domingo, outubro 17, 2021

PEGANDO A ESTRADA (Jaddeh Khaki)



Quando PEGANDO A ESTRADA (2021) começa, até pode-se imaginar se tratar de algo próximo do documental, como acontece nos filmes de Jafar Panahi, mas logo vemos que Panah Panahi prefere seguir o próprio caminho, por mais que as influências do pai e de Kiarostami sejam difíceis de escapar, inclusive por ele ter visto de perto os dois diretores trabalhando quando criança e ter feito a montagem do filme mais recente do pai. A direção de fotografia é de Amin Jafari, o mesmo de 3 FACES, o que acentua também algumas semelhanças.

Assim que o filme começa, vamos ficando intrigados com o objetivo da viagem daquela família, o mistério em torno do que o filho mais velho fará. E por que todos estão tão emotivos. Só o garotinho, o irmão mais novo, é que, desconhecendo o que de fato está acontecendo, enxerga tudo como um passeio de diversão. No carro, estão presentes o pai (com a perna engessada), a mãe, o filho maior (dirigindo), o filho menor (inquieto) e um cachorrinho doente.

O filho mais velho está se preparando psicologicamente para um momento novo de sua vida e isso não está sendo fácil para a família. Nem para ele. Adoro o tom amoroso como esse filme explicita o povo iraniano. E fico encantado como, com tão poucos recursos e com um governo castrador, vários diretores conseguem fazer milagres com a câmera e, com suas sensibilidades, ganhar o mundo. O próprio Panah, em sua primeira experiência na direção, traz momentos lindíssimos, tanto plasticamente, quanto no trato com as emoções.

Há uma carga de tensão no filme desde o início. Não apenas porque a família, apesar de se amar, parece não estar na mesma sintonia, mas principalmente por causa dos perigos de eles serem descobertos pelo governo iraniano. Logo no começo, eles precisam se livrar do celular para não serem rastreados. Aos poucos, PEGANDO A ESTRADA vai nos entregando mais informações. Ficamos sabendo que o filho mais velho está tentando sair do país, cruzando, com a ajuda de contrabandistas, a fronteira com a Turquia. Por mais que sair do país signifique ter mais liberdade na vida, deixar a família é o que mais dói.

Gosto muito de uma cena em que esse filho mais velho conversa com o pai à beira de um riacho. O pai diz que ele pode ficar tranquilo para chorar na frente dele, se quiser, mas que é melhor não chorar muito na frente da mãe. Há outra cena linda, que é a conversa desse mesmo rapaz com sua mãe, quando ela o pergunta qual seu filme favorito. Ele: 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO. Em seguida, diz o porquê. Acaba deixando a mãe ainda mais emotiva. Há também cenas belíssimas com canções pop iranianas de artistas que, por causa da “revolução”, já saíram do país. Essas canções, ora trazem um tom de alegria, ora de acentuação da melancolia.

Panah Panahi fez uma estreia e tanto e é muito bom ver que o cinema iraniano está seguindo firme, apesar de tantos percalços.

+ DOIS FILMES

UM FORTE CLARÃO (Destello Bravío)

Um filme que não funcionou comigo, pelo menos numa primeira visão. Revendo trechos, percebi que a compreensão se faz melhor. Mas o que deixa tudo confuso em UM FORTE CLARÃO (2021) é a grande quantidade de personagens e o quanto seus dramas parecem soltos e às vezes largados. De repente, começamos a ver outros ou mesmo imagens mais contemplativas e belas da cidadezinha onde se passa a história. Em uma reunião de mulheres de meia idade, ficamos sabendo que naquela cidade não há mais jovens. Todos (ou quase) foram embora, inclusive parindo e criando seus filhos fora de lá também. Então, é como se fosse um espaço fadado a se transformar em um grande cemitério. Mas, no meio disso, há também espaço para uma mulher que resolve largar o marido para ter sua liberdade. Aliás, isso talvez seja o que mais nos apega a algo mais terreno do filme, que, vez ou outra, traz tons surrealistas. Já li em algum lugar que o filme seria classificado como ficção científica, o que, para a falta de recursos de uma produção como essa, é aceitável. Outro destaque do filme é a maneira extravagante como a diretora resolve filmar certas cenas. Lembro daquela em que a câmera se posiciona para uma mesa com quatro mulheres, mas só vemos as duas da ponta, uma delas de costas e a outra está coberta pelo corpo da amiga. Ou seja, sendo um primeiro longa da diretora e ela tendo total liberdade para inventar, nada mais justo. Direção: Ainhoa Rodríguez.

NO TÁXI DE JACK

A tarefa de ver filmes fora do lugar comum é bastante desafiadora. Aqui, no caso, há o desafio de encarar o estranho senso de humor português, há o personagem com pinta de Elvis da terceira idade sempre contando de sua temporada como taxista em Nova York, e há um tipo de andamento que também é diferente do usual, mas que talvez seja reconhecido por quem já acompanha o trabalho de Susana Nobre. Trata-se de seu décimo filme, se contarmos curtas e documentários, mas é seu segundo longa de ficção, depois de TEMPO COMUM (2018). NO TÁXI DO JACK (2021) tem um leve tom saudosista e melancólico. O protagonista está de volta a seu país natal, procurando emprego, conversando com o amigo cego e cadeirante e lidando com seus problemas de saúde. É possível fazer um paralelo com EU, DANIEL BLAKE, de Ken Loach, mas Nobre prefere um registro bem menos ligado ao melodrama, com um visual mais sujo e herdeiro do documentário. Aliás, o filme começou a ser realizado a partir do contato da cineasta com o ator, Joaquim Calçada, em sua busca por emprego.

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sexta-feira, outubro 15, 2021

COISAS VERDADEIRAS (True Things)



Filmes que tratam de relacionamentos tóxicos ou abusivos -, de homens sacanas, mais especificamente - tivemos dois excelentes nos últimos anos: a pedrada UM AMOR IMPOSSÍVEL, de Catherine Corsini, e o sofisticadíssimo THE SOUVENIR, de Joanna Hogg. Os dois dirigidos por cineastas mulheres. O último, inclusive, baseado em experiências reais da diretora. Coincidentemente (ou não) com o mesmo ator deste COISAS VERDADEIRAS (2021), Tom Burke.

Ao que parece, a escolha de casting também se aplica a Ruth Wilson, se lembrarmos de seu papel na série THE AFFAIR. Aqui ela é uma mulher que se vê apaixonada por um sujeito pouco confiável (uma das poucas coisas que ela sabe dele é que o homem passou um tempo preso), mas que a ganhou com os primeiros atos ousados, que de alguma maneira, provavelmente, já faziam parte do imaginário dela.

Um dos maiores méritos do filme da diretora Harry Wootliff é nos deixar interessados na trama do início ao fim. Ou seja, não é desses filmes que requerem tanta energia do espectador do ponto de vista narrativo. Talvez até haja algo de vulgar no filme. Em alguns momentos ele lembra uma daquelas obras estilo “Supercine”, com uma expectativa de que vá subir para um suspense típico dos anos 1980. Acaba enganando, felizmente, e enfatizando as questões psicológicas de Kate, a protagonista vivida por Wilson.

Há uma curiosidade no enredo, que não havia prestado atenção até ler uma crítica do Papo de Cinema, que é o fato de que Blond, o personagem de Burke, nunca aparece enquanto ela está com alguém do convívio de Kate. Ou seja, ele pode ser uma construção de sua imaginação. Nem mesmo um nome de verdade ele parece ter. E esse detalhe acabou tornando o filme ainda mais interessante para mim, na jornada de Kate em busca da própria libertação, após um tempo psicologicamente longo de sofrimento e abuso, de se sentir maltratada e desprezada.

O filme é uma adaptação do romance True Things about Me, de Deborah Kay Davies, e foi exibido nos festivais de Veneza e Toronto.

+ DOIS FILMES

A TAÇA PARTIDA (La Taza Rota)

Filmes sobre discussões e separações matrimoniais quase sempre trazem momentos de tensão. E esses momentos seguem presentes por boa parte da metragem deste drama chileno, que começa com a chegada de Rodrigo, um homem inconformado com a separação, que chega para ver o filho e encontra resistência da mãe da criança. Afinal, ele estaria agindo contra o combinado. Depois de muita discussão, ele consegue entrar na casa e a partir daí somos convidados a testemunhar, com certa desconfiança, suas ações e suas intenções. Gosto de como A TAÇA PARTIDA (2021) utiliza um tipo de close-up diferente, alterando a janela de aspecto, para enfatizar os rostos dos personagens. Funciona como um substituto do zoom ou de um corte mais habitual de um plano médio para um primeiro plano. Direção: Esteban Cabezas.

ARMUGAN

A jornada dos dois homens, o Armugan do título, que não consegue andar, e seu amigo ou servo Anchel, que o carrega nas costas pelos pirineus aragoneses, é quase tão dura para o espectador quanto é para essas duas pessoas. E também para aqueles a quem eles prestam seus serviços espirituais. De certa forma, poderíamos ver isto como um problema para ARMUGAN (2021), mas há tanta beleza nas imagens em preto e branco, e também tanta coragem em tratar a vida como uma imensa cruz que se carrega sem se poder reclamar e a morte como uma libertação, que é quase inevitável não se sentir um tanto triste diante de ambiente tão carregado. Direção: Jo Sol.

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sábado, outubro 09, 2021

MÁ SORTE NO SEXO OU PORNÔ ACIDENTAL (Babardeala cu Bucluc sau Porno Balamuc)



Foi uma escolha corajosa, a do júri do Festival de Berlim deste ano, dar o Urso de Ouro para MÁ SORTE OU PORNÔ ACIDENTAL (2021), do romeno Radu Jude. Principalmente pelo filme começar com uma sequência de imagens de sexo explícito, as imagens que serão o estopim para a trama que se desenrolará em seguida. Porém, o que mais interessa para o filme e para as discussões que surgem é de outra ordem que vai muito além de um vazamento de imagens íntimas. Ou seja, não é uma versão romena de SEX TAPE – PERDIDO NA NUVEM, a comédia americana estrelada por Cameron Diaz e Jason Segel.

As primeiras cenas com a protagonista Emi (Katia Pascariu) andando pelas ruas de Bucareste funcionam como um documentário sobre a sociedade da Romênia durante a pandemia, em momento pós primeiro lockdown. Logo vemos situações muito comuns às do Brasil, como as pessoas com a máscara no queixo, ou máscara frouxa, ou máscara com o nariz descoberto. Como a pandemia pegou muito mais forte no Brasil isso parece um pouco mais incômodo de ver para os brasileiros com um pouco mais de responsabilidade. Há também cenas representativas da falta de educação dos motoristas e a relação conflituosa com os pedestres.

Utilizar o registro da comédia ajuda a diminuir um pouco o sentimento de mal estar no que se refere a perceber não apenas a hipocrisia daquela sociedade do filme. Ainda há o ódio a judeus e a ciganos, que eu imaginava ter ficado para trás desde o fim da Segunda Guerra, e agora há os negacionistas do vírus (há, inclusive, alguém que diz que o vírus é uma gripezinha, vejam só!), e a extrema direita e toda essa turma. No meio disso tudo, há a trama de um vídeo de sexo caseiro que mostra uma professora de ensino médio com seu marido que vaza na internet e causa escândalo entre os pais dos alunos.

O filme é dividido em três atos e mais um prólogo e um desfecho. Gosto muito do terceiro ato, que é o que mais traz à tona a maldade, a ignorância e a hipocrisia numa verdadeira caça às bruxas à professora, e também o que mais traz discussões sobre a educação. Mas o segundo ato, composto de pequenos vídeos e textos, como uma enciclopédia caótica, é também muito interessante e cheio de imagens e frases que provocam reflexão, além de dialogarem também com a atual invasão de vídeos amadores nas redes sociais. Essa pluralidade de informações nos ajuda a entender, de modo irônico, a sociedade romena, e é também um convite à revisão do filme, quem sabe na telona, em breve.

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+ DOIS CURTAS

THE BANDIT’S WAGER

Curta presente no box Essencial John Ford, THE BANDIT’S WAGER (1916) mostra Ford como ator coadjuvante de um trabalho do irmão mais velho Francis. Acredito que a curiosidade é mais de poder ver o trabalho do irmão e de também imaginá-lo como uma possível influência para o cineasta que John (aqui ainda chamado Jack) se tornaria. A partir do ano seguinte, John Ford dirigiria seu primeiro curta. Aqui temos uma história bem simples, em que um suposto bandido mascarado pede um beijo a uma moça. Depois, devido à falta de gasolina no carro do irmão, a moça vai parar na casa do tal bandido, que é onde se passa a maior parte da ação, com a câmera na maioria das vezes parada, explorando mais a mise-en-scene, e de vez em quando closes dos dois protagonistas. É um filme leve e razoavelmente divertido.

A MÁQUINA INFERNAL

Eis um filme que, até pelo formato curto (meia hora de duração), pode permitir revisões mais rápidas e fáceis para ser melhor compreendido. Vendo A MÁQUINA INFERNAL (2021), de Francis Vogner dos Reis, lembrei de ARÁBIA, de Uchôa e Dumans, pela discussão em tom de rebeldia e tristeza em torno da escravidão imposta pelo trabalho desumano. Lembrei, por um momento de CRASH – ESTRANHOS PRAZERES, de David Cronenberg: há um personagem que tem uma mão mecânica e uma cena curiosa. O filme se inicia como um desses dramas sobre a classe operária paulista, mas logo o tom de estranheza vai crescendo e a opção pelo gênero terror ganha contornos maiores. Já faz algum tempo que é ao horror que tem se recorrido para tratar de maneira poética das injustiças e dos absurdos do mundo real.

sexta-feira, outubro 08, 2021

UM TIRO NA NOITE (Blow Out)



“When I’m making a film, nothing else matters to me. The outside world no longer exists. I have only one obsession: to realize the project that is in my head. I no longer pay any attention to my wife or my children and sometimes I’ve lost everything because of it.”
(Brian De Palma)


É interessante ver esse depoimento do De Palma, mesmo sabendo que isso deve ser a realidade de outros tantos realizadores. A obsessão pelo trabalho a tal ponto que a vida familiar acaba prejudicada. No caso de UM TIRO NA NOITE (1981), Jack, o personagem de John Travolta, fica tão obcecado pelo caso do acidente/assassinato do governador, que ele vive deixando para depois o próprio trabalho. No caso, é bem compreensível. Afinal, há uma questão tão mais urgente no ar, uma gravação que pode ser uma prova do assassinato, mas também acaba o deixando cego para a possibilidade de que a própria garota por quem ele está interessado (Nancy Allen) corre sério perigo.

UM TIRO NA NOITE é a quarta e última parceria de Brian De Palma com Nancy Allen (o casamento dos dois acabaria logo após) e também a quarta (mais não última) parceria com o maestro Pino Donaggio, sempre fazendo um trabalho maravilhoso, unindo uma trilha de suspense com algo mais romântico. O filme sempre ficou em meu pódio (ou pelo menos no top 3) dentre os trabalhos do diretor (isso poderá mudar, talvez, com essa peregrinação). A experiência de tê-lo visto, mesmo na televisão, na adolescência, já foi bem marcante. Depois em 2004, em DVD, isso se ampliou. E agora vejo em BluRay, em alta definição, uma perfeição!

O filme parece uma fusão de BLOW-UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni, com A CONVERSAÇÃO, de Francis Ford Coppola. Aqui o cineasta, talvez incomodado com a recepção crítica não muito acolhedora a seu VESTIDA PARA MATAR (1980), resolve fazer uma obra mais séria, por assim dizer. Na trama, John Travolta é um sonoplasta de filmes B de terror que grava sons da natureza à noite quando testemunha um acidente automobilístico e salva uma garota de dentro do carro, que cai em um riacho.

Posso estar errado, mas percebo neste filme um uso mais discreto de seu virtuosismo com a movimentação da câmera, mas há sobreposições e aproximações que lembram os gialli. Dos gialli também há a beleza atrelada à tragédia, à violência. A cena dos fogos de artifício dificilmente sai de nossa lembrança.

Uma coisa que é sempre bom considerar quando podemos nos dar ao luxo de ver toda a filmografia de Brian De Palma é perceber que toda ela está conectada. Não se trata simplesmente de dividir em dois, três ou quatro períodos; ou dividir entre filmes maneiristas e não maneiristas; ou entre comédias ou suspense. No caso de UM TIRO NA NOITE, por exemplo, podemos buscar uma referência lá no começo da carreira, em QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (1968).

Nesse filme, o personagem de Gerrit Graham é um sujeito obcecado por teorias de conspiração sobre o assassinato de John F. Kennedy e desenha sua linha de raciocínio no corpo nu de uma mulher. Em UM TIRO NA NOITE, quando Jack põe Sally para encontrar o reportar, colocando escuta nela, mesmo sem saber que ela vai se encontrar na verdade com um assassino serial (John Lithgow), ele está colocando um alvo na moça.

UM TIRO NA NOITE também lida com os duplos malignos habituais dos filmes do diretor. No caso, eles seriam o fotógrafo (Dennis Franz) e o homem que atirou no pneu com o rifle (Lithgow). Os três estavam no mesmo lugar no momento do tiro. Jack, no entanto, se apresenta diferente dos dois pela inocência e por querer a verdade. Divulgar o que realmente aconteceu é o mais importante. E ver Jack fazendo cinema, ao unir fotografia com som, é mágico e fascinante.

Quanto às relações já habituais com os filmes de Alfred Hitchcock, temos pelo menos dois momentos que aproximam UM TIRO NA NOITE com UM CORPO QUE CAI. Tanto Jack quanto Scottie (James Stewart) salvam uma mulher das águas e a acolhem na cama, carinhosamente. Além do mais, ambos se sentem traídos quando descobrem que a mesma mulher agiu de maneira pouco nobre sem que eles soubessem. No caso de Sally, ela havia sido paga para estar com o governador e depois gerar um escândalo, como já havia feito com outros homens da alta sociedade. Assim, há um tipo de moralismo incômodo em ambos os heróis.

E há também algo de estranho com a falta de interesse em sexo por parte de Jack. Diferente do fotógrafo, que tenta forçar sexo com Nancy, ou do assassino que fica extasiado em estrangular as mulheres, o herói da história parece um sujeito que está sempre se reprimindo. Douglas Keesey, o autor do livro Brian De Palma’s Split-Screen, até vê na cena em que Jack usa o picador de gelo para matar o estrangulador, como se ele estivesse matando a si mesmo, ou o seu lado maligno. Poderia ser também uma forma de autopunição por não ter conseguido chegar a tempo de salvar Sally. E o que seriam os fogos de artifício dentro dessa representação sexual meio freudiana? Talvez uma espécie de gozo. Mas não seria estranho um gozo depois do que aconteceu? O autor do livro vê isso como uma resposta ao que Hitchcock fez em LADRÃO DE CASACA, na cena dos fogos de artifício no momento do abraço entre Cary Grant e Grace Kelly.

Infelizmente UM TIRO NA NOITE não foi bem de bilheteria. Custou 18 milhões de dólares e faturou apenas 8 milhões. Além do mais, a maior parte da crítica não foi favorável ao filme. Dos críticos mais famosos, quem elogiou e enalteceu foi Pauline Kael. Mesmo assim, foi mais uma decepção para De Palma, que já havia sido incompreendido em VESTIDA PARA MATAR e quis fazer uma obra bem mais sóbria. Muito provavelmente, a resposta a tudo isso seria o banho de sangue e violência em SCARFACE (1983), mas ainda não sei o quanto isso foi uma resposta voluntária ou não.

+ DOIS FILMES

HUNTED

A princípio podemos ver HUNTED (2020) como um filme-irmão de SOZINHA, de John Hyams, mas o que o filme de Hyams tem de riqueza visual e narrativa, mesmo lidando com uma trama simples, este exemplar belga perde bastante na comparação, por mais que o começo seja bem tenso, com a protagonista sendo capturada por dois maníacos para ser usada como vítima em vídeos doentios que eles geram. A simplicidade também está na geografia, com a história basicamente toda se passando no meio de uma floresta. Vejo como problemático o vilão da história não ser suficientemente assustador ou odioso. Ainda asim, é um filme eficiente e que entretém em uma duração relativamente curta. O curioso é que o diretor Vincent Paronnaud é o parceiro de Marjanie Satrapi em PERSÉPOLIS (2007) e FRANGO COM AMEIXAS (2011).

DNA (ADN)

Mesmo sem saber nada a respeito dos bastidores e das motivações que levaram Maïwenn a interpretar a si mesma em busca de suas origens, dentro de uma estrutura familiar complexa, a impressão que fica é que este talvez seja o seu filme mais pessoal como diretora. DNA (2020) começa fascinante, primeiramente ao mostrar o apego da família ao velho patriarca, que vive em uma casa de repouso e já não compreende muita coisa e mal fala. O fascínio vem com sua morte, os efeitos que ela traz na família e os preparativos para o enterro, mostrados de maneira lenta, destacando a falta de sintonia da família até na hora de escolher um caixão que será cremado. Em seguida, o foco do filme vai cada vez mais para a personagem de Maïwenn, com Fanny Ardant no papel da mãe pouco amada, Louis Garrel como o irmão divertido e Marine Vacth como a irmã com quem a protagonista não se dá muito bem. Há ainda a figura do pai pouco presente. Se não fosse o final apressado e que tira muito do impacto poético que poderia ter, DNA seria um dos melhores filmes franceses dos últimos anos.

terça-feira, outubro 05, 2021

CENAS DE UM CASAMENTO (Scener ur ett Äktenskap)



Ontem, vendo o segundo episódio do remake americano de CENAS DE UM CASAMENTO (1973), percebi que já faz algumas semanas que assisti à minissérie original de Ingmar Bergman e que precisava escrever um pouco a respeito, antes que a lembrança da experiência, um misto de dor espiritual e prazer estético, começasse a ir para o arquivo morto do cérebro. Ver o remake me ajudou um pouco a não só fazer comparações com a obra-prima televisiva do diretor sueco, mas também a começar a me lembrar de algumas cenas marcantes.

Lendo o texto do livro O Planeta Bergman, de Carlos Armando, soube que o cineasta fez a obra dedicada a Liv Ullmann, o grande amor de sua vida, como uma forma de voltar a vida em comum com a atriz. Desconhecia essa informação e achei muito bonito, me fez lembrar a tentativa de Domingos Oliveira de recuperar o namoro com Leila Diniz quando a convidou para fazer TODAS AS MULHERES DO MUNDO.

Armando destaca o momento em que Johan (Erland Josephsson) fala para Marianne (Ullmann): “eu me permito imaginar que você me ama à sua maneira... Creio simplesmente que nós nos amamos. De uma maneira terrestre e imperfeita.” E agora me pego pensando no termo “terrestre” que ele usa. Afinal, Bergman usou muito de sua obra para falar de questões metafísicas, como a existência de Deus, a morte etc. E aqui se permite abordar exclusivamente a crise de um casamento. Que, aliás, também era seu forte, essa coisa de falar sobre relacionamentos, seja um casamento ou um conflito familiar. E de maneira tão dolorosa que falar “meter o dedo na ferida” passa a ser um eufemismo perto do que ele faz.

CENAS DE UM CASAMENTO, pelo menos na Suécia, foi o trabalho mais popular de Bergman. Chegou às televisões do país e fez muito sucesso. Tanto que até dizem que incentivou muitos casais a se divorciarem. Há uma pesquisa que fala sobre isso, mas não sei dizer o quanto pode ser apenas uma coincidência. Mas o fato é que ali na década de 1970 uma nova sociedade estava se formando. E viver em um casamento apenas aturando o cônjuge deixou de ser uma obrigação.

Preferi ver a versão em minissérie do que a versão lançada nos cinemas no ano seguinte. E creio que fiz a melhor opção. Afinal, quanto mais Bergman melhor. A minissérie se divide em sete episódios. Em “Inocência e Pânico”, nos vemos um tanto atordoados com tantos diálogos, mas também com aquela tentativa de transparecer um casamento perfeito para uma equipe de televisão e em seguida para um casal de amigos, e que já suspeitamos ser só uma fachada. No segundo, “A Arte de Varrer para Debaixo do Tapete”, já sentimos as angústias: Marianne parece não estar muito disposta ao sexo, mas isso não é o único problema no relacionamento. O terceiro, chamado “Paula”, é um dos mais intensos, e que trata da revelação de uma amante de Johan. E nem é esse apenas o problema. Ficamos com um misto de incômodo e solidariedade com o modo como Marianne procura contornar ou aceitar (ou não) aquela nova situação.

Os demais capítulos se chamam “O Vale das Lágrimas”, “Os Analfabetos” e “No Meio da Noite”. A opção de Bergman por preferir usar créditos em áudio do que escritos dão um tom interessante e estranho à experiência. O curioso é que, como se trata de uma obra de um diretor que costuma privilegiar bastante a beleza plástica, por mais que seja um trabalho muito mais despido de imagens de extrema beleza – a minha lembrança imediata era de A FONTE DA DONZELA (1960), que havia visto poucos dias antes -, a experiência de ver uma grande D.R. chega a ser menos dolorosa, já que há também todo um cuidado visual para que possamos compensar a dor com o prazer dos olhos (Sven Nykvist é o diretor de fotografia).

Como sabemos que Bergman passou por diversos casamentos e relacionamentos íntimos ao longo de sua longa jornada de vida, que se confundia muito com seu trabalho incessante, é possível perceber que CENAS DE UM CASAMENTO foi inspirada em sua atribulada vida conjugal. Mas uma coisa que percebemos também é que é fácil tomar o partido de Marianne e ver na minissérie algo de feminista. É fácil amar Marianne e odiar, por vezes, Johan. Não pela traição em si, mas por seu comportamento.

Quanto ao remake americano, estou vendo mais como um belo trabalho dos atores, mas deixemos para falar depois que acabar de vê-la.

Agradecimentos a Paula pela companhia durante as sessões da minissérie de Bergman.

+ DOIS FILMES

O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS

Filme vendido junto com A MENINA QUE MATOU OS PAIS, também dirigido por Mauricio Eça, este O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS (2021) conta a história a partir do depoimento de Suzane von Richthofen no tribunal, de modo a diminuir sua culpa e colocar quase tudo nas costas do namorado Daniel. E é até fácil ver Daniel como um rapaz de péssima índole, mas, por outro lado, como o filme tem uma construção muito simplista, a visão do sujeito sem muitos tons de cinza prejudica a apreciação. Definitivamente está longe de ser um bom filme, mas acho que os criadores entraram numa situação complicada ao ter que contar duas histórias claramente fantasiosas dos fatos. Difícil comprar Carla Diaz como a menina inocente e o discurso anti-maconha é constrangedor. O momento final, mais aguardado, do assassinato, é pouco impactante, por mais que apele para efeitos de câmera. Além do mais, senti falta do que acontece logo após o assassinato dos pais de Suzane.

A MENINA QUE MATOU OS PAIS

Nem sei dizer se esta versão (contada por Daniel e com a imagem de uma Suzane mais diabólica) é mesmo pior que a outra, mas atravessar toda a sua metragem já vendo a história antes, apenas sob um novo olhar, ninguém merece. A MENINA QUE MATOU OS PAIS (2021) até convence um pouco mais, mas talvez seja por causa da longa tradição das femme fatales no cinema. E também porque já se convencionou tratar Suzane von Richthofen como a mente principal do assassinato dos próprios pais, principalmente por quem não sabe detalhes do ocorrido ou não leu mais a respeito do caso (como eu). A ousadia maior deste está na violência quase gráfica, já que a cena do crime é mostrada pelo ponto de vista de quem o executou com as próprias mãos.

domingo, outubro 03, 2021

UMA GAROTA SOLITÁRIA (La Fille Seule)



O advento dos streamings, de alguns anos para cá, tem começado a trazer benefícios para o público mais exigente. Resgates de filmes pouco conhecidos ou de alguns que sequer chegaram a ser exibidos comercialmente no Brasil podem ser vistos na MUBI, por exemplo. Vejamos o caso do cineasta Benoît Jacquot, que me pareceu sempre interessante desde os primeiros filmes que vi dele, ADEUS, MINHA RAINHA (2012), O DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA (2015) e O ÚLTIMO AMOR DE CASANOVA (2019).

Mas acontece que Jacquot já tem uma carreira de 48 créditos, entre produções para a televisão e para o cinema, sendo que seus primeiros trabalhos foram nos anos 1970. Ou seja, estamos diante de um cineasta que já era interessante desde o começo ou que só foi se tornando um grande artesão com a maturidade? Isso seria o caso de ver os filmes para só então descobrir. Esse tipo de situação pode acontecer com inúmeros outros diretores que só descobrimos a partir de suas realizações mais recentes.

Eis que tive a chance de ver, então, UMA GAROTA SOLITÁRIA (1995), um trabalho mais ousado formalmente do que os seus últimos trabalhos, que têm a vantagem de ter mais dinheiro na produção, mas que não necessariamente parecem tão inventivos quanto este filme estrelado pela belíssima Virginie Ledoyen. A primeira vez que vi Virginie foi em A PRAIA, estrelado por Leonardo DiCaprio, mas ela é só uma moça bonita que aparece e depois esquecemos. Aliás, o próprio filme, eu nem lembro mais. Depois, em 8 MULHERES, de François Ozon, ela aparece no meio de atrizes de tão alto gabarito que acaba sendo facilmente eclipsada.

Mas eis que ela aparece em dois excelentes filmes de Emmanuel Mouret, SÓ UM BEIJO POR FAVOR e UM NOVO DUETO, em papéis de destaque e muito fáceis de causar paixão nos espectadores. Porém, nenhum desses filmes a mostrou de maneira tão intensa quanto UMA GAROTA SOLITÁRIA, em que a câmera a segue em praticamente 100% da metragem.

No filme, ela é uma jovem que está prestes a entrar no seu primeiro expediente em um hotel quatro estrelas. Ela acabou de descobrir que está grávida e marca um encontro com o namorado desempregado em um bar para contar as boas novas. O rapaz não recebe a notícia com muita alegria; ela, no entanto, planeja ter a criança, com ou sem a participação dele. Ficam de se encontrar pouco depois para conversarem melhor, no mesmo local, já que ela precisa se apresentar ao novo trabalho imediatamente. A câmera a segue atravessando a rua até o hotel, sem cortes. Eu diria que, com um pouco de criatividade, é possível sentir o cheiro da noite e da ambientação das ruas.

UMA GAROTA SOLITÁRIA é um filme que antecipou em algumas décadas debates dos dias atuais, como a questão do assédio às mulheres no ambiente de trabalho e a hoje chamada cultura do estupro. Isso é visto com incômodos detalhes, ao longo dos minutos que vemos a protagonista em seu trabalho. Há também a conversa com a chefe, que vê o fato de ela ser muito bonita um possível empecilho para o trabalho.

Um dos destaques do filme, do ponto de vista formal, é que ele se passa, quase que completamente, em tempo real. Isso passa um senso de urgência e de estresse que contagia a obra. Temos aqui um filme que tem um frescor que não veríamos em obras posteriores do cineasta e que chega a remeter aos filmes do Godard dos anos 1960. Eis filme que se vê com muito prazer.

P.S.: A MUBI está com um outro filme dos anos 1990 estrelado por Virginie Ledoyen: LATE AUGUST, EARLY SEPTEMBER, um dos poucos trabalhos de Olivier Assayas até então inéditos no Brasil. A ver em breve.

+ DOIS FILMES

SUK SUK - UM AMOR EM SEGREDO (Suk Suk)

Como são raros os filmes de temática LGBT com personagens mais maduros presentes em nosso circuito exibidor (o último de que me lembro é O AMOR É ESTRANHO, de Ira Sachs), SUK SUK – UM AMOR EM SEGREDO (2019), de Ray Yeung, é muito bem-vindo. O fato de a sociedade de Hong Kong ser mais conservadora do que a brasileira faz com que seja ainda mais frequente pais de família esconderem suas orientações sexuais e só aproveitarem um pouco mais quando já estão mais velhos. Não me envolvi tanto com o romance dos protagonistas, mas fiquei tocado com o quanto eles sofrem com esse segredo, especialmente o que tem um filho bem religioso.

ANA. SEM TÍTULO

Um filme que tem uma ousadia e um papel importante como resistência (racial, de gênero) neste momento de ensaios de retorno de uma extrema direita e que também brinca com a opção por um documentário falso, que busca a verdade por meio da ficção. Os depoimentos de várias senhoras em alguns países da América Latina são sim, creio eu, inserções documentais na narrativa, mas ainda assim ANA. SEM TÍTULO (2020), de Lúcia Murat, é uma obra que pode enganar a muitos espectadores, que se pegam intrigados e possivelmente interessados na história de busca por uma mulher chamada Ana, artista plástica e militante de esquerda. Gosto do discurso final, embora acredite que poderia ter ficado melhor se fosse materializado.

sábado, outubro 02, 2021

VENENO PARA AS FADAS (Veneno para las Hadas)



O impacto de ter visto o meu primeiro filme mexicano de horror foi grande. O ESPELHO DA BRUXA, de Chano Urueta, lançado antes do nosso À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, me pegou de surpresa, com tanta criatividade e beleza visual. E se percebe que há uma pluralidade de estilos muito rica também nessa cinematografia, como pude perceber vendo outros títulos do box Obras-Primas do Terror – Horror Mexicano, que, aliás, já ganhou um segundo volume, já disponível em pré-venda.

VENENO PARAS AS FADAS (1986) foi o segundo filme que vi de Carlos Enrique Taboada e o mais impressionante em muitos aspectos. Já havia gostado bastante de ATÉ O VENTO TEM MEDO (1968), mas este outro é bem mais interessante. No aspecto formal, o protagonismo das duas crianças é levado ao ponto de a câmera não mostrar os rostos dos adultos, a não ser em circunstâncias em que eles se apresentam como pessoas de causar medo ou susto.

Há uma excelente caracterização das duas meninas e a história se passa nos anos 1960. Flavia (Elsa María Gutiérrez), a morena novata na escola, que não tem uma educação religiosa em casa, começa uma amizade com Verónica (Ana Patricia Rojo), a garotinha loira que escuta, encantada, da empregada doméstica, histórias de bruxas e outras figuras fantásticas e logo quer passar a imagem para a colega de que ela mesma é uma bruxa. “Bruxas podem fazer tudo”, é o que ela escuta impressionada, e isso passa a ser um desejo de tudo dominar, sem se importar que tenha que cometer maldades, afinal, bruxas se dão ao luxo de fazer atos maléficos.

O filme é também um conto sobre a maldade presente na infância e até sobre a relação que se estabelece entre o agressor e o agredido. VENENO PARA AS FADAS, segundo vi em algumas críticas, é o último filme do realizador e também o seu mais potente trabalho, quando ele substitui o tema sobrenatural por um horror psicológico muito rico, unindo a fantasia com o terror de maneira brilhante. Um dos diretores mais entusiastas do cinema de Taboada é também um mexicano, Guillermo Del Toro, que já fez dois trabalhos com o horror e a infância andando de mãos dadas, A ESPINHA DO DIABO e O LABIRINTO DO FAUNO.

Um dos momentos em que o filme de Taboada ganha contornos mais dramáticos é quando Flavia pergunta a Verónica se ela pode ajudá-la, através da magia, a se livrar de suas exaustivas e chatas aulas de piano. Os momentos de tensão se intensificam quando Verónica viaja com a famíia de Flavia para uma casa de campo e a pequena bruxinha tem a ideia de criar um veneno para as fadas a partir de elementos clássicos da bruxaria, que ela ouvira nos contos de fadas.

Nos extras do DVD há depoimentos das duas meninas, agora adultas. Ana Patricia Rojo se tornou uma famosa atriz de telenovelas em seu país, mas afirma que seu melhor trabalho ainda é VENENO PARA AS FADAS. Já Elsa María Gutiérrez se desligou totalmente da vida de atriz.

+ DOIS CURTAS

TODOS OS ROSTOS QUE AMO SE PARECEM

A princípio pode parecer um filme-irmão de DOMICÍLIO INCERTO (2020), da mesma dupla de diretores, Davi Mello e Deborah Perrotta.  Também traz um tipo de solidão que pode remeter ao cenário da pandemia. Mas TODOS OS ROSTOS QUE AMO SE PARECE (2021) é mais experiemental, um pouco mais difícil de assimilar. Tanto que vi duas vezes para tentar apreender um pouco mais. Não sei se adiantou para a compreensão, mas adianta bastante para perceber a beleza do desenho de produção, da fixação em janelas e portas e naquilo que elas apresentam dentro delas, e também em outros objetos da casa, como um quadro cuidadosamente arrumado. Gosto da citação da mãe de Sandra, a personagem de Deborah Perrotta, sobre a importância de ter o que gostamos em casa. Há uma curiosa cena de sonho, mas o sonho parece um filme antigo (em 16 mm, em VHS?), depois seguido pelo último, belo e intrigante quadro do filme. Ainda não sei o que vi, mas creio ter gostado.

UN ROBE D'ÉTÉ

Antes de estrear seu primeiro longa de ficção, François Ozon já tinha no currículo vários curtas. Este é um deles e é bem saboroso. E há alguns elos de contato entre UN ROB D’ÉTÉ (1996) com um de seus mais recentes filmes, VERÃO DE 85 (2020), embora me pareça mais próximo, de seus primeiros trabalhos, no que se refere à saudável força sensual. Na pequena trama que dura 15 minutos apenas, um rapaz gay vai tomar banho nu numa praia e é abordado por uma moça. Dá pra notar tanto a vontade de Ozon de materializar uma fantasia quanto o talento em contar uma história com poucos diálogos e muitos olhares. Além do mais, ele antecipou Tarantino ao incluir na trilha a canção "Bang bang", que aqui aparece em sua versão francesa.

sexta-feira, outubro 01, 2021

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (Stagecoach)



Grandes filmes costumam nos colocar como pessoas mais humildes. E é preciso que tenhamos mesmo mais humildade, principalmente quando lidamos com cineastas de tão alto gabarito como John Ford. Confesso que sempre fui de preferir Howard Hawks a John Ford, mas estou começando a perceber que o que estava me faltando era rever os filmes do “diretor dos diretores” e ir percebendo melhor seus detalhes, sua força visual e também a riqueza da construção de seus personagens. 

Além do mais, acho importante não apenas ver e rever os filmes, mas também ler a respeito, ver e ouvir o que estudiosos têm a dizer sobre eles, de modo que aprendamos mais e mais. Isso tem me ajudado bastante a perceber melhor a grandeza de Ford e a importância e a beleza de um filme como NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (1939), visto por mim em diferentes mídias ao longo dos anos: VHS, DVD e agora em BluRay. E cada vez ficando melhor. Não pelo melhor tratamento da imagem, da tecnologia etc., mas pela percepção mesmo.

À medida que vamos revendo, detalhes importantes de fotografia e de composição, que remetem a F.W. Murnau, vão se tornando mais nítidos; e cenas noturnas, por exemplo, são de uma beleza impressionante. Destaco duas cenas de John Wayne com Claire Trevor, as duas acontecendo à noite: aquela em que ele fala com ela sobre casamento; e uma perto do final, com os dois andando lentamente pela rua da cidade-destino. Sobre a composição, inclusive, é muito enriquecedor ver os extras que vêm no box Ford Essencial, tanto as sábias palavras de Peter Bogdanovich, quanto a aula de Tag Gallagher.

Muito bom ver Ford, que costuma ter a fama de sujeito de direita, se mostrando bastante progressista, ao apresentar personagens marginalizados e humilhados. Sobre isso, tomo emprestadas as palavras de André Bazin, retirado de um de seus ensaios mais famosos:

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, de John Ford, nos mostra que uma prostituta pode ser mais respeitável do que os beatos que a expulsaram da cidade e do que a mulher de um oficial; que um jogador debochado pode saber morrer com dignidade de aristocrata, que um médico bêbado pode praticar sua profissão com competência e abnegação; um fora da lei perseguido, por algum ajuste de contas passado e provavelmente futuro, dar provas de lealdade, de generosidade, de coragem e de delicadeza, enquanto um banqueiro considerável e considerado foge com o cofre.” (O Que É o Cinema?, p. 265)

Aliás, ainda destacaria o momento em que a prostituta aparece com o bebê nos braços, cercado pelos homens da carruagem. Fica parecendo uma imagem da Virgem Maria iluminada pelo nascimento de Jesus, tal o grau de sacralidade que Ford traz. Aliás, não à toa o próprio diretor enfatizaria esse tema mais católico em O CÉU MANDOU ALGUÉM (1948), também estrelado por John Wayne. No filme de 1939, me pareceu algo até bastante transgressor, por mais que a imagem seja sutil.

Mesmo assim, o olhar de Ford é bastante gentil para com todos os seus personagens. Não há exatamente um julgamento. Todos eles são resultados de causalidades, de situações que os fizeram agir daquele jeito. O que não quer dizer que Ford não possa fazer suas críticas bem claras, principalmente ao banqueiro, mas também um pouco às “senhoras de bem”.

Para quem vê hoje pode se incomodar um pouco com a quantidade de clichês próprias do western, mas a maior parte ali era Ford reinventando. Por isso, é preciso contextualizá-lo para entender sua importância imensa na história não só do gênero, mas do cinema em si.

Aliás, na época da produção de NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, Hollywood não queria mais fazer westerns, por causa principalmente de duas grandes produções que resultaram em fracassos imensos de bilheteria, A GRANDE JORNADA, de Raoul Walsh, e CIMARRON, de Wesley Ruggles. Os westerns que eram feitos eram produções de baixo orçamento e muito longe do prestígio das produções A ou mesmo B.

“Mas isso é um western! Ninguém mais faz westerns!”, gritou o produtor Walter Wanger, da United Artists, aquele que toparia bancar o projeto. Ford havia recebido alguns nãos de um par de estúdios, e foi Fore quem insistiu em trazer John Wayne, que há anos esperava ser chamado para uma produção do amigo. Valeu a pena esperar, pois foi neste filme que ele alcançou seu estrelato. Porém, vale lembrar que o primeiro nome nos créditos é de Claire Trevor, não de Wayne, ainda um ator de filmes pequenos, enquanto ela já era uma estrela da Fox.

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS é um marco em muitos sentidos. Foi o western que definiu o gênero que resistiu por muitas décadas em Hollywood. Foi o filme de estreia de John Wayne como um grande astro. Foi o primeiro Ford no Monument Valley (ele faria outra série de filmes nessa locação que fica na fronteira entre os estados de Utah e Arizona). Estabeleceu um estilo visual que influenciou CIDADÃO KANE (as imagens dos tetos se destacam). E traça um panorama muito interessante da sociedade americana, uma sociedade dividida, marcada pela hipocrisia. Enfim, há tanto a se contar e a se falar sobre o filme e ainda não me sinto suficientemente íntimo da poética do diretor para falar de maneira mais apropriada. Quem sabe em breve. 

+ DOIS FILMES

SUA ÚNICA SAÍDA (Pursued)

Este belo western de Raoul Walsh (diretor sempre brilhante, pelo que pude ver de seu trabalho até hoje) tem um quê de O Morro dos Ventos Uivantes, já que temos aqui dois irmãos (um deles adotivo) que se apaixonam perdidamente em um cenário sombrio. A trama de SUA ÚNICA SAÍDA (1947) acontece em um longo flashback, em que o personagem de Robert Mitchum, acuado, tenta lembrar o que aconteceu com ele desde a infância, quando foi adotado por uma mulher que tinha dois filhos, um menino e uma menina. Gosto de como o filme tem uma preferência por cenas noturnas, acentuando seu espírito noir/gótico e aproveitando tanto as tintas melodramáticas quanto as de suspense. O mistério em torno dos motivos de o protagonista ser tão perseguido só aparece lá pelo final do filme. Teresa Wright está muito bem como a "irmã" apaixonada, mas que também, a certa altura, fica consumida pelo ódio.

A ÚLTIMA FLORESTA

Esse negócio de criar expectativa é prejudicial. Gosto muito de EX-PAJÉ (2018). Considero um dos melhores filmes do ano de sua exibição. Em A ÚLTIMA FLORESTA (2021), Luiz Bolognesi aposta mais no deslumbramento visual e na mitologia dos povos yanomamis para construir um tipo de documentário que vai muito além do documentário, como já é característico de seu trabalho. Gosto de como ele transgride as regras em momentos de intimidade dos personagens, inclusive com usos interessantes de close-ups. Por outro lado, o filme parece que ficou a dever um fio de história. No mais, fiquei feliz de ver que a sessão tinha mais público do que o habitual no Cinema do Dragão. Sinal de que esse tipo de filme, ligado às causas indígenas, está cada vez mais sendo objeto de interesse por um público que vai além da cinefilia.

quarta-feira, setembro 29, 2021

MISSA DA MEIA-NOITE (Midnight Mass)



Fiquei apaixonado pelo trabalho de Mike Flanagan desde o momento que vi O ESPELHO (2013). Na época nem sabia que era um diretor com uma carreira já em encaminhamento, mas seus melhores trabalhos estariam ainda por vir. Desde O ESPELHO, cada novo filme ou série de Flanagan é uma nova alegria para mim, cresce mais o meu respeito pelo que ele vem desenvolvendo. Sobre MISSA DA MEIA-NOITE (2021), arriscaria dizer que é seu melhor trabalho, se ele não tivesse feito a obra-prima A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018).

Acontece que em MISSA DA MEIA-NOITE, o diretor, roteirista, criador, editor se permite mais ousadias, tanto formais quanto temáticas. Flanagan afirmou em entrevistas que se trata de seu trabalho mais pessoal, que ele vinha pensando em materializar já há muitos anos. E depois de três trabalhos bem-sucedidos para a Netflix ele recebeu carta branca do serviço de streaming – ele fez um longa-metragem, JOGO PERIGOSO (2017), e uma segunda-minissérie, A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (2020), em que ele dirigiu apenas um episódio, mas sendo o showrunner, a obra é principalmente sua. Então, com esses três sucessos e também apoio de boa parte da crítica de cinema e de televisão, Flanagan ganhou prestígio o suficiente para fazer uma obra audaciosa em muitos aspectos.

Uma das coisas que se destaca nessas minisséries de Flanagan é o seu grande carinho por seus personagens. É fácil se ver apaixonado por eles - em RESIDÊNCIA HILL isso é bem perceptível. E se antes já se percebia seu interesse por dramas familiares e por questionamentos acerca da morte, isso se expande nesta nova minissérie. A família agora é uma pequena população de uma ilhota afastada do continente, um espaço calmo e tranquilo, ainda que não isento de problemas e dramas de seus personagens. O lugar é tão pequeno que as pessoas não usam carros; elas caminham para ir para as casas umas das outras, e também para ir à igreja, que fica em uma área um pouco mais afastada das casas.

Aliás, sobre questões dramáticas, já começamos com a história do jovem Riley (Zach Gillford), que mata acidentalmente uma pessoa dirigindo alcoolizado e passa quatro anos preso. Ele, junto com Erin, a personagem de Kate Siegel (atriz linda e muito presente na obra do marido Flanagan), são os que mais se aproximam do olhar do espectador. Ambos são pessoas que tiveram a chance de viver em cidades grandes do continente, mas que, por força do destino, voltaram para seus locais de nascimento. Erin, inclusive, chega à ilha grávida. Ela e Riley foram namorados quando adolescentes.

Uma coisa que nos deixa muito intrigados na questão do horror da série é que, terminado o segundo episódio, de um total de sete, todos com o título de um livro (ou de uma série de livros) da Bíblia, ainda não sabemos do que a série trata (se é sobre fantasmas, demônios etc.). Só a partir do terceiro, “Livro III: Provérbios”, começam as revelações. E por isso o ideal é ver a série sabendo o mínimo possível. Há uma cena no início do segundo episódio que eu acho linda, com a câmera girando ao redor de vários personagens na praia, depois de um evento que acontece na virada de episódios. 

Adoro o modo como o cineasta não se importa em estender os diálogos (às vezes monólogos), que funcionam como uma mistura de poesia e filosofia. Mesmo correndo o risco de deixar o espectador um pouco destruído. Mas depois percebemos que esses monólogos, esses delírios existenciais, são fundamentais para o espírito da minissérie. Especialmente o que discute sobre o que acontece com a gente após a morte. 

Isso se acentua nos momentos finais da série e nos mostra o quanto, mais uma vez, a morte é um elemento de interesse e de fascínio do diretor. Há coisas que nos remetem a O SONO DA MORTE (2016), acerca da perda. E vemos que não foi à toa que Flanagan quis trazer uma nova adaptação para "A Volta do Parafuso" em A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY.

Entre os atores: destaque para a que mais se aproxima de uma vilã, a personagem de Samantha Sloan, ardilosa e muito inteligente no modo como usa seus conhecimentos das escrituras para conseguir o que quer; e o ator que faz o padre misterioso, Hamish Linklater. Também destaco os momentos que Flanagan nos faz chorar. Há um que é impressionante: o perdão de uma personagem ao homem que lhe fez mal.

Grande momento do terror no cinema e na televisão esse que estamos vivendo. E muito bom ter um diretor como Flanagan fazendo cinema e tevê autorais para as massas, disponível para quem quiser ver. Não vai agradar a todos, mas o que, afinal, agrada?

+ DOIS FILMES

NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (Il Tuo Vizio È una Stanza Chiusa e Solo Io Ne Ho la Chiave)

Olha aí James Wan me dando vontade de ver mais gialli. Este aqui está entre os cinco filmes do gênero que Martino dirigiu no começo dos anos 1970. Não é melhor do que TORSO (1973), nem do que TODAS AS CORES DA ESCURIDÃO (1972), mas achei mais interessante e bem orquestrado do que A CAUDA DO ESCORPIÃO (1971). Trata-se de uma adaptação livre do conto "O Gato Preto", de Poe, mas a parte do conto é menos de um terço do filme, que apresenta personagens vis e detestáveis de uma maneira ou de outra. Há o escritor fracassado (Luigi Pistilli) que maltrata a esposa (Anita Strinberg) e que é suspeito de brutais assassinatos que estão ocorrendo no vilarejo. E há a sobrinha jovem (Edwige Fenech), que chega com meia hora de filme e já procura seduzir a todos. Um dos grandes méritos de NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972) é nos deixar interessados do início ao fim. A trilha sonora, com cravos e cordas também é uma beleza. Filme presente no box Giallo Vol. 3.

THE PROJECTIONIST

Dos documentários feitos por Abel Ferrara nos últimos anos, THE PROJECTIONIST (2019) talvez seja um dos mais preguiçosos. O que é uma pena, pois a própria ideia dele parece ter nascido da paixão. No caso, da paixão pelo cinema, mesmo que seja pelo negócio em torno do cinema. O personagem do filme é um homem que foi proprietário de várias salas de cinema de rua na década de 1970, entre cinemas pornôs e cinemas de arte. O negócio vai mudando ao longo dos anos, mas ele segue resistindo em cinema de rua, até porque Nova York é uma cidade que torna isso um pouco mais viável. Tive a impressão de que Ferrara insere cenas de filmes talvez porque percebe que o personagem não é bom o bastante para sustentar o filme sozinho. Então, ele enxerta até cenas de filmes mais underground de vez em quando. O interessante é o quanto o filme nos apresenta uma história do cinema como negócio ao longo de mais de 40 anos.

sexta-feira, setembro 24, 2021

CRY MACHO – O CAMINHO PARA REDENÇÃO (Cry Macho)



A questão do peso da idade no cinema de Clint Eastwood, seu temor, ao mesmo tempo que também seu senso de humor em relação a sua chegada, aparece em seus filmes desde os anos 1980, com BRONCO BILLY (1980). E na época do lançamento desse filme ele estava apenas com 50 anos de idade, ou seja,  naquela época, chegar a tal idade já era mesmo um atestado de velhice. Mal sabia ele que teria a chance de acompanhar seu corpo envelhecer ainda mais, e que seus filmes abordariam o tema do crepúsculo da vida de maneira ainda mais intensa.

Aconteceria novamente em OS IMPERDOÁVEIS (1992), em COWBOYS DO ESPAÇO (2000), em DÍVIDA DE SANGUE (2002), em MENINA DE OURO (2004), em GRAN TORINO (2008) e em A MULA (2018). Nesse anterior, principalmente, o impacto da decadência física do maior símbolo da masculinidade da década de 1970 se apresenta de maneira impiedosa. E no novo trabalho, CRY MACHO – O CAMINHO PARA REDENÇÃO (2021), esse efeito se intensifica, já que o que temos à nossa frente é um senhor de 91 anos claramente frágil desempenhando, de vez em quando, algumas cenas de ação, mesmo que com a ajuda de dublês e da montagem.

O que tem incomodado a muitos em CRY MACHO é o roteiro, sua simplicidade e suas falhas. Mas há também outra maneira de ver as situações absurdas que a trama traz: através do viés da fantasia. Ou seja, depois de maltratar seus personagens em filmes tão duros quanto MENINA DE OURO e GRAN TORINO, Eastwood presenteia a si mesmo com um filme leve e de final feliz (ou um pouco agridoce). E é curioso como situações felizes e finais felizes são vistos com estranheza, quase como situações surreais.

Quando Mike, o personagem de Eastwood, encontra um abrigo paradisíaco na casa de uma viúva e está ao lado de um garoto que o vê como a figura paterna que nunca tivera até então, o velho caubói encontra naquele momento a paz e a segurança que finalmente merece, depois de ter perdido a esposa e o filho em um acidente e de ter maltratado seu corpo e sua alma com o álcool e as drogas por um período considerável de sua vida. Agora ele está ali sendo visto quase como um santo capaz de curar animais pelas pessoas do vilarejo, sendo adorado e muito bem cuidado por uma mulher carinhosa, comendo tortillas e ainda podendo ensinar a arte de cavalgar ao garoto que o acompanha. É como se, neste filme, Eastwood quisesse fazer uma espécie de versão negativa (ou positiva?) de seus melodramas mais sombrios. Mesmo que sentíssemos no ar algo muito parecido com um sonho, algo não apenas pouco palpável, mas também difícil de digerir, se visto por uma chave realista ou de verossimilhança.

CRY MACHO é uma espécie de filme-irmão de A MULA. Mais uma vez temos um homem idoso em uma missão. Assim, o diretor deixa um pouco de lado suas crônicas sobre heróis americanos ultimamente frequentes e volta a seu interesse de retratar a dor de eventos passados que ainda latejam na alma presente. Aqui, porém, ele prefere fazer isso de uma maneira mais suave, que nos faz sorrir com uma agradável paz de espírito em muitos momentos.

A história da amizade entre um homem mais velho e com um ótimo senso de humor que passa a representar uma figura paterna para um garoto já havia sido retratada de maneira dolorosa na obra-prima UM MUNDO PERFEITO (1993), e retorna aqui, com Clint no papel de um velho caubói que tem a missão de resgatar o filho de um amigo no México. Na verdade, o resgate seria mais um sequestro, já que ele levaria o menino sem a "bênção" de sua mãe. Ao contrário, muito da divertida aventura viria dessa fuga da polícia e dos capangas da mãe do menino. E parte dessa aventura seria mostrada em chave cômica, como nas vezes em que o galo do garoto, de nome Macho, é fundamental para a resolução de conflitos.

CRY MACHO pode parecer um pouco fora de moda, tangenciando o brega em alguns momentos, mas é o filme de alguém que adora o gênero western e um de seus maiores ícones (a própria imagem de Clint com aquele chapéu de caubói deixa claro e é uma imagem poderosa), e também de alguém que está chegando ao centenário de sua vida. É um privilégio poder testemunhar o trabalho constante deste grande realizador.

+ DOIS FILMES

MATE OU MORRA (Boss Level)

Filme que tem Mel Gibson, Naomi Watts e loop temporal eu não ia deixar passar, mesmo já tendo cara de ser do tipo mais bagaceira. E de fato é. Porém, uma vez que a gente espera o pior, até que MATE OU MORRA (2021), de Joe Carnahan, é um entretenimento razoável. É interessante notar como esse tipo de variação de FEITIÇO DO TEMPO (mais um, pois é), ao menos não se preocupa muito em explicar. É tudo muito rápido e o protagonista (Frank Grillo) já está vivendo o mesmo dia por cerca de uma centena de vezes. Como se trata de um filme que procura dar mais ênfase à ação, quando ele para um pouco para ser mais sensível (nas cenas com o filho, por exemplo), ele se mostra ainda mais falho. Como é também um filme que exalta os games, assim como também é NO LIMITE DO AMANHÃ, com Tom Cruise, outro que usa a mesma ideia do filme de Harold Ramis, então a falta de valor na vida ganha pouca importância. Mas creio que isso sequer passou pela cabeça de seus criadores. Quanto a Frank Grillo, ele vai ter que fazer bastante filme ainda pra conseguir o mínimo de carisma necessário para virar um bom herói de ação.

LOS LOBOS

É fácil se colocar no lugar dos três personagens de LOS LOBOS (2019), de Samuel Kishi. Da jovem mãe que procura um lugar simples e que possa pagar o aluguel ao se instalar ilegalmente nos Estados Unidos, ainda sem dominar o inglês. E dos dois meninos, que se veem obrigados a ficar trancados dentro do pequeno apartamento, sem ter muito o que fazer, até que a mãe retorne do trabalho, exausta, para lhes dar atenção. Talvez lá pelo meio do filme esse cansaço da personagem adulta nos contamine um pouco e o que parecia um filme que tinha muito para ser muito impactante (é fácil se lembrar de PROJETO FLÓRIDA) se perde um pouco. Ainda assim, gosto de como ele termina, gosto dos desempenhos das crianças e da atriz principal. Ponto para Fátima Toledo, a preparadora de elenco de CIDADE DE DEUS e de TROPA DE ELITE, e que muito provavelmente foi responsável pelo sucesso do pequeno elenco.

terça-feira, setembro 21, 2021

AMADA AMANTE



Nos últimos dias minha energia tem andado em baixa na mesma medida que o trabalho tem aumentado. Em situação de desvantagem como essa, é natural que o blog tenha ficado sem atualização por tanto tempo. Por isso, ao contrário das postagens sobre Brian De Palma, que costumam render muitos parágrafos e estudos, hoje gostaria de ser um pouco mais objetivo. Não que o filme em questão não mereça uma atenção maior. É o caso de merecer sim

AMADA AMANTE (1978) é o quarto longa-metragem dirigido por Cláudio Cunha, e o primeiro que contou com a parceria com sua musa Simone Carvalho, que aqui só tinha 18 anos (ou talvez até menos), no papel de uma jovem carioca que toma a iniciativa quando se interessa pelo rapaz recém-chegado do interior e ainda um pouco ingênuo com aquele novo mundo que o cerca.

Mas o meu impulso para ver o filme neste momento foi como forma de homenagear Luis Gustavo, que aparece como um dos personagens principais deste filme-coral. Gustavo faleceu no último domingo, 19, e por mais que seja uma pena ele não ter feito muito cinema, não dá para não ficar grato com seu trabalho na televisão, especialmente no humor.

Em AMADA AMANTE ele é Tuca, que assim como Miriam, a jovem personagem de Carvalho, está muito habituado ao ambiente de mais malandragem do Rio de Janeiro. Malandragem, no bom sentido. Por mais que pareça a princípio um sujeito que possa ser mal intencionado, ele se mostra bem interessado em um relacionamento mais sério com a jovem Fátima (Sandra Bréa), a mais velha da família de interioranos. Na verdade, no começo achei difícil um pouco comprar a atriz para o papel, mas ela é tão boa que logo esqueci esse detalhe. 

O título (“Amada Amante”) tem mais a ver com ser o primeiro a aproveitar da popularidade da canção homônima de Roberto Carlos do que com o enredo ou o tom do filme em si, que está mais para a comédia. Na verdade, houve uma batalha pelo título da canção, tal a popularidade de Roberto naquele fim de década. Bruno Barreto estava pronto para dar o mesmo nome a seu filme (que depois ganharia o título de AMOR BANDIDO), e até usaria a canção do Rei em momentos de seu trabalho, e por isso ficou “p da vida” com Cunha quando soube que ele havia comprado primeiro os direitos de uso.  

Mas o que importa mesmo é a leveza e a dinâmica do filme, que traz como primeiros nomes do elenco os de Sandra Bréa e de Luiz Gustavo, mas que também traz, além da já citada Simone Carvalho, um elenco respeitável. O filme funciona tanto como uma crítica ao falso moralismo, quanto como um entretenimento mais adulto e picante sobre as relações que uma família recém-chegada do interior começa a ter ao chegar na Cidade Maravilhosa.

Em AMADA AMANTE, quase todos os personagens ganham parceiros amorosos, por assim dizer. Augusto, o pai de família, vivido por Rogério Fróes, que vem com a esposa e os três jovens filhos para a cidade grande para começar um trabalho, sofre as tentações da carne ao ser seduzido pela secretária Aparecida, vivida por Ana Maria Kreisler, que no mesmo ano estaria na obra-prima A FORÇA DOS SENTIDOS, de Jean Garrett, desempenhando uma das melhores cenas de sexo da história do cinema brasileiro. No filme de Cunha ela é um pouco menos valorizada nesse sentido, mas não dá pra reclamar, já que temos uma história bastante equilibrada na condução de seus personagens. O roteirista, aliás, é Benedito Ruy Barbosa, mais conhecido por seus trabalhos em telenovelas.

AMADA AMANTE seria o primeiro de uma trilogia de filmes que Cunha faria no Rio de Janeiro (seu cinema é o da Boca do Lixo paulistana), por isso é uma visão de quem vem de fora, e por isso mesmo de certo encantamento. Os outros dois filmes foram SÁBADO ALUCINANTE (1979) e PROFISSÃO MULHER (1983).

+ DOIS FILMES

A NUVEM ROSA

Mais do que o impressionante fato de ser um filme escrito e filmado antes da pandemia e parecer uma premonição, A NUVEM ROSA (2021), de Iuli Gerbase, é um baita drama perturbador e de certa forma familiar a um momento de nossas vidas. Na história, gás tóxico de cor rosa surge e passa a matar as pessoas que não estão protegidas em suas casas, com as janelas fechadas. A trama se concentra em um casal e eventualmente temos também notícias de amigos e familiares com quem eles se comunicam via internet. O filme teve uma ótima repercussão no Festival de Sundance deste ano. Com certeza merece ser mais conhecido e divulgado.

RODANTES

Considero RODANTES (2019), de Leandro Lara, um dos filmes brasileiros mais intensos lançados no circuito neste ano. O problema talvez esteja no fato de faltar equilíbrio entre as três histórias (que não exatamente se cruzam, mas se tangenciam). A história da personagem de Caroline Abras eclipsa as outras duas (a do migrante do Haiti e a do rapaz que arranja emprego em um restaurante). Ela é uma jovem mulher que tem uma inquietação tão forte que precisa estar o tempo todo se deslocando, não importando se vai parar nos lugares mais inóspitos do Brasil profundo, trabalhando como prostituta ou doméstica eventual. Sua história é tão boa que poderiam ter podado as demais e criado um único filme só com ela. Mas gosto da proposta de RODANTES e de como ele nos leva para um tempo-espaço que parece o fim do mundo, como quando a personagem passeia por um lugar rodeado pelo caos de uma chacina. Há também muitos simbolismos (o fogo, o sangue, a água) que ajudam a tornar a experiência bem interessante, assim como o uso de flashbacks e flashforwards que contribuem para essa sensação de desnorteamento.

sábado, setembro 11, 2021

VESTIDA PARA MATAR (Dressed to Kill)



11 de setembro é lembrado como o dia do ataque às Torres Gêmeas. Mas é também o dia do aniversário do mestre Brian De Palma, que hoje está fazendo 81 anos. Embora a última década não tenha sido muito feliz para ele, com apenas dois filmes produzidos e que não foram nem sequer exibidos em nosso circuito de cinemas, para os anos 2020 ele já tem um em pré-produção (estrelado por Wagner Moura) e um anunciado. Já é motivo de alegria. Coincidência ou não, hoje escrevo sobre VESTIDA PARA MATAR (1980), um de seus filmes mais celebrados e um dos que mais bebem da fonte de Alfred Hitchcock, desta vez fazendo uma homenagem bem especial e explícita a PSICOSE.

Foi um dos primeiros filmes de Brian De Palma que vi na televisão, na aurora de minha cinefilia. Na época exibiam bastante este, DUBLÊ DE CORPO (1984) e OS INTOCÁVEIS (1987). Então, não sei qual dos três vi primeiro. Mas a minha memória dele estava um tanto nebulosa. É curioso isso, costumou acontecer durante muito tempo com PSICOSE também, o filme aqui homenageado: depois da morte da suposta protagonista, me esqueço do que acontece em seguida, como se morresse junto com a vítima. Com as revisões, esse problema tem diminuído.

VESTIDA PARA MATAR começa com uma cena bastante ousada: Kate, a persongem de Angie Dickinson, se masturba no chuveiro, enquanto olha para o marido tirando a barba em frente ao espelho – a cena logo faz lembrar a de Carrie no chuveiro em CARRIE, A ESTRANHA (1976), inclusive com o mesmo compositor, Pino Donaggio, trazendo uma aura de prazer e calma temporária para as personagens. Mas, logo em seguida, essa sensação boa de Kate se mostra um pesadelo (ou seria um sonho nascido de suas fantasias?): um estranho surge na cabine do chuveiro e a pega por trás, tapando sua boca, tocando seu sexo e impedindo que o marido a veja, talvez por causa do vapor que impede a visão. Quando acorda do sonho, ela acorda também para o sexo burocrático e rápido com o marido, que mais adiante vamos ver que é algo que a deixa insatisfeita, conforme ela conta a seu psicanalista, o Dr. Robert Elliott (Michael Caine).

É importante perceber que uma cena como essa, que traz, ainda que de maneira pouco explícita, a possibilidade de que Kate estava fantasiando um estupro, seria complicada de ser filmada nos dias de hoje. Mesmo na época do lançamento houve bastante rebuliço em diversas frentes, como o Women Against Violence Against Women, que organizou grupos para protestar contra o filme. Aliás, hoje certamente o roteiro teria que ser refeito, por conta também da abordagem das pessoas transexuais. Mas é importante que entendamos que isso é um produto de sua época e que serve como estudo em diversas áreas (sociologia, psicologia, sexologia, história etc.).

Durante a sessão de terapia, e de ela chegar a perguntar ao próprio médico se ele teria coragem de transar com ela – vemos que Kate está de fato muito carente -, ele recusa, dizendo ser um homem casado, e que não seria capaz de destruir seu casamento por uma transa. Seguimos então com Kate visitando um museu. Ela se senta em um banco de maneira muito semelhante à Madeleine em UM CORPO QUE CAI, de Hitchcock. Aliás, todo o jogo de gato e rato com um homem que ela conhece e se sente atraída no museu também tem um quê forte do clássico de Hitch. E De Palma manipula a câmera de maneira frenética pelo museu.

Posteriormente, com o sexo que já começa no banco de trás do carro, e vai até o apartamento do estranho, ela é atacada na famosa cena do elevador por uma loira misteriosa com uma navalha. Trata-se claramente de uma homenagem à cena do chuveiro de PSICOSE. E a comparação não para por aí, claro, conforme veremos quando o filme se aproxima de sua conclusão.

A morte de Kate parece muito ligada a um sentimento de culpa, a julgar pelos seus pensamentos envolvendo o marido e o filho, e também pelo documento que ela encontra na gaveta do estranho, um resultado de um exame que informa claramente que ele está com uma doença venérea, o que a deixa muito perturbada, como se aquilo já fosse o castigo pelo seu pecado. A loira assassina, a essa altura todo mundo já sabe, é um homem travestido de mulher com óculos escuros e um casaco muito parecido com o de Kate. E isso é bastante representativo do quanto esse personagem está muito próximo de uma materialização da autopunição. E é mais uma vez De Palma lidando com os duplos.

Durante e após a cena do elevador, surge a próxima protagonista, Liz, vivida por Nancy Allen, que, pela segunda vez, faz o papel de uma jovem e doce mulher “especializada”, por assim dizer, em sexo. Lembremos que em TERAPIA DE DOIDOS (1979), Allen era uma ninfomaníaca. Em VESTIDA PARA MATAR, ela “evolui” para uma garota de programa. Neste filme ela repete a parceria com Keith Gordon, mais uma vez vivendo um avatar de um jovem Brian De Palma, chamado Peter.

Nancy está lindíssima no papel de Liz, que é suspeita pelo assassinato de Kate, e depois dá uma de detetive – ela é encorajada pelo próprio delegado a investigar por conta própria no consultório do psiquiatra. Ela faz isso com a ajuda de Peter, que fica do lado de fora na mesma posição de voyeur “do bem” que representou no longa anterior do diretor. E Liz usa sua melhor arma, a sedução, como forma de entreter o médico. E que baita cena sensual vemos a seguir, meus amigos! Talvez seja uma das cenas mais eróticas de um filme do De Palma, por mais que seja uma cena muito mais de provocação do que de nudez. É após o ato audacioso de Liz que a personagem travesti esquizofrênica ataca novamente.

Uma pena que o filme não tenha sido bem recebido pelos críticos americanos na época de seu lançamento. A maioria só conseguiu vê-lo como uma cópia vulgar de PSICOSE, sem prestar atenção ou perceber a profundidade dos dramas de seus personagens (as lutas interiores de Liz, Kate, Peter e Elliott), que talvez venham muito mais da vida e das neuroses de próprio De Palma do que de uma vontade de, simplesmente, fazer um remake mais sangrento e atualizado para tempos de slashers do clássico de Hitchcock. 

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TÉCNICA DE UM DELATOR (Le Doulos)

O filme que escolhi para homenagear Jean-Paul Belmondo foi também minha estreia no cinema de Jean-Pierre Melville, muito provavelmente o maior cineasta do gênero policial do cinema francês. E foi bom ver o quanto os franceses se alimentaram do noir americano, com seus personagens amorais e um tipo de iluminação belamente contrastante, mas adotando um ritmo mais lento, o que acaba por acentuar e enfatizar os momentos de violência mais brutal. A primeira vez que vemos um assassinato em TÉCNICA DE UM DELATOR (1962) é de fato assustador. Em seguida, há aquela cena com Belmondo e uma mulher que é impressionante. Por vezes fiquei um tanto perdido na trama complexa e cheia de personagens, mas o diretor parece se divertir com isso, com as tramas de traição entre polícia, ladrão, suposto informante etc. E Belmondo está ótimo, embora, durante a maior parte do tempo o protagonista do filme seja Serge Reggiani.

HOMENS INDOMÁVEIS (Silver Lode)

Olhando a lista dos 1.000 filmes essenciais de Jonathan Rosebaum, estava em busca de um grande western que ainda não tivesse visto e que fosse fácil de achar no meu acervo. E eis que vejo este maravilhoso filme de Allan Dwan, HOMENS INDOMÁVEIS (1954), um de seus mais cultuados trabalhos, e que também funciona como uma das melhores obras sobre o mccarthismo. Mas o mais importante é como ele funciona como um suspense eletrizante cuja trama se passa em tempo real, ainda que isso não seja citado. Acompanhamos o drama de Dan Ballard (John Payne), um homem que tem seu casamento interrompido por um bandido disfarçado de agente federal (Dan Duryea). Curiosamente, o nome do personagem de Duryea é McCarty. Durante a maior parte do tempo, Dan precisa provar sua inocência, enquanto sua situação vai se complicando cada vez mais, já que a maior parte da cidade passa a vê-lo como um criminoso traidor. Destaque para um plano-sequência que mostra Dan atravessando quatro quarteirões, tentando se esquivar dos bandidos, da polícia e da própria população enlouquecida. A direção de fotografia é do lendário John Alton. Filme presente no box Cinema Faroeste Vol. 5.

sexta-feira, setembro 10, 2021

MALIGNO (Malignant)



Uma das coisas mais legais de uma entrevista que James Wan deu ao site Bloody Disgusting foi a comparação que ele fez de MALIGNO (2021) com suas visitas às seções de filmes de terror das videolocadoras em fins dos anos 1980 e início dos 90. Essas seções ficavam em um local mais escondidinho do espaço, por causa das capas nem sempre bonitinhas, e ele fazia questão de procurar aqueles filmes um pouco mais desconhecidos e que traziam capas intrigantes e chamativas; e ele alugava sem saber nada a respeito. MALIGNO é, para o diretor, como um daqueles filmes que ele pegava no fundo das prateleiras.

A sensação de ver o filme é de certa forma parecida, pois vamos descobrindo sobre o que se trata aos poucos. É uma obra enigmática. O trailer, felizmente, não entrega muita coisa. O filme começa como uma obra visualmente (e belamente) estranha, que parece trazer mais uma vez os clichês de casa assombrada que Wan tão bem sabe dominar, vide seus ótimos trabalhos em SOBRENATURAL (2010), INVOCAÇÃO DO MAL (2013) e suas respectivas continuações. Porém, há algo de muito mais estranho no novo filme, como se predominasse o interesse pela beleza das imagens em detrimento da construção narrativa e da intenção de assustar.

Tanto que o segundo ato parece seguir descolado de trama, lembrando alguns filmes cultuados do Lucio Fulci ou do Dario Argento. E há o tom over (de atuações, inclusive) que faz tudo parecer um objeto muito estranho, que, para muitos, acostumados com um tipo de naturalismo mais vigente nas produções atuais, pode ser encarado como uma falha, um problema. E essa estranheza já começa do prólogo, que dá o tom, inclusive já apresentando os close-ups de forte expressividade.

Mas no terceiro ato Wan nos surpreende e nos prova mais uma vez que é o um dos mestres do novo horror americano, ao lado de Mike Flanagan, Jordan Peele, Ari Aster e Robert Eggers. Mas, enquanto Wan parecia ser o que mais estava disposto a se situar dentro de um tipo de narrativa mais clássica, principalmente em seus filmes de casa assombrada, os outros seguiam por caminhos mais modernos. Eis que, em MALIGNO, Wan faz algo que foge completamente do que se esperava até então.

Falando sobre a oportunidade de ter feito um filme como esse, ele diz: “eu não sei quando eu terei a chance de fazer algo tão louco e tão ultrajante quanto isso novamente, então eu peguei essa oportunidade”. E essa chance surgiu com o sucesso tanto dos filmes de terror, quanto da boa recepção de AQUAMAN (2018), que ganhará uma sequência, já em fase de produção. Ou seja, se para cada blockbuster desses ele ganhasse a liberdade de fazer um ou dois filmes tão originais quanto MALIGNO, seria um sonho. Até porque já, faz um tempo, o gênero terror é um dos mais rentáveis e atrativos nos cinemas. 

Além de trazer influências fortes do horror italiano e do giallo, lembramos também do tipo de body horror muito mais comum nos filmes do gênero das décadas de 1970 e 80. Lembrei-me de THE BROOD - OS FILHOS DO MEDO, de David Cronenberg; de IRMÃS DIABÓLICAS, de Brian De Palma; de TENEBRE, de Dario Argento. Aliás, juntar esses três cineastas e pescar o que há de comum nessas e em outras obras e pensar em MALIGNO é uma forma de ver o quanto aquele tipo de cinema mais visceral, mais gory e também muito forte do ponto de vista espiritual pode render uma nova obra tão original, tão bonita e com um senso de humor tão próprio. É difícil não assistir à cena da delegacia e não dar aquele sorriso de orelha a orelha.

Na trama, Annabelle Wallis, a atriz de ANNABELLE (2014), é uma jovem mulher que está grávida de seu namorado agressivo. Numa das primeiras cenas do filme ficamos bastante desconfortáveis com o momento de violência doméstica. Aliás, é possível que essa temática seja uma das chaves para entender um dos temas, mas acredito que existem outras. Então, depois do ocorrido, com o namorado dormindo no sofá e ela dormindo na cama, algo estranho ocorre, uma entidade que só aparece como uma silhueta no escuro, os ataca à noite. É também o momento em que a protagonista experimenta a sensação de ver a morte acontecendo do ponto de vista do assassino. Ou seja, um elemento muito recorrente nos gialli.

No mais, o ideal é não contar muito da trama para não estragar as surpresas . Por mais que o enredo seja menos importante do que a forma do filme, ele é também essencial. E é, junto com outros elementos, o que torna MALIGNO um dos filmes mais interessantes, bonitos e surpreendentes do ano.

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MANIAC COP - O EXTERMINADOR (Maniac Cop)

A notícia de que John Hyams, diretor de SOZINHA (2020), seria um dos responsáveis pelo remake ou reimaginação de MANIAC COP - O EXTERMINADOR (1988) trouxe um interesse para que eu aproveitasse o box Slashers V para ver o filme original, escrito por Larry Cohen e dirigido por William Lustig. E é uma delícia de filme B, que foge bastante da tradicional matança de pessoas jovens ou adolescentes nos slashers tradicionais. Seria mais uma junção de slasher com filme policial, como foi a ideia que Cohen teve numa conversa bem informal com Lustig. E a ideia nem é tão absurda assim. Ao contrário, há muitas pessoas que têm medo da polícia nos Estados Unidos, principalmente negros ou latinos. Gosto de como o filme não se importa muito com a interpretação dos atores, mas como, mesmo assim, eles funcionam muito bem nos papéis e no resultado final. Principalmente Tom Atkins, mas também Bruce Campbell e Laurene Landon. Não fiquei tão interessado em ver as continuações, mas valeu demais conferir este pequeno clássico.

MIA

Antes, quando eu via filmes sobre relacionamentos sexuais baseados em violência (s&m etc), eu não ficava pensando no que levava as pessoas a fazerem tais atos; para mim, elas apenas estariam curtindo suas fantasias. Embora a atração por este curta tenha se devido inicialmente a esse mesmo motivo, os trabalhos realizados hoje em dia já trazem em seu próprio enredo algo que problematiza esse tipo de relação. No caso de MIA (2017), curta-metragem de Oriol Colomar, a personagem que gosta de ser objeto sexual e de dominação de seu namorado, perto do final o filme procura falar um pouco de questões de traumas de seu passado. De todo modo, o filme não chega a ser tão violento quanto poderia ser; na verdade, é bem sensual e intrigante. Até queria que fosse um longa. A atriz é ótima!

terça-feira, setembro 07, 2021

TERAPIA DE DOIDOS (Home Movies)



Assim como aconteceu comigo nesses anos todos de cinefilia, sem me interessar muito pelas comédias de Brian De Palma, o público não ficou muito animado com o lançamento de TERAPIA DE DOIDOS (1979), após um momento em que o cineasta já havia ficado famoso pelos gêneros terror e suspense. De fato, é um filme um pouco estranho, mas bastante familiar se pensarmos em suas primeiras comédias dos anos 1960, como QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (1968) e FESTA DE CASAMENTO (1969). Na verdade, esta nova comédia representa um momento em que De Palma precisava esfriar a cabeça da frustração das filmagens e dos resultados de A FÚRIA (1978).

Assim, ele resolve voltar às origens, fazendo uma produção mais barata, do seu próprio bolso, e com a ajuda dos amigos Steven Spielberg e George Lucas. Voltar às origens também significa, no caso de TERAPIA DE DOIDOS, voltar às origens familiares, já que é aqui que encontramos a maior quantidade de elementos autobiográficos já vistos na obra do cineasta. Tanto que o filme se tornou uma obra de referência quando alguns jornalistas fazem perguntas sobre a vida pessoal do diretor. Ele diz: "veja TERAPIA DE DOIDOS, está tudo lá".

E de fato é impressionante o quanto o diretor, mais do que nunca se desnuda. No entanto, como o registro usado foi o da farsa, sente-se um distanciamento maior entre memória e ficção, além também de um pouco de acidez ao tratar de um dos temas que mais se manifestam em seus trabalhos, a manipulação – basta lembrar dos personagens Swan, em O FANTASMA DO PARAÍSO (1974), e Childress, em A FÚRIA. Assim, ele não poupa nem a própria mãe, que depois descobriria ser uma pessoa que apelava bastante para a chantagem emocional. Até a suposta tentativa de suicídio dela é posta em xeque, já que, no filme, a mãe apenas simula ter tomado várias pílulas, e acaba tendo que fazer uma lavagem estomacal, de todo modo.

Assim, estão presentes no filme o adultério do pai, a chantagem da mãe, a maluquice do irmão “gênio”, o flagra utilizando câmera, a dor de ser considerado um filho menos importante pelos pais e mesmo assim se esforçar para ser visto como melhor do que o irmão. Além do mais, ele lida com suas neuroses: seu sentimento de culpa ao desejar a namorada do irmão James (Gerrit Graham) e também de, com frequência, ser também, de certa forma, manipulador, ao tentar tirar Kristina (Nancy Allen), do irmão, apresentado como um sujeito um tanto assexuado, ou mesmo impotente. Ele tenta tirar Kristina do vício na carne, tornando-a vegetariana, e nos prazeres do sexo, sendo que ele mesmo não fazia sexo com ela e a proibia de voltar à vida mais livre que levava.

E o curioso é que o próprio Keith Gordon, o intérprete de Denis, o jovem alter-ego de De Palma, disse ter sentido uma paixonite por Nancy Allen na época das filmagens, mas que sentia um pouco de culpa pelo fato de ela ser a namorada do diretor. Isso é curioso pois Gordon ainda era muito garoto para ela. Mas quem nunca, hein? Gordon, posteriormente, se tornaria diretor também e diz que deve muito a De Palma. Hoje, lembro e gosto de seu trabalho na direção em AMOR MAIOR QUE A VIDA.

De Palma também gosta de exercitar outras comparações que provavelmente o ajudaram a superar certos traumas, como fazer um paralelo entre ele e o pai. Logo no começo, Denis está dando uns amassos em uma garota no sofá da sala e é flagrado pela mãe, que fica horrorizada, mas depois que o pai entra em casa, a reclamação dela é com os dois, já que ela mesma havia acabado de flagrar o marido com uma enfermeira (ele era médico). Além do mais, por diversas vezes, tanto ele quanto o pai tentam, de alguma maneira, se aproximar com segundas intenções de Kristina, uma garota tão doce e gentil quanto sensualmente natural.

Uma coisa que acho que não funciona muito bem no filme é a participação de Kirk Douglas, como uma espécie de guru de Denis, em sua evolução de voyeur para cineasta. Douglas faz o papel do Maestro e sua presença serve para dar ao filme um toque de metalinguagem. O fato é que uma coisa não exclui a outra e a qualidade voyeurística do cinema de De Palma nunca deixou de se fazer presente, de uma forma ou de outra. Uma coisa que o Maestro diz a Denis é que “voyeurs não participam de suas próprias vidas. Eles são basicamente figurantes, não personagens principais.”

Quando o filme se aproxima do fim, com um tom um tanto amargo, ao mostrar as frustrações de Denis e sua solidão, há um final definitivo que é claramente artificial, que foi sugerido por amigos, já que o final triste não combinaria muito com o tom do filme. Esse final feliz, porém, acaba sendo ainda mais deslocado, fica parecendo um sonho de Denis, ao ter Kristina de volta à vida e em seus braços. No fim das contas, exatamente por não ser facilmente comprado, esse final funciona para nos lembrar de que a realidade é muito mais cruel do que aquele final feliz montado.

+ DOIS FILMES

SHIVA BABY

Uma estreia muito feliz a de Emma Seligman neste SHIVA BABY (2020), que parte de uma situação cheia de surpresas dentro de um espaço familiar onde geralmente as pessoas devem manter uma aparência aceitável perante uma sociedade tradicional, em um tom bem humorado, para ir se encaminhando para algo um pouco mais dramático e até tomando emprestado algo de terror psicológico, com um uso de trilha sonora que beneficia a situação perturbadora da protagonista. Mas, no final, depois de tantas situações que o filme nos brinda, o tom de bom humor acredito que é o que predomina. O que é aquela cena da van? Maravilhosa! A história é divertida já do ponto de partida: uma estudante de faculdade se encontra com os pais para uma reunião pós funeral de um conhecido da família. Lá ela acaba encontrando alguém que não esperava, seu sugar daddy, além de sua paquera ou quase ex-namorada dos tempos de escola. O fato de a ação se passar quase o tempo todo dentro de uma casa relativamente pequena para tantas pessoas passa um ar claustrofóbico interessante. Sem falar que a diretora se mostra muito habilidosa em trafegar por tanta gente em espaços apertados.

TRAMA DIABÓLICA (Homicidal)

PSICOSE é um filme tão maravilhoso que até os que tentam encontrar uma espécie de fórmula nele como guia, como este TRAMA DIABÓLICA (1961), acabam se beneficiando de alguma maneira. Sem falar que William Castle era um mestre na arte de criar algo diferente para atrair a plateia. Neste aqui, ele chega a desafiar o público a ficar na sala de cinema em um momento-chave de suspense da narrativa. Não deixa de ser um exagero para a cena em si, por mais que ela seja mesmo muito boa, mas ela se torna memorável por causa dessa brincadeira de Castle. As semelhanças com PSICOSE também se apresentam na escolha de certos ângulos (o carro de Marion Crane; a escada da Mansão Bates etc). A trama já começa muito envolvente, com uma loira fazendo um convite a um empregado de hotel. O resto da trama é tão cheia de situações imprevisíveis que é melhor não contar.

domingo, setembro 05, 2021

O ÚLTIMO ÊXTASE



É muito curioso ver O ÚLTIMO ÊXTASE (1973) e procurar entendê-lo dentro da mitologia de Marcelo, o alter-ego de Walter Hugo Khouri. Mas antes é preciso lembrar que esse personagem ainda estava em formação. Para se ter uma ideia, ele surgiu pela primeira vez como um simpático jovem de vinte e poucos anos em AS AMOROSAS (1966) e esta foi sua segunda aparição, como um adolescente de 18 anos. Em seguida ele aparece morto em O DESEJO (1975), como uma espécie de fantasma. É como se o cineasta, mesmo que inconscientemente, tivesse que matá-lo para trazê-lo de volta como o vampiro insaciável e amargo.   

Khouri havia saído do bergmaniano AS DEUSAS (1972), filme tão herdeiro de PERSONA, que parece também inalcançável ou intangível. Em O ÚLTIMO ÊXTASE, começa-se a aprofundar o personagem Marcelo (vivido pelo filho Wilfred Khouri), que encara a figura de um homem de meia idade (Luigi Picchi) que muito nos faz lembrar o Marcelo que já estamos acostumados a ver nos filmes posteriores, estrelados por atores mais maduros.

A intenção de Khouri mais uma vez é tratar menos do desejo e mais da angústia. Esse sentimento está presente desde o começo. Estamos vendo dois casais de jovens belos e na flor da idade acampando, se beijando, tomando banho nus no rio, mas é como se uma nuvem negra estivesse pairando no ar sempre. E é o protagonista que traz esse mal estar; ele é uma pessoa difícil de ser compreendida, por mais que a câmera nos aproxime de seu olhar. A câmera, que utiliza o zoom com frequência, parece desejar compreender a alma do personagem. Mas há também uma curiosa sensação de que a câmera observa às escondidas os personagens. Isso se explícita no momento em que eles sentem a presença de um animal selvagem, na floresta. 

Lilian Lemmertz, grande musa do cineasta, está mais uma vez presente e representa um misto de figura materna e objeto de desejo. Ela surge após uma forte chuva que derruba a barraca onde dormem os quatro jovens e convida-os para tomar o café-da-manhã perto do luxuoso trêiler onde ela e o marido (Picchi) se instalaram. Todos os jovens ficam animados com a companhia dos novos vizinhos, exceto Marcelo. A bela loirinha Marta (Dorothée Marie Bouvyer) fica logo com os olhos brilhando com o luxo, ela que estava reclamando da falta de grana do namorado Jorge (Ewerton de Castro). Ele, por sua vez, fica interessado na mulher mais madura (Lemmertz). E Marcelo fica enciumado com o quanto sua namorada Lucy (Ângela Valerio) demonstra alegria com a companhia dos demais. Esse ciúme se apresenta como uma possessividade doentia do personagem, um tipo de insegurança que não estávamos acostumados a associar ao personagem mais famoso de Khouri.

Mas claro que é possível estabelecer uma conexão entre a insegurança do jovem e o futuro do personagem, à construção de uma busca de prazer insaciável com muitas mulheres e a um casamento fracassado. Quanto à relação incestuosa que ele teria com a filha em EU (1987), talvez isso esteja presente nas entrelinhas do que ele conta da primeira vez que acampara naquele mesmo lugar, quando dormiu deitado entre o pai e a mãe. Por mais que esse tipo de informação não diga muita coisa, o olhar sombrio de Marcelo ao falar disso com seriedade pode ajudar a dizê-lo.

De uma forma ou de outra, o importante é que essa dificuldade de encontrar certezas dentro do universo khouriano funciona como um convite para que possamos, sempre, com prazer revisitar suas obras. O sentimento de angústia é contagioso, eu sei, mas há algo de identificação que sempre me atrai a seus filmes.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

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A CADELA (Liza / La Cagna)

O cartaz de A CADELA (1972) e um pouco de seu conceito têm um quê de exploitation, mas quem procura vê-lo esperando algo do tipo vai ter um bocado de decepção. Outros atrativos são a direção de Marco Ferreri e a presença de um dos casais mais legais da história do cinema, Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni. Na história, ele é um cartunista que prefere adotar uma vida reclusa em uma ilha deserta, tendo uma esposa e uma filha em Paris. Ela é uma mulher de passado desconhecido que vem parar na ilha e se apaixona por ele. A questão de ela querer substituir o cachorro vem de ela ter sido responsável pela morte do bichinho. Mas daí não há muita coisa que anime amantes de s&m, não. É tudo muito sutil. E também um bocado aborrecido. Curioso o momento que o personagem de Mastroianni viaja para Paris e o filme parece se transformar em outro. Principalmente na breve cena com Michel Piccoli.

RAÇA MALDITA (The Killing Kind)

Talvez PSICOSE seja a mais influente obra do gênero horror de todos os tempos. Neste filme de Curtis Harrington também temos uma figura materna forte e um rapaz com problemas sexuais que acaba se tornando um psicopata. Mas na década de 1970 não havia mais tanta necessidade de dar muitas explicações sobre as questões psicológicas dos personagens, tudo era mais facilmente compreendido pela nova sociedade. RAÇA MALDITA (1973) começa com o jovem John Savage sendo levado a estuprar, junto com seus amigos, uma jovem. Ele não consegue, mas mesmo assim é preso por dois anos. Quando volta para casa, seus instintos de vingança, de frustração sexual e sua relação estranha com a mãe vão acumulando situações tensas e mortes. A direção de fotografia é de Mario Tosi, que anos depois trabalharia com De Palma em CARRIE, A ESTRANHA. O uso de tons suaves de luz e cor comparecem neste filme também. Filme presente no box Obras-Primas do Terror 15.