Achava que ficaria mais empolgado com os filmes de Samuel Fuller - do mesmo modo que fiquei com os filmes de Fritz Lang. Alguns me trouxeram esse entusiasmo que tanto esperava, como ANJO DO MAL (1953) e CASA DE BAMBU (1955), provavelmente seus dois filmes mais próximos do noir (apesar das cores vibrantes do segundo). Não posso esquecer de sua estreia, EU MATEI JESSE JAMES (1949), que adorei nas duas vezes que vi. Por enquanto, essa é minha trinca favorita do realizador.
Fui aprendendo a gostar de seus filmes de guerra, e até agora tenho MORTOS QUE CAMINHAM (1962) em mais alta conta, pelo menos enquanto não chega a revisão de AGONIA E GLÓRIA (1980), que vi nos tempos do VHS e tenho recordações boas, ainda que nubladas. E aí há esse espírito dos filmes B que causam certa estranheza, como se Fuller preferisse ficar na lista de cineasta da terceira prateleira - achei interessante esse tipo de classificação, que está longe de ser preconceituosa, principalmente se já gostamos de diretores menos celebrados em listas mais convencionais.
Que os trabalhos de Samuel Fuller têm esse espírito de filme B com muita frequência a gente entende. Mas PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963) talvez seja o que mais se entrega de maneira embriagada a esse aspecto. A trama é exploitation, o estilo de interpretação e o uso dos pensamentos do protagonista fazem parecer que estamos lendo uma história em quadrinhos ou alguma novela pulp, o que às vezes me deixava intrigando, mas às vezes também me distanciava do filme.
Uma das coisas que tenho aprendido é que nem sempre eu vejo os trabalhos de Fuller com um prazer enorme. Suas obras acabam crescendo depois de tê-las visto. Esta história sobre um jornalista que se disfarça de doente mental em hospital psiquiátrico para desvendar um assassinato ocorrido lá e depois ganhar o prêmio Pulitzer tem alguns momentos que desafiam o que geralmente é considerado de bom gosto. Enquanto isso, a namorada do rapaz, uma stripper, fica indignada com o plano, muito preocupada com a saúde mental do herói, o que é uma preocupação mais do que justa.
O filme é dividido em blocos e há aqueles que são dedicados às conversas do infiltrado com os pacientes, de modo a obter deles as pistas e a resposta final para a solução do caso. Fuller aproveita para alfinetar a própria estrutura violenta dos Estados Unidos, em especial na cena do homem negro que agora se vê como um membro da KKK.
Não é o primeiro dos filmes de Fuller a tratar de pessoas vivendo em espaços estranhos, ou estrangeiros. CASA DE BAMBU nos apresenta a um homem também infiltrado, desta vez no crime; RENEGANDO MEU SANGUE (1957) é sobre um homem que abandona sua pátria depois da Guerra da Secessão para viver com os indígenas; A LEI DOS MARGINAIS (1961) é também sobre um homem que se infiltra na máfia, desta vez por vingança.
O que me ganha em PAIXÕES QUE ALUCINAM é a estranheza, e há algumas cenas incríveis, como a da chuva "dentro do hospital", ou as cenas em que o herói sente dificuldade de falar depois de ter passado por um tratamento de choque.
Visto no box A Arte de Samuel Fuller.
+ TRÊS FILMES
SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA
Simplesmente louvável a iniciativa que estamos testemunhando da remasterização caprichada de alguns clássicos do cinema brasileiro. Que bom chegou a vez de SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA (1965), um dos maiores filmes do nosso cinema de todos os tempos e uma das duas obras-primas de Luiz Sérgio Person, morto precocemente aos 40 anos num acidente de automóvel que nunca foi devidamente solucionado. Falando em automóvel, é de Person a obra que melhor expressa a São Paulo dos anos 1960, por mais que NOITE VAZIA, de Walter Hugo Khouri, chegue pertinho. Mas a São Paulo de Person é mais completa, por assim dizer, diurna e noturna, com pobres e ricos dividindo o mesmo quadro, assim como o enfoque na indústria automobilística, lugar onde se passa parte da história de Carlos, um dos personagens mais trágicos e angustiados da história do cinema brasileiro. Walmor Chagas está impecável como este homem confuso, que quer ficar em paz, mas sua angústia o faz querer se casar com Luciana (Eva Wilma). A excelente montagem nos leva para diferentes momentos de sua vida e diferentes mulheres que conheceu, como a existencialista Hilda (Ana Esmeralda) e a ambiciosa Ana (Darlene Glória, estreando nas telas). Fiquei me perguntando diversas vezes quais seriam as principais inspirações de Person para seu estilo. Lembra tanto o cinema italiano daquele período, como Antonioni, principalmente, mas também faz lembrar o cinema americano do período do noir, em especial na cena em que Eva Wilma é vista na janela, em contraste, depois do episódio de perturbação do marido. Rever no cinema SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA é uma tarefa essencial para todo cinéfilo que se preze.
HANYO, A EMPREGADA (Hanyeo)
É interessante como certas cinematografias que hoje são muito fortes tiveram um início tão humilde, por assim dizer. É o caso da cinematografia sul-coreana, que só foi começar com alguma força nos anos 1950, mas quase sempre com o predomínio do melodrama. HANYO, A EMPREGADA (1960) é um dos maiores clássicos dos coreanos, com um enredo que mistura horror com melodrama, num conto que é tão moralista quanto transgressor. Na trama, um professor de piano de classe média, casado, com dois filhos e com um encomendado na barriga da esposa, se vê numa teia de intriga e chantagem da empregada doméstica, a quem ele engravida. E isso é só o começo de uma trama cheia de surpresas, de exageros, de um interesse em dançar com o grotesco. Não sei se gosto do epílogo, mas imagino que tem a ver com o aspecto moralista da trama. Num filme noir americano dos anos 1940, homens se entregavam a femme fatales sem tanto sofrimento interior. Não é o caso do protagonista dessa história. Aliás, em determinado momento da trama, lembrei-me de O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, com a sujeição da esposa, que no caso aqui também não é exatamente uma santa. O filme apresenta um retrato familiar em forma de pesadelo de forma brilhante. Visto no box Obras-Primas do Terror - Horror Asiático.
A MORTE FEZ UM OVO (La Morte Ha Fatto l’Uovo)
É impressionante como alguns anos são tão marcantes que chegam a imprimir seu próprio espírito nas obras, onde quer que elas sejam produzidas. É muito fácil pegar um filme de 1968 e se deparar com narrativas estranhas, imagens intrigantes, quase como se tivesse sido feito à base de alguma substância química, ou à base da matéria dos sonhos. Dizer que A MORTE FEZ UM OVO (1968) é uma espécie de giallo surrealista destaca mais sua estranheza do que sua história que teria que ter assassinos e mortes para ser considerado giallo. Há neste filme de Questi duas situações, na fuga do cinema mais industrial: primeiro há o fato de que os gialli desse período anterior a O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, do Argento, são bem mais diferentes mesmo, ainda não haviam se cristalizado como gênero; depois, temos o próprio diretor, Questi, que foi um artista que se negava a se entregar a uma linha de produção. Nesse sentido, a própria trama que traz uma granja industrial sofisticada de um casal de burgueses traz esse ar anti-sistema. Enquanto via o filme ficava impressionado com o quanto Questi tratava de subverter nossas expectativas. Jean-Louis Trintignant e Gina Lollobrigida encabeçam o elenco como o casal de burgueses. Ele tem um segredo, além de sabermos que tem um caso com a secretária (Ewa Aulin). Há também o medo que sentem dos trabalhadores, que abandonam o emprego revoltados com as condições de trabalho e o pagamento injusto. Por isso, o que vemos é também um filme sobre luta de classes, ainda que não tão direto assim. Gosto muito da cena de Trintignant com Aulin no carro e depois no bosque. Bem cheia de mistério e excitação. Fiquei curioso para ver os outros dois filmes mais comentados de Questi, o western spaghetti DJANGO VEM PARA MATAR (1967) e o terror O PODER DO EXORCISMO (1972). Dizem que há coisas em comum entre os três filmes que vão além do ativismo político e comunista de Questi e suas intenções de fazer obras que fujam do que se espera dos gêneros. No volume 13 da coleção Giallo, há um interessante extra sobre esses três filmes, além de uma entrevista com o cineasta.
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