sexta-feira, abril 02, 2021

MEU PAI (The Father)



Com esses tempos loucos, manter uma rotina minimamente normal, como cinéfilo, tem sido uma tarefa um tanto difícil pra mim. Na verdade, já estava, antes do aumento no índice de contaminação da Covid e que levou a um novo lockdown em meu estado. Mas piorou nos últimos meses, principalmente por causa da notícia de mortes de pessoas queridas. Ontem mesmo, recebi a notícia do falecimento da Susana, ex-colega de trabalho e parceira de almoço na época da CABEC. Junte-se a isso um aumento em meu quadro da ansiedade que tem me impossibilitado de ver alguns filmes sem ter de dar pausa ou mesmo voltar a cena. Ontem, por exemplo, acabei desistindo de ver dois filmes, por falta de concentração.

A própria temporada do Oscar, que costumo receber com animação e muito interesse de ver todos os indicados principalmente no cinema, neste ano, com quase tudo (ou tudo) tendo que ser visto em casa mesmo, aquela impressão de que estamos diante de vários filmes medianos e um tanto chatos fica no ar, embora eu saiba que há muito de minha cisma (muitas vezes injusta) com as produções da Netflix.

Porém, no meio de tudo isso, um dos filmes recentes que eu consegui ver com atenção, entusiasmo e também muita emoção foi este MEU PAI (2020), filme de estreia do romancista e dramaturgo francês Florian Zeller, adaptando sua própria peça, mas com uma sensibilidade puramente cinematográfica ao fazer a transição para as telas, sem que parecesse teatral. Os resquícios do teatro talvez estejam mais presentes na montagem em blocos de cenas bem destacadas do que nos diálogos, que seguem uma linha mais naturalista.

Um dos grandes trunfos do filme é a atuação brilhante de Anthony Hopkins, no papel de Anthony, o senhor de 80 anos que sofre de demência. O ator, que tem várias décadas de serviços prestados ao cinema, estava há um tempo no piloto automático durante algumas décadas no novo milênio, após suas brilhantes performances em O SILÊNCIO DOS INOCENTES (que lhe rendeu um Oscar) e em VESTÍGIOS DO DIA. Mais recentemente, ele chamou novamente a atenção como o Papa Bento XVI em DOIS PAPAS, de Fernando Meireles.

Vale dizer que ter Anthony Hopkins em MEU PAI era uma obsessão de Zeller, que quis filmar em inglês e não em francês e mudou o nome do personagem original da peça para Anthony para conseguir o sim de Hopkins, que para Zeller é o melhor ator vivo. E o diretor sabia que não ia ser fácil conseguir um ator como Hopkins logo em seu primeiro filme, mas ao que parece todo mundo saiu satisfeito no final. E a imagem que eu tive de Hopkins recentemente não era muito boa, depois de ver o que ele disse para David Lynch, ao chamá-lo em seu camarim durante as filmagens de O HOMEM-ELEFANTE e dizer ao jovem Lynch que ele não tinha o direito de dirigir aquele filme e depois pediu ao produtor que ele fosse demitido após desentendimentos durante as filmagens.

Mas o que Hopkins faz em MEU PAI é extremamente comovente. O ator se entrega ao papel de cabeça neste personagem cujo problema de memória o deixa bastante perturbado. Como o filme é visto pelo ponto de vista de Anthony, então nos colocamos em seu lugar diversas vezes. Dizer isso é dizer que também nos sentimos frágeis, inseguros, perdendo controle de tudo ao redor, até o ponto de desabar de tristeza, dor e impotência, de frente para nossa própria mortalidade.

Como se já não bastasse toda a construção fílmica ser tão bem desenvolvida e absurdamente bonita (inclusive na direção de arte, fotografia, trilha sonora etc.), Zeller, Hopkins e toda a equipe nos brindam com uma das melhores cenas finais dos últimos anos. De arrepiar. Mas antes de encerrar, é preciso destacar o ótimo desempenho de Olivia Colman (Oscar de melhor atriz por A FAVORITA), como a filha de Anthony. Seu papel é sóbrio, sem muitos arroubos, passando em seu olhar o sentimento de tristeza pela condição do pai, mas também tendo pensamentos nada nobres sobre dar um fim àquela situação. Se bem que essa e outras cenas que mostram ações e pensamentos da personagem de Colman podem ter vindo da mente confusa de Anthony. Ou não? De todo modo, essa sensação de confusão faz parte da experiência que é ver MEU PAI.

MEU PAI recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator (Anthony Hopkins), atriz coadjuvante (Olivia Colman), roteiro adaptado, montagem e desenho de produção.   

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ TRÊS FILMES  

DRUK - MAIS UMA RODADA (Druk)

Achei este filme de Thomas Vinterberg surpreendente em muitos aspectos. E ousado ao não ser tão moralista ou dogmático ao tratar do uso do álcool. DRUK - MAIS UMA RODADA (2020) é também um filme sobre a química do nosso corpo e como essa química pode ser usada para nosso benefício ou para a nossa desgraça. Como estava esperando uma obra muito carregada de dramaticidade, fiquei surpreso com as várias situações cômicas que aparecem, com os momentos divertidos por que passam os quatro amigos em sua experimentação perigosa. Mads Mikkelsen mais uma vez entrega uma bela atuação. Gosto de como ele convence como uma pessoa fragilizada. Por outro lado, vejo problemas nas cenas de sala de aula, que poderiam ter sido um pouco mais bem construídas. DRUK recebeu indicações ao Oscar  nas categorias de direção e filme internacional. 

MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE (Minari)

Um filme que demora um pouco a dizer a que veio, ou a se apresentar mais interessante ou emocionante, mas gosto muito da relação que se estabelece entre o garotinho e a vovozinha, mais até do que a situação tensa no relacionamento do casal vivido por Steven Yeun e Yeri Han. Mas é a parte final de MINARI - EM BUSCA DA FELICIDADE (2020) que apresenta uma situação que me pareceu até um pouco desonesto como modo de desmerecer as intenções do personagem de Yeun de ser bem-sucedido em seu projeto de fazenda. Talvez eu tenha percebido um pouco de ambiguidade no epílogo e isso tenha tornado o filme de Lee Isaac Chung mais simpático pra mim. Ainda assim, preferia que fosse um filme mais enfático na exaltação da vida. MINARI recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, ator (Steven Yeun), direção, atriz coadjuvante (Yuh-Jung Chung), roteiro original e trilha sonora. 

NOMADLAND

Essa coisa de jogar muito peso e expectativa em um filme é algo muito ruim. Não que eu não tenha gostado do filme de Chloé Zhao, mas todas as cenas mais bonitas e sutis em sua carga dramática cuidadosamente segura teriam chances talvez de me pegar pelo sentimento mais do que pegaram. O que eu achei mais interessante mesmo em NOMADLAND (2020) foi ver esse grupo de pessoas que vivem on the road, em RVs, pegando bicos para sobreviver em um país pós-crise de 2008 e ainda não reerguido. Quanto à personagem de Frances McDormand, o que me deixou mais próximo dela foi essa vontade de trabalhar, essa necessidade que ela tinha de estar sempre ocupada, já que carregava muito a dor de uma perda. Fiquei muito curioso com o método da diretora de usar não-atores para a construção do filme; se foi algo acidental ou já pensado para cada história individual. No mais, quem sabe um dia eu o revejo no cinema e tenha uma experiência emocional mais intensa. NOMADLAND recebeu indicações aos Oscar nas categorias de melhor filme, atriz (Frances McDormand), roteiro adaptado, montagem e fotografia. 

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