O cinema de Richard Linklater é geralmente verborrágico. E muitas vezes a gente adora, mesmo assim. Na verdade, o que a gente ama mesmo são os filmes da trilogia “Before”, mas a filmografia do “Rohmer texano” tem coisas muito interessantes, como sua busca por recortes na vida de personagens históricos. Foi assim com NEWTON BOYS – IRMÃOS FORA-DA-LEI (1998), com EU E ORSON WELLES (2008), e nesse 2025 Linklater fez uma dobradinha, já que lançou NOUVELLE VAGUE, sobre os bastidores de ACOSSADO, de Godard, que acabei não vendo ainda, e este BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO, indicado ao Oscar de ator.
O que me agradou bastante neste filme foi o quanto comecei a me solidarizar com um personagem que a princípio me parecia quase insuportável, um compositor de clássicos do cancioneiro americano, que está na pior, já que seu parceiro de composição está em cartaz com uma peça musical que está dando o que falar, feita com outro letrista. Ele se sente traído, mas também se sente velho, feio, sua baixa estatura mexe com sua autoestima e, em determinado momento, quando seu parceiro começa a falar um pouco de sua obra ele fica bastante incomodado: fala para não dizer nada de seu trabalho artístico, pois é a única coisa que lhe restou.
Ethan Hawke faz esse homem de 47 anos, Lorenz Hart, co-compositor de “Blue Moon” e outros clássicos da música, atualmente interessado numa jovem numa jovem de cerca de 20 anos, vivida por Margaret Qualley. Ao ser questionado sobre suas preferências sexuais, já que tem fama de gostar de rapazes, ele diz que é um apreciador da beleza. E aí não importa o gênero.
Aliás, a conversa de Hart com essa jovem é um dos momentos mais bonitos do filme. Lá estava aquele homem mendigando o amor daquela linda mulher, ouvindo detalhes íntimos sobre o rapaz por quem ela se apaixonou. É uma cena de doer o coração. Destaco também a cena em que ele conversa na escada com seu parceiro Richard Rogers (Andrew Scott), que também enfatiza o momento de tristeza imensa desse homem, que se sente traído, mas que também tem consciência de que muito de seu declínio veio do alcoolismo.
Do ponto de vista formal, não há tantas qualidades assim em BLUE MOON. Os movimentos de câmera são sutis o suficiente para ficarmos interessados só nas conversas e na alma de Hart. E Hawke faz um belo papel. Um dos melhores de sua carreira de ator. Além do mais, ele deve ter gostado, já que é um entusiasta de boa música.
+ TRÊS FILMES
BUGONIA
Emma Stone em sua quarta parceria com Yorgos Lanthimos segue fazendo sucesso, por mais que não repita a mesma excelência de POBRES CRIATURAS (2023). Estaria mais para um episódio estendido de TIPOS DE GENTILEZA (2024), seu filme em segmentos. Isso porque passa a impressão às vezes que BUGONIA (2025) se estende mais do que deveria em sua duração, mas pode ser só uma impressão mesmo, já que considero absolutamente brilhante o jogo de nervos que existe entre os personagens de Stone e Jesse Plemons, um dos grandes atores de sua geração. Aqui ele interpreta um sujeito que tem a convicção que uma empresária (Stone) é uma alienígena com a intenção de dominar o planeta Terra. Junto com seu fiel escudeiro, um sujeito com pouca capacidade de pensar vivido por Aidan Delbis, os dois conseguem capturar a mulher, raspando sua cabeça e passando-lhe um creme no corpo. A gente vê o personagem de Plemons e imediatamente pensa num desses solteirões revoltados que se alimentam de teorias da conspiração, muitos deles associados à extrema direita. Lanthimos, porém, tem um senso de humor todo próprio e sabe usá-lo mesmo quando sua narrativa intensifica a tensão e o desconforto, como na cena da tortura. Gosto do plot twist, até por não se levar tão a sério. O domínio de direção, narrativa e de atuações de Lanthimos segue sendo admirável.
FRANKENSTEIN
Os filmes de Guillermo del Toro são sempre uma surpresa pra mim, no que se refere ao meu amor ou desamor por eles. Na verdade, equilibrando a balança há mais filmes de que pouco gosto do que filmes que amo. Amo O LABIRINTO DO FAUNO (2006), A COLINA ESCARLATE (2015) e um lá do início de sua carreira, CRONOS (1992). Há aqueles que considero aborrecidos e aqueles que são simpáticos, e que até são exemplares de sucesso, como A FORMA DA ÁGUA (2017), mas que não me dizem nada. Gosto de seu amor pelos monstros, acho louvável ter alguém dentro de Hollywood que tenha conseguido financiamento para seus projetos mais pessoais, como é o caso de FRANKENSTEIN (2025), que não se propõe a ser uma adaptação fiel ao romance de Mary Shelley, e vejo isso como algo bom. Tanto que fiquei feliz quando vi que seu monstro é diferente, é mais humanizado e mais trágico e existencialista. Em alguns momentos me lembrei dos quadrinhos do Surfista Prateado da época do Stan Lee e do John Buscema. Fiquei até me perguntando se teria sido uma inspiração. Por outro lado, como bom apreciador do cientista mais frio e diabólico dos Frankensteins da Hammer, fiquei um tanto desapontado com esse Victor Frankenstein do Oscar Isaac. Não que o ator esteja ruim: ele segue as orientações e a criação de Del Toro. De todo modo, como em todo filme do realizador mexicano, há uma fotografia esplêndida e uma direção de artista lindíssima. Aqui o uso do verde e do vermelho nas vestimentas e nos cenários está de dar gosto. Pena que a história se arraste de forma tediosa, apesar da boa presença de cena de Mia Goth, sempre que aparece. Achei difícil comprar o amor dela pela criatura; mas talvez esse seja o ponto fraco do realizador, por mais que alguém vá discordar lembrando justamente do oscarizado A FORMA DA ÁGUA. Que foi seu último filme com roteiro original: depois desse, só adaptações de clássicos da literatura, uma espécie de remake (O BECO DO PESADELO, 2021). Não que isso limite um autor. Mas a verdade é que de nada adiantam boas ideias se o resultado carece de força.
MARTY SUPREME
Ainda não aprendi a relaxar com os filmes dos Safdy. O fim das sessões de BOM COMPORTAMENTO (2017) e JOIAS BRUTAS (2019) me deixaram um bocado desnorteado e até com dor de cabeça. Com a “separação” dos irmãos em diretores-solo, percebe-se que vem de Josh a ansiedade, que se repete de maneira mais ambiciosa em MARTY SUPREME (2025), um filme maior, mais longo e com um ator também mais interessado na grandiloquência, o jovem Timothée Chalamet, aqui vivendo um obcecado jogador de ping pong, que quer provar ser não apenas o melhor de seu país, mas o melhor do mundo. Mas menos importa a história e mais o estilo com que Josh Safdy opta por usar, seja pela câmera na mão e nervosa, pelos personagens histéricos, ou pela fotografia (em película) escura e com menos nitidez do iraniano Darius Khondji. Fiquei feliz quando vi o nome de Abel Ferrara nos créditos (como ator) e não me decepcionei, já que sua presença ocasiona algumas das melhores e mais intensas cenas, como a cena da banheira ou a do tiroteio. Ter Ferrara como ator é como ter um padrinho de primeira. O personagem de Chalamet não é exatamente um herói para ser gostado. Ele é naturalmente egoista, mas tem, sim, suas qualidades, como a obsessão por lutar por aquilo que deseja, mesmo que para isso tenha que roubar ou se humilhar. Gosto das cenas com Gwyneth Paltrow, mas também acho que houve uma ótima química com a jovem Odessa A'zion, que aparece numa das primeiras cenas como um interesse amoroso/sexual com Marty, e puxa os créditos com “Forever Young”, do Alphaville. Aliás, é interessante o filme se passar nos anos 1950 e trazer canções dos anos 1980. Isso traz um estranho sentimento de deslocamento.
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