segunda-feira, janeiro 05, 2026

NOITE VAZIA



Gosto de começar o ano com um filme especial. Uma obra-prima, o trabalho de um diretor de renome ou a revisão de um título que há tempos eu devia a mim mesmo. Há tempos queria rever NOITE VAZIA (1964), mas ficava esperando uma cópia nova remasterizada, coisa que parece que não aconteceu ainda (a exibição em 2023 da filmografia completa de Khouri não trouxe o filme em DCP, mas em 35mm, pelo que consta no catálogo da Cinemateca Brasileira). 

Eis que resolvi revê-lo como está, e de certa forma gostei de ver assim, com o som dos ruídos de película bastante rodada captada pela telecinagem. O ruído funciona como um complemento involuntário à trilha sonora magistral de Rogério Duprat, que enfatiza a marca do realizador, acentuando a angústia e o vazio de seus personagens. NOITE VAZIA junta o filme masculino de homens à caça de mulheres, como O CONVITE AO PRAZER (1980) quanto o filme de mulheres profissionais do sexo, como seria o caso de O PALÁCIO DOS ANJOS (1970).

Ver NOITE VAZIA nesta cópia surrada para os padrões de hoje foi como ouvir música num vinil usado e com saltos. Foi também bom para acentuar ainda mais a escuridão daquela São Paulo triste representada nas ruas (mal se vê as pessoas, apenas suas sombras). E falando em sombras, que maravilha que é ver cada imagem dos rostos dos personagens, como se pinturas vivas, embora às vezes não tão vivas assim, como é o caso do personagem de Gabriele Tinti, um homem que sai à noite com o amigo mulherengo (Mário Benvenutti) mais para aplacar algum tipo de vazio que o atormenta. Quanto mais expressivos e depressivos são os personagens, mais Khouri privilegia suas expressões, mais trabalha com as sombras para dar forma àquelas almas.

O filme ganha ainda mais força com a entrada em cena das duas garotas de programa, uma mais cínica e prática, vivida por Odete Lara, e a outra mais tímida e sensível, vivida por Norma Bengell. A ida dos quatro para o garçonnière de Luisinho (Benvenutti) traz tanto enfrentamentos quanto tédio. Há uma relação de poder que existe entre eles, assim como há certo orgulho por parte de Regina (Lara), mesmo que na condição de não ter um futuro incerto, tendo a vida que levam.

Entre frustrações, tédio, atritos, desejos e até momentos de contentamento, como na cena da chuva, acompanhamos esses personagens como num misto de excitação e desassossego. Ao mesmo tempo, vemos com encantamento as escolhas de enquadramento de Khouri, seja através de close-ups, principalmente para capturar os olhos desses personagens, seja para explorar o apartamento e a própria São Paulo coberta de escuridão.

+ TRÊS FILMES

DE CERTA MANEIRA (De Cierta Manera)

É uma pena que a chance que se tem de ver obras como esta no cinema, e ainda em cópia nova remasterizada, não seja devidamente valorizada. Havia bem poucas pessoas na sala de cinema ontem, mas imagino que todas elas saíram pelo menos um pouco impressionadas com o que viram, com esse tipo de dramaturgia bem pouco contaminado com o estilo hollywoodiano, dado o distanciamento de Cuba com os Estados Unidos, naqueles anos pós-revolução, na década de 1970. Apesar de ser um filme que já apresenta o capitalismo como criador dos males, não evita de apresentar também as dificuldades por que Cuba estava passando, especialmente em certas cidades menores, como a mostrada (e por isso o filme foi liberado tão tarde, por causa da censura, e talvez com cortes). O que mais me tocou em DE CERTA MANEIRA (1975) foi o drama da professora ao ter que lidar com alunos rebeldes, interessados e encrenqueiros. Daí entra a performance de Yolanda Cuellar, como essa jovem mulher que havia migrado para aquela cidade menor e mais problemática. Há também um foco (crítico) no sistema educacional então adotado: as crianças só estudavam até o sexto ano e depois iam para o mercado de trabalho, o que certamente foi algo que mudou nos anos seguintes. Também chama a atenção o estilo de montagem. Sara Gómez muitas vezes sai de um campo-contracampo com close-ups ágeis (que lembram às vezes ACOSSADO, de Godard) para um plano geral. O filme une a ficção com o documental e isso já aparece anunciado já nos créditos, e o filme ganha muito em verdade quando vemos uma não-atriz, contando sobre seu filho para a professora, sobre o quanto o menino a ajuda, embora seja desinteressado para os estudos. Havia em casa ainda a pedagogia da chinelada, o que nem sempre ajudava, na verdade. Na trama principal, vemos o relacionamento entre essa professora e um operário de fábrica. Comparando com o cinema brasileiro, vejo algo de RIO, 40 GRAUS, de Nelson Pereira dos Santos, embora aqui tenhamos um cinema um pouco mais lírico. A invasão do mundo real na ficção também se mostra muito feliz na cena do cantor, que ainda por cima também ajuda a valorizar o cenário musical cubano. Acredito que Sara Gómez teria se tornado mais famosa se não tivesse morrido tão cedo, aos 31 anos de idade, em 1974, antes do lançamento de seu filme.

9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR (Nine 1/2 Weeks)

A lembrança que eu tinha de 9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR (1986) não era das melhores, mas sempre tive curiosidade de rever até para ver se ele melhorou com o tempo. Acaba valendo mais como um documento dos anos 1980, da Nova York multi-étnica da época, do ser yuppy após o fim definitivo do movimento hippie e também de um visual de videoclipe que muitos críticos torciam o nariz, mas que deixava o filme com a cara da época, inclusive com direito a canções como “Slave to Love” (Bryan Ferry) e “You Can Leave Your Hat on” (Joe Cocker), que toca na cena mais famosa, a do striptease da personagem de Kim Basinger, sob o sorriso de entusiasmo do personagem de Mickey Rourke. Aliás, as cenas do personagem gargalhando com as cenas supostamente mais picantes são um bocado constrangedoras. Como são várias outras, na verdade. O engraçado é que gosto dos filmes do Adrian Lyne dos anos 1990-2000: ALUCINAÇÕES DO PASSADO (1990), PROPOSTA INDECENTE (1993), LOLITA (1997), INFIDELIDADE (2002). Talvez ele tenha melhorado seu ofício, deixado de usar uma montagem tão incomodamente de videoclipe como é o caso de 9 1/2…. Outro problema que vejo no filme vem da carga erótica, que eu sei que é algo muito subjetivo, mas filme que pressupõe ativador da libido e não conseguir animar muito o espectador é mau sinal. Gosto da primeira cena dos olhos vendados, mas as demais, não apenas por mostrar os traços mais doentios (entre aspas, talvez?) do personagem masculino, mas todas as demais cenas são despidas de tesão. Ou talvez até tenha funcionado lá atrás, pra quem não estava acostumado com bom erotismo no cinema. Além do mais, eis mais um filme americano que mostra o sexo mais como algo doentio e preocupante do que algo saudável e necessário para a vida. Disponível na Mubi.

O DIABO VESTE PRADA (The Devil Wears Prada)

Algumas comédias leves revelam-se, com o tempo, pequenos clássicos. É o caso de UMA LINDA MULHER e é o caso também de O DIABO VESTE PRADA (2006), de David Frankel, que vai ganhar uma sequência quase 20 anos depois do original. Acabei revendo pois era um filme que a Giselle tinha interesse em ver, mas acabei me surpreendendo positivamente com a revisão. Gostei mais agora, com o passar do tempo. Há algo de contraditório no filme: ao mesmo tempo que parece interessado no mundo da moda, quer desprender-se dele. Mais ou menos como a personagem de Anne Hathaway, na época jovem demais para ser tida como um grande talento do cinema americano, como é hoje. Ainda assim teve que dividir o protagonismo logo com quem: Meryl Streep, no papel de Miranda, a chefe de uma agência de moda (ou algo parecido) cujo tratamento com seus subordinados é inclassificável. Mesmo assim, nota-se um respeito das duas protagonistas ao se encararem na última cena. O filme é tanto uma ida ao inferno do mundo das vaidades, quanto um aprendizado para a jovem jornalista. Ponto alto do filme: a puxada de tapete de Miranda no jogo de sobrevivência.

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