terça-feira, agosto 07, 2018

ANA E VITÓRIA

A primeira cena de ANA E VITÓRIA (2018) mostra um grupo de pessoas em uma festa intimista olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Essa mudança de hábitos que faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém, é mostrada em tom agridoce no que se refere ao sentimento.

Afinal, a solidão e a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano. O que pode ter mudado é a sensação falsa de estar menos só por causa das pessoas com quem se pode conversar no ambiente virtual. Há também uma mudança de valores muito interessante da juventude moderna. As duas meninas, Ana e Vitória, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo.

Mas ANA E VITÓRIA é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo BAIXO GÁVEA, de Haroldo Marinho Barbosa. Mas aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com uma familiaridade com a linguagem jovem no comando. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que estão fazendo um sucesso popular bem considerável.

Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira muito natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro.

O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens que começam a cantar juntas e a partir dessa união passam a fazer sucesso e a arrebanhar uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções do duo, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não são tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho e a beleza do filme.

No fim das contas, ANA E VITÓRIA apresenta mais uma história sobre chegas e partidas, encontros e desencontros amorosos do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.

+ TRÊS FILMES

TENTAÇÃO NA CAMA

Como história de crime é bem ruim. Já quando vai mostrar as cenas de sexo com as três mulheres, é bom de ver. Infelizmente a maior parte da história é sobre a trama chata que só é revelada lá pelo final e deixar tudo no suspense só piora as coisas. A participação de Ari Toledo contando duas piadas podia ser dispensada. No mais, dá pra entender por que David Cardoso chora de saudade sempre que fala de seus tempos áureos. Direção: Ody Fraga. Ano: 1984.

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES

Interessante fase do cinema brasileiro, que não precisava mais mostrar cenas de sexo para chamar a atenção, ainda que este aqui até possua. Mas o que mais importa mesmo é a espera, a eterna espera do garoto pelo pai envolvido com guerrilha na época da ditadura. Queria ter visto em melhores condições físicas. Direção: Murilo Salles. Ano: 1984.

SOL ALEGRIA 

Viva a anarquia! Abaixo a caretice! Uma beleza poder ter esses lemas em comum e ver SOL ALEGRIA. Por isso gosto tanto do miolo do filme, que se passa numa espécie de convento onde reina a depravação. Chega uma hora em que o sexo e a nudez estão tão naturais que se integram quase que sem estranhamento. Já acho problemática a terceira e última parte. Direção: Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira. Ano: 2018.

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