiões afrobrasileiras. Neste curta temos a presença de três personagens que passam a noite executando rituais e/ou oferendas a entidades do candomblé, creio eu. Falta em mim a capacidade de perceber a beleza nessa cultura, principalmente pela minha formação religiosa. Aí acabo vendo com algum distanciamento e às vezes até com certo desconforto. Mas antes essa sensação era muito mais acentuada. Direção: Paolla Martins e Rodrigo Ferreira. Ano: 2018.

NEGRUM3

Um filme que tem força tanto estética quanto como um lugar de fala dos negros, em especial dos negros LGBT, de sua reivindicação por direitos iguais, pelo respeito aos seus corpos. Quanto à parte técnica, chegam a impressionar os enquadramentos, os movimentos de câmera, a direção de arte, as cores, a valorização da melanina diante das cores escolhidas. Direção: Diego Paulino. Ano: 2018.

CAETANA

Bela realização paraibana sobre a morte não dita, mas percebida, de alguém, e a reunião de pessoas em torno de seu velório. Flagra as conversas paralelas das pessoas na casa, sempre tentando evitar a fala sobre o morto ou a morta, mas o sentimento/a sensação fica ali no ar. Uma maneira de trazer, ao mesmo tempo, um sentimento de respeito e de mostrar que a vida continua. Pequenos detalhes são importantes, como o uso dos celulares (ou a hora em que eles são impróprios), a brincadeira no ônibus etc. Direção: Caio Bernardo. Ano: 2019.

CARNE

Acho incrível como ideias aparentemente simples podem render obras tão maravilhosas. É o caso deste Carne, curta de animação realizado em São Paulo, sobre o corpo da mulher. Em sua maioria, o corpo que sofre algum tipo de preconceito ou rejeição. Seja o corpo da mulher gorda, ou da transexual negra, ou da mulher idosa (a exceção talvez seja da moça que acabou de menstruar). E tudo contado apenas com os áudios dessas mulheres e diferentes tipos de animação (lindas) passando pela tela para ajudar a contar essas histórias, esses depoimentos. Adorei! Direção: Camila Kater. Ano: 2019.

APNEIA

A animação brasileira chegou a um estágio em que não fica nada a dever a nenhum outro país. Pena que pouca gente entre em contato, já que as melhores produções ainda são no formato de curta-metragem, em geral acessado principalmente pelos frequentadores dos festivais. E são animações adultas. Apneia, produzido no Paraná, segue uma pegada existencial e por um caminho de se perder no próprio ser. A protagonista é uma menina que nasceu sob o signo de peixes e o filme é lotado de água (o mar é onipresente) e dos elementos próximos (a casa dela fica ao redor de um aquário). Muita coisa achei confusa, mas acho coerente com uma proposta pisciana de se perder no oceano de sentimentos. Aqui há literalmente alguém se perdendo, sentindo-se confusa, mas talvez também se sentindo um tanto especial. "Mãe, quem é de Peixes veio mesmo do mar?". Direção: Carol Sakura e Walkir Fernandes. Ano: 2019.

DEUSA OLÍMPICA

Belo documentário que tenta resgatar a vida e a obra de uma artista plástica trans que tinha uma atração muito forte pela Igreja, pelos seus simbolismos, seus sacramentos e sua história. O filme já começa com imagens de pinturas em uma igreja, depois temos os diretores entrevistam a mãe da artista, assim como padres. Há uma curiosa entrevista que a artista deu no programa do Lúcio Brasileiro. O que fica é a impressão de que, mesmo nos dias de hoje, ela ainda seria maltrada como foi até sua morte, em 1998. Direção: Emília Schramm, Jéssika SOuza, Pedro Luis Viana e Rafael Brasileiro. Ano: 2018.

SETE ANOS EM MAIO

Quem se apaixonou por ARÁBIA (2017) e pelo ator de si mesmo Rafael dos Santos certamente vai ficar feliz em ver este SETE ANOS EM MAIO. Feliz talvez não seja a palavra certa, já que o filme se mostra basicamente como um monólogo de Rafael, contando do quanto sofreu depois de ter sido torturado por policiais e ter fugido para não morrer. A história é sofrida e talvez algo no meio do processo tenha sido mudado pela direção de Affonso Uchôa ou pelo próprio Rafael, mas a essência está ali, toda sua dor, sua raiva, sua tristeza. E o desejo de se vingar dos donos do poder, como no final de Arábia. Ano: 2019. (foto)

A MULHER QUE SOU

Belo filme sobre recomeços. Muito envolvente, com personagens que encantam no ato. Tanto a mãe e a filha quanto o vendedor, vivido por Renato Novaes, conhecido de quem acompanha os filmes de Contagem-MG. A cena das carícias dos personagens é bem criativa, tem um trabalho de experimentação que combina tanto com o jazz que ouvimos quanto com a cor de suas peles. Dá uma sensação de que poderia render mais, que fica algo no ar, mas isso acaba sendo positivo também. Sinal de que é um filme gostoso de ver. Direção: Nathália Tereza. Ano: 2019.

OCEANO

Adorei a simplicidade e a maestria narrativa deste curta. Às vezes não precisa inventar muita coisa para fazer uma bela obra. E as duas diretoras sabem o que fazem com a câmera em mãos e uma sensibilidade muito aguçada para transformar a ideia em imagens e sons. Temos a história de uma moça que pega um ônibus na rodoviária de Fortaleza para uma cidade do interior e acaba tendo que arranjar outros meios para chegar a seu destino. Lindo tudo: a representação do lugar longe de tudo, os personagens, e especialmente o final. Direção: Amanda Pontes e Michelline Helena. Ano: 2019.

SANGRO

Bela animação que narra a dor de quem se descobre soropositivo. Apesar de haver medicações que fazem com que o vírus não seja mais uma ameaça de morte, ainda há a questão do preconceito, que segue forte, até porque há um silenciamento entre as pessoas. Aqui temos um depoimento real, mas a animação, o modo como são dispostas as imagens, como num oceano de emoções, fazem toda a diferença. Uma belezura. Direção: Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR. Ano: 2019.

sexta-feira, janeiro 10, 2020

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la Jeune Fille en Feu)

A relação que temos com alguns filmes é semelhante ao tempo de uma história de amor vivida: queremos que o filme fique um pouco mais com a gente, que aqueles sentimentos experienciados durante a sessão permaneçam não só na memória afetiva, mas também em nosso próprio corpo.

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (2019), de Céline Sciamma, narra de maneira lenta e gradual a história de amor de duas jovens mulheres. Uma delas, Marianne (Noémie Merlant), é a pintora e chega a uma ilha afastada para pintar o retrato de uma mulher que está prometida a um homem italiano. A mulher, a que dá título ao filme, é Héloïse (Adèle Haenel), e, a princípio, o sentimento que mais passa no olhar e nos gestos dessa jovem é de raiva. Casar com um homem que sequer viu na vida não lhe parece algo muito agradável.

A missão de Marianne é acompanhar Héloïse em caminhadas e, a partir do olhar, ir formando a memória do rosto e do corpo de seu objeto de estudo. O olhar de Marianne, porém, acaba se confundindo com um olhar de desejo. Como o filme não deixa claro os pensamentos de cada uma (a voice-over é usada apenas para introduzir e encerrar a história), muito do que captamos estão nos gestos. E é curioso como esses gestos são verbalizados pelas duas protagonistas em determinada cena, quando elas já se conhecem um pouco.

Essa verbalização também é um ponto crucial para a criação de uma das cenas mais lindas do filme: aquela em que as duas falam da memória de sua história de amor vivida. Compartilhar essas experiências vividas é um privilégio que poucos casais têm. E eis o motivo de tal cena, tão impregnada de melancolia, ser também um momento de alegria.

Um detalhe importante neste trabalho de Céline Sciamma é que praticamente não há homens na narrativa. Mesmo o sujeito que engravida a empregada não aparece. Aquele espaço é das mulheres, e por isso há tantas cenas em que elas compartilham tanto a alegria (jogando cartas, ouvindo um coral ao redor de uma fogueira etc) quanto a dor, como na cena do aborto. Aliás, a tal cena foi construída de tal maneira que a dor sentida fosse muito além da dor física. A diretora de fotografia, Claire Maton, que contribui muito para a criação de texturas belíssimas, semelhantes a pinturas, é a mesma de UM ESTRANHO NO LAGO e ATLANTIQUE, para citar dois filmes consagrados pela crítica.

Quanto ao envolvimento afetivo das duas mulheres, cada plano é de fundamental importância, por mais que as duas, lá no final, digam que perderam tempo, ao se demorarem na aproximação. Essa verbalização serve mais para deixar claro o sentimento mencionado no primeiro parágrafo: o de querer permanecer mais tempo ao lado da pessoa amada.

Como um filme escrito e dirigido por uma mulher e também como um exemplar deste momento de conscientização mais clara de que o papel da mulher na história da sociedade foi apagado ou sabotado pelos homens, RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS é uma das obras mais importantes do cinema recente, conseguindo ser tanto uma história de amor impossível (e por isso tão bela quanto as mais belas tragédias clássicas) quanto um gesto político.

+ TRÊS FILMES

ADAM

Um filme que cresce muito mais quando se apresenta como um filme sobre a maternidade do que quando passa boa parte de sua metragem tratando da amizade entre as duas mulheres. Não que não funcione, mas ADAM cresce muito quando passa a tratar do drama pós-gravidez da mulher que chega sem ter onde ficar em uma região muito tradicional do Marrocos. Há o peso de ela estar carregando um "filho sem pai", algo que pesa naquele lugar, naquela época. Não sei o quanto o filme vai cativar as plateias de hoje, principalmente as dos países ocidentais, que vivem uma nova realidade. No mais, eu não lembro de nenhum outro filme que tenha mostrado de maneira tão focada as primeiras horas/dias após o parto. Por isso foi tão importante ter sido dirigido e roteirizado por uma mulher. Direção: Maryam Touzani. Ano: 2019.

AS GOLPISTAS (Hustlers)

Difícil entender o hype que esse filme vem provocando, a não ser por uma campanha de marketing forte e também pela questão da sororidade, e o filme quase mostrar isso de forma comovente. É como se houvesse dois filmes em um: aquele em que temos mulheres golpistas e impiedosas prontas para tirar até o último centavo dos homens; e o que as apresenta como uma espécie de família e procura mostrar o aspecto mais frágil das personagens. Falha principalmente no segundo aspecto. E há também a intenção de vender o filme como uma dessas fitas com times de criminosos com tipos característicos diferentes. Acontece que, além de Constance Wu e Jennifer Lopez, apenas a loirinha que vomita ganha alguma visibilidade. Mesmo com esses poréns, é um filme bem conduzido e gostoso de ver. Direção: Lorene Scafaria. Ano: 2019.

PAPICHA

Custei um pouco a me envolver com o drama das personagens (talvez por causa do envolvimento com moda, não sei), mas sei sim que é um filme importante dentro deste momento em que o mundo parece estar cada vez mais tentando voltar à Idade Média. O que eu não me conformava, vendo o filme, era com o fato de a protagonista não querer sair daquele país, mesmo presenciando mortes e barbaridades cada vez mais intensas. O filme é bom em provocar um desconforto com alguns ângulos de câmera fora do comum. Direção: Mounia Meddour. Ano: 2019.

segunda-feira, janeiro 06, 2020

GLOBO DE OURO 2020

"Foi uma das premiações mais entendiantes em muito tempo. Estava sentindo no ar um clima de pouca empolgação para essa, que costuma ser uma das festas mais divertidas da temporada de prêmios. Muitas vezes, melhor do que o Oscar. A melhor coisa da noite foi o prêmio Cecil B. DeMille...". Assim começava minha descrição para o blog da premiação do Globo de Ouro do ano passado. Fiquei surpreso, pois, neste ano, a coisa se repetiu, inclusive no que se refere ao Cecil B. DeMille, que foi para Tom Hanks.

Diria que este ano foi melhor por causa da apresentação muito pessoal de Charlize Theron, que contou de quantas vezes assistiu ao VHS de SPLASH - UMA SEREIA EM MINHA VIDA (1984), o primeiro grande sucesso de Tom Hanks. Ela dizia que, ali na África do Sul, ela sonhava ser a sereia que seria salva por aquele rapaz comum, mas adorável. Algo do tipo. Também contou da vez em que fez uma audição e quem a entrevistou foi justamente Tom Hanks, que lhe deu a chance de estar no elenco de THE WONDERS - O SONHO NÃO ACABOU (1996). E aí tivemos o belo e emocionado discurso de Hanks, que ainda deu uma aula para aquelas pessoas todas, agora que é um ator veterano. Interessante como esta premiação do Globo de Ouro foi marcada pelo respeito que os mais jovens têm pelos mais velhos.

Porém, mais uma vez, não foi uma festa exatamente memorável. O tom já foi dado no começo, quando Rick Gervais, o apresentador, demonstrou um bocado de desdém em seu discurso: "puxa, ainda é o primeiro prêmio?", como que para dizer que a noite chata mal estava começando. Na verdade, não consigo achar chato, já que já faz um tempo que assisto a essas premiações trocando ideias com os amigos nas redes sociais. E os prêmios são entregues de maneira tão rápida que mal dá tempo de aproveitar a glória de tal premiação.

O maior vencedor da noite foi ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD, que ganhou três prêmios: melhor filme (comédia), melhor ator coadjuvante para Brad Pitt e melhor roteiro para o próprio Quentin Tarantino. Aliás, chamar a linda (acho que não havia mulher mais linda na festa) Margot Robbie para entregar o prêmio de roteiro já era uma deixa. Por mais que Tarantino, nesse filme em especial, se destaque mais na direção do que no roteiro, muitos ligam o seu cinema como cinema de roteiro, por causa dos diálogos singulares e tal.

Em seguida, 1917, de Sam Mendes venceu os prêmios de melhor filme (drama) e melhor direção. Outros que também faturou dois prêmios importantes foi CORINGA, que ganhou melhor ator para Joaquin Phoenix e melhor trilha sonora para a islandesa Hildur Guðnadóttir. Ela já havia subido ao palco no ano passado, no Emmy, pela trilha de CHERNOBYL.

Falando em CHERNOBYL, esta minissérie fantástica da HBO foi uma das vencedoras da noite, ganhando os prêmios de melhor minissérie e melhor ator coadjuvante para Stellan Skarsgård. Outras produções para a TV que ganharam dois prêmios foram FLEABAG (melhor série - comédia e melhor atriz para a criadora Phoebe Waller-Bridge) e SUCCESSION (melhor série - drama e melhor ator para Brian Cox).

As premiações de TV funcionam como belas dicas de séries e minisséries que merecem a nossa atenção, mas que, infelizmente, acabam não recebendo por falta de tempo e pela necessidade (no meu caso) de priorizar os filmes. Mas há sempre algumas séries/minisséries que me conquistam graças ao empurrãozinho da premiação. Neste ano, eu fiquei muito interessado em FOSSE/VERDON (prêmio de melhor atriz para Michelle Williams), THE ACT (prêmio de atriz coadjuvante para Patricia Arquette) e INACREDITÁVEL, que não ganhou nenhum prêmio, mas traz no elenco Kaitlyn Dever e Toni Collette, para citar as mais conhecidas.

No mais, a noite também ficou marcada pela esnobada que deram na Netflix. Das 34 indicações, o serviço de streaming só ganhou duas. Para quem entrou na festa achando que os prêmios para O IRLANDÊS eram garantidos, perdeu feio. Vamos ver como eles se sairão no Oscar agora.



Prêmios da noite

Cinema

Melhor Filme (Drama): 1917
Melhor Filme (Comédia/Musical): ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD
Melhor Direção: Sam Mendes (1917)
Melhor Ator (Drama): Joaquin Phoenix (CORINGA)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Taron Egerton (ROCKETMAN)
Melhor Atriz (Drama): Renée Zellweger (JUDY)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Awkwafina (THE FAREWELL)
Melhor Ator Coadjuvante: Brad Pitt (ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD)
Melhor Atriz Coadjuvante: Laura Dern (HISTÓRIA DE UM CASAMENTO)
Melhor Roteiro: ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD
Melhor Trilha Sonora: CORINGA
Melhor Canção Original: "I'm Gonna Love Me Again" (ROCKETMAN)
Melhor Animação: LINK PERDIDO
Melhor Filme Estrangeiro: PARASITA (Coreia do Sul)

Televisão

Melhor Série (Drama): SUCCESSION
Melhor Série (Comédia/Musical): FLEABAG
Melhor Minissérie ou Telefilme: CHERNOBYL
Melhor Ator de Série (Drama): Brian Cox (SUCCESSION)
Melhor Ator de Série (Comédia): Ramy Youssef (RAMY)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Russell Crowe (THE LOUDEST VOICE)
Melhor Atriz de Série (Drama): Olivia Colman (THE CROWN)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Phoebe Waller-Bridge (FLEABAG)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Michelle Williams (FOSSE/VERDON)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Stellan Skarsgård (CHERNOBYL)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Patricia Arquette (THE ACT)


domingo, janeiro 05, 2020

O CASO RICHARD JEWELL (Richard Jewell)

Em tempos de fake news e de maquinações de autoridades governamentais, é interessante perceber que justamente um cineasta republicano e de linha mais conservadora exponha de maneira tão intensa uma injustiça cometida a um cidadão comum dos Estados Unidos. Este cineasta é Clint Eastwood, que vem se especializando nos últimos anos a contar histórias reais de pessoas comuns que se tornaram heróis (ou anti-heróis).

Tem sido um prazer acompanhar os filmes recentes de Eastwood, ainda que, por muitos, sejam vistos como inferiores aos das décadas anteriores. Os cinco últimos trabalhos do diretor trataram de pessoas comuns que agiram como heróis (ou quase isso). Foi assim com SNIPER AMERICANO (2014), com SULLY - O HERÓI DO RIO HUDSON (2016), com 15H17: TREM PARA PARIS (2018), com A MULA (2018), e agora com este O CASO RICHARD JEWELL (2019).

E esse tema do heroísmo já é recorrente na filmografia de Clint há um bom tempo. Este mais recente filme é um de seus trabalhos mais felizes, no quanto é capaz de envolver, e no quanto é capaz de nos deixar indignados com a história de um segurança que salva dezenas de vidas em um atentado terrorista durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, é tido como herói pela imprensa, mas que depois tem sua vida virada de cabeça pra baixo.

A relação de Richard Dewell (o desconhecido e excelente Paul Walter Hauser) com a mãe, vivida por Kathy Bates, é comovente, assim como a amizade dele com o advogado, interpretado por um inspirado Sam Rockwell. Pode ser um pouco problemática a personagem de Olivia Wilde, a jornalista em busca de furos, custe o que custar, mas mesmo assim o filme, à sua maneira, procura trazer uma espécie de redenção para a personagem. Há também outro personagem que procura caminhos mais curtos para ganhar boa reputação no trabalho, que é o do agente do FBI vivido por Jon Hamm. Não são exatamente vilões, mas funcionam como algo próximo disso dentro da trama que mudará a imagem de Richard Jewell aos olhos da sociedade.

Assim como o piloto Sully do filme de 2016, Jewell é alvo de desconfiança e precisa provar sua inocência. Antes, vale destacar que Jewell representa bem o loser americano conservador e apreciador de armas e caça e que tem um respeito enorme por figuras de autoridade. Ele já foi da polícia e, em 1996, quando ocorre o ataque terrorista em uma festa em Atlanta, ele trabalha como segurança particular. Vale destacar o aspecto rotundo de Jewell. Seu corpo é alvo de chacota, desde muito cedo ele é costumeiramente vítima de bullying.

Isso é importante para a construção do personagem e, mais à frente, para delinear sua relação de amizade com o advogado vivido por Sam Rockwell. Há também o fato de ele não ter namorada e morar com uma carinhosa e protetora mãe. Na verdade, ele mesmo sofre com o fato de não poder dar à mãe mais do que ela merece, devido aos empregos de baixa remuneração que ele conseguia.

Clint Eastwood não tem medo de carregar nas tintas no registro do melodrama para contar sua história - basta lembrar do quanto emocionou as plateias quase na mesma proporção que as incomodou com o grau de dramaticidade do oscarizado MENINA DE OURO (2004). Por isso cenas como a coletiva de imprensa da mãe de Dewell e seus dois últimos encontros com os agentes do FBI são tão fortes, mas ao mesmo tempo incômodas para quem prefere um tipo de dramaturgia mais sutil.

Para quem compra a proposta, porém, O CASO RICHARD JEWELL é um filme valioso, com o coração tão grande quanto o de uma mãe. E ainda alfineta órgãos governamentais americanos, a imprensa marrom e os julgamentos apressados da sociedade. Estamos diante do mesmo sistema injusto que fez com que um veterano da Guerra da Coreia acabasse entrando no mundo do crime (A MULA), encaminhou diversas vezes um homem para a guerra no Oriente Médio em missões enlouquecedoras (SNIPER AMERICANO) ou tentou sujar a imagem de um piloto de avião que salvou diversas vidas. Clint Eastwood parece estar dedicando sua fase tardia de vida e carreira na direção para não fazer apenas grande cinema, mas também resgatar a imagem de pessoas vitimadas pelo sistema.

+ TRÊS FILMES

A MULA (The Mule)

Sempre uma alegria poder ver cada filme de Clint Eastwood, por mais que eu esteja estranhando uma dramaturgia mista em seus filmes, como se ele não estivesse muito interessado em fazer uma obra realista (lembra certos filmes europeus, nesse sentido), mas um conto moral aparentemente simples, mas cheio de significados mais profundos. E como é bom ver o próprio Clint em ação novamente, como ator. Sobre a questão da idade, desde os anos 1980 que ele brinca com isso. Agora ele tem mais motivo, mas tomara que ele consiga chegar à idade do Manoel de Oliveira. E estando ativo, claro. Ano: 2018.

15H17 - TREM PARA PARIS (The 15:17 to Paris)

Controverso filme de Clint Eastwood que não chegou a entrar em cartaz nos cinemas de Fortaleza e que eu fui adiando várias vezes para ver em casa por achar o início muito ruim. Felizmente, depois de meia hora o filme fica bem interessante, por mais que a conclusão seja um tanto desanimadora. Mas é curioso como se trata de mais uma história de heroísmo de pessoas comuns tratado como num filme pequeno. E aqui é pequeno mesmo, embora eu tenha achado SULLY também um filme pequeno, de certa forma. Aqui, porém, ganha ares de filme europeu, inclusive na dramaturgia. Não consegui comprar as interpretações "ruins" de Jenna Fisher e Judy Greer como as mães dos personagens centrais. Mas parece que era de propósito. Ano: 2018.

OS INVISÍVEIS (Die Unsichtbaren)

Não fiquei muito apegado aos personagens e vi com um pouco de distanciamento, mas, por outro lado, fica muito difícil ver o filme e não imaginar uma distopia acontecendo no Brasil. Imagina você ser da oposição e ser obrigado a dizer "Salve Bolsonaro" para não ser assassinado? É terrível. E o filme conta a história de quatro pessoas que conseguiram não ir para os campos de concentração e se misturaram à multidão de alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Direção: Claus Räfle. Ano: 2017.

sábado, janeiro 04, 2020

VIAGEM A ICARAÍ DE AMONTADA

Em determinado momento da viagem a Icaraí de Amontada me bateu um sentimento tão grande de gratidão que eu não experimentava há muito tempo. Foi na volta do passeio pelo Rio Aracatiaçu, em Moitas. A turma já tinha rido bastante, brincado bastante e estava em silêncio, contemplando a paisagem. Era o nosso último dia lá e eu senti que poderia ficar mais tempo ali, com aquela turma, feliz por mais alguns dias.

A viagem surgiu com o convite da Valéria, minha amiga de muitos anos, e uma agregadora de pessoas fantásticas. Foi confiando nela que eu topei fugir da minha rotina recente de passar o reveillon em casa para passar com uma turma nova. A maioria das pessoas eu não conhecia. Mas eu sabia que era justamente algo de que eu precisava: conhecer novas pessoas, conversar com pessoas interessantes. As pessoas que eu conhecia na casa eram apenas a Valéria e a Bárbara, outra amiga querida de muito tempo.

Partimos de carro no domingo. No carro da Val ia a Bárbara e mais duas pessoas que eu não conhecia, o Jamieson, um pastor pra lá de heterodoxo (conhecendo a Val, ela jamais ia se envolver com gente religiosamente convencional), e a Zilmara, amiga dele. Durante a viagem de cerca de três horas fomos nos conhecendo aos poucos. Ao chegar na casa, já vi que tinha muito em comum com o Jamieson: ele conheceu quadrinhos na infância e cresceu numa família evangélica. Passamos a noite na casa só nós cinco, à espera dos demais, que viriam só na segunda-feira.

O casal que ia dividir o quarto comigo, Thiago e Roberta, chegaram, junto com Clarisse. Assim como Erlon e Saulo, e Rai e Alice. A Val dizia que eu ia me identificar com o Thiago, e de fato temos muito em comum, tanto por sermos das Letras, quanto por gostarmos de algo na linha da espiritualidade (ele é budista), mas acabei conversando mais com a Roberta, uma dessas pessoas que eu queria ter conhecido há mais tempo.

Roberta é da área de jornalismo e foi fundamental para que a viagem fosse especial, já que trouxe temperos e tipos de comida novos para a casa. Como ela é vegetariana, começou há algum tempo a pesquisar alternativas de alimentação e, junto com isso, vieram novos sabores. Então, experimentar aqueles sabores que ela trouxe foi algo extremamente prazeroso, abriu minha mente para aquele universo de comida vegana, me fez repensar muita coisa, além de, pelo fato de estar experimentando tanta coisa gostosa, voltar a pensar no quanto estar neste mundo pode sim ser uma dádiva. Afinal, o paladar, sentir os variados sabores, é exclusividade de quem habita este planeta, creio eu.

Rai e Saulo representaram a alegria da casa, sempre eufóricos e fazendo a gente rir. Fizemos uma espécie de ritual de apresentação (a Valéria chamava de mística de apresentação, mas como eu não sabia o que era isso ficava pensando em mulheres dançando nuas ao redor de uma fogueira). Na verdade, aquilo era mais uma brincadeira e ocorreu na pracinha da cidade, antes da pizza. Foi uma forma interessante de nos conhecermos, através de perguntas muito ou pouco pessoais que todos deveriam responder. Foi o momento de maior comunhão, digamos assim, da turma, estando ela toda reunida. Uma das perguntas que surgiu na praça foi "O que te dá mais prazer?". Respondi que era cinema, que sexo era superestimado e tal. Mas depois pensei que poderia ter respondido "beijar estando apaixonado".

A praia estava ótima, mas infelizmente chegou, junto com a gente, aquele óleo que vazou e que já havia contaminado boa parte das praias do Nordeste. No dia seguinte, o Thiago me mostrou a matéria que saiu no jornal O Povo. O óleo havia chegado às praias de Itapipoca e Amontada. Algumas pessoas estavam com saquinhos, recolhendo parte da gosma preta que chegara na areia da praia.

Na noite do dia 30, enquanto alguns da turma resolveram ir a um forró, a maioria quis ficar em casa para acordar cedo e ir à Lagoa de Flexeiras (o que só ocorreria no dia seguinte, devido a uma chuva-surpresa). O Thiago havia trazido três jogos e um deles era o Dixit, que jogamos naquela noite, todo mundo junto, na sala de jogos (na verdade, uma mesa com pouca iluminação na parte de fora da casa). O jogo, eu já tinha jogado na casa da Bia, mas tinha bem pouca lembrança das regras. Lida com imagens que parecem saídas de quadros de Salvador Dalí. Eu e Clarisse ficamos entre os vencedores no final (houve empate de duas duplas).

Chega o dia 31 de dezembro. O dia foi tranquilo e eu fui aquietando meu espírito a ponto de conseguir ler tanto prosa quanto quadrinhos. Esse dia, na verdade, não é muito tranquilo pra mim, já que tenho bem poucas lembranças de finais de ano realmente felizes. Como a turma da Valéria é muito bacana, ela acabou atraindo mais pessoas, de outras turmas, de outras casas, para a ceia de reveillon, que mesmo faltando energia por horas, foi um sucesso. Ailton Lopes, que teve meus votos para vereador e para prefeito em eleições passadas, era um dos presentes na ceia. Simpático, me chamava sempre de xará. A ceia estava uma beleza, com sua pluralidade de sabores. Até resolvi dar um chega pra lá nas leis de Moisés e no amor não correspondido com o chocolate. Estava de férias dessas restrições.

E aí chega o momento mais melancólico, que é o da virada do ano. Depois da ceia, fomos à praia. Foi bom brindar ao ano novo, rir um pouco, ouvir "I've got a woman" em um sonzinho na praia, abraçar pessoas que eu amo e respeito (Israel, amigo de longa data também estava por lá), ver os fogos (eu dizia que eram presentes do nosso prefeito de Fortaleza), sentar na areia olhando para o mar, ir até o mar e sentir a água nos pés.

A ideia da Valéria de ir até uma barraca que tocava um tipo de forró e música menos contemporânea foi boa, fiquei lá por uns minutos, mas estava me sentindo deslocado e sozinho. Resolvi voltar logo pra casa. Mas não estava exatamente triste. Sentia-me feliz com a liberdade, com as possibilidades que o futuro me reservava, mas, especialmente, estava curtindo o cheiro do mar e da noite antes de quebrar à esquerda e entrar na rua que dava à "nossa casa". A ideia era chegar lá, tomar um banho e me meter entre os lençóis para ler. Finalmente 2019 tinha passado.

No penúltimo dia fomos à Lagoa de Flexeiras. Diria que foi um dos pontos altos da viagem, tanto pelos momentos ali na lagoa, extremamente agradáveis - havia duas redes lá para quem quiser tirar fotos e tal, parecidas com aquelas que há em Jericoacoara - quanto pelo alto astral da turma em si. Algumas pessoas estavam indo embora. Alice, Rai e Zilmara já haviam ido e Erlon e Saulo estavam indo também. A casa sentiu falta da alegria contagiante dos dois.

Mesmo assim, o melhor momento ainda viria, no dia seguinte, quando fomos a um passeio no Rio Aracatiaçu, em Moitas. Que beleza de lugar, que deslumbrante a paisagem que se descortinou aos nossos olhos. Aquele grupo de cinco pessoas (eu, Val, Bárbara, Roberta, Jamieson e Clarisse) estava muito feliz com aquele momento. Falar assim parece soar superficial, mas não é. Tanto é que foram esses momentos que me trouxeram àquela sensação tão especial que eu citei lá no primeiro parágrafo: a do silêncio de todos no retorno de barco para casa, quando meu coração se encheu de gratidão.

Creio que é importante deixar este registro para mim e para os amigos que estiveram juntos. Mas, principalmente, para o Ailton do futuro, que lerá este relato e reviverá as emoções, já que não dá para confiar na nossa memória. E costumo dizer que registros escritos são mais valiosos que registros fotográficos, no sentido de que captam aquilo que os olhos não podem ver.