segunda-feira, maio 17, 2021

COMEDIANS IN CARS GETTING COFFEE - PRIMEIRA TEMPORADA



Decidi ver e rever os episódios desta série de Jerry Seinfeld antes de ver apenas os inéditos (para mim). E ver na ordem original, e não na ordem que a Netflix os colocou. Deve ser algum tipo de TOC que eu tenho. Pretendo ver todas as temporadas até o fim do ano. Com certeza não será nenhum sacrifício. Pra quem ainda não sabe do que se trata, COMEDIANS IN CARS GETTING COFFE, que começou na internet em 2012 (esta primeira temporada), e depois foi parar na Netflix, apresenta Jerry sempre com um carro diferente (e "antigo") convidando um amigo ou amiga para tomar um café e conversar. Raramente vou falar sobre os carros, pois é o que menos me interessa na série. 

"Larry Eats a Pancake"

O primeiro episódio é este com Larry David. É muito bonito ver a cumplicidade dos dois, o elogio que Jerry faz a Larry ao dizer que ele é a mente mais brilhante que ele conheceu. Larry nem é tão divertido assim como uma pessoa, dá mesmo pra vê-lo como um sujeito difícil de lidar. Mas é engraçada a questão que ele coloca de a mulher dele não aguentar o fato de ele tomar chá em vez de café etc. No mais, é mais um episódio de climas do que de conteúdos nas conversas, mas são de coisas simples que saíram muitas das ideias para a série clássica, como a questão de o charuto ser mais relaxante do que o cigarro. O carro usado por Jerry é um fusquinha 1952.

"Mad Man in a Death Machine"

Um dos mais divertidos episódios, muito por causa do medo de Ricky Gervais em andar no carro de 1967, sem airbag ou cinto de segurança e com Jerry dirigindo rápido feito um louco. Muito do episódio se passa dentro do carro e é muito divertido, mas a conversa no café também é, até porque Ricky está mais calmo e traz assuntos interessantes. A conversa sobre Gervais como apresentador do Globo de Ouro vem à tona, mas terminar no café com falando dos últimos dias de Hitler foi surpreendentemente hilário.

"A Monkey and a Lava Lamp"

Talvez por não conhecer Brian Regan o episódio não tenha sido divertido pra mim. Ou talvez ele não seja mesmo divertido. A melhor parte do episódio é a ida para o café aproveitando a paisagem da praia de Santa Monica e quando o carro (um Dodge 1970 Challenger, o mesmo modelo do filme CORRIDA CONTRA O DESTINO) não quer pegar. A conversa no café também não traz nada de muito interessante, mas Jerry sabe deixar tudo sempre descontraído e mesmo uma coisa como a fala de uma senhora dizendo que ele fica bem de camisa cor-de-rosa ganha significado interessante.

"Just a Lazy Shiftless Bastard"

Jerry sempre tira o melhor dos encontros que promove neste programa. E aqui ele tem sorte de ter alguém como Alec Baldwin, que combina uma segurança no que vai dizer com uma espécie de insegurança com o que conseguiu na vida. Compara seu sucesso na carreira com o sucesso do Jerry, que parece ter conseguido muito mais sem trabalhar tanto quanto ele para isso. A conversa no café é tão boa quanto a conversa no carro, com detalhes aparentemente insignificantes no pedido de Alec que fazem uma diferença enorme em se tratando de um produto feito pelo Jerry. Há algo na conversa que se destaca, que é quando Jerry diz para Alec que ele é um ótimo ator com a mente de um roteirista e o quanto isso pode ser incômodo. Destaque também para a reclamação de Alec de ter largado o sorvete por causa do problema de ganhar peso, coisa que Jerry nunca teve.

"A Taste of Hell from on High"

Talvez eu esteja ficando exigente com a série, tendo visto tantos episódios excelentes, sempre escolhendo pelo convidado. Não conheço o convidado deste episódio, Joel Hodgson, que descobri ser um stand-up comedian. Há uma cena interessante, que é quando Jerry quase atropela um ciclista, que fica fulo com ele e começa a xingar. Em vez de tentar fugir ou algo parecido, Jerry desce o vidro do carro para falar com ele, e logo o bom humor vem, quando o rapaz o reconhece. (Ou teria reconhecido Joel Hodgson?) No café, o assunto do porquê o pote de ketchup vem com a tampa na parte de baixo e faz barulho é a tônica. O que acaba importando mais é o bom humor e o bem estar do programa, que sempre escolhe um lugar diferente (creio eu). (Engraçado que com o tempo, eu que não gostava de café, passei a me tornar fã, e agora que não bebo mais álcool, a saída para um café me parece mais atraente do que a ida a um bar.)

"Unusable on the Internet"

Acredito que só tinha visto o Bob Einsten em alguns episódios de CURB YOUR ENTHUSIASM. Ao que parece se tornou amigo do Jerry por tabela por causa do Larry David. Achei o episódio um pouco desconfortável. Parece que o tipo de humor que o Einstein faz é de deixar a pessoa sem jeito. E logo o Jerry, que é mais certinho, ter que ouvir piadas de maconha e cocaína, não sei se foi muito bom. De todo modo, os dois parecem muito amigos, a ponto de dizer ou fazer o que quiserem. Foi a primeira vez que eles saíram de um café por ser muito ruim e foram parar em uma lanchonete, onde ficaram satisfeitos com a comida. O problema só achei mesmo o Einstein, um tanto sem graça.

"I Hear Downtown Abbey Is Pretty Good"

Uma pena que o episódio 7, com o Barry Marder, não tenha sido incluído pela Netflix. Há um outro com ele lá, mas é da temporada de 2019. Então, passei para este oitavo, com os amigos Mario Joyner e Colin Quinn, que eu também não conhecia. Uma coisa que me encantou neste episódio foi o passeio de carro, principalmente. Jerry vai com Colin até um café no Novo Brooklyn e lá Mario os encontra. Ao que parece Mario mora lá no bairro. E é Mario quem conta uma situação que ocorre no ônibus, de agressão a uma tentativa de assalto. E Jerry, que vive em redoma de pessoas ricas, alheio à situação de pobreza da área mais pobre da cidade, fica admirado que existe ainda esse tipo de coisa acontecendo. O espaço me pareceu agradável, ainda que um pouco apertado, mas os três pareciam muito tranquilos e à vontade.

"I Want Sandwiches, I Want Chicken"

Bem divertido este episódio em que Jerry encontra os dois grandes amigos Carl Reiner e Mel Brooks. A maior parte do episódio se passa na casa de Reiner, com a presença de Brooks, contando histórias bem legais sobre sua peça The Producers, que deu origem ao filme PRIMAVERA PARA HITLER (1967), e que fez bastante sucesso na Alemanha, inclusive. Na época da gravação do episódio os dois já tinham mais de 90 anos e esse detalhe (a velhice) é também importante na conversa que acontece na casa (e no café), mas ambos parecem muito felizes, apesar de tudo. Reiner morreu no ano passado, Brooks está com 95 anos e vivo ainda. Certamente, sentindo falta do amigo. Há uma piada recorrente e famosa de Jerry que ele lembra quando está com Reiner no café: o fato de que dar gorjeta depois que você come não parece muito justo. Afinal, depois de satisfeito, vc já não valoriza mais tanto assim aquilo que você acabou de comer.

"It's Bubbly Time, Jerry"

Segunda vez que vejo este episódio e o resultado talvez tenha sido ainda mais agradável. Na verdade, agridoce. Aqui temos de volta um ator que fez um dos personagens mais queridos da televisão, o Kramer, vivendo um momento de crise existencial provocada por uma mancada durante um show de comédia sete anos atrás. Michael Richards incorpora novamente Kramer durante todo o trajeto da sua casa até o café (ou restaurante) e, durante esse momento em que o Kramer renasce, a magia está de volta. É impressionante. E voltamos a sorrir de orelha a orelha. Mas é difícil não ficar triste nos momentos de melancolia do episódio, assim como também é comovente o quanto Richards vê em Jerry uma pessoa a quem ele deve o melhor papel de sua vida, e possivelmente os melhores momentos de sua vida, ainda que ele diga, em certo momento, que gostaria de ter se divertido mais durante o seriado. Jerry o convence de que eles estavam fazendo um show não para eles, mas para os espectadores. Episódio mágico.

sábado, maio 15, 2021

O SEPULCRO INDIANO (Das Indische Grabmal)



1959 foi um ano singular para a história do cinema. Ao mesmo tempo que apontava para um novíssimo caminho, com a estabelecimento da Nouvelle Vague francesa com filmes como OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, OS PRIMOS, de Claude Chabrol, e HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais, além de trazer também um cinema americano independente cheio de frescor, com SOMBRAS, de John Cassavetes, entre outros casos; os mestres estabelecidos tiveram a chance de mostrar obras-primas, como é o caso de INTRIGA INTERNACIONAL, de Alfred Hitchcock; ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks; ANATOMIA DE UM CRIME, de Otto Preminger; IMITAÇÃO DA VIDA, de Douglas Sirk, entre outros.

Nessa mesma situação, ou quase, estava Fritz Lang, desta vez de volta ao velho mundo, realizando uma terceira adaptação para o cinema do romance de Thea von Harbou. Já falei aqui sobre O TIGRE DA ÍNDIA (1959). Então, vamos falar um pouco sobre sua continuação, O SEPULCRO INDIANO (1959), que é praticamente tão boa quanto a primeira parte, exceto por uns problemas de pressa de edição em sua conclusão. Ainda assim, é desses trabalhos admiráveis, principalmente do ponto de vista formal.

E foi por esse aspecto, principalmente, que os críticos franceses da Cahiers du Cinéma elogiaram tanto o díptico aventureiro de Lang. Na edição de fim de ano da revista, nas 30 listas individuais dos críticos, os dois épicos indianos aparecem em onze (por Resnais, Rivette e Chabrol, inclusive), sendo que, em quatro dessas onze listas, os filmes aparecem em primeiro lugar. Ou seja, além do sucesso comercial que os filmes obtiveram na Europa, ainda houve a excelente aceitação dos jovens críticos franceses, que na verdade contrariavam os demais críticos do resto do mundo, que apontavam muitos defeitos ao épico indiano.

No final de O TIGRE DA ÍNDIA, o casal de amantes havia fugido, numa tentativa de deixar o país, mas acabaram sucumbindo ao cansaço e a uma tempestade de areia no deserto. No começo de O SEPULCRO INDIANO, eles são resgatados por uma comunidade humilde, mas logo são encontrados pelos guardas do marajá, que capturaram a dançarina prometida (Debra Paget). Quanto ao destino do arquiteto (Paul Hubschimid), isso fica em suspenso, já que seu corpo cai em um espaço cercado por jacarés. O personagem, que era o protagonista na primeira parte, perde o protagonismo nesta segunda. Por outro lado, entram em cena mais dois personagens importantes, a irmã do arquiteto e seu cunhado. Enquanto isso, a situação no palácio se torna instável devido a uma disputa interna de poder.

Se na primeira parte havia uma cena de dança memorável, aqui a cena de dança talvez seja ainda mais antológica. Debra Paget, usando vestimentas bem ousadas para aquela época, dança diante de uma cobra. Curiosamente, não houve muito empenho da produção em esconder os fios que faziam a cobra (mecânica) se mexer, o que passa uma impressão de desleixo, especialmente se compararmos com o cinema produzido em Hollywood. Mas não creio que isso tire a beleza do filme; só torna a cena ainda mais belamente estranha.

Assim como a primeira parte, O SEPULCRO INDIANO é um filme que tem um olhar para o passado, especialmente para filmes como AS ARANHAS (1919-20) e OS NIBELUNGOS (1924), por serem filmes em duas partes e também com um quê de vingança; e OS ESPIÕES (1928), afinal, na segunda parte as intrigas palacianas e tudo o mais envolvido lembram muito as tramas de espionagem tão caras ao cineasta. Por isso, é difícil não ficar no ar essa impressão de obra anacrônica. Mas é bom incluir um advérbio junto: deliciosamente anacrônica.

+ DOIS FILMES

UM BALDE DE SANGUE (A Bucket of Blood)

Da safra de filmes bons e baratos de Roger Corman, este UM BALDE DE SANGUE (1959) tem um senso de humor notável, que além de zoar a cultura beatnik ainda faz rir com as situações cada vez mais absurdas que o protagonista meio cabeça oca começa a cometer, depois de transformar o cadáver de um gato em uma escultura de argila e passar a ser visto como um artista muito talentoso pelo grupo de pessoas do bar onde trabalha. Corman uniria a comédia com o horror novamente um ano depois, com A LOJA DE HORRORES (1960). Filme presente no box Obras-Primas do Terror 12.

A MULHER NA JANELA (The Woman in the Window)

Não entendo como sai um filme como esses de um diretor tão hábil como o Joe Wright. Em alguns momentos de A MULHER NA JANELA (2021) é possível ver a habilidade do diretor em pequenos detalhes, como a cena da cadeira de balanço e uma visão de flashback da personagem da Amy Adams. Há outras tomadas também muito boas, mas a história ou o roteiro ou o que quer que aquilo seja parece algo feito deliberadamente para não ser levado a sério. Não que isso seja um problema, mas no fim das contas o que temos é um fracasso. Especialmente no clímax, com a luta da heroína com o vilão. Aquilo ali retirou todos (ou quase todos) os momentos de simpatia que eu tinha com o filme até então. Muito provavelmente é o caso de história de bastidor mais interessante do que o filme. Desejo ressurreição para Joe Wright depois deste filme.

quinta-feira, maio 13, 2021

O TIGRE DA ÍNDIA / O TIGRE DE BENGALA (Der Tiger von Eschnapur)



Hoje faz um ano que comecei a minha peregrinação pela obra de Fritz Lang. A intenção não era ter demorado tanto assim. Mas esse período de um ano não foi muito fácil. A gente precisa lidar com momentos de desânimo e outras tantas situações que acabam prejudicando essas coisas que tanto amo, que é ver filmes e escrever sobre eles. E gosto especialmente quando tenho a chance de estudar sobre os realizadores e suas obras maravilhosas. Felizmente este é o caso de Fritz Lang, que tantas alegrias trouxe para a humanidade em seus 43 filmes sobreviventes.

Quanto a O TIGRE DA ÍNDIA (1959), eu estava tão entusiasmado com a maravilhosa safra dos filmes do diretor produzidos nos Estados Unidos em um período de 20 anos que, a princípio, fiquei um pouco desanimado com este retorno do cineasta à Alemanha, ainda mais para dirigir uma aventura nos moldes de seus primeiros trabalhos. Acontece que O TIGRE DA ÍNDIA (ou O TIGRE DE BENGALA) é a aventura mais empolgante já dirigida por Lang (isso se não contarmos os westerns, ou talvez até mesmo se contarmos).

Ao voltar para a Alemanha, Lang resolveu pegar um roteiro que havia escrito com sua então esposa Thea von Harbou no início dos anos 1920 e que ele não pôde realizar porque o produtor Joe May queria ele mesmo dirigir o projeto. O curioso é que o filme em duas partes dirigido por May, THE INDIAN TOMB (1921), hoje é um tanto esquecido. Assim como também é, provavelmente, a refilmagem feita por Richard Eichberg, em 1938, quando Lang já havia fugido da Alemanha, também lançado em duas partes.

Lang havia ido para a Índia em 1956, em um convite para realizar um filme sobre o Taj Mahal, algo que acabou não se concretizando. Felizmente a Índia o atraiu de volta quando ele resolveu materializar aquele projeto com Thea von Harbou. E eis que surge esta maravilha em cores deslumbrantes que remete um pouco a AS ARANHAS (1919-20), no sentido de contar uma história de aventura em uma terra exótica, mas desta vez com décadas de aprendizado na arte de fazer grandes filmes.

A história é simples: arquiteto alemão (Paul Hubschmid) viaja para elaborar um projeto para um poderoso marajá no século XVIII e se apaixona por dançarina indiana (Debra Paget) que está destinada a ser princesa do tal marajá (Walther Reyer). Há momentos de perigo e tensão e termina com um gancho poderoso para que queiramos ver logo a continuação, O SEPULCRO INDIANO (1959), lançada dois meses depois.

Debra Paget, que ficou famosa por ter rejeitado Elvis Presley (os dois trabalharam juntos em AMA-ME COM TERNURA), está deslumbrante. Sua cena de dança é hipnotizante e muito sensual, seja pela dança em si, seja pelas vestimentas. 

O filme fez sucesso de público na Europa, mas não foi muito bem nos Estados Unidos. As críticas também não foram muito positivas. De certa forma é até compreensível o estranhamento, assim como é possível encontrar falhas ou ver fragilidades na obra. Do ponto de vista da psicologia dos personagens, por exemplo, eles parecem mais modelos para servirem a uma narrativa à moda antiga.

Foram os críticos franceses que perceberam a grandeza da obra. Claude Chabrol foi um dos mais entusiastas do filme, que era mais valorizado por sua perfeição formal, seu uso da decoração da estrutura espacial. Eu ainda acrescentaria o prazer de ver o filme como uma aventura empolgante, esquecendo certos detalhes hoje incômodos como todos os indianos falando alemão (na versão dublada em alemão, claro) e os personagens principais que interpretam indianos serem na verdade europeus ou americanos. Mas isso é um tipo de reclamação que talvez não combinasse muito com o cinema feito naquela época.

De todo modo, eu, que sempre preferi os filmes em preto e branco de Lang, justamente por terem esse cuidado maior com a forma, com a direção de arte, com a fotografia, tive que dar o braço a torcer com este trabalho que também sabe lidar com todos esses detalhes e ainda aproveitar muito da geografia indiana e suas cores vivas.

+ DOIS FILMES

OXIGÊNIO (Oxigène)

O novo trabalho de Alexandre Aja, OXIGÊNIO (2021), teve sua estreia mundial na Netflix nesta quarta-feira, 12 de maio. É um filme que foi feito dentro das possibilidades de um mundo numa pandemia e talvez por isso as referências à situação da Covid sejam bem explícitas. E não apenas no que se refere à falta de oxigênio que começa a acontecer dentro da câmara criogênica em que uma desmemoriada mulher (Mélanie Laurent) acorda. Aos poucos, vamos, junto com ela, desvendando os segredos daquela situação, quem ela é, por que ela está ali, qual o sentido de tudo etc. É ótima a participação de Mathieu Amalric como a inteligência artificial que conversa com a protagonista durante quase toda a narrativa.

COME TRUE

Só de ser um filme sobre investigação do fenômeno dos sonhos em uma abordagem horror e sci-fi já é de despertar o interesse. A trilha sonora com sintetizadores traz um clima 80's interessante para COME TRUE (2020), assim como a jovem protagonista (Julia Sarah Stone) tem um brilho todo próprio, desde o começo do filme, quando é alvo de bullying na escola por dormir durante a aula e estar sempre precisando de um café, até o momento que resolve participar de um experimento envolvendo sono e sonho. O momento mais fascinante deste filme de Anthony Scott Burns é o final, com um passeio dos três personagens principais pela noite. Esse diretor tem jeito de que vai ainda trazer coisas interessantes no futuro.

terça-feira, maio 11, 2021

HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry Met Sally...)



Queria estar hoje bem feliz para entrar um pouco mais em sintonia com o momento especial que foi para mim o dia em que vi no cinema HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (1989), de Rob Reiner. Na época, 1990, eu estava no último ano do ensino médio, tinha 18 anos, estava me recuperando de uma paixão que não deu certo e tinha acabado de comprar o meu primeiro par de óculos. Estava de licença remunerada do meu estágio no Banco do Nordeste e ia sozinho para o cinema, meu programa favorito.

A novidade é que esta seria minha primeira sessão de cinema usando óculos para uma miopia de três graus. Minha timidez me impedira até então de usar óculos e, por isso, chegar àquele estágio de miopia e olhar o mundo como era “de verdade” pela primeira vez foi mágico. O que mais me encantou naquela nova forma de ver o mundo foram os detalhes nas folhas das árvores. Sem os óculos, as copas das árvores pareciam um grande borrão. Com os óculos, havia os detalhes lindos. Ah, e também comecei a prestar mais atenção nas estrelas, agora mais delineadas no céu.

E fiquei muito feliz com aquela minha primeira sessão com os óculos, podendo me sentar desta vez em qualquer lugar da sala de cinema - antes tinha sempre que me sentar lá nos assentos da frente para poder enxergar as legendas. E havia também o sentimento de bem estar comigo mesmo, de me sentir bem depois de um mal estar gerado pela referida paixão. Curar-se de uma paixão é algo muito positivo, nos ajuda a reencontrar a alegria de estar só e livre.

HARRY E SALLY estava passando no Cine Center Um, um espaço que ficava um pouco longe de onde moro, mas o fato de ser o local de exibição do Cinema de Arte e também dos filmes mais cultuados e melhores da cidade me fazia frequêntá-lo bastante, ainda que tivesse que pegar dois ônibus para chegar lá. Sem falar que o espaço era confortável e a projeção era excelente. Começou a sessão e eu fiquei encantado com aquelas imagens maravilhosas. E aquela mulher linda e encantadora também, a Meg Ryan, vivendo a Sally, ajudou bastante. Resultado: saí do cinema literalmente pulando de alegria, depois daquelas lágrimas discretas na cena do revéillon, no final, e de ter, naquele meu segundo ano oficial de cinefilia, confirmado o cinema como o espaço mágico e de pluralidade de sentimentos.

Por isso que, durante muito tempo, eu considerei HARRY E SALLY como a minha comédia romântica favorita. Claro que depois eu veria outras melhores, especialmente as clássicas ou aquelas do Éric Rohmer, mas HARRY E SALLY sempre vai estar no meu coração como muito especial por se situar na aurora da cinefilia e também por representar um período de ouro para as comédias românticas, os anos 1980-90. Inclusive Meg Ryan virou uma espécie de namoradinha da América com esse filme. Chegou a fazer outras duas parcerias com Nora Ephron, a roteirista do filme, com SINTONIA DE AMOR (1993) e MENS@GEM PARA VOCÊ (1998), ambos com Tom Hanks fazendo como par romântico dela, mas nenhum dos dois filmes chegou a ter os mesmos acertos de HARRY E SALLY.

E por mais que tenhamos um cineasta cheio de acertos em sua filmografia - Rob Reiner trafegou com sucesso por diversos gêneros -, a chave do filme está principalmente no roteiro de Nora Ephron, que fazia referência às comédias da Velha Hollywood. O texto me surpreendeu em alguns momentos bem engraçados, cenas que eu havia me esquecido, e há o charme e a elegância de Meg Ryan usando aquele figurino que remete à Diane Keaton dos filmes do Woody Allen - especialmente de NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA.

Aliás, os próprios créditos iniciais (fonte branca em tela preta com jazz ao fundo) e outras coisas também remetem a Woody Allen. A cena final (pré-epílogo) segue sendo muito bonita e emocionante, com aquela fala primorosa que deram a Billy Crystal. No Oscar de 1990, eu havia visto Crystal como o apresentador e por isso eu já tinha um carinho muito especial por ele, que fez tanto sucesso que repetiu o papel de host em outras oito ocasiões (1991, 1992, 1993, 1997, 1998, 2000, 2004 e 2012). Mas sua carreira na comédia, tanto na TV quanto no cinema, já estava bem solidificada.

Por isso, de certa forma, sua participação em HARRY E SALLY era até mais acertada do que a da própria Meg Ryan, cujo estouro veio mesmo justamente com este filme, ao lado de Crystal. A química funcionou muito bem, com Crystal trazendo seu carisma e seu timing cômico e Meg trazendo seu encanto próprio que casou muito bem com a personagem idealizada por Ephron.

O filme tem uma estrutura narrativa que é entrecortada por depoimentos de casais de velhinhos que tiveram um casamento feliz. Isso já traz uma preocupação com o encontrar a alma gêmea, embora nunca se use esse termo no filme, desde o início. Em certo momento, Sally, conversando com suas amigas, e tendo se separado do então namorado, tenta disfarçar a preocupação com o rápido passar do tempo. Ela chega a mentir a idade, inclusive.

Na história, nem Harry nem Sally, nas vezes que se encontraram em outras ocasiões, gostaram um do outro, embora Harry tenha sido honesto ao dizer que se sentia atraído por ela. Anos depois, quando se encontram novamente em uma livraria, nasce uma amizade. Mas será que há espaço para um amizade entre um homem e uma mulher? Isso seria impossível segundo a versão mais jovem de Harry. Muito da força do filme está nesses encontros dos dois como amigos, na discreta tensão sexual que surge entre os dois (principalmente em forma de um ciúme que tenta ser disfarçado).

Outros fortes elementos do filme estão em pequenas conversas, não apenas entre Harry e Sally, mas entre Hally e seu amigo Jess (Bruno Kirby) e Sally e sua amiga Marie (Carrie Fisher). Quando os quatro se juntam, em uma tentativa de formar pares que deram errado, o filme cresce ainda mais. E há aquela fala engraçadíssima de Marie sobre a mesa de centro do noivo. (Gosto também da piada envolvendo Charles Chaplin, dita por Crystal.)

Curiosamente, a cena mais famosa do filme, a de Sally provando que é fácil fingir um orgasmo no restaurante, é uma cena que me deixa constrangido, não sei por quê. Aliás, é engraçado como o próprio filme tem uma espécie de tabu com o sexo. Trata-se de um elemento que não é mostrado e mesmo quando rola finalmente entre o casal, ambos ficam extremamente embarassados com a situação, sem saber direito como reagir e gerando uma outra cena memorável, com uso de split screen, em que ambos ligam para seus melhores amigos para confidenciar o ocorrido. Enfim, eis um filme que não demorou muito para virar um clássico.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

MEMÓRIA PRESENÇA

A memória é uma constante no cinema, que é em si uma arte que lida com fantasmas. Cada pessoa que é registrada em celuloide (ou digital) já passa a ser eternizada, ao mesmo tempo que sua imagem daquele momento não mais existe. MEMÓRIA PRESENÇA (2021), novo trabalho de Gabriel Carneiro, um pequeno curta de 3 minutos feito durante a pandemia, é uma colagem de retratos de familiares (muito provavelmente) no cenário da casa do realizador (imagino). É como se, por meio de uma brincadeira, mas também com muita delicadeza, o diretor pudesse trazer de volta aquelas pessoas, no estado em que elas foram fotografadas, dentro daquele ambiente da casa, mas não sem criar certa estranheza. O elo entre este filme e obras anteriores como o terror MORTE E MORTE DE JOHNNY ZOMBIE (2011) e BATCHAN (2013), inspirado em Ozu, talvez esteja no quanto ele valoriza a vida, seja quando mostra um zumbi (símbolo de resistência entre a morte e a vida), uma senhora idosa recebendo a família para um almoço ou criando essa colagem com efeitos digitais caseiros.

ATRAVESSA A VIDA

Depois do ótimo PRO DIA NASCER FELIZ (2005), João Jardim volta ao universo das escolas e dos estudantes de ensino médio com este ATRAVESSA A VIDA (2020). Aqui ele foca em apenas uma escola, de ensino público, situada em Sergipe. Em determinado tempo da narrativa, quando é mostrada a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, achei que o filme estava perdendo o foco, mas depois vi que isso servia para que entendêssemos melhor aquele momento, que provavelmente seria muito mais difícil para aqueles jovens, em suas jornadas profissionais futuras. Gosto de como o cineasta, mais uma vez, lida com as fragilidades emocionais de seus personagens. Há uma meia dúzia de cenas que me fizeram chorar (o que é a cena de "Pais e filhos"?). Adoro também a cena em que a diretora Daniela tenta consolar uma aluna e ela mesma acaba chorando. Há muita delicadeza e humanidade no filme, e não deixa de ser um tapa na cara dos liberais aquele final, mostrando as imensas possibilidades de sucesso de estudantes de escola pública galgarem sucesso nos estudos e na vida profissional, apesar de todos os obstáculos. E, no meio disso, a importância também dos professores no processo. Deu uma baita saudade do ambiente escolar físico.

segunda-feira, maio 10, 2021

SEIS FILMES INDICADOS AO OSCAR 2021



Vamos de textos rápidos sobre curtas e longas indicados ao Oscar 2021. Até por serem filmes de que eu não teria muita paciência para tecer comentários mais aprofundados a respeito.

OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7)

Demorei tanto a ver este OS 7 DE CHICAGO (2020), de Aaron Sorkin, estava com tanta preguiça de vê-lo, ainda mais com a má fama que estava rolando entre alguns amigos críticos, que tive uma surpresa positiva, achei-o divertido em sua estrutura de filme de tribunal, e com o elenco estelar e que ajuda bastante na diversão. Inclusive, quando a gente acha que acabou a cota de famosos, aparece mais um. Tenho minhas restrições, especialmente ao final, mas, uma vez que entendemos que se trata de uma obra inspirada em fatos reais, parece aceitável. Sasha Baron Cohen tirando onda do juiz está ótimo, assim como o Mark Rylance como o advogado puto com o juiz. Aliás, Frank Langella, como juiz talvez seja o grande nome do elenco, que foi agraciado com o SAG. Talvez tenha sido justo, hein. O filme teve seis indicações ao Oscar e saiu de mãos abanando.

HUNGER WARD

É importante que filmes como este ganhem visibilidade. Para um curta-metragem, ser indicado ao Oscar ajuda bastante. HUNGER WARD (2020), de Skye Fitzgerald, é um grito de socorro de um povo, principalmente das mulheres e das crianças do Iêmen, país que tem sofrido com uma guerra covarde com a Arábia Saudita e o filme foca nas consequências que essa guerra traz às crianças, em um hospital que trata de casos de subnutrição. É triste demais vermos aquelas crianças só o coro e o osso e o olhar ainda insistindo em brilhar. Pode parecer pesado ou apelativo, mas como suavizar o assunto? Diria que é um filme que não é brilhante na forma (até lembra vários telejornais locais), mas cuja mensagem é importante que chegue ao mundo. Ainda mais sendo os Estados Unidos denunciado como um dos culpados da situação. Indicado a melhor curta documentário.

CRIP CAMP - REVOLUÇÃO PELA INCLUSÃO (Crip Camp)

Acho que é a primeira vez que consigo ver todos os cinco indicados ao Oscar na categoria de documentário em longa-metragem. A impressão que ficou não é das melhores. Ficou a impressão de que há a inclusão de certos filmes mais pelos temas do que por suas qualidades fílmicas. E nisso se enquadra este CRIP CAMP - REVOLUÇÃO PELA INCLUSÃO (2020), de James Lebrecht e Nicole Newnham, que vai ficando cada vez mais quadrado em sua estrutura à medida que o grupo de pessoas com deficiência física e mental se une para lutar pelos seus direitos. A melhor parte do filme é a primeira, quando vemos todos aqueles jovens no acampamento, pela primeira vez na vida podendo ser eles mesmos, sem o preconceito dos outros ou a superproteção dos pais. Depois disso, o filme vai ficando um pouco mais aborrecido. Podia ter uns 20 minutos a menos, mas não sei o quanto isso poderia prejudicar ainda mais sua narrativa. Curiosamente, um dos diretores é um dos rapazes que estiveram presentes no acampamento.

DOIS ESTRANHOS (Two Distant Strangers)

Um filme que requenta mais uma vez FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, e sem a mesma precisão e frescor de PALM SPRINGS. O que há de interessante neste DOIS ESTRANHOS (2020), de Trevor Free e Martin Desmond Roe, é apresentar o tratamento contínua e extremamente agressivo que o homem negro recebe da polícia dia após dia. O que me deixou incomodado foi o modo leve como o filme trata de um assunto que merece toda nossa indignação. Não apenas por George Floyd, mas, como o filme quer lembrar, de tantas outras pessoas negras que foram vítimas da brutalidade e do racismo presente na polícia. O tom e a canção "That's the Way it Is" acabou me deixando com aquela impressão ruim de que estamos diante de um filme que quer se conformar com uma das coisas mais horríveis da sociedade americana. Cena mais marcante: o passeio de carro. Vencedor do Oscar de melhor curta-metragem em live action.

TOCA (Burrow)

Desapontador este curta da Pixar/Disney. Por mais que seja simpático e também interessante nos aspectos técnicos, TOCA (2020), de Madeline Sharafian, me pareceu raso e bem aquém do que a própria companhia de animação vem fazendo nos últimos anos. O diferente está no fato de ser uma animação de linha mais tradicional, longe do traço computadorizado que fez a fama da companhia desde os anos 1990. Na trama, uma coelhinha começa a cavar uma toca ideal para morar, mas começa a perceber que há outras criaturas ao redor já morando.

PROFESSOR POLVO (My Octopus Teacher)

Embora tenha demorado dias para terminar de ver, depois que resolvi finalizar, percebi que este documentário (vencedor do Bafta da categoria), com cara de Animal Planet, PROFESSOR POLVO (2020), de Pippa Ehrlich e James Reed, é melhor do que eu imaginava. Há vários momentos um tanto aborrecidos, mas há uma série de outros que ajudam a equilibrar o projeto. Refiro-me aos momentos de emoção submarina, já que lá debaixo não é só alegria, é uma luta pela sobrevivência. Gostei muito da polvo fêmea, e de saber o quanto o animal é inteligente - o narrador diz que o polvo é tão inteligente quanto um gato. E há as belas imagens, que com o tempo a vista acostuma, mas depois há outras que conseguem trazer de novo o brilho no olhar. Vencedor do Oscar de melhor documentário.

sábado, maio 08, 2021

UM CORPO QUE CAI (Vertigo)



É curioso como, no início das minhas atividades no blog, eu não tinha medo ou problema nenhum em escrever sobre filmes tão herméticos como alguns do Godard ou outros do Tarkovski ou do Bresson e escrevia numa boa sobre todos os filmes de Alfred Hitchcock, como se desconhesse a imensa complexidade das obras do mestre do suspense. Hoje em dia, diante da revisão recente de um filme como UM CORPO QUE CAI (1958), que já até escrevi a respeito em uma peregrinação que fiz pela obra do mestre, fiquei paralisado na hora de tentar escrever outro texto, pois sei agora que a responsabilidade de escrever sobre um filme dessa estatura é grande.

Além do mais, recentemente pude ver o quanto essa obra-prima do Hitchcock foi essencial para a existência de outras obras-primas, como INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, ou o mais recente PHOENIX, de Christian Petzold. Aliás, boa parte da obra do De Palma, que pretendo começar a adentrar com mais profundidade neste ano, se a ansiedade e a saúde permitirem, está intimamente ligada ao universo e às obsessões hitchcockianas. Então, estou lendo diferentes livros para escrever um novo texto sobre UM CORPO QUE CAI, um dos dois únicos Hitchcocks que tive a graça de ver no cinema (o outro foi REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL, 1940). E duas vezes: uma em película nos anos 1990, e outra em nova cópia digital remasterizada nos anos 2010.

Talvez neste ano tenha sido a sétima vez que vi este filme. As duas no cinema, uma na tevê dublado, uma vez em VHS, outra em DVD, outras duas baixado. Essa versão em 1080p que tem por aí está linda demais. Dá gosto só de olhar para as cores. E Hitchcock caprichou bastante nas cores e no simbolismo delas neste filme em especial. O curioso é que só nesta nova vez que eu percebi a homenagem que Lynch fez no último episódio da segunda temporada de TWIN PEAKS (1990-91), com aquele entrar em portas várias vezes. Talvez tenha achado menos erótico do que da última vez, mas continua sendo bem sensual. O próprio detalhe do novo sutiã projetado acaba sendo uma forma de chamar a atenção para o sexo, direta ou indiretamente. E nem preciso lembrar da cena do resgate na baía.

UM CORPO QUE CAI é uma perturbadora e obsessiva história de amor em que um detetive de polícia (James Stewart), que pediu demissão depois de seu sentimento de culpa por não conseguir salvar um colega em uma operação nos telhados, por causa da vertigem, é contratado como detetive particular por ex-colega de escola (Tom Helmore) para vigiar sua esposa, Madeleine, que anda, supostamente, obcecada por uma antepassada e sósia sua, do século XIX, e com tendências suicidas.

Depois de hesitar, Scottie (Stewart) aceita a missão e passa a perseguir a bela loira (Kim Novak). A primeira vez que o sentimento de paixão brota do personagem é traduzido de maneira extraordinária por Hitchcock, em trilha sonora e imagem. E, claro, na beleza de Novak em todo seu esplendor. Já a trilha de Bernard Herrmann é de uma beleza impressionante, especialmente nos momentos de perseguição pelas ruas de San Francisco, mas também naquela que talvez seja a cena mais icônica do filme, quando Scottie, ao tentar ressuscitar Madeleine usando o corpo de Judy (também Novak), traz a morta de volta. Hitchcock, inclusive, tinha prazer em dizer que estava contando a história de amor entre um homem vivo e uma mulher morta em algumas entrevistas.

Em texto de Kim Newman para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, a crítica e romancista diz:

"Para muitos, a cena em que Judy é finalmente transmutada e abraça Scottie com uma fome vampiresca é tão devastadora emocionalmente quanto a sequência do chuveiro em PSICOSE."

Já Olivier-René Veillon, em O Cinema Americano dos Anos Cinquenta, escreve sobre um filme de Hitchcock que muito possivelmente poderia ser UM CORPO QUE CAI. Na verdade, em seu ensaio ele não cita em nenhum momento o filme de 1958:

"A identidade perdida e reencontrada no jogo do desejo e do amor está no centro de "Spellbound" [QUANDO FALA O CORAÇÃO] (1945), onde já se encontram as representações da fuga e da perseguição amorosa."

Mas a análise mais bonita que li sobre o filme, a escrita por Luiz Carlos Oliveira Jr., para o catálogo Hitchcock É o Cinema, organizado por Rafael Ciccarini, destaca uma cena como a possivelmente mais representativa da complexidade e da beleza de UM CORPO QUE CAI, aquela em que Madeleine/Judy está em uma floricultura e é observada por Scottie. É plasticamente impressionante e linda, obviamente, mas o jogo de espelhos traz um convite a análises. Segundo Oliveira Jr.,

"...o plano insinua a maquinação ilusionista em que Scottie está se deixando envolver. Afinal de contas, o que ele vê nessa cena não é Madeleine, mas Judy interpretando Madeleine interpretando Carlotta. Madeleine não passa de uma ilusão forjada sob medida para a captura de seu olhar."

Mesmo antes, quando Scottie vê Madeleine no museu, ela de costas, olhando para o retrato de Carlotta, ele constrói uma imagem perfeita da mulher. Assim, UM CORPO QUE CAI é também um filme sobre a construção do amor a partir da ilusão, como se não coubesse o real dentro do romantismo. Tanto que o que ele deseja, quando encontra Judy, a verdadeira face e da persona da mulher, é transformá-la na imagem idealizada da mulher que ele amou.

Enfim, são tantas coisas a falar sobre o filme. Há o erotismo fino ajudado bastante pelo sex appeal de Kim Novak, mas intensificado pelo instinto de transgressão de Hitchcock. Há a arrepiante queda de Judy após ver a imagem da freira em uma das últimas e mais tensas cenas do filme. Há aquele inteligente flashback de Judy, que entrega ao espectador o mistério até então não explicitado. Estar diante de uma obra de tal magnitude é como relembrar que é possível recobrar a fé no ser humano pelo que ele é capaz de criar, no caso, pela arte.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

CRIATURAS DAS PROFUNDEZAS (Humanoids from the Deep)

Divertida produção de Roger Corman sobre criaturas anfíbias e humanoides que começam a atacar uma pequena cidade costeira. Como se trata de uma produção de baixo orçamento, os efeitos especiais dos monstros em CRIATURAS DAS PROFUNDEZAS (1980) não são exatamente realistas, mas para o tom do filme funcionam muito bem. Até achei que a nudez seria mais explorada (mas até que há boas cenas, ainda que curtas). Pelas cenas deletadas presentes no DVD, nota-se que algumas dessas mais de exploração da nudez ficaram na mesa de edição. Como era início dos anos 1980 e nudez era algo muito atraente, esse tipo de filme chamava a atenção das plateias. Muito bom quando a trama sai do registro do terror e vai para a ficção científica em certo momento. Dirigido por Barbara Peeters e Jimmy T. Murakami (não creditado), o filme está presente no box Cinema Exploitation, da Versátil.

DANÇA MACABRA (Danza Macabra)

Belo filme que abraça a tendência do horror dos anos 1960 de contar histórias sobrenaturais ainda com muita influência da tradição gótica e com um estilo que talvez hoje esteja ultrapassado. Há algo muito interessante que destaco em DANÇA MACABRA (1964), que é o diálogo entre o jornalista vivido por George Rivière e o homem que apresenta para ele a história daquele castelo assombrado (Arturo Dominici). Há uma explicação sobre a chamada "força dos sentidos" que muito me interessou, inclusive do ponto de vista espiritual. Na trama, Rivière é um jornalista que aceita a aposta de passar a noite em uma casa assombrada e sair de lá vivo. O interessante é que o filme começa com a participação de Edgar Allan Poe, contando, em um pub londrino, uma de suas histórias fantásticas. Barbara Steele tem uma participação menor do que eu esperava, mas é sempre marcante. O filme começou sendo dirigido por Sergio Corbucci, que saiu com uma semana das filmagens e foi substituído por Antonio Margheriti. DANÇA MACABRA está presente no box Obras-Primas do Terror - Gótico Italiano, da Versátil.

terça-feira, maio 04, 2021

A FRONTEIRA DA ALVORADA (La Frontière de l'Aube)



Entrar em contato com a carreira de um cineasta desconhecendo seus primeiros trabalhos, e sendo esses trabalhos de décadas atrás, pode causar incompreensão no que se refere a suas motivações. Ainda assim, tenho preferido seguir por esse caminho contrário na carreira de Philippe Garrel, cujo primeiro filme que vi foi AMANTES CONSTANTES (2005), talvez o primeiro de seus trabalhos a estrear nos cinemas de minha cidade. Pelo que andei lendo em sites estrangeiros, não é exclusividade nossa um cineasta tão importante quanto Garrel ter sua obra sendo descoberta tão tardiamente. Nos Estados Unidos o autor também passou a ser conhecido e cultuado com atraso.

O Garrel que passei a conhecer com alguma intimidade foi o da década passada. Felizmente seus filmes se conectam tematicamente, o que ajuda a compreender um pouco suas obsessões e seus interesses. Relacionamentos com destaque para o ciúme e a traição são destaque em seus mais recentes filmes, mas descobri seu interesse pelo tema do suicídio em UM VERÃO ESCALDANTE (2011). O que não imaginava é que esse interesse já havia se manifestado de maneira ainda mais sombria neste A FRONTEIRA DA ALVORADA (2008), também estrelado por seu filho e que compõem juntos uma espécie de dobradinha temática.

Além do mais, Garrel com um pé no cinema de gênero não era algo que eu esperava. Aparentemente o filme parece se dividir em um lado A e um lado B, sendo que o lado A trata do relacionamento de François (Louis Garrel) com a bela e intensa atriz de cinema Carole (Laura Smet). O lado B seria o de sua relação com Ève (Clémentine Poidatz), uma moça mais tranquila e representativa da estabilidade emocional. A atmosfera gótica chega para tornar o filme mais misterioso e incômodo, mas também traz um charme especial. Gosto, em especial, de uma cena na floresta.

Garrel também continua seu delicioso anacronismo, com apaixonados escrevendo cartas manuscritas em pleno 2007 e câmeras fotográficas antigas sendo usadas. Há até o uso de íris, como recurso estilístico. É um filme de cenas majoritariamente curtas, principalmente em sua segunda metade, mas gosto mais das cenas mais estendidas, com a Carole. É curioso o diretor fazer essa dobradinha de filmes sobre personagens suicidas em um curto espaço de tempo. O aspecto autobiográfico comparece especialmente na experiência traumática que o próprio Garrel teve com o eletrochoque, quando foi internado por vício em drogas, na juventude.

O ultrarromantismo comparece de maneira tão forte que é até difícil encontrar paralelos com o trabalho de outros realizadores. E talvez por isso eu tenha achado este filme tão precioso. Os tons góticos fazem lembrar tanto o romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, quanto A Volta do Parafuso, de Henry James. Carole, a jovem que se suicida aparece para fazer um convite ao amado, para que ele se junte a ela. Ou seria uma alucinação? É Garrel adentrando (ou tangenciando) o universo dos filmes de horror, com sua delicadeza toda própria.

O filme começa com o jovem fotógrafo François (Louis Garrel) chegando ao apartamento da atriz Carole (Laura Smet) para fazer uma sessão de fotos com a atraente jovem. Logo a relação dos dois vai ficando mais íntima. Ela é casada, mas o marido vive viajando. Enquanto isso, o que parecia ser uma atração baseada apenas em sexo vai se alimentando de juras de amor. François, porém, parece ficar assustado com a instabilidade de Carole (ela bebe muito e às vezes pensa estar sendo seguida). Ter que fugir da cama com a chegada repentina do marido foi provavelmente um sinal de que ele deveria deixá-la.

Isso mais intuímos do que sabemos, já que Garrel tem uma condução dúbia, às vezes, no que se refere aos sentimentos de seus personagens - no caso deste filme não há uma narração off, como em O SAL DAS LÁGRIMAS (2020), por exemplo. Mas sabemos de maneira explícita do sofrimento de Carole, que anseia pelo amado em cartas cada vez mais desesperadas. Um desespero que vai levá-la a uma temporada em uma instituição psiquiátrica.

Há uma cena particularmente muito dolorosa na primeira metade do filme: quando François sofre de ciúmes enquanto Carole flerta com outro homem em uma festa privada com os amigos dela. É talvez a sequência mais longa do filme, e é embalada com uma trilha sonora que privilegia piano e violinos dissonantes. É curioso como a música vai se intensificando no filme, mesmo quando François passa a ter um relacionamento mais estável com Ève (Clémentine Poidatz). Isso porque ele parece temer a estabilidade, temer a chegada de um filho. Isso pode talvez explicar o caminho que ele se vê inclinado a tomar no final.

Houve quem comparasse este filme a AMANTES, de James Gray (ambos foram lançados no mesmo ano), tendo em vista os dois títulos mostrarem um homem dividido entre duas mulheres. Mas, por mais que a obra de Gray ofereça um final um tanto amargo embora realista, o que Garrel faz em A FRONTEIRA DA ALVORADA é muito mais ousado e cruel. E também mais entregue de cabeça a um doentio e perturbador espírito ultrarromântico.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

ANGÚSTIA (The Locket)

Embora o tom de ANGÚSTIA (1946), de John Brahm, seja sombrio e sério, é difícil não vê-lo com um sorriso no rosto com os vários flashbacks dentro de flashbacks que ajudam a formar a trama e nos apresentam à personagem de Laraine Day, uma mulher aparentemente perigosa, que está prestes a se casar com um rapaz, que, no dia da cerimônia, é visitado por um homem que diz que deve lhe contar a verdade sobre ela. É mais um dos tantos filmes sobre mulheres perigosas (femme fatales) que ajudaram a construir o subgênero, mas, ao mesmo tempo, confesso que eu fiquei na dúvida sobre a culpa da mulher. O filme é curtinho (um dos motivos de ser a escolha da madrugada) e a trama é muito bem conduzida e redondinha. Como Hitchcock ainda não havia inventado o flashback de mentira (em PAVOR NOS BASTIDORES) havia uma espécie de trato entre roteiristas e espectadores sobre a veracidade do que era mostrado nos flashbacks. No mais, o filme traz elementos da psicanálise que estavam em moda em Hollywood naquele momento.

LUCKY - UMA MULHER DE SORTE (Lucky)

Mais um filme de gênero que se apropria das convenções (do slasher, principalmente) para trazer discussões relevantes sobre a solidão da mulher, a incompreensão ou a falta de interesse da sociedade em compreendê-la, e em um ritmo que faz com que fiquemos cada vez mais irritados com a condição da protagonista, assim como ela. Ou seja, por mais que LUCKY - UMA MULHER DE SORTE (2020), de Natasha Kermani, tenha um formato que use o looping (dessa vez não temporal?), não é exatamente um filme divertido ou prazeroso. Na trama, mulher passa a receber, todos os dias em sua casa, um homem mascarado que tenta matá-la. Ela nada sabe dele e as reações da polícia e todos as pessoas que estão prontas para "ajudá-la" são tão estranhas quanto toda a situação.

sábado, maio 01, 2021

CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 (Brawl in Cell Block 99)



A descoberta do cinema fenomenal de S. Craig Zahler, pra mim, começou no ano passado, ao ver seu terceiro longa-metragem, JUSTIÇA BRUTAL (2018). Na época que vi nem tinha esse título brasileiro ainda, que surgiu quando o filme foi lançado no Prime Video. Agora que terminei de ver o filme que faltava dos três longas do cineasta, estou me sentindo meio órfão, por mais que eu saiba que sempre será um prazer poder rever cada uma de suas pérolas.

Se o seu primeiro filme, RASTRO DE MALDADE (2015), é um mix de western com horror, e de certa maneira traz um namoro com dois gêneros essencialmente masculinos, sendo que o segundo gênero está proximamente ligado ao ciclo de filmes canibais italianos dos anos 1970 e 80, este seu segundo trabalho, CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 (2017) é uma homenagem aos tradicionais filmes de prisão de baixo orçamento. Assim como Quentin Tarantino, Zahler tem um carinho muito grande por esses filmes mais baratos; e assim como Tarantino, ele também tem um estilo tão sofisticado de direção que faz com que o exploitation, o grindhouse se misture com o chamado arthouse. O que, aliás, pode deixar muitos espectadores impressionados ou até confusos.

CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 é mais um de seus filmes que tem um tom de tragédia e que nos deixa sem chão, além de nos manter vidrados na tela do começo ao fim. Este filme de presídio (que na verdade só começa a ser um filme de presídio depois dos 40 minutos de duração) usa muito ambientes fechados nos lugares onde a violência mais intensa impera. Vince Vaughn, com seus dois metros de altura, convence muito como um sujeito que é capaz de enfrentar vários homens ao mesmo tempo.

Aliás, logo no começo do filme, quando seu personagem, Bradley, descobre que sua esposa (Jennifer Carpenter) o está traindo, a imagem ameaçadora de seu corpo alto nos faz imaginar que ele cometerá agressão à mulher. Em vez disso, ele destrói o carro dela em uma cena com um misto de humor, tristeza e medo. A conversa mais intimista e de busca de reconciliação dos dois, a seguir, nos apresenta a um homem mais carinhoso do que imaginávamos. Mas também um homem disposto a trabalhar no tráfico de drogas para poder dar mais conforto à sua esposa. Pelo menos por um tempo. Essa era a ideia.

Então, as cenas seguintes nos mostrarão, de certa forma pausada, como é o estilo de Zahler, a rotina de trabalho no submundo das drogas de Bradley, que desencadeará na cena de tiroteio com a polícia no porto. Como não deseja negociar com a polícia e entregar o amigo e chefe do tráfico, prefere enfrentar os anos na cadeia. Enquanto isso, a esposa está grávida. O tom do filme muda bastante quando o protagonista entra na prisão, e vai se tornando ainda mais intenso quando ele precisa tomar atitudes violentas para evitar que o filho de sua esposa ainda grávida e capturada seja agredido.

Assim como Kurt Russell em RASTRO DE MALDADE e Mel Gibson em JUSTIÇA BRUTAL, o personagem de Vaughn em CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 é impregnado de uma tragicidade forte. E embora a hiper-violência pareça estar fora de moda nos dias de hoje, o modo como Zahler a usa é tão passional quanto o amor de seus heróis por suas amadas. A cena do telefonema no final é de cortar o coração. Mas o mais importante é estarmos vendo grande cinema.

Outro destaque também é o cuidado de Zahler com a composição visual. Se em RASTRO DE MALDADE havia uma intenção de mostrar mais planos abertos e paisagens do deserto americano, o que é próprio do western, aqui a opção pela janela 1,85:1 é apropriada, já que é a imagem de Vaughn que enche a tela. Há também uma opção pelo azul mais forte. Na cultura anglo-saxônica, o azul tem uma forte conexão com a tristeza.

Outro ponto alto do filme é o quanto a violência é mostrada de maneira seca e impactante, e sem a irritante mania que o cinema contemporâneo tem de picotar as imagens. Por isso a cena de Bradley quebrando o braço do agente carcerário ser tão intensa. E isso é só o começo da escalada de violência que o filme traria até sua magistral conclusão.

Agora é torcer e esperar pelo próximo trabalho de Zahler, que, esperamos, possa ser visto em gloriosa tela grande.

+ DOIS FILMES

GALO DE BRIGA (Cockfighter)

E o filme que escolhi para homenagear Monte Hellman, falecido no dia 20 de abril, foi este estranho filme sobre rinhas de galo. Digo "estranho" pois parece pouco com os westerns existencialistas estrelados por Jack Nicholson ou com o mágico e maravilhoso CAMINHO PARA O NADA (2010). Nesse sentido, GALO DE BRIGA (1974) é de certa forma convencional em sua estrutura narrativa, para os padrões do diretor. Não é um filme que eu gostaria de rever, pois lida com algo que me incomoda muito, os maus tratos com os animais. O cartaz, porém, vende o filme como algo próximo do proibido, do exploitation, com sangue e nudez. Sangue tem sim, nudez quase nada, mas chega uma hora que a gente torce pela revolta dos pássaros, como no filme do Hitchcock. Além do mais, é filme para se ver com certo distanciamento, já que os personagens são bem difíceis de serem gostados. Ainda assim, é dessas obras estranhas que merecem a apreciação, pois não faltam cenas bizarras e antológicas. E deve haver algo de um simbolismo importante ter um protagonista que escolhe o voto do silêncio por vontade própria.

A RENEGADA (Woman They Almost Lynched)

Curioso como a publicidade desse filme foi errada, já que não se trata de um filme sobre Kate Quantrill (Audrey Totter), a mulher do fora-da-lei Charles Quantrill (Brian Donlevy), mas sobre a bela, corajosa e elegante Sally Marris, vivida por Joan Leslie. E ao que parece A RENEGADA (1953) é um dos primeiros westerns feministas, por assim dizer, antecedendo em um ano JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray. O filme é empolgante, romântico e cheio de momentos de tensão. O que dizer da cena de briga das duas mulheres? Ou do modo como Sally assume os negócios do falecido irmão tendo que lidar com gente tanto do Norte quanto do Sul no saloon? A história se passa em uma cidade que fica na fronteira entre o norte e o sul do país, em um momento tenso da guerra. Felizmente o grande diretor Allan Dwan ficou satisfeito com a atriz e a escalou para seu filme seguinte, AO RUGIR DA METRALHA (1953), um drama de guerra.

terça-feira, abril 27, 2021

PRELÚDIO PARA MATAR (Profondo Rosso / Deep Red)



Passei uns dias meio triste e doente. Até achei que estava com Covid. Hoje fiz um teste e deu negativo. Talvez isso (o resultado negativo) tenha me animado um pouco e gerado um efeito positivo na minha mente e no meu corpo. Por isso estou aqui tentando escrever para o blog, aproveitando um pouco do entusiasmo surgido, para falar sobre um filme visto já há alguns meses, e que, por algum motivo, não queria que ficasse pra trás. Pelo menos não era essa a ideia quando comprei o BluRay Argento Essencial, que vem com dois filmes, PRELÚDIO PARA MATAR (1975) e SUSPIRIA (1977), provavelmente os dois títulos mais celebrados de Dario Argento, mestre do giallo e do horror italiano.

Revi PRELÚDIO PARA MATAR por ocasião da morte de Daria Nicolodi, em novembro do ano passado. Daria foi companheira de Argento, musa de alguns de seus filmes e mãe de Asia. Havia visto esse filme pela primeira vez há cerca de 18 anos em uma fita VHS que o amigo Fábio Ribeiro enviou pra mim junto com outros dois filmes do diretor (na moda de gravar em velocidade EP para caber mais coisas). Até hoje lhe sou grato pela generosidade de fazer essas gravações naquele período ainda de transição entre o analógico e o digital.

Rever mais recentemente em BluRay fez eu prestar mais atenção principalmente no som. O subwoofer brilha na música do Goblin na trilha sonora. Magistral. Às vezes cheguei até a me desligar da trama para ficar apreciando o som. Assim como as imagens oníricas. Por mais que haja uma trama com toques freudianos, a exemplo de PSICOSE, trata-se claramente de um giallo com aura de pesadelo. As imagens predominantemente escuras acentuam esse toque.

Para gostar de PRELÚDIO PARA MATAR é interessante deixar de lado preconceitos com interpretação ruim ou roteiro bem amarrado. O que importam aqui são a construção de clima, as investigações em ambientes sombrios, os ataques violentos do assassino misterioso e o enredo envolvendo uma criança, que acaba por remeter ao prelúdio de HALLOWEEN (a música de Carpenter também lembra muito a deste filme, assim como a questão do trauma de infância). Aliás, esse filme não influenciou apenas Carpenter, mas também De Palma e a franquia JOGOS MORTAIS.

E se é um filme que influenciou bastante, ele também foi claramente influenciado pelo suspense BLOW-UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni, que também contou com Davis Hemmings como protagonista. Além do mais, ambos os filmes trazem artistas tentando solucionar um crime com o uso da memória, seja ela através de um negativo fotográfico, seja da mente humana.

Ambos os protagonistas (do Argento e do Antonioni) têm uma incerteza sobre o que realmente viram durante o momento do assassinato (ou imediatamente posterior). No caso de PRELÚDIO, a vítima é a médium Helga Ulmann, que aparece no início do filme sentindo a presença de um assassino em uma palestra. Ele teria supostamente vindo para observar as habilidades dela.

Marcus, o protagonista, um pianista de jazz, chega tarde demais para salvar Helga, mas, depois, assim como em BLOW-UP, acredita que viu alguma coisa muito importante para a investigação. Quando o filme volta a essa questão perto do final, com aquele corredor de quadros e um espelho, provoca bastante fascínio. Daria Nicolodi é a jornalista que se alia ao pianista para a resolução do caso, mas também correr muito perigo. É graças a ela que surgem alguns momentos de humor, momentos que parecem um pouco estranhos ao filme, como as cenas do acento do carro mais baixo para o passageiro.

A qualidade exagerada ou afetada do estilo do filme (que é comum a muitos outros gialli) pode desagradar a muitos, mas a mim me parece uma evolução natural do que era o suspense criminal iniciado por Hitchcock em PSICOSE e mais adiante em FRENESI. O que Argento faz de clássico aqui é resgatar o velho whodunit, mas com uma roupagem nova, seja pelo uso abundante de sangue (e da cor vermelha), seja pelas câmera subjetiva do ponto de vista do assassino, auxiliado pelo clima de pesadelo.

+ DOIS FILMES

MISTÉRIOS DE ALÉM-TÚMULO (Misterios de Ultratumba)

Este é o segundo filme do box Obras-Primas do Terror - Horror Mexicano que vejo. MISTÉRIOS DO ALÉM-TÚMULO (1959), de Fernando Méndez, não chega a ser tão empolgante quanto O ESPELHO DA BRUXA, de Chano Urueta, mas é impressionante em muitos aspectos. Sua trama, que a princípio tem um tom gótico sobrenatural até simples, com a promessa que um homem faz a outro de que o primeiro a morrer voltaria para contar ao amigo, vai se tornando mais complexa à medida que entram novos personagens, novas situações e novos interesses. Acho admirável que em 1959 o México já fizesse cinema de horror de maneira tão bem conduzida. E que bom que as cópias deste e de outros filmes estão muito bem preservadas, sinal de que é um país que, aparentemente, dá o devido valor às suas obras de arte. Melhor transição de cena de MISTÉRIOS DO ALÉM-TÚMULO: a forca seguida da cova. Muito bom.

OS INOCENTES (The Innocents)

Segunda vez que vi OS INOCENTES (1961), de Jack Clayton. A primeira foi num Corujão na Rede Globo, dublado e mutilado, já que se trata de um filme fotografado originalmente em scope. Provavelmente também cortaram a cena inicial pré-créditos, com vários segundos de tela preta. É um filme elegantíssimo e que influenciou OS OUTROS, de Alejandro Amenábar. Mas a trama é de certa forma mais simples na estrutura, embora mais complexa na psicologia dos personagens, especialmente da governanta vivida por Deborah Kerr, mas também das crianças. Há muitos méritos, como o fato de o filme demorar a usar elementos gráficos de fantasmagoria. E nas primeiras vezes que surgem, é tudo feito com silêncio, apostando mesmo na imagem e no arrepio. Foi a minha preparação para a minissérie A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY, de Mike Flanagan, inspirada no mesmo livro de Henry James. Pretendo ver outras versões, mesmo sabendo que não são melhores que esta.

segunda-feira, abril 26, 2021

OSCAR 2021



Foi um Oscar diferente, para dizer o mínimo. Do lado de cá da tela, estava eu vendo tudo com dores no corpo e tentando disfarçar o meu mau humor. Por isso, até que o Oscar, em formato mais curtinho este ano, foi de grande ajuda (além das trocas de ideia com os amigos pelas redes). Como a preocupação era mais para trazer uma dinâmica de pessoas para a premiação em si, houve uma necessidade de tornar a cerimônia mais concisa, sem apresentações especiais (as canções foram apresentadas em uma cerimônia à parte, antes da premiação oficial). Ficou parecendo uma espécie de Globo de Ouro VIP, passando-se em diferentes cidades do mundo, até em Seul, na Coreia do Sul, onde Bong Joon Ho chegou a anunciar o prêmio de melhor direção para a chinesa radicada nos Estados Unidos Chloé Zhao.

Olha o Oscar mais uma vez indo para um diretor não-americano. Uma diretora, aliás. O que é algo muito bom, levando em consideração que 2020 foi um ano de ótimos filmes dirigidos por mulheres. Dois deles, no mínimo, nem receberam sequer uma indicação: FIRST COW, de Kelly Reichardt, e NUNCA, RARAMENTE, ÀS VEZES, SEMPRE, de Eliza Hittman. Mas outros dois estiveram presentes na categoria de melhor direção: NOMADLAND, de Zhao, o vencedor, e BELA VINGANÇA, de Emerald Fennell, que ganhou a estatueta de melhor roteiro original. Enquanto isso, outra diretora importante da temporada, Regina King (UMA NOITE EM MIAMI...), fez as vezes de pessoa a dar o pontapé inicial na cerimônia em uma sequência de abertura muito interessante.

Além da situação envolvendo a pandemia e praticamente sem tapete vermelho, o Oscar 2021 procurou ser o mais plural possível, já que algumas minorias (mulheres, negros e asiáticos) foram justamente lembradas. O mais simpático prêmio da noite foi para a atriz que faz a vozinha de MINARI, Youn Yuh-jung, que alegrou a noite com uma brincadeira com o Brad Pitt e um senso de humor admirável.

Algumas novidades na ordem dos premiados causou surpresas, assim como também houve surpresas na divulgação dos últimos finalistas. Como quase todo mundo já dava por certos os prêmios de filme e direção para NOMADLAND, os prêmios de ator e atriz ficaram por último. E foi uma surpresa ver Frances McDormand ganhando seu terceiro Oscar (empatando com Meryl Streep agora) e Anthony Hopkins ganhando seu segundo Oscar por sua maravilhosa interpretação em MEU PAI. Todo mundo esperava que o favoritismo de Chadwick Boseman em A VOZ SUPREMA DO BLUES fosse se concretizar. Mas, ao que parece, o tempo até a votação foi suficiente para que os votantes não ficassem tão nublados pela morte do jovem ator a ponto de deixar de premiar uma atuação tão magistral.

Agora resta saber se este tipo de formato vai influenciar a cerimônia do próximo ano ou se, pelo menos nos Estados Unidos, a pandemia já vai estar sob controle e tudo voltará a ser como antes. Aqui no Brasil, infelizmente, estamos num mato sem cachorro por tempo indeterminado. Boa sorte para nós.



Os Premiados

Melhor Filme - NOMADLAND
Direção – Chloé Zhao (NOMADLAND)
Ator – Anthony Hopkins (MEU PAI)
Atriz – Frances McDormand (NOMADLAND)
Ator Coadjuvante – Daniel Kaluuya (JUDAS E O MESSIAS NEGRO)
Atriz Coadjuvante – Youn Yuh-jung (MINARI)
Roteiro Original – BELA VINGANÇA
Roteiro Adaptado – MEU PAI
Fotografia – MANK
Montagem – O SOM DO SILÊNCIO
Trilha Sonora Original – SOUL
Canção Original - "Fight for you", de JUDAS E O MESSIAS NEGRO
Som – O SOM DO SILÊNCIO
Efeitos Visuais – TENET
Design de produção – MANK
Figurino – A VOZ SUPREMA DO BLUES
Maquiagem e cabelos – A VOZ SUPREMA DO BLUES
Filme Estrangeiro – DRUK - MAIS UMA RODADA (Dinamarca)
Longa de Animação – SOUL
Curta de Animação – SE ALGO ACONTECER EU TE AMO
Curta-metragem – DOIS ESTRANHOS
Documentário – PROFESSOR POLVO
Curta Documentário – COLLETE

terça-feira, abril 20, 2021

LAÇOS DE TERNURA (Terms of Endearment)



E vamos falar de filme de Oscar. Não do Oscar deste ano. O ano está triste e os indicados, por mais que sejam bons, não me entusiasmam, em sua maioria. Talvez seja uma relação que criei com o estado das coisas, não sei. Por isso, foi muito bom rever nesse sábado passado LAÇOS DE TERNURA (1983), de James L. Brooks, o grande vencedor do Oscar 84, faturando os prêmios de melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Shirley MacLaine), melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson) e melhor roteiro, escrito também por Brooks, adaptado do romance homônimo de Larry McMurtry.

Na época que o vi pela primeira vez, na televisão - não lembro ao certo o ano, talvez tenha sido no fim dos anos 1980 - a cena mais dramática do filme me arrancou muitas lágrimas. E não foi diferente desta vez. Curiosamente, Brooks, que atualmente tem se dedicado mais a roteirizar os episódios de OS SIMPSONS, foi diminuindo a carga sentimental dos seus trabalhos seguintes na direção, e se concentrando mais na comédia e nas histórias de amor, que são aspectos que ele sabe lidar muito bem.

Já em LAÇOS DE TERNURA, o seu primeiro e mais bem-sucedido filme do ponto de vista das premiações - ainda que MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997) quase tenha chegado lá -, ele mostrou ter uma mão muito boa para contar sua história com fluidez e leveza. Tanto que a relação muitas vezes complicada entre mãe (Shirley MacLaine) e filha (Debra Winger) é vista mais com bom humor do que com mal estar - é totalmente o oposto, por exemplo, de um SONATA DE OUTONO, do Bergman, que mete o dedo na ferida das relações humanas cercadas de traumas.

No caso de Emma (Winger) e Aurora (MacLaine), elas nutrem um tipo de relação bastante afetuosa. A mãe é claramente muito apegada à filha. Desde Emma criança, Aurora queria ficar próxima dela, tinha medo de perdê-la, seja no berço, achando que a criança poderia estar morta e não dormindo, seja na infância, quando a mãe fazia questão de dormir na cama da filha. Por isso, a decisão de Emma de se casar não foi facilmente aceita por Aurora, que tenta dizer para a filha de que o rapaz, Flap (Jeff Daniels), não é a melhor escolha.

E talvez a mãe tivesse razão, embora o filme não vilanize o personagem do marido de Emma, que parece só um pouco bobo e facilmente levado a cometer deslizes no casamento, como ter um caso com alguém da escola onde trabalha. A narrativa vai apresentando um tempo que passa rapidamente, com Emma tendo três filhos e não se preocupando em exercer outra atividade além de mãe e esposa. Esse passar rapidamente do tempo não interfere na condução narrativa, não fica aquela impressão de roteiro correndo para poder dar conta de um romance adaptado. Por incrível que pareça, conseguimos nos apegar e a perceber certos detalhes importantes, como a maneira diferente com que os filhos pequenos de Emma a veem. Inclusive, isso é um ponto crucial para a cena mais emotiva do filme, a conversa dela com os garotos na cama do hospital.

Mas há algo que foi um impulso muito forte para que eu quisesse rever o filme, além de querer me emocionar novamente: a presença radiante de Debra Winger. A atriz era um caso raro na época de estrela que conseguia equilibrar um encanto e beleza com algo muito próximo de uma naturalidade de pessoa comum. Ao que parece houve atrito entre ela e MacLaine durante as filmagens, mas nem fui atrás disso, pois o que importa é o quanto ficou presente do lado de cá da tela. E o que ficou presente foi uma das representações mais bonitas de amor entre mãe e filha, sem nunca deixar de lado o que há de complicado na relação. Assim, a cena das duas deitadas na cama falando sobre o novo amor da mãe é lindíssima.

Muito da leveza que o filme possui e das risadas que ele provoca está na presença de Jack Nicholson, no papel do interesse amoroso de Aurora. Nicholson é Garrett, um astronauta aposentado e solteirão, vizinho de Aurora, que tem por hábito beber bastante e tentar a sorte com moças mais jovens. De alguma maneira, ela resolveu tentar a sorte com ele, e por mais difícil que o sujeito pareça, é justamente por isso que algumas situações são bem divertidas, como a cena em que Aurora o convida para ver o Renoir dela (o pequeno quadro do pintor francês que ela tem na parede do quarto).

Mas a leveza também vem de Winger, de seu sorriso contagiante, de sua espontaneidade - é bem marcante a cena da noite de núpcias em que ela está gripada, com o nariz escorrendo. Sua personagem também ganha força quando, depois de descobrir que está com câncer, vai com a amiga Patsy (Lisa Hart Carroll) passear em Nova York e descobre que ela é uma pessoa estranha àquela realidade. Também muito bonitas as cenas dela com o amante (John Lithgow, também indicado ao Oscar). Ou seja, embora Shirley MacLaine àquela altura já fosse uma gigante do cinema (atuando desde os anos 1950), a alma do filme está em Winger.

Houve uma continuação para LAÇOS DE TERNURA: Shirley MacLaine e Jack Nicholson se juntaram para contar a história de Aurora, agora criando os filhos de Emma, no fracasso de bilheteria O ENTARDECER DE UMA ESTRELA (1996), dirigido por Robert Harling. Confesso que tenho curiosidade para ver esse filme, mas imagino que não deve ter um décimo do brilho do filme de Brooks.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

JUDAS E O MESSIAS NEGRO (Judas and the Black Messiah)

Daria uma ótima sessão com INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee, embora o assunto aqui seja diverso e o protagonismo dos negros seja muito maior. É uma obra que nos apresenta ao universo dos Panteras Negras e à figura do carismático líder Fred Hampton (Daniel Kaluuya), mas também à do traidor (Lakeith Stanfield), um ladrão que aceita a proposta do FBI de ser um rato nas reuniões e nos atos do grupo revolucionário. Nesse sentido, JUDAS E O MESSIAS NEGRO (2021), de Shaka King, foca menos no líder e mais no traidor. Estamos sempre acompanhando suas ações, mas também suas angústias em efetuar certos atos. Achei Stanfield tão bom ou até melhor que Kaluuya. Precisamos de mais filmes assim, centrados na história negra. No caso desse filme, senti falta de uma maior ênfase na ideologia do grupo, que atacava o capitalismo e se identificava com o socialismo. Indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator coadjuvante (Kaluuya), ator coadjuvante (Stanfield), canção ("Fight for You"), trilha sonora original e fotografia.

UMA NOITE EM MIAMI... (One Night in Miami...)

Belo registro de um momento de 1964 que reverbera em 2020, ano marcadamente importante também para uma nova evolução nas conquistas dos direitos dos negros nos Estados Unidos. UMA NOITE EM MIAMI... (2020) se baseia em uma peça e faz isso de maneira muito bonita e respeitosa com seus homenageados (Malcolm X, Muhammad Ali, Jim Brown e Sam Cooke) e cria conversas fictícias, mas a partir de situações verídicas e também a partir da personalidade de cada um deles. Gosto muito do ator que faz o Malcolm X (Kingsley Ben-Adir, que nem foi o indicado ao Oscar dos quatro), mas os quatro estão ótimos, a direção da Regina King é correta e o filme é cuidadoso nos belos tons de cores dos interiores. Há uma das primeiras cenas que já dá o tom do que era ser negro nos Estados Unidos naquele ano de 64, que é a cena de Jim Brown visitando a fazendo de um conhecido. Teve três indicações ao Oscar, nas categorias de ator coadjuvante (Jim Brown), roteiro adaptado e canção ("Speak now").

domingo, abril 18, 2021

TENSÃO E DESEJO



Entre os anos de 2012 a 2015, eu me animei bastante para ver os filmes de Alfredo Sternheim. Aqui no blog é possível ver textos meus sobre sete filmes do cineasta: PAIXÃO NA PRAIA (1971), ANJO LOIRO (1973), PUREZA PROIBIDA (1974), A HERANÇA DOS DEVASSOS (1979), CORPO DEVASSO (1980), VIOLÊNCIA NA CARNE (1981) e BRISAS DO AMOR (1982). Como Sternheim esteve vivo neste período (ele faleceu em 2018) e era um amigo no Facebook, pude ter a honra de apresentar os meus humildes textos a ele, uma pessoa muito acessível.

Seu livro, Alfredo Sternheim - Um Destino Insólito, lançado na Coleção Aplauso Cinema Brasil pela Imprensa Oficial, é um dos mais gostosos de ler, mas, ao mesmo tempo, é um dos que mais frustram quando queremos mais detalhes sobre os filmes, que são citados muito rapidamente. Peguei-o agora para ler algo a respeito de TENSÃO E DESEJO (1983) e obtive bem poucas informações. Mas tudo bem. Diferente dos outros livros do projeto, o seu é o que mais característica de autobiografia possui.

Um dia desses estava dando uma olhada na minha pilha de DVD-Rs e vendo o que tinha que podia ser repassado para o meu HD externo e que pudesse organizar em pastas. E vi que tinha uma cópia de TENSÃO E DESEJO, que marcou o fim da carreira de Sternheim no cinema “convencional”, antes de ele aderir à nova e triste realidade do sexo explícito que invadiu o cinema da Boca do Lixo. A cópia não é tão boa, mas ainda é melhor do que outras que vi por aí. Infelizmente, por mais atraente que seja o cinema brasileiro, temos que ter um pouco mais de boa vontade para ver essas cópias de qualidade muitas vezes sofrível.

É um filme que funciona como uma bela dobradinha com BRISAS DO AMOR. Ambos foram filmados na bela cidade litorânea de Mongaguá, ambos trazem Sandra Graffi e Luiz Carlos Braga no elenco, ambos possuem uma aproximação com a narrativa da Velha Hollywood, ambos costuram muito bem flashbacks em seu enredo. A diferença é que TENSÃO E DESEJO tem um clima mais parecido com o de um filme noir. Acompanhamos a jornada da professora vivida por Graffi, que, depois de ter sofrido bastante com a ruptura com o namorado, resolve deixar a capital e aceitar o emprego de professora numa cidadezinha no litoral.

Acontece que ela acaba sendo assediada e provocada por moradores do lugar logo que chega e testemunha também a hipocrisia daquela sociedade. O curioso é que o filme não fica velho para os padrões morais de hoje, já que trata temas muito atuais, o assédio e o machismo. A personagem de Graffi faz questão de fazer o que quiser da vida, usar a roupa que quiser, e se relacionar com quem quiser, mesmo que a pessoa seja uma prostituta (Zilda Mayo) ou um jornalista com tendências esquerdistas (Armando Tiraboschi).

Embora seja um filme de bastante nudez, as cenas de sexo ocorrem mais com naturalidade e elegância do que com intensidade erótica - ao contrário, por exemplo, de VIOLÊNCIA NA CARNE, curiosamente o filme dele de que mais gosto. Aqui há uma trama envolvendo um crime, a morte de uma mulher (Meiry Vieira), e a protagonista é considerada a principal suspeita.

Ainda assim, por mais que haja esse crime, o filme parece ter uma intensão muito maior de lidar com as relações entre seus personagens e explicitar a maldade, o preconceito e principalmente a hipocrisia da sociedade. Essa característica - de trazer uma maior complexidade moral de seus personagens frente a uma trama com elementos de suspense - já havia sido percebida em outros trabalhos do diretor, como PAIXÃO NA PRAIA e VIOLÊNCIA NA CARNE. E não há nada de errado com isso. 

+ DOIS CURTAS BRASILEIROS

O REI DO CAGAÇO

Precursor do média SUPEROUTRO (1989), considerado por muitos sua obra-prima, Navarro já começa este seu trabalho em super-8 com uma imagem bem transgressora: um super close de um ânus em trabalho de evacuação generosa. Assim como vemos em SUPEROUTRO, o sujeito de O REI DO CAGAÇO (1977) também faz questão de jogar o seu produto no carro de um homem de classe média. Há também, rapidamente, a figura do maníaco que ataca os traseiros das mulheres com um canivete, e imagens que não têm uma intenção de contar uma história, funcionando mais como uma sucessão de cenas e palavras que procuram fazer algo que a própria geração do cinema marginal não foi capaz, brincando com os recursos pobres disponíveis.

REDENÇÃO

Sempre fico curioso com cada novo trabalho de Neville d'Almeida. Até por ele ter passado tanto tempo sem filmar e ter voltado com o ótimo A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ (2015). Aqui neste curta, codirigido por Joaquim Haickel, que eu só fui saber da existência graças a um fórum, ele apresenta a história de uma jovem com aparência de evangélica que se apresenta em um bordel pedindo emprego de cantora. Depois de mostrar o belo corpo, é aceita como a nova prostituta do estabelecimento. REDENÇÃO (2017) diz a que veio perto do final, mas é quando o filme mostra suas fragilidades e também sua vulgaridade (e não no sentido moral da coisa). Ainda assim, vale ver, especialmente quem for apreciador do trabalho de Neville. O filme foi rodado no Maranhão.

sábado, abril 17, 2021

UM VERÃO ESCALDANTE (Un Été Brûlant)



Filme que antecede a chamada trilogia do ciúme de Philippe Garrel, UM VERÃO ESCALDANTE (2011) traz um tom muito mais trágico do que suas obras posteriores. Falo das obras posteriores pois me falta conhecimento dos trabalhos das décadas passadas desse que é considerado por muitos o maior cineasta francês vivo junto com Jean-Luc Godard. O tom trágico se antecipa no prólogo, ao vermos Frédéric, o personagem de Louis Garrel, batendo o carro deliberadamente rumo ao suicídio.

Antecipando-me, não sei se foi o efeito de O SAL DAS LÁGRIMAS (2020), ainda quente na memória afetiva, mas a impressão que tive de UM VERÃO ESCALDANTE foi de uma obra menor do diretor. E que não parecia ter a intenção de ser menor, dado seu forte interesse pelo viés trágico. De todo modo, é muito bom ver o quanto é caro para Garrel lidar com os temas do ciúme, da possessividade, da carência afetiva, enfim, de cada fraqueza que nos é própria dentro de um relacionamento.

O que vemos neste filme é certa crueldade do cineasta para com seus personagens. A cena do choro do protagonista e de sua esposa, vivida por Monica Bellucci, ao saberem que o relacionamento está chegando ao fim é um dos mais belos e mais cruéis momentos. E é cruel o fato de o filme não nos oferecer momentos para que nos solidarizemos com Frédéric. Não o vemos sendo gentil, amável ou carinhoso com a esposa; só o vemos como alguém possessivo, autoritário e um tanto arrogante. E o único momento em que Angèle, a personagem de Bellucci, abre um sorriso é justamente na cena em que dança com outro homem.

Angèle é uma atriz que, por amor ao marido, aceita se submeter à vontade dele e rejeitar certos papéis que lhe são oferecidos. Uma vez que ela se cansa, inclusive do ciúme doentio de Fredéric, a opção por sair de casa e ser novamente livre parece ser a mais acertada. Enquanto isso, Frédéric, pouco interessado em política como o amigo Paul (Jérôme Robart), afirma que as únicas coisas que lhe interessam são sua pintura e sua esposa.

A propósito de Paul, trata-se de um personagem que funciona mais como testemunha e narrador da tragédia do protagonista, quando ele e a namorada Élisabeth (Céline Sallette) passam uma temporada no espaçoso apartamento de Frédéric e Angèle em Roma. Falando nesse casal de coadjuvantes, um dos momentos mais bonitos do filme acontece quando Élisabeth, enciumada com a atenção que Paul tanto dá a Frédéric, resolve ir embora. Trata-se de um momento de fragilidade muito bonito e que Garrel lida com muito carinho. É algo que tenho notado no cinema do diretor, em especial esse da última década, que é o que conheço, esse não julgar, esse acolher seus personagens imperfeitos.

Pena que, da metade para o final, o filme vai ficando menos interessante, perdendo um pouco a sua força, por mais que eu goste bastante da cena perto do final, do reencontro de Frédéric com o casal de amigos. Ao ver o casal passeando com o bebê e símbolo de felicidade conjugal talvez ele tenha se dado conta de sua vida, suas escolhas e, dotado de um olhar enevoado, toma a trágica decisão. Um outro momento importante do filme é a cena que marca a despedida de Maurice Garrel da vida e do cinema. Ele aparece como o fantasma do avô de Frédéric. Como o cinema é uma arte habitada por fantasmas, a presença breve de Maurice é bastante simbólica desse espaço entre a vida e a morte que vive nos filmes.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES

ON THE ROCKS

O novo filme de Sofia Coppola é talvez o seu trabalho mais modesto, mas ainda gostei mais deste do que de O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (2017), um de seus projetos mais ambiciosos. Talvez este novo filme seja mais pessoal, tenha mais a ver com situações da própria cineasta, que assina também o roteiro. Na trama de ON THE ROCKS (2020), Rashida Jones é uma escritora que está com pouco tempo para se concentrar em seus trabalhos, cuidando bastante dos filhos pequenos. E ela começa a suspeitar que o marido (Marlon Wayans) a está traindo. Ela fala de suas preocupações para o pai (Bill Murray), que tenta ajudá-la à sua maneira. Muito interessante ver essa diferença generacional entre pai e filha e também um interesse de Sofia de entender a geração (supostamente?) mais machista de seu pai. E Bill Murray está ótimo.

ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY (The United States vs. Billie Holiday)

Uma pena que Lee Daniels tenha estragado o que poderia ter sido uma cinebiografia bem decente. A força de ESTADOS UNIDOS VS. BILLIE HOLIDAY (2021) está toda em Andra Day, que está mesmo muito boa no papel de uma das mais queridas cantoras dos Estados Unidos. Querida, mas também extremamente judiada, conforme vemos no filme, que ao menos nos fornece informações sobre a estrela e também nos coloca um pouco naquele período (anos 40/50) em que a KKK parecia mandar nos órgãos públicos, principalmente os de segurança. Uma coisa que me incomodou muito no filme foi o modo como todo mundo parece/é muito pouco inteligente. Tanto Billie, por voltar para um sujeito violento e covarde (o filme nunca deixa claro o verdadeiro apego a esses caras), quanto a polícia, principalmente em uma das cenas finais - mas, certamente, nesse caso específico, isso é mais problema de roteiro e direção.

QUO VADIS, AIDA?

Mais um desses filmes que nos lembram da crueldade da guerra. E das pessoas que fazem a guerra. Em QUO VADIS, AIDA? (2020), de Jasmila Zbanic, temos a história de uma intérprete que trabalha para a ONU em uma missão de pacificação para que os refugiados da cidade de Srebrenica não sejam mortos pelo exército sérvio, que está tomando a cidade, em seu trajeto de conquistar o território e afastar as etnias indesejadas, da pior maneira possível. Sei pouco ou lembro pouco do que li sobre essa guerra, que era assunto frequente nos noticiários dos anos 1990, e por isso em muitos momentos fiquei confuso com a situação das pessoas. Mas é um filme que pode ser tranquilamente visto por quem não conhece detalhes sobre a guerra. Até porque o grande drama da história está na busca da protagonista para encontrar abrigo para o marido e seus dois filhos. Ótima interpretação de Jasna Djuricic, que faz a protagonista.

terça-feira, abril 13, 2021

CINCO DOCUMENTÁRIOS



Na falta de coragem e inspiração para uma postagem mais aprofundada, vamos de textos rápidos sobre cinco documentários vistos nos últimos quatro meses, sendo três deles indicados ao Oscar 2021.

TIME

Essa linha de documentários recentes que têm conseguido registros de 20 anos ou mais tem aumentado e a tendência é que agora, com a maior facilidade de registrar eventos com celulares, filmes como este serão ainda mais presentes. A diretora de TIME (2020), Garrett Bradley, tem experiência tanto com ficção quanto com documentário e isso ajudar a encontrar os momentos certos para a narrativa, tanto na longa expectativa da protagonista da soltura de seu marido da prisão, quanto na necessidade de também dar voz a um dos filhos, o que ajuda a enriquecer o trabalho. Ainda assim, vejo o filme quase como uma obra inacabada, tal a sensação que fica no final. Como se a conclusão quisesse ser mais emocionante do que realmente é. Talvez o piano na trilha atrapalhe mais do que ajude. Mas é isso: documentários lidam também com o acaso.

AGENTE DUPLO (El Agente Topo)

É muito provavelmente o mais sofisticado e bonito candidato à categoria de melhor documentário neste Oscar. E em muitos momentos esquecemos que é um documentário. A estrutura de ficção é muito forte e também é muito fácil se pegar comovido com o velhinho protagonista e com os vários idosos lá da casa de repouso. Além de ser muito divertido. Fácil também se pegar gargalhando em alguns momentos. Na trama de AGENTE DUPLO (2020), de Maite Alberdi, um detetive particular procura pessoas de 80 a 90 anos para um serviço a definir. Depois de ser escolhido, a missão de Sergio Chamy é investigar algo na casa de repouso sem que ele seja percebido. Trabalho de espião mesmo. O registro humanista do filme é comovente.

COLLECTIVE (Colectiv)

Por mais difícil que seja a situação das vítimas de um incêndio em uma casa de shows e a posterior morte dos sobreviventes levados para um hospital especializado em queimaduras, não deixa de dar uma ponta de inveja em ver os atos da imprensa para pressionar os hospitais a adotarem medidas eficientes, já que as pessoas estavam morrendo de infecção hospitalar. Inveja, pois aqui no Brasil, tivemos foi falta de oxigênio durante a pandemia, além, claro de um serviço do governo federal que só beneficia o vírus. Quanto ao filme romeno, COLLECTIVE (2019), de Alexander Nanau, de fato tem sua força. O que mais me deixou intrigado foi o fato de o cineasta e os câmeras estarem presentes tanto nas reuniões dos jornais quanto nas do novo ministro da saúde, que em determinado momento chega a ser o protagonista da história. No mais, confesso que achei o filme um pouco cansativo. Talvez por ter que usar muito jargões técnicos para falar da crise sanitária nos hospitais de Bucareste e de todo o país.

SEARCHING FOR DEBRA WINGER

Foi tão bom ouvir todas essas mulheres maravilhosas falando sobre a situação da mulher, especialmente das atrizes, que têm que equilibrar suas vidas profissionais com o casamento e os filhos. Ao ouvir, por exemplo, Meg Ryan, ou a própria Rosanna, falarem sobre a dificuldade de ter que se dividir ou às vezes escolher entre os filhos ou os filmes, bate um bocado de angústia. Afinal, isso não é algo pelo que os homens costumam passar. Temos o caso de Jane Fonda, que sempre se dedicou muito mais à vida profissional e depois foi deixando quando se casou com um sujeito que disse para ela parar. Rosanna Arquette começa seu filme fazendo uma citação trágica de OS SAPATINHOS VERMELHOS, de Powell e Pressburger, sobre uma jovem bailarina que é obrigada a escolher entre sua paixão pelo balé e o homem que ama. Por que não ter as duas coisas? As entrevistas com as várias atrizes ocorrem em um misto de descontração e um bocado de rancor com a sociedade machista. Nos dias de hoje percebemos de cara a falta de mais atrizes negras no elenco de entrevistadas (só Whoopi Goldberg e Alfre Woodard comparecem). Mas há tantas discussões que vêm à tona, tão ricas, que eu lamento que não tenha sido um filme com mais visibilidade na época de seu lançamento. Quanto a Debra Winger, valeu o suspense de esperar a atriz que desistiu de ser atriz para dar sua entrevista. De todo modo, ela voltaria a fazer filmes e televisão, ainda que nunca mais voltasse a ser a estrela que foi nos anos 80/90. SEARCHING FOR DEBRA WINGER (2002) é um filme pequeno sobre um tema importante e feito com muito sentimento. O filme voltou a ser pauta com a matéria que saiu no El País chamada "Debra Winger, a estrela de cinema que preferiu desaparecer antes de ficar invisível".

O CAPITAL NO SÉCULO XXI (Capital in the Twenty-First Century)

Uma espécie de resumão da história do capital, do século XIX até os dias atuais, em que se propõe uma maneira de ir além do capitalismo como se conhece, de modo que haja uma diminuição da desigualdade social. O autor do livro, Thomas Piketty, comparece como um dos entrevistados, e o filme é muito empolgante ao tratar do assunto, com utilização de cenas de filmes, inclusive, para ajudar a contextualizar o momento histórico. O CAPITAL NO SÉCULO XXI (2019), de Justin Pemberton, é desses filmes que nos deixam pensando no assunto e que chamam a atenção para o livro, que deve funcionar melhor para a reflexão. Por mais que seja um documentário que segue uma linha tradicional na forma, me pareceu muito bom de ver e seu estilo didático é bem-vindo para quem não é um economista ou estudioso aprofundado do assunto.