segunda-feira, maio 31, 2021

LES CHOSES QU'ON DIT, LES CHOSES QU'ON FAIT



É curioso notar como Mouret está cada vez mais saindo do território da comédia e adentrando o melodrama de cabeça. A própria estrutura de LES CHOSES QU'ON DIT, LES CHOSES QU'ON FAIT (2020), composta por vários flashbacks, lembra bastante os trabalhos feitos na velha Hollywood (e também no velho cinema francês), por gente como Douglas Sirk, Max Ophüls e Vincent Minnelli, mas também há algo de François Truffaut, especialmente no flashback que mostra a tentativa de dois rapazes apaixonados pela mesma mulher morarem numa mesma casa, que remete a JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS.

Na trama, Maxime (Niels Schneider, visto no excelente UM AMOR IMPOSSÍVEL) chega para passar uns dias na casa do seu amigo François (Vincent Macaigne, sempre ótimo), mas esse amigo não está lá, está viajando a trabalho. A namorada grávida de três meses de François, Daphné (Camélia Jordana, vista em O ORGULHO), é que muito gentilmente o recepciona. Daphné fica sabendo que Maxime andou passando por situações amorosas difíceis ultimamente, e que provavelmente estaria ali para espairecer, esquecer um pouco o ocorrido e quem sabe começar a escrever o seu primeiro romance.

Daphné se oferece para escutar a história de Maxime, caso ele não se importe de contar a ela, ou caso ele se sinta à vontade para tal. Ele reluta um pouco, mas logo começamos a entrar em sua história, que envolve duas jovens mulheres e um amigo, mas principalmente sua paixão (ou seria amor?, ou desejo apenas?) por Sandra (Jenna Thiam, vista em PARIS 8). O questionamento sobre o real sentimento de Maxime por essa mulher surge depois. É uma constante nos filmes de Mouret, esse posicionamento de dúvida e também de insegurança.

Com o tempo que Maxime e Daphné têm juntos naquele espaço campestre de verde paradisíaco, eles alternam suas histórias. E Mouret faz isso elaborando sempre links entre o fim de parte de uma história e o início de parte da outra. A história de Daphné nos diz como ela conheceu François, um homem que foi aceito em sua vida por causa de um sentimento de rejeição que ela teve pelo fato de estar apaixonada pelo chefe e de não haver reciprocidade. Assim, aos poucos, ela foi se aproximando de François, apesar de ele ser casado. Dentro do flashback de Daphné há um flashback de François, que conta um pouco do ambiente familiar e do que ocorre entre ele e a esposa Louise (Émilie Daquenne, eternamente lembrada pelo papel-título em ROSETTA, dos irmãos Dardenne).

Aliás, vale lembrar que, das 13 indicações ao César, o único prêmio que o filme levou foi o de atriz coadjuvante para Daquenne. Prêmio justíssimo, e esse brilhantismo da atriz no filme só apareceria numa espécie de quebra da estrutura original da narrativa, próximo do final, em que Mouret faz um arremate brilhante e emocionante. É como se o realizador fizesse uma variação de algo visto de maneira similar em seus filmes anteriores - UM NOVO DUETO (2013), ROMANCE À FRANCESA (2015) e MADEMOISELLE VINGANÇA (2018), em que personagens agem conscientemente numa demonstração de espírito superior.

A opção de utilizar uma seleção de música erudita (não original), a exemplo do que costumava fazer Stanley Kubrick, traz uma impressão de atemporalidade para as histórias de paixões, contradições e perdas, narradas no fluxo de consciência dos atormentados personagens, que vivem situações em que a vida lhes prega peças.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

A CULPA DOS PAIS (I Bambini Ci Guardano)

Do box "O Cinema de Vittorio De Sica", resolvi começar pelo mais antigo dos seis filmes, para talvez ter uma melhor noção da evolução do diretor, apesar de já conhecer as obras-primas LADRÕES DE BICICLETA (1948) e UMBERTO D. (1952). A CULPA DOS PAIS é um melodrama social sobre um garoto que sofre depois que a mãe resolve sair de casa para ficar com o amante. Há algo de moralista que me incomoda um pouco, na visão irresponsável que pinta a mãe do garoto, mas é compreensível pela sociedade da época. Além do mais, existem mães irresponsáveis mesmo. O forte do filme talvez seja o fato de ser narrado majoritariamente pelo ponto de vista do menino. É ele quem mais importa, no fim das contas. É um filme que já adianta o grande cineasta que estava se formando, com suas preocupações humanas.

ME SINTO BEM COM VOCÊ

Gosto dos filmes de Matheus Souza. Eles têm uma cara própria, uma aproximação com a geração millennium que não vejo em outros filmes, além de serem herdeiros espirituais do cinema de Domingos de Oliveira. Há até a participação de Priscilla Rozenbaum, viúva de Domingos, neste novo filme. ME SINTO BEM COM VOCÊ (2021) é impregnado de uma melancolia que eu não estava acostumado a ver nos outros filmes do realizador/ator, muito, claro, por causa das circunstâncias, o afastamento, a pandemia, o fato de ser um filme feito à distância com aparelhos eletrônicos de comunicação e distanciamento social, enquanto milhares de vidas estão indo embora. No que se refere à melancolia, é o extremo oposto do festivo TAMO JUNTO (2016), mas na intimidade com as mídias sociais como elementos de aproximação, é uma espécie de continuação de ANA E VITÓRIA (2018). Aqui temos cinco histórias sobre diferentes vivências (duas irmãs que sentem a falta da falecida mãe, um rapaz e uma moça que tinham uma relação baseada apenas em sexo antes da pandemia, duas moças apaixonadas uma pela outra, um casal vivendo uma crise dentro do apartamento). Há alguns momentos de rara beleza e há outros momentos que se beneficiariam de uma edição. Ainda assim, é um filme que é a cara do nosso momento, feito dentro das possibilidades e muito coerente com a poética de seu autor.

sábado, maio 29, 2021

MIRACLE MILE



Há um par de meses vi este MIRACLE MILE (1988) sem saber nada a respeito. E digo uma coisa: é a melhor coisa a fazer. Saber um pouquinho sequer da trama pode estragar um pouco o prazer que é ficar impressionado com cada momento deste filme, segundo e último longa para cinema dirigido por Steve De Jarnatt e presente no box Clássicos Sci-Fi Vol. 7. Ao que parece, esse cineasta, que agora mora em uma casa no interior ao lado de um bunker que ele mesmo construiu, parecia ser mesmo a pessoa ideal para dirigir esta obra tão singular.

MIRACLE MILE é fantástico, louco, eletrizante e também profundamente romântico. Começamos com os dois protagonistas, Anthony Edwards e Mare Winnigham, se conhecendo, por acaso (?), em um museu natural. O início do filme já denuncia um pouco sobre tratar-se de uma obra ao mesmo tempo intimista, com uma voice-over de Edwards falando sobre encontrar alguém, e um vídeo explicando a origem do universo. Ou seja, o filme lida com duas escalas.

A trama começa com o encontro desses dois jovens que têm um amor à primeira vista e curtem bastante esse pouco tempo que passam juntos. Trocam os números de telefone. Em seguida, porém, o personagem de Edwards ouve, por acaso, no orelhão, uma ligação informando que, em 50 minutos, boa parte dos Estados Unidos (senão todo o mundo ocidental) seria destruído por uma bomba nuclear. E, ao saber disso, qual é a principal preocupação do rapaz? Tentar escapar, mas principalmente tentar salvar a mulher amada que àquela hora devia estar dormindo.

Claro o enredo que não é tão simples assim. Muita coisa acontece. As cenas no café durante a madrugada, quando o herói tenta falar sobre isso com as pessoas que lá estão, têm uma carga de desespero forte. Mas há algo que ultrapassa o desespero (um sentimento compreensível diante de tal situação), que é a vontade imensa de viver intensamente cada minuto. Esse sentimento é exponencializado com o fato de o filme conseguir passar o clima de noite/madrugada, auxiliado pela pouca movimentação daquela área de Los Angeles. A noite possui algo de misterioso por si só, e o filme, com sua carga surreal, acentua esse mistério.

Então, junta-se à noite o anseio para ver a pessoa amada o mais rápido possível, a vontade de permanecer vivo para experienciar o novo amor e todas as situações loucas que se apresentam ao longo da narrativa.  Assim, estamos diante de uma obra que até pode falar com os nossos tempos perigosos, por mais que seja um filme nascido de um outro zeitgeist, o medo de uma bomba nuclear ocasionado pela Guerra Fria, pela disputa de nervos entre Estados Unidos e União Soviética, que na era Reagan foi novamente intensificada.

Há quem costume comparar este filme a WEEK-END À FRANCESA, de Jean-Luc Godard, que infelizmente ainda não vi, mas é possível também fazer comparações com outro filme sobre o iminente fim do mundo, 4:44 - O FIM DO MUNDO, de Abel Ferrara, que também traz essa expectativa pelo fim de tudo, mas de uma maneira mais zen, mais espiritualmente preparada. Em ambos os filmes, o fim está relacionado a uma irresponsabilidade do ser humano. O filme de De Jarnatt, porém, parece mais "americano", tanto pelo consumismo quanto pelo egoísmo. Mas esses dois ismos servem como pano de fundo para o que realmente importa: a salvação ou o abraço final do casal apaixonado. Enquanto isso, a trilha sonora do Tangerine Dream embala esse pacote perfeito e infelizmente ainda pouco conhecido.

+ DOIS CURTAS

ALÔ TETÉIA

10 minutos de sorriso de orelha a orelha. É o que ALÔ TETÉIA (1978), estreia na direção de José Joffily, oferece ao espectador. Na simples trama, Louise Cardoso (linda!) é uma jovem burguesa que se prepara para ir à praia. Porém, depois que o carro não pega, ela tenta transportes alternativos para curtir o seu domingo (imagino que seja um domingo). É interessante como o cinema brasileiro desse período (anos 70), mesmo feito por pessoas de bom poder aquisitivo, gostava muito de apresentar a pobreza com certa crueza, mas também com muita simpatia, o que faz com que a antipatia da personagem de Louise seja um combustível para essa crônica social feita com bom humor. Anselmo Vasconcelos está ótimo como o trocador do ônibus.

LICK THE STAR

Curta que antecedeu a estreia na direção de longas de Sofia Coppola, este LICK THE STAR (1998) tem uma atmosfera que antecipa o estilo e um pouco das obsessões da diretora, como o tédio e o espaço de pessoas da elite. A trilha sonora remete a bandas com vocal feminino dos anos 1990 e a trama não parece ter mais importância do que o visual, o que também parece ter continuado a valer para alguns de seus trabalhos. A trama envolve um grupo de meninas e a relação que elas têm com uma garota cheia de si. Destaque para a fotografia em p&b e para a participação especial de Peter Bogdanovich como o diretor da escola.

terça-feira, maio 25, 2021

NOITE EM CHAMAS



É sempre um prazer ver um filme de Jean Garrett, um dos mais cultuados e queridos cineastas da história do cinema brasileiro, embora muitos só estejam descobrindo a força de sua obra tardiamente. Este NOITE EM CHAMAS (1978) pode até não estar entre suas obras-primas, mas é, do ponto de vista da produção, a sua obra mais ambiciosa. Afinal, não é fácil trazer dezenas de atores e atrizes conhecidos, boa parte deles dos filmes da Boca do Lixo, e preparar um mosaico de diferentes vidas dentro de um hotel que está prestes a ser consumido pelas chamas por ação de um dos funcionários. Sim, seria uma espécie de versão brasileira de INFERNO NA TORRE, de John Guillermin.

O que torna NOITE EM CHAMAS muito mais do que uma perna desse subgênero é o talento de Jean Garrett, com uma ajuda muito bem-vinda de Carlão Reichenbach no roteiro, mas também como ator. Ele interpreta um jornalista à procura de um rapaz foragido e que supostamente estaria naquele hotel. Só de ver o Carlão atuando, já vale. Se não me engano, suas outras aparições como "ator" eram apenas pontas.

Garrett constrói neste filme-coral um monte de dramas humanos acontecendo entre os hóspedes do tal Passport Hotel, que abriga pessoas da alta sociedade, como uma atriz famosa do cinema erótico (Maria Lucia Dahl), dois rapazes que encomendam o serviço de cinco prostitutas (uma delas, a elegantíssima e sempre apaixonante Helena Ramos), o tal rapaz procurado pela polícia, um sujeito apaixonado pelo próprio touro etc.

Mas a melhor de todas as pequenas histórias é a do homem que pretende terminar com a amante (Zilda Mayo), enquanto a esposa está ali do lado esperando ele acabar com aquele relacionamento. O problema é que as coisas não são tão fáceis assim para o término do caso. Essa história é o melhor alívio cômico do filme e é também bastante carregado de uma latinidade que às vezes demoramos a associar com o Brasil. Pode ser visto como um estudo sobre a possessividade machista - o sujeito diz não querer mais se relacionar mais com a mulher, mas não quer sequer imaginar ela com outro.

Outro aspecto machista bastante forte e um dos melhores momentos do filme está na história dos dois amigos que querem festejar a aprovação de um deles no vestibular. Bem que poderia haver um maior aprofundamento no que a prostituta vivida por Helena Ramos diz para o mais feio e pobre dos dois amigos, ou sobre uma suposta homossexualidade escondida dos dois, em um tipo de relação de dependência mútua. Lembra até alguns filmes do Khouri, nesse sentido. Aliás, a presença de Roberto Maya, como um guru charlatão de uma nova religião, só atesta essa intimidade com o cinema khouriano.

E no meio disso tudo está João (Tony Ferreira), um empregado do hotel que está cansado de ser o faz-tudo dali e surta de vez. João provavelmente representa o aspecto mais político do filme, que nos alerta para a perversidade de um modelo capitalista de empresa e mostra tensões de classe de maneira mais enfática do que nos outros relatos.

No fim das contas, como suposto exemplar de um disaster movie, os efeitos especiais precários e coisas do tipo acabam não importando muito em NOITE EM CHAMAS. O que mais conta são as histórias, as paixões, as inseguranças, o sexo e as explosões de ira de seus personagens que pulsam vida até quando prestes a pular de um prédio. 

+ DOIS FILMES

O QUE ELES FIZERAM A SUAS FILHAS? (La Polizia Chiede Aiuto)

Depois de O QUE ELES FIZERAM COM SOLANGE? (1972), um dos melhores gialli já feitos, Massimo Dallamano conta uma outra história envolvendo jovens estudantes em perigo. Mas a pegada em O QUE ELES FIZERAM A SUAS FILHAS? (1974) é diferente. Está mais para filme policial mesmo, inclusive com cenas de perseguição automobilística. O filme já começa com uma jovem sendo encontrada enforcada pela polícia. A partir daí, e da certeza de que ela foi assassinada, começa-se uma corrida pelo assassino. O filme tem um charme impressionante: a música funciona bem nos momentos de mais emoção; o investigador (Claudio Cassinelli) e a procuradora (Giovanna Ralli) são personagens bem simpáticos; e não faltam momentos de violência gráfica, ainda que bem pontuais. Filme presente no box Giallo Vol. 4.

HOLIDAY

Acho difícil analisar um filme como HOLIDAY (2018), por uma questão moral, talvez. Mas é justamente por isso, além de ser também uma obra que intoxica o sangue, que merece ser visto. A diretora é estreante em longas e talvez seu crédito mais famoso seja o de roteirista de BORDER (2018), outro filme controverso e interessante. O que mais pesa positivamente é a elegância na direção dos atores, na condução da tensão, e também no modo como equilibra as cores, vivas e solares, em um enredo sombrio. Na trama, jovem mulher passa a viver com um líder de uma máfia de drogas, apesar do temperamento extremamente violento do sujeito. Isabella Eklöf foi uma das diretoras contratadas para episódios da excelente série SERVANT, sinal de que Shymalan confiou nela e a viu como um jovem talento a prestar atenção.

sexta-feira, maio 21, 2021

QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (Greetings)



Acho que cometi o erro de não começar (pra valer) a peregrinação pela obra de Brian De Palma com FESTA DE CASAMENTO (1969), seu primeiro filme a ficar pronto, mas que só seria lançado depois de MURDER À LA MOD (1968) e QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES (1968). Foi só graças ao sucesso desse segundo que o filme terminado em 1963 pôde entrar em cartaz. Ambos os filmes contam com a presença de Robert De Niro, sendo De Palma, portanto, o grande revelador do ator e não Martin Scorsese.

QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES traz um sabor de Nouvelle Vague, especialmente de Godard. De Palma era um admirador do cinema do franco-suíço e chegou a dizer em entrevista que se ele pudesse ser o Godard americano, seria ótimo. Ele completou dizendo que os Estados Unidos possuem muito mais a explorar do que a França, no que se refere a aspectos sociais e políticos. E é possível que ele tenha razão.

Seu filme capta bastante o espírito de sua época. 1968 é comumente um ano associado a revoluções pelo mundo e o cinema americano estava passando por um processo de renovação. Por isso a Nouvelle Vague parecia ser um caminho interessante para seguir. Mas há também no filme elementos dos filmes dos Beatles dirigidos por Richard Lester, A HARD DAY’S NIGHT e HELP! Isso fica explícito tanto na canção que aparece nos créditos quanto na cena em que vemos imagens rápidas dos três amigos fazendo presepadas pelas ruas.

QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES é também um filme que tem pouca preocupação com a trama, uma espécie de cinema livre que estava se tornando característico daquele período de busca de renovação da linguagem cinematográfica e também da própria sociedade, que passava por um processo de transformação. Na época da realização do filme havia uma grande preocupação nos Estados Unidos, que era a Guerra do Vietnã.

A primeira subtrama, inclusive, trata dessa questão, quando os amigos Lloyd (Gerrit Graham) e Jon (De Niro) tentam ajudar Paul (Jonathan Warden) a não ser aceito no exército - ele havia acabado de ser chamado para servir. A principal dica dos amigos era fazer com que Paul treinasse trejeitos efeminados, de modo que ele fosse rejeitado no exército por ser homossexual. Mas depois eles tentam outras coisas, como se passar por um cara de extrema direita.

O próprio De Palma afirma que também tentou técnicas para fugir do exército, seja tentando dizer que era homossexual, seja dizendo que era comunista. Por alguma razão, ele foi julgado inadequado para o exército. O filme na verdade traz vários elementos da vida do cineasta, que também era fascinado pelo mistério em torno da morte do Presidente Kennedy. Sem falar em outros aspectos de natureza mais íntima, como a insegurança no trato com as mulheres descambando em um voyeurismo nem sempre saudável, como é o caso do personagem de De Niro, que se aproxima de um estuprador, em certo sentido. Principalmente numa das últimas cenas, com uma vietnamita.

Não sei o quanto De Palma tinha consciência que estava se desnudando e ao mesmo tempo usando o cinema como divã para expor seus problemas de insegurança. Talvez houvesse um pouco dessa consciência sim. Tanto que essa questão com as mulheres, que começou a ser vista por muitos como uma espécie de misoginia, está presente ao longo de décadas de sua filmografia.

Assim como em MURDER À LA MOD, temos uma cena em que um homem pede para uma mulher fazer uma performance erótica para uma câmera, mas buscando dessa mulher certa inocência. No caso de QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES, o personagem de De Niro pede para a mulher não responder à câmera (ela insiste em responder), enquanto tira a roupa. Afinal, se ela olhasse para ele, comprometeria o próprio espírito do voyeurismo.

Há uma cena (godardiana) em que o personagem de De Niro lê um livro de psicologia para entender o porquê de ele querer espiar mulheres e o livro diz que os voyeurs geralmente sofrem de timidez e um medo terrível de rejeição. No texto que escrevi sobre DUBLÊ DE CORPO (1984), já destaquei o quanto o cineasta sofria desse medo de ser rejeitado. Mas o mais interessante é o quanto ele usou o cinema para ir aprofundando mais e mais esse problema. Além do mais, o voyeurismo e o cinema andam de mãos dadas. Logo, caiu como uma luva.

Outro tema explorado pelo filme com muito humor é o chamado “computer dating”, em que o personagem de Jonathan Warden vai tentando encontrar mulheres em situações que mais parecem retiradas dos filmes de Woody Allen dos anos 1970.

QUEM ANDA CANTANDO NOSSAS MULHERES ganhou o Leão de Prata em Veneza em 1969 e seu sucesso rendeu um milhão de dólares. Para os dias de hoje parece pouco, mas o investimento do filme foi de apenas U$ 43 mil. Logo, foi um lucro e tanto.

+ DOIS CURTAS

A MULHER FATAL ENCONTRA O HOMEM IDEAL

Antes de fazer história com o longa CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRASIL (1995), Carla Camurati dirigiu este breve e simpático curta que brinca com o glamour e reinventa o mito de Cinderella. Em A MULHER FATAL ENCONTRA O HOMEM IDEAL (1987), a própria Carla faz o papel de uma mulher que trabalha de lixeira e que, depois do contato com uma fada madrinha que aparece na televisão, se transforma numa "mulher fatal" em um mundo em preto e branco, mas muito mais generoso para ela. Há uma brincadeira com o cinema mudo, com o star system e há um jeitão de filme feito com poucos recursos, ainda que com a participação de vários rostos conhecidos do cinema e da televisão. Era o cinema brasileiro num momento bastante frágil de sua história.



Beto Brant, um dos melhores cineastas do Brasil, poucos anos antes de estrear em longa-metragem com OS MATADORES (1997), e em parceria com Ralph Strelow, fez JÓ (1993), filme sem diálogos que se passa no deserto e que tem significados que ficam no ar, mas que por isso mesmo funciona em maior escala. Ao não optar por uma obra que se fecha em significado fácil, ele convida à reflexão. Na trama, um homem vê, sentado na areia, um grupo de beduínos invadir seu território e matar brutalmente algumas crianças. Depois disso, o filme segue uma linha surrealista curiosa.

segunda-feira, maio 17, 2021

COMEDIANS IN CARS GETTING COFFEE - PRIMEIRA TEMPORADA



Decidi ver e rever os episódios desta série de Jerry Seinfeld antes de ver apenas os inéditos (para mim). E ver na ordem original, e não na ordem que a Netflix os colocou. Deve ser algum tipo de TOC que eu tenho. Pretendo ver todas as temporadas até o fim do ano. Com certeza não será nenhum sacrifício. Pra quem ainda não sabe do que se trata, COMEDIANS IN CARS GETTING COFFE, que começou na internet em 2012 (esta primeira temporada), e depois foi parar na Netflix, apresenta Jerry sempre com um carro diferente (e "antigo") convidando um amigo ou amiga para tomar um café e conversar. Raramente vou falar sobre os carros, pois é o que menos me interessa na série. 

"Larry Eats a Pancake"

O primeiro episódio é este com Larry David. É muito bonito ver a cumplicidade dos dois, o elogio que Jerry faz a Larry ao dizer que ele é a mente mais brilhante que ele conheceu. Larry nem é tão divertido assim como uma pessoa, dá mesmo pra vê-lo como um sujeito difícil de lidar. Mas é engraçada a questão que ele coloca de a mulher dele não aguentar o fato de ele tomar chá em vez de café etc. No mais, é mais um episódio de climas do que de conteúdos nas conversas, mas são de coisas simples que saíram muitas das ideias para a série clássica, como a questão de o charuto ser mais relaxante do que o cigarro. O carro usado por Jerry é um fusquinha 1952.

"Mad Man in a Death Machine"

Um dos mais divertidos episódios, muito por causa do medo de Ricky Gervais em andar no carro de 1967, sem airbag ou cinto de segurança e com Jerry dirigindo rápido feito um louco. Muito do episódio se passa dentro do carro e é muito divertido, mas a conversa no café também é, até porque Ricky está mais calmo e traz assuntos interessantes. A conversa sobre Gervais como apresentador do Globo de Ouro vem à tona, mas terminar no café com falando dos últimos dias de Hitler foi surpreendentemente hilário.

"A Monkey and a Lava Lamp"

Talvez por não conhecer Brian Regan o episódio não tenha sido divertido pra mim. Ou talvez ele não seja mesmo divertido. A melhor parte do episódio é a ida para o café aproveitando a paisagem da praia de Santa Monica e quando o carro (um Dodge 1970 Challenger, o mesmo modelo do filme CORRIDA CONTRA O DESTINO) não quer pegar. A conversa no café também não traz nada de muito interessante, mas Jerry sabe deixar tudo sempre descontraído e mesmo uma coisa como a fala de uma senhora dizendo que ele fica bem de camisa cor-de-rosa ganha significado interessante.

"Just a Lazy Shiftless Bastard"

Jerry sempre tira o melhor dos encontros que promove neste programa. E aqui ele tem sorte de ter alguém como Alec Baldwin, que combina uma segurança no que vai dizer com uma espécie de insegurança com o que conseguiu na vida. Compara seu sucesso na carreira com o sucesso do Jerry, que parece ter conseguido muito mais sem trabalhar tanto quanto ele para isso. A conversa no café é tão boa quanto a conversa no carro, com detalhes aparentemente insignificantes no pedido de Alec que fazem uma diferença enorme em se tratando de um produto feito pelo Jerry. Há algo na conversa que se destaca, que é quando Jerry diz para Alec que ele é um ótimo ator com a mente de um roteirista e o quanto isso pode ser incômodo. Destaque também para a reclamação de Alec de ter largado o sorvete por causa do problema de ganhar peso, coisa que Jerry nunca teve.

"A Taste of Hell from on High"

Talvez eu esteja ficando exigente com a série, tendo visto tantos episódios excelentes, sempre escolhendo pelo convidado. Não conheço o convidado deste episódio, Joel Hodgson, que descobri ser um stand-up comedian. Há uma cena interessante, que é quando Jerry quase atropela um ciclista, que fica fulo com ele e começa a xingar. Em vez de tentar fugir ou algo parecido, Jerry desce o vidro do carro para falar com ele, e logo o bom humor vem, quando o rapaz o reconhece. (Ou teria reconhecido Joel Hodgson?) No café, o assunto do porquê o pote de ketchup vem com a tampa na parte de baixo e faz barulho é a tônica. O que acaba importando mais é o bom humor e o bem estar do programa, que sempre escolhe um lugar diferente (creio eu). (Engraçado que com o tempo, eu que não gostava de café, passei a me tornar fã, e agora que não bebo mais álcool, a saída para um café me parece mais atraente do que a ida a um bar.)

"Unusable on the Internet"

Acredito que só tinha visto o Bob Einsten em alguns episódios de CURB YOUR ENTHUSIASM. Ao que parece se tornou amigo do Jerry por tabela por causa do Larry David. Achei o episódio um pouco desconfortável. Parece que o tipo de humor que o Einstein faz é de deixar a pessoa sem jeito. E logo o Jerry, que é mais certinho, ter que ouvir piadas de maconha e cocaína, não sei se foi muito bom. De todo modo, os dois parecem muito amigos, a ponto de dizer ou fazer o que quiserem. Foi a primeira vez que eles saíram de um café por ser muito ruim e foram parar em uma lanchonete, onde ficaram satisfeitos com a comida. O problema só achei mesmo o Einstein, um tanto sem graça.

"I Hear Downtown Abbey Is Pretty Good"

Uma pena que o episódio 7, com o Barry Marder, não tenha sido incluído pela Netflix. Há um outro com ele lá, mas é da temporada de 2019. Então, passei para este oitavo, com os amigos Mario Joyner e Colin Quinn, que eu também não conhecia. Uma coisa que me encantou neste episódio foi o passeio de carro, principalmente. Jerry vai com Colin até um café no Novo Brooklyn e lá Mario os encontra. Ao que parece Mario mora lá no bairro. E é Mario quem conta uma situação que ocorre no ônibus, de agressão a uma tentativa de assalto. E Jerry, que vive em redoma de pessoas ricas, alheio à situação de pobreza da área mais pobre da cidade, fica admirado que existe ainda esse tipo de coisa acontecendo. O espaço me pareceu agradável, ainda que um pouco apertado, mas os três pareciam muito tranquilos e à vontade.

"I Want Sandwiches, I Want Chicken"

Bem divertido este episódio em que Jerry encontra os dois grandes amigos Carl Reiner e Mel Brooks. A maior parte do episódio se passa na casa de Reiner, com a presença de Brooks, contando histórias bem legais sobre sua peça The Producers, que deu origem ao filme PRIMAVERA PARA HITLER (1967), e que fez bastante sucesso na Alemanha, inclusive. Na época da gravação do episódio os dois já tinham mais de 90 anos e esse detalhe (a velhice) é também importante na conversa que acontece na casa (e no café), mas ambos parecem muito felizes, apesar de tudo. Reiner morreu no ano passado, Brooks está com 95 anos e vivo ainda. Certamente, sentindo falta do amigo. Há uma piada recorrente e famosa de Jerry que ele lembra quando está com Reiner no café: o fato de que dar gorjeta depois que você come não parece muito justo. Afinal, depois de satisfeito, vc já não valoriza mais tanto assim aquilo que você acabou de comer.

"It's Bubbly Time, Jerry"

Segunda vez que vejo este episódio e o resultado talvez tenha sido ainda mais agradável. Na verdade, agridoce. Aqui temos de volta um ator que fez um dos personagens mais queridos da televisão, o Kramer, vivendo um momento de crise existencial provocada por uma mancada durante um show de comédia sete anos atrás. Michael Richards incorpora novamente Kramer durante todo o trajeto da sua casa até o café (ou restaurante) e, durante esse momento em que o Kramer renasce, a magia está de volta. É impressionante. E voltamos a sorrir de orelha a orelha. Mas é difícil não ficar triste nos momentos de melancolia do episódio, assim como também é comovente o quanto Richards vê em Jerry uma pessoa a quem ele deve o melhor papel de sua vida, e possivelmente os melhores momentos de sua vida, ainda que ele diga, em certo momento, que gostaria de ter se divertido mais durante o seriado. Jerry o convence de que eles estavam fazendo um show não para eles, mas para os espectadores. Episódio mágico.

sábado, maio 15, 2021

O SEPULCRO INDIANO (Das Indische Grabmal)



1959 foi um ano singular para a história do cinema. Ao mesmo tempo que apontava para um novíssimo caminho, com a estabelecimento da Nouvelle Vague francesa com filmes como OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut, OS PRIMOS, de Claude Chabrol, e HIROSHIMA MEU AMOR, de Alain Resnais, além de trazer também um cinema americano independente cheio de frescor, com SOMBRAS, de John Cassavetes, entre outros casos; os mestres estabelecidos tiveram a chance de mostrar obras-primas, como é o caso de INTRIGA INTERNACIONAL, de Alfred Hitchcock; ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks; ANATOMIA DE UM CRIME, de Otto Preminger; IMITAÇÃO DA VIDA, de Douglas Sirk, entre outros.

Nessa mesma situação, ou quase, estava Fritz Lang, desta vez de volta ao velho mundo, realizando uma terceira adaptação para o cinema do romance de Thea von Harbou. Já falei aqui sobre O TIGRE DA ÍNDIA (1959). Então, vamos falar um pouco sobre sua continuação, O SEPULCRO INDIANO (1959), que é praticamente tão boa quanto a primeira parte, exceto por uns problemas de pressa de edição em sua conclusão. Ainda assim, é desses trabalhos admiráveis, principalmente do ponto de vista formal.

E foi por esse aspecto, principalmente, que os críticos franceses da Cahiers du Cinéma elogiaram tanto o díptico aventureiro de Lang. Na edição de fim de ano da revista, nas 30 listas individuais dos críticos, os dois épicos indianos aparecem em onze (por Resnais, Rivette e Chabrol, inclusive), sendo que, em quatro dessas onze listas, os filmes aparecem em primeiro lugar. Ou seja, além do sucesso comercial que os filmes obtiveram na Europa, ainda houve a excelente aceitação dos jovens críticos franceses, que na verdade contrariavam os demais críticos do resto do mundo, que apontavam muitos defeitos ao épico indiano.

No final de O TIGRE DA ÍNDIA, o casal de amantes havia fugido, numa tentativa de deixar o país, mas acabaram sucumbindo ao cansaço e a uma tempestade de areia no deserto. No começo de O SEPULCRO INDIANO, eles são resgatados por uma comunidade humilde, mas logo são encontrados pelos guardas do marajá, que capturaram a dançarina prometida (Debra Paget). Quanto ao destino do arquiteto (Paul Hubschimid), isso fica em suspenso, já que seu corpo cai em um espaço cercado por jacarés. O personagem, que era o protagonista na primeira parte, perde o protagonismo nesta segunda. Por outro lado, entram em cena mais dois personagens importantes, a irmã do arquiteto e seu cunhado. Enquanto isso, a situação no palácio se torna instável devido a uma disputa interna de poder.

Se na primeira parte havia uma cena de dança memorável, aqui a cena de dança talvez seja ainda mais antológica. Debra Paget, usando vestimentas bem ousadas para aquela época, dança diante de uma cobra. Curiosamente, não houve muito empenho da produção em esconder os fios que faziam a cobra (mecânica) se mexer, o que passa uma impressão de desleixo, especialmente se compararmos com o cinema produzido em Hollywood. Mas não creio que isso tire a beleza do filme; só torna a cena ainda mais belamente estranha.

Assim como a primeira parte, O SEPULCRO INDIANO é um filme que tem um olhar para o passado, especialmente para filmes como AS ARANHAS (1919-20) e OS NIBELUNGOS (1924), por serem filmes em duas partes e também com um quê de vingança; e OS ESPIÕES (1928), afinal, na segunda parte as intrigas palacianas e tudo o mais envolvido lembram muito as tramas de espionagem tão caras ao cineasta. Por isso, é difícil não ficar no ar essa impressão de obra anacrônica. Mas é bom incluir um advérbio junto: deliciosamente anacrônica.

+ DOIS FILMES

UM BALDE DE SANGUE (A Bucket of Blood)

Da safra de filmes bons e baratos de Roger Corman, este UM BALDE DE SANGUE (1959) tem um senso de humor notável, que além de zoar a cultura beatnik ainda faz rir com as situações cada vez mais absurdas que o protagonista meio cabeça oca começa a cometer, depois de transformar o cadáver de um gato em uma escultura de argila e passar a ser visto como um artista muito talentoso pelo grupo de pessoas do bar onde trabalha. Corman uniria a comédia com o horror novamente um ano depois, com A LOJA DE HORRORES (1960). Filme presente no box Obras-Primas do Terror 12.

A MULHER NA JANELA (The Woman in the Window)

Não entendo como sai um filme como esses de um diretor tão hábil como o Joe Wright. Em alguns momentos de A MULHER NA JANELA (2021) é possível ver a habilidade do diretor em pequenos detalhes, como a cena da cadeira de balanço e uma visão de flashback da personagem da Amy Adams. Há outras tomadas também muito boas, mas a história ou o roteiro ou o que quer que aquilo seja parece algo feito deliberadamente para não ser levado a sério. Não que isso seja um problema, mas no fim das contas o que temos é um fracasso. Especialmente no clímax, com a luta da heroína com o vilão. Aquilo ali retirou todos (ou quase todos) os momentos de simpatia que eu tinha com o filme até então. Muito provavelmente é o caso de história de bastidor mais interessante do que o filme. Desejo ressurreição para Joe Wright depois deste filme.

quinta-feira, maio 13, 2021

O TIGRE DA ÍNDIA / O TIGRE DE BENGALA (Der Tiger von Eschnapur)



Hoje faz um ano que comecei a minha peregrinação pela obra de Fritz Lang. A intenção não era ter demorado tanto assim. Mas esse período de um ano não foi muito fácil. A gente precisa lidar com momentos de desânimo e outras tantas situações que acabam prejudicando essas coisas que tanto amo, que é ver filmes e escrever sobre eles. E gosto especialmente quando tenho a chance de estudar sobre os realizadores e suas obras maravilhosas. Felizmente este é o caso de Fritz Lang, que tantas alegrias trouxe para a humanidade em seus 43 filmes sobreviventes.

Quanto a O TIGRE DA ÍNDIA (1959), eu estava tão entusiasmado com a maravilhosa safra dos filmes do diretor produzidos nos Estados Unidos em um período de 20 anos que, a princípio, fiquei um pouco desanimado com este retorno do cineasta à Alemanha, ainda mais para dirigir uma aventura nos moldes de seus primeiros trabalhos. Acontece que O TIGRE DA ÍNDIA (ou O TIGRE DE BENGALA) é a aventura mais empolgante já dirigida por Lang (isso se não contarmos os westerns, ou talvez até mesmo se contarmos).

Ao voltar para a Alemanha, Lang resolveu pegar um roteiro que havia escrito com sua então esposa Thea von Harbou no início dos anos 1920 e que ele não pôde realizar porque o produtor Joe May queria ele mesmo dirigir o projeto. O curioso é que o filme em duas partes dirigido por May, THE INDIAN TOMB (1921), hoje é um tanto esquecido. Assim como também é, provavelmente, a refilmagem feita por Richard Eichberg, em 1938, quando Lang já havia fugido da Alemanha, também lançado em duas partes.

Lang havia ido para a Índia em 1956, em um convite para realizar um filme sobre o Taj Mahal, algo que acabou não se concretizando. Felizmente a Índia o atraiu de volta quando ele resolveu materializar aquele projeto com Thea von Harbou. E eis que surge esta maravilha em cores deslumbrantes que remete um pouco a AS ARANHAS (1919-20), no sentido de contar uma história de aventura em uma terra exótica, mas desta vez com décadas de aprendizado na arte de fazer grandes filmes.

A história é simples: arquiteto alemão (Paul Hubschmid) viaja para elaborar um projeto para um poderoso marajá no século XVIII e se apaixona por dançarina indiana (Debra Paget) que está destinada a ser princesa do tal marajá (Walther Reyer). Há momentos de perigo e tensão e termina com um gancho poderoso para que queiramos ver logo a continuação, O SEPULCRO INDIANO (1959), lançada dois meses depois.

Debra Paget, que ficou famosa por ter rejeitado Elvis Presley (os dois trabalharam juntos em AMA-ME COM TERNURA), está deslumbrante. Sua cena de dança é hipnotizante e muito sensual, seja pela dança em si, seja pelas vestimentas. 

O filme fez sucesso de público na Europa, mas não foi muito bem nos Estados Unidos. As críticas também não foram muito positivas. De certa forma é até compreensível o estranhamento, assim como é possível encontrar falhas ou ver fragilidades na obra. Do ponto de vista da psicologia dos personagens, por exemplo, eles parecem mais modelos para servirem a uma narrativa à moda antiga.

Foram os críticos franceses que perceberam a grandeza da obra. Claude Chabrol foi um dos mais entusiastas do filme, que era mais valorizado por sua perfeição formal, seu uso da decoração da estrutura espacial. Eu ainda acrescentaria o prazer de ver o filme como uma aventura empolgante, esquecendo certos detalhes hoje incômodos como todos os indianos falando alemão (na versão dublada em alemão, claro) e os personagens principais que interpretam indianos serem na verdade europeus ou americanos. Mas isso é um tipo de reclamação que talvez não combinasse muito com o cinema feito naquela época.

De todo modo, eu, que sempre preferi os filmes em preto e branco de Lang, justamente por terem esse cuidado maior com a forma, com a direção de arte, com a fotografia, tive que dar o braço a torcer com este trabalho que também sabe lidar com todos esses detalhes e ainda aproveitar muito da geografia indiana e suas cores vivas.

+ DOIS FILMES

OXIGÊNIO (Oxigène)

O novo trabalho de Alexandre Aja, OXIGÊNIO (2021), teve sua estreia mundial na Netflix nesta quarta-feira, 12 de maio. É um filme que foi feito dentro das possibilidades de um mundo numa pandemia e talvez por isso as referências à situação da Covid sejam bem explícitas. E não apenas no que se refere à falta de oxigênio que começa a acontecer dentro da câmara criogênica em que uma desmemoriada mulher (Mélanie Laurent) acorda. Aos poucos, vamos, junto com ela, desvendando os segredos daquela situação, quem ela é, por que ela está ali, qual o sentido de tudo etc. É ótima a participação de Mathieu Amalric como a inteligência artificial que conversa com a protagonista durante quase toda a narrativa.

COME TRUE

Só de ser um filme sobre investigação do fenômeno dos sonhos em uma abordagem horror e sci-fi já é de despertar o interesse. A trilha sonora com sintetizadores traz um clima 80's interessante para COME TRUE (2020), assim como a jovem protagonista (Julia Sarah Stone) tem um brilho todo próprio, desde o começo do filme, quando é alvo de bullying na escola por dormir durante a aula e estar sempre precisando de um café, até o momento que resolve participar de um experimento envolvendo sono e sonho. O momento mais fascinante deste filme de Anthony Scott Burns é o final, com um passeio dos três personagens principais pela noite. Esse diretor tem jeito de que vai ainda trazer coisas interessantes no futuro.

terça-feira, maio 11, 2021

HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry Met Sally...)



Queria estar hoje bem feliz para entrar um pouco mais em sintonia com o momento especial que foi para mim o dia em que vi no cinema HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (1989), de Rob Reiner. Na época, 1990, eu estava no último ano do ensino médio, tinha 18 anos, estava me recuperando de uma paixão que não deu certo e tinha acabado de comprar o meu primeiro par de óculos. Estava de licença remunerada do meu estágio no Banco do Nordeste e ia sozinho para o cinema, meu programa favorito.

A novidade é que esta seria minha primeira sessão de cinema usando óculos para uma miopia de três graus. Minha timidez me impedira até então de usar óculos e, por isso, chegar àquele estágio de miopia e olhar o mundo como era “de verdade” pela primeira vez foi mágico. O que mais me encantou naquela nova forma de ver o mundo foram os detalhes nas folhas das árvores. Sem os óculos, as copas das árvores pareciam um grande borrão. Com os óculos, havia os detalhes lindos. Ah, e também comecei a prestar mais atenção nas estrelas, agora mais delineadas no céu.

E fiquei muito feliz com aquela minha primeira sessão com os óculos, podendo me sentar desta vez em qualquer lugar da sala de cinema - antes tinha sempre que me sentar lá nos assentos da frente para poder enxergar as legendas. E havia também o sentimento de bem estar comigo mesmo, de me sentir bem depois de um mal estar gerado pela referida paixão. Curar-se de uma paixão é algo muito positivo, nos ajuda a reencontrar a alegria de estar só e livre.

HARRY E SALLY estava passando no Cine Center Um, um espaço que ficava um pouco longe de onde moro, mas o fato de ser o local de exibição do Cinema de Arte e também dos filmes mais cultuados e melhores da cidade me fazia frequêntá-lo bastante, ainda que tivesse que pegar dois ônibus para chegar lá. Sem falar que o espaço era confortável e a projeção era excelente. Começou a sessão e eu fiquei encantado com aquelas imagens maravilhosas. E aquela mulher linda e encantadora também, a Meg Ryan, vivendo a Sally, ajudou bastante. Resultado: saí do cinema literalmente pulando de alegria, depois daquelas lágrimas discretas na cena do revéillon, no final, e de ter, naquele meu segundo ano oficial de cinefilia, confirmado o cinema como o espaço mágico e de pluralidade de sentimentos.

Por isso que, durante muito tempo, eu considerei HARRY E SALLY como a minha comédia romântica favorita. Claro que depois eu veria outras melhores, especialmente as clássicas ou aquelas do Éric Rohmer, mas HARRY E SALLY sempre vai estar no meu coração como muito especial por se situar na aurora da cinefilia e também por representar um período de ouro para as comédias românticas, os anos 1980-90. Inclusive Meg Ryan virou uma espécie de namoradinha da América com esse filme. Chegou a fazer outras duas parcerias com Nora Ephron, a roteirista do filme, com SINTONIA DE AMOR (1993) e MENS@GEM PARA VOCÊ (1998), ambos com Tom Hanks fazendo como par romântico dela, mas nenhum dos dois filmes chegou a ter os mesmos acertos de HARRY E SALLY.

E por mais que tenhamos um cineasta cheio de acertos em sua filmografia - Rob Reiner trafegou com sucesso por diversos gêneros -, a chave do filme está principalmente no roteiro de Nora Ephron, que fazia referência às comédias da Velha Hollywood. O texto me surpreendeu em alguns momentos bem engraçados, cenas que eu havia me esquecido, e há o charme e a elegância de Meg Ryan usando aquele figurino que remete à Diane Keaton dos filmes do Woody Allen - especialmente de NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA.

Aliás, os próprios créditos iniciais (fonte branca em tela preta com jazz ao fundo) e outras coisas também remetem a Woody Allen. A cena final (pré-epílogo) segue sendo muito bonita e emocionante, com aquela fala primorosa que deram a Billy Crystal. No Oscar de 1990, eu havia visto Crystal como o apresentador e por isso eu já tinha um carinho muito especial por ele, que fez tanto sucesso que repetiu o papel de host em outras oito ocasiões (1991, 1992, 1993, 1997, 1998, 2000, 2004 e 2012). Mas sua carreira na comédia, tanto na TV quanto no cinema, já estava bem solidificada.

Por isso, de certa forma, sua participação em HARRY E SALLY era até mais acertada do que a da própria Meg Ryan, cujo estouro veio mesmo justamente com este filme, ao lado de Crystal. A química funcionou muito bem, com Crystal trazendo seu carisma e seu timing cômico e Meg trazendo seu encanto próprio que casou muito bem com a personagem idealizada por Ephron.

O filme tem uma estrutura narrativa que é entrecortada por depoimentos de casais de velhinhos que tiveram um casamento feliz. Isso já traz uma preocupação com o encontrar a alma gêmea, embora nunca se use esse termo no filme, desde o início. Em certo momento, Sally, conversando com suas amigas, e tendo se separado do então namorado, tenta disfarçar a preocupação com o rápido passar do tempo. Ela chega a mentir a idade, inclusive.

Na história, nem Harry nem Sally, nas vezes que se encontraram em outras ocasiões, gostaram um do outro, embora Harry tenha sido honesto ao dizer que se sentia atraído por ela. Anos depois, quando se encontram novamente em uma livraria, nasce uma amizade. Mas será que há espaço para um amizade entre um homem e uma mulher? Isso seria impossível segundo a versão mais jovem de Harry. Muito da força do filme está nesses encontros dos dois como amigos, na discreta tensão sexual que surge entre os dois (principalmente em forma de um ciúme que tenta ser disfarçado).

Outros fortes elementos do filme estão em pequenas conversas, não apenas entre Harry e Sally, mas entre Hally e seu amigo Jess (Bruno Kirby) e Sally e sua amiga Marie (Carrie Fisher). Quando os quatro se juntam, em uma tentativa de formar pares que deram errado, o filme cresce ainda mais. E há aquela fala engraçadíssima de Marie sobre a mesa de centro do noivo. (Gosto também da piada envolvendo Charles Chaplin, dita por Crystal.)

Curiosamente, a cena mais famosa do filme, a de Sally provando que é fácil fingir um orgasmo no restaurante, é uma cena que me deixa constrangido, não sei por quê. Aliás, é engraçado como o próprio filme tem uma espécie de tabu com o sexo. Trata-se de um elemento que não é mostrado e mesmo quando rola finalmente entre o casal, ambos ficam extremamente embarassados com a situação, sem saber direito como reagir e gerando uma outra cena memorável, com uso de split screen, em que ambos ligam para seus melhores amigos para confidenciar o ocorrido. Enfim, eis um filme que não demorou muito para virar um clássico.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

MEMÓRIA PRESENÇA

A memória é uma constante no cinema, que é em si uma arte que lida com fantasmas. Cada pessoa que é registrada em celuloide (ou digital) já passa a ser eternizada, ao mesmo tempo que sua imagem daquele momento não mais existe. MEMÓRIA PRESENÇA (2021), novo trabalho de Gabriel Carneiro, um pequeno curta de 3 minutos feito durante a pandemia, é uma colagem de retratos de familiares (muito provavelmente) no cenário da casa do realizador (imagino). É como se, por meio de uma brincadeira, mas também com muita delicadeza, o diretor pudesse trazer de volta aquelas pessoas, no estado em que elas foram fotografadas, dentro daquele ambiente da casa, mas não sem criar certa estranheza. O elo entre este filme e obras anteriores como o terror MORTE E MORTE DE JOHNNY ZOMBIE (2011) e BATCHAN (2013), inspirado em Ozu, talvez esteja no quanto ele valoriza a vida, seja quando mostra um zumbi (símbolo de resistência entre a morte e a vida), uma senhora idosa recebendo a família para um almoço ou criando essa colagem com efeitos digitais caseiros.

ATRAVESSA A VIDA

Depois do ótimo PRO DIA NASCER FELIZ (2005), João Jardim volta ao universo das escolas e dos estudantes de ensino médio com este ATRAVESSA A VIDA (2020). Aqui ele foca em apenas uma escola, de ensino público, situada em Sergipe. Em determinado tempo da narrativa, quando é mostrada a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, achei que o filme estava perdendo o foco, mas depois vi que isso servia para que entendêssemos melhor aquele momento, que provavelmente seria muito mais difícil para aqueles jovens, em suas jornadas profissionais futuras. Gosto de como o cineasta, mais uma vez, lida com as fragilidades emocionais de seus personagens. Há uma meia dúzia de cenas que me fizeram chorar (o que é a cena de "Pais e filhos"?). Adoro também a cena em que a diretora Daniela tenta consolar uma aluna e ela mesma acaba chorando. Há muita delicadeza e humanidade no filme, e não deixa de ser um tapa na cara dos liberais aquele final, mostrando as imensas possibilidades de sucesso de estudantes de escola pública galgarem sucesso nos estudos e na vida profissional, apesar de todos os obstáculos. E, no meio disso, a importância também dos professores no processo. Deu uma baita saudade do ambiente escolar físico.

segunda-feira, maio 10, 2021

SEIS FILMES INDICADOS AO OSCAR 2021



Vamos de textos rápidos sobre curtas e longas indicados ao Oscar 2021. Até por serem filmes de que eu não teria muita paciência para tecer comentários mais aprofundados a respeito.

OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7)

Demorei tanto a ver este OS 7 DE CHICAGO (2020), de Aaron Sorkin, estava com tanta preguiça de vê-lo, ainda mais com a má fama que estava rolando entre alguns amigos críticos, que tive uma surpresa positiva, achei-o divertido em sua estrutura de filme de tribunal, e com o elenco estelar e que ajuda bastante na diversão. Inclusive, quando a gente acha que acabou a cota de famosos, aparece mais um. Tenho minhas restrições, especialmente ao final, mas, uma vez que entendemos que se trata de uma obra inspirada em fatos reais, parece aceitável. Sasha Baron Cohen tirando onda do juiz está ótimo, assim como o Mark Rylance como o advogado puto com o juiz. Aliás, Frank Langella, como juiz talvez seja o grande nome do elenco, que foi agraciado com o SAG. Talvez tenha sido justo, hein. O filme teve seis indicações ao Oscar e saiu de mãos abanando.

HUNGER WARD

É importante que filmes como este ganhem visibilidade. Para um curta-metragem, ser indicado ao Oscar ajuda bastante. HUNGER WARD (2020), de Skye Fitzgerald, é um grito de socorro de um povo, principalmente das mulheres e das crianças do Iêmen, país que tem sofrido com uma guerra covarde com a Arábia Saudita e o filme foca nas consequências que essa guerra traz às crianças, em um hospital que trata de casos de subnutrição. É triste demais vermos aquelas crianças só o coro e o osso e o olhar ainda insistindo em brilhar. Pode parecer pesado ou apelativo, mas como suavizar o assunto? Diria que é um filme que não é brilhante na forma (até lembra vários telejornais locais), mas cuja mensagem é importante que chegue ao mundo. Ainda mais sendo os Estados Unidos denunciado como um dos culpados da situação. Indicado a melhor curta documentário.

CRIP CAMP - REVOLUÇÃO PELA INCLUSÃO (Crip Camp)

Acho que é a primeira vez que consigo ver todos os cinco indicados ao Oscar na categoria de documentário em longa-metragem. A impressão que ficou não é das melhores. Ficou a impressão de que há a inclusão de certos filmes mais pelos temas do que por suas qualidades fílmicas. E nisso se enquadra este CRIP CAMP - REVOLUÇÃO PELA INCLUSÃO (2020), de James Lebrecht e Nicole Newnham, que vai ficando cada vez mais quadrado em sua estrutura à medida que o grupo de pessoas com deficiência física e mental se une para lutar pelos seus direitos. A melhor parte do filme é a primeira, quando vemos todos aqueles jovens no acampamento, pela primeira vez na vida podendo ser eles mesmos, sem o preconceito dos outros ou a superproteção dos pais. Depois disso, o filme vai ficando um pouco mais aborrecido. Podia ter uns 20 minutos a menos, mas não sei o quanto isso poderia prejudicar ainda mais sua narrativa. Curiosamente, um dos diretores é um dos rapazes que estiveram presentes no acampamento.

DOIS ESTRANHOS (Two Distant Strangers)

Um filme que requenta mais uma vez FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, e sem a mesma precisão e frescor de PALM SPRINGS. O que há de interessante neste DOIS ESTRANHOS (2020), de Trevor Free e Martin Desmond Roe, é apresentar o tratamento contínua e extremamente agressivo que o homem negro recebe da polícia dia após dia. O que me deixou incomodado foi o modo leve como o filme trata de um assunto que merece toda nossa indignação. Não apenas por George Floyd, mas, como o filme quer lembrar, de tantas outras pessoas negras que foram vítimas da brutalidade e do racismo presente na polícia. O tom e a canção "That's the Way it Is" acabou me deixando com aquela impressão ruim de que estamos diante de um filme que quer se conformar com uma das coisas mais horríveis da sociedade americana. Cena mais marcante: o passeio de carro. Vencedor do Oscar de melhor curta-metragem em live action.

TOCA (Burrow)

Desapontador este curta da Pixar/Disney. Por mais que seja simpático e também interessante nos aspectos técnicos, TOCA (2020), de Madeline Sharafian, me pareceu raso e bem aquém do que a própria companhia de animação vem fazendo nos últimos anos. O diferente está no fato de ser uma animação de linha mais tradicional, longe do traço computadorizado que fez a fama da companhia desde os anos 1990. Na trama, uma coelhinha começa a cavar uma toca ideal para morar, mas começa a perceber que há outras criaturas ao redor já morando.

PROFESSOR POLVO (My Octopus Teacher)

Embora tenha demorado dias para terminar de ver, depois que resolvi finalizar, percebi que este documentário (vencedor do Bafta da categoria), com cara de Animal Planet, PROFESSOR POLVO (2020), de Pippa Ehrlich e James Reed, é melhor do que eu imaginava. Há vários momentos um tanto aborrecidos, mas há uma série de outros que ajudam a equilibrar o projeto. Refiro-me aos momentos de emoção submarina, já que lá debaixo não é só alegria, é uma luta pela sobrevivência. Gostei muito da polvo fêmea, e de saber o quanto o animal é inteligente - o narrador diz que o polvo é tão inteligente quanto um gato. E há as belas imagens, que com o tempo a vista acostuma, mas depois há outras que conseguem trazer de novo o brilho no olhar. Vencedor do Oscar de melhor documentário.

sábado, maio 08, 2021

UM CORPO QUE CAI (Vertigo)



É curioso como, no início das minhas atividades no blog, eu não tinha medo ou problema nenhum em escrever sobre filmes tão herméticos como alguns do Godard ou outros do Tarkovski ou do Bresson e escrevia numa boa sobre todos os filmes de Alfred Hitchcock, como se desconhesse a imensa complexidade das obras do mestre do suspense. Hoje em dia, diante da revisão recente de um filme como UM CORPO QUE CAI (1958), que já até escrevi a respeito em uma peregrinação que fiz pela obra do mestre, fiquei paralisado na hora de tentar escrever outro texto, pois sei agora que a responsabilidade de escrever sobre um filme dessa estatura é grande.

Além do mais, recentemente pude ver o quanto essa obra-prima do Hitchcock foi essencial para a existência de outras obras-primas, como INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, ou o mais recente PHOENIX, de Christian Petzold. Aliás, boa parte da obra do De Palma, que pretendo começar a adentrar com mais profundidade neste ano, se a ansiedade e a saúde permitirem, está intimamente ligada ao universo e às obsessões hitchcockianas. Então, estou lendo diferentes livros para escrever um novo texto sobre UM CORPO QUE CAI, um dos dois únicos Hitchcocks que tive a graça de ver no cinema (o outro foi REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL, 1940). E duas vezes: uma em película nos anos 1990, e outra em nova cópia digital remasterizada nos anos 2010.

Talvez neste ano tenha sido a sétima vez que vi este filme. As duas no cinema, uma na tevê dublado, uma vez em VHS, outra em DVD, outras duas baixado. Essa versão em 1080p que tem por aí está linda demais. Dá gosto só de olhar para as cores. E Hitchcock caprichou bastante nas cores e no simbolismo delas neste filme em especial. O curioso é que só nesta nova vez que eu percebi a homenagem que Lynch fez no último episódio da segunda temporada de TWIN PEAKS (1990-91), com aquele entrar em portas várias vezes. Talvez tenha achado menos erótico do que da última vez, mas continua sendo bem sensual. O próprio detalhe do novo sutiã projetado acaba sendo uma forma de chamar a atenção para o sexo, direta ou indiretamente. E nem preciso lembrar da cena do resgate na baía.

UM CORPO QUE CAI é uma perturbadora e obsessiva história de amor em que um detetive de polícia (James Stewart), que pediu demissão depois de seu sentimento de culpa por não conseguir salvar um colega em uma operação nos telhados, por causa da vertigem, é contratado como detetive particular por ex-colega de escola (Tom Helmore) para vigiar sua esposa, Madeleine, que anda, supostamente, obcecada por uma antepassada e sósia sua, do século XIX, e com tendências suicidas.

Depois de hesitar, Scottie (Stewart) aceita a missão e passa a perseguir a bela loira (Kim Novak). A primeira vez que o sentimento de paixão brota do personagem é traduzido de maneira extraordinária por Hitchcock, em trilha sonora e imagem. E, claro, na beleza de Novak em todo seu esplendor. Já a trilha de Bernard Herrmann é de uma beleza impressionante, especialmente nos momentos de perseguição pelas ruas de San Francisco, mas também naquela que talvez seja a cena mais icônica do filme, quando Scottie, ao tentar ressuscitar Madeleine usando o corpo de Judy (também Novak), traz a morta de volta. Hitchcock, inclusive, tinha prazer em dizer que estava contando a história de amor entre um homem vivo e uma mulher morta em algumas entrevistas.

Em texto de Kim Newman para o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, a crítica e romancista diz:

"Para muitos, a cena em que Judy é finalmente transmutada e abraça Scottie com uma fome vampiresca é tão devastadora emocionalmente quanto a sequência do chuveiro em PSICOSE."

Já Olivier-René Veillon, em O Cinema Americano dos Anos Cinquenta, escreve sobre um filme de Hitchcock que muito possivelmente poderia ser UM CORPO QUE CAI. Na verdade, em seu ensaio ele não cita em nenhum momento o filme de 1958:

"A identidade perdida e reencontrada no jogo do desejo e do amor está no centro de "Spellbound" [QUANDO FALA O CORAÇÃO] (1945), onde já se encontram as representações da fuga e da perseguição amorosa."

Mas a análise mais bonita que li sobre o filme, a escrita por Luiz Carlos Oliveira Jr., para o catálogo Hitchcock É o Cinema, organizado por Rafael Ciccarini, destaca uma cena como a possivelmente mais representativa da complexidade e da beleza de UM CORPO QUE CAI, aquela em que Madeleine/Judy está em uma floricultura e é observada por Scottie. É plasticamente impressionante e linda, obviamente, mas o jogo de espelhos traz um convite a análises. Segundo Oliveira Jr.,

"...o plano insinua a maquinação ilusionista em que Scottie está se deixando envolver. Afinal de contas, o que ele vê nessa cena não é Madeleine, mas Judy interpretando Madeleine interpretando Carlotta. Madeleine não passa de uma ilusão forjada sob medida para a captura de seu olhar."

Mesmo antes, quando Scottie vê Madeleine no museu, ela de costas, olhando para o retrato de Carlotta, ele constrói uma imagem perfeita da mulher. Assim, UM CORPO QUE CAI é também um filme sobre a construção do amor a partir da ilusão, como se não coubesse o real dentro do romantismo. Tanto que o que ele deseja, quando encontra Judy, a verdadeira face e da persona da mulher, é transformá-la na imagem idealizada da mulher que ele amou.

Enfim, são tantas coisas a falar sobre o filme. Há o erotismo fino ajudado bastante pelo sex appeal de Kim Novak, mas intensificado pelo instinto de transgressão de Hitchcock. Há a arrepiante queda de Judy após ver a imagem da freira em uma das últimas e mais tensas cenas do filme. Há aquele inteligente flashback de Judy, que entrega ao espectador o mistério até então não explicitado. Estar diante de uma obra de tal magnitude é como relembrar que é possível recobrar a fé no ser humano pelo que ele é capaz de criar, no caso, pela arte.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

CRIATURAS DAS PROFUNDEZAS (Humanoids from the Deep)

Divertida produção de Roger Corman sobre criaturas anfíbias e humanoides que começam a atacar uma pequena cidade costeira. Como se trata de uma produção de baixo orçamento, os efeitos especiais dos monstros em CRIATURAS DAS PROFUNDEZAS (1980) não são exatamente realistas, mas para o tom do filme funcionam muito bem. Até achei que a nudez seria mais explorada (mas até que há boas cenas, ainda que curtas). Pelas cenas deletadas presentes no DVD, nota-se que algumas dessas mais de exploração da nudez ficaram na mesa de edição. Como era início dos anos 1980 e nudez era algo muito atraente, esse tipo de filme chamava a atenção das plateias. Muito bom quando a trama sai do registro do terror e vai para a ficção científica em certo momento. Dirigido por Barbara Peeters e Jimmy T. Murakami (não creditado), o filme está presente no box Cinema Exploitation, da Versátil.

DANÇA MACABRA (Danza Macabra)

Belo filme que abraça a tendência do horror dos anos 1960 de contar histórias sobrenaturais ainda com muita influência da tradição gótica e com um estilo que talvez hoje esteja ultrapassado. Há algo muito interessante que destaco em DANÇA MACABRA (1964), que é o diálogo entre o jornalista vivido por George Rivière e o homem que apresenta para ele a história daquele castelo assombrado (Arturo Dominici). Há uma explicação sobre a chamada "força dos sentidos" que muito me interessou, inclusive do ponto de vista espiritual. Na trama, Rivière é um jornalista que aceita a aposta de passar a noite em uma casa assombrada e sair de lá vivo. O interessante é que o filme começa com a participação de Edgar Allan Poe, contando, em um pub londrino, uma de suas histórias fantásticas. Barbara Steele tem uma participação menor do que eu esperava, mas é sempre marcante. O filme começou sendo dirigido por Sergio Corbucci, que saiu com uma semana das filmagens e foi substituído por Antonio Margheriti. DANÇA MACABRA está presente no box Obras-Primas do Terror - Gótico Italiano, da Versátil.

terça-feira, maio 04, 2021

A FRONTEIRA DA ALVORADA (La Frontière de l'Aube)



Entrar em contato com a carreira de um cineasta desconhecendo seus primeiros trabalhos, e sendo esses trabalhos de décadas atrás, pode causar incompreensão no que se refere a suas motivações. Ainda assim, tenho preferido seguir por esse caminho contrário na carreira de Philippe Garrel, cujo primeiro filme que vi foi AMANTES CONSTANTES (2005), talvez o primeiro de seus trabalhos a estrear nos cinemas de minha cidade. Pelo que andei lendo em sites estrangeiros, não é exclusividade nossa um cineasta tão importante quanto Garrel ter sua obra sendo descoberta tão tardiamente. Nos Estados Unidos o autor também passou a ser conhecido e cultuado com atraso.

O Garrel que passei a conhecer com alguma intimidade foi o da década passada. Felizmente seus filmes se conectam tematicamente, o que ajuda a compreender um pouco suas obsessões e seus interesses. Relacionamentos com destaque para o ciúme e a traição são destaque em seus mais recentes filmes, mas descobri seu interesse pelo tema do suicídio em UM VERÃO ESCALDANTE (2011). O que não imaginava é que esse interesse já havia se manifestado de maneira ainda mais sombria neste A FRONTEIRA DA ALVORADA (2008), também estrelado por seu filho e que compõem juntos uma espécie de dobradinha temática.

Além do mais, Garrel com um pé no cinema de gênero não era algo que eu esperava. Aparentemente o filme parece se dividir em um lado A e um lado B, sendo que o lado A trata do relacionamento de François (Louis Garrel) com a bela e intensa atriz de cinema Carole (Laura Smet). O lado B seria o de sua relação com Ève (Clémentine Poidatz), uma moça mais tranquila e representativa da estabilidade emocional. A atmosfera gótica chega para tornar o filme mais misterioso e incômodo, mas também traz um charme especial. Gosto, em especial, de uma cena na floresta.

Garrel também continua seu delicioso anacronismo, com apaixonados escrevendo cartas manuscritas em pleno 2007 e câmeras fotográficas antigas sendo usadas. Há até o uso de íris, como recurso estilístico. É um filme de cenas majoritariamente curtas, principalmente em sua segunda metade, mas gosto mais das cenas mais estendidas, com a Carole. É curioso o diretor fazer essa dobradinha de filmes sobre personagens suicidas em um curto espaço de tempo. O aspecto autobiográfico comparece especialmente na experiência traumática que o próprio Garrel teve com o eletrochoque, quando foi internado por vício em drogas, na juventude.

O ultrarromantismo comparece de maneira tão forte que é até difícil encontrar paralelos com o trabalho de outros realizadores. E talvez por isso eu tenha achado este filme tão precioso. Os tons góticos fazem lembrar tanto o romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, quanto A Volta do Parafuso, de Henry James. Carole, a jovem que se suicida aparece para fazer um convite ao amado, para que ele se junte a ela. Ou seria uma alucinação? É Garrel adentrando (ou tangenciando) o universo dos filmes de horror, com sua delicadeza toda própria.

O filme começa com o jovem fotógrafo François (Louis Garrel) chegando ao apartamento da atriz Carole (Laura Smet) para fazer uma sessão de fotos com a atraente jovem. Logo a relação dos dois vai ficando mais íntima. Ela é casada, mas o marido vive viajando. Enquanto isso, o que parecia ser uma atração baseada apenas em sexo vai se alimentando de juras de amor. François, porém, parece ficar assustado com a instabilidade de Carole (ela bebe muito e às vezes pensa estar sendo seguida). Ter que fugir da cama com a chegada repentina do marido foi provavelmente um sinal de que ele deveria deixá-la.

Isso mais intuímos do que sabemos, já que Garrel tem uma condução dúbia, às vezes, no que se refere aos sentimentos de seus personagens - no caso deste filme não há uma narração off, como em O SAL DAS LÁGRIMAS (2020), por exemplo. Mas sabemos de maneira explícita do sofrimento de Carole, que anseia pelo amado em cartas cada vez mais desesperadas. Um desespero que vai levá-la a uma temporada em uma instituição psiquiátrica.

Há uma cena particularmente muito dolorosa na primeira metade do filme: quando François sofre de ciúmes enquanto Carole flerta com outro homem em uma festa privada com os amigos dela. É talvez a sequência mais longa do filme, e é embalada com uma trilha sonora que privilegia piano e violinos dissonantes. É curioso como a música vai se intensificando no filme, mesmo quando François passa a ter um relacionamento mais estável com Ève (Clémentine Poidatz). Isso porque ele parece temer a estabilidade, temer a chegada de um filho. Isso pode talvez explicar o caminho que ele se vê inclinado a tomar no final.

Houve quem comparasse este filme a AMANTES, de James Gray (ambos foram lançados no mesmo ano), tendo em vista os dois títulos mostrarem um homem dividido entre duas mulheres. Mas, por mais que a obra de Gray ofereça um final um tanto amargo embora realista, o que Garrel faz em A FRONTEIRA DA ALVORADA é muito mais ousado e cruel. E também mais entregue de cabeça a um doentio e perturbador espírito ultrarromântico.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

ANGÚSTIA (The Locket)

Embora o tom de ANGÚSTIA (1946), de John Brahm, seja sombrio e sério, é difícil não vê-lo com um sorriso no rosto com os vários flashbacks dentro de flashbacks que ajudam a formar a trama e nos apresentam à personagem de Laraine Day, uma mulher aparentemente perigosa, que está prestes a se casar com um rapaz, que, no dia da cerimônia, é visitado por um homem que diz que deve lhe contar a verdade sobre ela. É mais um dos tantos filmes sobre mulheres perigosas (femme fatales) que ajudaram a construir o subgênero, mas, ao mesmo tempo, confesso que eu fiquei na dúvida sobre a culpa da mulher. O filme é curtinho (um dos motivos de ser a escolha da madrugada) e a trama é muito bem conduzida e redondinha. Como Hitchcock ainda não havia inventado o flashback de mentira (em PAVOR NOS BASTIDORES) havia uma espécie de trato entre roteiristas e espectadores sobre a veracidade do que era mostrado nos flashbacks. No mais, o filme traz elementos da psicanálise que estavam em moda em Hollywood naquele momento.

LUCKY - UMA MULHER DE SORTE (Lucky)

Mais um filme de gênero que se apropria das convenções (do slasher, principalmente) para trazer discussões relevantes sobre a solidão da mulher, a incompreensão ou a falta de interesse da sociedade em compreendê-la, e em um ritmo que faz com que fiquemos cada vez mais irritados com a condição da protagonista, assim como ela. Ou seja, por mais que LUCKY - UMA MULHER DE SORTE (2020), de Natasha Kermani, tenha um formato que use o looping (dessa vez não temporal?), não é exatamente um filme divertido ou prazeroso. Na trama, mulher passa a receber, todos os dias em sua casa, um homem mascarado que tenta matá-la. Ela nada sabe dele e as reações da polícia e todos as pessoas que estão prontas para "ajudá-la" são tão estranhas quanto toda a situação.

sábado, maio 01, 2021

CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 (Brawl in Cell Block 99)



A descoberta do cinema fenomenal de S. Craig Zahler, pra mim, começou no ano passado, ao ver seu terceiro longa-metragem, JUSTIÇA BRUTAL (2018). Na época que vi nem tinha esse título brasileiro ainda, que surgiu quando o filme foi lançado no Prime Video. Agora que terminei de ver o filme que faltava dos três longas do cineasta, estou me sentindo meio órfão, por mais que eu saiba que sempre será um prazer poder rever cada uma de suas pérolas.

Se o seu primeiro filme, RASTRO DE MALDADE (2015), é um mix de western com horror, e de certa maneira traz um namoro com dois gêneros essencialmente masculinos, sendo que o segundo gênero está proximamente ligado ao ciclo de filmes canibais italianos dos anos 1970 e 80, este seu segundo trabalho, CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 (2017) é uma homenagem aos tradicionais filmes de prisão de baixo orçamento. Assim como Quentin Tarantino, Zahler tem um carinho muito grande por esses filmes mais baratos; e assim como Tarantino, ele também tem um estilo tão sofisticado de direção que faz com que o exploitation, o grindhouse se misture com o chamado arthouse. O que, aliás, pode deixar muitos espectadores impressionados ou até confusos.

CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 é mais um de seus filmes que tem um tom de tragédia e que nos deixa sem chão, além de nos manter vidrados na tela do começo ao fim. Este filme de presídio (que na verdade só começa a ser um filme de presídio depois dos 40 minutos de duração) usa muito ambientes fechados nos lugares onde a violência mais intensa impera. Vince Vaughn, com seus dois metros de altura, convence muito como um sujeito que é capaz de enfrentar vários homens ao mesmo tempo.

Aliás, logo no começo do filme, quando seu personagem, Bradley, descobre que sua esposa (Jennifer Carpenter) o está traindo, a imagem ameaçadora de seu corpo alto nos faz imaginar que ele cometerá agressão à mulher. Em vez disso, ele destrói o carro dela em uma cena com um misto de humor, tristeza e medo. A conversa mais intimista e de busca de reconciliação dos dois, a seguir, nos apresenta a um homem mais carinhoso do que imaginávamos. Mas também um homem disposto a trabalhar no tráfico de drogas para poder dar mais conforto à sua esposa. Pelo menos por um tempo. Essa era a ideia.

Então, as cenas seguintes nos mostrarão, de certa forma pausada, como é o estilo de Zahler, a rotina de trabalho no submundo das drogas de Bradley, que desencadeará na cena de tiroteio com a polícia no porto. Como não deseja negociar com a polícia e entregar o amigo e chefe do tráfico, prefere enfrentar os anos na cadeia. Enquanto isso, a esposa está grávida. O tom do filme muda bastante quando o protagonista entra na prisão, e vai se tornando ainda mais intenso quando ele precisa tomar atitudes violentas para evitar que o filho de sua esposa ainda grávida e capturada seja agredido.

Assim como Kurt Russell em RASTRO DE MALDADE e Mel Gibson em JUSTIÇA BRUTAL, o personagem de Vaughn em CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 é impregnado de uma tragicidade forte. E embora a hiper-violência pareça estar fora de moda nos dias de hoje, o modo como Zahler a usa é tão passional quanto o amor de seus heróis por suas amadas. A cena do telefonema no final é de cortar o coração. Mas o mais importante é estarmos vendo grande cinema.

Outro destaque também é o cuidado de Zahler com a composição visual. Se em RASTRO DE MALDADE havia uma intenção de mostrar mais planos abertos e paisagens do deserto americano, o que é próprio do western, aqui a opção pela janela 1,85:1 é apropriada, já que é a imagem de Vaughn que enche a tela. Há também uma opção pelo azul mais forte. Na cultura anglo-saxônica, o azul tem uma forte conexão com a tristeza.

Outro ponto alto do filme é o quanto a violência é mostrada de maneira seca e impactante, e sem a irritante mania que o cinema contemporâneo tem de picotar as imagens. Por isso a cena de Bradley quebrando o braço do agente carcerário ser tão intensa. E isso é só o começo da escalada de violência que o filme traria até sua magistral conclusão.

Agora é torcer e esperar pelo próximo trabalho de Zahler, que, esperamos, possa ser visto em gloriosa tela grande.

+ DOIS FILMES

GALO DE BRIGA (Cockfighter)

E o filme que escolhi para homenagear Monte Hellman, falecido no dia 20 de abril, foi este estranho filme sobre rinhas de galo. Digo "estranho" pois parece pouco com os westerns existencialistas estrelados por Jack Nicholson ou com o mágico e maravilhoso CAMINHO PARA O NADA (2010). Nesse sentido, GALO DE BRIGA (1974) é de certa forma convencional em sua estrutura narrativa, para os padrões do diretor. Não é um filme que eu gostaria de rever, pois lida com algo que me incomoda muito, os maus tratos com os animais. O cartaz, porém, vende o filme como algo próximo do proibido, do exploitation, com sangue e nudez. Sangue tem sim, nudez quase nada, mas chega uma hora que a gente torce pela revolta dos pássaros, como no filme do Hitchcock. Além do mais, é filme para se ver com certo distanciamento, já que os personagens são bem difíceis de serem gostados. Ainda assim, é dessas obras estranhas que merecem a apreciação, pois não faltam cenas bizarras e antológicas. E deve haver algo de um simbolismo importante ter um protagonista que escolhe o voto do silêncio por vontade própria.

A RENEGADA (Woman They Almost Lynched)

Curioso como a publicidade desse filme foi errada, já que não se trata de um filme sobre Kate Quantrill (Audrey Totter), a mulher do fora-da-lei Charles Quantrill (Brian Donlevy), mas sobre a bela, corajosa e elegante Sally Marris, vivida por Joan Leslie. E ao que parece A RENEGADA (1953) é um dos primeiros westerns feministas, por assim dizer, antecedendo em um ano JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray. O filme é empolgante, romântico e cheio de momentos de tensão. O que dizer da cena de briga das duas mulheres? Ou do modo como Sally assume os negócios do falecido irmão tendo que lidar com gente tanto do Norte quanto do Sul no saloon? A história se passa em uma cidade que fica na fronteira entre o norte e o sul do país, em um momento tenso da guerra. Felizmente o grande diretor Allan Dwan ficou satisfeito com a atriz e a escalou para seu filme seguinte, AO RUGIR DA METRALHA (1953), um drama de guerra.