Já faz um tempo que eu estava namorando a possibilidade de fazer uma peregrinação pela obra de Anthony Mann, ou seja, ver tudo o que for possível dele, de preferência em ordem cronológica. Mas pensava: nem sequer consegui finalizar a filmografia do Samuel Fuller. E aí fui esperando a hora. Porém, de uns dias pra cá, um fórum de que participo começou a disponibilizar links de vários filmes do realizador e fui formando pastinhas e ficando com água na boca para começar logo a ver, mesmo sabendo que ele tem uma quantidade bem expressiva de créditos na direção. (São 43 títulos, sendo que dois deles são perdidos: foram produções experimentais para a televisão, na virada dos anos 1930 e 40, quando a TV não fazia parte ainda da vida do povo americano.)
Curiosamente, ao buscar um filme do diretor para ver, não foi desses links que peguei, mas de uma das coleções de filmes noir da Versátil. FORASTEIRO DA NOITE (1944) foi o mais antigo que consegui encontrar até agora dele. Pode ser que consiga outros, mas sei também que antes deste trabalho Mann realizou alguns musicais e comédias que não me parecem tão atraentes, mas que podem, sim, ser bem legais.
Devido à pequena duração (56 min), FORASTEIRO DA NOITE aparece como extra do box Filme Noir Vol. 17, o sétimo filme do pacote. Nos anos 1940, várias produções mais baratas possuem essa duração, às vezes passando apenas um pouco de uma hora de duração. O que sei é que dei uma sorte danada de escolher logo um filme tão saboroso, tão empolgante e sem nenhuma gordura ou atropelos e conseguir nos fazer ficar apreensivos com os personagens principais e com o que a velha antagonista é capaz de fazer.
Na trama, um sargento da marinha chamado Johnny Meadows sofre na guerra e é encaminhado de volta para casa. Seu maior interesse naquele momento é finalmente encontrar uma jovem chamada Rosemary com quem ele estava se correspondendo, a partir de um endereço constante num livro usado que ele lia. Logo depois, conhecemos duas mulheres, a dona de uma casa, uma senhora idosa chamada Sra. Hilda e sua ajudante, Sra. Ivy. A Sra. Hilda tem uma obsessão por um retrato pintado de uma menina chamada Rosemary, que diz ser sua filha. É também na casa de Hilda que chega a médica que será fundamental para a trama, a Dra. Leslie, interpretado por uma apaixonante Virginia Grey.
No dia que está no trem, é o momento que ele encontra essa Dra. Leslie, e há uma química que se vê logo de cara e que nos ganha. Assim como nos surpreende o que vem logo a seguir no trem, o quanto os efeitos práticos da época, mesmo em produções baratas, como esta da Republic, são eficientes. O som também ajuda a trazer impacto para a cena. Mas o impacto mesmo virá quando o jovem militar chegar à casa da Sra. Hilda, em busca da tal Rosemary.
Achei a história tão boa que até fui pesquisar pra ver se ninguém teve a ideia de fazer um remake, já que o filme é curto, que cairia na obscuridade se não fosse o nome de Mann na direção e também não contasse com o resgate da Film Noir Foundation. Que bom que há essa empresa que valoriza e restaura verdadeiras pérolas do cinema, como é o caso de FORASTEIRO DA NOITE, que já tem aquele jogo de luz e sombras tão característico do ciclo noir. Há tanto esse trabalho de apontar as sombras no aspecto plástico quanto no aprofundamento da personalidade dos personagens, por mais que no caso deste filme B mais humilde o ritmo mais rápido seja necessário para que a obra caiba numa sessão dupla com um filme classe A.
+ TRÊS FILMES
O MUNDO EM PERIGO (Them!)
Um filme que influenciou não apenas as demais produções que trouxeram insetos gigantes, O MUNDO EM PERIGO (1954) também é influência em clássicos mais recentes, como ALIENS, O RESGATE, de James Cameron, e TROPAS ESTELARES, de Paul Verhoeven. Hoje os efeitos especiais estão bem datados, mas quase tudo que foi feito no gênero sci-fi na década de 1950 é assim (desse período, só lembro de O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, que ainda impressiona em seus efeitos). O MUNDO EM PERIGO capta bem o espírito de seu tempo. Não era só o Japão que havia ficado traumatizado com a bomba atômica, mas os próprios americanos ficaram paranoicos, esperando serem atingidos por uma bomba a qualquer momento. A Guerra Fria estava só começando. Mas para esse tipo de produção eu só consigo pensar na primeira discussão entre os executivos, que talvez tenham partido de um cartaz de filme, de um desenho, de uma ideia, para, só depois, desenvolver um roteiro e tentar bolar meios de materializar essa ideia: ou seja, a ideia de formigas que ficam gigantes e ameaçam não só o deserto do Novo México e a Califórnia, mas a humanidade inteira. A salvação vem de dois cientistas: um idoso (Edmund Gwenn) e sua filha (Joan Weldon), justamente os personagens mais carismáticos do filme. Mas gosto de como o filme trabalha bem o coletivo desde o começo, quando dois policiais estaduais encontram no deserto uma garotinha em estado de choque. Há um trabalho muito bom de desenvolvimento da narrativa e a finalização é caprichada. Por mais que as formigas não sejam convincentes isso acaba sendo um detalhe com um aspecto humano da produção. Visto no box Clássicos Sci-Fi: Anos 50 – Vol. 5, que conta com uma apresentação de Gabriel Carneiro.
A CICATRIZ (Hollow Triumph / The Scar)
Muito da força de A CICATRIZ (1948), de Steve Sekely e Paul Henreid, está na composição visual do lendário diretor de fotografia John Alton. O barato da trama é que ela não se preocupa em realismo: tudo está em prol da ideia de um criminoso (Paul Henreid) de conseguir elaborar uma estratégia supostamente perfeita para conseguir escapar da polícia e dos gângsteres. Essa estratégia surge quando ele descobre que existe um sósia seu, um homem cujo rosto é a cópia igual ao seu, com a exceção que esse homem, um psicanalista, possui uma cicatriz. Então, o plano do protagonista passa a ser tomar o lugar desse homem. A partir do momento que a história se encaminha para esse instante, o filme vai ficando mais empolgante. Pena que o protagonista seja uma pessoa tão odiável a ponto de não torcermos por ele no que se refere ao romance com a personagem da secretária do psicanalista (Joan Bennett). Ou seja, o cara é perverso demais, cínico demais para que torçamos por ele na conclusão, que ganha contornos um pouco mais românticos, e mais trágicos. Mas não torcermos pelo protagonista criminoso (e desta vez assassino) faz com que sua corrida para a vitória perca a força. Mas ainda assim, gosto demais do aspecto estranho do filme, do absurdo da situação, quase tão absurdo quanto um A OUTRA FACE, de John Woo, mas com um pé maior, obviamente, no realismo. Acho um barato as cenas dele tentando se adequar à identidade do morto sem saber sequer o nome da esposa ou dos amigos. Além do mais, há vários momentos de impacto visual impressionante, graças a movimentações de câmera e jogos de luz e sombra, como na cena em que o personagem de Henreid atravessa a rua para entrar na casa da personagem de Bennett, já perto do final. Gosto também da ironia da trama. Do destino desse personagem. Visto no box Filme Noir Vol. 8.
A NOIVA DO INFERNO (Botan-dôrô)
Um conto moral sobre um homem que se apaixona por uma fantasma que revela mais a maldade dos vivos do que o perigo dos mortos. A NOIVA DO INFERNO (1968), de Satsuo Yamamoto, conta com pelo menos dois atores conhecidos dos filmes de Akira Kurosawa e possui uma elegância na direção que chama a atenção logo no início, quando o protagonista se vê encurralado por seus familiares para se casar com uma mulher que não ama. No dia do festival Obon, que no folclore japonês corresponde um pouco ao Dia dos Mortos no México, o protagonista conhece duas mulheres, sendo que fica encantado com a mais jovem. As duas o reencontram e logo se inicia um relacionamento entre ele e essa moça mais jovem. O que ele não sabe (embora o espectador saiba logo de cara) é que aquelas mulheres estão mortas. De início, elas não contam a verdade para ele, mas uma vez que ele fica sabendo o filme ganha contornos de filmes de exorcismos em comunidade, como O LAMENTO, de Na Hong-jin, ainda que a produção aqui seja muito mais modesta. Inclusive, eu diria que é um dos méritos do filme: ser claramente barato e conseguir desenvolver tão bem a atmosfera, além de ter que lidar com os figurinos e a direção de arte para recriar uma comunidade do período (século XVII). O filme é baseado num conto folclórico que se tornou bastante popular no teatro kabuki, e cuja trama é similar a de outros filmes mais famosos, como CONTOS DA LUA VAGA de Kenji Mizoguchi, e KWAIDAN, de Masaki Kobayashi. Visto no box Obras-Primas do Terror – Horror Japonês 2.
O MUNDO EM PERIGO (Them!)
Um filme que influenciou não apenas as demais produções que trouxeram insetos gigantes, O MUNDO EM PERIGO (1954) também é influência em clássicos mais recentes, como ALIENS, O RESGATE, de James Cameron, e TROPAS ESTELARES, de Paul Verhoeven. Hoje os efeitos especiais estão bem datados, mas quase tudo que foi feito no gênero sci-fi na década de 1950 é assim (desse período, só lembro de O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, que ainda impressiona em seus efeitos). O MUNDO EM PERIGO capta bem o espírito de seu tempo. Não era só o Japão que havia ficado traumatizado com a bomba atômica, mas os próprios americanos ficaram paranoicos, esperando serem atingidos por uma bomba a qualquer momento. A Guerra Fria estava só começando. Mas para esse tipo de produção eu só consigo pensar na primeira discussão entre os executivos, que talvez tenham partido de um cartaz de filme, de um desenho, de uma ideia, para, só depois, desenvolver um roteiro e tentar bolar meios de materializar essa ideia: ou seja, a ideia de formigas que ficam gigantes e ameaçam não só o deserto do Novo México e a Califórnia, mas a humanidade inteira. A salvação vem de dois cientistas: um idoso (Edmund Gwenn) e sua filha (Joan Weldon), justamente os personagens mais carismáticos do filme. Mas gosto de como o filme trabalha bem o coletivo desde o começo, quando dois policiais estaduais encontram no deserto uma garotinha em estado de choque. Há um trabalho muito bom de desenvolvimento da narrativa e a finalização é caprichada. Por mais que as formigas não sejam convincentes isso acaba sendo um detalhe com um aspecto humano da produção. Visto no box Clássicos Sci-Fi: Anos 50 – Vol. 5, que conta com uma apresentação de Gabriel Carneiro.
A CICATRIZ (Hollow Triumph / The Scar)
Muito da força de A CICATRIZ (1948), de Steve Sekely e Paul Henreid, está na composição visual do lendário diretor de fotografia John Alton. O barato da trama é que ela não se preocupa em realismo: tudo está em prol da ideia de um criminoso (Paul Henreid) de conseguir elaborar uma estratégia supostamente perfeita para conseguir escapar da polícia e dos gângsteres. Essa estratégia surge quando ele descobre que existe um sósia seu, um homem cujo rosto é a cópia igual ao seu, com a exceção que esse homem, um psicanalista, possui uma cicatriz. Então, o plano do protagonista passa a ser tomar o lugar desse homem. A partir do momento que a história se encaminha para esse instante, o filme vai ficando mais empolgante. Pena que o protagonista seja uma pessoa tão odiável a ponto de não torcermos por ele no que se refere ao romance com a personagem da secretária do psicanalista (Joan Bennett). Ou seja, o cara é perverso demais, cínico demais para que torçamos por ele na conclusão, que ganha contornos um pouco mais românticos, e mais trágicos. Mas não torcermos pelo protagonista criminoso (e desta vez assassino) faz com que sua corrida para a vitória perca a força. Mas ainda assim, gosto demais do aspecto estranho do filme, do absurdo da situação, quase tão absurdo quanto um A OUTRA FACE, de John Woo, mas com um pé maior, obviamente, no realismo. Acho um barato as cenas dele tentando se adequar à identidade do morto sem saber sequer o nome da esposa ou dos amigos. Além do mais, há vários momentos de impacto visual impressionante, graças a movimentações de câmera e jogos de luz e sombra, como na cena em que o personagem de Henreid atravessa a rua para entrar na casa da personagem de Bennett, já perto do final. Gosto também da ironia da trama. Do destino desse personagem. Visto no box Filme Noir Vol. 8.
A NOIVA DO INFERNO (Botan-dôrô)
Um conto moral sobre um homem que se apaixona por uma fantasma que revela mais a maldade dos vivos do que o perigo dos mortos. A NOIVA DO INFERNO (1968), de Satsuo Yamamoto, conta com pelo menos dois atores conhecidos dos filmes de Akira Kurosawa e possui uma elegância na direção que chama a atenção logo no início, quando o protagonista se vê encurralado por seus familiares para se casar com uma mulher que não ama. No dia do festival Obon, que no folclore japonês corresponde um pouco ao Dia dos Mortos no México, o protagonista conhece duas mulheres, sendo que fica encantado com a mais jovem. As duas o reencontram e logo se inicia um relacionamento entre ele e essa moça mais jovem. O que ele não sabe (embora o espectador saiba logo de cara) é que aquelas mulheres estão mortas. De início, elas não contam a verdade para ele, mas uma vez que ele fica sabendo o filme ganha contornos de filmes de exorcismos em comunidade, como O LAMENTO, de Na Hong-jin, ainda que a produção aqui seja muito mais modesta. Inclusive, eu diria que é um dos méritos do filme: ser claramente barato e conseguir desenvolver tão bem a atmosfera, além de ter que lidar com os figurinos e a direção de arte para recriar uma comunidade do período (século XVII). O filme é baseado num conto folclórico que se tornou bastante popular no teatro kabuki, e cuja trama é similar a de outros filmes mais famosos, como CONTOS DA LUA VAGA de Kenji Mizoguchi, e KWAIDAN, de Masaki Kobayashi. Visto no box Obras-Primas do Terror – Horror Japonês 2.








